MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/12/2009

Em relação ao século XX: 100, 75, 50, 25 anos de obras e autores

[Juan Carlos Onetti]

{Eugene Ionesco}

[Norberto Bobbio]

[Selma Lagerlöf]

100 anos- Em 2009, a escritora alemã Herta Müller ganhou o Nobel. Exatamente cem anos atrás, a sueca Selma Lagerlöf (1858-1940) tornava-se a primeira mulher a receber o prêmio. Não conheço muito bem sua obra,  só li algumas histórias de De saga em saga, uma coletânea que aparece numa coleção dos premiados com o Nobel, porém há um ensaio excelente de Marguerite Yourcenar sobre ela em Notas à margem do tempo, e que nos faz vislumbrar um universo fascinante.

    No mesmo ano em que a autora de A saga de Gösta Berlings (seu livro mais conhecido) se tornava a pioneira de uma lista ainda muito pequena, nascia na Romênia natal de Herta Müller um dramaturgo originalíssimo, que faria parte do chamado “teatro do absurdo”: Eugene Ionesco, de A cantora careca, Os rinocerontes; A lição; e, no Uruguai, um dos prosadores que mais mereceriam o Nobel no século XX: Juan Carlos Onetti, com obras do calibre de A vida breve, O estaleiro & Junta-Cadáveres, e que forma, com o argentino Jorge Luis Borges e o mexicano Juan Rulfo a santíssima trindade da ficção hispano-americana.

      Também em 1909, nascia o grande pensador italiano Norberto Bobbio, autor dos ensaios maravilhosos reunidos em Nem com Marx, nem contra Marx. E na Letônia nascia o luminoso Isaiah Berlin (que faria carreira na Inglaterra), o autor de Pensadores russos, um pensador que gostava mais de escrever ensaios do que preparar “livros”.  E naquele ano, Lima Barreto lançava seu libelo anti-racista que também, e principalmente, é um poderoso romance, Recordações do escrivão Isaías Caminha.

75 anos- De 1934, gostaria de destacar dois romances essenciais: o maior livro de Graciliano Ramos, São Bernardo (ser o melhor livro de um escritor como Graciliano é um fato por si só notável; para mim, aliás, os maiores romances brasileiros do século passado são Grande sertão: veredas; A maçã no escuro; São Bernardo  & Triste fim de Policarpo Quaresma); e o terrível e avassalador Morte a crédito, de Louis-Ferdinand Céline (que talvez seja até maior do que sua obra-prima anterior, Viagem ao fim da noite). Vidas secas e cheias de angústia no Nordeste e na França. A vida lembrada, cá e lá, como memórias do cárcere

[raymond chandler]

50 anos- É difícil escolher o acontecimento literário supremo de 1959, ano em que morria o grande Raymond Chandler, pois nesse ano iniciavam suas carreiras gloriosas nomes como Günter Grass, com O tambor de lata, certamente um dos maiores romances já escritos; os outros não começaram já nesse patamar: Philip Roth (Adeus, Columbus), Vargas Llosa (Os chefes) e Dalton Trevisan (Novelas nada exemplares). O único título comparável em magnitude ao de Grass talvez seja O almoço nu, que revelou o universo muito peculiar de William Burroughs, mas cuja legibilidade maior foi possível graças à notável versão cinematográfica de David Cronemberg (a versão de O tambor nada tem de notável). Mesmo assim, um romance cinquentenário pelo qual tenho um carinho especial é Um cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr, merecidamente um clássico da ficção científica, mas que não se restringe a um “livro de gênero”. Na área de contos, é difícil pensar num título mais importante do que As armas secretas, de Cortázar, não só por causa da sua qualidade literária (o meu favorito é “Cartas da mamãe”, mas o mais considerado é “O perseguidor”, baseado na vida de Charlie Parker), como pela sua influência na literatura dos anos 60 e 70: basta lembrar que “As babas do diabo” foi a inspiração de Antonioni para seu Blow up (1968). Também não se pode esquecer a irreverência, a jovialidade e o trato de linguagem de Zazie no metrô, a obra-prima de Raymond Queneau.

