MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/04/2014

THOMAS MANN E O INGREDIENTE BRASILEIRO DA SUA ALMA ALEMÃ: um pequeno dossiê

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(o texto abaixo foi publicado originalmente na revista METÁFORA 13, em outubro de 2012)

Thomas Mann conferia um aspecto simbólico ao fato da mãe, Júlia da Silva Bruhns, ser brasileira: nascido (em 1875) e educado numa época na qual teorias raciais se multiplicavam, nunca deixou de considerar tal pitada “exótica” da sua biografia um ingrediente suspeito e perigosamente ambíguo —e pior, inerente à condição de artista.

Essa visão burguesa e “careta” poderia ser um certificado infalível de obsolescência de uma obra. Por incrível que pareça, entre os grandes autores de sua época, Mann ainda é um dos mais reimpressos. Como explicar seu apelo?

Em 1924, ao publicar A Montanha Mágica, enfrentou resistências devido à forma arrojada e enciclopédica (ele mesmo faria —n´ A Gênese do Doutor Fausto (1949)— a afirmação célebre de que “no âmbito do romance, hoje só é levado em consideração aquilo que não é mais romance”). Era, entretanto, a época de Joyce, de Proust, de Kafka e, a partir dessa obra-prima, nunca deixou de ser incluído entre os gênios da prosa modernista. Conta-se que, Nobel de 1929, cogitou-se seriamente (mas sem sucesso), décadas mais tarde, atribuir-lhe um segundo prêmio, em razão da sua inacreditável produção madura: entre outros, José e seus irmãos (1933-1943), Carlota em Weimar (1939), O eleito (1951) e, claro, o avassalador Doutor Fausto (1947).

A proposta de um segundo Nobel também tinha o seu quê de mea culpa. Pois ele fora premiado exclusivamente por seu romance de estreia Os Buddenbrooks (1901). E isso nos leva à outra face curiosa dessa carreira acidentada: louvado pelo maior dos críticos marxistas, György Lukács, como o narrador épico da decadência burguesa, Mann viveu longo período como autor decadente.

Explico-me. A brasileira e de sensibilidade assaz artística Júlia casou-se, não sem tensões, com o próspero comerciante e senador Thomas Johann Heinrich, da cidade portuária de Lübeck.   Como num exemplar romance familiar freudiano, a morte do pai aparentemente resolveu o impasse entre arte e materialismo: a senadora mudou-se para a boêmia Munique e dois de seus filhos lançaram-se com sucesso na carreira literária: Heinrich e Thomas, este com seus primeiros contos e o escandalosamente autobiográfico Os Buddenbrooks.

Só que após o casamento (em 1905) com a judia Katia Pringsheim (acrescentando mais uma pitada “suspeita” à sua existência), ao mesmo tempo em que vendia muito e mantinha uma vida social bem-sucedida, Thomas mergulhou na esterilidade produtiva: durante quase vinte anos foi apenas o “autor de Os Buddenbrooks”. Nem outro romance desse período (Sua Alteza Real, 1909), nem sequer Morte em Veneza (1912, que abriria seu caminho aos poucos para se tornar um dos clássicos do século), revelaram-se soluções para o bloqueio criativo de um intelectual reacionário e apegado às formas mais chauvinistas da germanidade, como demonstrou nos ensaios que escreveu em reação à Primeira Guerra (e ao irmão Heinrich, apaixonado pela França, e que aparecia então como o mais avançado dos dois, o mais capacitado a “durar”).

Ironicamente, após tanta defesa da Alemanha contra as outras nações, nos anos 1930 ele se tornaria um célebre exilado do regime hitlerista. Talvez porque, no final, os ingredientes “suspeitos” e “exóticos” prevaleceram. A mãe brasileira sobrepujou o pai e a modernidade literária e todos nós ganhamos com isso. Pois o “paralisado” Mann da Primeira Guerra, ao morrer, em 1955, lépido e fagueiro criava mais um romance notável (infelizmente, ficou incompleto): As Confissões de Felix Krull, no qual brincava matreiramente com todos esses elementos da sua vida estranha de alemão “contaminado” pelo Brasil.

 senhorita julia

O ARTISTA E O MUNDO

  1. Tonio Kröger (1903) e Morte em Veneza (1912)Em ambos encontramos cristalizada a inquietante visão manniana da realização artística. Escrito aos 28 anos, Tonio Kröger desenvolve à exaustão e de forma lapidar (é, talvez, a melhor porta de introdução ao seu universo) o tema da posição duvidosa e suspeita do artista na sociedade. De forma que o protagonista, já um escritor famoso, ao voltar à cidade natal é confundido com um marginal foragido.Assim como ele, Aschenbach em Morte em Veneza (transformado em músico na grande adaptação cinematográfica de Luchino Visconti) mantém a nostalgia pelo mundo burguês e liga-se à sua ideologia produtiva pela extrema disciplina, procurando a perfeição formal. Na romanesca cidade italiana, onde procura se aliviar do estresse dessa existência ordeira, apaixona-se por um belíssimo efebo de 14 anos e contrai a “peste”: um momento-chave da literatura é aquele em que morre, associando Tadzio ao mar. Vagara por Veneza atordoado por Eros e não sabia que este era o anjo da morte, que o estava conduzindo para o nada. A beleza encarnada no corpo humano serve como perverso umbral para o reino onde não existem formas.
  2. A Montanha Mágica (1924)Nas listas de melhores romances do século XX, sempre aparece como a alternativa a Doutor Fausto: Hans Castorp, “filho enfermiço da vida”, nada afeito às exigências da realidade, vai visitar o primo tuberculoso num sanatório suíço, e de lá não consegue sair por sete anos. Parece condenado à inatividade e à falta de sentido do mundo burguês anterior à Primeira Guerra, mas ali, entre grandes discussões filosóficas, aprenderá (apesar da advertência do primo, “estamos aqui para ficar sadios e não mais sábios”) tudo sobre a vida até que tenha de descer da Montanha Mágica para participar do confronto bélico de 1914-1918, que mudará a Europa.Aliando o realismo simbólico que constituíra sua maior conquista em Sua Alteza Real, Mann aqui hipertrofia (de forma divertidíssima) uma feição tipicamente alemã da prosa de ficção, o “romance de formação” de um protagonista, até atingir uma apoteose do gênero: um romance total, uma forma enciclopédica quase inédita para incorporar “aquilo que não é mais romance”. Além disso, é uma reflexão romanesca sobre o Tempo que nada fica a dever a Marcel Proust.

jovem josé

3. O jovem José (1934) e José, o provedor (1943)

Na figura do imaturo e sonhador José do segundo volume de sua tetralogia, Mann revive suas obsessões: no mesmo passo em que prossegue sua investigação da invenção do monoteísmo (iniciada de forma genial com Histórias de Jacó, 1933), temos o temperamento artístico como ingrediente desestabilizador (devido à sua ambiguidade moral), mesmo na remota ambientação do Antigo Testamento.

Já exilado nos EUA e fã do presidente Roosevelt, em José, o Provedor, volume final da tetralogia (precedido por José no Egito, 1936), publicado em plena Segunda Guerra, Mann desloca seu personagem da esfera “artística”, por assim dizer, e o projeta no plano prático da existência, como administrador e símbolo da liderança democrática, que aqui aparece não só como contraposição à mitologia nazifascista, como—de forma mais profunda—também representando uma virada das suas próprias posições na guerra anterior. José tem de sair da sua “montanha mágica” e pôr mãos à obra no mundo real.

4. Carlota em Weimar(1939)

Thomas Mann sempre se identificou com Goethe. E resolveu fazer uma experiência incrível: entrar na mente do grande gênio literário alemão, num capítulo extraordinário, onde exercita o “stream of consciouness”, o fluxo de consciência consagrado por James Joyce em Ulysses, para mostrar a alquimia que se processa no interior do artista. Enquanto isso, Carlota Kestner, inspiradora da amada de Werther, o idolatrado livro do mestre, vem ajustar contas com ele e recebe, na hospedaria local, várias pessoas ligadas ao Conselheiro de Weimar: nesses episódios, Mann espelha a frustração, a incompreensão e desilusão, a par da admiração e amor, das pessoas à volta da sua própria existência. Um jogo fascinante entre personagens e pessoas reais que os inspiraram, e uma reflexão definitiva sobre o uso que o artista faz da vida dos outros e o que ele é, como ser biográfico, para os outros.

