MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

31/12/2012

Enquanto a América for o Império: GORE VIDAL (1925-2012)

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de agosto de 2012)

“A América, presa pela superstição da democracia, não se decide a ser um império.  A frase, de um dos contos do Livro de areia, de Jorge Luis Borges,  nos ajuda a entender o ambicioso projeto a que se propôs o recém-falecido Gore Vidal: além de ensaios, pronunciamentos de grande repercussão (e candidaturas fracassadas a cargos políticos), um painel romanesco que abrange o período em que, mesmo presa pela “superstição da democracia”, a América se tornou a maior potência mundial, para o bem e para o mal.

Tudo começou em 1967, com Washington D.C. (cuja atmosfera amplifica a da peça The Best Man, filmada como Vassalos da ambição, de 1964, grande trabalho de Franklin J. Schaffner). Em época de julgamento do mensalão e do escândalo Demóstenes Torres/Carlos Cachoeira, essas intrigas entre congressistas são uma leitura utilíssima. Inicialmente projetada como uma trilogia (completada por Burr, de 1973, & 1876, de 1976), a série se estendeu ainda com Império (1987), Hollywood (1990) e Os anos dourados (2000). Só Império chega perto de alcançar o nível do livro inaugural. Todos os outros alternam bons momentos com ninharias, e são arrastados e cansativos.

Lincoln (1984) é excelente em seu tratamento surpreendentemente sóbrio da figura do célebre presidente, sem irreverências ou desmistificações agressivas, opinião não compartilhada pela maioria dos leitores. Uns, por acharem o livro excessivamente longo e monótono, como considero aqueles já citados; outros, por acharem aquilo tudo muito distante de um leitor não-estadunidense (de qualquer forma, o presidente ali retratado ganhou vida numa interpretação magnífica do grandioso Sam Waterston).

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Além desse mergulho na história da sua pátria, duas outras vertentes se destacam na prolífica produção de Vidal (cujo primeiro romance, Williwaw, é de 1946; mas ele ficou famoso mesmo foi com o terceiro, A cidade e o pilar, de 1948, por tratar abertamente do assunto, então tabu, da homossexualidade, embora hoje se constate tratar-se de um livro fraco): os textos que abordam os problemas da nossa época de forma satírica e os que transcorrem em civilizações antigas.

Dentro da primeira vertente, Vidal publicou o seu romance mais famoso, explorando a liberação sexual dos anos 1960, Myra Breckenridge (sempre achei que seu insucesso como candidato se deve a ter publicado esse livro de 1968), que teve uma sequência, Myron (1974). Na mesma dicção  afrontosa, ele arrasou a jequice norte-americana que vemos cristalizada em cerimônias como o Oscar, em Duluth (1983). São trabalhos brilhantes, embora nessa linha meu predileto sempre tenha sido Kalki (1978), no qual uma conspiração para acabar com a raça humana (salvando-se uns poucos escolhidos) é baseada na mitologia hindu, nos ciclos de criação e destruição do mundo por Vishnu.

Além do maravilhoso Kalki, os livros de Vidal que considero mais notáveis pertencem à outra vertente (mergulhos em tempos históricos remotos), caso de Juliano (1964), no qual aborda a figura do imperador que tentou deter o avanço do cristianismo, e o insuperável Criação (um modelo no gênero), de 1981, em que um persa radicado em Atenas, revoltando-se contra as “besteiras” que ouve de Heródoto, relata suas viagens pelo mundo e o contato direto com as concepções de Confúcio, Buda (e mais Sócrates e o zoroastrismo).

Portanto, temos uma série de títulos que eu não cansaria de recomendar ao meu leitor: Washington D.C, Império, Lincoln, Kalki, Juliano, Criação. Nada mal. E então vem a espinhosa questão: Gore Vidal foi um grande escritor?

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Impressionou-me muito sua célebre entrevista para a “Paris-Review” nos anos 1970, porque —entre várias outras observações acuradas, às vezes cruéis— ele falava da sua admiração irrestrita pelo extraordinário William Golding (o qual, embora mais velho, começara a publicar bem depois dele). Num meio tão competitivo e cheio de vaidade, e com uma personalidade do tipo “língua afiada” como Vidal, foi um cumprimento de um colega de profissão a outro absolutamente admirável. Mais ainda, a meu ver: um exercício de modéstia (que ninguém esperaria dele) ao reconhecer a existência de um escritor verdadeiramente grande, genial. Vidal não foi esse escritor verdadeiramente grande, genial.

Quando abordou a vida de Aaron Burr, o lendário vice que nunca conseguiu se tornar presidente, num de seus romances sobre a construção do império americano, ele de certa forma dramatizou sua própria condição de escritor: maravilhosamente dotado de talento, verve, perícia narrativa, mas que ficou no “quase”. Num “quase” de altíssimo nível, diga-se de passagem, especialmente naqueles momentos citados. Agora: mesmo com seu carisma, não foi páreo para nenhum dos companheiros-rivais de geração (uma das maiores que a ficção dos EUA conheceu): Norman Mailer, Truman Capote, Ralph Ellison, William Styron e, sobretudo, Saul Bellow. De qualquer forma, a conta ainda está por fechar.

E Gore Vidal, grande ou “quase”, nunca deixou (e ouso dizer que nunca deixará) de ser interessante e necessário. Pelo menos enquanto a América for o Império.

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Os números de 2012

Filed under: rapidinhas — alfredomonte @ 12:37
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Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um resumo:

About 55,000 tourists visit Liechtenstein every year. This blog was viewed about 280.000 times in 2012. If it were Liechtenstein, it would take about 5 years for that many people to see it. Your blog had more visits than a small country in Europe!

Clique aqui para ver o relatório completo

30/12/2012

TRATADO SOBRE A TOLICE HUMANA: “O pêndulo de Foucault”, de Umberto Eco

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O ANTI CÓDIGO DA VINCI

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de junho de 2006)

    Após o medíocre suspense de  Código da Vinci, com sua trama conspiratória que vinha de longe no Tempo, não houve outro jeito senão voltar a um romance que, em 1989 (época do seu lançamento por aqui), causou decepção a quem aguardava com sofreguidão um novo O Nome da Rosa.

     Mais tarde, numa resenha, condensei meu precipitado desagrado no seguinte veredicto: pernóstico e insuportavelmente chato. Ainda mais constrangedora, relida hoje (bom que “mocidade é tarefa para mais tarde se desmentir”, nos ensina Guimarães Rosa), esta outra afirmação: a atualidade não é o forte de Umberto Eco como romancista! Ele, grande investigador da tolice humana, acharia muita graça, pois já colocara uma maliciosa armadilha para incautos no prólogo de O Nome da Rosa:

“… sinto-me livre para contar, por mero gosto fabulatório, a história de Adso de Melk… tão gloriosamente privada de relações com os nossos tempos, intemporalmente estranha às nossas esperanças e às nossas certezas. Porque esta é uma história de livros, não de misérias cotidianas…”

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    O Pêndulo de Foucault narra como Casaubon (o narrador), Belbo & Diotallevi, funcionários de uma editora, durante o planejamento de uma coleção destinada a divulgar livros esotéricos e ocultistas, diante da mixórdia do material que se lhes apresenta (fãs de Dan Brown encontrarão o casamento de Jesus com Maria Madalena e sua relação com o Santo Graal no capítulo 65) e diante da constatação de que “quando se entra num estado de suspeita não se deixa de lado mais indício algum”, resolvem elaborar um Plano Único  cuja origem remontaria aos Templários, claro. O seu sucesso dependeria de encontros em determinados lugares na virada para o dia 24 de junho, a cada 120 anos. Só que o Plano extraviou-se e agora inúmeras seitas e sociedades secretas andam à caça de pistas.

