MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/05/2012

O CANTO IANQUE-UNIVERSAL DO RESPONDEDOR

(resenha publicada, de forma mais condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 13 de dezembro de 2011)

“Sou imenso, contenho multidões. Se tivesse de apontar o maior evento editorial de 2011, sem hesitação escolheria a tradução de Bruno Gambarotto para Folhas de Relva-Edição do Leito de Morte, lançada com o capricho habitual da Hedra. É, finalmente, a edição séria, bem cuidada e bonita que a súmula da produção poética de Walt Whitman (1819-1892) exigia. Pois, por incrível que pareça, a única versão integral dessa obra-prima fundamental era a da Martin Claret, com aquele estilo meia-boca e descuidado (quando não suspeito) de que essa editora é useira e vezeira.

Houvera a notável edição da Iluminuras, mas se tratava da tradução (de Rodrigo Garcia Lopes)da primeira edição de Folhas da Relva (em 1855), com 12 poemas. A Edição do Leito de Morte foi a nona edição e abarca cerca de 380 poemas. É a obra de uma vida, é o arremate final na construção do mito Whitman, o maior dos poetas americanos. E que foi esse raro fenômeno: um escritor absolutamente original: nunca antes dele alguém escreveu desse jeito, nem utilizou tal temática ou tal vocabulário. É uma experiência de liberdade absoluta, consoante à do país que se transformaria na maior potência mundial e que já se configurava nos anos de vida de Whitman. Ele representa o que de mais norte-americano (para o bem e para o mal) podemos pensar: o desejo de se expandir, de ter um destino grandioso, de incorporar pessoas, culturas, de simbolizar a “democracia”.

É por isso que lemos no fundante Canção de Mim Mesmo (um dos poemas mais extraordinários já escritos): “Vejo que incorporo gnaisse e carvão e a longa malha de musgo e as frutas e grãos e raízes comestíveis/ Estou inteiro revestido de pássaros e quadrúpedes/E longe do que está atrás de mim por boas razões/Mas chamo qualquer coisa para perto de mim quando quiser.

Em outro trecho: “Grandes têm sido os preparativos para mim/Fiéis e amigos os braços que ajudaram// Ciclos conduziram meu berço, remando e remando como alegres barqueiros/Para me dar espaço as estrelas permaneceram afastadas em suas próprias órbitas/Elas enviaram influências para cuidar do que me havia de dar sustento// Antes de nascer da minha mãe gerações me guiaram…”

A todo esse otimismo cósmico, a essa coesão de tudo, de repente sucede uma quebra trágica: no meio do livro temos os poemas sobre a Guerra de Secessão, a divisão do país, a carnificina impressionante que foram essas lutas, durante cinco anos.  E a partir daí, o tom se torna mais melancólico, elegíaco, os plenos pulmões respirando o ar do universo cedem lugar a uma respiração menos abrangente. O grandioso se fora, mas ficara o tecedor de imagens, cada vez mais voltado para o passado, porém já tendo afirmado sua presença (sua influência abarca poetas tão díspares quanto Pessoa, Neruda, Maiakovski, Borges, para citar alguns): “Tece, tece, minha valorosa vida/ Tece ainda um soldado forte e a postos para as grandes campanhas do porvir/Tece o sangue vermelho, tece tendões como cordas, os sentidos, a visão, tece, tece/ Tece a última certeza, tece dia e noite a trama, o enredo, tece sem cessar, não para( …)/ Pois as grandes campanhas de paz têm do mesmo modo os fios trançados de tecer/Não sabemos o que ou por que, mas tecemos, para sempre tecemos.”

Como Tolstói (apesar das diferenças), esse projeto literário-existencial que é Folhas de Relva acabou alçando Whitman a territórios mais escorregadios como a posição de guru, mestre espiritual e coisas do gênero. Mas eu o prefiro sem tanta reverência, tal como caracterizado nos seu maior poema: “Turbulento, carnal, sensual, comendo, bebendo, respirando/ Sem sentimentalismo, sem ficar acima de homens e  mulheres ou distante deles.”

 

 TRADUÇÕES

Como tantos em minha geração, tomei contato com Whitman em língua portuguesa através da seleção/ feita por Geir Campos e publicada pela Brasiliense (à época no auge da popularidade), em 1983: Folhas das Folhas de Relva. Na verdade, esse volume é uma versão refundida de uma edição lançada pela Civilização Brasileira em 1964,  e difere dela pela disposição diferente dada aos versos whitmanianos, que foram “quebrados”, perderam aquele aspecto oceânico, até porque a edição é mais de bolso do que outra coisa, e o verso curto é que mais combina com ela.

Foi uma disposição acertada? Não sei agora, e muito menos poderia sabê-lo aos 18 anos, em 1983. Só sei que Whitman, então,  parecia contrariar tudo o que eu esperava da poesia, portanto me irritou, me enfastiou, e tive muitas dificuldades com ele (então, foi até um acerto que o tradutor e a editora aplainassem um pouco as dificuldades).

Vejamos como Geir Campos traduziu o seguinte trecho de Canção do Respondedor (Song of Answerer), cujo núcleo poético faz parte de Folhas de Relva desde a edição original:

“…as palavras do fazedor de poemas

são o geral da luz e da sombra;

o fazedor de poemas estabelece a justiça,

a realidade, a imortalidade,

ele envolve em sua visão e força

as coisas e a raça humana,

é ele a glória e a essência até aqui

das coisas e da raça humana.

 

Os cantores não criam, o Poeta cria:

cantores são bem-vindos, bem compreendidos,

aparecem com bastante frequência,

mas raros têm sido o dia e o lugar

do nascimento do fazedor de poemas

–o Respondedor.

(…)

Por todo esse tempo e em todos os tempos

ficam à espera as palavras

dos poemas de verdade:

as palavras dos poemas de verdade

não apenas agradam,

os Poetas de verdade

não são acompanhantes da beleza

e sim augustos mestres de beleza.

A grandeza dos filhos

é o que transpira do que têm de grande

as mães e os pais;

as palavras dos poemas de verdade

são o buquê e o aplauso final

da ciência.

 

Intuição divina, vista larga,

a razão como lei,

primitivismo e saúde do corpo,

retraimento, contentamento,

carne curtida ao sol, doçura de ar

–eis algumas palavras de poemas.

O marinheiro e o viajante fundamentam

o fazedor de poemas—o Respondedor;

o construtor, o geômetra, o químico,

o anatomista, o frenologista, o artista,

todos contribuem para

o fazedor de poemas—o Respondedor.

As palavras do  poema de verdade

dão a vocês muito mais que os poemas:

dão a vocês com que possam compor

os seus próprios poemas,

religião, política,

guerra, paz, contos, ensaios,

o dia a dia da vida

e tudo o mais,

dão o balanço de castas, cores, raças,

credos e sexos;

beleza mesmo os Poetas não procuram…”

Na versão de Rodrigo Garcia Lopes para a primeira edição (1855) do livro, publicada pela Iluminuras, tal trecho não será encontrado, já que Whitman, fiel ao seu furor expansionista, aumentou consideravelmente o poema desde então.

Já na versão de Luciano Alves Meira para a Martin Claret (2006), está tal como se segue (com o título Canção do Respondente):

“… mas as palavras do autor de poemas são a própria

                                           [luz e escuridão.

O autor de poemas estabelece a justiça, a realidade,

                                            [a imortalidade,

Sua luz interior e seu poder envolve as coisas

                                            [e a raça humana.

Ele é a glória e o extrato longínquo das coisas

                                             [e da raça humana.

 

Os cantores não criam, apenas os Poetas criam,

Os cantores são bem-vindos, compreendidos,

                                              [aparecem com bastante

           [frequência, mas são raros os dias ou

                                               [as oportunidades de

Nascimento dos autores de poemas, os Respondentes.