5. Doutor Fausto (1947)

Utilizando a lenda do pacto com o Diabo que inspirou a obra maior (Fausto) do seu ídolo, Mann se vale da paródia e da intertextualidade e, mais radicalmente do que nunca, de tudo “aquilo que não é mais romance” para contar a história de um músico, Adrian Leverkühn, o qual firma um pacto com o Diabo (não deixa de ser curioso que seu filho, Klaus Mann, tenha contado uma história similar no romance Mephisto, de 1936). Oriundo de cidades com profunda impregnação luterana, Leverkühn espelha no seu mergulho na genialidade (meio sinistra) e depois na loucura (consequência da sífilis) a nação alemã impregnada pelo chauvinismo nacionalista até chegar ao delírio nazista. Como síntese de suas obsessões, Mann faz com que a história seja narrada por Serenus Zeitblom, amigo do pactário, uma alma sensata, burguesa, sadia. O espectro de Lübeck e do pai ainda rondando o artista boêmio de Munique e as danações do temperamento artístico. E voltando-se às suas inquietações básicas, a capacidade de criar um dos monumentos do romance modernista, um dos raros a se ombrear com as obras de Joyce, Proust e Kafka.

Tonio Kroger 2Thomas_Mann_Joseph,_der_Ernährer_1943

22/02/2014

Apresentação de KIM, de Rudyard Kipling

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(o texto abaixo foi publicado como Apresentação à tradução de Maria Valéria Rezende, editora Autêntica, 2014)

Logo no início de Orlando (1928), famoso romance da escritora inglesa Virginia Woolf, o personagem principal—então um rapazinho do final do século XVI—se diverte chutando a cabeça de um “mouro”, morto em combate pelo pai (ou pelo avô, não se sabe bem), e encenando combates.

Com variações, essa poderia ser a caracterização da disposição da meninada em todas as épocas e lugares: o desejo de aventuras, de viver experiências vibrantes. Por outro lado, a formação de um ser humano no século XXI pressupõe que nele se desenvolva uma cultura de paz e tolerância, de respeito pelo Outro, pela diversidade cultural e religiosa.

Portanto, embora o desejo aventureiro de Orlando seja compreensível para qualquer um que foi garoto, é chocante para nós a sua expressão, através da exaltação da guerra e da visão de outras culturas como “inimigas”. No momento em que Virginia Woolf escrevia seu livro, os países da Europa, especialmente a Inglaterra (mais conhecida como Império Britânico) ainda colonizavam boa parte do globo terrestre, praticamente continentes inteiros, como a África e a Ásia.

Poucos anos depois da cena acima citada em Orlando,  isto é, em 1608,  ingleses aportaram na Índia com carta branca para explorar o comércio de especiarias. Pouco a pouco, o Império foi estendendo seu domínio territorial e militar até que, em 1858, após o esmagamento de  uma rebelião (chamada de Grande Motim pelos colonizadores) liderada por membros nativos do exército imperial,  a rainha Vitória tornou-se oficialmente a governante do território. A característica mais acentuada da presença britânica era o corpo de funcionários civis, quase todo composto por pessoas do país colonizador. Mesmo com a enorme população local e a existência de instituições milenares, a espinha dorsal da administração era toda anglo-saxônica.

Essa situação política perdurou até 1947, quando finalmente o país conquistou a Independência (é verdade que, depois da Primeira Guerra Mundial, o Império já estava bastante debilitado para manter suas colônias).

O escritor mais representativo dessa era de domínio da Índia pelos ingleses e, por extensão, de toda a ideologia que moveu a conquista do mundo pelos europeus é, sem dúvida nenhuma, Rudyard Kipling. E Kim —que você, leitor, está lendo na primorosa tradução de Maria Valéria Rezende— é, entre os seus livros, o que melhor expressa a situação curiosa desse gênio literário (imensamente popular enquanto viveu) que angariou, talvez injustamente, certa antipatia por sua condição de propagandista do imperialismo.

Kim é o órfão irlandês (ou seja, ele não é nem indiano nem inglês “legítimo”), o “amigo de todo mundo”, que vive ao deus-dará por Lahore, na província de Punjab (que hoje faz parte do Paquistão), até que se torna o chela (discípulo) de um lama, um sábio tibetano engajado numa busca mística (a amizade entre os dois é um aspecto muito bonito do romance); ao mesmo tempo, no mundo prático, torna-se um agente (aproveitando seu grande talento para o disfarce e facilidade em dominar vários dialetos) do coronel Creighton, o sagaz chefe do Serviço Secreto, que está tentando descobrir os detalhes de uma conspiração na qual  espiões russos estão envolvidos. Kim se entrega de corpo e alma ao que, ao longo da narrativa, é chamado de Grande Jogo.

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Na verdade, Kim (publicado em 1901) é a realização artística da nostalgia de Kipling pela Índia (especialmente pelo Punjab), onde nasceu em 1865 e viveu uma infância tão feliz que a viagem para a Inglaterra, onde foi educado em internatos, como comum naquele período, causou-lhe um grande trauma, que está muito presente na sua obra. De volta ao Punjab, ali exerceu o jornalismo e começou a escrever contos e poemas, com enorme repercussão, até sair da colônia (em 1889) para nunca mais.  A evocação do país em que nascera foi o impulso principal para a criação das mais celebradas obras kiplinguianas (que lhe valeram o prêmio Nobel), e apesar de justificar o domínio imperial, não vemos nelas aquela visão hostil dos povos não-europeus nem o racismo, tão presentes na atitude “guerreira” e na mentalidade em formação do jovem Orlando; pelo contrário, sentimos que Kim está tão à vontade no mundo indiano, que os ingleses se surpreendem ao constatar que ele é um sahib.

Agora adulto, percebo facilmente todas essas questões complicadas e delicadas em Kim. Quando o li pela primeira vez, na versão clássica de Monteiro Lobato, aos 11 anos, o que me chamou a atenção e fez dele meu livro predileto (junto com As aventuras de Tom Sawyer) foi o lado da aventura, da disponibilidade tanto espacial quanto existencial de Kim: ele podia se mover livremente por todo o território indiano, disfarçar-se, viver ao ar livre, sem entraves, quase sem regras. Todo o resto (a dominação inglesa, a opressão do povo indiano, o lado angustiante da sua condição: ele não pertence a nenhum lugar ou povo, no final das contas) passou batido, como se diz.

As aventuras do pequeno espião (associadas às dos heróis do que chamávamos então de gibis, que então eu venerava) me marcaram tanto, ali nos já longínquos anos 1970, que tomei a seguinte decisão: iria combater o crime (assim mesmo, vagamente, sem a menor noção da realidade)! Alta noite, comecei a me esgueirar para fora de casa e sair numa ronda “heroica”. Curiosamente, essas andanças acabavam por me levar aos mesmos lugares frequentados durante o dia (ia para os lados da escola, por exemplo); e nunca encontrei—felizmente—o que combater (ah, aqueles tempos em que um pré-adolescente podia sair pelas ruas na madrugada sem qualquer perigo!).

Após algumas experiências desse tipo, minha carreira de aventureiro noturno chegou a um fim abrupto porque um vizinho me viu saindo (ou voltando, tanto faz) e informou meus pais. A minha saída do apuro foi… passar-me por sonâmbulo. A partir daí, a vigilância materna nunca mais me deu trégua. Para minha tristeza, acabei não participando de nenhum Grande Jogo, a não ser o amor pela literatura.

