MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/11/2017

Destaque do Blog: “Febre de Enxofre”, Bruno Ribeiro

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 28 de novembro de 2017)

Tinha jurado para mim mesmo nunca mais ler uma narrativa sobre um escritor em conflito com o mundo ou com bloqueio criativo, mas não contava com Bruno Ribeiro, o príncipe da prosa sulfúrica, pornográfica e ultrajante: “Decido ir ao lançamento, teria conhecidos e precisava de uma massagem de ego. Velhos broxas e velhas de buceta seca adoram elogiar meu livro, falar dos prêmios, do glamour, da minha roupa e voz de barítono, cabelo renascentista; risadas de dentadura, jovens virgens e amantes da alta literatura me cumprimentando, amigos – não tão amigos, pois são escritores”, eis um trecho quase inofensivo no jorro atropelador de “FEBRE DE ENXOFRE”.

Yuri Quirino é um poeta que se sente asfixiado pela rotina de Campina Grande. Tenta até um patético suicídio, pulando do terceiro andar e está “queimado” na cidade por dar aulas de poesia a travestis. Então aparece Manuel di Paula, o qual lhe faz uma proposta, ir a Buenos Aires escrever sua biografia.

Esse convite tem algo de pacto diabólico, aliás enseja uma das cenas mais bizarras do romance, quando Manuel tira a arcada dentária e coloca na mão de Yuri Quirino, que a partir daí começa a sentir em si um cheiro fétido.

“Vocês têm o que, mas não tem o como. Mas ter o que é mais importante do que o como. O que há de estudantes de literatura preenchidos pelo como não há como contabilizar, são bilhões, trilhões, e nenhum deles tem o que, o que, o que, o que vou contar? Nada”.

Para escapar desse círculo “infernal”, ele viaja para Buenos Aires, que mais parece um show de Alice Cooper, enquanto acompanhamos a alucinante e infame biografia de Manuel di Paula, um dos pontos altos da nossa ficção atual.

Em tempo: Bruno Ribeiro escreveu a brilhante coletânea “Arranhando Paredes”, onde há a mesma fusão de divertimento e perversidade corrosiva.

 

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31/10/2017

Destaque do Blog: “As Perguntas”, de Antônio Xerxenesky

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 31 de outubro de 2017)

Neste “insosso século 21”, a jovem Alina, mesmo com pós-graduação, está subempregada em São Paulo. Compartilha as redes sociais com amigos e todos sabem tudo sobre todos. Mas na infância, ela via vultos sobrenaturais. Curiosamente embora tenha estudado cultos religiosos e esotéricos, após anos de racionalização, tornou-se descrente.

Chamada pela polícia para auxiliar no desvendamento de estranhos símbolos ligados a desaparecimentos, Alina cai na tentação de Fridolin de “Breve Romance de Sonho”, de Arthur Schnitzler, entrar num mundo ao qual não pertence. Participa de um ritual meio ridículo, contudo ela volta a vislumbrar um vulto.

AS PERGUNTAS, de Antônio Xerxenesky, mistura com inteligência essa incursão mística com uma rave, ou seja, o horizonte dos jovens urbanos, cínicos, que não acreditam em nada transcendente a não ser superficialmente. Mas como encarar o vulto despertado por Alina? Em meio ao vazio, ao lixo cultural, a um Zeitgeist, o espírito da nossa época, dominada por imposturas, simulacros e pastiches? As perguntas persistem.

“Foi uma evocação que deu errado? Uma invocação, pois parece estar grudada em mim? Foi um espírito inferior que entrou em nosso plano? Um quiumba? Mas eu nunca acreditei nisso, não é? Sempre li todos os ceticistas, sempre defendi uma visão materialista do mundo, não acredito em Deus desde que tenho uma opinião crítica mais ou menos formada, então por que me envolvi nisso? As sombras sempre estiveram comigo, sim, desde pequena, mas eu tinha aprendido a conviver com elas, tinha matado as sombras com a ciência, então por que estou fazendo tudo isso? Não é só porque bebi demais? Porque tinha uma droga na bebida? Porque fui influenciada por todo aquele mise-en-scène do ritual? Porque afrouxei minhas defesas, meu raciocínio lógico? Porque afoguei minha irônica e meu cinismo? Por outro lado, que espécie de vida é essa em que a ironia e o cinismo bloqueiam qualquer experiência? ”

Ainda prefiro “F”, seu romance anterior, porém AS PERGUNTAS confirma que Xerxenesky é um dos autores do momento.

