MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/02/2012

Um poema de Wislawa Szymborska para cada dia da semana

Abaixo vão trechos de poemas de Wislawa Szymborska,  minha companheira numa viagem em outubro de 2011 para o Nordeste, na tradução de Regina Przybycien. Selecionei  passagens de que gostei muito, uma para cada dia da semana.

PARA O DOMINGO:  “Museu”

“Há pratos, mas falta apetite.

Há alianças, mas o amor recíproco se foi

há pelo menos trezento anos.

Há um leque –onde os rubores?

Há espada– onde a ira?

E o alaúde nem ressoa na hora sombria.

Por falta de eternidade

juntaram dez mil velharias (…)

A coroa sobreviveu à cabeça.

A mão perdeu para a uva.

A bota direita derrotou a perna.

Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.

Minha competição com o vestido continua.

E que teimosia a dele!

Como ele adoraria sobreviver!”

PARA A SEGUNDA “A alegria da escrita”

“Para onde corre essa corça escrita pelo bosque escrito?

Vou beber da água escrita

que lhe copie o focinho como papel-carbono?

Por que ergue a cabeça, será que ouve algo?

Apoiada sobre as quatro patas emprestadas da verdade

sob meus dedos apura o ouvido.

Silêncio–também essa palavra ressoa pelo papel

e afasta

os ramos que a palavra bosque originou (…)

as frases acossantes,

perante as quais não haverá saída (…)

Outras leis, preto no branco aqui vigoram.

Um pestanejar vai durar quanto eu quiser (…)

Existe então um mundo assim

sobre o qual exerço um destino independente?

Um tempo que enlaço com correntes de signos?

Uma existência perene por meu comando?

A alegria da escrita.

O poder de preservar.

A vingança da mão mortal.”

PARA A TERÇA:  “A vida na hora”

“(…) Despreparada para a honra de viver,

mal posso manter o ritmo que a peça impõe.

Improviso embora me repugne a improvisação.

Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.

Meu jeito de ser cheira a província.

Meus instintos são amadorismo.

O pavor do palco , me explicando, é tanto mais humihante.

As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Nao dá para retirar as palavras e os reflexos,

inacabada a contagem das estrelas,

o caráter como o casaco às pressas abotoado–

eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes

ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!

Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.

Isso é justo–pergunto

(com a voz rouca

porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores) (…)

E o que quer que eu faça,

vai se transformar para sempre naquilo que fiz.”

PARA A QUARTA:  “Utopia”

“(…)Aqui se pode pisar no sólido solo das provas.

Nao há estradas senão as de chegada.

Os arbustos até vergam sob o peso das respostas.

Cresce aqui a árvore da Suposição Justa

de galhos desenredados desde antanho.

A Árovre do Entendimento, fascinantemente simples

junto a fonte que se chama Ah, Então É Isso.

Quanto mais denso o bosque, mais larga a vista

do Vale da Evidência (…)

Domina o vale a Inabalável Certeza.

Do seu cume se descortina a Essência das Coisas.

Apesar dos encantos a  Ilha é deserta

e as pegadas miúdas vistas ao longo das praias

se voltam sem exceção para o mar (…)”

PARA A QUINTA: “Torturas”

“Nada mudou.

O corpo sente dor,

necessita comer, respirar e dormir,

tem a pele tenra e logo abaixo sangue,

tem uma boa reserva de unhas e dentes,

ossos frágeis, juntas alongáveis.

Nas torturas leva-se tudo isso em conta.

Nada mudou.

Treme  o corpo como tremia

antes de se fundar Roma e depois de fundada,

no século XX antes e depois de Cristo,

as torturas são como eram, só a terra encolheu

e o que quer que se passe parecer ser na porta ao lado .

Nada mudou.

Só chegou mais gente,

e às velhas culpas se juntaram novas,

reais, impostas, momentâneas, inexistentes,

mas o grito com que o corpo responde por elas

foi, é e será o grito da inocência

segundo a escala e registro sempiternos(…)”

PARA A SEXTA: “Opinião sobre a pornografia”

Não há devassidão maior que o pensamento.

Essa diabrura prolifera como erva daninha

num canteiro demarcado para margaridas.

Para aqueles que pensam, nada é sagrado.

O topete de chamar as coisas pelos nomes,

a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,

a perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,

o tatear ndecente de temas delicados,

a desova das idéias–é disso que eles gostam.

À luz do dia ou na escuridão da noite

se juntam aos pares, triangulos e círculos.

Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros (…)

Preferem o sabor de outros frutos

da árvore proibida do conhecimento

do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,

toda essa pornografia na verdade simplória (…)

É chocante em que posições,

com que escandalosa simplicidade

um intelecto emprenha o outro!

Tais posições nem o Kamasutra conhece (…)”

PARA O SÁBADO:  “As três palavras mais estranhas”

“Quando pronuncio a palavra FUTURO

a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra SILÊNCIO

suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra NADA

crio algo que não cabe em nenhum ser”.

E  PARA ALGUM DIA QUE NÃO HÁ: “Gato num apartamento vazio”

“Morrer–isso não se faz a um gato.

Pois o que há de fazer um gato

num apartamento vazio.

Trepar pelas paredes.

Esfregar-se nos móveis.

Nada aqui parece mudado

e no  entanto algo mudou.

Nada parece meido

e  no entanto está diferente.

E à noite a lâmpada já não se acende.

Ouvem-se passos na escada

mas não são aqueles.

A mão que põe o peixe no pratinho

também já não é a mesma.

Algo aqui não começa

na hora costumeira.

Algo não acontece

como deve.

Alguém esteve aqui e esteve,

e de repent desapareceu

e teima em não aparecer (…)

Até uma regra foi quebrada

e os papéis remexidos (…)

Espera só ele voltar,

espera ele aparecer.

Vai aprender

que isso não se faz a um gato.

Para junto dele

como quem não quer nada

devagarinho,

sobre patas muito ofendidas (…)”

02/06/2011

As passageiras do coche

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Acordei Cedo – Apanhei meu Cão-

E visitamos o Mar –

As Sereias no Porão

Vieram todas olhar paa mim –

As Fragatas – no Piso Superior-

Estenderam Mãos de Corda –

Presumindo-me um Camundongo –

Encalhado – ali nas Areias-

Mas  Homem algum aproximou-se  – até que o Mar

Alcançou meu sapato-

E alcançou meu  Avental – e meu Cinto –

E alcançou meu Corpete – também-

E fez como se fosse me engolfar –

Como gota de rocio

Sobre um Dente-de-leão –

Então – Recuei – também-

E Ele – Ele seguia – apertando o cerco –

Calcanhar  Prateado contra

Meu Tornozelo –  E então meus Sapatos

Já transbordavam de Pérolas –

Então alcançamos Terra Firme –

Onde amigo conhecido não era visto –

E com cortesia – com um Poderoso Olhar –

Para mim – O Mar recuou

****

“Satisfação – é o Agente

Da Saciedade –

Falta- um tranqüilo Comissário

Da Infinitude.

Possuir já é após o instante

Da fruição da Alegria –

Imortalidade contente

Que Anomalia!

****

Porque não pude parar p´ra Morte –

Ela parou p´ra mim, bondosamente–

No coche só cabíamos as duas-

E a Imortalidade.

Viagem lenta- Ela não tinha pressa-

E eu já pusera de lado

Meu trabalho e meu lazer,

P´ra seu exclusivo agrado-

Passamos a escol, na qual Crianças-

Brincavam de luta- no Ringue –

Passamos os Campos do Grão Pasmado-

Passamos pelo Sol Poente-

Ou melhor – ele passou por  Nós-

O Sereno baixou gélido –

Era de Gaze fina minha Túnica –

Minha Capa- apenas Tule –

Paramos numa Casa que se assemelhava

A um intumescido Torrão –

O Telhado mal se via –

A Cornija – rente ao Chão –

Desde então – faz Séculos- mas em verdade

Parece menos que o Dia

Em que, pelas Frontes dos Cavalos,

Que rumavam para a Eternidade –

****

“Vou contar a você como é que o Sol nasceu –

De repente uma fita apareceu –

Campanários nadaram em Ametista –

Notícias correram como Esquilos –

Colinas desataram seus Toucados –

Os Passarinhos -romperam em trinados-

Então disse baixinho pra mim mesma –

“Deve ter sido o Sol”!

Como ele se pôs – não sei dizer-

No céu um torniquete avermelhado

Meninas e Meninos de amarelo

Pulavam por ali em atropelo –

Na pressa de alcançar o outro lado –

Quando um clérigo de hábito cinzento –

Fez o gradil da noite subir manso –

E dispersou o bando –

****

Senti na mente esta rasgadura –

> Como se o cérebro se cindisse –

> Tento acertar costura com costura –

> Mas nada há que as fixe.

>

> O pensamento atrás com o adiante

> Em ajuntá-los me desvelo –

> Mas a seqüência se esfia sem que a alcance –

> tal qual novelos- sobre o Chão.

*****

 

17/04/2011

POEMAS: Rilke, Borges, Vicente de Carvalho, Bilac, Seferis, Jorge de Lima, Drummond, Carlos Nejar, Hilda Hilst…

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RAINER MARIA RILKE
Fragmentos  das ELEGIAS DE DUÍNO
O sentir em nós, ai, é o dissipar-se.
Exalamos nosso ser; e de uma a outra ardência
Nos desvanecemos. Alguma vez nos dizem:
Circulas no meu sangue, este quarto, a primavera
Estão cheios de ti. Inutilmente procuram nos reter
Evolamos. E aqueles que são belos, oh, quem os
Deteria? A aparência transita sem descanso em seu rosto
E se dissipa. Tal o orvalho da manhã
E o calor do alimento, o que é nosso
Flutua e desaparece. Ó sorrisos, para onde?
E tu, olhar erguido, fugitiva onda ardente e nova
Do coração? Ai de nós, assim somos.
Estará o mundo impregnado de nós, pois que
Nele nos perdemos? E os Anjos
Retomarão apenas o que deles emanou?
Talvez um pouco de humano se encontre às vezes
Em seus traços, como o vago no rosto das mulheres
grávidas? Eles porém nada percebem
No turbilhão da volta a si mesmos.”

“E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem anjos nem homens.
E o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face—a quem se furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apena ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos –talvez os pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.”
borges
O outro tigre (Jorge Luis Borges, El Hacedor)

Penso num tigre. A penumbra exalta
A vasta biblioteca laboriosa
E parece afastar suas estantes;
Forte, inocente, ensangüentado e novo,
Ele irá por sua selva e sua manhã
E deixará seu rastro na lodosa
Margem de um rio cujo nome ignora
(Não há em seu mundo nomes nem passado,
E nem porvir, só um instante determinado)
E vencerá as bárbaras distâncias,
Farejará no enleado labirinto
De todos os odores o da aurora
E o olor deleitável do cervo;
Em meio às riscas do bambu decifro
Suas riscas e pressinto a ossatura
Sob a pele esplêndida que vibra.
Debalde interpõem-se os convexos
Mares e desertos do planeta;
E desta morada de um remoto porto
Da América do Sul, te sigo e sonho,
Ó tigre das beiras do Ganges.
Corre a  tarde em minha alma e conjecturo
Que o tigre vocativo do meu verso
É um tigre de símbolos e sombras,
Uma série de tropos literários tropos- lugares comuns
E de reminiscências da enciclopédia,
Não o tigre fata, a aziaga jóia
Que sob o sol ou a cambiante lua,
Vai cumprindo em Sumatra ou em Bengala
Sua rotina de ócio, amor e morte.
A esse tigre dos símbolos opus
O verdadeiro, o de sangue quente,
O que dizima a manada de búfalos
E a três de agosto de 59 (Hoje),
Estende sobre o prado uma pausada
Sombra, mas só o fato de nomeá-lo
E de conjecturar-lhe a circunstância
Da arte o faz ficção e não a criatura
Vivente, dessas que andam pela Terra.
Procuraremos um terceiro tigre.
Este, como os demais, será uma forma
De meu sonho, um sistema de palavras
Humanas, não o tigre vertebrado
Que, para além dessas mitologias,
Percorre a Terra. Bem o sei, mas algo
Me impõe esta aventura indefinida,
Insensata e antiga, e persevero
Pelo tempo da tarde na procura
Do outro tigre, o que não está no verso.

NOITE DE SÃO JOÃO (de Fervor de Buenos Aires)
O poente implacável em esplendores
quebrou a fio de espada as distâncias.
Suave como um salgueiral está a noite.
Vermelhos faíscam
os redemoinhos das grandes fogueiras;
lenha sacrificada
que se dessangra em altas labaredas,
bandeira viva e cega travessura.
A sombra é aprazível como uma lonjura;
hoje as ruas lembram
que foram campo um dia.
Toda a santa noite a solidão rezando
seu rosário de estrelas esparramadas.
(trad. Glauco Mattoso)
180px-Vicente_Carvalho
UMA IMPRESSÃO DE DON JUAN
(Vicente de Carvalho)
Gastei no amor vinte anos –os melhores,
Da minha vida pródiga: esbanjei-os
Sem remorso nem pena, nem galanteios,
Colhendo beijos, desfolhando flores.
Quentes olhares de olhos tentadores,
Suspiros de paixão, arfar de seios,
Conheci-os, buscaram-me, gozei-os…
Li, folha a folha, o livro dos amores.
Quanta lembrança de mulher amada!
Quanta ternura de alma carinhosa!
Sim, tanto amor que me passou na vida!
E nada sei do amor… Não, não sei nada,
E cada rosto de mulher formosa
Dá-me a impressão de folha inda não lida.
OlavoBilac
A VIA LÁCTEA (sétimo soneto)
Olavo Bilac
Não têm faltado bocas de serpentes
(Dessas que amam falar de todo o mundo
E a todo o mundo ferem, maldizentes)
Que digam: Mata o teu amor profundo!
Abafa-o, que teus passos imprudentes
Te vão levando a um pélago sem fundo…
Vais te perder! -E arreganhando os dentes
Movem para o teu lado o olhar imundo:
-Se ela é tão pobre, se não tem beleza
Irás deixar a glória desprezada
E os prazeres perdidos por tão pouco?
Pensa mais no futuro e na riqueza!
-E eu penso que afinal… Não penso nada:
Penso apenas que te amo como um louco!
ANTÍGONA
A terra treme. Rola o trovão. Brilha o espaço.
Chega Édipo a Colono, em andrajos, imundo,
Sombra ansiosa a fugir do próprio horror profundo,
Ruína humana a cair de miséria e cansaço.
Mas, quando o ancião vacila, órfão da luz do mundo,
Antígona lhe estende o coração e o braço,
E, filha e irmã, recolhe ao maternal regaço
O rei sem trono, o pai sem honra, moribundo.
É o ninho (a terra treme…) amparando o carvalho,
A flor sustendo o tronco! Édipo (o espaço brilha…)
Sorri, como um combusto areal bebendo o orvalho.
É o fim (rola o trovão…) da miseranda sorte:
O cego vê, fitando o céu do olhar da filha,
Na cegueira o esplendor, e a redenção na morte.
SEFERIS
Uma palavra sobre o verão
(Giorgios Seferis,  poeta grego, Nobel 1963)
Eis que voltou o outono. O verão
Como um caderno em que cansamos de escrever, lá fica
Cheio de riscos e garatujas,
De pontos de interrogação nas margens. Eis que voltou
A estação dos olhos que miram
Nos espelhos, sob as lâmpadas,
Lábios cerrados, homens estrangeiros
Nos quartos, nas ruas, sob as pimenteiras,
Enquanto os faróis dos carros matam
Milhares de máscaras macilentas.
Eis-nos de volta. Partimos para cada vez voltar
Na solidão, um punhado de terra em nossas mãos vazias.
E não obstante, amei outrora o bulevar Syngros,
A dupla curvatura da grande avenida
Que milagrosamente nos leva para o mar
Eterno a fim de que nos lavemos dos pecados.
Amei homens desconhecidos
Encontrados bruscamente ao cair do dia
Que falavam consigo mesmos como capitães de uma frota afundada,
Sinais de que o mundo é vasto.
E não obstante, amei as ruas daqui e estas colunas
Ainda que nascido na outra margem, junto
Das canas e dos juncos, das ilhas
Cuja areia guarda água para a sede
Do remador: ainda que nascido
Junto do mar que desenrolo e enrolo entre meus dedos,
Quando estou fatigado– não sei mais onde nasci.
Resta ainda a essência amarela, o verão
E tuas mãos roçando medusas na água,
Teus olhos abertos de repente, os primeiros
Olhos do mundo, e as grutas marinhas,
Pés desnudos no solo vermelho.
Resta ainda o efebo louro de pedra,o verão,
Um pouco de sal seco no oco de um rochedo,
Algumas agulhas de pinheiro após a chuva
Ruivas e dispersas como um filete em fiapos.
Não compreendo esses rostos, não os compreendo;
Imitam às vezes a morte e depois iluminam-se de novo
Com uma vida rasteira de vermes luzentes,
Com um esforço repuxado, sem esperança,
Como apertado entre duas rugas
Entre duas mesas de café gordurosas…
(…) Resta ainda o deserto amarelo, o verão,
Vagas de areia em fuga até o último círculo
Um ritmo de tambor lancinante, interminável
Olhos inflamados afundando no sol,
Mãos com ímpetos de pássaros riscando o céu
Saudando filas de mortos em duelos,
Perdidas num ponto que me ultrapassa e me governa,
Tuas mãos que tocam a onda livre.
(trad. Darcy Damasceno)
caricatura de jorge de lima
Anunciação & Encontro de Mira-Celi (quadragésimo poema)
(Jorge de Lima)
Quando sentires tua carne incendiar-se
e a labareda divina altear-se no ar,
desfralda tua bandeira neste tope*,
que logo virão dos quatro pontos cardeais
os conspiradores que precisas;
pois tua língua não pode continuar a que herdaste
nem os teus homens são os que hoje te cercam.
Antes que os tambores ensurdeçam teus ouvidos
e teu passo se cadencie num galope constante,
vê que a dor do mundo deseja redimir-se em teu canto.
É certo que te esmagarão como se esmaga uma asa.
Mas as penas que espalhares no chão
podem voar ao vento
e baixar com sua sombra mínima
sobre qualquer ovo perdido dentro dos ninhos abandonados.
Entre a noite e o mar visitarás de novo
os litorais desertos, e semearás teu pólen.
Hão de cair sobre ele as chuvas que lavam as tempestades,
e se os homens não quiserem ouvir-te,
ressurgirás para as abelhas ou para as solidões
em que Deus ouvirá as palavras do Início.
drummondclaro enigma
Relógio do Rosário (de Claro Enigma)
(Carlos Drummond de Andrade)
Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva
pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,
que se entrelaça no meu próprio choro,
e compomos os dois um vasto coro.
Oh dor individual, afrodisíaco
selo gravado em plano dionisíaco,
a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,
dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,
convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,
prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,
dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,
dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa
tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,
dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,
dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!
Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?
Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?
O amor elide a face… Ele murmura
algo que foge, e é brisa, e fala  impura.
O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta
que não macule ou perca sua essência
ao contato furioso da existência.
Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,
a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.
Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário
já cinza se concentra, pós de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.
carlosnejaro chapeu das estações
“o barulho de existir:
um cão dentro
de mim

