MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/07/2013

O romance-manifestação: “Manual da Destruição”, de Alexandre Dal Farra

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“… seria melhor o grito. seria melhor não haver as palavras, só o grito, o grito desarticulado, sem lembranças, sem marcas. todas as palavras são marcas que carregam diversas outras coisas além  do que elas descrevem agora. as palavras vêm sempre maculadas do que elas já disseram antes, são palavras velhas de merda e se conectam todas com as fotos tiradas posteriormente pelo cérebro. palavras filhas da puta, marcadas pelo passado escroto!seria preciso ficar só no grito,  só o grito, o grito, o grito, eu sinto a gosma que reviveu dentro de mim e quer se tornar grito sem palavras…”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 30 de julho de 2013)

A ficção brasileira atravessa um momento de efervescência qualitativa. As ruas do nosso país também viveram recentemente um estimulante sopro de insurreição.  Talvez o romance com maior vocação de ficar como o registro arquetípico desse período turbulento e prenhe de possibilidades seja Manual da Destruição[1].

Testemunhei a reação de certos leitores à estreia do ator e dramaturgo paulista Alexandre Dal Farra no gênero[2]: um horror ao uso contínuo, quase que frase a frase, do “palavrão” (exemplo: “as pessoas abrem as bocas e soltam as palavras pelo ar, não ficam quietas, bando de gente filha da puta e barulhenta do caralho! todas as pessoas são filhas da puta. ao lado das fileiras de cadeiras há as lixeiras com as tampas metálicas. o menino atirou os restos do sorvete dentro da lixeira. moleque de merda. a tampa balança como um pêndulo e some com os restos do moleque imbecil. e o menino filho da puta continua caminhando como se não tivesse acontecido merda nenhuma! os restos foram engolidos e sumiram debaixo da tampa automaticamente, e o menino não entrou em contato com o lixo escroto que ele produziu… ele não entrou em contato com o lixo que o seu corpo criou, que é a única merda que ele deixa para o mundo…”).  Considero descabida tal rejeição (um pouco como a dos que vinculam manifestações de rua com baderna e vandalismo), agarrando-se a hierarquias de uma linguagem mais ou menos “nobre” e desconsiderando que existe não só uma verbalização maciça (e muito presente em nossas vidas) nesse sentido, uma espécie de mantra, de linguagem que beira o interjeitivo e fornece válvula de escape ao tropel emocional inarticulado, como também um fluxo de consciência das pessoas estruturado dessa forma, pois esse recurso ao dito “palavrão” (escroto, filho da puta, caralho, merda, porra, puta que o pariu, e por aí vai) é uma forma de reação instintiva ao contato nu e cru com o mundo, e não tem nada a ver com escolaridade ou educação.

Nesse sentido Manual da Destruição pode ser tomado como uma realização notável e exemplar, pois praticamente enciclopediza essa feição psicolingüística (perdoem-me o pedantismo) ao fazer dela a instância verbal predominante, radicalmente utilizada, de atrito entre seu narrador e a realidade à sua volta[3].

O livro é dividido em duas partes: na primeira, o protagonista regressa de uma viagem e narra sua reacomodação ao cotidiano, mantendo-nos no campo de visão de cada instante de uma forma opressiva, minando o sentido de tudo (há passagens que beiram o alucinatório, bem na tradição de um Graciliano Ramos, em Angústia, e de um Rosário Fusco, em O Agressor, duas apreensões extremas —e raras na nossa ficção— do mal estar de viver numa sociedade injusta e discriminatória, e ao mesmo tempo de não encontrarmos em nós estofo muito diferente das outras pessoas que sustentam tal status quo). Pois que ser razoável poderia achar que viver é isto: “eram dezenas de coreanos imitando coreanos, ouvindo músicas e vendo filmes, comendo e vendendo coisas fake ao longo do dia naquele buraco de fórmica… e me dirigi à lan house de merda. entrei na lan house empurrando a porta de plástico transparente que disparou um alarmezinho irritante para avisar que alguém tinha entrado…”?

Na segunda parte, ele está no aeroporto, com viagem marcada para Belém do Pará e além do que vê ao seu redor (com cenas geniais, como aquela em que é interpelado por uma indignada cidadã, ao jogar papel no chão ou aquela em que defronte ao espelho ele ataca violentamente a si mesmo), é acossado por memórias não-desejadas, contudo coercitivas (“as lembranças do passado de merda ficam nas nossas cabeças e não servem para porra nenhuma. eu fico lembrando das coisas, e acho isso uma merda, principalmente se as coisas que eu lembro têm a ver com a porra da rachadura na parede da casa da minha avó…”; a certa altura lemos: “tenho raiva desse mecanismo do meu cérebro,e tenho raiva particularmente da maneira como ele liga as memórias entre si, criando tramas infinitas em que eu me enredo e fico fora do lugar onde estou!(…) estou sentado na frente do meu portão de embarque onde há os animais escrotos esperando para ir viajar, e decidi lembrar de alguma merda, não importa o quê. estou me esforçando para lembrar de algo que não venha da minha relação orgânica com a vida, que não emerja da merda da situação de agora que me remete às outras merdas…”).

Portanto, temos um mesmo sentimento de revolta e insatisfação, de sensação de panela de pressão ou granada prestes a explodir, que deram azo às manifestações de junho, vazados numa linguagem poderosa e sem concessões, onde as relações “humanas”, as trocas e contatos diários em meio à falida infraestrutura urbana[4], são esquadrinhadas, maceradas e reduzidas a um diagnóstico não muito distante do “Eclesiastes”, mas sem nenhuma possibilidade de transcendência: “todos os seres humanos são filhos da puta, mesmo que eles não sejam”.

Pena que, se é agudíssimo e acurado em sua ferocidade na maior parte do seu texto, Dal Farra cometa o erro de terminar tanto ambas as partes com situações melodramáticas (um acidente de trânsito e um espancamento)[5], totalmente desnecessárias e fora do espírito da sua narrativa. Mesmo com essas soluções infelizes e discutíveis, Manual da Destruição já é um dos livros da década.

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TRECHO SELECIONADO

“estou sozinho dentro do banheiro do aeroporto de merda. caminho até encostar a cintura na pia e vejo a minha cara estúpida no espelho, e ela não tem nada a ver com nenhuma das lembranças de merda nem com nada do que existe dentro da minha cabeça. é só uma cara idiota, igual ao que ela já era antes. vejo no espelho como o meu rosto é o mesmo, o mesmo rosto que eu já vi outras vezes nos espelhos de merda. sempre a mesma imagem refletida. mas o meu rosto não é sempre o mesmo. percebo isso por dentro. o rosto filha da puta finge que é o mesmo por fora, quando está na frente do espelho de merda, mas de dentro eu sei que ele não é o mesmo. sinto as mudanças na carne, pelo lado de dentro, retiro os meus óculos e olho para a minha cara monótona no espelho. ligo a torneira de merda e enfio as mãos embaixo da água (…) gostaria que a água passasse da pele e entrasse por dentro da minha cara. gostaria de jogar água por dentro, diretamente no meu cérebro. gostaria de poder resfriar os órgãos todos por dentro. enfio os dedos molhados dentro dos olhos e procuro enfiar água em todos os buracos do rosto (…) vejo pelo reflexo o velho. o velho entrou no banheiro de pulôver marrom. ele procurou não olhar muito para mim pelo espelho (…) eu estava olhando para mim mesmo com ódio. o velho viu isso. disfarcei e apertei ainda mais os dentes, e dou um jeito de me machucar um pouco enquanto o velho está dentro do compartimento de fórmica. enfio dois socos no meu próprio estômago, e torço para o velho ser surdo. ele se enfiou em um compartimento de merda e eu aproveito para socar meu próprio estômago. sinto a minha mão fechada socar a minha barriga, sinto a dor e dou mais [no livro impresso está “mas”] sete socos no um estômago com toda a força possível, apesar da posição, até que o meu braço fica um pouco cansado. enfio ainda mais três socos com toda a força possível no mesmo ponto que já estava doendo. sinto o estômago quase rasgar com os socos que eu enfiei em mim com toda força e sem nenhum prazer. enfio os meus óculos de volta na cara…” 

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[1] Dou-me conta de que a afirmação no texto acima pode dar a indicação equivocada de que o livro se destinaria a ficar “datado”. Embora seja o livro adequado, perfeito e obrigatório para este nosso Zeitgeist em polvorosa, é evidente que o livro possui as qualidades suficientes para sobreviver a ele.

[2] Não é ocioso lembrar que na Grã-Bretanha dos anos 1950 apareceram os “angry young men”: oriundos especialmente dos meios cênicos. Dal Farra,  que está com 31 anos, nessa linha de pensamento pode ser considerado um “angry young man”, inclusive por seus objetivos estéticos. Acho que os “angry young men” estavam fazendo falta num panorama literário dominado por jogos metalinguísticos e uma sensação de anomia irritantes. Ainda bem que na edição da GRANTA dos jovens escritores brasileiros, tivemos alguns exemplos nessa linha mais “angry”, como Vinicius Jatobá, Christiano Aguiar e Javier Arancibia Contreras (pelo menos, na amostra ali publicada), ainda bem que temos um Diego Moraes, um Roberto Menezes e, em certos aspectos da sua obra, Ricardo Lísias (mesmo na sua recente “autoficção”).

É bom que ainda se escreva raivosamente trechos como aquele em que o narrador está ouvindo o primo, que o levou até a fábrica de tubos onde trabalhara: “…ele fingia que se portava como um trabalhador orgulhoso da sua produção, mas era só um fodido estropiado do caralho, que só se deu mal na vida e cuja energia toda tinha sido arrancada em função dos canos e principalmente da riqueza que os canos geravam, e isso era terrível demais para o meu primo perceber. as palavras que saíam da boca escrota do meu primo, do meio dos seus dentes meio podres (…) todas as merdas que ele expleia com o seu bafo podre não tinham significado nenhum e eram tristemente inócuas e nulas frente ao tamanho do cano, ao seu movimento lento e contínuo, e ao leve calor que ele exalava. senti o cheiro de borracha queimada e vi a fumaça que o cano expelia quando saía de dentro da máquina. as palavras mortas da boca podre do meu primo de segundo grau estavam maculadas pelo bafo da inutilidade do seu ser, e da sua pequenez frente ao cano. as palavras do filho da puta não significavam absolutamente nada porque ele não conseguia encarar o seu não pertencimento à bosta toda e não era capaz de sentir o ódio e o desespero que lhe seriam adequados. o seu corpo não suportava…” 

[3] Quando uso o termo “enciclopediza”, é porque tenho uma visão do romance como forma enciclopédica da realidade humana: sua vocação mais autêntica é mapear e absorver,mesmo na sua condição “pós-moderna”, mais fragmentária e avessa à totalidade.

[4] “… o garçom ficava feliz de ser simpático com as pessoas que tinham cartões de crédito. supostamente todos os filhos da puta sentados no bar de merdas tinham cartão de crédito, ele se aproximava das pessoas e ficava orgulhoso de lidar com os cartões delas, ele lidava de maneira eficiente com os cartões de crédito e por isso se orgulhava de ser um garçom de merda, o filho da puta!(…) me levantei da frente da mesa de madeira e recebi o cartão das mãos do garçom filho da puta e simpático, ele entregou a merda do cartão para mim o mais rápido possível e não fez nenhum comentário estúpido, o garçom eficiente e simpático percebeu que só lhe restava me dar logo a merda do cartão e se resignar a ter sido só um bosta de um garçom mesmo, que cobrou a porra da minha conta, ele não foi nada mais do que o garçom da merda do bar e eu fui a porra de um cliente, que merda! nós finalizamos a nossa relação como uma relação de troca, e nada mais. não se estabeleceu nenhum vínculo de merda entre dois seres humanos, nenhum vínculo de bosta entre seres humanos. não, o que houve entre mim e o garçom foi só o dinheiro que eu paguei pelo naco de carne, por meio do cartão de crédito. fiquei satisfeito por não ter estabelecido nenhum vínculo com o filho da puta do garçom, e por ter entregado a merda do meu cartão e feito ele tirar o dinheiro do meu crédito, e cobrar o que eu devia pelo pedaço de carne, sem que por isso se estabelecesse qualquer cumplicidade do caralho entre mim e ele…”

[5] Eu também não estou convencido de que todo o teor do material das lembranças e/ou onírico (há passagens em que as reminiscência confluem com imagens oníricas, como aquela evocação de dezessete cavalos espalhados mortos pelo chão num cenário interiorano) seja satisfatoriamente trabalhado. Além disso, tem a abolição completamente desnecessária da maiúscula, que não redunda em nenhum efeito particularmente novo, e fica parecendo apenas modismo (se era para radicalizar, que fossem abolidos os marcadores convencionais do discurso). E a revisão por parte da editora Hedra (diga-se de passagem, a capa escolhida para Manual da Destruição é de lascar!, completamente infeliz) deixou a desejar em alguns trechos (e o leitor percebe que se trata de uma questão de revisão, já que Alexandre Dal Farra demonstra à farta que escreve muito bem), por exemplo:

–na página 97: “a minha cintura está há [sic] menos de um metro do filho da puta”; na verdade, “a minha cintura está a menos de um metro do filho da puta”

– na página 177, o mesmo erro de colocação: “eu, há [sic] trinta metros das duzentas pessoas…”; na verdade, “eu, a trinta metros das duzentas pessoas…”

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29/07/2013

OS MOUROS E A FORMA NOVELESCA

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 11 de junho de 2005, em função dos 400 anos do primeiro volume de Dom Quixote)

Quando se lê com atenção O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha fica impossível não se constatar que, há 400 anos, o mundo árabe já assombrava, como hoje, o Ocidente e fazia parte do seu imaginário, obrigando-o também a lidar com  seu mal estar (e sua má fé) diante de uma alteridade tão evidente. Sancho Pança sempre se refere aos defeitos e destemperos dos mouros e na constelação de monstros e no bestiário do romance as alusões a eles são constantes também; há até uma das novelas intercaladas à narrativa principal (a história do Cativo,  ocupando três longos capítulos) que evoca a vida de Cervantes,  prisioneiro-refém em Argel durante muitos anos.