 

12/09/2017

Destaque do Blog: “O Mergulho”, de Juliana Diniz

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 12 de setembro de 2017)

Juliana Diniz já disse a que veio no seu livro de estreia, “O Instante Quase”: ser uma das melhores autoras do momento. Ela tanto gosta de praticar a narrativa “tradicional” quanto de experimentar. É o caso de O MERGULHO, o qual evoca as obras do chamado “Noveau Roman”, movimento dos anos 60 que procurava tirar o prestígio dos personagens, tratando o ser humano como coisa entre coisas, mais um elemento na paisagem. A maioria dos críticos não aprecia, o que não é o meu caso, pois há dois gênios nessa leva: Marguerite Duras e Claude Simon.

“Sei que não o terei, mas sigo embalada para o salto, resignada com a brevidade frouxa deste presente sem passado ou futuro que sua chegada me concede. Seus olhos mais uma vez buscam os meus. É tempo, é esta a nossa hora”.

O MERGULHO nos apresenta um casal num lugar em ruínas, com destaque para uma piscina estagnada. Nada nos é informado sobre eles. Estão vivos? Estão mortos? Um está vivo e o outro morto? Não sabemos. Pressentimos uma história trágica.

Saímos das ruínas e passamos para a natureza selvagem, o mar adiante. Será uma libertação ou a repetição de um ritual de amor e morte? “Mergulhamos, as consciências mais uma vez cegas pelo abismo.
A água nos agita os cabelos, o corpo suspenso se contorce: a direção é qualquer direção.
É hora de soltar a sua mão, que se vai.
Meu corpo abandonado no infinito sem bordas,
Navega.
A maresia se desprende da superfície da água, em lentas evaporações. A névoa esmaece a paisagem, aquarela o céu, umedece os sentidos.
Suspenso é o mar transparente com gosto de sal.
Depois o nada.
Desmanchamos.
No (m)ar”.

Juliana Diniz não resolve enigmas. Só nos hipnotiza com o seu domínio da linguagem.

25/07/2017

Destaque do Blog: “Naufragar Jamais” de Pedro Alberto Ribeiro (Poeta em Queda)

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicado originalmente em A TRIBUNA de Santos em 25 de julho de 2017)

“Ela planejava o impossível/ com o dedo no vidro embaçado/ esperando ele voltar// hoje, divide a cela com outras oito/ e impossível é não usar a alma inteira// o peso da grade é como água/ abafando a música de pássaros imersos/ num aquário em cima da geladeira//”. Estes versos fazem parte do poema “Pássaros Imersos em Aquário”, um dos cadernos de NAUFRAGAR JAMAIS.

A 11Editora investiu num projeto ousado, publicar os poemas de Pedro Alberto Ribeiro (Poeta em Queda) em cadernos soltos, deixando livre ao leitor a ordem da leitura, embora mantendo uma unidade incrível até na ocupação da página em branco, pois são todos muito parecidos (e isto não é uma crítica).

“Tenho vestido minha pele/ como quem lança dados/ sem saber as chances de perder// descobri que viver tem gosto de domingo/ passeio com cachorro/ receitar mal seguida//”. Sempre uma impressão de confinamento, de limite. “Quem não carregue/ nos olhos toda a expressão/ e possa mantê-los abertos/ mesmo em poeira seca// Pode-se que levantem a mão/ os seres perecíveis, de carne/ frágeis ao fogo/ e com uma estranha tendência à insônia// Procura-se/ quem ainda queira/ encontrar//”.

“Eu te visto como um rio/ acampo como onda// indo/ e/ vindo/ sem fazer da saudade/ motivo para dramas// Tudo é chão// Silêncio// (teu abraço/ quando vai/ sempre acaba/ por ficar//)”. Ainda se fazem poemas de amor.

