BLOG DO ALFREDO MONTE

01/07/2009

POEMAS: WALT WHITMAN,BAUDELAIRE, Rilke, Borges, Vicente de Carvalho, Bilac, Seferis, Jorge de Lima, Drummond, Carlos Nejar, Hilda Hilst, EMILY DICKINSON…

 
ANTOLOGIA
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POEMAS DE FOLHAS DA RELVA
(Walt Whitman) 

CANÇÃO DO UNIVERSAL

1.

Vem, disse a Musa,

Canta para mim uma canção que poeta algum tenha cantado até hoje,

Canta-me o Universal.

 

Nesta nossa terra vasta,

Em meio à densidade imensurável e à escória,

Guardada e segura dentro do coração central,

Aninha-se a semente da perfeição.

 

Para cada vida uma porção, ou mais ou menos,

Ninguém nasce sem que ela nasça, recôndita ou exposta, a semente está à espreita.

 

2.

Contempla! A elevada ciência de olhos agudos,

Como se de altos cumes, vigiando a modernidade,

Emitisse sucessivas ordens absolutas.

 

Contudo, mais uma vez contempla! A alma, acima de toda ciência,

Pois ela traz a história fundida como uma casca que envolve o globo,

Para ela todas as constelações rolam através do espaço.

 

Em rotas espirais por entre longos desvios (…)

Por ela o fluxo que vai de parcial a permanente,

Por ela o real tende ao ideal.

Por ela a mística evolução,

Não apenas a justificação do Bem, o que chamamos de Mal também se justifica.

 

Saindo de trás de suas máscaras, não importando as conseqüências,

Do enorme caule que se inflama, da arte e da malícia e das lágrimas,

Emerge a saúde e a alegria, a alegria universal.

 

Saindo do corpo volumoso, o mórbido e o superficial,

Saindo da maioria ruim, as diversificadas, incontáveis fraudes de homens e Estados,

Elétrico, anti-séptico também, clivando e inundando tudo,

Apenas o bom é universal.

 

3.

Sobre a protuberância das montanhas, doença e tristeza,

Um pássaro livre está sempre pairando, pairando,

Alto no ar mais puro, no ar mais feliz.

 

Das imperfeições das nuvens mais escuras,

Atira sempre um raio de perfeita luz,

Um brilho da glória celeste.

 

Para o que pertence à moda, para a discórdia dos figurinos,

Para o doido alarido de Babel, para as orgias ensurdecedoras,

Ao final de cada bonança, uma explosão é ouvida, apenas ouvida,

Vindos de alguma praia longínqua, os sons do coro derradeiro.

 

Ó olhos abençoados, corações felizes,

Que vêem, que conhecem o finíssimo fio condutor

Através do labirinto.

 

4.

E tu, América,

Pela culminação do esquema, pelo pensamento e pela realidade,

Por esses (não por ti mesma) tu vieste.

 

Tu também envolveste todos

Abraçando e conduzindo e acolhendo a todos, tu também caminhas

Por estradas largas e novas.

Tendendo ao ideal.

 

As fés conhecidas de outras terras, as grandezas do passado,

Não são para ti…

 

O amor, tal como a luz, silenciosamente envolve a todos,

Os aperfeiçoamentos da natureza abençoando a todos,

Os botões, frutos das eras, pomares divinos e certos,

Formas, objetos, crescimentos,humanidades, amadurecendo para as imagens espirituais.

 

Concede-me, ó Deus, que eu cante aquele pensamento,

Dá-me, dá a ele ou a ela a quem amo essa fé insaciável,

Em Tua imagem, tudo quanto guardares, não o negue a nós,

A crença nos Teus planos guardada no Tempo e no Espaço,

Saúde, paz, salvação universal!

 

Será um sonho?

Não, mas a ausência dele é o sonho,

E se ele falha o conhecimento e a riqueza da vida são apenas sonho,

E o mundo inteiro é apenas sonho.

 

 

WaltWhitman 

AO JARDIM O MUNDO RETORNA

Ao jardim, o mundo retorna se elevando,

Poderosos companheiros, filhas, filhos, preludiando,

O amor, a vida de seus corpos, o sentido e o ser,

Curiosos, vede aqui a minha ressurreição após o sono ligeiro,

Os ciclos rotativos em sua ampla órbita me trazem de volta,

Amoroso, maduro, tudo tão maravilhoso para mim, tudo assombroso,

Meus membros e o fogo tremendo que sempre brinca através deles,

                                                 por razões, quase todas, assombrosas

Ao existir eu perscruto e vou além ao penetrá-las,

Feliz com o presente, feliz com o passado,

Ao meu lado ou atrás de mim, Eva me segue,

Ou à minha frente, e do mesmo modo eu a sigo.

 

ERAS E ERAS RETORNANDO A INTERVALOS

Eras e eras retornando a intervalos,

Intocadas, vagando imortalmente,

Vigorosas, fálicas, com as carnes originais potentes, perfeitamente doces,

Eu, cantor de canções adâmicas,

Através dos novos jardins do Ocidente, as grandes cidades convocando,

Delirante, preludiando assim aquilo que é gerado, oferecendo-os,

Oferecendo a mim mesmo,

Banhando-me, banhando minhas canções com o sexo,

Fruto da minha carne.

 

 COMO ADÃO AO AMANHECER

Como Adão ao amanhecer,

Saio a caminhar, vindo do pavilhão do jardim, renovado pelo sono.

Contempla-me no lugar em que passo, ouve minha voz, aproxima-te,

Toca-me, toca a palma de tuas mãos no meu corpo enquanto passo,

Não tenhas medo do meu corpo.

 

Ó meu eu! Ó vida!

Ó meu eu! Ó vida! Das questões que são recorrentes,

Dos trens infinitos dos que não tem fé, das cidades cheias de tolos,

Ó eu mesmo para sempre censurando a mim mesmo (pois quem é mais tolo do que eu

E quem é mais sem fé?)

De olhos que em vão suplicam por luz, do meio dos objetos,das lutas sempre renovadas,

Dos pobres resultados de tudo,

Das laboriosas e sórdidas multidões que vejo à minha volta,

Dos vazios e inúteis anos dos demais, sendo que também faço parte dos demais,

A questão, ó meu eu, tão triste, recorrente: O que há de bom em meio a tudo isso?

Ó meu eu! Ó vida!

 Resposta:

Que estás aqui —e que a vida existe e a identidade,

Que a poderosa peça continua e tu podes contribuir com um verso.

 

 

DESDE OS RIOS CONFINADOS À DOR

 Desde os rios confinados à dor (…)

Desde aquilo que estou determinado a tornar ilustre,

Mesmo que eu viva solitário entre os homens,

Desde a minha própria ressonante voz, cantando o fálico (…)

Entoando a canção do companheiro de cama (Ó ardente desejo!

Ó por todos e por cada corpo que atrai o seu correspondente!

Ó por ti, quem quer que sejas, teu corpo correspondendo-me!

Ó isso, mais que qualquer coisa, tu deliciando-te!)

(…) Pesquisando algo que ainda não pude descobrir,

Embora tenha diligentemente procurado anos a fio,

Cantando a canção verdadeira da alma intermitente, ao acaso (…)

A bem-vinda proximidade, a visão do corpo perfeito,

O nadador nadando nu ou boiando sem movimentos (…)

……………………………eu pensante, amante do corpo, tremendo de dor,

A lista divina sendo feita para mim, para ti ou para qualquer um,

O rosto, os membros,o índice da cabeça aos pés,e aquilo que faz com que ele se levante,

O delírio do místico, o delírio amoroso, o completo abandono

(chega perto, e calado escuta o que agora sussurro para ti:

Eu te amo, ó tu que me tens por inteiro,

Ó tu e eu fugimos ao mundo e sumimos inteiramente, livres e sem lei,

Dois falcões voando, dois peixes nadando no mar tão sem lei quanto nós dois).

A furiosa tempestade por mim atravessando, e eu tremendo apaixonadamente (…)

(Ó eu desejando arriscar tudo por ti,

Ó deixe-me estar perdido se necessário for!

Ó tu e eu! (…)

O que é tudo o mais para nós? Apenas sabemos que desfrutamos um ao outro

E nos exaurimos se necessário for.)

 (…) Desde a maciez das mãos que escorregam sobre mim e a passagem dos dedos

Pelos meus cabelos e minha barba

WhitmanWalt

(…) Desde a pressão calorosa do corpo que me embriaga e embriaga qualquer homem

Até desmaiá-lo pelo excesso

(…) Desde a exultação, a vitória, o alívio,

Desde o abraço do companheiro de cama durante a  noite

(…) Desde o movimento de tirar a coberta que nos cobre

(…) Desde aquele que não deseja me ver partindo e eu que também não desejo partir

(será apenas um instante apenas, ó delicado ser que me aguarda, e eu retornarei),

Desde a hora das estrelas brilhantes e orvalhos gotejantes,

Desde a noite em que vou emergindo fugaz,

Celebro-te, ato divino…………………………………………………………

 

 

 DO ENCAPELADO OCEANO DA MULTIDÃO

 Do encapelado oceano da multidão chega, gentilmente, uma gota para mim,

Sussurrando: “Eu te amo, bem antes de eu morrer,

Percorri uma longa jornada meramente para olhar-te, tocar-te,

Pois não poderia morrer antes de olhar-te,

Pois temia que mais tarde poderia te perder”.

Agora já nos encontramos, já nos vimos, estamos seguros.

Volta em paz para o oceano, meu amor,

Também sou parte desse oceano, meu amor, não estamos assim tão separados,

Observa o grande orbe, a coesão de tudo: que perfeição!

 

Mas, quanto a mim e quanto a ti, o mar irresistível nos separa,

Se por uma hora pode nos manter dessemelhantes,

Por outro lado não nos pode conservar distintos para sempre;

Não sejas impaciente—um interregno—sabes tu que saúdo o ar, o oceano e a terra,

Todos os dias no crepúsculo, pelo teu amor, meu amor.

 

MEU LEGADO

 

O homem de negócios de vastas aquisições,

Depois de árduos anos fazendo o balanço dos resultados,

Preparando para a partida,

Lega casas e terras para seus filhos, deixa ações como herança,

Bens, fundos para uma escola ou hospital,

Deixa dinheiro para certos companheiros, para que comprem lembranças,

Relíquias de pedras preciosas e ouro.

 

Mas eu, fazendo o balanço de minha vida, fazendo o fechamento,

Com nada para apresentar, para legar de meus anos preguiçosos,

Nem casas, nem terras, nem lembranças de pedras preciosas ou ouro para meus amigos,

Contudo, certas lembranças da guerra deixo para ti e para os que virão,

E pequenas relíquias de acampamentos e soldados, com meu amor,

Encaderno e deixo como herança neste feixe de canções.

 

CIDADE DE ORGIAS

Cidade de orgias, passeios, alegrias,

Cidade daquele que, tendo vivido e cantado em teu seio, te fará ilustre um dia,

Não serão as tuas exposições, nem os teus quadros,

Nem teus espetáculos, que me recompensarão,

Não serão as tuas filas intermináveis de casas, nem os navios nas tuas docas,

Nem as procissões nas ruas, nem as vitrines brilhantes com os produtos lá dentro,

Nem o diálogo com pessoas cultas, nem a minha participação em um sarau ou uma festa

 

Nada disso, mas quando passo, ó Manhattan,

O teu freqüente e súbito brilho no olhar a me oferecer o amor,

Ofertando-me uma resposta, isso sim me recompensa,

Amantes, amantes permanentes, só esses me recompensam.

 whitman

A CERTO CIVIL

 Pediste-me rimas doces?

Procuras as rimas pacíficas e lânguidas dos civis?

Achaste a canção que entoei anteriormente difícil de acompanhar?

Pois eu não estava cantando anteriormente

Para que tu pudesses seguir, para que entendesses, nem mesmo agora

(Despertei com a guerra, os intermináveis rufos dos tambores dos regimentos

São sempre doce música para mim, amo muito o hino fúnebre marcial,

Com lamentações vagarosas e palpitações convulsivas,

Conduzindo o funeral dos oficiais);

O que é, para alguém como tu, de qualquer modo, um poeta como eu?

Assim sendo, abandona meus trabalhos,

Ilude-te com aquilo que podes compreender e com os tons do piano,

Pois a ninguém iludo e jamais poderás entender-me.

 

SAINDO DE TRÁS DESTA MASCARA (para confrontar um retrato)

 1.

Saindo de trás desta máscara flexível, grosseiramente talhada,

Estas luzes e sombras, esse drama do Todo,

Esta cortina comum da face contida em mim e para mim, e em ti para ti,

Em cada um para cada um

(Tragédias, tristezas, lágrimas, ó céu!,

Estas abundantes peças cheias de paixão, escondidas atrás desta cortina!),

Este esmalte do mais puro e sereno céu de Deus,

Este filme da fervura de Satã no abismo,

Este mapa da geografia do coração, esse ilimitado pequeno continente,

Este mar insondável, saindo das circunvoluções deste globo,

Este orbe astronômico mais sutil que o sol ou que a lua, que Júpiter,Vênus, Marte,

Esta condensação do universo (e mais ainda o único universo que está aqui,

Aqui a idéia, tudo neste punhado de pacotes místicos);

Estes olhos entalhados, sinalizando para que passes para o tempo futuro,

Para lançar e fazer girar através do espaço, revolvendo-se obliquamente,

A partir destes para enviar-te, quem quer que sejas, um olhar.

 

2.

Um viajante de pensamentos e anos, de paz e de guerra,

De juventude longamente vivida e declínio da meia-idade

(Como o primeiro volume de um conto de fadas lido cuidadosamente e deixado de lado e este, o segundo, com canções, aventuras, especulações, até o epílogo na atualidade),

Demorando-se um pouco aqui e agora, volto-me ara o lado oposto de ti,

Como se estivesse na estrada ou na abertura de uma porta, por acaso,

Ou numa janela aberta;

Parando, inclinando-me, descobrindo minha cabeça, saúdo-te de modo especial,

Para atrair e abraçar tua alma uma vez, inseparavelmente com a minha,

E depois viajar, seguir viagem.

 

UMA ARANHA PACIENTE E SILENCIOSA

 Uma aranha paciente e silenciosa.Registrei o lugar do pequeno promontório em que ela estava isolada,

Registrei o modo como, para explorar as vastas redondezas vazias,

Ela lançou adiante filamentos, filamentos, filamentos que saíam de dentro dela,

Sempre os desenrolando, sempre os acelerando incansavelmente.

 

E tu, ó minha alma, no lugar em que estás,

Cercada, destacada, em imensuráveis oceanos de espaço,

Meditando incessantemente, aventurando-se, lançando-se,

Procurando as esferas para conectá-las,

Até a ponte que terá de ser formada por ti, até o cabo flexível da âncora,

Até que a fibra fina que atiras prenda-se em alguma parte, ó minha alma.

 

Mannahatta

 

O nome adequado e nobre da minha cidade retomado,

Escolha de nome aborígine, com maravilhosa beleza, significado,

Ilha rochosa fundada, praias em que sempre batem festivamente

As rápidas ondas do mar que vêm e vão.

 

Os Estados Unidos para os críticos do Velho Mundo

 

Aqui em primeiro lugar os deveres de hoje, as lições do concreto,

Riqueza, ordem, viagem, abrigo, produtos, abundância,

Como na construção de algum edifício diversificado, vasto, perpétuo,

Do qual se erguem, inevitavelmente pontuais, os altos telhados, as luminárias,

As pontas solidamente plantadas nas alturas, mirando as estrelas.

 

O lugar-comum

 

O lugar-comum eu canto;

Quão barata é a saúde! Quão barato é o caráter!

Abstinência, sem hipocrisia, sem glutonaria, sem luxúria;

O ar livre eu canto, liberdade, tolerância

(Leva, aqui, a principal lição, que não é a dos livros, nem a das escolas),

O dia e a noite comuns, a terra e as águas comuns,

Tua fazenda, teu trabalho, negócios, ocupações,

A sabedoria democrática subjacente, piso sólido para todos.

 

TRAVESSIA DA BALSA DO BROOKLY -fragmento

 2.

O meu imponderável alimento que vem de todas as coisas, a cada hora do dia,

O simples, pequeno, bem articulado esquema, meu ego desintegrado,

Cada um desintegrado e, contudo, sendo parte do esquema,

As similaridades do passado e aquelas similaridades do futuro,

As glórias penduradas como contas nas minhas menores visões

E em tudo o que ouço, na calçada das ruas e nas pontes sobre os rios,

A corrente descendo tão rapidamente, levando-me a nada para longe,

Os outros que devem me seguir, os laços que existem entre mim e eles,

A certeza dos outros, a vida, o amor, a visão, o ato de ouvir os outros.

