MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/09/2010

Cozido narrativo no Fim do Mundo

Para meu amigo Miguel Loureiro

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   Uma das formas de resistência ao processo de de globalização (novamente em evidência com os Fóruns de Porto Alegre e Nova York) é a insistência de certos autores no particularismo de suas regiões, no privilégio dado à feição dialetal para a construção da sua linguagem. Portanto, longe de estar ameaçado, o regionalismo parece mais vivo do que nunca. O galelo Camilo José Cela (nobel de 1989), recém-falecido, é um exemplo ainda mais contundente do que o siciliano Camilleri, cujo Por uma linha telefônica comentei nesta coluna.

    No informe para a imprensa da tradução brasileira de Madera de boj (1999), feita por Mário Pontes e lançada como MADEIRA DE LEI, a Bertrand toca num ponto importante sobre Cela: “Cada novo livro é uma surpresa; como um camaleão da literatura, está sempre mudando o foco e o modo de escrever suas histórias”. Na verdade, o livro radicaliza a experiência feita em A cruz de Santo André, este último também uma narrativa-ladainha. Ambos estão, certamente, entre as leituras mais desconcertantes que fiz nos últimos anos: “semeia-se a dúvida para o que leitor se desoriente e não saiba com qual da cartas deva ficar…”

    A costa litorânea da Galícia domina MADEIRA DE LEI, que se vale da velhíssima oposição terra/mar exemplificada pelo inventário (que atravessa todo o texto) de navios que afundaram na região. É um dos fios condutores da narrativa, ou da ladainha, como se queira, e representa a instabilidade que ronda a existência. O outro é o desejo de Dick (antepassado do narrador) de uma casa construída com vigas de madeira de buxo, desejo irrealizado e utópico, tentativa de fixação e segurança no fluxo incessante das coisas. Portanto, temos a luta entre o que nos é familiar e o que é desconhecido, ignoto, e que associamos ao perigo e à morte: “todos nós gostaríamos de conhecer o mistério da morte, acontece que Deus é muito calado e não costuma dizer as coisas aos homens, talvez seja isso o livre-arbítrio…”

    Temos a impressão, lendo MADEIRA DE LEI, de que Camilo José Cela desistiu do esforço de circunscrever o amorfo e o indefinido da vida numa forma acabada e fixa, isto é, construir sua casa com vigas de madeira de buxo. O narrador, por exemplo, tem dúvida diante do que está narrando: “Acho que já falei disso, não tenho muita certeza” (…)”isso vai indo apenas um pouquinho confuso”; e às vezes o autor se coloca no quadro: “quando me deram o Nobel fiz um cozido memorável”.

    A região tem a alcunha de Finis Terrae (Fim do Mundo), o que combina com um texto onde encontramos tudo no limiar: entre o mar e a terra, entre a vida e a morte, entre a memória e o esquecimento, entre a permanência e a mudança, entre o sagrado e o profano, entre o recatado e o chulo, entre o vivido e o inventado. Aliás, a palavra “fim” colocado após a última linha é uma ironia, trata-se de um texto que não começa nem termina, é cíclico, anti-linear: “a vida não tem argumento, quando pensamos que estamos indo para um lugar tal a fim de cometer determinados heroísmos, a bússola começa a girar loucamente e nos leva cobertos de merda para onde lhe manda a vontade, para a catequese para o prostíbulo para o quartel ou diretamente para o cemitério…”

   Esse recurso permite que ele insira dezenas de personagens, de historietas, que funcionam como vinhetas e lembretes do eterno fluxo de nascimentos, mortes, crimes, pecados, loucuras e paixões, entrecruzados num peculiaríssimo rincão do mundo, só que válidos universalmente.

     No incessante fiar das histórias, as constatações desalentadoras sobre a condição humana prevalecem: “porque cada um é cada um e ninguém jamais aprende nada com ninguém” (…) “gosto de ir aprendendo a morrer ficando sozinho…”; só que no cozido preparado pelo nobelizado Cela, o trágico é temperado por um grotesco-escatológico sem limites. Veja-se uma vinheta da história de amor entre a viúva Annelie e o anão francês Vincent: “Annelie janta frutas, uma noite enfiou cerejas no cu de Vicnent para que depois as cagasse em sua boca”.

    Nesse sentido, Mário Pontes, que também traduziu outros livros de Cela comentados nesta minha coluna (A colmeia; Saracoteios, meneios e outros tateios; A cruz de Santo André) mostra-se, apesar do resultado irrepreensível, demasiadamente comedido em suas soluções. Cela é explícito em sua utilização do pesado e chulo linguajar popularesco: “é un santo tan putañero que lhe foi facer um neno” vira, na versão de Pontes, “um santo tão chegado a mulheres que saiu para fazer um filho”. Que distância entre “putañero” “chegado a mulheres” em termos de colorido e expressividade. Outro exemplo: “O Xan e maila Xoana foron ós garabulliños, a Xoana caeu de cu e o Xanciño de fociños”– Pontes: “O João e minha Joana foram brincar de perna-de-pau, a Joana caiu de bunda e o Joãozinho de focinho”!

     Ler Camilo José Cela pode não ser uma experiência tão divertida e agradável quanto ler Andrea Camilleri, todavia um texto como MADEIRA DE LEIé a prova cabal de que o mundo ainda não se uniformizou, ainda não foi engolfado pela mesmice, que cada lugar tem algo de irredutivelmente seu. E que a literatura é uma ponte privilegiada entre mentalidades diversas.

(resenha publicada originalmente em “A Tribuna”, em 05 de janeiro de 2002)

Regurgitando um vulcão

 

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   Depois que ganhou o Nobel de Literatura em 1989, o espanhol Camilo José Cela, que já tinha uma obra famosa (os romances A família de Pascual Duarte e A colméia) resolveu provar que continua em plena ebulição criativa. Tanta fúria criadora já rendeu alguns dos livros mais surpreendentes e inusitados dos últimos anos, como a coletânea de contos erótico-grotescos Saracoteios, tateios e outros meneios e o recém-lançado no Brasil (com tradução de Mário Pontes)A cruz de Santo André (La Cruz de San Andrés, 1994).

      Nele, aparentemente, Matilde Verdú (que anuncia para o leitor estar escrevendo em rolos de papel higiênico, e, por esse motivo, discorre sobre as qualidades e defeitos de várias marcas:  O melhor papel de privada, o melhor para escrever a crônica dos acontecimentos, é o La Condesita, quanto a isso não resta a menor dúvida, dá gosto ver como a história vai se debulhando com rigor e circunspeção; ou então: Aqui, nestes rolos de papel de privada marca El Gaitero Bucólico, vou narrando pelo método da regurgitação) contará a história de sua vida, ou melhor, de sua derrocada, como chama a crucificação junto ao marido, à qual se refere tantas vezes: Declaro que nem meu marido nem eu soubemos representar com um mínimo de competência, com a necessária dignidade, o difícil papel de justiçados na cruz de Santo André, às vezes caíamos na risada, pelo menos três vezes nos deu aquele frouxo de riso, e isso o bom espectador não perdoa, não levamos a sério e ensaiamos mal o nosso papel, e não conseguimos nunca memorizar e recitar as nossas falas, especialmente as longas.

      A estrutura do romance (e as citações de Shakespeare) parecem acentuar o aspecto teatral. Ele é dividido em cinco partes: Dramatis Personae, Argumento, Exposição, Nó, Desenlace. Parece tudo certinho, não? Doce ilusão, leitor. Nada mais emaranhado  e decididamente regurgitado do que A cruz de Santo André. Matilde Verdú vai se orientando, e nos desorientando.  Isso acontece porque ela, ao anunciar que está contando a história de sua vida, acaba é contando a história de conhecidos,  de parentes, de amigos, de gente da sua terra natal, La Coruña. Histórias bufas, deformantes, bizarras, escatológicas, na mesma linha do delicioso Saracoteios, tateios e outros meneios, só que com uma carga mais dramática. Dessa vez não existe só a enxurrada sexual, tudo é permeado também  pela irremediável  mistura de tragédia e miséria  da nossa existência.

      Matilde parte do individual, anunciando sua história (Matilde Verdú às vezes se sente gelada com as suas próprias recordações, algumas são muito tristes, muito angustiantes,  e de tão estranhas, não dá para esquecer coisa nenhuma delas,  é um caso em que não pode haver  desperdício,  é como o boi abatido no matadouro,  dele tudo se aproveita), passa a falar da condição das mulheres em geral (para a mulher o cabelo  é o que há de mais importante, renunciar a ele é o mesmo que se enforcar, ou tomar um vidro inteiro de soníferos ou praticar  o haraquiri), e, progressivamente, da condição humana,  num tom quase shakesperiano (em julho de 1969, o homem  chegou à Lua,  podendo assim alargar o âmbito das suas necessidades, o homem não sabe governar nem pacificar, nem alimentar a Terra, também não sabe curar nem o câncer nem a Aids, naquela época ainda não se falava de Aids, mas é capaz de acertar com o caminho da Lua, dilatando cada vez mais o vergonhoso horizonte do seu orgulho estúpido) , embora numa clave irreverente. Esse tom não é gratuito, pois não foi à toa que na Espanha do Século de Ouro se desenvolveu um grande teatro.

     O impressionante no livro, mais do que a narrativa enovelado, enrolada em si mesma, sempre às voltas com os mesmos fatos, é que o leitor nunca tem acesso ao interior das personagens, eles são sempre vistos de fora, como a opinião pública os vê, jamais têm uma chance de mostrar um lado melhorzinho, menos ridículo. Como o estilo de Cela hipertrofia essa tendência ao exagero bufo, nós temos a impressão de dar uma espiada no inferno, onde todos os que estão mergulhados na vida quotidiana ardem.

        O texto que me vinha à cabeça durante a leitura como termo de comparação para A cruz de Santo André era sempre A obscena Senhora D (1982), de Hilda Hilst, também uma mistura de verve irreverente, de escatologia e de documento de uma solidão desamparada e aterradora.

      Hillé, a Senhora D da escritora paulista, compreenderia muito bem o sentimento expresso no seguinte trecho do relato de Matilde Verdú: Eu sou apenas uma dona amargurada por tudo ter me saído mal nesta vida, e o provável é que na outra as coisas me saiam ainda piores, sou apenas uma doente que começa a envelhecer e que não aprendeu a suportar a solidão, me sinto sozinha e meio maldita, sinto o dedo de Deus apontando para mim, peço perdão por não ter mais saída,  gostaria que alguém me ajudasse a dar mais vida à minha existência vazia, mas sei que isso é o mesmo  que pedir um copo d´água a uma pêra…).

     Camilo José Cela tanto se esforça em mudar,  em ampliar seu horizonte criador, seu mundo de formas, tanto injeta nos seus textos sua energia desmedida, sua vontade de sacudir a pasmaceira do leitor, sua convicção em querer ser um grande escritor que às vezes acaba convencendo a gente de que ele é mesmo grande. Difícil saber ainda (pelo menos, a meu ver) se ele o é de fato, é como querer analisar um vulcão em plena erupção. E essa analogia com um vulcão permite pelo menos um elogio provisório: é um fenômeno digno de admiração.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  primeiro de março de 1997)

A vida sexual bufonarizada pelo comentário alheio

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Dona Vitelinha casa aos quarenta anos e tão empedernidamente  virgem que é preciso um abridor de latas para executar o serviço. Uma turista inglesa fica esmagada num cubículo por um eventual amante, que pesa cem quilos, e acaba socorrida por mecânicos.

São situações de Costumes ancestrais e Parábola da dama esmagada, dois dos vinte e um contos eróticos reunidos por Camilo José Cela (Nobel de Literatura de 1989) no seu Saracoteios, tateios e outros meneios (Cachondeos, escorceos y otros meneos, traduzido por Mário Penedo).

Fornicar com a mãe e a filha. Ou com a mãe e o filho. Desvirginar. Masturbar-se. Gula associada à volúpia. Prostituição a domicílio. Pederastia. Lesbianismo. Zoofilia. Padres concupiscentes. Adultérios de todo o tipo. Velhos e velhas insaciáveis… Crua e cruelmente, o repertório habitual da sexualidade humana emerge da coletânea. Qual a novidade? Não vemos isso até em programas populares da televisão? O que torna Saracoteios, tateios e outros meneios um dos mais interessantes lançamentos literários de mil novecentos e noventa e cinco?

É a maneira como Cela constrói o livro, através de conversas ou cartas. Ele não isenta nem a si mesmo, colocando-se como personagem e compartilhando das grosserias, das cafajestadas, das picardias e atitudes varzeanas que exageram e tornam hipertrofiadas e grotescas nossa chamada vida sexual, ou pelo menos nossas práticas sexuais. Essas grosserias e exageros chegam a um ponto quase surreal nos textos, principalmente pela atitude paródica do autor com relação a nomes de personagens, trocadilhos e uso do infinito, anatômica e metaforicamente, vocabulário lascivo.

 

Não há área da vida humana em que o politicamente correto falhe mais fragorosa e miseravelmente e em que as pessoas se enforquem de forma mais primitiva, truculenta e retrógrada, mais refratárias à evolução do que a da linguagem para comentar a sexualidade alheia, com a qual somos sempre pouco generosos.

Pouco generosos, mas nem por isso menos curiosos. Todo mundo quer saber o que os outros fazem, como fazem, como acertam,como falham, seus ridículos, suas baixarias, seus aviltamentos. Cela sabe disso muito bem e não conta os episódios como poderiam ter acontecido, de uma forma realista, e sim como os outros comentam, aumentam, distorcem, bufonarizam. Exatamente como fazemos no nosso quotidiano, pelo pente fino do desregramento verbal e chulice desatarraxada das convenções de bom gosto e  disfarces civilizatórios.

O que atrapalha o autor espanhol, como sempre, é sua vinculação ao tremendismo (corrente estética da Espanha, que prega o exagero na expressão dos aspectos mais crus da realidade), que passa por humor, contudo é quase o seu contrário. Em Camilo José Cela não existe humor, não existe alívio, tudo é pesado mesmo e o grosseiro jamais é redimido.

O que talvez seja bastante eficaz numa coletânea onde se coloca o dedo na ferida da boçalidade com que abordamos nossa própria intimidade e o desrespeito pelo outro que transparece na linguagem desabrida, e que no entanto é um vício, um componente das nossas relações.