“Estes versos já não falam nada// Sem cadência/ nenhuma estrela/ ilumina a parede branca do banheiro// Se tivessem de falar/ estes versos seriam uma selfie/ tirada um segundo antes do blecaute// Talvez habitassem a foto/ algumas cores misturadas/ brincando de encontrar nas diferenças/ outra coisa que não uma palidez// Talvez caleidoscópios manuscritos/ aquarelas ainda por usar// Coisa qualquer/ para preencher a vida// Mas estes versos já não falam nada/ e nenhuma cor habita/ a hora inconfidente/ da água jorrar pelos ombros//”. Estes versos que já não falam nada talvez sejam os mais contundentes do livro.

“Os restos no prato dizem o que a boca não comeu// Escorre sangue no fio dental/ mais violento que a lâmina// Tóxicos, os agros fazem seus negócios/ num paladar para o qual a vida é/ indigesta// (é preciso café para trabalhar para/ comprar café para trabalhar)//”. Não poderia terminar esta resenha de modo mais brilhante.

 

 

 

23/05/2017

Destaque do Blog: Insolitudes, de Tiago Feijó

   

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 23 de maio de 2017)

“Eu entendi que a vida tinha que continuar, mesmo preto e branca. A vida, para os que ficam vivos, tem sempre que continuar. A dor nunca passa, nunca passará”. Esse é um trecho de Aqui, dentro de mim, o mais humano (bem sei como esse termo é perigoso para julgar obras literárias) dos nove contos de INSOLITUDES (7Letras). É a narrativa de uma mãe que perde o filho, fulminado por um raio, a situação mais dolorosa que existe, e a qual sequer possui uma palavra para defini-la.

Curiosamente, não é a expectativa que Tiago Feijó cria para o leitor nos três contos iniciais, centrados na literatura: em “A insólita morte de Ernesto Nestor”, um escritor morre por se considerar medíocre, apesar do imenso sucesso (lembrando o protagonista de Um Homem Célebre, de Machado de Assis); em Josés, o fantasma de José Saramago dita seu último romance ao personagem de Feijó, também chamado José;  em Conto tirado de um poema, narra-se detalhadamente os acontecimentos de um curtíssimo poema de Manuel Bandeira. Parece que INSOLITUDES vai seguir o caminho da intertextualidade.

De repente, tudo muda e surgem histórias completamente cotidianas, “com a dor e a delícia de ser o que é”, portanto mais solitudes do que insolitudes, embora haja um conto, O olho, o qual nos remete às fábulas morais que utilizam um acontecimento fantástico (um olho nasce numa parede) para satirizar a rotina burocrática.

Gosto muito do já citado Aqui, dentro de mim, mas o ponto alto do livro é Uma noite na vida do sr. Lameque, que me lembrou Faulkner, com uma mãe atormentando o filho ao evocar diariamente uma tragédia ocorrida há quarenta e seis anos. Também muito forte é Há uma gota de orvalho em cada criança (título que alude a um poema de Mário de Andrade) abordando o racismo.

Porém, o conjunto dos nove contos impressiona. E impressiona ainda mais a qualidade da linguagem (uma amostra: “O bar está em polvorosa, com grande azáfama de gentes. O samba, no seu compasso cardíaco, perverte as pessoas, instala nelas um assanhamento de fogo, de labareda, bulindo com elas por dentro, afrouxando nervos e músculos, libertando dos corpos a malícia da carne”) o que, aliás, tem me causado espanto e entusiasmo não só com o autor cearense de que me ocupo nesta resenha, mas com diversos autores novos. Numa época em que as pessoas escrevem nas redes sociais eliminando as vogais, eu, velho dinossauro gramatical (só falo e escrevo palavras inteiras e detesto siglas), fico feliz de acompanhar essa revalorização da nossa língua. É para manter isso, viu?!