As novelas dentro do romance são outro aspecto fascinante. Ao colocar na boca de certos personagens (o cura da aldeia de D. Quixote, em sua conversa com um cônego, quando traz de volta para casa, enjaulado, o fidalgo lunático, o qual crê estar enfeitiçado) sua severa condenação à prática ficcional das novelas de cavalaria e ao teatro de seu tempo, Cervantes está propondo uma outra prática de ambos, de que ele seria o representante (já que não se furta a citar o próprio nome em seu texto, ou insinuá-lo).

Salvador Dalí (1904 - 1989)

O ponto central da argumentação está na inverossimilhança, no exagero, no fato de que as novelas de cavalaria não têm estrutura discernível (portanto, uma condenação formal), enquanto que o teatro da época está infestado de lances inconvincentes destinados a embasbacar o público crédulo. Certamente há aí intenção polêmica e vingativa com relação a inimigos literários, notadamente Lope de Veja, o autor de Fuenteovejuna. No prefácio ao 2º volume, essa atitude se reafirmara, pois contra-atacando, ele também ataca detratores e rivais.

Qual seria o procedimento em contrário ? Este apresentará uma contradição  instigante e produtiva: criticando a irrealidade e a falta de forma, Cervantes não pode se escusar de ver a trama de uma forma teatral (e fundamentalmente vaudevillesca, tanto nas partes, como na novela do Curioso Impertinente quanto no todo do livro), fazendo com que todos os seus personagens, que vem de todos os lugares e esferas sociais possíveis, se encontrem, quase que se acotovelando (é isso mesmo, chega a faltar espaço), por assim dizer, na humilde estalagem que a D. Quixote parece um castelo encantado. Tirando isso, e também as convenções que de tão visíveis se tornam risíveis e até ingênuas (toda heroína é a mais bela mulher do mundo, só que ele reúne quatro delas num mesmo local; todos infalivelmente sempre choram juntos quando cada personagem toma a palavra e conta as suas desventuras), o que vemos é um tipo peculiar de texto impondo-se: a novela sentimental, onde um fundo aventuroso não impede a interiorização, a discussão às vezes profunda dos sentimentos (o que tardiamente redundará no mundo de um Proust, para citar o ponto extremo a que se esse caminho levou).

Ficamos com a impressão de que as aventuras trapalhonas de D. Quixote e Sancho Pança são apenas a moldura desse que é o verdadeiro cerne, o miolo da obra (embora não seja o que tenha ficado de mais marcante para a posteridade; quem é que lembra da história do Curioso Impertinente ou do Cativo, enquanto todos citam os moinhos de vento, ou  Dulcinéia, até sem ter lido o romance).

Enfim, o que está supostamente apenas intercalado à aventura principal é o que Cervantes gostaria que estivesse sendo lido e representado (sendo ele o principal autor, é claro) em seu tempo, uma vez que as fascinantes e amalucadas andanças do Cavaleiro da Triste Figura e seu criado representam a liquidação de um gênero anterior.

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FIDALGO E CAVALEIRO, E SEMPRE ENGENHOSO

Vladimir Nabokov, o autor de Lolita, considerava DOM QUIXOTE  “antiquado, sórdido e grosseiro”. Trata-se de uma exceção porque o livro de Cervantes (cujo primeiro volume chega, em 2005, aos 400 anos), é particularmente amado por todos os que gostam de ler e que vêem em seu protagonista um símbolo da curiosa atividade que é a leitura.

O genial escritor do século XVIII Laurence Sterne faz várias referências brincalhonas e carinhosas a Cervantes em seu extraordinário (e quixotesco) Tristram Shandy: “Gentil Espírito do mais brando  humor, que outrora pousaste na pena desembaraçada do meu amado Cervantes”, lemos, por exemplo, no capítulo 24 do volume IX.

Pois bem, nos 400 anos do Cavaleiro da Triste Figura, o leitor brasileiro tem nas livrarias muitas versões resumidas, adaptações e, felizmente, algumas traduções completas. A mais prestigiada atualmente (mas que só contém o primeiro livro, O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha, pois há 2 Quixotes) é a de Sérgio Molina, numa edição bilíngüe da 34. A Nova Aguilar relançou ano passado a tradução clássica dos Viscondes de Castilho e Azevedo, e há uma edição sempre encontrável, de Eugênio Amado, pela Itatiaia. Só que a tradução de que eu mais gosto (e nisso não preciso ser necessariamente seguido por ninguém, dada a qualidade das outras) é a de Almir de Andrade e Milton Amado, que a Ediouro também reeditou há pouco. O que enche a paciência é encontrar, EM TODAS (e em outras edições), devido a uma incrível falta de imaginação e iniciativa, as indefectíveis gravuras de Gustavo Doré. Parece que ninguém pensa em ilustrar a obra-prima de Cervantes de outra forma. E na edição da Nova Aguilar, embora caríssima, as gravuras são reproduzidas  de forma tão péssima que o leitor precisa fazer um jogo de adivinhação o traço marcante do mais famoso ilustrador de todos os tempos, parece um teste de rorschach.

Cervantes (1547-1616) passou muitos anos como prisioneiro em Argel, até que conseguissem pagar seu resgate (era época de corsários e guerra com os árabes,  e tudo isso permeia seu grande romance). Publicou O engenhoso fidalgo em 1605, quando se encontrava empobrecido e esquecido, e o sucesso foi tamanho e o livro se difundiu de tal forma que alguém (certamente um inimigo literário, que utilizou o nome de Alonso Fernando de Avellaneda), em 1614,  publicou a continuação apócrifa das aventuras da dupla Quixote-Sancho Pança (na verdade, esse falso Quixote não é destituído de graça), ainda que no final do original aparecesse até o epitáfio do herói (junto com os epitáfios de Sancho, de Dulcinéia e até do cavalo Rocinante).

No ano seguinte, apareceu então o segundo livro, O engenhoso cavaleiro D. Quixote de La Mancha (já que num dos episódios mais divertidos e irreverentes do primeiro o dono de uma estalagem sagra como cavaleiro o fidalgo enlouquecido pela leitura de romances de cavalaria), poucos meses antes da morte do autor. Ele queria que, através das aventuras farsescas (e aí entram os famosíssimos episódios da luta contra moinhos de vento ou contra odres de vinho, que se afiguram gigantes a D. Quixote, rebanhos que viram exércitos inumeráveis, estalagens que se tornam castelos, etc) dos seus dois heróis, jogados no mundo que nada tem de idealizado, e através de um humor nem sempre brando e sim às vezes bastante escrachado, os leitores sentissem a insuficiência da literatura ligada aos feitos heróicos, tema amplamente discutido, em vários momentos; o principal deles, quando D. Quixote é conduzido, enjaulado,  a sua casa –acreditando-se enfeitiçado– pelo cura e pelo barbeiro da sua aldeia, e o primeiro deles conversa com um cônego, e é aí que Cervantes expõe de forma clara seus pontos-de-vista e faz profissão de fé do tipo de relato ficcional e de teatro que ele gostaria que fossem  praticados, além de colocar a teoria em prática nos diversos relatos intercalados à história principal.

O que ele acabou realizando foi o paradigma da ficção ocidental, praticada a partir dele, o livro-referência de todos os romancistas (Nabokov que resmungue à vontade). Ou alguém pensa que a matriz da jornada de Frodo e Sam Gamgi (sem contar a própria relação entre eles), em O senhor dos anéis, é outra?

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA, de Santos, em 30 de abril de 2005)

 

28/07/2013

Destaque do Blog: SÚPLICAS ATENDIDAS

Mas agora, disse ela, como quem volta ao que interessa, me diga o que você espera da vida, além de fama e fortuna, que são o óbvio. Eu respondi: Não sei o que espero. Sei o que eu gostaria. Eu gostaria de ser adulto.”  (Truman Capote, Monstros Imaculados)

 CAPOTE CAPOTOU?

      No Brasil existem algumas lacunas editoriais difíceis de explicar (Henry James que o diga). Mesmo com o sucesso  de A sangue frio & Breakfeast at Tiffany´s- Bonequinha de Luxo (por sinal, grandes obras literárias, antes de qualquer coisa), e com o pequeno volume do conjunto da obra de Truman Capote (1924-1964), há livros dele que nunca foram traduzidos por aqui, salvo engano: os seus dois primeiros romances, Others voices, others rooms (em Portugal, Outras vozes, outros lugares, mas também poderia ser “Outras terras, outras gentes”, aproveitando o verso proverbial), de 1948, e o encantador A harpa de ervas, de 1951. Pelo menos, agora temos uma edição (pela L&PM) de seu romance inacabado, ANSWERED PRAYERS-SÚPLICAS ATENDIDAS (não seria melhor  “Preces atendidas”, mesmo porque existe um livro de Danielle Steel com o título escolhido?), na tradução cheia de escorregões e soluções ruins de Guilherme da Silva Braga (a L&PM faz um trabalho fantástico de divulgação de um leque amplo de títulos para o leitor de qualquer nível aquisitivo, contudo não se pode dizer que exija muito capricho dos seus tradutores, como já pude comprovar muitas e muitas vezes)

´Capote começou a pensar em SÚPLICAS ATENDIDAS  logo após atingir o auge do sucesso com A sangue frio (nós sabemos o que lhe custaram esses anos envolvido com o livro devido às produções biográficas que trataram exautisvamente do assunto, o sonolento Capote & o ótimo Confidencial). Ele pretendia um vasto painel das mazelas e do avesso dos ricos e famosos com os quais convivia e que se aproximasse do microcosmo proustiano de Em busca do tempo perdido. Contrariando seus editores, ele publicou alguns capítulos do livro na revista “Esquire”, em meados dos anos 70 (apos anos adiando a publicação do livro, sempre negociando novos prazos) e foi execrado e transformado em inimigo público número um daquela gente toda. Por quê? Ele nem se deu ao trabalho de fazer o chamado “roman a clef”, o romance com pessoas reais aparecendo sob nomes que as disfarçassem, não, ele deu nome aos bois, contando as fofocas, os disse-me-disse, o que corria à boca pequena e à socapa E usou um tom venenoso, deletério, transformando todo aquele mundo numa espécie de caverna de monstros (não à toa, o primeiro capítulo tem o título de Monstros imaculados).

No final, quando ele morreu, em  1984, todo o material prometido reduzia-se a três capítulos (a edição da L&PM tem 173 páginas). Nada mais foi encontrado (as hipóteses a respeito do assunto podem ser encontradas no Prefácio de Joseph M. Fox, para a edição póstuma de 1987, essa mesma que levou vinte e dois anos para chegar até nós).

Portanto, qualquer avaliação de SÚPLICAS ATENDIDAS tem de levar em conta o seu inacabamento. Todavia, é quase impossível não comparar o resultado com outros que ficaram inacabados, como A morte feliz, de Camus, Um sopro de vida, de Clarice Lispector, Entre os atos, de Virginia Woolf, para não falar das grandes obras inacabadas que fazem parte da nossa imaginação (a de Kafka, a de Musil, O livro do desassossego, de Pessoa, até mesmo Em busca do tempo perdido, que nunca teve uma última demão). Como, apesar da ligação entre eles, Capote parece ter trabalhado em cada capitulo como um bloco separado, independente, pronto para publicação, não dá para evitar a sensação de que ele não se preocupou com o acabamento  de cada um deles, o que é mais preocupante do que a falta do conjunto. Cada um por si tem altos e baixos gritantes, que causam espanto ao leitor habitual do autor de Música para camaleões (meu livro favorito dele, para mim uma das maiores obras do século XX; aliás, Capote é o mais perfeito dos autores norte-americanos da 2a metade do século passado).