    O Plano, portanto, é uma impostura engendrada por três intelectuais desencantados frente a um universo de simulacros e analogias forçadas (“esta extraordinária capacidade de colocar tudo junto…”; “… quando se quer encontrar conexões, encontra-se sempre, por toda a parte e em tudo, o mundo explode numa rede…”). Todavia, são levados a sério e, enquanto Diotallevi se encontra no estágio terminal de um câncer, Belbo é  perseguido. O romance começa com Casaubon à sua procura, vasculhando seus arquivos de computador, depois indo a Paris. Isso aí, leitor, Paris, como em O Código da Vinci. Em vez do Louvre, o menos turístico Conservatoire des Arts et Métiers, onde está o pêndulo do título, cuja trajetória apontaria na data certa a localização do segredo resguardado pelo Plano.

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    Pernóstico? Insuportavelmente chato? A atualidade não é seu forte? Poucos livros têm momentos tão saborosos,  quando o trio passa em revista as teorias e proposições das doutrinas secretas. Como Umberto Eco não é raso como Dan Brown e conhece tudo, movimenta uma massa de informações que ameaça tornar-se indigesta num volume de 600 páginas e 120 capítulos. Mas estamos num mundo de delírios, de suspeita (e a atualidade se desenha de forma inequívoca e vigorosa, principalmente no contraste das gerações a que pertencem Belbo e Casaubon), por isso o excesso é pertinente. Mais ainda, coerente. A parte inapelavelmente mal resolvida e enfadonha é a dos files do computador de Belbo, mesmo se considerarmos o pioneirismo na introdução do cotidiano informatizado no espaço ficcional .

    Na maior parte do tempo, essa volta ao Pêndulo foi uma experiência deliciosa e uma revelação: como os filmes de Stanley Kubrick, esse livro já nasceu com a vocação de esgotar todo um gênero. Contribuem muito para o prazer inesperado algumas personagens scundárias: Lia, uma das amadas do narrador, com seu bom senso inabalável e sedutor (a outra, Amparo, recebe a Pomba Gira na parte brasileira do livro); Aglié, o pretenso Saint Germain atuando ainda em nossos tempos; e sobretudo o delicioso dono da editora, o sr. Garamond, useiro e vezeiro em roubar cenas. Prova de que, se for perdoável a pobre rima, enquanto seus heróis reciclavam impostura, Eco criava autêntica literatura.

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27/12/2012

SOLIDÃO EM FAMÍLIA À MODA ANNE TYLER

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 22 de julho de 1997)

 Com A Passagem de Morgan, publicado em 1980, Anne Tyler começou sua grande fase como romancista. Logo depois veio sua obra-prima, Diner at the homesick restaurant (1982), título que se presta a péssimas traduções; em seguida, seu romance mais conhecido, O turista acidental (ainda mais devido ao belo filme de Lawrence Kasdan, um dos raros casos em que o resultado da adaptação é tão bom quanto o da fonte original), finalmente, o Pulitzer por Lições de vida.

Agora em 1997, A Passagem de Morgan é publicado no Brasil (com tradução de Pinheiro de Lemos) com uma capa que nos mostra um sujeito que parece ter fugido de Muito além do jardim, aquela sátira onde Peter Sellers fazia um idiota viciado em tevê que era confundido com um sábio. Esse é o grande perigo com relação ao personagem central do livro, Morgan: tomá-lo como uma caricatura apenas. Como ele é muito esquisito e idiossincrático, assim como o professor Pnin do romance de Vladimir Nabokov, a tentação é vê-lo como uma figura folclórica, que serviria tranquilamente para overacting de algum ator hiper-histriônico tipo Robin Williams (o Malcolm de O turista acidental, que também é muito esquisito, ganhou a sorte de William Hurt tê-lo interpretado com todo o requinte do seu bom senso e genialidade de ator).

Morgan é um pai de família (esposa e SETE filhas) de Baltimore (cidade que está para Anne Tyler como Curitiba para Dalton Trevisan), gerente de uma loja de ferragens, que procura escapar da petrificação do cotidiano fingindo ser outra pessoa de vez em quando (além de usar roupas e chapéus estranhos). Um dia, quando uma moça entra em trabalho de parto numa apresentação de teatro de fantoches, ele se passa por médico e faz  o parto dela. A partir daí, ele passa a seguir o casal em questão, Emily e Leon (os quais trabalham justamente com fantoches), que para ele representam uma “família pura”, sem excesso de objetos, eletrodomésticos e emoções das famílias em geral.

Como nada pode permanecer “em estado puro”, Morgan acaba entrando na intimidade de Emily e Leon e eles na intimidade da família dele. Pior ainda, ele e Emily têm um caso. Isso permite a Morgan fazer a sua passagem, isto é, assumir o papel que era de Leon na sua concepção extremamente idealizado do casamento (despojado puro)  de Emily . Ele leva para a casa dela a mãe desmemoriada, a irmã neurótica, o cachorro e milhares de bugigangas. Até que um dia surge a oportunidade de realmente começar uma vida nova, em outro lugar…

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Alguns críticos acusam Anne Tyler de permanecer numa espécie de limbo agridoce, sentimentalista. Ou seja, ela escreve bem, só que não consegue ultrapassar a trivialidade ao tentar imitar o cotidiano, a vida comum de família comuns (ou nem tanto).

Quando se lê A Passagem de Morgan percebe-se o quanto essa visão crítica é equivocada. Poucos autores são tão perversos e cruéis quanto Anne Tyler, sem que ela precise chegar ao nível de taras e loucuras das peças de, por exemplo, Nélson Rodrigues. Embora se movimente pelo espinhoso emaranhado dos sentimentos familiares, a impressão que se tem é que muitos desses sentimentos são forjados e confundidos com hábitos neuróticos, com referências, com  uma idéia de realidade que as pessoas vão construindo à sua volta como uma gaiola (o que o protagonista de O turista acidental manifestava ter plena consciência, ao escrever manuais que ensinavam a pessoa a reproduzir seus hábitos cotidianos mesmo em viagem).

Para se perceber bem como, para a grande escritora de Baltimore, os sentimentos são gaiolas pré-fabricadas, muito confortáveis e cômodas, mesmo quando a pessoa parece estar vivendo num  inferno, basta ver a facilidade com que, nos seus romances, as pessoas de repente abandonam suas famílias, seus seres amados. Só que para Anne Tyler tal facilidade em abandonar vínculos não redunda em liberdade. Rapidamente somos compelidos a criar outras gaiolas, outro engradado de referências, hábitos e sentimentos.

Independentemente das questões mais incômodas que sua obra pode levantar, sempre é um prazer ver como ela consegue dar vida às famílias, às pessoas, aos ambientes. Após algumas páginas de A Passagem de Morgan é como se o leitor sempre tivesse vivido a vida da família de Morgan, ou como se tivesse sido desde a infância amigo de Emily, essa personagem admirável, cujo foco de visão sobre o mundo parece refletir, em certa medida, o pensamento da autora norte-americana. De fato, é através de Emily que Morgan (e o leitor) tem um lampejo do que é realmente a solidão em família: Morgan está passando férias na praia, com sua esposa, sua mãe, sua filha caçula. Aparece sua irmã. Ela convida Emily, seu marido, e a filha (que Morgan ajudou a trazer para o mundo). Estão todos juntos, sufocantemente juntos, mas Emily, que é quem tira as fotografias, mostra cada um deles isolado, sozinho, preso na sua gaiola de gestos, manias e trejeitos adquiridos…

VER TAMBÉM AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/08/05/enforcando-se-nos-lacos-de-ternura/

capa em inglês

 

     

26/12/2012

O autor como personagem: O ÚLTIMO DICKENS, de Matthew Pearl

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“O Chefe me falou de um sonho que teve certa vez—explicou Tom.—Nele, recebia um manuscrito e lhe diziam que aquilo salvaria sua vida. Contudo, ao olhar para o papel, não conseguiu ler o que estava escrito.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de dezembro de 2012)

Há 19 anos, resenhei para esta mesma coluna A Verdade sobre o Caso D, de Fruttero & Lucentini, no qual um congresso de detetives famosos da ficção (Holmes, Poirot, Maigret etc) tentava desvendar o enigma de O Mistério de Edwin Drood, manuscrito interrompido com a morte abrupta de Charles Dickens, aos 58 anos, em 1870. A meu ver, o maior charme do romance paródico da dupla italiana estava na inclusão dos capítulos deixados pelo genial escritor vitoriano, os quais eu não conhecia. Era tão incrível, tão absorvente, que impedia que o leitor se interessasse minimamente por quaisquer brincadeiras pós-modernas ao seu redor. O que existia do relato, mesmo inacabado, fazia dele uma obra-prima, tal como mais tarde aconteceria com O primeiro homem, de Albert Camus.

