MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/07/2010

Minhas amigas Elinor, Marianne e Emma

I

                Entre as muitas razões da importância de Jane Austen está o fato de ela ter sido um dos autores que deram ao romance a forma que vigora até hoje. Ela e Stendhal moldaram a narrativa onde tudo decorre do caráter dos personagens principais, mesmo quando tolhidos pelas convenções.

             Já o título do primeiro romance de Austen publicado (em 1811), Razão e Sentimento, indica o caráter das suas heroínas, as irmãs Dashwood, Elinor e Marianne. Elinor ama com sensatez e resignação Edward Ferrars, que se encontra preso a um compromisso anterior (com uma tola); Marianne ama impulsiva e insensatamente Willoughby, o qual parece ter escapado das grandes histórias românticas, mas que se mostra muito pouco à altura desse papel, preferindo—de forma um tanto desonrosa e quase fatal para a Dashwood sentimental—casar com outra moça, possuidora de um grande dote.

           Pois esse é um problema central no livro. Na Inglaterra da época, as mulheres podiam herdar renda, nunca propriedades. Elinor, Marianne, a irmã caçula e a mãe são praticamente expulsas de sua casa, uma grande propriedade, após a morte do sr. Dashwood, pelo meio-irmão, e vão morar num chalé. Isso não quer dizer que elas fiquem na miséria. Quer dizer que elas assumem a condição de mulheres sem dote, o que, no seu nível social, é uma desgraça equivalente, principalmente porque faz diminuir vertiginosamente a possibilidade de casamento, a grande meta da mulher de então.

           São notáveis s diálogos de Razão e Sentimento. Também impressiona a cada leitura como ela consegue dar vida aos personagens que cercam as duas irmãs-antípodas, caso de Fanny, esposa do meio-irmão e irmã de Edward; da casamenteira e ruidosa mrs. Jennings; de Lucy Steele, a moça que ata a liberdade do amado de Elinor. Só que ainda assim o livro é um tantinho arrastado, e sempre me pareceu uma primeira versão (pois os temas são parecidos), bem mais crua, de  Orgulho e Preconceito, que eu não hesitaria em colocar em qualquer lista de melhores romances de todos os tempos (embora também seja tentado a fazer o mesmo com Mansfield Park).

            Falta, por exemplo, além da amplitude, um personagem masculino do gabarito de mr. Bennet, o pai das heroínas de Orgulho e Preconceito, sem falar no herói dessa obra-prima (mr. Darcy), para não falar do maravilhoso mr. Knightley de Emma.

          Mesmo assim, há momentos inesquecíveis em Razão e Sentimento, como o debate entre John, o meio-irmão, e Fanny, a respeito do montante exato que ele deveria dar a elas em cumprimento à promessa feita ao pai. Ao longo da discussão, o valor vai baixando até terminar em nada. Dá quase para imaginar Machado de Assis deliciando-se com a cena.

           Já houve um a tradução anterior do livro, por Dinah Silveira de Queiroz. A da Nova Fronteira foi realizada por Ivo Barroso. Lançada no início dos anos 80, reaparece agora para pegar carona nas indicações ao Oscar da adaptação cinematográfica de Ang Lee (traduzida como Razão e Sensibilidade) que achei mais para mediana do que para brilhant, apesar dos melhores esforços (no roteiro e na interpretação) da eternamente aflita Emma Thompson, embora às vezes certos filmes ganhem numa revisão [1].

     Austen fascina porque suas histórias românticas tinham uma malícia oculta, como se risse às escondidas de tudo o que oprimia as mulheres. Pena que atualmente as melhores tramas envolvam porquinhos rosados.[2]

 

(resenha publicada, de forma ligeiramente diferente, em 19 de março de 1996)

 


[1] Foi o que aconteceu com este filme, que depois revi vezes sem conta em canais a cabo. Hoje em dia o acho muito melhor, ágil, cheio de malícia e charme, nos momentos certos. Ainda me incomoda a inadequação de uma parte do elenco: acho Emma muito velha para o papel, Kate Winslet mais enjoada do que representante do lado “emoção” da vida, Hugh Grant está desastroso no papel de Edward. O resto do elenco, porém, está supimpa, impecável.

[2] Esse final se deve ao fato de que um dos concorrentes ao Oscar de filme (Razão e Sensibilidade seria teoricamente o favorito, pois ganhara o Globo de Ouro) era Babe, o porquinho atrapalhado. Mas nenhum dos dois levou, e sim Coração Valente, de Mel Gibson. Os outros candidatos eram lastimáveis: Apolo 13 e o horroroso O carteiro e o poeta.

II

    Nos últimos tempos, o cinema vive uma febre de adaptações de obras clássicas. Só para citar algumas:  As afinidades eletivas (pelos irmãos Taviani), Retrato de uma senhora (por Jane Campion), as costumeiras adaptações de Shakespeare… Até o cinema brasileiro embarcou na onda, com as produções em andamento de uma adaptação de Os sertões e outra de O triste fim de Policarpo Quaresma. Mas a autora da moda (embora tenha morrido em 1817,aos 41 anos) é Jane Austen.

     Além do oscarizado (pelo menos levou o prêmio de roteiro adaptado) Razão e Sensibilidade, é interessante notar que Emma (1816), uma de suas quatro obras-primas[1], e cuja tradução (de Ivo Barroso) foi lançada recentemente pela Nova Fronteira, deu origem a dois filmes: uma versão modernizada, muito bacana e cativante, Clueless- As Patricinhas de Beverly Hills, e uma versão fiel à época pré-vitoriana, a qual deve estar de olho no Oscar do próximo ano, mas que já peca pela escolha da protagonista, Gwyneth Paltrow, uma das estrelinhas mais sem-graça aparecidas nesta década[2].

      A personagem-título de Emma nos é apresentada como “bela, inteligente e rica, senhora de uma confortável mansão e excelente disposição de espírito”. Morando numa região rural, Highbury, com poucas e selecionadas relações, a sua principal ocupação, fora cuidar do pai, é “arranjar” casamentos.

      Sua imaginação e perspicácia estão sempre prontas a “compor” casais. Isso acontece após o sucesso do primeiro investimento nesse sentido, o enlace da governante, miss Taylor com o simpático vizinho mr. Weston. Só que as próximas investidas casamenteiras de Emma serão cada vez mais desastradas e desencontradas com os fatos. A principal vítima delas é uma garota bela, tola e de nascimento duvidoso, Harriet [3], a quem escolhe como “protegida”. Emma a faz desprezar seu primeiro pretendente, o fazendeiro simplório Robert Martin, e procura uni-la a mr. Elton, o pároco, o qual se revela um arrivista enfatuado (e depois se casa com uma mulher igualmente enfatuada). Depois procura atrair para a amiga Frank Churchill, o qual mantém uma relação secreta, esperando apenas que a tia, da qual depende, morra, para assumir o noivado com a principal rival de Emma na região, Jane Fairfax.

    E quando Harriet “decide-se” por alguém, Emma descobre que é justamente o homem que ela própria ama, mr. Knightley, o maior oponente dos planos casamenteiros e das conclusões a respeito das pessoas em geral da intrometida garota.

   Que delícia ler Emma.  Apesar de aparentemente se concentrar nas pequenas trivialidades da vida quotidiana (ainda que de uma classe socialmente favorecida), é justamente daí, do poder de Austen nos transmitir a sensação da existência corriqueira, que esse romance de 180 anos atrás tira seu encanto. De fato, foi uma das maiores conquistas da ficção inglesa essa capacidade de lidar com o quotidiano de forma realista, e é uma pena que nos últimos anos tanto essa literatura como o cinema inglês tenham perdido isso na maioria das suas realizações, o senso de realidade (para utilizar um título de Graham Greene), com sua fixação decorativa no passado e obsessões intelectuais insossas e bisonhas (e a falta que faz esse dom de apreender a vida comum e torná-la significativa no cerne da sua própria banalidade e aleatoridade, pode ser comprovada na força de um filme como o magnífico Segredos e Mentiras, de Mike Leigh, para mim o grande filme deste ano de 1996).

     Mais uma vez, como em outros livros da grande escritora inglesa, são os personagens secundários que se não roubam a cena poderiam fazê-lo sem escrúpulos. Há a tagarela e simplória miss Bates, tia de Jane Fairfaz; há o pai de Emma, mr. Woodhouse, com suas pequenas e imutáveis manias e que parece emergir do mundo de Laurence Sterne. Eles podem se juntar à Fanny de Razão e Sentimento, ao Mr. Bennet de Orgulho e Preconceito e à mrs. Norris de Mansfield Park, na galeria de tipos inesquecíveis de Jane Austen. Mr. Woodhouse, cm sua indolência egoísta lembra, inclusive, Lady Bertram, irmã de mrs. Norris. São todos personagens de primeira categoria.

    Há o escorregadio Frank Churchill, que lembra os galãs duvidosos que são o interesseiro Willoughby de Razão e Sentimento, e o vaidoso Henry Crawford de Mansfield Park.

     Já  mr. Knightley é, sorry, mr.Darcy e mr. Edmund Bertram (que ficam com as heroínas de Orgulho e Preconceito & Mansfield Park), o mais expressivo e bem realizado  herói cavalheiresco de Jane Austen[4].

