MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/11/2013

Autos de Ambiguidade: a “Morality Play” de Barry Unsworth

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de agosto de 1997)

O narrador de AUTOS DE MORALIDADE [Morality Play, em tradução de Beatriz Horta] é um padre de 23 anos, Nicholas Barber, que está vagando por uma floresta, após fugir da sua diocese e de um marido traído, e encontra um grupo de atores mambembes. Um dos atores da trupe morreu e Nicholas toma seu lugar. A preocupação de enterrar o companheiro faz com que eles entrem numa cidade onde acaba de acontecer um crime: um garoto de 12 anos foi estrangulado pela filha de um tecelão.

Por causa da falta de dinheiro, os atores resolvem encenar uma peça na cidade, um daqueles famosos autos, comuns na Idade Média (a história de passa no século XIV), espetáculos onde as virtudes e pecados da humanidade eram representados alegoricamente, e nos quais a moral era extraída da Bíblia.

Não atraem muito público com a primeira peça que encenam e a fome os ameaça. Martin, o líder, convence seus parceiros a cometer uma ousadia, quase uma blasfêmia: representar o crime que ocorrera na localidade.

O problema é que, fazendo isso, eles descobrem que a filha do tecelão jamais poderia ter assassinado realmente o menino. Pior ainda, apontam para o verdadeiro assassino, já que ele pertence à nobreza feudal. Ao fugirem dos enredos conhecidos e da moral bíblica pré-estabelecida, ao criarem uma peça a partir da realidade imediata, eles se lançam no desconhecido, como intui Nicholas: “… se dermos nosso próprio sentido à peça, Deus vai nos obrigar a responder às nossas próprias dúvidas”.

O século XIV vem sendo utilizado insistentemente como paralelo para a nossa época. Foi o caso de O nome da rosa, de Umberto Eco, do livro da historiadora Barbara Tuchman, Um espelho distante, ou do filme Navigator, de Vincent Ward, embora nenhum deles tenha chegado à eminência de Bergman nas suas obras-primas com ambientação medieval, O sétimo selo & A fonte da donzela. A tônica, em todos, é mais ou menos a mesma: um clima de apocalipse moral, num mundo dominado pela violência, pela insegurança e pela peste (a qual sempre parece castigo de Deus, semeando uma ideia de Juízo Final).

Nesse sentido, AUTOS DE MORALIDADE não inova muito. O interesse pelo romance (publicado em 1995 na Inglaterra) cresce quando se percebe que Barry Unsworth transporta para o medievo um fenômeno comum dos nossos dias: a espetacularização da vida comum. O grupo reformula em seu auto (que vai se modificando a cada dia, com as novas informações que os autores recolhem em suas andanças pelos arredores) o que está se passando na cidade, assim como a mídia contemporânea reconstrói e distorce a realidade quase que imediatamente.

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Tal liberdade choca profundamente Nicholas, pois o relato o apresenta num período de sua vida em que ele confronta, dentro de si, o condicionamento religioso a que foi submetido e os dados da experiência que vai adquirindo ao embarcar no destino da trupe teatral. São as suas reações “ingênuas” que permitem ao leitor perceber vida e espetáculo confundindo-se no jogo cênico: “Tudo isso foi inventado e feito por Martin… Já sabíamos que a peça e a vida que existia fora dela não ficavam bem separados na cabeça dele; sabíamos também que ele esperava salvar a moça, mas achávamos que era uma esperança inútil”.

Movimentando-se num universo em que a Justiça Divina cedeu lugar às dúvidas e interrogações humanas, num ambiente em que tudo é mascarado, não apenas o mundo dos comediantes (é por isso que várias vezes no livro os torneios entre cavaleiros são comparados a espetáculos teatrais), Nicholas acaba por sentir necessidade da justiça humana representado pelo magistrado do rei, que solucionará o mistério. Ao procurá-lo, contudo, ele tem a maior lição no seu célere aprendizado pelo mundo profano: o magistrado salva a todos, o grupo e a filha do tecelão, não para instaurar a justiça e a verdade, mas tão somente para limitar o poder do senhor feudal que domina a região e ameaça o rei. A justiça usada como forma de chantagem e de pressão.

Aliás, talvez seja a maior frustração (o melhor termo talvez fosse angústia) de uma sociedade em que não há mais valores religiosos como fundamento: o fato de não se poder acreditar na justiça constituída pelo consenso dos cidadãos. Se pensarmos que uma juíza dos nossos dias pode atenuar um ato criminoso como o de queimar um ser humano vivo por diversão, desqualificando-o como crime hediondo, realmente é oportuno o confronto que Unsworth faz entre as expectativas de Nicholas e o colapso—ou perversão—da noção  (e do uso) da justiça, em seu romance.

E Nicholas descobre, ao final, quando lhe oferecem a chance de voltar a ser padre, que deseja continuar como ator, perder-se nas máscaras, já que nada é seguro, nem mesmo a identidade pessoal, como descobriu na cidade onde, tal qual no Hamlet de Shakespeare, uma peça serviu como “denúncia”,  como ratoeira para consciências culpadas.E essa denúncia-ratoeira, por sua vez, serviu apenas como lance no jogo de xadrez entre poderosos. Como avisa o próprio narrador, “deixo aos que me leem a tarefa de tirar uma conclusão no final—se a dádiva desta cidade foi para o bem ou para o mal”. Pois num mundo em que tudo se corrói e entra em colapso, os autos de moralidade se transformam fatalmente em autos de ambiguidade.

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26/11/2013

Destaque do Blog: NOVEMBRO DE 63, de Stephen King

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“Tem algo funcionando, certo? Em algum lugar do universo (ou atrás dele), uma grande máquina faz tique-taque e gira as suas engrenagens fabulosas…”

“(…) dei uma última olhada no Book Depository. Ele me olhava. Não tive dúvidas. É claro que terminaria ali, eu fora idiota de imaginar outra coisa…”

(trechos de Novembro de 63)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de novembro de 2013)

Li bastante Stephen King no correr dos anos em que os títulos que persistem como referência na sua obra eram lançados no Brasil: The Shining-O iluminado, Zona Morta, O Cemitério, It-A Coisa e aquele que considero um de seus dois maiores romances: The Stand-A dança da morte (os dois primeiros ainda tiveram fantásticas versões cinematográficas, assim como Carrie, Christine, e A Metade Negra, todos pertencentes a essa primeira fase).

A seguir, um longo intervalo de desinteresse: por um lado, a conclusão de que (com as devidas exceções) ele melhor armava as suas fábulas do que as resolvia, estragando, por exemplo, O Iluminado e O cemitério; por outro, um excesso de títulos, livros incrivelmente volumosos, e o mais das vezes com adaptações para cinema e televisão tão ruins que não instigavam a conhecer o material original, mesmo porque o autor estava comprometido com as produções dessa lixarada; sendo assim, como levá-lo a sério?

E então me caiu nas mãos Sob a Redoma: como expliquei na semana passada, todos os defeitos de King estão ali presentes, porém mitigados e até redimidos pela criação de um universo ficcional autônomo e poderoso. O entusiasmo por essa leitura me fez embarcar de pronto em Novembro de 63 [que comento na tradução de Beatriz Medina], cujo lançamento no Brasil coincide com os 50 anos do mítico assassinato de John F.  Kennedy. No embarque, porém, levava na mala reservas quanto à possibilidade de funcionar, ou mesmo apresentar alguma novidade, uma narrativa de 700 páginas em 1ª. pessoa (Sob a Redoma se movimentava entre o ponto de vista de diversos personagens) narrando uma viagem no tempo.

Jake Epping frequenta um trailer de lanches de má-fama quanto à origem da carne que serve (os preços são baratos demais). Ele descobre que o dono, Al Templeton, é um viajante do tempo através de uma passagem (que pode estar em vias de desaparecer) na minúscula despensa do estabelecimento. Toda vez que se volta dessas excursões pretéritas só se passaram dois minutos (o viajante, entretanto, envelheceu durante o período transcorrido “do outro lado”).

Sempre se pisa no passado na mesma data (9 de setembro de 1958) e Al viveu ali os 5 anos que o separavam do crime de Lee Harvey Oswald, com o intuito de salvar o presidente, mas foi derrotado pela idade e pelo câncer de pulmão. Ele confia a missão ao ainda jovem Jake (35 anos); este, além de Kennedy, espera salvar a família do zelador da escola, Harry Dunning, massacrada na noite de Halloween de 1958 (em Derry, a mesma cidadezinha com atmosfera maligna de It-A Coisa).

Enquanto vigia ao longo desses 5 anos os movimentos de Oswald (repatriado, depois de um período na Rússia, trazendo uma esposa de lá, a quem maltrata), Jake atua como o professor de high school e candidato a escritor George Amberson, em Jodie, próxima a Dallas. E apesar do título do romance (no original, lançado nos EUA em 2011, com a data fatídica: 11/22/63) e das tremendas ressonâncias simbólicas (paranoicas e conspiratórias) da morte do presidente, o que faz de Novembro de 63 uma obra-prima (é o outro romance maior de Stephen King, junto com o já referido A dança da morte), que não faz feio junto aos melhores romances de Joyce Carol Oates, Philip Roth, Cormac MacCarthy ou E. L. Doctorow, além da inspirada “voz” narrativa de Jake (um triunfo do veterano escritor) é justamente a imersão do narrador nas vidas dessas duas localidades, Derry e Jodie (a parte da narrativa em que espreita a família Oswald numa quase favela de Fort Worth, e depois em Dallas também é sensacional)[1].

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Nós, leitores, praticamente vivemos com ele esses anos todos. É de assombrar a vividez com que esses lugares e os mais diversos personagens, entre reais e imaginários (que a princípio seriam mera preparação para o evento crucial) nos mergulham num painel histórico-afetivo (mas nada mistificatório quanto ao passado[2]) memorável.

