MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/07/2018

Destaque do Blog: BLUMFELD, UM SOLTEIRÃO DE MAIS IDADE E OUTRAS HISTÓRIAS – PARTE UM

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA em 17 de julho de 2018)

“Estou parado na plataforma do bonde e completamente inseguro no que diz respeito à minha posição neste mundo, nesta cidade, em minha família. Nem mesmo de passagem eu seria capaz de indicar quais as exigências que eu poderia fazer com algum direito em uma direção qualquer. Não consigo sequer defender o fato de estar parado nesta plataforma, me segurar nesta alça, me deixar levar por este vagão, o fato de as pessoas desviarem dele ou caminharem em silêncio ou descansarem diante das vitrines… Ninguém o exige de mim, ademais, isso pouco importa”, (trecho de “O Passageiro”).

Sou apaixonado por Kafka. De quando em quando mergulho em sua obra. A portentosa antologia “BLUMFELD, UM SOLTEIRÃO DE MAIS IDADE E OUTRAS HISTÓRIAS”, a mais ampla, salvo engano, já lançada no Brasil, traduzida por Marcelo Backes, reavivou essa paixão.

Um prazer estranho. O mais original dos escritores joga o cotidiano e a razão lógica no absurdo, naturalizando o insólito, desmascarando as imposturas que chamamos leis: “ ‘Bom dia… O céu está pálido… Eu estou vendo muitos panos nas cabeças… Sim, a guerra. ’ Eu salto para dentro do lugar e, depois de levantar temerosamente várias vezes a mão com o dedo dobrado, bato, enfim, na janelinha do zelador. ‘Caro senhor’, digo amistosamente, ‘um homem morto foi trazido até aqui. O senhor pode mostra-lo a mim? Eu lhe imploro. ’ E, quando ele sacode a cabeça como se estivesse indeciso, eu digo com firmeza: ‘Caro senhor. Sou da polícia secreta. Mostre-me o morto logo de uma vez. ’ ‘Um morto? ’, ele pergunta então, e se mostra quase ofendido. ‘Não, não temos nenhum morto aqui. Este é um prédio decente. ’ Eu o saúdo e vou embora. Mas então, quando acabo de atravessar uma grande praça, esqueço de tudo. A dificuldade dessa empresa me deixa confuso, e eu penso comigo muitas vezes: ‘Caso se construam praças tão grandes assim apenas por petulância, por que não se constrói também um parapeito de pedra que poderia atravessar a praça? Hoje o vento sudoeste está soprando. O ar na praça está excitado. A ponta da torre da prefeitura descreve pequenos círculos. Por que não se fica em silêncio no meio do empurra-empurra? Todas as vidraças das janelas são barulhentas, e os postes da iluminação pública se dobram como bambus. O manto da Virgem Maria se enfuna sobre o pedestal, e o vento tempestuoso lhe dá arrancos. Por acaso ninguém vê isso? Os senhores e senhoras que deveriam caminhar sobre as pedras pairam. Quando o vento volta a respirar, eles ficam parados, dizem algumas palavras uns aos outros e fazem reverências, se saudando, mas quando o vendo volta a se mostrar tempestuoso, eles não conseguem resistir a ele, e todos erguem seus pés ao mesmo tempo. Embora tenham de segurar seus chapéus com firmeza, seus olhos estão divertidos como se o tempo estivesse agradável. Só eu é que sinto medo’”, (Trecho de “Conversa com um Devoto”).

Presente na coletânea, o texto mais perturbador que já li. Eis um trecho de “O Abutre”: “O abutre ficou ouvindo em silêncio durante a conversa, deixando seu olhar passear entre mim e o homem. Agora eu via que ele compreendera tudo, levantou voo, recuou bastante para conseguir impulso suficiente e em seguida golpeou com o bico como um lançador de dardos através de minha boca bem fundo dentro de mim. Caindo para trás, senti, liberto, como ele se afogava de modo irremediável no meu sangue, que enchia todas as profundezas e inundava todas as margens”. (Continua na próxima semana).

 

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27/02/2018

Destaque do Blog: “Sonhos Tropicais”, de Moacyr Scliar: segunda parte

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 27 de fevereiro de 2018)

Comecei na semana passada um comentário sobre “SONHOS TROPICAIS”, de Moacyr Scliar, ressaltando o contraste entre o comportamento da população de agora e da 1904 com relação à vacina da febre amarela. Naquela época, eram maioria os analfabetos, os quais não faziam ideia do que era vírus, micróbios, bactérias e sentiam profunda desconfiança da ação governamental (eu, que tenho certo grau de instrução, alimento desconfiança similar, por mais irracional que pareça). Estaremos mais esclarecidos ou mais submissos?