“__ Aqui—disse o Dr. Steele.—Um furo no braço do Sr. Osgood. É a picada de uma seringa hipodérmica. Vê?

    O médico continuou a falar:

__ Alguém lhe aplicou uma dose alta de narcótico, senhor. É por isso que a droga demorou tanto tempo para sair de seu corpo.

   Rebecca sentiu que tremia. Osgood soergueu-se na cama. Olharam-se, espantados. Havia atravessado meio mundo, em parte como um esforço para deixar a tragédia de Daniel para trás, e acabaram se deparando com a mesma marca de injeção que havia nele. Tudo parecia fazer parte da mesma sinistra situação, embora o motivo ainda fosse um mistério (…)

__ Sr. Osgood, isso é igual ao que o senhor viu… no corpo de Daniel?—perguntou Rebecca em um sussurro, de modo que o médico não os ouvisse.—Não deve esconder nada de mim. Foi isso, não foi?

__ Sim—murmurou Osgood.

__ O que pode significar?

__ Que estamos enfrentando o mesmo adversário, desde a manhã em que Daniel morreu.

__ Mas quem?

__ Não sei.—Então, em parte  magoado e em parte triunfante, exclamou: — Não foi Daniel quem se injetou com ópio. Agora temos certeza disso. Ele foi envenenado, Srta. Sand, assim como eu!

__ Acredita nisso?

__ Só pode ser! Dickens não poderia ter escrito tal descoberta por coincidência! Isso muda tudo.  Precisamos  ter uma visão mais clara da situação de Daniel, dos bandidos, de Drood, Srta. Sand…”

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A Record lançou em 2012 a tradução de Alexandre Raposo para outro romance que se debruça sobre a possibilidade de se desvendar O mistério de Edwin Drood, e mesmo até descobrir uma possível continuação da história, supostamente já escrita: O Último Dickens [The Last Dickens, EUA, 2009].

É o terceiro romance de Matthew Pearl, prosseguindo a linha dos outros: histórias de suspense ligadas à própria literatura. Em O Clube Dante (2003),  um assassino utilizava passagens da Divina Comédia e quem investigava os crimes eram renomados escritores da Boston pós-Guerra de Secessão (o grande Longfellow, James Russell Lowell e Oliver Wendell Holmes), cujo editor era J.T. Fields (também personagem de O Último Dickens); em A Sombra de Allan Poe (2006), um jovem advogado de Baltimore investigava o fim do criador das Histórias Extraordinárias, envolvendo-se até na sucessão do poder na França.

È preciso dizer que nenhum desses livros convenceu totalmente, apesar das premissas atraentes e de representarem uma leitura satisfatória, (enquanto distração). Teria Pearl realizado algo mais substancial em O Último Dickens que o tornasse finalmente o praticante-mor do gênero “mistério literário”?

Não, ainda não foi dessa vez. O livro alterna três sequências narrativas. Em 1870, divide-se em duas frentes: as investigações efetuadas por James Ripley Osgood, editor de Dickens na América, sócio mais jovem do  Fields de O Clube Dante, para descobrir mais capítulos de Edwin Drood, permitindo que sua empresa enfrente a pirataria corrente (Dickens era o maior best seller da época); e as diligências, na Índia, de Frank, filho da celebridade  recém-falecida, a fim de desbaratar uma quadrilha de ladrões de cargas de ópio (comercializado pela Inglaterra, e cultivado às custas da agricultura local, pauperizando ainda mais os camponeses). E em 1867, narra a temporada de conferências levadas a cabo por Dickens nos EUA, cercada de peripécias dramáticas e momentosos fatos políticos (o processo de impeachment do então presidente Andrew Johnson), e filtrada para o leitor pelos olhos de um dos criados da comitiva dickensiniana: o irlandês Tom Branagan, que salvará o Chefe (como era chamado num círculo mais íntimo) de uma fã psicopata, a qual também fornecerá, mais tarde, a chave do mistério que cerca o derradeiro manuscrito.

Parece bastante rico e movimentado, não? Nem tanto assim. Pearl sempre abusa do número de páginas (já era um problema em A Sombra de Allan Poe), e nas primeiras 150 muito pouco acontece. Além disso, ele não consegue unir satisfatoriamente todos os fios da meada. Não há justificativa para os episódios na Índia, a viagem de Dickens pelos EUA, que poderia ser a melhor parte, é meio apagada e arrastada, mesmo com as apelações melodramáticas, e o vilão (facilmente identificável pelo leitor mais atento), que está na cola de Osgood e de sua funcionária (o interesse romântico do livro) Rebecca Sand, para eliminar quaisquer vestígios de uma “segunda parte” de O Mistério de Edwin Drood (cuja trama seria baseada em fatos reais), ao se explicar para o herói e à amada, no clímax, consegue ser tão inconvincente que beira a comicidade.

Mas para o leitor que se aflija muito com o fato de que, mesmo com essa correria toda, “o último Dickens” permaneça inconcluso, eu posso revelar o que seria quase um milagre e um presente de Papai Noel: o espírito do autor de tantas histórias natalinas memoráveis incorporou-se num certo Thomas P. James e ditou a continuação da história, como se pode ler na edição brasileira de O Mistério de Edwin Drood, agora relançada pelo Instituto Lachâtre (cujo chamado na capa, na edição anterior,  era “versão concluída pelo próprio autor”!!!???). O porquê de alguém, no Além, se preocupar com a continuação de um romance, isso sim é um mistério digno de investigação.

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ADENDO

Em tempo: há alguns probleminhas nem um pouco sobrenaturais no texto publicado pela Record. Na página 228, por exemplo, afirma-se: “O presidente  Andrew Johnson compareceu a todas as leituras em Washington e convidou Dickens e Dolby à Casa Branca no aniversário do romancista (…) Dickens convenceu-se de que Johnson se sairia bem…” Até aí tudo bem, apesar da literalidade das “leituras”. Mas logo a seguir se lê uma frase estranhíssima em sua formulação, um comentário de Dickens a respeito do presidente: “Esse é um homem que deveria ser morto para sair do caminho”; e na pág. 325, numa alusão à postura de um ator que encarnava Edwin Drood, morto num incêndio suspeito,  lemos: “Aquele Grunwald costumava dizer que ninguém que tivesse encarnado Edwin Drood poderia entender a atitude do personagem…” [na verdade, precisávamos aqui de um “não”: “ninguém que NÃO tivesse encarnado Edwin Drood poderia entender a atitude do personagem…”]

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TRECHOS SELECIONADOS    

“Ao recolher seus pertences no saguão do hotel, Osgood se pegou olhando para um espelho pela primeira vez desde que fora atacado. Ao ver seu reflexo, ergueu as mãos involuntariamente até o rosto e então as deixou escorregar até o pescoço, como se tentando manter a cabeça no lugar. Ele piscou. Quando desaparecera sua aparência infantil, aquela expressão inocente que ele sempre amaldiçoara e louvara? No lugar, havia o rosto pálido de um fantasma, quase cadavérico, com uma complexa teia de rugas de cansaço e sombras escuras ao redor de olhos fundos. Seu cabelo estava quebradiço e sem vida. Ou assumira uma máscara de morte prematura ou passara de uma tenra juventude para uma dura maturidade. Ele não conseguia distinguir. Mas havia um elemento encorajador em sua aparência. Ele não era mais inexpressivo ou passível de ser confundido  com outro jovem homem de negócios de Boston. Aquele era James R. Osgood, embora abatido. Não havia dúvidas quanto àquilo.”