Só tenho duas reclamações dignas de nota: uma delas é que, num romance tão inteligente e tão evocativo, não era preciso trazer à baila o batidíssimo “efeito-borboleta” e aquele indefectível exemplo (a borboleta batendo asas e provocando um terremoto)[3]. As próprias “harmonias” (a compensação de um evento modificado pelo viajante do tempo numa similaridade), tão minuciosamente exploradas, bastariam por si sós (Al acreditava que cada vez que se voltava para o passado, tudo voltava a um ponto zero, e aparentemente é assim—mas ele não poderia estar mais enganado, como Jake descobre[4]); a outra, é contra todas as páginas com as atividades afirmativas do professor George que me lembraram a xaroposa Glee (ou seja, a high school como preparação para um show da vida metafórico).

Jake é um narrador tão especial[5], e viver nesses 5 anos entre 1958 e 1963 é uma experiência tão forte para o leitor, que tais minúcias nem contam. A evocação do tempo perdido ainda se dá ao luxo de apresentar um final romântico (segundo King, por sugestão do filho) absolutamente irretocável, em seu entrelaçamento do poder do efêmero e do sentimento do irrecuperável: “Por um instante tudo ficou claro e, quando isso acontece, a gente vê que o mundo mal existe. Em segredo, todos não sabemos disso? É um mecanismo de gritos e ecos que se equilibra com tanta perfeição fingindo ser rodas e engrenagens, um relógio de sonhos que toca atrás de um vidro de mistério que chamamos de vida. Atrás? Embaixo e em volta? Caos, tempestades. Homens com martelos, homem com facas, homens com armas de fogo. Mulheres que distorcem o que não podem dominar e desdenham o que não conseguem entender. Um universo de perda e horrores a cercar um único palco iluminado onde os mortais dançam em desafio às trevas…”

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/11/22/adaptacoes-de-stephen-king/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/19/sob-a-redoma-e-a-maturidade-de-um-mestre-stephen-king/

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TRECHO SELECIONADO

“Tive duas vidas no final de 1962 e no começo de 1963. A boa era em Jodie (…) A outra era em Dallas.

    Oswald e Marina voltaram. Em Dallas, a primeira parada deles foi numa lata de lixo na esquina da West Neely. Mohrenschildt os ajudou na mudança. George Bouhe não estava visível. Muitos menos os outros emigrados russos. Lee os afastara. Eles o odiavam, escrevera Al nas suas anotações, e embaixo: Era  que ele queria.

    O prédio decadente de tijolos vermelhos na rua Elbeth, 604, fora dividido em quatro ou cinco apartamentos lotados de gente pobre que trabalhava muito, bebia muito e produzia hordas de crianças catarrentas a berrar. O lugar realmente fazia o domicílio dos Oswald em Fort Worth parecer bom.

   Eu não precisava de auxílio eletrônico para monitorar o estado de decomposição do casamento deles (…) Certo dia, em novembro de 62, voltei da biblioteca e observei Lee e Marina na esquina da West Neely com a Elsbeth, gritando um com o outro. Várias pessoas (principalmente mulheres àquela hora do dia) tinham saído á varanda para observar (…) Eles discutiam em russo, mas o mais recente pomo da discórdia era bastante claro com o dedo apontado de Lee. Ela usava uma saia preta reta—não sei se naquela época já se chamavam saia-lápis—e o zíper do lado esquerdo estava meio aberto. Provavelmente só s e prendera no tecido, mas ao ouvi-lo furioso a gente ficava com a impressão de que ela estava caçando homens.

    Ela jogou o cabelo para trás, apontou June e depois fez um gesto na direção da casa que agora habitavam—as calhas quebradas pingando água preta, o lixo e as latas de cerveja no gramado careca na frente—e grito com ele:

__ Você diz mentiras alegres depois traz mulher e filha para essa pocilga!

    Ele corou até a raiz do cabelo e cruzou os braços com força sobre o peito magro, como que se quisesse ancorar as mãos e impedir que causassem danos. Poderia ter conseguido—dessa vez, pelo menos—se ela não tivesse rido e depois girado um dedo em torno da orelha num gesto que deve ser comum a todas as culturas. Ela começou a se virar. Ele a puxou de volta, esbarrando no carrinho e quase o derrubando. Então bateu com força.  Ela caiu na calçada rachada e cobriu o rosto quando ele se curvou sobre ela.

   (…)

__ Aquele homem está batendo na mulher! Vá até lá e dê um fim naquilo!

__ Não, senhora—disse eu. A minha voz estava instável. Pensei em acrescentar: Não vou me meter entre marido e mulher. Mas era mentira. A verdade é que eu não faria nada que pudesse perturbar o futuro.

__ Seu covarde—disse ela.

   Chame a polícia, eu quase falei, mas engoli bem na hora. Se essa ideia não estivesse na cabeça dela e eu a pusesse lá, também poderia mudar o rumo do futuro. A polícia veio? Alguma vez? O caderno de Al não dizia. Eu só sabia que Oswald nunca seria preso por agressão conjugal. Acho que naquela época e naquele lugar poucos homens seriam.

   Ele a arrastava pela calçada com uma das mãos e empurrava o carrinho com a outra. A velha me deu um último olhar arrasador e depois voltou com esforço para dentro de casa. Os outros espectadores faziam o mesmo. Fim do espetáculo…”

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[1] E ainda bem que é assim, já que não sou particularmente fã da figura de Kennedy, tal como não sou entusiasta de Obama. A meu ver, ambos foram as opções aceitáveis frente ao pior, mas ficaram muito aquém da mítica em torno deles.

[2] Por exemplo, na caracterização da atmosfera de Derry: “Eu estacionara diante da drogaria e parei para examinar o cartaz na vitrine. De certo modo, ele resume melhor do que tudo o que eu sinto sobre Derry—a desconfiança azeda, a sensação de violência malcontida—embora eu ficasse lá quase dois meses e (com a possível exceção  de algumas pessoas que conheci por acaso)  não gostasse de nada ali. O cartaz dizia:

FURTAR EM LOJAS NÃO É BACANA, NÃO É UM COLOSSO, NÃO É BATUTA,

FURTAR EM LOJAS É CRIME E CHAMAMOS A POLÍCIA!”

    Outro exemplo, ainda mais eloquente:

“Na Carolina do Norte, parei para abastecer num posto Humble Oil e depois dei a volta para usar o banheiro. Havia duas portas e três placas: HOMENS estava escrito com letras cuidadosamente pintadas com estêncil numa das portas, DAMAS na outra. A terceira placa era uma seta numa vara. Apontava a encosta coberta de mato atrás do posto. Dizia DE COR. Curioso, andei pelo caminho, com cuidado para contornar alguns pontos onde as folhas oleosas de sumagre-venenoso, num verde fugindo para o marrom, eram inconfundíveis. Torci para que os papais e mamães que pudessem levar os filhos até aquelas instalações lá embaixo soubessem identificar o que eram aqueles arbustos problemáticos, porque no final dos anos 1950 a maioria das crianças usava calças curtas.

    Não havia nenhuma instalação. O que encontrei no fim do caminho foi um riachinho estreito com uma tábua atravessada em cima, sobre dois suportes de concreto dilapidado. O homem que precisasse urinar podia apenas ficar à margem, baixar o zíper e deixar sair. A mulher poderia se segurar num arbusto (supondo que não fosse urtiga nem sumagre-venenoso) e se agachar. A tábua era onde a gente se sentava se tivesse de cagar (…) Se lhe dei a ideia de que 1958 era perfeito como uma seriado de televisão, basta lembrar daquele caminho, ok? Aquele ladeado de sumagre-venenoso. E a tábua sobre o riacho…”

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[3] Isso tudo já foi vulgarizado há 20 anos, com Jurassic Park, tanto o livro de Crichton quanto o filme de Spielberg e, depois, multiplicado em mil histórias, basta lembrar justamente do filme Efeito Borboleta ou do mais recente Contra o tempo.

No romance de King, como nos diz o narrador, o “passado resiste a ser mudado”, o que cria as compensações harmônicas: “Sentia saudades de Sadie e comecei a me preocupar com ela quase obsessivamente. Pensando melhor, pode riscar o quase. Ellie Dockerty e Deke Simmons não levaram a sério a minha preocupação com o marido dela. A própria Sadie não a levou a sério (…) Nenhum deles sabia do efeito harmônico que eu mesmo parecia criar apenas com a minha presença na Terra de Antigamente? Sendo assim, de quem seria a culpa se algo acontecesse a Sadie?”

[4] “Cada viagem cria a sua própria corda, e quando há cordas suficientes, elas se embaralham. Será que passou pela cabeça do seu amigo  por que podia comprar a mesma carne várias vezes? Ou por que as coisas que levava de 1958 nunca sumiam quando fazia a viagem seguinte?”

[5] Gosto muito da “conversa” de Jake com seu leitor, a meu ver, o produto mais apurado de King na arte de narrar, colaborando—mais do que qualquer outro elemento—para dar ao relato seu poder de “convencimento”: “Conheço o básico da ficção de suspense—tenho de conhecer, já li suspense suficiente na minha vida—e a regra básica é manter o leitor tentando adivinhar. Mas, se você já entendeu o meu personagem com base nos fatos extraordinários daquele dia, sabe que eu queria ser convencido (…) Eu tinha um emprego e era bom nele, mas se lhe dissesse que era um desafio estaria mentindo. Viajar de carona pelo Canadá com um colega depois do último ano de faculdade foi a coisa mais próxima de uma aventura que eu já vivera e, dada a natureza alegre e solícita da maioria dos canadenses, não foi tão aventurosa assim. Agora, de repente, me ofereciam a oportunidade de me tornar o personagem principal não da história americana, mas da história do mundo. Portanto, sim, sim, sim, eu queria ser convencido.”