atravesso
como a um pátio:
o barulho de existir

A CHUVA DO VELHO TESTAMENTO (trechos)
(Carlos Nejar, O chapéu das estações)
“Quis possuir a alma,
possuí-la um instante,
numa respiração
que a conjugasse
em suas potências
e fosse alma
em corpo atravessada.
Quis possuir a alma,
mas de súbito
é uma conspiração
de antigos súditos
que a obriga sucumbir.
E é luz varando luz
de inerte vinco.
Quis possuir a alma,
a rebelião mais pura
de ser Deus
no Deus que me conjura.
Quis possuir a alma
como se um arado empurrasse
na soga deste instante
o corpo amado
para o corpo amante.
Quis possuir a alma
e a vislumbrei inteira
e alheia corpo adentro
como se alguma barca
fosse somente vento”
“Fui condenado ao corpo.
Como isolar a alma,
se está morto?
Como isolar a alma
se ela é corpo
e sabe conluiar os elementos
de sua retração, seu desespero?
Mas o corpo transgride
onde fora trancado.
E é vivo o condenado,
mesmo se a alma já morreu
nos arredores.
Se o corpo não é seu,
a alma estende
a renitência a outras,
entre as formas do céu
e dos planetas.
Eu tive a rebelião
de ser um corpo.
Fui condenado a Deus,
a seu estado mais feroz,
aquele que, de amor,
as coisas tremem
e as vozes não conseguem separar.
Fui elevado ao corpo”
********************
Trecho de A árvore do mundo (do mesmo autor)
“O humano é custo,
empresa que se apresta
no deter
e detendo, cobra,.
E sobrando,
se gasta.
Mais preciso:
a parede do tempo
de estar vivo.
A parede sem nível
do possível.
Salvar? Mas estou salvo,
sou matéria.
Nenhum impedimento de subir,
exceto a condição de ser humano.
Mas esta é de romper.
Um osso, um plasma, uma epiderme,
o susto.
Quanto nos apanha, nos encerra
a popa de uma nau
que é apenas alma.”
hilda furacão hilst
HILDA HILST: Cantares de perda e predileção
“Vida da minha alma:
Recaminhei casas e paisagens
Buscando-me a mim, minha tua cara.
Recaminhei os escombros da tarde
Folhas enegrecidas, gomos, cascas
Papéis de terra e tinta sob as árvores
Nichos onde nos confessamos, praças
Revi os cães. Não os mesmos. Outros
De igual destino, loucos, tristes,
Nós dois, meu ódio-amor, atravessando
Cinzas e paredões, o percurso da vida.
Busquei a luz e o amor. Humana, atenta
Como quem busca a boca nos confins da sede.
Recaminhei as nossas construções, tijos
Pás, a areia dos dias
E tudo que encontrei te digo agora:
Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.
O arquiteto dessas armadilhas.”
Hilda_Hilst_01
HILDA HILST: ODES MÍNIMAS
“Perderás de mim
Todas as horas
Porque só me tomarás
A uma determinada hora
E talvez venhas
Num instante de vazio
E insipidez
Imagina-te o que perderás
Eu que vivi no vermelho
Porque poeta, e caminhei
A chama dos caminhos
Atravessei o sol
Toquei o muro de dentro
Dos amigos
A boca nos sentimentos
E fui tomada, ferisa
De malassombros, de gozo
Morte, imagina-te.”
 
 
 

19/10/2010

Monsieur Bergeret na província

PARA CONHECER MELHOR MONSIEUR BERGERET

Trechos de À sombra do olmo (“L´orme du mail”, 1897)

Tradução de João Guilherme Linke

    “… monsieur Bergeret não era avesso a estudar a alma de um padre inteligente. Sabiam ambos que suas conversas um banco do passeio desagradavam igualmente ao deão da faculdade e ao arcebispo. Mas o abade Lantaigne ignorava a prudência. Humana, e monsieur Bergeret, muito cansado, desalentado, desgostoso, dispensava-se de guardar  inúteis deferências.

      Irreligioso com decência e bom gosto, as devoções freqüentes de sua esposa e os intermináveis catecismos das filhas levaram-no a ser acusado de clericalismo nos gabinetes do Ministério, enquanto certos conceitos que lhe eram atribuídos eram usados  contra ele pelos católicos de sentimento e pelos patriotas de profissão. Frustrado em suas ambições,  procurava ao menos viver a seu modo, e, não tendo sabido agradar, exercitava-se discretamente em desagradar.”

 

“…só eles na cidade se interessavam  por idéias gerais. Era esse traço comum que os unia. Filosofando sob os quincôncios quando fazia bom tempo, eles se consolavam, um, das tristezas do celibato; o outro, dos percalços da família; e ambos, de suas contrariedades profissionais e da sua igual impopularidade.”

 

“Sentado à sombra na ponta de um banco banhado de sol, monsieur Bergeret esquecia, sob as árvores clássicas, na solitude acolhedora, a esposa, as duas filhas, sua vida estreita na sua casa estreita; gozava, como Esopo, a liberdade  do espírito, e deixava errar sua imaginação crítica a esmo, entre os vivos e os mortos.”

 

“Monsieur Bergeret ficou só, no meio do banco  agora quase todo coberto pela sombra… Não era feliz. Tinha um espírito requintado, cujas arestas não eram totalmente aparadas pelo exterior,e não poucas vezes feria-se a si mesmo nos aguilhões da própria crítica. Anêmico e bilioso,tinha um estômago extremamente delicado e sentidos debilitados, que lhe proporcionavam mais sofrimentos e desgostos que prazeres e contentamento. Era imprudente com as palavras e de uma falta de tato que, pela precisão e segurança, igualava a mais cultivada habilidade. Tinha o talento sutil de não perder nenhuma ocasião de se prejudicar. Inspirava uma aversão natural ao comum dos homens, e sofria com isso, sociável que era e propenso a comunicar-se com seus semelhantes. Jamais conseguira formar discípulos, e dava seu curso de literatura latina em um porão sombrio, úmido e abandonado, para onde o banira a acirrada hostilidade do deão.”

 

“Monsieur Bergeret era um dos três acadêmicos da casa Paillot, e o mais assíduo conversador do canto dos alfarrábios.Folheava com mão amiga as obras antigas e novas, e ainda que jamais comprasse um livro, por medo de apanhar da esposa, recebia a melhor acolhida de Paillot, que o tinha em alta estima como repositório e alambique da ciência e das belas letras de que vivem e lucram os livreiros.

   O canto dos alfarrábios era o único lugar da cidade onde monsieur Bergeret podia deixar-se ficar com pleno contentamento, pois em casa madame Bergeret o acossava por toda parte e por diversas razões de economia doméstica; na faculdade, o deão, por birra, obrigava-o a dar suas aulas num porão escuro e insalubre, para onde poucos alunos desciam; e nas três sociedades da cidade torciam-lhe o nariz por ter chamado Joana d´Arc de mascote militar.

    Então monsieur Bergeret se refugiava no canto dos alfarrábios.

 

“… pegando de sobre a mesa o tomo 38 da História Geral das Viagens… o docente mergulhou o nariz no livro, entre as páginas 212 e 213 que, havia seis anos, cada vez que ele abria o inevitável alfarrábio, lhe apareciam fatalmente à exclusão de qualquer outra página, como um exemplo da monotonia em que se escoa a vida, como um símbolo da uniformidade dos trabalhos e dos dias universitários e provincianos que precedem o dia da morte e a fermentação do corpo no esquife.  E mais uma vez, como já fizera tantas outras, monsieur Bergeret leu no tomo 38 da História Geral das Viagens as primeiras linhas da página 212:

…uma passagem ao norte. ´A este revés´, diz ele, ´devemos o fato de ter podido visitar de novo as ilhas Sandwich e enriquecer nossa viagem com uma descoberta que, embora a última, parece ser, sob muitos aspectos, a mais importante jamais realizada pelos europeus em toda a extensão do oceano Pacífico´. Os preciosos dados que estas palavras pareciam anunciar infelizmente não se consubstanciaram.”

   E, dessa vez, como das outras, a leitura dessas linhas encheu monsieur Bergeret de tristeza.”

 

“Monsieur de Terramondre, que, presidente de várias academias locais, alimentava preconceitos acadêmicos [acusou] Zola de ter ignominiosamente caluniado os camponeses em La Terre. A essa acusação, monsieur Bergeret saiu de sua tristeza absorta e disse:

__ Atente que os camponeses são dados ao incesto, à embriaguez e ao parricídio, como mostrou Zola. A resistência deles em prestar-se a exames clínicos de modo algum é prova de sua candura. Revela simplesmente a força do preconceito entre seres limitados. Os preconceitos são tanto mais fortes quanto mais simples. O preconceito de que é indecoroso mostrar-se nu permanece poderoso neles. Atenua-se nas pessoas inteligentes e educadas pelo hábito do banho, das duchas e das massagens; também pelo senso estético e pelo gosto das sensações voluptuosas, e cede facilmente a considerações de higiene e de saúde.”

 

“Senhor abade,o senhor vem de resumir com eloqüência que só sairia dos seus lábios as características do regime democrático[1]…E no entanto é ainda o regime que eu prefiro. Nele, todos os laços se afrouxam, o que enfraquece o Estado, mas ele desoprime o indivíduo, proporciona certa facilidade de viver e uma liberdade lamentavelmente destruída pelas tiranias locais. A corrupção, sem dúvida, parece ser maior do que nas monarquias. Isso se deve ao número e à diversidade das pessoas que são levadas ao poder. Mas essa corrupção seria menos patente se o segredo fosse mais bem guardado. A ausência de sigilo e a falta de continuidade tornam qualquer empreendimento impossível à república democrática. Mas, já que os empreendimentos das monarquias, o mais das vezes, têm arruinado os povos, não me aborrece muito viver sob um governo incapaz de desígnios grandiosos (…)  Mas, para dizer a verdade,não dou muita importância à forma do Estado. As mudanças de regime em quase nada alteram a condição dos indivíduos. Nós não dependemos de constituições nem de cartas, mas de instintos e de costumes. De nada serve mudar o nome das necessidades públicas. Só os imbecis e os ambiciosos fazem as revoluções.”

 

“… todas as ações humanas são movidas pela fome ou pelo amor. A fome induziu os bárbaros à matança, impeliu-os às guerras e às invasões. Os povos civilizados são como os cães de caça. Um instinto corrupto os incita a destruir sem proveito nem razão.  O despropósito das guerras modernas chama-se interesse dinástico,  nacionalidade, equilíbrio europeu, honra. Esse último motivo é, talvez, de todos, o mais extravagante, pois não há um povo no mundo que não seja contaminado por todos os crimes e coberto de todas as vergonhas. Não há um só que não haja sofrido todas as humilhações que a fortuna possa infligir a uma miserável manada de criaturas.  Se apesar de tudo subiste alguma honra entre os povos, um estranho meio de defendê-la é fazer a guerra, ou seja, cometer todos os crimes pelos quais um indivíduo se degrada: incêndio, rapina, estupro, morte. E quando às ações movidas pelo amor, essas são, na maior parte, tão violentas, tão furiosas, tão cruéis quanto as ações inspiradas pela fome,o que leva a concluir que o homem é uma besta malfazeja. Resta, no entanto, indagar por que eu me dou conta disso, por que motivo isso me causa horror e indignação. Se não existisse outra coisa além do mal, ele não seria percebido, como a noite não teria nome se o sol jamais se levantasse.”

 

“Monsieur Cassignol calou-se, fitou longamente o castão da bengala com suas pupilas baças e desbotadas, depois pronunciou estas palavras:

__Durante minha longa carreira de magistrado, jamais tive conhecimento de um erro judiciário.

__ Eis aí uma declaração tranqüilizadora—disse monsieur de Terramondre.

__ E que a mim me gela de pavor—murmurou monsieur Bergeret.”


[1] Monsenhor Lantaigne perorara o seguinte : “Mesmo que ela respeitasse a religião e os seus ministros, ainda assim eu detestaria a república… Porque ela é a diversidade. Nisto, sim, ela é essencialmente má… Estamos em Babel…. A diversidade é abominável, o caráter do mal é ser diverso. Esse caráter é manifesto no governo da República que, mais do que qualquer outro, se afasta da unidade. Faltam-lhe, na ausência da unidade, a independência, a estabilidade e a autoridade…. Ainda que, por mal de nossos pecados, ele dure, não possui a permanência. Pois a idéia de permanência implica a de identidade, e a República não é um só dia o que foi na véspera. Sua própria torpeza e seus vícios não são propriedade sua. E o senhor viu que ela não foi desonrada por eles. Vergonhas e escândalos que teriam arruinado o mais poderoso império a recobriram sem deixar-lhe arranhões. Ela não é a descontinuidade, ela é a diversidade, ela é o mal (…)  o povo descambou na República; o que quer dizer que repudiou sua herança, que renunciou aos seus direitos e aos seus deveres, para governar-se á sua revelia e viver a seu  bel-prazer nessa liberdade que Deus reprime e que subverte Suas imagens temporais: a ordem e a lei. Desde então, o mal reinou e publicou seus editos. A igreja,exposta a incessantes vexames, foi colocada com perfídia entre uma abdicação impossível e uma revolta culpável.”

09/09/2010

GOETHE E A VISÃO JUBILOSA

Breve prefácio

    Todas as vezes  que lia e comentava Goethe o fazia  com reservas, mesmo com a petição de princípio  da admiração  já estabelecida diante de um clássico, de um autor com tal estatura, criador do Werther e do Fausto, suas obras mais conhecidas (mas como não admirar também o Wilhelm Meister e As afinidades eletivas ?, textos fundadores). Porém, obras como Poesia e verdade me colocavam (leitor de agora, um tanto quanto impaciente e afoito) perante  um ser quase alienígina, que não me dizia nada (enquanto ser biográfico), solene, pomposo. Imagine-se que, durante sua longa existência weimariana, tudo o que ele dizia era anotado, “recolhido”, como máximas oraculares! Quando saía em viagem, tinha alguém que desenhava as paisagens para ele, que recolhia objetos para as suas coleções, enfim… Era alguém para quem tudo era “utílizável” no futuro, nas suas obras, das quais ele tinha “visões” e que num momento ou outro o ocupavam, em infinitas versões e reescrituras…

Foi ao ler o livro de Pietro Citati que minha visão de Goethe começou a mudar. Mas faltava o arremate, e isso se deu com uma das leituras mais epifânicas que já me foi dado expeirmentar: a de Viagem à Itália. Tudo o que me afastava de ( e me irritava em)  Goethe está lá, mas que sentido de realidade, do cotidiano, das pessoas concretas. É verdadeiramente uma viagem pelo século XVIII, às vésperas, muito às vésperas da Revolução Francesa.

Sinto que agora é que comecei a ler Goethe realmente, o anterior foi apenas um demorado prólogo… E como achei a leitura deslumbrante, e o livro é difícil de achar, resolvi fazer uma pequena antologia de trechos marcantes. Boa viagem, leitor.

                                        Elegia Romana

Falai-me, ó pedras! oh falai, vós altos palácios!
Ruas, dizei uma palavra! Gênio, não te moves?
Sim, tudo tem alma nos teus santos muros,
Roma eterna; só para mim tudo se cala ainda.
Quem me diz segredos, em que fresta avisto
Um dia o ser belo que queimando me alivie?
Não pressinto ainda os caminhos, pelos quais sempre,
Pra ir dela e pra ela, sacrifique o tempo precioso?
Ainda contemplo igrejas, palácios, ruínas, colunas,
Homem composto, decoroso, que aproveita a viagem.
Mas em breve passa: então haverá um só templo,
O templo do Amor, que se abra e receba o iniciado!
És um mundo em verdade, ó Roma; mas sem o Amor
O mundo não era mundo, e Roma não era Roma.

 

                      O BOM E O MELHOR

“Sonhei então que a bordo de um barco relativamente grande, eu atracava numa ilha fértil e de farta vegetação,onde eu sabia poder encontrar os mais belos faisões. De imediato, pus-me a negociar com os habitantes a fim de adquirir essas aves, as quais eles, também de pronto e em grande quantidade,  trouxeram para mim, mortas. Eram faisões, provavelmene, mas, como os sonhos costumam transformar tudo, apresentavam longas caudas coloridas e cheias de olhos, como a dos pavões ou de raras aves paradisíacas. Traziam-nos aos montes para o barco, depositando-os com as cabeças para dentro e amontoando-os com tanta graça que as penas longas e coloridas da cauda, pendendo para fora da embarcação, formavam ao sol a mais magnífica meda que se pode imaginar, e tão abundante que mal sobrava espaço na prosa e na popa para o timoneiro e os remadores. E assim cortamos as águas tranquilas, e eu já enumerava em minha mente os amigos para os quais queria contar acerca daqueles coloridos tesouros. Por fim, desembarcando num grande porto, perdi-me entre navios com mastros imensos, subindo de convés em convés a fim de procurar um lugar seguro onde atracar meu pequeno barco”.

“È bastante peculiar que se possa ver e saber com nitidez o que é bom e o que é ainda melhor…”

Trechos de Viagem à Itália (1786-1788), de J. W. Goethe

Tradução de Italianische Reise, por Sérgio Tellaroli (Companhia das Letras, 1999):

“Às três horas da manhã escapuli de Karlsbad, pois do contrário não me teriam deixado partir. O grupo de pessoas que desejou comemorar de modo bastante amigável o 28 de agosto, meu aniversário, por certo adquiriu, assim, o direito de deter-me; eu não  podia, porém, demorar-me mais ali. Munido apenas de um alforje e uma mochila de pele de texugo, lancei-me sozinho numa mala-posta e cheguei a Zwota às sete e meia, numa bela e tranqüila manhã enevoada. As nuvens mais altas feito riscos de lã, as mais baixas, pesadas. Parecem-me bons presságios.”

 

[Trento]: “O fato é que meu interesse pelo mundo se renova; testo meu poder de observação e examino até onde vão minha ciência e meus conhecimentos, os meus olhos estão limpos e vêem com clareza, quanto posso apreender em meio à velocidade, e as rugas sulcadas e impressas em meu espírito podem ser de novo removidas. Já neste momento, em que estou por minha própria conta, em que preciso estar sempre atento e presente, dão-me esses poucos dias ao espírito uma elasticidade inteiramente nova (…) E agora, ao anoitecer, com o vento suave e as montanhas rodeadas de poucas nuvens, mais fixas do que atravessando o céu, o zumbido agudo das cigarras começando a se fazer ouvir logo após o pôr-do-sol, sentimo-nos afinal em casa no mundo, e não qual estivéssemos escondidos ou no exílio. Desfruto disso tudo como se tivesse nascido e sido criado aqui, e retornasse agora de uma caça à baleia na Groenlândia.”

 

[Verona]: “O vento que sopra das tumbas dos antigos nos traz fragrâncias qual passasse ele por uma colina de rosas. Os túmulos inspiram afeto  e emoção, sempre representando a vida. Lá está um homem que, ao lado de sua mulher, espia por um nicho, como se olhasse para fora de uma janela. Lá estão pai e mãe, tendo o filho entre eles, fitando-se com indizível naturalidade. Ali, duas mãos se dão. Lá, repousando num sofá, um pai parece conversar com sua família. A mim, a presença imediata dessas esculturas comoveu sobremaneira. Elas são de um período posterior, mas  afiguram-se simples, naturais e dotadas de um apelo universal. Não se vêem, dentre elas, homens ajoelhados e vestindo armaduras, à espera de uma feliz ressurreição. Com maior ou menor perícia, o artista apresenta apenas a simples existência humana, conferindo-lhe, assim, continuidade e permanência. As figuras não estão orando ou olhando para o céu, mas são, aqui na Terra, o que foram e continuam sendo. Estão juntas, solidarizam-se umas com as outras, amam-se, e isso tudo encontra-se expresso de forma singela na pedra, até com uma certa inabilidade.”