“__ E se isso quiser dizer que não há nada a ser descoberto?

__ Talvez estejamos apenas procurando nos lugares errados—disse Rebecca, corajosamente.

__ Sim—retrucou Tom, enfático. Então, bateu com a mão sobre a mesa.—Sim, Srta. Sand! Mas não é apenas isso. Não apenas o lugar errado, mas o tempo errado!

__ O que quer dizer, Sr. Branagan?—perguntou Rebecca.

__ Eu estava me lembrando quando estávamos nos EUA,  em um trem a caminho das leituras na Filadélfia, o Chefe começou a falar sobre Edgar Allan Poe com muita tristeza. Disse que, quando viu Poe na última vez que fora à Filadélfia, conversaram sobre Caleb Williams. Quem é o autor deste romance?

 __ William Godwin—disse Osgood.

__ Obrigado. O Sr. Dickens contou a Poe que Godwin havia escrito a última parte do livro e somente então começara a escrever a primeira parte. Poe disse que ele também escrevia histórias de mistério de trás  para a frente. E se o Sr. Dickens, ao escrever seu grande mistério,começou pelo fim?” [aqui nesta passagem final, que aparece na pág. 299, há também um probleminha, pois a frase foi publicada do seguinte jeito: “E se o Sr. Dickens, ao escrever seu grande mistério, não começou pelo fim?”, esse “não” evidentemente sobrando]

The Last Dickens cover from publisher

24/12/2012

QUEM É O SALIERI DE DICKENS ? ou Como um romance inacabado pode ser o máximo

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Em A VERDADE SOBRE O CASO D.[1], Carlos Fruttero & Franco Lucentini se  propõem a completar o derradeiro texto de Charles Dickens, que morreu em 1870, após escrever 22 capítulos[2]. Convocam para essa tarefa Sherlock Holmes, Hercule Poirot, Inspetor Maigret, Nero Wolf e muitos outros detetives “emprestados” da ficção policial.

É mais um exemplo da atração fatal dos escritores italianos pelas brincadeiras com textos e manuscritos, juntando-se a, entre outros, Umberto Eco, Italo Calvino (Se um viajante numa noite de inverno) e ao Leonardo Sciascia de O Conselho do Egito.

Seria uma ótima diversão, não ficasse tão aquém do talento de Dickens. Por mais simpatia e graça que a dupla injete no seu congresso de detetives, e por mais gostosa que seja a leitura, seguindo os indícios (e incongruência e inverossimilhanças) deixados pelo autor da história inacabada, o fato é que o maior encanto, a justificativa do emprego de tempo no volume, estão mesmo nos 22 capítulos de O Mistério de Edwin Drood.

Drood desapareceu. Fugiu, foi morto? Sabemos que, na véspera, rompera seu noivado, acertado desde a infância.

Acontece que seu tio, Jasper (que abre a narrativa num antro de ópio), mestre do coro na cidadezinha medieval de Cloisterham, é apaixonado por Rose (a noiva) e, nos seus delírios, sonha (pelo menos é o que se supõe) com a morte  do sobrinho. Portanto, há um clima ameaçador, realçado pelo crescimento explícito do demonismo de Jasper, o qual fica prestes a se tornar um grande vilão quando a narrativa é interrompida. Mas não será um truque de Dickens para nos despistar? É um dos pontos do congresso.

Para complicar, aparece um casal de irmãos anglo-cingaleses, Helena  e Neville; este apaixona-se por Rose e tem uma violenta discussão com Edwin, transformando-se no suspeito principal quando do desaparecimento.

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Afastados os rivais, Jasper tenta aproximar-se de Rose, e esta (que o abomina) procura auxílio em Londres, junto não só a seu tutor, Mr. Grewgious, como também do  Reverendo Crisparkle (que adotara Helena e Neville), personagens com aquela mistura dickensiniana perfeita e deliciosa de humor e ternura. De fato, as caracterizações são o forte do texto. Não é à toa que Dostoiévski e Kafka admiravam o grande vitoriano.

Jasper, Grewgious e Crisparkle são memoráveis, e há ainda uma fantástica de galeria de personagens mais episódicos, que têm uma vida gritante (às vezes até demais: o tom sobrecarrega-se); entre eles, Durdles, que faz os túmulos de Cloisterham, e que leva Jasper a conhecer os segredos da catedral (onde presumivelmente Drood foi morto, e o cadáver semidestruído pela cal viva).

Após debates e confusões no congresso, num clima pós-moderno que parece deliberadamente construído para contrastar com a atmosfera vitoriana (mas não cai tão bem assim), a solução encontrada pela dupla, tendo como porta-voz Poirot (o detetive triunfante) é a la Amadeus (um rival invejoso).

Não ligando muito para ela, pois lhe falta o necessário impacto, eficácia ou mesmo relevância, o leitor sonha com seu próprio desenvolvimento da história, após 22 capítulos de magia e maestria. É, no fim, a mesma coisa que alguém se propor a desvendar o adultério de Capitu. Precisa?

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[1] La verità sul Caso D (Itália, 1989), em tradução de Paulo Henriques Britto & Rosa Freire D´Aguiar para a Companhia das Letras.

[2] Nota de 2012: a resenha acima foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de agosto de 1993. No recente O Último Dickens, de Matthew Pearl, afirma-se que o genial autor inglês morreu após completar o SEXTO capítulo.

Em  1993, não sabia nada sobre a devoção obsessiva em torno do texto e de uma possível continuação, o que foi muito legal para saborear melhor o próprio Mistério de Edwin Drood. Fico feliz em saber que Pearl chega à mesma conclusão a que eu chego na minha resenha, embora pareça que, do Além, veio a solução do mistério.

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23/12/2012

O autor como personagem: O CLUBE DANTE

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Henry Wadsworth Longfellow, James Russell Lowell e Oliver Wendel Holmes eram grandes estrelas da literatura em meados do século 19, nos EUA. Eram de Boston,  ligados à Harvard e tinham o mesmo e prestigiado editor, J.T. Fields.

A amizade fez com que Lowell e Holmes auxiliassem Longfellow na primeira tradução americana da Divina Comédia(o poema é quase desconhecido no país), e  justamente no momento em que ela se encaminha para o término, há uma onda de crimes, cujas características copiam detalhes de cantos do Inferno. Esse é o argumento básico de O Clube Dante, de Matthew Pearl. Já envolvidos com intrigas de membros da diretoria de Harvard, os quais não vêem com bons olhos a incorporação de Dante ao cânone universitário, graças ao fato de Holmes ser médico os membros do insólito clube  ficam sabendo da similaridade alcançada pelo criminoso e começam a imaginar que ele pode ser um erudito, profundo conhecedor da obra de Dante.

O que os intriga é a aleatoridade das punições: há um indiferente, um simoníaco e um fomentador de desavenças, que aparecem em cantos diversos (mais tarde, haverá traidores, mas já é outra história…). O quarteto (Longfellow, Holmes, Lowell, Fields) descobrirá que os crimes estão relacionados mesmo é com a Guerra de Secessão, que terminara e que, como se sabe, fraturou a identidade nacional  (“Todos os tempos foram separados em duas épocas:  antes da guerra e depois da guerra”), de um modo que lembra a dividida Florença, retratada de forma tão crítica por Dante. E descobrem que realmente foi a tradução de Longfellow que motivou os crimes, embora da forma mais inusitada possível. Nessa investigação, eles  ganham a colaboração de um dos primeiros policiais negros da cidade, Nicholas Rey, uma conseqüência progressista da guerra, que gera previsíveis tensões sociais, convenientemente incorporadas ao enredo.