O  tecto é uma narrativa de P.B. Jones, que está de volta a Nova York após anos de aventuras oportunistas na Europa e que escreve seu relato instalado na ACM  (“os corredores murmuram com as passadas abafadas de cristãos libidinosos; se você deixa a porta aberta, isso em geral é entendido omo um convite…”), aos 35 ou 36 anos (a imprecisão é devida às circunstâncias obscuras do seu nascimento).

Com o sonho de ser escritor, logo cedo Jonesy começou a se prostituir, já quando trabalhava como massagista, e continuou na sua condição de michê , mesmo depois de publicar o primeiro (e único) romance, queimando-se no meio editorial nova-iorquino por abandonar a mulher (mais velha) com a qual passara a viver, uma personalidade marcante daquele meio. Na Europa, após inúmeras peripécias (e “quatorze mil dólares” de capital acumulado), ele conhece a (segundo o texto, porque o leitor não sente nada disso) Kate McCloud. É esse relacionamento e as conseqüências (ao que tudo indica, criminais) que deveria constituir o centro anedótico da narrativa de Jonesy, só que nunca saberemos, já que ele não existe, apenas a cena em que os dois se conhecem, e as inúmeras referências a ela. Portanto, falta a espinha dorsal do enredo de SÚPLICAS ATENDIDAS.

Em Nova York, Jonesy volta a trabalhar como michê para a cafetina Victoria Self. Um dos seus clientes, embora não nomeado, é visivelmente Tennessee Williams, descrito de uma forma aniquiladora. No último capítulo “sobrevivente”, Jonesy acompanha uma amiga da alta sociedade ao La Côte Basque, lugar chiquíssimo de Nova York, onde os clientes são passados em revista, com todos os seus podres. Mas para o brasileiro de classe média de 2009, todas as fofocas malévolas e podres e lados b que avultam no texto não causam nenhum terremoto,  e boa parte do que se revela ali se mostra datado, letra morta, já que nenhuma personagem ganha relevo suficiente.

O que mais me surpreende em Capote é o seu moralismo. Eu já afirmei, no meu post em que destacava algumas efemérides literárias ligadas ao século XX, que a mãe dele, Nina (que abominava ter um filho gay e tinha vergonha explícita do seu afeminamento), fez um ótimo trabalho para incutir culpa e automortificação em Capote. Em SÚPLICAS ATENDIDAS, ele parece se comprazer em se mostrar (e mostrar os conhecidos, e principalmente os gays) em contornos sórdidos: todos chafurdam na lama, todos são explorados ou exploradores, e a lealdade é pra lá de duvidosa… Não há dúvida de que esse ingrediente maldoso e essa psique tortuosa fazem parte do chamado mundo gay, todos nós conhecemos esse aspecto. O que espanta é que parece ser a única coisa que emergiu das vivências de Capote, toda aquele outro lado tão lírico e tão peculiar, que faz a delicia do leitor das histórias curtas (e quem esquece Breakfast at Tiffany´s?) e de A harpa de ervas, só não desapareceu porque há lampejos, lampejos lindos, que atravessam o livro (e não se pode deixar de lado que há coisas engraçadas e bacanas no meio das maldades, dos retratos derrisórios, nas anedotas engafarradas por anos na adega Capote prontas a serem servidas). No fundo, o estilo do romance manqué de Capote me parece de um discípulo de Louis-Ferdinand Céline, aquele terrível autor francês, que nas suas obras-primas Viagem ao fim da noite, de 1932, e Morte a Crédito, de 1934, descrevem a existência como um fardo de sordidez e canalhice, num estilo vulcânico, aos borbotões: “contra a abominação de ser pobre, é preciso, vamos confessar, é um dever, experimentar tudo”, lemos em Viagem ao fim da noite, ou ainda: “nus. É assim que a gente deve se habituar a imaginar desde o primeiro contato os homens que vêm nos visitar; os compreendemos bem mais depressa depois disso, distinguimos de imediato em qualquer criatura sua realidade de gigantesco e ávido verme. É um bom truque de imaginação. Seu imundo prestígio se dissipa, se evapora. Nu em pêlo, só resta em resumo diante de nós um pobre saco vazio despretensioso e cheio de si que se esforça em tartamudear num gênero ou noutro” ou ainda: “Indiscutivelmente haveria que fechar o mundo por duas ou três gerações pelo menos se não existissem mais mentiras para contar. Não teríamos mais nada a nos dizer, ou quase. Na literatura norte-americana, houve um discípulo de Céline, Norman Mailer. E o que sentia, lendo SÚPLICAS ATENDIDAS,é quse uma paródia do estilo de Mailer, ou então um Mailer que escrevesse parodiando o universo e o imaginário de Capote. O resultado saiu muito estranho.

Não obstante, nenhum característica do livró é mais discutível ou mal solucionada do que seu próprio narrador-protagonista.  Capote fez dele ao mesmo tempo um alter ego e um catalisador de experiências, por meio da michetagem, que é mais ou menos correspondente ao pícaro (sem trocadilhos)  dos romances do tipo, que atravessam vários escalões da sociedade em suas aventuras. Mas, por alguma estranha razão, o autor (Capote) se esquece do physique de role básico do seu herói, que é essencialmente gay, e faz surgir diante de nós um hetero, apaixonado por Kate McCloud, um michê garanhão ativo, o que não convence ninguém, e falseia completamente os rumos da narrativa . Que Jonesy seja fascinado pelo mundo das mulheres (e que não o é?), tudo bem, mas que ele nos venha com ereções, tesões incontroláveis, disposições de cavaleiro andante,etc, nos faz rir e debochar.

Diálogo em torno de uma tradução

 

No meu post sobre Súplicas Atendidas, de Truman Capote,  (VER  https://armonte.wordpress.com/2013/07/28/destaque-do-blog-suplicas-atendidas/)

eu afirmava que a tradução de Guilherme da Silva Braga  era “cheia de escorregões e soluções ruins” (estendendo o reproche a uma parte dos tradutores da L&PM). Com toda a razão, o referido tradutor se referiu ao tom genérico e vago do meu comentário. pedindo que eu apontasse exemplos:

“Olá, Alfredo!

Não nos conhecemos, mas achei no seu blog uma referência à minha tradução “cheia de escorregões e soluções ruins” do livro Súplicas atendidas, do Truman Capote.

Como a crítica foi feita nos termos mais genéricos possíveis (sem um único exemplo) e é dirigida não só a mim mas todos os tradutores da editora, gostaria se possível que você me apontasse alguns desses deslizes para que eu possa analisá-los e comunicar à L&PM qualquer mudança pertinente. “(26.01.10)

Não me fiz de rogado, é claro, e logo enviei uma lista de trechos, expressões e soluções que me desagradaram ou me pareciam estranhos:

… em alguns casos, talvez a revisão tenha falhado também, acredito que você também não é responsável pelo título: “Preces atendidas” seria mais exato, por causa da esfera religiosa da citação e porque todo o mundanismo  do livro se contrapõe a ela, num sentido muito moralista;

 
na pág. 25 aparece “Hadrian”, quando o correto já que é o costume seria “Adriano”.
    Aliás, a questão de títulos e nomes de  logradouros também é muito espinhosa, poderia ter sido unificada, e unas notas de rodapé, ou esclarecendo o título ou o significado que teriam em português, ou traduzindo, e em notas, colocando o original.  Por que deixar, na mesma pág. 25, em inglês os títulos dos contos de P.B.Jones? (“Suntan” e “Massage”; e na pág. 28, “Many Thoughts of Morton”)?, por que manter “upper Eighties” (p. 28) ?
na pág.30- Nuriêv não seria Nureyev ?;
 
há sempre uma preguiça em não traduzir trocadilhos e jogos de linguagem- na pág. 32, por exemplo, o jogo com Billy, o nome do reverendo sedutor e o “billy” para o pênis, foi muito mal resolvido.
 
As palavras garoto e menino, em várias passagens (p.34 ou p.37, por exemplo)´ficam muito aquém do significado sexual que lhes é conferido. No Brasil, temos o termo “bofe”, que cairia muito melhor. Aliás, esse termo, “bofe” é utilizado de maneira singularmente inadequada para um cliente de Jonesy na pág. 101 (um cliente de michês jamais seria um “bofe” na nossa cultura gay);
 
há os trechos que ficaram esquisitos ou meio sem sentido (ou eu fui muito burro e não consegui captar o sentido).: É estranho o “venho existindo” da pág. 19 (“na ACM de Manhattan onde venho existindo há um mês”);  na página seguinte: “Meu nome é P.B. Jones e estou com dois corações” (?).
   A caracterização do escritório de Boatwright (p. 24):  “O escritório tinha uma atmosfera  meio de negócios (!?).; parecia um salão vitoriano”. “Meio de negócios”?
 
 na pág. 29, “Faulkner, aficcionado em Lolitas”, a preposição está muito esquisita, não? e mesmo o termo “aficcionado”
 
na pág. 34- “depois de exagerar no vinho tinto e no amarelo”- não consegui entender esse “amarelo”.
na pág. 39 e em várias outras o termo “cafetão” não é muito exato, já que se trata do “bancador” do michê.
 
na pág. 40, um trecho estranhíssimo, que me parece truncado: “Denny prestava-se a um único papel, o de Amado, pois era tudo o que ele jamais tiinha sido [ já essa formulação de saída é muito estranha; a gente entende, mas é estranha]. Assim, exceto pelos  eventuais flertes com o comércio marítimo, o Amado tinha sido Watson” (!?).
 
na pág. 41, o que seria exatamente “o jeito bondoso e BIOLÓGICO”  de Jean Connoly?
    E na mesma página, que raios é um “cenografista”, função de Christopher Isherwood em Hollywood?
 
na pág. 47, mais um jogo de palavras perdido, que ficou forçado, porque “bastardo” não é um xingamento comum em português, mas sim em inglês:  “sabia que eu era um bastardo mas e me perdoava porque afinal de contas eu tinha nascido bastardo”. O primeiro bastardo tem, na verdade, acepção de canalha, filho-da-puta, como você bem sabe, e o trecho empastelou isso.
 
na pág. 52 eu não consegui entender o que significa “mas eu senti que ela tinha se juntado  à maioria”.
 
tudo bem que Capote cite em inglês um título de Colette, mas o tradutor brasileiro poderia procurar o título em francês de “My Mother´s house” ou indicá-lo em nota. (pág. 55)
 
na pág.61, há o seguinte trecho descuidado: “ele me deu um MURRO na cara, um GOLPE DE CARATÊ que deu a impressão…” etc etc. Não entende de caratê, mas creio que “murro” não seria o termo exato.
 
Não consigo imaginar ninguém falando (pág. 65): “Eu não levo. Posso meter. Mas não levo”. O cara diria “Eu não dou” ou algo similar, mas “não levo”, parece legenda de filme pornô, nas quais em vez de “me chupe” colocam “sugue meu pau”, coisa que ninguém fala na vida real.
 
Na pág. 76- Outra preposição e regência estranhas: “Por muitos anos fui parcial a Veneza” (e na página seguinte outro título de Jonesy que foi mantido em inglês).
 
         Em conversas com amigos que leram sua tradução, alguns estranharam outras coisas, que eu não tinha sacado, por exemplo  o termo “lambedora de carpetes” (pág. 79), que soa estranho em português.
      Espero, assim, ter escapado dos ´termos mais genéricos possíveis`, e sempre sublinhando que se trata apenas de opiniões”. (28.01.10)
       Fiquei impressionado com a presteza, a conscienciosidade e o brio profissional com que Guilherme me respondeu, quase ponto a ponto, e me envergonhei de não ter sido mais preciso no meu comentário sobre a tradução. Sua resposta também mostra como se pode discordar civilizada, porém incisivamente, de outrem:

“Agradeço muito os comentários mais detalhados enviados por email. Acho que tem um pouco de tudo: críticas em que você tem razão, críticas em que se trata de simples gosto pessoal (onde “gosto pessoal” é equiparado a “bom” e “gosto alheio” a “ruim”) e críticas relativas a trechos não há erro algum ou impropriedade alguma.

Alguns esclarecimentos gerais sobre opções tradutórias: não traduzo nomes de logradouros e não ponho notas de rodapé. Há quem goste e há quem não goste, mas são opções tão válidas e defensáveis quanto traduzir logradouros ou pôr as famigeradas (e na minha modesta opinião execrandas) notas de rodapé.

Quanto a “Hadrian”, você tem toda a razão — foi um deslize e vou avisar a editora.

