MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/02/2017

Destaque do Blog: ASSINATURA, de Valberto Cardoso

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 28 de fevereiro de 2017)

O conjunto de poemas de ASSINATURA (Editora Ideia) tem uma aura fortemente evocativa, lampejos de uma vida familiar; e em alguns poemas, uma atmosfera de atemporalidade. Temos uma espécie de ritual cotidiano pleno de significados, dos quais restaram a nostalgia, amargura; enfim, pistas criptografadas e resíduos: “Esta manhã/tem parecer poética/(outras linhas trariam um café um/cigarro o bolo de laranja o outro)/Mais que isso/o coração retorce/(pouco se escreve)/cujas partes mais ternas/podem causar-lhe a morte”. Um tempo onde a perenidade é marcada pelos “papéis assinados para o contrato da/eternidade”.

Os versos de Valberto Cardoso são graves, mas embora ASSINATURA seja um livro muito bonito, é bastante irregular; por exemplo o poema “Sê-lo” (de onde extraí os dois versos que fecham o parágrafo acima): “E se quebram, de fato/Não é a mesma barba/A mesma cama/O mesmo medo…//Beleza da fotografia/Composição e modernidade//Sou eu que te construo/E me arrependo/Quando exato o tempo/Me exume/Restos selos te envolvem/Na matéria apresentada/Dito assim parece místico/Mas é fato, rítmico//O olhar maduro, enfurecido, já desiste/O mofo do corpo era previsto/Tanto tanto que silencia/E de fato quebra/A esperança do dia”. Apesar da força das imagens, elas parecem colidir umas com as outras, gerando uma desarmonia, a qual se espalha pelos poemas seguintes, ora com versos graves, realmente inspirados; ora com versos que aspiram à gravidade, mas soam postiços e pedantes.

Vejam a força sintética de “Pedido”: “Lillian gosta da segunda-feira/da fono/da fisio/e do feijão preto”. Não é preciso muito para delinear uma existência patética e pungente. Outro achado é “Adivinhação”: “Minhavó jogava no bicho./Da fortuna ela não contava, mas eu sabia./Pegava a xícara branca, punha café morno ou/frio,/acendia um fósforo, novo, sem pavio,/lançava no café, pra ver fumaça ou bicho./Tapava a xícara com pires branco, sujo,/esperava por segundos,/e, autorizado pois, de lá surgiam/cavalo, cobra, gato, leão,/jacaré, porco, galo, pavão.//Eu via roda-gigante, peixe, balão,/carrinho, meu avó e bicho-papão!”.

Como se pode constatar, o poeta paraibano não precisa forçar a barra para alcançar o lirismo. É como o próprio Valberto Cardoso nos ensina em “Representação”: “Prefiro o amor em preto e branco/É mais simples/2 cores encarnadas, organizadas./Aliás, muitas cores têm levado o amor a/amostras/Curadorias, publicações,/Muitas em função da própria contradição”. É isso aí, “Adeus cores questionáveis!/A beleza não vem da experimentação”. Pena que ele não se norteie sempre por essa infalível bússola poética.

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27/12/2016

Destaque do Blog: “Falso Trajeto”, de Fabio Weintraub

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente, em A TRIBUNA de Santos em 27 de dezembro de 2016)

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“Contraditório, e daí?/as pessoas mudam/os tempos mudam//não sou neurótico de guerra/pra ficar defendendo/territórios já anexados//o ostracismo cansa: se voltei ao mainstream/é porque estou vivo//tenho cinquenta anos/não vou posar de herói/quero que se foda/a coerência do criador/é a obra que importa//não vou bancar o mártir//o Brasil está desse jeito/por ser católico, culpado e de esquerda/vamos ser ricos, não coitados//não se se tem jabá: cala a boca/ouça a música (pessoas jurídicas não odeiam).

Há um mistério na poesia de Fabio Weintraub, que fica evidente na antologia FALSO TRAJETO (Editora Patuá): Ela parece opaca (muitos diriam: sem atrativos), misturando temas triviais, especulações metafisicas, poemas sobre partes do corpo (mãos, mão e perna), poemas sobre quedas e muitos poemas onde o “eu lírico” é quase um narrador. Há uma profusão de títulos já carregados de simbolismos, os quais parecem não ter muita relação com os versos do autor. E mais: são poemas sem imagens fortes, boas para citações, quase destituídos de figuras de linguagem.

No entanto, o leitor fica hipnotizado com cada poema, relendo e relendo, constatando o brilho profundo desse poeta ímpar.

Northrop Frye (um crítico genial) utilizava o termo sparagmós para descrever situações de despedaçamento, de fragmentação do indivíduo e sua busca de sentido e unidade. Veja-se o poema mão e perna: “tua perna adormeceu/o que ela sonha? //que salta a corda lançada/ao chão perto do patíbulo/que é cruzada sem calcinha/sobre o joelho macio/que molha a canela no sangue/antes de entrar no gesso/que despede o cachorro/atracado à panturrilha/que ajoelhada no milho/é deixada atrás da porta/que se arruína em trombose/e avacalha dois cortejos://de núpcias/de exéquias”.

Enfim, o trajeto existencial pode ser falso, errático e sujeito a acidentes, mesmo numa condição letárgica (Aliás, Fábio Weintraub é o grande lírico da letargia). Porém, o grande poeta paulista escreve certo por linhas tortas, onde o chão é o limite: “qual britadeira/bate a bengala/contra o chão/como se quisesse/vingar-se da infirmeza/dando ao pavimento/a irregularidade/em que/os demais/também/tropeçarão”.