    Pena que a tradução de Ivo Barroso, em geral excelente, comprometa-se com soluções horríveis, como, por exemplo, nos diminutivos dos nomes próprios. Emminha!!?? Henryzinho!!??Faça-me o favor, sr. Barroso. E o bizarro deslize, muito comum, dos tradutores brasileiros manterem chance quando acaso seria o equivalente em português. Alguém fica ao sabor da chance, sr. Barroso?

    Essas considerações são mero detalhe, escarafunchações críticas. Austen escrevia para ser lida. E, em Emma, como nos demais romances, consegue envolver o leitor nas vidas distantes e ultrapassadas da comunidade de Highbury, seus moradores, seus visitantes e intrusos. Cada personagem parece criar vida diante do leitor e ter uma realidade gritante, mesmo que sua ética, seus valores e suas convenções sociais sejam letra morta. Se é em A Abadia de Northanger, publicado postumamente (em 1818), que ela parece ter conseguido o tom mais próximo do leitor atual, mais jocoso e malicioso (talvez por causa do lado satírico e paródico muito forte desse romance, que se adapta bem ao clima pós-moderno que vivenciamos), qualquer um dos seus textos consegue ser ainda um milagre de comunicabilidade e fluxo de vida. Isso é genialidade.

(resenha publicada, de forma ligeiramente diferente, em 26 de novembro de 1996)


[1] As outras são, claro, Orgulho e Preconceito, Mansfield Park & Persuasão. Mesmo assim, gosto muito de Razão e Sentimento e do paródico e delicioso A abadia de Northanger.

[2] Hoje já não implico tanto com Paltrow, embora ela nunca tenha merecido o Oscar de atriz que ganhou, e realmente sua Emma deixe a desejar. Muito melhor está a agora linda demais (mas não o era tanto à época) Kate Beckinsale, numa adaptação para a BBC. Quem está surpreendentemente péssimo no filme de Douglas McGrath é Ewan McGregor (no papel de Frank Churchill), com um visual que, segundo meu amigo Eduardo Vieira, lembra o Visconde de Sabugosa.

[3] No filme de época vivida pela maravilhosa Toni Colette e no filme moderninho por Brittany Murphy, ambas ótimas.

[4] E ele teve a sorte de ser vivido pelo irresistível Jeremy Northan no filme de McGrath (o ator da versão da BBC é correto, porém não chega aos pés). Quem está muito bem no papel correspondente, em As Patricinhas de Beverly Hills, é Paul Rudd, o qual depois faria um monte de comédias bobas., mas que era uma promessa na época.

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Minha amiga Elizabeth

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 18 de março de 2006)

Devido à sua interpretação (que não considero nada de especial) na mais recente (e mais rasa) das numerosas versões de Orgulho e Preconceito, Keira Knightley recebeu indicação para todas as premiações de maior repercussão (Oscar, Globo de Ouro, SAG), embora tenha perdido sucessivamente para Reese Whiterspoon, a qual, por sua vez, estrelou a adaptação de outro magnífico romance oitocentista, A Feira das Vaidades [mas seus prêmios foram por outro papel, em Johnny e June]. Em conseqüência, a mais tradicional tradução (a de Lúcio Cardoso) do principal livro de Jane Austen ganhou nova edição. Esperemos que a obra-prima de Thackeray tenha a mesma sorte.

É provável que mesmo o aguado desempenho de Keira Knightley (em compensação, não se podia pedir um  mr. Darcy melhor que o de Matthew Macfadyen: a cena em que ele aparece ao amanhecer nas imediações da casa de Elizabeth e diz que a ama três vezes é um belo momento romântico do cinema atual) tenha chamado tanta atenção porque Elizabeth Bennet é uma das personagens mais carismáticas da história da ficção, como digna sucessora que é daquelas heroínas inteligentes, mordazes e apaixonadas de Shakespeare (Rosalind, de Como gostais, Pórcia, de O Mercador de Veneza, por exemplo). Como se sabe, ela pertence a uma família que tem muitas filhas (cinco), todas sem dote e cuja propriedade, com a morte do pai, deverá passar para um distante (e insuportável) parente masculino. Este, em certo ponto da narrativa, resolve pedir a mão de Elizabeth, mas ela está encantada com o forasteiro Wickham, desafeto de Mr. Darcy, melhor amigo de outro estranho ao lugar onde mora a família Bennet, Mr. Bingley, que se apaixona por Jane, irmã mais velha de Elizabeth (romance desaprovado pelo orgulhoso e preconceituoso Darcy). Aliás, Mr. Collins, o absurdo pretendente, toca na questão central da vida de mulheres como as Bennet: “A senhora deve levar em conta que apesar dos seus múltiplos atrativos, nada garante que outra proposta de casamento lhe seja feita algum dia. O seu dote infelizmente é tão pequeno que em todas as situações pesará contra a sua beleza e as suas louváveis qualificações.” Como se vê, uma situação muito parecida com a de outro livro de Austen (cuja versão cinematográfica, dirigida por Ang Lee, também foi sucesso), Razão e Sentimento. Em Orgulho e Preconceito tudo ganhou mais amplitude, principalmente o humor e a ironia.

Com implacável precisão e lucidez, ficamos conhecendo aquela sociedade em que cada um é prisioneiro de sua condição social e sexual, em que o mais rasteiro cálculo materialista e comodista dita as regras (e que talvez seja menos hipócrita que a nossa, regida da mesma forma, porém onde se pratica outro discurso), como mostra a melhor amiga de Elizabeth, Charlotte, ao aceitar Mr. Collins como marido: “Sem pensar muito nem nos homens nem no matrimônio, o casamento sempre fora o seu objetivo; era a única condição digna para uma moça bem-educada e de pouca fortuna e por mais incertas que fossem as perspectivas de trazer felicidade, ainda era a forma mais agradável de se preservar da necessidade”.

Mesmo assim, provavelmente os leitores apaixonados por Jane Austen, como eu,  nunca cansarão de reler Orgulho e Preconceito é por causa mesmo da mudança de sentimentos de Elizabeth com relação a Mr. Darcy, depois que reconhece o caráter dúbio e escorregadio de Wickham (que seduzirá a irmã dela),  percorrendo lentamente (em termos psicológicos, não narrativos) o arco que vai da antipatia ao amor. E isso através de diálogos ainda insuperados (a cena da declaração de amor dele é particularmente antológica). Nem a descoberta da protagonista de Emma de que ama Mr. Knightley é tão marcante.

Outro prazer adicional é o de retomar contato com um dos pais mais deliciosamente irônicos já criados, Mr. Bennet, sempre roubando a cena quando aparece e que, entretanto, não escapa à prodigiosa visão crítica da genial escritora inglesa: “Elizabeth, no entanto, nunca fora cega à impropriedade do comportamento do pai como marido. Aquilo sempre a fizera sofrer mas, respeitando as suas qualidades  e grata pelo seu tratamento afetuoso, esforçava-se por esquecer o que não podia fingir não ver e bania dos seus pensamentos aquela contínua quebra das obrigações e do decoro conjugal, expondo a esposa ao desprezo das próprias filhas.”  Todavia, como resistir a um personagem que, quando sua tola esposa diz,”Você se diverte em me aborrecer, não tem compaixão pelos meus pobres nervos”, responde: “Está enganada, minha cara. Tenho um alto respeito pelos seus nervos. São meus velhos amigos. Ouço-a mencioná-los com consideração há pelo menos vinte anos.”

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29/07/2010

A fisionomia plena de Clarice

I

Ao escrever sobre a vida de Clarice Lispector (1920-1977), Nádia Battella Gotlib (uma biógrafa  quase tão bela quanto a sua biografada) optou por um caminho incomum e difícil, renunciando a uma espécie de “objetividade” qu parece ser a enganosa lei das biografias. Além disso, fez um trabalho de análise literária, normalmente abafado, para dizer o mínimo, nesse tipo de projeto, com raras e honrosas exceções.

Deve ter sido um risco calculado, e ela agora está pagando o preço: boa parte das reações iniciais foi negativa, não por culpa do livro, que é ótimo, mas da crítica, que está ficando cada vez mais apressada e superficial.

Clarice- uma vida que se conta não é impecável, há falhas e lacunas: por exemplo, no tocante à recepção dos textos da biografada. Praticamente ela só trata do assunto quando do lançamento de Perto do coração selvagem. Todavia, Nádia acertou na mosca ao privilegiar como princípio estruturador a visão (ou seja, as versões) que a própria Clarice apresentava de si mesma, da sua vida, da sua infância, principalmente através das crônicas que escreveu por necessidade financeira (e que em sua quase totalidade foram publicadas no póstumo A descoberta do mundo, um livro pelo qual até então eu não tinha maior interesse, e que se revelou um tesouro graças à biografia). O enredo que é extraído desse material (e sua confrontação com os fatos)  já é um feito por si e uma demonstração cabal do conhecimento da obra/vida. Nenhum dos dois pólos (texto/fato) é tomado como elemento definitivo ou absoluto. Pode-se dizer que Nádia elegeu como lema as sábias palavras do grande amor de Clarice, Lúcio Cardoso: “A finalidade de um retrato não deve ser a de esclarecer, mas de contornar, sugerindo o enigma. De esforço em esforço, aingir a fisionomia plena, mas com o seu segredo, que é o que importa”.