“Nureyev” e “Nuriêv” estão ambos corretos e dependem apenas da norma usada para se transliterar do russo, mas as formas com Y em geral são meras cópias da transliteração inglesa, enquanto as versões com I seguem uma grafia mais de acordo com a nossa língua.Compare “Dostoevsky” com “Dostoiévski” ou “Tolstoy” com “Tolstói”, por exemplo.

A suposta preguiça na resolução do trocadilho Billy/billy explica-se simplesmente porque não há trocadilho: “billy” não é gíria para “pênis” em inglês. O personagem simplesmente chama o pênis do cliente pelo nome deste, da mesma forma que se poderia chamar o pênis de um sujeito chamado João de “joãozinho” ou algo assim.

Observação de Alfredo Monte (também em função dos comentários gerados pelo post)- Na verdade, nunca pensei que “billy” fosse gíria para pênis, só achava que poderia haver uma adaptação para o português da brincadeira.

Os termos especificamente gays parecem realmente não estar de acordo. Também vou ver se resolvo isso melhor e comunico a editora.

“Estar com dois corações” é uma expressão bastante comum — ao menos por aqui (Porto Alegre) eu ouço com certa freqüência. O Google também registra mais de onze mil usos dessa mesma construção só na primeira pessoa do presente do indicativo, com o que se pode afirmar com razoável margem de segurança que se trata de expressão conhecida. Significa mais ou menos “não conseguir escolher entre duas opções por querer a ambas” (como em “Estou com dois corações — não sei se vou para a praia ou para a serra”, dando a entender que ambas opções são tão boas que é difícil escolher).

“Meio de negócios” quer dizer “mais ou menos como de negócios”, como se costuma dizer em linguagem corriqueira. Aqui já aproveito para ressaltar que esse livro destoa completamente, em termos estilísticos, de quase tudo o que o Capote escreveu — é muito mais coloquial e talvez (não sei) isso tenha afetado sua impressão a respeito da tradução como um todo. Mesmo em inglês, a linguagem do Capote deste livro pouco lembra o Capote de Bonequinha de luxo ou dos contos, por exemplo.

“Vinha amarelo” é simplesmente um tipo específico de vinho. Se chama assim mesmo em português (o Google registra cerca de 6.000 ocorrências).

O trocadilho com “bastardo”, é verdade, fica mais fraco em português. Mas simplesmente não há como resolver de maneira muito mais satisfatória — se você conhecer algum termo que queira dizer tanto “filho ilegítimo” como “filho-da-puta” na nossa língua, por favor queira me comunicar e prontamente pedirei a alteração. Esse é um exemplo bastante característico de crítica fácil a um problema tradutório para o qual uma solução ideal é absolutamente difícil de encontrar.

Sobre o livro da Collette: não há tradução para o português. Daí a opção por não traduzir (geralmente eu só traduzo os títulos de obras para as quais existe tradução, para evitar dar ao leitor a impressão — nesse caso, falsa — de que o livro existe em português).

Quanto a “não levo”, concordo que pode não ser muito comum, mas daí a dizer que não existe ou que é tradução malfeita vai um longo caminho. Uma busca por “não levo no cu” no Google, por exemplo, dá quase cem resultados.

“Lambedora de carpete” é um termo baseado na expressão bastante comum “lamber carpete” (fazer sexo oral em uma mulher, quase sempre com a implicatura de que quem faz sexo oral é também uma mulher).

Em relação às regências apontadas, você também tem razão, embora meia dúzia de erros desse tipo em um livro de 200 páginas não me pareçam justificar o emprego do termo “desleixo” em relação ao trabalho realizado. Na verdade foi o que me incomodou na sua crítica: não o fato de estar sendo criticado — o que faz parte, embora nunca seja agradável –, mas por simplesmente ver chamado de “desleixado” um trabalho que pode ter sido feito com qualquer coisa, menos desleixo.

Como você pode ler acima, pelo menos algumas das soluções criticadas com termos tão contundentes no blog são perfeitamente defensáveis e redigidas em português cursivo. Claro que daí a agradar vai um longo caminho — a meu ver, tão longo quanto o que separa a opinião perfeitamente legítima de “não gostei da tradução” ou “eu teria traduzido diferente” da opinião questionável (em vista dos argumentos acima) segundo a qual a tradução foi feita com desleixo.

Seja como for, agradeço o tempo que dedicou a essa correspondência.” (28.01.10)

Creio também (e por isso pedi permissão a ele para divulgar nossa pequena correspondência) que as nossas observações mais detalhadas serão úteis e oportunas ao leitor do livro traduzido e do meu blog.

“Oi, Alfredo!,  Se quiser postar os esclarecimentos, fique à vontade, desde que eventuais comentários em resposta sejam feitos com respeito ao meu trabalho e também ao dos tradutores em geral. Naturalmente isso não o impede de tecer mais críticas se achar que esta é a coisa a fazer — apenas pressupõe que estas sejam redigidas com o mesmo bom-senso e a objetividade demonstrados no seu email, e não nos termos genéricos e abrangentes usados anteriormente no blog. Parece-me que críticas nos moldes dessas feitas no seu email só tem a acrescentar a essa relação tradutor-leitor (você apontou erros indiscutíveis pelo menos em relação ao nome “Hadrian” e às gírias do circuito gay — que pretendo corrigir em edições posteriores –, e acredito que pelo menos um ou dois comentários meus devam tê-lo convencido de que o que parecia ser erro não era), ao passo que menosprezar o trabalho do tradutor não contribui em nada para qualquer discussão que se pretenda minimamente séria ou útil a respeito do assunto.

Se estiver de acordo, vá em frente. Fique à vontade para corrigir quaisquer erros de digitação também (notei que comi um pedaço de uma frase logo no início do meu email e escrevi “vinha” amarelo, entre outros)”.(28.01.10);acho, por essa última observação que talvez ele pense que eu tenha uma sanha assassina andando à cata de erros e deslizes; só sou um pouco detalhista demais…

26/07/2013

Destaque do Blog: PALAVRAS QUE DEVORAM LÁGRIMAS (ou “a felicidade cangaceira”), de Roberto Menezes

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“Fora dentro, tudo é fora.” (Roberto Menezes, Pirilampos cegos, 2007)

“… as palavras sempre são à vera. as palavras são sempre tiro de fuzil, faz um furo quando entra e uma cratera na parte de trás. quem leu e não entendeu, sentiu. o ato de ler, meu caro, é um furinho quando entra, o impacto das palavras é lá dentro, já que estão dentro, se entendeu ou não, já que estão lá dentro, é à vera, é granada rancorosa…” (Roberto Menezes, palavras que devoram lágrimas, 2012)

“… é pegar pesado? acho que não, sem sombra de dúvida, não…” (idem)

Fiquei tentado a enganar meu leitor, enfatizando o lado “história de vingança”, com toques macabros à Stephen King, de palavras que devoram lágrimas, um dos romances mais sensacionais que li nos últimos anos[1].

Não seria uma mentira nem algo descabido. Roberto Menezes não tem medo de incorporar o universo de King ou outras referências da indústria cultural dominante (“ops, fiz de novo, como diria a britney”); no entanto, estaremos mais próximos da radicalidade e do efeito avassalador do texto do autor pernambucano (mas de vivência predominantemente paraibana, salvo engano) se o pensarmos na linhagem de um Paixão segundo G.H. (1964), de Clarice Lispector, ou de alguns filmes bergmanianos (como Através de um espelho, 1961), no sentido de que derruba as escoras, que escava as fundações, que põe a nu os tapumes que cercam nossa condição humana. A própria narradora diz que é “paleontóloga de nascença”, e esse exercício de escavação, de desnudamento, de despojar-se de todos disfarces e libertar-se de todas as amarras, no verdadeiro palimpsesto que é o relato, ironicamente é realizado através da digitação obsessiva; ou seja, no uso mesmo da tecnologia mais presente, vamos ao recôndito do ser-aí, ao “nada e nossa condição” (G.Rosa).

Eu sei, eu sei, tenho a consciência de que parece meio grandiloqüente, mas assim como acontecia com G.H. (é digno de nota que haja a “maldição Clarice Lispector”, com tantos imitadores[2], e que o nosso autor—cujo universo pouco tem a ver com o dela, em aparência—pertença muito mais genuína e legitimamente à sua linhagem; se me perguntassem onde está um clariceano de verdade na ficção atual, descartados os epígonos e pastichadores, apontaria Menezes sem hesitar), o que nos incita a penetrar nessa região sempre inóspita (essa dos confins da nossa condição) é o incrível apelo da “voz” inconfundível do personagem, que vemos se configurar na página em branco, e que é a isca de Menezes para nos arremessar nos estratos da sua paleontologia narrativa trepidante e frenética. Aliás, desde que li pela primeira vez, aos 18 anos, The catcher in the rye- O apanhador no campo de centeio, permaneceu comigo a convicção de que se a voz do personagem me hipnotizar, serei levado para qualquer lugar que o autor pretenda. Depois recolherei os cacos, contabilizarei os danos, entesourarei os ganhos.

Portanto, vamos ouvir um pouco da “voz” de palavras que devoram lágrimas, abstraindo a discutível opção de escrever tudo em minúsculas, inclusive o início de frases e parágrafos, uma solução formal que corre o risco de ser tomada como mero modismo[3], e ao fim e ao cabo não acrescenta nada ao ritmo ou ao impacto do texto (mesmo se levando em conta que a narradora está em pleno ato de digitação):

“…por essas horas eu já deveria ter falado de todas as camadas de tintas da parede do quarto que fui retirando, uma a uma, com lixas e raivas diversas. por essas horas eu já deveria ter dito o dobro do que eu disse com essas palavras todas. gastei meu verbo fazendo muitas interrupções. necessárias e pertinentes. no mais, grande parte do que fiz antes de chegar aqui, hoje, no seu gabinete, foi de caso pensado, premeditado, como você bem gostaria de dizer agora. foi tudo premeditado: desde as cordas de náilon que mandei trazer de campina até o notebook que comprei semana passada em dez mil parcelas! nem sei quando vou pagar. puxei pelo torrent a mais nova versão do Word, dizem que não dá tanto bug quanto o outro. e esse tem, acho eu, a opção de não salvar automático. estas palavras todas só serão salvas se e quando eu quiser. não posso ter pleno controle sobre elas, mas são todas minhas e até posso contar quantas escrevi até aqui no exato momento em que estou escrevendo. agora que já passei de dez mil, olha aqui embaixo—dez mil e o escambau—já escrevi essas tantas páginas e nem parece tanto assim. posso também agora passar pro próximo ato. da maneira que eu planejei, a primeira parte englobaria toda a história das camadas de cores do nosso quarto. olha, de agora em diante quando eu falar nosso é sobre as que pertencem a mim e a você, ok? o nosso nosso banal que todo casalzinho tem…”[4]

Pois bem, antes de levar a cabo seu plano de vingança contra o ex-marido, um vereador (não falta aqui sequer o discurso ressentido nu e cru: “não sou como você, que deve culpar sua mãe, que lhe ensinou a escravizar cada nervo do seu rosto e só sobrou a sobrancelha esquerda…” [5]; a mesma mãe que “queria domar a menina candanga sem classe nem caligrafia aceitável pra cortar um lombo parisiense com a faca de sete gerações”), ela leva o leitor a uma “expedição aos motivos reais”, por meio de “joguinhos de altíssimo baixo calão”. E vai lixando aos poucos as camadas de tinta do quarto de casal no apartamento que sobrou da relação (e cuja posse será transferida mais tarde a um mendigo[6]): “…paciência é uma coisa que se consegue aos gritos…”

     O achado que envolve essas sete camadas de tinta (… lembre da parede e das sete camadas de tinta. só arranquei a primeira, há seis níveis de solo neste aconcágua para escavar…”), uma para cada ano (“…é tudo uma questão de paranóia de uma sem-vergonha que aceitou as trinta mil moedas auspiciosas em troca de um cruzeiro de sete anos e outros desatentos comprimentos de tempo pelo oceano colorido e desgraçado do nosso fim…” [7]) não é tanto o recurso “paleontológico”, o efeito-palimpsesto (ou, para usar um termo do próprio relato, “inomogeneidade”), que ele permite como estruturador do discurso da narradora, mas as ressonâncias poéticas e imagéticas que ele proporciona ao talento transbordante de Menezes (mantido sob controle por conta das situações narrativas, bem entendido).