Há colocações geniais, como na passagem em que, às vésperas do crime de Oswald, Jake se refugia na sórdida casa em que o assassino de Kennedy viveu certo tempo com a família em Fort Worth: “Eu estava sentado na sala da frente, escutando os fantasmas briguentos de gente que ainda vivia”.

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24/11/2013

PARCAS EMOÇÕES E ROMANCES IMPERFEITOS: A FASTIDIOSA FICÇÃO LONGA DE RUBEM FONSECA

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de setembro de 2001)

Quem achou péssimo o filme de Flávio Tambellini (de fato, é) baseado em BUFO & SPALLANZANI, pode estar pensando: puxa, o livro deve ser bem melhor.

Não, caro leitor, os romances de Rubem Fonseca são verdadeiras porcarias. Um engodo. Um ótimo contista?, inegável. Já romances como O caso Morel; A grande arte; Vastas emoções e pensamentos imperfeitos; Agosto são duros de engolir. Dessa joça toda, até que Bufo & Spallanzani, embora ruinzinho, acaba sendo o mais divertido.

Há um arsenal de referências eruditas e literárias. Só nas primeiras páginas, temos Tolstoi, Flaubert, Nabokov, Simenon, Murillo Mendes, Chagall, Saint-John Perse, Moravia, Maupassant, Baudelaire, Lakatos… Ufa (e ao longo do livro poderiam ser arrolados uns cinquenta outros)! Que adianta isso, no entanto, se a única maneira de mostrar as pessoas ricas que Fonseca concebe é a mais baixa caricatura? Que a nossa “elite” deixa a desejar é óbvio. Mas que personagens como os Delamare ou os que procuram refúgio no Pico do Gavião sejam tão toscos, não se pode aceitar.

Se nos seus textos curtos ele cria uma hiper-realidade ficcional a respeito da violência urbana brasileira, que faz com seus contos dos anos 1960 e 1970 ainda sejam atuais e perturbadores, tudo o que ele tem a oferecer no romances é uma grotesca irrealidade, agravada em Bufo & Spallanzani pela narrativa em primeira pessoa do escritor Gustavo Flávio, ex- Ivan Canabrava, feita num tom sub-nabokoviano ou sub- Philip Roth.

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Veja, leitor, o horror que é o estilo (confesso-me muito burro para entender implicações jocosas ou paródicas que o autor porventura pretendesse imprimir a ele): “Carpas assadas na manteiga sem qualquer travo de terra e coelho ensopado com batatas e vagens. Havia também aspargos  frescos,  simplesmente indescritíveis, mesmo para um escritor competente como eu. Roma sentara-se numa mesa próxima à minha e houve um momento em que eu, ao mastigar o tenro coelho, imaginei, sem nenhuma lubricidade porém, estar mordendo as viçosas bochechas dela. Seus zigomas eram salientes e nobres, tinham a exuberância terrenha e pura dos frutos da natureza. Uma mulher edível, sob todos os aspectos”!!!!!???? (Gustavo Flávio já se apresentara, de saída, como um sátiro e um glutão).

O filme, por incrível que pareça, até melhora a “história”, que carece de qualquer coerência no romance. Pois os roteiristas juntaram personagens das duas fases da vida do protagonista: quando ele é Ivan Canabrava, investigador de seguros; e depois, quando se torna Gustavo Flávio (também eliminaram, justiça seja feita a eles, os personagens do Pico do Gavião, os quais ocupavam inutilmente boa parte do relato, só para criar paralelismos narrativos, jogos de espelhos de quinta categoria, que talvez só entusiasmem estudantes acadêmicos na formulação dos seus TCCs, dissertações ou teses).

Por exemplo, o marido de Delfina Delamare tornou-se também vilão na trama de seguros que envolve um falso cadáver (na verdade, cataléptico) e que é investigada, com resultados horríveis, sob todos os pontos de vista, incluindo o dramático, por Canabrava. Assim, tudo faz mais sentido, sob certo ângulo, embora o espectador saia da sessão  com a sensação de que o filme “ainda” vai começar, tal a falta de emoção, clima, tensão.

O que não falta é canastrice.  Dá até para sentir o impacto cósmico do titânico duelo dos canastrões José Mayer e Tony Ramos. O primeiro continua com os músculos do rosto inamovíveis, independentemente de qualquer situação que enfrente. O espectador fica o tempo todo à espera de que alguma Anita se apresente (nua, é claro) para ele[1], tal a mesmice da cara e da caracterização (no livro, o personagem é um mulato gordo).

E Tony Ramos?O que dizer de Tony Ramos? Ele,que era um galã anódino e funcional quando jovem, parece sonhar agora em se tornar um Al Pacino dos bons tempos, com seu tira Guedes. Mas os tiras dos romances de Rubem Fonseca já são medíocres de fábrica, já saíram com ar de produto requentado dos tempos da ficção noir E a incapacidade de Ramos—como de Mayer e do resto do elenco, diga-se de passagem—para dizer frases pomposas de forma natura, sem parecer que estão sendo “declamadas”, é constrangedora, beirando o indecoroso.

Mas tudo o que soa falso já está assim no romance. E o filme alivia o lado pernóstico e pretensioso. Sobra, ainda assim, o suficiente para ser indigesto.

No mundo de papelão que Fonseca modelou, só se salvam mesmo os personagens assumidamente caricaturais. Por essa razão, o melhor do livro são as personagens Zilda, primeira mulher de Ivan Canabrava-Gustavo Flávio, e Dona Duda, secretária da empresa de seguros (as quais foram reunidas numa só, na versão cinematográfica); esta última “também gostava de ver filmes dublados. As vozes dos dubladores eram sempre as mesmas e ela gostava disso. Quando surgia uma voz nova, ela reclamava. Chegou a escrever uma carta para a Rede Globo. Não gostei da voz que colocaram no Burt Reynolds no filme de quinta-feira. O que aconteceu com a voz antiga? Quem dublava Burt dublava o Lee Majors, o Humphrey Bogart, o Clark Gable, o Telly Sallavalas, o Laurence Olivier e o Xerife Lobo”! (eis aí o velho e bom Rubem Fonseca dos contos).

No mais, há um aspecto latente em Bufo & Spallanzani que daria um grande romance ao contar um crime que leva à narrativa  de outro crime e assim sucessivamente, num desmascaramento sem fim e desmoralizante. Teríamos um retrato irônico do que acontece com os crimes e falcatruas que o país acompanha, recuando no passado de um Jader Barbalho, por exemplo. Da maneira como o livro foi concretizado, porém, isso ficou em segundo plano. Infelizmente.

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23/11/2013

AMÁLGAMA: um Rubem Fonseca pífio para 50 anos de carreira

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada na Folha de São Paulo de 23 de novembro de 2013: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/11/1375157-critica-coletanea-reune-lado-fraco-de-rubem-fonseca.shtml )

Percorrendo os 34 textos que compõem Amálgama, o leitor encontra relances da genialidade que inovou profundamente a nossa ficção desde o lançamento, há 50 anos exatos, de Os Prisioneiros. Entre um Pedro Luiz, algumas poucas protagonistas femininas e outros não-nomeados, vários Josés—geralmente   órfãos, (mal)criados por uma tia— enredados na misoginia, na criminalidade ou na perversão (um deles gasta o capital da venda da casa para furar os peitos siliconados de uma mulher) circulam pelo anonimato urbano. Mesmo no caso do pai amoroso  de Conto de Amor, o lado “mundo-cão” prevalece : ele presenteia o filho nascido sem os membros com um explosivo.

Como que para rubricar esse estado de coisas, Rubem Fonseca seguiu o caminho adotado por Dalton Trevisan a certa altura da sua contística (ambos nasceram no mesmo ano, 1925, e os mais sérios candidatos ao posto de maior nome dentro do gênero), com relatos que vão na direção do tosco, do traço rupestre.

É difícil seguir Dalton título a título, mas quando cai algum nas mãos a impressão sempre é de vigor. Não é o caso de Amálgama. Não é ela a coletânea a redimir seu autor de uma sequência infindável de obras fracas; pelo menos, desde  O buraco na parede (1995).

Buscando ser cru à máxima potência (“Foi caminhando lentamente pela rua até que encontrou a primeira lata de lixo grande. Então jogou o bebê na lata de lixo”, lemos no conto de abertura, O filho), o José-autor revela-se apenas desfibrado[1], mesmo porque recai em truques derrisórios: assassinos de aluguel cultos (nem com o fracasso de O Seminarista, seu péssimo romance mais recente, ele aprendeu), espreitadores de mulheres que leem Chatwin, Theroux e Lévi-Strauss, e principalmente as risíveis informações de almanaque (de araque, dir-se-ia): o narrador tem bursite, “essa inflamação da bolsa, ou bursa, a cavidade que contém líquido seroso e reduz o atrito em articulações“, chegando à seguinte desfaçatez: “Afinal, que pessoas frequentavam essas festas? Creio que principalmente os boca-livristas (termo que resulta do substantivo boca-livre, evento ou lugar em que se pode comer e beber de graça) “[2].

O que há de mais horrível, afora a decadência da linguagem rubem-fonsequeana, é a inclusão (também à Dalton Trevisan) de arremedos da forma poética: “Um escrevia o nome da mulher amada com letras de macarrão/ Enquanto a sopa esfriava no prato./Outro era metade solidão e metade multidão./Estou de olhos neles./ Um andava com a espada sangrenta na mão./ Outro fingia que sentia o que de verdade sentia./Este dizia que não cabe no poema o preço do feijão (…) Este vê a vida como origem da sua inspiração/ A vida que é comer, defecar e morrer (…)/ A poesia é uma sopa de pedra/ Cabe tudo dentro dela” (Sopa de pedra)[3].