Nem por isso o leitor fica sabendo menos sobre os fatos: as raízes judaicas, a infância pobre no Recife, a mudança para o Rio, o trabalho como jornalista, o casamento e a vida no exterior devido à carreira diplomática do marido, a separação…

Encaminhando-se para a década de 70, o livro vai se fechando cada vez mais em Clarice Lispector e na sua obra (os elementos exteriores vão se rarefazendo), ficando mais denso ao mostrar esses anos em que ela própria se fecha mais, talcez por causa do envelhecimento, das seqüelas de um acidente nefasto, da solidão, da ameaça da pobreza. E isso mostra a sabedoria com que Nádia escreveu Uma vida que se conta e seu conhecimento ímpar da obra de Clarice, que atingira a essa altura uma tensão quase insuportável (após Água viva) e estava sempre a um passo de chegar ao seu limite, o limite do dizer, a uma desintegração e desestruturação totais, esvaziando-se por conta de sua própria lógica interna desgastante (e meio suicida).

Muitas vezes, críticos sérios (como João Luiz Lafetá) têm demonstrado reservas quanto a Clarice (ou então têm mantido certo respeito distanciado), por conta do verdadeiro objeto de culto que ela se tornou nas mãos de inúmeros leitores que a tomam por uma espécie de Maria Bethânia, ou pior ainda, de Barbra Streisand ou Liza Minelli da literatura.

A autora de A paixão segundo G.H. já foi estudada com grande acuidade por um crítico do porte de Benedito Nunes. Mas Uma vida que se conta é uma envolvente prova de que ela, junto a Guimarães Rosa, Graciliano Ramos  e Dalton Trevisan, fez a melhor obra em prosa no Brasil pós-Modernismo. Também demonstra que ela era habilidosa, para não dizer genial, no “contar”, algo que ainda não se pensara muito como uma das suas qualidades centrais. Ter inventado a sua vida, “contando-a” em suas crônicas, foi uma das suas grandes realizações. Ela mesma deu combustível para que nos interessemos por uma biografia sua.

Em tempo: o projeto gráfico do livro de Nádia Battella Gotlib pela Ática é um dos melhores dos últimos aos, um prazer de se ter e ler.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de agosto de 1995)

II

Na arguta biografia que escreveu sobre Clarice Lispector (1920-1977), Uma vida que se conta, Nádia Battella Gotlib cita as seguintes palavras de Lúcio Cardoso: “A finalidade de um retrato não deve ser a de esclarecer, mas de contornar, sugerindo o enigma. De esforço em esforço, atingir a fisionomia plena, mas como o seu segredo, que é o que importa”. Naquele momento (1995), ela revolucionava a imagem da autora, privilegiando no conjunto da obra as crônicas (reunidas hoje em Para não esquecer & A descoberta do mundo, além de certos textos fundamentais que fazem parte de Felicidade Clandestina), que a princípio não pareciam ter maior importância, mas que lidas da maneira certa compunham uma intensa e coerente narrativa autobiográfica, servindo como canto paralelo (e complementar) às intensas pesquisas existenciais e de linguagem de suas obras-primas efetivamente ficcionais como Perto do coração selvagem, O lustre, A paixão segundo G.H. ou Água viva, para ficarmos nos “relatos” cujos protagonistas são mulheres.

Pelo menos para mim Uma vida que se conta foi um marco. Pois bem, após reeditar toda a obra clariceana, a Rocco despejou no mercado uma série de livros apócrifos; entre eles, um de fotografias, “enfeitado” por breves citações: Aprendendo a viver, que parece os lançamentos da editora Sextante com fotos de bichos do tipo Um dia daqueles, que todo mundo acha tão adoráveis.

E agora Nádia Gotlib lança Clarice Fotobiografia. Qual a diferença?  Sem contar a dedicação obsessiva da biógrafa, a qual, de esforço em esforço, fez realmente o impossível para registrar até o distante local de nascimento de Clarice (Tchechelnik, na Ucrânia), o livro é uma viagem colossal pelos fatos biográficos, pelos objetivos literários, pelas obras publicadas, pela correspondência, pelo casamento, pela pobreza, pelo envelhecimento, até mesmo pela solidão e pela angústia. E até pelo além, no sentido de que não pára no ano da morte da “ucrano-pernambucana”, na feliz colocação do mestre da crônica no Brasil, Rubem Braga, o qual continua, mais feliz ainda, dizendo que ela é (e o verbo no presente vai por conta do ano em que escreveu, 1965), na verdade, uma grande escritora carioca, “na boa e nobre linhagem de Machado de Assis” (e aliás, todas essas linhas se cruzaram e cristalizaram brilhantemente em outra suprema realização, A hora da estrela, não por acaso a odisséia patética e vertiginosa de uma nordestina perdida pelo Rio, e a última obra que publicou em vida).

É lógico que esse apaixonante caleidoscópio de imagens ganha muito se lido em conjunto com Uma vida que se conta. O que Nádia Battella Gotlib continua a provar, no entanto, é sua fidelidade à mesma intenção luciocardosiana de jamais esclarecer, jamais perder de vista o que importa (o segredo), mas contornando-o, sugerindo seu enigma através da fisionomia mais plena.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 05 de julho de 2008)

 

27/07/2010

Destaque do Blog: Os 50 anos de LAÇOS DE FAMÍLIA, de Clarice Lispector

      

      

“Há um ponto em que o desespero é uma luz…”

          “Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz

           é porque preciso que Deus venha…”

“Quem encontrou buscou, disse-se em forma de rifão rimado,

         o que sempre terminava por parecer com alguma verdade…”

Introdução: Literatura e “Vida”:

Ficou famosa no anedotário da vida de Clarice Lispector (1920-1977) uma declaração feita por Guimarães Rosa a ela de  “que a lia não para a literatura mas para a vida”. Ora, que bobagem insultante e dúbia! Ainda mais dita por alguém que deveria ver nela sua única “rival” séria no cenário literário da época. E como se pode separar literatura e vida? Em que grande obra podemos fazer essa separação?

Infelizmente faz parte do “mito” Clarice Lispector essa tentativa de afastá-la da excelência literária,  transformá-la em objeto de culto  e tomá-la como uma espécie de guru, estrela-guia espiritual,  xamã dionisíaco (quando ela era essencialmente saturnina) ,sei lá o quê, como se fosse uma diminuição ela produzir “apenas literatura” e como se a “literatura” fosse uma disciplina acadêmica tão somente, domesticada, cristalizada, canônica.

Em 27 de julho de 1960 foi lançada a primeira edição de Laços de família. Comentando-o aqui, eu gostaria de trazer Clarice “mais para a literatura” porque “mais para a vida” as feministas, os gays que a tomam como uma prima-dona à La Liza Minelli ou quejandos, os autores que fazem o proselitismo do judaísmo enquanto uma condição especial do ser (assim como as feministas fazem com as mulheres e os gays com a orientação sexual), já se apropriaram e o resultado são os aberrantes trabalhos de Hélène Cixous, Claire Varin ou Benjamin Moser.

Além deles, um exemplo da bizarrice acadêmica é o texto que acompanha as reedições feitas pela Rocco de todos os livros de Clarice, uma coisa sem que nem o quê: “A escrita de Clarice Lispector situa-se numa confluência de paradigmas que a narradora entretece, destece e põe em tensa: a cena do Realismo-Naturalismo e do Romantismo-Simbolismo. Isso significa que em seus textos encontram-se veios recessivos que, transformados por sua perspectiva estilística pessoal, criam um entrelaçamento significativo entre a realidade e a ´realidade adivinhada´. Neste sentido, ela produz uma poética que lhe é própria [uai, eu pensei que TODOS os grandes autores fizessem isso], e nela como que desenha uma arquitetura textual sui generis, na qual três obras se destacam [!!!!????] e se enlaçam (reclamando-se e afastando-se) com rara sabedoria, por permitirem perceber a tensão no traçado do conjunto: Laços de família, que contracena com A via crucis do corpo, mais próximo de uma lição realista-naturalista; Água viva, denso poema em prosa, na qual tempo, enredo, personagens se desagregam e A hora da estela, espécie de ponto ótimo de articulação, mas não de síntese, das tendências referidas”. Coitado do leitor comum, que tem de se haver com essas mistificações.

Felizmente, há uma meridiano de bom-senso e eficácia crítica atravessando o planeta “recepção da obra clariceana” desde os provectos primeiros comentadores (Álvaro Lins, Sérgio Milliet), apesar dos seus pressupostos e preconceitos críticos, passando por Antônio Cândido,Gilda de Mello e Souza, Roberto Schwarz, Luiz Costa Lima (este último errando feio com relação à autora de A paixão segundo G.H., mas sempre  um crítico surpreendente e estimulante) José Américo Motta Pessanha, Olga de Sá, Regina Pontieri, Yudith Rosembaum, Vilma Âreas, Dany Al-behy Kanaan, só para citar alguns, além do trabalho biográfico de Teresa Cristina Montero Ferreira e sobretudo Nádia Battella Gotlib, e mais que todos, os (ainda) insuperados estudos de Benedito Nunes.

Os textos curtos e os livros desses autores provam que se pode ler Clarice sem ser da perspectiva “ver a laranja” e viajar na maionese, sem delírios, sem oportunismo, sem apelo para abilolados e iletrados, sem espírito de devoção, culto ou mitificação.