     Em 1959, Jean-Paul Sartre dedicou-se a escrever um roteiro imenso (depois não utilizado, naquela época não existiam as produções para a tv a cabo, não existia a HBO; mesmo assim, Sartre resmungou que as pessoas tinham paciência para ver quatro horas da vida de Ben-Hur e não tinham para ver a vida do criador da psicanálise) sobre a vida de Freud para John Huston. O filme é ótimo, mas o texto de Sartre não fica atrás: Freud, além da alma; o marcante romancista português Vergílio Ferreira lançou sua obra mais famosa, o difícil porém importante Aparição; e há quem ache uma obra-prima (não é o meu caso) Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, ainda assim um livro que se deve levar em conta. Em todo caso, eu prefiro o folhetinesco Asfalto selvagem, as deliciosas desventuras em série de Engraçadinha, uma das grandes criações de Nélson Rodrigues

25 anos- Em 1984, morriam tanto Cortázar quanto outro autor genial, Truman Capote, cujo inacabado romance Súplicas atendidas foi lançado no Brasil este ano pela L&PM, e que prova o incrível trabalho feito pela sua alcoólica mãe (que tinha vergonha da homossexualidade do filho) para lhe incutir culpa e autodesprezo. Numa vertente gay oposta, de eliminação de toda essa automortificação, temos um clássico da nossa ficção recente, Vagas notícias de Melinha Marchiotti, de João Silvério Trevisan, um romance paródico, inventivo e infelizmente pouco conhecido, assim como Democracia, da norte-americana Joan Didion, e até mesmo O ano da morte de Ricardo Reis, o menos popular (e o melhor) José Saramago. Muito conhecido, pelo contrário, e igualmente notável é O amante, de Marguerite Duras.

julio cortázar & truman capote]

25 anos- Em 1984, morriam tanto Cortázar quanto outro autor genial, Truman Capote, cujo inacabado romance Súplicas atendidas foi lançado no Brasil este ano pela L&PM, e que prova o incrível trabalho feito pela sua alcoólica mãe (que tinha vergonha da homossexualidade do filho) para lhe incutir culpa e autodesprezo. Numa vertente gay oposta, de eliminação de toda essa automortificação, temos um clássico da nossa ficção recente, Vagas notícias de Melinha Marchiotti, de João Silvério Trevisan, um romance paródico, inventivo e infelizmente pouco conhecido, assim como Democracia, da norte-americana Joan Didion (sempre cito uma de suas frases, “ninguém está isento do movimento geral”, e sua heroína, Inez Christian Victor, é como se fosse uma amiga pessoal), e até mesmo O ano da morte de Ricardo Reis, o menos popular (e o melhor) José Saramago. Muito conhecido, pelo contrário, e igualmente notável é O amante, de Marguerite Duras, a qual justamente em 1959 havia escrito o mais belo dos roteiros em hiroshima, meu amor, dirigido por Alain Resnais.

Em relação ao século XIX: BICENTENÁRIOS, SESQUICENTENÁRIOS

      “… todos os seres da natureza, perceptíveis para nós, mantêm uma relação recíproca (…) Imagine a água, o óleo, o mercúrio: você verá uma unidade, uma coesão entre as suas partes. Essa união só deixará de existir pela força ou por outra determinação qualquer. Cessando esta, tornam logo a juntar-se de novo (…) E isso será diferente segundo a diversidade dos seres. Ora agirão como amigos ou velhos conhecidos que rapidamente se reúnem, se juntam, sem modificarem um ao outro, tal como o vinho ao se misturar com a água; ora, ao contrário, permanecerão absolutamente estranhos um ao outro, sem se unirem, mesmo através de fricções ou misturas mecânicas, como o óleo a água (…) Não falta muito para vermos nessas forma simples as pessoas que conhecemos… Entretanto o que mais se assemelha a esses seres inanimados são as massas se enfrentando no mundo, as classes sociais, as profissões, a nobreza e a burguesia, o militar e o civil (…) Contudo, tal como esses grupos que se agregam por meio de costumes e leis, há também, em nosso mundo químico, elementos para juntar aquilo que se repele mutuamente…”

      2009 marca não só o bicentenário do nascimento de gênios como Edgar Allan Poe, Nikolai  Gógol  (há posts sobre as duas efemérides aqui no meu blog) e Charles Darwin, como também o de uma obra fundamental e curiosamente pouco conhecida do público comum: As Afinidades Eletivas (relançada recentemente, em tradução de Erlon José Paschoal, pela Nova Alexandria, em edição de capa dura, mas a que possuo é a de  1992; as citações podem ser encontradas na Primeira Parte- Capítulo IV; há uma notável adaptação cinematográfica do livro feita pelos irmãos Taviani, com a grande Isabelle Hupert).