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A cor de cada camada remete a toda uma gama de associações. Por exemplo, a primeira camada é bege, meio “leite condensado” meio “porra” (não esqueçamos, é a cor do estágio do final do casamento): “… cor de leite condensado a partir de agora é minha cor favorita. se ele fosse minha favorita há uns dias, eu não teria lixado a parede, que merda, não posso voltar atrás depois de ter derramado o leite ou as palavras…”; tem uma camada de um genial “verde-anágua” [8]; tem a camada de um “vermelho inespecificado” (“foi de uma mistura feita na máquina que simplesmente gostei. simplesmente, adoro esta palavra, simplesmente gostei, é esse o que eu quero e ponto final. como não acredito em pontos finais, ao contrário do dia que comprei, quando lixei o verde anágua não gostei do vermelho que vi (…)nem todo vermelho é o vermelho que se quer…), que acaba sendo uma “cor natimorta”; tem ainda a camada amarelinha, “com cor de casca de ovinho de patinha”, a camada do tempo em que “…virei uma aleijada…”: “..você me cercava como o cercado cerca as cabras, era um cercado de muitos vocês…”; lixando mais fundo, uma camada salmão: “… nosso terceiro ano, como eu vou esquecer? como você vai esquecer? o ano que finalmente eu dei o meu cuzinho quadrado pra você!” (deixando de lado, o enigma delicioso e irrelevante de como seria exatamente um “cuzinho quadrado”, que me tomou alguns momentos da vida, em tentativas de visualização imaginativa, foi este “o miserável ano da cor salmão”, “ano do cu doído”).

E chega-se à camada “azul inferno” (“…e por falar em inferno, vixe, é realmente um purgatório isso aqui…”), momento de grande virtuosismo do romance, em que percebemos que a corda está esticadíssima, num ponto onde pode arrebentar, ou permitir que o leitor passe para estratos ainda mais perturbadores (por puro gosto de citar o texto—e tendo em mente que boa parte dos meus leitores terá dificuldade de acesso a ele—mais duas passagens: “… por mim, eu ficaria neste azul inferno, mas prefiro, assim, depois de muitas páginas, lixar de vez, outra vez…”; “… tenho dom de lixar paredes e de me lixar…”; ah, essa voz hipnotizante e perigosa dos personagens-narradores carismáticos!): chegamos então à última camada, “branco gelo mais para a neve”, e concomitantemente “já entramos no último ato do meu desabafo…”.

A essa altura do texto, não há um elemento que não permita associações inauditas: “…trouxe o travesseiro recheado do alarido de noites insones…” é um exemplo.

Mas aí entra o “concreto”, o limite da parede toda lixada. E temos o impasse que acossa a parte final. Há a genial situação stephenkinguiana da execução da vingança, sobre a qual não entrarei muito em detalhes (embora peça ao meu leitor que dê uma ligeira olhada na capa da edição, que não é aleatória). O limite? Não, se “no cerne do concreto”: “… você já sabe o que eu vi, o que eu vi foi a minha alma (…) só eu vi, alma supurina de adamantium…”.  Nesse ponto, o motor (já estamos em outro rol de metáforas) já sofreu a operação de desmonte, e pode ser remontado: “… só que as peças não estão no lugar onde começaram, bem ao estilo das obras do pac…” Creio que a partir deste ponto Roberto Menezes perde o controle do motor de palavras que devoram lágrimas, cuja característica mais incrível era justamente se manter numa estrutura de adamantium, mesmo com a febricitante capacidade do seu autor de propor imagens e associações.

Depois de um detalhe discutível, até mesmo um banal clichê (a revelação de que ela um dia apanhou em flagrante o marido sendo enrabado por outro homem), que pouco acrescenta à loucura da história, o romance vai se encaminhando para uma espécie de ritual wagneriano de morte das individualidades do casal, numa dicção onírica (e formalmente insatisfatória) em que um é ao mesmo tempo o outro.

Creio que alguns leitores ficarão arrebatados por esse transbordar da cuidadosa moldura narrativa. No meu caso, considero ¾ de palavras que devoram lágrimas uma das experiências de leitura mais intensas e estimulantes que já vivenciei, e espero ardentemente que para uma futura edição, seu talentoso autor repense o uso inócuo das minúsculas e todo o quarto final, tão desajeitado e frustrante quanto o subtítulo. Curiosamente, acaba sendo a mesma sensação de desperdício da leitura da quase totalidade dos livros de Stephen King, A dança da morte (1978) à parte: ideias e situações geniais, onde ao final o bebê é jogado fora junto com a água que o lavou.

No mais, prefiro terminar com uma citação do próprio livro:

“… remorso é uma palavra úmida, não combino com palavras úmidas, combino com lixa, pó, galho, ponta de faca, navalha, estilete…”

(escrito especialmente para o blog, em julho de 2013)

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[1] Há um subtítulo , a felicidade cangaceira, que a meu ver é infeliz, rebarbativo, e só ajuda a complicar a já difícil recepção de um título publicado pela FUNESC (Fundação Espaço Cultural da Paraíba), numa coleção chamada “Riacho Doce”; ou seja, uma edição fadada a ter circulação restrita, lamentavelmente.

Diga-se de passagem, o próprio autor me informou de que o título original seria “Adamantium” (aquela fictícia liga metálica virtualmente indestrutível que envolve o esqueleto de Wolverine). Quem ler o texto, verá que, apesar de não ser ruim palavras que devoram lágrimas, aquele era o título ideal.

[2] Principalmente imitadoras, já que se convencionou que Clarice é o epítome de uma nefanda “escrita autenticamente feminina”.

[3] Ainda mais com o prestígio que Walter Hugo Mãe, useiro e vezeiro do recurso, adquiriu nos últimos anos.

O mesmo não se dá com as referências “pop”: “… eu não lembro mais a forma concreta do meu grito, uma mistura sem razão de ser de belchior com joy division, com uma pitada de calipso…” Tirando o fato de que a própria Clarice Lispector, na sua fase mais tardia, também fez questão de incorporar as de sua época, não podemos esquecer de que, se G.H. é mais comedida nesse sentido, a narradora de palavras que devoram lágrimas incorpora—e por extensão, satiriza—uma vulgaridade de classe média ascendente (e ela me lembra uma das protagonistas clariceanas, a Ofélia, de A cidade sitiada, 1949).

[4] Mais adiante: “…quero que entrem palavras, por seus olhos, uma a uma, em fila indiana, com a paciência que me faltou ao contar a conta-gotas da lata de leite condensado. palavras que devorarão suas lágrimas antes mesmo de elas saírem…”

[5] Em trecho anterior: “…o discurso, do seu discurso eu sei de cor e salteado; sei onde você erra, sei onde você acerta, sei que, quando você mente,a sobrancelha esquerda levanta, enquanto a outra coitada, por medo ou por que porra for, fica calada, travada. olhando agora admiro o jeito entregão da sobrancelha esquerda. acho que no fim, a saudade que tenho é dela. que bom que você nunca arrancou ela de lá. é bom que você esteja nela ou com ela, uma parte, mesmo que mínima de você, tem um mínimo de verdade…”

[6] “… ter conhecido márcio valeu a pena. parei a marcha e o encarei. os mendigos não são bons de corrida nem de esquiva, logo ele nem tentou bater em retirada. márcio é bem jovem, tem vinte e dois anos com cara de trinta e cinco. já teve quatro filhos e nunca viu suas caras. pra completar o seu currículo, mando uma rima: márcio é o cara, tem espalhadas no corpo definido oito perfurações de bala. quando houve o racha de nossas coisas e você quis deixar pra mim o apartamento, eu mandei você enfiar no cu (…) fiquei, burra, no apartamento, revi os maravilhosos momentos vivenciando outros mil aterrorizantes. mas sabe? acho que estava escrito nas estrelas pra eu ficar lá! eu não estaria aqui escrevendo essas quinze mil e poucas palavras se eu não tivesse ficado. táxi, gritei, onze reais e oitenta e sete centavos. no final, paguei. fui contra um dos artigos da minha constituição: nunca pegar um táxi quando se pode ir de ônibus ou a pé. sei lá, gritei e pronto. o taxista alinhavou o bairro inteiro. eu não senti que quisesse me roubar na corrida, e sim me dizer: senhora, vê lá senhora, manda esse imundo embora, nunca fui boa em corrida nem de esquiva. onze reais e oitenta e sete centavos bem pagos. os taxistas têm que parar com essa porra de quererem ser analistas express. e de novo estava eu, agora, diurnamente com um estranho dentro das minhas entranhas, o creme do creme, foda-se!, me fudendo. não era tesão o que eu e márcio, o que a gente compartilhava. também eu não negociava mais nada com ele. a camisa já era minha. a gente comemorava, simplesmente (…) eu chorava de alegria. não, minto: eu chorava de algo parecido com alegria, algo a dois metros e vinte sentimentos da alegria. márcio, do seu lado, não sei do que chorava. provavelmente chorava de si, e também chorava—não sou imbecil a ponto de não comentar com você—márcio chorava de contentamento por ter conseguido um apartamento pra ele. é  isso. esse foi o meu grande exagero daquele sábado barrento: dei o meu apartamento em troca da camiseta azul inferno que eu sabia, no fundo, bem lá depois do mais profundo do pré-sal, que ele ou outro comparsa havia roubado de mim. ou eu mesma dei, sei lá e não faz diferença isso, depois que recuperei a camiseta, que conste nesta ata: o apartamento é de márcio. já passei em cartório, hoje ou amanhã ele se muda…”

[7] É preciso não perder de vista um aspecto crucial: a ascensão social (autoconsciente da própria vulgaridade e pobreza de horizontes) da narradora: “ … e era tudo um desgraçado joguinho de tarefa e recompensa, de adestramento próprio. Faz isso, neguinha, que de noite você ganha aquela sapatilha de pele de jacaré indiano, da lojinha de madame do shopping. Faz isso, mocinha, que de noite você entra na internet e faz a festa, manda trazer da malásia aquela sandália de palha de araucária grega…”

[8] “…apenas para lembrar que as camadas da vida, apesar de serem cobertas por outras cores mais doces e menos espetaculosas, estão lá, escondidas ou expandidas no grito aborígene das senhoras enlutadas que carregam, cada uma delas, de modo oculto, outras anáguas de cor verde anágua…”

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23/07/2013

Em louvor da ficção “média”: os 50 anos de “As Sandálias do Pescador”, de Morris West

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“__ Vós nunca tereis sido um pessimista, Jean? Nunca vos encontrastes perdido nesse rodopiar incessante da roda da vida?

__ Às vezes, Santidade… Por exemplo, certa vez, quando estava na China, nos confins do noroeste, no vale estéril dos grandes rios… Havia muitos mosteiros. Edifícios enormes que só poderiam ter sido construídos por grandes homens, homens com larga visão, que queriam desafiar o enorme vazio em que viviam… Pensava que, de uma ou outra forma, Deus deveria ter estado com eles, mas quando entrava em qualquer desses mosteiros e observava os homens que lá vivem agora… aborrecidos, falhos de inspiração, apáticos… era afligido por uma profunda melancolia. Quando regressei ao Ocidente… quando li os jornais e falei com os meus irmãos cientistas, fiquei desolado pela cegueira com que parecemos cortejar a nossa própria destruição. Por vezes, até me parece impossível acreditar que o homem possui um destino divino…

__ Kiril assentiu pensativamente. Colheu um ramo caído e provocou uma lagartixa adormecida, que logo desapareceu entre as folhas:

__ Eu sei o que é isso, Jean. Chego a sentir o mesmo, até na Igreja. Espero e rezo por um grande movimento, por um grande homem que nos leve de novo à vida plena…

   Jean Télémond não respondeu. Aspirou, placidamente, o cachimbo, aguardando que o papa completasse o seu pensamento.

__ …Um homem como São Francisco de Assis, por exemplo. Que significa ele, na realidade?… Um rompimento completo com o padrão da história… um homem nascido fora do seu tempo, uma súbita e inexplicável revivência do espírito primitivo do cristianismo. A tarefa por ele encetada ainda continua… mas já não é o mesmo. A revolução por ele inaugurada terminou, e os revolucionários tornaram-se conformistas. Os pequenos irmãos do homem pobre são caixas de esmola nas estações ferroviárias ou, então, negociam propriedades, para lucro da Ordem.

    O papa teve uma risada tranquila:

__ Claro, não fazem só isso. Ensinam, pregam, obram por Deus tão bem quanto podem, mas já não uma revolução. Penso que estamos bem precisados de uma…

__ Talvez—disse Jean Télémond, com uma centelha no olhar astuto.—Talvez Vossa Santidade seja um revolucionário.”

As Sandálias do Pescador (2)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 23 de julho de 2013)

A vinda do papa ao Brasil (e no fundo, as implicações da sua eleição na esteira da renúncia surpreendente de seu antecessor) proporciona o tempero adequado para um comentário sobre os 50 anos de um romance que ainda aprecio muito: As Sandálias do Pescador [The Shoes of the Fisherman, que comento na tradução de Fernando de Castro Ferro[1]].

