

CANÇÃO DO UNIVERSAL
1.
Vem, disse a Musa,
Canta para mim uma canção que poeta algum tenha cantado até hoje,
Canta-me o Universal.
Nesta nossa terra vasta,
Em meio à densidade imensurável e à escória,
Guardada e segura dentro do coração central,
Aninha-se a semente da perfeição.
Para cada vida uma porção, ou mais ou menos,
Ninguém nasce sem que ela nasça, recôndita ou exposta, a semente está à espreita.
2.
Contempla! A elevada ciência de olhos agudos,
Como se de altos cumes, vigiando a modernidade,
Emitisse sucessivas ordens absolutas.
Contudo, mais uma vez contempla! A alma, acima de toda ciência,
Pois ela traz a história fundida como uma casca que envolve o globo,
Para ela todas as constelações rolam através do espaço.
Em rotas espirais por entre longos desvios (…)
Por ela o fluxo que vai de parcial a permanente,
Por ela o real tende ao ideal.
Por ela a mística evolução,
Não apenas a justificação do Bem, o que chamamos de Mal também se justifica.
Saindo de trás de suas máscaras, não importando as conseqüências,
Do enorme caule que se inflama, da arte e da malícia e das lágrimas,
Emerge a saúde e a alegria, a alegria universal.
Saindo do corpo volumoso, o mórbido e o superficial,
Saindo da maioria ruim, as diversificadas, incontáveis fraudes de homens e Estados,
Elétrico, anti-séptico também, clivando e inundando tudo,
Apenas o bom é universal.
3.
Sobre a protuberância das montanhas, doença e tristeza,
Um pássaro livre está sempre pairando, pairando,
Alto no ar mais puro, no ar mais feliz.
Das imperfeições das nuvens mais escuras,
Atira sempre um raio de perfeita luz,
Um brilho da glória celeste.
Para o que pertence à moda, para a discórdia dos figurinos,
Para o doido alarido de Babel, para as orgias ensurdecedoras,
Ao final de cada bonança, uma explosão é ouvida, apenas ouvida,
Vindos de alguma praia longínqua, os sons do coro derradeiro.
Ó olhos abençoados, corações felizes,
Que vêem, que conhecem o finíssimo fio condutor
Através do labirinto.
4.
E tu, América,
Pela culminação do esquema, pelo pensamento e pela realidade,
Por esses (não por ti mesma) tu vieste.
Tu também envolveste todos
Abraçando e conduzindo e acolhendo a todos, tu também caminhas
Por estradas largas e novas.
Tendendo ao ideal.
As fés conhecidas de outras terras, as grandezas do passado,
Não são para ti…
O amor, tal como a luz, silenciosamente envolve a todos,
Os aperfeiçoamentos da natureza abençoando a todos,
Os botões, frutos das eras, pomares divinos e certos,
Formas, objetos, crescimentos,humanidades, amadurecendo para as imagens espirituais.
Concede-me, ó Deus, que eu cante aquele pensamento,
Dá-me, dá a ele ou a ela a quem amo essa fé insaciável,
Em Tua imagem, tudo quanto guardares, não o negue a nós,
A crença nos Teus planos guardada no Tempo e no Espaço,
Saúde, paz, salvação universal!
Será um sonho?
Não, mas a ausência dele é o sonho,
E se ele falha o conhecimento e a riqueza da vida são apenas sonho,
E o mundo inteiro é apenas sonho.
AO JARDIM O MUNDO RETORNA
Ao jardim, o mundo retorna se elevando,
Poderosos companheiros, filhas, filhos, preludiando,
O amor, a vida de seus corpos, o sentido e o ser,
Curiosos, vede aqui a minha ressurreição após o sono ligeiro,
Os ciclos rotativos em sua ampla órbita me trazem de volta,
Amoroso, maduro, tudo tão maravilhoso para mim, tudo assombroso,
Meus membros e o fogo tremendo que sempre brinca através deles,
por razões, quase todas, assombrosas
Ao existir eu perscruto e vou além ao penetrá-las,
Feliz com o presente, feliz com o passado,
Ao meu lado ou atrás de mim, Eva me segue,
Ou à minha frente, e do mesmo modo eu a sigo.
ERAS E ERAS RETORNANDO A INTERVALOS
Eras e eras retornando a intervalos,
Intocadas, vagando imortalmente,
Vigorosas, fálicas, com as carnes originais potentes, perfeitamente doces,
Eu, cantor de canções adâmicas,
Através dos novos jardins do Ocidente, as grandes cidades convocando,
Delirante, preludiando assim aquilo que é gerado, oferecendo-os,
Oferecendo a mim mesmo,
Banhando-me, banhando minhas canções com o sexo,
Fruto da minha carne.
COMO ADÃO AO AMANHECER
Como Adão ao amanhecer,
Saio a caminhar, vindo do pavilhão do jardim, renovado pelo sono.
Contempla-me no lugar em que passo, ouve minha voz, aproxima-te,
Toca-me, toca a palma de tuas mãos no meu corpo enquanto passo,
Não tenhas medo do meu corpo.
Ó meu eu! Ó vida!
Ó meu eu! Ó vida! Das questões que são recorrentes,
Dos trens infinitos dos que não tem fé, das cidades cheias de tolos,
Ó eu mesmo para sempre censurando a mim mesmo (pois quem é mais tolo do que eu
E quem é mais sem fé?)
De olhos que em vão suplicam por luz, do meio dos objetos,das lutas sempre renovadas,
Dos pobres resultados de tudo,
Das laboriosas e sórdidas multidões que vejo à minha volta,
Dos vazios e inúteis anos dos demais, sendo que também faço parte dos demais,
A questão, ó meu eu, tão triste, recorrente: O que há de bom em meio a tudo isso?
Ó meu eu! Ó vida!
Resposta:
Que estás aqui —e que a vida existe e a identidade,
Que a poderosa peça continua e tu podes contribuir com um verso.
DESDE OS RIOS CONFINADOS À DOR
Desde os rios confinados à dor (…)
Desde aquilo que estou determinado a tornar ilustre,
Mesmo que eu viva solitário entre os homens,
Desde a minha própria ressonante voz, cantando o fálico (…)
Entoando a canção do companheiro de cama (Ó ardente desejo!
Ó por todos e por cada corpo que atrai o seu correspondente!
Ó por ti, quem quer que sejas, teu corpo correspondendo-me!
Ó isso, mais que qualquer coisa, tu deliciando-te!)
(…) Pesquisando algo que ainda não pude descobrir,
Embora tenha diligentemente procurado anos a fio,
Cantando a canção verdadeira da alma intermitente, ao acaso (…)
A bem-vinda proximidade, a visão do corpo perfeito,
O nadador nadando nu ou boiando sem movimentos (…)
……………………………eu pensante, amante do corpo, tremendo de dor,
A lista divina sendo feita para mim, para ti ou para qualquer um,
O rosto, os membros,o índice da cabeça aos pés,e aquilo que faz com que ele se levante,
O delírio do místico, o delírio amoroso, o completo abandono
(chega perto, e calado escuta o que agora sussurro para ti:
Eu te amo, ó tu que me tens por inteiro,
Ó tu e eu fugimos ao mundo e sumimos inteiramente, livres e sem lei,
Dois falcões voando, dois peixes nadando no mar tão sem lei quanto nós dois).
A furiosa tempestade por mim atravessando, e eu tremendo apaixonadamente (…)
(Ó eu desejando arriscar tudo por ti,
Ó deixe-me estar perdido se necessário for!
Ó tu e eu! (…)
O que é tudo o mais para nós? Apenas sabemos que desfrutamos um ao outro
E nos exaurimos se necessário for.)