Apesar do estilo meio laborioso, e às vezes meio pueril (frases do tipo “as narinas promeminentes do soldado agitaram-se de interesse”, alguém consgue imaginar a agitação de narinas interessadas?) adotado por Pearl em seu romance de estréia, ler Clube Dante  é uma experiência divertida. Quem é que, gostando de literatura, não acha empolgante ver mistérios criados por livros gerando crimes reais, ou então ver escritores correndo pra lá e pra cá em aventuras perigosas ? Esse era um dos encantos de O nome da rosa.

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Não há como negar que Pearl nos transmite muito bem o clima intelectual de Harvard e Boston. Particularmente bem sucedido  nas figuras do timorato e pusilânime, por vezes, Wendell Oliver Holmes, e do destemido e temperamental James Russell Lowell, a amizade entre ambos,  feita de embates  é o destaque do livro, sem dúvida. Por outro lado, quem sai perdendo no livro é Dante.  No que se refere ao uso do poema na trama, tudo é clichê e trivial. E, é lógico, mais uma vez se sacrificou  a estrutura tripartite, ignorando-se solenemente o Purgatório e o   Paraíso, e insistindo-se no Inferno. Que o assassino inculto fizesse isso, tudo bem, mas que chances foram desperdiçadas ao longo das discussões dos membros do clube no decorrer da narrativa! Quem pode esquecer, no romance de Umberto Eco, as apaixonantes discussões sobre Aristóteles (e esse, com certeza, era um dos encantos de O nome da rosa) ?

Além disso, e é algo que contamina até a apelativa capa colocada pela editora Francis [com a tradução de Maria José Silveira, não se entende muito bem a insistência de Pearl nas moscas varejeiras, que deveriam  fazer parte apenas do primeiro crime, mas ganham uma amplificação forçada e até de mau-gosto no  início do romance, e depois reaparecem aqui e ali sem ter o que fazer, após a morte do juiz culpado de indiferença, a ponto de fazer a Grande Negação.

Talvez ao  pesquisar para o livro, Pearl tenha fica muito impressionado com a existência dessas moscas. No terceiro mundo, ela não nos causam qualquer espécie.

[resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 26 de novembro de 2005)] 

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O autor como personagem de si mesmo e dos outros: Edgar Allan Poe

 

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Nos 200 anos do nascimento de Edgar Allan Poe (1809-1849), o leitor pode encontrar duas obras sobre ele: a biografia-almanaque O Livro Completo de Edgar Allan Poe e o romance A Sombra de Allan Poe[1].

A biografia escrita por Shelley Costa Bloomfield é muito  prejudicada pelo bizarro aparato que cerca o texto principal. O livro se assemelha àquelas páginas da internet nas quais vão se abrindo janelas e janelas. O que parece evidente, no entanto, é a falta de confiança na inteligência do leitor, infantilizado por uma divisão idiota em subtítulos e janelas explicativas (pífias e cheias de informações banais) que fica mais chocante ainda porque o trabalho de Bloomfield, discutível na medida em que se deixou editar desse jeito, é bastante sólido: ela nos dá uma boa medida de como Allan Poe foi precursor de Fernando Pessoa em imaginar vidas alternativas à sua deprimente condição de pobreza, estendendo a literatura até os seus dados biográficos, incessantemente recriando sua ascendência e até seu nome.

Já o romance de Matthew Pearl mostra mais uma vez, após O Clube Dante, o domínio que ele tem do século XIX. A narrativa é feita por Quentin Hobson Clark, jovem advogado de Baltimore que, ao saber que seu ídolo literário morreu em sua cidade e foi enterrado de forma tão indigente, resolve investigar os fatos que cercam esse triste fim, como num relato policial. Ao fazer isso, perde sua posição social, sua noiva e até é preso, acusado de tentativa de homicídio, escapando da prisão de uma forma bem romanesca, durante uma enchente.

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Antes de ficar nessa situação que o irmana à vida terrível que Poe levou, ele vai a Paris em busca da pessoa que supostamente teria inspirado os dons de dedução e raciocínio do mítico detetive dos contos de Poe, Auguste Dupin. E aí Pearl tem o maior achado de seu texto porque aparecem em Baltimore dois candidatos que rivalizam para ser o protótipo de Dupin e dar a solução ao caso: o Barão Dupin, um charlatão, especialista em disfarces, intimidação e penetração no submundo, que conta com uma ladra assassina, Bonjour, para as suas ações, e o melancólico e aparentemente inerte (em termos de ação) Duponte, o qual se instala na casa de Clark e cuja principal ocupação é ler jornais.

As implicações da morte de Poe, segundo o relato de Clark, envolveriam até os problemas políticos da França e os parentes “americanos” de Napoleão.

A Sombra de Allan Poe tem seu calcanhar-de-aquiles no narrador: raras vezes se viu um protagonista tão tolo e bocó quanto esse Quentin Hobson Clark. Além disso, assim como na sua obra anterior, Pearl mostra que não aprendeu a grande lição de Edgar Allan Poe: a criação de uma narrativa enxuta, no tempo certo, em que o efeito é construído pela ausência de lengalenga. Umas cento e cinqüenta páginas a menos e o romance seria outro e melhor. E, por favor, outro herói, menos indigno do mestre.

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de janeiro de 2009


[1]  O primeiro, lançado pela Madras, com tradução de Soraya Borges de Freitas; o segundo, cujo título original é The Poe Shadow (EUA, 2006), traduzido por Maria Inês Duque Estrada (Ediouro).

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22/12/2012

O AMERICANO NADA TRANQÜILO: os 200 anos de Poe

Ver também no blog:

https://armonte.wordpress.com/2013/03/06/para-seguidores-e-neofitos-de-poe-os-arabescos-de-contos-de-imaginacao-e-misterio/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/meu-duplo-no-meio-do-caminho-havia-um-superego/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/dr-fortunato-e-o-sr-valdemar-o-medico-e-a-cobaia/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de janeiro de 2009)

Por muitos motivos, Edgar Allan Poe (que nasceu em 19 de janeiro de 1809) é o mais importante escritor dos últimos 200 anos. Certos críticos (como Harold Bloom) se queixam da sua “prosa atroz” e lendo seguidamente sua enorme produção de contos constatamos diversos problemas que vão do pedantismo das referências até a repetição de soluções e a reiteração irritante dos mesmos motivos e do mesmo vocabulário, sem falar na monotonia da primeira pessoa que praticamente tem a mesma “voz” em quase todos os relatos.

O fato é que isso não importa: tal como Shakespeare, Poe é um fenômeno, o impacto cognitivo e imaginativo das suas obras supera a simples leitura e o fato literário e se estende por toda a cultura, nos mais diversos estratos. Esgotada a influência realista de um Balzac e de um Flaubert (pelo menos, no que diz respeito aos aspectos “óbvios” das obras desses autores), que mesmerizou por décadas a ficção ocidental, hoje vemos o alcance dos contos fantásticos do norte-americano: ele é perceptível na obra sofisticada de um Borges tanto quanto no gosto de um adolescente aficionado pelo gênero terror e que é discípulo de Poe mesmo que não saiba. Ironia à parte, é que ele sempre teve consciência disso, embora tivesse sido desprezado na sua curta e tribulada vida (morreu aos 40 anos).