A moral dessa história, caro leitor, é que hoje em dia precisamos ficar atentos a todas as conquistas humanistas, as quais permitem que a educação seja inclusiva, ecumênica, antirracista ou etnocêntrica, e instauradora da noção de que não há povos ou culturas superiores ou inferiores; mas, ao mesmo tempo, nunca devemos deixar que se perca o crescimento da imaginação e da sensibilidade que o desejo pela aventura carrega consigo. Os Grandes Jogos mudam, mas os pequenos Kims, cada um na sua medida, sempre estarão aí para o que der e vier.

nota- Nas antigas Sessões da Tarde vi muitas vezes a adaptação cinematográfica do livro, de 1950, dirigida por Victor Saville e estrelada por Errol Flynn, com Dean Stockwell ainda guri, no papel-título.

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07/02/2014

Entrevistado por Herasmo Braga

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alfredo monte

Abaixo reproduzo a entrevista que HERASMO BRAGA fez comigo, publicada originalmente em duas partes no Diário do Povo de  Teresina, em 29 de outubro e 19 de novembro de 2013:

http://www.diariodopovo-pi.com.br/jornal/Default.aspx?d=2013-10-29&c=3

http://www.diariodopovo-pi.com.br/jornal/Default.aspx?d=2013-11-19&c=3

e que aparece unificada no número 19 da revista «dEsEnrEdos»(http://desenredos.dominiotemporario.com/doc/19-Entrevista-AlfredoMonte.pdf)

HB- Comente um pouco sobre a sua formação.

AM-  Apesar de ser da Baixada Santista, fiz meus estudos em Minas Gerais. Mais porque gosto de ser professor do que pela área específica (pois amor pela literatura e o curso muitas vezes são inconciliáveis, como se pode constatar cada vez mais) me formei em Letras. Na USP me doutorei em Teoria Literária. Mas descobri que tinha uma incompatibilidade total com o mundo acadêmico, e por isso nunca me arrependi de não ter seguido uma carreira dentro da universidade. Assim, dou aulas para leitores em formação, o que é muito mais estimulante, e mantenho minha independência de leitor. O que não significa que os grandes nomes da teoria literária não sejam essenciais na minha formação. Continua a admirar (e me valer de suas concepções) Auerbach, Lukács, Frye, Bakhtín. Dos mais recentes (nem tanto assim, rsrs), gosto muito de Fredric Jameson e dos ensaístas italianos (Citati, Calasso, Eco, Magris, o Carlos Ginzburg, cujos trabalhos são valiosos também para a literatura). E, no Brasil, sigo a linha de Antônio Candido e Alfredo Bosi, preocupados com a maneira como o processo social se mimetiza na forma literária.

HB-  Como se deu o inicio da sua jornada enquanto leitor?

AM- Como todo mundo, creio eu. Li muito gibi quando garoto. Tive sorte porque naquele tempo apareceu o Almanaque do Gibi Nostalgia, que republicou vários clássicos como o Tarzan original, Flash Gordon, Jim das Selvas, Fantasma, Mandrake. Já começou aí um gosto por clássicos (rsrsrsr). Até hoje coloco muito alto o Alex Raymond, criador do Flash Gordon. Depois do gibi, foi a vez dos livros policiais e de espionagem. Até hoje são gêneros que têm forte atração para mim. Mas lia tudo que caía na mão, muita série Vaga-Lume, enfim, o que desse… inclusive algumas paixões duradouras, o mundo de Tom Sawyer, o de Kim (personagem de Kipling) e, mais que todos, Júlio Verne. Meu avô tinha muitos livros, a coleção Imortais da Literatura Universal, então eu lia ao mesmo tempo uma obra e o fascículo a ela dedicada. Mesmo não entendendo muita coisa, aos 12 ou 13 anos, isso foi essencial. Li “A Morte em Veneza” esperando encontrar uma trama policial, pouco entendi, mas a atmosfera do livro de Thomas Mann “ficou”. Na adolescência, apesar da caoticidade das leituras, como deve ser, fui dominado pelo trio Camus-Sartre-Simone de Beauvoir, especialmente o primeiro, que deixou marcas profundas. Em termos de leitura que forjam caráter, decisões éticas e existenciais, enfim que até ultrapassam a literatura, a minha última grande influência, que sinto até hoje, foi a obra de Doris Lessing. Então, posso considerar que ela e Camus estão na base de quem sou hoje, para o bem ou para o mal.

HB. Como você avalia o trabalho da crítica literária hoje de maneira geral?

AM- Ora na defensiva, petrificada nos muros da academia, ora exercitada agressivamente por despreparados que compram barato qualquer modismo, acho que a crítica literária hoje definha e é quase sempre irrelevante. Os ditos críticos se preocupam com lançamentos, não há mais aquele circuito em que um livro vai criando sua reputação lentamente (depois, consolidando-se), através de discussões, textos mais aprofundados. Mas o pior de tudo é que quase não se encontra mais (com as exceções de praxe, claro) críticos “formativos”, que ajudam o leitor a se orientar, a apurar seu gosto. Quando eu era adolescente, meu pai assinava o “Jornal da Tarde”. E eu nunca esqueço da importância de certos críticos que lá militavam, o Léo Gilson Ribeiro (de literatura), o Edmar Pereira (de cinema), o Telmo Martino (precursor do jornalismo cultural, tão mal praticado hoje). Mesmo que minha formação posterior tenha levado a uma perspectiva ideológica diferente (por exemplo, o furor anticomunista do Léo Gilson, que empanava suas análises), o que importa é que eles tiveram um peso na minha percepção de leitor/espectador/ouvinte. Como eu gostaria de ter um papel desses na vida das pessoas!

HB. E a qualidade dos autores contemporâneos quem você destaca ou mesmo arrepende-se de ter considerado bom ou ruim e hoje ter uma avaliação diferente?

AM- Acho que refletir sobre a cena atual sempre é um caminhar sobre acertos e equívocos, tudo tem a ver com determinado momento. Então, a não ser que se seja um petrificado, sempre estamos revisando nossas opiniões. Há pouco tempo mesmo, rejeitei brutalmente a Andréa del Fuego, numa leitura inicial de “Os Malaquias”, e depois me dei conta das qualidades inegáveis da sua escrita e da sua visão de mundo. Aliás, aproveitando o ensejo, devo dizer que nós estamos vivendo um momento muito bom da literatura brasileira. Eu achava, na década de 1990 (o que talvez tenha de ser revisado, rsrsrsr) que em sua maior parte ela se apresentava desinteressante e anêmica, e nos últimos anos constato uma vitalidade e um vigor que me fizeram ser um leitor voraz do que se faz agora, depois de muitos anos voltado para autores de gerações mais antigas, principalmente estrangeiros.

HB- Em seus textos observamos que você realiza um trabalho interessante ao privilegiar o texto literário como um leitor em formação. Você acredita mais no trabalho crítico como um leitor e não como um teórico da literatura?

AM-Bem, tirando o fato de que não me vejo com muito talento para a teoria (apesar de ter o doutorado em teoria literário, rsrsrsr), e sempre tenha me inclinado mais para o exercício da literatura comparada, penso que a crítica que me interessa fazer é a do percurso-comentário sobre o texto, da maneira como aprendi com José Luis Lafetá e Davi Arrigucci Jr, por exemplo, de uma maneira que o meu leitor acompanhe “uma leitura”, entre muitas que podem ser feitas.

HB Como é o seu método de trabalho ao analisar uma obra literária?

AM- Não tenho método de trabalho. Normalmente, leio, deixo marcadas páginas às quais quero retornar após a leitura, ou para reler, ou para aproveitar como citação, e sempre escrevo em cadernos minhas reações e impressões de leitura, de forma nada ordenada, no calor do momento.

 HB-  Como você analisa esta questão brasileira de que uma obra literária nacional terá maior aceitação por parte da crítica se o autor tiver certo engajamento?

AM- Acho que hoje em dia as obras são mais divulgadas quando o autor vira um pouco personagem de si mesmo e/ou sai como mascate vendendo seu produto em feiras literárias, eventos e quejandos. Não creio que o “engajamento” no sentido político tenha mais a força de antigamente.

HB- Você compartilha da ideia de que as obras literárias hoje dizem muito mais sobre o nosso tempo do que qualquer outro campo de estudo humano? Por quê?