(…)

Todo esse tempo e em todos os tempos, espere

                       [pelas palavras dos poemas verdadeiros,

As palavras dos poemas verdadeiros não são aquelas

                       [que simplesmente agradam,

Os verdadeiros poetas não são os seguidores da beleza,

                       [mas os augustos mestres da beleza;

A grandeza dos filhos é a exsudação da grandeza

                        [das mães e dos pais,

As palavras dos poemas verdadeiros são a coroa

                        [e o aplauso final

da ciência.

 

Instinto divino, amplitude da visão, a lei da razão,

      [saúde, rudeza do corpo, capacidade de se retirar,

Alegria, pele morena, doçura do ar, essas são

       [algumas das palavras dos poemas.

 

Os marinheiros e os viajantes subjazem

           [aos autores de poemas, os Respondentes,

O construtor, o geômetra, o químico, o anatomista,

           [o frenologista, o artista, todos esses

      [subjazem ao autor de poemas, o Respondente.

 

As palavras dos verdadeiros poemas dão-te

                    [mais  do que poemas,

Elas são a matéria-prima para que possas fazer

                     [tu mesmo poemas,

     [religiões, política, guerra, paz, comportamento

     [história, ensaios, vida diária e tudo o mais,

Elas põem em equilíbrio as categorias, as cores,

      [as raças, os credos, e os sexos,

Elas não procuram a beleza…”

   E na versão de Bruno Gamborotto volta a ser Canção ao Respondedor, e o trecho fica assim:

“…mas as

          palavras do fazedor de poemas são a luz e a escuridão totais,

O fazedor de poemas instaura a justiça, a realidade, a imortalidade,

Sua visão e poder englobam as coisas e a raça humana,

Ele é a glória e a extrai das coisas e da raça humanas.

 

Os cantores não dão a vida, apenas o Poeta dá vida,

Os cantores são bem-vindos, compreendidos, aparecem até demais,

                                                  [mas raro tem sido

    o dia, e também o lugar, do nascimento do fazedor de poemas,

                                                     [o Respondedor

(…)

Hoje e sempre as palavras dos verdadeiros poemas são aguardadas,

As palavras dos verdadeiros poemas não são somente agradáveis,

Os verdadeiros poetas não são seguidores da beleza, mas

                                     [os augustos mestres da beleza;

A grandeza dos filhos é a exaltação da grandeza dos pais e das mães,

As palavras dos verdadeiros poemas são os louros e

                                      [o aplauso final da ciência.

 

Instinto divino, abrangência da vista, lei da razão, saúde,

                                       [corpo bruto, afastamento,

Felicidade, pele bronzeada, ar fresco, essas são algumas

                                        [das palavras dos poemas.

 

O navegante e o viajante estão na base do fazedor de poemas,

                                                        [o Respondedor,

O construtor, o geômetra, o químico, o anatomista,o frenologista,

                                                        [o artista, todos dão

        Sustentação ao fazedor de poemas, o Respondedor.

 

As palavras dos verdadeiros poemas dão a você mais do que poemas,

Elas dão a você a formação de seus próprios poemas, religiões,

                         [política, guerra, paz,

           Comportamento, história, ensaios, vida cotidiana e tudo o mais

Eles equilibram hierarquias, cores, raças, credos e os sexos,

Eles não procuram beleza…”

 

A COESÃO DE TUDO: antologia whitmaniana

Esses foram os poemas de Whitman que utilizei no meu curso de 2008 (comparando-o a Baudelaire); aqui aparecem em tradução de Luciano Alves Meira (publicada pela Martin Claret), com algumas intervenções e adaptações minhas:

Saudação ao Mundo! (Salut au monde!)

1

Ó pegue minhas mãos, Walt Whitman!

Que maravilhas neste vôo livre! Tais visões e sons!

Tais ligações infinitas e unidas, cada qual ligado ao próximo.

Cada um respondendo a tudo, cada um compartilhando a Terra como todos os demais.

O que se amplia dentro de ti, Walt Whitman?

Que ondas e solos gotejando?

Que plagas? Que pessoas e cidades estão aqui?

Quem são as crianças, algumas brincando, algumas dormindo?

Quem são as meninas? Quem são as mulheres casadas?

Quem são os grupos de homens andando vagarosamente

com seus braços em torno do pescoço uns dos outros?

Que rios são esses? Que florestas e frutos são esses?

Que nomes têm essas montanhas que se erguem tão altas em meio às brumas?

Que miríades de habitações há nelas, repletas com seus moradores?

2

Dentro de mim a latitude se alarga, a longitude se alonga,

Ásia, África, Europa, estão para leste; América está provida no oeste;

E atando a saliência dos ventos da terra, o quente equador,

Curiosamente para o norte e para o sol viram-se as pontas dos eixos,

Dentro de mim está o dia mais longo, o sol gira em anéis oblíquos

e não se põe durantes meses a fio,

Esticado na hora certa dentro de mim, o sol da meia-noite se ergue

bem acima da linha do horizonte e aparece novamente,

Dentro de mim zonas, mares, cataratas, florestas, vulcões, grupos,

Malásia, Polinésia e as grandes ilhas das Índias Orientais.

3

O que ouves, Walt Whitman?

Ouço o trabalhador cantando e a esposa do fazendeiro cantando,

Ouço na distância os sons das crianças e dos animais, de manhã cedo,

Ouço gritos rivais dos australianos perseguindo o cavalo selvagem,

Ouço a dança espanhola com as castanholas na sombra da castanheira

no ritmo da rabeca e do violão,

Ouço os ecos incessantes do Tamisa,

Ouço ardentes canções francesas pela liberdade,

Ouço do remador italiano a recitação musical de antigos poemas,

Ouço os gafanhotos na Síria quando atacam os grãos e as folhas

no avanço de suas nuvens terríveis,

Ouço o copta jejuar até o crepúsculo, meditativo, caindo no seio

da negra, venerável e vasta Mãe que é o Nilo,

Ouço a voz alegre da condutora de mulas mexicana e o som dos sinos da mula,

Ouço o almuadem árabe chamando do alto da mesquita,

Ouço os padres cristãos nos altares das suas igrejas (…)

Ouço o grito do cossaco e a voz dos marinheiros indo para o mar em Okotski,

Ouço a respiração ofegante que vem do comboio de escravos (…)

Ouço os judeus fazendo a leitura de suas exegeses e salmos,

Ouço os mitos rítmicos dos gregos e as poderosas lendas dos romanos,

Ouço a história da vida divina e da morte sangrenta do Cristo,

Ouço os ensinamentos do hindu ao seu discípulo dileto (…)

Tudo aquilo que os poetas escreveram há três milênios.

4

O que vês, Walt Whitman?

Quem são esses a quem saúdas, quem são eles que,um após o outro,te saúdam também?

Eu vejo um grande e circular espanto rolando pelo espaço,

Vejo fazendolas, fronteiras, ruínas, cemitérios, prisões, fábricas, palácios, choupanas,

ocas de bárbaros, tendas de nômade, sobre a superfície,

Vejo a parte sombria no lado em que os adormecidos dormem e a parte ensolarada

do outro lado,

Vejo a rápida mudança entre luz e sombra,

Vejo terras distantes, tão reais e próximas de seus habitantes

quanto as minhas terras para mim.

Vejo águas em abundância,

Vejo picos de montanhas, vejo as serras dos Andes onde elas se enfileiram,

Vejo claramente o Himalaia, Chien Shahs, Altays, Ghauts,

Vejo os pináculos gigantescos do Elbruz, Kazbek, Bazardjusi,

Vejo os Alpes estirenos e os Alpes de Karnak,

Vejo os Pireneus, os Bálcãs, os Cárpatos e para o norte os Dofrafields,

e em pleno mar o monte Hecla,

Vejo o Vesúvio e o Etna, as montanhas da Lua e as vermelhas de Madagascar,

Vejo os desertos da Líbia, da Arábia e o Asiático,

Vejo imensos e terríveis icebergs árticos e antárticos,

Vejo os oceanos superiores e inferiores, o Atlântico e o Pacífico, o mar do México,

o mar brasileiro, o mar do Peru, as águas do Industão,

o mar da China e o golfo da Guiné, as águas do Japão,

a bela baía de Nagasaki,de terras presas entre montanhas,

(…) O Mediterrâneo banhado pela claridade do sol,

de ilha em ilha,

o mar branco e o mar em torno da Groenlândia.