Eficaz, mas ao fim e ao cabo, extremamente desagradável.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em vinte e oito de novembro de mil novecentos e noventa e cinco)

 

27/09/2010

FUMO E FASCISMO: quando sancionarão uma lei anti-borboletas da alma?

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21 de outubro de 2009

A pequena obra-prima de Paul Auster O CONTO DE NATAL DE AUGIE WREN (ver minha resenha abaixo) foi relançada pela Companhia das Letras. Como segue a tradição, consagrada no universo anglo-saxão, dos contos de Natal, cujo maior expoente foi Charles Dickens, não deixa de ser uma  leitura importante: um mestre da “modernidade líquida”, da pós-modernidade, reavivando uma tradição da “modernidade sólida”, da Era Industrial.

10 de agosto de 2009

Não sou fumante e no entanto considero autoritária, fascistóide mesmo, a lei anti-fumo (também, o que esperar de um José Serra?, um político que JAMAIS teria o meu voto nem para síndico, e a minha antipatia pela figura de Dráuzio Varella sempre me impediu de ler qualquer um de seus livros). Meus amigos não poderão mais fumar em bares e restaurantes (e, na prática, em quase em todos os lugares),mas podemos aturar gente se esgoelando nos videokês da vida, gente que pára o carro e nos despeja a música do seu (mau) gosto em altos decibéis, e que,  curiosamente, nunca é a música que a humanidade sensata gostaria de ouvir, sem contar as onipresentes tevês em todos os lugares despejando Faustão ou qualquer outro horror enquanto jantamos ou jogamos conversa fora. Ninguém acha isso invasivo ou abusivo, e longe de mim querer censurar qualquer manifestação. Mas pensando na perseguição aos fumantes, lembrei de uma antiga resenha.

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UM DETERMINADO CANTO DO MUNDO

O ponto alto das mais de 300 páginas que reúnem os roteiros Cortina de Fumaça & Sem Fôlego (Smoke & Blue in the face), lançamento da Best Seller na onda do sucesso que o filme Smoke vem fazendo há meses em São Paulo, é um texto de apenas 8 páginas escrito pelo autor do roteiro do filme, o romancista Paul Auster: O conto de natal de Auggie Wren.

Nele, Auster narra como Auggie, gerente de tabacaria, fotografa a esquina onde trabalha todos os dias, exatamente à mesma hora. Ao ver as fotos, o narrador, após acostumar-se à estranheza de tal projeto de vida, percebe a atitude zen desse homem aparentemente comum (e presença fortuita em sua vida), que lhe dará de presente um conto de natal, daqueles que Dickens consagrou (não convém contá-lo aqui): “Percebi que Auggie fotografava  o tempo, o tempo natural, assim como o humano, e o fazia plantando-se numa pequena esquina no mundo e desejando que fosse sua, montando guarda no espaço que escolhera para si mesmo”. No filme, a palavra é do próprio Auggie (uma maravilhosa interpretação de Harvey Keitel, em belo duo com William Hurt): “É a minha esquina afinal. É apenas uma pequena parte do mundo, mas as coisas também acontecem ali, assim como em qualquer outro lugar. É um registro do meu cantinho”. Infelizmente, o roteiro e o filme estão longe de ter o encanto diáfano do conto, a síntese densa que esse texto tão simples faz dos encontros na cidade grande, das doações insólitas e dos pequenos logros que aproximam estranhos. Sente-se, no filme, que faltou diretor para o material, que o redimensionasse cinematograficamente, aproveitando as infinitas possibilidades poéticas do texto durante as duas (longas) horas de projeção. Também, o que se poderia esperar de Wayne Wang, diretor daquela chorumela chamada O Clube da Felicidade e da Sorte? A colaboração Wang/Auster quase tira a credibilidade do autor de alguns livros simplesmente brilhantes. Mesmo assim, milagres acontecem (e não apenas natalinos ou na rua 34) e Cortina de Fumaça, no geral, ficando no limite da pieguice, apesar dos grandes atores, apresenta dois ou três momentos de genuínos de cinema, o que já é muito, não? Curiosamente, esses dois ou três momentos estão umbilicalmente ligados ao clima do pequeno texto já referido.

No geral, excetuando-se o lindo conto, Cortina de Fumaça & Sem Fôlego interessa a quem quiser conhecer melhor o “cantinho de mundo” de Paul Auster. Não faltam momentos saborosos, basta ler algumas das rápidas vinhetas que constituem as cenas do roteiro de Sem Fôlego, outro projeto em parceria com Wang (e que se ressente das pontinhas excessivas de gente famosa, quando o melhor são os mais desconhecidos, como Giancarlo Espósito). Dessa vez, apenas Auggie aparece, sem o escritor que o grande Hurt encarnava e que era o ponto de ligação das histórias. É como um “A Praça é Nossa” em versão “The New Yorker”.

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O volume traz, entretanto, uma importante entrevista com Auster, realizada por Annete Insforf, na qual (entre outras mil coisas), em poucas palavras o autor de A Música do Acaso (um dos romances-chaves da nossa época) trata lucidamente da histeria fascista que virou a perseguição aos fumantes (e o texto-filme tem muito do seu sabor calcado na politicamente incorreta e deliciosa exaltação ao ato de fumar):

“O fato é que as pessoas fumam. Se não me engano, mais de um bilhão de pessoas fuma diariamente. Sei que o lobby antifumo se fortaleceu muito nos últimos anos… Não estou dizendo que fumar seja bom, mas comparado aos ultrajes políticos, sociais e ecológicos cometidos todos os dias, o tabaco é questão menor. As pessoas fumam —é um fato. As pessoas fumam e gostam disso, mesmo que não lhes faça bem”.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 14 de novembro de 1995)

09/09/2010

GOETHE E A VISÃO JUBILOSA

Breve prefácio

    Todas as vezes  que lia e comentava Goethe o fazia  com reservas, mesmo com a petição de princípio  da admiração  já estabelecida diante de um clássico, de um autor com tal estatura, criador do Werther e do Fausto, suas obras mais conhecidas (mas como não admirar também o Wilhelm Meister e As afinidades eletivas ?, textos fundadores). Porém, obras como Poesia e verdade me colocavam (leitor de agora, um tanto quanto impaciente e afoito) perante  um ser quase alienígina, que não me dizia nada (enquanto ser biográfico), solene, pomposo. Imagine-se que, durante sua longa existência weimariana, tudo o que ele dizia era anotado, “recolhido”, como máximas oraculares! Quando saía em viagem, tinha alguém que desenhava as paisagens para ele, que recolhia objetos para as suas coleções, enfim… Era alguém para quem tudo era “utílizável” no futuro, nas suas obras, das quais ele tinha “visões” e que num momento ou outro o ocupavam, em infinitas versões e reescrituras…

Foi ao ler o livro de Pietro Citati que minha visão de Goethe começou a mudar. Mas faltava o arremate, e isso se deu com uma das leituras mais epifânicas que já me foi dado expeirmentar: a de Viagem à Itália. Tudo o que me afastava de ( e me irritava em)  Goethe está lá, mas que sentido de realidade, do cotidiano, das pessoas concretas. É verdadeiramente uma viagem pelo século XVIII, às vésperas, muito às vésperas da Revolução Francesa.

Sinto que agora é que comecei a ler Goethe realmente, o anterior foi apenas um demorado prólogo… E como achei a leitura deslumbrante, e o livro é difícil de achar, resolvi fazer uma pequena antologia de trechos marcantes. Boa viagem, leitor.

                                        Elegia Romana

Falai-me, ó pedras! oh falai, vós altos palácios!
Ruas, dizei uma palavra! Gênio, não te moves?
Sim, tudo tem alma nos teus santos muros,
Roma eterna; só para mim tudo se cala ainda.
Quem me diz segredos, em que fresta avisto
Um dia o ser belo que queimando me alivie?
Não pressinto ainda os caminhos, pelos quais sempre,
Pra ir dela e pra ela, sacrifique o tempo precioso?
Ainda contemplo igrejas, palácios, ruínas, colunas,
Homem composto, decoroso, que aproveita a viagem.
Mas em breve passa: então haverá um só templo,
O templo do Amor, que se abra e receba o iniciado!
És um mundo em verdade, ó Roma; mas sem o Amor
O mundo não era mundo, e Roma não era Roma.

 

                      O BOM E O MELHOR

“Sonhei então que a bordo de um barco relativamente grande, eu atracava numa ilha fértil e de farta vegetação,onde eu sabia poder encontrar os mais belos faisões. De imediato, pus-me a negociar com os habitantes a fim de adquirir essas aves, as quais eles, também de pronto e em grande quantidade,  trouxeram para mim, mortas. Eram faisões, provavelmene, mas, como os sonhos costumam transformar tudo, apresentavam longas caudas coloridas e cheias de olhos, como a dos pavões ou de raras aves paradisíacas. Traziam-nos aos montes para o barco, depositando-os com as cabeças para dentro e amontoando-os com tanta graça que as penas longas e coloridas da cauda, pendendo para fora da embarcação, formavam ao sol a mais magnífica meda que se pode imaginar, e tão abundante que mal sobrava espaço na prosa e na popa para o timoneiro e os remadores. E assim cortamos as águas tranquilas, e eu já enumerava em minha mente os amigos para os quais queria contar acerca daqueles coloridos tesouros. Por fim, desembarcando num grande porto, perdi-me entre navios com mastros imensos, subindo de convés em convés a fim de procurar um lugar seguro onde atracar meu pequeno barco”.

“È bastante peculiar que se possa ver e saber com nitidez o que é bom e o que é ainda melhor…”

Trechos de Viagem à Itália (1786-1788), de J. W. Goethe

Tradução de Italianische Reise, por Sérgio Tellaroli (Companhia das Letras, 1999):

“Às três horas da manhã escapuli de Karlsbad, pois do contrário não me teriam deixado partir. O grupo de pessoas que desejou comemorar de modo bastante amigável o 28 de agosto, meu aniversário, por certo adquiriu, assim, o direito de deter-me; eu não  podia, porém, demorar-me mais ali. Munido apenas de um alforje e uma mochila de pele de texugo, lancei-me sozinho numa mala-posta e cheguei a Zwota às sete e meia, numa bela e tranqüila manhã enevoada. As nuvens mais altas feito riscos de lã, as mais baixas, pesadas. Parecem-me bons presságios.”

 

[Trento]: “O fato é que meu interesse pelo mundo se renova; testo meu poder de observação e examino até onde vão minha ciência e meus conhecimentos, os meus olhos estão limpos e vêem com clareza, quanto posso apreender em meio à velocidade, e as rugas sulcadas e impressas em meu espírito podem ser de novo removidas. Já neste momento, em que estou por minha própria conta, em que preciso estar sempre atento e presente, dão-me esses poucos dias ao espírito uma elasticidade inteiramente nova (…) E agora, ao anoitecer, com o vento suave e as montanhas rodeadas de poucas nuvens, mais fixas do que atravessando o céu, o zumbido agudo das cigarras começando a se fazer ouvir logo após o pôr-do-sol, sentimo-nos afinal em casa no mundo, e não qual estivéssemos escondidos ou no exílio. Desfruto disso tudo como se tivesse nascido e sido criado aqui, e retornasse agora de uma caça à baleia na Groenlândia.”

 

[Verona]: “O vento que sopra das tumbas dos antigos nos traz fragrâncias qual passasse ele por uma colina de rosas. Os túmulos inspiram afeto  e emoção, sempre representando a vida. Lá está um homem que, ao lado de sua mulher, espia por um nicho, como se olhasse para fora de uma janela. Lá estão pai e mãe, tendo o filho entre eles, fitando-se com indizível naturalidade. Ali, duas mãos se dão. Lá, repousando num sofá, um pai parece conversar com sua família. A mim, a presença imediata dessas esculturas comoveu sobremaneira. Elas são de um período posterior, mas  afiguram-se simples, naturais e dotadas de um apelo universal. Não se vêem, dentre elas, homens ajoelhados e vestindo armaduras, à espera de uma feliz ressurreição. Com maior ou menor perícia, o artista apresenta apenas a simples existência humana, conferindo-lhe, assim, continuidade e permanência. As figuras não estão orando ou olhando para o céu, mas são, aqui na Terra, o que foram e continuam sendo. Estão juntas, solidarizam-se umas com as outras, amam-se, e isso tudo encontra-se expresso de forma singela na pedra, até com uma certa inabilidade.”

 

“É de minha natureza reverenciar de bom grado e com alegria o grande e o belo; e cultivar essa disposição dia após dia, hora após hora, com a ajuda de objetos tão magníficos, é o mais bem-aventurado dos sentimentos.

     Numa terra na qual se goza o dia, mas aprecia-se particularmente a noite, é de grande importância o momento em que a noite cai (…)mas nós, Cimérios, mal sabemos o que seja o dia. Em meio à névoa eterna e à escuridão do céu, nem diferenciamos o dia da noite; afinal, quanto tempo  podemos passar verdadeiramente passeando ao ar livre e dele nos comprazendo?”

 

{Vicenza}: “…contemplando-se pessoalmente os edifícios magníficos que Palladio construiu nesta cidade e vendo-se como já a pequenez e a imundície das necessidades humanas os desfiguraram—quão acima de seus executores estavam, em geral, os projetos, e quão poucos esses preciosos monumentos de autoria de um espírito elevado amoldam-se à vida das demais pessoas—pensa-se que, afinal,  assim é com tudo o mais. Pouco ou nenhum agradecimento recebemos dos homens ao elevarmos suas necessidades interiores, ao dar-lhes uma idéia grandiosa deles próprios, ao intentar fazer-lhes sentir o caráter magnífico de uma existência verdadeira e nobre. Se, no entanto, enganamos os pássaros[1] , se lhes contamos histórias, ajudando-os a seguir adiante em seu dia-a-dia e apequenando-os [2], fazemo-nos queridos, e é por isso que os tempos modernos tanto apreciam o que é de mau gosto. Não digo isso para diminuir meus amigos, digo apenas que é assim que eles são, e que não há necessidade de nos admirarmos pelo fato de as coisas serem como são.”

 

[Pádua}: “É alegre e instrutivo passear por entre uma vegetação que nos é estranha. Em meio às plantas habituais ou a objetos que conhecemos de longa data, não pensamos coisa alguma, e de que vale a contemplação sem a reflexão? Aqui, diante dessa multiplicidade que me é nova, torna-se cada vez mais viva a idéia de que talvez seja possível fazer remontar todos os tipos de plantas a uma  única. Somente assim seria possível determinar verdadeiramente os gêneros e as espécies, o que, no meu entender, até hoje se faz de maneira bastante arbitrária. Foi nesse ponto que emperrei em minha filosofia botânica, e ainda não vejo como desenredar-me. A questão me parece tão profunda quanto ampla.”