AM-  Seria puxar brasa para a minha sardinha se afirmasse isso. Mas creio que a literatura é uma dos poucos empreendimentos “enciclopédicos” que nos restaram, pois as áreas de conhecimentos estão pulverizadas entre especialistas. De qualquer forma, para mim as grandes narrativas, do tipo Marx ou Freud, ainda têm toda a validade do mundo.

HB-  Em relação aos prêmios literários qual o seu posicionamento em relação a eles? Quais você destacaria e por quê?

AM- Acho o Nobel interessante por chamar atenção para autores que nunca teriam a repercussão mundial merecida, caso da grandíssima poeta Wislawa Szymborska. Quem ouviria falar dela, não fosse o prêmio? Também de 1993 para cá, só dois nomeados para o Nobel me desagradaram, Toni Morrison & Dario Fo.

 HB-  Quais as obras que mais o influenciaram na sua formação e por quê?

AM- Camus e Doris Lessing, sem dúvida, foram os autores mais determinantes na minha visão do mundo, devido à maneira como mostraram o confronto entre nossas construções sociais e um universo basicamente indiferente a elas. Além do mais, especialmente Lessing me mostrou o perigo das “grades de referência” que orientam nossa visão e deturpam os fatos e a compreensão do mundo. Mas, no fundo, sofro de don juanismo intelectual e literário. Não consigo ficar em um único amor ou ser muito fiel. Estou sempre ciscando aqui e ali. Nos últimos anos, após completar 40 anos, no entanto, tenho me dedicado com afinco ao estudo de Freud e Marx, que para mim, são as sínteses mais recentes e convincentes da civilização a que pertenço.

HB-  Quais autores são imprescindíveis para um leitor qualificado em sua opinião?

AM- Como já disse e redisse, Marx e Freud são imprescindíveis, assim como as tragédias gregas, Homero e a Bíblia. Acho Tolstoi uma leitura fundamental, em todos os sentidos. Para os brasileiros e os de língua portuguesa em geral, não dá para prescindir nem do Padre Vieira nem de Machado de Assis e Eça de Queiroz. Mas o que importa mesmo é não ler “de orelha”, nem de “segunda mão”. Mesmo que através de traduções, é necessário conhecer a grande tradição de autores que foram “inventando o humano” além do Shakespeare à Bloom. Outro dia li uma declaração de uma autora, da qual não direi o nome, que admiro. Ela disse que não tinha muito tempo de ler os clássicos porque tinha de ficar atenta à “cena atual”. Acho essa declaração não só uma bobagem imensa como também perigosa: o que é bom na literatura é sempre “cena atual”. Tem coisas de dois anos atrás e que já estão prontas pro disque-entulho. Enquanto Jane Austen é sempre “da hora”.

alfredo monte2

04/10/2011

Rumo ao Oscar e ao Tony, passando pelo Nobel

(o texto abaixo foi escrito a partir das considerações feitas numa mesa-redonda gravada para a Semana de Letras da UNIMES VIRTUAL onde explorei o tema “A desonra como exclusão”)


“Sempre foi conveniente aos interesses do Estado envenenar os poços psicológicos, estimular vaias, limitar a solidariedade humana. Não será tarefa do contador de histórias agir como advogado do diabo, provocar simpatia e uma certa compreensão para com aqueles que estão fora dos limites da aprovação do Estado? Ele representa as vítimas, e as vítimas mudam. A lealdade nos confina às opiniões aceitas, à fidelidade nos proíbe de compreender, de maneira solidária, os nossos companheiros dissidentes; a deslealdade, porém, nos estimula a penetrar qualquer mente humana…”

(Graham Greene, A virtude da deslealdade, em Reflexões)

“Ésa era la palabra que mejor describía lo que se había sentido siempre, en Escocia, en Inglaterra, en el África, en el Brasil, en Iquitos, en el Putumayo: un desterrado. Buena parte de su vida se había jactado de esa condición de ciudadano del mundo que, según Alice, Yeats admiraba en el: alguien que no es de ninguna parte porque lo es de todas. Mucho tiempo se había dicho que ese privilegio le deparaba una libertad que desconecían quienes vivían anclados en un solo lugar. Pero Tomás de Kempis tenía razón. No se había sentido nunca de ninguna parte porque ésa era la condición humana: el destierro en este valle de lágrimas, destino transitorio hasta que con la muerte y el más allá hombres y mujeres volverían al redil, a su fuente nutrícia, a donde vivían toda la eternidad.”

    (Mario Vargas Llosa, O sonho do celta [1])

Em 1981, pode-se dizer que Mario Vargas Llosa alcançou um auge da sua popularidade e prestígio como romancista, com a publicação de A guerra do fim do mundo, que talvez não se tenha repetido depois (apesar de ele ainda ter escrito muitos romances formidáveis, penso especialmente em Lituma nos Andes e nos surpreendentes História de Mayta e O falador, para não falar no requintado Cadernos de Don Rigoberto, uma obra de mestre), pelo menos não com tanta intensidade.

Em 1981, foi justamente um ponto de inflexão na minha vida como leitor, quando eu “saltei” da inconsciência da leitura voraz e apaixonada para o tipo de leitura que até hoje me ocupa a maior parte da minha existência (e com a experiência de O sonho do celta de certa forma me confrontei com 30 anos ‘começou a estrada, a viagem terminou”, na formulação lukácsiana).

Portanto, meu início com Vargas Llosa se deu justamente com esse romance-auge, A guerra do fim do mundo e a idéia vargasllosiana de “romance total”, “romance-mundo”, que muito me marcaram. Por outro lado, também acompanhando os debates ideológicos, já de saída um instinto de  desconfiança com relação às posturas do autor de Contra vento e maré, que foi se ampliando de tal maneira que só após a leitura muito apaixonada de Lituma nos Andes,  resolvi  mandar às favas a questão do Vargas Llosa que aqui no nosso país seria um político do PSDB, o partido que mais desprezo e abomino entre todos.

Pois bem, curiosamente tenho percebido um refluxo por parte do escritor peruano do seu entusiasmo com o ideário neoliberal, antídoto contra a esquerda fanática e sectária, a confiança no mundo globalizado pós-industrial cuja causa ele abraçara tão apaixonada e constrangedoramente ao ponto de ser citado pela VEJA (vejam só!) como o “perfeito intelectual latino-americano”, o que soa mais como um anátema e um epitáfio do que um elogio. Sutilmente, nos últimos livros, Llosa tem mostrado que a receita neoliberal também não funcionou, nem poderia. Lamentavelmente, esses últimos livros (penso especificamente em A festa do bode e Travessuras da menina má, pois gosto de O paraíso na outra esquina, sem considerá-lo um grande romance) representam igualmente um declínio, uma aproximação muito perigosa das receitas e técnicas dos best sellers.

Por isso, a expectativa com O sonho do celta, que foi lançado após o Nobel, mas  escrito antes. De cara, devo dizer que ele confirma o desencanto ao qual aludi mais acima. Nesse sentido, a trajetória de Roger Casement, o celta, é emblemática.

Casement é o irlandês que, no final do século XIX, vai para a África (servindo à Coroa britânica)  imbuído da ideologia em tripé que sustentou e justificou  a colonização e o posterior imperialismo das potências ocidentais: civilização, cristianismo e comércio.

No Congo, ele testemunha horrores (o domínio belga, capitaneado pelo sinistro rei Leopoldo foi um dos mais brutais da história, tanto que originou O coração das trevas, de Joseph Conrad) contra os negros nativos, de tal monta que o levam a redigir um relatório que o torna célebre no mundo todo (e é preciso lembrar que, à época, não havia os meios de comunicação à disposição, embora fosse já época de uma opinião pública forte), “o irlandês mais famoso” de sua época.

A desilusão de Casement com a empreitada colonial ficará completa quando, ao viajar pelo Putumayo, a porção peruana da Amazônia, constatar ali horrores similares e novamente a desfaçatez do homem branco.