Contemplo os marinheiros do mundo,

Alguns em meio a tempestades, alguns em meio à noite, fazendo a ronda, vigilantes,

Alguns naufragando indefesos, alguns com doenças contagiosas.

Contemplo os veleiros e os navios a vapor, alguns agrupados nos portos,

alguns fazendo suas viagens (…

5

Vejo as trilhas das estradas de ferro da Terra (…)

Vejo os telégrafos elétricos da Terra,

Vejo os fios que trazem as notícias de guerra,

as mortes,as perdas,os ganhos,as paixões, de minha raça.

6

Vejo o local onde se erguia o antigo Império Assírio, e o Persa, e o da Índia,

Vejo a queda do Ganges sobre a borda alta do Saukara,

Vejo o lugar em que floresceu a idéia da Divindade

encarnada por avatares em forma humana,

Vejo os lugares em que se sucederam os sacerdotes da Terra,

sacrifícios, brâmanes, sábios, lamas, monges,

muftis, exortadores,

Vejo por onde os druidas caminhavam nos bosques de Mona, vejo o visco e a verbena,

Vejo os templos das mortes dos corpos dos deuses, vejo os antigos signatários,

Vejo o Cristo comendo o pão em sua última ceia, entre os jovens e os idosos,

Vejo onde o moço forte e divino, o Hércules, labora fiel e longamente antes de morrer,

Vejo o lugar da vida inocente e rica e o destino desafortunado

do maravilhoso filho noturno,o Baco repleto de membros

(…) Vejo Hermes, insuspeito, morrendo, bem amado, dizendo ao povo:

Não chorem por mim, esta não é minha verdadeira pátria, vivi exilado,

Agora retorno para esfera celestial para onde todos irão quando chegar a vez.

7

(…) Vejo os rastros das expedições modernas e antigas.

Vejo construções inomináveis, mensagens veneráveis de eventos desconhecidos

(…) Vejo o lugar das sagas

(…) Vejo os memoriais erigidos para os guerreiros escandinavos,

Vejo-os erguidos na altura, as pedras trazidas das margens de oceanos incansáveis,

Para que os espíritos dos mortos, quando se sentirem cansados

do silêncio de seus túmulos,

possam se levantar e atravessar os mundos (…)

8

(…) Vejo dois barcos com suas redes, flutuando no mar, à beira do litoral de Paumanok

(…) Vejo dez pescadores esperando: eles descobrem agora

um denso cardume de savelhas,

eles atiram as pontas da rede de arrastão dentro da água,

Os barcos se separam, cada qual rema para uma direção distinta,

Cada um fazendo um círculo no sentido da praia, cercando as savelhas;

A rede é conduzida para a praia por um guindaste por aqueles que ficam em terra,

Alguns dos pescadores descansam nos seus barcos,

Outros estão com os pés negligentemente imersos na água, na altura dos tornozelos,

equilibrados sobre pernas fortes,

Os barcos estão parcialmente acima da água, ela bate contra eles;

Sobre a areia, em pilhas enfileiradas, retiradas das águas, jazem as savelhas

com manchas verdes no dorso.

9

Vejo o desesperançado homem de pele vermelha no Oeste

(…) Ele ouviu a codorniz e contemplou a abelha-que-faz-mel

E com tristeza prepara-se para partir

(…) vejo penhascos, geleiras, corredeiras (…) reparo nos invernos longos

e no isolamento.

Vejo as cidades da terra e me lanço ao acaso para me tornar parte delas,

Sou um verdadeiro parisiense,

Sou um habitante de Viena, São Petersburgo, Berlim, Constantinopla,

Sou de Adelaide, Sidney, Melbourne,

Sou de Londres, Manchester, Bristol, Edinburgh…Madri, Cadiz, Barcelona, Porto,

Lyon, Bruxelas, Berna, Frankfurt, Stuttgart, Turim,

Florença, pertenço a Moscou, Cracóvia, Varsóvia

E para o norte em Christiana ou Estocolmo ou na siberiana Irkutski

ou em alguma rua da Islândia

Desço sobre todas essas cidades e, a partir delas, ergo-me novamente.

 

10

Vejo vapores exalando de países inexplorados,

Vejo tipos de selvagens, arco e flecha, seta venenosa, amuleto, cinturão,

Vejo vilas africanas e asiáticas

(…) Vejo o turco fumando ópio em Aleppo

Vejo as multidões pitorescas nas feiras de Khiva e aquelas no Herat,

Vejo Teerã, vejo Medina e o deserto que as separa, vejo as caravanas

sofrendo para ir em frente,

Vejo o Egito e os egípcios, as pirâmides e os obeliscos,

Vejo as histórias entalhadas, registradas pelos reis conquistadores,

Pelas dinastias, cortadas em lajes de pedra de moer ou em blocos de granito

(…) Vejo todos os lacaios da terra trabalhando, os prisioneiros nas prisões,

Vejo todos os corpos humanos defeituosos

(…) Vejo os homens e mulheres por toda a parte,

Vejo as serenas fraternidades de filósofos, a engenhosidade de minha raça,

Vejo os resultados da perseverança e do engenho de minha raça,

Vejo classes sociais, cores, barbáries, civilizações, caminho entre elas,

misturo-me a elas, indiscriminadamente,

E saúdo todos os habitantes da Terra.

11

Tu, sejas quem for!

Tu, filha ou filho da Inglaterra! Tu, do poderoso Império Eslavo! Tu, russo na Rússia,

Tu, negro, alma divina africana, de cabeça bela e grande,

Formada nobremente, com destino soberbo, nos mesmos termos que eu!

Tu, norueguês, sueco, dinamarquês, islandês! Tu, prussiano!

(…) Tu, amante da liberdade da Holanda! (isso, tu, reserva de onde eu mesmo descendo)

(…) Tu, operário do Reno, do Elba…!Tu, operária, também!

(…) Tu, montanhês residindo sem lei no Taurus ou no Cáucaso!

(…) Tu, persa de corpo modelar cavalgando velozmente em tua sela

(…) Tu, mulher da terra, subordinada aos teus trabalhos!

Tu, judeu peregrinando em tua idade avançada em meio a tantos riscos

para erguer-se uma vez em solo sírio!

Tu, outro judeu, esperando em todas as terras por teu Messias!

(…) Tu, homem japonês, ou tu, mulher japonesa!

Tu, que vives em Madagascar, Ceilão, Sumatra, Bornéu!

Todos vós, dos continentes da Ásia, África, Europa,Austrália,indiferentemente de lugar,

Todos vós, nas incontáveis ilhas dos arquipélagos que há no mar!

E vós, dos séculos vindouros, quando me ouvirdes!

E vós, de cada um dos locais que não especifiquei, mas a quem incluo igualmente!

Saúde para vós! Boa vontade para vós todos, enviados por mim e pela América!

Cada um de nós inevitável,

Cada um de nós sem limites, cada um com o seu direito sobre a Terra,

Cada um de nós recebendo os conteúdos eternos da Terra,

Cada um de nós aqui tão divino quanto qualquer um.

12

(…) Vós, escravizados gotejando, gotas doces ou gotas de sangue!

Vós, formas humanas com insondável e sempre impressionante expressão

de brutalidade!

(…) Tu, cafre, berbere, sudanês!

Tu, desfigurado, inculto, deseducado beduíno!

Vós, vítimas aglomeradas de uma epidemia em Madras, Nanquim, Cabul, Cairo!

Tu, nômade ignorante da Amazônia! Tu, patagônio! Tu, fijiano!