 

“Na igreja dos Eremitas, vi as pinturas de Mantegna—um dos mestres antigos—que me espantaram. Que presente mais agudo e preciso apresentam! Foi desse presente absolutamente verdadeiro—não, digamos, aparente, de efeitos ilusórios, apelando para a imaginação, mas um presente sólido, puro, lúcido, minucioso, consciencioso, sutil, bem definido e contendo ao mesmo tempo algo de austero, diligente, custoso—que partíramos pintores subseqüentes, conforme pude observar em pinturas de Ticiano; o que permitiu à vivacidade de seu gênio, à energia de sua natureza—iluminada pelo espírito dos predecessores, alicerçada em sua força—alçar-se cada vez mais às alturas, erguer-se do chão para produzir formas celestiais, mas verdadeiras.”

 

“Essas pessoas estão tão acostumadas a viver ao ar livre que os arquitetos houveram por bem cobrir com uma abóbada a praça defronte de um mercado. E não há dúvida de que o gigantesco espaço abobadado transmite uma sensação bastante própria. É um infinito delimitado, mais análogo ao ser humano do que o é o firmamento. Este últimos nos arranca de nós mesmos; o primeiro nos compele, de forma mais suave, para o nosso interior.”

 

[Veneza]: “Estava, pois, escrito na folha que me cabe do livro do destino que ao cair da tarde de 28 de setembro de 1786, às cinco horas  do nosso horário, eu, proveniente do Brenta e alcançando as lagunas, avistaria Veneza, essa maravilhosa cidade insular, essa república de castores que, logo a seguir, eu estaria adentrando e visitando. E assim foi, graças a Deus; Veneza já não é para mim uma mera palavra, um nome vazio  a angustiar-me com tanta freqüência—a mim, o inimigo mortal das palavras ocas.”

 

“Desfruto agora da solidão pela qual tantas vezes suspirei ansioso…”

 

“Tudo o que agora me envolve é digno, obra grandiosa e respeitável do trabalho conjunto de muitos homens, um monumento magnífico não a um soberano, mas a todo um  povo. E, se suas lagunas vão se enchendo pouco a pouco, se vapores nocivos pairam sobre o pântano, se o comércio enfraquece e o poder decai,  ainda assim a república em si, sua essência, não se fará por um momento sequer menos digna do respeito daquele que a contempla.  Ela está à mercê do tempo, como tudo quanto tem no mundo dos fenômenos a sua existência.”

 

“O espetáculo [uma apresentação teatral] entreteve-me  por mais de três horas. Também aqui, porém, o povo é a base sobre a qual  tudo repousa: os espectadores atuam e a multidão funde-se ao teatro., formando um todo. Durante o dia, na praça e nas margens dos canais, nas gôndolas e no palácio, o comprador e o vendedor, o mendigo, o barqueiro, a vizinha, o advogado, e seu oponente, todos vivem, se movimentam, lutam, falam, protestam, gritam, vendem, cantam, brincam, praguejam e fazem barulho. À noite, então, vão ao teatro ver e ouvir sua vida cotidiana apresentada de forma artificial, dotada de maior graça e entremeada de histórias, distanciada da realidade pelas máscaras, mas aproximando-se dela nos costumes. Isso os alegra feito crianças, e eles voltam a gritar, bater palmas e fazer barulho. De dia ou de noite, de meia-noite a meia-noite, são sempre os mesmos.”

 

“Todas essas pessoas têm algo em comum, tanto porque pertencem a uma mesma nação—a qual, dotada de imensa vida pública, está sempre a discursar apaixonadamente—quanto porque se imitam uns aos outros. A isso vem se juntar uma pronunciada linguagem gestual a acompanhar a expressão de suas intenções, opiniões e sentimentos.”

 

“Meu velho dom de ver o mundo com os olhos do pintor cujos quadros acabei de contemplar, conduziu-me a um pensamento singular. É evidente que os olhos se formam em consonância com os objetos que divisaram desde a infância, e, sendo assim, o pintor veneziano há de ver tudo com maior clareza e limpidez do que outros homens.  Nós que vivemos numa terra ora imunda, ora poeirenta, incolor, a obscurecer qualquer reflexo, muitos atém em cômodos apertados, não podemos, por nós próprios, desenvolver uma visão assim jubilosa.”

Mundo-Provérbio:

“Hoje apresentaram Le baraffe chiozzote no teatro S.Luca, título que talvez pudesse ser traduzido por ´Brigalhadas e algazarras de Chiozza´… O que ela tem de mais bem sucedido expressa-se numa personagem que se apresenta como se segue:  um velho barqueiro, cujos membros e principalmente os órgãos da fala paralisaram-se em virtude de uma vida dura desde a infância, apresenta-se como o oposto do povo agitado, falante e ruidoso; ele sempre principia por mover os lábios, valendo-se também do auxílio das mãos e braços, até finalmente pôr para fora o que quer dizer. Como, porém, ele logra fazê-lo com frases curtas, adquiriu uma seriedade lacônica, de tal forma que tudo o que diz soa proverbial ou sentencioso, terminando, assim, por conferir um belo contraponto ao restante da ação, desenfreada e apaixonada.”

 

“Quisera eu poder mandar aos amigos ao menos um sopro dessa existência mais leve… Somente o clima estimular-me-ia a preferir o lado de cá ao lado de lá das montanhas, afinal, a terra natal e o hábito são grilhões poderosos.Eu não gostaria de morar aqui, bem como em lugar algum onde eu não tenha uma ocupação; no momento, o novo dá-me muito o que fazer (…) Deus do céu, como volto a comprazer-me de tudo o que sempre dei valor, desde a infância! Como estou feliz por ousar aproximar-me novamente dos escritores da Antigüidade! (…) Se não tivesse tomado a decisão de fazer o que agora estou fazendo, eu teria simplesmente perecido—a tal ponto amadurecera já em meu espírito o desejo de contemplar com meus próprios olhos esses objetos de arte. O conhecimento histórico não me animava, as coisas estavam a um palmo de distância, mas apartadas de mim por um muro impenetrável. Mesmo agora, a minha impressão não é, de fato, a de que as estou vendo pela primeira vez, mas sinto-me como se as estivesse revendo.”

[Bolonha, falando de Rafael ou de si]: “…a fim de conhecer bem Rafael, a fim de apreciá-lo com propriedade em vez de louvá-lo como a um deus que, como Melquisedeque, teria nascido mesmo  sem pai nem mãe, faz-se necessário examinar seus precursores, seus mestres. Estes tomaram pé no terreno sólido da verdade, deixaram com diligência e angústia os amplos alicerces e, competindo entre si, ergueram a pirâmide passo a passo até as alturas, até que, por fim, apoiado em todo esse trabalho prévio e iluminado pelo gênio celestial, Rafael depositou a última pedra no topo, aquela que nenhuma outra é capaz de igualar ou superar”.

 

“Tomara tivesse a sorte  conduzido Albrecht von Dürer mais para o Sul da Itália! Em Munique, vi uma ou duas obras dele de inacreditável grandeza. O pobre homem equivoca-se nos cálculos em Veneza… na viagem pela Holanda troca por papagaios as magníficas obras de arte com as quais pretendia fazer fortuna e, para economizar nas gorjetas, retrata os serviçais que lhe trazem um prato de frutas! A mim, comove-me profundamente um pobre de um artista assim, porque, no fundo, este é também o meu destino, a não ser pelo fato de que eu sei cuidar um pouco melhor de mim”.

…a arte é como a vida, quanto mais se avança por ela, mais ampla ela se faz. Em seu firmamento surgem sempre novas estrelas e incapaz que sou de avaliá-las, elas me confundem (…) Independentemente da confusão em que me encontro, sinto já que o exercício, o conhecimento direto e meu interesse começam a vir em meu auxílio nesses labirintos. Assim uma ´Circuncisão´ de Guercino impressionou-me muito, porque já o conheço e aprendi a amá-lo. Perdoei-lhe o caráter desagradável do objeto escolhido e deliciei-me  apenas com a execução…”

 

“… encontrei uma ´Santa Ágata´, uma pintura preciosa, embora em um estado de conservação não muito bom. O artista [ele supõe ser Rafael] conferiu-lhe um saudável e decidido aspecto virginal,  sem contudo dotá-lo de frieza ou rudeza. Guardei muito bem sua figura em minha mente e, em meu espírito, lerei para ela minha ´Ifigênia´, sem permitir que minha heroína diga uma única palavra que essa santa não desejasse pronunciar.” 

“Uma antiga observação voltou-me à mente aqui: a de que, no curso do tempo que tudo muda, o homem tem grande dificuldade em libertar-se daquilo que uma determinada coisa foi no passado, uma vez tendo ela se modificado. As igrejas cristãs seguem aferrando-se à forma de basílica, ainda que a do templo talvez favorecesse o culto em maior medida. Instituições científicas têm ainda o aspecto de mosteiros, porque foi nesse ambiente religioso que os estudos desfrutaram pela primeira vez de espaço e sossego. As salas dos tribunais italianos são tão amplas e altas quanto o permite a riqueza de uma comunidade; acreditamos estar na praça do mercado, ao ar livre, que é onde o direito era praticado no passado. E não seguimos construindo teatros enormes, abrigando sob um mesmo teto todo o seu aparato, como se se tratasse de uma barraca de feira montada com tábuas para durar pouco tempo?”

 

[Perúgia]: “…desde a partida de Veneza, a roca desta minha viagem já não fia livre e desembaraçada como antes”.

 

[Terni]: “Subi o Spoleto e estive no aqueduto que é, ao mesmo tempo, a ponte que conduz de uma montanha a outra… Essa é, pois, a terceira obra da Antigüidade que vejo pessoalmente,e a grandiosidade é sempre a mesma. Sua arquitetura é uma segunda natureza, atuando em consonância com os interesses dos cidadãos—assim é com o anfiteatro, o templo e o aqueduto. Somente agora sinto o quanto, e com que razão, as arbitrariedades sempre me foram detestáveis, como o Winterkasten em Weissenstein, por exemplo, um nada a serviço de coisa alguma, um confeito ornamental, e assim é com milhares de outras coisas. E tudo isso se ergue natimorto, pois o que não possui uma verdadeira existência interior não possui vida, tampouco podendo ser ou tornar-se grandioso.”

     Quanta alegria e quanta compreensão devo às últimas oito semanas! Mas também meu esforço não foi nada pequeno. Mantenho os olhos sempre abertos e registro bem em minha mente tudo o que vejo. Julgar, não desejo, tanto quanto me é possível não fazê-lo.”

                                “…a força da magia romana…”

                                “E, no entanto, prevejo que, quando tiver de partir,

                               desejarei que estivesse chegando.”

                              “…alegre veneração de sua grandeza…”

*****************ROMA******************************

 

“Finalmente posso abrir a boca  e saudar meus amigos com alegria. Perdoai-me o segredo e a viagem subterrânea, por assim dizer, até aqui. Mal ousava dizer a mim mesmo aonde estava indo; já a caminho, sentia medo ainda, e somente sob a Porta del Popolo tive certeza de que, afinal, teria Roma (…) Foi somente quando vi todos acorrentados ao norte de corpo e alma, quando vi desaparecer todo o anseio por estas paragens, que logrei decidir-me a fazer esta longa e solitária viagem em busca do centro para o qual me atraía uma necessidade irresistível. Sim, pois, nos últimos anos, esse anseio transformou-se numa espécie de doença da qual apenas a visão disto tudo e minha presença aqui podiam curar-me (…) Agora estou aqui, calmo, tranqüilizado para toda a vida, ao que parece. Sim, pois pode-se dizer que uma nova vida tem início quando se vê com os próprios olhos aquilo que, em parte, se conhece tão bem, por dentro e por fora. Todos os sonhos de minha juventude, vejo-os agora ganhar vida; as primeiras gravuras em cobre de que me lembro (meu pai pendurou vistas de Roma em uma ante-sala), eu agora as vejo de verdade, e tudo quanto eu conheço há tempos, de pinturas e desenhos, gravuras em cobre e madeira, em gesso e cortiça, apresenta-se agora reunido diante de mim; aonde quer que eu vá, encontro velhos conhecidos num novo mundo; tudo é como eu imaginava, e tudo é novo. A mesma coisa posso dizer de minhas observações, de minhas idéias. Nenhum pensamento inteiramente novo me ocorreu, mas os velhos tornaram-se tão definidos, tão vivos, tão coerentes, que poderiam passar por novos.” (Primeiro de Novembro de 1786)

“…não há maneira  de alguém se preparar para Roma senão em Roma (…) Quando contemplamos uma tal existência de mais de dois mil anos, modificada em tantos aspectos e tão profundamente pela mudança dos tempos—e, não obstante, ainda o mesmo solo, a mesma colina, ou até, com freqüência, a mesma coluna e as mesmas paredes, e, no povo,os vestígios do antigo caráter—fazemo-nos companheiros dos grandes desígnios do destino, de modo que, desde o início, se torna difícil para o observador acompanhar uma Roma seguindo-se à outra, e não apenas a nova à antiga, mas as diversas épocas de uma e outra sucedendo-se (…) E essa enormidade que é Roma possui um efeito tranqüilizador sobre nós, ao corrermos para lá e para cá pela cidade, em busca da mais elevada arte. Noutras partes, tem-se de procurar o que é significativo; aqui, ele se impõe sobremaneira, inundando-nos.”

 

“Na basílica de São Pedro, logrei compreender como a arte, assim como a natureza, é capaz de abolir toda e qualquer noção comparativa de medida.”

“… não se tem, se não se está em Roma, a menor idéia de como se é nela escolado. É preciso renascer, por assim dizer, e então as idéias que se tinha antes serão vistas como sapatinhos de criança.”

“O renascimento que me transforma de dentro para fora segue seu curso. Por certo, eu acreditava que fosse aprender de verdade aqui; mas não pensei que fosse ter de voltar à escola primária, que precisaria desaprender, ou verdadeiramente reaprender tanto. Disso já me encontro agora convencido, tendo-me entregado por completo a esse aprendizado e quanto mais me vejo obrigado a negar a mim mesmo, tanto mais me alegro. Sou como um arquiteto que, desejando construir uma torre, escolhe uma fundação ruim; a tempo, apercebe-se disso e demole o quanto já erguera; busca, então, ampliar e aperfeiçoar seu projeto, dar-lhe alicerces mais seguros e compraz-se já, de antemão, da indubitável solidez da futura construção. Conceda-me o céu que, quando do meu retorno, também as conseqüências morais resultante desta minha vida num mundo mais amplo se façam sentir, pois, justamente com a percepção para a arte, também o meu senso moral vem passando por grande renovação.”