A primeira vez que li inteiro Laços de família (como boa parte da produção da autora) foi em 1982. Já conhecia alguns contos, como Amor e Uma galinha. Fazia parte de um pequeno grupo de amigos radicalmente clariceanos, que a colocavam à parte de quaisquer outros autores. Contudo, mesmo nessa época, eu já era um membro espúrio, um dissidente nato, desse tipo de confraria (se algum autor teve esse poder de “guru” para mim, eu teria de apontar Doris Lessing, que também comecei a ler por essa época). Para o bem ou para o mal, a Clarice que me concerne, como já disse, é aquela circunscrita por seu talento literário ímpar e impactante, não como uma auto-ajuda em clave mais refinada e apurada.

clarice

27 de julho de 1960

Quando Clarice conseguiu publicar Laços de família, além de estar novamente se estabelecendo no Rio de Janeiro, após anos de “exílio” como esposa de um membro do corpo diplomático brasileiro (eles se separaram por essa época), ela dava fim a uma curiosa e aflitiva situação que se arrastava há muitos anos: era uma escritora de prestígio que não conseguia publicar. Já tinha quatro livros: o primeiro, Perto do coração selvagem (publicado entre fins de 1943 e começo de 1944, quando ela tinha 23 anos) foi um “acontecimento”,  muito comentado na imprensa; seus dois outros romances, porém, O lustre (1946) e A cidade sitiada (1949), pelo quais eu tenho especial apreço, quase não tiveram repercussão, e a pouca que houve foi mais negativa do que positiva  (o fato de ela residir no exterior e ser uma personagem com vários traços exóticos também não ajudava).

Em 1952, ela conseguiu que publicassem seis contos numa coleção, os Cadernos de Cultura do Ministério de Educação e Saúde, mas foi uma edição que quase passou em branco, embora os contos fossem Mistério em São Cristóvão, Os laços de família, Começos de uma fortuna, Amor, Uma galinha & O jantar.

Ao longo dos anos 50, ela escreveu mais contos e os enfeixou numa primeira versão do que seria Laços de família e o seu mais estupendo romance, A maçã no escuro. Seu prestígio crescia (ela começou a colaborar mais ativamente na imprensa, foi publicada pela prestigiada revista “Senhor”), sua beleza era proverbial, quem a conhecia ficava assombrado. Aos 39 anos,  ela estava no auge. Mas só então, em 1960, se desembaraçou o “nó”, e a publicação dos treze contos (além dos seis já publicados, Devaneio e embriaguez de uma rapariga, A imitação da rosa, Feliz Aniversário, A menor mulher do mundo, Preciosidade, O crime do professor de matemática & O búfalo; não sei bem porque Os desastres de Sofia, já escrito a essa altura, e uma de suas obras-primas foi descartado, e só apareceria em livro quatro anos depois, em A legião estrangeira). Laços de família rompeu a obscuridade, o círculo restrito, e a transformou numa autora popular (até hoje é um dos seus livros mais populares), e então começou definitivamente, para o grande publico, o “mito” Clarice.

Tentações: o estado de graça e o leite da bondade humana (a linguagem em comum):

“Deus sabe o que faz: acho que está certo o estado de graça não nos ser

        dado freqüentemente. Se fosse, talvez passássemos definitivamente para

       o outro lado da vida, que também é real, mas ninguém nos entenderia

       jamais. Perderíamos a linguagem em comum”.

Laços de família é um conjunto impressionante, embora os 13 contos não sejam do mesmo nível, longe disso, e certos textos se beneficiam justamente da unidade da coletânea, enquanto outros, isoladamente, se tornaram paradigmáticos da vocação epifânica dessa primeira fase da obra de Lispector: talvez (mas não apenas) em função de ter vivido por muitos anos no mundo diplomático e sua peculiar etiqueta,  os personagens (a maioria, mulheres) e os leitores, envolvidos na teia da vida quotidiana, e principalmente uma classe média que começa a prosperar naquele momento histórico, criavam tênues alicerces, laços familiares embebido no “leite da bondade humana” de que se fala em Macbeth, e que nada mais é do que a “linguagem em comum”, sentimentalizada, opaca, falsificadora, forjando uma  harmonia ou uma aparência de harmonia, sob a qual a vida neutra e bruta e nossa animalidade espreitam (diga-se de passagem, que o termo animalidade em Clarice Lispector não é pejorativo, é o sumo da espécie:  “porque desistir da nossa animalidade é um sacrifício”, lemos em uma de suas crônicas do Jornal do Brasil, do período 1969-1973, publicadas postumamente com o título A descoberta do mundo).

A “linguagem em comum” pode ser caracterizada por trechos como os abaixo:

“…Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher; com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem felicidade se vivia… Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto…” (Amor)

“Fora inútil recomendar-lhes que nunca falassem no assunto: eles não falavam, mas tinham arranjado uma linguagem de rosto onde medo e confiança se comunicavam, e pergunta e resposta se telegrafavam mudas…” (A imitação da rosa)

“A varanda estava aberta mas a frescura se congelara fora e nada entrava do jardim, como se qualquer transbordamento fosse uma quebra de harmonia…” (Começos de uma fortuna)

“O que tornava particularmente abastada a cena, e tão desabrochado o rosto de cada pessoa, é que depois de muitos anos quase se apalpava afinal o progresso nessa família; pois numa noite de maio, após o jantar, eis que as crianças têm ido diariamente à escola, o pai mantém os negócios, a mãe trabalhou durante anos nos partos e na casa, a mocinha está se equilibrando na delicadeza de sua idade, e a avó atingiu um estado. Sem se dar conta, a família fitava a sala feliz, vigiando o raro instante de maio e sua abundância…” (Mistério em São Cristóvão)

Existem, por exemplo, poucos contos curtos tão perfeitos e avassaladores quanto Mistério em São Cristóvão e Uma galinha.  O primeiro sempre foi o meu favorito absoluto (não resisto à tentação de citar o  momento em que os mascarados para uma festa à fantasia–um galo, um touro, um cavalheiro– que invadem o jardim  para furtar jacintos são surpreendidos pela visão do rosto da menina da casa:“O galo imobilizara-se no gesto de quebrar o jacinto. O touro quedara-se de mãos ainda erguidas. O cavalheiro, exangue sob a máscara, rejuvenescera até encontrar a infância e o seu horror.  O rosto atrás da janela olhava. Nenhum dos quatro saberia quem era o castigo do outro. Os jacintos cada vez mais brancos na escuridão. Paralisados, eles se espiavam. A simples aproximação de quatro máscaras na noite de maio parecia ter percutido ocos recintos, e mais outros, e mais outros que, sem o instante do jardim, ficariam para sempre nesse perfume que há no are na imanência de quatro naturezas que o acaso indicara, assinalando hora e lugar–o mesmo acaso preciso de uma estrela cadente. Os quatro, vindos da realidade, haviam caído nas possibilidades que tem uma noite de maio em São Cristóvão”),seguido muito de perto da aventura da galinha que foge (literalmente foge, sai voando pelos terraços) ao seu destino de ser o almoço de domingo (“Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos…”) e é poupada por um tempo enorme até que chegamos a um dos mais cruéis finais já escritos: “Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara  contra o ar, à beira do telhado, prestes a anunciar… Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho–era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada  no começo dos séculos. Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos”.

Ambos são límpidos e inesquecíveis na sua mistura de anedota, de desmascaramento da falsidade essencial dos “laços de família” burgueses, e na maneira como captam no cotidiano um lampejo de uma realidade inquietante. O mesmo clarão cegante que a nora, que detém um segredo culposo, surpreende na revoltada e impotente aniversariante de 89 anos em Feliz aniversário, um texto ainda poderoso e mortífero: “Porque a verdade era um relance… mais uma vez olhou para trás implorando à velhice ainda um sinal de que uma mulher deve, num ímpeto dilacerante, enfim agarrar a sua derradeira chance e viver. Mais uma vez Cordélia quis olhar. Mas a esse novo olhar—a aniversariante era uma velha à cabeceira da mesa. Passara o relance…”

    É por se entregar ao “relance” que a Laura do extraordinário A imitação da rosa , um dos maiores momentos da “escrita” clariceana, “enlouquece” (“Era preciso tomar cuidado com o olhar de espanto dos outros. Era preciso nunca mais dar motivo de espanto…E sobretudo poupar a todos o mínimo sofrimento da dúvida. E que não houvesse nunca mais necessidade de atenção dos outros–nunca mais essa coisa horrível de todos olharem-na mudos, e ela em frente a todos…”, mergulhando no “estado de graça” e perdendo a “linguagem em comum”,  tentação de que escapa, por muito pouco, a Ana de Amor (talvez  o mais famoso entre os treze), que tem acesso ao relance epifânico ao ver um cego mastigando chicles e depois meio que desorientada pelo Jardim Botânico: “Ela amava o mundo, amava o que fora criado–amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a  ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal–o cego ou o belo Jardim Botânico?–agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixinho, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego?… Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la… seu coração se enchera com a pior vontade de viver… A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego!pensou com os olhos molhados. No entanto não ea com este sentimento que se iria a uma igreja…”

    E o que dizer da realidade bruta com que se confrontam os protagonistas de outros dois pontos altíssimos dessa reunião ímpar, o conto Os laços de família e o último e mais radical de todos, O búfalo. No primeiro, o marido “via preocupado que sua mulher guiava a criança e temia que neste momento em que ambos estavam fora de seu alcance ela transmitisse a seu filho… mas o quê? Catarina, pensou, Catarina, esta criança ainda é inocente! Em que momento é que a mãe, apertando uma criança, dava-lhe  esta prisão de amor que se abateria para sempre sobre o futuro homem. Mais tarde seu filho, já homem, sozinho, estaria  de pé diante desta mesma janela, batendo dedos nesta vidraça: preso… Quem saberia jamais em que momento a mãe transferia ao filho a herança. E com que sombrio pesar. Agora mãe e filho compreendendo-se dentro do mistério partilhado. Depois ninguém saberia de que negras raízes se alimenta a liberdade de um homem. Catarina, pensou com cólera, a criança é inocente!”. O segundo encerra a coletânea com um parágrafo arrepiante: “…os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendia, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente  a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranqüilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo”.