Há os lampejos mencionados e alguns textos que, se não redentores do conjunto, pelo menos honram a firma (Conto de AmorDevaneio, por exemplo[4]). O saldo final é depressivo: Fonseca parece imitar um jovem e ainda inábil escritor influenciado por sua obra. Mais do que a crueldade destilada (debilmente) pelas histórias, o leitor fica contristado com esse depauperamento avassalador de um universo autoral que já foi um marco e tanto. Não haverá comemorações para esse meio-século de produção.

VER TAMBÉM NO BLOG

https://armonte.wordpress.com/2013/11/23/a-moralidade-de-best-seller-de-rubem-fonseca/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/24/parcas-emocoes-e-romances-imperfeitos-a-fastidiosa-ficcao-longa-de-rubem-fonseca/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/23/quitutes-do-caldeirao-do-bruxo/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/23/o-genial-rubem-fonseca-dos-primeiros-tempos/

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[1]  E, por vezes, parece estar parodiando (consciente ou inconscientemente?) seu maior rival:

“Estou olhando as mulheres passarem na rua em frente deste reles botequim.

     O cara me diz, meu irmão, pode descolar uma grana para um sujeito faminto?

    Foda-se, respondo.

    Eu podia estar assaltando, mas estou pedindo—ele não sabia se ameaçava ou suplicava.

     Foda-se, repito.

    Não consigo ver bem seus olhos ansiosos de cão vadio; é uma dessas noites escuras, propícia para os pé-rapados foderem as rameiras no cantão e terem um alívio agônico enquanto o dia afinal não chega com as ânsias mais horrendas” (Noite). Se houvesse um tempero mais “brejeiro”, seria um típico texto do Trevisan mais tardio.

[2] No primeiro parágrafo de Segredos e Mentiras (aquele em que o narrador não é um José, mas Pedro Luiz) temos uma promissora brincadeira com esse pedantismo raso: “Tenho uma tendência à prolixidade, uso mais palavras e frases do que o necessário e acabo me tornando enfadonho. Não existe nada pior do que ler um texto fastidioso. Por isso tentarei ser o mais conciso possível ao narrar esta história”. Pena que o relato, embora contenha aqueles “relances” da boa safra Fonseca, não tenha um resultado final apreciável: é fastidioso.

[3]  Para não dizer que todos os pruridos em versos de Amálgama são horríveis, tem um momento de quase-redenção: Lembranças, onde há um homem com Alzheimer, os versos ecoando o que restou da memória, e em última instância, dos traços da existência. No entanto, Fonseca teima em permanecer à superfície das coisas.

[4]  Há textos que “prometem” alguma coisa, e acabam logrando o leitor, como Isto é o que você deve fazer (o narrador espreita um sujeito que mata gatos) ou Perspectivas (que é destruído pelo bizarro almanaquismo do autor). O ciclista também poderia ser um belo relato.

Sem ser um grande conto, Best Seller é o mais divertido de Amálgama: trata-se de um escritor que precisa criar um livro “que tenha veracidade. Ninguém mais quer ficção, a ficção acabou. É isso que vende”. Como ele realiza essa passagem para a “veracidade” eu não conto, mas garanto que é um lampejo da velha (boa) crueldade rubem-fonsequeana.

Assim como o começo de Borboletas (que depois se perde nos cacoetes do autor):

“Estava pensando em escrever um livro para velhotas solitárias.

   O quê? Está maluco? Velhotas solitárias gostam de ir ao teatro de van. E sabe por quê?

    Primeiro elas têm a oportunidade de sair de casa, a van as apanha, leva ao teatro e traz de volta. Saem de casa, entendeu? Toda velhota quer sair de casa de noite; quando está lendo, ela não sai de casa, fica de camisola, pijama, ou sei lá que for, cochilando com o livro  no peito. Mas quando ela vai ao teatro, ela se arruma toda, precisa ir à manicure, ao cabeleireiro, entendeu?

    Então para quem vou escrever o meu livro novo?”

Outra boa oportunidade perdida, por causa dos artifícios do discurso (fastidiosos) é Crianças e velhos, cujo narrador(que “despreza os pedófilos”) recolhe em casa uma menina de quatro anos: “Bem, vou deitar. O pesadelo está me esperando” é a última frase. Isso é o cru. Isso é o rupestre em sua melhor forma, pena que para chegar a ele temos de aturar páginas “a mais do que o necessário”, como bem alertou nosso amigo Pedro Luís.

Outros textos, como Decisão, respiram o ar da autoparódia (o assassino não mata mulheres nem anões). Aliás, não podia faltar a autorreferência: “Tem sempre um anão se metendo na minha vida. Até já matei um e coloquei dentro de uma mala”, lemos em Perspectivas (O anão é um dos textos mais brilhantes de O buraco na parede); ou como O espreitador, malgrado alguns “relances” (“Espreitada parada perde a graça, mesmo de saia. O que é bonito é a Espreitada em movimento”). O pior, nessa linha, é provavelmente A festa.

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O genial Rubem Fonseca dos primeiros tempos

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 26 de outubro de 2010)

Em 1973, há seis anos sem lançar um livro novo, Rubem Fonseca já publicara três importantes coletâneas: Os prisioneiros; A coleira do cão e Lúcia McCartney.. Só dois anos lançaria outra, justamente aquela que o tornaria famoso: Feliz ano novo. A novidade foi a sua estréia no romance, com o lamentável O caso Morel. Esse gênero monopolizaria sua produção na década seguinte, transformando-o num berst seller, e, na opinião de quem aqui escreve, quase o destruindo como criador.

Nesse mesmo ano, contudo, fora lançada uma antologia reunindo 18 contos dos seus livros anteriores, O homem de fevereiro ou março, a qual acaba de ganhar uma segunda edição, permitindo ao leitor  uma visão panorâmica do “primeiro” Rubem Fonseca, tão talentoso e impactante que se tornou o autor-referência das últimas décadas, ao impor a ficção urbana de forma definitiva.

Dos 10 contos de Os prisioneiros, temos “Fevereiro ou março”, que inaugura de forma memorável esse universo, e nos apresenta um personagem recorrente nesses livros iniciais, o fisioculturista-pugilista galã que vive meio ao deus dará; além dele, “O inimigo”, que é uma das maiores provas do talento rubem-fonsequiano para o conto longo, que sugere um romance (e não de que ele tenha vocação para o romance), com um poder formidável. Nesse conto, ele mostra a desagregação de um grupo de colegas de escola e o apego nostálgico do narrador a uma época que já se foi. O inimigo é o tempo, que muda tudo, inclusive a feição da sociedade brasileira, que se urbaniza celeremente na década de 60.

A coleira do cão é um grande livro. Por isso, nada mais natural que 6 dos seus 8 contos tenham sido incluídos em O homem de fevereiro ou março, e que todos beirem a condição de obra-prima. Deixo de lado “Os graus”, “Madona” e até mesmo o notável “O gravador”, para ressaltar três textos paradigmáticos: “Relatório de Carlos”, em que mais uma vez o sopro do romance insufla num texto curto várias possibilidades e que mostra a queda um advogado poderoso que “reeducava” suas amantes; “A força humana”, no qual nosso anti-herói pugilista vive uma situação parecida a de Bette Davis em A malvada; e “A coleira do cão”, um dos maiores contos da nossa literatura, com a narração do cotidiano de uma delegacia.

A maior quantidade de contos (8) é de Lúcia McCartney (pudera, eram 19 no livro original). Os destaques vão para “O caso de F.A” onde nasce Mandrake, protagonista de tantas histórias de Fonseca, e memoravelmente encarnado por Marcos Palmeira no seriado da HBO; “A matéria do sonho” onde uma boneca de vinil é o grande amor do narrador; “Lúcia McCartney”, onde  o cotidiano de uma garota de programa é explorado de forma desdramatizada e inovadora; o crudelíssimo “Relato de ocorrência”, em que uma vaca atropelada é  toda cortada pelo populacho; e por fim, o extraordinário “O quarto selo”, onde, num Rio de Janeiro do futuro, departamentos especializados de repressão a ondas crescentes de terror e rebelião, são mencionados por siglas, que vão sendo explicadas minuciosamente ao leitor (por exemplo, RDE= regulamento de defesa especial, ESQUADRÕES= grupos de especialistas  em atentados pessoais com explosivos) até que as siglas se tornam rebarbativas e tautológicas: CONTROLE= controle; EUNUCO= eunuco.

O homem de fevereiro ou março é indispensável para o leitor de 2010 constatar  por que tanta gente acha Rubem Fonseca genial.

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QUITUTES DO CALDEIRÃO DO BRUXO

(RESENHA PUBLICADA ORIGINALMENTE EM ‘A TRIBUNA’ DE SANTOS, EM 31 DE OUTUBRO DE 1995)

Decepções sucessivas com os discutíveis (e alguns bem ruins) romances de Rubem Fonseca fazem o apreciador de seus contos hesitar, apesar da expectativa, em ler O buraco na parede.

Afortunadamente, lida a coletânea, percebe-se que seus oito contos não saíram do forninho micro-ondas de um best seller made in Brazil. O buraco na parede não é fast food. É quitute de caldeirão de bruxo, produto da alquimia interna de um contista que renovou a ficção nacional na década de 60, com obras como A coleira do cão, o qual pode ser lido em 1995 como se tivesse sido escrito hoje em dia. Seu retrato da realidade urbana brasileira continua desalentadoramente atual. Isso, sem falar da linguagem enxuta e contundente, um estilo que conheceu seu auge em Feliz ano novo (1975) em matéria de impacto e eficácia, e que agora corre nas águas mais mansas da maestria e da perícia técnica absoluta nos textos de O buraco na parede.