25/04/2017

Destaque do Blog: DEC(AD)ÊNCIA, de Manoel Herzog

Primeira Parte

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 11 de abril de 2017)

Quem acompanha a produção prolífica e versátil do escritor santista Manoel Herzog, sempre fica espantado com a sua exuberância narrativa, mas ele se superou em DEC(AD)ÊNCIA. Nesse romance há tantas passagens impagáveis e tão afrontosas que dá vontade de citar várias. Infelizmente, falta espaço e tenho que me limitar aos aspectos “sérios”.
Sergio, o protagonista, nos relata tortuosamente sua trajetória desde os anos oitenta até os dias de hoje. Ele sofre de prisão de ventre, entrelaçada à relação edipiana com a mãe (que tentará reproduzir com Beatriz, vinte anos mais velha). O grande pensador Ernest Becker caracterizou o homem moderno como prisioneiro do que Freud chamou de fase anal. Ela seria o momento no qual diante da consciência da morte, forjaríamos nosso caráter enquanto couraça (neurótico, limitado, cheio de estratégias para enfrentar a realidade e os outros).
A analidade e a escatologia dominam DEC(AD)ÊNCIA. Um paralelo óbvio é com os narradores machadianos, como os de “Memorias póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro”, os quais simbolizavam, num discurso jocoso, repleto de exibicionismo de referências, para se mostrarem mais inteligentes do que sua classe social, embora acabem, com sua arrogância e desfaçatez, representando a burguesia nacional.
O achado formidável de Manoel Herzog não foi apenas parodiar o estilo do “Mestre da periferia do capitalismo”. O que Herzog conseguiu foi transportar a temática burguesa, provando que, após a abertura política, a elite encolheu o rabinho entre as pernas (sem contar as panelas). Depois dos governos de esquerda, todos os ranços, todas as mazelas, todo o armário de preconceitos, ódio classista veio à tona, de formas cada vez mais truculentas. Expressões como “decência” e “gente de bem” viraram escudos para a hipocrisia e a canalhice.
Sergio, um psicólogo renomado, mantém sua aura de decência enquanto divide falcatruas e orgias com um pastor evangélico, até a “a casa cair”; ele passa a escrever livros de autoajuda e fazer palestras motivacionais. Repentinamente, o intestino que tanto o atormentou, física e simbolicamente, obriga esse burguês tão empedernido a se defrontar com a finitude e o terror da morte. E, nós leitores, ganhamos um mestre na periferia do pós-tudo.

SEGUNDA PARTE

(Uma versão da resenha abaixo foi publicado originalmente em A TRIBUNA de Santos em 25 de abril de 2017)

Na minha última coluna, comentando DEC(AD)ÊNCIA (Patuá) do santista Manoel Herzog, ressaltei a narrativa em primeira pessoa (como em certos romances machadianos), o personagem principal (Sérgio), simbolizando a desfaçatez da burguesia brasileira, a qual ao longo da última década conseguiu destruir a nossa incipiente democracia.

Agora gostaria de mostrar DEC(AD)ÊNCIA como um romance enciclopédico, composto de várias camadas e referências, quase sempre paródicas, como que mostrando a “superioridade” do narrador. As brincadeiras com a linguagem, os inúmeros trocadilhos e cacófatos, o eterno debate com o seu suposto ghost writer, lembram os melhores textos de Vladimir Nabokov, o russo que, em “Lolita”, “Fogo Pálido” e “A Verdadeira Vida de Sebastian Knight”, fez coisas que até Deus duvidasse, com narradores sempre exibicionistas, justificando suas taras e perversões, ridicularizando os costumes americanos, a partir de uma origem aristocrática (por exemplo, o narrador de “Fogo Pálido” rouba o poema de um autor, pois acredita que a obra contém, criptograficamente episódios de sua vida como rei de um país chamado Zembla do qual teve de se exilar  e assumir a modesta existência como professor).

Assim como o nosso Machado de Assis e Nabokov, Manoel Herzog mostra a discrepância entre o que o narrador imagina ser e o que de fato é, num tom humorístico que quase faz o leitor rolar de rir, sem deixar (caso esteja atento) de saborear a fina ironia. Um dos momentos mais geniais de DEC(AD)ÊNCIA acontece quando Sérgio começa a dar palestras, assumindo a aparência  daquele professor pedante e pretensioso, o qual se apresenta como “filósofo” Luiz Felipe Pondé. O leitor agora sabe em que águas turvas e traiçoeiras ele se meteu.