Escrevendo visionariamente as obras que determinariam muito do nosso horizonte ficcional, aos 20 e 30 anos, ele não tinha tempo de burilar muito sua prosa mesmo (não que ela deixe de ter seus momentos da mais alta inspiração), bastava criar o seu legado inimitável, o efeito, atendo-se quase sempre (com exceções notáveis) a poucas páginas, de modo a criar um máximo de expectativa e não desgastá-la com um desenvolvimento excessivo.

Raciocinador sempre, malgrado o universo passional e tétrico que descortinou em sua ficção, não é à toa que ele praticamente criou (com Auguste Dupin) a figura do detetive que seu sucessor Conan Doyle iria cristalizar em Sherlock Holmes. E menos à toa ainda é ele ter criado uma fabulosa teoria poética para seu belíssimo poema O Corvo, que até hoje é discutida ardentemente.

Se não bastassem sua ficção e sua poesia, os ensaios filosóficos e os textos humorísticos de Poe mostrariam sua genialidade. Aliás, um conto filosófico de Poe deveria ser incluído entre os documentos que esclarecem ao ser humano o que ele é, mais do que ele pensa que é: falo do quase inacreditavelmente freudiano O Demônio da Perversidade:

“ …sob sua influência nós agimos pelo motivo de não devermos agir. Em teoria, nenhuma razão pode ser mais desarrazoada, mas, de fato, nenhuma há mais forte. Para muitos espíritos, sob determinadas condições, torna-se absolutamente irresistível… esta acabrunhante tendência de praticar o mal pelo mal. É um impulso radical, primitivo, elementar (…) Estamos à borda dum precipício. Perscrutamos o abismo e nos vêm a náusea e a vertigem. Nosso primeiro impulso é fugir ao perigo. Inexplicavelmente, porém, ficamos… uma forma se torna palpável, bem mais terrível que qualquer Gênio ou qualquer Demônio das fábulas. Contudo, não é senão um pensamento, embora terrível, e um pensamento que nos gela até a medula dos ossos com a feroz volúpia do seu horror. É, simplesmente, a idéia do que seriam nossas sensações durante o mergulho precipitado duma queda de tal altura… E porque nossa razão nos desvia violentamente da borda do precipício, por isso mesmo mais impetuosamente nos aproximamos dela. Não há na natureza paixão mais diabolicamente impaciente como a daquele que, tremendo à beira dum precipício, pensa dessa forma em nele se lançar.”

Infelizmente, embora haja uma Ficção Completa de Poe (pela Nova Aguilar), não temos uma edição satisfatória no Brasil dos seus Contos do Grotesco e do Arabesco, que universalmente ficaram conhecidos, graças a Baudelaire, como Histórias Extraordinárias.

Há um recente lançamento da Companhia de Bolso com esse título, utilizando uma insuspeita tradução de José Paulo Paes, mas é apenas de uma seleção que se limita a 18 textos, muito bem escolhidos, só que longe de ser completa ou mesmo ampla. Pelo menos ali figuram os contos obrigatórios, a quintessência de Poe . São eles, por ordem de preferência pessoal (embora esta ordem esteja sempre mudando, conforme os anos e as releituras), o extraordinário William Wilson, certamente a sua obra-prima, paradigma no tratamento do duplo; Berenice, cuja situação da amada sepultada ainda viva (além disso, há a horripilante fixação do protagonista nos “dentes” dela) Poe iria variar à exaustão, porém é certamente o melhor tratamento que ele deu a ela; O Gato Preto (que faz parelha com O Coração Delator, também presente na coletânea, pois ambos, o coração e o gato emparedado, denunciam o criminoso no momento em que ele ia se safar); O Homem da Multidão, do qual só se pode dizer, singelamente, que inventou o ser humano que ainda está andando pelas ruas nos dias de hoje; A Carta Roubada, o melhor dos contos de mistério policial escritos por Poe, muito superior a Os Crimes da Rua Morgue e Mistério de Maria Roget (entretanto, como não ler estas duas histórias canônicas, quase míticas?; mas atenção, elas não foram incluídas por José Paulo Paes); o maravilhoso O Caixão Quadrangular, que mistura relato de viagem aventuresca (onde os passageiros se tornam até náufragos) com um misterioso artefato a bordo, e que é uma das raras narrativas absolutamente perfeitas de Poe, do início ao fim; O Poço e o Pêndulo, cujas modulações narrativas encontramos até em Borges, e que quando garoto era o conto que mais me impressionava e dava medo (e relido agora não perdeu nada da sua força de pesadelo); A Máscara da Morte Rubra, onde a Peste aparece como “penetra” num castelo onde o Duque e mil convidados se mantinham isolados e protegidos (a descrição do cenário, dos sete salões, é uma das coisas que me autorizam a fazer a afirmação que abre este artigo); e, por fim, dentre os escolhidos, O Barril de Amontillado, a mais canônica das histórias curtas de vingança (outro com uma atmosfera cênica, a da adega labiríntica, alucinante).

Com relação ao tema da vingança, pena que Paes não incluiu outra variação excelente, Hop-Frog, história de um bobo da corte que se vinga do seu cruel senhor de uma forma terrível, assim como não incluiu o debochado Rei Peste I , no qual, numa área interditada porque empestada de Londres, dois marinheiros encontram uma estranha Corte.

No entanto, só me reservo o direito de lamentar, de fato, a não inclusão de um conto que para mim figura entre as grandes realizações imaginativas da literatura: Os Fatos do Caso de Mr. Valdemar (e que acho superior aos famosos, e cheios de detalhes impressionantes, mas muito não tão perfeitos, A Queda da Casa de Usher e O Escaravelho de Ouro), o outro conto de Poe que mais me aterrorizou na época das leituras de adolescência (ainda que meu preferido, desde então, fosse William Wilson), junto com O Poço e o Pêndulo. Como esquecer a história do moribundo que é mantido vivo à força pelo transe do “magnetismo”, e, quando libertado dessa influência (após sete meses)

“ … todo seu corpo de pronto, no espaço de um único minuto, ou mesmo menos, contraiu-se… desintegrou-se, absolutamente podre, sob minhas mãos. Sobre a cama, diante de toda aquela gente, jazia uma quase líquida massa de nojenta e detestável putrescência…”

Eis o resultado de uma ciência que pretende dominar o que está além do seu alcance, a ciência que faz emergir os Hyde dos doutores Jekyll. A ciência que não respeita os limites, sujeitando tudo e todos à idéia de um hipotético “avanço”. Como se vê, a morte foi detida. O resultado: um cadáver vivo. Apesar das suas grandes descobertas, invenções e tecnologias, eis uma boa descrição da ciência enquanto substituto da religião.

Meu duplo: no meio do caminho havia um superego

Este é mais um texto de 2008, do meu curso AS MARGENS DERRADEIRAS sobre textos-limite do século XIX, na verdade mais uma leitura comentada do que uma análise.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/o-americano-nada-tranquilo-os-200-anos-de-poe/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/dr-fortunato-e-o-sr-valdemar-o-medico-e-a-cobaia/

https://armonte.wordpress.com/2013/03/06/para-seguidores-e-neofitos-de-poe-os-arabescos-de-contos-de-imaginacao-e-misterio/

“Duas almas, oh! Habitam em meu peito

                                       E cada qual está ávida por abandonar sua irmã

(Goethe, Fausto, 1808)

Em 1839 (exatos cem anos antes da morte de Freud), Edgar Allan Poe publicou William Wilson, seu sensacional conto que se tornou o paradigma das histórias de doppelgänger, isto é, do Duplo, daquele Outro que é um Sósia [1].

O clima da história já é pressuposto pela sua epígrafe extraída do obscuro Pharronida, de um tal Chamberlain, que Poe reputa tão conhecido quanto Goethe ou Nietzsche a ponto de não lhe acrescentar qualquer outro nome ou identificação: “Que dirá ela? Que dirá a terrível consciência, aquele espectro no meu caminho?”