 

“É de minha natureza reverenciar de bom grado e com alegria o grande e o belo; e cultivar essa disposição dia após dia, hora após hora, com a ajuda de objetos tão magníficos, é o mais bem-aventurado dos sentimentos.

     Numa terra na qual se goza o dia, mas aprecia-se particularmente a noite, é de grande importância o momento em que a noite cai (…)mas nós, Cimérios, mal sabemos o que seja o dia. Em meio à névoa eterna e à escuridão do céu, nem diferenciamos o dia da noite; afinal, quanto tempo  podemos passar verdadeiramente passeando ao ar livre e dele nos comprazendo?”

 

{Vicenza}: “…contemplando-se pessoalmente os edifícios magníficos que Palladio construiu nesta cidade e vendo-se como já a pequenez e a imundície das necessidades humanas os desfiguraram—quão acima de seus executores estavam, em geral, os projetos, e quão poucos esses preciosos monumentos de autoria de um espírito elevado amoldam-se à vida das demais pessoas—pensa-se que, afinal,  assim é com tudo o mais. Pouco ou nenhum agradecimento recebemos dos homens ao elevarmos suas necessidades interiores, ao dar-lhes uma idéia grandiosa deles próprios, ao intentar fazer-lhes sentir o caráter magnífico de uma existência verdadeira e nobre. Se, no entanto, enganamos os pássaros[1] , se lhes contamos histórias, ajudando-os a seguir adiante em seu dia-a-dia e apequenando-os [2], fazemo-nos queridos, e é por isso que os tempos modernos tanto apreciam o que é de mau gosto. Não digo isso para diminuir meus amigos, digo apenas que é assim que eles são, e que não há necessidade de nos admirarmos pelo fato de as coisas serem como são.”

 

[Pádua}: “É alegre e instrutivo passear por entre uma vegetação que nos é estranha. Em meio às plantas habituais ou a objetos que conhecemos de longa data, não pensamos coisa alguma, e de que vale a contemplação sem a reflexão? Aqui, diante dessa multiplicidade que me é nova, torna-se cada vez mais viva a idéia de que talvez seja possível fazer remontar todos os tipos de plantas a uma  única. Somente assim seria possível determinar verdadeiramente os gêneros e as espécies, o que, no meu entender, até hoje se faz de maneira bastante arbitrária. Foi nesse ponto que emperrei em minha filosofia botânica, e ainda não vejo como desenredar-me. A questão me parece tão profunda quanto ampla.”

 

“Na igreja dos Eremitas, vi as pinturas de Mantegna—um dos mestres antigos—que me espantaram. Que presente mais agudo e preciso apresentam! Foi desse presente absolutamente verdadeiro—não, digamos, aparente, de efeitos ilusórios, apelando para a imaginação, mas um presente sólido, puro, lúcido, minucioso, consciencioso, sutil, bem definido e contendo ao mesmo tempo algo de austero, diligente, custoso—que partíramos pintores subseqüentes, conforme pude observar em pinturas de Ticiano; o que permitiu à vivacidade de seu gênio, à energia de sua natureza—iluminada pelo espírito dos predecessores, alicerçada em sua força—alçar-se cada vez mais às alturas, erguer-se do chão para produzir formas celestiais, mas verdadeiras.”

 

“Essas pessoas estão tão acostumadas a viver ao ar livre que os arquitetos houveram por bem cobrir com uma abóbada a praça defronte de um mercado. E não há dúvida de que o gigantesco espaço abobadado transmite uma sensação bastante própria. É um infinito delimitado, mais análogo ao ser humano do que o é o firmamento. Este últimos nos arranca de nós mesmos; o primeiro nos compele, de forma mais suave, para o nosso interior.”

 

[Veneza]: “Estava, pois, escrito na folha que me cabe do livro do destino que ao cair da tarde de 28 de setembro de 1786, às cinco horas  do nosso horário, eu, proveniente do Brenta e alcançando as lagunas, avistaria Veneza, essa maravilhosa cidade insular, essa república de castores que, logo a seguir, eu estaria adentrando e visitando. E assim foi, graças a Deus; Veneza já não é para mim uma mera palavra, um nome vazio  a angustiar-me com tanta freqüência—a mim, o inimigo mortal das palavras ocas.”

 

“Desfruto agora da solidão pela qual tantas vezes suspirei ansioso…”

 

“Tudo o que agora me envolve é digno, obra grandiosa e respeitável do trabalho conjunto de muitos homens, um monumento magnífico não a um soberano, mas a todo um  povo. E, se suas lagunas vão se enchendo pouco a pouco, se vapores nocivos pairam sobre o pântano, se o comércio enfraquece e o poder decai,  ainda assim a república em si, sua essência, não se fará por um momento sequer menos digna do respeito daquele que a contempla.  Ela está à mercê do tempo, como tudo quanto tem no mundo dos fenômenos a sua existência.”

 

“O espetáculo [uma apresentação teatral] entreteve-me  por mais de três horas. Também aqui, porém, o povo é a base sobre a qual  tudo repousa: os espectadores atuam e a multidão funde-se ao teatro., formando um todo. Durante o dia, na praça e nas margens dos canais, nas gôndolas e no palácio, o comprador e o vendedor, o mendigo, o barqueiro, a vizinha, o advogado, e seu oponente, todos vivem, se movimentam, lutam, falam, protestam, gritam, vendem, cantam, brincam, praguejam e fazem barulho. À noite, então, vão ao teatro ver e ouvir sua vida cotidiana apresentada de forma artificial, dotada de maior graça e entremeada de histórias, distanciada da realidade pelas máscaras, mas aproximando-se dela nos costumes. Isso os alegra feito crianças, e eles voltam a gritar, bater palmas e fazer barulho. De dia ou de noite, de meia-noite a meia-noite, são sempre os mesmos.”

 

“Todas essas pessoas têm algo em comum, tanto porque pertencem a uma mesma nação—a qual, dotada de imensa vida pública, está sempre a discursar apaixonadamente—quanto porque se imitam uns aos outros. A isso vem se juntar uma pronunciada linguagem gestual a acompanhar a expressão de suas intenções, opiniões e sentimentos.”

 

“Meu velho dom de ver o mundo com os olhos do pintor cujos quadros acabei de contemplar, conduziu-me a um pensamento singular. É evidente que os olhos se formam em consonância com os objetos que divisaram desde a infância, e, sendo assim, o pintor veneziano há de ver tudo com maior clareza e limpidez do que outros homens.  Nós que vivemos numa terra ora imunda, ora poeirenta, incolor, a obscurecer qualquer reflexo, muitos atém em cômodos apertados, não podemos, por nós próprios, desenvolver uma visão assim jubilosa.”

Mundo-Provérbio:

“Hoje apresentaram Le baraffe chiozzote no teatro S.Luca, título que talvez pudesse ser traduzido por ´Brigalhadas e algazarras de Chiozza´… O que ela tem de mais bem sucedido expressa-se numa personagem que se apresenta como se segue:  um velho barqueiro, cujos membros e principalmente os órgãos da fala paralisaram-se em virtude de uma vida dura desde a infância, apresenta-se como o oposto do povo agitado, falante e ruidoso; ele sempre principia por mover os lábios, valendo-se também do auxílio das mãos e braços, até finalmente pôr para fora o que quer dizer. Como, porém, ele logra fazê-lo com frases curtas, adquiriu uma seriedade lacônica, de tal forma que tudo o que diz soa proverbial ou sentencioso, terminando, assim, por conferir um belo contraponto ao restante da ação, desenfreada e apaixonada.”

 

“Quisera eu poder mandar aos amigos ao menos um sopro dessa existência mais leve… Somente o clima estimular-me-ia a preferir o lado de cá ao lado de lá das montanhas, afinal, a terra natal e o hábito são grilhões poderosos.Eu não gostaria de morar aqui, bem como em lugar algum onde eu não tenha uma ocupação; no momento, o novo dá-me muito o que fazer (…) Deus do céu, como volto a comprazer-me de tudo o que sempre dei valor, desde a infância! Como estou feliz por ousar aproximar-me novamente dos escritores da Antigüidade! (…) Se não tivesse tomado a decisão de fazer o que agora estou fazendo, eu teria simplesmente perecido—a tal ponto amadurecera já em meu espírito o desejo de contemplar com meus próprios olhos esses objetos de arte. O conhecimento histórico não me animava, as coisas estavam a um palmo de distância, mas apartadas de mim por um muro impenetrável. Mesmo agora, a minha impressão não é, de fato, a de que as estou vendo pela primeira vez, mas sinto-me como se as estivesse revendo.”

[Bolonha, falando de Rafael ou de si]: “…a fim de conhecer bem Rafael, a fim de apreciá-lo com propriedade em vez de louvá-lo como a um deus que, como Melquisedeque, teria nascido mesmo  sem pai nem mãe, faz-se necessário examinar seus precursores, seus mestres. Estes tomaram pé no terreno sólido da verdade, deixaram com diligência e angústia os amplos alicerces e, competindo entre si, ergueram a pirâmide passo a passo até as alturas, até que, por fim, apoiado em todo esse trabalho prévio e iluminado pelo gênio celestial, Rafael depositou a última pedra no topo, aquela que nenhuma outra é capaz de igualar ou superar”.

 

“Tomara tivesse a sorte  conduzido Albrecht von Dürer mais para o Sul da Itália! Em Munique, vi uma ou duas obras dele de inacreditável grandeza. O pobre homem equivoca-se nos cálculos em Veneza… na viagem pela Holanda troca por papagaios as magníficas obras de arte com as quais pretendia fazer fortuna e, para economizar nas gorjetas, retrata os serviçais que lhe trazem um prato de frutas! A mim, comove-me profundamente um pobre de um artista assim, porque, no fundo, este é também o meu destino, a não ser pelo fato de que eu sei cuidar um pouco melhor de mim”.

…a arte é como a vida, quanto mais se avança por ela, mais ampla ela se faz. Em seu firmamento surgem sempre novas estrelas e incapaz que sou de avaliá-las, elas me confundem (…) Independentemente da confusão em que me encontro, sinto já que o exercício, o conhecimento direto e meu interesse começam a vir em meu auxílio nesses labirintos. Assim uma ´Circuncisão´ de Guercino impressionou-me muito, porque já o conheço e aprendi a amá-lo. Perdoei-lhe o caráter desagradável do objeto escolhido e deliciei-me  apenas com a execução…”

 

“… encontrei uma ´Santa Ágata´, uma pintura preciosa, embora em um estado de conservação não muito bom. O artista [ele supõe ser Rafael] conferiu-lhe um saudável e decidido aspecto virginal,  sem contudo dotá-lo de frieza ou rudeza. Guardei muito bem sua figura em minha mente e, em meu espírito, lerei para ela minha ´Ifigênia´, sem permitir que minha heroína diga uma única palavra que essa santa não desejasse pronunciar.” 

“Uma antiga observação voltou-me à mente aqui: a de que, no curso do tempo que tudo muda, o homem tem grande dificuldade em libertar-se daquilo que uma determinada coisa foi no passado, uma vez tendo ela se modificado. As igrejas cristãs seguem aferrando-se à forma de basílica, ainda que a do templo talvez favorecesse o culto em maior medida. Instituições científicas têm ainda o aspecto de mosteiros, porque foi nesse ambiente religioso que os estudos desfrutaram pela primeira vez de espaço e sossego. As salas dos tribunais italianos são tão amplas e altas quanto o permite a riqueza de uma comunidade; acreditamos estar na praça do mercado, ao ar livre, que é onde o direito era praticado no passado. E não seguimos construindo teatros enormes, abrigando sob um mesmo teto todo o seu aparato, como se se tratasse de uma barraca de feira montada com tábuas para durar pouco tempo?”

 

[Perúgia]: “…desde a partida de Veneza, a roca desta minha viagem já não fia livre e desembaraçada como antes”.

 

[Terni]: “Subi o Spoleto e estive no aqueduto que é, ao mesmo tempo, a ponte que conduz de uma montanha a outra… Essa é, pois, a terceira obra da Antigüidade que vejo pessoalmente,e a grandiosidade é sempre a mesma. Sua arquitetura é uma segunda natureza, atuando em consonância com os interesses dos cidadãos—assim é com o anfiteatro, o templo e o aqueduto. Somente agora sinto o quanto, e com que razão, as arbitrariedades sempre me foram detestáveis, como o Winterkasten em Weissenstein, por exemplo, um nada a serviço de coisa alguma, um confeito ornamental, e assim é com milhares de outras coisas. E tudo isso se ergue natimorto, pois o que não possui uma verdadeira existência interior não possui vida, tampouco podendo ser ou tornar-se grandioso.”

     Quanta alegria e quanta compreensão devo às últimas oito semanas! Mas também meu esforço não foi nada pequeno. Mantenho os olhos sempre abertos e registro bem em minha mente tudo o que vejo. Julgar, não desejo, tanto quanto me é possível não fazê-lo.”

                                “…a força da magia romana…”

                                “E, no entanto, prevejo que, quando tiver de partir,

                               desejarei que estivesse chegando.”

                              “…alegre veneração de sua grandeza…”

*****************ROMA******************************

 

“Finalmente posso abrir a boca  e saudar meus amigos com alegria. Perdoai-me o segredo e a viagem subterrânea, por assim dizer, até aqui. Mal ousava dizer a mim mesmo aonde estava indo; já a caminho, sentia medo ainda, e somente sob a Porta del Popolo tive certeza de que, afinal, teria Roma (…) Foi somente quando vi todos acorrentados ao norte de corpo e alma, quando vi desaparecer todo o anseio por estas paragens, que logrei decidir-me a fazer esta longa e solitária viagem em busca do centro para o qual me atraía uma necessidade irresistível. Sim, pois, nos últimos anos, esse anseio transformou-se numa espécie de doença da qual apenas a visão disto tudo e minha presença aqui podiam curar-me (…) Agora estou aqui, calmo, tranqüilizado para toda a vida, ao que parece. Sim, pois pode-se dizer que uma nova vida tem início quando se vê com os próprios olhos aquilo que, em parte, se conhece tão bem, por dentro e por fora. Todos os sonhos de minha juventude, vejo-os agora ganhar vida; as primeiras gravuras em cobre de que me lembro (meu pai pendurou vistas de Roma em uma ante-sala), eu agora as vejo de verdade, e tudo quanto eu conheço há tempos, de pinturas e desenhos, gravuras em cobre e madeira, em gesso e cortiça, apresenta-se agora reunido diante de mim; aonde quer que eu vá, encontro velhos conhecidos num novo mundo; tudo é como eu imaginava, e tudo é novo. A mesma coisa posso dizer de minhas observações, de minhas idéias. Nenhum pensamento inteiramente novo me ocorreu, mas os velhos tornaram-se tão definidos, tão vivos, tão coerentes, que poderiam passar por novos.” (Primeiro de Novembro de 1786)

“…não há maneira  de alguém se preparar para Roma senão em Roma (…) Quando contemplamos uma tal existência de mais de dois mil anos, modificada em tantos aspectos e tão profundamente pela mudança dos tempos—e, não obstante, ainda o mesmo solo, a mesma colina, ou até, com freqüência, a mesma coluna e as mesmas paredes, e, no povo,os vestígios do antigo caráter—fazemo-nos companheiros dos grandes desígnios do destino, de modo que, desde o início, se torna difícil para o observador acompanhar uma Roma seguindo-se à outra, e não apenas a nova à antiga, mas as diversas épocas de uma e outra sucedendo-se (…) E essa enormidade que é Roma possui um efeito tranqüilizador sobre nós, ao corrermos para lá e para cá pela cidade, em busca da mais elevada arte. Noutras partes, tem-se de procurar o que é significativo; aqui, ele se impõe sobremaneira, inundando-nos.”

 

“Na basílica de São Pedro, logrei compreender como a arte, assim como a natureza, é capaz de abolir toda e qualquer noção comparativa de medida.”

“… não se tem, se não se está em Roma, a menor idéia de como se é nela escolado. É preciso renascer, por assim dizer, e então as idéias que se tinha antes serão vistas como sapatinhos de criança.”

“O renascimento que me transforma de dentro para fora segue seu curso. Por certo, eu acreditava que fosse aprender de verdade aqui; mas não pensei que fosse ter de voltar à escola primária, que precisaria desaprender, ou verdadeiramente reaprender tanto. Disso já me encontro agora convencido, tendo-me entregado por completo a esse aprendizado e quanto mais me vejo obrigado a negar a mim mesmo, tanto mais me alegro. Sou como um arquiteto que, desejando construir uma torre, escolhe uma fundação ruim; a tempo, apercebe-se disso e demole o quanto já erguera; busca, então, ampliar e aperfeiçoar seu projeto, dar-lhe alicerces mais seguros e compraz-se já, de antemão, da indubitável solidez da futura construção. Conceda-me o céu que, quando do meu retorno, também as conseqüências morais resultante desta minha vida num mundo mais amplo se façam sentir, pois, justamente com a percepção para a arte, também o meu senso moral vem passando por grande renovação.”

 

“Vivo aqui numa paz e clareza mental que havia muito não sentia. Minha prática de buscar ver e ler todas as coisas como elas são, minha fidelidade ao propósito de ter os  olhos sempre límpidos, meu completo despojamento de toda pretensão mais uma vez são de grande valia para mim, fazendo-me, em segredo, muito feliz (…) Quem, com seriedade, põe-se aqui a olhar em torno e tem olhos para ver, há de tornar-se sólido, há de apossar-se de uma idéia de solidez que jamais se lhe fez tão vívida (…) alcançando uma seriedade desprovida de aridez, uma alegre serenidade (…) Alegro-me das abençoadas conseqüências que isso trará para toda a minha vida(…) Não estou aqui para me divertir, quero aplicar-me no estudo das grandes coisas, aprender e me desenvolver, antes de chegar aos quarenta anos.”

 

“Na Farnesina, vi a história de Psique, cujas reproduções coloridas alegram meus aposentos há tanto tempo; depois,em S. Pietro in Montorio, a ´Transfiguração´ de Rafael. Velhas conhecidas, como amigos que fazemos por carta no exterior e, então, conhecemos pessoalmente. Mas a convivência é algo inteiramente diferente: concordâncias e discordâncias revelam-se de imediato.”

 

“Já me haviam falado sobre o abade Monti e sua Aristodemo (…) O herói, como se sabe, é um rei de Esparta que, devido a toda sorte de escrúpulos a atormentar-lhe a consciência,se suicida, e, de forma delicada,deram-me a entender que o autor de Werther decerto não levaria a mal se encontrasse algumas passagens de sua primorosa obra repetidas na peça. Assim, nem mesmo dentro dos muros de Esparta, pude escapar dos irados transes desse desafortunado jovem.”

 

“…Michelangelo conquistou-me de tal maneira que,no momento, nem mesmo a natureza me apetece tanto, já que não posso vê-la com tão grandes olhos quanto os seus. Quem dera houvesse um jeito de podermos fixar essas imagens na própria alma!”