A conseqüência mais importante no destino de Sir Roger (sim, ele ganha o título honorífico) é que ele resolve cuspir no prato que comeu e aderir ao que Greene (no texto do qual eu tirei a epígrafe desta minha resenha) chama de forma tão feliz de “a virtude da deslealdade”, ou seja, abraça a causa do nacionalismo irlandês contra a Inglaterra e procurará firmar uma aliança com os alemães, ao eclodir a Primeira Guerra, para acelerar a independência da Irlanda[2] . Por essa razão, é preso como traidor (justamente naquela época, foi publicado Os 39 degraus, de John Buchan, que instaura o jogo de espionagem e a vilania da Alemanha no imaginário ficcional) e condenado à forca. Para fomentar o clima de antipatia contra ele, seu linchamento moral, divulgam-se trechos de diários onde sua “vida secreta”, como homossexual cujas experiências fundamentais foram com negros, nativos, enfim, outras raças, é exposta escandalosamente (poucos anos antes, houvera o caso Oscar Wilde, de triste memória). É a forma de exclusão punitiva daqueles que estão dentro do sistema hegemônico e que ousam sair dos trilhos ou questionar a rota: a desonra, a perda de posição, muito mais radical do que a evasão, tema de O paraíso na outra esquina, que foi outra maneira de se colocar à margem dos descarrilhados do trem do progresso.

O eixo narrativo de O sonho do celta é a vida na prisão de Casement, à espera para ver se a petição de indulto da pena de morte seria concedida.

Infelizmente, quem procurar a riqueza caleidoscópica das grandes ficções llosianos vai se decepcionar. Escrevendo um romance sobre Casement, ele não o “inventa”. Claro, pode ter se permitido mil liberdades a respeito dos fatos, contudo o livro nunca deixa de ter o ar de uma biografia, daquelas bem certinhas, caretas e chatinhas.

O pior é que o romancista que nos fez entrar na cabeça de tantos personagens, inclusive os mais repulsivos, como a eminência parda da ditadura odriísta, Cayo Bermúdez  (em Conversa na Catedral), ou o fanático republicano Moreira César (em A guerra do fim do mundo), nunca consegue nos fazer entrar na cabeça de Roger Casement. Parece que ele o vê à distância, sem nunca se aproximar de fato do seu “sonho”, a não ser com  recursos do best seller: a exposição didática e chapada, sem a menor profundidade, o bom-mocismo—quem em sã consciência, a não ser o mais empedernido e boçal reacionário, iria discordar da indignação do intrépido e corajoso irlandês, com as suas causas? Correndo nas águas tranqüilas da facilidade narrativa, Llosa não nos poupa nem dos clichês mais banais, como o do carcereiro que é duro e hostil a princípio e depois vai se tornando amigo do suposto traidor degenerado.

Aliás, eu não me surpreenderia em ver O sonho do celta comprado por Hollywood e ganhando o Oscar. Ele tem todos os ingredientes para se transformar num daqueles filmes amorfos e acadêmicos (tipo Gandhi, Entre dois amores, Dança com lobos, O paciente inglês, Uma mente brilhante), bem produzidos, com um ótimo protagonista (um grande ator daria um show como Casement), ótimos e fotogênicos cenários, ótimos figurinos, tema politicamente correto e um destino tão certo e implacável quanto a forca para Sir Roger Casement: a irrelevância das Sessões da Tarde. E talvez um musical da Broadway.

Quando comentei A guerra do fim do mundo, equacionei sua sabedoria épica com o retrocesso ideológico que representava. Parece que, como sou um chato de galocha mesmo, e nunca estou satisfeito, com O sonho do celta, terei de fazer a equação contrária: de uma saudável recuperação ideológica e um retrocesso épico.

Para finalizar, devo dizer que no Putumayo, no âmago peruano da trajetória de Casement há um relato em miniatura sobre a desonra do juiz que o governo do país manda para apurar os fatos, momento mise en abyme  que espelha  a narrativa principal (e lembra as tramas de Leonardo Sciascia) e  que daria um romance tremendamente mais interessante do que o que Vargas Llosa escreveu:

“En efecto, la historia de esse probo y temerário doctor Carlos A. Valcárcel que vino a Iquitos a investigar los ´horrores del Putumayo´ no podia ser más triste. Roger la fue reconstruyendo en el curso de estas semanas como un rompecabezas…

    Pablo Zumaeta [poderoso representante local da empresa Peruvian Amazon Company responsável pelos “horrores de Putumayo”], desde su supuesto escondite, orquestro la ofensiva judicial contra el juez Carlos A. Valcárcel, iniciándole, a través de testaferros, múltiples denuncias por prevaricación, desfalco, falso testimonio y otros vários delitos. Una mañana se presentaron en la comisaría de Iquitos una índia bora y su hija de pocos años, acompañadas de un intérprete, para acusar al juez Carlos A. Valcárcel de ´atentado contra el honor de una menor´.  El juez tuvo que emplear gran parte de su tiempo en defenderse de esas fabricaciones calumniosas, declarando, correteando y escribiendo ofícios en vez de ocuparse de la investigación que lo trajo a la selva. El mundo entero se le fue cayendo encima. El hotelito donde estaba alojado… lo despidío. No encontro albergue ni pensión en la ciudad que se atreviera a cobijarlo. Tuvo que alquilar una pequeña habitación en Nunay, una barriada llena de basurales y estanques de aguas pútridas, donde, en las noches, sentía bajo su hamaca las carreritas de las ratas y pisaba cucarachas (…)

Qué había sido de el? Lo único que pudo saber con certeza, aunque la palabra ´certeza´ no parecia tener arraigo firme en el suelo de Iquitos, era que, cuando llegó la orden de Lima destituyéndolo, Carlos A.  Varcárcel ya había desaparecido. Desde entonces nadie en la ciudade podia dar cuenta de su paradero. Lo habían matado? (…) el director de EL ORIENTE, Rómulo Paredes, le dijo:

__ Yo mismo le aconsejé al juez Valcárcel que se mandara mudar antes de que lo mataran, sir Roger. Ya le habían llegado bastantes avisos.

    Que clase de avisos? Provocaciones en los restaurantes y bares donde el juez Valcárcel entraba a comer un bocado o tomar uma cerveza. Súbitamente, un borracho lo insultaba y lo desafiaba a pelear mostrándole una chaveta. Si el juez iba a presentar uma denuncia a la policía o a la Prefectura, le hacían rellenar interminables formularios, pormenorizando los hechos, y asegurándole que ´investigarian su queja´.

   Roger Casement se sentió muy pronto como debía haberse sentido el juez Valcárcel antes de escapar de Iquitos o de ser liquidado por alguno de los asesinos a sueldo de Arana [o presidente da Companhia]: engañado por doquier, convertido en el hazmerreír de una comunidad de títeres cuyos hilos movia la Peruvian Amazon Company, a la que todo Iquitos obedecia con obsecuencia vil.”[3]

Desafortunadamente,  há muito pouco de rompecabezas na narrativa de O sonho do celta. Ao que parece, Vargas Llosa quis facilitar tudo para o comprador do seu livro.

Graham Greene abriu este texto. Nada mais justo do que fechá-lo, aplicando a Vargas Llosa o veredicto que ele tascou em cima do grandíssimo escritor inglês, ao analisar Fim de Caso no seu A verdade das mentiras. É um veredicto que se aplica como uma luva às últimas realizações do Nobel de 2010:

“Por que Graham Greene nunca chegou a escrever uma obra-prima, já que manejava o ofício com excelência, e com a cultura e a paixão pela literatura que tinha? Que lhe faltou? Dois ingredientes, difíceis de definir, que aparecem detrás de todos os grandes romances, porém nunca nos seus: uma ambição desmedida e certa dose de insensatez—podemos até chamá-la de loucura.  Greene, viajante incansável, aventureiro  cuja curiosidade o levou a viver guerras, revoluções, pragas e a freqüentar, por todos os rincões do planeta, os tipos humanos mais pitorescos e diferenciados, na hora de se sentar para escrever perdia seu ímpeto, aquela vocação para o risco que o levou—quando adolescente—a praticar a roleta russa, e tornava-se um escritor eficiente, tímido e funcional, que se sentia satisfeito contando uma história com acerto, uma que fizesse toda tipo de leitor passar um tempo feliz e distraído. Claro que conseguiu o que se propôs como escritor, porém o que se propôs foi sempre pouco e aquém do seu talento…”

Desde A festa do bode ele está enveredando pelo caminho eficiente, tímido e funcional, e realizando pouco e aquém do seu talento.