É difícil apontar qual o melhor deles. De imediato, três se destacam: O balão-fantasma, O anão e o conto-título, todos narrados em primeira pessoa (só dois textos no livro não o são).

Em O balão-fantasma aparece a figura emblemática do delegado diante do labirinto de criminalidade (e, em se tratando da Baixada Fluminense, realmente é um labirinto) e da desmoralização social, que aparece com freqüência no universo de Fonseca, só que o texto atinge um teor quase metafísico (além do tom lírico que perpassa toda a parte final do relato), pois ele tem de enfrentar uma seita de baloeiros com um fervor místico que o confunde e dribla a polícia e os vigilantes ecológicos, acrescentando-se à loucura geral da  nação ao lançar o maior balão do mundo. Uma obra-prima.

O anão é a história de um atropelamento e de um assassinato: um homem (o narrador, Zé) mata um anão chantagista e o coloca numa mala para poder continuar com a mulher que o atropelou. É ler para crer no encanto com que, implacável e impagavelmente, Fonseca constrói o arco que vai do atropelamento ao assassinato. Especialmente deliciosa é a descrição do relacionamento que se estabelece entre Zé e Sabrina, atendente do Miguel Couto, onde ele foi internado: “Sabrina não saía da minha casa. Trouxe uma mala com coisas, roupas, discos de Tim Maia. Comecei a ficar com raiva dela, raiva do Tim Maia…”

    O conto-título é a prova consumada de que Fonseca desperdiça seu incomparável talento em romances de segunda categoria. Em 20 páginas, ele consegue concatenar complexas situações e vários personagens: o narrador, dessa vez, é um jovem desocupado que mora num cubículo onde há o buraco. Através dele, espia sua amada, filha da senhoria. Esse buraco, que também é uma metáfora do que acontece quando temos acesso (mesmo involuntário) á intimidade das pessoas numa sociedade como a nossa, o leva, por tortuosos caminhos (que incluem uma libidinosa vizinha casada), à mais completa abjeção.

O leitor ainda tem o vaudeville sinistro e divertido de Idiotas que falam outra língua (o marido mata a esposa e reúne as duas amantes e mais o amante da esposa na cena do crime), o hiper-naturalista A carne e os ossos, o grotesco e cortante Orgulho, um daqueles contos rápidos nos quais Fonseca mostra mão de mestre. E tem ainda o caricato Artes e ofícios, e por fim Placebo, o mais problemático dos textos do livro: uma história esplêndida, aproveitando o significado da palavra placebo, extremamente bem-conduzida e cruel, porém infestada dos vícios que comprometem todos os romances e alguns contos do autor de O buraco na parede, por exemplo, a mania das brincadeiras eruditas. Em Placebo, o narrador está segurando uma caixa com um feto e diz para todos que é cerveja. O autor não resiste e, quando tem de inventar nomes para a suposta cerveja alemã, pespega-nos Weltschmerz e Weltanschauung, consagrados termos históricos e filosóficos. Compromete-se a verossimilhança psicológica do narrador e o texto artificializa-se.

Nem por isso o leitor deixa de ser arrastado pelo ritmo do conto, como acontece quase sempre com o contista Rubem Fonseca: seus quitutes diabólicos são devorados para se saber “aonde tudo vai dar”. Se depender das conclusões dos seus textos, porém, a perspectiva de “onde vai dar” a sociedade brasileira não é a de luz no fim do túnel, mas de um enorme buraco que vai se alastrando até derrubar o edifício.

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A moralidade de best seller de Rubem Fonseca

 

José Joaquim Kibir é um ex-seminarista (adora citar frases feitas em latim) que resolve se aposentar. Até então, era um assassino profissional, o Especialista, cujo contratante ele conhecia como o Despachante. Só que um dos sujeitos que ele executou tinha em seu poder um CD comprometedor com relação a um tal Ziff, figurão da sociedade (recebido pelo presidente sem que precise marcar audiência), detalhando sua participação no narcotráfico, e por isso, tanto José quanto o Despachante, e mais a filha deste (Kirsten), por quem o primeiro se apaixona, estão marcados para morrer. José procura a ajuda de um ex-colega de seminário, D.S., um importante editor, enquanto investiga a situação na qual vai ficando cada vez mais implicado (há alguns crimes dos quais ele é o principal suspeito), tentando permanecer vivo, constantemente mudando de esconderijo, com Kirsten, após o assassinato do Despachante…

Além de ter nascido no mesmo ano (1925), Rubem Fonseca tem em comum com Dalton Trevisan a maestria no conto. Lamentavelmente, em algum momento aziago da sua (e para a nossa) vida, ele decidiu que também era romancista. E o admirador da sua formidável obra como contista (A coleira do cão, Feliz ano novo, O buraco na parede) teve então de aturar textos bisonhos e ruins como O caso Morel, A grande arte, Bufo & Spallanzani, Vastas emoções e pensamentos Imperfeitos. Eu desisti de ser masoquista, após ler Agosto. Deveria ter mantido minha decisão, já que seu novo romance, O seminarista, é tão irritante e frustrante quanto os outros. Parece escrito por um imitador inepto dos piores defeitos de Rubem Fonseca, ou por um imitador iniciante, que não tem a própria voz e não sabe o que quer.

Eu não vejo necessariamente como um problema um texto trazer informações eruditas ou discussões intelectuais. Mas, e esse é um vício recorrente nos romances anteriores (e, sejamos honestos, até nos seus contos menos felizes), desde as citações latinas, até a leitura compartilhada de alta poesia pelo ridículo casal José-Kirsten, sem falar na rotina do seminarista-matador profissional (que percorre sebos e assiste filmes de Kuruosawa, Fellini ou Kubrick), o que aparece de “intelectual” em O Seminarista é uma perfumaria rasa, que só torna a história mais fraca e irreal. E previsível: qualquer pessoa, menos o idiota do herói-narrador, percebe de cara que o verdadeiro vilão da história é o mascarado amigo D.S, e não o suposto Ziff.

Não bastasse isso, há também o fato de que os antecedentes familiares de Kirsten (que é alemã) nunca poderiam ser “prosaicos”. Assim como os que fazem regressão a vidas passadas, e descobrem que foram Cleópatra, Napoleão ou Ivan, o Terrível, o avô da dita cuja não poderia ser ninguém menos do que um participante da Operação Valquíria contra Hitler (aquela mesma do filme com Tom Cruise). Quando comecei a ler “Meu avô era um jovem oficial da Wermacht, primeiro-tenente, em 1944. Fazia parte do staff do coronel Claus Von Stauffneberg, e participou da chamada Operação Valquíria”, eu, que já não estava levando o texto a sério, matei a charada: Rubem Fonseca está tão seguro na sua posição de  “medalhão” que não tem mais o menor pudor de escrever qualquer besteira que lhe ocorra. Vejam a inútil passagem (num romance de apenas 180 páginas) em que o dono de um restaurante descreve seu cardápio: Estão todos muito bons, disse o seu João com  um forte sotaque, mas o bacalhau à Gomes de Sá eu mesmo preparei; comecei ontem, pu-lo de molho numa bacia de água, trocando a água seis vezes, depois escorri o bacalhau, retirei-lhe as peles e as espinhas e desfi-lo em pequenas lascas que coloquei numa panela funda, cobri-a com leite bem quente e deixei ficar em infusão por três horas. Enquanto isso, cortei as cebolas em rodelas e o dente de alho e levei a alourar ligeiramente numa frigideira de ferro com um trisco de azeite, até que ficassem translúcidas e levemente amarronzadas, em seguida juntei as batatas, que haviam sido cozidas com a pele e depois peladas e cortadas também em rodelas, e juntei o bacalhau escorrido, mexi tudo ligeiramente, mas sem deixar refogar, temperei com sal e pimenta, coloquei num tabuleiro de barro e levei-o a um forno bem quente durante quinze minutos, o Joaquim deixa ficar vinte, mas eu prefiro quinze minutos, com o forno a duzentos graus...”etc, etc e etc… Se ele ainda estivesse fazendo um painel oitocentista e balzaquiano da sociedade brasileira, concorrendo com o registro civil…

Ele continua tentando satirizar os novo-ricos. Só que os cacoetes de classe alpinista, ostentações, tudo o que supostamente desmascara neles é justamente o que ele demonstra como escritor. Quando satiriza uma personagem que fala da sua adega chique um texto decorado e kitsch, ele está descrevendo o seu próprio estilo: “Perguntei-lhe qual o vinho branco que devia comprar para acompanhar aquelas iguarias… podia ser um Riesling, mas tinha que ser dos melhores, ou então, se eu optasse pelo tinto,  um Spätburgunder,  cuja origem eram cepas Pinot Noir que importaram da Borgonha. Não foi fácil achar esses vinhos,  aqui, quando se toma branco alemão há o costume de tomar o Liebfraulmich, raramente bom, e os tintos são difíceis de ser encontrados.” etc, etc e etc.

E, diga-se de passagem, que ricos e poderosos são esses do livro, que não convencem ninguém? Parecem mais caricaturas de personagens de Orson Welles. Só para dar uma idéia da completa ausência de senso de realidade de O seminarista, basta citar um trecho da incursão de José Joaquim Kibir no apartamento de uma viúva, que serve como “casa de encontros”: … fingindo que prestava atenção ao que ela dizia, enquanto olhava as pessoas no salão. Alguns contatos ainda estavam na fase dos prolegômenos, mas outros haviam sido estabelecidos com tal rapidez que casais acordantes já se retiravam discretamente. E as mulheres não eram evidentemente garotas de programa, se não todas, pelo menos na maioria eram donas de casa ricas e enfadadas em busca de um enredo romanesco que acrescentasse um pouco de elã às suas vidas.”!!!! “Donas de casas ricas e enfadadas em busca de romance”: ele deve estar lendo o mundo atual com os olhos da Jacqueline Susann de O vale das bonecas ou de Harold Robbins. Rubem Fonseca chegou à moralidade dos best sellers. Pior para nós.