(…) Desde a maciez das mãos que escorregam sobre mim e a passagem dos dedos
Pelos meus cabelos e minha barba

(…) Desde a pressão calorosa do corpo que me embriaga e embriaga qualquer homem
Até desmaiá-lo pelo excesso
(…) Desde a exultação, a vitória, o alívio,
Desde o abraço do companheiro de cama durante a noite
(…) Desde o movimento de tirar a coberta que nos cobre
(…) Desde aquele que não deseja me ver partindo e eu que também não desejo partir
(será apenas um instante apenas, ó delicado ser que me aguarda, e eu retornarei),
Desde a hora das estrelas brilhantes e orvalhos gotejantes,
Desde a noite em que vou emergindo fugaz,
Celebro-te, ato divino…………………………………………………………
DO ENCAPELADO OCEANO DA MULTIDÃO
Do encapelado oceano da multidão chega, gentilmente, uma gota para mim,
Sussurrando: “Eu te amo, bem antes de eu morrer,
Percorri uma longa jornada meramente para olhar-te, tocar-te,
Pois não poderia morrer antes de olhar-te,
Pois temia que mais tarde poderia te perder”.
Agora já nos encontramos, já nos vimos, estamos seguros.
Volta em paz para o oceano, meu amor,
Também sou parte desse oceano, meu amor, não estamos assim tão separados,
Observa o grande orbe, a coesão de tudo: que perfeição!
Mas, quanto a mim e quanto a ti, o mar irresistível nos separa,
Se por uma hora pode nos manter dessemelhantes,
Por outro lado não nos pode conservar distintos para sempre;
Não sejas impaciente—um interregno—sabes tu que saúdo o ar, o oceano e a terra,
Todos os dias no crepúsculo, pelo teu amor, meu amor.
MEU LEGADO
O homem de negócios de vastas aquisições,
Depois de árduos anos fazendo o balanço dos resultados,
Preparando para a partida,
Lega casas e terras para seus filhos, deixa ações como herança,
Bens, fundos para uma escola ou hospital,
Deixa dinheiro para certos companheiros, para que comprem lembranças,
Relíquias de pedras preciosas e ouro.
Mas eu, fazendo o balanço de minha vida, fazendo o fechamento,
Com nada para apresentar, para legar de meus anos preguiçosos,
Nem casas, nem terras, nem lembranças de pedras preciosas ou ouro para meus amigos,
Contudo, certas lembranças da guerra deixo para ti e para os que virão,
E pequenas relíquias de acampamentos e soldados, com meu amor,
Encaderno e deixo como herança neste feixe de canções.
CIDADE DE ORGIAS
Cidade de orgias, passeios, alegrias,
Cidade daquele que, tendo vivido e cantado em teu seio, te fará ilustre um dia,
Não serão as tuas exposições, nem os teus quadros,
Nem teus espetáculos, que me recompensarão,
Não serão as tuas filas intermináveis de casas, nem os navios nas tuas docas,
Nem as procissões nas ruas, nem as vitrines brilhantes com os produtos lá dentro,
Nem o diálogo com pessoas cultas, nem a minha participação em um sarau ou uma festa
Nada disso, mas quando passo, ó Manhattan,
O teu freqüente e súbito brilho no olhar a me oferecer o amor,
Ofertando-me uma resposta, isso sim me recompensa,
Amantes, amantes permanentes, só esses me recompensam.

A CERTO CIVIL
Pediste-me rimas doces?
Procuras as rimas pacíficas e lânguidas dos civis?
Achaste a canção que entoei anteriormente difícil de acompanhar?
Pois eu não estava cantando anteriormente
Para que tu pudesses seguir, para que entendesses, nem mesmo agora
(Despertei com a guerra, os intermináveis rufos dos tambores dos regimentos
São sempre doce música para mim, amo muito o hino fúnebre marcial,
Com lamentações vagarosas e palpitações convulsivas,
Conduzindo o funeral dos oficiais);
O que é, para alguém como tu, de qualquer modo, um poeta como eu?
Assim sendo, abandona meus trabalhos,
Ilude-te com aquilo que podes compreender e com os tons do piano,
Pois a ninguém iludo e jamais poderás entender-me.
SAINDO DE TRÁS DESTA MASCARA (para confrontar um retrato)
1.
Saindo de trás desta máscara flexível, grosseiramente talhada,
Estas luzes e sombras, esse drama do Todo,
Esta cortina comum da face contida em mim e para mim, e em ti para ti,
Em cada um para cada um
(Tragédias, tristezas, lágrimas, ó céu!,
Estas abundantes peças cheias de paixão, escondidas atrás desta cortina!),
Este esmalte do mais puro e sereno céu de Deus,
Este filme da fervura de Satã no abismo,
Este mapa da geografia do coração, esse ilimitado pequeno continente,
Este mar insondável, saindo das circunvoluções deste globo,
Este orbe astronômico mais sutil que o sol ou que a lua, que Júpiter,Vênus, Marte,
Esta condensação do universo (e mais ainda o único universo que está aqui,
Aqui a idéia, tudo neste punhado de pacotes místicos);
Estes olhos entalhados, sinalizando para que passes para o tempo futuro,
Para lançar e fazer girar através do espaço, revolvendo-se obliquamente,
A partir destes para enviar-te, quem quer que sejas, um olhar.
2.
Um viajante de pensamentos e anos, de paz e de guerra,
De juventude longamente vivida e declínio da meia-idade
(Como o primeiro volume de um conto de fadas lido cuidadosamente e deixado de lado e este, o segundo, com canções, aventuras, especulações, até o epílogo na atualidade),
Demorando-se um pouco aqui e agora, volto-me ara o lado oposto de ti,
Como se estivesse na estrada ou na abertura de uma porta, por acaso,
Ou numa janela aberta;
Parando, inclinando-me, descobrindo minha cabeça, saúdo-te de modo especial,
Para atrair e abraçar tua alma uma vez, inseparavelmente com a minha,
E depois viajar, seguir viagem.
UMA ARANHA PACIENTE E SILENCIOSA
Uma aranha paciente e silenciosa.Registrei o lugar do pequeno promontório em que ela estava isolada,
Registrei o modo como, para explorar as vastas redondezas vazias,
Ela lançou adiante filamentos, filamentos, filamentos que saíam de dentro dela,
Sempre os desenrolando, sempre os acelerando incansavelmente.
E tu, ó minha alma, no lugar em que estás,
Cercada, destacada, em imensuráveis oceanos de espaço,
Meditando incessantemente, aventurando-se, lançando-se,
Procurando as esferas para conectá-las,
Até a ponte que terá de ser formada por ti, até o cabo flexível da âncora,
Até que a fibra fina que atiras prenda-se em alguma parte, ó minha alma.
Mannahatta
O nome adequado e nobre da minha cidade retomado,
Escolha de nome aborígine, com maravilhosa beleza, significado,
Ilha rochosa fundada, praias em que sempre batem festivamente
As rápidas ondas do mar que vêm e vão.
Os Estados Unidos para os críticos do Velho Mundo
Aqui em primeiro lugar os deveres de hoje, as lições do concreto,
Riqueza, ordem, viagem, abrigo, produtos, abundância,
Como na construção de algum edifício diversificado, vasto, perpétuo,
Do qual se erguem, inevitavelmente pontuais, os altos telhados, as luminárias,
As pontas solidamente plantadas nas alturas, mirando as estrelas.
O lugar-comum
O lugar-comum eu canto;
Quão barata é a saúde! Quão barato é o caráter!
Abstinência, sem hipocrisia, sem glutonaria, sem luxúria;
O ar livre eu canto, liberdade, tolerância
(Leva, aqui, a principal lição, que não é a dos livros, nem a das escolas),
O dia e a noite comuns, a terra e as águas comuns,
Tua fazenda, teu trabalho, negócios, ocupações,
A sabedoria democrática subjacente, piso sólido para todos.
TRAVESSIA DA BALSA DO BROOKLY -fragmento
2.
O meu imponderável alimento que vem de todas as coisas, a cada hora do dia,
O simples, pequeno, bem articulado esquema, meu ego desintegrado,
Cada um desintegrado e, contudo, sendo parte do esquema,
As similaridades do passado e aquelas similaridades do futuro,
As glórias penduradas como contas nas minhas menores visões
E em tudo o que ouço, na calçada das ruas e nas pontes sobre os rios,
A corrente descendo tão rapidamente, levando-me a nada para longe,
Os outros que devem me seguir, os laços que existem entre mim e eles,
A certeza dos outros, a vida, o amor, a visão, o ato de ouvir os outros.