    Na citação acima, misturei as falas de vários personagens (o Capitão, Eduard, Charlotte) que estabelecem o “processo químico e orgânico” de modificação dos sentimentos de um casal nobre, devido à aparição de uma “outra determinação qualquer”, a irresistível Ottilie, a qual levará Eduard ao adultério. O extraordinário romance de Goethe (1749-1832) marca o aprofundamento da análise dos sentimentos individuais na ficção, mostrando que o absoluto não existe  nesse reino, só o relativo, e que portanto pode haver uma decomposição narrativa infinita dos seus elementos. Nem Rousseau nem Richardson, no século anterior, haviam ido tão longe.

p.s.- Apesar de estar fora do âmbito deste post, o nascimento do grande amigo de Goethe e seu maior “rival”, por assim dizer, na literatura alemã, Schiller, completa 250 anos em 2009.

    Além dos 200 anos do nascimento do profeta do Evolucionismo, temos os 150 anos da sua obra mais célebre, A Origem das Espécies, que deu origem a uma avalanche de lançamentos comemorativos (Richard Dawkins que o diga). Aliás, com relação à obra-prima de Goethe, é bom lembrar que o último capítulo da obra-prima de Darwin se chama “Afinidades mútuas entre os seres orgânicos”: “Tentei demonstrar neste capítulo que o arranjo de todos os seres orgânicos que viveram em todos os tempos em grupos subordinados a outros grupos;  que a natureza das relações que vinculassem num pequeno número de grandes classes todos os organismos vivos e extintos, por linhas de afinidades complicadas,  divergentes e tortuosas; que as dificuldades que encontram e as regras que seguem os naturalistas nas suas classificações;  que o valor que se liga aos caracteres  quando são constantes e gerais, que tenham uma importância considerável ou mesmo que não tenham nenhuma, como nos casos dos órgãos rudimentares; que a grande diferença de valor que existe entre os caracteres de adaptação ou análogos e de afinidades verdadeiras; tentei demonstrar, repito, que todas essas regras, e ainda outras análogas, são a consequência natural da hipótese do parentesco comum das formas associadas e de suas modificações pela seleção natural, junto às circunstâncias de extinção e de divergência de caracteres que determina.  Analisando esse princípio de classificação, é necessário não esquecer que o elemento genealógico foi unicamente aceito e empregado para classificar em conjunto, na mesma espécie, os dois sexos, as diversas idades e as variedades reconhecidas, seja qual for, além disso, a sua conformação. Se se estende a aplicação desse elemento genealógico, causa única conhecida das semelhanças que se verificam entre os seres organizados, compreende-se o que é necessário entender por sistema natural: é tudo um simples ensaio de coordenação genealógica em que os diversos graus de diferenças adquiridas se exprimem pelos termos variedade, espécies, gêneros, famílias, ordens e classes“…  (utilizo a tradução de Eduardo Fonseca, pela Ediouro).

     No mesmo ano, uma obra anteciparia o conteúdo de O Capital e, embora mais discretamente que a do pensador inglês, mudaria toda a nossa maneira de conceber o mundo e a história: Contribuição à Crítica da Economia Política, de Karl Marx, uma boa introdução às idéias do genial pensador prussiano, que naquele ano prosseguia em seu definitivo exílio em Londres, pensando no fim do capitalismo em pleno coração do Império.

       1859 marca também o nascimento do grande pensador francês Henri Bergson (autor do Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, Matéria e Memória & A evolução criadora), um dos mais influentes da primeira metade do século XX; também naquele ano nascia  o criador de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, e a publicação, além de um dos textos mais deliciosos de Dostoiévski (A Aldeia de Stiepantchikov  e Seus Habitantes), uma jóia de humor e precisão narrativa (na minha opinião, sua melhor obra antes da grande fase iniciada com Memórias do Subsolo),  de uma das novelas mais lindas de  Tolstói, A Felicidade Conjugal (que também ganhou uma nova edição em 2009, pela 34, na tradução de Boris Schnaiderman).