É preciso dizer que, embora um grande médico, Oswaldo Cruz não possuía sensibilidade social e isso abriu caminho para medidas draconianas: suas brigadas sanitárias podiam invadir casas e vacinar à força. Ele era tão impopular que o romance relata que, na hora de sua morte, em 1917, houve manifestações comemorativas.

Afirmei na semana passada que a narrativa custa a engrenar, mas assim que aparece em cena o presidente Rodrigues Alves, ela cresce muito. Aliás, boa parte da “revolta da vacina” foi para certos grupos políticos uma oportunidade de depor o presidente apelidado de Soneca: “ – E se houver distúrbios? – Insiste Leocadio. Vicente suspira. – Bem, aí começamos a caminhar sobre areia movediça. Um pouco de distúrbio, uma ou outra cabeça quebrada, nada disto fará mal; ao contrário, nos dará o apoio da imprensa. O que temos de evitar é cutucar a fera com a vara curta. Enquanto a questão for a polícia, tudo bem. Mas, se entrar o Exército, se for decretado o estado de sítio, estaremos numa situação muito difícil: não sei se conseguiremos manter a resistência. Provavelmente perderemos a iniciativa para os elementos mais extremados, os bandos, as quadrilhas. Portanto, vamos nos restringir às reivindicações mais óbvias: melhor moradia, melhor transporte, melhores salários. Além, claro, do fim da vacinação obrigatória, que afinal motivou tudo”.

Mais adiante: “—Não sou eu, doutor. É o meu menino, de sete anos. É que ele… foi vacinado. Ontem. Eu não sabia, a mulher agarrou ele e levou lá onde estão vacinando. Quando eu soube, fiquei furioso – mas já era tarde. Agora me diga, doutor – o que é que eu posso fazer? Tem perigo? Vicente baixa a cabeça, reflete um instante. – Não – diz por fim. – Não tem perigo. Não se preocupe, não vai acontecer nada. O homem franze a testa. – Desculpe, doutor, mas estava assistindo à reunião aqui da porta, e entendi que os senhores vão fazer uma campanha contra a vacinação… – É verdade. Mas por razões políticas, não médicas. Entende? Não, ele não está entendendo. – Olhe aqui – diz Vicente –, no fundo não temos nada contra a vacina. Daqui a alguns anos, todo mundo será vacinado, e ninguém falará disso. Mas agora nós temos de atacar a vacinação – porque partindo da revolta do povo podemos mudar a sociedade, entendeu? ”.

É assombroso como há 25 anos, “SONHOS TROPICAIS” mostrava as falcatruas cariocas e nacionais. Vejam está fala de Rodrigues Alves: “—Espero que o senhor não me interprete mal, doutor Oswaldo. Há quem acuse os empreiteiros de favorecerem a corrupção, por causa de suas tradicionais colaborações às caixinhas dos políticos. Devo lhe dizer que, naturalmente, eu não aprovo tal políticos… Não se progride, doutor Oswaldo, sem demolir e sem construir – e como fazê-lo, sem empreiteiros? Às vezes, as propinas que dão têm como exclusivo objetivo azeitar um pouco a emperrada máquina estatal”.

Em tempo: uma personagem secundária, a judia polonesa Ester, vítima do tráfico sexual, ganhou realce na versão cinematográfica dirigida por André Sturm.

20/02/2018

Destaque do Blog: “Sonhos Tropicais”, de Moacyr Scliar: PRIMEIRA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 20 de fevereiro de 2018)

“Há uma outra doença que, esta sim, se constitui em desafio: a febre amarela. Na última década do século XIX, a doença causou mais de vinte mil óbitos no Brasil. Na Europa – isto te envergonha profundamente –, agências de navegação anunciam viagens diretas à Argentina, sem passar pelos focos de febre amarela no Brasil. A febre amarela está nos matando, matando nossa economia. E nem sequer se tenta controlar a doença, cujo mecanismo de transmissão é desconhecido”. (Moacyr Scliar, “SONHOS TROPICAIS”).

Quem tenha testemunhado a histeria coletiva e as filas imensas para tomar a vacina contra a febre amarela (sem contar o assassinato de macacos) em lugares onde é escassa a possibilidade de epidemia, não pode imaginar que a população tenha já se revoltado contra a vacinação, ocasionando uma guerra civil com mortes e bombardeios. Esses acontecimentos do século passado são relatados em “SONHOS TROPICAIS” (1992).