 

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29/11/2016

Destaque do Blog: ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS, DE IACYR ANDERSON FREITAS

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de novembro de 2016)

Corredores de hospital, sangue fezes, câncer, tumores, gases, alzheimer, este é o universo que percorrem os poemas de ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS (publicado numa edição caprichada pela editora Escrituras). Um poema é emblemático: “o espírito sangra/desde o princípio//já o corpo/hoje sangra/escondido//o que o outro/lhe sugere/em sigilo”.

Faz tempo que eu tenho vontade de comentar a poesia de Iacyr Anderson Freitas, uma das melhores da literatura contemporânea, embora com uma certa ressalva: que sua perícia técnica engessava seus poemas num formalismo excessivo. Em ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS, sem perder o rigor poético, ele aparece mais solto e cru, misturando o visceral e o jocoso (principalmente nos títulos, como em “Camilinho, acamado”: “dois dias de dores/no baixo-ventre/ou quase//e/o médico/o de sempre/:gases//nada de grande/importância//até para sofrer/lhe falta/substância”): “cada segundo/sabe o sal/ de sua queda//tudo existe para cair//até o não//de nenhum/chão”.

Quem já foi internado e se viu cercado pela burocrática da vida medicalizada, uma das características da nossa época, vai ao mesmo tempo rir e chorar com a verdade profunda que Iacyr imprimi em “raiz tão profunda”: “era só tirar/uma verruga/coisa boba de tudo/e foi aquela tortura//sete dias internado/e a morte/na agenda/para o próximo/sábado//é que a verruga era funda/assim tão funda/assim tão funda/e tão alva//que feria/a alma”.

Um dos belos lançamentos de 2016, ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS pode ser resumido pelos maravilhosos versos finais de “Menos um dia”: “para ascender mais um dia/ao calvário//de nenhum/calendário”.

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01/11/2016

Destaque do Blog: A VISTA PARTICULAR de Ricardo Lísias

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em primeiro de novembro de 2016).

José de Arariboia é um artista plástico que está conseguindo certo renome, um pouco pela já veterana galerista Donatella (cujo pai fez fortuna com o mercado de obras de aquisição duvidosa, após o final da Segunda Guerra, auxiliado por uma rede de fascistas e nazistas, radicados no Brasil).

Só que Arariboia é um personagem de Ricardo Lísias, cada vez mais se torna “distraído” com relação à realidade sua volta. Essa distração o leva a subir o morro da favela Pavão-Pavãozinho. Não se sabe o que acontece com ele ali. Reaparece numa espécie de procissão mística até o mar de Copacabana. Os vídeos do acontecimento “bombom” no YouTube – curiosamente, foram gravados e editados pelo traficante do morro, Biribó.  Depois de um tempo de recolhimento, Arariboia procura Biribó para propor um projeto: partes da favela transformar-se-ão em “instalações”.

A partir daí A VISTA PARTICULAR (Alfaguara) vai dando pancadas e mais pancadas na complacência do leitor. Durante as Olimpíadas, a “instalação” de Arariboia é transferida para perto do evento esportivo, com partes denominadas “boca de fumo” e “mãe com filho bandido e outro na escola”, por exemplo. O menino é assassinado com uma bala perdida pela polícia e o cadáver incorporado como elemento estético. O projeto da Arariboia vai adquirindo tal dimensão na mídia e nas redes sociais, que a comunidade inteira do Pavão-Pavãozinho acaba sendo levado em exposição na Europa, antes passando por Minas Gerais: “O transporte de Comunidade brava: turismo Brasil formou uma fila imensa de ônibus na rodovia que liga os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. A televisão acompanhou tudo de cima, imagem que aliás foi aproveitada por mais um vídeo do Biribó. É com alegria que no primeiro ônibus do cortejo ele conta para o Pê que uma produtora europeia de cinema e vídeo o procurou interessada em levas suas filmagens para o cinema. Isso de internet é muito bom, entusiasmou-se, as uma hora temos que dar um salto.
A montagem do morro foi mais tranquila. Arariba tinha deixado à disposição uma série de materiais, já com as instruções do lugar de tudo. Não era preciso. Com a experiência, os moradores sabiam perfeitamente erguer os barracos, lembravam-se dos lugares onde deveriam ficar a vendinha, a boca de fumo, a igreja evangélica e a biblioteca comunitária. De qualquer forma, não é preciso deixar tudo igual. A arte contemporânea tomou para si, com grande criatividade, o aspecto efêmero das coisas humanas. Haverá alguma pulsão de morte na obra de Zé Arariba?, um crítico se pergunta em um longo artigo de jornal. Esse, por razões que não vêm ao caso, nosso artista leu e ficou abalado. Afinal de contas, estou sempre despedaçando alguma coisa. Às vezes fico pensando se vale mesmo a pena”.

Poucas vezes, o uso da miséria e exclusão social, transformadas em espetáculo (lembram da abertura das Olimpíadas?), a naturalização e estetização da violência, foram tratados de forma tão ácida na ficção brasileira. Ricardo Lísias volta à exuberância narrativa de sua obra-prima O LIVRO DOS MANDARINS, inclusive com a utilização de recursos que lhe são caros, como a redução do nome do personagem ao longo do romance (Arariboia, Arariba, Arara), o relato em espiral e a completa alienação do protagonista: a favela “ganha um mundo”, saindo do controle de Biribó, e Arariboia se desliga totalmente do projeto. Ironicamente, um artista que era considerado um pintor do universo carioca, anuncia um projeto com título #partiuBrasil.