 

“Nada há, de fato, que se compare à nova vida que a contemplação de uma terra estranha descortina no homem afeito à reflexão. Embora eu siga sendo sempre a mesma pessoa, creio ter mudado até os ossos (…) de modo que considero o dia em que cheguei a Roma como a data do meu segundo nascimento, de um verdadeiro renascimento”.

“…estou velho demais para tudo, menos para o que é verdadeiro”.

“Os jovens artistas, acostumados a minhas obras anteriores, mais impetuosas e incisivas, esperavam por algo como o Berlichingen, não logrando se encontrar de pronto no andamento mais calma de Ifigênia… Tischbein, também ele mal podendo compreender essa renúncia quase total à paixão, saiu-se com um gracioso símile ou símbolo. Comparou-a a um sacrifício cuja fumaça, impedida de subir por uma suave pressão do ar, desliza pelo chão,  enquanto a chama busca mais livremente ganhar as alturas (…) Assim, esse trabalho que eu acreditava terminar logo me entreteve  e me deteve por todo um trimestre, ocupando-me e atormentando-me. Não é a primeira vez que me dedico apenas paralelamente ao que há de mais importante…”

 

“Torna-se para mim,agora, cada vez mais difícil prestar contas de minha estada em Roma; assim como o mar se faz cada vez mais profundo quanto mais o adentramos, assim acontece comigo na contemplação desta cidade.”

 “…segundo as leis de que se vale a natureza, aquelas em cujo encalço me encontro.”

“Da  beleza de se percorrer Roma em  plena luz da luz não fará idéia quem jamais a viu assim. Todos os detalhes são engolidos pelas grandes massas de luz e sombra, de modo que somente as formas maiores e mais gerais apresentam-se aos nossos olhos… Visão de suprema beleza oferece o Coliseu. Ele é fechado durante a noite… os mendigos aninham-se sob as arcadas em ruínas. Estes haviam acendido uma fogueira no chão, e uma brisa calma soprava a fumaça rumo à arena, de modo a recobrir a porção inferior das ruínas e salientar, na escuridão, as gigantescas muralhas acima; nós estávamos postados junto à grade,  contemplando o fenômeno, a lua alta e luminosa. Pouco a pouco, a fumaça foi atravessando as paredes, vãos e aberturas, com a lua a iluminá-la feito se tratasse de uma névoa. A visão foi preciosa. Assim, sob essa luz é que se deveria ver o Panteão, o Capitólio, o átrio da basílica de Sã Pedro e outras grandes ruas e praças. E assim é que o sol e a lua, tal qual o espírito humano, têm aqui um papel bastante diferente daqueles que desempenham em outros lugares–aqui, onde massas gigantescas, mas de formas bem definidas, apresentam-se ao seu olhar.”

[em Fondi, belas soluções aliterativas do tradutor]: “Peço perdão pela pena apressada. A fim de poder apenas escrever, sou obrigado a escrever sem pensar”.

 

******************* NÁPOLES*************************

25 de fevereiro de 1787:

“O napolitano acredita-se dono do paraíso e tem dos países do Norte uma idéia bastante triste: ´Sempre neve, case di legno, gran ignoranza, ma danari assai´. Essa é a imagem que ele tem de nossa condição. Para a edificação de todos os povos alemães, eis a tradução dessa caracterização: ´Sempre neve, casas de madeira, grande ignorância, mas dinheiro de sobra´.”

“Não estou à procura de aventuras em virtude de uma curiosidade leviana ou esquisitice, mas, como em geral tenho clareza de pensamento e logro rapidamente extrair de cada objeto sua singularidade, posso fazer e ousar mais do que outras pessoas.”

“De tremores de terra, nada se sente agora na porção inferior da Itália; no Norte, Rimini e localidades vizinhas foram afetas em data recente. Terremotos têm humores estranhos, e aqui se fala deles como se fosse do vento ou do tempo, ou como, na Turíngia, falam dos incêndios.”

“Alegra-me que estejais agora vos familiarizando com a nova versão de Ifigênia; mais contente ter-me-ia deixado se a diferença vos houvesse parecido mais perceptível. Sei o que fiz com a peça, e posso falar a respeito porque poderia avançar ainda mais nas modificações. Se desfrutar do bom causa alegria, alegria maior dá saborear do melhor e, na arte, apenas o melhor é bom o suficiente”;

 

“…um homem excelente que conheci por esses dias. Trata-se do cavaleiro Filangieri, famoso por sua obra sobre legislação. Pertence ele à classe daqueles jovens veneráveis que mantém os olhos voltados para a felicidade e a liberdade dos homens (…) O cavaleiro  logo apresentou-me um antigo escritor em cujas insondáveis profundezas esses jovens italianos amantes da justiça encontram ânimo e instrução; ele se chama Giovan Batista Vico, e eles o preferem a Montesquieu. Uma rápida leitura do livro, que me passaram qual se tratasse de uma relíquia sagrada, deu-me a impressão de ter encontrado  ali antevisões sibilinas do bom e do justo que um dia virão, ou deveriam vir, antevisões estas baseadas na rigorosa contemplação da tradição e da vida. É muito bonito que um povo tenha um tal homem por antepassado.”

“Lembro-me ainda de outros desses comentários jocosos,os quais, no entanto, não tenho coragem de relatar. Provindos de uma boca bonita e na vida real, eles são perfeitamente admissíveis,mas em preto e branco já nem a mim agradam. Ademais, a ousadia insolente tem por particularidade o fato de proporcionar alegria somente no momento em que ocorre e devido ao espanto que causa; se narrada, porém, ela nos parece ofensiva e repugnante.”

 

“Nápoles inspira desleixo e tranqüilidade no viver; ainda assim, vou adquirindo pouco a pouco uma imagem mais completa da cidade.

    No domingo, estivemos em Pompéia. Muita desgraça já aconteceu no mundo, mas poucas capazes de causar tanta alegria à posteridade. Não saberia dizer com facilidade o que existe de mais interessante do que Pompéia.”

[alguns dos nossos acompanhantes]“…julgando que seria impossível viver sem aquela vista para o mar. A mim, basta-me ter essa imagem guardada em mim e, quando chegar a hora, retornar às montanhas.

   Felizmente, temos aquium excelente pintor de paisagens {Christoph Henrich Kniep], capaz de comunicar ao papel a sensação provocada por esta vasta e rica região. E ele já fez alguns trabalhos para mim.

   Já pude estudar bem o material colhido no Vesúvio; tudo se torna diferente quando examinado em seu conjunto. Na verdade, eu deveria dedicar o resto de minha vida à observação; descobriria coisas que talvez contribuissem para ampliar o conhecimento humano. Informar, por favor, a Herder que sigo aprofundando minhas investigações botânicas; o princípio é sempre o mesmo, mas seria necessária toda uma vida para desenvolvê-lo. Talvez eu ainda possa traçar-lhe as linhas básicas.”

“Com sua costumeira e decidida sinceridade, Hackert me disse: ´O senhor possui habilidade, mas não consegue fazer coisa alguma. Fique comigo dezoito meses e produzirá coisas que darão alegria ao senhor e a outros homens´. Não é esse um texto sobre o qual se deveria fazer uma pregação eterna a todos os diletantes?…

     Testemunho da confiança particular com que a rainha o honra é não apenas o fato de Hackert dar aulas práticas às princesas,mas sobretudo o fato de ser convocado com freqüência à noite para conduzir conversas instrutivas sobre arte e de tudo quanto a cerca. Nelas, toma como base o dicionário de Sulzer, escolhendo um ou outro verbete, segundo sua vontade e convicção.

     Não pude deixar de aprovar tal prática e de rir de mim mesmo. Que diferença há entre um homem que deseja edificar-se de dentro para fora e outro que pretende atuar sobre o mundo e instruí-lo para uso doméstico! Sempre detestei a teoria de Sulzer em virtudede sua equivocada premissa básica, e pude ver agora que essa obra contém muito mais do que as pessoas necessitam.”

“Nápoles é um paraíso, todos vivem numa espécie de esquecimento embriagado de si próprios. Assim é comigo também, que mal me reconheço; pareço a mim mesmo uma pessoa totalmente diferente. Ontem  pensei comigo: ´Ou você era louco antes, ou tornou-se agora´.”

É somente nessa região que se apreende o  que é, de fato, vegetação e por que razão se cultiva a terra.”

“Em duas semanas estará decidido se vou para a Sicília. Nunca antes oscilei dessa maneira tão estranha na tomada de uma decisão. Um dia ocorre algo que me aconselha a ir; no dia seguinte, uma circunstância qualquer desaconselha-me a viagem. Dois espíritos brigam por mim.”

 

“Noto que minha Ifigênia teve destino peculiar; estavam todos muito acostumados à forma original, conheciam as palavras, ouvidas e lidas com freqüência e, assim, absorvidas; agora tudo soa diferente, e vejo que, no fundo, ninguém me agradece pelo infindável esforço (!!??). Um trabalho assim jamais ficará pronto, na verdade, tem-se de dá-lo por terminado depois de ter feito o máximo possível, tomando-se em conta o tempo despendido e as circunstâncias.

   Isso, porém, não há de me desencorajar a empreender com o Tasso operação semelhante. Preferiria queimá-lo; mas persistirei na minha decisão, e, não havendo outro jeito, façamos dele uma obra estranha.”

“Se em Roma, o que se deseja é estudar, aqui se quer apenas viver; esquecemos de nós mesmos e do mundo, e causa-me uma sensação peculiar conviver tão-somente com pessoas dispostas a gozar a vida. Depois de tanta paixão pela arte e de um tão longo estudo da natureza, o cavaleiro Hamilton, que segue ainda vivendo aqui na qualidade de embaixador inglês, encontrou agora numa bela moça o ápice de toda a alegria proporcionada pela natureza e pela arte.”

“Quando me ponho a escrever, o que vejo diante dos olhos são sempre imagens da terra fértil, do mar aberto, das ilhas enevoadas, da montanha fumegante, e meus sentidos não bastam para descrever tudo isso. Somente aqui é se compreende como pôde ocorrer ao homem cultivar a terra… Vi muitas coisas, e refleti ainda mais: o mundo vai se abrindo mais e mais, e, mesmo aquilo que já sei há muito tempo, somente agora faz-se de fato meu. Que criatura de saber precoce e prática tardia é o homem.”

“Sintetizo tudo quanto posso, e levo muito de volta comigo, incluindo-se aí, por certo, o amor pela pátria e a alegria de viver com poucos amigos.

     Quanto à minha viagem à Sicília, os deuses têm ainda nas mãos os dois pratos da balança, o fiel oscilando entre um lado e outro.”

Às vezes penso em Rousseau e em suas lamúrias hipocondríacas e, com efeito, faz-se-me compreensível como uma organização tão bela pôde desordenar-se. Não sentisse eu tamanho interesse pelas coisas da natureza, não visse que, em meio à aparente confusão, centenas de obsrvações deixam-se comparar e ordenar–e do mesmo modo como o agrimensor verifica diferentes medições isoladas com o auxílio de uma única linha– eu decerto, e com freqüência, tomaria a mim mesmo por maluco.”

[no Vesúvio]:

“Por mais que tenhamos ouvido falar de uma coisa, sua peculiaridade somente se nos apresenta de fato mediante a observação direta. A torrente de lava era estreita, de largura não superior a 10 pés, mas a maneira como ela escorria por uma superfície suave, relativamente plana, chamava bastante a atenção; e isso porque, resfriando-se nas laterais e na superfície em seu contínuo escorrer, ela forma um canal a erguer-se mais e mais, pois também o material fundido solidifica-se embaixo da torrente de fogo, a qual vai em igual medida lançando à esquerda e à direita a escória a flutuar na superfície, o que faz com que um dique vá aos poucos se erguendo, e é por ele que a torrente incandescente vai fluindo sossegada, como se fosse um regato. Seguimos ladeando o dique já relativamente elevado, a escória rolando com regularidade pelas laterais aos nosso pés. Atraés de algumas lacunas no canla, pudemos ver de baixo o fluxo incandescente e, conforme ele seguia escorrendo, observá-lo de cima também… Eu queria aproximar-me do ponto no qual a lava jorra da montanha… Arriscamos ainda alguns passos,mas o chão fazia-se cada vez mais em brasa; sufocante e obscurecendo o ar, remoinhava uma fumaça intransponível.O guia, que fora na frente, logo deu meia-volta, agarrou-me e escapamos daquele inferno.”

“O mais magnífico pôr-do-sol e um anoitecer celestial reanimaram-me no caminho de volta;pude, contudo, sentir quão perturbador um contraste tão gigantesco pode vir a ser. O terrível e o belo, o belo e o terrível, ambos anulando-se para produzir uma sensação de indiferença. Com certeza, o napolitano seria um outro homem se não se sentisse encurralado entre Deus e Satanás.”

 

“Não fosse pela índole alemã e pelo desejo de aprender e fazer sempre mais, em vez de gozar a vida, eu talvez devesse permanecer pormais algum tempo aqui, nesta escola do viver com leveza e alegria… Decerto, quem tem temo, habilidade e fortuna pode também aqui se fixar com conforto. Assim foi que Hamilton construiu em Nápoles uma bela vida, da qual agora goza, no crepúsculo de seus dias. Os cômodos, que mobiliou ao gosto inglês, são adoráveis, e a vista da sala de canto, única talvez. Abaixo, o mar; à frente, Capri; à direita, Posilipo; mais próximo, o passeio de Villa Reale; à esquerda, uma antiga construção dos jesuítas e, mais adiante, a costa, de Sorrento até o cabo Minerva. Dificilmente se encontrará em toda a Europa algo semelhante, decerto não no centro de uma grande e populosa cidade.”

“… eu, particularmente, necessito bastante da amplidão…”

“Por certo, melhor seria não retornar, se não posso fazê-lo renascido.”

“Meu relacionamento com Kniep já se definiu e se consolidou de forma bastante prática… Combinamos, pois , o seguinte. De hoje emdiante, vamos viver e viajar juntos, sem que ele tenha que se preocupar com outra coisa que não seja desenhar o que virmos. Todos os esboços serão de minha propriedade, mas, a fim de que daí resulte um prosseguimento de sua preocupação quando de nosso regresso, ele executará alguns trabalhos para mim até uma determinada soma, finalizando alguns quadros…”

“Favor dizer a Herder que estou próximo da solução do problema da planta primordial…”

“… na quinta-feira, dia 29 de março, finalmente parto para Palermo… A dúvida quanto a ir ou ficar perturbou uma parte de minha estada aqui; agora, porém, que já me decidi, sinto-me melhor. Para uma índole como a minha, essa viagem é sauda´vel e mesmo necessária; a Sicília remete-me à Ásia e à África, e poder estar eu próprio no maravilhoso centro para onde convergem tantos raios da história mundial não é pouca coisa. Nápoles, eu a tratei à sua própria maneira; fui tudo, menos aplicado, mas vi muita coisa e pude formar uma idéia geral do lugar, de seus habitantes e das condições de vida aqui… De modo geral, há aqui um anseio e uma vontade muito grande voltadas para a aquisição de cultura e saber. As pessoas, contudo, são felizes demais para encontrarem o caminho certo…”

“Decerto estou aprendendo a viajar com esta viagem, mas, se estou aprendendo a viver, não sei. As pessoas que parecem saber fazê-lo são de natureza e temperamento deveras distintos dos meus para que eu possa alimentar qualquer pretensão de possuir eu próprio esse talento.”

“Essa noite, sonhei de novo  com minhas ocupações. De fato, eu não poderia descarregar meu barco de faisões em outra parte que não em vossas praias. Possa ele, pois, ser carregado condignamente!”

Viagem de barco de Nápoles à Sicília:

“…logo atacou-me um enjôo. Recolhi-me a meu quarto, decidi-me pela posição horizontal e, além de pão branco e vinho tinto, abstive-me de qualquer outra comida ou bebida, sentindo-me então bastante confortável. Apartado do mundo exterior, deixei viger o interior e como era de se prever que a viagem seria lenta, impus-me logo, a título de significativo entretenimento, tarefa das mais pesadas.  De todos os meus escritos, trouxera comigo para a travessia apenas os dois primeiros atos do Tasso, escritos em prosa poética. Ambos esses atos, mais  ou menos similares à versão atual no tocanto a enredo e desenvolvimento, mas escritos dez anos atrás, tinham algo de incerto e nebuloso, algo, poém, que não tardou a desaparecer tão logo eu, munido de novas concepções, permiti que a forma imperasse e o ritmo surgisse.”

“Arrisquei-me algumas vezes a subir ao convés, sem contudo abandonar meu propósito  literário e tinha já a peça toda sob relativo controle (…) O plano de minha peça havia prosperado bastante ao longo desses dias na barriga da baleia. Sentia-me bem e pude, então, do convés, admirarcom atenção a costa siciliana.”

 

*****************SICÍLIA *****************************************

“… se existe algo que tenha sido decisivo para mim, essa viagem o foi…”

“A Itália sem a Sicília não forma em nossa alma um quadro completo; somente aqui se tem a chave para o todo”.

Palermo:

“Satisfeitíssimos com a localização de nosso quarto, mal notamos a presença, no fundo, de uma alcova elevada, oculta por cortinas e contendo a mais ampla das camas, a qual, ostentando um dossel de seda, encontrava-se em perfeita harmonia com o restante da mobília, toda ela antiga e imponente. De certo modo, a suntuosidade do aposento embaraçou-nos, e nós, como de costume, quisemos negociar as condições. O velho disse, porém, que aquilo não era necessário e que desejava apenas que nos sentíssemos bem em sua hospedaria. Podíamos, ademais, fazer uso da ante-sala, que, fresca e arejada, dispunha de várias sacadas e ficava bem ao lado de nosso quarto. Deleitamo-nos com a variedade infinda da paisagem e procuramos registrá-la em pinturas e desenhos, pois o que se pode ver aqui é uma fonte inesgotável para todo e qualquer artista.”

“A primeira coisa que fizemos foi examinar melhor a cidade, que, embora possa ser contemplada com facilidade em seu todo, é difícil de se conhecer em detalhes … o interior da cidade confunde o forasteiro, que somente logra se encontrar nesse labirinto com o auxílio de um guia.

    Ao anoitecer, dedicamos nossa atenção à fileira de coches do conhecido passeio dos mais nobres em direção ao ancoradouro, para onde se dirigem à cata de ar fresco, conversação e, talvez, algum galanteio.”

“Quem nunca se viu rodeadopelo mar não temidéia do que seja omundo e sua relação com ele. Como desenhista de paisagens, essa grande e simples linha do horizonte infundiu-me pensamentos inteiramente novos.”

“Inexistem palavras para descrever a claridade vaporosa que pairava ao longo da costa quando, no belíssimo entardecer, navegávamos rumo ao porto de Palermo.  A pureza dos contornos, a suavidade do todo, a variedade de tons cedendo lugar uns aos outros, a harmonia entre  céu, mar e terra. Quem o viu jamais se esquece. Somente agora entendo os quadros de Claude Lorrain e tenho esperança de um dia, de volta ao Norte, extrair de minha alma silhuetas deste lugar feliz. Se ao menos toda a pequenez pudesse ser daí extirpada, assim como expurguei da minha idéia do desenho a pequenezdos tetos de palha! Veremos, pois, o que esta rainha das ilhas é capaz de fazer.”