 

“Vivo aqui numa paz e clareza mental que havia muito não sentia. Minha prática de buscar ver e ler todas as coisas como elas são, minha fidelidade ao propósito de ter os  olhos sempre límpidos, meu completo despojamento de toda pretensão mais uma vez são de grande valia para mim, fazendo-me, em segredo, muito feliz (…) Quem, com seriedade, põe-se aqui a olhar em torno e tem olhos para ver, há de tornar-se sólido, há de apossar-se de uma idéia de solidez que jamais se lhe fez tão vívida (…) alcançando uma seriedade desprovida de aridez, uma alegre serenidade (…) Alegro-me das abençoadas conseqüências que isso trará para toda a minha vida(…) Não estou aqui para me divertir, quero aplicar-me no estudo das grandes coisas, aprender e me desenvolver, antes de chegar aos quarenta anos.”

 

“Na Farnesina, vi a história de Psique, cujas reproduções coloridas alegram meus aposentos há tanto tempo; depois,em S. Pietro in Montorio, a ´Transfiguração´ de Rafael. Velhas conhecidas, como amigos que fazemos por carta no exterior e, então, conhecemos pessoalmente. Mas a convivência é algo inteiramente diferente: concordâncias e discordâncias revelam-se de imediato.”

 

“Já me haviam falado sobre o abade Monti e sua Aristodemo (…) O herói, como se sabe, é um rei de Esparta que, devido a toda sorte de escrúpulos a atormentar-lhe a consciência,se suicida, e, de forma delicada,deram-me a entender que o autor de Werther decerto não levaria a mal se encontrasse algumas passagens de sua primorosa obra repetidas na peça. Assim, nem mesmo dentro dos muros de Esparta, pude escapar dos irados transes desse desafortunado jovem.”

 

“…Michelangelo conquistou-me de tal maneira que,no momento, nem mesmo a natureza me apetece tanto, já que não posso vê-la com tão grandes olhos quanto os seus. Quem dera houvesse um jeito de podermos fixar essas imagens na própria alma!”

 

“Nada há, de fato, que se compare à nova vida que a contemplação de uma terra estranha descortina no homem afeito à reflexão. Embora eu siga sendo sempre a mesma pessoa, creio ter mudado até os ossos (…) de modo que considero o dia em que cheguei a Roma como a data do meu segundo nascimento, de um verdadeiro renascimento”.

“…estou velho demais para tudo, menos para o que é verdadeiro”.

“Os jovens artistas, acostumados a minhas obras anteriores, mais impetuosas e incisivas, esperavam por algo como o Berlichingen, não logrando se encontrar de pronto no andamento mais calma de Ifigênia… Tischbein, também ele mal podendo compreender essa renúncia quase total à paixão, saiu-se com um gracioso símile ou símbolo. Comparou-a a um sacrifício cuja fumaça, impedida de subir por uma suave pressão do ar, desliza pelo chão,  enquanto a chama busca mais livremente ganhar as alturas (…) Assim, esse trabalho que eu acreditava terminar logo me entreteve  e me deteve por todo um trimestre, ocupando-me e atormentando-me. Não é a primeira vez que me dedico apenas paralelamente ao que há de mais importante…”

 

“Torna-se para mim,agora, cada vez mais difícil prestar contas de minha estada em Roma; assim como o mar se faz cada vez mais profundo quanto mais o adentramos, assim acontece comigo na contemplação desta cidade.”

 “…segundo as leis de que se vale a natureza, aquelas em cujo encalço me encontro.”

“Da  beleza de se percorrer Roma em  plena luz da luz não fará idéia quem jamais a viu assim. Todos os detalhes são engolidos pelas grandes massas de luz e sombra, de modo que somente as formas maiores e mais gerais apresentam-se aos nossos olhos… Visão de suprema beleza oferece o Coliseu. Ele é fechado durante a noite… os mendigos aninham-se sob as arcadas em ruínas. Estes haviam acendido uma fogueira no chão, e uma brisa calma soprava a fumaça rumo à arena, de modo a recobrir a porção inferior das ruínas e salientar, na escuridão, as gigantescas muralhas acima; nós estávamos postados junto à grade,  contemplando o fenômeno, a lua alta e luminosa. Pouco a pouco, a fumaça foi atravessando as paredes, vãos e aberturas, com a lua a iluminá-la feito se tratasse de uma névoa. A visão foi preciosa. Assim, sob essa luz é que se deveria ver o Panteão, o Capitólio, o átrio da basílica de Sã Pedro e outras grandes ruas e praças. E assim é que o sol e a lua, tal qual o espírito humano, têm aqui um papel bastante diferente daqueles que desempenham em outros lugares–aqui, onde massas gigantescas, mas de formas bem definidas, apresentam-se ao seu olhar.”

[em Fondi, belas soluções aliterativas do tradutor]: “Peço perdão pela pena apressada. A fim de poder apenas escrever, sou obrigado a escrever sem pensar”.

 

******************* NÁPOLES*************************

25 de fevereiro de 1787:

“O napolitano acredita-se dono do paraíso e tem dos países do Norte uma idéia bastante triste: ´Sempre neve, case di legno, gran ignoranza, ma danari assai´. Essa é a imagem que ele tem de nossa condição. Para a edificação de todos os povos alemães, eis a tradução dessa caracterização: ´Sempre neve, casas de madeira, grande ignorância, mas dinheiro de sobra´.”

“Não estou à procura de aventuras em virtude de uma curiosidade leviana ou esquisitice, mas, como em geral tenho clareza de pensamento e logro rapidamente extrair de cada objeto sua singularidade, posso fazer e ousar mais do que outras pessoas.”

“De tremores de terra, nada se sente agora na porção inferior da Itália; no Norte, Rimini e localidades vizinhas foram afetas em data recente. Terremotos têm humores estranhos, e aqui se fala deles como se fosse do vento ou do tempo, ou como, na Turíngia, falam dos incêndios.”

“Alegra-me que estejais agora vos familiarizando com a nova versão de Ifigênia; mais contente ter-me-ia deixado se a diferença vos houvesse parecido mais perceptível. Sei o que fiz com a peça, e posso falar a respeito porque poderia avançar ainda mais nas modificações. Se desfrutar do bom causa alegria, alegria maior dá saborear do melhor e, na arte, apenas o melhor é bom o suficiente”;

 

“…um homem excelente que conheci por esses dias. Trata-se do cavaleiro Filangieri, famoso por sua obra sobre legislação. Pertence ele à classe daqueles jovens veneráveis que mantém os olhos voltados para a felicidade e a liberdade dos homens (…) O cavaleiro  logo apresentou-me um antigo escritor em cujas insondáveis profundezas esses jovens italianos amantes da justiça encontram ânimo e instrução; ele se chama Giovan Batista Vico, e eles o preferem a Montesquieu. Uma rápida leitura do livro, que me passaram qual se tratasse de uma relíquia sagrada, deu-me a impressão de ter encontrado  ali antevisões sibilinas do bom e do justo que um dia virão, ou deveriam vir, antevisões estas baseadas na rigorosa contemplação da tradição e da vida. É muito bonito que um povo tenha um tal homem por antepassado.”

“Lembro-me ainda de outros desses comentários jocosos,os quais, no entanto, não tenho coragem de relatar. Provindos de uma boca bonita e na vida real, eles são perfeitamente admissíveis,mas em preto e branco já nem a mim agradam. Ademais, a ousadia insolente tem por particularidade o fato de proporcionar alegria somente no momento em que ocorre e devido ao espanto que causa; se narrada, porém, ela nos parece ofensiva e repugnante.”

 

“Nápoles inspira desleixo e tranqüilidade no viver; ainda assim, vou adquirindo pouco a pouco uma imagem mais completa da cidade.

    No domingo, estivemos em Pompéia. Muita desgraça já aconteceu no mundo, mas poucas capazes de causar tanta alegria à posteridade. Não saberia dizer com facilidade o que existe de mais interessante do que Pompéia.”

[alguns dos nossos acompanhantes]“…julgando que seria impossível viver sem aquela vista para o mar. A mim, basta-me ter essa imagem guardada em mim e, quando chegar a hora, retornar às montanhas.

   Felizmente, temos aquium excelente pintor de paisagens {Christoph Henrich Kniep], capaz de comunicar ao papel a sensação provocada por esta vasta e rica região. E ele já fez alguns trabalhos para mim.

   Já pude estudar bem o material colhido no Vesúvio; tudo se torna diferente quando examinado em seu conjunto. Na verdade, eu deveria dedicar o resto de minha vida à observação; descobriria coisas que talvez contribuissem para ampliar o conhecimento humano. Informar, por favor, a Herder que sigo aprofundando minhas investigações botânicas; o princípio é sempre o mesmo, mas seria necessária toda uma vida para desenvolvê-lo. Talvez eu ainda possa traçar-lhe as linhas básicas.”

“Com sua costumeira e decidida sinceridade, Hackert me disse: ´O senhor possui habilidade, mas não consegue fazer coisa alguma. Fique comigo dezoito meses e produzirá coisas que darão alegria ao senhor e a outros homens´. Não é esse um texto sobre o qual se deveria fazer uma pregação eterna a todos os diletantes?…

     Testemunho da confiança particular com que a rainha o honra é não apenas o fato de Hackert dar aulas práticas às princesas,mas sobretudo o fato de ser convocado com freqüência à noite para conduzir conversas instrutivas sobre arte e de tudo quanto a cerca. Nelas, toma como base o dicionário de Sulzer, escolhendo um ou outro verbete, segundo sua vontade e convicção.

     Não pude deixar de aprovar tal prática e de rir de mim mesmo. Que diferença há entre um homem que deseja edificar-se de dentro para fora e outro que pretende atuar sobre o mundo e instruí-lo para uso doméstico! Sempre detestei a teoria de Sulzer em virtudede sua equivocada premissa básica, e pude ver agora que essa obra contém muito mais do que as pessoas necessitam.”

“Nápoles é um paraíso, todos vivem numa espécie de esquecimento embriagado de si próprios. Assim é comigo também, que mal me reconheço; pareço a mim mesmo uma pessoa totalmente diferente. Ontem  pensei comigo: ´Ou você era louco antes, ou tornou-se agora´.”

É somente nessa região que se apreende o  que é, de fato, vegetação e por que razão se cultiva a terra.”

“Em duas semanas estará decidido se vou para a Sicília. Nunca antes oscilei dessa maneira tão estranha na tomada de uma decisão. Um dia ocorre algo que me aconselha a ir; no dia seguinte, uma circunstância qualquer desaconselha-me a viagem. Dois espíritos brigam por mim.”

 

“Noto que minha Ifigênia teve destino peculiar; estavam todos muito acostumados à forma original, conheciam as palavras, ouvidas e lidas com freqüência e, assim, absorvidas; agora tudo soa diferente, e vejo que, no fundo, ninguém me agradece pelo infindável esforço (!!??). Um trabalho assim jamais ficará pronto, na verdade, tem-se de dá-lo por terminado depois de ter feito o máximo possível, tomando-se em conta o tempo despendido e as circunstâncias.

   Isso, porém, não há de me desencorajar a empreender com o Tasso operação semelhante. Preferiria queimá-lo; mas persistirei na minha decisão, e, não havendo outro jeito, façamos dele uma obra estranha.”

“Se em Roma, o que se deseja é estudar, aqui se quer apenas viver; esquecemos de nós mesmos e do mundo, e causa-me uma sensação peculiar conviver tão-somente com pessoas dispostas a gozar a vida. Depois de tanta paixão pela arte e de um tão longo estudo da natureza, o cavaleiro Hamilton, que segue ainda vivendo aqui na qualidade de embaixador inglês, encontrou agora numa bela moça o ápice de toda a alegria proporcionada pela natureza e pela arte.”

“Quando me ponho a escrever, o que vejo diante dos olhos são sempre imagens da terra fértil, do mar aberto, das ilhas enevoadas, da montanha fumegante, e meus sentidos não bastam para descrever tudo isso. Somente aqui é se compreende como pôde ocorrer ao homem cultivar a terra… Vi muitas coisas, e refleti ainda mais: o mundo vai se abrindo mais e mais, e, mesmo aquilo que já sei há muito tempo, somente agora faz-se de fato meu. Que criatura de saber precoce e prática tardia é o homem.”

“Sintetizo tudo quanto posso, e levo muito de volta comigo, incluindo-se aí, por certo, o amor pela pátria e a alegria de viver com poucos amigos.

     Quanto à minha viagem à Sicília, os deuses têm ainda nas mãos os dois pratos da balança, o fiel oscilando entre um lado e outro.”

Às vezes penso em Rousseau e em suas lamúrias hipocondríacas e, com efeito, faz-se-me compreensível como uma organização tão bela pôde desordenar-se. Não sentisse eu tamanho interesse pelas coisas da natureza, não visse que, em meio à aparente confusão, centenas de obsrvações deixam-se comparar e ordenar–e do mesmo modo como o agrimensor verifica diferentes medições isoladas com o auxílio de uma única linha– eu decerto, e com freqüência, tomaria a mim mesmo por maluco.”

[no Vesúvio]:

“Por mais que tenhamos ouvido falar de uma coisa, sua peculiaridade somente se nos apresenta de fato mediante a observação direta. A torrente de lava era estreita, de largura não superior a 10 pés, mas a maneira como ela escorria por uma superfície suave, relativamente plana, chamava bastante a atenção; e isso porque, resfriando-se nas laterais e na superfície em seu contínuo escorrer, ela forma um canal a erguer-se mais e mais, pois também o material fundido solidifica-se embaixo da torrente de fogo, a qual vai em igual medida lançando à esquerda e à direita a escória a flutuar na superfície, o que faz com que um dique vá aos poucos se erguendo, e é por ele que a torrente incandescente vai fluindo sossegada, como se fosse um regato. Seguimos ladeando o dique já relativamente elevado, a escória rolando com regularidade pelas laterais aos nosso pés. Atraés de algumas lacunas no canla, pudemos ver de baixo o fluxo incandescente e, conforme ele seguia escorrendo, observá-lo de cima também… Eu queria aproximar-me do ponto no qual a lava jorra da montanha… Arriscamos ainda alguns passos,mas o chão fazia-se cada vez mais em brasa; sufocante e obscurecendo o ar, remoinhava uma fumaça intransponível.O guia, que fora na frente, logo deu meia-volta, agarrou-me e escapamos daquele inferno.”