William Wilson é o garoto rico e mimado, educado numa escola de elite, e que, apesar da sua ascendência sobre os camaradas e sua posição social, se sente incomodado, espicaçado e humilhado pela presença de um homônimo que ainda por cima se parece com ele (além de ter nascido no mesmo dia: 19 de janeiro de 1813[2]): O meu caráter ardente, entusiasta e dominador, deu-me uma situação proeminente entre os meus colegas e, gradualmente, uma ascendência poderosa sobre todos os que eram mais novos ou da mesma idade que eu; sobre todos, exceto sobre um…o meu homônimo; rivalizava comigo nas lições, nos jogos e nas lutas do recreio; não acreditava nas minhas afirmações, assim como não se submetia à minha vontade; recusava enfim suportar a minha ditadura e manifestava-o sempre que lhe era possível…A rebeldia de Wilson constituía para mim fonte de desgostos, tanto mais que, apesar do desdém com que eu afetava tratá-lo e às suas pretensões, bem no fundo temia-o… Parecia que o único fim da sua rivalidade era o caprichoso desejo de me contradizer, de me atemorizar, de me atormentar, embora muitas vezes eu não pudesse deixar de notar, com um sentimento misto de espanto, de raiva e de humilhação, que o meu rival associava às suas contradições impertinentes uns assomos de afeto muito intempestivos e muito desagradáveis. E eu nem sequer conseguia explicar a mim mesmo a sua conduta, senão julgando-a como o resultado de uma insolência presunçosa, que se permitia ares de superioridade e de proteção” (note-se que ele diagnostica no rival defeitos que podem ser imputados a ele mesmo). A única arma contra o adversário acaba sendo a dissimulação da hostilidade através da ironia e da troça. De nada adianta. Além disso, nada me irritava mais —embora eu forcejasse por não o demonstrar— do que as alusões às nossas semelhanças físicas ou morais… tendo notado quanto essas semelhanças me desgostavam, William tornava-as mais notadas, arremedando-me com prodigiosa habilidade. Copiava-me os gestos e as palavras; imitava a minha maneira de vestir, o meu andar, os meus modos e, enfim, nem sequer a minha voz lhe escapara”.  Se essa “caricatura” o agasta, pior ainda a idéia de que o “outro” possa adotar cruciantes ares protetores : Essa intervenção tomava, por vezes, a forma de um conselho, que não era dado abertamente, mas sugerido, insinuado, e que era por mim recebido cada vez mais de má vontade…” A grande ironia é que os tais conselhos irritantes eram cheios de bom senso, superiores mesmo à nossa idade, destituída ordinariamente de reflexão e de experiência o que é seguido por um trecho especialmente revelador: A sua sensatez, o seu talento e o seu conhecimento  da vida e das coisas eram muito superiores aos meus, e eu seria hoje um homem melhor e, por isso mesmo, mais feliz, se tivesse seguido os conselhos que essas sensatas sugestões continham e que, então, só me inspiravam raiva e desprezo.”

Uma noite, o narrador resolve pregar uma peça no seu homônimo. Vai até o recinto onde o outro dorme e de repente a luz do candeeiro revela o seu rosto: Senti-me penetrado por uma sensação de frio; o coração pulsava-me furiosamente no peito, as pernas vacilavam-me; senti uma sensação de horror inexplicável! Minha respiração tornou-se convulsa, quando aproximei mais a luz do candeeiro. Seriam realmente aquelas as feições de William Wilson? Sim, eram! Que havia então de extraordinário no seu rosto para que eu me sentisse assim impressionado… ele não era ´assim´, não! Nunca fora ´assim´, nos momentos em que me contrariava! Seria humanamente possível, ou o que eu agora contemplava era o resultado desse hábito de imitação sarcástica?”

Devido a esse episódio, ele retira-se da escola. E, durante três anos, se abandona ao que chama de turbilhão de loucura, através de sucessivos desregramentos. Numa das orgias que ele oferece aos camaradas, o criado aparece anunciando alguém, que lhe pede para ir encontrá-lo no vestíbulo. Embriagado, o narrador vai de encontro a um “jovem mais ou menos da minha estatura, vestido com um terno de casimira branca, absolutamente igual ao que eu então vestia. Mal me viu, veio até mim, agarrou-me por um braço com um gesto imperativo e impaciente e disse-me ao ouvido: William Wilson.” A embriaguez desaparece, “como se na minha alma tivesse se produzido a descarga de uma pilha elétrica”. Investigando, ele descobre que o adversário deixara o colégio no mesmo dia. Passam-se alguns meses de obsessão, porém aos poucos ele vai deixando de pensar no assunto, “absorvido como andava com a idéia da minha partida próxima para Oxford, na qual “a desmedida ostentação” dos pais lhe permite uma “renda fixa anual que me permitia abandonar-me à vontade à luxúria, já tão cara ao meu coração”“. Componente importante das farras é o jogo e, sem ninguém saber, e malgrado a sua imensa fortuna, Wilson trapaceia no jogo, por pura desfaçatez. Acontece então que ele, utilizando desses escusos expedientes, “depena” um jovem otário recém-chegado, um nobre muito rico chamado Glendinning. Isso acontece numa casa alheia (de um tal Preston). Ao ganhar, Wilson percebe que no rosto do oponente de jogo “a vermelhidão do vinho fora substituída, quase subitamente, por uma terrível palidez. Percebe, então, os olhares recriminatórios de alguns e fica sabendo, pelos murmúrios entreouvidos, que Glendinning está totalmente arruinado. De repente, em meio à situação embaraçosa, As pesadas portas da sala onde estávamos abriram-se repentinamente de par em par, com tal ímpeto que todas as velas se apagaram como que por encanto, o que permite a entrada teatral de um “indivíduo aproximadamente da minha estatura, embuçado numa capa”. Tomando a palavra, o tal indivíduo, em meio à escuridão, revela aos presentes o caráter de William Wilson, denunciando as cartas marcadas que ele esconde no forro do casaco. Wilson é revistado, desmascarado, expulso da casa por Preston e advertido de que o melhor a fazer é abandonar imediatamente Oxford (lembrem-se: é um tempo em que a honra era levada a sério, tanto que o duelo fazia parte do quotidiano cavalheiresco)[3].

Sendo perseguido de tal forma pelo “amaldiçoado destino”, Wilson começa uma interminável excursão pelas principais cidades da Europa (Paris, Roma, Viena, Berlim, Moscou) e o “misterioso poder” sempre lhe atabalhoa os passos e frustra-lhe os (maus) intentos. O “duplo” aparece sempre, vestido identicamente, porém já não mostra o rosto. E o círculo vicioso vai se mantendo até o carnaval em Roma em 18.. (os autores oitocentistas adoram esse expediente): Até então, eu sempre me submetera, de uma maneira covarde, à sua imperiosa vontade. Wilson planeja seduzir a jovem esposa do velho duque que oferece o baile carnavalesco (carnaval=máscaras=personas=identidades desdobráveis). Antes, todavia, de poder abordá-la, ele próprio é abordado com um leve toque no ombro e um inesquecível murmúrio ao ouvido, murmúrio que eu tantas vezes já amaldiçoara!” Enfurecido, ele provoca o seu duplo, abre caminho pelo salão de baile até uma pequena antecâmara, sabendo que o outro o seguirá.  E assim os dois começam uma luta de espadas, após uma pequena hesitação por parte do “outro” William Wilson, o qual com um ligeiro suspiro, pôs-se em guarda, silenciosamente demonstrando uma calma extraordinária”.