“…por todo o vale a sensação de uma paz revigorante, para mim estorvada pela erudição de um guia inábil a narrar em detalhes…os monstrujosos atos de guerra perpetrados naquele local. Inamistoso, censurei-lhe a evocação fatal de tais fantasmas do passado. Era já ruim o bastante que as semeaduras  fossem de tempos em tempos pisoteadas, ainda que nem sempre por elefantes, decerto por cavalos e homens, disse-lhe, de modo que podíamos ao menos não despertar a imaginação de seus sonhos pacíficos com a  recordação tardia de semelhante balbúrdia.”

“…Ao contrário do que ocorre em Roma, a arquitetura  aqui não é governada por um espírito artístico, as construções adquirem forma e existência unicamente graças ao acaso.  Uma  fonte admirada por toda a população da ilha decerto inexistiria, ão fosse pelo fato de a Sicília possuir um mármore bonito e colorido, e de um escultor exímio no trabalho com figuras animais ter outrora desfrutado de alguns favorecimentos (…) Algo semelhantese verifica com as igrejas, nas quais se excede até mesmoo gosto dos jesuítas pela suntuosidade, o que, no entanto, não se dá em consonância com algum princípio ou propósito, mas por mera casualidade, segundo aquilo que um eventual artífice, entalhador de figuras ou plantas, dourador, envernizador ou marmoreador foi capaz e tenha desejado fazer num determinado lugar, sem qualquer noção de bom gosto ou orientação. Nao obstente, encontra-se aí uma habilidade  para a imitação das coisas da natureza… Com isso, é certo, desperta-se admiração na multidão, cujo gosto pela arte consiste tão-somente em poder comparar o objeto imitado com seu original.”

No local de devoção a Santa Rosália: “Na caverna, o canto dos padres silenciou, a água gotejava e juntava-se no reservatório bem ao lado do altar; os rochedos salientes do vestíbulo e da nave propriamente dita da igreja restringiam ainda mais a cena. Reinava um grande silêncio nesse deserto,  por assim dizer; de novo despovoado, uma grande pureza numa caverna selvagem; o brilho falso do serviço religioso católico, e sobretudo siciliano, fazendo-se ainda mais próximo  de sua natural singeleza; a ilusão produzida pela figura adormecida [uma imagem da santa], encantadora mesmo a olhos experimentados. Enfim, somente com  dificuldade logrei afastar-me daquele lugar …”

“Passei horas calmas e agradabilíssimas no jardim público, bem junto ao ancoradouro. Trata-se do lugar mais maravilhoso do mundo. Embora de um desenho regular, ele parece mágico; plantado há não muito tempo, transporta-nos para a Antiguidade (…) o que conferia ao todo uma graça bastante singular era uma forte névoa espalhando-se uniformemente sobre todas as coisas e produzindo um efeito tão curioso que os objetos, ainda que distantes apenas alguns passos uns dos outros, apresentavam-se destacados por um azul-claro, perdendo, por fim, sua cor própria ou, pelo menos, exibindo-se aos olhos do observador com uma acentuada coloração azulada (…) O que se via não era mais a natureza, mas somente imagens, como as que um pintor de grande excelência teria sabido destacar umas das outras mediante gradações de verniz.

   Contudo, a impressão causada em mim por aquele jardim maravilhoso foi demasiado profunda; as ondas escuras no horizonte ao norte, seu anseio pelas curvas da baía e mesmo o cheiro da própria evaporação marinha–tudo isso me trouxe à mente e à memória a ilha dos bem-aventurados feácios. De pronto corri a comprar um Homero, a fim de ler com grnde devoção aquele canto e, de improviso, traduzi-lo para Kniep..”

Um diálogo:

“E como vai aquele homem, jovem e caloroso à minha época, que era capaz de fazer chover  na cidade? Esqueci seu nome, mas bastará dizer que se trata do autor de ´Werther´.

A pessoa sobre a qual o senhor muito gentilmente pergunta sou eu mesmo.

Então muita coisa deve ter mudado!

Ah sim!, entre Weimar e Palermo passei por muitas mudanças.”

“… nem o mau gosto nem o refinamento brotam diretamente de um único homem ou de uma única época; para ambos pode-se, com alguma dedicação, construir uma árvore genealógica que nos conduza à sua origem.”

“Aproximamo-nos do castelo  [do príncipe de Palagônia]…Qual num cemitério em ruínas, vêem-se ali vasos de mármore herdados do pai e ostentando estranhas e tortuosas formas, anões e outras aberrações de tempos mais recentes, tudo disposto ao acaso… O contra-senso de um tal mau-gosto  no modo de pensar exibe-se em seu grau máximo no fato de que as cornijas das edificações menores pendem tortas para um ou outro lado, de modo que se rompe em nós, atormentado, o senso do nivelamento horizonta e da perpendicularidade, que, na verdade, nos faz seres humanos e encontra-se na base  de toda eurritmia…”

“…o mosteiro de S. Martino é uma construção  respeitável. Um celibatário raras vezes logrou produzir sozinho algo sensato, como se vê pelo príncipe de Palagônia; vários deles juntos, porém, deram origem às obras mais grandiosas, como o demonstram igrejas e mosteiros. Contudo, essas sociedades religiosas decerto tiveram uma atuação tão intensa somente porque, mais ainda  do que qualquer pai de família, estavam seguras de uma descendência ilimitada.”

Máxima de um comerciante de Palermo: “Nossas loucuras, nós as pagamos nós próprios, e com grande prazer; mas, para as nossas virtudes, os outros que nos dêem o dinheiro”.

Após visitar–sob falso pretexto–a humilde e camponesa família do impostor Cagliostro [aquele do caso do colar da rainha da França], figura que fascinava Goethe. A mãe de Cagliostro, acreditando que ele era amigo do filho, pediu-lhe que o lembrasse de uma dívida:

“Minha primeira intenção foi remeter-lhe, antes de minha partida,aquelas catorze onças que o fugitivo lhe ficara devendo… quando, porém, pus-me a fazer as contas em casa, examinando dinheiro e papéis, vi que num país onde a deficiência de comunicação torna as distâncias infinitas, por assim dizer, eu estaria me colocando em apuros ao arrogar-me a possibilidade de corrigir a injustiça de um desavergonhado mediante um ato de sincera bondade”.

“Verdadeiro infortúnio é ser perseguido e tentado por tantos espíritos! Hoje cedo, rumei para o jardim púbico com o firme e calmo propósito de dar prosseguimento a meus sonhos poéticos, mas, antes mesmo que pudesse me dar conta, apanhou-me um outro fantasma que já andava à minha espreita nos últimos dias… À visão de tantas formas novas e renovadas de plantas, voltou-me a mente a velha fantasia de poder, talvez,  descobrir aqui, em meio a toda essa variedade, a planta primordial. Afinal, tem de haver uma tal planta! Do contrário, como poderia eu reconhecer que esta ou aquela forma constitui uma planta, se não  obedecessem  todas elas a um mesmo modelo? (…) Meu  bom propósito poético fora perturbado, o jardim de Alcínoo desaparecera e um jardim universal abrira-se em seu lugar. Por que somos nós, os modernos, tão dispersos? Por que somos tentados a desafios que não podemos enfrentar ou vencer?” Uma das chaves do comportamento fáustico, pois não?

 

“Desfrutei da mais magnífica manhã [em Girgenti] junto à janela, ao lado de meu amigo secreto e silente, mas não mudo. Por respeitosa timidez, não mencionei até agora o nome do mentor a quem, de tempos em tempos, dirijo meu  olhar e minha atenção; trata-se de Von Riedesel, esse excelente homem cujo livrinho eu trago junto do peito qual um breviário ou talismã. Sempre apreciei espelhar-me nessas criaturas possuidoras daquilo que me falta, e assim é também nesse caso: serenidade de propósito, certeza da meta, meios límpidos e apropriados, preparo e conhecimento, estreita relação com um mestre e seus ensinamentos—Winckelmann. Tudo isso me falta, e falta-me ainda tudo quanto daí brota.E, no entanto, não posso me recriminar por tentar capturar, tomar de assalto e com astúcia o que, pelas vias habituais, me foi negado durante toda a vida. Que aquele excelente homem possa sentir neste momento, em meio ao tumulto do mundo, quanto um agradecido seguidor festeja-lhe os méritos, só e no local solitário que também para ele tantos encantos possuía que desejou mesmo passar sua vida aqui, esquecido e esquecendo-se dos seus…”

 

[Caltanissetta]: “…onde tornamos a procurar em vão por uma hospedaria ao menos razoável (…) medidas  tiveram de ser tomadas sobretudo por causa da comida. Ainda a caminho, nós havíamos comprado uma galinha, e o vetturino saiu para comprar arroz, sal e temperos, como nunca estivera antes na cidade, ficamos um longo tempo sem saber onde poderíamos cozinhar, já que a própria hospedaria não oferecia essa possibilidade. Por fim, um cidadão de mais idade dignou-se a, em troca de uma pequena importância, nos ceder fogão, lenha e utensílios de cozinha e mesa, e também, enquanto se preparava a comida, a nos mostrar a cidade e, por fim,  a praça do mercado, onde, à maneira da Antiguidade, os cidadãos mais respeitados encontravam-se sentados, conversando e dispostos a entreter-se conosco também. Tivemos de falar-lhes sobre Frederico II e demonstraram um tão ávido interesse por esse grande rei que nada dissemos sobre sua morte, de modo a não nos fazermos odiosos aos olhos de nossos anfitriões com uma notícia assim tão desditosa”.

 

[em viagem]: “Por esse vale cultivado de forma tão desigual, embora destinado pela natureza a uma fertilidade constante, descíamos algo aborrecidos sobre nossos cavalos, pois, tendo já suportado tantas intempéries, nada vimos que viesse ao encontro de nossos propósitos pictóricos. Kniep esboçou uma bela paisagem longínqua, mas, demasiado horríveis que eram o plano intermediário e o fundo, meteu-lhe, com bom gosto e zombaria, um primeiro plano à Poussin, o que não lhe custou coisa alguma e transformou o desenho num quadrinho bastante bonito. Quantas excursões pictóricas não conterão semelhantes meias verdades?”

 

[Catânia]: “Fomos levados até o príncipe, que, conforme já me haviam dito, nos mostrou sua coleção de moedas num ato de especial confiança, visto que tanto seu pai, no passado, quanto ele próprio, depois, haviam perdido várias delas ao exibi-las dessa maneira, o que reduziu em certa medida sua habitual boa vontade em mostrá-las (…) Aprendi um pouco mais, valendo-me daquele duradouro fio condutor winckelmanniano que nos guia pelas diversas épocas da história da arte…”

 

“Nosso acompanhante clerical não nos faltou. Levou-nos a visitar as ruínas de antigas construções cuja contemplação, porém, demanda do observador um grande talento de restaurador. Mostrou-nos os restos de reservatórios de água, de uma naumaquia e outras ruínas de caráter semelhante, as quais, no entanto, em virtude da repetida destruição da cidade pelas lavas, terremotos e pela guerra, encontram-se de tal forma soterradas ou afundadas que somente ao profundo conhecedor da arquitetura antiga poderão proporcionar alegria e ensinamento”.

 

[Taormina]: “Agradeço a Deus pelo fato de tudo o que vimos hoje já ter sido suficientemente descrito e, mais ainda, pelo fato de Kniep ter se proposto a passar o dia todo de amanhã desenhando. Quando se sobe até o topo das paredes rochosas que, não distantes da praia, alçam-se íngremes às alturas, encontram-se ali dois cumes interligados por uma meia-lua. Qualquer que seja o aspecto que lhes tenha dado a natureza, a arte deu-lhe uma ajuda, construindo aí o semicírculo de um anfiteatro; muros e construções suplementares em tijolo foram acrescidos, provendo as necessárias passagens e salões. Ao pé dos degraus em semicírculo, construíram a cena de maneira transversal, unindo assim, ambos os rochedos e concluindo a gigantesca obra da natureza e da arte.

      Se nos sentamos no ponto mais elevado onde outrora ficavam  os espectadores, temos de admitir que jamais um público de teatro desfrutou de semelhante visão…”

 

[Messina]: “… na verdade, o assim chamado lápis-lazúli das colunas não será senão calcara, mas de uma cor tão bela como eu jamais havia visto,e magnificamente composto. Mesmo sabendo disso, contudo, as colunas permanecem dignas de respeito e admiração, pois uma quantidade imensa daquele material faz-se necessária a fim de que se possam encontrar pedaços tão belos e de mesma cor, e, por fim, o trabalho de cortar, alisar e polir é de grande importância. Mas o que era impossível aos jesuítas?”

 

[no mar]:

 

“…chamaram nossa atenção para um movimento na água, à esquerda, a uma distância  razoável, e, à direita,algo mais próximo, para um rochedo destacando-se na costa—o primeiro era Caribdis; o segundo, Cila. Vez por outra, reclamam da fantasia do poeta, por haver ele aproximado tanto coisas que, na natureza, erguem-se tão distantes uma da outra; desconsideram, porém, que a imaginação dos homens, quando deseja representar objetos emprestando-lhes grande significado, figura-os mais altos do que largos, conferindo, assim, ao quadro maior caráter, seriedade e dignidade. Milhares de vezes ouvi reclamarem que um objeto conhecido apenas por intermédio de narrativas não satisfaz quando contemplado em sua realidade; a causa disso é sempre a mesma: imaginação e realidade relacionam-se do mesmo modo que poesia e prosa—a primeira conceberá os objetos como portentosos e elevados; a segunda espraiar-se-á sempre no plano horizontal. Os pintores de paisagens do século XVI, se comparados aos nossos, oferecem um exemplo notável disso. Um desenho de Joos de Momper ao lado de um esboço de Kniep tornaria evidente o contraste.

     Entretínhamo-nos, pois, com conversas sobre esses assuntos e outros similares, uma vez que a paisagem costeira, a qual Kniep já se preparara para desenhar, não pareceu atraente o bastante nem mesmo a ele.

       Quanto a mim, acometeu-me mais uma vez a desagradável sensação provocada pelo enjôo e, ao contrário do que ocorrera quando de nossa travessia anterior, dessa vez meu estado não se deixou amenizar por intermédio de um confortável recolhimento… Nessa condição, toda a nossa viagem pela Sicília apresentou-se-me sob uma luz nada favorável. Na verdade, não havíamos visto senão vãs tentativas dos homens de se defender da violência da natureza, da pérfida maldade do tempo e do rancor de suas próprias e hostis diferenças. Cartagineses, gregos, romanos, e tantos outros povos que os seguiram, construíram e destruíram. Selinunte foi metodicamente posta abaixo; dois mil anos não foram suficientes para derrubar os templos de Girgenti, mas umas poucas horas, quando não poucos instantes, bastaram para arruinar Catânia e Messina. Não deixei, contudo, que essas considerações verdadeiramente mareadas de alguém a balançar nas ondas da vida tomassem conta de mim.”

 

“E assim a tarde se foi, sem que, conforme desejávamos, alcançássemos o golfo de Nápoles. Ao contrário, fomos sendo compelidos cada vez mais para oeste, e o navio, aproximando-se da ilha de Capri, foi se afastando mais e mais do cabo Minerva. Todos estavam aborrecidos e impacientes; nós dois, porém, contemplando o mundo com olhos de pintor, estávamos muito satisfeitos, e isso porque, ao pôr-do-sol, pudemos desfrutar da vista mais magnífica que essa viagem nos proporcionou. Adornados de cores as mais cintilantes, tínhamos diante dos olhos o cabo Minerva e as montanhas que a ele se juntam, ao passo que os rochedos estendendo-se rumo ao sul haviam assumido uma coloração azulada. Do cabo em diante, espraiava-se toda a costa iluminada até Sorrento. Podíamos ver o Vesúvio com uma gigantesca nuvem de vapor encimando-o, da qual uma longa faixa estendia-se rumo a leste, permitindo supor uma violenta erupção (…) Sob um céu totalmente limpo, sem nuvens, brilhava o mar sereno e quase imóvel que, ante a calmaria absoluta, jazia enfim à nossa frente feito um lago. Encantamo-nos com a vista, e Kniep lamentou que toda a arte das cores não fosse suficiente para reproduzir tamanha harmonia nem tampouco o mais fino lápis inglês capaz de possibilitar à mão mais experiente desenhar semelhantes linhas. Eu, pelo contrário, convencido de que mesmo um registro muito inferior àquele que era capaz de produzir esse hábil artista far-se-ia assaz desejável no futuro, encorajei-o a empenhar mãos e olhos num último esforço; Kniep deixou-se persuadir e produziu um desenho dos mais precisos, colorindo-o depois e deixando um testemunho de que, na representação pictórica, o impossível faz-se possível…”

 

[tumulto a bordo com a embarcação à deriva, revolta com o capitão]: “… a mim, porém, a quem desde jovem a anarquia sempre aborrecera mais do que a própria morte, foi-me impossível continuar calado… Mostrei-lhes que, justamente naquele momento, seu estardalhaço e gritaria só faria confundir os ouvidos e a cabeça dos únicos de quem ainda podíamos esperar salvação, impedindo-os de pensar e se entender entre si.

    Quanto a vós, exclamei, recuperai vosso equilíbrio e dirigi vossas preces à Mãe de Deus, pois somente Dela depende interceder junto a Seu Filho para que Ele faça por vós o que outrora fez por Seus Apóstolos, quando, no lago de Tiberíade, as ondas já invadiam o barco, e o Senhor dormia; acordado, porém, pelos desconsolados e desamparados, ordenou ao vento que se acalmasse, assim como pode também ordenar-lhe que desperte, sendo essa a Sua sagrada vontade.

       Tais palavras produziram o melhor dos efeitos…”

 

***************NOVAMENTE NÁPOLES*************************

  • Uma parte do livro dedicada a HERDER

     “Os gregos, um povo que costumava enaltecer-se a si próprio de forma desmesurada, proferiram sobre essa terra o mais honroso veredicto, ao denominar uma parte dela Magna Grécia”… (Plínio, História Natural)

 

“Pensando bem, há que se aprovar a existência de tantos santos; cada fiel pode escolher o seu e, com toda a confiança, recorrer àquele que de fato atende a suas expectativas. Hoje  [26 de maio] foi o dia do meu…”

 

[sobre o santo Filippo Neri]: “…goza de grande prestígio e, ao mesmo tempo, é lembrado com contentamento; saber de seu elevado temor a Deus é coisa que edifica e alegra, mas conta-se muito também acerca de seu bom-humor (…) A toda essa misteriosa e estranha profundeza de espírito veio juntar-se o mais lúcido bom-senso, o mais puro apreço—ou antes, desapreço—pelas coisas terrenas e a mais ativa solicitude, toda ela dedicada a seu próximo (…) Ocupava-se também da educação dos jovens, ensinando-lhes música e oratória, e propondo-lhes não somente temas religiosos, mas intelectuais também, ensejando sempre estimulantes conversas e debates. O mais singular nisso tudo talvez se afigure o fato de que ele o fazia por iniciativa e responsabilidade próprias, tendo seguido seu caminho por muitos anos sem pertencer a nenhuma ordem ou congregação, e mesmo sem ter sido ordenado sacerdote.Contudo, mais significativo ainda é que tal tenha ocorrido à época de Lutero, e que, bem no meio de Roma, um  homem diligente, temente a Deus, enérgico e ativo tenha igualmente pensado em unir o religioso, e até mesmo o sagrado, ao mundano, em trazer o celestial para o domínio do secular, preparando, assim, também ele, o caminho para uma Reforma. Aí, afinal, e somente aí, está a chave que abrirá as prisões do papado e devolverá ao mundo livre o seu Deus.”