Além dessas referências (e outras tantas, como trechos de canções populares) temos uma extraordinária paródia, no capítulo onde Sérgio descreve seu tumor no intestino, mostrando o aparelho digestório como se fosse as três etapas da “Divina Comédia” dantesca, inferno, purgatório e paraíso, correspondendo às metástases do seu câncer.

É o proverbial riso a caminho do patíbulo. Na ficção brasileira dos anos recentes só encontramos paralelo de DEC(AD)ÊNCIA em “O Livro dos Mandarins”, de Ricardo Lísias.

28/02/2017

Destaque do Blog: ASSINATURA, de Valberto Cardoso

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 28 de fevereiro de 2017)

O conjunto de poemas de ASSINATURA (Editora Ideia) tem uma aura fortemente evocativa, lampejos de uma vida familiar; e em alguns poemas, uma atmosfera de atemporalidade. Temos uma espécie de ritual cotidiano pleno de significados, dos quais restaram a nostalgia, amargura; enfim, pistas criptografadas e resíduos: “Esta manhã/tem parecer poética/(outras linhas trariam um café um/cigarro o bolo de laranja o outro)/Mais que isso/o coração retorce/(pouco se escreve)/cujas partes mais ternas/podem causar-lhe a morte”. Um tempo onde a perenidade é marcada pelos “papéis assinados para o contrato da/eternidade”.

Os versos de Valberto Cardoso são graves, mas embora ASSINATURA seja um livro muito bonito, é bastante irregular; por exemplo o poema “Sê-lo” (de onde extraí os dois versos que fecham o parágrafo acima): “E se quebram, de fato/Não é a mesma barba/A mesma cama/O mesmo medo…//Beleza da fotografia/Composição e modernidade//Sou eu que te construo/E me arrependo/Quando exato o tempo/Me exume/Restos selos te envolvem/Na matéria apresentada/Dito assim parece místico/Mas é fato, rítmico//O olhar maduro, enfurecido, já desiste/O mofo do corpo era previsto/Tanto tanto que silencia/E de fato quebra/A esperança do dia”. Apesar da força das imagens, elas parecem colidir umas com as outras, gerando uma desarmonia, a qual se espalha pelos poemas seguintes, ora com versos graves, realmente inspirados; ora com versos que aspiram à gravidade, mas soam postiços e pedantes.

Vejam a força sintética de “Pedido”: “Lillian gosta da segunda-feira/da fono/da fisio/e do feijão preto”. Não é preciso muito para delinear uma existência patética e pungente. Outro achado é “Adivinhação”: “Minhavó jogava no bicho./Da fortuna ela não contava, mas eu sabia./Pegava a xícara branca, punha café morno ou/frio,/acendia um fósforo, novo, sem pavio,/lançava no café, pra ver fumaça ou bicho./Tapava a xícara com pires branco, sujo,/esperava por segundos,/e, autorizado pois, de lá surgiam/cavalo, cobra, gato, leão,/jacaré, porco, galo, pavão.//Eu via roda-gigante, peixe, balão,/carrinho, meu avó e bicho-papão!”.

Como se pode constatar, o poeta paraibano não precisa forçar a barra para alcançar o lirismo. É como o próprio Valberto Cardoso nos ensina em “Representação”: “Prefiro o amor em preto e branco/É mais simples/2 cores encarnadas, organizadas./Aliás, muitas cores têm levado o amor a/amostras/Curadorias, publicações,/Muitas em função da própria contradição”. É isso aí, “Adeus cores questionáveis!/A beleza não vem da experimentação”. Pena que ele não se norteie sempre por essa infalível bússola poética.