Lísias nunca foi tão conciso e eloquente. Até a interferência do narrador no relato mostra, no final das contas, que tudo é uma representação multiplicada ao infinito da suposta realidade, tudo é simulacro, e às vezes oportunistas. A VISTA PARTICULAR, não poupa ninguém. Faca só lâmina.

 

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27/09/2016

Destaque do Blog: “Roteiros para uma Vida Curta”, de Cristina Judar

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de setembro de 2016)

 

Há cem anos, no coração do Modernismo, Virginia Woolf revolucionava, em seus textos curtos (para não dizer, em romances como Senhora Dalloway), a percepção dos objetos, das ruas, das novidades tecnológicas. Seus protagonistas eram “eus” quase evanescentes, os quais envolvidos na introspecção, mesmo assim nos revelavam o mundo que as cercava.

Por incrível que pareça, guardadas as devidas proporções, é o que acontece nos contos de ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA (Editora Reformatório). Os personagens de Cristina Judar esbarram o tempo todo com as pessoas que passam pelas ruas, pelas noitadas, por objetos e fenômenos da natureza, pelos ritos cotidianos (“essa coisa de portas que abrem e fecham continuamente. que, por sua vez, dão para as ruas e projetam na sala a presença maciça do trânsito e traços de conversa vindos do cômodo ao lado até aqui, onde estou sentada, nesta casa – com mesa, cadeira, pés juntos em sapatos com fivelas, meus olhos contraídos pela luz”, lemos em Fotofobia), aparentemente alheias ao seu redor, mas nos trazendo uma poderosa sensação de realidade. Mesmo aqueles que se isolam do mundo, em seu autismo e alienação, são confrontados com as exigências de existir (“Para a fobia social, cloridrato de venlafaxina; ranitidina para o estômago fraco; para o desânimo, estrasse; gordura para o fêmur em evidência”, lemos em Ótimas em Humanas). Contudo o “eu” parece mais insubstancial, mais líquido (para seguir o pensamento de Bauman), do que os de Virginia Woolf (“Vitorino não se via refletido, confortável ou identificado, apenas paralelo de sua própria imagem em baixíssima definição. dele, não havia vapores condensados, que viriam, possivelmente, do exalar de suas narinas. na insistência, ele não parava de respirar, tomava goles imensos de ar”, lemos em Blue Train).

Insubstancialidade e hiper-realidade, uma alquimia paradoxal, e perigosa também. Todos os textos de ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA têm momentos brilhantes e, em geral, Cristina Judar consegue finais surpreendentes e admiráveis, quase como se fossem as “chaves de ouro” dos sonetos antigos. É preciso dizer, todavia, que às vezes a “literatice” artificiosa prepondera sobre a literatura contundente (dentro da linhagem de Julio Cortázar, aliás, homenageado num dos melhores momentos do livro Certa Diversão).

Mas como não tira o chapéu para a criadora de uma Alice pós-moderna que perambula alucinoriamente pela cidade (“O vento condensado em novelos de lã amarela. Essa era a moldura de mim que ali havia. Foi em um sopro quando caí em mim. Cair em si é um daqueles exercícios difíceis de engolir, embora necessários e suscetíveis aos bueiros destampados da cidade. Então, nesse pedaço de mundo em que tudo é variável e relativo tornaram-se gigantescos os homens das calçadas ao meu redor”), para terminar de forma deliciosamente cotidiana e irônica: “No embalo practpract dos sapatinhos de verniz, chego em casa, mamãe me aguarda. No ar, cheiro de coelho assado. O jantar está servido”?

ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA é mais uma prova de que a nossa prosa de ficção, especialmente a publicada por editoras independentes, atravessa uma grande e estimulante fase.

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30/08/2016

Destaque do Blog: VÉSPERA DE LUA, de Rosângela Vieira Rocha

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de agosto de 2016)

É bem oportuna a reedição, pela Penalux, de VÉSPERA DE LUA; escrito no final da década de 1980, o romance de Rosângela Vieira Rocha espantosamente antecipa uma das tendências mais fortes da ficção brasileira atual: o relato agônico feminino, no qual a protagonista encontra-se numa situação -limite, num ponto de inflexão da sua existência.

No caso de Paula, de VÉSPERA DE LUA, acompanhamo-la durante uma longa noite em que ela é atormentada por um problema recorrente: dores atrozes, pré-menstruação, além da perspectiva de um confronto definitivo com Ester, sua atual companheira. De forma não-linear, seguimos sua formação dentro do universo homoafetivo; iniciada pela mãe de uma amiga, depois apaixona-se por uma mulher casada que quer dividir suas amantes com o marido; agora ela sente o esgotamento da relação com Ester, de quem nos passa uma imagem de controladora e limitada intelectualmente, interessada apenas no corpo e na saúde (é professora de ginástica), vista de forma irônica e relutante por Paula.

O que aproxima da VÉSPERA DE LUA dos recentes romances de Elvira Vigna (Por Escrito), de Maria Valéria Rezende (Quarenta Dias), de Débora Ferraz (Enquanto Deus não está Olhando), de Roberto Menezes (Julho é um bom mês para morrer), é fato de que na trajetória da heroína, em pleno impasse, insinua-se uma alegoria do processo social brasileiro: por um lado, mentalidade retrógada, discriminatória, patrimonialista  e patriarcal, a qual agoniza, mas morta-viva ainda insisti em mostrar suas garras; do outro, novos comportamentos sociais trazendo comportamentos marcados pela diversidade e transgressão, para o bem e para o mal. É incrível que Rosângela Vieira Rocha tenha intuído temas e forma narrativa que hoje dominam nossa prosa. Se o romance poderia ter sido escrito em 2016.