 

“Pessoas belas , nós as encontramos em toda parte, mas aquelas de mais profunda sensibilidade e, ao mesmo tempo, dotadas de órgãos vocais propícios são bem mais raras, e raríssimas aquelas nas quais, a tudo isso vem juntar-se ainda uma figura atraente.”

 

“Como o homem do Norte é obrigado pela natureza a precaver-se e a ajustar-se; como a dona de cada tem de salgar e defumar para bem prover sua cozinha para o ano todo; e o homem, não descuidar da provisão de lenha, frutas e da forragem para o gado—em virtude de tudo isso, pois, a fruição dos mais belos dias e horas é sacrificada em prol do trabalho. Por vários meses, as pessoas mantêm-se de bom grado longe do ar livre, preservando-se do vento, da chuva, da neve e do frio no interior de suas casas; as estações do ano sucedem-se sem cessar, e quem quer que não deseje perecer é obrigado a cuidar muito bem de sua casa. A questão aí, afinal, não é de querer ou não fazê-lo; não se permite ao homem não querê-lo, ele não pode renunciar a tais cuidados, pois não pode viver sem eles; a natureza o obriga a preparar-se e trabalhar. Por certo, essa atuação da natureza, sempre idêntica ao longo de milênios, definiu o caráter das nações setentrionais, tão dignas de respeito em diversos aspectos. Os povos do Sul, por outro lado, com quem o céu foi tão generoso, nosso ponto de vista nos faz julgá-los com demasiado rigor… Não compreendemos de forma correta a condição miserável dessas pessoas: seu princípio de renunciar a tudo teria sido bastante favorecido por um clima que tudo lhes concedia. Um homem pobre, que a nós se afigura miserável, poderá, em tais terras, estar logrando não apenas satisfazer suas necessidades mais simples e imediatas, como também gostando da vida da melhor forma…

      Um filósofo cínico com certeza não duraria muito em nossas terras; no Sul, pelo contrário, a natureza o convida a sê-lo, por assim dizer. Aqui, um homem esfarrapado ainda não está nu…”

 

“É com o maior prazer e simpatia que deparamos aqui em toda parte com uma alegria excepcional… É nosso hábito  julgar bárbaro e sem gosto o amor pelas cores vivas, e, de certa maneira, ele pode de fato ser ou vir a ser assim; contudo, sob um céu verdadeiramente límpido e azul, nada pode ser considerado colorido, pois nada logra ofuscar o brilho do sol e seu reflexo no mar. A cor mais vívida é abafada pela luz poderosa, e como todas as cores—o verde das árvores e plantas, a terra amarela, marrom, vermelha—atuam sobre os olhos, com força total, até mesmo o colorido das flores e das roupas insere-se na harmonia geral…”

 

“A chegada do marquês Lucchesini adiou minha partida por mais alguns dias; alegrou-me muito conhecê-lo. Parece-me tratar-se de um daqueles homens dotados de um bom estômago moral, capacitando-o a comprazer-se sempre da grande mesa do mundo, em vez de, como nós, fartar-se por vezes qual um ruminante, sem poder comer mais nada até que estejam concluídas a segunda mastigação e a digestão.”

 

“De Nápoles, parto agora de bom grado, preciso ir… tornamo-nos aqui cada vez mais inativos. Desde o meu retorno de Paestum, eu pouco vi além dos tesouros de Portici, de forma que resta muito para ver, o que, no entanto, não me fará mover uma palha. Aquele museu, porém, é o alfa e o ômega de todas as coleções de peças da Antiguidade; vê-se ali com clareza quão na frente estava o mundo antigo em sua prazerosa sensibilidade para a arte, embora tenha permanecido muito atrás de nós no tocante a uma mais rigorosa habilidade técnica.”

 

“O criado que veio me trazer o salvo conduto, já expedido, contou-me de imediato, lamentando minha partida, que uma forte torrente de lava expelida pelo Vesúvio tomava agora o caminho do mar (…) Vi-me, então, no maior dos apuros. Passei o dia de hoje [primeiro de junho] fazendo visitas de despedida… Em nosso caminho, decerto não podemos nos privar da companhia dos homens, mas, ainda que nos sirvam e nos dêem prazer, eles acabam também por nos desviar de nossos sérios propósitos, e sem que com isso estejamos prestando qualquer ajuda aos seus. Estou extremamente aborrecido.”

 

“Meu banqueiro, em cuja casa cheguei por volta da hora do jantar, não me deixava ir embora; decerto, tudo isso teria sido muito bonito e bom, não tivesse a torrente de lava atraído minha imaginação. Em meio a diversas atividades, pagamentos e à arrumação da bagagem, a noite veio e eu parti depressa para o molhe. Lá, vi então o fogo, as luzes e seus reflexos, ainda mais oscilantes com o movimento do mar; vi também a lua cheia em todo o seu esplendor ao lado da chuva de fogo saindo do vulcão e, por fim, a laca, antes ausente, em seu caminho incandescente e severo. Eu teria ido até lá, mas as providências para tanto eram demasiado complicadas… Não quis arruinar com minha impaciência a visão de que desfrutava, de modo que, desatento à chegada e saída da multidão, suas interpretações, histórias, comparações, discussões sobre o caminho que a lava tomaria e outros eventuais disparates dessa natureza, permaneci sentado no molhe até meus olhos começarem a se fechar.”

 

“E, de modo semelhante, passei também o belo dia de hoje, decerto extraindo muito proveito e prazer da companhia de excelentes pessoas, mas em total desacordo com meus propósitos e com o coração aflito Ansioso, voltava meu olhar para o vapor que, descendo vagarosamente a montanha rumo ao mar, ia desenhando de hora em hora o caminho tomado pela lava. Tampouco teria a noite livre. Eu havia prometido fazer uma visita à duquesa Giovane… Nascida na Alemanha, ela não desconhecia o modo como nossa literatura se desenvolveu no sentido de um humanismo mais livre e abrangente (…) Anoitecia já, e ninguém ainda trouxera velas. Caminhávamos de um lado para o outro da sala e, aproximando-se  das janelas fechadas por venezianas, a duquesa abriu uma delas, permitindo-me avistar algo que só se vê uma vez na vida. Se ela o fez a fim de surpreender-me, decerto atingiu seu objetivo por completo. Estávamos diante de uma janela do último pavimento, o Vesúvio bem à nossa frente, a lava a escorrer montanha abaixo, as chamas ardendo nítidas depois do pôr-do-sol e a fumaça a acompanhá-las começando a dourar-se; a montanha a esbravejar com violência, uma gigantesca nuvem de vapor pairando imóvel sobre ela, suas diferentes massas iluminadas e apartadas como que por um raio e tomando corpo a cada erupção. Dali para baixo, até próximo do mar, uma esteira de lava e vapores incandescentes; de resto, porém, mar e terra, rocha e vegetação nítidos ao anoitecer, claros, pacíficos, numa tranqüilidade mágica. Somente espanto poderia causar abranger tudo aquilo com um único olhar; a lua cheia ascendendo por detrás do topo da montanha e completando, assim, esse quadro maravilhoso. Do ponto onde estávamos, nosso olha podia abarcar todo esse panorama de uma só vez e, embora não estivesse em condições de examinar com precisão cada objeto isolado, jamais perdia a noção da grandiosidade do conjunto. Se nossa conversa fora interrompida por esse espetáculo, tomava agora um rumo tanto mais aconchegante. Tínhamos diante de nós um texto que milênios não bastariam para comentar.”

 

“Despedi-me…abençoando minha sorte por, à noite, ter sido ainda tão bem recompensado pelas contrariedades do dia. Já sob o céu noturno, disse a mim mesmo que, vista de perto, aquela torrente maior de lava constituiria tão somente uma repetição da outra menor que eu presenciara antes, e que minha despedida de Nápoles não poderia ter sido outra senão a proporcionada por uma tal visão.Em vez de ir para casa, voltei meus passos na direção do molhe, a fim de assistir ao grande espetáculo tendo outro cenário por primeiro plano; não sei, porém, se foi o cansaço ao final de um dia tão cheio, ou um sentimento  de que não devia apagar da minha mente aquela última e bela imagem, mas o fato é que acabei por retornar ao Moriconi, onde, aliás, encontrei Kniep, que, provindo de suas novas acomodações, viera-me fazer uma visita noturna. Diante de uma garrafa de vinho, discutimos nossas futuras relações; pude garantir-lhe que, tão logo eu pudesse apresentar algo de seu trabalho na Alemanha, ele seria recomendado ao ilustre duque Ernst de Gotha, de quem por certo receberia encomendas. Despedimo-nos, pois, com cordial alegria e a perspectiva segura de uma atividade futura mutuamente proveitosa”.

 

“Despedimo-nos  como raras vezes se despedem duas pessoas que o acaso juntou por tão pouco tempo. Talvez se pudesse obter da vida uma maior gratidão e proveito se as pessoas se dissessem com franqueza o que esperam umas das outras”.

 

[3 de junho]

 

“E assim, semi-aturdido,parti de Nápoles, atravessando a vida infindável dessa cidade sem par, que provavelmente jamais voltarei a ver; satisfeito, porém, por não deixar remorso ou dor para trás.”

 

“Como desta vez viajo sozinho, disponho de tempo suficiente para relembrar as impressões dos meses passados… Com muita freqüência, porém, as observações revelam seu caráter lacunar; e se, para aquele que a realizou, a viagem parece passar feito um rio, surgindo em sua imaginação como um fluxo constante, sente-se então que um relato propriamente dito é impossível. Aquele que relata tem de apresentar os eventos separadamente, mas como fazer com que isso forme um todo na alma do outro?


[1] Termo que Goethe usa (e aparece algumas vezes no texto) para a “multidão” ignara, os espectadores, os ouvintes, os comuns, tirado da peça de Aristófanes com esse título, que ele traduziu.

[2] Entendo o termo como “tratando-os como crianças”.

14/05/2010

MOTES PARA UM CURSO AMBICIONADO (e não-realizado)

RUDIMENTOS PARA ENTENDER A COSTURA BÍBLICA

 karen armstrong

“Durante o século VIII houve uma revolução literária em todo o Oriente Médio e no Mediterrâneo Oriental. Reis encomendaram documentos que glorificassem seu regime e guardaram esses textos em bibliotecas. Na Grécia, os épicos homéricos foram fixados nessa época, e, em Israel e Judá, historiadores começaram a combinar narrativas ancestrais para criar sagas nacionais, que foram preservadas nos estratos mais arcaicos do Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia.

         A partir das variadas tradições de Israel e Judá, os historiadores do século VIII construíram uma narrativa coerente. Os estudiosos chamam em geral o épico sulista de Judá de J porque os autores sempre chamavam seu Deus de Jeová ou Javé, ao passo que a saga do norte é conhecida como E porque o Deus era então conhecido como Elohim.

         Mais tarde essas duas sagas distintas foram combinadas para formar uma história única que constituiu a espinha dorsal da Bíblia hebraica (e, por extensão, da Bíblia cristã).

         J e E não escreviam relatos históricos modernos. Como Homero e Heródoto, eles incluem lendas sobre personagens divinos e elementos mitológicos e condensadores que tentam explicar o sentido do que aconteceu. Suas narrativas são mais que história. Desde o princípio, não houve uma mensagem única e fidedigna sobre o que iria se tornar a Bíblia. Os autores J e E interpretaram a saga de Israel de maneiras muito diferentes e os futuros editores não fizeram qualquer tentativa de eliminar as incoerências e contradições. Em J, por exemplo, vemos imagens antropomórficas de Deus que causariam embaraço a exegetas posteriores. Jeová passeia pelo Jardim do Éden como um potentado do Oriente Médio, fecha a porta da arca de Noé, irrita-se e muda de idéia. Contudo, em E há uma concepção mais transcendente de Elohim, que mal ´fala´, preferindo enviar anjos como seus mensageiros. A religião hebraica posterior iria se tornar passionalmente monoteísta, convencida de que Jeová era o único Deus. Mas nem J nem E eram monoteístas.”

             (extraído de “A Bíblia”, de Karen Armstrong, com ligeiras adaptações da minha parte)

Livro de J é utilizado aqui como um título para o que os estudiosos concordam ser o estrato mais arcaico do Pentateuco, obra de uma autora, a Javista. Os estratos ulteriores do Gênesis, Êxodo e Números são todos revisões ou censuras a J, e seu (s) autor(es), é (são) designado(s) por E, o Eloísta (J sempre utiliza “Elohim” como um nome para seres divinos em geral, e nunca como o nome de Deus); P, da Escola Sacerdotal, o qual escreveu quase todo o Levítico; D, responsável pelo Deuteronômio; e R, de Redator, o responsável pela revisão final e homogeneização forçada.

         O Livro de J está encravado naquilo a que chamamos de Gênesis, Êxodo e Números. Presumo que J viveu na corte do filho e sucessor de Salomão, Roboão de Judá, sendo uma mulher extremamente sofisticada e bem posicionada da elite salomônica, iluminada e irônica. Na verdade, não sabemos se J era homem ou mulher, mas nossa imaginação moral pode calcular a passagem das possibilidades para o nível das probabilidades, quando comparamos J aos outros trechos dos livros citados, ou ao conjunto da literatura subsistente do antigo Oriente Médio. O que é novo em J? Onde se reúnem suas originalidades ? O que há no tom, na postura e no modo de narrar de J que foi diferente o bastante para fazer a diferença? Grande parte da resposta dirá respeito à representação da mulher se comparada à do homem; outra parte à ironia…a qual produz a curiosa questão do antropomorfismo da representação de Javé (Jeová) como humano, demasiado humano. O que J retrata com terna ironia é um judaísmo arcaico. O embaraço causado pelas traquinagens do Javé de J já começou com os primeiros revisionistas… A mais gritante postura irônica de J concerne à representação de realidades totalmente incomensuráveis se justapondo e contrapondo. Como pode Abraão discutir com Javé? Como pode Jacó ser capaz de lutar de igual para igual com um enviado? Ou, bem mais singelamente, como se pode achar convincente que Esaú troque seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas? Tudo nos leva à representação de um Javé infantil, até pueril, e ainda assim Javé, e nenhum outro, ou seja, totalmente incomensurável, incognoscível.

         A economia é, certamente, a força específica de J. O mais elíptico dos grandes escritores, ela demonstra de modo contínuo que deixar alguma coisa de fora é a melhor maneira de compelir o leitor/ouvinte a estar rigorosamente alerta.

         Mas com que autoridade, e com que propósito, pode se empreender essa busca? Que utilidade pode ter a recuperação de um hipotético Livro de J? Tenho consciência de que pode ser um esforço vão almejar uma reversão de dois mil e quinhentos anos de desleitura institucionalizada. O Eloísta, E, trabalhando cerca de duas gerações mais tarde que J combinou o texto dela com um material variado, retrabalhou o sacrifício de Isaac, a luta de Jacó com o anjo, e então deu início à tradição de reduzir a extraordinária autora a algo mais normativo… Um redator de gênio inquestionável produziu a Toráh provavelmente da forma como hoje a conhecemos. Considero esse redator, R, um homem impressionante, mas temo que ele seja o vilão do presente livro, pois estou certo de que ele é o grande mutilador de J.

         R é o autor compósito da Toráh, creditado por Robert Alter como o realizador de uma mescla altamente estético e novelística dos textos de J, E, D e P. O elogio maior feito a R veio do grande crítico Northrop Frye, para quem a pulverização das várias fontes foi tão completa que somos totalmente incapazes de reconstituir qualquer uma delas. Meu livro visa à reconstituição de J, o maior escritor judeu, pelo bem da escrita e pelo nosso bem.”

              (adaptação de trechos do LIVRO DE J, de Harold Bloom)

 haroldo de campos

“O termo javista, no qual se inclui o episodio do Éden, da criação de Adão do pó da terra e da Eva de sua costela, e da intervenção desagregadora da serpente, foi, não faz muito, reproposto polemicamente à consideração dos estudiosos como extraordinária arte verbal a ser resgatada da leitura meramente confessional. O responsável por essa proposta é Harold Bloom, o qual, em 1990, publicou O Livro de J., onde sustenta a tese de que o autor do excerto javista da Bíblia Hebraica seria uma autora, uma dama ilustrada da Corte Salomônica, e que essa porção do Toráh podia ser reconhecida como uma obra-prima, mesmo levando em conta as mutilações, revisões e rasuras.

     Nada obsta, em princípio, que se conjecture, com engenho e empenho, em torno de uma remotíssima figura de mulher e escritora, educada no áureo período salomônico (século X antes da era cristã)… Mas Robert Alter refutou minuciosamente a hipótese de Bloom, tecendo críticas cerradas, embora elogie seu convite para olhar os antigos escritos com olhos novos. Quais seriam os furos da interpretação bloominiana? Em primeiro lugar, seu escasso conhecimento de hebraico. Disso decorreria uma gravíssima conseqüência: Bloom ter se apoiado, para suas intuições críticas, avaliações estéticas e desenvolvimentos exegético-hermenêuticos, não no original, mas na versão para o inglês do suposto texto de J., feita por David Rosenberg. Para Alter, Bloom tomou uma decisão catastrófica ao atrelar seu projeto à tradução de Rosenberg, porque quando ele nos fala de J. ele está falando na verdade da versão inglesa e atual de Rosenberg. Este estaria muito longe de recriar convincentemente o original e mostraria, segundo Alter, um pendor de poetastro por clichês metafóricos. Que Bloom tenha sido capaz de tão extremado lapso de gosto, comparando o discutível estilo tradutório de Rosenberg ao deslumbrante inglês shakesperiano, isto somado a outras falhas, leva Alter a ser cético quanto à hipótese da autoria feminina levantada pelo scholar de Yale. Encara-a como o resultado, fragilmente documentado, de um fundamentalismo, não religioso, mas reivindicatório de uma personalidade autoral, por um lado, e, por outro, das virtudes de um intuitivismo crítico desvelador, capaz de captar as inflexões de uma suposta Voz feminina.

       Outro estudioso, Richard Friedman ratifica, ademais, que não é possível distinguir de fato o ângulo estilístico entre J. e E., fato que relativizaria ainda mais a singularidade de J. tão decantada por Bloom.

        Tanto quanto posso julgar, a tradução de Rosenberg não tem, de fato, a categoria que lhe atribui Bloom (apesar de apresentar, aqui e ali, soluções de interesse). Para quem se deu ao trabalho de confrontar o texto original hebraico com essa versão para o inglês, como eu o fiz, minuciosamente, será fácil comprovar a procedência das restrições de Alter.

       Assim, por exemplo, no episódio de Babel, Bloom, alicerçando-se na versão de Rosenberg, dá extrema importância a um suposto jogo de palavras e de sentidos (atribuído às intenções de sua J.), em torno do verbo to bind e derivados. No hebraico, onde Rosenberg coloca unbound, desvinculados, no original aparece apenas pen-nafutz, dispersados. O mesmo se diga de bound to build, vinculados, comprometidos com; no original, asher banú, construindo (apenas no sentido de edificação, sem o vínculo moral, o comprometimento)… e assim por diante…

   Dessa forma, o sutil jogo de palavras de J., na acepção de Bloom, só existe na versão substitutiva de Rosenberg, ainda que o texto do Gênese, em outros pontos, apresente-se perpassado por efeitos relevantes de som e sentido.