Como leitor tenho problemas com a obra de Moacyr Scliar para mim, seu aclamado “A mulher que escreveu a bíblia” é um desperdício de uma ideia genial num texto rasteiro. Disseram que “A vida de Pi”, de Yann Martel, romance profundo e filosófico, era plágio de um livro de Scliar, “Max e os felinos”, uma alegoria bonitinha e mediana.

Mesmo “SONHOS TROPICAIS”, muito melhor, apresenta aspectos discutíveis. O narrador é um médico fracassado e beberrão que conta a história de Oswaldo Cruz, de uma forma que parece estar sempre o interpelando (“Como vês, Oswaldo, não tenho a menor dificuldade em falar sobre tua vida. Meus conhecimentos a respeito são admirados até pelo portuga do botequim ali na esquina; depois de uns tragos, começo a contar a história de tua vida, que ele escuta admirado: mas você sabe tudo sobre esse Oswaldo Cruz! ‘Você’, Oswaldo; não ‘o senhor’, e muito menos ‘o doutor’. Ignorará que sou médio? Talvez. Mas não ignora que sou chegado a um trago, e isto automaticamente extingue as reverências). O romance custa a engrenar e só cresce após a volta de Cruz ao Brasil. Até lá, é uma chatice.

23/01/2018

Destaque do Blog: “Machado”, de Silviano Santiago

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 23 de janeiro de 2018)

No século passado, dois projetos monumentais ficaram inacabados. Eu os chamo de livros-link, que abrem a todo momento janelas para o leitor. Em “Passagens”, de Walter Benjamin tentava-se reunir todos os dados que explicavam como Paris tornou-se a capital do século dezenove. Em “O Idiota da Família”, de Jean Paul Sartre tomava-se um indivíduo e pesquisava-se toda a sua época.

Em “MACHADO”, guardadas as devidas proporções, Silviano Santiago escreveu um livro-link e conseguiu terminá-lo. Focando os anos de viuvez de Machado de Assis e a celeuma em torno da eleição para a Academia Brasileira de Letras de seu protegido e amigo, Mário de Alencar, filho de José de Alencar e escritor medíocre. A epilepsia é o fio condutor dos temas e personagens:

— Arte com o produto da doença;
— Miguel Couto, médico de Machado de Assis e Mário de Alencar, o qual se beneficiou com a encilhada, especulação financeira e imobiliária que mudou a paisagem social na transição da monarquia para a república;
— A radical reforma urbana que transformou o Rio de Janeiro levada a diante por Pereira Passos;
— A relação do pai de Gustave Flaubert com seu filho;
— O papel de Flora no romance “Esaú e Jaco”;
— A escrita de “Memorial de Aires”;
— A importância de José de Alencar e Joaquim Nabuco na vida intelectual de Machado de Assis;
— O simbolismo do quadro “A Transfiguração” de Rafael.

Eu sei, leitor, é preciso paciência e paixão, pois é um romance saturado, na linhagem de Thomas Mann, meu autor predileto. Eu já disse e repito: é o livro que eu gostaria de ter escrito.

19/12/2017

Destaque do Blog: “Em Conflito com a Lei”, de Lucas Verzola

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 19 de dezembro de 2017)

Esta resenha vai desagradar quem defende a diminuição da maioridade penal e costuma dizer “e aí vem os direitos humanos”. Os protagonistas e narradores de “EM CONFLITO COM A LEI”, de Lucas Verzola, são menores infratores que roubam, traficam, estupram, assassinam, internos da Fundação Casa ou estão em liberdade assistida ou cumprem medidas socioeducativas.

Esse amplo leque é arrasador, pois como exigir civilidade de quem nunca foi tratado como um cidadão e não tem ferramentas mentais para entender a barbárie na qual estão mergulhados: “O menino sem pai sem mãe sem tio sem tia sem irmão sem irmã. Só tem conselheira tutelas. As meninas sem pai sem mãe sem tio sem tia. Pelo menos uma tem a outra de irmã. As meninas no computador da sala mexendo na internet facebook globo yahoo. O menino olha e grita minha vez minha vez. As meninas falam gordo fedido sem mãe retardado. O menino pega a antena e cutuca as meninas. As meninas falam baixinho filha da puta preto vou contar pra tia que você passou a mão em mim. O menino é mentira é mentira. E bate com a antena. E elas choram. E ele chora. E a tia chega. Ele é tarado falou que ia colocar o pau na minha xoxota. É mentira é mentira eu só quero o computador não sou fedido não sou gordo. Menino, isso é coisa de polícia, isso é coisa de promotor, isso é coisa de juiz. O menino sem pai sem mãe sem tio sem tia sem irmão sem irmã com polícia com promotor com juiz. O menino sem”.