Quando o publicou, Morris West (1916-1999) gozava do status ambíguo de certos autores de sucesso: visto com desconfiança pela crítica como um fabricante de best sellers, era alguém que lidava com temas “profundos”, “desafiadores”. O romancista australiano, e alguns de seus colegas na lista dos mais vendidos, a meu ver, permanecem subestimados e deveriam passar por uma reavaliação, pois praticavam ficção de bom nível e eram capazes de criar personagens complexos e artimanhas narrativas, muitos patamares acima do simplismo dominante no cenário editorial da atualidade.

Em 1978, sua trama girando em torno de um papa não-italiano (no livro, um russo) a sacudir os fundamentos fossilizados do Vaticano, se afigurou meio profética quando da aparição do polonês Karol Wojtyla[2]. Mas de lá para cá, talvez até pelo filão explorado em sua obra (dilemas católicos), West foi sendo esquecido. Ficou “datado”, o que parece injusto para quem leu O Advogado do Diabo ou Fora de Série, por exemplo, dentro dessa linha; ou, fora dela, Um mundo Transparente.  Por seu lado, João Paulo II pouca afinidade teve com seu duplo ficcional, Kiril Lakota, a não ser uma trajetória tumultuada em função do comunismo: seu longo papado pautou-se por um reacionarismo e um apego a dogmas retrógrados e suas sanções que fizeram a Igreja Católica recuar em número de fiéis, alienando-se das necessidades contemporâneas, enquanto em seu interior grassava a corrupção mais desenfreada e pululavam os pedófilos.

Na absorvente narrativa de West, onde os acontecimentos se entremeiam com “excertos” das memórias secretas do pontífice, Kiril I começa seu reinado enfrentando a petrificada-petrificante burocracia do Vaticano, ansiando pelo contato direto com as ruas (chega a sair disfarçado[3]); no seu passado, fora torturado por Kamenev, alçado depois a condição de líder supremo da URSS, com o qual desenvolvera uma co-dependência psicológica tortuosa, que faz com que os dois (através de mensageiros à la romance de espionagem) cultivem um contato incongruente com os aparentes princípios de suas doutrinas. É através desse vínculo com Kamenev que Kiril pretende usar o peso da igreja para enfrentar a ameaça nuclear (estamos na Guerra Fria) e a movimentação militar da China, uma ameaça ao Ocidente.

À volta de Kiril estão os cardeais artífices da sua condução ao trono de Pedro: Rinaldi e Leone; este último é uma espécie de Inquisidor moderno, responsável pelo silêncio e censura em torno do padre Jean Télémond, que almeja enlaçar teologia e ciência com ideias, na opinião da fossilizada ala de Leone (a qual detém grande poder), perigosas e subversivas. Kiril e Télémond, em posições antípodas (um se torna o líder da igreja, o outro é quase um pária) ficam muito amigos e o tratamento do Santo Ofício ao teólogo é um dos motivos para que o novo papa sinta a premência de dar um novo rumo para o catolicismo. Na adaptação cinematográfica de 1968, dirigida por Michael Anderson, com Anthony Quinn como Kiril, esse foi o aspecto melhor desenvolvido e mais convincente, decerto por causa do trabalho dos atores (Vittorio de Sica como Rinaldi, Leo McKern como Leone, e Oskar Werner como Télémond).

Assim como no filme, a parte mais frágil do livro, aquela que justificaria a fama de best seller, é a do correspondente norte-americano para assuntos do Vaticano, George Faber, envolvido com a esposa de Calitri, deputado católico, na verdade um gay que não sai do armário (apesar de alguns escândalos abafados). Há um processo na cúria vaticana para a anulação do casamento, e Faber corre o risco de cair em desgraça, perdendo sua credibilidade profissional, ao tentar atingir o oponente, que pouco a pouco ascende como força na política italiana. A figura feminina principal é a médica Ruth Lewin, que conhece pessoalmente o papa quando ele sai incógnito pelos bairros miseráveis de Roma, apaixonada por Faber. Ainda assim, esse melodrama não chega a comprometer o resultado, mesmo porque West é um sábio ficcionista que dá razão (e voz) a todos os seus personagens. Ninguém tem a palavra final. E não há um episódio crucial de As Sandálias do Pescador que, mesmo com a liquidação do comunismo e com a passagem do tempo, não pudesse ser encenado em nossos dias.

A certa altura, lemos: “… creio que temos estado na defensiva, em todos os lugares onde batemos em retirada, guardando a fé só para nós como se receássemos que ela se pudesse contaminar pelo contato com o mundo, e nisso falhamos; onde, pelo contrário, erguemos a fé como um estandarte, onde temos afirmado mais incisivamente que o Evangelho está relacionado com todos os atos humanos e com todas as situações, temos sempre obtido maior sucesso (…) Creio que o mundo se está educando mais depressa do que a Igreja… Nos últimos 20 anos, a humanidade foi projetada numa nova e terrível dimensão da existência (…) Tempora mutantur… Os tempos mudam e os homens mudam com eles. Se a nossa missão tem algum significado, esse significado deveria que qualquer ampliação do pensamento humano é, também, uma ampliação da capacidade do homem para conhecer, amar e servir a Deus…”[4]

A igreja católica procurando manter sua presença num mundo desestabilizado e em crise, para além das intrigas e esquemas financeiros da sede geográfica encravada numa desgastada Europa, tentando ainda fazer sentido para as pessoas, como força espiritual e temporal. Nada mais atual.

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[1] Na edição do Círculo do Livro, revista por Fernando Nuno Rodrigues.

[2] “Havia, por consequência, uma argumentação, bastante razoável, em defesa de uma nova sucessão, não-italiana, ao trono papal, assim como havia razão, também justificável, para crer que um papa não-italiano poderia tornar-se um fantoche dos seus ministros ou joguete dos seus talentos de intriguistas. A perpetuidade da Igreja foi um artigo de fé; mas os seus rebaixamentos e corrupções, as suas dilapidações, pelas loucuras dos seus dignatários, já constituem uma parte canônica da história. Havia, pois, razões de sobra para certa atitude de cinismo”.

[3] E mais adiante, desejará “percorrer o mundo”:

“A ideia de um papa peripatético tornara-se, com a passagem dos anos, muito estranha à igreja. Havia quem a concebesse como uma sucessão de perigos… para a dignidade, pois um homem que fazia as malas e viajava pelo mundo poderia parecer demasiado humano; para a autoridade, visto que teria de falar ex tempore sobre muitos assuntos, sem prévios estudos e pareceres; para a ordem e a disciplina, já que a corte do Vaticano precisava de firmeza de mão para manter a estabilidade, visto que as viagens aéreas representavam um perigo constante, e perder um pontífice e eleger outro era um negócio muito caro. Além do mais, o mundo estava cheio de fanáticos, que podiam afrontar a augusta personagem do vigário de Cristo e até ameaçar-lhe a vida.”

Mas é uma saída para o impasse da “autoridade engessada” de que se dá conta Kiril:

“Não dava um passo que não pisasse, com a ponta do pé, a história, o ritual, o protocolo e a monótona metodologia da burocracia do Vaticano. Para onde quer que se voltasse, encontrava sempre a seu lado um funcionário que dirigia a atenção de Sua Santidade para isto ou para aquilo: um cargo a ser preenchido, uma cortesia a fazer, ou um talento a apadrinhar.

    Era grandioso o cenário. A direção de cena era mais que eficiente, mas Kiril levou uma semana para descobrir o nome da peça. Tratava-se de uma velha comédia romana, outrora popular, mas agora caída em ridículo, com o título: O Governo dos Príncipes. O tema era simples: como dar a um homem o poder absoluto e, depois, limitar-lhe o uso dele. A técnica era fazê-lo sentir-se tão importante e ocupá-lo com tantos pormenores pomposos que não lhe sobrasse temo para pensar numa orientação política, nem para pô-la em execução.”

[4] Em outro trecho: “Cada acordo econômico trazia vantagens para os que o assinavam e uma dose de injustiça para os que dele ficavam excluídos. As nações do Oriente e da África explodiam em novos conceitos de grandeza, mas, apesar disso, os homens tomavam partido em assuntos de cor ou raça, como se estivessem investidos de um direito divino de eleição para um paraíso na Terra. Cada nova vitória sobre a doença correspondia a um esvaimento dos decrescentes recursos do planeta. Todo progresso na ciência era mais um remendo do manto em que o homem se abriga contra o vento frio da dissolução.

    Todavia… todavia, esta é a natureza humana. O seu método histórico de progresso é um arame suspenso, por onde se caminha para um futuro tenuemente percebido, mas profundamente sentido. A Igreja está no mundo, embora não seja o mundo (…) Assim, Kiril, o Pontífice, colhido como todos os seus irmãos no dilema humano, sentou-se à sua escrivaninha e seguiu, nas palavras formais do relatório do seu secretário de Estado, as nuvens de uma tormenta em formação: ´O fulcro da atual situação é a China (…) Na América, verificou-se um certo alívio na recessão econômica, mas devido em larga escala ao incremento dos programas de armamento militar´…”

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20/07/2013

UM DOS ROMANCES DA DÉCADA: “A fantástica vida breve de Oscar Wao”, de Junot Díaz

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Junot Díaz escreveu The brief wondrous life of Oscar Wao (2007)  utilizando o espanglês, numa mistura nunca vista numa obra desse nível do inglês com o espanhol. A princípio, parecia que se perderia esse impacto lingüístico numa tradução, mas como temos observado por aqui o fenômeno do portunhol, a versão brasileira de Flávia Anderson, A fantástica vida breve de Oscar Wao funciona muito bem e assim o nosso leitor tem acesso a um dos melhores e mais irresistíveis romances desta década, merecidamente vencedor do Pulitzer.

A família de Oscar, que protagoniza o romance, assim como o próprio Díaz, é oriunda da República Dominicana. A narrativa se inicia nos EUA, em Nueba  Yol, onde Oscar é aquela mistura incômoda de looser, nerd e freak: muito obeso, muito escuro, eternamente virgem, repudiado pelas mulheres, esquisito, pobre, aficionado pela fantasia, quer se manifeste nos livros de Tolkien, nas graphic novels, nos mangás, animes ou RPGs. Escreve compulsivamente nessa linha fantasista, quando não é acometido por crises de depressão, quando tenta o suicídio. Wao é um sobrenome-apelido que lhe pespegam, corruptela de Wilde, como outro Oscar gordo e fora de esquadro pelos padrões da normalidade:

“Gosto de pensar que não foi tão ruim assim. Eles não batiam no Oscar, nem roubavam as coisas dele. Mas, de uma forma ou de outra, eram bastante maldosos. Você já comeu um toto?, perguntava Melvin e Oscar meneava a cabeça e respondia numa boa, sempre que a pergunta era feita. Aí, é a única coisa que você ainda não comeu, né?, Harold dizia. Tú no tienes nada de dominicano, e o cara insistia, com tristeza, Sou dominicano, sim. O que o mano dizia não fazia diferença. Quem neste mundo conhecia um domo como ele? No Halloween, Oscar cometeu o erro de se vestir de Doctor Who, fantasia pela qual, aliás, ele morreu de amores. Quando o vi passando em Easton, com dois outros babacas do departamento de Letras, fiquei pasmo ao constatar o quanto ele parecia com aquele gordo gay, Oscar Wilde e comentei isso com o Mané. Você está igualzinho a ele, o que, na verdade, não foi uma boa para O, porque o Melvin foi logo perguntando, Oscar Wao, quién es Oscar Wao, daí, a gente passou a chamar meu colega de quarto dessa forma…”

Seria Oscar vítima do fukú, espécie de maldição caribenha que se apoderou da sua família (“Chame de grande maré de azar, de uma enorme dívida cármica ou de outra coisa –fukú ?–.Seja lá o que fosse, a parada começou a exercer um poder terrível naquela linhagem…” [1])? Afinal, seu avô foi preso e barbaramente torturado durante a ditadura de Trujillo, por tentar esconder a filha adolescente da fúria priápica e estupradora do famigerado ditador (ou por ter escrito um livro em que revelava os poderes sobrenaturais do tirano e sua origem extraterrestre? no imaginário de Oscar Wao isso seria bem possível [2]); sua mãe, abandonada pelo clã familiar por ter nascido negra retinta, é maltratada pelos pais adotivos (chegam a jogar óleo fervente nas suas costas), e antes de escapar para os EUA, é resgatada por uma prima do malfadado pai, torna-se uma beldade estonteante e teúda e manteúda de um dos maiores gângsteres do regime trujillano, despertando a fúria da esposa dele, que manda asseclas espancá-la barbaramente num canavial (quando ela divulga estar grávida)… Décadas depois, seu filho terá o mesmo destino, ao pôr os pés na República Dominicana e se apaixonar pela amante de um policial…

Quem narra a maior parte da história é Yunior, o qual, apaixonado por Lola, irmã de Oscar, resigna-se a dividir o quarto na faculdade com o trambolho e acaba mergulhando no fukú da família Cabral de Léon, tentando torná-lo inteligível no universo da cultura pop.