 

Outros assistirão à rapidez do transbordamento da maré,

Outros verão os navios de Manhattan ao norte e a oeste

E as elevações do Brooklyn para o sul e para o leste,

Outros verão as ilhas grandes e pequenas;

Dentro de cinqüenta anos, outros terão essa visão quando fizerem a travessia,

O sol nascido há meia hora;

Dentro de cem anos, ou mesmo centenas de anos, outros terão essa visão,

Desfrutarão o pôr-do-sol, a água que entra pelo transbordamento da maré,

O retorno do mar no refluxo da maré.

 

9.

Desce, rio! Desce com a inundação da maré e reflui com o refluxo!

Brincai, projeções curvilíneas nas bordas das cristas das ondas!

Nuvens formosas do crepúsculo! Encharcai-me com vosso esplendor

Ou às gerações de homens e mulheres que virão após mim!

Levai, de uma margem à outra, incontáveis multidões de passageiros!

De pé, altos mastros de Mannahatta! De pé, lindas montanhas do Brooklyn!

Palpita, cérebro confuso e curioso! Lança de ti perguntas e respostas!

Suspende aqui e em toda a parte a eterna dança das soluções!

Olhai fixamente, olhos amorosos e sedentos, na casa ou na rua (…)

Soai, vozes, vozes de rapazes!Altas e musicais, chamai-me pelo meu nome mais íntimo!

(…) Considera, tu que me lês com atenção, que posso estar por caminhos desconhecidos

Pensando em ti;

(…) Reflete o céu de verão, tu, água, e lentamente o segura

Até que todos os olhos voltados para a tua superfície tenham tempo de vê-lo!

Dispersai-vos, finos raios de luz saídos da silhueta de minha cabeça,

Ou da cabeça de qualquer outra pessoa, refletidos na água iluminada pelo sol!

Avante, navios da baía inferior! Passai para cima e para baixo,

Escunas de velas brancas, corvetas, barcaças!

Ostentai-vos, bandeiras de todas as nações! Arriai-vos pontualmente no pôr-do-sol!

Queimai os vossos fogos, chaminés das fundições!

Lançai sombras negras sobre o anoitecer!

Lançai luzes vermelhas e amarelas sobre os telhados das casas!

As aparências, agora ou de agora em diante, indicam o que és,

Tu, necessário filme, continua envolvendo a alma,

Sobre o meu corpo por mim, e sobre o teu corpo por ti, pendurai-vos aromas divinos,

Prosperai, cidades, trazei vosso frete,trazei vossos espetáculos,rios amplos e suficientes,

Expandi-vos, tornando-se talvez aquilo que nada pode superar em espiritualidade,

Guardai vossos lugares, objetos que não encontrarão

nada mais duradouro que vós mesmos.

 

Já esperastes, sempre esperastes, vós, mudos, maravilhosos ministros,

Nós vos recebemos com um senso de liberdade, finalmente,

E nos tornamos insaciáveis de agora em diante,

Não mais sereis capazes de nos despistas ou de negar-vos a nós,

Usamos-vos e não vos lançamos fora, plantamos-vos permanentemente dentro de nós,

Não nos aprofundamos em vós, amamos-vos, também há perfeição em vós,

Fornecei vossas partes rumo à eternidade,

Grandes ou pequenas, vós ofereceis vossas partes para a alma.

 

Até breve!

Para terminar, anuncio o que vem depois de mim.

 

Lembro-me de ter dito antes que minhas folhas brotariam totalmente,

Eu ergueria minha voz aprazível e forte com referência às consumações.

 

Quando a América fizer o que foi prometido,

Quando através destes Estados andarem cem milhões de pessoas soberbas,

Quando os demais partirem, deixando as pessoas extraordinárias e apoiando-as,

Quando gerações das mais perfeitas mães denotarem a América,

Então haja para mim e para os meus a nossa devida fruição.

 

Pressionei para entrar por meu direito próprio,

Cantei o corpo e a alma, a guerra e a paz cantei e as canções da vida e da morte,

E as canções do nascimento e mostrei que há muitos nascimentos.

 

A todos ofereci o meu estilo, jornadeei com passos confiantes;

E enquanto meu prazer ainda é total, sussurro Até breve!

E tomo as mãos da jovem mulher e do jovem homem pela última vez.

 

Anuncio a elevação das pessoas naturais,

Anuncio a justiça triunfante,

Anuncio a liberdade e a eqüidade sem comprometimentos,

Anuncio a justificação da candura e a justificação do orgulho.

 

Anuncio que a identidade destes Estados é uma única identidade singular,

Anuncio a União mais e mais consolidada, indissolúvel,

Anuncio os esplendores e a majestade que farão todas as políticas prévias da Terra

                                                 parecerem insignificantes.

 

Anuncio a adesão, digo que há de ser ilimitada,

Digo que ainda hás de encontrar o amigo por quem procuravas,

Anuncio um homem ou uma mulher, talvez sejas tu (Até breve!),

Anuncio o grande indivíduo, fluido como a Natureza,

Casto, afetuoso, compassivo, inteiramente constituído,

Anuncio uma vida que há de ser copiosa, veemente, espiritual, ousada,

Anuncio um fim que há de encontrar com leveza e alegria a sua tradução.

Anuncio miríades de jovens, cheios de beleza, gigantescos, de sangue doce,

Anuncio uma raça de esplêndidos e selvagens homens velhos.

 

(…) Prevejo algo demasiado, algo que significa mais do que eu imaginava,

Parece-me que estou morrendo.

 

Apressa-te, garganta, e soa o que está no fim,

Saúda-me, saúda os dias uma vez mais. Faz ressoar o velho brado uma vez mais.

 

Gritando eletricamente, usando a atmosfera,

Lançando olhares a esmo, absorvendo tudo o que noto (…)

…………….curiosas mensagens embrulhadas,

Quentes faíscas, sementes etéreas que caem na poeira,

Eu mesmo sem conhecê-las, obedecendo à minha missão, sem jamais ousar questioná-la

Para as eras e eras futuras, entretanto, deixando o desenvolvimento das sementes,

Erguendo-me para as tropas retiradas da guerra,

Promulgando para eles as tarefas que tenho,

Para as mulheres legando certos sussurros de mim…

Para os rapazes meus problemas oferecendo, testando os músculos de seus cérebros (…)

Apaixonadamente (a morte fazendo-me realmente imorredouro),

O melhor de mim então, quando não mais visível,

No rumo daquilo para o que venho me preparando sem cessar.

 

(…) Haverá um singelo adeus final?

 

Cessam minhas canções, eu as abandono,

Por detrás da tela onde me escondo, avanço pessoalmente apenas para Ti.

 

Companheiro, este não é um livro,

Aquele que toca isto toca um homem (…)

Eu sou aquele que abraças e aquele que te abraça,

Eu salto de dentro destas páginas para dentro dos teus braços, a morte me chama.

 

(…) Sinto-me imerso da cabeça aos pés,

É delicioso, basta.

 

Basta, ó feito improvisado e secreto,

Basta, ó presente deslizante; basta, ó passado resumido.

 

Querido amigo, quem quer que sejas, leva este beijo,

Dou-o especialmente a ti, não me esqueças,

Sinto-me como aquele que realizou o seu trabalho durante o dia

E que se retira por um tempo,

Recebo agora novamente minhas muitas interpretações,

Meus avatares ascendendo, enquanto outros sem dúvida esperam por mim!

Uma esfera desconhecida mais real do que a que sonhei, mais direta,

Lança raios despertadores sobre mim, Até breve!

Lembra-te de minhas palavras, posso novamente retornar,

Amo-te, deixo a materialidade,

Sou eu desencarnado, triunfante, morto.

 

CANÇÃO DA ESTRADA ABERTA

 1.

A pé e com o coração iluminado, adentro a estrada aberta,

Saudável, livre, o mundo adiante de mim,

A longa senda à minha frente, conduzindo-me para onde quer que eu escolha.

 

A partir de agora não peço mais pela boa sorte, pois eu mesmo sou a boa sorte,

A partir de agora abandono as lamúrias, não mais procrastino, de nada mais necessito,

Estou farto de reclamações entre quatro paredes,

Forte e satisfeito eu viajo pela estrada aberta.

 

A Terra é suficiente para mim,

Não desejo as constelações mais próximas,

Sei que estão muito bem no lugar em que estão,

Sei que são suficientes para aqueles que lá vivem.

 

Ainda assim, por aqui, eu carrego meus velhos fardos deliciosos,

Carrego-os, homens e mulheres, carrego-os comigo onde quer que eu vá,

Juro que é impossível deles me livrar,

Estou realizado por eles, e hei de realizá-los em troca.

 

2.

Tu, estrada em que me adentro, olhando ao meu redor,

Acredito que não sejas apenas o que se vê aqui,

Acredito que muito do que é invisível também esteja aqui.

 

Aqui está a profunda lição da receptividade, não a da preferência nem a da negação,

O negro, o criminoso, o enfermo, o analfabeto, não são discriminados,

O nascimento, a procura apressada por um médico, o passo lento do mendigo,

A tontura do bêbado, a festa alegre dos mecânicos,

O jovem foragido, a carruagem do rico, o almofadinha, o casal fugitivo,

O homem que madruga na feira, o carro funerário, a entrada da mobília na vila,

O regresso da cidade,

Tudo passa, eu passo também, qualquer coisa passa, nada é interditado,

Nada deixa de ser aceito, nada deixará de ser querido por mim.

 

3.

(…) Vós, caminhos desgastados nas perfurações irregulares dos acostamentos!

Acredito que sejais latentes e que possuís existências insondáveis…

Vós, calçadas das cidades! Vós, robustas sarjetas nas beiradas!

Vós, balsas! Vós, pranchas e postes das  docas!

(…)…………………………………………………..Vós, arcos!

Vós, pedras cinzentas de intermináveis pavimentos! Vós, cruzamentos pisados!

Tudo o que vos tocou, acredito que haveis compartilhado entre vós

E agora compartilharíeis o mesmo em segredo comigo,

De vivos e de mortos haveis impregnado de pessoas a vossa impassível superfície,

E os espíritos ali presentes seriam evidentes e amistosos para comigo.

 

4.

A Terra, expandindo-se para a direita e para a esquerda,

Cada uma de suas partes em sua mais fulgurante luz,

A música descendo sobre aqueles que a desejam e deixando de entrar

Nos locais em que não a desejam,

A voz animada da estrada pública, o sentimento alegre, fresco, dos caminhos.

 

Ó estrada principal, por ti viajo (…) não tenho medo de deixar-te e contudo te amo,

Tu te expressas melhor sobre mim do que eu mesmo,

Há de ser mais para mim que meus poemas.

 

Creio que todas as canções heróicas foram concebidas ao ar livre

E também todos os poemas livres,

Creio que eu poderia parar aqui mesmo e operar milagres,

Creio que amarei tudo o que encontrar pela estrada,

E todos os que me contemplarem hão de gostar de mim,

Creio que quem quer que eu veja terá de ser feliz.

 

5.

Desde agora ordeno que meu ser livre-se de limites e linhas imaginárias,

Posso ir a todos os lugares que imaginar, sou meu próprio mestre, total e absoluto,

Ouço o que me dizem os outros, reflito bem sobre o que eles dizem,

Paro, procuro, recebo, contemplo,

Gentilmente, mas com vontade inflexível, dispo-me das amarras que me limitariam.

 

Inalo grandes e espaciais correntes de ar,

O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul são meus.

 

Sou maior e melhor do que eu pensava,

Não sabia que poderia conter em mim tanta bondade,

Tudo me parece maravilhoso,

Posso repetir e repetir para homens e mulheres: vós fizestes tanto bem a mim

E eu faria o mesmo por vós,

Recrutarei para mim e para vós na medida em que avanço,

Derramar-me-ei entre os homens e as mulheres na medida em que avanço,

Lançarei nova alegria e aspereza entre eles,

E se alguém me negar, isso não me incomodará,

Quem quer que me aceite, ele ou ela, há de ser abençoado e há de abençoar-me.

 

6.

Agora, se mil homens perfeitos tivessem de aparecer, isso não me espantaria,

Agora, se mil formas maravilhosas de mulher aparecessem, isso não me assombraria.

 

Agora, vejo o segredo de como produzir as melhores pessoas:

É o de crescer ao ar livre e de comer e de dormir com a terra.

 

(…) O teste final da sabedoria não se dá nas escolas,

A sabedoria não pode ser transmitida por alguém que a tem para quem não a possui,

A sabedoria pertence à alma, não é suscetível de provas, ela é a prova de si mesma,

Ela se aplica a todos os estágios e objetos e qualidades e seus conteúdos,

É a certeza da realidade e da imortalidade das coisas, e da sua excelência,

Algo que está nela, está na superfície e na visão das coisas,

De tal modo a provocar que venha para fora da alma.

 

Agora eu reexamino filosofias e religiões,

Elas podem ser eficazes nos salões de conferências e, contudo,

Não funcionar abaixo da vastidão das nuvens, e ao longo das paisagens

E das correntes que fluem.

 

(…) Apenas o núcleo de cada objeto pode nutrir;

Onde está ele, que remove as cascas por ti  e por mim?
Onde está ele, que desfaz estratagemas e envelopes por ti e por mim?

 

Aqui está a adesividade, ela não foi talhada previamente, ela é pragmática.

Sabes o que significa ser amado por estranhos?

Sabes o que dizem aqueles olhos que se voltam para ti?

 

7.

Aqui está a emanação da alma,

A emanação da alma vem de dentro, atravessando portões sombreados,

Que sempre provocam polêmica,

Esses anelos, por que existem? Esses pensamentos na escuridão, por que existem?

Por que há homens e mulheres que enquanto estão próximos a mim

Fazem-me sentir a luz do sol a expandir meu sangue?

Por que quando eles me deixam minhas flâmulas de alegria se abatem murchas?

Por que há árvores sob as quais nunca caminho e, contudo,

Fazem descer sobre mim grandes e melodiosos pensamentos?

(…) O que é isso que permuto tão de repente com estranhos?

O que se dá com o condutor quando me sento ao seu lado?

O que se dá com o pescador, puxando a sua rede na praia, quando passo e paro por ali?

O que me permite estar disponível para a boa vontade de uma mulher ou de um homem?

 

8.

A emanação da alma é a felicidade, e aqui está a felicidade,

Creio que ela se infiltra no ar livre, esperando em todas as eras,

Agora ela flui para nós, estamos dela carregados, certamente.

 

Aqui se ergue o fluido e o caráter que se prende a nós

(…) Em direção ao fluido e ao caráter que se prende a nós,

Aparece o suor do amor dos jovens e dos mais velhos,

Deles cai destilado o charme que ri da beleza e de tudo o que se obtém,

Em direção ao fluido e ao caráter as náuseas fazem estremecer

Com saudade do contato.

 

 9.

Allons! Quem quer que sejas, vem viajar comigo!

Viajando comigo encontrarás o que nunca faz cansar.

 

A terra jamais se cansa,

Rude, silenciosa, incompreensível à primeira vista (…)

Não desanimes, persevera, há segredos divinos bem guardados,

Juro-te que há segredos divinos mais belos do que as palavras podem descrever.

 

Allons! Não devemos parar aqui,

Por mais doces que sejam os bens armazenados,

Por mais convenientes que sejam estas moradas, não devemos permanecer aqui,

Por mais aconchegante que seja este porto e por mais calmas que sejam estas águas

Não devemos ancorar aqui,

Por mais convidativa que seja a hospitalidade que nos cerca,

Não se nos permita que a recebamos além de alguns momentos.

 

 

10.

Allons! As seduções hão de ser maiores,

Navegaremos sem rumo por mares bravios,

Iremos até onde os ventos podem soprar, até onde as ondas se arrojam

E o veloz cavalo ianque pode correr a toda brida.

Allons! Com poder, liberdade, a terra, os elementos,

Saúde, desafio, alegria, auto-estima, curiosidade:

Allons! De todas as fórmulas! De vossas fórmulas, ó padres materialistas…

 

O cadáver bolorento bloqueia a passagem, o enterro não pode mais esperar.

 

Allons! Contudo esteja alerta!