(resenha publicada originalmente em “A Tribuna” de primeiro de dezembro de 2009)

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22/11/2013

Adaptações de Stephen King

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Sempre tive a suspeita de que Stephen King adora ser mal adaptado para o cinema e especialmente para a televisão, que ele se compraz com aquelas produções de segunda ou terceira categoria, que valorizam seus textos por tabela. Mas ao longo de seus 40 anos de carreira, algumas produções escaparam dessa sina de trash inspirado em Stephen King. É o caso de:

1– THE SHINING-O ILUMINADO (1980) – Como sou um kubrickiano apaixonado, ninguém se surpreenderá quando coloco este como a maior das adaptações de King para o cinema. Li o romance,  que tem uma construção de atmosfera genial (além do argumento) e uma solução pífia, e acho que Kubrick traduziu de forma indelével o que ele tem de melhor. Entre tantas, a cena em que Shelley Duvall sobe a escada com um taco de beisebol, sendo ameaçada-espicaçada-ridicularizada por Jack Nicholson, não tem igual. Os dois intérpretes estão além do além.

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2-CARRIE (1976) Uma das obras-primas de Brian de Palma, e  certamente um dos duelos (ou duetos) de interpretação mais impressionantes do cinema, entre Sissy Spacek e Piper Laurie. Não gosto da mão do final que agarra a boazinha Amy Irving (ainda mais por se tratar de um mero pesadelo), mas o filme como um todo é tão poderoso que  acaba sendo um detalhe (apelativo, sem dúvida).

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3-O NEVOEIRO  (2007)- Terrível e acachapante alegoria distópica sobre a paranoia da era Bush, o melhor dos filmes que Frank Darabont realizou a partir da obra de King.

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4-ZONA MORTA (1983)- Uma das mais sóbrias e austeras adaptações feitas a partir de King, o que não deixa de ser surpreendente, afinal o grande David Cronenberg, principalmente à época, não era dado a concessões de nenhum tipo. O resultado é belo, de todo modo.

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5- THE SHAWSHANK REPEMPTION- UM SONHO DE LIBERDADE (1994)-Afora a incursão solitária de alguns grandes cineastas, talvez Frank Darabont tenha sido o diretor que melhor  traduziu o universo de King nas telas. Aqui ele constrói um misto peculiar de Frank Capra com George Romero, numa bela fábula de amizade e redenção.

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6-CHRISTINE (1983)- Não dá para levar a sério o argumento (carro obcecado pelo dono), mas o mérito nada desprezível do grande John Carpenter foi criar uma atmosfera cinematográfica que faz com que esqueçamos qualquer lógica e bom-senso e sejamos conduzidos pelos acontecimentos da história.

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7-DOLORES CLAIBORNE – ECLIPSE TOTAL(1995)- O diretor, Taylor Hackford, geralmente é medíocre, mas que história sensacional, e como a dupla Kathy Bates e Judy Parfitt está genial (tem a Jennifer Jason Leigh, também, claro).

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8-A METADE NEGRA (1993)- O título nacional  deveria ser “A metade sombria”,  bem mais preciso. O elegante filme de George A. Romero, além da categoria do diretor, tem o atrativo extra de ter o talentoso Thimothy Hutton no papel principal. King abusou um pouco da figura do escritor como protagonista, mas é um de seus argumentos mais engenhosos (depois, uma variação seria levada ao ridículo em “A janela secreta”).

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9- MISERY-LOUCA OBSESSÃO (1990)- Outro diretor  “do doce”,  Rob Reiner (nem Conta comigo me entusiasma particularmente, embora muito  bonitinho e tal) , e acho  o final horroroso e apelativo, entretanto a encarnação da protagonista por Kathy Bates é um capítulo à parte na história das adaptações cinematográficas de King.

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10- THE LANGOLIERS-FENDA NO TEMPO (1995)- De todas as inúmeras minisséries feitas para a tevê (e assisti a várias) a partir de livros de Stephen King, essa (dirigida por Tom Holland) sempre me pareceu a melhor, a que melhor aproveita (há que se ter boa vontade com relação aos efeitos visuais) o argumento e situações engenhosas do autor.

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Ocorrem-me outros (poucos, é verdade) bons filmes, como O aprendiz, de Bryan Singer, ou Lembranças de um verão, de Scott Hicks, mas fiquemos na magia do número 10. Sei que alguns vão lembrar de Cemitério Maldito, mas por favor! Também nunca consegui suportar À espera de um milagre. O caso de IT (1990) é mais complicado:  Como vários romances tão talentosos de King, este filme de Tommy Lee Wallace,  a partir de  A Coisa,  é muito mal resolvido em vários aspectos (por exemplo, os efeitos visuais da parte final). Mas quem pode negar que a atmosfera da cidade pequena e a ligação, infantil e adulta, entre os personagens, é magnífica (além disso, como tenho horror a palhaços,  me identifico totalmente com a história)?  E no final, o resultado supera o melhor realizado em termos de efeitos O apanhador de sonhos (2002), mau momento de Lawrence Kasdan.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/11/26/destaque-do-blog-novembro-de-63-de-stephen-king/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/19/sob-a-redoma-e-a-maturidade-de-um-mestre-stephen-king/

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nota- só coloquei a capa dos livros de King (e nas edições) que li.

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21/11/2013

Leituras em Espelho: DEAN KOONTZ e F.PAUL WILSON

Filed under: Leitura da semana — alfredomonte @ 9:36

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Nota- Todas as notas de rodapé são posteriores aos textos publicados.

No coração da Califórnia, vivem os maléficos Pollards. Frank, o mais velho, mata a mãe e é perseguido pelo irmão, Candy, vampiresco e edipiano. Por sete anos consegue despistá-lo; quando dorme, porém, seu dom de teletransportação leva-o invariavelmente de volta ao lar, o que permite a Candy seguir seu rastro —pois possui poderes ainda maiores.Frank procura, então, a ajuda de um casal de investigadores, os Dakota, para descobrir o que acontece enquanto “dorme”…

Em Nova York, uma entidade maligna, velha conhecida de quem leu O fortim e Renascido[1], quer vingar-se de Bill Ryan, jesuíta que trabalha num orfanato. E consegue, usando como instrumento um casal aparentemente confiável, adotar e torturar de forma horrível uma criança chegada a Ryan, que ainda leva a culpa pelo crime e tem de fugir. Cinco anos depois, tudo começa a se repetir com Lisl, a única amiga da nova identidade que construiu na Carolina do Norte, atraída por um sedutor que, sem dúvida, tem relação com os acontecimentos anteriores…

A Record colocou no mercado novas obras de dois especialistas em terror: A Casa do Mal (The Bad Place,1990), de Dean Koontz, e Represália (Reprisal,1991), de F. Paul Wilson, em traduções—respectivamente—de Geni Hirata & Bráulio Tavares. Ambas passam no teste supremo do gênero: fazer com que o leitor fique absorvido durante horas, e apavorado, caso falte luz em casa.

Koontz & Wilson demonstram qualidades similares no trabalho com os personagens (apesar dos clichês incômodos, por exemplo o policial obcecado por um crime do passado, em Represália). Pena que, como outros autores contemporâneos, tenham a mania de matar sem dó personagens que nos envolveram páginas e páginas e dos quais gostávamos. Por que será? Para não parecerem ingênuos ou maniqueístas demais? É um tipo de frustração que sentimos também, até em demasia, ao ler textos de Stephen King. Em compensação, Wilson se dá ao trabalho de justificar o motivo que faz o Mal, tão poderoso e onipresente, se preocupar apenas com um punhado de pessoas e ter uma ação tão doméstica, como é de praxe nesses enredos.

Koontz & Wilson compartilham igualmente o mesmo defeito: a prolixidade. Ambos se alongam um pouco demais, talvez porque tenham também a pretensão de comentar a sociedade norte-americana, seus valores e perigos potenciais (não à toa, Rafe, o sedutor de Lisl, em Represália, a doutrina para uma filosofia de vida neonazista). Koontz ainda vai mais longe, colorindo a trama de A Casa do Mal com o politicamente correto mais extremado, defendendo os direitos das minorias asiáticas (através dos funcionários do casal de detetives) e criando (e acompanhando seu ponto-de-vista) um personagem deficiente mental e ao mesmo tempo sensitivo e telepata.

Os dois livros mostram também como a palavra escrita ainda leva vantagem sobre a imagem (basta ver como o cinema de terror anda desgastado) no detalhamento de mutilações e sanguinolências (cada vez mais explorado; diga-se de passagem, nesse quesito, Wilson é até bem discreto). Não há ridículos aqui (o terrir) e nem aquela sensação irrisória de tudo ser mero efeito de maquiagem. As duas narrativas despertam a imaginação do leitor com uma sensação sombria, que corresponde a medos imemoriais e infantis do ser humano, e que Thomas, o especialíssimo deficiente mental criado por Koontz expressa tão bem: medo da dor física, da noite, do desaparecimento das pessoas queridas, medos decorrentes da própria existência da mortalidade.

Talvez, por isso, se é necessária uma comparação desse tipo, A Casa do Mal perdure mais na memória do leitor. Que, fechados os livros, esquecido do cotidiano, deita e espera a mão vir por debaixo da cama e pegá-lo…

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de julho de 1994)

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O mapa da literatura de terror nos EUA é dividido em dois domínios: no leste, Stephen King pontifica com suas fábulas sobre o empedernimento do coração humano; no oeste, Dean Koontz  se destaca na criação de histórias que ele amplifica para um comentário sobre a sociedade contemporânea[2].