    E a natureza do Crime do professor de matemática, abandonar um cão que exigia que eu fosse um homem”?, o que vai ao cerne das preocupações que fundamentam um dos maiores momentos da obra de Clarice, A maçã no escuro.

Essas são as jóias da coroa, a meu ver. É questão de opinião. Haverá sempre os leitores que preferirão aqueles que acho menos marcantes, como Devaneio e embriaguez de uma rapariga (para ser sincero, não entendo como se preteriu na hora de editar o livro um texto como Desastres de Sofia por esse exercício estilístico onde Clarice imita o modo de falar português e onde a personagem, ao contrário do que se diz de Lucrécia Neves de A cidade sitiada, é verdadeiramente caricata; Lucrécia não o é, apesar de detalhes satíricos e paródicos, mas essa portuguesa clariceana me incomoda; o que pode ser uma virtude, claro), O jantar, Preciosidade e Começos de uma fortuna, todos eles porém com passagens intensas.

Especial no conjunto é A menor mulher do mundo que, sendo mais uma belíssima crônica do que um conto, estabelece um caminho que depois seria intensamente trilhado pela obra clariceana, o texto sem definição possível, prescindindo dos alicerces narrativos para ser uma cintilação. Ela, inclusive, se coloca no texto e aos filhos também, como fará depois muitas e muitas vezes. É ela a mãe que lembra do que a cozinheira lhe contara do tempo de orfanato: “Não tendo boneca com quem brincar, e a maternidade já pulsando terrível no coração das órfãs, as meninas sabidas  haviam escondido da freira a morte de uma das garotas. Guardaram o cadáver num armário até a freira sair, e brincaram  com a menina morta, deram-lhe banhos e comidinhas, puseram-na de castigo, somente para depois poder beijá-la, consolando-a. Disso a mãe se lembrou no banheiro, e abaixou mãos pensas, cheias de grampos. E considerou a cruel necessidade de amar. Considerou a malignidade de nosso desejo de ser feliz.Considerou a ferocidade com que queremos brincar. E o número de vezes em que mataremos por amor. Então olhou para o filho esperto como se olhasse para um perigoso estranho. E teve horror da própria alma que, mais que seu corpo, havia engendrado aquele ser apto à vida e à felicidade. Assim olhou ela, com muita atenção e um orgulho inconfortável, aquele menino que já estava sem os dois dentes da frente, a evolução, a evolução se fazendo, dente caindo para nascer o que melhor morde…”

de chirico

A BARATA-MONÓLITO: “A Paixão segundo G.H.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 24 de novembro de 1998)

A Rocco vem reeditando as obras da nossa mais cultuada  escritora. Além disso, a Scipione está lançando os volumes da Archivos, coleção planejada internacionalmente para oferecer edições críticas de obras representativas. Uma delas é justamente A Paixão Segundo G.H., que Clarice Lispector publicou em 1964 (os outros títulos brasileiros publicados são, por enquanto,  Macunaíma, de Mário de Andrade, Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, e, vai se saber por que, uma obra tão infeiror à ambição representativa da coleção como é o caso de Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso).

A Paixão Segundo G.H. é um texto que parece ter sido escrito para dar vida, numa amalgamação impressionante de experiência e linguagem, ao que Octavio Paz descreve tão bem em O arco e a lira: a experiência do sagrado:

“A experiência do sagrado é uma experiência repulsiva. Ou melhor, convulsiva. É um pôr para fora o interior e o secreto, um mostrar as entranhas. O demoníaco, dizem todos os mitos, brota do centro da terra. É uma revelação do oculto…. implica uma ruptura do tempo e deo espaço: a terra se abre, o tempo se parte; pela ferida ou abertura, vemos o outro lado do ser”.

A abertura da narradora G.H. para o outro lado do ser é o quarto de empregada do seu apartamento, que ela resolve arrumar numa certa manhã. Lá encontra uma barata (e a esmaga com a porta do guarda-roupa, expondo justamente as “entranhas”, literais e metafóricas) e esse encontro é a sua “paixão”, a desagregação e aniquilação da vida alienada, “humanizada demais”, rumo à identificação com a Vida, “pré-humana”. Ou seja, o Inominável, que dá nojo, causa náusea, é o Inferno.

Essa experiência, contada sob a forma cristã da confissão penitente (e é por isso que, quando G.H. coloca a barata na boca, para prová-la, lembramos do ato de comungar), é “demoníaca”, no sentido das palavras de Paz. Ou, nas palavras de G.H., ao falar do neutro, do insosso, do inexpressivo que é o estado bruto do ser:

“Pois o inexpressivo é diabólico. Se a pessoa não estiver comprometida com a esperança, vive o demoníaco. Se a pessoa tiver a coragem de largar os sentimento, descobre a ampla vida de um silêncio extremamente ocupado, o mesmo que existe na barata, o mesmo nos astros, o mesmo em si próprio — o demoníaco é antes do humano”.

Há uma assimilação muito forte entre o sagrado e o imundo (a barata é chamada, entre outras coisas, de “amostra de calmo horror vivo”), nessa narrativa onde se tenta, justamente com um estilo “tateante”, interrogativo (e onde talvez a obra clariceana atinja seu ápice), mostrar “a verdade que não se quer”. Pois a verdade é o horror de ter que admitir que o Ser passa pelo nosso não-Ser, essa é a metamorfose de G.H, “de mim em mim mesma”, ali, presa no quartinho de empregada com uma barata que é um portal para o cosmo tanto quanto o monólito de 2001-Uma odisséia no espaço o era para os astronautas da história.

Para atingir esse estado é preciso perder tudo: a identidade, as extensões que nós criamos no mundo para registrar nossa identidade e que nos tornam objetos de nós mesmos (construções, cômodos, artefatos, sentimentos, conceitos). Para então abismar, ou, como se lê, em O arco e a lira, estupefar-se:

“a estupefação ante o sobrenatural não se manifesta como terror ou temor, como alegria ou amor, mas como horror. No horror estão incluídos o terror –o cair para trás– e a fascinação que nos leva a nos fundirmos com a Presença. O horror nos paralisa. E não porque a Presença seja por si mesma ameaçadora, mas porque sua visão é ao mesmo tempo insuportável e fascinante. E essa Presença é horrível porque nela tudo se exteriorizou. É um rosto no qual afloram todas as profundidades, uma Presença que mostra o verso e o reverso do ser… E a essa repulsa segue-se o movimento contrário — não podemos tirar os olhos da Presença, nos inclinamos para o fundo do precipício. Repulsa e fascinação. E depois a vertigem: cair, perder-se, ser um com o Outro. Esvaziar-se. Não ser nada– ser tudo: ser”.

É justamente na crucificação de G.H. em torno da barata-portal-para-o-cosmo que temos a confirmação mais poética, mais avassaladora literariamente, das afirmações do genial poeta e pensador mexicano: ‘Cada vez mais eu não tinha o que pedir. E via, com fascínio e horror, os pedaços de minhas podres roupas de múmia caírem secas no chão, eu assistia à minha transformação de crisálida em larva úmida… Eu havia prendido defronte de mim o imundo do mundo — e desencantara a coisa viva”.

Embora seja meio absurdo desentranhar desse texto lindíssimo passagens isoladas, pois elas darão conta de apenas um momento de um processo,de uma travessia, que têm de ser vividos pelo leito. E vivendo essa processo, essa travessia, ainda se descobre uma das obras-primas da literatura deste século. É uma recompensa e tanto, mesmo que não se saia ileso. Aliás, sair ileso é não ter lido o livro.

26/07/2010

EXERCÍCIOS DE VIVER

O OUTRO  ROMANCE MAIOR DA NOSSA FICÇÃO

Maio de 1956 é o mês desconcertante e mágico da nossa literatura: nele, foi lançado Grande Sertão: Veredas e Clarice Lispector, aos 35 anos, terminou A Maçã no Escuro (que só conseguiu edição em 1961), os dois romances mais fascinantes e extraordinários do século XX. Aliás, se naquele ano Guimarães Rosa realizou a façanha de publicar duas obras-primas (Corpo de Baile é a outra), Clarice não faria por menos: em 64 vieram a público duas das suas maiores obras, os contos de A Legião Estrangeira e A Paixão Segundo G.H.