Aquele que viaja comigo precisa do melhor sangue, tendões, resistência,

(…) Não venhas para cá se já usaste o melhor de ti,

Só podem vir os que tenham seus corpos doces e determinados (…)

 

 

11.

 

Ouve! Serei honesto contigo,

Não ofereço os velhos prêmios amáveis, contudo ofereço prêmios novos e ásperos…

 

 

12.

 

Allons! Atrás dos Grandes Companheiros, para pertencer a eles!

Eles também estão na estrada, são homens rápidos e majestosos,

                                                  são as mais grandiosas mulheres,

(…) Marinheiros de muitos navios, andarilhos de muitas milhas,
Habitués de muitos países distantes…

Confiantes nos homens e nas mulheres, observadores das cidades,

Aqueles que param para contemplar os botões, as conchas do mar,

Dançarinos de festas de casamento, beijadores de noivas,

Carinhosos condutores de crianças,

Soldados de revoltas, sentinelas de túmulos abertos, coveiros,

Viajantes de estações consecutivas, através dos anos, os anos curiosos,

Cada qual emergindo daquele que o precedeu,

A saber suas próprias etapas diversas…

Viajantes alegres com sua própria juventude, com sua masculinidade de barba bem feita

Viajantes com sua feminilidade, ampla, insuperável, satisfeita,

Viajantes com sua própria masculinidade ou feminilidade de idade avançada e sublime,

Idade avançada, calma, expandida, ampla como a orgulhosa largura do universo,

Idade avançada, fluindo livremente com a deliciosa liberdade da morte que se aproxima.

 

 

 13.

 

Allons! Para aquilo que não tem fim tal como não teve início,

Vivenciando muito: caminhadas ao dia e o repouso à noite,

Fundindo tudo na viagem,

Vendo nada em lugar algum, a não ser aquilo que se pode alcançar e ultrapassar,

Não concebendo tempo algum (…)

Não vendo possessão alguma, mas sendo capaz de possuir tudo (…)

Carregando casas e ruas contigo, onde quer que vás (…)

Conhecendo o próprio universo como uma estrada, tantas quantas sejam as estradas…

Tudo se fraciona pelo progresso das almas,

Toda a religião, tudo o que é sólido, as artes, os governos,

Tudo o que era ou é aparente sobre o globo cai em nichos ou esquinas

perante a procissão das almas ao longo das grandes estradas do universo,

Do progresso das almas dos homens e das mulheres,

Ao longo das grandes estradas do universo (…)

Elas vão! Elas vão! Eu sei que elas vão! Mas não sei para onde vão,

Mas sei que vão na direção do melhor (…)

Fora do confinamento na escuridão! Fora de detrás das cortinas!

É inútil protestar, tudo conheço e exponho!

(…)Através do riso, da dança, do jantar, da ceia, das pessoas,

Dentro dos vestidos e dos ornamentos, dentro daquelas faces lavadas e aparadas

Contemplo um segredo silencioso de abominação e desespero (…)

Outro ser, um duplo de cada um, se esquiva e se esconde sempre mais (…)

A morte debaixo das costelas, o inferno debaixo do crânio,

Debaixo da casimira fina e das luvas, debaixo dos laços e das flores artificiais,

Mantendo-se dentro dos costumes, não falando uma única sílaba de si mesmo,

Falando de qualquer outra coisa, mas jamais de si mesmo.

 

14.

 

Allons! Através de lutas e guerras!

Do objetivo que foi estabelecido não se pode retroceder.

(…) Minha chamada é a chamada da batalha, eu nutro a rebelião ativa.

Aquele que caminha comigo deve estar bem armado,

Aquele que caminha comigo enfrenta uma dieta espartana,

Escassez, inimigos coléricos, deserções.

 

 

15.

Allons! A estrada está diante de nós!

Já a provei, com meus próprios pés eu a experimentei bastante, não te detenhas!

Deixe que o papel permaneça sobre a mesa, em branco, o livro fechado na prateleira!

Deixa que as ferramentas jazam na oficina! Deixa que o dinheiro fique sem ser ganho!

Deixa que a escola espere! Não te importes com o chamado do professor!

Deixa que o pregador pregue no púlpito!

Deixa que o advogado defenda a causa na corte e que o juiz interprete a lei.

Camarada, dou-te a minha mão!

Dou-te meu amor mais precioso que dinheiro,

Dou-te meu ser antes de pregar ou legislar;

Dar-me-ás o teu ser? Viajarás comigo?

Seremos unidos um ao outro enquanto vivos estivermos?

 

 

 

 

 

 

 Baudelaire1

CHARLES BAUDELAIRE-

A perda da aura

  “E então, vossa senhoria por aqui, meu caro? Vossa senhoria, num antro! Vossa senhoria, o bebedor de quintessências! Vossa senhoria, o degustador de ambrosia! Na verdade, há razão para que me surpreenda.”

“Meu amigo, você conhece meu terror de cavalos e veículos. Ainda há pouco, quando atravessava o boulevard, a passo ligeiro, e saltava a lama, em meio a esse caos movimentado aonde a morte chega a galope por todos os lados ao mesmo tempo, minha aura [auréole= auréola, halo], num movimento brusco, escorregou da minha cabeça para a sujeira do macadame. Não tive coragem de reavê-la. Julguei menos desagradável perder minhas insígnias do que me quebrarem os ossos. E depois, disse para mim mesmo, há males que vem para o bem. Posso agora passear incógnito, cometer baixezas, e me abandonar à canalhice, como um simples mortal. E eis-me aqui, igualzinho a você, como você vê!”

“Vossa Senhoria deveria ao menos anunciar essa aura, ou reclamá-la na delegacia.”

“Minha nossa! Não! Sinto-me bem aqui. Só você me reconheceu. Além disso, a dignidade me entedia. E ademais penso, e me alegro, que algum poeta de segunda categoria vai apanhá-la e colocá-la na cabeça descaradamente. Fazer alguém feliz, que júbilo! E sobretudo um felizardo que me fará rir! Pense em X, ou em Z! Então! Como será bizarro.!”

 

 Ao leitor

A tolice, o erro, o pecado, a usura,

Ocupam nossos espíritos e trabalham nossos corpos,

E alimentam nossos amáveis remorsos,

Como os mendigos nutrem seus piolhos.

 

Nossos pecados são teimosos, nossos pesares são frouxos     

Nós colocamos alto preço nas nossas confissões

E nós entramos alegremente no caminho lamacento

Crendo através de mil lágrimas lavar nossas nódoas

 

Sobre a almofada do mal é Satã Trismegisto

Quem embala longamente nosso espírito enfeitiçado

E o rico metal de nossa vontade

É todo volatilizado por esse sábio alquimista.        

 

É o Diabo que possui os fios que nos movimentam!

Nos coisas repugnantes nós encontramos atrativos;

Cada dia para o Inferno nós descemos um passo,

Sem horror, através de trevas que fedem.

 

Assim como o devasso pobre que beija e suga

O seio martirizado de uma já gasta vadia,

Nós queremos de súbito um prazer clandestino

Que nós esprememos como uma velha laranja.

 

 Espremida, fervilhante, como um milhão de vermes intestinais      

Nos nossos cérebros farreia uma população de Demônios,

E, quando nós respiramos, a Morte nos nossos pulmões

Desce, rio invisível, com surdas queixas.

 

Se a violação, o veneno, a punhalada, o incêndio,

Não bordaram ainda seus aprazíveis desenhos,

O desígnio banal de nossos patéticos destinos,

É que nossa alma, infelizmente, muito pouco ousou.

 

Mas entre os chacais, as panteras, os linces,

Os símios, os escorpiões, os abutres, as serpentes,

Os monstros estridentes, uivadores, grunhidores, rastejantes,

No bestiário infame de nossos vícios,

 

Não há um mais disforme, mais desagradável, mais imundo!

Ainda que ele não se atreva a grandes gestos nem a grandes gritos,

Ele voluntariamente faria da terra um monturo

E numa bocejada engoliria o mundo;

 

É o Tédio! – O olhar carregado de uma lágrima involuntária,

Ele sonha cadafalsos fumando seu narguilé                              

Tu o conheces, leitor, esse monstro delicado,

Hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão!         

 

 

 Esboço de um epílogo para a segunda edição, 1861

 Tranqüilo como um sábio e doce como um maldito…

Eu disse:

Eu te amo, ó minha tão bela, ó minha encantadora…

Quantas vezes…

Tuas devassidões sem afã e teus amores sem alma,            

                                                 Teu gosto pelo infinito,

Que em tudo, no próprio mal se proclama,

Tuas bombas, teus punhais, tuas vitórias, tuas festas,

Teus subúrbios melancólicos,                                                 

Tuas pensões,                                          

Teus jardins cheios de suspiros e de intrigas,

Tuas igrejas vomitando a reza musicada,

Teus desesperos infantis, teus jogos de velha louca,

Teus desencorajamentos;

 

E teus fogos de artifício, erupções de alegria,

Que fazem rir o céu mudo e tenebroso,

 

Teu venerável vício entremeado na seda,

E tua risível virtude, de olhar infortunado,

Doce, extasiando-se com o luxo que ele descortina…

 

Teus princípios salvos e tuas leis conspurcadas,

Teus altivos monumentos onde se agarram As Brumas.

Teus domos de metal os quais incendeia o sol,

Tuas rainhas do teatro com vozes encantadoras,

Teus alarmes, teus canhões, orquestra ensurdecedora,

Tuas mágicas calçadas altas como fortalezas,

Teus pequenos oradores, com exageros barrocos,

Pregando o amor, e ademais, teus esgotos cheios de sangue,

Se engolfando no Inferno como Orenocos,

Teus anos, teus bufões noviços com velhuscos hábitos

Anjos cobertos de ouro, de púrpura e de jacinto,

Ó vós, sede testemunhas de que cumpri meu dever

Como um perfeito alquimista e como uma boa alma.

Pois de cada coisa extraí a quintessência,

Tu me deste tua lama e eu fiz dela ouro.             

 

 O sol

 Ao longo dos velhos arrabaldes, onde pendendo das mansardas

Persianas abrigam secretas luxúrias,

Quando o sol cruel atira setas redobradas

Sobre a cidade e os campos, sobre os tetos e os trigais,

Eu vou exercer solitário minha fantástica esgrima,

Farejando em todas as esquinas os acasos da rima,

Tropeçando em palavras como em calçadas,

Chocando-me às vezes com versos há muito tempo sonhados.

 

Esse pai benfeitor, inimigo da anemia,

Acorda nos campos os vermes como as rosas;

Faz evaporar-se o desassossego pelo céu,

E enche os cérebros e as colméias de mel.

É ele que rejuvenesce os aleijados

E os deixa alegres e doces como donzelas,

E ordena às colheitas crescerem e amadurecerem

No imortal coração que sempre deseja florescer!

 

Quando, como um poeta, ele desce às cidades,

Enobrece a categoria de coisas mais vis,

Introduz-se como um rei, sem alarde e sem criados,

Em todos os hospitais e em todos os palácios.

 

 

 O  anoitecer ao crepúsculo

 Eis a noite encantadora, amiga do criminoso;

Vem como um cúmplice, a passo de lobo; o céu

Se fecha lentamente como uma grande alcova,

E o homem impaciente se transforma em besta fera.

 

Ó noite, amável noite, desejada por aquele

Cujos braços, sem mentir, podem dizer: Hoje,

Nós trabalhamos! –É a noite que alivia

Os espíritos devorados por uma dor selvagem,

O sábio obstinado cuja testa entorpece,

E o operário curvado que retoma sua cama.

Entretanto demônios malsãos na atmosfera

Despertam pesadamente, como homens de negócios,

E arremessam qual petecas os postigos e os telheiros

Através dos clarões que açoitam o vento

O Meretrício se incendeia pelas ruas;

Como um formigueiro ele trama suas passagens;

Por toda parte ele estabelece um oculto caminho,

Assim como o inimigo que tenta um ataque surpresa;

Ele se desloca no seio da cidade de lama

Como um verme que rouba ao Homem o que ele come.

Escutamos aqui e ali as cozinhas a chiar,

Os teatros a ganir, as orquestras a roncar;

As mesas redondas, nas quais o jogo faz as delícias,

Se enchem de vadias e escroques, seus comparsas,

E os ladrões, que não têm trégua nem perdão,

Vão sem mais tardar começar seu ofício, eles também,

E forçar docemente as portas e os cofres

Para ter do que viver alguns dias e vestir suas senhoras.  

 

Recolhe-te, minha alma, nesse grave momento,

E tapa tua orelha a esse bramido.

É a hora na qual as dores dos doentes se agudizam!

A escura Noite os sufoca; vai findando

Seus Destinos e levando-os para o abismo comum;

O hospital se enche de seus suspiros. –Mais de um

Não virá mais atrás da sopa aromática,

No canto do fogo, ao entardecer, perto de uma alma irmã.

 Ademais a maior parte deles jamais conheceu

A doçura do lar e jamais tinha vivido!

 

 

 A uma passante

 A rua ensurdecedora em torno de mim ululava.       

Alta, delgada, enlutada, dor majestosa,

Uma mulher passa, com mão suntuosa,

Erguendo, ajeitando, a grinalda e a bainha;      

 

Ágil e nobre, com sua perna de estátua.

Eu, eu bebia,crispado como um perdulário,

No seu olhar, céu lívido onde aflora o furacão,

A doçura que fascina e o prazer que mata.

 

Um relâmpago… depois a noite! –Fugitiva beldade

Cuja mirada me fez subitamente renascer,

Não te verei mais senão na eternidade?

 

Alhures, bem longe daqui! Talvez nunca!

Pois eu ignoro onde tu foste, tu não sabes aonde vou,

Ó tu que eu teria amado, ó tu que o sabias!

 

 O cisne     A Victor Hugo

 Andrômaca, penso em ti! O pequeno rio,

Pobre e triste espelho onde outrora resplendeu

A imensa majestade de tuas dores de viúva,

Este enganador Simeonte que tuas lágrimas encheu

 

Fecundou de súbito minha memória fértil,

Quando eu atravessava o novo Carrossel.

A velha Paris não mais existe (a forma de uma cidade

Muda mais depressa, infelizmente!,  que o coração de um mortal);

 

Vejo apenas na mente todo esse campo de barracos,

Essa pilha de capitéis esboçados e de colunas,

A relva, os grandes blocos esverdeados pela água das poças,

E, brilhando nos ladrilhos, o ferro velho misturado.               

 

Ali se expunha outrora uma feira de animais,

Ali eu vi, uma manhã, à hora na qual sob os céus

Frios e claros o Trabalho desperta, quando o lixo

Levanta um escuro furacão no ar silencioso,

 

Um cisne que havia fugido do seu gradil,                 

E, patas espalmadas arranhando a calçada seca,

No solo aplainado arrastava sua branca plumagem,

Perto de um regato ressecado o bicho abrindo seu bico,

 

Banhava nervosamente suas asas na poeira,

E dizia, o coração cheio de seu belo lago natal:

“Água, quando cairás? Quando soarás, trovão?”

Eu vejo este desafortunado, mito estranho e fatal,

 

Para o céu, às vezes, como o homem de Ovídio,

Para o céu irônico e cruelmente azul,

Sobre seu pescoço convulsivo erguida sua cabeça ávida,

Como se dirigisse censuras a Deus!

 

II

Paris muda! Mas nada na minha melancolia

Alterou-se! Novos edifícios, andaimes, blocos,

Velhos subúrbios, tudo para mim torna-se alegoria,

E minhas recordações são mais pesadas que rochas.

 

Também diante do Louvre uma imagem me oprime;

Penso em meu grande cisne, com seus gestos frenéticos,

Como os exilados, ridículo e sublime,

E roído de um desejo sem trégua! E em seguida em ti,

 

 Andrômaca, dos braços de um grande esposo tirada,

Vil gado, sob o jugo do soberbo Pirro.

À beira de um túmulo vazio em êxtase curvada;

Viúva de Heitor, que lástima!, e mulher de Heleno!

 

Penso na mulher negra, emagrecida e tísica,

Chapinhando na lama, e procurando, o olhar desvairado,

Os coqueiros ausentes da soberba África,

Por trás da muralha interminável da neblina.

 

Em qualquer um que perdeu e não recuperou

Nunca, nunca! Nesses que embebem de lágrimas

E mamam a Dor como uma boa loba!

Nos magros órfãos fenecendo como flores!

 

Assim na floresta onde meu espírito se exila,

Uma velha Reminiscência como um forte sopro do corne!