O grande feito de Lucas Verzola é mostrar como, acuados entre a aversão da população, a linguagem jurídica incompreensível e as medidas hipócritas, eles, com um vocabulário mínimo elaboram um raciocínio repetitivo curto circuitado, mas sempre expressivo: “Tanto que eu estava tomando conta de um vasinho e pensando no mundão quando os policiais chegaram gritando perdeu perdeu, me obrigando a assumir B.O. de tráfico e a confessar que meu barraco era biqueira, se não apanhava mais e mais, apesar de dor física alguma ser maior que a ilusão de ver tua casa estraçalhada. E, daqui da Fundação, o que eu mais tenho curiosidade é de saber se a minha ausência já se fez tão grande quanto a do Gerson e se ainda chamam meu cantinho de barrado do Wesley, ou se não terei lugar algum pra retornar quando eu sair daqui”.

“EM CONFLITO COM A LEI” deveria ser leitura obrigatória para “coxinhas” e defensores da meritocracia.

28/11/2017

Destaque do Blog: “Febre de Enxofre”, Bruno Ribeiro

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 28 de novembro de 2017)

Tinha jurado para mim mesmo nunca mais ler uma narrativa sobre um escritor em conflito com o mundo ou com bloqueio criativo, mas não contava com Bruno Ribeiro, o príncipe da prosa sulfúrica, pornográfica e ultrajante: “Decido ir ao lançamento, teria conhecidos e precisava de uma massagem de ego. Velhos broxas e velhas de buceta seca adoram elogiar meu livro, falar dos prêmios, do glamour, da minha roupa e voz de barítono, cabelo renascentista; risadas de dentadura, jovens virgens e amantes da alta literatura me cumprimentando, amigos – não tão amigos, pois são escritores”, eis um trecho quase inofensivo no jorro atropelador de “FEBRE DE ENXOFRE”.

Yuri Quirino é um poeta que se sente asfixiado pela rotina de Campina Grande. Tenta até um patético suicídio, pulando do terceiro andar e está “queimado” na cidade por dar aulas de poesia a travestis. Então aparece Manuel di Paula, o qual lhe faz uma proposta, ir a Buenos Aires escrever sua biografia.

Esse convite tem algo de pacto diabólico, aliás enseja uma das cenas mais bizarras do romance, quando Manuel tira a arcada dentária e coloca na mão de Yuri Quirino, que a partir daí começa a sentir em si um cheiro fétido.

“Vocês têm o que, mas não tem o como. Mas ter o que é mais importante do que o como. O que há de estudantes de literatura preenchidos pelo como não há como contabilizar, são bilhões, trilhões, e nenhum deles tem o que, o que, o que, o que vou contar? Nada”.

Para escapar desse círculo “infernal”, ele viaja para Buenos Aires, que mais parece um show de Alice Cooper, enquanto acompanhamos a alucinante e infame biografia de Manuel di Paula, um dos pontos altos da nossa ficção atual.

Em tempo: Bruno Ribeiro escreveu a brilhante coletânea “Arranhando Paredes”, onde há a mesma fusão de divertimento e perversidade corrosiva.

 

31/10/2017

Destaque do Blog: “As Perguntas”, de Antônio Xerxenesky

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 31 de outubro de 2017)

Neste “insosso século 21”, a jovem Alina, mesmo com pós-graduação, está subempregada em São Paulo. Compartilha as redes sociais com amigos e todos sabem tudo sobre todos. Mas na infância, ela via vultos sobrenaturais. Curiosamente embora tenha estudado cultos religiosos e esotéricos, após anos de racionalização, tornou-se descrente.

Chamada pela polícia para auxiliar no desvendamento de estranhos símbolos ligados a desaparecimentos, Alina cai na tentação de Fridolin de “Breve Romance de Sonho”, de Arthur Schnitzler, entrar num mundo ao qual não pertence. Participa de um ritual meio ridículo, contudo ela volta a vislumbrar um vulto.