Outros assistirão à rapidez do transbordamento da maré,
Outros verão os navios de Manhattan ao norte e a oeste
E as elevações do Brooklyn para o sul e para o leste,
Outros verão as ilhas grandes e pequenas;
Dentro de cinqüenta anos, outros terão essa visão quando fizerem a travessia,
O sol nascido há meia hora;
Dentro de cem anos, ou mesmo centenas de anos, outros terão essa visão,
Desfrutarão o pôr-do-sol, a água que entra pelo transbordamento da maré,
O retorno do mar no refluxo da maré.
9.
Desce, rio! Desce com a inundação da maré e reflui com o refluxo!
Brincai, projeções curvilíneas nas bordas das cristas das ondas!
Nuvens formosas do crepúsculo! Encharcai-me com vosso esplendor
Ou às gerações de homens e mulheres que virão após mim!
Levai, de uma margem à outra, incontáveis multidões de passageiros!
De pé, altos mastros de Mannahatta! De pé, lindas montanhas do Brooklyn!
Palpita, cérebro confuso e curioso! Lança de ti perguntas e respostas!
Suspende aqui e em toda a parte a eterna dança das soluções!
Olhai fixamente, olhos amorosos e sedentos, na casa ou na rua (…)
Soai, vozes, vozes de rapazes!Altas e musicais, chamai-me pelo meu nome mais íntimo!
(…) Considera, tu que me lês com atenção, que posso estar por caminhos desconhecidos
Pensando em ti;
(…) Reflete o céu de verão, tu, água, e lentamente o segura
Até que todos os olhos voltados para a tua superfície tenham tempo de vê-lo!
Dispersai-vos, finos raios de luz saídos da silhueta de minha cabeça,
Ou da cabeça de qualquer outra pessoa, refletidos na água iluminada pelo sol!
Avante, navios da baía inferior! Passai para cima e para baixo,
Escunas de velas brancas, corvetas, barcaças!
Ostentai-vos, bandeiras de todas as nações! Arriai-vos pontualmente no pôr-do-sol!
Queimai os vossos fogos, chaminés das fundições!
Lançai sombras negras sobre o anoitecer!
Lançai luzes vermelhas e amarelas sobre os telhados das casas!
As aparências, agora ou de agora em diante, indicam o que és,
Tu, necessário filme, continua envolvendo a alma,
Sobre o meu corpo por mim, e sobre o teu corpo por ti, pendurai-vos aromas divinos,
Prosperai, cidades, trazei vosso frete,trazei vossos espetáculos,rios amplos e suficientes,
Expandi-vos, tornando-se talvez aquilo que nada pode superar em espiritualidade,
Guardai vossos lugares, objetos que não encontrarão
nada mais duradouro que vós mesmos.
Já esperastes, sempre esperastes, vós, mudos, maravilhosos ministros,
Nós vos recebemos com um senso de liberdade, finalmente,
E nos tornamos insaciáveis de agora em diante,
Não mais sereis capazes de nos despistas ou de negar-vos a nós,
Usamos-vos e não vos lançamos fora, plantamos-vos permanentemente dentro de nós,
Não nos aprofundamos em vós, amamos-vos, também há perfeição em vós,
Fornecei vossas partes rumo à eternidade,
Grandes ou pequenas, vós ofereceis vossas partes para a alma.
Até breve!
Para terminar, anuncio o que vem depois de mim.
Lembro-me de ter dito antes que minhas folhas brotariam totalmente,
Eu ergueria minha voz aprazível e forte com referência às consumações.
Quando a América fizer o que foi prometido,
Quando através destes Estados andarem cem milhões de pessoas soberbas,
Quando os demais partirem, deixando as pessoas extraordinárias e apoiando-as,
Quando gerações das mais perfeitas mães denotarem a América,
Então haja para mim e para os meus a nossa devida fruição.
Pressionei para entrar por meu direito próprio,
Cantei o corpo e a alma, a guerra e a paz cantei e as canções da vida e da morte,
E as canções do nascimento e mostrei que há muitos nascimentos.
A todos ofereci o meu estilo, jornadeei com passos confiantes;
E enquanto meu prazer ainda é total, sussurro Até breve!
E tomo as mãos da jovem mulher e do jovem homem pela última vez.
Anuncio a elevação das pessoas naturais,
Anuncio a justiça triunfante,
Anuncio a liberdade e a eqüidade sem comprometimentos,
Anuncio a justificação da candura e a justificação do orgulho.
Anuncio que a identidade destes Estados é uma única identidade singular,
Anuncio a União mais e mais consolidada, indissolúvel,
Anuncio os esplendores e a majestade que farão todas as políticas prévias da Terra
parecerem insignificantes.
Anuncio a adesão, digo que há de ser ilimitada,
Digo que ainda hás de encontrar o amigo por quem procuravas,
Anuncio um homem ou uma mulher, talvez sejas tu (Até breve!),
Anuncio o grande indivíduo, fluido como a Natureza,
Casto, afetuoso, compassivo, inteiramente constituído,
Anuncio uma vida que há de ser copiosa, veemente, espiritual, ousada,
Anuncio um fim que há de encontrar com leveza e alegria a sua tradução.
Anuncio miríades de jovens, cheios de beleza, gigantescos, de sangue doce,
Anuncio uma raça de esplêndidos e selvagens homens velhos.
(…) Prevejo algo demasiado, algo que significa mais do que eu imaginava,
Parece-me que estou morrendo.
Apressa-te, garganta, e soa o que está no fim,
Saúda-me, saúda os dias uma vez mais. Faz ressoar o velho brado uma vez mais.
Gritando eletricamente, usando a atmosfera,
Lançando olhares a esmo, absorvendo tudo o que noto (…)
…………….curiosas mensagens embrulhadas,
Quentes faíscas, sementes etéreas que caem na poeira,
Eu mesmo sem conhecê-las, obedecendo à minha missão, sem jamais ousar questioná-la
Para as eras e eras futuras, entretanto, deixando o desenvolvimento das sementes,
Erguendo-me para as tropas retiradas da guerra,
Promulgando para eles as tarefas que tenho,
Para as mulheres legando certos sussurros de mim…
Para os rapazes meus problemas oferecendo, testando os músculos de seus cérebros (…)
Apaixonadamente (a morte fazendo-me realmente imorredouro),
O melhor de mim então, quando não mais visível,
No rumo daquilo para o que venho me preparando sem cessar.
(…) Haverá um singelo adeus final?
Cessam minhas canções, eu as abandono,
Por detrás da tela onde me escondo, avanço pessoalmente apenas para Ti.
Companheiro, este não é um livro,
Aquele que toca isto toca um homem (…)
Eu sou aquele que abraças e aquele que te abraça,
Eu salto de dentro destas páginas para dentro dos teus braços, a morte me chama.
(…) Sinto-me imerso da cabeça aos pés,
É delicioso, basta.
Basta, ó feito improvisado e secreto,
Basta, ó presente deslizante; basta, ó passado resumido.
Querido amigo, quem quer que sejas, leva este beijo,
Dou-o especialmente a ti, não me esqueças,
Sinto-me como aquele que realizou o seu trabalho durante o dia
E que se retira por um tempo,
Recebo agora novamente minhas muitas interpretações,
Meus avatares ascendendo, enquanto outros sem dúvida esperam por mim!
Uma esfera desconhecida mais real do que a que sonhei, mais direta,
Lança raios despertadores sobre mim, Até breve!
Lembra-te de minhas palavras, posso novamente retornar,
Amo-te, deixo a materialidade,
Sou eu desencarnado, triunfante, morto.
CANÇÃO DA ESTRADA ABERTA
1.
A pé e com o coração iluminado, adentro a estrada aberta,
Saudável, livre, o mundo adiante de mim,
A longa senda à minha frente, conduzindo-me para onde quer que eu escolha.
A partir de agora não peço mais pela boa sorte, pois eu mesmo sou a boa sorte,
A partir de agora abandono as lamúrias, não mais procrastino, de nada mais necessito,
Estou farto de reclamações entre quatro paredes,
Forte e satisfeito eu viajo pela estrada aberta.