Penso nos marinheiros esquecidos numa ilha,

Nos prisioneiros, nos derrotados!…e em outros mais ainda!

 

 

 Sonho parisiense 

I

Dessa terrível paisagem,

Tal que nenhum mortal jamais viu,

Esta manhã ainda a imagem,

Vaga e longínqua, me arrebata.

 

O sono é cheio de milagres!

Por um capricho singular,

Eu havia banido desses espetáculos

O vegetal irregular.

 

E, pintor orgulhoso do meu gênio

Eu saboreava na minha tela

A embriagante monotonia

Do metal, do mármore e da água.

 

Babel de escadas e arcadas,

Era um palácio infinito,

Cheio de tanques e cascatas

Precipitando-se sobre ouro baço ou brunido;

 

E cataratas lentas

Como cortinas de cristal

Suspendiam-se, resplandecentes,

Por muralhas de metal.

 

Não árvores, mas colunas

Os tanques imóveis circundavam,

Onde gigantescas naiâdes,

Iguais às mulheres, se miravam.

 

Lençóis de água abundando, azuis,

Entre cais rosas e verdes,

Seguindo milhões de léguas

Até os confins do universo.

 

Havia pedras inauditas

E ondas mágicas; havia

Imensos espelhos ofuscados

Por tudo que elas refletiam.

 

Negligentes e taciturnos

Ganges, no firmamento,

Vertiam o tesouro de suas urnas

Nos abismos de diamante.

 

 Arquiteto das minhas feéricas fantasias,

Eu fazia, a meu bel prazer,

Sob um túnel de pedrarias

Passar um oceano represado;

 

E tudo, mesmo a cor negra,

Parecia polido, claro, irisado;

O líquido engastava sua glória

No raio cristalizado.

 

Nem astro de alhures, nem vestígios

Do sol, mesmo no baixo céu,

Para iluminar esses prodígios

Que brilhavam com um fogo próprio!

 

E sobre essas movediças maravilhas

Pairava (terrível novidade!

Tudo para o olhar, nada para os ouvidos!)

Um silêncio de eternidade.

 

II

Reabrindo meus olhos em febre

Eu vi o horror do meu muquifo                

E senti, entrando em minha alma

A pontada de desassossegos malditos.

 

O pêndulo com acentos fúnebres

Anunciava brutalmente o meio-dia

E o céu vertia trevas

Sobre o triste mundo embotado.

 

 Uma carniça

 Lembra-te da coisa que nós vimos, minha amada

     Uma bela manhã de verão tão doce:

Na curva de uma vereda uma carniça infame

    Num leito semeado de seixos.

 

De pernas pro ar, como uma mulher safada,

    Destilando e suando miasmas,

Abria de maneira desleixada e cínica

    Seu ventre cheio de exalações.

 O sol brilhava sobre tal podridão,

    Como querendo cozê-la ao ponto

Para dar multiplicado à Grande Natureza

    Tudo o que num conjunto ela reunira.

 

E o céu olhava a carcaça soberba

    Como uma flor a desabrochar,

O fedor era tão forte que, sobre a relva,

    Tu crias desfalecer.

 

As moscas zumbiam sobre o ventre pútrido,

    De onde saíam negros batalhões

De larvas que corriam como um espesso líquido

    Ao longo desses vivos andrajos.

 

Tudo isso descia, subia, como uma onda,

    Que espumava cintilando,

Dir-se-ia que o corpo, inflado por um sopro vago,

    Vivia multiplicando-se.

 

E o mundo tocava uma estranha música

    Como água corrente e vento,

Ou o grão que o peneirador com movimentos ritmados

    Agita e repousa em sua peneira.

 

As formas se desfaziam e não eram mais que um sonho.

    Um esboço lento a se delinear,

Sobre a tela esquecida, e que o artista acaba

    Apenas de memória.

 

Atrás das rochas uma cadela inquieta

    Nos fixava um olho irado

Vigiando o momento de reaver no esqueleto

    O bocado que ela havia largado.

 

-E portanto tu serás semelhante a essa porcaria,

    A essa horrível infecção,

Estrela de meus olhos, sol da minha natureza,

    Tu, meu anjo e minha paixão!

 

Sim! Isso é o que serás, ó rainha das Graças,

    Após os últimos sacramentos,

Quanto tu irás, sob a relva e as florações espessas,

    Mofar em meio às ossadas.

 

Então, ó minha bela! Digas ao verme

    Que te devorará de beijos

Que eu guardei a forma e a essência divina

    De meus amores decompostos!

 

 

 A musa doente

Minha pobre musa, que lástima, que tens esta manhã?

Teus olhos ocos são povoados de visões noturnas,

E eu vejo alternadamente refletidos na tua tez

A loucura e o horror, frios e taciturnos.

 

O súcubo esverdeado e o rosado duende

Teriam vertido a medo e o amor de suas urnas?

O pesadelo, com um punho despótico e revoltoso,

Teria te afogado no fundo de um fabuloso Minturnas?

 

Queria eu que exalando o odor da saúde

Teu íntimo de pensamentos fortes fosse sempre freqüentado

E que o sangue cristão corresse em ondas rítmicas,

 

Com os sons numerosos das sílabas antigas,

Onde revivem alternadamente o pai das canções,

Febo, e o Grande Pan, o senhor das colheitas.

 

O albatroz

Freqüentemente, para se divertir, os homens da equipagem

Pegam albatrozes, vastos pássaros dos mares,

Que seguem, indolentes companheiros de viagem,

O navio que desliza por abismos amargos.

 

Tão logo eles o largam sobre o convés

Esse rei do azul, desengonçado e envergonhado,

Largando lastimosamente suas grandes asas brancas

Como remos arrastados pelos lados.

 

Esse viajante alado, como é desajeitado e molenga!

Ele, há pouco tão belo, agora cômico e disforme!

Um, açula seu bico com um cachimbo,

Outro, imita, coxeando, o enfermo que antes voava!

 

O poeta é semelhante ao príncipe das nuvens

Que persegue a tempestade e se ri do arqueiro,

Exilado no solo em meio à balbúrdia,

Suas asas de gigante o impedem de andar.

 

 

 

  O letes

 Vens direto em meu coração, amada cruel e indiferente,

Tigre adorado, monstro de ar indolente;

Quero por muito tempo mergulhar meus dedos trêmulos

Na espessura de sua juba pesada;

 

Nas tuas anáguas encharcadas de um perfume

Sepultar minha cabeça dolorida,

E respirar, como uma flor murcha,

O doce ranço do meu amor defunto.

 

Quero dormir! Dormir de preferência a viver!

Num sono tão doce como a morte,

Eu espalharei meus beijos sem remorso

Sobre teu belo corpo polido como o cobre.

 

Para engolir meus soluços apaziguados

Nada se compara ao abismo do teu leito;

O esquecimento potente habita teus lábios,

E o Letes corre nos teus beijos.

 

A meu destino, doravante minha delícia,

Obedecerei como um predestinado;

Mártir submisso, inocente condenado,

Cujo fervor provoca o suplício,

 

Sugarei, para afogar meu rancor,

O elixir contra a tristeza e a boa cicuta                        

Nas arestas encantadoras desse colo ferino

Que nunca abrigou um coração.

 

 A viagem          A Maxime du Camp

 I

Para a criança, apaixonada por mapas e estampas,

O universo é igual ao seu vasto apetite.

Ah! Que o mundo é grande à luz da lamparina!

Sob o olhar da memória o mundo é pequeno!

 

Uma manhã nós partimos, o cérebro cheio de ardor,

O coração repleto de rancor e desejos amargos,

E prosseguimos, seguindo o ritmo da lama

Embalando nosso infinito no finito dos mares:

 

Uns, jubilosos de fugir de uma pátria infame;

Outros, do horror de seus lares natais, e outros ainda,

Astrólogos afogados no olhar de uma mulher,

Circe tirânica com perigosos perfumes.

 

Para não serem transformados em bestas, embriagam-se

De espaço e de luz e de céu abrasados,

O gelo que os aguilhoa, o sol que os bronzeia,

Apagando lentamente a marca dos beijos.

 

Mas os verdadeiros viajantes são somente aqueles que partem

Por partir, corações ligeiros, semelhantes a balões,

De sua predestinação jamais se desviam.

E, sem saber por que, dizem sempre: Avante!                             !

 

Aqueles cujos desejos têm a forma de nuvens,

E que sonham, como um alistado, com o canhão,          

Vastas volúpias, cambiantes, desconhecidas,

E das quais o espírito humano não sabe jamais o nome!

 

II

Nós imitamos, que horror!, o pião e a bola

Na sua valsa e seus pulos; mesmo na inconsciência

A Curiosidade nos atormenta e nos faz revirar

Como um anjo cruel que vergasta sóis.

 

Singular destino cuja meta se desloca

Não estando em nenhuma parte, talvez nem importando onde esteja!

Na qual o Homem, que nunca perde a esperança,

Para encontrar o repouso corre como um louco!

 

Nossa alma é uma embarcação procurando sua Icária;        

Uma voz ecoa na ponte: “Abre os olhos”!

Uma voz na gávea, ardente, desvairada, grita:

“Amor…glória…felicidade!” que Inferno! É um escolho.    

 

 Cada ilhota avistada pelo vigia

É um Eldorado prometido pelo Destino;

A imaginação que enfeita sua orgia

Não encontra senão um recife na claridade da manhã.

 

Ó, o pobre desejoso por países quiméricos!

É necessário colocá-lo a ferros, jogá-lo ao mar,

Esse marinheiro ébrio, inventor de Américas,

Cuja miragem torna o abismo mais amargo!                

 

Tal qual o velho vagabundo, lastimosamente na lama,

Sonha, nariz pro alto, com brilhantes édens;

Seu olhar iludido descobre uma Cápua

Onde a vela ilumina apenas um antro.             

 

 III

Assombrosos viajantes! Que nobres histórias

Lemos em vossos olhos profundos como os mares!

Mostrai os escrínios de vossas ricas memórias,

Essas jóias maravilhosas, compostas de astros e éters.

 

Nós vamos viajar sem vapor e sem vela!

Fazei, para alegrar o tédio de nossas prisões,

Passar por nossos espíritos, pendurados como uma tela

Vossas Lembranças com suas molduras de horizontes.

 

Dizei, o que vistes?

 

IV

“Nós vimos astros

E ondas; nós vimos areais também;

E, apesar de choques e de imprevistos desastres

Nós nos sentimos freqüentemente entediados, tal como aqui.

 

A glória do sol sobre o mar violeta,

A glória das cidades ao pôr-do-sol,

Acenderam em nossos corações um ardor inquieto

De mergulhar num céu de reflexo sedutor.

 

As mais ricas cidades, as mais imensas paisagens,

Jamais continham o atrativo misterioso

Daquelas que o acaso compunha com nuvens

E sempre o desejo nos deixava em desassossego!

 

Gozar ao desejo acrescenta a força.

Desejo, velha árvore à qual o prazer serve de adubo,

Enquanto engrossa e endurece sua casca,

Teus ramos querem ver o sol mais de perto!

 

Crescerás sempre, grande árvore mais vistosa

Que o cipreste? –Porém nós temos, com desvelo,

Colhido alguns croquis para vosso ávido álbum,

Irmão que considerais belo o que vem de longe!

 

Nós temos saudado ídolos com trompa,

Tronos constelados de jóias luminosas;

Palácios lapidados cuja feérica pompa

Seria para vossos banqueiros um sonho de ruína.

 

Costumes que som para os olhos uma embriaguez;

Mulheres cujos dentes e unhas são tingidos,

E jograis sábios que a serpente acaricia.”

 

 V

E depois? E depois ainda?

 

VI                            “Ó cérebros pueris!

 

Para não esquecer a coisa essencial,

Vimos por toda parte, e sem haver buscado,

De alto a baixo da escada fatal,

O espetáculo tedioso do imortal pecado.

 

A mulher, escrava vil, orgulhosa e estúpida,

A sério adorando a si mesma e se amando sem desgosto,

O homem, tirano, glutão, libertino, rígido e ganancioso,

Escravo do escravo e valeta de esgoto.

 

O carrasco que desfruta, o mártir que lamenta,

A festa que condimenta e perfuma o sangue;

O veneno do poder obcecando o déspota,

E o povo enamorado pelo chicote embrutecedor.

 

Muitas religiões semelhantes à nossa,

Todas escalando o céu; a Santidade,

Tal qual num leito de plumas um delicado se chafurda,

Nos pregos e nas cerdas buscando a volúpia.

 

A Humanidade indiscreta, embriagada do seu gênio,

E, louca hoje como o foi outrora,

Clamando a Deus, na sua furibunda agonia:

“Ó meu semelhante, ó meu criador, eu te amaldiçôo”!

 

E os menos tolos, temerários amantes da Demência,

Fugindo ao grande rebanho encurralado pelo Destino,

E refugiando-se no vasto ópio!

–Tal é do Globo inteiro o eterno noticiário.”              

 

 VII

Amarga sabedoria, aquela que se extrai da viagem!

O mundo, monótono e pequeno, hoje,

Ontem, amanhã, sempre, nos faz ver nossa imagem:

Um oásis de horror num deserto de tédio!

 

É necessário partir? Ficar? Se tu podes ficar, fica;

Parte, se é necessário. Um corre, outro se esconde,

Para enganar o inimigo vigilante e funesto,

O Tempo! Há, infelizmente, que se correr sem repouso

 

 Como o Judeu Errante e como os Apóstolos

Aos quais nada foi suficiente, nem vagão nem naves,

Para fugir ao Gladiador infame; e há outros

Que sabem matá-lo sem deixar a terra natal.

 

Quando enfim ele finca o pé sobre nossa espinha

Nós podemos esperar e gritar: “Avante!”

Assim como de outra feita nós partíamos para a China,

Os olhos fixos na distância e os cabelos ao vento,

 

Nós navegávamos no mar das Trevas,

Com o coração entusiasmado de passageiro jovem,

Escutando essas vozes encantadoras e funestas,

Que cantavam: “Por aqui! Vós que quereis comer

 

O Lótus perfumado! É aqui a vindima                    

Dos frutos miraculosos de que vosso espírito tem fome;

Viestes embriagar-vos da doçura estrangeira

Dessa sesta que não tem fim?”

 

De um sotaque familiar se adivinha o espectro:

Nosso Pílades ali adiante tem os braços aberto para nós.

“Para refrescar teu coração nada até tua Electra!”

Diz ela da qual outrora beijávamos os joelhos.

 

VIII

Ó Morte, velho capitão, é tempo! Levantemos a âncora!

Este país nos entedia, ó Morte! Equipemos!

Se o céu e o mar são negros como nanquim,

Nossos corações que tu conheces são inundados por lampejos!

 

Verte-nos teu veneno para que ele nos reconforte!

Queremos, tanto este fogo nos incendeia o cérebro,

Mergulhar no fundo do abismo, Inferno ou Céu, que importa?

No final do Desconhecido para encontrar O NOVO.      

 

EPÍLOGO DE Spleen de Paris (pequenos poemas em prosa)

Coração contente, subi a montanha

De onde se pode contemplar a cidade em sua complexidade,

Hospital, lupanar, purgatório, inferno, prisão,

 

Onde toda enormidade floresce como flor.

Tu sabes bem, ó Satã, senhor do meu desespero,

Que por lá não ia espalhar um pranto vão;

 

Mas, como um velho lascivo de uma velha amante,

Queria me inebriar da enorme prostituta

Cujo encanto inffernal me rejuvenesce sem cessar.

 

Se tu dormes ainda nos lençóis da manhã,

Pesada, sombria, resfriada, ou se tu te pavoneias

Nos véus da noite com a passamanaria em ouro fino,

 

Eu te amo, ó cúpida capital! Cortesãs,

E bandidos, como tais ofereceis prazeres

Que não compreendem os profanos vulgares.

 

rainermariarilke-1
RAINER MARIA RILKE
Fragmentos  das ELEGIAS DE DUÍNO
 
O sentir em nós, ai, é o dissipar-se.
Exalamos nosso ser; e de uma a outra ardência
Nos desvanecemos. Alguma vez nos dizem:
Circulas no meu sangue, este quarto, a primavera
Estão cheios de ti. Inutilmente procuram nos reter
Evolamos. E aqueles que são belos, oh, quem os
Deteria? A aparência transita sem descanso em seu rosto
E se dissipa. Tal o orvalho da manhã
E o calor do alimento, o que é nosso
Flutua e desaparece. Ó sorrisos, para onde?
E tu, olhar erguido, fugitiva onda ardente e nova
Do coração? Ai de nós, assim somos.
Estará o mundo impregnado de nós, pois que
Nele nos perdemos? E os Anjos
Retomarão apenas o que deles emanou?
Talvez um pouco de humano se encontre às vezes
Em seus traços, como o vago no rosto das mulheres
grávidas? Eles porém nada percebem
No turbilhão da volta a si mesmos.” 
 