     Trinta anos depois, ele anatematizará apocalipticamente a instituição do casamento (muito visada, assim como seu duplo, o adultério, pelos autores da época) em Sonata a Kreutzer. Porém, aos 31 anos, num tour – de force, ele adota o ponto-de-vista de uma jovem esposa, Macha, que se apaixona e se casa com um homem quase vinte anos mais velho. É através das impressões e reflexões de Macha que o leitor vai acompanhando uma profunda e alquímica (pensando em Afinidades Eletivas, podemos dizer que goethiana) transformação de sentimentos, mas que ocorre em filigrana: temos as diversas nuances que constituem a “realidade” dos sentimentos. O amor romântico de Macha e  Sierguei Mikhálitch morre e, como ela diz, “não tem mais força nem suculência. O que sobrou? Sobrou o amor ,  isto é, a felicidade conjugal,como conclui a narradora num dos mais belos finais já escritos: “…terminou o romance com meu marido; o sentimento antigo tornou-se uma recordação querida, algo impossível de trazer de volta, e o novo sentimento de amor aos filhos e ao pai dos meus filhos deu início a uma nova vida, de uma felicidade completamente diversa e que ainda não acabei de viver”. De Goethe a Tolstói, passando pelo grande Stendhal, os sentimentos na literatura se tornam mais interessantes que a ação romanesca, até chegarmos ao auge com Proust e seu Em Busca do Tempo Perdido.

23/12/2009

170 noites com Sharazad

Com o primeiro volume da sua tradução (direta do árabe) do Livro das Mil e Uma Noites, Mamede Mustafa Jarouche conseguiu a proeza de tirá-lo do limbo folclórico em que se encontrava e reconduzi-lo, devido à repercussão do seu trabalho (um inesperado sucesso de vendas também), à sua condição  como uma das fontes primordiais do imaginário da humanidade, através da interpenetração do oral e do letrado.

O que Jarouche nos oferece, na sua versão da história de como  Sharazad seduz o desiludido rei  Shariyar (os nomes estão  grafados aqui diferentemente do livro) não pelos seus encantos físicos (os quais não seriam suficientes para salvá-la, já que o rei decidiu matar cada mulher com que passasse a noite, após a traição da esposa), mas sobretudo com seus dotes narrativos, cujo poder mantém a execução suspensa, é a primeira edição brasileira com um suporte filológico de fontes, notas e anexos com variantes e textos similares.

Esse primeiro volume traz 170 das noites, com 31 histórias  entrelaçadas (aliás, as personagens vivem contando histórias umas às outras, até o vizir, pai de Sharazad, para dissuadi-la de se oferecer ao rei, conta uma história edificante (o lado de ensinamento moral é marcante no livro).

O que torna um pouco chata a narrativa para o gosto atual é a repetição da mesma moldura convencional: Sharazad suspende a história ao amanhecer (“a aurora alcançou  Sharazad, que parou de falar), sua irmã  Dinazard comenta infalivelmente (“como é agradável e assombrosa a sua história”, com ligeiras variantes) e a “tecelã das noites (la tisserande des nuits)”, como já foi chamada, infalivelmente replica (“isso não é nada  perto do que irei contar-lhes na próxima noite, se eu viver e o rei me preservar”).  Nas primeiras noites, Shariyar repete o seu famoso, “por Deus que não vou matá-la até ouvir o restante da história”, entretanto a partir da nona noite, isso se torna esporádico. É o caso da 39ª noite, na qual se narram amores incestuosos entre irmãos (“por Deus que adiarei sua morte até ouvira notícia das jovens com os dervixes, e só então a matarei, como fiz com as outras”).