AS PERGUNTAS, de Antônio Xerxenesky, mistura com inteligência essa incursão mística com uma rave, ou seja, o horizonte dos jovens urbanos, cínicos, que não acreditam em nada transcendente a não ser superficialmente. Mas como encarar o vulto despertado por Alina? Em meio ao vazio, ao lixo cultural, a um Zeitgeist, o espírito da nossa época, dominada por imposturas, simulacros e pastiches? As perguntas persistem.

“Foi uma evocação que deu errado? Uma invocação, pois parece estar grudada em mim? Foi um espírito inferior que entrou em nosso plano? Um quiumba? Mas eu nunca acreditei nisso, não é? Sempre li todos os ceticistas, sempre defendi uma visão materialista do mundo, não acredito em Deus desde que tenho uma opinião crítica mais ou menos formada, então por que me envolvi nisso? As sombras sempre estiveram comigo, sim, desde pequena, mas eu tinha aprendido a conviver com elas, tinha matado as sombras com a ciência, então por que estou fazendo tudo isso? Não é só porque bebi demais? Porque tinha uma droga na bebida? Porque fui influenciada por todo aquele mise-en-scène do ritual? Porque afrouxei minhas defesas, meu raciocínio lógico? Porque afoguei minha irônica e meu cinismo? Por outro lado, que espécie de vida é essa em que a ironia e o cinismo bloqueiam qualquer experiência? ”

Ainda prefiro “F”, seu romance anterior, porém AS PERGUNTAS confirma que Xerxenesky é um dos autores do momento.

 

12/09/2017

Destaque do Blog: “O Mergulho”, de Juliana Diniz

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 12 de setembro de 2017)

Juliana Diniz já disse a que veio no seu livro de estreia, “O Instante Quase”: ser uma das melhores autoras do momento. Ela tanto gosta de praticar a narrativa “tradicional” quanto de experimentar. É o caso de O MERGULHO, o qual evoca as obras do chamado “Noveau Roman”, movimento dos anos 60 que procurava tirar o prestígio dos personagens, tratando o ser humano como coisa entre coisas, mais um elemento na paisagem. A maioria dos críticos não aprecia, o que não é o meu caso, pois há dois gênios nessa leva: Marguerite Duras e Claude Simon.

“Sei que não o terei, mas sigo embalada para o salto, resignada com a brevidade frouxa deste presente sem passado ou futuro que sua chegada me concede. Seus olhos mais uma vez buscam os meus. É tempo, é esta a nossa hora”.

O MERGULHO nos apresenta um casal num lugar em ruínas, com destaque para uma piscina estagnada. Nada nos é informado sobre eles. Estão vivos? Estão mortos? Um está vivo e o outro morto? Não sabemos. Pressentimos uma história trágica.

Saímos das ruínas e passamos para a natureza selvagem, o mar adiante. Será uma libertação ou a repetição de um ritual de amor e morte? “Mergulhamos, as consciências mais uma vez cegas pelo abismo.
A água nos agita os cabelos, o corpo suspenso se contorce: a direção é qualquer direção.
É hora de soltar a sua mão, que se vai.
Meu corpo abandonado no infinito sem bordas,
Navega.
A maresia se desprende da superfície da água, em lentas evaporações. A névoa esmaece a paisagem, aquarela o céu, umedece os sentidos.
Suspenso é o mar transparente com gosto de sal.
Depois o nada.
Desmanchamos.
No (m)ar”.

Juliana Diniz não resolve enigmas. Só nos hipnotiza com o seu domínio da linguagem.

25/07/2017

Destaque do Blog: “Naufragar Jamais” de Pedro Alberto Ribeiro (Poeta em Queda)

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicado originalmente em A TRIBUNA de Santos em 25 de julho de 2017)

“Ela planejava o impossível/ com o dedo no vidro embaçado/ esperando ele voltar// hoje, divide a cela com outras oito/ e impossível é não usar a alma inteira// o peso da grade é como água/ abafando a música de pássaros imersos/ num aquário em cima da geladeira//”. Estes versos fazem parte do poema “Pássaros Imersos em Aquário”, um dos cadernos de NAUFRAGAR JAMAIS.

A 11Editora investiu num projeto ousado, publicar os poemas de Pedro Alberto Ribeiro (Poeta em Queda) em cadernos soltos, deixando livre ao leitor a ordem da leitura, embora mantendo uma unidade incrível até na ocupação da página em branco, pois são todos muito parecidos (e isto não é uma crítica).