 
“E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem anjos nem homens.
E o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face—a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apena ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos –talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.”

 

borges
O outro tigre
 
(Jorge Luis Borges, El Hacedor)
 
Penso num tigre. A penumbra exalta
A vasta biblioteca laboriosa
E parece afastar suas estantes;
Forte, inocente, ensangüentado e novo,
Ele irá por sua selva e sua manhã
E deixará seu rastro na lodosa
Margem de um rio cujo nome ignora
(Não há em seu mundo nomes nem passado,
E nem porvir, só um instante determinado)
E vencerá as bárbaras distâncias,
Farejará no enleado labirinto
De todos os odores o da aurora
E o olor deleitável do cervo;
Em meio às riscas do bambu decifro
Suas riscas e pressinto a ossatura
Sob a pele esplêndida que vibra.
Debalde interpõem-se os convexos
Mares e desertos do planeta;
E desta morada de um remoto porto
Da América do Sul, te sigo e sonho,
Ó tigre das beiras do Ganges.
Corre a  tarde em minha alma e conjecturo
Que o tigre vocativo do meu verso
É um tigre de símbolos e sombras,
Uma série de tropos literários                   tropos- lugares comuns
E de reminiscências da enciclopédia,
Não o tigre fata, a aziaga jóia
Que sob o sol ou a cambiante lua,
Vai cumprindo em Sumatra ou em Bengala
Sua rotina de ócio, amor e morte.
A esse tigre dos símbolos opus
O verdadeiro, o de sangue quente,
O que dizima a manada de búfalos
E a três de agosto de 59 (Hoje),
Estende sobre o prado uma pausada
Sombra, mas só o fato de nomeá-lo
E de conjecturar-lhe a circunstância
Da arte o faz ficção e não a criatura
Vivente, dessas que andam pela Terra.
 
Procuraremos um terceiro tigre.
Este, como os demais, será uma forma
De meu sonho, um sistema de palavras
Humanas, não o tigre vertebrado
Que, para além dessas mitologias,
Percorre a Terra. Bem o sei, mas algo
Me impõe esta aventura indefinida,
Insensata e antiga, e persevero
Pelo tempo da tarde na procura
Do outro tigre, o que não está no verso.
 
NOITE DE SÃO JOÃO
(de Fervor de Buenos Aires)
 
O poente implacável em esplendores
quebrou a fio de espada as distâncias.
Suave como um salgueiral está a noite.
Vermelhos faíscam
os redemoinhos das grandes fogueiras;
lenha sacrificada
que se dessangra em altas labaredas,
bandeira viva e cega travessura.
A sombra é aprazível como uma lonjura;
hoje as ruas lembram
que foram campo um dia.
Toda a santa noite a solidão rezando
seu rosário de estrelas esparramadas.
(trad. Glauco Mattoso)
  
180px-Vicente_Carvalho
UMA IMPRESSÃO DE DON JUAN
(Vicente de Carvalho)
 
Gastei no amor vinte anos –os melhores,
Da minha vida pródiga: esbanjei-os
Sem remorso nem pena, nem galanteios,
Colhendo beijos, desfolhando flores.
  
Quentes olhares de olhos tentadores,
Suspiros de paixão, arfar de seios,
Conheci-os, buscaram-me, gozei-os…
Li, folha a folha, o livro dos amores.
  
Quanta lembrança de mulher amada!
Quanta ternura de alma carinhosa!
Sim, tanto amor que me passou na vida!
  
E nada sei do amor… Não, não sei nada,
E cada rosto de mulher formosa
Dá-me a impressão de folha inda não lida.
OlavoBilac
A VIA LÁCTEA (sétimo soneto)
 
Olavo Bilac
 
Não têm faltado bocas de serpentes
(Dessas que amam falar de todo o mundo
E a todo o mundo ferem, maldizentes)
Que digam: Mata o teu amor profundo!
  
Abafa-o, que teus passos imprudentes
Te vão levando a um pélago sem fundo…
Vais te perder! -E arreganhando os dentes
Movem para o teu lado o olhar imundo:
  
-Se ela é tão pobre, se não tem beleza
Irás deixar a glória desprezada
E os prazeres perdidos por tão pouco?
  
Pensa mais no futuro e na riqueza!
-E eu penso que afinal… Não penso nada:
Penso apenas que te amo como um louco!
 
ANTÍGONA
A terra treme. Rola o trovão. Brilha o espaço.
Chega Édipo a Colono, em andrajos, imundo,
Sombra ansiosa a fugir do próprio horror profundo,
Ruína humana a cair de miséria e cansaço.
  
Mas, quando o ancião vacila, órfão da luz do mundo,
Antígona lhe estende o coração e o braço,
E, filha e irmã, recolhe ao maternal regaço
O rei sem trono, o pai sem honra, moribundo.
  
É o ninho (a terra treme…) amparando o carvalho,
A flor sustendo o tronco! Édipo (o espaço brilha…)
Sorri, como um combusto areal bebendo o orvalho.
  
É o fim (rola o trovão…) da miseranda sorte:
O cego vê, fitando o céu do olhar da filha,
Na cegueira o esplendor, e a redenção na morte.
  
SEFERIS
 
Uma palavra sobre o verão
 
(Giorgios Seferis,  poeta grego, Nobel 1963)
 
Eis que voltou o outono. O verão
Como um caderno em que cansamos de escrever, lá fica
Cheio de riscos e garatujas,
De pontos de interrogação nas margens. Eis que voltou
A estação dos olhos que miram
Nos espelhos, sob as lâmpadas,
Lábios cerrados, homens estrangeiros
Nos quartos, nas ruas, sob as pimenteiras,
Enquanto os faróis dos carros matam
Milhares de máscaras macilentas.
Eis-nos de volta. Partimos para cada vez voltar
Na solidão, um punhado de terra em nossas mãos vazias.
  
E não obstante, amei outrora o bulevar Syngros,
A dupla curvatura da grande avenida
Que milagrosamente nos leva para o mar
Eterno a fim de que nos lavemos dos pecados.
Amei homens desconhecidos
Encontrados bruscamente ao cair do dia
Que falavam consigo mesmos como capitães de uma frota afundada,
Sinais de que o mundo é vasto.
E não obstante, amei as ruas daqui e estas colunas
Ainda que nascido na outra margem, junto
Das canas e dos juncos, das ilhas
Cuja areia guarda água para a sede
Do remador: ainda que nascido
Junto do mar que desenrolo e enrolo entre meus dedos,
Quando estou fatigado– não sei mais onde nasci.
  
Resta ainda a essência amarela, o verão
E tuas mãos roçando medusas na água,
Teus olhos abertos de repente, os primeiros
Olhos do mundo, e as grutas marinhas,
Pés desnudos no solo vermelho.
Resta ainda o efebo louro de pedra,o verão,
Um pouco de sal seco no oco de um rochedo,
Algumas agulhas de pinheiro após a chuva
Ruivas e dispersas como um filete em fiapos.
  
Não compreendo esses rostos, não os compreendo;
Imitam às vezes a morte e depois iluminam-se de novo
Com uma vida rasteira de vermes luzentes,
Com um esforço repuxado, sem esperança,
Como apertado entre duas rugas
Entre duas mesas de café gordurosas…
  
(…) Resta ainda o deserto amarelo, o verão,
Vagas de areia em fuga até o último círculo
Um ritmo de tambor lancinante, interminável
Olhos inflamados afundando no sol,
Mãos com ímpetos de pássaros riscando o céu
Saudando filas de mortos em duelos,
Perdidas num ponto que me ultrapassa e me governa,
Tuas mãos que tocam a onda livre.
           (trad. Darcy Damasceno)
 
caricatura de jorge de lima
Anunciação & Encontro de Mira-Celi (quadragésimo poema)
(Jorge de Lima)
Quando sentires tua carne incendiar-se
e a labareda divina altear-se no ar,
desfralda tua bandeira neste tope*,        
que logo virão dos quatro pontos cardeais
os conspiradores que precisas;
pois tua língua não pode continuar a que herdaste
nem os teus homens são os que hoje te cercam.
Antes que os tambores ensurdeçam teus ouvidos
e teu passo se cadencie num galope constante,
vê que a dor do mundo deseja redimir-se em teu canto.
É certo que te esmagarão como se esmaga uma asa.
Mas as penas que espalhares no chão
podem voar ao vento
e baixar com sua sombra mínima
sobre qualquer ovo perdido dentro dos ninhos abandonados.
Entre a noite e o mar visitarás de novo
os litorais desertos, e semearás teu pólen.
Hão de cair sobre ele as chuvas que lavam as tempestades,
e se os homens não quiserem ouvir-te,
ressurgirás para as abelhas ou para as solidões
em que Deus ouvirá as palavras do Início.
drummondclaro enigma
 
Relógio do Rosário (de Claro Enigma)
(Carlos Drummond de Andrade)
Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva
  
pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,
  
que se entrelaça no meu próprio choro,
e compomos os dois um vasto coro.
  
Oh dor individual, afrodisíaco
selo gravado em plano dionisíaco,
  
a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,
  
dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,
  
convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,
  
prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,
  
dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,
  
dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa
  
tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,
  
dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,
  
dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!
  
Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?
  
Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?
  
O amor elide a face… Ele murmura
algo que foge, e é brisa, e fala  impura.
  
O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta
  
que não macule ou perca sua essência
ao contato furioso da existência.
  
Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,
  
a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.
  
Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário
  
já cinza se concentra, pós de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.
 
carlosnejaro chapeu das estações
 
“o barulho de existir:
um cão dentro
de mim
A CHUVA DO VELHO TESTAMENTO (trechos)
        (Carlos Nejar, O chapéu das estações)
 
“Quis possuir a alma,
possuí-la um instante,
numa respiração
que a conjugasse
em suas potências
e fosse alma
em corpo atravessada.
 
Quis possuir a alma,
mas de súbito
é uma conspiração
de antigos súditos
que a obriga sucumbir.
E é luz varando luz
de inerte vinco.
 
Quis possuir a alma,
a rebelião mais pura
de ser Deus
no Deus que me conjura.
 
Quis possuir a alma
como se um arado empurrasse
na soga deste instante
o corpo amado
para o corpo amante.
 
Quis possuir a alma
e a vislumbrei inteira
e alheia corpo adentro
como se alguma barca
fosse somente vento”
 
 
“Fui condenado ao corpo.
Como isolar a alma,
se está morto?
 
Como isolar a alma
se ela é corpo
e sabe conluiar os elementos
de sua retração, seu desespero?
 
Mas o corpo transgride
onde fora trancado.
E é vivo o condenado,
mesmo se a alma já morreu
nos arredores.
 
Se o corpo não é seu,
a alma estende
a renitência a outras,
entre as formas do céu
e dos planetas.
 
Eu tive a rebelião
de ser um corpo.
Fui condenado a Deus,
a seu estado mais feroz,
aquele que, de amor,
as coisas tremem
e as vozes não conseguem separar.
 
Fui elevado ao corpo”
********************
Trecho de A árvore do mundo  (do mesmo autor)
“O humano é custo,
empresa que se apresta
no deter
e detendo, cobra,.
E sobrando,
se gasta.
 
Mais preciso:
a parede do tempo
de estar vivo.
A parede sem nível
do possível.
 
Salvar? Mas estou salvo,
sou matéria.
 
Nenhum impedimento de subir,
exceto a condição de ser humano.
Mas esta é de romper.
 
Um osso, um plasma, uma epiderme,
o susto.
 
Quanto nos apanha, nos encerra
a popa de uma nau
que é apenas alma.”
 
 
hilda furacão hilst
HILDA HILST: Cantares de perda e predileção 
“Vida da minha alma:
Recaminhei casas e paisagens
Buscando-me a mim, minha tua cara.
Recaminhei os escombros da tarde
Folhas enegrecidas, gomos, cascas
Papéis de terra e tinta sob as árvores
Nichos onde nos confessamos, praças
 
Revi os cães. Não os mesmos. Outros
De igual destino, loucos, tristes,
Nós dois, meu ódio-amor, atravessando
Cinzas e paredões, o percurso da vida.
 
Busquei a luz e o amor. Humana, atenta
Como quem busca a boca nos confins da sede.
Recaminhei as nossas construções, tijos
Pás, a areia dos dias
 
E tudo que encontrei te digo agora:
Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.
O arquiteto dessas armadilhas.”
Hilda_Hilst_01
HILDA HILST: ODES MÍNIMAS
“Perderás de mim
Todas as horas
 
Porque só me tomarás
A uma determinada hora
 
E talvez venhas
Num instante de vazio
E insipidez
Imagina-te o que perderás
Eu que vivi no vermelho
Porque poeta, e caminhei
A chama dos caminhos
 
Atravessei o sol
Toquei o muro de dentro
Dos amigos
 
A boca nos sentimentos
 
E fui tomada, ferisa
De malassombros, de gozo
 
Morte, imagina-te.”
EmilyDickinson
POEMAS DE  EMILY DICKINSON
 
Acordei Cedo – Apanhei meu Cão-
E visitamos o Mar -
As Sereias no Porão
Vieram todas olhar paa mim -
 
As Fragatas – no Piso Superior-
Estenderam Mãos de Corda -
Presumindo-me um Camundongo -
Encalhado – ali nas Areias-
 
Mas  Homem algum aproximou-se  - até que o Mar
Alcançou meu sapato-
E alcançou meu  Avental – e meu Cinto -
E alcançou meu Corpete – também-
 
E fez como se fosse me engolfar -
Como gota de rocio
Sobre um Dente-de-leão -
Então - Recuei – também-
 
E Ele – Ele seguia – apertando o cerco -
Calcanhar  Prateado contra
Meu Tornozelo -  E então meus Sapatos
Já transbordavam de Pérolas -
 
Então alcançamos Terra Firme -
Onde amigo conhecido não era visto -
E com cortesia – com um Poderoso Olhar -
Para mim – O Mar recuou      
 
 
****
“Satisfação – é o Agente
Da Saciedade -
Falta- um tranqüilo Comissário
Da Infinitude.
  
Possuir já é após o instante
Da fruição da Alegria -
Imortalidade contente
Que Anomalia!
****
 
Porque não pude parar p´ra Morte -
Ela parou p´ra mim, bondosamente–
No coche só cabíamos as duas-
E a Imortalidade.
 
Viagem lenta- Ela não tinha pressa-
E eu já pusera de lado
Meu trabalho e meu lazer,
\P´ra seu exclusivo agrado-
 
Passamos a escol, na qual Crianças-
Brincavam de luta- no Ringue -
Passamos os Campos do Grão Pasmado-
Passamos pelo Sol Poente-
 
Ou melhor – ele passou por  Nós-
O Sereno baixou gélido -
Era de Gaze fina minha´Túnica -
Minha Capa- apenas Tule -
 
Paramos numa Casa que se assemelhava
A um intumescido Torrão -
O Telhado mal se via -
A Cornija – rente ao Chão -
 
Desde então – faz Séculos- mas em verdade
Parece menos que o Dia
Em que, pelas Frontes dos Cavalos,
Que rumavam para a Eternidade -
****
“Vou contar a você como é que o Sol nasceu -
De repente uma fita apareceu -
Campanários nadaram em Ametista -
Notícias correram como Esquilos -
Colinas desataram seus Toucados -
Os Passarinhos -romperam em trinados-
Então disse baixinho pra mim mesma -
“Deve ter sido o Sol”!
Como ele se pôs – não sei dizer-
No céu um torniquete avermelhado
Meninas e Meninos de amarelo
Pulavam por ali em atropelo -
Na pressa de alcançar o outro lado -
Quando um clérigo de hábito cinzento -
Fez o gradil da noite subir manso -
E dispersou o bando - 
****
Senti na mente esta rasgadura -
> Como se o cérebro se cindisse -
> Tento acertar costura com costura -
> Mas nada há que as fixe.
>   
> O pensamento atrás com o adiante
> Em ajuntá-los me desvelo -
> Mas a seqüência se esfia sem que a alcance -
> tal qual novelos- sobre o Chão.
*****

 

 

atravesso
como a um pátio:
o barulho de existir”

 

Onde toda enormidade floresce como uma flor:

Tu sabes bem, ó Satã, dono da minha aflição,

Que lá eu não ia para espalhar vãs lágrimas;

 

Mas, como um velho libertino com uma velha amante,

Eu queria inebriar-me com a imensa vadia

Cujo charme infernal me rejuvenesce incessantemente.