     Mas Bloom não fica só no terreno da avaliação estilística, estética. Como teórico da desleitura (misreading), ironicamente enredado em sua própria percepção teórica, continua, sempre imaginoso e estimulante, a derivar conclusões de matriz lúdica que põe em relevo, ainda que dúbia, equivocada, quando conferida com o texto hebraico de origem. Assim, o conceito de boundary (derivado daquele jogo de palavras é arrolado por ele entre os grandes tropos do exílio. Citando-o: o Exílio definitivo é a confusão, a dispersão até mesmo dos limites (boundaries), a perda que não tem qualquer nome”, prolongando a Queda e a Expulsão do Éden no episódio de Babel.”

             (adaptação de trechos de Éden, um tríptico bíblico, de Haroldo de Campos)

 robert alter

“A um exame mais minucioso logo se vê que o texto bíblico é ao mesmo tempo múltiplo e fragmentário. É muito comum não se ter certeza sobre os limites de um determinado texto, sobre como ele prossegue em textos adjacentes e por que é ignorado, discutido, citado ou mesmo copiado em outros lugares da Bíblia. Um desafio ainda mais sério à integridade de muitos textos bíblicos que gostaríamos de considerar como totalidades literárias deriva da natureza delicadamente estratificada do material articulado pela tradição antiga… o que temos, na realidade, é uma costura contínua de textos anteriores, provenientes de tradições divergentes, inclusive de tradições orais, com interferências, menores ou maiores, de revisões posteriores sob a forma de glosas, costuras, fusões, e assim por diante. Os especialistas identificaram como o exemplo mais notável desse caráter compósito do texto bíblico os primeiros quatro livros do Pentateuco; análises exaustivas de estilo, consistências de dados narrativos, visões teológicas e premissas históricas demonstram que eles são uma montagem de três linhagens básicas e independentes de documentos: o documento javista (J), o documento eloísta (E) e o documento sacerdotal (P)… O que se deve fazer então quando lemos textos que os especialistas nos convidam a ver, pelo menos nos exemplos mais radicais, como uma colagem desvairada de tradições antigas?… Gostaria de propor neste capítulo que os autores e redatores bíblicos, visto que a distinção entre os dois nem sempre é clara, trabalhavam com noções de unidades bastante diferentes das nossas, e que a plenitude de expressão que procuravam obter levou-os muitas vezes a transgredir o que uma cultura e uma época posteriores inclinaram-se a diagnosticar como cânones de unidade e coerência lógica. O texto bíblico pode não ser o tecido acabado que a tradição judaico-cristã pré-moderna imaginou, mas pode ser que a miscelânea confusa forme um padrão intencional, se lida com mais minúcia.

         É claro que certas passagens da narrativa bíblica parecem resistir a toda interpretação harmonizadora, levando-nos a concluir que determinadas circunstâncias na transmissão e redação dos antigos textos hebreus provocaram uma incoerência inerente ou que a noção bíblica de seqüência narrativa pode ser às vezes inescrutável, dada a enorme distância histórica e intelectual… Não acho razoável atribuir a confusão a mera negligências dos redatores… É claro que nossos conceitos de coerência espacial dos acontecimentos, de identidade dos personagens, de coesão lógica entre ação e motivo de ação são aqui flagrantemente violados.

         Vejamos agora um exemplo conciso de narrativa compósita em que a duplicação se soma a uma suposta contradição: no fim da primeira visita dos irmãos de José ao Egito (Gênesis, 42), José, que eles ainda julgam ser apenas o vice-rei egípcio, dá ordens secretas para que o dinheiro que eles pagaram pelo trigo seja enfiado de volta nos sacos de cada um. Lembremos que os irmãos já tinham se abalado por conta da prisão temporária a que foram submetidos, sob a acusação de serem espiões, e por José ter tornado Simeão refém, insistindo que trouxessem Benjamin, o caçula, ao Egito. Esses dois últimos atos do vice-rei fizeram com que os irmãos, por uma série de associações motivadas pela culpa, lembrassem a crueldade que haviam praticado contra o jovem José e imaginassem que afinal chegara o castigo pelo crime. Pois bem, no primeiro sítio em que acamparam, um deles abriu o saco de forragem e viu o dinheiro. Os corações deles desfaleceram e disseram-se: Que é isto que Deus nos fez?

         Assim que levantam essa dúvida acerca da estranha obra do destino, pois a força da palavra Deus, no original, não fica muito distante do sentido de destino, o narrador faz com que corram à casa do pai, Jacó, para contar os problemas que tiveram com o vice-rei egípcio, inventando uma explicação para a ausência de Simeão e o pedido do egípcio que levassem Benjamin até ele. Exatamente nessa altura do texto, o dinheiro escondido nos sacos faz um estranhíssimo reaparecimento: Quando eles descarregavam os sacos, eis que a bolsa de dinheiro de cada um estava dentro do saco, e quando viram suas bolsas de dinheiro sentiram medo, eles e seu pai. Então Jacó disse: Vós me privastes de meus filhos: José se foi, Simeão se foi, e agora quereis me tomar Benjamin? É sobre mim que tudo isso recai. Em nosso modo de entender a lógica narrativa, é obviamente impossível que os irmãos tivessem descoberto duas vezes o mesmo dinheiro escondido e ficassem igualmente surpresos e amedrontados nas duas ocasiões… Geralmente, os estudos especializados sobre a Bíblia explicam essas duplicações como um descuido na redação final do texto. A hipótese aceita é a de que havia duas versões paralelas da história de José, a da tradição eloísta (E) e a da tradição javista (J), entre as quais existiam diferenças de detalhes essenciais.  O relato da tradição eloísta é a fonte principal; nessa versão, o dinheiro só é descoberto quando os irmãos chegam em casa. Na versão javista, a palavra empregada não é saq (saco, bolsa) e sim ´amtahat, que pode conter tanto forragem quanto moedas de prata. Tende-se a presumir que o redator final, seja por fidelidade equivocada à segunda fonte, seja por erro de julgamento, incluiu um fragmento de J que destoa do todo.

         A esse respeito, eu gostaria de levantar uma questão de princípio que poderá nos ajudar a entender o propósito das duplicações. A contradição entre os eventos é tão patente que parece ingenuidade supor que o redator fosse tão tolo ou incapaz a ponto de não percebê-la. Gostaria de sugerir, em vez disso, que o redator estava perfeitamente consciente da contradição, mas considerou-a superficial. Pela lógica linear, a mesma ação não poderia ocorrer duas vezes de duas maneiras diferentes, mas pela lógica narrativa com a qual ele trabalhava, fazia sentido incorporar as duas versões que tinha à mão, porque juntas elas revelavam implicações mutuamente complementares do evento narrado e lhe permitiam fazer um relato completo. A versão J, na qual os irmãos descobrem o dinheiro quando estão sozinhos na caravana entre o Egito e Canaã, acentua o espanto deles diante do acontecimento inesperado: a ênfase recai na impressão que lhes fica dos estranhos caminhos do destino. A versão J tem por isso importância crucial, porque vincula a descoberta do dinheiro ao tema do conhecimento de José dos fatos em contraste com a ignorância dos irmãos, o que é decisivo para os dois encontros no Egito e, na realidade, para a história inteira. Quando os irmãos perguntam o que Deus fizera com eles, detectamos uma ironia dramática, ligada às ironias dramáticas da cena anterior no palácio do vice-rei. A verdade é que José serve e age como agente do destino (instrumento de Deus), no grande plano da história, e até os irmãos, que tanto se escandalizaram com o sonho em que José vê o sol,  a luz e onze estrelas prostradas a seus pés, falam agora em Deus, quando nós, leitores, sabemos que estão se referindo ao que José fez (mandar esconder de volta o dinheiro do trigo).

         A versão E do mesmo acontecimento, na qual a descoberta se dá na presença de Jacó, é muito mais resumida e descreve sucintamente a reação dos irmãos à vista do dinheiro encontrado, com uma única palavra, medo, e sem um diálogo que represente sua estupefação com os caminhos escolhidos pela Providência Divina. A meu ver, essa versão sugere simplesmente medo, sem assombro, porque pretende mostrar uma ligação  direta entre a descoberta do dinheiro e o sentimento de culpa dos irmãos pelo que haviam feito a José. No estilo característico da Bíblia, o narrador não explica a culpa, limita-se a sugeri-la e volta a insinuá-la nas palavras com que José responde aos irmãos. Assim como os filhos, Jacó viu o dinheiro. E também deve ter percebido neles o medo que sentiam. Então, como que verbalizando a culpa silenciada, Jacó volta-se para eles e acusa. Não faz nenhuma acusação direta, mas agora é como se, impelido pela retórica, ele chegasse perto da verdade pura.

         A história de José tem um eixo moral-psicológico e um eixo teológico-histórico. Neste, o que importam são as obras misteriosas de Deus, o papel de José e o importantíssimo tema do conhecimento em oposição à ignorância. No primeiro eixo, o aspecto fundamental é o doloroso processo pelo qual os irmãos aceitam a responsabilidade pelo que fizeram e são levados a lidar com a culpa. Não tenho como verificar cabalmente minhas conclusões sobre o princípio formal que guiou o redator bíblico, mas me parece pelo menos plausível que ele se tenha disposto a incluir na narrativa o mal menor da duplicação e da aparente contradição em prol de conferir visibilidade aos dois eixos principais de sua história num momento crítico do enredo. O escritor bíblico, habituado a cortar, juntar e montar com extrema perícia materiais literários anteriores, parece ter tido a intenção de obter esse efeito de verdade multifacetada ao apresentar em seqüência duas versões diferentes, que ressaltavam duas dimensões distintas do mesmo assunto.

           (trechos adaptados de A arte da narrativa bíblica, de Robert Alter)

“As narrativas da Bíblia são afinal relatos históricos ou ficções? Há certas áreas verbais, como a do jornal diário, onde julgamos importante saber se as histórias que ali encontramos são verdadeiras ou apenas elucubrações, o tipo de importância normalmente atribuída a Bíblia aponta para a consideração de que ela também seja uma dessas áreas. Além disso, essa questão não é secundária ou anacrônica: mesmo o Velho Testamento é jovem o suficiente para que seus escritores tenham sido capazes de nos transmitir a história real, se assim o quisessem (apesar de que há partes ali que são anteriores a Heródoto). E ninguém nega que a Bíblia tenha um interesse apaixonado por questões de caráter histórico. Ainda assim a formalização da Bíblia para essa questão permanece curiosamente enigmática, tão enigmática que ficamos com a impressão de que deve haver algo de errado.

       Começa-se com histórias de criação e dilúvio, que parecem ser mitos não apenas no sentido de histórias cosmogônicas e sagradas, mas também no sentido coloquial e negativo de serem relatos de eventos que dificilmente teriam se passado daquela forma, e que são parecidíssimas com outros mitos de criação e dilúvio oriundos de outras partes do mundo.

      Já as histórias de Abraão e do Êxodo pertencem a uma área que devemos chamar de reminiscências históricas. Ou seja, sem dúvida contêm um grão de história real.  Já que base histórica há para a narrativa que chegou até nós é uma outra história. Ainda não foi possível para os egiptólogos ligar o êxodo hebreu a nenhuma outra coisa que saibam da história do Egito. Parece que os egípcios nada sabiam a respeito de um imenso êxodo, assim como o Imperador Augusto nada sabia do nascimento de Cristo.

       Quando chegamos ao que parece ser realmente histórico, onde podemos acrescentar algumas datas e provas, descobrimos que a histórica (no sentido didático) é manipulada. Os reinos do norte da Judéia e de Israel recebem uma classificação em preto e branco (branco, se promovem o culto a Javé; preto, em caso contrário).

        Chegamos a um princípio geral que pode ser expresso da seguinte maneira:  se alguma coisa na Bíblia é verdadeira do ponto de vista histórico, ela lá está por outra razão que não esta. A verdade histórica nada tem a ver com profundidade espiritual. É óbvio que o Livro de Jó, jamais visto seriamente como algo além de um drama imaginativo (um dos mais poderosos já concebidos pela humanidade), é muito mais profundo espiritualmente do que as listas que constam dos Paralipômenos, embora estas listas contenham registros históricos genuínos. Quando nos movemos do obviamente lendário para o provavelmente histórico a fronteira nunca é muito precisa. Ou seja, de que o sentido de fato histórico como tal simplesmente não é delimitado na Bíblia.

      Uma indicação do viés pelo qual a Bíblia se interessa está no Livro dos Juízes. Este livro era uma coleção de histórias sobre heróis que originalmente eram líderes tribais; ele foi editado de tal modo a ganhar a aparência de ser a história de uma Israel unida que atravessa uma série de crises muito semelhantes entre si. Israel, onde o espírito de apostasia se manifesta de modo excepcionalmente consistente, renuncia a seu Deus, é escravizada, clama ao mesmo Deus por liberdade, e então um juiz é enviada para libertá-la. Aqui se vê uma série de conteúdos diversos que acompanham uma forma narrativa ou mítica repetitiva que os contém. Há uma enorme ênfase na estrutura, devido ao interesse moral que justifica sermos submetidos ao mesmo tipo de história interminavelmente, o que indica serem as histórias individuais construídas para que se ajustem a um mesmo padrão. A distância que têm dos eventos históricos é a mesma quer tem a pintura abstrata de uma representação realista; mais: a relação é a mesma. A prioridade cai sobre a estrutura mítica, ou esboço, da história, não sobre o conteúdo histórico.”

        (trechos adaptados de The Great Code- O Código dos Códigos, de Northop Frye)

auerbach 

“Pode-se abrigar facilmente objeções histórico-críticas quanto à Guerra de Tróia e quanto às errâncias de Ulisses, e ainda assim sentir, na leitura de Homero, o efeito que ele procurava, mas quem não crê na oferenda de Abraão não pode fazer do relato bíblico o uso para o qual foi destinado. É necessário ir mais longe ainda: a pretensão de verdade da Bíblia é não só muito mais urgente que a de Homero, mas chega a ser tirânica; exclui qualquer outra pretensão. O mundo dos relatos das Sagradas Escrituras não se contenta com a pretensão de ser uma realidade historicamente verdadeira. Pretende ser o único mundo verdadeiro, destinado ao domínio exclusivo. Qualquer outro cenário, quaisquer outros desfechos ou ordens não têm direito algum a se apresentar independentemente dele, e está escrito que todos eles, a história de toda a humanidade, se integrarão e se subordinarão aos seus quadros… Na história de Isaac não é somente a intervenção de Deus no princípio e no fim do relato, mas também os elementos factuais e psicológicos no seu interior que permanecem obscuros, tocados apenas de leve, carregados de segundos planos; e é justamente por isso que não só precisam de investigação profunda e interpretação, mas até o exigem. Que Deus tente até o mais piedoso da maneira mais terrível, que a obediência incondicional seja a única atitude possível perante Ele, mas que também a sua Promessa seja inamovível, por mais que as suas decisões pareçam destinar-se a produzir a dúvida e o desespero, estes são os ensinamentos mais importantes contidos na história de Isaac e, por sua causa, o curto texto fica tão pesado, tão carregado de conteúdo, contendo em si tantas alusões acerca da essência de Deus e da atitude do homem piedoso, que o crente se vê motivado a se aprofundar uma e outra vez no texto e a procurar em todos os seus pormenores a luz que possa estar oculta. E como, de fato, há no texto tanta coisa obscura e inacabada,e como ele sabe que Deus é um Deus oculto, o seu afã interpretativo encontra sempre novo alimento. A doutrina e o zelo na procura da iluminação estão indissoluvelmente ligados ao caráter do relato (este, portanto, é mais do que mera realidade)… Se, desta forma, o texto do relato bíblico necessita tanto de interpretação a partir do seu próprio conteúdo, sua pretensão à autoridade absoluta leva-o ainda mais longe por esta senda: devemos inserir nossa própria vida no seu cosmos, sentirmo-nos partícipes da sua estrutura histórico-universal. Isto se torna cada vez mais difícil à medida que o nosso mundo vital se afasta do mundo das Escrituras, e se este mundo textual, apesar de tudo, mantém em pé a sua pretensão  à autoridade, é imperioso que ele próprio se adapte, através de uma transformação interpretativa. Isto foi relativamente fácil por muito tempo: durante a Idade Média européia era possível, ainda, representar os acontecimentos bíblicos como sucessos quotidianos contemporâneos, para o que o método exegético fornecia as bases. Quando isso se torna impraticável, pela transformação demasiado profunda do meio ambiente e pelo despertar de uma consciência crítica, a pretensão à autoridade corre perigo; o método exegético é desprezado e deixado de lado, os relatos bíblicos convertem-se em velhas lendas e a doutrina, desmembrada dos mesmos, torna-se uma forma incorpórea que não mais penetra na realidade sensível ou que se volatiliza na exaltação pessoal…

    Os poemas homéricos fornecem um complexo de acontecimentos preciso, espacial e temporalmente delimitado; independente dele, concebem-se tranqüila e facilmente outros complexos anteriores, simultâneos e posteriores. O Velho Testamento, porém, fornece História Universal; começa com  o princípio dos tempos, com a criação do mundo, e quer acabar com o fim dos tempos, com o cumprimento da promessa, com a qual o mundo deverá encontrar o seu fim. Tudo o mais que ainda acontece no mundo só pode ser apresentado como elemento dessa estrutura, como parte constitutiva do plano divino, e como isto só é possível pela interpretação do novo material afluente, a necessidade exegética se estende além dos campos primitivos da realidade judaico-israelita, por exemplo, à história assíria, babilônica, persa, romana; a interpretação torna-se um método geral de apreensão da realidade… O trabalho interpretativo de maior ressonância desta espécie ocorreu nos primeiros séculos do Cristianismo, como conseqüência da missão entre pagãos, e foi realizado por Paulo e pelos Pais da Igreja; eles re-interpretaram toda a tradição judaica numa série de figuras a prognosticar a aparição de Cristo e indicaram ao Império Romano o seu lugar dentro do plano divino da salvação. Portanto, enquanto por um lado a realidade do Velho Testamento aparece como verdade plena, com pretensões à hegemonia, as mesmas pretensões obrigam-na a uma constante modificação interpretativa do seu próprio conteúdo, ressignificando-o…

         O Velho Testamento é incomparavelmente menos unitário na sua composição do que os poemas homéricos, é mis evidentemente feito de retalhos, mas cada um deles pertence a um contexto histórico-universal e interpretativo da História da Humanidade. Ainda que tenham recebido elementos dificilmente encaixáveis, ainda assim estes são apreendidos pela interpretação; e assim o leitor sente a cada instante a perspectiva religiosa e histórico-universal que confere a cada um dos relatos o seu sentido e a sua meta globais. Quanto mais isolados e horizontalmente independentes são os relatos e os grupos de relatos, se comparados com os da Ilíada e os da Odisséia, tanto mais forte é a sua ligação vertical comum que os mantém todo juntos sob um mesmo signo, o que falta totalmente a Homero.”