Não prefiro outros a ti,

Não digo uma única palavra contra ti, aí no fundo onde te encontras

(tu hás de vir para frente, quando a hora chegar, para estar ao meu lado).

13

Meu espírito compassivo e determinado circundou a Terra inteira,

Procurei os meus iguais e os meus amantes e os encontrei prontos para mim

em todas as terras,

Creio que uma conexão divina me fez entrar em sintonia com eles.

 

Vós, navios a vapor,creio que me ergui convosco e viajamos por continentes longínquos

e neles caímos;

por alguma razão creio que fui convosco carregado, ó ventos;

E vós, águas, toquei com meus dedos cada praia convosco,

Corri através dos mesmos leitos pelos quais já correram todos os rios ou canais do globo

Firmei minha posição nas bases das penínsulas e no alto dos rochedos para bradar de lá:

Salut au monde!

Cidades nas quais penetram a luz ou o calor, eu mesmo as penetro,

Todas as ilhas para as quais os pássaros voam em seu roteiro, eu mesmo vôo

em meu roteiro

Na direção de todos vós, em nome da América,

Eu ergo nas alturas a mão perpendicular, faço o sinal

Para que permaneça visível após mim, para sempre,

Para todos os abrigos e lares da humanidade.

 

O significado de Folhas de Relva

Não para excluir ou demarcar ou selecionar os maus de suas massas formidáveis

(até mesmo para expô-los),

Mas para adicionar, fundir, completar, entender –e celebrar o bom e o imortal

Insolente esta canção, suas palavras e seu escopo,

Para abarcar vastos domínios de espaço e tempo,

A evolução —cumulativa— desenvolvimentos e gerações.

Tendo iniciado em madura juventude e prosseguido continuamente,

Vagueando, perscrutando, brincando com todos —guerra, paz,

absorvendo de dia e à noite,

Nem por uma breve hora abandonando minha tarefa,

Termino-a aqui na doença, na pobreza e na velhice.

Eu canto a vida e, contudo, importo-me bastante com a morte:

Hoje a sombria Morte persegue meus passos, minha forma assentada,

e assim tem sido por anos:

Aproxima-se de mim algumas vezes e ficamos face a face.

 

O que não foi exprimido

Como alguém ousa dizê-lo?

Após os ciclos, os poemas, os cantores, as peças,

Ostentando o que da Jônia, da Índia, Homero, Shakespeare,

As estradas espessamente pontilhadas há muito, muito tempo, as áreas,

As constelações brilhantes e a Via Láctea, as pulsações da Natureza recolhidas,

Todas as paixões retrospectivas, heróis, guerra, amor, adoração,

As sondas de todas as eras lançadas em máximas profundezas,

Todas as vidas humanas, gargantas, desejos, cérebros,

a expressão de todas as experiências;

Após as canções incontáveis, longas ou curtas, todas as línguas, todas as terras,

Algo ainda não narrado na voz da poesia ou nos impressos, algo faltando

(Quem sabe? O melhor ainda sem expressão e faltando).

Canção do Universal

1.

Vem, disse a Musa,

Canta para mim uma canção que poeta algum tenha cantado até hoje,

Canta-me o Universal.

Nesta nossa terra vasta,

Em meio à densidade imensurável e à escória,

Guardada e segura dentro do coração central,

Aninha-se a semente da perfeição.

Para cada vida uma porção, ou mais ou menos,

Ninguém nasce sem que ela nasça, recôndita ou exposta, a semente está à espreita.

2.

Contempla! A elevada ciência de olhos agudos,

Como se de altos cumes, vigiando a modernidade,

Emitisse sucessivas ordens absolutas.

Contudo, mais uma vez contempla! A alma, acima de toda ciência,

Pois ela traz a história fundida como uma casca que envolve o globo,

Para ela todas as constelações rolam através do espaço.

Em rotas espirais por entre longos desvios (…)

Por ela o fluxo que vai de parcial a permanente,

Por ela o real tende ao ideal.

Por ela a mística evolução,

Não apenas a justificação do Bem, o que chamamos de Mal também se justifica.

Saindo de trás de suas máscaras, não importando as conseqüências,

Do enorme caule que se inflama, da arte e da malícia e das lágrimas,

Emerge a saúde e a alegria, a alegria universal.

Saindo do corpo volumoso, o mórbido e o superficial,

Saindo da maioria ruim, as diversificadas, incontáveis fraudes de homens e Estados,

Elétrico, anti-séptico também, clivando e inundando tudo,

Apenas o bom é universal.

3.

Sobre a protuberância das montanhas, doença e tristeza,

Um pássaro livre está sempre pairando, pairando,

Alto no ar mais puro, no ar mais feliz.

Das imperfeições das nuvens mais escuras,

Atira sempre um raio de perfeita luz,

Um brilho da glória celeste.

Para o que pertence à moda, para a discórdia dos figurinos,

Para o doido alarido de Babel, para as orgias ensurdecedoras,

Ao final de cada bonança, uma explosão é ouvida, apenas ouvida,

Vindos de alguma praia longínqua, os sons do coro derradeiro.

Ó olhos abençoados, corações felizes,

Que vêem, que conhecem o finíssimo fio condutor

Através do labirinto.

4.

E tu, América,

Pela culminação do esquema, pelo pensamento e pela realidade,

Por esses (não por ti mesma) tu vieste.

Tu também envolveste todos

Abraçando e conduzindo e acolhendo a todos, tu também caminhas

Por estradas largas e novas.

Tendendo ao ideal.

As fés conhecidas de outras terras, as grandezas do passado,

Não são para ti…

O amor, tal como a luz, silenciosamente envolve a todos,

Os aperfeiçoamentos da natureza abençoando a todos,

Os botões, frutos das eras, pomares divinos e certos,

Formas, objetos, crescimentos,humanidades, amadurecendo para as imagens espirituais.

Concede-me, ó Deus, que eu cante aquele pensamento,

Dá-me, dá a ele ou a ela a quem amo essa fé insaciável,

Em Tua imagem, tudo quanto guardares, não o negue a nós,

A crença nos Teus planos guardada no Tempo e no Espaço,

Saúde, paz, salvação universal!

Será um sonho?

Não, mas a ausência dele é o sonho,

E se ele falha o conhecimento e a riqueza da vida são apenas sonho,

E o mundo inteiro é apenas sonho.

Ao jardim, o mundo retorna

Ao jardim, o mundo retorna se elevando,

Poderosos companheiros, filhas, filhos, preludiando,

O amor, a vida de seus corpos, o sentido e o ser,

Curiosos, vede aqui a minha ressurreição após o sono ligeiro,

Os ciclos rotativos em sua ampla órbita me trazem de volta,

Amoroso, maduro, tudo tão maravilhoso para mim, tudo assombroso,

Meus membros e o fogo tremendo que sempre brinca através deles,

por razões, quase todas, assombrosas

Ao existir eu perscruto e vou além ao penetrá-las,

Feliz com o presente, feliz com o passado,

Ao meu lado ou atrás de mim, Eva me segue,

Ou à minha frente, e do mesmo modo eu a sigo.

Eras e eras retornando a intervalos

Eras e eras retornando a intervalos,

Intocadas, vagando imortalmente,

Vigorosas, fálicas, com as carnes originais potentes, perfeitamente doces,

Eu, cantor de canções adâmicas,

Através dos novos jardins do Ocidente, as grandes cidades convocando,

Delirante, preludiando assim aquilo que é gerado, oferecendo-os,

Oferecendo a mim mesmo,

Banhando-me, banhando minhas canções com o sexo,

Fruto da minha carne.

Como Adão ao amanhecer

Como Adão ao amanhecer,

Saio a caminhar, vindo do pavilhão do jardim, renovado pelo sono.

Contempla-me no lugar em que passo, ouve minha voz, aproxima-te,

Toca-me, toca a palma de tuas mãos no meu corpo enquanto passo,

Não tenhas medo do meu corpo.