“O mais magnífico pôr-do-sol e um anoitecer celestial reanimaram-me no caminho de volta;pude, contudo, sentir quão perturbador um contraste tão gigantesco pode vir a ser. O terrível e o belo, o belo e o terrível, ambos anulando-se para produzir uma sensação de indiferença. Com certeza, o napolitano seria um outro homem se não se sentisse encurralado entre Deus e Satanás.”

 

“Não fosse pela índole alemã e pelo desejo de aprender e fazer sempre mais, em vez de gozar a vida, eu talvez devesse permanecer pormais algum tempo aqui, nesta escola do viver com leveza e alegria… Decerto, quem tem temo, habilidade e fortuna pode também aqui se fixar com conforto. Assim foi que Hamilton construiu em Nápoles uma bela vida, da qual agora goza, no crepúsculo de seus dias. Os cômodos, que mobiliou ao gosto inglês, são adoráveis, e a vista da sala de canto, única talvez. Abaixo, o mar; à frente, Capri; à direita, Posilipo; mais próximo, o passeio de Villa Reale; à esquerda, uma antiga construção dos jesuítas e, mais adiante, a costa, de Sorrento até o cabo Minerva. Dificilmente se encontrará em toda a Europa algo semelhante, decerto não no centro de uma grande e populosa cidade.”

“… eu, particularmente, necessito bastante da amplidão…”

“Por certo, melhor seria não retornar, se não posso fazê-lo renascido.”

“Meu relacionamento com Kniep já se definiu e se consolidou de forma bastante prática… Combinamos, pois , o seguinte. De hoje emdiante, vamos viver e viajar juntos, sem que ele tenha que se preocupar com outra coisa que não seja desenhar o que virmos. Todos os esboços serão de minha propriedade, mas, a fim de que daí resulte um prosseguimento de sua preocupação quando de nosso regresso, ele executará alguns trabalhos para mim até uma determinada soma, finalizando alguns quadros…”

“Favor dizer a Herder que estou próximo da solução do problema da planta primordial…”

“… na quinta-feira, dia 29 de março, finalmente parto para Palermo… A dúvida quanto a ir ou ficar perturbou uma parte de minha estada aqui; agora, porém, que já me decidi, sinto-me melhor. Para uma índole como a minha, essa viagem é sauda´vel e mesmo necessária; a Sicília remete-me à Ásia e à África, e poder estar eu próprio no maravilhoso centro para onde convergem tantos raios da história mundial não é pouca coisa. Nápoles, eu a tratei à sua própria maneira; fui tudo, menos aplicado, mas vi muita coisa e pude formar uma idéia geral do lugar, de seus habitantes e das condições de vida aqui… De modo geral, há aqui um anseio e uma vontade muito grande voltadas para a aquisição de cultura e saber. As pessoas, contudo, são felizes demais para encontrarem o caminho certo…”

“Decerto estou aprendendo a viajar com esta viagem, mas, se estou aprendendo a viver, não sei. As pessoas que parecem saber fazê-lo são de natureza e temperamento deveras distintos dos meus para que eu possa alimentar qualquer pretensão de possuir eu próprio esse talento.”

“Essa noite, sonhei de novo  com minhas ocupações. De fato, eu não poderia descarregar meu barco de faisões em outra parte que não em vossas praias. Possa ele, pois, ser carregado condignamente!”

Viagem de barco de Nápoles à Sicília:

“…logo atacou-me um enjôo. Recolhi-me a meu quarto, decidi-me pela posição horizontal e, além de pão branco e vinho tinto, abstive-me de qualquer outra comida ou bebida, sentindo-me então bastante confortável. Apartado do mundo exterior, deixei viger o interior e como era de se prever que a viagem seria lenta, impus-me logo, a título de significativo entretenimento, tarefa das mais pesadas.  De todos os meus escritos, trouxera comigo para a travessia apenas os dois primeiros atos do Tasso, escritos em prosa poética. Ambos esses atos, mais  ou menos similares à versão atual no tocanto a enredo e desenvolvimento, mas escritos dez anos atrás, tinham algo de incerto e nebuloso, algo, poém, que não tardou a desaparecer tão logo eu, munido de novas concepções, permiti que a forma imperasse e o ritmo surgisse.”

“Arrisquei-me algumas vezes a subir ao convés, sem contudo abandonar meu propósito  literário e tinha já a peça toda sob relativo controle (…) O plano de minha peça havia prosperado bastante ao longo desses dias na barriga da baleia. Sentia-me bem e pude, então, do convés, admirarcom atenção a costa siciliana.”

 

*****************SICÍLIA *****************************************

“… se existe algo que tenha sido decisivo para mim, essa viagem o foi…”

“A Itália sem a Sicília não forma em nossa alma um quadro completo; somente aqui se tem a chave para o todo”.

Palermo:

“Satisfeitíssimos com a localização de nosso quarto, mal notamos a presença, no fundo, de uma alcova elevada, oculta por cortinas e contendo a mais ampla das camas, a qual, ostentando um dossel de seda, encontrava-se em perfeita harmonia com o restante da mobília, toda ela antiga e imponente. De certo modo, a suntuosidade do aposento embaraçou-nos, e nós, como de costume, quisemos negociar as condições. O velho disse, porém, que aquilo não era necessário e que desejava apenas que nos sentíssemos bem em sua hospedaria. Podíamos, ademais, fazer uso da ante-sala, que, fresca e arejada, dispunha de várias sacadas e ficava bem ao lado de nosso quarto. Deleitamo-nos com a variedade infinda da paisagem e procuramos registrá-la em pinturas e desenhos, pois o que se pode ver aqui é uma fonte inesgotável para todo e qualquer artista.”

“A primeira coisa que fizemos foi examinar melhor a cidade, que, embora possa ser contemplada com facilidade em seu todo, é difícil de se conhecer em detalhes … o interior da cidade confunde o forasteiro, que somente logra se encontrar nesse labirinto com o auxílio de um guia.

    Ao anoitecer, dedicamos nossa atenção à fileira de coches do conhecido passeio dos mais nobres em direção ao ancoradouro, para onde se dirigem à cata de ar fresco, conversação e, talvez, algum galanteio.”

“Quem nunca se viu rodeadopelo mar não temidéia do que seja omundo e sua relação com ele. Como desenhista de paisagens, essa grande e simples linha do horizonte infundiu-me pensamentos inteiramente novos.”

“Inexistem palavras para descrever a claridade vaporosa que pairava ao longo da costa quando, no belíssimo entardecer, navegávamos rumo ao porto de Palermo.  A pureza dos contornos, a suavidade do todo, a variedade de tons cedendo lugar uns aos outros, a harmonia entre  céu, mar e terra. Quem o viu jamais se esquece. Somente agora entendo os quadros de Claude Lorrain e tenho esperança de um dia, de volta ao Norte, extrair de minha alma silhuetas deste lugar feliz. Se ao menos toda a pequenez pudesse ser daí extirpada, assim como expurguei da minha idéia do desenho a pequenezdos tetos de palha! Veremos, pois, o que esta rainha das ilhas é capaz de fazer.”

“…por todo o vale a sensação de uma paz revigorante, para mim estorvada pela erudição de um guia inábil a narrar em detalhes…os monstrujosos atos de guerra perpetrados naquele local. Inamistoso, censurei-lhe a evocação fatal de tais fantasmas do passado. Era já ruim o bastante que as semeaduras  fossem de tempos em tempos pisoteadas, ainda que nem sempre por elefantes, decerto por cavalos e homens, disse-lhe, de modo que podíamos ao menos não despertar a imaginação de seus sonhos pacíficos com a  recordação tardia de semelhante balbúrdia.”

“…Ao contrário do que ocorre em Roma, a arquitetura  aqui não é governada por um espírito artístico, as construções adquirem forma e existência unicamente graças ao acaso.  Uma  fonte admirada por toda a população da ilha decerto inexistiria, ão fosse pelo fato de a Sicília possuir um mármore bonito e colorido, e de um escultor exímio no trabalho com figuras animais ter outrora desfrutado de alguns favorecimentos (…) Algo semelhantese verifica com as igrejas, nas quais se excede até mesmoo gosto dos jesuítas pela suntuosidade, o que, no entanto, não se dá em consonância com algum princípio ou propósito, mas por mera casualidade, segundo aquilo que um eventual artífice, entalhador de figuras ou plantas, dourador, envernizador ou marmoreador foi capaz e tenha desejado fazer num determinado lugar, sem qualquer noção de bom gosto ou orientação. Nao obstente, encontra-se aí uma habilidade  para a imitação das coisas da natureza… Com isso, é certo, desperta-se admiração na multidão, cujo gosto pela arte consiste tão-somente em poder comparar o objeto imitado com seu original.”

No local de devoção a Santa Rosália: “Na caverna, o canto dos padres silenciou, a água gotejava e juntava-se no reservatório bem ao lado do altar; os rochedos salientes do vestíbulo e da nave propriamente dita da igreja restringiam ainda mais a cena. Reinava um grande silêncio nesse deserto,  por assim dizer; de novo despovoado, uma grande pureza numa caverna selvagem; o brilho falso do serviço religioso católico, e sobretudo siciliano, fazendo-se ainda mais próximo  de sua natural singeleza; a ilusão produzida pela figura adormecida [uma imagem da santa], encantadora mesmo a olhos experimentados. Enfim, somente com  dificuldade logrei afastar-me daquele lugar …”

“Passei horas calmas e agradabilíssimas no jardim público, bem junto ao ancoradouro. Trata-se do lugar mais maravilhoso do mundo. Embora de um desenho regular, ele parece mágico; plantado há não muito tempo, transporta-nos para a Antiguidade (…) o que conferia ao todo uma graça bastante singular era uma forte névoa espalhando-se uniformemente sobre todas as coisas e produzindo um efeito tão curioso que os objetos, ainda que distantes apenas alguns passos uns dos outros, apresentavam-se destacados por um azul-claro, perdendo, por fim, sua cor própria ou, pelo menos, exibindo-se aos olhos do observador com uma acentuada coloração azulada (…) O que se via não era mais a natureza, mas somente imagens, como as que um pintor de grande excelência teria sabido destacar umas das outras mediante gradações de verniz.

   Contudo, a impressão causada em mim por aquele jardim maravilhoso foi demasiado profunda; as ondas escuras no horizonte ao norte, seu anseio pelas curvas da baía e mesmo o cheiro da própria evaporação marinha–tudo isso me trouxe à mente e à memória a ilha dos bem-aventurados feácios. De pronto corri a comprar um Homero, a fim de ler com grnde devoção aquele canto e, de improviso, traduzi-lo para Kniep..”

Um diálogo:

“E como vai aquele homem, jovem e caloroso à minha época, que era capaz de fazer chover  na cidade? Esqueci seu nome, mas bastará dizer que se trata do autor de ´Werther´.

A pessoa sobre a qual o senhor muito gentilmente pergunta sou eu mesmo.

Então muita coisa deve ter mudado!

Ah sim!, entre Weimar e Palermo passei por muitas mudanças.”

“… nem o mau gosto nem o refinamento brotam diretamente de um único homem ou de uma única época; para ambos pode-se, com alguma dedicação, construir uma árvore genealógica que nos conduza à sua origem.”

“Aproximamo-nos do castelo  [do príncipe de Palagônia]…Qual num cemitério em ruínas, vêem-se ali vasos de mármore herdados do pai e ostentando estranhas e tortuosas formas, anões e outras aberrações de tempos mais recentes, tudo disposto ao acaso… O contra-senso de um tal mau-gosto  no modo de pensar exibe-se em seu grau máximo no fato de que as cornijas das edificações menores pendem tortas para um ou outro lado, de modo que se rompe em nós, atormentado, o senso do nivelamento horizonta e da perpendicularidade, que, na verdade, nos faz seres humanos e encontra-se na base  de toda eurritmia…”

“…o mosteiro de S. Martino é uma construção  respeitável. Um celibatário raras vezes logrou produzir sozinho algo sensato, como se vê pelo príncipe de Palagônia; vários deles juntos, porém, deram origem às obras mais grandiosas, como o demonstram igrejas e mosteiros. Contudo, essas sociedades religiosas decerto tiveram uma atuação tão intensa somente porque, mais ainda  do que qualquer pai de família, estavam seguras de uma descendência ilimitada.”

Máxima de um comerciante de Palermo: “Nossas loucuras, nós as pagamos nós próprios, e com grande prazer; mas, para as nossas virtudes, os outros que nos dêem o dinheiro”.

Após visitar–sob falso pretexto–a humilde e camponesa família do impostor Cagliostro [aquele do caso do colar da rainha da França], figura que fascinava Goethe. A mãe de Cagliostro, acreditando que ele era amigo do filho, pediu-lhe que o lembrasse de uma dívida:

“Minha primeira intenção foi remeter-lhe, antes de minha partida,aquelas catorze onças que o fugitivo lhe ficara devendo… quando, porém, pus-me a fazer as contas em casa, examinando dinheiro e papéis, vi que num país onde a deficiência de comunicação torna as distâncias infinitas, por assim dizer, eu estaria me colocando em apuros ao arrogar-me a possibilidade de corrigir a injustiça de um desavergonhado mediante um ato de sincera bondade”.

“Verdadeiro infortúnio é ser perseguido e tentado por tantos espíritos! Hoje cedo, rumei para o jardim púbico com o firme e calmo propósito de dar prosseguimento a meus sonhos poéticos, mas, antes mesmo que pudesse me dar conta, apanhou-me um outro fantasma que já andava à minha espreita nos últimos dias… À visão de tantas formas novas e renovadas de plantas, voltou-me a mente a velha fantasia de poder, talvez,  descobrir aqui, em meio a toda essa variedade, a planta primordial. Afinal, tem de haver uma tal planta! Do contrário, como poderia eu reconhecer que esta ou aquela forma constitui uma planta, se não  obedecessem  todas elas a um mesmo modelo? (…) Meu  bom propósito poético fora perturbado, o jardim de Alcínoo desaparecera e um jardim universal abrira-se em seu lugar. Por que somos nós, os modernos, tão dispersos? Por que somos tentados a desafios que não podemos enfrentar ou vencer?” Uma das chaves do comportamento fáustico, pois não?