         (trechos adaptados de Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental, de Erich Auerbach)

“Quanto à produção do Antigo Testamento como um todo, sugeriu-se que o primeiro material a ser coletado e colocado numa narrativa coerente foi a história das origens de Israel. Sugeriu-se também ue a época de Ezequias (727-698) foi uma ocasião plausível para esta atividade. A destruição do reinado do norte em 722-721 e a a migração para Jerusalém de grupos de escribas e profetas ue preservaram a tradição sobre Jacó, o ancestral do norte, assim como sobre os profetas Elias e Eliseu, foram o catalisador para o empreendimento da tarefa de construir uma grande narrativa. Como ele foi feito em Judá, as tradições sobre o ancestral judaíta, Abraão, precederam as do ancestral israelita, Jacó.      Um segundo estágio importante foi o surgimento e obra dos deuteronomistas no século VII a.C. durante o reinado de Josias. Leis provavelmente derivadas das tradições do norte formaram o grosso das seções legais do Deuteronômio. A narrativa a partir do relato de Josué em diante foi intensamente reeditada para mostrar que as tragédias que haviam assolado o povo, inclusive a perda do reino do norte, tinham acontecido por causa dos pecados do próprio povo e, em especial, de seus governantes, particularmente no reino do norte.      O estágio seguinte foi a destruição de Jerusalém, em 587. Exigiu mais reflexões sobre a narrativa em geral e também chamou a atenção para as duas outras áreas: lei e profecia.  Como os profetas tinham sempre alertado para um iminente desastre se governantes e povo não observassem a Lei, a coleção e edição dos oráculos dos profetas se tornaram uma prioridade, como se tornaram a coleção e estudo das leis. Por conseguinte, as primeiras duas seções do cânon hebraico posterior, a lei (Gênesis e Deuteronômio) e os profetas (Josué, Juízes, Samuel, Reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel) começaram a se aproximar da sua atual forma.      Mas um estágio importante da edição, a dos círculos sacerdotais, ainda estava por vir, e é provável ue isto tenha acontecido em Jerusalém nos séculos V-IV. Essa revisão afetou particularmente Gênesis e Números, e viu não só a inclusão do ritual, leis sacerdotais e sacrificiais de Êxodo, Levítico e Números, mas também o uso da chamada história sacerdotal como a estrutura básica de toda a narrativa. Hoje ela começa com a criação do mundo e também incorporou tradições evidentemente não-sacerdotais como a história do Jardim do Éden e Caim e Abel.

     A obra foi executada em círculos sacerdotais no templo de Jerusalém, e a estes círculos também é plausível atribuir a coleção e edição dos Salmos, do Livro dos Provérbios e Lamentações. Uma geração posterior de autores sacerdotais compôs o Livro das Crônicas, com a tônica na continuidade do seu templo com a adoração da época de Davi e Salomão.

       A Jerusalém dos séculos IV-IIII viu o surgimento de uma sociedade urbana mais diversificada que a anterior, e foi nestes círculos que obras como Jó, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos foram produzidas. É também necessário supor a existência de uma biblioteca, ou bibliotecas, se levarmos em conta a preservação e disponibilidade desses textos para posterior inclusão no Antigo Testamento. A crise final que precipitou a atividade literária e editorial foi a perseguição sob Antíoco, em 169 a.C, que produziu os Livros de Daniel e Ester.

       Devemos lembrar, entretanto, que produzir livros não era uma questão de o autor completar algo que depois era aperfeiçoado. O processo de composição não tinha fim, com a obra de autores transformando-se gradualmente na dos copistas atrávés de editores.”

Cronologia da composição dos livros do Antigo Testamento e de alguns Apócrifos

séculos X e IX a.C

registros da administração do templo e da corte compilados em Jerusalém

século VIII a.C

Início da coleção de material escrito que vai ser, ou compor, o Antigo Testamento: oráculos dos profetas Oséias, Amós, Miquéias e Isaías; primeiros esboços da história de Israel e Judá desde Abraão; coleção de leis, provérbios e salmos

século VII a.C

coleção de palavras dos profetas  Jeremias, Naum, Sofonias, primeiros esboços do Deuteronômio, história geral de Israel & Judá ampliada até a época de Josias

século VI a.C

coleção de palavras dos profetas (Jeremias, Ezeuiel, Isaías, Habacuue, Ageu, Zacarias); outras demãos editoriais sobre a História de Israel e Judá, desde Abraão até a destruição de Jerusalém; e sobre o Deuteronômio. Composição de Salmos e Lamentações

século  V a.C

O Pentateuco (Gênesis + Deuteronômio) começa a assumir algo parecido com a sua forma atual. Livros de Esdras, Neemias, Jonas, Rute.

século IV a.C.

Novas composições: Livros de Crônicas, Malauias, capítulos posteriores de Zacarias, Cântico dos Cãnticos, Jó, Eclesiastes, Estes.

século III a.C.

Novas composições (Isaías, capítulos 24 ao 29), Enoque (capítulos que vem do 1 ao 36 e 72 a 92).

século II a.C.

Novas composições incluem Daniel, Macabeus, apócrifos (Jesus ben Sirac, Eclesiástico), além de outras partes de Enoque e Sabedoria de Salomão.

século I a.C

Partes complementares de Macabeus, Tobit, Judite, Baraque, Manassés.

             (extraído com ligeiras adaptações de Uma Introdução à Bíblia, de J.W. Rogerson).

 

séculos XIII-XII a.C: os israelitas se estabelecem numa região montanhosa de Efraim, Galiléia e Transjordânia. Os filisteus se estabelecem na planície costeira.

século XI a.C: os crescentes conflitos entre filisteus e israelitas levam ao surgimento de um “reinado” israelita sob o comando de Saul (c. de 1020)

séc. X a.C: Davi derrota os filisteus, faz de Jerusalém a capital e une Israel e Judá, sendo sucedido por Salomão, que edifica o Templo. Depois de sua morte, Israel se separa de Judá.

séc. IX a.C: Israel se torna uma nação dominadora na região, controlando Judá e arredores.

séc. VIII a.C: Os profetas Oséias e Amós criticam a injustiça social e o sincretismo religioso em Israel, ue é destruído pelos assírios em 722-721. Judá, sob Ezequias, assume o papel de Israel+Judá, mas é invadido em 701.

séc. VII a.C: Judá é província da Assíria, que declina como nação, enquanto a Babilônia ascende. Josias proclama a independência de Judá e faz um reforma religiosa.

séc. VI a.C: Nabucodonosor,da Babilônia, domina a região e submete Jerusalém em 597. A cidade é destruída em 587. Em 540, Ciro, rei da Pérsia, derrota os babilônios.  O Templo é reconstruído em 515.

séc. V a.C: Judá é província a Pérsia.

séc.  IV a.C: A Pérsia é derrotada por Alexandre. Inicia-se a era de influência grega em Judá.

séc. III a.C: Judá é governado pelos Ptolomeus, governantes gregos do Egito. O estabelecimento de colônias judaicas no Egito, especialmente Alexandria, faz com que parted do Antigo Testamento sejam traduzidos para o grego.

séc. II a.C.: A helenização do judaísmo, mais a profanação do templo, graças à interferência do rei Antíoco IV, levam à revolta dos macabeus.

séc. I a.C: Judá torna-se província romana, sob o governo de Herodes.

“…quanto mais fundo sondamos, quanto mais abaixo tenteamos e calcamos o mundo inferior do passado, tanto mais comprovamos que as bases mais remotas da humanidade, sua história e cultura, se revelam inescrutáveis. Por temerários que sejamos no cumprimento que dermos à nossa sonda, ela se estira ainda, aprofundando-se cada vez mais. Não é sem razão que falamos em estirar-se e aprofundar-se, porquanto aquilo que é investigável zomba dos nossos ardores inquisitivos; oferece pontos-de-apoio e metas aparentes, por trás das quais, depois que as atingimos, surgem ainda novas províncias do passado, tal como acontece a quem navega ao longo da costa sem encontrar termo para sua viagem, porque, por trás de cada promontório de duna argilosa que ele conquista, pontas de terras inesperadas e novas distâncias continuam a negaceá-lo.

         Podem assim existir origens provisórias que praticamente e de fato formam os primórdios da tradição particular mantida por uma dada comunidade, por um povo ou por uma comunhão de crença; e a memória, embora suficientemente inteirada de que na realidade não foram sondadas as profundezas, pode, contudo, do ponto de vista nacional, conformar-se com aqueles primórdios e, pessoal e historicamente falando, vir a descansar aí.

         O jovem José, por exemplo, filho de Jacó e da formosa Raquel… José, vivendo naquela região da terra de Canaã, nas tendas de seu em pai em Hebron, José que era  um jovem famoso pelo encanto que herdara de sua mãe… José, afinal e para concluir (pela quarta ou quinta vez eu digo o nome dele, e com prazer, porque há mistério nos nomes…); José, pela sua parte, considerava uma certa cidade chamada Ur, na Babilônia Meridional, como o princípio de todas as coisas, isto é, de todas as coisas que lhe diziam respeito.

         É que dali, em época já muito remota (José nunca tivera cabal certeza de quão remota ela era), um homem pensativo e interiormente inquieto, com sua mulher, a quem ele, provavelmente por ternura, costumava chamar de irmã, partira com outras pessoas de sua família, para fazer como fazia a lua, que era a divindade de Ur, vagueando sem rumo certo, porque achava isto muito adequado à sua situação insatisfeita, dúbia, tormentosa… A tradução transmitida a José variava um tanto em relação àquilo que mais particularmente molestara o desassossegado… Diz a tradição que seu Deus (aquele Deus diante de cuja imagem seu espírito trabalhava, o mais alto dentre todos, único a quem resolvera servir por orgulho e amor, o Deus para o qual ele procurara um nome e não achara nenhum conveniente e por isso lhe dera o plural, chamando-lhe provisoriamente Elohim, a Divindade), pois bem, Elohim lhe fizera promessas de imenso alcance e claramente definidas, de acordo com as quais não só ele, o homem de Ur, viria a ser um povo tão numeroso quanto as areias do mar e uma bênção para todos os povos, mas também a terra onde ele vivia como estrangeiro e aonde o conduzira Elohim, tirando-o da Caldéia, seria possessão perpétua dele e de sua descendência… Por outras palavras, Deus fadara as populações nativas à derrota e à sujeição ao interesse do homem de Ur e de sua raça. Tudo isso, porém, deve ser acolhido com restrições, ou no mínimo com critério. Estamos lidando com interpolações posteriores, feitas deliberadamente para confirmar, como intuitos primitivos da divindade, situações políticas que de começo tinham sido estabelecidas pela força. Na realidade o espírito daquele homem erradio não era talhado para receber ou provocar promessas de natureza política… O que  o pusera em movimento foi desassossego de espírito, necessidade de Deus e se lhe foram outorgados favores, tinham relação com as irradiações do seu conhecimento pessoal de Deus, que era de uma espécie inteiramente nova

         Por vezes, José tinha o homem errático na conta de seu bisavô, embora tal idéia deva ser francamente afastada dos domínios do possível… e quando o fazia era para divertir o pensamento, o que condiz admiravelmente com o seu espírito, mas não ficaria bem ao nosso, sendo-nos portanto vedado fazê-lo… entre o menino José e a peregrinação de seu suposto antepassado no espírito e na carne mediavam bem, conforme o sistema cronológico em vigor na sua idade e esfera, vinte gerações, ou, em números redondos, seiscentos anos babilônicos, lapso de tempo tão longo como o que vai do nosso século vinte ao período gótico da Idade Média; tão longo quanto ele, no entanto muito menor… Seiscentos anos naquelas eras e embaixo daquele céu não significavam o que significam na nossa história ocidental. Era um período mais igual, mais silencioso, mais mudo; o tempo era menos eficiente, sua faculdade de suscitar mudanças tinha um alcance mais fraco e mais restrito, muito embora naquelas vinte gerações ele por certo produzira mudanças e revoluções de considerável monta… e contudo, tomado em conjunto, o tempo de então fora mais conservador que o tempo de agora, o teor da vida de José, seus modos e hábitos de pensar eram muito mais chegados aos seus do que os nossos em relação aos dos cruzados. A memória, repousando na tradição oral de geração a geração, era mais direta e confiante, fluía mais livremente, o tempo apresentava uma vista mais uniforme e por isso mesmo mais fácil de abranger. Não se pode censurar a José o encurtá-lo em seus sonhos, e estando alguma vez a devanear, talvez à noite, ao luar, confundir o homem de Ur com o avô de seu pai…. o seu desejo de achar um começo para a série de acontecimentos que lhe diziam respeito ia tropeçar na mesma dificuldade que sempre se contrapõe a um tal esforço, isto é: verificar que cada qual tem um pai, que nenhuma coisa é  a primeira e nasce de si mesma, nem é causa de si própria e que toda a gente é gerada e aponta para trás, mais fundo dentro da profundidade das origens, nos abismos e sumidouros do passado… Aqui o cérebro do jovem começava a sentir vertigens, exatamente como acontece ao nosso quando nos debruçamos sobre o poço do passado; e deixando de parte umas insignificantes inexatidões que a si mesma permitia sua linda e graciosa cabecinha mas que a nós não ficam bem, podemos sentir-nos bem próximos dele, quase seus contemporâneos, quando falamos nessas remotas profundezas e abismos do tempo em que ele, tantos séculos atrás, já fitava a vista.”

“Desta maneira são formados aqueles começos, aqueles bastidores do passado, onde a memória pode deter-se e acha um ponto-de-apoio para alicerçar sua história pessoal, como fez José em relação a Ur, a cidade, e a seu antepassado que dali partira. Era uma tradição de inquietação espiritual; ele a tinha no sangue.. tudo isso passando como um legado de geração a geração, desde o homem de Ur… Desassossego e dignidade, eis o sinal do espírito… [para José o Altíssimo] seria uma réplica superior de seu pai, e estava ingenuamente convencido de ser muito amado pelo Altíssimo exatamente como o era por aquele… em contrapartida, sua com toda a sua devoção, ele absolutamente não seguia nem aceitava a forma que ela tomara no caso de seu pai: o cuidado, a ansiedade, o desassossego, expressos na invencível aversão de Jacó por uma existência fixa, mais adequada à sua dignidade, e no seu modo de vida temporário, improvisado, seminômade. Também ele, sem dúvida possível, era amado, acarinhado e preferido por seu Deus… El-Shadai fizera seu pai rico na Mesopotâmia, rico em rebanho e inúmeras posses; caminhando por entre seu bando de filhos, seu séqüito de mulheres, seus servos e seu gado, dir-se-ia um príncipe entre os príncipes da terra, e era-o de fato, não somente na aparência exterior mas também pelo poder do espírito, na qualidade de nabi, isto é, o profetizador; na qualidade de homem prudente, sagacíssimo, cheio da ciência de Deus, como um dos chefes espirituais e anciãos a quem tinha tocado a herança do caldeu e que tinham por vezes sido considerados como descendentes diretos dele…. [mas era como] se ele não pudesse parar e criar raízes com outros, como se de hora em hora tivesse de estar à espera da Palavra que o faria deitar abaixo barracas e estábulos, pôr no lombo dos camelos as estacas, cobertores e peles, e partir… José, naturalmente, sabia por quê. Tinha de ser assim porque estavam servindo a um Deus cuja natureza não era repouso e conforto permanente, mas um Deus que tinha desígnios para o futuro, em cuja vontade coisas inescrutáveis, grandes, de longo alcance, estavam na fase de vir-a-ser e que, com  a sua vontade reflexiva e seus projetos sobre o mundo, estava ele próprio ainda no processo do vir-a-ser, sendo por isso um Deus de preocupações, de inquietude, que deve ser procurado, para o qual todos têm de se conservar desimpedidos em qualquer tempo, móveis e de prontidão

         Quanto a mim, que agora levo a termo a minha narrativa para mergulhar voluntariamente numa aventura sem limite, não esconderei minha compreensão nativa do mal-estar do velho e sua aversão a qualquer habitação permanente. Não me destinaram também a mim o desassossego? Não me foi dado um coração que desconhece o repouso? O astro do contador de histórias não será a lua, senhora da estrada, a vagabunda que vai de fase em fase, libertando-se de cada uma? O narrador faz várias pausas, andando e relatando, mas só habita em tendas, aguardando novas direções, e pouco depois sente que seu coração bate forte, quer de desejo, quer também pelo medo e angústia da carne, mas sempre como sinal de que deve tomar a estrada à cata das novas aventuras, que devem ser penosamente vividas até os seus mais remotos detalhes, de acordo com a vontade do espírito infatigável… O passado não é o elemento natural do narrador de história, a que ele se apega como o peixe à água? Sem dúvida. Mas, a falar assim, nem por isso meu coração cessa de pulsar de medo e curiosidade, provavelmente porque o passado pelo qual estou habituado a deixar-me conduzir para bem longe é muito diverso do passado ao qual agora desço, a tremor… Pois a essência da vida é o presente e só num sentido mítico seu mistério aparece nas formas temporais do passado e do futuro… o mítico é apenas o vestuário do mistério. Mas o traje domingueiro do mistério é a festa, a festa periódica que lança uma ponte sobre o tempo e torna o passado e o futuro concretos para o sentido do povo. Não é pois de admirar que no dia da festa a humanidade fermente e proceda com desenfreada desenvoltura; nela, morte e vida se encontram e se reconhecem. Festa de contar histórias, és o traje festivo do mistério da vida, pois evocas a eternidade na mente do povo e o mito, para que ele possa ser revivido no tempo atual.

            (Thomas Mann, Prelúdio: Descida aos infernos, em Histórias de Jacó, 1933)

“O que em substância há é que essa disposição de Deus não era originalmente dirigida nem contra Raquel nem a favor de Lia. Era antes uma advertência e uma disciplina para Jacó, que por meio dela ficava sabendo que a branda soberania que concedia a seus sentimentos,  a arrogância com que os acalentava e anunciava não eram vistas com bons olhos por Elohim, embora essa mesma tendência para a seleção, esse entregar-se em freio a um favoritismo arbitrário, esse orgulho do sentimento que não queria submeter-se a julgamento mas antes exigia que todo o mundo o tomasse pela sua avaliação, pudessem ser atribuídos primordialmente a um protótipo mais elevado de que era, de fato, a cópia mortal. Devo dizer embora? Precisamente porque a glorificação que Jacó concedia a seus sentimentos era uma reprodução da outra é que ela foi punida. Quem quer que se aventure a tocar nesse ponto deve tomar cuidado com suas palavras. Mas ainda depois do mais escrupuloso exame, não há dúvida de que o móbil principal da medida foi o ciúme que Deus tinha de um privilégio que, como ele procurou dar a conhecer com a humilhação a que submeteu o sentimento de Jacó, reputava como sua prerrogativa exclusiva. Podem levar-me a mal esta exegese, e hão de argüir que um motivo tão mesquinho e passional como o ciúme não quadra como explicação de decretos divinos. Aqueles, porém, que se escandalizam com a minha versão têm a liberdade de considerar o decreto como uma relíquia, espiritualmente não-digerida, de estágios antigos e menos disciplinados no desenvolvimento da essência divina… O pacto de Deus com o espírito humano atuante em Abraão era um pacto que tinha em mira a santificação mútua, uma aliança em que a necessidade humana e a divina de tal forma se misturavam que não é fácil dizer-se de que lado, o humano ou o divino, partia o impulso original…”

       (Thomas Mann, As irmãs, em Histórias de Jacó, 1933)

“Pela primeira vez, uma obra literária (que não tem a intenção de ser nem apologética do ponto de vista judaica nem exegética do ponto de vista cristã, mostra-nos, em Israel, ao mesmo tempo o que o une ao vasto mundo mítico e pagão e o que o separa dele) faz-nos assistir ao nascimento quase monstruoso da noção monoteísta de Deus”.

        (Marguerite Yourcenar a respeito do texto acima, em “Humanismo e Hermetismo em Thomas Mann”, ensaio de Notas à margem do tempo)

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