Ó meu eu! Ó vida!

Ó meu eu! Ó vida! Das questões que são recorrentes,

Dos trens infinitos dos que não tem fé, das cidades cheias de tolos,

Ó eu mesmo para sempre censurando a mim mesmo (pois quem é mais tolo do que eu

E quem é mais sem fé?)

De olhos que em vão suplicam por luz, do meio dos objetos,das lutas sempre renovadas,

Dos pobres resultados de tudo,

Das laboriosas e sórdidas multidões que vejo à minha volta,

Dos vazios e inúteis anos dos demais, sendo que também faço parte dos demais,

A questão, ó meu eu, tão triste, recorrente: O que há de bom em meio a tudo isso?

Ó meu eu! Ó vida!

 Resposta:

Que estás aqui —e que a vida existe e a identidade,

Que a poderosa peça continua e tu podes contribuir com um verso.

Desde os rios confinados à dor

Desde os rios confinados à dor (…)

Desde aquilo que estou determinado a tornar ilustre,

Mesmo que eu viva solitário entre os homens,

Desde a minha própria ressonante voz, cantando o fálico (…)

Entoando a canção do companheiro de cama (Ó ardente desejo!

Ó por todos e por cada corpo que atrai o seu correspondente!

Ó por ti, quem quer que sejas, teu corpo correspondendo-me!

Ó isso, mais que qualquer coisa, tu deliciando-te!)

(…) Pesquisando algo que ainda não pude descobrir,

Embora tenha diligentemente procurado anos a fio,

Cantando a canção verdadeira da alma intermitente, ao acaso (…)

A bem-vinda proximidade, a visão do corpo perfeito,

O nadador nadando nu ou boiando sem movimentos (…)

……………………………eu pensante, amante do corpo, tremendo de dor,

A lista divina sendo feita para mim, para ti ou para qualquer um,

O rosto, os membros,o índice da cabeça aos pés,e aquilo que faz com que ele se levante,

O delírio do místico, o delírio amoroso, o completo abandono

(chega perto, e calado escuta o que agora sussurro para ti:

Eu te amo, ó tu que me tens por inteiro,

Ó tu e eu fugimos ao mundo e sumimos inteiramente, livres e sem lei,

Dois falcões voando, dois peixes nadando no mar tão sem lei quanto nós dois).

A furiosa tempestade por mim atravessando, e eu tremendo apaixonadamente (…)

(Ó eu desejando arriscar tudo por ti,

Ó deixe-me estar perdido se necessário for!

Ó tu e eu! (…)

O que é tudo o mais para nós? Apenas sabemos que desfrutamos um ao outro

E nos exaurimos se necessário for.)

(…) Desde a maciez das mãos que escorregam sobre mim e a passagem dos dedos

Pelos meus cabelos e minha barba

(…) Desde a pressão calorosa do corpo que me embriaga e embriaga qualquer homem

Até desmaiá-lo pelo excesso

(…) Desde a exultação, a vitória, o alívio,

Desde o abraço do companheiro de cama durante a  noite

(…) Desde o movimento de tirar a coberta que nos cobre

(…) Desde aquele que não deseja me ver partindo e eu que também não desejo partir

(será apenas um instante apenas, ó delicado ser que me aguarda, e eu retornarei),

Desde a hora das estrelas brilhantes e orvalhos gotejantes,

Desde a noite em que vou emergindo fugaz,

Celebro-te, ato divino…………………………………………………………

Do encapelado oceano da multidão

Do encapelado oceano da multidão chega, gentilmente, uma gota para mim,

Sussurrando: “Eu te amo, bem antes de eu morrer,

Percorri uma longa jornada meramente para olhar-te, tocar-te,

Pois não poderia morrer antes de olhar-te,

Pois temia que mais tarde poderia te perder”.

Agora já nos encontramos, já nos vimos, estamos seguros.

Volta em paz para o oceano, meu amor,

Também sou parte desse oceano, meu amor, não estamos assim tão separados,

Observa o grande orbe, a coesão de tudo: que perfeição!

Mas, quanto a mim e quanto a ti, o mar irresistível nos separa,

Se por uma hora pode nos manter dessemelhantes,

Por outro lado não nos pode conservar distintos para sempre;

Não sejas impaciente—um interregno—sabes tu que saúdo o ar, o oceano e a terra,

Todos os dias no crepúsculo, pelo teu amor, meu amor.

Meu legado

O homem de negócios de vastas aquisições,

Depois de árduos anos fazendo o balanço dos resultados,

Preparando para a partida,

Lega casas e terras para seus filhos, deixa ações como herança,

Bens, fundos para uma escola ou hospital,

Deixa dinheiro para certos companheiros, para que comprem lembranças,

Relíquias de pedras preciosas e ouro.

Mas eu, fazendo o balanço de minha vida, fazendo o fechamento,

Com nada para apresentar, para legar de meus anos preguiçosos,

Nem casas, nem terras, nem lembranças de pedras preciosas ou ouro para meus amigos,

Contudo, certas lembranças da guerra deixo para ti e para os que virão,

E pequenas relíquias de acampamentos e soldados, com meu amor,

Encaderno e deixo como herança neste feixe de canções.

Cidade de orgias

Cidade de orgias, passeios, alegrias,

Cidade daquele que, tendo vivido e cantado em teu seio, te fará ilustre um dia,

Não serão as tuas exposições, nem os teus quadros,

Nem teus espetáculos, que me recompensarão,

Não serão as tuas filas intermináveis de casas, nem os navios nas tuas docas,

Nem as procissões nas ruas, nem as vitrines brilhantes com os produtos lá dentro,

Nem o diálogo com pessoas cultas, nem a minha participação em um sarau ou uma festa

Nada disso, mas quando passo, ó Manhattan,

O teu freqüente e súbito brilho no olhar a me oferecer o amor,

Ofertando-me uma resposta, isso sim me recompensa,

Amantes, amantes permanentes, só esses me recompensam.

A certo civil

Pediste-me rimas doces?

Procuras as rimas pacíficas e lânguidas dos civis?

Achaste a canção que entoei anteriormente difícil de acompanhar?

Pois eu não estava cantando anteriormente

Para que tu pudesses seguir, para que entendesses, nem mesmo agora

(Despertei com a guerra, os intermináveis rufos dos tambores dos regimentos

São sempre doce música para mim, amo muito o hino fúnebre marcial,

Com lamentações vagarosas e palpitações convulsivas,

Conduzindo o funeral dos oficiais);

O que é, para alguém como tu, de qualquer modo, um poeta como eu?

Assim sendo, abandona meus trabalhos,

Ilude-te com aquilo que podes compreender e com os tons do piano,

Pois a ninguém iludo e jamais poderás entender-me.

Saindo de trás desta máscara (para confrontar um retrato)

1.

Saindo de trás desta máscara flexível, grosseiramente talhada,

Estas luzes e sombras, esse drama do Todo,

Esta cortina comum da face contida em mim e para mim, e em ti para ti,

Em cada um para cada um

(Tragédias, tristezas, lágrimas, ó céu!,

Estas abundantes peças cheias de paixão, escondidas atrás desta cortina!),

Este esmalte do mais puro e sereno céu de Deus,

Este filme da fervura de Satã no abismo,

Este mapa da geografia do coração, esse ilimitado pequeno continente,

Este mar insondável, saindo das circunvoluções deste globo,

Este orbe astronômico mais sutil que o sol ou que a lua, que Júpiter,Vênus, Marte,

Esta condensação do universo (e mais ainda o único universo que está aqui,

Aqui a idéia, tudo neste punhado de pacotes místicos);

Estes olhos entalhados, sinalizando para que passes para o tempo futuro,

Para lançar e fazer girar através do espaço, revolvendo-se obliquamente,

A partir destes para enviar-te, quem quer que sejas, um olhar.

2.