O autor de The Bad Place-A Casa do Mal nos apresenta prósperos pais de família que sempre parecem achar não merecer tal bem-estar e o amor das esposas e dos filhos, e aí então se abre uma brecha para que o avesso ameace instalar-se. Isso já transparecia fortemente em Esconderijo[3], onde um pai de família, após morrer clinicamente e ser revivido, adquiria uma ligação mental com um psicopata dominado por um demônio, e agora é levado ao extremo em Sr. Assassino (Mr. Murder, 1993,traduzido por Reinaldo Guarany).

Dessa vez, a ligação mental do escritor Martin Stillwater é com um clone sociopata criado por conspiradores do goveno americano, os quais cometeram um engano e utilizaram amostra da medula óssea de Stillwater (maiores detalhes, só lendo o romance). Tal clone, Alfie, sósia do escritor, vivia indo “a lugares sem saber o objetivo de sua viagem até chegar a seu destino, e matou pessoas sem saber por que deveriam morrer ou para quem estava fazendo a matança”. Ele renega seu condicionamento e resolve tomar a vida de Stillwater, que conhecêramos no início de Sr. Assassino tendo uma premonição de desgraça.

Como em Stephen King nem sempre dá para levar a sério ou ficar sem rir. Koontz também acumulou uma avalanche de clichês considerável até mesmo para um gênero saturado como o terror. Não faltam as burrices proverbiais dos protagonistas, que são capazes de ficar um tempão arrumando malas para uma fuga (enquanto Alfie sequestra as filhas) ou aquela velha mania de se esconder num local o mais isolado possível—que, entretanto, não impede o acesso do vilão[4]. Qualquer leitor atento verá como é fácil prever boa parte das soluções da trama, até mesmo a identidade do salvador da família.

Mas, em igual porção, assim como sr. Terror do Maine, o sr. Terror da Califórnia sabe como prender a atenção e encantar com mil detalhes supostamente secundários. E Koontz ainda vai além, pois cria uma empatia com os personagens raramente alcançada pelo autor de O Cemitério. Os heróis de Koontz se sentem atraiçoados pelo sistema: “Se não podiam receber assistência e proteção oficial, então o governo falhara com eles no dever mais fundamental: proporcionar a ordem civil através da aplicação justa porém estrita do código criminal. Apesar da máquina complexa na qual viajavam, apesar da moderna autoestrada  na qual rodavam e da rede de luzes suburbanas que cobria a maior parte dos morros e vales do sul da Califórnia, essa falha significa que não estavam vivendo num mundo civilizado… Na verdade, viviam numa anarquia com alta tecnologia”. Se eles viessem para o Brasil, aí sim é que eles veriam o que é bom para a tosse.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de janeiro de 1996)

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A trama de Os Escolhidos (The Select, 1994, traduzido por Sylvio Gonçalves) dá a impressão de que F. Paul Wilson resolveu invadir a lucrativa seara de Robin Cook, o especialista em thrillers médicos. Os três personagens principais, Quinn, Tim e Matt, prestam exames para uma conceituada faculdade de medicina, a Ingraham, onde se estuda de graça e se vive em tempo integral no campus.

Como moça pobre, Quinn é a que mais deseja ingressar na Ingraham, mas fica na lista de espera, enquanto seus dois amigos passam. Matt desiste de fazer a matrícula e ela, graças a um artifício, consegue a sua vaga. E então, ela e Tim (que estão apaixonados) descobrem qual é a visão da medicina que se cultiva na cobiçada instituição.

Nesse ponto é que é o romance se torna um autêntico F. Paul Wilson, com seu soturno tom conspiratório e sua denúncia dos surtos fascistas que pipocam aqui e ali na sociedade (basta relembrar de Renascido & Represália).

Sem entrar em maiores detalhes, o tema central de Os Escolhidos é o uso de cobaias humanas em testes para novos medicamentos. No livro, pessoas consideradas inúteis socialmente (idosos, mendigos) são utilizadas ilegalmente para esse fim[5].

Wilson consegue um clima convincente e arrepiante justamente porque nós, no fundo, sabemos que coisas horríveis acontecem nos laboratórios da vida real. Aliás, como eu considero desprezível toda pessoa que utilize qualquer tipo de animal como cobaia, para torturá-lo e atormentá-lo (e sou um dos milhares de cidadãos que se chocam com a falta de controle e vigilância por parte das autoridades)[6], não acho nada surpreendente que, secretamente, se realizem experiências em seres humanos, num mundo como o nosso, em que se sequestram crianças para roubar órgãos sadios.

Portanto, não há nada de novo no cinismo e falta de escrúpulos que formam o pano de fundo a sustentar a teia da Ingraham, na qual ficam enredados Quinn e Tim e os outros “escolhidos” da faculdade, monitorados por microfones e bombardeados por mensagens subliminares. De fato, um dos quesitos que fazem parte da seleção em Ingraham é a receptividade a esse tipo de mensagem. E Quinn torna-se um problema: ela não é receptiva, e consegue ficar imune a elas.

Entretanto, não é só por esse motivo que ela é especial. O que torna Os Escolhidos interessante como leitura é o fato de Wilson conseguir nos envolver profundamente com a sorte de Quinn e Tim. O mundo é podre, a ética médica foi para o espaço, o grau de corrupção já chegou a um ponto sem volta, mas que pelo menos os dois escapem ilesos da conspiração, é isso que não nos deixa largar o livro.

Quando Tim é aprisionado na enfermaria onde fazem experiências com seres humanos (inclusive queimando-os para testar um novo tipo de enxerto), a leitura torna-se angustiante e Wilson obtém o triunfo que pode almejar o fabulador desse tipo de livro. Não dá para parar de ler, enquanto não se sabe o que vai acontecer com ele.

É bobo, é pueril, e absolutamente inócuo diante do quadro aterrador que o romance sugere, mas é por essa razão que Os Escolhidos é ótima diversão (uma das melhores dos últimos anos)  vale cada centavo investido nele:  seus heróis não são gente descartável. São os “nossos” eleitos.

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[1] O fortim ganhou em 1983 uma adaptação cinematográfica de Michael Mann (se bem me lembro, com o título nacional de Fortaleza Infernal, a qual se distingue pela impressionante breguice (proporcional à sua pretensão). O filme, aliás, é tão cafona que até atores do quilate de Ian McKellen e o admirável Scott Glenn flertam perigosamente com a canastrice e o ridículo.

[2] Atualmente, eu não ficaria tão certo da exatidão dessas afirmações, por dois motivos: um, cada vez mais a obra de King—que antes me parecia enveredar sobretudo mais pelos caminhos morais—deixa-se permear pela política (eu teria de voltar aos seus primeiros livros, para conferir se isso já estava lá); o outro, já não acho correto colocar os dois autores na mesma balança—certamente Koontz está longe da proeminência e penetração cultural do seu colega do leste. Diga-se de passagem, Koontz é originário da Pensilvânia, mas o cenário de seus livros geralmente é a Califórnia.

[3] Cuja versão cinematográfica (dirigida pelo indefectível Brett Leonard em 1995) tinha Alicia Silverstone, a um passo de se tornar uma estrelinha (o que já deixou de ser há muito). É um filme bem assistível, embora nada de especial.

[4] Hoje em dia, já acho que são propositais esses ganchos: os autores esperam que o leitor tenha essa reação de impaciência, faz parte do repertório do gênero

[5] Um filme de 1996 (de Michael Apted), Medidas Extremas com Hugh Grant e Gene Hackman aproveitou o mesmo mote.

[6] Escrevi isso em 1996. Em 2013, desalentadoramente, nada mudou.

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19/11/2013

SOB A REDOMA e a maturidade de um mestre: Stephen King

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Voltou para lá para fora, farejou o ar-parado, com um toque desagradável de fumaça-e olhou para oeste, para a mancha preta pendente os  os mísseis tinham se chocado. Parecia um tumor de pele. Sabia que estava se concentrando em Dale Barbara e em Big Jim Rennie e nos assassinatos porque eram o elemento humano, coisas que ele meio que entendia. Mas ignorar a Redoma seria um erro… (trecho de Sob a Redoma)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de novembro de 2013)

Quem estiver acompanhando a série Under the Dome (exibida pela TNT), abismado com a mediocridade dos episódios que banalizam uma situação tão dramática (uma redoma possivelmente alienígena de repente isola a cidadezinha de Chester´s Mill, no Maine), ou com os personagens (para não falar dos intérpretes) sem-graça que os povoam, nem imagina que o livro original de Stephen King (publicado originalmente em 2011, nos EUA, e aqui comentado na tradução de Maria Beatriz de Medina) é a prova definitiva da sua maturidade e vigor como romancista.

No momento em que Chester´s Mill vê-se à parte do mundo, o poder local está concentrado nas mãos do vereador Big Jim Rennie[1]. Ele e outras autoridades (inclusive um reverendo, Lester Coggins) desviaram verbas e material essencial (cilindros de gás, por exemplo, os quais seriam vitais na condição pós-redoma) para um imenso laboratório de metanfetamina[2]. É um dos motivos porque Rennie hostiliza e não reconhece o coronel Dale Barbara (veterano do Iraque, que atuava como chapeiro numa lanchonete local[3]) quando este é investido pelo governo americano como líder durante a crise, mas não o principal: Barbara havia se desentendido com o filho do vereador, Junior (um psicopata necrófilo e truculento, que gosta de ficar com suas vítimas enquanto elas se decompõem), e simboliza tudo o que o chefão mais odeia: forasteiro, imbuído dos símbolos das garantias civis e multiculturais do governo Obama. Corrupto e deslavadamente tacanho, Rennie representa uma mentalidade muito presente e atuante nos EUA, aquela mesma que se ampara no número de armas que se tem em casa, na crença de que tudo o que vem de fora é errado e perigoso: Os amigos de Barbara no lado de fora teriam uma tendência especial a entender tudo errado… Enfim, a redoma é ideal para pôr em prática tal modo de pensar, tão Sarah Palin, tão tea party. Tendo Barbara como bode expiatório (ele é preso pelos assassinatos que Junior e o próprio pai deste cometeram após o surgimento da redoma), Chester´s Mill pouco a pouco se torna um lugar com forte sabor totalitário, com milícia em vez de polícia (adolescentes problemáticos são incorporados à força policial; amigos de Junior estupram a garota do responsável pelo refino da metanfetamina, que se tornou um recluso dado a visões apocalípticas).