A fantástica vida breve de Oscar Wao é um triunfo narrativo e estilístico. Junot Díaz conseguiu encontrar a fórmula perfeita para contar essas vidas que vão sendo construídas na racista, discriminatória (e o único horizonte libertário possível) América do Norte, porém firmemente ancoradas nos costumes, na língua e nas tradições caribenhas. Vidas que oscilam entre um folclore muito forte e as opções culturais da pós-modernidade. É aquele caso raríssimo em que, afora sua excelência, uma obra consegue ser o ponto de convergência, a cristalização feliz, de muitas tendências, um jardim de veredas que se bifurcam. Não sei se isso fará do primeiro romance de Junot Díaz um livro-fundador, abrindo altas linhagens, ou se ele é uma síntese absolutamente magistral, algo irrepetível, na sua percepção do imaginário nerd, da linguagem pós-moderna e das possibilidades abertas pelo boom da ficção hispano-americana das últimas décadas (García Márquez, Vargas Llosa, Cabrera Infante, Manuel Puig, Reinaldo Arenas, entre outros [3]), com seu resgate da tradição épica, da picaresca e da polifonia narrativa. Sem ter uma vocação clarividente, eu aposto na primeira possibilidade: creio que A fantástica vida breve de Oscar Wao, nos próximos anos, será um livro-referência, uma obra seminal quanto à possibilidade de fusão de línguas e à incorporação das  formas de expressão de gerações mais recentes (não é à toa que a epígrafe é uma citação de uma aventura do Quarteto Fantástico). Trata-se realmente de uma voz nova na ficção norte-americana.

(resenha publicada originalmente em “A Tribuna” de Santos, em 05 de outubro de 2010)

 

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[1] Parece até aquele azar que persegue os heróis de Salman Rushdie, o escritor, aliás, com o qual mais encontro afinidades eletivas com Junot Día, tanto na vitalidade e exuberância da narrativa quanto na concepção lingüística de trazer o país de origem colado ao universo discursivo, além da falta de preconceito com o universo pop recente.

[2] A narrativa brinca várias vezes com o realismo fantástico que caracterizou de forma tão estereotipada parte da ficção hispano-americana, ao fazer com que ele tangencie o universo nerd da fantasia do seu protagonista e do seu narrador: “E agora chegamos à parte mais estranha de nossa história. Se o que ocorreu a seguir foi fruto da imaginação de Beli ou algo mais, não sei dizer. Até mesmo seu Vigia tem seus momentos de silêncio, suas páginas en blanco.  Mas, seja lá  qual for a verdade, lembre-se: dominicanos são caribenhos e, portanto, têm uma extraordinária tolerância para fenômenos fora do comum. De que outra forma poderíamos ter sobrevivido ao que sobrevivemos?”

[3] Há duas referências à cultura brasileira: uma, à novela Xica da Silva, que está sendo transmitida na República Dominicana num determinado passo da narrativa: “…a novela Xica da Silva, em que a colega ficava pelada a cada cinco segundos, muito curtida por Lola e as primas…”; a outra, a Paulo Coelho, leitura de cabeceira de Ybón, a amante de policial e puta que causará a desgraça, a confirmação do fukú, na fantástica vida breve de Oscar Wao: “Ao dar uma espiada embaixo do móvel, Oscar entreviu uns livros de astrologia e uma coleção de romances de Paulo Coelho. Ela acompanhou seu olhar e comentou, risonha, Esse escritor salvou minha vida…”

19/07/2013

Teoria e Prática do “ROMANTISMO DA DESILUSÃO’: Lukács e Jacobsen

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O ÉPICO LÍRICO

I

“Sentia-se tão só. Não tinha nenhum parente, nenhum amigo que estivesse perto do seu coração… não pode haver maior abandono que o de quem em todo o imenso mundo não tem um lugarzinho para abençoar, para querer bem, para o qual possa voltar o coração pesado, do qual possa lembrar quando a saudade quiser estender as asas. Mas que brilhem sobre a sua cabeças as claras  e fixas estrelas de um ideal, e a noite não será mais um deserto, e sua solidão não será total. Para Niels Lyhne não havia estrelas. Não sabia o que fazer consigo mesmo ou com suas aptidões. Não tinha dúvidas sobre o seu talento, apenas não podia utilizá-lo, e portanto vagueava à toa, sentia-se como um pintor que tivesse perdido as mãos. Como invejava aqueles que, grandes ou pequenos, por onde quer que abordassem a existência sempre encontravam o que agarrar, pois ele agarrava sempre o vácuo…Às vezes tinha a impressão de haver nascido meio século atrasado, e outras vezes de ter chegado muito cedo.

A passagem acima pode dar ao leitor uma idéia do clima que perpassa Niels Lyhne, célebre romance de Jens Peter Jacobsen (1847-1885), só agora traduzido no Brasil, por Pedro Octávio Carneiro da Cunha. No momento citado, Niels perdeu a mãe (insatisfeita com o prosaísmo da existência, ela transmitiu esse desassossego ao filho) e o melhor amigo, Erik. Pior ainda: mantivera um caso com Fennimore, a esposa de Erik, a qual passou a odiá-lo (uma reação meio teatralesca, é verdade), devido ao sentimento de culpa por trair o marido com o amigo dileto. Era a segunda decepção amorosa de Niels: antes amara uma mulher mais velha, Tema Boye, coma qual também houvera uma cena de rompimento altamente teatralizada (hoje, chamaríamos de “fake”) por parte da personagem feminina.

E o pior ainda está por vir: Niels volta ao seu cantão natal, casa-se e tem um filho, mas tanto este quanto Gerda, a esposa, morrem. É quando o ateísmo de Niels precisa tornar-se “heróico”: pode-se suportar a vida, só deixando-a “seguir as próprias leis” ou deve-se capitular diante da “necessidade ancestral” de um Deus?

II

Publicado em 1880, Niels Lyhne influenciou muita gente. É o caso de Thomas Mann, que, ao comentar sua formação como escritor, sempre destacou a leitura dos prosadores escandinavos: Jacobsen, Hermann Bang, Jonas Lie, Kielland.

É indisfarçável a presença de Jacobsen no primeiro Mann: o sentimento de estar à parte da vida que domina, por exemplo, Tônio Kröger (sem contar a atmosfera estilística da história). Todavia, mesmo o Mann mais tardio apresenta rastros do autor de Niels Lyhne. Hans Castorp, de A Montanha Mágica, endossaria certamente a seguinte frase: “Aprender é tão belo quanto viver”. E a agonia do filho de Niels repercute na do pequeno Nepomuk de Doutor Fausto: “… aquelas mãozinhas cerradas e brancas de unhas azuladas, aqueles olhos meio esbugalhados, aquela boca deformada, os dentes rangendo, com um som de ferro e pedra.”

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III

É difícil ler Niels Lyhne sem ser pela ótica do grande pensador húngaro Georg Lukács (1885-1971), que, em seu clássico e extraordinário ensaio Teoria do Romance (também só agora lançado numa versão brasileira, tendo circulado por décadas na personalíssima tradução portuguesa de Alfredo Margarido), apresenta um capítulo chamado Romantismo da Desilusão que parece ser a descrição mais pertinente da visão de mundo que domina o romance do autor dinamarquês, embora a obra-padrão e ao mesmo tempo ápice dessa tendência seja A Educação Sentimental, de Flaubert.

Lendo inúmeras passagens de Lukács parece que ele está falando diretamente da psicologia de Lyhne: “… inadequação que nasce do fato de a alma ser mais ampla e mais vasta que os destinos que a vida é capaz de oferecer” / “…a perda do simbolismo épico, a dissolução da forma numa sucessão nebulosa e não-configurada de estados de ânimo e reflexões sobre estados de ânimo, a substituição da fábula configurada sensivelmente, pela análise psicologia” (embora eu creia que se vá um tanto além da psicologia no caso da introspecção de Niels) / “…Resta um belo mas esbatido amálgama de volúpia de amargura, de mágoa e escárnio, mas não uma unidade; imagens e aspectos, mas não uma totalidade de vida…” etc, etc.

A certa altura, Lukács afirma ter Jacobsen exprimido o romantismo da desilusão “em maravilhosas imagens líricas”. Não se deve inferir disso que o romance seja escrito numa mera “prosa poética”. Quando Lukács diz “maravilhosas imagens líricas” quer apontar para o seu poderoso e quase visionário estilo, que o torna um legítimo precursor de autores como Robert Musil e Clarice Lispector, exploradores da mesma senda: a reeducação do leitor para além da narração de um enredo, rumo a territórios desconhecidos ou insuspeitos da linguagem, situados além da poesia lírica propriamente dita e da prosa épico-narrativa. Quem já leu O Jovem Törless (na realidade, As Perplexidades do Aluno Törless, como seria melhor traduzido), de Musil, ou um texto como O Lustre, de Clarice Lispector, percebe bem que os três protagonistas (Niels, Törless, Virgínia) são possuidores de um mesmo atributo inquietante, “um sentido a mais do que as outras pessoas, só que ainda incompleto” (Musil; e o Niels de Jacobsen não acha que nasceu meio século atrasado ou chegou cedo demais?).

Portanto, a leitura conjunta de Niels Lyhne e A Teoria do Romance permite compreender melhor um momento de impasse para o romance enquanto gênero. A memorável frase de abertura da Teoria do Romance, “Afortunados os tempos para os quais o céu estrelado é o mapa dos caminhos transitáveis e a serem transitados, e cujos rumos a luz das estrelas ilumina”, transforma-se, para Niels (em cujo céu não havia estrelas), na igualmente bela frase do parágrafo final de outra obra do “romantismo da desilusão”, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, do grande Lima Barreto:  “… olhei ainda o céu muito negro, muito estrelado, esquecido de que a nossa humanidade já não sabe ler nos astros os destinos, os acontecimentos.”

(a resenha acima foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 7 de agosto de 2001)  

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QUANDO NÃO SE PODE MAIS LER AS ESTRELAS

Na seção anterior, comentei a aguardada tradução do clássico Niels Lyhne (1880), do dinamarquês Jens Peter Jacobsen, no qual se narra como o personagem-título vai ficando isolado (as pessoas queridas morrem ou se afastam dele), a partir de uma inadaptação precoce à vida prosaica.

Aproveitei a oportunidade para festejar outra tardia versão brasileira: a da Teoria do Romance (1920), seminal ensaio sobre os gêneros literários. Nele, há um capítulo, “Romantismo da Desilusão”, no qual Niels Lyhne é expressamente mencionado. Faltou dar ao leitor uma idéia mais geral do livro de Georg Lukács.

Seguindo a trilha de Hegel, do romance como “epopéia burguesa”, herdeiro da épica antiga, Lukács procura caracterizar a civilização grega que deu origem às epopéias homéricas como uma “cultura fechada”, orgânica e homogênea. O herói da epopéia representava a comunidade e sua ação era sempre necessária e possível, pois não há separação entre interioridade e mundo exterior, entre necessidades internas e externas. Para citar apenas uma das inesquecíveis imagens criadas por Lukács com o intuito de caracterizar esse estágio civilizatório onde o mundo fazia sentido: “toda ação é somente um traje bem talhado da alma”.

A possibilidade e a necessidade de ação do herói no romance tornam-se “problemáticas”. Aliás, a própria psicologia do herói, o centro que move a trama romanesca, é problemática, pois ocorre a cisão entre sua interioridade e o mundo circundante, que já não faz mais sentido, transformou-se no mundo das convenções burguesas, inautêntico, “demoníaco”. Daí o hiato entre a interioridade do herói e a aventura, pois a alma se sente inadaptada e cindida: “Descobrimos em nós a única substância verdadeira: eis porque tivemos de cavar abismos intransponíveis entre conhecer e fazer, entre alma e estrutura, entre eu e mundo, e permitir que, na outra margem do abismo, toda a substancialidade se dissipasse em reflexão; eis porque nossa essência teve de converter-se, para nós, em postulado e cavar um abismo tanto mais profundo e ameaçador entre nós e nós mesmos.”[1]

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No início, a alma é menos vasta que o mundo à sua volta, caindo no “idealismo abstrato” (que começa com Cervantes e seu Quixote e culmina com Balzac e os heróis da Comédia Humana). No auge do século XIX, a alma inadaptada se sentirá mais vasta que os destinos que a vida tem para lhe oferecer. Temos, então, o “romantismo da desilusão”, muito bem representado por Niels Lyhne. Para Lukács existem imperativos épicos no romance e justamente a problemática do “romantismo da desilusão” ameaça a estabilidade da representação da realidade (mimesis): a forma tende a se dissolver, da narração passa-se para a descrição lírica de “estados de espírito” e a fábula se metamorfoseia em análise psicológica.