(outubro de  2011)

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/09/sonho-do-celta-pesadelo-do-leitor/


[1] Em tradução (de Paulina Wacht e Ari Roitman): “Esta era a palavra que melhor descrevia como ele sempre se sentira, na Irlanda, na Inglaterra, na África, no Brasil, em Iquitos, no Putumayo: um banido. Durante boa parte da vida, Roger se gabou dessa condição de cidadão do mundo que, segundo Alice, Yeats admirava nele: alguém que não é de lugar nenhum porque é de todos os lugares. Por muito tempo pensou que esse privilégio lhe dava uma liberdade que aqueles que viviam ancorados no mesmo lugar desconheciam. Mas Tomás de Kempis tinha razão. Ele nunca sentiu que pertencia a um lugar porque a condição humana era isto: um desterro neste vale de lágrimas, um destino transitório até que, com a morte e o além, homens e mulheres voltariam para o ninho, para a sua fonte nutriz, onde viveriam por toda a eternidade”.

[2] De passagem, devo dizer que um dos temas fascinantes que O sonho do celta desperdiça é essa ambivalência da Alemanha na nossa bagagem cultural formada por Hollywood. Nem é preciso dizer nada a respeito do horror nazista, mas mesmo antes, por que a Alemanha nunca foi como a França, a Itália ou a Inglaterra para a percepção ocidental?

[3] Na tradução já citada, lançada pela Alfaguara: “ De fato, a história desse integro e temerário doutor Carlos A. Valcárcel que foi a Iquitos para investigar os ´horrores do Putumayo´ não podia ser mais triste. No decorrer daquelas semanas Roger a foi reconstruindo como um quebra-cabeça (…)

 Pablo Zumaeta, em seu suposto esconderijo, orquestrou a ofensiva judicial contra o juiz Valcárcel, iniciando, por intermédio de testas de ferro, inúmeras ações contra ele, por prevaricação, desfalque, falso testemunho e outros delitos vários. Certa manhã se dirigiram à delegacia de polícia de Iquitos uma índia borá e sua filha de poucos anos, na companhia de um intérprete, para acusar o juiz de ´atentado contra a honra de uma menor´. O juiz teve de empregar grande parte de seu tempo se defendendo dessas fabulações caluniosas, depondo, correndo e escrevendo ofícios em vez de se dedicar à investigação que o trouxera para a selva. O seu mundo foi desabando. O hotelzinho onde estava hospedado o expulsou. Não encontrou nenhum albergue ou pensão na cidade que tivesse coragem de aceitá-lo. Teve que alugar um quartinho em Nunay, bairro cheio de depósitos de lixo e tanques de águas pútridas onde, à noite, ouvia as corridinhas dos ratos debaixo da sua rede e pisava em baratas… O que acontecera a ele? Roger só conseguiu apurar com certeza, embora certeza não combinasse muito bem com Iquitos, que o juiz Valcárcel já havia desaparecido quando chegou a ordem de Lima com sua exoneração. A partir de então, ninguém na cidade fazia idéia do seu paradeiro. Teria sido assassinado? (…) O diretor de El Oriente, Romulo Paredes, contou a Roger:

__ Eu mesmo aconselhei o juiz a ir embora antes que o matassem, sir Roger. Já tinha recebido muitos avisos.

    Que tipo de avisos? Provocações nos restaurantes e bares onde o juiz ia comer alguma coisa ou tomar uma cerveja. De repente, um bêbado o insultava e desafiava para a briga mostrando a navalha. Quando o juiz ia dar queixa na polícia ou na prefeitura, mandavam-no preencher intermináveis formulários detalhando os fatos e garantiam que ´investigariam a denúncia´.

   Em pouco tempo, Roger Casement já se sentia como imaginava que o juiz Valcárcel devia se sentir antes de sair de Iquitos ou de ser liquidado por um assassino… enganado por toda a parte, transformado em bobo da corte de uma comunidade de marionetes cujos fios eram puxados pela Peruvian Amazon Company, à qual toda Iquitos obedecia de forma infame…”

A GUERRA DO FIM DO MUNDO: sabedoria épica e retrocesso ideológico de Mario Vargas Llosa

 

NOTA INTRODUTÓRIA- No dia 04 de novembro último, gravei minha participação para o I- Simpósio de Letras da UNIMES VIRTUAL,  promovido pela Universidade Metropolitana de Santos, cujo tema é “O messianismo sob a ótica da literatura”, o qual será veiculado de 22 a 26 de novembro (acesse www.unimes.br ). Reproduzo abaixo meu texto-base (o título “Um neoliberal no sertão” é de certa forma uma provocação moleca  ao título dado à minha companheirade mesa,  Clara Versiani, à sua intervenção, a respeito de Os sertões e Euclides da Cunha, “Um republicano no sertão”).

Aproveito para agradecer o convite e a atenção e gentileza da professora Maria Teresa Ginde de Oliveira.

UM NEOLIBERAL NO SERTÃO

Num dos textos reunidos em SABRES E UTOPIAS-Visões da América Latina, datado de 1979,  quando então escrevia A GUERRA DO FIM DO MUNDO, que seria publicado em 1981, Mario Vargas Llosa afirma:

“É preciso desconfiar das utopias: elas terminam, em geral, em holocaustos. Há uma estranha verdade na política, que consiste em que as soluções medíocres costumam ser as melhores soluções… Não há outra saída, na política, que não seja o realismo. Na literatura não, e por isso ela é uma atividade mais livre”.

   Em que medida essas afirmações podem ser rastreadas no romance que naquele momento ocupava o escritor peruano; em que medida elas contêm uma afirmação profunda e lúcida ou, pelo contrário, oferecem uma resposta fácil e confortável (pois estão muito próximas da visão de “fim da história”, da queda das grandes narrativas—nas quais eu  acredito—e a submissão à idéia de que a democracia está entrelaçada com o mercado e a globalização); e, mais ainda, em que medida podemos, a partir delas qualificar Vargas Llosa  e o próprio romance A GUERRA DO FIM DO MUNDO de reacionários, são as coordenadas pelas quais me guiarei nesta minha intervenção.

De saída, esclareço um ponto: considero A GUERRA DO FIM DO MUNDO um romance formidável, uma grande obra de ficção; porém, trata-se igualmente de um livro reacionário e, nesse ponto, para mim, revoltante. Outros o acharão lúcido.

Leitores que cheguem à mesma conclusão, a respeito do reacionarismo da obra podem se recusar a vê-la como uma obra-prima, ou mesmo como um bom romance.  Há em mim prioritariamente um leitor de romances que se satisfez de tal maneira com o exercício narrativo que o saldo ideológico negativo não chega a ser um óbice intransponível, embora incomode. Esse lado de Vargas Llosa sempre será incômodo (mas eu já comecei a lê-lo com essa visão meio fracionada e esquizofrênica, pois foi na época de História de Mayta e Contra vento e maré, livros que arrepiam qualquer pessoa minimamente de esquerda), e agora veio à tona com mais evidência ainda com o Nobel.

`Para mim, o que salva o livro; mais do que isso, transfigura-o, é o que podemos chamar de sabedoria narrativa, e mais precisamente ainda, sabedoria épica. Na épica, desde Homero, e não excluindo o aspecto da significação final que uma obra narrativa possa e deva tomar na mente do leitor, ou quaisquer aspectos transcendentes, é a imanência do mundo representado, a materialidade da sua representação dos elementos contingentes da existência, que avultam para o leitor. Mais até que Os sertões, e na esteira de obras como Ilíada e Guerra e Paz, pode-se dizer do livro de Llosa, o que José Veríssimo afirmou a respeito do livro de Euclides da Cunha: “é ao mesmo tempo o livro de um homem de ciência, um geógrafo, um geólogo, um etnógrafo; de um homem de pensamento, um filósofo, um sociólogo, um historiador; e de um homem de sentimento, um poeta, um romancista, um artista…”

    Poucos romancistas contemporâneos podem se gabar de atingir esse grau de representação do imanente, e o que mais fica na mente do leitor de A GUERRA DO FIM DO MUNDO, caso ele realmente goste de narrativas, é como ele realmente nos faz entrar em Canudos/Belo Monte, além de todos os outros espaços narrativos, e com sua sabedoria épica e com seu foco narrativo multiforme, pode ser através do ponto-de-vista de mente de um dos revoltosos, ou do círculo imediatamente próximo ao Conselheiro, ou  mais afastado, ou então através de um soldado, “um ateu, um franco-maçom, um protestante, um cão” (são variados os anátemas) que ali está para destruir a rebelião e exterminar os  “ingleses”.