A Terra é suficiente para mim,
Não desejo as constelações mais próximas,
Sei que estão muito bem no lugar em que estão,
Sei que são suficientes para aqueles que lá vivem.
Ainda assim, por aqui, eu carrego meus velhos fardos deliciosos,
Carrego-os, homens e mulheres, carrego-os comigo onde quer que eu vá,
Juro que é impossível deles me livrar,
Estou realizado por eles, e hei de realizá-los em troca.
2.
Tu, estrada em que me adentro, olhando ao meu redor,
Acredito que não sejas apenas o que se vê aqui,
Acredito que muito do que é invisível também esteja aqui.
Aqui está a profunda lição da receptividade, não a da preferência nem a da negação,
O negro, o criminoso, o enfermo, o analfabeto, não são discriminados,
O nascimento, a procura apressada por um médico, o passo lento do mendigo,
A tontura do bêbado, a festa alegre dos mecânicos,
O jovem foragido, a carruagem do rico, o almofadinha, o casal fugitivo,
O homem que madruga na feira, o carro funerário, a entrada da mobília na vila,
O regresso da cidade,
Tudo passa, eu passo também, qualquer coisa passa, nada é interditado,
Nada deixa de ser aceito, nada deixará de ser querido por mim.
3.
(…) Vós, caminhos desgastados nas perfurações irregulares dos acostamentos!
Acredito que sejais latentes e que possuís existências insondáveis…
Vós, calçadas das cidades! Vós, robustas sarjetas nas beiradas!
Vós, balsas! Vós, pranchas e postes das docas!
(…)…………………………………………………..Vós, arcos!
Vós, pedras cinzentas de intermináveis pavimentos! Vós, cruzamentos pisados!
Tudo o que vos tocou, acredito que haveis compartilhado entre vós
E agora compartilharíeis o mesmo em segredo comigo,
De vivos e de mortos haveis impregnado de pessoas a vossa impassível superfície,
E os espíritos ali presentes seriam evidentes e amistosos para comigo.
4.
A Terra, expandindo-se para a direita e para a esquerda,
Cada uma de suas partes em sua mais fulgurante luz,
A música descendo sobre aqueles que a desejam e deixando de entrar
Nos locais em que não a desejam,
A voz animada da estrada pública, o sentimento alegre, fresco, dos caminhos.
Ó estrada principal, por ti viajo (…) não tenho medo de deixar-te e contudo te amo,
Tu te expressas melhor sobre mim do que eu mesmo,
Há de ser mais para mim que meus poemas.
Creio que todas as canções heróicas foram concebidas ao ar livre
E também todos os poemas livres,
Creio que eu poderia parar aqui mesmo e operar milagres,
Creio que amarei tudo o que encontrar pela estrada,
E todos os que me contemplarem hão de gostar de mim,
Creio que quem quer que eu veja terá de ser feliz.
5.
Desde agora ordeno que meu ser livre-se de limites e linhas imaginárias,
Posso ir a todos os lugares que imaginar, sou meu próprio mestre, total e absoluto,
Ouço o que me dizem os outros, reflito bem sobre o que eles dizem,
Paro, procuro, recebo, contemplo,
Gentilmente, mas com vontade inflexível, dispo-me das amarras que me limitariam.
Inalo grandes e espaciais correntes de ar,
O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul são meus.
Sou maior e melhor do que eu pensava,
Não sabia que poderia conter em mim tanta bondade,
Tudo me parece maravilhoso,
Posso repetir e repetir para homens e mulheres: vós fizestes tanto bem a mim
E eu faria o mesmo por vós,
Recrutarei para mim e para vós na medida em que avanço,
Derramar-me-ei entre os homens e as mulheres na medida em que avanço,
Lançarei nova alegria e aspereza entre eles,
E se alguém me negar, isso não me incomodará,
Quem quer que me aceite, ele ou ela, há de ser abençoado e há de abençoar-me.
6.
Agora, se mil homens perfeitos tivessem de aparecer, isso não me espantaria,
Agora, se mil formas maravilhosas de mulher aparecessem, isso não me assombraria.
Agora, vejo o segredo de como produzir as melhores pessoas:
É o de crescer ao ar livre e de comer e de dormir com a terra.
(…) O teste final da sabedoria não se dá nas escolas,
A sabedoria não pode ser transmitida por alguém que a tem para quem não a possui,
A sabedoria pertence à alma, não é suscetível de provas, ela é a prova de si mesma,
Ela se aplica a todos os estágios e objetos e qualidades e seus conteúdos,
É a certeza da realidade e da imortalidade das coisas, e da sua excelência,
Algo que está nela, está na superfície e na visão das coisas,
De tal modo a provocar que venha para fora da alma.
Agora eu reexamino filosofias e religiões,
Elas podem ser eficazes nos salões de conferências e, contudo,
Não funcionar abaixo da vastidão das nuvens, e ao longo das paisagens
E das correntes que fluem.
(…) Apenas o núcleo de cada objeto pode nutrir;
Onde está ele, que remove as cascas por ti e por mim?
Onde está ele, que desfaz estratagemas e envelopes por ti e por mim?
Aqui está a adesividade, ela não foi talhada previamente, ela é pragmática.
Sabes o que significa ser amado por estranhos?
Sabes o que dizem aqueles olhos que se voltam para ti?
7.
Aqui está a emanação da alma,
A emanação da alma vem de dentro, atravessando portões sombreados,
Que sempre provocam polêmica,
Esses anelos, por que existem? Esses pensamentos na escuridão, por que existem?
Por que há homens e mulheres que enquanto estão próximos a mim
Fazem-me sentir a luz do sol a expandir meu sangue?
Por que quando eles me deixam minhas flâmulas de alegria se abatem murchas?
Por que há árvores sob as quais nunca caminho e, contudo,
Fazem descer sobre mim grandes e melodiosos pensamentos?
(…) O que é isso que permuto tão de repente com estranhos?
O que se dá com o condutor quando me sento ao seu lado?
O que se dá com o pescador, puxando a sua rede na praia, quando passo e paro por ali?
O que me permite estar disponível para a boa vontade de uma mulher ou de um homem?
8.
A emanação da alma é a felicidade, e aqui está a felicidade,
Creio que ela se infiltra no ar livre, esperando em todas as eras,
Agora ela flui para nós, estamos dela carregados, certamente.
Aqui se ergue o fluido e o caráter que se prende a nós
(…) Em direção ao fluido e ao caráter que se prende a nós,
Aparece o suor do amor dos jovens e dos mais velhos,
Deles cai destilado o charme que ri da beleza e de tudo o que se obtém,
Em direção ao fluido e ao caráter as náuseas fazem estremecer
Com saudade do contato.
9.
Allons! Quem quer que sejas, vem viajar comigo!
Viajando comigo encontrarás o que nunca faz cansar.
A terra jamais se cansa,
Rude, silenciosa, incompreensível à primeira vista (…)
Não desanimes, persevera, há segredos divinos bem guardados,
Juro-te que há segredos divinos mais belos do que as palavras podem descrever.
Allons! Não devemos parar aqui,
Por mais doces que sejam os bens armazenados,
Por mais convenientes que sejam estas moradas, não devemos permanecer aqui,
Por mais aconchegante que seja este porto e por mais calmas que sejam estas águas
Não devemos ancorar aqui,
Por mais convidativa que seja a hospitalidade que nos cerca,
Não se nos permita que a recebamos além de alguns momentos.
10.
Allons! As seduções hão de ser maiores,
Navegaremos sem rumo por mares bravios,
Iremos até onde os ventos podem soprar, até onde as ondas se arrojam
E o veloz cavalo ianque pode correr a toda brida.
Allons! Com poder, liberdade, a terra, os elementos,
Saúde, desafio, alegria, auto-estima, curiosidade:
Allons! De todas as fórmulas! De vossas fórmulas, ó padres materialistas…
O cadáver bolorento bloqueia a passagem, o enterro não pode mais esperar.
Allons! Contudo esteja alerta!