Um dos aspectos mais interessantes do “romantismo da desilusão” é o fato de o herói geralmente ser intelectualizado, ou, mais freqüentemente, um indivíduo com aspirações artísticas, ao contrário dos guerreiros, cavaleiros e aventureiros da epopéia e até mesmo dos primeiro romances. O “retrato do artista” é sintomático numa era onde se abriu o já citado hiato entre interioridade e aventura; se esta é possível, apenas na imaginação e no sonho, a realidade não é mais capaz de suprir os requisitos para vivenciá-la.

Fazer da existência uma “obra de arte” ou dedicar-se a um destino como artista são as soluções possíveis, porque, como sintetizou muito bem Milan Kundera, no seu A Arte do Romance, “…o horizonte se estreita a tal ponto que parece uma clausura. As aventuras estão do outro lado e a nostalgia é insuportável. No tédio do cotidiano, os sonhos e devaneios adquirem importância. O infinito perdido do mundo exterior é substituído pelo infinito da alma. A grande ilusão da unicidade insubstituível do indivíduo, uma das mais belas ilusões européias, desabrocha.”

É o processo da existência de Bartolina, a mãe de Niels, que adora poesia e não encontra respaldo para ela no cotidiano. No seu estilo lapidar, Jacobsen a caracteriza com precisão: “No fundo, não havia mais do que o desejo um tanto doentio de tomar consciência de si, a ambição de encontrar a si mesma, que tantas vezes se agita numa jovem de inteligência acima do comum”. Quando, anos mais tarde, o filho a leva para sonhadas viagens, Bartolina se decepciona: “Em sonhos e histórias imaginava as paisagens como na margem oposta de um lago, a névoa da distância envolvia sugestivamente os detalhes da realidade, grandes traços reduziam as formas a uma unidade ideal e o silêncio da distância ampliava o efeito do conjunto, tornavam tão fácil surpreender a beleza… Agora que ela estava no centro do quadro, e cada linha se acentuava diante dela, e produzia os múltiplos acentos da realidade, agora que a beleza se dividia como a luz através de um prisma, agora ela não conseguia fundir as suas impressões, não conseguiu transpô-las para o outro lado do lago… se sentia pobre no meio de todas essas riquezas de que não conseguia dispor.”

A fome de beleza de Bartolina contamina Niels: já que a vida não é “poética”, ele sente que só como poeta pode vivê-la e justificá-la. Esse “heroísmo” que restou na burguesia, e que –onde o ensaio de Lukács pára— domina certo tempo a ficção até que cheguem os tempos de Kafka, “…o sonho sobre o infinito da alma perde sua magia no momento em que a História, ou o que dela restou, força supra-humana de uma sociedade onipotente, se apossa do homem…O infinito da alma, se existe, tornou-se um apêndice quase inútil…” (Kundera)

O tédio do cotidiano já não transforma, então, ninguém em poeta. No máximo, num inseto. E Niels Lyhne passa a se chamar Gregor Samsa.

(a resenha acima foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 14 de agosto de 2001)


[1]Henry James, no seu ensaio sobre Flaubert, de 1902, já intuiu isso perfeitamente ao comentar a tragédia de Emma Bovary: “As aventuras insignificantes de Emma Bovary são uma tragédia exatamente porque, em um mundo sem suspeitas, sem assistência e sem consolo, ela mesma tem que extrair o rico e o raro.”  

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16/07/2013

Dez anos sem Bolaño e as agruras do seu leitor

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“Sobre a velhice, Amalfitano mal pensava.  Às vezes  se via com uma bengala, percorrendo uma alameda luminosa e gargalhando entre dentes. Outras vezes se via encurralado, sem Rosa, as janelas com as cortinas fechadas e a porta trancada com duas cadeiras. Nós chilenos, pensava, não sabemos envelhecer e em geral caímos no ridículo mais espantoso; não obstante, ridículos e tudo, em nossa velhice há algo de valentia, como se ao nos enrugar  e adoecer  recuperássemos a coragem da nossa infância temperada no país dos terremotos e maremotos. (Quanto ao mais, o que Amalfitano sabia dos chilenos eram  apenas suposições, fazia tempo que não os via.)”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de julho de 2013)

Em 15 de julho de 2003 morria Roberto Bolaño, aos 50 anos, aguardando o transplante de fígado que poderia salvá-lo da insuficiência hepática. Passada uma década, tornou-se figura mítica (uma espécie de reatualização da figura do “escritor maldito”) e referência da cultura contemporânea, um de seus pontos de fuga obrigatórios. Os detetives selvagens (1998) e 2666 (lançado postumamente, em 2004) já gozam do status de obras fundamentais—merecido, a meu ver. Atualmente, o chileno que viveu boa parte da sua curta vida no México e na Espanha exerce fascínio similar ao de Borges ou Garcia Márquez na época do boom hispano-americano..

Não obstante, após 11 traduções no Brasil, constata-se o progressivo desgaste na estatura de Bolaño, muito por conta da sensação de se tratar de um artista meio “samba de uma nota só” e excessivamente focado no próprio ato literário como tema, o que torna cansativa a maioria de seus textos. No meu caso, por exemplo, fiquei maravilhado com os dois romances já citados, mas achei lamentáveis, quando não péssimos,  Estrela Distante (1996), Monsieur Pain (1999) e Noturno do Chile (2000).

O mais recente título, As agruras do verdadeiro tira (Los sinsabores del verdadero policía, em tradução de Eduardo Brandão) parecia de antemão ratificar as piores expectativas: trata-se de um rascunho de romance, ainda não totalmente trabalhado, e montado a partir de vários estágios de manuscritos (apesar das explicações e justificativas sempre muito persuasivas, claro, para a sua publicação póstuma, em 2011).

ROBERTO BOLAÑO Revista Literaria Ñ

E tem mais: como que confirmando o “huis clos” em que operava seu autor, os personagens (com variações) são os mesmos de 2666, e a narrativa-apesar da sua fragmentação— segue a mesma inflexão daquele momento maior em sua produção prolífica e tão irregular: da fixação em carreiras literárias e acadêmicas abre-se para a violência e a criminalidade brutal na fronteira México-EUA. É para lá que se mudam o professor universitário Óscar Amalfitano e sua filha Rosa. Ele se envolveu num escândalo em Barcelona, ao transar com alunos do seu curso, sob a influência da intensa relação com um deles, Padilla, poeta obscuro e radical que contrai o vírus da AIDS.

Nos cafundós mexicanos, Amalfitano inicia outro relacionamento, desta vez com um falsificador de quadros, um dos vários “caminhos falsos” de As agruras do verdadeiro tira (já a partir do título), ou seja, dessa toca não sai coelho. Assim como não sabemos o que acontece com Rosa, a filha, após a informação de seu desaparecimento, e após sabermos que um jovem policial se compraz em espreitá-la (está incumbido de vigiar o pai), e que há moças da sua idade sendo violentadas e assassinadas em série na região.

Pois Bolaño, em cinco partes muito desiguais, abre várias janelas narrativas, algumas delas maravilhosas, capítulos brilhantes, mas não se dá ao trabalho (ou teve tempo) de integrá-las de forma coesa. Para seus admiradores mais ferrenhos e fervorosos, isso já é suficiente: é preciso que o leitor “desconfie” que há uma coesão, pressentindo-a no caos textual. A mim, isso não convence e tenho a impressão de que o farto material acumulado derrotou o autor.

E há as excrescências. Por exemplo, o que tem a fazer em As agruras do verdadeiro tira o escritor fictício que mesmeriza os personagens de 2666, Benno von Archimboldi (aqui como J.M.G. Arcimboldi)? Amalfitano traduzira um de seus romances, e lemos resumos de vários outros, sabe-se lá por quê. Borges, é verdade, não tinha paciência com o gênero e se comprazia muitas vezes em inventar sínteses e resenhas de romances imaginários. É preciso fazer tudo isso novamente? Reinventar a roda?

Com todas essas agruras, ainda assim apreciei bastante o romance-rascunho de Bolaño, como aficionado pelo que de melhor seu talento tem a oferecer. Como é um texto ainda provisório, que não foi burilado até o fim, dá para sonhar com uma obra extraordinária saindo desse casulo; entre as cinco partes, prefiro a terceira  (focada em Rosa e na sua correspondência com Jordi, filho de amigos do pai, em Barcelona, um personagem que é tratado com uma delicadeza de toque surpreendente num autor geralmente pouco sutil[1]) e a quinta (que se abre para os personagens mexicanos, como o policial atraído por Rosa, seus antepassados—uma série de mulheres violentadas entre eles; a amiga professora de Amalfitano e seus envolvimentos amorosos; o episódio do general e seu criado morto…).

Como aquele que escreve a apresentação de As agruras do verdadeiro tira, Juan Antonio Masoliver Ródenas, gosto muito (por motivos divergentes) da seguinte citação: “uma característica essencial da obra de Arcimboldi: se bem que todas as suas histórias, não importando o estilo utilizado, fossem histórias de mistério, estes só se resolviam mediantes fugas, em alguns casos mediante efusões de sangue seguidas de fugas intermináveis, como se os personagens, terminado o livro, saltassem literalmente da última página e continuassem fugindo”.  Acredito que ela explica um pouco o peculiar encanto desse projeto de romance e de sua narrativa desestabilizada, quase incoerente; não justifica, contudo, os vários romances publicados em vida e que padecem do mesmo fenômeno, o qual, no caso deles (e indo contra a ideia de uma “estética do provisório” aventada por Ródenas), transforma-os em experiências frustrantes de leitura.

Mas ainda haverá muito a ser dito sobre Roberto Bolaño, sem dúvida.

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[1] “Rosa Amalfitano e Jordi Carrera começaram a se escrever uma semana depois que os Amalfitano chegaram ao México. O primeiro a escrever foi Jordi. Ao fim de uma semana estranha na qual mal conseguiu pregar os olhos resolveu fazer uma coisa que nunca antes, em seus dezessete anos de vida, tinha feito. Comprou, depois de muita hesitação, o cartão-postal que lhe pareceu mais apropriado, a reprodução de uma charge de Taburini e Liberatore (…) e depois de escrever uma ou duas frases que lhe pareceram idiotas, espero que esteja bem, sentimos sua falta (por que o maldito plural?), pôs no correio e tentou em vão esquecê-lo.

    A resposta de Rosa, escrita à máquina, ocupava três folhas. Dizia mais ou menos que estava ficando adulta em marcha forçada e que a sensação que isso lhe produzia era, no início, maravilhosa e estimulante, mas depois,como sempre, a gente se acostumava. Também falava em Santa Teresa e de como alguns imóveis eram bonitos, construções da época colonial, uma igreja, um mercado com arcadas e a casa-museu do toureiro Celestino Arraya, que visitou mal chegou, como que atraída por um ímã. O tal de Celestino, além de bonitão, era uma glória local morto na flor da idade (…) e no cemitério de Santa Teresa se erguia uma estátua impressionante dele, mas só pensava visitá-lo mais tarde. Parece uma escultora ou uma arquiteta, pensou Jordi com desalento ao ler pela décima vez a carta.

    Levou vinte dias para responder. Desta vez mandou um postal enorme com um desenho de Nazario. Ante a impossibilidade de dizer o que de fato precisava dizer tratou se narrar, sem pé nem cabeça, mas cingindo-se estritamente à verdade, sua última partida de basquete (…) Sobre si mesmo insinuava que tinha jogado mal, distraído, sem vontade de correr, e com isso queria dizer que estava um pouco triste e sentia a falta dela.

   Desta vez a resposta de Rosa se limitava a duas folhas. Escreveu sobre suas aulas de inglês , os passeios que dava  ao acaso pelos bairros de Santa Teresa, a solidão que considerava  um bem precioso e que se dedicava à leitura e ao autoconhecimento, à cozinha mexicana (aqui, de passagem, mencionava o feijão com lingüiça catalão, num tom que pareceu desrespeitoso e injusto a Jordi), algumas das quais já se animava a fazer para seu pai (…)

   Em poucas palavras, escrevia ela no fim da carta, era feliz e a vida não podia ser melhor. Nesse aspecto, confessava, me pareço um pouco com Cândido, e meu mestre Pangloss é este ambiente mexicano fascinante. E meu pai também, mas não muito, na realidade nada, não, meu pai não se parece nem um pouco com Pangloss.

    Jordi leu a carta no metrô. Não tinha a menor ideia de quem eram Cândido e Pangloss, mas pareceu-lhe que sua amiga estava nos portões do Paraíso enquanto ele continuava para sempre no Purgatório.”

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