Tal sabedoria épico-narrativa faz com que, na primeira parte (constituída por sete capítulos [1]), que causa estranheza ao leitor habitual de Vargas Llosa (ele pensa: será que o autor de Conversa na catedral e outros livros virtuosísticos se rendeu à facilidade narrativa do best seller?), por se constituir de uns tantos sumários narrativos, quase relatórios, de trajetórias de vida que foram transfiguradas pela aparição do Conselheiro. Mergulhando no desenvolvimento da narrativa, que vai se amplificando e complexificando-se, constatamos o acerto dessa técnica: quando acontece a quarta, a apocalíptica de fato, expedição, e acompanhamos “de dentro” a guerra, não somos estorvados por dados biográficos, explicações e  trajetórias lineares. O mundo romanesco já está devidamente “mobiliado”.

Tal sabedoria épico-narrativa, tão poderosa e convincente, também se coloca a serviço da má-fé ideológica (ou, para amenizar as coisas, da sua má consciência, digamos) : pois mais do que discutir e analisar (embora haja discussões e análises ao longo do texto) a loucura do visionarismo utópico do Conselheiro, muito calcado na espiritualidade mais severa e anti-corporal, ele a esvazia de significado, ao imergir Canudos/Belo Monte na mais pura materialidade, num avultamento do corpóreo, do fisiológico, inscrito até no viver a qualquer custo, em qualquer condição, o que transforma boa parte da última centena de páginas do romance uma experiência quase irrespirável, opressiva, acachapante.

Num outro texto de SABRES E UTOPIAS, por ocasião do centenário da destruição de Canudos, em 1997, Llosa caracterizou da seguinte maneira o Conselheiro e sua liderança no sertão:

“O que Antonio Conselheiro proporcionou àqueles milhares de homens e mulheres, talvez os mais desamparados do país, para que chegassem ao ponto de se imolar por ele? Fiquei com essa pergunta em minha mente obsessivamente durante todos aqueles anos, enquanto estudava as interpretações  contraditórias sobre Canudos, sem encontrar uma resposta satisfatória, seja naqueles que o explicam como um caso simples de fanatismo religioso e de barbárie social, seja nos que quiseram ver em Antonio Conselheiro  uma espécie de Lenin do sertão. Mas, depois de refazer, ao longo de várias semanas, em setembro e outubro de 1979, o percurso do Conselheiro pelo interior da Bahia e de Sergipe, ouvindo os filhos e netos dos que chegaram a ouvi-lo, naquela paisagem de uma beleza rude, naquela sociedade rudimentar que parecia não ter mudado quase nada, a resistência de Canudos tornou-se, para mim, menos enigmática.

   O sucesso da pregação do Conselheiro se deveu, seguramente, a que ele transformava em virtuosas, radicalizando-as, as realidades impostas pelas necessidades ao povo que o ouvia. Aquelas vidas precárias, eternamente ameaçadas pela seca e pelos bandidos, dizimadas pela fome, pelas doenças, pela violência, que conviviam com a catástrofe, estavam predispostas a admitir a proximidade do Apocalipse e a acreditar que a vida—a história—era uma simples antessala de outra vida melhor e mais verdadeira: a morte.

     A frugalidade de costumes era obrigatória para o sertanejo. O Conselheiro transformou a maldição em bênção. Assim como dignificava a morte, dignificou a pobreza. Ele, que não podia dar pão aos que o escutavam, soube dar sentido e valor para a fome que padeciam. Seus jejuns, sua simplicidade no vestir e no morar, converteram-se, graças ao Conselheiro, em práticas escolhidas, como garantia da salvação eterna. Como poderiam não entender uma filosofia enraizada na única coisa que possuíam: fome, morte, estoicismo? A missão do Conselheiro foi essencialmente espiritual. No interior do esquema religioso de seu tempo, ele fez seus aqueles temas e convicções que poderiam tornar psicologicamente desejável, para os homens e as mulheres do sertão, um destino do qual não tinham como escapar.

     Por outro lado, o Conselheiro pratica a moral que prega. Quase não come, não tem nada além da túnica e das sandálias que traz no corpo, prefere dormir no chão a dormir em redes ou catres, é casto. Não é de estranhar que, diante das alternativas que tinham, os sertanejos tenham decidido que ele era o porta-voz de Deus, e não certos párocos de ética menos inflexível…”

   Parece uma bela, precisa e justa avaliação do papel do Conselheiro como líder carismático e cuja mensagem basicamente evangelizadora foi tragicamente mal compreendida. Todavia, se prestarmos mais atenção, vemos que é uma descrição parcial e cômoda: trata-se do Conselheiro pré-Canudos.

Essa descrição, que privilegia a autoridade espiritual e moral, não dá conta da experiência de Belo Monte, da sociedade utópica e igualitária, da experiência espontânea de organização popular, que ali se constituiu, e que em última instância, foi uma experiência política, e subversiva, e na qual havia indivíduos com uma noção muito precisa de organização, distribuição e engenharia social (não sou eu que estou dizendo, no próprio romance de Llosa há destaque para o gênio administrativo de Antonio Vilanova); e também dos atos políticos dos conselheiristas (ainda que não-mancomunados com quaisquer partidos monarquistas ou agentes estrangeiros, tal como se alardeou).

O Conselheiro aparece muito pouco em A GUERRA DO FIM DO MUNDO, as cenas em que está presente ou fala alguma coisa, principalmente depois da primeira parte, são muito raras. Na última e asfixiante parte, todo o seu projeto espiritual desmorona, inclusive no seu próprio corpo (ele morre de disenteria aguda) e o corpóreo, o físico, a sobrevivência miúda é que se impõem (exemplos colhidos ao acaso: “A idéia de apodrecer atormenta Teotônio Leal Cavalcanti”; “É uma das vítimas dessa diabólica arma dos canibais que tem destruído a  pele de bom número de patriotas: as formigas caçaremas. No começo, parecia um fenômeno natural, uma fatalidade, que esses ferozes bichinhos, que perfuram a pele, provocam pruridos e uma ardência atroz, saíssem  de seus esconderijos com o fresco da noite, para deleitar-se sobre os adormecidos. Descobriu-se, porém, que esses formigueiros, construções esféricas de bairro, são os jagunços que trazem até o acampamento, e aqui os arrebentam, para que suas hordas vorazes façam estragos entre os patriotas que descansam…”;”Pois às vezes era assim que devolviam os jagunços à prisão, sem olhos, sem língua, sem sexo, pensando que esse espetáculo destruiria o moral dos que ainda resistiam”; “Tanta carne humana, tanto banquete de cadáver, os meses do cerco, tudo isso fez os cães ferozes, iguais a lobos e hienas. Surgiram matilhas de carniceiros, tanto em Canudos como, sem dúvida, no acampamento dos soldados, em busca de alimento humano”;”Quanto dura esse deslocamento às cegas, afogando-se, esbarrando em paredes, paus, gente que lhe impede o caminho e o empurra  a um lado, a outro lado, para a frente, pelo estreito, sinuoso corredor de terra no qual, de quando em quando, ajudam-no a subir por um poço escavado no interior de um casa para logo voltar a sepultá-lo na terra e a arrastá-lo?.. e espantando-se de que seu corpo o obedeça e não se desmanche em pedaços como, parece, pode acontecer a cada instante”[2];para não falar no medo do jornalista míope do Anão, de morrerem ali, em Canudos, onde foram parar devido ás peripécias aventurescas da narrativa), mas nada tão pungente quanto a visão dos últimos momentos do Conselheiro: “Então, o barulhinho que se desprende  do catre, que escapa debaixo do Conselheiro… É um barulhinho que não agita o corpo do santo, mas já a Madre Maria Quadrado e as beatas correm á sua volta, para levantar seu hábito, limpá-lo, recolher humildemente isso que—pensa o Beatinho—não é excremento, porque o excremento é sujo e impuro, e nada que provenha dele pode ser nem sujo nem impuro. E podia ser suja, impura, essa aguinha que mana sem parar, faz seis, sete, dez dias, desse corpo lacerado? Terá, talvez, nestes dias, comido qualquer coisa que obrigue seu organismo a evacuar as impurezas?… Havia algo misterioso e sagrado nessas ventosidades súbitas, depuradas, prolongadas, nessas acometidas que pareciam não terminar nunca, acompanhadas sempre da emissão dessa aguinha.”