Na desgraça familiar e física que atinge o primeiro dervixe nesse passo da história, o leitor encontra uma das fontes de que se serve um autor de primeira linha do nosso tempo como Salman Rushdie. Como não reconhecer a filiação direta de narrativas rushdieanas, como O último suspiro do mouro (se acrescermos o elemento de humor e paródia), em trechos como os seguintes: “Minhas aflições se renovaram, meus pesares aumentaram, e me recordei o que ocorrera a meu tio, a meu pai e a meus primos, além da perda do  meu olho” e para salvar-se da morte certa “não encontrei nada que me garantisse a vida e salvasse senão raspar a barba e as sobrancelhas. Modifiquei minhas roupas, passando a usar a vestimenta dos mendigos e servindo a ordem dos dervixes carandéis”.

No arremate da noite: “Foi o destino que nos conduziu à sua casa, e vocês fizeram a caridade de nos deixar entrar e nos trataram com tamanha gentileza que eu me esqueci da perda de meu olho e da raspagem da minha barba”.  Nas Mil e Uma Noites, como de resto em quase toda a épica mundial, as tribulações espirituais e fisiológicas sempre se misturam, o que sempre dá um toque de humor, apesar do livro ser, segundo Jarouche, um “repertório fantástico” jamais igualado, de fábulas de terror e piedade,  de amor e de ódio, de medo e de paixões desenfreadas, de atitudes generosas e de comportamentos cruéis, de delicadeza e de brutalidade.”

Para arrematar, é preciso dizer que a narrativa enaltece a astúcia (Sharazad vai tecendo suas narrativas, como uma teia, trama infinita no seu desdobrar-se, na sua não-linearidade) diante do poder autoritário. Belo golpe de estado!

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 16 de julho de 2005)

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14/12/2009

O PROCESSO e A PESTE: a culpa e a inocência da humanidade

camusFranz_Kafka

Possivelmente as duas obras que melhor simbolizam as preocupações centrais do século são O processo e A peste. A obra-prima de Franz Kafka  foi escrita (e interrompida) entre 1914 e 1915; e a obra-prima de Albert Camus foi publicada em 1947. Coincidentemente os dois estavam na faixa dos trinta e poucos anos quando as escreveram.

No universo de O processo a totalidade da ação se passa, a uma visão superficial, no plano individual: Jozef K. acorda no dia do seu aniversário e encontra tudo modificado: está detido, é acusado por um crime que desconhece. Procurador de um grande banco, percorre um caminho que vai da atitude “superior” diante da situação absurda em que se vê metido até o patético desamparo diante da execução, quando dois homenzinhos burlescos o levam para uma pedreira, onde o matam “como a um cão”.

Após viver alienadamente por trinta anos, K. se vê enredado por uma terrível e abstrata (terrível porque abstrata?) Lei, a qual parece congregar todas as pessoas à sua volta (o que dá um ar conspiratório e ameaçador ao romance inteiro), como se o mundo fosse uma vasta organização burocrática. K, entretanto, somente vagará pelos escalões mais subalternos e inferiores dessa organização que encarna a Lei. Isso dá margem à veia cômica incomparável de Kafka, pois vemos repartições, cartórios e salas de audiência localizados em cortiços, funcionários sórdidos e sempre envolvidos numa degradante atmosfera de sexualidade (o juiz de instrução manda buscar a esposa do oficial de justiça para servi-lo sexualmente, um estudante de direito mantém relações com ela durante um inquérito). Os acusados têm de viver nos quartos de despejo dos advogados para que eles se dignem a dar informações, quando lhes ocorre ou lhes dá na veneta, sobre o andamento do seu processo (é o caso do comerciante Block, humilhado pelo advogado que compartilha com K., e não é só o advogado que eles compartilham).

o processo

Qualquer um pode fazer parte dos tribunais e qualquer quartinho (como o do pintor Titorelli, a quem K. procura para que o ajude no seu processo) revela entradas e saídas que se comunicam com cartórios e repartições (então, já que não há separação entre privado e público, também não se pode falar em “plano individual”). Todos os ambientes são miseráveis, baixos, pobres e abafados. Pesadelo de tísico. De fato, apesar do humor negro inato em Kafka, O processo parece um pesadelo ampliado. Mostra um mundo em crise, onde lei e justiça estão em pólos opostos, onde todos os valores e alicerces que achamos seguros e sólidos se viram contra nós, e ainda fazem com que acreditemos que carregamos alguma culpa, identificada e punida (é por isso que o sexo é uma presença tão forte no romance). O ser humano é um condenado que vive em aparente liberdade e K. acerta em cheio ao dizer para o sacerdote na catedral da cidade (quando sua condenação já é praticamente certa): “A mentira se converte em ordem universal”. O que se pode esperar quando a suposta lei que rege o universo é representada pela corrupção,  pela vaidade e pela degradação?