 

“Desfrutei da mais magnífica manhã [em Girgenti] junto à janela, ao lado de meu amigo secreto e silente, mas não mudo. Por respeitosa timidez, não mencionei até agora o nome do mentor a quem, de tempos em tempos, dirijo meu  olhar e minha atenção; trata-se de Von Riedesel, esse excelente homem cujo livrinho eu trago junto do peito qual um breviário ou talismã. Sempre apreciei espelhar-me nessas criaturas possuidoras daquilo que me falta, e assim é também nesse caso: serenidade de propósito, certeza da meta, meios límpidos e apropriados, preparo e conhecimento, estreita relação com um mestre e seus ensinamentos—Winckelmann. Tudo isso me falta, e falta-me ainda tudo quanto daí brota.E, no entanto, não posso me recriminar por tentar capturar, tomar de assalto e com astúcia o que, pelas vias habituais, me foi negado durante toda a vida. Que aquele excelente homem possa sentir neste momento, em meio ao tumulto do mundo, quanto um agradecido seguidor festeja-lhe os méritos, só e no local solitário que também para ele tantos encantos possuía que desejou mesmo passar sua vida aqui, esquecido e esquecendo-se dos seus…”

 

[Caltanissetta]: “…onde tornamos a procurar em vão por uma hospedaria ao menos razoável (…) medidas  tiveram de ser tomadas sobretudo por causa da comida. Ainda a caminho, nós havíamos comprado uma galinha, e o vetturino saiu para comprar arroz, sal e temperos, como nunca estivera antes na cidade, ficamos um longo tempo sem saber onde poderíamos cozinhar, já que a própria hospedaria não oferecia essa possibilidade. Por fim, um cidadão de mais idade dignou-se a, em troca de uma pequena importância, nos ceder fogão, lenha e utensílios de cozinha e mesa, e também, enquanto se preparava a comida, a nos mostrar a cidade e, por fim,  a praça do mercado, onde, à maneira da Antiguidade, os cidadãos mais respeitados encontravam-se sentados, conversando e dispostos a entreter-se conosco também. Tivemos de falar-lhes sobre Frederico II e demonstraram um tão ávido interesse por esse grande rei que nada dissemos sobre sua morte, de modo a não nos fazermos odiosos aos olhos de nossos anfitriões com uma notícia assim tão desditosa”.

 

[em viagem]: “Por esse vale cultivado de forma tão desigual, embora destinado pela natureza a uma fertilidade constante, descíamos algo aborrecidos sobre nossos cavalos, pois, tendo já suportado tantas intempéries, nada vimos que viesse ao encontro de nossos propósitos pictóricos. Kniep esboçou uma bela paisagem longínqua, mas, demasiado horríveis que eram o plano intermediário e o fundo, meteu-lhe, com bom gosto e zombaria, um primeiro plano à Poussin, o que não lhe custou coisa alguma e transformou o desenho num quadrinho bastante bonito. Quantas excursões pictóricas não conterão semelhantes meias verdades?”

 

[Catânia]: “Fomos levados até o príncipe, que, conforme já me haviam dito, nos mostrou sua coleção de moedas num ato de especial confiança, visto que tanto seu pai, no passado, quanto ele próprio, depois, haviam perdido várias delas ao exibi-las dessa maneira, o que reduziu em certa medida sua habitual boa vontade em mostrá-las (…) Aprendi um pouco mais, valendo-me daquele duradouro fio condutor winckelmanniano que nos guia pelas diversas épocas da história da arte…”

 

“Nosso acompanhante clerical não nos faltou. Levou-nos a visitar as ruínas de antigas construções cuja contemplação, porém, demanda do observador um grande talento de restaurador. Mostrou-nos os restos de reservatórios de água, de uma naumaquia e outras ruínas de caráter semelhante, as quais, no entanto, em virtude da repetida destruição da cidade pelas lavas, terremotos e pela guerra, encontram-se de tal forma soterradas ou afundadas que somente ao profundo conhecedor da arquitetura antiga poderão proporcionar alegria e ensinamento”.

 

[Taormina]: “Agradeço a Deus pelo fato de tudo o que vimos hoje já ter sido suficientemente descrito e, mais ainda, pelo fato de Kniep ter se proposto a passar o dia todo de amanhã desenhando. Quando se sobe até o topo das paredes rochosas que, não distantes da praia, alçam-se íngremes às alturas, encontram-se ali dois cumes interligados por uma meia-lua. Qualquer que seja o aspecto que lhes tenha dado a natureza, a arte deu-lhe uma ajuda, construindo aí o semicírculo de um anfiteatro; muros e construções suplementares em tijolo foram acrescidos, provendo as necessárias passagens e salões. Ao pé dos degraus em semicírculo, construíram a cena de maneira transversal, unindo assim, ambos os rochedos e concluindo a gigantesca obra da natureza e da arte.

      Se nos sentamos no ponto mais elevado onde outrora ficavam  os espectadores, temos de admitir que jamais um público de teatro desfrutou de semelhante visão…”

 

[Messina]: “… na verdade, o assim chamado lápis-lazúli das colunas não será senão calcara, mas de uma cor tão bela como eu jamais havia visto,e magnificamente composto. Mesmo sabendo disso, contudo, as colunas permanecem dignas de respeito e admiração, pois uma quantidade imensa daquele material faz-se necessária a fim de que se possam encontrar pedaços tão belos e de mesma cor, e, por fim, o trabalho de cortar, alisar e polir é de grande importância. Mas o que era impossível aos jesuítas?”

 

[no mar]:

 

“…chamaram nossa atenção para um movimento na água, à esquerda, a uma distância  razoável, e, à direita,algo mais próximo, para um rochedo destacando-se na costa—o primeiro era Caribdis; o segundo, Cila. Vez por outra, reclamam da fantasia do poeta, por haver ele aproximado tanto coisas que, na natureza, erguem-se tão distantes uma da outra; desconsideram, porém, que a imaginação dos homens, quando deseja representar objetos emprestando-lhes grande significado, figura-os mais altos do que largos, conferindo, assim, ao quadro maior caráter, seriedade e dignidade. Milhares de vezes ouvi reclamarem que um objeto conhecido apenas por intermédio de narrativas não satisfaz quando contemplado em sua realidade; a causa disso é sempre a mesma: imaginação e realidade relacionam-se do mesmo modo que poesia e prosa—a primeira conceberá os objetos como portentosos e elevados; a segunda espraiar-se-á sempre no plano horizontal. Os pintores de paisagens do século XVI, se comparados aos nossos, oferecem um exemplo notável disso. Um desenho de Joos de Momper ao lado de um esboço de Kniep tornaria evidente o contraste.

     Entretínhamo-nos, pois, com conversas sobre esses assuntos e outros similares, uma vez que a paisagem costeira, a qual Kniep já se preparara para desenhar, não pareceu atraente o bastante nem mesmo a ele.

       Quanto a mim, acometeu-me mais uma vez a desagradável sensação provocada pelo enjôo e, ao contrário do que ocorrera quando de nossa travessia anterior, dessa vez meu estado não se deixou amenizar por intermédio de um confortável recolhimento… Nessa condição, toda a nossa viagem pela Sicília apresentou-se-me sob uma luz nada favorável. Na verdade, não havíamos visto senão vãs tentativas dos homens de se defender da violência da natureza, da pérfida maldade do tempo e do rancor de suas próprias e hostis diferenças. Cartagineses, gregos, romanos, e tantos outros povos que os seguiram, construíram e destruíram. Selinunte foi metodicamente posta abaixo; dois mil anos não foram suficientes para derrubar os templos de Girgenti, mas umas poucas horas, quando não poucos instantes, bastaram para arruinar Catânia e Messina. Não deixei, contudo, que essas considerações verdadeiramente mareadas de alguém a balançar nas ondas da vida tomassem conta de mim.”

 

“E assim a tarde se foi, sem que, conforme desejávamos, alcançássemos o golfo de Nápoles. Ao contrário, fomos sendo compelidos cada vez mais para oeste, e o navio, aproximando-se da ilha de Capri, foi se afastando mais e mais do cabo Minerva. Todos estavam aborrecidos e impacientes; nós dois, porém, contemplando o mundo com olhos de pintor, estávamos muito satisfeitos, e isso porque, ao pôr-do-sol, pudemos desfrutar da vista mais magnífica que essa viagem nos proporcionou. Adornados de cores as mais cintilantes, tínhamos diante dos olhos o cabo Minerva e as montanhas que a ele se juntam, ao passo que os rochedos estendendo-se rumo ao sul haviam assumido uma coloração azulada. Do cabo em diante, espraiava-se toda a costa iluminada até Sorrento. Podíamos ver o Vesúvio com uma gigantesca nuvem de vapor encimando-o, da qual uma longa faixa estendia-se rumo a leste, permitindo supor uma violenta erupção (…) Sob um céu totalmente limpo, sem nuvens, brilhava o mar sereno e quase imóvel que, ante a calmaria absoluta, jazia enfim à nossa frente feito um lago. Encantamo-nos com a vista, e Kniep lamentou que toda a arte das cores não fosse suficiente para reproduzir tamanha harmonia nem tampouco o mais fino lápis inglês capaz de possibilitar à mão mais experiente desenhar semelhantes linhas. Eu, pelo contrário, convencido de que mesmo um registro muito inferior àquele que era capaz de produzir esse hábil artista far-se-ia assaz desejável no futuro, encorajei-o a empenhar mãos e olhos num último esforço; Kniep deixou-se persuadir e produziu um desenho dos mais precisos, colorindo-o depois e deixando um testemunho de que, na representação pictórica, o impossível faz-se possível…”

 

[tumulto a bordo com a embarcação à deriva, revolta com o capitão]: “… a mim, porém, a quem desde jovem a anarquia sempre aborrecera mais do que a própria morte, foi-me impossível continuar calado… Mostrei-lhes que, justamente naquele momento, seu estardalhaço e gritaria só faria confundir os ouvidos e a cabeça dos únicos de quem ainda podíamos esperar salvação, impedindo-os de pensar e se entender entre si.

    Quanto a vós, exclamei, recuperai vosso equilíbrio e dirigi vossas preces à Mãe de Deus, pois somente Dela depende interceder junto a Seu Filho para que Ele faça por vós o que outrora fez por Seus Apóstolos, quando, no lago de Tiberíade, as ondas já invadiam o barco, e o Senhor dormia; acordado, porém, pelos desconsolados e desamparados, ordenou ao vento que se acalmasse, assim como pode também ordenar-lhe que desperte, sendo essa a Sua sagrada vontade.

       Tais palavras produziram o melhor dos efeitos…”

 

***************NOVAMENTE NÁPOLES*************************

  • Uma parte do livro dedicada a HERDER

     “Os gregos, um povo que costumava enaltecer-se a si próprio de forma desmesurada, proferiram sobre essa terra o mais honroso veredicto, ao denominar uma parte dela Magna Grécia”… (Plínio, História Natural)

 

“Pensando bem, há que se aprovar a existência de tantos santos; cada fiel pode escolher o seu e, com toda a confiança, recorrer àquele que de fato atende a suas expectativas. Hoje  [26 de maio] foi o dia do meu…”

 

[sobre o santo Filippo Neri]: “…goza de grande prestígio e, ao mesmo tempo, é lembrado com contentamento; saber de seu elevado temor a Deus é coisa que edifica e alegra, mas conta-se muito também acerca de seu bom-humor (…) A toda essa misteriosa e estranha profundeza de espírito veio juntar-se o mais lúcido bom-senso, o mais puro apreço—ou antes, desapreço—pelas coisas terrenas e a mais ativa solicitude, toda ela dedicada a seu próximo (…) Ocupava-se também da educação dos jovens, ensinando-lhes música e oratória, e propondo-lhes não somente temas religiosos, mas intelectuais também, ensejando sempre estimulantes conversas e debates. O mais singular nisso tudo talvez se afigure o fato de que ele o fazia por iniciativa e responsabilidade próprias, tendo seguido seu caminho por muitos anos sem pertencer a nenhuma ordem ou congregação, e mesmo sem ter sido ordenado sacerdote.Contudo, mais significativo ainda é que tal tenha ocorrido à época de Lutero, e que, bem no meio de Roma, um  homem diligente, temente a Deus, enérgico e ativo tenha igualmente pensado em unir o religioso, e até mesmo o sagrado, ao mundano, em trazer o celestial para o domínio do secular, preparando, assim, também ele, o caminho para uma Reforma. Aí, afinal, e somente aí, está a chave que abrirá as prisões do papado e devolverá ao mundo livre o seu Deus.”

 

“Pessoas belas , nós as encontramos em toda parte, mas aquelas de mais profunda sensibilidade e, ao mesmo tempo, dotadas de órgãos vocais propícios são bem mais raras, e raríssimas aquelas nas quais, a tudo isso vem juntar-se ainda uma figura atraente.”

 

“Como o homem do Norte é obrigado pela natureza a precaver-se e a ajustar-se; como a dona de cada tem de salgar e defumar para bem prover sua cozinha para o ano todo; e o homem, não descuidar da provisão de lenha, frutas e da forragem para o gado—em virtude de tudo isso, pois, a fruição dos mais belos dias e horas é sacrificada em prol do trabalho. Por vários meses, as pessoas mantêm-se de bom grado longe do ar livre, preservando-se do vento, da chuva, da neve e do frio no interior de suas casas; as estações do ano sucedem-se sem cessar, e quem quer que não deseje perecer é obrigado a cuidar muito bem de sua casa. A questão aí, afinal, não é de querer ou não fazê-lo; não se permite ao homem não querê-lo, ele não pode renunciar a tais cuidados, pois não pode viver sem eles; a natureza o obriga a preparar-se e trabalhar. Por certo, essa atuação da natureza, sempre idêntica ao longo de milênios, definiu o caráter das nações setentrionais, tão dignas de respeito em diversos aspectos. Os povos do Sul, por outro lado, com quem o céu foi tão generoso, nosso ponto de vista nos faz julgá-los com demasiado rigor… Não compreendemos de forma correta a condição miserável dessas pessoas: seu princípio de renunciar a tudo teria sido bastante favorecido por um clima que tudo lhes concedia. Um homem pobre, que a nós se afigura miserável, poderá, em tais terras, estar logrando não apenas satisfazer suas necessidades mais simples e imediatas, como também gostando da vida da melhor forma…

      Um filósofo cínico com certeza não duraria muito em nossas terras; no Sul, pelo contrário, a natureza o convida a sê-lo, por assim dizer. Aqui, um homem esfarrapado ainda não está nu…”

 

“É com o maior prazer e simpatia que deparamos aqui em toda parte com uma alegria excepcional… É nosso hábito  julgar bárbaro e sem gosto o amor pelas cores vivas, e, de certa maneira, ele pode de fato ser ou vir a ser assim; contudo, sob um céu verdadeiramente límpido e azul, nada pode ser considerado colorido, pois nada logra ofuscar o brilho do sol e seu reflexo no mar. A cor mais vívida é abafada pela luz poderosa, e como todas as cores—o verde das árvores e plantas, a terra amarela, marrom, vermelha—atuam sobre os olhos, com força total, até mesmo o colorido das flores e das roupas insere-se na harmonia geral…”

 

“A chegada do marquês Lucchesini adiou minha partida por mais alguns dias; alegrou-me muito conhecê-lo. Parece-me tratar-se de um daqueles homens dotados de um bom estômago moral, capacitando-o a comprazer-se sempre da grande mesa do mundo, em vez de, como nós, fartar-se por vezes qual um ruminante, sem poder comer mais nada até que estejam concluídas a segunda mastigação e a digestão.”