Aquele que viaja comigo precisa do melhor sangue, tendões, resistência,
(…) Não venhas para cá se já usaste o melhor de ti,
Só podem vir os que tenham seus corpos doces e determinados (…)
11.
Ouve! Serei honesto contigo,
Não ofereço os velhos prêmios amáveis, contudo ofereço prêmios novos e ásperos…
12.
Allons! Atrás dos Grandes Companheiros, para pertencer a eles!
Eles também estão na estrada, são homens rápidos e majestosos,
são as mais grandiosas mulheres,
(…) Marinheiros de muitos navios, andarilhos de muitas milhas,
Habitués de muitos países distantes…
Confiantes nos homens e nas mulheres, observadores das cidades,
Aqueles que param para contemplar os botões, as conchas do mar,
Dançarinos de festas de casamento, beijadores de noivas,
Carinhosos condutores de crianças,
Soldados de revoltas, sentinelas de túmulos abertos, coveiros,
Viajantes de estações consecutivas, através dos anos, os anos curiosos,
Cada qual emergindo daquele que o precedeu,
A saber suas próprias etapas diversas…
Viajantes alegres com sua própria juventude, com sua masculinidade de barba bem feita
Viajantes com sua feminilidade, ampla, insuperável, satisfeita,
Viajantes com sua própria masculinidade ou feminilidade de idade avançada e sublime,
Idade avançada, calma, expandida, ampla como a orgulhosa largura do universo,
Idade avançada, fluindo livremente com a deliciosa liberdade da morte que se aproxima.
13.
Allons! Para aquilo que não tem fim tal como não teve início,
Vivenciando muito: caminhadas ao dia e o repouso à noite,
Fundindo tudo na viagem,
Vendo nada em lugar algum, a não ser aquilo que se pode alcançar e ultrapassar,
Não concebendo tempo algum (…)
Não vendo possessão alguma, mas sendo capaz de possuir tudo (…)
Carregando casas e ruas contigo, onde quer que vás (…)
Conhecendo o próprio universo como uma estrada, tantas quantas sejam as estradas…
Tudo se fraciona pelo progresso das almas,
Toda a religião, tudo o que é sólido, as artes, os governos,
Tudo o que era ou é aparente sobre o globo cai em nichos ou esquinas
perante a procissão das almas ao longo das grandes estradas do universo,
Do progresso das almas dos homens e das mulheres,
Ao longo das grandes estradas do universo (…)
Elas vão! Elas vão! Eu sei que elas vão! Mas não sei para onde vão,
Mas sei que vão na direção do melhor (…)
Fora do confinamento na escuridão! Fora de detrás das cortinas!
É inútil protestar, tudo conheço e exponho!
(…)Através do riso, da dança, do jantar, da ceia, das pessoas,
Dentro dos vestidos e dos ornamentos, dentro daquelas faces lavadas e aparadas
Contemplo um segredo silencioso de abominação e desespero (…)
Outro ser, um duplo de cada um, se esquiva e se esconde sempre mais (…)
A morte debaixo das costelas, o inferno debaixo do crânio,
Debaixo da casimira fina e das luvas, debaixo dos laços e das flores artificiais,
Mantendo-se dentro dos costumes, não falando uma única sílaba de si mesmo,
Falando de qualquer outra coisa, mas jamais de si mesmo.
14.
Allons! Através de lutas e guerras!
Do objetivo que foi estabelecido não se pode retroceder.
(…) Minha chamada é a chamada da batalha, eu nutro a rebelião ativa.
Aquele que caminha comigo deve estar bem armado,
Aquele que caminha comigo enfrenta uma dieta espartana,
Escassez, inimigos coléricos, deserções.
15.
Allons! A estrada está diante de nós!
Já a provei, com meus próprios pés eu a experimentei bastante, não te detenhas!
Deixe que o papel permaneça sobre a mesa, em branco, o livro fechado na prateleira!
Deixa que as ferramentas jazam na oficina! Deixa que o dinheiro fique sem ser ganho!
Deixa que a escola espere! Não te importes com o chamado do professor!
Deixa que o pregador pregue no púlpito!
Deixa que o advogado defenda a causa na corte e que o juiz interprete a lei.
Camarada, dou-te a minha mão!
Dou-te meu amor mais precioso que dinheiro,
Dou-te meu ser antes de pregar ou legislar;
Dar-me-ás o teu ser? Viajarás comigo?
Seremos unidos um ao outro enquanto vivos estivermos?

CHARLES BAUDELAIRE-
A perda da aura
“E então, vossa senhoria por aqui, meu caro? Vossa senhoria, num antro! Vossa senhoria, o bebedor de quintessências! Vossa senhoria, o degustador de ambrosia! Na verdade, há razão para que me surpreenda.”
“Meu amigo, você conhece meu terror de cavalos e veículos. Ainda há pouco, quando atravessava o boulevard, a passo ligeiro, e saltava a lama, em meio a esse caos movimentado aonde a morte chega a galope por todos os lados ao mesmo tempo, minha aura [auréole= auréola, halo], num movimento brusco, escorregou da minha cabeça para a sujeira do macadame. Não tive coragem de reavê-la. Julguei menos desagradável perder minhas insígnias do que me quebrarem os ossos. E depois, disse para mim mesmo, há males que vem para o bem. Posso agora passear incógnito, cometer baixezas, e me abandonar à canalhice, como um simples mortal. E eis-me aqui, igualzinho a você, como você vê!”
“Vossa Senhoria deveria ao menos anunciar essa aura, ou reclamá-la na delegacia.”
“Minha nossa! Não! Sinto-me bem aqui. Só você me reconheceu. Além disso, a dignidade me entedia. E ademais penso, e me alegro, que algum poeta de segunda categoria vai apanhá-la e colocá-la na cabeça descaradamente. Fazer alguém feliz, que júbilo! E sobretudo um felizardo que me fará rir! Pense em X, ou em Z! Então! Como será bizarro.!”
Ao leitor
A tolice, o erro, o pecado, a usura,
Ocupam nossos espíritos e trabalham nossos corpos,
E alimentam nossos amáveis remorsos,
Como os mendigos nutrem seus piolhos.
Nossos pecados são teimosos, nossos pesares são frouxos
Nós colocamos alto preço nas nossas confissões
E nós entramos alegremente no caminho lamacento
Crendo através de mil lágrimas lavar nossas nódoas
Sobre a almofada do mal é Satã Trismegisto
Quem embala longamente nosso espírito enfeitiçado
E o rico metal de nossa vontade
É todo volatilizado por esse sábio alquimista.
É o Diabo que possui os fios que nos movimentam!
Nos coisas repugnantes nós encontramos atrativos;
Cada dia para o Inferno nós descemos um passo,
Sem horror, através de trevas que fedem.
Assim como o devasso pobre que beija e suga
O seio martirizado de uma já gasta vadia,
Nós queremos de súbito um prazer clandestino
Que nós esprememos como uma velha laranja.
Espremida, fervilhante, como um milhão de vermes intestinais
Nos nossos cérebros farreia uma população de Demônios,
E, quando nós respiramos, a Morte nos nossos pulmões
Desce, rio invisível, com surdas queixas.
Se a violação, o veneno, a punhalada, o incêndio,
Não bordaram ainda seus aprazíveis desenhos,
O desígnio banal de nossos patéticos destinos,
É que nossa alma, infelizmente, muito pouco ousou.
Mas entre os chacais, as panteras, os linces,
Os símios, os escorpiões, os abutres, as serpentes,
Os monstros estridentes, uivadores, grunhidores, rastejantes,
No bestiário infame de nossos vícios,
Não há um mais disforme, mais desagradável, mais imundo!
Ainda que ele não se atreva a grandes gestos nem a grandes gritos,
Ele voluntariamente faria da terra um monturo
E numa bocejada engoliria o mundo;
É o Tédio! – O olhar carregado de uma lágrima involuntária,
Ele sonha cadafalsos fumando seu narguilé
Tu o conheces, leitor, esse monstro delicado,
Hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão!