“Bem, e agora então seria lembrar-se do que um homem quer. Esse era o verdadeiro julgamento…” Martim, o herói (palavra crucial no simbolismo de A Maçã no Escuro), aparentemente cometeu um assassinato e fugiu para o “coração do Brasil”, primeiro refugiando-se num hotel decadente, depois empreendendo nova fuga e perdendo-se numa “noite escura da alma”, longa travessia por uma região inóspita, na qual constata ter perdido a “linguagem dos outros”: seu ato criminoso fez com que o ser abstrato e irreal que se tornara se estilhaçasse, restando uma “potente estupidez”, a não-inteligência, capaz de revivificá-lo enquanto ser. Mas ele terá de descer ao nível das pedras, das plantas, dos bichos elementares, para se despojar e fazer tabula rasa da vida falseada.

Em meio a essa decisão de se fazer uma espécie de “primeiro homem”, ele tem de lidar com a esfera humana: sua peregrinação o levou a uma fazenda perdida no nada e à vida e aos desejos de duas mulheres: Vitória, a dona do lugar, áspera e desiludida; a prima desta, Ermelinda, insidiosa e vaga. Ao envolver-se com as duas, Martim sela seu destino: será entregue à polícia, retornando à Cidade, ao mundo abstrato (e sequer consumou o crime, pois sua mulher não morreu), a uma falsa e irônica redenção.

Já enfatizei, em várias ocasiões, que Grande Sertão: Veredas potencializava ao máximo a capacidade que a literatura tem de ordenar a experiência da vida. O monólogo-querendo-ser-diálogo de Riobaldo, tendo em vista um interlocutor urbano, seria o exercício de uma “dialética do esclarecimento”, de vencer o não-ser (embora reconhecendo seu peso neste mundo misturado) e afirmar o ser através do sopro do verbo se fazendo carne.

    A Maçã no Escuro transmite uma sensação contrária. Para começar, Clarice Lispector deixa de lado os expedientes da intriga (com os quais brinca, ao criar o clima de suspense, que depois saberemos ser falso, no belíssimo primeiro capítulo, o qual já se inicia num tom raramente encontrado em nossa ficção: “Esta história começa numa noite de março tão escura quanto é a noite enquanto se dorme”). Ademais, experiência e linguagem são desqualificadas como mercadorias danificadas pelo uso mentiroso, abstrato e ideológico, e acabam sendo mais estorvo que ajuda. Ao tentarmos organizar a alma em linguagem, caímos na falsificação e no logro. O mundo de Clarice Lispector é muito mais desesperado do que o de Guimarães Rosa.

Titubeando pela vida, ao fazer o pacto com o diabo Riobaldo reafirma seu “eu”: “… o que era que eu queria ? Ah, acho que não queria mesmo nada, de tanto que eu queria só tudo. Uma coisa, a coisa, esta coisa: eu somente queria era—ficar sendo!” Em contrapartida, Martim em seus “exercícios de viver”: “…se ele queria reconstruir o mundo, ele próprio não servia…É verdade que faltava pouco para destruir, pois com o crime, ele já destruíra muito. Mas não de todo… Havia ainda… havia ainda ele próprio, que era uma tentação constante.

Querendo não-compreeender, apenas olhar e ver, no “vertiginoso relance” da objetividade, do ser fundido ao mundo: “Ele compreendeu como se compreende um número: é impossível pensar num número em termos de palavras, é apenas possível pensar num número com este próprio número. E foi desse modo inescapável que ele compreendeu e se tentasse saber mais, então—então a verdade se tornaria impossível.”

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 27 de maio de 2006)

Chaya Pinkhasovna: desvarios em torno da judia Clarice Lispector (primeira parte)

VER TAMBÉM:

https://armonte.wordpress.com/2013/05/26/chaya-pinkhasovna-desvario-em-torno-da-judia-clarice-lispector-segunda-parte/

(escrito em julho de 2010, especialmente para o blog)

Em agosto de 2006, quando realizei um curso em Santos sobre Clarice Lispector (1920-1977), Fragmento e Totalidade, o material mais pitoresco com o qual lidei sobre o assunto, e que mais divertiu meus alunos, foi o extraído de O Cânone Republicano II, o último tomo de uma série que compreendia O Cânone Colonial, O Cânone Imperial e O Cânone Republicano (em dois volumes), escrita por Flávio R. Kothe e publicada pela editora da UNB.

O objetivo de Kothe na série era expressamente atacar o cânone instituído pela historiografia literária e pela crítica, por ser uma expressão do luso-fascismo, excluindo as minorias, entre elas, os imigrantes, especialmente os alemães: “A imigração alemã imprimiu milhões de jornais, revistas e livros no Brasil, mas é como se ela nada tivesse feito e nada tivesse valor. Ao espírito totalitário a supressão e o olvido parecem naturais, necessários e lógicos. O ´brasileiro´ pensa assim”. Em outra passagem, lemos: “A tradição de genocídio físico e espiritual lusitana convertida em espírito em princípio de brasilidade imobilizou os modernistas… se citavam o índio, era  para bater no imigrante e seus descendente (Macunaíma) ou para zerar a cultura mais alta (Manifesto Antropófago). Enquanto exercia o alto cargo de confiança de chefe de gabinete ministerial de uma ditadura fascista [a de Getúlio Vargas], Drummond, poeta principal, dava-se ao luxo de exaltar o russo em Berlim, mas nada expunha sobre a perseguição a brasileiros de origem alemã, japonesa, polonesa e italiana no Brasil”. E nesta outra: “O cânone é racial e racista, e discrimina quem não seja luso-brasileiro”. Querem mais uma amostra? “A língua portuguesa não produziu nenhum grande filósofo. Os dois mais renomados escritores portugueses, Camões e Pessoa, fazem parte da ´síndrome luso-nazista´ : expansionistas, autoritários, prepotentes, bélicos fascistas, racistas, intolerantes. Não são um acaso. Expressam a ´pura cepa lusitana´. E esta última gera a oligarquia brasileira…”

      O racismo luso-brasileiro pode ser encontrado, por exemplo, em Vidas Secas:

 

“Quando Graciliano Ramos fez de Fabiano um tipo de olhos claros e cabelos ruivos e, ao mesmo tempo, um sujeito fraco um mero ´cabra´, sob a aparência de atacar o arianismo caiu no lugar-comum oligárquico de atacar os tipos germânicos, portanto basicamente os teuto-brasileiros, ele está muito situado ao lado de Aluísio Azevedo, Graça Aranha, Mário de Andrade e tantos outros consagrados no cânone porque cultivam o preconceito e a discriminação… Vidas Secas é uma obra racista, o que alegra luso-brasileiros que, ao promovê-la a obra-prima, podem apresentar-se como donos do país… sem se apresentar como racistas e senhoriais (embora o sejam).”

E Clarice (que é quem me interessava então, e agora também), que afinal era imigrante, e de ascendência não luso-brasileira, porém judaica? Ela, no entanto, não escapou de ser uma diluidora e quase uma charlatã oportunista, que visava agradar ao público, ao poder e às fortes instituições religiosas (católicas) do nosso país:

“Clarice aparenta representar um horizonte novo na literatura brasileira e tem basicamente duas  (!!!???) obras consagradas no cânone,  A paixão segundo G.H. e A hora da estrela [1]… O que parece novo na ´grande ficção´ de Clarice é, em grande parte, não mais que a inserção da temática do existencialismo francês—Camus, Sartre, Beauvoir e Co—na ficção brasileira, mas sem passar propriamente por sua forma alemã mais densa, Nietzsche e Heidegger. A versão francesa foi uma diluição jornalística dos pensadores alemães, sendo, portanto, a versão de Clarice, a diluição de uma diluição.”

“Sendo Clarice de origem judaica num mundo católico, um tema óbvio e central—não elaborado propriamente por ela—seria  o sentido da ´epifania´, da história revelada a propor a divisão dos tempos em um mundo pré-salvação e um mundo já salvo… Os judeus mais esclarecidos, ainda que sintam vinculados à história de seu povo, não acreditam nos princípios religiosos do judaísmo, mas aproveitam seus impulsos para diferenciarem-se da limitada cosmovisão cristã. É o que se tem na obra de escritores como Freud, Kafka, Benjamin e Celan. Não se sente, porém, tal impulso duplamente crítico na autora brasileira… Clarice procurou produzir uma ´literatura da revelação e do milagre´: o texto como produto e afloramento de uma súbita iluminação desencadeada como que por uma graça divina, na qual um sentido transcendental afloraria. Assim, a autora seria uma espécie de anjo, mensageira do divino ou do profeta, destinada a revelar os homens a sabedoria divina. Se Clarice ficou presa a uma estética de pressupostos religiosos, foi sobretudo pelo judaísmo… Perdeu a oportunidade de discutir uma diferença que seria algo original em relação à tradição católica preponderante no país. Ela poderia, talvez, perder público e incompatibilizar-se com o poder e com fortes instituições religiosas do país. Foi-lhe oportuno reduzir tudo à psicologia e à sutileza da palavra.”

 

Tendo demonstrado as causas gerais da irrelevância conseguida pela produção clariceana, ele se volta para as suas obras “canônicas”. Em G. H. tudo se resume ao sentimento de angústia de uma madame que não precisa trabalhar para sobreviver. Sua conclusão sobre o livro é lapidar: “Perder uma empregada não é o fim do mundo, mas consegue sê-lo para a madame de Clarice. Tem-se aí uma bagatelização da temática existencialista; não por acaso, foi posta no cânone”.