Um viajante de pensamentos e anos, de paz e de guerra,

De juventude longamente vivida e declínio da meia-idade

(Como o primeiro volume de um conto de fadas lido cuidadosamente e deixado de lado e este, o segundo, com canções, aventuras, especulações, até o epílogo na atualidade),

Demorando-se um pouco aqui e agora, volto-me ara o lado oposto de ti,

Como se estivesse na estrada ou na abertura de uma porta, por acaso,

Ou numa janela aberta;

Parando, inclinando-me, descobrindo minha cabeça, saúdo-te de modo especial,

Para atrair e abraçar tua alma uma vez, inseparavelmente com a minha,

E depois viajar, seguir viagem.

Uma aranha paciente e silenciosa

Uma aranha paciente e silenciosa,

Registrei o lugar do pequeno promontório em que ela estava isolada,

Registrei o modo como, para explorar as vastas redondezas vazias,

Ela lançou adiante filamentos, filamentos, filamentos que saíam de dentro dela,

Sempre os desenrolando, sempre os acelerando incansavelmente.

E tu, ó minha alma, no lugar em que estás,

Cercada, destacada, em imensuráveis oceanos de espaço,

Meditando incessantemente, aventurando-se, lançando-se,

Procurando as esferas para conectá-las,

Até a ponte que terá de ser formada por ti, até o cabo flexível da âncora,

Até que a fibra fina que atiras prenda-se em alguma parte, ó minha alma.

Mannahatta

O nome adequado e nobre da minha cidade retomado,

Escolha de nome aborígine, com maravilhosa beleza, significado,

Ilha rochosa fundada, praias em que sempre batem festivamente

As rápidas ondas do mar que vêm e vão.

Os Estados Unidos para os críticos do Velho Mundo

Aqui em primeiro lugar os deveres de hoje, as lições do concreto,

Riqueza, ordem, viagem, abrigo, produtos, abundância,

Como na construção de algum edifício diversificado, vasto, perpétuo,

Do qual se erguem, inevitavelmente pontuais, os altos telhados, as luminárias,

As pontas solidamente plantadas nas alturas, mirando as estrelas.

O lugar-comum

O lugar-comum eu canto;

Quão barata é a saúde! Quão barato é o caráter!

Abstinência, sem hipocrisia, sem glutonaria, sem luxúria;

O ar livre eu canto, liberdade, tolerância

(Leva, aqui, a principal lição, que não é a dos livros, nem a das escolas),

O dia e a noite comuns, a terra e as águas comuns,

Tua fazenda, teu trabalho, negócios, ocupações,

A sabedoria democrática subjacente, piso sólido para todos.

Travessia da balsa do Brooklynfragmento

2.

O meu imponderável alimento que vem de todas as coisas, a cada hora do dia,

O simples, pequeno, bem articulado esquema, meu ego desintegrado,

Cada um desintegrado e, contudo, sendo parte do esquema,

As similaridades do passado e aquelas similaridades do futuro,

As glórias penduradas como contas nas minhas menores visões

E em tudo o que ouço, na calçada das ruas e nas pontes sobre os rios,

A corrente descendo tão rapidamente, levando-me a nada para longe,

Os outros que devem me seguir, os laços que existem entre mim e eles,

A certeza dos outros, a vida, o amor, a visão, o ato de ouvir os outros.

Outros assistirão à rapidez do transbordamento da maré,

Outros verão os navios de Manhattan ao norte e a oeste

E as elevações do Brooklyn para o sul e para o leste,

Outros verão as ilhas grandes e pequenas;

Dentro de cinqüenta anos, outros terão essa visão quando fizerem a travessia,

O sol nascido há meia hora;

Dentro de cem anos, ou mesmo centenas de anos, outros terão essa visão,

Desfrutarão o pôr-do-sol, a água que entra pelo transbordamento da maré,

O retorno do mar no refluxo da maré.

9.

Desce, rio! Desce com a inundação da maré e reflui com o refluxo!

Brincai, projeções curvilíneas nas bordas das cristas das ondas!

Nuvens formosas do crepúsculo! Encharcai-me com vosso esplendor

Ou às gerações de homens e mulheres que virão após mim!

Levai, de uma margem à outra, incontáveis multidões de passageiros!

De pé, altos mastros de Mannahatta! De pé, lindas montanhas do Brooklyn!

Palpita, cérebro confuso e curioso! Lança de ti perguntas e respostas!

Suspende aqui e em toda a parte a eterna dança das soluções!

Olhai fixamente, olhos amorosos e sedentos, na casa ou na rua (…)

Soai, vozes, vozes de rapazes!Altas e musicais, chamai-me pelo meu nome mais íntimo!

(…) Considera, tu que me lês com atenção, que posso estar por caminhos desconhecidos

Pensando em ti;

(…) Reflete o céu de verão, tu, água, e lentamente o segura

Até que todos os olhos voltados para a tua superfície tenham tempo de vê-lo!

Dispersai-vos, finos raios de luz saídos da silhueta de minha cabeça,

Ou da cabeça de qualquer outra pessoa, refletidos na água iluminada pelo sol!

Avante, navios da baía inferior! Passai para cima e para baixo,

Escunas de velas brancas, corvetas, barcaças!

Ostentai-vos, bandeiras de todas as nações! Arriai-vos pontualmente no pôr-do-sol!

Queimai os vossos fogos, chaminés das fundições!

Lançai sombras negras sobre o anoitecer!

Lançai luzes vermelhas e amarelas sobre os telhados das casas!

As aparências, agora ou de agora em diante, indicam o que és,

Tu, necessário filme, continua envolvendo a alma,

Sobre o meu corpo por mim, e sobre o teu corpo por ti, pendurai-vos aromas divinos,

Prosperai, cidades, trazei vosso frete,trazei vossos espetáculos,rios amplos e suficientes,

Expandi-vos, tornando-se talvez aquilo que nada pode superar em espiritualidade,

Guardai vossos lugares, objetos que não encontrarão

nada mais duradouro que vós mesmos.

Já esperastes, sempre esperastes, vós, mudos, maravilhosos ministros,

Nós vos recebemos com um senso de liberdade, finalmente,

E nos tornamos insaciáveis de agora em diante,

Não mais sereis capazes de nos despistas ou de negar-vos a nós,

Usamos-vos e não vos lançamos fora, plantamos-vos permanentemente dentro de nós,

Não nos aprofundamos em vós, amamos-vos, também há perfeição em vós,

Fornecei vossas partes rumo à eternidade,

Grandes ou pequenas, vós ofereceis vossas partes para a alma.

Até breve!

Para terminar, anuncio o que vem depois de mim.

Lembro-me de ter dito antes que minhas folhas brotariam totalmente,

Eu ergueria minha voz aprazível e forte com referência às consumações.

Quando a América fizer o que foi prometido,

Quando através destes Estados andarem cem milhões de pessoas soberbas,

Quando os demais partirem, deixando as pessoas extraordinárias e apoiando-as,

Quando gerações das mais perfeitas mães denotarem a América,

Então haja para mim e para os meus a nossa devida fruição.

Pressionei para entrar por meu direito próprio,

Cantei o corpo e a alma, a guerra e a paz cantei e as canções da vida e da morte,

E as canções do nascimento e mostrei que há muitos nascimentos.

A todos ofereci o meu estilo, jornadeei com passos confiantes;

E enquanto meu prazer ainda é total, sussurro Até breve!

E tomo as mãos da jovem mulher e do jovem homem pela última vez.

Anuncio a elevação das pessoas naturais,

Anuncio a justiça triunfante,

Anuncio a liberdade e a eqüidade sem comprometimentos,

Anuncio a justificação da candura e a justificação do orgulho.

Anuncio que a identidade destes Estados é uma única identidade singular,

Anuncio a União mais e mais consolidada, indissolúvel,

Anuncio os esplendores e a majestade que farão todas as políticas prévias da Terra

parecerem insignificantes.