 

Que tu durmas ainda nos lençóis da manhã,

Pesada, obscura, catarrenta, ou que tu te pavoneies

Nos véus da noite com passamanaria de ouro fino,

 

Eu te amo, ó capital infame! Cortesãs,

E bandidos, freqüentemente ofereceis prazeres tais

Que não compreendem os vulgares profanos.

02/06/2009

MOTES PARA UM CURSO AMBICIONADO (e não-realizado)

RUDIMENTOS PARA ENTENDER A COSTURA BÍBLICA

 karen armstrong

“Durante o século VIII houve uma revolução literária em todo o Oriente Médio e no Mediterrâneo Oriental. Reis encomendaram documentos que glorificassem seu regime e guardaram esses textos em bibliotecas. Na Grécia, os épicos homéricos foram fixados nessa época, e, em Israel e Judá, historiadores começaram a combinar narrativas ancestrais para criar sagas nacionais, que foram preservadas nos estratos mais arcaicos do Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia.

         A partir das variadas tradições de Israel e Judá, os historiadores do século VIII construíram uma narrativa coerente. Os estudiosos chamam em geral o épico sulista de Judá de J porque os autores sempre chamavam seu Deus de Jeová ou Javé, ao passo que a saga do norte é conhecida como E porque o Deus era então conhecido como Elohim.

         Mais tarde essas duas sagas distintas foram combinadas para formar uma história única que constituiu a espinha dorsal da Bíblia hebraica (e, por extensão, da Bíblia cristã).

         J e E não escreviam relatos históricos modernos. Como Homero e Heródoto, eles incluem lendas sobre personagens divinos e elementos mitológicos e condensadores que tentam explicar o sentido do que aconteceu. Suas narrativas são mais que história. Desde o princípio, não houve uma mensagem única e fidedigna sobre o que iria se tornar a Bíblia. Os autores J e E interpretaram a saga de Israel de maneiras muito diferentes e os futuros editores não fizeram qualquer tentativa de eliminar as incoerências e contradições. Em J, por exemplo, vemos imagens antropomórficas de Deus que causariam embaraço a exegetas posteriores. Jeová passeia pelo Jardim do Éden como um potentado do Oriente Médio, fecha a porta da arca de Noé, irrita-se e muda de idéia. Contudo, em E há uma concepção mais transcendente de Elohim, que mal ´fala´, preferindo enviar anjos como seus mensageiros. A religião hebraica posterior iria se tornar passionalmente monoteísta, convencida de que Jeová era o único Deus. Mas nem J nem E eram monoteístas.”

             (extraído de “A Bíblia”, de Karen Armstrong, com ligeiras adaptações da minha parte)

 

Livro de J é utilizado aqui como um título para o que os estudiosos concordam ser o estrato mais arcaico do Pentateuco, obra de uma autora, a Javista. Os estratos ulteriores do Gênesis, Êxodo e Números são todos revisões ou censuras a J, e seu (s) autor(es), é (são) designado(s) por E, o Eloísta (J sempre utiliza “Elohim” como um nome para seres divinos em geral, e nunca como o nome de Deus); P, da Escola Sacerdotal, o qual escreveu quase todo o Levítico; D, responsável pelo Deuteronômio; e R, de Redator, o responsável pela revisão final e homogeneização forçada.

         O Livro de J está encravado naquilo a que chamamos de Gênesis, Êxodo e Números. Presumo que J viveu na corte do filho e sucessor de Salomão, Roboão de Judá, sendo uma mulher extremamente sofisticada e bem posicionada da elite salomônica, iluminada e irônica. Na verdade, não sabemos se J era homem ou mulher, mas nossa imaginação moral pode calcular a passagem das possibilidades para o nível das probabilidades, quando comparamos J aos outros trechos dos livros citados, ou ao conjunto da literatura subsistente do antigo Oriente Médio. O que é novo em J? Onde se reúnem suas originalidades ? O que há no tom, na postura e no modo de narrar de J que foi diferente o bastante para fazer a diferença? Grande parte da resposta dirá respeito à representação da mulher se comparada à do homem; outra parte à ironia…a qual produz a curiosa questão do antropomorfismo da representação de Javé (Jeová) como humano, demasiado humano. O que J retrata com terna ironia é um judaísmo arcaico. O embaraço causado pelas traquinagens do Javé de J já começou com os primeiros revisionistas… A mais gritante postura irônica de J concerne à representação de realidades totalmente incomensuráveis se justapondo e contrapondo. Como pode Abraão discutir com Javé? Como pode Jacó ser capaz de lutar de igual para igual com um enviado? Ou, bem mais singelamente, como se pode achar convincente que Esaú troque seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas? Tudo nos leva à representação de um Javé infantil, até pueril, e ainda assim Javé, e nenhum outro, ou seja, totalmente incomensurável, incognoscível.

         A economia é, certamente, a força específica de J. O mais elíptico dos grandes escritores, ela demonstra de modo contínuo que deixar alguma coisa de fora é a melhor maneira de compelir o leitor/ouvinte a estar rigorosamente alerta.

         Mas com que autoridade, e com que propósito, pode se empreender essa busca? Que utilidade pode ter a recuperação de um hipotético Livro de J? Tenho consciência de que pode ser um esforço vão almejar uma reversão de dois mil e quinhentos anos de desleitura institucionalizada. O Eloísta, E, trabalhando cerca de duas gerações mais tarde que J combinou o texto dela com um material variado, retrabalhou o sacrifício de Isaac, a luta de Jacó com o anjo, e então deu início à tradição de reduzir a extraordinária autora a algo mais normativo… Um redator de gênio inquestionável produziu a Toráh provavelmente da forma como hoje a conhecemos. Considero esse redator, R, um homem impressionante, mas temo que ele seja o vilão do presente livro, pois estou certo de que ele é o grande mutilador de J.

         R é o autor compósito da Toráh, creditado por Robert Alter como o realizador de uma mescla altamente estético e novelística dos textos de J, E, D e P. O elogio maior feito a R veio do grande crítico Northrop Frye, para quem a pulverização das várias fontes foi tão completa que somos totalmente incapazes de reconstituir qualquer uma delas. Meu livro visa à reconstituição de J, o maior escritor judeu, pelo bem da escrita e pelo nosso bem.”

              (adaptação de trechos do LIVRO DE J, de Harold Bloom)

 haroldo de campos

“O termo javista, no qual se inclui o episodio do Éden, da criação de Adão do pó da terra e da Eva de sua costela, e da intervenção desagregadora da serpente, foi, não faz muito, reproposto polemicamente à consideração dos estudiosos como extraordinária arte verbal a ser resgatada da leitura meramente confessional. O responsável por essa proposta é Harold Bloom, o qual, em 1990, publicou O Livro de J., onde sustenta a tese de que o autor do excerto javista da Bíblia Hebraica seria uma autora, uma dama ilustrada da Corte Salomônica, e que essa porção do Toráh podia ser reconhecida como uma obra-prima, mesmo levando em conta as mutilações, revisões e rasuras.

     Nada obsta, em princípio, que se conjecture, com engenho e empenho, em torno de uma remotíssima figura de mulher e escritora, educada no áureo período salomônico (século X antes da era cristã)… Mas Robert Alter refutou minuciosamente a hipótese de Bloom, tecendo críticas cerradas, embora elogie seu convite para olhar os antigos escritos com olhos novos. Quais seriam os furos da interpretação bloominiana? Em primeiro lugar, seu escasso conhecimento de hebraico. Disso decorreria uma gravíssima conseqüência: Bloom ter se apoiado, para suas intuições críticas, avaliações estéticas e desenvolvimentos exegético-hermenêuticos, não no original, mas na versão para o inglês do suposto texto de J., feita por David Rosenberg. Para Alter, Bloom tomou uma decisão catastrófica ao atrelar seu projeto à tradução de Rosenberg, porque quando ele nos fala de J. ele está falando na verdade da versão inglesa e atual de Rosenberg. Este estaria muito longe de recriar convincentemente o original e mostraria, segundo Alter, um pendor de poetastro por clichês metafóricos. Que Bloom tenha sido capaz de tão extremado lapso de gosto, comparando o discutível estilo tradutório de Rosenberg ao deslumbrante inglês shakesperiano, isto somado a outras falhas, leva Alter a ser cético quanto à hipótese da autoria feminina levantada pelo scholar de Yale. Encara-a como o resultado, fragilmente documentado, de um fundamentalismo, não religioso, mas reivindicatório de uma personalidade autoral, por um lado, e, por outro, das virtudes de um intuitivismo crítico desvelador, capaz de captar as inflexões de uma suposta Voz feminina.

       Outro estudioso, Richard Friedman ratifica, ademais, que não é possível distinguir de fato o ângulo estilístico entre J. e E., fato que relativizaria ainda mais a singularidade de J. tão decantada por Bloom.

        Tanto quanto posso julgar, a tradução de Rosenberg não tem, de fato, a categoria que lhe atribui Bloom (apesar de apresentar, aqui e ali, soluções de interesse). Para quem se deu ao trabalho de confrontar o texto original hebraico com essa versão para o inglês, como eu o fiz, minuciosamente, será fácil comprovar a procedência das restrições de Alter.

       Assim, por exemplo, no episódio de Babel, Bloom, alicerçando-se na versão de Rosenberg, dá extrema importância a um suposto jogo de palavras e de sentidos (atribuído às intenções de sua J.), em torno do verbo to bind e derivados. No hebraico, onde Rosenberg coloca unbound, desvinculados, no original aparece apenas pen-nafutz, dispersados. O mesmo se diga de bound to build, vinculados, comprometidos com; no original, asher banú, construindo (apenas no sentido de edificação, sem o vínculo moral, o comprometimento)… e assim por diante…

   Dessa forma, o sutil jogo de palavras de J., na acepção de Bloom, só existe na versão substitutiva de Rosenberg, ainda que o texto do Gênese, em outros pontos, apresente-se perpassado por efeitos relevantes de som e sentido.

     Mas Bloom não fica só no terreno da avaliação estilística, estética. Como teórico da desleitura (misreading), ironicamente enredado em sua própria percepção teórica, continua, sempre imaginoso e estimulante, a derivar conclusões de matriz lúdica que põe em relevo, ainda que dúbia, equivocada, quando conferida com o texto hebraico de origem. Assim, o conceito de boundary (derivado daquele jogo de palavras é arrolado por ele entre os grandes tropos do exílio. Citando-o: o Exílio definitivo é a confusão, a dispersão até mesmo dos limites (boundaries), a perda que não tem qualquer nome”, prolongando a Queda e a Expulsão do Éden no episódio de Babel.”

             (adaptação de trechos de Éden, um tríptico bíblico, de Haroldo de Campos)

 robert alter

“A um exame mais minucioso logo se vê que o texto bíblico é ao mesmo tempo múltiplo e fragmentário. É muito comum não se ter certeza sobre os limites de um determinado texto, sobre como ele prossegue em textos adjacentes e por que é ignorado, discutido, citado ou mesmo copiado em outros lugares da Bíblia. Um desafio ainda mais sério à integridade de muitos textos bíblicos que gostaríamos de considerar como totalidades literárias deriva da natureza delicadamente estratificada do material articulado pela tradição antiga… o que temos, na realidade, é uma costura contínua de textos anteriores, provenientes de tradições divergentes, inclusive de tradições orais, com interferências, menores ou maiores, de revisões posteriores sob a forma de glosas, costuras, fusões, e assim por diante. Os especialistas identificaram como o exemplo mais notável desse caráter compósito do texto bíblico os primeiros quatro livros do Pentateuco; análises exaustivas de estilo, consistências de dados narrativos, visões teológicas e premissas históricas demonstram que eles são uma montagem de três linhagens básicas e independentes de documentos: o documento javista (J), o documento eloísta (E) e o documento sacerdotal (P)… O que se deve fazer então quando lemos textos que os especialistas nos convidam a ver, pelo menos nos exemplos mais radicais, como uma colagem desvairada de tradições antigas?… Gostaria de propor neste capítulo que os autores e redatores bíblicos, visto que a distinção entre os dois nem sempre é clara, trabalhavam com noções de unidades bastante diferentes das nossas, e que a plenitude de expressão que procuravam obter levou-os muitas vezes a transgredir o que uma cultura e uma época posteriores inclinaram-se a diagnosticar como cânones de unidade e coerência lógica. O texto bíblico pode não ser o tecido acabado que a tradição judaico-cristã pré-moderna imaginou, mas pode ser que a miscelânea confusa forme um padrão intencional, se lida com mais minúcia.

         É claro que certas passagens da narrativa bíblica parecem resistir a toda interpretação harmonizadora, levando-nos a concluir que determinadas circunstâncias na transmissão e redação dos antigos textos hebreus provocaram uma incoerência inerente ou que a noção bíblica de seqüência narrativa pode ser às vezes inescrutável, dada a enorme distância histórica e intelectual… Não acho razoável atribuir a confusão a mera negligências dos redatores… É claro que nossos conceitos de coerência espacial dos acontecimentos, de identidade dos personagens, de coesão lógica entre ação e motivo de ação são aqui flagrantemente violados.

         Vejamos agora um exemplo conciso de narrativa compósita em que a duplicação se soma a uma suposta contradição: no fim da primeira visita dos irmãos de José ao Egito (Gênesis, 42), José, que eles ainda julgam ser apenas o vice-rei egípcio, dá ordens secretas para que o dinheiro que eles pagaram pelo trigo seja enfiado de volta nos sacos de cada um. Lembremos que os irmãos já tinham se abalado por conta da prisão temporária a que foram submetidos, sob a acusação de serem espiões, e por José ter tornado Simeão refém, insistindo que trouxessem Benjamin, o caçula, ao Egito. Esses dois últimos atos do vice-rei fizeram com que os irmãos, por uma série de associações motivadas pela culpa, lembrassem a crueldade que haviam praticado contra o jovem José e imaginassem que afinal chegara o castigo pelo crime. Pois bem, no primeiro sítio em que acamparam, um deles abriu o saco de forragem e viu o dinheiro. Os corações deles desfaleceram e disseram-se: Que é isto que Deus nos fez?

         Assim que levantam essa dúvida acerca da estranha obra do destino, pois a força da palavra Deus, no original, não fica muito distante do sentido de destino, o narrador faz com que corram à casa do pai, Jacó, para contar os problemas que tiveram com o vice-rei egípcio, inventando uma explicação para a ausência de Simeão e o pedido do egípcio que levassem Benjamin até ele. Exatamente nessa altura do texto, o dinheiro escondido nos sacos faz um estranhíssimo reaparecimento: Quando eles descarregavam os sacos, eis que a bolsa de dinheiro de cada um estava dentro do saco, e quando viram suas bolsas de dinheiro sentiram medo, eles e seu pai. Então Jacó disse: Vós me privastes de meus filhos: José se foi, Simeão se foi, e agora quereis me tomar Benjamin? É sobre mim que tudo isso recai. Em nosso modo de entender a lógica narrativa, é obviamente impossível que os irmãos tivessem descoberto duas vezes o mesmo dinheiro escondido e ficassem igualmente surpresos e amedrontados nas duas ocasiões… Geralmente, os estudos especializados sobre a Bíblia explicam essas duplicações como um descuido na redação final do texto. A hipótese aceita é a de que havia duas versões paralelas da história de José, a da tradição eloísta (E) e a da tradição javista (J), entre as quais existiam diferenças de detalhes essenciais.  O relato da tradição eloísta é a fonte principal; nessa versão, o dinheiro só é descoberto quando os irmãos chegam em casa. Na versão javista, a palavra empregada não é saq (saco, bolsa) e sim ´amtahat, que pode conter tanto forragem quanto moedas de prata. Tende-se a presumir que o redator final, seja por fidelidade equivocada à segunda fonte, seja por erro de julgamento, incluiu um fragmento de J que destoa do todo.