Mas o clímax é mesmo o que ele escreve sobre A hora da estrela, principalmente quando ele escreve sobre o atropelamento de Macabéa, a heroína do livro, por um Mercedes Benz  “amarelo”, dirigido por um motorista “alourado e estrangeiro”:

Ora, em 1977, quando foi publicada essa história, o contexto brasileiro dava um sentido bastante unívoco a isso: o imperialismo está matando a brasilidade.  O que importa, portanto, é a defesa do ´nacional e popular´. É estranho que esse carro esteja pintado de amarelo. Quem iria estragar um carro tão bom com uma cor tão feia? Esse homem alourado e estrangeiro que aí aparece, tudo indica que deve ter sido quem dirigiu o carro, cuja cor é uma extensão ampliada e berrante da cor do cabelo: uma hipérbole por metonímia. O Mercedes não era no Brasil, na década de 1970, um carro usual. Era carro de milionário e de estrangeiro. Ora, a lógica de toda a narrativa leva a concluir que o capitalismo estrangeiro estava caçando nordestinas pobres pelas ruas para matá-las… Sob esse estreito e gritante nacionalismo há algo mais, porém. O homem é loiro, portanto, um tipo ariano. Essa loirice é tornada gritante na coloração absurda do carro. Não se trata de um carro qualquer, mas de um carro alemão. Clarice retoma o preconceito contra as alemães cultuado no cânone brasileiro desde Graça Aranha, como extensão de outros preconceitos tradicionais, cultivados desde os primórdios do cânone. Isso atinge principalmente a quem?—As teuto-brasileiros. Em nome da nacionalidade, é preciso persegui-los. Quem for brasileiro deve ajudar a aniquilá-los. E, eles mesmos, se quiserem sobreviver no Brasil, devem aniquilar a sua própria cultura e identidade, a começar pela língua. Esse preconceito antigermânico corrente no Brasil é tão estreito quanto o antissemitismo nazista. E a judia Clarice caiu nele. Mostrou-se mesquinha e pequena, o que corresponde ao seu comprometimento com o DIP.”

Portanto, alguém sempre ocupará com o maior prazer e pressa o papel de vítima, de mártir, de bode expiatório, mesmo que se invertam os termos. E a intolerância será a mesma.


[1] Há um resumo biográfico da vida dela muito mal-intencionado, ou pelo menos, feito com má-vontade evidente, além de mal embasado: “Clarice Lispector é oriunda de uma família que saiu da Ucrânia como protesto contra o advento do comunismo [isso não corresponde aos fatos]. Por volta de 1940, ela entrou para a Agência Nacional, um órgão oficial de informação do governo que logo foi transformado no DIP, o Departamento de Imprensa e Propaganda, um órgão de defesa e propaganda da ditadura fascista. A atividade na imprensa permitiu-lhe contatos com intelectuais, os quais a ajudaram a publicar seus trabalhos. Ao ter estudado Direito, casou-se em 1947 com um diplomata, o que lhe permitiu conhecer cidades como Nápoles, Berna e Washington. Quando solicitou  a cidadania brasileira a Getúlio Vargas, citou os seus préstimos ao governo. Retornou ao Rio de Janeiro em 1959, com o fim do seu casamento, e passou a ser jornalista e colunista  de diversos jornais. Teve um emprego na Secretaria da Administração do Estado do Rio de Janeiro. Participou, em 1968, na ´Marcha dos 100 mil´ contra a ditadura militar, mas não foi toi propriamente atingida pela censura e nem deixou de ter espaço na imprensa pós-64. Não abriu fogo, em sua trincheira literária, contra a ditadura. Faleceu em 1977.”

23/07/2010

A tocaia do hábito e do tédio: a volta do parafuso moraviana

(resenha publicada em  17 de agosto de 1999)

    Uma das afirmações mais repisadas a respeito do romance é a de que geralmente a faixa etária para escrever um é a dos 40 anos, quando o autor já “conhece a vida” , já tem “experiência e maturidade” para criar seres diferentes de si mesmo.

     E uma das mais triunfantes exceções a essa “regra” é o romance Os indiferentes [Gli indifferenti, que comentarei na tradução de Álvaro Lorencini & Letizia Zini Antunes, editada pela Bertrand Brasil], publicado há 70 anos, em 1929, quando Alberto Moravia tinha apenas 22 anos. Resultado: é um clássico, um livro que antecipou toda a “atmosfera” de uma parte da ficção do século XX (e do cinema, que o diga Antonioni). O curioso é que Moravia atravessou o novecento publicando belos romances (já tardiamente, em 1982, lançou o excelente 1934, mas é só recuar década por década e constatar a impressionante produção do escritor italiano:
Ambições
erradas, 1935; A romana, 1947; O conformista, 1951; La Noia – Vidas Vazias, 1960, só para citar alguns), e contos ainda melhores. O único outro caso de produtividade com qualidade similar, estendendo-se  do final da década de 20 até os anos 80, que me ocorre é o de Graham Greene.

      Os indiferentes tem apenas cinco personagens: a mãe Ardengo, seus filhos Michele e Carla, uma família arruinada que vive dos favores de Leo, amante da mãe (e que está roubando a família também, os restos), anteriormente amante de Lisa, a qual, por sua vez, agora deseja Michele. Embora Leo faça as maiores patifarias, embora todos vivam num ambiente desmoralizador e corrupto, Michele é incapaz de tomar atitudes, de se sentir pessoalmente engajado em sentimentos de indignação ou revolta. Para ele, tudo é uma comédia em que todos se empenham falsamente.

     À indiferença de Michele contrapõe-se o desejo impotente de Carla: mudar de vida. Afogada no meio de objetos, móveis e pessoas que parecem nunca mudar, sua única “saída” é tornar-se a nova amante de Leo.

   Alguns leitores podem achar as cenas de Os indiferentes excessivamente teatrais. Contudo, esse é um dos pontos fortes do romance, pois mostra ironicamente como a vida burguesa reduziu todos os relacionamentos e sentimentos a um nível vaudevillesco. As vidas de Michele, Carla, a mãe, Leo e Lisa imitam uma peça ruim,com atores entrando e saindo de cena e movimentando-se em meio a um conteúdo vazio, ou pelo menos raso, sem grandeza nenhuma, digno da indiferença que dá título ao livro.

    No teatro grego e no teatro clássico em geral, tudo girava em torno de uma família à qual aconteciam grandes desgraças. A grande desgraça da família Ardengo é sua mediocridade burguesa : ao saber que Leo e Carla tornaram-se amantes, Michele apenas pode fingir e representar (mal) que tem de vingar a honra da irmã. O máximo que acontece é uma cena ridícula (ele atira em Leo, mas esqueceu de carregar o revólver), depois da qual começa um processo de acomodação e todos seguem representando seus papéis.

   Além da força do enredo o que torna Os indiferentes uma das obras-primas centrais do século XX é sua impressionante descrição da relação  dos personagens com os objetos (e também com seus próprios sentimentos e pensamentos), que parece engolir a humanidade deles e transformá-los em parte do cenário: “Pequeno, mas angustiante trajeto através do corredor; Carla olhava para o chão pensando vagamente que aquela paisagem quotidiana deveria ter consumido o tecido do velho tapete que escondia o assoalho; e até os espelhos ovais pendurados nas paredes deviam conservar os traços daqueles rostos e daquelas pessoas que várias vezes ao dia durante muitos anos refletiam-se neles, oh, só por um instante, o tempo de examinar, a mãe e ela, a maquilagem, e Michele, o nó da gravata; naquele corredor o hábito e o tédio estavam de tocaia e atravessavam  a alma de quem passava, como se as próprias paredes exalassem vapores venenosos; tudo era imutável, o tapete,a luz, os espelhos, a porta de vidro do vestíbulo à esquerda, o patamar escuro da escada à direita, tudo era repetição: Michele que parava um instante para acender um cigarro e soprar o fósforo, a mãe que gentilmente perguntava ao amante: Não acha que estou com cara de cansada esta noite? Leo, com indiferença, sem tirar o cigarro da boca, respondia: Não, pelo contrário, nunca esteve tão bonita, e ela própria que sofria com tudo isso; a vida não mudava”.

   

O tédio e o hábito tocaiando uma obra: as inúmeras voltas do parafuso moraviano

Em 1960, Alberto Moravia (1907-1990) publicou uma de suas obras-primas, talvez mesmo o seu maior livro, La Noia (no Brasil, Vidas Vazias), no qual, através de Dino, o narrador, apresentava sua preocupação em desmascarar o mundo burguês no seu trinômio sexo-dinheiro-posse, recorrente em tantos dos títulos do autor italiano, inclusive no último, A mulher leopardo (La Donna leopardo, traduzido por Mário Fondelli e editado pela Bertrand Brasil), lançado após sua morte. E que deveria se chamar “O mofo”. Há assuntos e estilos os quais, se o autor não lhes der um remelexo, não fizer um ziriguidum, perdem sua capacidade crítico-provocativa e passam a ser eles mesmos vazios e tediosos.