Se o Conselheiro, embora figura-chave, mal aparece no livro, Euclides da Cunha está ausente. Seria interessante indagar por que, ainda mais que Llosa criou a figura do jornalista míope, que não ganha nome ao longo da narrativa, uma figura grotesco-patética. Ele é um dos três “aleijões” ligados à transmissão verbal de fatos e histórias, que curiosamente aparecem com destaque no livro (diga-se de passagem, a má consciência com relação a ser um escritor é constantemente tematizada por Vargas Llosa, basta lembrar da frustrada carreira de Zavalita, em Conversa na Catedral, a louca trajetória de Pedro Camacho, em Tia Julia e o escrevinhador, e até no já tardio Travessuras da menina má temos o tradutor que é um escritor enrustido, na retranca). Utilizo o termo aleijões, que parece pejorativo, mas é dessa forma que os próprios personagens se vêem, e o restante também: o jornalista míope é todo desconjuntado,mal acabado, e é o mais próximo do “civilizado”, da cultura letrada oficial, é o ser da palavra que vem de fora do sertão, e no meio da batalha tem seus óculos quebrados, e acaba vivendo meses em Canudos sem enxergar nada direito, com lentes em caquinhos formando um quebra-cabeça sem nitidez, numa metonímia perfeita da sua cegueira ideológica; o Leão de Natuba pertence ao círculo mais próximo ao Conselheiro, e tendo aprendido a ler quase sobrenaturalmente, é quem lhe registra todas as palavras, é o escriba de Canudos, e é um indivíduo deformado, que anda como um animal, utilizando pés e mãos (seu maior mal, no entanto, é não ter fé); e, por fim, temos o Anão, que pertencia a um circo que foi se deteriorando e perdendo seus integrantes, e no qual sua função era contar as histórias de cavalaria que inundam o sertão; portanto, é o representante da oralidade, do narrador popular e iletrado. O jornalista míope e o Anão acabam dependentes de uma mulher, Jurema, que os protege em Canudos e se torna mulher-mãe (mesmo quando passa a ter relações sexuais com o jornalista míope), mais forte que eles, ambos desamparados.

A cada um desses três seres da palavra mal formados e incompletos corresponde um visionário, um fanático, um “louco” : ao Leão de Natuba corresponde o messiânico Conselheiro, ao jornalista míope o coronel Moreira César, com seu fanatismo republicano, seu positivismo jacobino, sua crença de que só uma ditadura militar consertaria o país, e ao Anão corresponde o escocês Galileu Gall, adepto da frenologia, tomado pela Revolução, pela Razão histórica, pela racionalidade progressista, e que vê em Canudos um movimento revolucionário mal orientado, por isso tem a obsessão de chegar até lá (o que gerará alguns dos incidentes romanescos mais interessantes do livro, e acabará ligando o Anão a Jurema e o jornalista míope), o qual, aliás, também pertence ao universo de seres meio bizarros ligados à palavra,  pois também escreve.

Os dois trios, Conselheiro-Moreira César-Galileu Gall e Leão de Natuba-jornalista míope-Anão representam os extremos, o absurdo configurado pelo episódio de Canudos. Como contraponto, há a figura lúcida e equilibrada do Barão de Canabrava, dono da fazenda de Canudos invadida pelos conselheiristas, e que perdeu prestígio político com a República, sendo, por isso, suspeito de fomentador da revolta sertaneja, mancomunado com os ingleses. Seus colóquios tanto com Galileu Gall quanto com o jornalista míope, mostra que é o único a manter uma posição não-utópica (que, como vimos, levará sempre a uma hecatombe: e de fato todos os três visionários morrem), apesar de se confessar fascinado por esses seres quiméricos. Por exemplo, Gall, ao ouvir suas idéias: “…voltou a examinar Gall como um entomólogo fascinado por uma espécie rara”. Ele o compara ao coronel Moreira César: “Raça estranha, a dos idealistas. Não conhecia um só até agora; em poucos dias, tratei com dois. O outro é o coronel Moreira César. Sim, ele também é um sonhador. Mesmo que os sonhos dele não coincidam com os seus.” Diante da teimosia de Gall em chegar a Canudos, o Barão constata que o mundo parece vítima de “um mal entendido irremediável”: “Tudo o que deseja é morrer como um cão entre pessoas que não o entendem e não entende. Pensa que vai morrer como um herói e, na verdade, morrerá como mais  teme, como um idiota.”

Da maneira como delineia a figura do Barão de Canabrava, temos a impressão de que Vargas Llosa é até monarquista: temos um cavalheiro, um homem culto, interessante, elegante, nada truculento, como os coronéis nordestinos que o Modernismo nos acostumou, um latifundiário cujos jagunços são educados, ordeiros e pacíficos. Dá para acreditar? Sua amargura maior é o fato de que a mulher tenha sido tão afetada pelo episódio de Canudos (uma outra fazenda foi queimada) que tornou-se desequilibrada: “Tinha sido Canudos, essa história estúpida, incompreensível, de gente obstinada, cega, de fanatismos antagônicos, a culpada pelo acontecido a Estela”.

Há muitos episódios e personagens pungentes em A GUERRA DO FIM DO MUNDO, mas nenhum deles desperta nossa simpatia como o Barão, por ser mais nosso contemporâneo por assim dizer. Os demais são interessantes na medida da sua loucura, do seu arcaísmo, do seu anacronismo, do seu exotismo, ele é próximo de nós. Mas tudo clama contra essa identificação, já que ele é justamente um dos pilares do atraso brasileiro que persiste até hoje: o latifundiário, ’dono” do estado. É como se Vargas Llosa nos impingisse um José Sarney como a carta da lucidez e da ponderação no seu baralho de caos e destruição. Daí porque considero reacionário esse livro tão belo.

(novembro de 2010)


[1] A GUERRA DO FIM DO MUNDO é dividido em quatro partes, grosso modo:

– a primeira, que apresenta os principais personagens, com sete capítulos;

-a segunda,  muito curta (menos de 15 páginas), que apresenta um panorama da política, e uma paródia da maneira como os jornais iriam se ocupar do fenômeno de Canudos,  em três capítulos;

– a terceira,  que focaliza a desastrosa expedição de Moreira César, com sete capítulos;

– a quarta, com a expedição final e arrasadora, e os últimos momentos de Canudos, com seis capítulos. A estrutura dessa quarta parte lembra outros romances de Vargas Llosa, porque seu eixo é uma conversa entre o jornalista míope e o Barão de Canabrava.

[2] Poderia multiplicar á exaustão esses exemplos em que se misturam os horrores e selvageria da guerra (de ambos os lados) com minúcias fisiológicas  extremas. Todos são reduzidos ao corpo, produza ele alegria, prazer, angústia, terror, dor, putrefação, excrescências e até lampejo de inteligência e espiritualidade. No final, essa visão criatural e corpórea atinge o próprio Barão de Canabrava, tão distante—geograficamente—dos eventos, mas que é arrastado para eles pelo colóquio com o jornalista míope.

Nota- o termo criatural é utilizado por Erich Auerbach em Mimesis, contraposto ao figural; este último, seria uma projeção transcendente, enquanto o outro nos restituía ao invólucro material destinado a morrer e a apodrecer.

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