Apesar de achar que ela resvala para um certo didatismo e tom explicativo, em alguns capítulos, encantou-me um procedimento que é bem raro por aqui e que tem como mestre Franz Kafka: a falsa terceira pessoa, disfarçando o relato em primeira pessoa; se o leitor reparar com atenção, toda a narrativa é permeada pela não-confiabilidade. Não sabemos se Paula é vítima de círculos amorosos viciados, ou se ela é artífice do seu emparedamento existencial (que ela chama de “enjuança”, um desgosto com a insuficiência dos afetos e das experiências, mais radical que o tédio). Como as heroínas dos romances acima citados, ela está com o pé nas forças retrógadas, porém não sabemos se será capaz de firmar o outro no Brasil mais libertário que vem se desenhando a trancos e barrancos:

“Depois da tentativa de suicídio, a família parou de fazer vista grossa à sua homossexualidade.
A trégua havia terminado.
Ministraram-lhe todos os cuidados que se ministram aos doentes portadores de doenças graves.
Teria sido mesmo assim? A lembrança daqueles meses é ambígua. Completa-a com a imaginação, construindo uma versão que, se não verdadeira, possui a vantagem de ser a sua. O conjunto, por assim dizer, não o reconstrói nitidamente”.

Nunca um título foi tão exato (além de belo). Estávamos na véspera da contemporaneidade literária e emancipatória do nosso país. Oxalá não retrocedamos.

Véspera de Lua - Jornal

10/08/2016

Destaque do Blog: “Amora”, de Natalia Borges Polesso

Natalia Polesso

Amora

 

É uma doença, minha filha. A vizinha é doente. Voltei para o quatro quase satisfeita. Se era doença, por que não tinham me dito logo? Fiquei pensando se era contagiosa, mas concluí que não era, porque a mecânica estava sempre cheia. Voltei para a cozinha. Doença de que, mãe? Minha mãe mais uma vez colocou a mão no rosto e respirou fundo. De ferro retorcido que tem lá naquele galpão.”

(Trecho de “Flor, flores, ferro retorcido”)

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos dia 09 de agosto de 2016)

À primeira vista, os 33 textos de AMORA (Não Editora) têm seu interesse maior nas relações homoafetivas entre mulheres, sob vários prismas, desde a curiosidade infantil, passando pela sedução passageira até as longas relações. Não por acaso, justamente na metade do livro aparece o delicioso e cruel “Diáspora lésbica” satirizando o gueto dessas mulheres, um “mundinho” com seus redutos e intrigas.

Mas, para mim, o inesperado encanto do livro é, nos seus melhores momentos, a habilidade técnica que demonstra ter Natalia Borges Polesso aprendido com os grandes contistas. Assim como Lygia Fagundes Teles, ela é capaz de nos dar todo um histórico familiar, a partir de uma embaraçosa pergunta durante uma refeição (“Vó, a senhora é lésbica?”; aliás um dos três pontos altos de AMORA; os outros dois são “Flor, flores, ferro retorcido” e o pungente “Marília acorda”: “Marília é medrosa, parece dura, mas morre de medo. Eu morro de medo ainda e de novo e todos os dias rezo para que morramos juntas, porque eu não vou suportar ficar sozinha, nem ela. Eu pensei em cuidar disso eu mesma. Pensei em fazer com calma, pensei em deitar com Marília, de meias, e no chá misturar uma dose que nos tranquilize e, com sorte, não acordaremos. Pensei só, mas não tenho coragem. Então eu rezo. Eu rezo para que sejamos juntas tão juntas como sempre fomos, agora e na hora da morte”).

Não chega a ser um enfraquecimento do conjunto (pois não faltam contos excelentes em AMORA), contudo Natalia Borges Polesso padece de um defeito comum à ficção contemporânea: o leitor tem a impressão de que o autor quer colocar no livro todo o conteúdo de suas gavetas, quando uma seleção mais rigorosa se faria necessária e daria mais força à coletânea.

Em todo caso, tira-se o chapéu para uma contista capaz de fazer uma personagem apaixonada ter a percepção realista e desencantadora do futuro da relação, como na seguinte passagem de “Como te extraño Clara”:

“Na terça-feira, antes de chegar ao curso de espanhol, Gentil pergunta alguma coisa sobre Fernanda. Ela vai responder que Fernanda está bem e logo, logo voltará à ativa, e o homem dirá que sente muito pela mãe de Clara, que é uma mulher muito boa e trabalhadora. Clara não entenderá, pois sabe que o homem não conhece sua mãe e também porque há nada de errado com ela e depois de cinco passos se dará conta de que ele fala de Fernanda. Então Clara vai pensar pela primeira vez na idade de Fernanda e num cálculo simples verá que a hipótese do homem não é descabida…”

Alguém ainda acha que AMORA é um livro sobre homoafetividade?