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27/12/2016

Destaque do Blog: “Falso Trajeto”, de Fabio Weintraub

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente, em A TRIBUNA de Santos em 27 de dezembro de 2016)

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“Contraditório, e daí?/as pessoas mudam/os tempos mudam//não sou neurótico de guerra/pra ficar defendendo/territórios já anexados//o ostracismo cansa: se voltei ao mainstream/é porque estou vivo//tenho cinquenta anos/não vou posar de herói/quero que se foda/a coerência do criador/é a obra que importa//não vou bancar o mártir//o Brasil está desse jeito/por ser católico, culpado e de esquerda/vamos ser ricos, não coitados//não se se tem jabá: cala a boca/ouça a música (pessoas jurídicas não odeiam).

Há um mistério na poesia de Fabio Weintraub, que fica evidente na antologia FALSO TRAJETO (Editora Patuá): Ela parece opaca (muitos diriam: sem atrativos), misturando temas triviais, especulações metafisicas, poemas sobre partes do corpo (mãos, mão e perna), poemas sobre quedas e muitos poemas onde o “eu lírico” é quase um narrador. Há uma profusão de títulos já carregados de simbolismos, os quais parecem não ter muita relação com os versos do autor. E mais: são poemas sem imagens fortes, boas para citações, quase destituídos de figuras de linguagem.

No entanto, o leitor fica hipnotizado com cada poema, relendo e relendo, constatando o brilho profundo desse poeta ímpar.

Northrop Frye (um crítico genial) utilizava o termo sparagmós para descrever situações de despedaçamento, de fragmentação do indivíduo e sua busca de sentido e unidade. Veja-se o poema mão e perna: “tua perna adormeceu/o que ela sonha? //que salta a corda lançada/ao chão perto do patíbulo/que é cruzada sem calcinha/sobre o joelho macio/que molha a canela no sangue/antes de entrar no gesso/que despede o cachorro/atracado à panturrilha/que ajoelhada no milho/é deixada atrás da porta/que se arruína em trombose/e avacalha dois cortejos://de núpcias/de exéquias”.

Enfim, o trajeto existencial pode ser falso, errático e sujeito a acidentes, mesmo numa condição letárgica (Aliás, Fábio Weintraub é o grande lírico da letargia). Porém, o grande poeta paulista escreve certo por linhas tortas, onde o chão é o limite: “qual britadeira/bate a bengala/contra o chão/como se quisesse/vingar-se da infirmeza/dando ao pavimento/a irregularidade/em que/os demais/também/tropeçarão”.

 

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29/11/2016

Destaque do Blog: ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS, DE IACYR ANDERSON FREITAS

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de novembro de 2016)

Corredores de hospital, sangue fezes, câncer, tumores, gases, alzheimer, este é o universo que percorrem os poemas de ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS (publicado numa edição caprichada pela editora Escrituras). Um poema é emblemático: “o espírito sangra/desde o princípio//já o corpo/hoje sangra/escondido//o que o outro/lhe sugere/em sigilo”.

Faz tempo que eu tenho vontade de comentar a poesia de Iacyr Anderson Freitas, uma das melhores da literatura contemporânea, embora com uma certa ressalva: que sua perícia técnica engessava seus poemas num formalismo excessivo. Em ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS, sem perder o rigor poético, ele aparece mais solto e cru, misturando o visceral e o jocoso (principalmente nos títulos, como em “Camilinho, acamado”: “dois dias de dores/no baixo-ventre/ou quase//e/o médico/o de sempre/:gases//nada de grande/importância//até para sofrer/lhe falta/substância”): “cada segundo/sabe o sal/ de sua queda//tudo existe para cair//até o não//de nenhum/chão”.

Quem já foi internado e se viu cercado pela burocrática da vida medicalizada, uma das características da nossa época, vai ao mesmo tempo rir e chorar com a verdade profunda que Iacyr imprimi em “raiz tão profunda”: “era só tirar/uma verruga/coisa boba de tudo/e foi aquela tortura//sete dias internado/e a morte/na agenda/para o próximo/sábado//é que a verruga era funda/assim tão funda/assim tão funda/e tão alva//que feria/a alma”.

Um dos belos lançamentos de 2016, ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS pode ser resumido pelos maravilhosos versos finais de “Menos um dia”: “para ascender mais um dia/ao calvário//de nenhum/calendário”.