         A esse respeito, eu gostaria de levantar uma questão de princípio que poderá nos ajudar a entender o propósito das duplicações. A contradição entre os eventos é tão patente que parece ingenuidade supor que o redator fosse tão tolo ou incapaz a ponto de não percebê-la. Gostaria de sugerir, em vez disso, que o redator estava perfeitamente consciente da contradição, mas considerou-a superficial. Pela lógica linear, a mesma ação não poderia ocorrer duas vezes de duas maneiras diferentes, mas pela lógica narrativa com a qual ele trabalhava, fazia sentido incorporar as duas versões que tinha à mão, porque juntas elas revelavam implicações mutuamente complementares do evento narrado e lhe permitiam fazer um relato completo. A versão J, na qual os irmãos descobrem o dinheiro quando estão sozinhos na caravana entre o Egito e Canaã, acentua o espanto deles diante do acontecimento inesperado: a ênfase recai na impressão que lhes fica dos estranhos caminhos do destino. A versão J tem por isso importância crucial, porque vincula a descoberta do dinheiro ao tema do conhecimento de José dos fatos em contraste com a ignorância dos irmãos, o que é decisivo para os dois encontros no Egito e, na realidade, para a história inteira. Quando os irmãos perguntam o que Deus fizera com eles, detectamos uma ironia dramática, ligada às ironias dramáticas da cena anterior no palácio do vice-rei. A verdade é que José serve e age como agente do destino (instrumento de Deus), no grande plano da história, e até os irmãos, que tanto se escandalizaram com o sonho em que José vê o sol,  a luz e onze estrelas prostradas a seus pés, falam agora em Deus, quando nós, leitores, sabemos que estão se referindo ao que José fez (mandar esconder de volta o dinheiro do trigo).

         A versão E do mesmo acontecimento, na qual a descoberta se dá na presença de Jacó, é muito mais resumida e descreve sucintamente a reação dos irmãos à vista do dinheiro encontrado, com uma única palavra, medo, e sem um diálogo que represente sua estupefação com os caminhos escolhidos pela Providência Divina. A meu ver, essa versão sugere simplesmente medo, sem assombro, porque pretende mostrar uma ligação  direta entre a descoberta do dinheiro e o sentimento de culpa dos irmãos pelo que haviam feito a José. No estilo característico da Bíblia, o narrador não explica a culpa, limita-se a sugeri-la e volta a insinuá-la nas palavras com que José responde aos irmãos. Assim como os filhos, Jacó viu o dinheiro. E também deve ter percebido neles o medo que sentiam. Então, como que verbalizando a culpa silenciada, Jacó volta-se para eles e acusa. Não faz nenhuma acusação direta, mas agora é como se, impelido pela retórica, ele chegasse perto da verdade pura.

         A história de José tem um eixo moral-psicológico e um eixo teológico-histórico. Neste, o que importam são as obras misteriosas de Deus, o papel de José e o importantíssimo tema do conhecimento em oposição à ignorância. No primeiro eixo, o aspecto fundamental é o doloroso processo pelo qual os irmãos aceitam a responsabilidade pelo que fizeram e são levados a lidar com a culpa. Não tenho como verificar cabalmente minhas conclusões sobre o princípio formal que guiou o redator bíblico, mas me parece pelo menos plausível que ele se tenha disposto a incluir na narrativa o mal menor da duplicação e da aparente contradição em prol de conferir visibilidade aos dois eixos principais de sua história num momento crítico do enredo. O escritor bíblico, habituado a cortar, juntar e montar com extrema perícia materiais literários anteriores, parece ter tido a intenção de obter esse efeito de verdade multifacetada ao apresentar em seqüência duas versões diferentes, que ressaltavam duas dimensões distintas do mesmo assunto.

           (trechos adaptados de A arte da narrativa bíblica, de Robert Alter)

 

“As narrativas da Bíblia são afinal relatos históricos ou ficções? Há certas áreas verbais, como a do jornal diário, onde julgamos importante saber se as histórias que ali encontramos são verdadeiras ou apenas elucubrações, o tipo de importância normalmente atribuída a Bíblia aponta para a consideração de que ela também seja uma dessas áreas. Além disso, essa questão não é secundária ou anacrônica: mesmo o Velho Testamento é jovem o suficiente para que seus escritores tenham sido capazes de nos transmitir a história real, se assim o quisessem (apesar de que há partes ali que são anteriores a Heródoto). E ninguém nega que a Bíblia tenha um interesse apaixonado por questões de caráter histórico. Ainda assim a formalização da Bíblia para essa questão permanece curiosamente enigmática, tão enigmática que ficamos com a impressão de que deve haver algo de errado.

       Começa-se com histórias de criação e dilúvio, que parecem ser mitos não apenas no sentido de histórias cosmogônicas e sagradas, mas também no sentido coloquial e negativo de serem relatos de eventos que dificilmente teriam se passado daquela forma, e que são parecidíssimas com outros mitos de criação e dilúvio oriundos de outras partes do mundo.

      Já as histórias de Abraão e do Êxodo pertencem a uma área que devemos chamar de reminiscências históricas. Ou seja, sem dúvida contêm um grão de história real.  Já que base histórica há para a narrativa que chegou até nós é uma outra história. Ainda não foi possível para os egiptólogos ligar o êxodo hebreu a nenhuma outra coisa que saibam da história do Egito. Parece que os egípcios nada sabiam a respeito de um imenso êxodo, assim como o Imperador Augusto nada sabia do nascimento de Cristo.

       Quando chegamos ao que parece ser realmente histórico, onde podemos acrescentar algumas datas e provas, descobrimos que a histórica (no sentido didático) é manipulada. Os reinos do norte da Judéia e de Israel recebem uma classificação em preto e branco (branco, se promovem o culto a Javé; preto, em caso contrário).

        Chegamos a um princípio geral que pode ser expresso da seguinte maneira:  se alguma coisa na Bíblia é verdadeira do ponto de vista histórico, ela lá está por outra razão que não esta. A verdade histórica nada tem a ver com profundidade espiritual. É óbvio que o Livro de Jó, jamais visto seriamente como algo além de um drama imaginativo (um dos mais poderosos já concebidos pela humanidade), é muito mais profundo espiritualmente do que as listas que constam dos Paralipômenos, embora estas listas contenham registros históricos genuínos. Quando nos movemos do obviamente lendário para o provavelmente histórico a fronteira nunca é muito precisa. Ou seja, de que o sentido de fato histórico como tal simplesmente não é delimitado na Bíblia.

      Uma indicação do viés pelo qual a Bíblia se interessa está no Livro dos Juízes. Este livro era uma coleção de histórias sobre heróis que originalmente eram líderes tribais; ele foi editado de tal modo a ganhar a aparência de ser a história de uma Israel unida que atravessa uma série de crises muito semelhantes entre si. Israel, onde o espírito de apostasia se manifesta de modo excepcionalmente consistente, renuncia a seu Deus, é escravizada, clama ao mesmo Deus por liberdade, e então um juiz é enviada para libertá-la. Aqui se vê uma série de conteúdos diversos que acompanham uma forma narrativa ou mítica repetitiva que os contém. Há uma enorme ênfase na estrutura, devido ao interesse moral que justifica sermos submetidos ao mesmo tipo de história interminavelmente, o que indica serem as histórias individuais construídas para que se ajustem a um mesmo padrão. A distância que têm dos eventos históricos é a mesma quer tem a pintura abstrata de uma representação realista; mais: a relação é a mesma. A prioridade cai sobre a estrutura mítica, ou esboço, da história, não sobre o conteúdo histórico.”

        (trechos adaptados de The Great Code- O Código dos Códigos, de Northop Frye)

auerbach 

“Pode-se abrigar facilmente objeções histórico-críticas quanto à Guerra de Tróia e quanto às errâncias de Ulisses, e ainda assim sentir, na leitura de Homero, o efeito que ele procurava, mas quem não crê na oferenda de Abraão não pode fazer do relato bíblico o uso para o qual foi destinado. É necessário ir mais longe ainda: a pretensão de verdade da Bíblia é não só muito mais urgente que a de Homero, mas chega a ser tirânica; exclui qualquer outra pretensão. O mundo dos relatos das Sagradas Escrituras não se contenta com a pretensão de ser uma realidade historicamente verdadeira. Pretende ser o único mundo verdadeiro, destinado ao domínio exclusivo. Qualquer outro cenário, quaisquer outros desfechos ou ordens não têm direito algum a se apresentar independentemente dele, e está escrito que todos eles, a história de toda a humanidade, se integrarão e se subordinarão aos seus quadros… Na história de Isaac não é somente a intervenção de Deus no princípio e no fim do relato, mas também os elementos factuais e psicológicos no seu interior que permanecem obscuros, tocados apenas de leve, carregados de segundos planos; e é justamente por isso que não só precisam de investigação profunda e interpretação, mas até o exigem. Que Deus tente até o mais piedoso da maneira mais terrível, que a obediência incondicional seja a única atitude possível perante Ele, mas que também a sua Promessa seja inamovível, por mais que as suas decisões pareçam destinar-se a produzir a dúvida e o desespero, estes são os ensinamentos mais importantes contidos na história de Isaac e, por sua causa, o curto texto fica tão pesado, tão carregado de conteúdo, contendo em si tantas alusões acerca da essência de Deus e da atitude do homem piedoso, que o crente se vê motivado a se aprofundar uma e outra vez no texto e a procurar em todos os seus pormenores a luz que possa estar oculta. E como, de fato, há no texto tanta coisa obscura e inacabada,e como ele sabe que Deus é um Deus oculto, o seu afã interpretativo encontra sempre novo alimento. A doutrina e o zelo na procura da iluminação estão indissoluvelmente ligados ao caráter do relato (este, portanto, é mais do que mera realidade)… Se, desta forma, o texto do relato bíblico necessita tanto de interpretação a partir do seu próprio conteúdo, sua pretensão à autoridade absoluta leva-o ainda mais longe por esta senda: devemos inserir nossa própria vida no seu cosmos, sentirmo-nos partícipes da sua estrutura histórico-universal. Isto se torna cada vez mais difícil à medida que o nosso mundo vital se afasta do mundo das Escrituras, e se este mundo textual, apesar de tudo, mantém em pé a sua pretensão  à autoridade, é imperioso que ele próprio se adapte, através de uma transformação interpretativa. Isto foi relativamente fácil por muito tempo: durante a Idade Média européia era possível, ainda, representar os acontecimentos bíblicos como sucessos quotidianos contemporâneos, para o que o método exegético fornecia as bases. Quando isso se torna impraticável, pela transformação demasiado profunda do meio ambiente e pelo despertar de uma consciência crítica, a pretensão à autoridade corre perigo; o método exegético é desprezado e deixado de lado, os relatos bíblicos convertem-se em velhas lendas e a doutrina, desmembrada dos mesmos, torna-se uma forma incorpórea que não mais penetra na realidade sensível ou que se volatiliza na exaltação pessoal…

    Os poemas homéricos fornecem um complexo de acontecimentos preciso, espacial e temporalmente delimitado; independente dele, concebem-se tranqüila e facilmente outros complexos anteriores, simultâneos e posteriores. O Velho Testamento, porém, fornece História Universal; começa com  o princípio dos tempos, com a criação do mundo, e quer acabar com o fim dos tempos, com o cumprimento da promessa, com a qual o mundo deverá encontrar o seu fim. Tudo o mais que ainda acontece no mundo só pode ser apresentado como elemento dessa estrutura, como parte constitutiva do plano divino, e como isto só é possível pela interpretação do novo material afluente, a necessidade exegética se estende além dos campos primitivos da realidade judaico-israelita, por exemplo, à história assíria, babilônica, persa, romana; a interpretação torna-se um método geral de apreensão da realidade… O trabalho interpretativo de maior ressonância desta espécie ocorreu nos primeiros séculos do Cristianismo, como conseqüência da missão entre pagãos, e foi realizado por Paulo e pelos Pais da Igreja; eles re-interpretaram toda a tradição judaica numa série de figuras a prognosticar a aparição de Cristo e indicaram ao Império Romano o seu lugar dentro do plano divino da salvação. Portanto, enquanto por um lado a realidade do Velho Testamento aparece como verdade plena, com pretensões à hegemonia, as mesmas pretensões obrigam-na a uma constante modificação interpretativa do seu próprio conteúdo, ressignificando-o…

         O Velho Testamento é incomparavelmente menos unitário na sua composição do que os poemas homéricos, é mis evidentemente feito de retalhos, mas cada um deles pertence a um contexto histórico-universal e interpretativo da História da Humanidade. Ainda que tenham recebido elementos dificilmente encaixáveis, ainda assim estes são apreendidos pela interpretação; e assim o leitor sente a cada instante a perspectiva religiosa e histórico-universal que confere a cada um dos relatos o seu sentido e a sua meta globais. Quanto mais isolados e horizontalmente independentes são os relatos e os grupos de relatos, se comparados com os da Ilíada e os da Odisséia, tanto mais forte é a sua ligação vertical comum que os mantém todo juntos sob um mesmo signo, o que falta totalmente a Homero.”

         (trechos adaptados de Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental, de Erich Auerbach)

 

“Quanto à produção do Antigo Testamento como um todo, sugeriu-se que o primeiro material a ser coletado e colocado numa narrativa coerente foi a história das origens de Israel. Sugeriu-se também ue a época de Ezequias (727-698) foi uma ocasião plausível para esta atividade. A destruição do reinado do norte em 722-721 e a a migração para Jerusalém de grupos de escribas e profetas ue preservaram a tradição sobre Jacó, o ancestral do norte, assim como sobre os profetas Elias e Eliseu, foram o catalisador para o empreendimento da tarefa de construir uma grande narrativa. Como ele foi feito em Judá, as tradições sobre o ancestral judaíta, Abraão, precederam as do ancestral israelita, Jacó.      Um segundo estágio importante foi o surgimento e obra dos deuteronomistas no século VII a.C. durante o reinado de Josias. Leis provavelmente derivadas das tradições do norte formaram o grosso das seções legais do Deuteronômio. A narrativa a partir do relato de Josué em diante foi intensamente reeditada para mostrar que as tragédias que haviam assolado o povo, inclusive a perda do reino do norte, tinham acontecido por causa dos pecados do próprio povo e, em especial, de seus governantes, particularmente no reino do norte.      O estágio seguinte foi a destruição de Jerusalém, em 587. Exigiu mais reflexões sobre a narrativa em geral e também chamou a atenção para as duas outras áreas: lei e profecia.  Como os profetas tinham sempre alertado para um iminente desastre se governantes e povo não observassem a Lei, a coleção e edição dos oráculos dos profetas se tornaram uma prioridade, como se tornaram a coleção e estudo das leis. Por conseguinte, as primeiras duas seções do cânon hebraico posterior, a lei (Gênesis e Deuteronômio) e os profetas (Josué, Juízes, Samuel, Reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel) começaram a se aproximar da sua atual forma.

      Mas um estágio importante da edição, a dos círculos sacerdotais, ainda estava por vir, e é provável ue isto tenha acontecido em Jerusalém nos séculos V-IV. Essa revisão afetou particularmente Gênesis e Números, e viu não só a inclusão do ritual, leis sacerdotais e sacrificiais de Êxodo, Levítico e Números, mas também o uso da chamada história sacerdotal como a estrutura básica de toda a narrativa. Hoje ela começa com a criação do mundo e também incorporou tradições evidentemente não-sacerdotais como a história do Jardim do Éden e Caim e Abel.

     A obra foi executada em círculos sacerdotais no templo de Jerusalém, e a estes círculos também é plausível atribuir a coleção e edição dos Salmos, do Livro dos Provérbios e Lamentações. Uma geração posterior de autores sacerdotais compôs o Livro das Crônicas, com a tônica na continuidade do seu templo com a adoração da época de Davi e Salomão.

       A Jerusalém dos séculos IV-IIII viu o surgimento de uma sociedade urbana mais diversificada que a anterior, e foi nestes círculos que obras como Jó, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos foram produzidas. É também necessário supor a existência de uma biblioteca, ou bibliotecas, se levarmos em conta a preservação e disponibilidade desses textos para posterior inclusão no Antigo Testamento. A crise final que precipitou a atividade literária e editorial foi a perseguição sob Antíoco, em 169 a.C, que produziu os Livros de Daniel e Ester.

       Devemos lembrar, entretanto, que produzir livros não era uma questão de o autor completar algo que depois era aperfeiçoado. O processo de composição não tinha fim, com a obra de autores transformando-se gradualmente na dos copistas atrávés de editores.”