Amora - Jornal

 

16/06/2016

Destaque do Blog: SOMBRAS DA ROMÃZEIRA, de Tariq Ali

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 14 de junho de 2016)

“Muita gente — geralmente, pessoas que têm medo de multidão — diz que qualquer ajuntamento com mais de uma dúzia de pessoas é presa fácil para demagogos capazes de atear fogo na plateia e insuflar qualquer ação insensata. Essa afirmação ignora as causas subliminares que fizeram tantas pessoas se reunirem, por razões diferentes. Todas as rivalidades, políticas e comerciais, foram esquecidas; todas as vinganças tinham sido anuladas; houve uma trégua entre as facções religiosas em luta dentro do islamismo em Al-Andaluz; a congregação estava unida contra os invasores cristãos. O que tinha começado como um gesto de solidariedade ao direito de uma viúva proteger os filhos tinha se transformado em uma pequena insurreição.”

O trecho acima (que cito na tradução de Beatriz Horta) pode ser encontrado no capítulo onze de Sombras da romãzeira (“Shadows of pomegranate tree”, 1992), o primeiro volume publicado do Quinteto Islâmico de Tariq Ali, e marca um momento “positivo” (embora efêmero) no terrível quadro histórico evocado pelo autor paquistanês: em 1500, os muçulmanos da Espanha sofreram uma perseguição muito próxima do genocídio.

A ação se concentra em Granada (ou Garnata, na terminologia árabe) e na propriedade senhorial (e as aldeias em torno) de al-Hudail, do clã de protagonistas do romance, os Banu-Hudail. Até a altura do capítulo onze, o jovem Zuair bin Omar está indeciso quanto ao rumo a tomar em sua vida, malgrado tenha deixado a casa paterna para lutar contra a opressão cristã e a exigência de conversão em massa, a abdicação de todos os costumes islâmicos (em desacordo com o tratado firmado quando da Reconquista pelos espanhóis de Granada).

Movido por uma firme porém anacrônica ética de cavalaria (que alimentou sua educação), é nesse momento de crise que ele desponta como um líder, ao discursar impulsivamente para a multidão que se revoltara contra a arbitrária prisão dos dois filhos de uma viúva, erguendo barricadas e preparando-se para um confronto aberto. Líder de uma causa perdida, parece líquido e certo. A retaliação espanhola é atroz e radical.

Mas já não são um destino e um caráter indefinidos: Zuair cresce aos olhos do leitor. Também o fato de que a sublevação não tenha resultado em nada bom para os “mouros” de Granada (e as trágicas consequências para os Banu-Hudail, justamente pela definição do destino e do caráter de Zuair, constituem a dolorosa parte final da narrativa) não inclina ao pessimismo quanto às manifestações populares (e provavelmente é uma bagagem de entusiasmo não-perdido que o escritor trouxe dos eventos dos anos 1960, entre eles o mítico maio de 1968[1]), cuja dinâmica ele sutilmente destrincha em poucas páginas, os longos anos de inércia, e então um evento aparentemente banal catalisa e faz eclodir a insatisfação generalizada, com surtos de truculência.

Contudo, como disse, a causa está perdida. A cultura islâmica será reprimida e esmagada na Espanha que se faz cada vez mais palco da Inquisição (e essa propensão das autoridades católicas é representada em Sombras da romãzeira pelo sinistro Ximenes de Cisneros, com o aval de Isabel e Francisco; de fato, o relato se inicia com o arcebispo ordenando um auto-de-fé com livros escritos em árabe), e os próprios muçulmanos têm sua culpa no processo, presos a um passado glorioso, ao conformismo ou a posturas tão anacrônicas quanto a ética de cavalaria que embasou a educação de Zuair (e de que pouca valia terá para a sobrevivência dos seus familiares, a não ser uma morte “honrada”).

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A estratégia narrativa de Tariq Ali faz com que o leitor evoque eventos como a Shoah da Segunda Guerra (o progressivo espoliamento de direitos civis, as restrições, e enfim uma “solução final”, genocida), e a Igreja Católica espanhola se define como estrategista de um pogrom monstruoso e deliberado, mancomunada com um casal real ganancioso e inescrupuloso. Carregando as tintas nesse sentido, ele inverte os termos da equação geralmente apresentada a leitores ou espectadores ocidentais: a barbárie pertence à nossa banda e não ocorre em terras longínquas, em guerras distantes, é no próprio território da “civilização”.

Complementando essa perspectiva do avesso (inclusive por propor uma vitimização paralela do povo muçulmano assimilado ao território europeu, tanto quanto a sofrida — e muito mais “badalada”, cantada em prosa e verso — pelos judeus), o mais surpreendente em Sombras da Romãzeira é que, para pessoas como os membros do clã Banu-Hudail, a Europa é o seu lar, e para os seus antepassados funcionou como o “Novo Mundo”. Um aspecto pouquíssimo explorado pela ficção, e que a meu ver é que representa o diferencial do romance de Ali, já que não seria o uso de uma história familiar, em cujas intrigas particulares, vão se imiscuindo os dramáticos e apocalípticos eventos gerais (afinal, já a minissérie Holocausto usava o mesmo mote: uma família-exemplo).

Habitantes da Europa há séculos, mas nunca “europeus” (e orgulhosos disso, com sua civilização poderosa—mas só superficialmente coesa), eles não se dão conta da voragem que os vitimará, e ao longo do romance ouvimos frases que são variações de uma bela frase dita pelo sábio e já idoso Al-Zindiq (cuja existência está atrelada por vários incidentes aos Banu-Hudail, entre eles seu romance proibido com uma das mulheres do clã, Zara): “Nosso futuro foi nosso passado” (por isso Zuair não sabe como agir e que rumo seguir, a princípio, ofuscado quixotescamente pelos princípios de cavalaria).