II

Se K. sucumbe ao absurdo, alienado de si e dos outros, contestando, mas apenas no (e aí sim se encaixa o) plano individual, A peste tenta equacionar o individual e o coletivo com relação à “mentira convertida em ordem universal”: a cidade de Oran é abalada pela morte inexplicável de seus ratos, depois por alguns casos isolados de uma doença misteriosa,até que o número de vítimas multiplica-se e a cidade é obrigada a ficar em estado de sítio, isolada. Nenhuma medida e nenhum soro parecem capazes de controlar e erradicar a epidemia e toda a vida cotidiana passa a se organizar em torno da peste, que aparentemente iguala a todos (embora não seja bem assim).

Uma leitura redutora da amplitude do livro de Camus está em considerá-lo simplesmente uma alegoria do Nazismo (a peste), da Resistência (o grupo que luta contra a praga, apesar das diferenças individuais: o doutor Rieux, seu amigo Tarrou, o jornalista Rambert, o padre Paneloux, o burocrata Grand) e do Colaboracionismo (o corrupto Cottard). As décadas transcorridas e os acontecimentos só valorizaram a alegoria da Peste utilizada por Camus (que, com incrível presciência, resgatou um dos símbolos mais fortes do imaginário medieval, que depois foi inúmeras vezes explorado como paralelo da nossa época), transcendendo as referências datadas e até as intenções possíveis do grande escritor franco-argelino: a Peste pode representar a mera estupidez da natureza que dizima populações inteiras, comprovando o absurdo do mundo, onde se vive e se morre gratuitamente; e pode representar uma ordem social alienada, contra a qual só a ação coletiva  pode ser uma força. Eficaz? Não importa. O livro não exalta o heroísmo coletivo, não há “mensagem positiva”. Apenas mostra que o indivíduo (e suas escolhas) nada é para a Peste, e nada é sem lutar contra a Peste, que Tarrou acredita estar dentro de todos nós.

camus e a pesteAlbertCamus-Apeste

A Peste pode ser a guerra, a AIDS, o ebola, a globalização, o fanatismo, somos todos indivíduos que podem ser parte de uma estatística fatal, e não podemos nos desobrigar de trabalhar contra o absurdo e opor a ele o outro termo da equação camusiana básica: a revolta. Pois a culpa não está em nós, apenas o “micróbio” da Peste, em oposição à culpa difusa que parece envenenar os esforços de K. em O processo. É por isso que a palavra “inocência” é tão utilizada ao longo do romance. Somos inocentes porque nascemos num mundo indiferente ao nosso destino e aos valores morais que possamos criar para justificar nossa presença aqui. Divorciados do mundo, temos ainda a Peste, que representa tudo o que nos degrada e destrói, ou, num plano mais sutil, nos aliena de nós mesmos, tudo que serve à “mentira convertida em ordem universal”.

Um dos recursos brilhantes de Camus para criar um diálogo entre as várias reações individuais contra a praga é fazer com que o doutor Rieux narre a história (identificando-se apenas no final), incorporando porém as descrições, depoimentos e testemunhos dos outros personagens, numa tessitura narrativa muito mais complexa e escorregadia do que parece. Ocultando-se como narrador, Rieux faz questão de assumir o papel de cronista, mais do que de protagonista; enquanto que, em O processo, a narrativa é em terceira pessoa, mas sempre tem uma atmosfera de narrativa em primeira pessoa, de tão colada às percepções de K. O doutor Rieux, narrando, esquece de si mesmo para enfrentar a banal e monótona burocracia da Peste.

E assim, tendo em mente os acontecimentos do século XX, esses dois belíssimos romances colocaram em movimento imagens poderosas e bizarras, mostrado como as instituições forma se transformando em jaulas, como as abstrações que criamos passam a ter mais realidade que nossa própria existência cotidiana, como o indivíduo passou a ser irrisório e como o irracional ainda comanda nossas vidas.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 23 de dezembro de 1997, em homenagem ao meio século de A peste e em razão do lançamento de uma nova edição de O processo).