O narrador vence o combate, trespassando o peito do adversário sucessivas vezes, após fazê-lo recuar até uma parede. Enquanto pessoas tentam forçar a fechadura, ele se debruça junto ao inimigo agonizante: Ah! Só então senti como a linguagem humana é impotente para exprimir o espanto e o horror que experimentei perante o espetáculo que se me deparou! (…) No lugar onde momentos antes eu nada vira, havia agora um grande espelho… Aproximei-me dele cheio de terror e vi caminhar para mim a minha própria imagem, com o rosto extremamente pálido e todo salpicado de sangue, avançando a passos lentos e vacilantes (…) Tratava-se do meu inimigo, de William Wilson, que, agonizante, se erguia perante mim. A máscara e o manto jaziam no chão. Não havia uma só peça do seu traje nem um só traço do seu rosto…que não fossem, na mais absoluta identidade, meus!”

         Um dos hábitos do “duplo” que mais irritavam o narrador quando ambos eram colegas de colégio era que ele falava muito baixo, enquanto que o seu próprio timbre era muito alto. Dessa vez, porém, o “outro” Wilson “já não murmurava ao falar!”; ele “falava de tal maneira alto que tive a impressão nítida de ouvir a minha própria voz dizendo: —Você venceu, e eu pereço. Mas daqui para o futuro você estará morto. Morreu para o mundo, para o céu e para a esperança! Existia em mim. Olhe bem para a minha morte, e nessa imagem…você verá o seu próprio suicídio!”

É óbvio que uma pessoa, com a malícia pós-moderna, tem o direito de dizer: mas estava na cara, desde o começo, que o Outro era ele mesmo, e esse final não podia ser mais rebarbativo!  Bom, a pessoa tem direito de pensar assim, mas eu retorquiria que a primeira vez em que li (lá pelos meus quatorze anos) essa história eu fiquei tão impressionado que nem me liguei no que “estava na cara”.  Eu diria também que o tipo de originalidade que Poe trouxe à ficção era de tal feitio que uma história dessas era mais que desconcertante em 1839, e que mesmo com a ressignificação proposta pelo final (e que nós, de hoje em dia, já tão versados em psicologia e psicanálise, já podemos prever desde o princípio) a história do duplo tinha um componente tenebroso e difícil de digerir a partir da solução. E finalmente eu diria que, enquanto Freud matutou quarenta anos para propor a tríade que comanda o mecanismo mental do ser humano, bastou a Poe  vinte páginas para nos mostrar a pressão exercida no indivíduo pelo conflito entre “id” e “superego”.

Recapitulemos. O narrador nos adverte que os pais o deixaram à vontade na vida desde a infância: então não há coerção de espécie alguma a lhe entravar as vontades. Wilson, tal como se nos apresenta, é o sonho do narcisista: faz tudo à sua vontade, é o ditador dos colegas na escola, um “reizinho” na vida[4] . Ou seja, é regido pelo Princípio do Prazer que, como Freud advertiu, é regulado também pela pulsão da morte, e daí os aspectos agressivos, e a sua tendência à “abandonar-se à luxúria, tão cara ao seu coração” (não se veja a depravação aqui num sentido moralista, mas no sentido amoralista, de “ausência de freios”). Temos aí um ego incompleto, cujo estágio de formação permanece atrelado ao “id”, incapaz de compreender o Princípio da Realidade.

Quando a história começa mesmo? Geralmente os fatos da vida infantil só nos fornecem impressões que são mal definidas. Tudo são sombras, vagas e irregulares lembranças, difusa confusão de prazeres pueris e mágoas sem fundamento. Não sucede assim comigo. Devo ter sentido na minha infância, com o vigor do homem feito, tudo aquilo que ainda hoje tenho gravado na minha memória, em traços indeléveis, tão profundos e tão duradouros como os da cunhagem das moedas cartaginesas.” Ou seja,em William Wilson não se deu o processo de repressão que permite o processo civilizatório, o qual impõe traços de caráter ao ego e o habilita para a vida social.

Mas ele não é imune totalmente ao processo. A dissociação da sua personalidade no seu doppelgänger é a solução desesperada do seu ego para não se dissolver totalmente no narcisismo (id)ílico. Daí a constante contrariedade a que é submetido pelas intervenções do colega, e depois da sua primeira fuga, as teatrais e abaladoras aparições dramáticas em momentos nos quais “está indo longe demais”. Ao assassinar seu superego, que é o seu tutor, o seu censor, o seu freio, ele assina seu próprio suicídio: não terá vida, pois sem o “outro” Wilson ele não reconhecerá o Princípio da Realidade que permita sua sobrevivência. Como já citei antes, a sensatez do “duplo”, seu talento, seu conhecimento da vida (ou seja, ele é muito mais maduro do que o seu idêntico porque o superego representa nosso “ego ideal” e ele sempre se projeta numa transcendente maturidade, por isso resistimos tanto a ele e às suas sugestões). O narrador reconhece, porque no fundo se conhece, que seria um homem melhor, e mais feliz, se tivesse seguido os conselhos, ou seja, chegado a um acordo com ele e permitido a fusão dos dois pólos numa mesma identidade. Eu afirmei que ele no fundo se conhece devido a um trecho para lá de esclarecedor, ainda na fase do colégio, quando ele discorre sobre o quanto o colega o incomoda com suas intervenções em sua vida: “Acudiam ao meu cérebro obscuras recordações da minha primeira infância, estranhas, quase apagadas recordações duma época que a memória já não podia alcançar. Dir-se-ia que eu já tinha visto o ente que me falava, numa época muito afastada, muito remota. Contudo essa ilusão apagou-se tão rapidamente como aparecera.” . Permanecendo atrelado ao império do “id”, ao reencontrar seu superego, ele lhe (a)pareceu como a Consciência da epígrafe do conto: um “terrível espectro”.


[1] Dois dos autores do nosso curso trabalharam com textos “doppelgänger”: Dostoievski, numa de suas primeiras obras, traduzida aqui como O Duplo e também como O Sósia; e Conrad, que em 1910, lançou O parceiro secreto (Imago e L&PM) ou O cúmplice secreto (Iluminuras).

[2] 19 de janeiro é a data do nascimento de Poe, só que ele nasceu em 1809. Nunca é demais lembrar que a fidalguia e vida à larga, em termos de grana, de William Wilson, é uma fantasia  do autor, quase sempre à beira da indigência. Aliás,é interessante notar que embora ele (Wilson, como narrador da história) assuma para o leitor que se vale de um pseudônimo, não deixa de revelar seu desgosto com o patronímico: “o meu nome, apesar da sua nobre origem, era um nome comum, um desses nomes que, desde tempos imemoriais, são também propriedade do povo”;  e mais claramente: “O meu nome de família, falho de graça e de elegância, e mesmo meu nome próprio, tão trivial e tão plebeu, eram e sempre foram para mim motivo de grande desgosto”  (utilizo aqui a tradução de José Paulo Paes, nos “Melhores Contos” do autor, editados pela Cultrix; também tenho uma tradução de Berenice Xavier em Histórias Extraordinárias, pela Abril Cultural; e uma tradução de Oscar Mendes para a Ficção Completa, Poesia & Ensaios, pela Aguilar).

[3] Há um detalhe a mais na cena: o denunciante vai embora, contudo deixa sua capa e no burburinho todo, mais do que a humilhação, Wilson se concentra no espantoso fato de que ele é idêntica à sua própria capa, que era forrada de boas e variadas peles, e —seria desnecessário enfatizá-lo— de elevado preço. O talhe, inventado por mim, porque nessa altura eu me preocupava muito com essas futilidades do luxo, era de fantasia. Creio que levava a minha fúria pelas modas até o exagero.

[4] “Fracos de espírito e sofrendo, além disso, do mesmo mal, meus pais pouco ou nada fizeram no sentido de modificar os maus instintos que eu tinha. No entanto, fizeram algumas tentativas; mas sem energia, sem direção, falharam inteiramente, redundando num triunfo completo para mim. Desde então, passei a mandar em minha casa, ditando ordens numa idade em que poucas crianças pensam em deixar o regaço materno, entregue ao meu livre-arbítrio, senhor absoluto de todas as minhas ações.”

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