Esboço de um epílogo para a segunda edição, 1861
Tranqüilo como um sábio e doce como um maldito…
Eu disse:
Eu te amo, ó minha tão bela, ó minha encantadora…
Quantas vezes…
Tuas devassidões sem afã e teus amores sem alma,
Teu gosto pelo infinito,
Que em tudo, no próprio mal se proclama,
Tuas bombas, teus punhais, tuas vitórias, tuas festas,
Teus subúrbios melancólicos,
Tuas pensões,
Teus jardins cheios de suspiros e de intrigas,
Tuas igrejas vomitando a reza musicada,
Teus desesperos infantis, teus jogos de velha louca,
Teus desencorajamentos;
E teus fogos de artifício, erupções de alegria,
Que fazem rir o céu mudo e tenebroso,
Teu venerável vício entremeado na seda,
E tua risível virtude, de olhar infortunado,
Doce, extasiando-se com o luxo que ele descortina…
Teus princípios salvos e tuas leis conspurcadas,
Teus altivos monumentos onde se agarram As Brumas.
Teus domos de metal os quais incendeia o sol,
Tuas rainhas do teatro com vozes encantadoras,
Teus alarmes, teus canhões, orquestra ensurdecedora,
Tuas mágicas calçadas altas como fortalezas,
Teus pequenos oradores, com exageros barrocos,
Pregando o amor, e ademais, teus esgotos cheios de sangue,
Se engolfando no Inferno como Orenocos,
Teus anos, teus bufões noviços com velhuscos hábitos
Anjos cobertos de ouro, de púrpura e de jacinto,
Ó vós, sede testemunhas de que cumpri meu dever
Como um perfeito alquimista e como uma boa alma.
Pois de cada coisa extraí a quintessência,
Tu me deste tua lama e eu fiz dela ouro.
O sol
Ao longo dos velhos arrabaldes, onde pendendo das mansardas
Persianas abrigam secretas luxúrias,
Quando o sol cruel atira setas redobradas
Sobre a cidade e os campos, sobre os tetos e os trigais,
Eu vou exercer solitário minha fantástica esgrima,
Farejando em todas as esquinas os acasos da rima,
Tropeçando em palavras como em calçadas,
Chocando-me às vezes com versos há muito tempo sonhados.
Esse pai benfeitor, inimigo da anemia,
Acorda nos campos os vermes como as rosas;
Faz evaporar-se o desassossego pelo céu,
E enche os cérebros e as colméias de mel.
É ele que rejuvenesce os aleijados
E os deixa alegres e doces como donzelas,
E ordena às colheitas crescerem e amadurecerem
No imortal coração que sempre deseja florescer!
Quando, como um poeta, ele desce às cidades,
Enobrece a categoria de coisas mais vis,
Introduz-se como um rei, sem alarde e sem criados,
Em todos os hospitais e em todos os palácios.
O anoitecer ao crepúsculo
Eis a noite encantadora, amiga do criminoso;
Vem como um cúmplice, a passo de lobo; o céu
Se fecha lentamente como uma grande alcova,
E o homem impaciente se transforma em besta fera.
Ó noite, amável noite, desejada por aquele
Cujos braços, sem mentir, podem dizer: Hoje,
Nós trabalhamos! –É a noite que alivia
Os espíritos devorados por uma dor selvagem,
O sábio obstinado cuja testa entorpece,
E o operário curvado que retoma sua cama.
Entretanto demônios malsãos na atmosfera
Despertam pesadamente, como homens de negócios,
E arremessam qual petecas os postigos e os telheiros
Através dos clarões que açoitam o vento
O Meretrício se incendeia pelas ruas;
Como um formigueiro ele trama suas passagens;
Por toda parte ele estabelece um oculto caminho,
Assim como o inimigo que tenta um ataque surpresa;
Ele se desloca no seio da cidade de lama
Como um verme que rouba ao Homem o que ele come.
Escutamos aqui e ali as cozinhas a chiar,
Os teatros a ganir, as orquestras a roncar;
As mesas redondas, nas quais o jogo faz as delícias,
Se enchem de vadias e escroques, seus comparsas,
E os ladrões, que não têm trégua nem perdão,
Vão sem mais tardar começar seu ofício, eles também,
E forçar docemente as portas e os cofres
Para ter do que viver alguns dias e vestir suas senhoras.
Recolhe-te, minha alma, nesse grave momento,
E tapa tua orelha a esse bramido.
É a hora na qual as dores dos doentes se agudizam!
A escura Noite os sufoca; vai findando
Seus Destinos e levando-os para o abismo comum;
O hospital se enche de seus suspiros. –Mais de um
Não virá mais atrás da sopa aromática,
No canto do fogo, ao entardecer, perto de uma alma irmã.
Ademais a maior parte deles jamais conheceu
A doçura do lar e jamais tinha vivido!
A uma passante
A rua ensurdecedora em torno de mim ululava.
Alta, delgada, enlutada, dor majestosa,
Uma mulher passa, com mão suntuosa,
Erguendo, ajeitando, a grinalda e a bainha;
Ágil e nobre, com sua perna de estátua.
Eu, eu bebia,crispado como um perdulário,
No seu olhar, céu lívido onde aflora o furacão,
A doçura que fascina e o prazer que mata.
Um relâmpago… depois a noite! –Fugitiva beldade
Cuja mirada me fez subitamente renascer,
Não te verei mais senão na eternidade?
Alhures, bem longe daqui! Talvez nunca!
Pois eu ignoro onde tu foste, tu não sabes aonde vou,
Ó tu que eu teria amado, ó tu que o sabias!
O cisne A Victor Hugo
Andrômaca, penso em ti! O pequeno rio,
Pobre e triste espelho onde outrora resplendeu
A imensa majestade de tuas dores de viúva,
Este enganador Simeonte que tuas lágrimas encheu
Fecundou de súbito minha memória fértil,
Quando eu atravessava o novo Carrossel.
A velha Paris não mais existe (a forma de uma cidade
Muda mais depressa, infelizmente!, que o coração de um mortal);
Vejo apenas na mente todo esse campo de barracos,
Essa pilha de capitéis esboçados e de colunas,
A relva, os grandes blocos esverdeados pela água das poças,
E, brilhando nos ladrilhos, o ferro velho misturado.
Ali se expunha outrora uma feira de animais,
Ali eu vi, uma manhã, à hora na qual sob os céus
Frios e claros o Trabalho desperta, quando o lixo
Levanta um escuro furacão no ar silencioso,
Um cisne que havia fugido do seu gradil,
E, patas espalmadas arranhando a calçada seca,
No solo aplainado arrastava sua branca plumagem,
Perto de um regato ressecado o bicho abrindo seu bico,
Banhava nervosamente suas asas na poeira,
E dizia, o coração cheio de seu belo lago natal:
“Água, quando cairás? Quando soarás, trovão?”
Eu vejo este desafortunado, mito estranho e fatal,
Para o céu, às vezes, como o homem de Ovídio,
Para o céu irônico e cruelmente azul,
Sobre seu pescoço convulsivo erguida sua cabeça ávida,
Como se dirigisse censuras a Deus!
II
Paris muda! Mas nada na minha melancolia
Alterou-se! Novos edifícios, andaimes, blocos,
Velhos subúrbios, tudo para mim torna-se alegoria,
E minhas recordações são mais pesadas que rochas.
Também diante do Louvre uma imagem me oprime;
Penso em meu grande cisne, com seus gestos frenéticos,
Como os exilados, ridículo e sublime,
E roído de um desejo sem trégua! E em seguida em ti,
Andrômaca, dos braços de um grande esposo tirada,
Vil gado, sob o jugo do soberbo Pirro.
À beira de um túmulo vazio em êxtase curvada;
Viúva de Heitor, que lástima!, e mulher de Heleno!
Penso na mulher negra, emagrecida e tísica,
Chapinhando na lama, e procurando, o olhar desvairado,
Os coqueiros ausentes da soberba África,
Por trás da muralha interminável da neblina.
Em qualquer um que perdeu e não recuperou
Nunca, nunca! Nesses que embebem de lágrimas
E mamam a Dor como uma boa loba!
Nos magros órfãos fenecendo como flores!
Assim na floresta onde meu espírito se exila,
Uma velha Reminiscência como um forte sopro do corne!