Anuncio a adesão, digo que há de ser ilimitada,

Digo que ainda hás de encontrar o amigo por quem procuravas,

Anuncio um homem ou uma mulher, talvez sejas tu (Até breve!),

Anuncio o grande indivíduo, fluido como a Natureza,

Casto, afetuoso, compassivo, inteiramente constituído,

Anuncio uma vida que há de ser copiosa, veemente, espiritual, ousada,

Anuncio um fim que há de encontrar com leveza e alegria a sua tradução.

Anuncio miríades de jovens, cheios de beleza, gigantescos, de sangue doce,

Anuncio uma raça de esplêndidos e selvagens homens velhos.

(…) Prevejo algo demasiado, algo que significa mais do que eu imaginava,

Parece-me que estou morrendo.

Apressa-te, garganta, e soa o que está no fim,

Saúda-me, saúda os dias uma vez mais. Faz ressoar o velho brado uma vez mais.

Gritando eletricamente, usando a atmosfera,

Lançando olhares a esmo, absorvendo tudo o que noto (…)

…………….curiosas mensagens embrulhadas,

Quentes faíscas, sementes etéreas que caem na poeira,

Eu mesmo sem conhecê-las, obedecendo à minha missão, sem jamais ousar questioná-la

Para as eras e eras futuras, entretanto, deixando o desenvolvimento das sementes,

Erguendo-me para as tropas retiradas da guerra,

Promulgando para eles as tarefas que tenho,

Para as mulheres legando certos sussurros de mim…

Para os rapazes meus problemas oferecendo, testando os músculos de seus cérebros (…)

Apaixonadamente (a morte fazendo-me realmente imorredouro),

O melhor de mim então, quando não mais visível,

No rumo daquilo para o que venho me preparando sem cessar.

(…) Haverá um singelo adeus final?

Cessam minhas canções, eu as abandono,

Por detrás da tela onde me escondo, avanço pessoalmente apenas para Ti.

Companheiro, este não é um livro,

Aquele que toca isto toca um homem (…)

Eu sou aquele que abraças e aquele que te abraça,

Eu salto de dentro destas páginas para dentro dos teus braços, a morte me chama.

(…) Sinto-me imerso da cabeça aos pés,

É delicioso, basta.

Basta, ó feito improvisado e secreto,

Basta, ó presente deslizante; basta, ó passado resumido.

Querido amigo, quem quer que sejas, leva este beijo,

Dou-o especialmente a ti, não me esqueças,

Sinto-me como aquele que realizou o seu trabalho durante o dia

E que se retira por um tempo,

Recebo agora novamente minhas muitas interpretações,

Meus avatares ascendendo, enquanto outros sem dúvida esperam por mim!

Uma esfera desconhecida mais real do que a que sonhei, mais direta,

Lança raios despertadores sobre mim, Até breve!

Lembra-te de minhas palavras, posso novamente retornar,

Amo-te, deixo a materialidade,

Sou eu desencarnado, triunfante, morto.

Canção da estrada aberta

1.

A pé e com o coração iluminado, adentro a estrada aberta,

Saudável, livre, o mundo adiante de mim,

A longa senda à minha frente, conduzindo-me para onde quer que eu escolha.

A partir de agora não peço mais pela boa sorte, pois eu mesmo sou a boa sorte,

A partir de agora abandono as lamúrias, não mais procrastino, de nada mais necessito,

Estou farto de reclamações entre quatro paredes,

Forte e satisfeito eu viajo pela estrada aberta.

A Terra é suficiente para mim,

Não desejo as constelações mais próximas,

Sei que estão muito bem no lugar em que estão,

Sei que são suficientes para aqueles que lá vivem.

Ainda assim, por aqui, eu carrego meus velhos fardos deliciosos,

Carrego-os, homens e mulheres, carrego-os comigo onde quer que eu vá,

Juro que é impossível deles me livrar,

Estou realizado por eles, e hei de realizá-los em troca.

2.

Tu, estrada em que me adentro, olhando ao meu redor,

Acredito que não sejas apenas o que se vê aqui,

Acredito que muito do que é invisível também esteja aqui.

Aqui está a profunda lição da receptividade, não a da preferência nem a da negação,

O negro, o criminoso, o enfermo, o analfabeto, não são discriminados,

O nascimento, a procura apressada por um médico, o passo lento do mendigo,

A tontura do bêbado, a festa alegre dos mecânicos,

O jovem foragido, a carruagem do rico, o almofadinha, o casal fugitivo,

O homem que madruga na feira, o carro funerário, a entrada da mobília na vila,

O regresso da cidade,

Tudo passa, eu passo também, qualquer coisa passa, nada é interditado,

Nada deixa de ser aceito, nada deixará de ser querido por mim.

3.

(…) Vós, caminhos desgastados nas perfurações irregulares dos acostamentos!

Acredito que sejais latentes e que possuís existências insondáveis…

Vós, calçadas das cidades! Vós, robustas sarjetas nas beiradas!

Vós, balsas! Vós, pranchas e postes das  docas!

(…)…………………………………………………..Vós, arcos!

Vós, pedras cinzentas de intermináveis pavimentos! Vós, cruzamentos pisados!

Tudo o que vos tocou, acredito que haveis compartilhado entre vós

E agora compartilharíeis o mesmo em segredo comigo,

De vivos e de mortos haveis impregnado de pessoas a vossa impassível superfície,

E os espíritos ali presentes seriam evidentes e amistosos para comigo.

4.

A Terra, expandindo-se para a direita e para a esquerda,

Cada uma de suas partes em sua mais fulgurante luz,

A música descendo sobre aqueles que a desejam e deixando de entrar

Nos locais em que não a desejam,

A voz animada da estrada pública, o sentimento alegre, fresco, dos caminhos.

Ó estrada principal, por ti viajo (…) não tenho medo de deixar-te e contudo te amo,

Tu te expressas melhor sobre mim do que eu mesmo,

Há de ser mais para mim que meus poemas.

Creio que todas as canções heróicas foram concebidas ao ar livre

E também todos os poemas livres,

Creio que eu poderia parar aqui mesmo e operar milagres,

Creio que amarei tudo o que encontrar pela estrada,

E todos os que me contemplarem hão de gostar de mim,

Creio que quem quer que eu veja terá de ser feliz.

5.

Desde agora ordeno que meu ser livre-se de limites e linhas imaginárias,

Posso ir a todos os lugares que imaginar, sou meu próprio mestre, total e absoluto,

Ouço o que me dizem os outros, reflito bem sobre o que eles dizem,

Paro, procuro, recebo, contemplo,

Gentilmente, mas com vontade inflexível, dispo-me das amarras que me limitariam.

Inalo grandes e espaciais correntes de ar,

O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul são meus.

Sou maior e melhor do que eu pensava,

Não sabia que poderia conter em mim tanta bondade,

Tudo me parece maravilhoso,

Posso repetir e repetir para homens e mulheres: vós fizestes tanto bem a mim

E eu faria o mesmo por vós,

Recrutarei para mim e para vós na medida em que avanço,

Derramar-me-ei entre os homens e as mulheres na medida em que avanço,

Lançarei nova alegria e aspereza entre eles,

E se alguém me negar, isso não me incomodará,

Quem quer que me aceite, ele ou ela, há de ser abençoado e há de abençoar-me.

6.

Agora, se mil homens perfeitos tivessem de aparecer, isso não me espantaria,

Agora, se mil formas maravilhosas de mulher aparecessem, isso não me assombraria.

Agora, vejo o segredo de como produzir as melhores pessoas:

É o de crescer ao ar livre e de comer e de dormir com a terra.

(…) O teste final da sabedoria não se dá nas escolas,

A sabedoria não pode ser transmitida por alguém que a tem para quem não a possui,

A sabedoria pertence à alma, não é suscetível de provas, ela é a prova de si mesma,

Ela se aplica a todos os estágios e objetos e qualidades e seus conteúdos,

É a certeza da realidade e da imortalidade das coisas, e da sua excelência,

Algo que está nela, está na superfície e na visão das coisas,

De tal modo a provocar que venha para fora da alma.