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[1] Cf. Street Fighting Years: an Autobiography of the Sixties (2005), aqui traduzido como O poder das barricadas (2008) por Beatriz Medina.

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25/05/2016

Destaque do blog: BILLY BUDD, MARINHEIRO, de Herman Melville

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, vinte e quatro de maio de 2016)

 

Durante muito tempo, Herman Melville foi apenas o autor de Moby Dick; atualmente, porém, duas outras narrativas, bem mais curtas, foram tornando-se emblemáticas de sua obra. Na semana passada, comentei Bartleby, o escrevente; nesta, BILLY BUDD, seu último escrito (o manuscrito tem como data de conclusão abril de 1891), e só viria a ser publicado em 1924, quando começou a “reabilitação” melvilliana, após décadas ignorado.

BILLY BUDD, é uma alegoria inequívoca da era revolucionária. Senão vejamos: Billy é o Belo Marujo (é adorado por todos os companheiros, é o centro das atenções e, segundo o capitão do navio, o pacificador dos conflitos—não entrarão aqui as possíveis ilações homoeróticas da história, mesmo porque, na minha opinião, é uma coisa óbvia em se tratando de homens confinados juntos por muito tempo, em qualquer época ou latitude, e a beleza extrema é sempre algo perturbador), cujo passado—embora ele tenha traços nitidamente aristocráticos— é ignorado por ele mesmo, um enjeitado, e que serve num navio chamado “Direitos do Homem”. Quer coisa mais rousseauniana? É quase o “bom selvagem” num disfarce europeu.

Ora, o Belo Marujo é alistado à força num navio da marinha inglesa (o ano é de 1797, e a história ocorre na esteira de graves motins a bordo de navios da frota real). Ali, levaria a mesma existência que levava no “Direitos do Homem”—uma vida meio inconsciente, analfabeta, “pura”—não fosse pela inveja que consome o chefe de armas, Claggart, cujo passado também é envolvido em brumas, contudo brumas bem menos benignas que as de Billy: talvez ele tenha cometido um crime ou um ato desonroso. Claggart é a beleza sombria, a beleza que deixa os outros incomodados, é o cara pálido, que nunca pega sol, que parece ficar nos desvãos escuros do navio; enquanto Billy e a tez bronzeada, o saudável, o que reflete o mar em seus olhos.

Para chegar ao conflito entre os dois (conflito de que Billy, em sua “pureza”, mal tem consciência, ainda que receba a advertência de um dos veteranos a bordo, que logo percebe o jogo, mas que tem o péssimo hábito de falar em termos oraculares), Melville parece que vai à deriva, iniciando, mas interrompendo, prosseguindo um pouco, mas abrindo um novo parêntese, até realmente cerrar-se na narrativa, já mar alto, lá pelo meio do texto. Só que todas essas digressões e interrupções são todas estratégicas e deliberadas, preparam muito bem o leitor para a primordialidade e essencialidade do que acontece a bordo do “Indômito”, Claggart, após tentar prejudicar de mil comezinhas maneiras a tranquilidade do Belo Marujo, acaba optando por uma atitude radical: denuncia o gajeiro como fomentador de um motim (assunto dos mais delicados naquele momento). O capitão, que, como Arendt demonstrou, exercerá o papel da virtude e não das qualidades inatas, não acredita no relato de Claggart, e resolve fazer um acareamento. Nesse momento, ao saber da acusação, vem à tona o calcanhar-de-aquiles de Billy: ele tartamudeia quando fica sob pressão. Não podendo dar uma resposta verbal, articulada, ele parte para a violência e abate Claggart com um único golpe. Nunca um golpe mereceu tanto o epíteto de fulminante!

Apesar da simpatia que inspira a todos (e a ninguém mais do que ao capitão Vere), a corte marcial só pode pronunciar um único veredicto: o assassino do delator mentiroso deve ser enforcado, para bem da disciplina e da moral da marinha inglesa, nesse período conturbado e perigoso. Apesar de todos os protestos, Vere é firme em tomar o julgamento em suas mãos, no intuito de levá-lo a essa conclusão: Billy é bom, foi caluniado infamemente, porém se voltou contra um oficial superior, quebrou a espinha dorsal da hierarquia, abriu a porta do caos, da desordem, da semente de revolta e transformação:

“Suas firmes convicções serviam de dique contra as águas invasoras das novas ideias políticas e sociais que, de outra forma, levavam naqueles dias tantas cabeças de roldão—cabeças de natureza não inferior à sua. Enquanto outros membros da aristocracia, à qual por natureza pertencia, exasperavam-se com os renovadores porque suas teorias eram hostis às classes privilegiadas, o Capitão Vere opunha-se a elas com isenção, não apenas porque não lhe parecerem suscetíveis de tomar corpo em instituições duradouras, mas ainda por serem contrárias à paz entre os homens e ao verdadeiro bem-estar da espécie humana”.

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VER TAMBÉM NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2011/12/14/quando-abel-mata-caim-os-valores-absolutos-e-as-instituicoes-duradouras-em-billy-budd/

Billy Budd, o marinheiro - Jornal

10/05/2016

Destaque do Blog: CORPO DE BAILE, de João Guimarães Rosa

Guimarães Rosa      João Guimarães - Corpo de Baile VOL 1

1

Depois de décadas reordenadas em três livros diferentes (Manuelzão e Minguilim; Noites do Sertão; No Urubuquaquá, no Pinhém), o leitor pode encontrar finalmente as sete estórias – para utilizar um termo caro a João Guimarães Rosa – de Corpo de Baile na formação original de 1956, em dois volumes.