Penso nos marinheiros esquecidos numa ilha,
Nos prisioneiros, nos derrotados!…e em outros mais ainda!
Sonho parisiense
I
Dessa terrível paisagem,
Tal que nenhum mortal jamais viu,
Esta manhã ainda a imagem,
Vaga e longínqua, me arrebata.
O sono é cheio de milagres!
Por um capricho singular,
Eu havia banido desses espetáculos
O vegetal irregular.
E, pintor orgulhoso do meu gênio
Eu saboreava na minha tela
A embriagante monotonia
Do metal, do mármore e da água.
Babel de escadas e arcadas,
Era um palácio infinito,
Cheio de tanques e cascatas
Precipitando-se sobre ouro baço ou brunido;
E cataratas lentas
Como cortinas de cristal
Suspendiam-se, resplandecentes,
Por muralhas de metal.
Não árvores, mas colunas
Os tanques imóveis circundavam,
Onde gigantescas naiâdes,
Iguais às mulheres, se miravam.
Lençóis de água abundando, azuis,
Entre cais rosas e verdes,
Seguindo milhões de léguas
Até os confins do universo.
Havia pedras inauditas
E ondas mágicas; havia
Imensos espelhos ofuscados
Por tudo que elas refletiam.
Negligentes e taciturnos
Ganges, no firmamento,
Vertiam o tesouro de suas urnas
Nos abismos de diamante.
Arquiteto das minhas feéricas fantasias,
Eu fazia, a meu bel prazer,
Sob um túnel de pedrarias
Passar um oceano represado;
E tudo, mesmo a cor negra,
Parecia polido, claro, irisado;
O líquido engastava sua glória
No raio cristalizado.
Nem astro de alhures, nem vestígios
Do sol, mesmo no baixo céu,
Para iluminar esses prodígios
Que brilhavam com um fogo próprio!
E sobre essas movediças maravilhas
Pairava (terrível novidade!
Tudo para o olhar, nada para os ouvidos!)
Um silêncio de eternidade.
II
Reabrindo meus olhos em febre
Eu vi o horror do meu muquifo
E senti, entrando em minha alma
A pontada de desassossegos malditos.
O pêndulo com acentos fúnebres
Anunciava brutalmente o meio-dia
E o céu vertia trevas
Sobre o triste mundo embotado.
Uma carniça
Lembra-te da coisa que nós vimos, minha amada
Uma bela manhã de verão tão doce:
Na curva de uma vereda uma carniça infame
Num leito semeado de seixos.
De pernas pro ar, como uma mulher safada,
Destilando e suando miasmas,
Abria de maneira desleixada e cínica
Seu ventre cheio de exalações.
O sol brilhava sobre tal podridão,
Como querendo cozê-la ao ponto
Para dar multiplicado à Grande Natureza
Tudo o que num conjunto ela reunira.
E o céu olhava a carcaça soberba
Como uma flor a desabrochar,
O fedor era tão forte que, sobre a relva,
Tu crias desfalecer.
As moscas zumbiam sobre o ventre pútrido,
De onde saíam negros batalhões
De larvas que corriam como um espesso líquido
Ao longo desses vivos andrajos.
Tudo isso descia, subia, como uma onda,
Que espumava cintilando,
Dir-se-ia que o corpo, inflado por um sopro vago,
Vivia multiplicando-se.
E o mundo tocava uma estranha música
Como água corrente e vento,
Ou o grão que o peneirador com movimentos ritmados
Agita e repousa em sua peneira.
As formas se desfaziam e não eram mais que um sonho.
Um esboço lento a se delinear,
Sobre a tela esquecida, e que o artista acaba
Apenas de memória.
Atrás das rochas uma cadela inquieta
Nos fixava um olho irado
Vigiando o momento de reaver no esqueleto
O bocado que ela havia largado.
-E portanto tu serás semelhante a essa porcaria,
A essa horrível infecção,
Estrela de meus olhos, sol da minha natureza,
Tu, meu anjo e minha paixão!
Sim! Isso é o que serás, ó rainha das Graças,
Após os últimos sacramentos,
Quanto tu irás, sob a relva e as florações espessas,
Mofar em meio às ossadas.
Então, ó minha bela! Digas ao verme
Que te devorará de beijos
Que eu guardei a forma e a essência divina
De meus amores decompostos!
A musa doente
Minha pobre musa, que lástima, que tens esta manhã?
Teus olhos ocos são povoados de visões noturnas,
E eu vejo alternadamente refletidos na tua tez
A loucura e o horror, frios e taciturnos.
O súcubo esverdeado e o rosado duende
Teriam vertido a medo e o amor de suas urnas?
O pesadelo, com um punho despótico e revoltoso,
Teria te afogado no fundo de um fabuloso Minturnas?
Queria eu que exalando o odor da saúde
Teu íntimo de pensamentos fortes fosse sempre freqüentado
E que o sangue cristão corresse em ondas rítmicas,
Com os sons numerosos das sílabas antigas,
Onde revivem alternadamente o pai das canções,
Febo, e o Grande Pan, o senhor das colheitas.
O albatroz
Freqüentemente, para se divertir, os homens da equipagem
Pegam albatrozes, vastos pássaros dos mares,
Que seguem, indolentes companheiros de viagem,
O navio que desliza por abismos amargos.
Tão logo eles o largam sobre o convés
Esse rei do azul, desengonçado e envergonhado,
Largando lastimosamente suas grandes asas brancas
Como remos arrastados pelos lados.
Esse viajante alado, como é desajeitado e molenga!
Ele, há pouco tão belo, agora cômico e disforme!
Um, açula seu bico com um cachimbo,
Outro, imita, coxeando, o enfermo que antes voava!
O poeta é semelhante ao príncipe das nuvens
Que persegue a tempestade e se ri do arqueiro,
Exilado no solo em meio à balbúrdia,
Suas asas de gigante o impedem de andar.
O letes
Vens direto em meu coração, amada cruel e indiferente,
Tigre adorado, monstro de ar indolente;
Quero por muito tempo mergulhar meus dedos trêmulos
Na espessura de sua juba pesada;
Nas tuas anáguas encharcadas de um perfume
Sepultar minha cabeça dolorida,
E respirar, como uma flor murcha,
O doce ranço do meu amor defunto.
Quero dormir! Dormir de preferência a viver!
Num sono tão doce como a morte,
Eu espalharei meus beijos sem remorso
Sobre teu belo corpo polido como o cobre.
Para engolir meus soluços apaziguados
Nada se compara ao abismo do teu leito;
O esquecimento potente habita teus lábios,
E o Letes corre nos teus beijos.
A meu destino, doravante minha delícia,
Obedecerei como um predestinado;
Mártir submisso, inocente condenado,
Cujo fervor provoca o suplício,
Sugarei, para afogar meu rancor,
O elixir contra a tristeza e a boa cicuta
Nas arestas encantadoras desse colo ferino
Que nunca abrigou um coração.
A viagem A Maxime du Camp
I
Para a criança, apaixonada por mapas e estampas,
O universo é igual ao seu vasto apetite.
Ah! Que o mundo é grande à luz da lamparina!
Sob o olhar da memória o mundo é pequeno!
Uma manhã nós partimos, o cérebro cheio de ardor,
O coração repleto de rancor e desejos amargos,
E prosseguimos, seguindo o ritmo da lama
Embalando nosso infinito no finito dos mares:
Uns, jubilosos de fugir de uma pátria infame;
Outros, do horror de seus lares natais, e outros ainda,
Astrólogos afogados no olhar de uma mulher,
Circe tirânica com perigosos perfumes.
Para não serem transformados em bestas, embriagam-se
De espaço e de luz e de céu abrasados,
O gelo que os aguilhoa, o sol que os bronzeia,
Apagando lentamente a marca dos beijos.
Mas os verdadeiros viajantes são somente aqueles que partem
Por partir, corações ligeiros, semelhantes a balões,
De sua predestinação jamais se desviam.
E, sem saber por que, dizem sempre: Avante! !
Aqueles cujos desejos têm a forma de nuvens,
E que sonham, como um alistado, com o canhão,
Vastas volúpias, cambiantes, desconhecidas,
E das quais o espírito humano não sabe jamais o nome!