 

Cronologia da composição dos livros do Antigo Testamento e de alguns Apócrifos

 

séculos X e IX a.C

registros da administração do templo e da corte compilados em Jerusalém

século VIII a.C

Início da coleção de material escrito que vai ser, ou compor, o Antigo Testamento: oráculos dos profetas Oséias, Amós, Miquéias e Isaías; primeiros esboços da história de Israel e Judá desde Abraão; coleção de leis, provérbios e salmos

século VII a.C

coleção de palavras dos profetas  Jeremias, Naum, Sofonias, primeiros esboços do Deuteronômio, história geral de Israel & Judá ampliada até a época de Josias

século VI a.C

coleção de palavras dos profetas (Jeremias, Ezeuiel, Isaías, Habacuue, Ageu, Zacarias); outras demãos editoriais sobre a História de Israel e Judá, desde Abraão até a destruição de Jerusalém; e sobre o Deuteronômio. Composição de Salmos e Lamentações

século  V a.C

O Pentateuco (Gênesis + Deuteronômio) começa a assumir algo parecido com a sua forma atual. Livros de Esdras, Neemias, Jonas, Rute.

século IV a.C.

Novas composições: Livros de Crônicas, Malauias, capítulos posteriores de Zacarias, Cântico dos Cãnticos, Jó, Eclesiastes, Estes.

século III a.C.

Novas composições (Isaías, capítulos 24 ao 29), Enoque (capítulos que vem do 1 ao 36 e 72 a 92).

século II a.C.

Novas composições incluem Daniel, Macabeus, apócrifos (Jesus ben Sirac, Eclesiástico), além de outras partes de Enoque e Sabedoria de Salomão.

século I a.C

Partes complementares de Macabeus, Tobit, Judite, Baraque, Manassés.

             (extraído com ligeiras adaptações de Uma Introdução à Bíblia, de J.W. Rogerson).

 

 

séculos XIII-XII a.C: os israelitas se estabelecem numa região montanhosa de Efraim, Galiléia e Transjordânia. Os filisteus se estabelecem na planície costeira.

 

século XI a.C: os crescentes conflitos entre filisteus e israelitas levam ao surgimento de um “reinado” israelita sob o comando de Saul (c. de 1020)

 

séc. X a.C: Davi derrota os filisteus, faz de Jerusalém a capital e une Israel e Judá, sendo sucedido por Salomão, que edifica o Templo. Depois de sua morte, Israel se separa de Judá.

 

séc. IX a.C: Israel se torna uma nação dominadora na região, controlando Judá e arredores.

 

séc. VIII a.C: Os profetas Oséias e Amós criticam a injustiça social e o sincretismo religioso em Israel, ue é destruído pelos assírios em 722-721. Judá, sob Ezequias, assume o papel de Israel+Judá, mas é invadido em 701.

 

séc. VII a.C: Judá é província da Assíria, que declina como nação, enquanto a Babilônia ascende. Josias proclama a independência de Judá e faz um reforma religiosa.

 

séc. VI a.C: Nabucodonosor,da Babilônia, domina a região e submete Jerusalém em 597. A cidade é destruída em 587. Em 540, Ciro, rei da Pérsia, derrota os babilônios.  O Templo é reconstruído em 515.

 

séc. V a.C: Judá é província a Pérsia.

 

séc.  IV a.C: A Pérsia é derrotada por Alexandre. Inicia-se a era de influência grega em Judá.

 

séc. III a.C: Judá é governado pelos Ptolomeus, governantes gregos do Egito. O estabelecimento de colônias judaicas no Egito, especialmente Alexandria, faz com que parted do Antigo Testamento sejam traduzidos para o grego.

 

séc. II a.C.: A helenização do judaísmo, mais a profanação do templo, graças à interferência do rei Antíoco IV, levam à revolta dos macabeus.

 

séc. I a.C: Judá torna-se província romana, sob o governo de Herodes.

 

 

“…quanto mais fundo sondamos, quanto mais abaixo tenteamos e calcamos o mundo inferior do passado, tanto mais comprovamos que as bases mais remotas da humanidade, sua história e cultura, se revelam inescrutáveis. Por temerários que sejamos no cumprimento que dermos à nossa sonda, ela se estira ainda, aprofundando-se cada vez mais. Não é sem razão que falamos em estirar-se e aprofundar-se, porquanto aquilo que é investigável zomba dos nossos ardores inquisitivos; oferece pontos-de-apoio e metas aparentes, por trás das quais, depois que as atingimos, surgem ainda novas províncias do passado, tal como acontece a quem navega ao longo da costa sem encontrar termo para sua viagem, porque, por trás de cada promontório de duna argilosa que ele conquista, pontas de terras inesperadas e novas distâncias continuam a negaceá-lo.

         Podem assim existir origens provisórias que praticamente e de fato formam os primórdios da tradição particular mantida por uma dada comunidade, por um povo ou por uma comunhão de crença; e a memória, embora suficientemente inteirada de que na realidade não foram sondadas as profundezas, pode, contudo, do ponto de vista nacional, conformar-se com aqueles primórdios e, pessoal e historicamente falando, vir a descansar aí.

         O jovem José, por exemplo, filho de Jacó e da formosa Raquel… José, vivendo naquela região da terra de Canaã, nas tendas de seu em pai em Hebron, José que era  um jovem famoso pelo encanto que herdara de sua mãe… José, afinal e para concluir (pela quarta ou quinta vez eu digo o nome dele, e com prazer, porque há mistério nos nomes…); José, pela sua parte, considerava uma certa cidade chamada Ur, na Babilônia Meridional, como o princípio de todas as coisas, isto é, de todas as coisas que lhe diziam respeito.

         É que dali, em época já muito remota (José nunca tivera cabal certeza de quão remota ela era), um homem pensativo e interiormente inquieto, com sua mulher, a quem ele, provavelmente por ternura, costumava chamar de irmã, partira com outras pessoas de sua família, para fazer como fazia a lua, que era a divindade de Ur, vagueando sem rumo certo, porque achava isto muito adequado à sua situação insatisfeita, dúbia, tormentosa… A tradução transmitida a José variava um tanto em relação àquilo que mais particularmente molestara o desassossegado… Diz a tradição que seu Deus (aquele Deus diante de cuja imagem seu espírito trabalhava, o mais alto dentre todos, único a quem resolvera servir por orgulho e amor, o Deus para o qual ele procurara um nome e não achara nenhum conveniente e por isso lhe dera o plural, chamando-lhe provisoriamente Elohim, a Divindade), pois bem, Elohim lhe fizera promessas de imenso alcance e claramente definidas, de acordo com as quais não só ele, o homem de Ur, viria a ser um povo tão numeroso quanto as areias do mar e uma bênção para todos os povos, mas também a terra onde ele vivia como estrangeiro e aonde o conduzira Elohim, tirando-o da Caldéia, seria possessão perpétua dele e de sua descendência… Por outras palavras, Deus fadara as populações nativas à derrota e à sujeição ao interesse do homem de Ur e de sua raça. Tudo isso, porém, deve ser acolhido com restrições, ou no mínimo com critério. Estamos lidando com interpolações posteriores, feitas deliberadamente para confirmar, como intuitos primitivos da divindade, situações políticas que de começo tinham sido estabelecidas pela força. Na realidade o espírito daquele homem erradio não era talhado para receber ou provocar promessas de natureza política… O que  o pusera em movimento foi desassossego de espírito, necessidade de Deus e se lhe foram outorgados favores, tinham relação com as irradiações do seu conhecimento pessoal de Deus, que era de uma espécie inteiramente nova

         Por vezes, José tinha o homem errático na conta de seu bisavô, embora tal idéia deva ser francamente afastada dos domínios do possível… e quando o fazia era para divertir o pensamento, o que condiz admiravelmente com o seu espírito, mas não ficaria bem ao nosso, sendo-nos portanto vedado fazê-lo… entre o menino José e a peregrinação de seu suposto antepassado no espírito e na carne mediavam bem, conforme o sistema cronológico em vigor na sua idade e esfera, vinte gerações, ou, em números redondos, seiscentos anos babilônicos, lapso de tempo tão longo como o que vai do nosso século vinte ao período gótico da Idade Média; tão longo quanto ele, no entanto muito menor… Seiscentos anos naquelas eras e embaixo daquele céu não significavam o que significam na nossa história ocidental. Era um período mais igual, mais silencioso, mais mudo; o tempo era menos eficiente, sua faculdade de suscitar mudanças tinha um alcance mais fraco e mais restrito, muito embora naquelas vinte gerações ele por certo produzira mudanças e revoluções de considerável monta… e contudo, tomado em conjunto, o tempo de então fora mais conservador que o tempo de agora, o teor da vida de José, seus modos e hábitos de pensar eram muito mais chegados aos seus do que os nossos em relação aos dos cruzados. A memória, repousando na tradição oral de geração a geração, era mais direta e confiante, fluía mais livremente, o tempo apresentava uma vista mais uniforme e por isso mesmo mais fácil de abranger. Não se pode censurar a José o encurtá-lo em seus sonhos, e estando alguma vez a devanear, talvez à noite, ao luar, confundir o homem de Ur com o avô de seu pai…. o seu desejo de achar um começo para a série de acontecimentos que lhe diziam respeito ia tropeçar na mesma dificuldade que sempre se contrapõe a um tal esforço, isto é: verificar que cada qual tem um pai, que nenhuma coisa é  a primeira e nasce de si mesma, nem é causa de si própria e que toda a gente é gerada e aponta para trás, mais fundo dentro da profundidade das origens, nos abismos e sumidouros do passado… Aqui o cérebro do jovem começava a sentir vertigens, exatamente como acontece ao nosso quando nos debruçamos sobre o poço do passado; e deixando de parte umas insignificantes inexatidões que a si mesma permitia sua linda e graciosa cabecinha mas que a nós não ficam bem, podemos sentir-nos bem próximos dele, quase seus contemporâneos, quando falamos nessas remotas profundezas e abismos do tempo em que ele, tantos séculos atrás, já fitava a vista.”

 

“Desta maneira são formados aqueles começos, aqueles bastidores do passado, onde a memória pode deter-se e acha um ponto-de-apoio para alicerçar sua história pessoal, como fez José em relação a Ur, a cidade, e a seu antepassado que dali partira. Era uma tradição de inquietação espiritual; ele a tinha no sangue.. tudo isso passando como um legado de geração a geração, desde o homem de Ur… Desassossego e dignidade, eis o sinal do espírito… [para José o Altíssimo] seria uma réplica superior de seu pai, e estava ingenuamente convencido de ser muito amado pelo Altíssimo exatamente como o era por aquele… em contrapartida, sua com toda a sua devoção, ele absolutamente não seguia nem aceitava a forma que ela tomara no caso de seu pai: o cuidado, a ansiedade, o desassossego, expressos na invencível aversão de Jacó por uma existência fixa, mais adequada à sua dignidade, e no seu modo de vida temporário, improvisado, seminômade. Também ele, sem dúvida possível, era amado, acarinhado e preferido por seu Deus… El-Shadai fizera seu pai rico na Mesopotâmia, rico em rebanho e inúmeras posses; caminhando por entre seu bando de filhos, seu séqüito de mulheres, seus servos e seu gado, dir-se-ia um príncipe entre os príncipes da terra, e era-o de fato, não somente na aparência exterior mas também pelo poder do espírito, na qualidade de nabi, isto é, o profetizador; na qualidade de homem prudente, sagacíssimo, cheio da ciência de Deus, como um dos chefes espirituais e anciãos a quem tinha tocado a herança do caldeu e que tinham por vezes sido considerados como descendentes diretos dele…. [mas era como] se ele não pudesse parar e criar raízes com outros, como se de hora em hora tivesse de estar à espera da Palavra que o faria deitar abaixo barracas e estábulos, pôr no lombo dos camelos as estacas, cobertores e peles, e partir… José, naturalmente, sabia por quê. Tinha de ser assim porque estavam servindo a um Deus cuja natureza não era repouso e conforto permanente, mas um Deus que tinha desígnios para o futuro, em cuja vontade coisas inescrutáveis, grandes, de longo alcance, estavam na fase de vir-a-ser e que, com  a sua vontade reflexiva e seus projetos sobre o mundo, estava ele próprio ainda no processo do vir-a-ser, sendo por isso um Deus de preocupações, de inquietude, que deve ser procurado, para o qual todos têm de se conservar desimpedidos em qualquer tempo, móveis e de prontidão

         Quanto a mim, que agora levo a termo a minha narrativa para mergulhar voluntariamente numa aventura sem limite, não esconderei minha compreensão nativa do mal-estar do velho e sua aversão a qualquer habitação permanente. Não me destinaram também a mim o desassossego? Não me foi dado um coração que desconhece o repouso? O astro do contador de histórias não será a lua, senhora da estrada, a vagabunda que vai de fase em fase, libertando-se de cada uma? O narrador faz várias pausas, andando e relatando, mas só habita em tendas, aguardando novas direções, e pouco depois sente que seu coração bate forte, quer de desejo, quer também pelo medo e angústia da carne, mas sempre como sinal de que deve tomar a estrada à cata das novas aventuras, que devem ser penosamente vividas até os seus mais remotos detalhes, de acordo com a vontade do espírito infatigável… O passado não é o elemento natural do narrador de história, a que ele se apega como o peixe à água? Sem dúvida. Mas, a falar assim, nem por isso meu coração cessa de pulsar de medo e curiosidade, provavelmente porque o passado pelo qual estou habituado a deixar-me conduzir para bem longe é muito diverso do passado ao qual agora desço, a tremor… Pois a essência da vida é o presente e só num sentido mítico seu mistério aparece nas formas temporais do passado e do futuro… o mítico é apenas o vestuário do mistério. Mas o traje domingueiro do mistério é a festa, a festa periódica que lança uma ponte sobre o tempo e torna o passado e o futuro concretos para o sentido do povo. Não é pois de admirar que no dia da festa a humanidade fermente e proceda com desenfreada desenvoltura; nela, morte e vida se encontram e se reconhecem. Festa de contar histórias, és o traje festivo do mistério da vida, pois evocas a eternidade na mente do povo e o mito, para que ele possa ser revivido no tempo atual.

            (Thomas Mann, Prelúdio: Descida aos infernos, em Histórias de Jacó, 1933)

 

“O que em substância há é que essa disposição de Deus não era originalmente dirigida nem contra Raquel nem a favor de Lia. Era antes uma advertência e uma disciplina para Jacó, que por meio dela ficava sabendo que a branda soberania que concedia a seus sentimentos,  a arrogância com que os acalentava e anunciava não eram vistas com bons olhos por Elohim, embora essa mesma tendência para a seleção, esse entregar-se em freio a um favoritismo arbitrário, esse orgulho do sentimento que não queria submeter-se a julgamento mas antes exigia que todo o mundo o tomasse pela sua avaliação, pudessem ser atribuídos primordialmente a um protótipo mais elevado de que era, de fato, a cópia mortal. Devo dizer embora? Precisamente porque a glorificação que Jacó concedia a seus sentimentos era uma reprodução da outra é que ela foi punida. Quem quer que se aventure a tocar nesse ponto deve tomar cuidado com suas palavras. Mas ainda depois do mais escrupuloso exame, não há dúvida de que o móbil principal da medida foi o ciúme que Deus tinha de um privilégio que, como ele procurou dar a conhecer com a humilhação a que submeteu o sentimento de Jacó, reputava como sua prerrogativa exclusiva. Podem levar-me a mal esta exegese, e hão de argüir que um motivo tão mesquinho e passional como o ciúme não quadra como explicação de decretos divinos. Aqueles, porém, que se escandalizam com a minha versão têm a liberdade de considerar o decreto como uma relíquia, espiritualmente não-digerida, de estágios antigos e menos disciplinados no desenvolvimento da essência divina… O pacto de Deus com o espírito humano atuante em Abraão era um pacto que tinha em mira a santificação mútua, uma aliança em que a necessidade humana e a divina de tal forma se misturavam que não é fácil dizer-se de que lado, o humano ou o divino, partia o impulso original…”

       (Thomas Mann, As irmãs, em Histórias de Jacó, 1933)

 

“Pela primeira vez, uma obra literária (que não tem a intenção de ser nem apologética do ponto de vista judaica nem exegética do ponto de vista cristã, mostra-nos, em Israel, ao mesmo tempo o que o une ao vasto mundo mítico e pagão e o que o separa dele) faz-nos assistir ao nascimento quase monstruoso da noção monoteísta de Deus”.

        (Marguerite Yourcenar a respeito do texto acima, em “Humanismo e Hermetismo em Thomas Mann”, ensaio de Notas à margem do tempo)

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