 

“De Nápoles, parto agora de bom grado, preciso ir… tornamo-nos aqui cada vez mais inativos. Desde o meu retorno de Paestum, eu pouco vi além dos tesouros de Portici, de forma que resta muito para ver, o que, no entanto, não me fará mover uma palha. Aquele museu, porém, é o alfa e o ômega de todas as coleções de peças da Antiguidade; vê-se ali com clareza quão na frente estava o mundo antigo em sua prazerosa sensibilidade para a arte, embora tenha permanecido muito atrás de nós no tocante a uma mais rigorosa habilidade técnica.”

 

“O criado que veio me trazer o salvo conduto, já expedido, contou-me de imediato, lamentando minha partida, que uma forte torrente de lava expelida pelo Vesúvio tomava agora o caminho do mar (…) Vi-me, então, no maior dos apuros. Passei o dia de hoje [primeiro de junho] fazendo visitas de despedida… Em nosso caminho, decerto não podemos nos privar da companhia dos homens, mas, ainda que nos sirvam e nos dêem prazer, eles acabam também por nos desviar de nossos sérios propósitos, e sem que com isso estejamos prestando qualquer ajuda aos seus. Estou extremamente aborrecido.”

 

“Meu banqueiro, em cuja casa cheguei por volta da hora do jantar, não me deixava ir embora; decerto, tudo isso teria sido muito bonito e bom, não tivesse a torrente de lava atraído minha imaginação. Em meio a diversas atividades, pagamentos e à arrumação da bagagem, a noite veio e eu parti depressa para o molhe. Lá, vi então o fogo, as luzes e seus reflexos, ainda mais oscilantes com o movimento do mar; vi também a lua cheia em todo o seu esplendor ao lado da chuva de fogo saindo do vulcão e, por fim, a laca, antes ausente, em seu caminho incandescente e severo. Eu teria ido até lá, mas as providências para tanto eram demasiado complicadas… Não quis arruinar com minha impaciência a visão de que desfrutava, de modo que, desatento à chegada e saída da multidão, suas interpretações, histórias, comparações, discussões sobre o caminho que a lava tomaria e outros eventuais disparates dessa natureza, permaneci sentado no molhe até meus olhos começarem a se fechar.”

 

“E, de modo semelhante, passei também o belo dia de hoje, decerto extraindo muito proveito e prazer da companhia de excelentes pessoas, mas em total desacordo com meus propósitos e com o coração aflito Ansioso, voltava meu olhar para o vapor que, descendo vagarosamente a montanha rumo ao mar, ia desenhando de hora em hora o caminho tomado pela lava. Tampouco teria a noite livre. Eu havia prometido fazer uma visita à duquesa Giovane… Nascida na Alemanha, ela não desconhecia o modo como nossa literatura se desenvolveu no sentido de um humanismo mais livre e abrangente (…) Anoitecia já, e ninguém ainda trouxera velas. Caminhávamos de um lado para o outro da sala e, aproximando-se  das janelas fechadas por venezianas, a duquesa abriu uma delas, permitindo-me avistar algo que só se vê uma vez na vida. Se ela o fez a fim de surpreender-me, decerto atingiu seu objetivo por completo. Estávamos diante de uma janela do último pavimento, o Vesúvio bem à nossa frente, a lava a escorrer montanha abaixo, as chamas ardendo nítidas depois do pôr-do-sol e a fumaça a acompanhá-las começando a dourar-se; a montanha a esbravejar com violência, uma gigantesca nuvem de vapor pairando imóvel sobre ela, suas diferentes massas iluminadas e apartadas como que por um raio e tomando corpo a cada erupção. Dali para baixo, até próximo do mar, uma esteira de lava e vapores incandescentes; de resto, porém, mar e terra, rocha e vegetação nítidos ao anoitecer, claros, pacíficos, numa tranqüilidade mágica. Somente espanto poderia causar abranger tudo aquilo com um único olhar; a lua cheia ascendendo por detrás do topo da montanha e completando, assim, esse quadro maravilhoso. Do ponto onde estávamos, nosso olha podia abarcar todo esse panorama de uma só vez e, embora não estivesse em condições de examinar com precisão cada objeto isolado, jamais perdia a noção da grandiosidade do conjunto. Se nossa conversa fora interrompida por esse espetáculo, tomava agora um rumo tanto mais aconchegante. Tínhamos diante de nós um texto que milênios não bastariam para comentar.”

 

“Despedi-me…abençoando minha sorte por, à noite, ter sido ainda tão bem recompensado pelas contrariedades do dia. Já sob o céu noturno, disse a mim mesmo que, vista de perto, aquela torrente maior de lava constituiria tão somente uma repetição da outra menor que eu presenciara antes, e que minha despedida de Nápoles não poderia ter sido outra senão a proporcionada por uma tal visão.Em vez de ir para casa, voltei meus passos na direção do molhe, a fim de assistir ao grande espetáculo tendo outro cenário por primeiro plano; não sei, porém, se foi o cansaço ao final de um dia tão cheio, ou um sentimento  de que não devia apagar da minha mente aquela última e bela imagem, mas o fato é que acabei por retornar ao Moriconi, onde, aliás, encontrei Kniep, que, provindo de suas novas acomodações, viera-me fazer uma visita noturna. Diante de uma garrafa de vinho, discutimos nossas futuras relações; pude garantir-lhe que, tão logo eu pudesse apresentar algo de seu trabalho na Alemanha, ele seria recomendado ao ilustre duque Ernst de Gotha, de quem por certo receberia encomendas. Despedimo-nos, pois, com cordial alegria e a perspectiva segura de uma atividade futura mutuamente proveitosa”.

 

“Despedimo-nos  como raras vezes se despedem duas pessoas que o acaso juntou por tão pouco tempo. Talvez se pudesse obter da vida uma maior gratidão e proveito se as pessoas se dissessem com franqueza o que esperam umas das outras”.

 

[3 de junho]

 

“E assim, semi-aturdido,parti de Nápoles, atravessando a vida infindável dessa cidade sem par, que provavelmente jamais voltarei a ver; satisfeito, porém, por não deixar remorso ou dor para trás.”

 

“Como desta vez viajo sozinho, disponho de tempo suficiente para relembrar as impressões dos meses passados… Com muita freqüência, porém, as observações revelam seu caráter lacunar; e se, para aquele que a realizou, a viagem parece passar feito um rio, surgindo em sua imaginação como um fluxo constante, sente-se então que um relato propriamente dito é impossível. Aquele que relata tem de apresentar os eventos separadamente, mas como fazer com que isso forme um todo na alma do outro?


[1] Termo que Goethe usa (e aparece algumas vezes no texto) para a “multidão” ignara, os espectadores, os ouvintes, os comuns, tirado da peça de Aristófanes com esse título, que ele traduziu.

[2] Entendo o termo como “tratando-os como crianças”.

07/09/2010

GATO POR LEBRE: A MANIA DO GÊNIO IGNORADO

“São todos humanos, filhos de Deus, segundo Abel ou segundo Caim. O deus de Abel era manso e bom, e amava o sacrifício dos Abéis do mundo. Já o deus de Caim era ruim e pervertido como os Cains que protegia e a eles recusava a chama loura das aras dos holocaustos…”

      Na Vila do Pasmoso, nas imediações de Cuiabá, Jônatas tenta assassinar o seu gêmeo, Lázaro, devido à ruindade que carrega no sangue, por inveja e por ciúme: é apaixonado pela namorada do irmão, Minira, a quem tenta estuprar, levando um tiro do pai dela. Fugindo, consegue chegar à capital, onde pede guarida a parentes ricos (que sempre ignoraram sua banda da família, a qual vive miseravelmente em Pasmoso), que vivem numa casa senhorial: o primo, Isidoro, está preso a uma carreira de rodas, e impotente, por isso não consegue consumar a paixão que tem pela cunhada, Cecília; o pai de Isidoro, Afonso (que não mora com eles, mas sempre se hospeda na casa por ocasião de finados, em memória da mulher morta, cujo retrato vigia severamente a alucinada prole), por sua vez, deseja a nora, Rosa; o outro filho, Carlos, mantém uma relação incestuosa com a irmã, Sílvia.  É nessa alta-roda degenerada (há sempre festas e cirandas amorosas) que Jônatas vai convalescer, conseguindo engambelar o Afonso no jogo, enriquecendo (o velho é viciado em jogos de azar e vive perdendo dinheiro e propriedades; nesse jogo chega a perder a casa para o sobrinho), e tramando raptar Minira…

Quando consegue seu intento, porém, Carlos, enlouquecido pelo  sentimento de perdição e pecado, dele próprio e da sua gente, bota fogo na mansão…

Deus de Caim foi publicado pela primeira vez em 1968, por uma editora carioca (a terceira edição saiu agora em 2010, pela LetraSelvagem).  De lá para cá, seu autor Ricardo Guilherme Dicke (falecido em 2008), que se retirou para o Mato Grosso, ganhou uma daquelas reputações que beiram o mítico, quando se trata de um autor recluso, fora dos grandes centros: seus admiradores o tomam como um gênio literário.

A carga bíblica do título e da história (inclusive com o clima de juízo final do clímax) e uma linguagem peculiar realmente fazem do livro algo de ambicioso (ainda mais porque o autor tinha pouco mais de 30 anos à época do lançamento original, e vinha consagrado por uma premiação por um júri do qual fazia parte Guimarães Rosa. Na verdade, ele ficou em segundo lugar, perdendo para Jorge, um brasileiro, de Oswaldo França, Jr. E há quem compare essa situação (além de comparar seu universo ficcional ao de William Faulkner) à do próprio Guimarães Rosa, cujo Sagarana também ficou em segundo lugar num concurso dos anos 30, do qual era jurado Graciliano Ramos, para dizer que o vencido era mais ilustre do que o vencedor. Acontece, porém, que Graciliano Ramos fez não só elogios à Sagarana como também severas críticas, o que foi ótimo, pois Rosa só o publicou, depurado, só muitos anos depois. Não foi o caso de Ricardo Guilherme Dicke.

Nada salva Deus de Caim de ser ridículo e pretensioso. Não há nada de gênio recluso e ignorado em  Dicke, trata-se de uma mistificação, gato por lebre, pelo menos nesse romance, que não é nenhuma obra-prima desconhecida, olvidada, tendo de fazer sua reputação à sombra.

Ele é um autor que começa bem[1], tem uns laivos sintático-lexicais (desculpem-me o pedantismo) interessantes, promissores, mas que é incapaz de manter a coerência da sua história, levando-a para discussões sobre arte, literatura e filosofia que são constrangedoras, criando uma mixórdia de enredos, que conseguem se tornar assustadoramente risíveis . Eu já não conseguia mais ler sem rir, gargalhar mesmo (e bem que podia fazê-lo , pois já aturara centenas de páginas ruins[2]), quando Isidoro consegue vencer seu trauma psicológico e possuir a prima, e nisso tudo a casa pega fogo e nos deparamos com trechos como o seguinte, em que o velho patriarca da família dissoluta viola o cadáver da nora em pleno incêndio: “Dava por satisfeito gozá-la enquanto não a enterrassem. Agora pagava bem aquele pouco caso. Sua alma no céu devia estar gozando aquele amor que faziam no seu corpo de cabeça ensangüentada…”

Nada contra o barroco, o hiperbólico, afinal tivemos  Euclides da Cunha. E nada contra esse patológico abeirado do cômico, afinal tivemos Nélson Rodrigues.  Mas toda a parafernália bíblica acionada por Deus de Caim se assemelha, no seu resultado estético-linguístico (novamente, perdoem o pedantismo) àqueles escritores ruins da nossa literatura belle époque, como Afrânio Peixoto.

Às vezes realmente há escritores que, marginalizados e sistematicamente ignorados, trazem algo de novo e raro, como foi o caso, por décadas de Hilda Hilst. Mas é um equívoco misturar recolhimento, e obscuridade com talento e gênio. Os dois nem sempre andam juntos.


[1] Eu comprei o livro (ah, essa mania de querer ler tudo!) porque gostei do título, que acho agora a melhor coisa (junto com a capa, que reproduz uma gravura chamada “O beijo”, de Marcelo Frazão) e do seu início:

“Na rede Lázaro. Zumbidos. O irmão morto na rede. O mundo rodeando sua roda indiferente. Não se importava. Lázaro morto, narinas paradas…” Nas primeiras páginas há uma promessa de algo primordial, infelizmente não cumprida.

E no romance nem tudo é totalmente desinteressante (por exemplo, gosto da maneira como ele mostra a noite de amor, ou estupro consumado, como se queira ver, entre Jônatas e Minira, quando ele consegue raptá-la de Pasmoso e levá-la à mansão; as reações de Minira são melhor elaboradas do que qualquer outra parte do texto).