O primeiro é composto por três textos sensacionais: Campo Geral; Uma Estória de Amor e A Estória de Lélio e Lina. Minguilim é o protagonista de Campo Geral, certamente o texto mais famoso de Guimarães Rosa, depois de Grande Sertão: Veredas. E embora haja várias narrativas incríveis evocando o mundo da infância, é provável que nenhuma seja tão inesquecível quanto a história do menininho que vive “em ponto remoto, no Mutúm”. Hipersensível, míope (até que lhe coloquem óculos), ligadíssimo na mãe e no irmão Dito (cuja morte é o centro dramático do texto), com um pai ignorante, violento e desconfiado, Minguilim faz com que participemos da sua “descoberta do mundo” de uma forma que nos devolve nosso próprio sentimento de infância. É uma ótima iniciação para quem quiser conhecer pela primeira vez o universo do nosso maior escritor pós-Machado.

Campo Geral sempre eclipsou injustamente Uma Estória de Amor (festa de Manuelzão), uma obra-prima. Seu protagonista é o encarregado da fazenda Samarra, o qual, finalmente estabelecido na vida, resolve inaugurar uma capelinha nas terras do seu patrão e, por conta disso, suspender a labuta da vida numa grande festa: “Amanhã é que ia ser mesmo a festa, a missa, o todo povo, o dia inteiro. Dião de dia! ”

Manuelzão, em meio à festa, descobre-se numa encruzilhada. Sua saúde já não é tão boa, a morte não é tão remota, ele tem medo de retornar à miséria na qual nasceu, e pesa-lhe não ser o dono do lugar, ainda que respeitado. Tem um filho do qual não gosta nem respeita, numa atração inequívoca pela nora. Mas o que a festa começa a desmanchar nele é a alienação de si mesmo, de quem sublimou no trabalho ininterrupto todas as perplexidades da vida. Nem novo (como os vaqueiros que se divertem) nem velho (como Seo Camilo, a quem recolhe como agregado ou o Senhor de Vilamão, um latifundiário caduco), ele sente solidão de quem tem que estar em atividades constantes para não cair na angústia.     Enquanto Miguilim descobria o mundo, Manuelzão tenta redescobrir o seu sabor dificultosamente, através das estórias contadas na festa pelos representantes daqueles seres que não se consomem na luta pela vida, párias de uma sociedade obcecada pelo produtivo: Joana Xaviel e Seo Camilo, figuras que atraem Manuelzão assim como o irmão de sua nora, Promitivo, com sua vadiagem simpática, enquanto o filho trabalhador lhe causa antipatia.

No Pinhém, noutra fazenda, transcorre a intriga da belíssima Estória de Lélio e Lina: o jovem vaqueiro Lélio, forasteiro no lugar, tem a idosa Dona Rosalina, num singular caso de amor entre idades antípodas, para atar os fios da sua educação sentimental em meio aos companheiros de trabalho e às mulheres, solteiras, casadas ou “para uso” da região. Um trecho pode esclarecer o que se passa entre eles: “Isso aos outros Lélio não podia explicar, repetido longe dela aquele fraseado se esfriava de valor, era preciso escutar direto quando ela falasse, era preciso gostar da velhinha. Dizia aquilo, o siso da gente achava que ela estivesse ensinando outro poder inteiro de se viver”. Poucos textos da nossa literatura têm momentos tão bonitos quanto aquele em que Lélio e Dona Rosalina se conhecem, ou aquele da visita dele à amante, Jiní, esposa de Tomé (ele, irmão de Miguilim), após a partida do marido, em que ele sente o estrago feito pelo adultério, a ausência do amigo, atração sexual, repulsa, tudo ao mesmo tempo. Como todos os maiores escritores, Guimarães Rosa é tanto um fabulador quanto um psicólogo, um filósofo, um pedagogo das emoções, ou, resumindo tudo, um arqueólogo das relações humanas como Irving Howe chamava Doris Lessing. (Continua na próxima semana).

(Uma versão da resenha acima foi publicada originalmente em três de maio de 2016 em A TRIBUNA de Santos)

 

 

João Guimarães - Corpo de Baile VOL 2

 

2

Na semana passada, comentei o primoroso primeiro volume com três tas sete estórias de Corpo de Baile. O segundo é mais irregular e desarmônico, porém representa um experimento de linguagem quase ímpar em nossa prosa.

O Recado do Morro, o texto de abertura, é uma obra-prima na qual a tentativa de assassinato do galã sertanejo, Pedro Orósio, que está guiando um estrangeiro (que parece ser uma brincadeira de Guimarães Rosa consigo mesmo, a respeito da sua mania de anotar tudo), um padre e um fazendeiro pelas serras de Minas, por parte de sete desafetos, é desmascarada através de uma série de indícios revelados por miseráveis, simples de espíritos, loucos místicos, crianças, até que um cantador os recolhe e organiza numa forma que dá chance a Orósio de préfigurar seu destino, escapar dele e voltar ao seu lugar de origem. Objeto de estudos até obsessivos, é um daqueles textos que já valem a obra inteira. Por um simples motivo: é uma leitura deliciosa, saborosa, um fino biscoito fabricado com malícia e artimanha por alguém que estava em vias de revelar a maior pirâmide (Grande Sertão) da nossa literatura.