      A mulher leopardo nos conta como o protagonista, Lorenzo, orgulhoso de sua bela mulher, Nora, a apresenta a Colli, um dos acionistas do jornal para o qual trabalha, e que o convidara a uma viagem ao Gabão, na África. Nora e Colli simpatizam até demais um com o outro e Lorenzo atormenta-se com a suspeita de que eles tenham iniciado um caso. Ada, a esposa de Colli, contribui para a desconfiança com seu comportamento dúbio, e ela e Lorenzo agem como espelho subalterno do outro casal, na tentativa de reproduzir tudo aquilo que eles supõem que o outro, mais fascinante, faça.

      Talvez quem nunca tenha lido Moravia, ou Durrell ou Kundera, entre outros, ache instigante esse vaudeville, porém a própria narrativa parece afetada pelo vazio e alienação das personagens. O aspecto potencialmente mais rico e sedutor da história, que seria o impacto da África sobre os casais (e as reflexões de Colli sobre o papel do homem nesse tipo de paisagem são momentos felizes de A mulher leopardo) é abafado pela atmosfera “huis clos” dessa trama déja vu. O leitor se sente tentado a sair correndo antes que o acúmulo de bocejos o leve ao sono dos justos e pegar O céu que nos protege, de Paul Bowles (ou o notável filme de Bertolucci baseado nele), possivelmente a palavra definitiva em se tratando de mostrar como os problemas burgueses ficam mais fúteis e frágeis diante de uma paisagem física e cultural basicamente indiferente ao mero indivíduo.

   O bom de A mulher leopardo, fruto sem dúvida do tanto que Moravia debruçou-se sobre o assunto, é mostrar sem rebuços a vulgaridade das relações sexuais estabelecidas. Ao invés de tentar injetar “requinte” ou um toque trágico ao erotismo burguês, como acontece a maior parte das vezes, até com gente do cacife de um Louis Malle (no seu lastimável Perdas e Danos), para não falar nos Walter Hugo Khouri da vida, Moravia escancara o materialismo e o utilitarismo e, sob as elucubrações dialéticas de Lorenzo a respeito do poder de Colli e da felinidade de sua esposa, aparece nitidamente o orgulho ferido do macho preterido em favor de outro com maiores atrativos. Ele se irmana, assim,  a outros heróis de Moravia que tentam transformar o ser amado em objeto de estudo e procuram iludir sua perda com uma lógica cerrada. Esse eco de uma grande obra ajuda um pouco a transformar essa Mulher leopardo se não numa criação do calibre de Vidas vazias, As ambições erradas, Os indiferentes, A romana ou 1934, para não falar nos maravilhosos Contos romanos, pelo menos num produto digno de um grande mestre que se repetiu demais.

(resenha publicada, com ligeiras alterações, em 28 de junho de 1994).

16/07/2010

A missão do teatro para Wilhelm Meister

(no texto abaixo, fiz a sobreposição de duas resenhas, uma publicada em 13 de dezembro de 1994, ano em que a tradução de Nicolino Simone Neto foi lançada pela primeira vez pela editora Ensaio; a outra, de  13 de janeiro de 1997,quando a mesma tradução foi reeditada pela 34. Como esse procedimento era comum em Goethe, trabalhar sobre versões antigas, não me pareceu a pior das soluções, guardadas as devidas proporções):

UMA NOVA FORMA DE QUIXOTISMO

O Dom Quixote de Cervantes saiu pelo mundo imbuído dos valores medievais e encontrou-o transformado, mas ele mesmo recusou-se a mudar interiormente, preferindo modificar o mundo dentro da sua cabeça. Assim, os moinhos de vento da produção mercantilista viraram dragões.

Wilhelm Meister sai de casa e encontra o mundo burguês estabilizado, ou melhor, ainda pujante e cheio de promessas. Ele acalenta um ideal  mais alto, porém, do que a vida burguesa, e ensaia uma inédita (e revolucionária) forma de quixotismo: a expressão individual pela arte, que modifica o mundo sem a neblina da loucura. É por isso que ele, ao viajar com o fito de  cobrar dívidas comerciais para o pai (e esquecer um frustrado e precoce caso amoroso com uma atriz), acaba unindo-s a uma trupe de artistas e fundando uma companhia teatral cuja missão é criaro  autêntico teatro nacional alemão, com base nas conquistas que a obra de Shakespeare trouxe à arte cênica, colocando o máximo de vida no palco, em contraste com a restritiva arte clássica.

Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister trata dos diversos incidentes (assaltos, cirandas amorosas, etc) que envolvem o destino dessa companhia teatral [1]. A tradução de Nicolino Simone Neto (um marco para os apreciadores de  J. W. Goethe no Brasil e que achavam que só Werther e Fausto existiam para os editores daqui), que fora publicada, em 19 94, pela  Ensaio, reapareceu recentemente, agora  pela  34.

O livro exerceu uma influência imensa e praticamente criou um caminho dentro da ficção: o romance de formação. Entre os grandes autores que se valeram dessa vereda no grande sertão do gênero estão James Joyce (Um retrato do artista quando jovem), Thomas Mann (A montanha mágica), Romain Rolland (Jean-Christophe), Hermann Hesse (O jogo das contas de vidro) e Doris Lessing (Os filhos da violência).

No livro de Goethe existe o entrelaçamento do individual com o nacional, dentro do microcosmo que é o mundo da companhia teatral, no qual o leitor vai registrando o amadurecimento de Wilhelm (há uma seqüência, Os anos de peregrinação de Wilhelm Meister), adquirindo experiência de vida, enfim, formando-se. Acima do “teatro”, ou seja, o meio onde se conflitam pessoas com suas mesquinharias e vaidades, há o Teatro, a aspiração maior, o grande palco do mundo. Mesmo porque a vida também é, a um só tempo, um palco de aspirações egoístas e de grandes ideais.

Isso parece idealista demais? Distante demais ? É verdade. Algo sempre  me incomodou na leitura de Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister  e causava um sentimento de distanciamento que não acontece na leitura de Cervantes ou, para ficar no século XVIII, de Voltaire, Diderot ou Sterne [2]. Como escreveu lucidamente Marco Fontanella: “Francamente, quem hoje lê Meister com prazer e proveito até o fim ? O leitor contemporâneo tem sérias dificuldades com as artificialidades e a inessencialidade evidentes na enigmática Sociedade da Torre e com seus ideais políticos; a morte do harpista italiano e da filha de seu incesto, Mignon, e o amor não-consumado de Wilhelm e Natalie freqüentemente provocam revolta ou mesmo tédio: como é possível que uma sociedade secreta subitamente passe a determinar toda a vida do herói e sentencie a criança e se pai à morte apenas com base na dificuldade em se adaptarem aos novos tempos do trem a vapor, à vida moderna? Eis aí algo das dificuldades do romance.”

O problema é que justamente o conceito do artista trazer ao mundo sua autenticidade (aliado ao conceito da formação plena do ser humano), aproveitando a imensa (e teórica) liberdade que a burguesia trouxe ao indivíduo, envelheceu, caducou, carcomiu-se. E há a questão do herói do romance, pois Wilhelm parece um bocó, e sempre pomposo em demasia.

É um problema de percepção: dois séculos e uma década bastaram para mostrar no que deu a expansão burguesa. Nada tira, entretanto, do livro de Goethe o poder de registro de um momento em que os caminhos ainda pareciam abertos e em que o ideal de arte era potencialmente transformador  [3].


[1] Na versão de  1994, eu escrevi: …é—na área das traduções literárias—de longe o lançamento mais importante de 1994 (e embora tenha demorado duzentos anos para ser traduzido pelo menos ganhou uma bela edição, muito bem cuidada, além da excelente tradução  de Nicolino Simone Neto), não só porque o autor de Werther & Fausto é um dos grandes gênios da literatura, como também porque essa obra exerceu influência imensa e praticamente criou uma forma romanesca, o romance de formação: esse tipo de ficção mostra o desenvolvimento, a “educação sentimental” (leia-se existencial) de um protagonista.

       Entre os grandes autores que se valeram  do caminho aberto por Goethe não houve nenhum mais ilustre do que James Joyce e seu Retrato do artista quando jovem, mas pode-se citar Thomas Mann, Hermann Hesse, Doris Lessing (no ciclo sobre Martha Quest). No Brasil, recentemente Autran Dourado lançou Um artista aprendiz dentro dessa linha.

 

[2] Na versão anterior: Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister está longe de ter o encanto, de ser uma obra apaixonante e de fruição agradável—apesar do abismo de dois séculos—de dois outros maravilhosos romances da época, Jacques, o fatalista, de Diderot, e Tristram Shandy, de Laurence Sterne, para não falar dos contos longos de Voltaire. 

[3]  Na versão anterior:  É um problema de percepção: dois séculos depois, sabemos no que deu a expansão burguesa e estamos mais para a Idade Média do que para o Iluminismo. Estamos num mundo que um Ítalo Calvino—em obras como Palomar—precisa reeducar, para utilizarmos nossos sentidos, e no qual uma Doris Lessing—nas suas obras sobre impérios galácticos, como Shikasta & As experiências de Sirius—tenta nos levar a uma percepção maior, a um Teatro ainda maior, da vida e do universo do  que a do nosso mero planetinha. Nada tira, contudo, do livro de Goethe o poder de registro de um momento em que os caminhos ainda estavam abertos e em que o ideal da arte não  havia sido corrompido  pela indústria cultural, o que não é, absolutamente culpa de Goethe, mas sim da própria  lógica social que ele ajudou a criar.

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