[2] Veja, leitor, alguns exemplos do “estilo” do livro (deixando de fora o desenvolvimento esdrúxulo do enredo e a tosquice dos personagens):

“Como Mallarmé, já li todos os livros possíveis e impossíveis, já li tudo, poesia, teatro, ensaio, filosofia, romance, crítica, tudo; já ouvi todas as músicas, já vi todas as pinturas e esculturas, já vi todos os filmes; tudo já passou por meus fios cerebrais, religiões, filosofias, estéticas. Que mais existe? Havia estendido baixinho, no quarto, de uma extremidade a outra, a nova antena de rádio. Nas vésperas de chuva aquele fio estirado se enchia de moscas. Pareciam andorinhas num fio de luz, sobre o fio da antena em V, dentro do quarto. Duma vez havia muitas. Pareciam ilusões pousadas no fio da vida. Contou quarenta e duas moscas. Quarenta e duas ilusões. Como fazia, pegou a bomba com inseticida e chif, chif, chif, chif, aspergiu, e uma verdadeira nuvem se enovelou no quarto. Para respirar, encompridou o pescoço para fora da janela, à girafa, até passar o cheiro. No chão, as vítimas. Quase todas. As ilusões mortas. Que farei agora? Que aprendi? Aonde vou? Que lições, que experiências retirei? Acariciava o livrinho e viu uma barata atravessando o soalho, penosamente. Uma barata agonizante pela naftalina, que andava deixando um largo rasto branco de excreção. De repente parou. Morria. Ficou revirada, amassada, torta e quebrada. Mesmo assim andava aos poucos, morrendo e vivendo de teimosia. Ainda movia as patas. Que acontecia no universo àquela hora trágica, em que uma barata arrebentada arrastava no chão a sua ruína…”

 

“A vulva dela era uma máquina cheia de bocas famintas que trituravam açougues. E meu membro era um açougue morto de fome…”

 

“Ele sabia que ele próprio  era um enigma  cheio de complexos, em cujo sangue  corriam  ricas e rubras hemoglobinas de crueldade e ira e vagos e prateados leucócitos  de cobardia e ressentimento. Já aquelas pessoas, uma rara intuição dizia de emaranhadas estruturas e muito mais complexas  e confusas raízes, uma geografia de imbricados gráficos e infinitas disparidades psicológicas.”

(resenha publicada de forma mais condensada em A Tribuna de Santos, em 07 de setembro de 2010)

03/09/2010

CORES PROIBIDAS e sua reputação equívoca

Existe uma certa implicância quando se comenta Cores proibidas [Kinjiki, 1953, aqui no Brasil traduzido por Jefferson José Teixeira], de Yukio Mishima. Esse romance é sempre visto como obra menor, até discutível, dentro da sua extraordinária produção (Marguerite Yourcenar, por exemplo, considera-o “tosco”). O que não se leva em conta é o arrojo experimental de um escritor de 20 e tantos anos (Mishima nasceu em 1925, suicidando-se em 1970), que vinha de um texto nitidamente autobiográfico (e magnífico), Confissões de uma máscara, e que se aventurava numa trama complexa e variada, e ao mesmo tempo altamente estilizada e simbólica.

Nem tudo deu certo, mas Cores proibidas deu fôlego a Mishima, e é como se fosse uma versão mais crua do muito posterior A queda do anjo (título brasileiro do quarto e último volume de O mar da fertilidade, que qualquer lista sensata colocaria entre os cem maiores romances do século XX).

Outro aspecto complicado da equívoca reputação de Cores proibidas é a insistência em afirmar que seu tema é o homossexualismo. A temática homoerótica entra na trama simplesmente porque fazia parte da vida do próprio Mishima, o qual focaliza amplamente a vida gay da Tóquio pós-Segunda Guerra (e que não parece ser muito diferente da vida gay de qualquer outro lugar, embora haja o elemento da ocupação estrangeira, que acrescenta um toque de masoquismo nacionalista à atmosfera já saturada do romance).

Mishima tenta reunir, numa narrativa não-realista, um pacto do gênero Mefistófeles/Fausto com a situação de Pigmalião, através da junção dos destinos de Shunsuke Hinoki, um velho escritor famoso pela sua feiúra e pelo esteticismo árido das suas obras, e que deseja se vingar de algumas mulheres da sua vida, e de Yuichi, um jovem e belíssimo homossexual, pelo qual Yasuko, uma das mulheres que atormentam a vida de Shunsuke, está apaixonada.

O pacto ocorre porque Shunsuke oferece uma grande soma de dinheiro a Yuichi desde que ele se case com Yasuko e a traia constantemente com homens e com algumas mulheres (escolhidas pelo contratante). Yuichi é, de certa forma, a Galatéia de Shunsuke porque vai se tornando a encarnação viva dos ideais estéticos do escritor. Como ele mesmo diz para o seu pactário: “Você não é influenciado pela realidade, mas está continuamente exercendo efeito sobre ela”.

Mas não é bem assim. Acompanhamos o lento aprendizado da realidade pelo jovem Adônis/Narciso (aliás, Mishima força vários paralelos: com Endimião, com Hipólito, com Dorian Gray). Acompanhamos, também, uma trama movimentada, onde quase todos os personagens se apaixonam por Yuichi, enquanto –na surdina—vai se  preparando a virada trágica de Cores proibidas: como Pigmalião, Shunsuke se apaixona pela sua obra, o que desequilibra o pacto e faz com que sua estratégia de vingança e satisfação estética se volte contra ele mesmo, só restando uma saída lógica: o suicídio.

Em nenhum momento, porém, Yuichi chega a fugi da verdade expressa pelo verso de Hölderlin, “o que amamos não passa de aparência”. O interessante, todavia, num livro que é famoso pela sua descrição do gueto homossexual japonês (que Mishima hipertrofiou, repetindo o exagero de Proust quando apresentou o “novo aspecto” de Saint-Loup em A fugitiva, o sexto volume de Em busca do tempo perdido: a partir de certo momento,todos os personagens masculinos revelam-se homoeroticamente motivados, o que é um absurdo), é que as melhores personagens são as femininas, desde a esposa suicida de Shunsuke, a qual aparece pouco, porém marca o livro, passando por Yasuko, até as fascinantes sra. Kaburagi (esposa de um dos amantes de Yuichi e uma das mulheres de quem Shunsuke pretende se vingar) e a própria mãe do herói, a sra. Minami.

Se Cores proibidas é um livro que deixa a desejar é porque tem coisa em excesso e muitas pontas ficam soltas. Um escritor que criou coisas perfeitas (O templo do pavilhão dourado, O marinheiro que perdeu as graças do mar, Neve de primavera, os já referidos Confissões de uma máscara e A queda do anjo) podia se dar a esse luxo.

Resenha publicada originalmente  em “A Tribuna” de Santos, em 25 de junho de 2002.

Cidadãos do Mundo: O novelo da origem e do cosmopolitismo

I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 17 de setembro de 2002)

Em PAISAGENS ORIGINAIS [ Paysages Originels, França, 1999, traduzido por Monica Stahel, edição Difel], Olivier Rolin reúne as cinco matérias que escreveu para “Le Monde” sobre Ernest Hemingway, Vladimir Nabokov, Jorge Luis Borges, Henri Michaux e Yasunari Kawabata. O que há de comum entre eles? Nasceram no mesmo ano, 1899. E, combinando com rara eficácia jornalismo e análise literária, Rolin viajou para os locais onde eles passaram sua infância, descrevendo-os e ao mesmo tempo rastreando-os na obra de cada um, mas em nenhum momento de uma forma óbvia e primária. Ele de fato conhece a obra dos cinco, sendo capaz de fornecer informações biográficas e objetivas e fazer incursões pelos detalhes de um livro de uma forma sutil e orgânica.

O primeiro texto (talvez o melhor de todos), Lá no Michigan, aborda Oak Park, a paisagem original de Hemingwa e por ele tão odiada (assim como a mãe), e que acabou ganhando importância na sua obra por exclusão. Se o menino está no homem, e acreditamos que esteja, é uma delícia ler momentos como o segunte: “o que é Por quem os sinos dobram [romance de Hemingway sobre a Guerra Civil Espanhola]: as férias estonteantes e fatais de um grande pateta americano cujo prazer é aquecer seu rango numa fogueira de acampamento e dormir a céu aberto, no seu saco de dormir sobre um tapete de agulhas de pinheiro”; para Rolin, “o estranho nesse livro é justamente isso: a mistura de uma inteligência histórica, e de um fundo de inquietações primitivas, rústicas, ingênuas, que são as do adolescente do Michigan”. Ao mesmo tempo ironizando a psicanálise e utilizando-a, o autor de PAISAGENS ORIGINAIS construir uma pequena obra-prima na qual podemos perceber o “desenho do tapete de uma vida delineando-se desde o local de seu nascimento até a transfiguração realizada pelos livros.

Assim também ele cria as redes que “apanham”, por assim dizer, dois gênios literários avessos à especulação biográfica e às concepções freudianas, o russo Nabokov e o argentino Borges.

Em Essas coisas distantes, luminosas, queridas… conhecemos a paisagem de São Petersburgo, da qual Nabokov (que pertencia à aristocracia russa) foi desterrado para sempre, ao ponto de criar um dos imaginários geográficos mais bizarros da ficção (basta ler Ada ou Ardor ou Fogo Pálido). Para o fã nabokoviano, também é um prazer ver Rolin referir-se com frequência a um de seus melhores e, no entanto, menos conhecidos livros, A verdadeira vida de Sebastian Knight.

Quanto a Borges, o lado suburbano de Buenos Aires, com seus compadritos e marginais, que fascinava o autor de Ficções, é o contraponto  da sua educação anglófila e europeizada (aliás, ele viveu muitos anos da juventude na Europa). O que se destaca em O misterioso hábito de Buenos Aires é a desmistificação de um Borges a-histórico e “abstrato”: assim como alguns estudiosos brasileiros (Davi Arrigucci Jr, Júlio Pimentel), Rolin traça o perfil borgiano bastante ancorado às circunstâncias históricas e concretas: “Aos que têm de Borges apenas a imagem do cego erudito pode ser difícil imaginá-lo sob os traços do homem que anda furiosamente, incansavelmente, nos subúrbios noturnos, ávido de uma poesia plebeia, e no entanto é o homem que descrevem todos os testemunhos sobre sua juventude”.

PAISAGENS ORIGINAIS é um livro excelente. Entretanto, o leitor apreciará mais a perspicácia de Olivier Rolin se complementar a leitura com as histórias de Nick Adams, uma das quais intitulada justamente Lá no Michigan, no volume 1 dos Contos de Hemingway (ed. Bertrand) e com a leitura das autobiografias de Nabokov, A pessoa em questão (Companhia das Letras) e de Borges, Um ensaio autobiográfico (ed. Globo).

II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em  24 de setembro de 2002)

Na seção anterior comentei três ensaios jornalísticos de PAISAGENS ORIGINAIS, de Olivier Rolin, os quais abordavam escritores bastante conhecidos: Hemingway, Nabokov e Borges (e estes dois últimos, como já dei mostra várias vezes, estão entre meus preferidos).

Só para retomar o fio da meada:  PAISAGENS ORIGINAIS é um projeto jornalístico-literário que toma como traço comum de cinco escritores o nascimento no mesmo ano, 1899. Partindo disso, seu autor foi em  busca dos lugares onde passaram a infância, para mostrar sua repercussão nas obras futuras, ao se tornarem “paisagens originais” ou originárias.

Faltaram duas crônicas, Começo sem fim de minha vida obscura e Um homem completamente atormentado, a respeito de dois autores de pouca repercussão no Brasil, o belga Henri Michaux e o japonês Yasunari Kawabata. O próprio autor que escreve  só leu do cultuado Michaux fragmentos esparsos nos suplementos da vida, e de |Kawabata alguns livros (O país das neves, Nuvens de pássaros brancos, Kyoto, Beleza e Tristeza), insuficientes para uma avaliação global de sua longa carreira literária.

Por esse motivo, para o leitor brasileiro, Começo sem fim de minha vida obscura é o texto que parece mais confuso e mal-resolvido do volume, tentando apreender os início de uma vida “tão incrivelmente livre, tão essencialmente, obstinadamente evadida” como a de Michaux. É uma imagem extremamente negativa da Bélgica que emerge das citações feitas por Rolin: trata-se de um “país triste e superpovoado”, de uma “raça infecta que pende, que se arrasta, que escorre”. Fugindo dessa anti-vida, Michaux se engaja como marinheiro. A paisagem se alarga, apesar da persistência de uma visão ácida e desencantada sobre o vasto mundo.

Um homem completamente atormentado é o melhor do livro, depois de Lá no Michigan (sobre Hemingway), e dá valiosas pistas para compreender a fusão de delicadeza impressionista e perversidade que vemos em Kawabata. E ajuda ainda a compreender a cruel caricatura que Yukio Mishima fez dele na figura de Shunsuke Hinoki, protagonista de Cores Proibidas (Companhia das Letras), outro lançamento indispensável deste ano, assim como o de Rolin: “Ele que será tão obcecado pela beleza, tão apaixonado pelo vigor animal da juventude, sua própria infância se desenrola sob o império insistente da doença e da morte… a experiência da feiúra e da degradação dos corpos”. Todos os que lhe são próximos (pai, mãe, irmã, avós) morrem nos seus primeiros anos: “Há em Kawabata uma presença insistente do cadáver, e do tornar-se cadáver”.

A morbidez e o sadismo jazem na meada do novelo neurótico entretecido pela contraposição obsessiva de duas cores: o vermelho e o branco: “Seria interminável assinalar todos os encontros de borboletas vermelhas e folhas de bordo, todos os reflexos de quimonos escarlates sobre a neve, os jogos de sangue e a pele cor da lua”.

É atrás do início do novelo que, após Tóquio, Olivier Rolin vai para Shuku No Sho, a cidadezinha dos avós paternos de Kawabata. Ele também visita seu contraponto, a peninsula de Izu, lugar que serve de palco para uma certa “reconciliação com o mundo” para esse mestre da angústia, o qual, assim como Hemingway, se suicidou.

PAISAGENS ORIGINAIS não termina com essa reconstituição dos lugares de formação de Yasunari Kawabata. Há um texto final que homenageia ULISSES, de James Joyce, tomado como matriz literária para os cinco escritores, tão diversos entre si: “erguendo sua torre de Babel sobre as planuras provincianas de Dublin, a obra-prima de Joyce no fim das contas inaugura para a literatura do século uma espécie de dever do cosmopolitismo”. Representa o ápice da perspectiva que fundamenta o notável livro de Olivier Rolin: “As paisagens originais são os espaços sentimentais pelos quais estamos ligados ao mundo”, mas “nenhuma obra digna desse nome se deixa encerrar num determinismo territorial”.

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