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Embora Sob a Redoma tenha uma galeria e tanto de personagens, em suas quase mil páginas, Big Jim Rennie é a grande criação de King, fazendo dele a encarnação moderna de Willie Stark, o político demagogo e rapinante criado por Robert Penn Warren no clássico Todos os Homens do Rei (1946), um dos mais importantes romances americanos.  Alguns podem alegar que o vereador é caricatural e que o romance utiliza os mais deslavados recursos folhetinescos, polarizando personagens “bons” e vilões. Se assim for, que folhetim esplêndido o autor de Misery e O Iluminado conseguiu criar! Em Sob a Redoma, aprofundou-se vertiginosamente o pendor cada vez mais político e engajado que foi tomando conta da sua obra, principalmente em reação ao governo Bush e às medidas autoritárias e regressivas pós-11 de setembro e outros miasmas norte-americanos. Se King acaba sendo, como tanto deplora Harold Bloom em mais um de seus equívocos, o horizonte de leitura do adolescente atual, não vejo nada mais consistente e consequente para formar consciências não-conformistas e informadas do perigo para a liberdade representado por medidas “de segurança” e de exceção.

Volto a afirmar: em Sob a Redoma,  King atingiu a maestria da sua arte, criando um mundo completo, com sua população, sua geografia, até mesmo sua ecologia (a descrição da degradação ambiental da redoma é um achado magistral) tão convincentes quanto nossa própria realidade[4]. Mas embora inegavelmente grande,  ele sempre foi um autor com aspectos problemáticos (por exemplo, sua capacidade de inventar argumentos geniais, sem a necessária contrapartida de solucioná-los a contento, na maioria absoluta de seus livros) e o romance é um gênero eminentemente contingencial, o que explicaria os “defeitos” que, a meu ver, não prejudicam gravemente o conjunto, sendo o principal deles a revelação da pueril origem da redoma (ela devia ser algo incognoscível, não uma plataforma para uma conclusão moralista à la Além da Imaginação) e o modo de desativá-la[5]; outro é o desapreço (bem menor do que em obras anteriores, é justo anotar) do autor pelos seus personagens, a quem mata sem a menor cerimônia[6]; também não são de grande ajuda passagens subliterárias do tipo: “Acima dela, as estrelas transbordavam pelo céu na profusão extravagante de sempre, uma catarata sem fim de energia que não precisava de gerador.

Por incrível de pareça, nada disso importa. Sob a Redoma é um romance que fica em pé, literal e metaforicamente. O que é grave, e não dá para entender num demiurgo tão zeloso (e obviamente orgulhoso, como se verifica no posfácio) do seu território criado nos mínimos detalhes, um cochilo tal como o seguinte:  na pág. 524, Rusty, um dos heróis, vê um homem “desconhecido” à sua frente: é Thurston Marshall, que se tornará um voluntário no hospital da cidade. O problema é que eles já haviam se conhecido, na pág. 338!

Prefiro pensar que, assim como tenho certeza de que ele se deleita secretamente com as péssimas adaptações cinematográficas e televisivas, as quais acabam valorizando por tabela seus textos (com as célebres exceções de praxe,  todo mundo as conhece: O Iluminado, Carrie, Zona Morta, Christine, O nevoeiro e poucas mais), ele também se dá ao luxo, matreiramente, de brincar com seus leitores, inclusive os mais cricris e detalhistas. Prazeres perversos de mestre.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/11/26/destaque-do-blog-novembro-de-63-de-stephen-king/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/22/adaptacoes-de-stephen-king/

artigo king

TRECHO SELECIONADO

Numa resenha publicada no “Rascunho” (cf. http://rascunho.gazetadopovo.com.br/sob-a-redoma-ou-nao-eis-a-questao/), José Roberto Torero afirma que se sentiu meio enfastiado na leitura do romance de King porque a narrativa era praticamente conduzida pela ação (Algo curioso, que neste livro é levado às últimas conseqüências, é que só a ação fala. Não temos narrador ou personagens analisando, filosofando ou simplesmente pensando sobre um fato. Há apenas os fatos. Conhecemos os personagens pelo que eles fazem, não pelo que pensam), para mim uma visão equivocada, pois King conduz a ação multiplicando-se entre os olhares dos personagens (se são olhares movidos por maniqueísmos, já são outros quinhentos). Mas a afirmação me parece ainda mais discutível por não levar em conta a variegada estratégia narrativa. Por isso, escolhi um trecho que começa na página 717. Pode não ser muito original o exercício brincalhão de ubiquidade, mas serve para refutar a ideia de romance movido a ação feito um roteiro ( Esta ação excessiva e a falta de um sentido submerso fez com que eu tivesse um tanto de preguiça para ler as mais de setecentas páginas do livro. Gosto de ação, realmente não tenho nada contra. Mas é necessário temperar com um tanto de raciocínio, senão fica cansativo. ):

Outra noite cai sobre a cidadezinha de Chester´s Mill: outra noite debaixo da Redoma. Mas para nós não há descanso; temos que comparecer a duas reuniões,  e também temos de que dar uma olhada em Horace, o corgi, antes de dormir. Hoje Horace faz companhia a Andrea Grinnell, e embora por enquanto esteja matando o tempo, ele não esqueceu a pipoca entre o sofá e a parede.

   Então vamos, você e eu, enquanto a noite se espalha contra o céu como um paciente anestesiado sobre a mesa. Vamos enquanto as primeiras estrelas desbotadas começam a aparecer lá em cima. Hoje à noite, esta é a única cidade, numa área de quatro estados, em que elas estão visíveis (…) Ali as estrelas brilham, mas agora são estrelas sujas, porque a Redoma está suja.

 (…) vamos flutuar por certas ruas semidesertas, passar pela igreja Congregacional e pelo presbitério (a reunião ali ainda não começou, mas Piper encheu a máquina grande de café, e Julia está fazendo sanduíches à luz de um lampião sibilante), pela casa dos McCain, cercada pelas curvas tristes da fita amarela da polícia, pelo morro da praça da Cidade e pela Câmara de Vereadores, onde o zelador Al Timmons e dois amigos seus limpam e arrumam tudo para a assembleia especial da noite de amanhã, pela praça do Memorial de Guerra, onde a estátua de Lucien Calvert (bisavô de Norrie, provavelmente não preciso dizer isso a você) faz a sua longa vigília.

    Que tal uma paradinha para olharmos Dale Barbara e Rusty? (…) Não há muito o que ver no Galinheiro, porque a esperança é tão invisível quanto nós. Os dois homens não têm nada para fazer a não ser esperar até amanhã à noite e torcer para que tudo dê certo para eles (…) Por enquanto, os dois homens—os nossos heróis, suponho—estão sentados no catre e brincam de adivinhar (…) Que tal deixá-los para aliviar como puderem o peso das próximas 24 horas Vamos seguir o nosso caminho…

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[1] Ele é o segundo vereador, mas o primeiro, Andy Sanders (cujo aproveitamento na trama será dos mais interessantes) é apenas uma marionete. Sua mulher é uma das primeiras vítimas da redoma.

[2] Por que Big Jim deixou ele fazer tanto?, era o que Fern queria saber. E por que nós fomos juntos? O que a gente tinha na cabeça? Não conseguiu encontrar resposta para essa pergunta a não ser a óbvia: porque podiam…

[3] Apesar de sua verve crítica anti-institucional, King não deixa de ser seduzido pelo chavão do soldado meio atormentado e solitário, um tanto loser, porém no fundo íntegro e heróico. O ator que faz Barbara, na minissérie (é preciso considerar que alteraram radicalmente os personagens, quase sempre pra pior), Mike Vogel, é um suprassumo de inexpressividade. Aliás, ali, parece que apenas Dean Norris (que interpreta Big Jim Rennie) está vivo.

[4] Até agora, só encontrara essa amplitude e acabamento em The Stand- A dança da morte (falo da reedição de 1990, não da versão original, de 1978).

[5] Ele se vale daquela famosa fala do Rei Lear sobre nós sermos como moscas de asas arrancadas pelos deuses: “Como moscas para meninos travessos, assim somos nós…” etc. etc.

Também não me entusiasmam aquelas manifestaçõs oraculares de alguns personagens, em particular as crianças, e as associações com o Halloween.

No entanto, acho bem sensata  a fala de Julia Shumway: Não acredito que nós fizemos isso conosco. As coisas que comandam a caixa, os cabeças de couro, criaram a situação, mas acho que só são um monte de crianças observando a festa… Estão lá fora. Nós estamos dentro, e nós fizemos isso a nós mesmos.

[6] São vitais à trama o assassinato de Brenda Perkins (esposa do chefe de polícia) e a covarde execução de Clover, o pastor alemão da reverenda Piper Libby. Sem falar no regalo com a grotesquerie fisiológica, outras mortes (especialmente na turma do final, incluindo a da cadela  Audrey) são discutíveis, como por exemplo a da vereadora Andrea Grinnell e da forasteira Carolyn Sturges, pelo menos da maneira como ocorrem. Talvez a vida real seja gratuita no sentido de distribuição de mortandade, mas um ficcionista não precisa se guiar pela aleatoriedade.

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