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/12/21/contra-as-paredes-ideologicas-o-homem-revoltado-de-camus/

https://armonte.wordpress.com/2013/01/09/a-ratificacao-do-absurdo-a-morte-de-albert-camus/

https://armonte.wordpress.com/2011/10/27/a-vida-apos-a-morte-de-albert-camus-o-primeiro-homem/

https://armonte.wordpress.com/2009/12/14/o-sim-e-o-nao-de-albert-camus/

https://armonte.wordpress.com/2012/11/25/o-terror-nas-dobras-do-pastelao-o-desaparecido-de-kafka/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/25/fascinio-de-kafka-nao-se-esgota/

https://armonte.wordpress.com/2012/11/26/como-chegar-ao-castelo/

O SIM E O NÃO DE ALBERT CAMUS

 

A RECUSA E O CONSENTIMENTO

    Recentemente, o leitor brasileiro teve a oportunidade de conhecer a derradeira obra de Albert Camus (1913-1960), O primeiro homem. Agora, a Record lança (com um capricho e um bom gosto que não são peculiares às suas edições, e com tradução de Valéria Rumjanek), o primeiro livro do grande escritor franco-argelino, O AVESSO E O DIREITO, o qual já circulou bastante por aqui na versão portuguesa.

O AVESSO E O DIREITO apresenta cinco textos que são indefinidos com relação ao seu gênero, mas não à sua qualidade. Aos 20 e poucos anos, Camus já era Camus, quer no tocante à contundência e beleza literária, quer no tocante aos seus temas recorrentes,e já preparava algumas das suas formulações mais lapidares.Faltava apenas, talvez, o olhar ficcional mais apurado que os leitores de O estrangeiro, A peste, A queda e O primeiro homem conhecem.

Entretanto, não é à toa que, no lindíssimo prefácio (escritos nos anos 1950), Camus afirme: “Sei que minha fonte está em O avesso e o  direito…” Ali, também, ele nos dá uma verdadeira síntese da concepção de mundo que embasa seu estilo: “Para corrigir uma indiferença natural, fui colocado a meio caminho entre a miséria e o sol. A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na História, o sol ensinou-me que a História não é tudo. Mudar a vida, sim, mas não o mundo do qual eu fazia minha a divindade.Assim é, sem dúvida, que abordei essa carreira desconfortável em que me encontro, enfrentando com inocência uma corda bamba, na qual avanço com dificuldade sem estar seguro de alcançar a outra ponta. Em outras palavras, tornei-me um artista, se é verdade que não há arte sem recusa nem consentimento.”

             O primeiro texto,”A ironia”, apresenta três flashes de situações nas quais a velhice solitária, a pobreza e a morte dão o tom. É particularmente pungente a confusão de sentimentos do neto diante da morte da avó, ao ponto de ele chorar no enterro apenas “por receio de não ser sincero e de estar mentindo diante da morte” (portanto, o leitor está no limiar, diante de uma primeira encarnação do estrangeiro Mersault, que será condenado por não chorar no enterro da mãe). A grande, a terrível ironia é que nada importa, já que tudo se aceita. É talvez por isso que o homem deve viver “Entre o Sim e o Não”, título do segundo texto, uma espécie de terna recordação (todavia, também filosófica) da mãe e do ambiente que povoou a infância de Camus: “Um homem sofre e passa por desgraças e mais desgraças. Ele as suporta e instala-se no seu destino. Ele é estimado. E, depois, uma noite, nada: encontra um amigo de quem gosta muito. Este lhe fala distraidamente. Ao voltar para casa, o homem se mata. Fala-se, em seguida, de tristezas íntimas e de drama secreto. Não. E se for absolutamente necessária uma causa, matou-se porque um amigo falou com ele distraidamente. Da mesma forma, cada vez que me pareceu experimentar o sentido profundo do mundo, foi sempre a sua simplicidade que me perturbou”.