“Tenho vestido minha pele/ como quem lança dados/ sem saber as chances de perder// descobri que viver tem gosto de domingo/ passeio com cachorro/ receitar mal seguida//”. Sempre uma impressão de confinamento, de limite. “Quem não carregue/ nos olhos toda a expressão/ e possa mantê-los abertos/ mesmo em poeira seca// Pode-se que levantem a mão/ os seres perecíveis, de carne/ frágeis ao fogo/ e com uma estranha tendência à insônia// Procura-se/ quem ainda queira/ encontrar//”.

“Eu te visto como um rio/ acampo como onda// indo/ e/ vindo/ sem fazer da saudade/ motivo para dramas// Tudo é chão// Silêncio// (teu abraço/ quando vai/ sempre acaba/ por ficar//)”. Ainda se fazem poemas de amor.

“Estes versos já não falam nada// Sem cadência/ nenhuma estrela/ ilumina a parede branca do banheiro// Se tivessem de falar/ estes versos seriam uma selfie/ tirada um segundo antes do blecaute// Talvez habitassem a foto/ algumas cores misturadas/ brincando de encontrar nas diferenças/ outra coisa que não uma palidez// Talvez caleidoscópios manuscritos/ aquarelas ainda por usar// Coisa qualquer/ para preencher a vida// Mas estes versos já não falam nada/ e nenhuma cor habita/ a hora inconfidente/ da água jorrar pelos ombros//”. Estes versos que já não falam nada talvez sejam os mais contundentes do livro.

“Os restos no prato dizem o que a boca não comeu// Escorre sangue no fio dental/ mais violento que a lâmina// Tóxicos, os agros fazem seus negócios/ num paladar para o qual a vida é/ indigesta// (é preciso café para trabalhar para/ comprar café para trabalhar)//”. Não poderia terminar esta resenha de modo mais brilhante.

 

 

 

23/05/2017

Destaque do Blog: Insolitudes, de Tiago Feijó

   

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 23 de maio de 2017)

“Eu entendi que a vida tinha que continuar, mesmo preto e branca. A vida, para os que ficam vivos, tem sempre que continuar. A dor nunca passa, nunca passará”. Esse é um trecho de Aqui, dentro de mim, o mais humano (bem sei como esse termo é perigoso para julgar obras literárias) dos nove contos de INSOLITUDES (7Letras). É a narrativa de uma mãe que perde o filho, fulminado por um raio, a situação mais dolorosa que existe, e a qual sequer possui uma palavra para defini-la.

Curiosamente, não é a expectativa que Tiago Feijó cria para o leitor nos três contos iniciais, centrados na literatura: em “A insólita morte de Ernesto Nestor”, um escritor morre por se considerar medíocre, apesar do imenso sucesso (lembrando o protagonista de Um Homem Célebre, de Machado de Assis); em Josés, o fantasma de José Saramago dita seu último romance ao personagem de Feijó, também chamado José;  em Conto tirado de um poema, narra-se detalhadamente os acontecimentos de um curtíssimo poema de Manuel Bandeira. Parece que INSOLITUDES vai seguir o caminho da intertextualidade.

De repente, tudo muda e surgem histórias completamente cotidianas, “com a dor e a delícia de ser o que é”, portanto mais solitudes do que insolitudes, embora haja um conto, O olho, o qual nos remete às fábulas morais que utilizam um acontecimento fantástico (um olho nasce numa parede) para satirizar a rotina burocrática.

Gosto muito do já citado Aqui, dentro de mim, mas o ponto alto do livro é Uma noite na vida do sr. Lameque, que me lembrou Faulkner, com uma mãe atormentando o filho ao evocar diariamente uma tragédia ocorrida há quarenta e seis anos. Também muito forte é Há uma gota de orvalho em cada criança (título que alude a um poema de Mário de Andrade) abordando o racismo.

Porém, o conjunto dos nove contos impressiona. E impressiona ainda mais a qualidade da linguagem (uma amostra: “O bar está em polvorosa, com grande azáfama de gentes. O samba, no seu compasso cardíaco, perverte as pessoas, instala nelas um assanhamento de fogo, de labareda, bulindo com elas por dentro, afrouxando nervos e músculos, libertando dos corpos a malícia da carne”) o que, aliás, tem me causado espanto e entusiasmo não só com o autor cearense de que me ocupo nesta resenha, mas com diversos autores novos. Numa época em que as pessoas escrevem nas redes sociais eliminando as vogais, eu, velho dinossauro gramatical (só falo e escrevo palavras inteiras e detesto siglas), fico feliz de acompanhar essa revalorização da nossa língua. É para manter isso, viu?!

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