O protagonista de Lão-Dalalão é Soropita e ele está voltando para casa, “em meio-sonhada ruminação”. Ex matador famoso, acabara casando com uma prostituta de Montes Claros, Doralda e tornando-se fazendeiro, “dono de seus alqueires”: “todos o respeitavam, seu nome era uma garantia falável”. Só que, no caminho, esbarra com Dalberto, antigo companheiro dos tempos de vaqueiro e, como é de praxe, é obrigado a acolhê-lo como hóspede, embora tencione até mata-lo. Por quê? Devido à possibilidade de Dalberto ter conhecido Doralda na sua época de quenga, o que destruiria seu bom nome na região, mas também por ciúme. Soropita pertence à galeria dos grandes ciumentos retrospectivos (obcecados com o passado amoroso da amada) cujo grande representante na nossa ficção é o Bentinho de Dom Casmurro. Além de Dalberto, Soropita também fica tomado pela cisma de que Doralda pudesse ser conhecida (em todos os sentidos, inclusive bíblico) pelo “preto Iládio”, em razão de um violento ódio racial, materializado em violentas imagens sexuais.

Aliás, o que faz com que Leão-Dalalão seja uma das obras-primas de Guimarães Rosa é a maneira como ele insinua no texto a voltagem erótica (e psicologicamente intrincada) das fantasias sexuais de Soropita, que chega a imaginar Doralda na cama com Dalberto no momento mesmo em que este lhe confidencia a paixão por outra prostituta e a sua vontade de casar com ela.

No Urubuquaquá, temos a fazenda do personagem-título de Cara-de-Bronze, um dos relatos mais desafiadores de Rosa e um dos raros que justificariam a fama de difícil, quase ilegível. Ele abusou tanto da sua inventividade que, na tentativa de desdobrar os planos do texto, colocando até notas de rodapé, acabou forçando a barra em dois aspectos: ao propor um inconvincente roteiro cinematográfico no meio da narrativa e, de forma mais pernóstica ainda, ao incluir no rodapé referências a Goethe e Dante, com citações não traduzidas em alemão e italiano.

Nem por isso é menos fascinante o grande coro de vaqueiros que comenta a volta do Grivo (o qual já foi companheiro de infância de Minguilim, em Campo Geral) da enigmática viagem ordenada pelo patrão. O que o Grivo foi fazer, o que foi buscar? Qual a missão confiava a ela? Talvez trazer notícias da vida de Cara-de-Bronze perdeu no processo de ser latifundiário, “ajuntando suas duras riquezas” (há um certo paralelo com a situação do protagonista de Festa de Manuelzão): “Eu estava cumprindo lei. De ver, ouvir e sentir. E escolher”. A viagem do Grivo (durante a qual ele esbarra em Nhorinhá, aquela mesma que aliviava os dilemas da paixão de Riobaldo por seu colega jagunço, em Grande Sertão) dá vazão ao amor de Guimarães Rosa pelo nome das coisas, dos lugares, dos seres, num atordoante inventário-catálogo enumerando o mundo que escapou ao desalentado perrengue Cara-de-Bronze, cujo verdadeiro nome, como de praxe no universo roseano, passa por várias metamorfoses (Sigisbé, Sijisbel Saturnim, Xezisbéo Saturnim, Zijisbéu Saturni, Jizisbéu Saturnim, Sezisbério, Segisberto Saturnino).

(Também complicada, contudo não tão perfeita como realização artística, é a ciranda amorosa de Buriti a narrativa mais longa escrita pelo genial autor mineiro, tirando Grande Sertão. Nela reaparece o Miguilim de Campo Geral, agora médico e adulto, “estrangeiro” de sua terra natal. Ele chega à fazenda do Buriti-Bom (na região há um colossal buriti, um símbolo fálico gritante), uma espécie de pórtico para os Gerais. Ela pertence a iô Liodoro, patriarca-garanhão, o qual todas as noites sai para se satisfazer com suas várias mulheres. Na casa, há três moças: Lalinha, nora de iô Liodoro, que foi busca-la na cidade grande quando o filho a abandonou e a trouxe para viver com a família num estado de espera pela volta do marido, alimentado por rezadeiras e mandingas; Glorinha, assim como a feiosa Maria Behú, é filha de iô Liodoro (e todos são parentes da inesquecível dona Rosalina, de Estória de Lélio e Lina, outro texto de Corpo de Baile) e será a amada do titubeante, hesitoso e angustiado Dr. Miguel.

Buriti demora a engrenar. Começa sob o ponto-de-vista de Miguel (alterando dois tempos diferentes e um deslizar suave entre a 1ª e a 3ª pessoas) e oscila entre momentos geniais e cansativos. A arte de Guimarães Rosa às vezes beira a monotonia de tanto reiterar os mesmos pontos e o leitor tem a imprenssão de que ele não soube encontrar o “ponto” do bolo. Em compensação, quando o ponto-de-vista passa a ser o da Lalinha, o texto cresce em intensidade, precisão e sofisticação ao nos fazer compartilhar das noites em que sogro e nora (iô Liodoro e Lalinha) se comprazem num jogo de sedução peculiaríssimo, mostrando que as noites do sertão nada ficam a dever a D.H. Lawrence ou a qualquer outro mapeador da presença do desejo em nossas existências.

(Uma versão da resenha acima foi publicada originalmente em dez de maio de 2016 em A TRIBUNA de Santos)

Livros - Capas da 1ª Ed. - Corpo de Baile

Corpo de Baile - Vol. 2 - Jornal Corpo de Baile - Jornal

 

 

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