E assim vamos mergulhando no livro, através dessas voltas em espiral entre a recusa e o consentimento, entre a negação e a afirmação, entre o sim e o não. Embora tudo diga não, mesmo assim ecoa o sim que James Joyce colocou ao final de Ulisses ou o sentido dos versos de Caetano Veloso: “Nem o não do silêncio do breu/ Nem o sim da explosão estelar…”

        E essa espiral, esse movimento pendular, acompanhará Camus na sua estadia em Praga (o terceiro texto, “Com a morte na alma”, germe do inacabado mas belo A morte feliz), na  Espanha (“Amor pela vida”), até que, no último texto, que dá título ao volume, ele compara seu destino ao da mulher que foi preparando seu túmulo, com amor, ao longo dos anos, “sua saída singular e sua única distração”. Absurdo? Comece a olhar em volta, leitor.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de outubro de 1995)

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/12/21/contra-as-paredes-ideologicas-o-homem-revoltado-de-camus/

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IMAGINANDO SÍSIFO FELIZ

 “O tema deste ensaio é justamente essa relação entre o absurdo e o suicídio, à medida exata em que o suicídio é uma solução para o absurdo. Pode-se postular a princípio que as ações de um homem que não trapaceia devem ser reguladas por aquilo que ele considera verdadeiro. A crença no absurdo da existência deve então comandar sua conduta. É uma curiosidade legítima perguntar, com clareza e sem falso pateticismo, se uma conclusão desta ordem exige que se abandone de imediato uma condição incompreensível. Falo aqui, evidentemente, dos homens dispostos a estar de acordo consigo mesmo.”

Pelo visto, Albert Camus ainda desperta interesse no Brasil, pois a editora Record vem há alguns anos reeditando ou lançando (como foi o caso de O avesso e o direito e O homem revoltado,que eram inéditos por aqui, embora circulassem versões portuguesas) suas obras. Das mais importantes faltava apenas O mito de Sísifo(que já fora traduzido por Mauro Gama para a editora Guanabara, e que agora aparece na versão de Ari Roitman & Paulina Watch), exatamente aquela que fez a sua fama, junto com O estrangeiro, no início dos anos 40 (com o auxílio de um artigo generoso e consagrador de Jean-Paul Sartre). Delineavam ambas o homem absurdo, aquele que escolhe a vida mesmo sabendo que há um divórcio entre o homem e o mundo: “O absurdo nasce desse confronto entre o apelo humano e o silêncio irracional do mundo”.

Com seu estilo perfeito e lapidar, Camus primeiro investiga o “suicídio filosófico”, ou seja, o pensamento racional que mergulha na irracionalidade do absurdo, agregando-a em suas premissas. Passa então para a “liberdade absurda”: “o que significa a vida em semelhante universo? A crença no sentido da vida sempre supõe uma escala de valores, uma escolha, nossas preferências. A crença no absurdo ensina o contrário. Tudo o que me interessa é saber se se pode viver sem apelo. Não quero sair deste terreno. Sendo-me dada esta face da vida, posso acomodar-me a ela? A crença no absurdo equivale a substituir a qualidade das experiências pela quantidade. Porque o absurdo mostra, por um lado, que todas as experiências são indiferentes e, por outro lado, estimula a maior quantidade de experiências”.

Os paladinos dessa atitude são os dons juans, os conquistadores e os atores, os quais se realizam na multiplicidade e na diversidade. Sendo Camus um escritor antes de tudo, e já que “a diversidade é o lugar da arte”,  o clímax de O MITO DE SISIFO aborda a criação literária, focalizando sobretudo os heróis de Dostoiévski (ele, inclusive, homem de teatro, fez uma adaptação para o palco de Os demônios, com o título pelo qual o livro ficou muito tempo conhecido no Brasil: Os possessos). Há, em apêndice, um ensaio belíssimo sobre Kafka. Mas tudo dá no mesmo: “O conquistador ou o ator, o criador ou Don Juan podem esquecer que seu exercício de viver não funcionaria sem a consciência do seu caráter insensato. Há muita esperança tenaz no coração humano. Os homens mais despojados acabam ás vezes aceitando a ilusão”.

A maior parte das obras de Camus e obrigatória, mas caso fosse necessária uma contrafeita eleição, O MITO DE SÍSIFO permaneceria um forte candidato a livro de cabeceira pra vida toda.

(resenha publicada em originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de agosto de 2004)

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