II
Nós imitamos, que horror!, o pião e a bola
Na sua valsa e seus pulos; mesmo na inconsciência
A Curiosidade nos atormenta e nos faz revirar
Como um anjo cruel que vergasta sóis.
Singular destino cuja meta se desloca
Não estando em nenhuma parte, talvez nem importando onde esteja!
Na qual o Homem, que nunca perde a esperança,
Para encontrar o repouso corre como um louco!
Nossa alma é uma embarcação procurando sua Icária;
Uma voz ecoa na ponte: “Abre os olhos”!
Uma voz na gávea, ardente, desvairada, grita:
“Amor…glória…felicidade!” que Inferno! É um escolho.
Cada ilhota avistada pelo vigia
É um Eldorado prometido pelo Destino;
A imaginação que enfeita sua orgia
Não encontra senão um recife na claridade da manhã.
Ó, o pobre desejoso por países quiméricos!
É necessário colocá-lo a ferros, jogá-lo ao mar,
Esse marinheiro ébrio, inventor de Américas,
Cuja miragem torna o abismo mais amargo!
Tal qual o velho vagabundo, lastimosamente na lama,
Sonha, nariz pro alto, com brilhantes édens;
Seu olhar iludido descobre uma Cápua
Onde a vela ilumina apenas um antro.
III
Assombrosos viajantes! Que nobres histórias
Lemos em vossos olhos profundos como os mares!
Mostrai os escrínios de vossas ricas memórias,
Essas jóias maravilhosas, compostas de astros e éters.
Nós vamos viajar sem vapor e sem vela!
Fazei, para alegrar o tédio de nossas prisões,
Passar por nossos espíritos, pendurados como uma tela
Vossas Lembranças com suas molduras de horizontes.
Dizei, o que vistes?
IV
“Nós vimos astros
E ondas; nós vimos areais também;
E, apesar de choques e de imprevistos desastres
Nós nos sentimos freqüentemente entediados, tal como aqui.
A glória do sol sobre o mar violeta,
A glória das cidades ao pôr-do-sol,
Acenderam em nossos corações um ardor inquieto
De mergulhar num céu de reflexo sedutor.
As mais ricas cidades, as mais imensas paisagens,
Jamais continham o atrativo misterioso
Daquelas que o acaso compunha com nuvens
E sempre o desejo nos deixava em desassossego!
Gozar ao desejo acrescenta a força.
Desejo, velha árvore à qual o prazer serve de adubo,
Enquanto engrossa e endurece sua casca,
Teus ramos querem ver o sol mais de perto!
Crescerás sempre, grande árvore mais vistosa
Que o cipreste? –Porém nós temos, com desvelo,
Colhido alguns croquis para vosso ávido álbum,
Irmão que considerais belo o que vem de longe!
Nós temos saudado ídolos com trompa,
Tronos constelados de jóias luminosas;
Palácios lapidados cuja feérica pompa
Seria para vossos banqueiros um sonho de ruína.
Costumes que som para os olhos uma embriaguez;
Mulheres cujos dentes e unhas são tingidos,
E jograis sábios que a serpente acaricia.”
V
E depois? E depois ainda?
VI “Ó cérebros pueris!
Para não esquecer a coisa essencial,
Vimos por toda parte, e sem haver buscado,
De alto a baixo da escada fatal,
O espetáculo tedioso do imortal pecado.
A mulher, escrava vil, orgulhosa e estúpida,
A sério adorando a si mesma e se amando sem desgosto,
O homem, tirano, glutão, libertino, rígido e ganancioso,
Escravo do escravo e valeta de esgoto.
O carrasco que desfruta, o mártir que lamenta,
A festa que condimenta e perfuma o sangue;
O veneno do poder obcecando o déspota,
E o povo enamorado pelo chicote embrutecedor.
Muitas religiões semelhantes à nossa,
Todas escalando o céu; a Santidade,
Tal qual num leito de plumas um delicado se chafurda,
Nos pregos e nas cerdas buscando a volúpia.
A Humanidade indiscreta, embriagada do seu gênio,
E, louca hoje como o foi outrora,
Clamando a Deus, na sua furibunda agonia:
“Ó meu semelhante, ó meu criador, eu te amaldiçôo”!
E os menos tolos, temerários amantes da Demência,
Fugindo ao grande rebanho encurralado pelo Destino,
E refugiando-se no vasto ópio!
–Tal é do Globo inteiro o eterno noticiário.”
VII
Amarga sabedoria, aquela que se extrai da viagem!
O mundo, monótono e pequeno, hoje,
Ontem, amanhã, sempre, nos faz ver nossa imagem:
Um oásis de horror num deserto de tédio!
É necessário partir? Ficar? Se tu podes ficar, fica;
Parte, se é necessário. Um corre, outro se esconde,
Para enganar o inimigo vigilante e funesto,
O Tempo! Há, infelizmente, que se correr sem repouso
Como o Judeu Errante e como os Apóstolos
Aos quais nada foi suficiente, nem vagão nem naves,
Para fugir ao Gladiador infame; e há outros
Que sabem matá-lo sem deixar a terra natal.
Quando enfim ele finca o pé sobre nossa espinha
Nós podemos esperar e gritar: “Avante!”
Assim como de outra feita nós partíamos para a China,
Os olhos fixos na distância e os cabelos ao vento,
Nós navegávamos no mar das Trevas,
Com o coração entusiasmado de passageiro jovem,
Escutando essas vozes encantadoras e funestas,
Que cantavam: “Por aqui! Vós que quereis comer
O Lótus perfumado! É aqui a vindima
Dos frutos miraculosos de que vosso espírito tem fome;
Viestes embriagar-vos da doçura estrangeira
Dessa sesta que não tem fim?”
De um sotaque familiar se adivinha o espectro:
Nosso Pílades ali adiante tem os braços aberto para nós.
“Para refrescar teu coração nada até tua Electra!”
Diz ela da qual outrora beijávamos os joelhos.
VIII
Ó Morte, velho capitão, é tempo! Levantemos a âncora!
Este país nos entedia, ó Morte! Equipemos!
Se o céu e o mar são negros como nanquim,
Nossos corações que tu conheces são inundados por lampejos!
Verte-nos teu veneno para que ele nos reconforte!
Queremos, tanto este fogo nos incendeia o cérebro,
Mergulhar no fundo do abismo, Inferno ou Céu, que importa?
No final do Desconhecido para encontrar O NOVO.
EPÍLOGO DE Spleen de Paris (pequenos poemas em prosa)
Coração contente, subi a montanha
De onde se pode contemplar a cidade em sua complexidade,
Hospital, lupanar, purgatório, inferno, prisão,
Onde toda enormidade floresce como flor.
Tu sabes bem, ó Satã, senhor do meu desespero,
Que por lá não ia espalhar um pranto vão;
Mas, como um velho lascivo de uma velha amante,
Queria me inebriar da enorme prostituta
Cujo encanto inffernal me rejuvenesce sem cessar.
Se tu dormes ainda nos lençóis da manhã,
Pesada, sombria, resfriada, ou se tu te pavoneias
Nos véus da noite com a passamanaria em ouro fino,
Eu te amo, ó cúpida capital! Cortesãs,
E bandidos, como tais ofereceis prazeres
Que não compreendem os profanos vulgares.










um cão dentro
de mim



atravesso
como a um pátio:
o barulho de existir”
Onde toda enormidade floresce como uma flor:
Tu sabes bem, ó Satã, dono da minha aflição,
Que lá eu não ia para espalhar vãs lágrimas;
Mas, como um velho libertino com uma velha amante,
Eu queria inebriar-me com a imensa vadia
Cujo charme infernal me rejuvenesce incessantemente.
Que tu durmas ainda nos lençóis da manhã,
Pesada, obscura, catarrenta, ou que tu te pavoneies
Nos véus da noite com passamanaria de ouro fino,
Eu te amo, ó capital infame! Cortesãs,
E bandidos, freqüentemente ofereceis prazeres tais
Que não compreendem os vulgares profanos.