Agora eu reexamino filosofias e religiões,

Elas podem ser eficazes nos salões de conferências e, contudo,

Não funcionar abaixo da vastidão das nuvens, e ao longo das paisagens

E das correntes que fluem.

(…) Apenas o núcleo de cada objeto pode nutrir;

Onde está ele, que remove as cascas por ti  e por mim?
Onde está ele, que desfaz estratagemas e envelopes por ti e por mim?

Aqui está a adesividade, ela não foi talhada previamente, ela é pragmática.

Sabes o que significa ser amado por estranhos?

Sabes o que dizem aqueles olhos que se voltam para ti?

7.

Aqui está a emanação da alma,

A emanação da alma vem de dentro, atravessando portões sombreados,

Que sempre provocam polêmica,

Esses anelos, por que existem? Esses pensamentos na escuridão, por que existem?

Por que há homens e mulheres que enquanto estão próximos a mim

Fazem-me sentir a luz do sol a expandir meu sangue?

Por que quando eles me deixam minhas flâmulas de alegria se abatem murchas?

Por que há árvores sob as quais nunca caminho e, contudo,

Fazem descer sobre mim grandes e melodiosos pensamentos?

(…) O que é isso que permuto tão de repente com estranhos?

O que se dá com o condutor quando me sento ao seu lado?

O que se dá com o pescador, puxando a sua rede na praia, quando passo e paro por ali?

O que me permite estar disponível para a boa vontade de uma mulher ou de um homem?

8.

A emanação da alma é a felicidade, e aqui está a felicidade,

Creio que ela se infiltra no ar livre, esperando em todas as eras,

Agora ela flui para nós, estamos dela carregados, certamente.

Aqui se ergue o fluido e o caráter que se prende a nós

(…) Em direção ao fluido e ao caráter que se prende a nós,

Aparece o suor do amor dos jovens e dos mais velhos,

Deles cai destilado o charme que ri da beleza e de tudo o que se obtém,

Em direção ao fluido e ao caráter as náuseas fazem estremecer

Com saudade do contato.

9.

Allons! Quem quer que sejas, vem viajar comigo!

Viajando comigo encontrarás o que nunca faz cansar.

A terra jamais se cansa,

Rude, silenciosa, incompreensível à primeira vista (…)

Não desanimes, persevera, há segredos divinos bem guardados,

Juro-te que há segredos divinos mais belos do que as palavras podem descrever.

Allons! Não devemos parar aqui,

Por mais doces que sejam os bens armazenados,

Por mais convenientes que sejam estas moradas, não devemos permanecer aqui,

Por mais aconchegante que seja este porto e por mais calmas que sejam estas águas

Não devemos ancorar aqui,

Por mais convidativa que seja a hospitalidade que nos cerca,

Não se nos permita que a recebamos além de alguns momentos.

10.

Allons! As seduções hão de ser maiores,

Navegaremos sem rumo por mares bravios,

Iremos até onde os ventos podem soprar, até onde as ondas se arrojam

E o veloz cavalo ianque pode correr a toda brida.

Allons! Com poder, liberdade, a terra, os elementos,

Saúde, desafio, alegria, auto-estima, curiosidade:

Allons! De todas as fórmulas! De vossas fórmulas, ó padres materialistas…

O cadáver bolorento bloqueia a passagem, o enterro não pode mais esperar.

Allons! Contudo esteja alerta!

Aquele que viaja comigo precisa do melhor sangue, tendões, resistência,

(…) Não venhas para cá se já usaste o melhor de ti,

Só podem vir os que tenham seus corpos doces e determinados (…)

11.

Ouve! Serei honesto contigo,

Não ofereço os velhos prêmios amáveis, contudo ofereço prêmios novos e ásperos…

12.

 

Allons! Atrás dos Grandes Companheiros, para pertencer a eles!

Eles também estão na estrada, são homens rápidos e majestosos,

são as mais grandiosas mulheres,

(…) Marinheiros de muitos navios, andarilhos de muitas milhas,
Habitués de muitos países distantes…

Confiantes nos homens e nas mulheres, observadores das cidades,

Aqueles que param para contemplar os botões, as conchas do mar,

Dançarinos de festas de casamento, beijadores de noivas,

Carinhosos condutores de crianças,

Soldados de revoltas, sentinelas de túmulos abertos, coveiros,

Viajantes de estações consecutivas, através dos anos, os anos curiosos,

Cada qual emergindo daquele que o precedeu,

A saber suas próprias etapas diversas…

Viajantes alegres com sua própria juventude, com sua masculinidade de barba bem feita

Viajantes com sua feminilidade, ampla, insuperável, satisfeita,

Viajantes com sua própria masculinidade ou feminilidade de idade avançada e sublime,

Idade avançada, calma, expandida, ampla como a orgulhosa largura do universo,

Idade avançada, fluindo livremente com a deliciosa liberdade da morte que se aproxima.

13.

 

Allons! Para aquilo que não tem fim tal como não teve início,

Vivenciando muito: caminhadas ao dia e o repouso à noite,

Fundindo tudo na viagem,

Vendo nada em lugar algum, a não ser aquilo que se pode alcançar e ultrapassar,

Não concebendo tempo algum (…)

Não vendo possessão alguma, mas sendo capaz de possuir tudo (…)

Carregando casas e ruas contigo, onde quer que vás (…)

Conhecendo o próprio universo como uma estrada, tantas quantas sejam as estradas…

Tudo se fraciona pelo progresso das almas,

Toda a religião, tudo o que é sólido, as artes, os governos,

Tudo o que era ou é aparente sobre o globo cai em nichos ou esquinas

perante a procissão das almas ao longo das grandes estradas do universo,

Do progresso das almas dos homens e das mulheres,

Ao longo das grandes estradas do universo (…)

Elas vão! Elas vão! Eu sei que elas vão! Mas não sei para onde vão,

Mas sei que vão na direção do melhor (…)

Fora do confinamento na escuridão! Fora de detrás das cortinas!

É inútil protestar, tudo conheço e exponho!

(…)Através do riso, da dança, do jantar, da ceia, das pessoas,

Dentro dos vestidos e dos ornamentos, dentro daquelas faces lavadas e aparadas

Contemplo um segredo silencioso de abominação e desespero (…)

Outro ser, um duplo de cada um, se esquiva e se esconde sempre mais (…)

A morte debaixo das costelas, o inferno debaixo do crânio,

Debaixo da casimira fina e das luvas, debaixo dos laços e das flores artificiais,

Mantendo-se dentro dos costumes, não falando uma única sílaba de si mesmo,

Falando de qualquer outra coisa, mas jamais de si mesmo.

14.

 

Allons! Através de lutas e guerras!

Do objetivo que foi estabelecido não se pode retroceder.

(…) Minha chamada é a chamada da batalha, eu nutro a rebelião ativa.

Aquele que caminha comigo deve estar bem armado,

Aquele que caminha comigo enfrenta uma dieta espartana,

Escassez, inimigos coléricos, deserções.

15.

Allons! A estrada está diante de nós!

Já a provei, com meus próprios pés eu a experimentei bastante, não te detenhas!

Deixe que o papel permaneça sobre a mesa, em branco, o livro fechado na prateleira!

Deixa que as ferramentas jazam na oficina! Deixa que o dinheiro fique sem ser ganho!

Deixa que a escola espere! Não te importes com o chamado do professor!

Deixa que o pregador pregue no púlpito!

Deixa que o advogado defenda a causa na corte e que o juiz interprete a lei.

Camarada, dou-te a minha mão!

Dou-te meu amor mais precioso que dinheiro,

Dou-te meu ser antes de pregar ou legislar;

Dar-me-ás o teu ser? Viajarás comigo?

Seremos unidos um ao outro enquanto vivos estivermos?

Blog no WordPress.com.