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01/11/2016

Destaque do Blog: A VISTA PARTICULAR de Ricardo Lísias

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em primeiro de novembro de 2016).

José de Arariboia é um artista plástico que está conseguindo certo renome, um pouco pela já veterana galerista Donatella (cujo pai fez fortuna com o mercado de obras de aquisição duvidosa, após o final da Segunda Guerra, auxiliado por uma rede de fascistas e nazistas, radicados no Brasil).

Só que Arariboia é um personagem de Ricardo Lísias, cada vez mais se torna “distraído” com relação à realidade sua volta. Essa distração o leva a subir o morro da favela Pavão-Pavãozinho. Não se sabe o que acontece com ele ali. Reaparece numa espécie de procissão mística até o mar de Copacabana. Os vídeos do acontecimento “bombom” no YouTube – curiosamente, foram gravados e editados pelo traficante do morro, Biribó.  Depois de um tempo de recolhimento, Arariboia procura Biribó para propor um projeto: partes da favela transformar-se-ão em “instalações”.

A partir daí A VISTA PARTICULAR (Alfaguara) vai dando pancadas e mais pancadas na complacência do leitor. Durante as Olimpíadas, a “instalação” de Arariboia é transferida para perto do evento esportivo, com partes denominadas “boca de fumo” e “mãe com filho bandido e outro na escola”, por exemplo. O menino é assassinado com uma bala perdida pela polícia e o cadáver incorporado como elemento estético. O projeto da Arariboia vai adquirindo tal dimensão na mídia e nas redes sociais, que a comunidade inteira do Pavão-Pavãozinho acaba sendo levado em exposição na Europa, antes passando por Minas Gerais: “O transporte de Comunidade brava: turismo Brasil formou uma fila imensa de ônibus na rodovia que liga os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. A televisão acompanhou tudo de cima, imagem que aliás foi aproveitada por mais um vídeo do Biribó. É com alegria que no primeiro ônibus do cortejo ele conta para o Pê que uma produtora europeia de cinema e vídeo o procurou interessada em levas suas filmagens para o cinema. Isso de internet é muito bom, entusiasmou-se, as uma hora temos que dar um salto.
A montagem do morro foi mais tranquila. Arariba tinha deixado à disposição uma série de materiais, já com as instruções do lugar de tudo. Não era preciso. Com a experiência, os moradores sabiam perfeitamente erguer os barracos, lembravam-se dos lugares onde deveriam ficar a vendinha, a boca de fumo, a igreja evangélica e a biblioteca comunitária. De qualquer forma, não é preciso deixar tudo igual. A arte contemporânea tomou para si, com grande criatividade, o aspecto efêmero das coisas humanas. Haverá alguma pulsão de morte na obra de Zé Arariba?, um crítico se pergunta em um longo artigo de jornal. Esse, por razões que não vêm ao caso, nosso artista leu e ficou abalado. Afinal de contas, estou sempre despedaçando alguma coisa. Às vezes fico pensando se vale mesmo a pena”.

Poucas vezes, o uso da miséria e exclusão social, transformadas em espetáculo (lembram da abertura das Olimpíadas?), a naturalização e estetização da violência, foram tratados de forma tão ácida na ficção brasileira. Ricardo Lísias volta à exuberância narrativa de sua obra-prima O LIVRO DOS MANDARINS, inclusive com a utilização de recursos que lhe são caros, como a redução do nome do personagem ao longo do romance (Arariboia, Arariba, Arara), o relato em espiral e a completa alienação do protagonista: a favela “ganha um mundo”, saindo do controle de Biribó, e Arariboia se desliga totalmente do projeto. Ironicamente, um artista que era considerado um pintor do universo carioca, anuncia um projeto com título #partiuBrasil.

Lísias nunca foi tão conciso e eloquente. Até a interferência do narrador no relato mostra, no final das contas, que tudo é uma representação multiplicada ao infinito da suposta realidade, tudo é simulacro, e às vezes oportunistas. A VISTA PARTICULAR, não poupa ninguém. Faca só lâmina.

 

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