MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/10/2012

ELEGIA DE DUÍNA: “Suíte de Silêncios”, de Marilia Arnaud

“É preciso penar, pai?

   Sim, para que as notas soassem limpas e afinadas, as pausas fossem executadas no tempo correto e o timbre repercutisse densamente, sim, Duína, não basta querer, é preciso atenção, disciplina, constância.

   Seria preciso uma existência inteira? Pois eu seguiria em frente e a minha falta de talento seria compensada com prática e persistência.

   Que engano! Enquanto a música corria nas artérias do meu pai, livre e obstinada como a vida, em mim esteve sempre limitada a uma tentativa frustrada de aproximação da verdade, de purgação de feridas, de busca de afeto e equilíbrio, de aceitação de mim mesma —a música como uma possível resolução para meu desassossego, para a minha angústia incessante feita de equívocos, indefinições e esperas; a música como crença, pois sendo tão grande e indecifrável quanto Deus, fazia-se,  porém, mais próxima e menos inefável nos reconhecíveis olhos desesperançados do meu pai…”

“Por que em mim as coisas não terminam?”

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, sem notas de rodapé ou anexos, em 28 de agosto de 2012)

Atualmente, a ficção  “intimista” é estigmatizada como um exercício anacrônico e menor da literatura (de maneira diferente, é claro, mas igualmente depreciativa,  a ficção calcada no enredo também foi posta num limbo desqualificador). Decretadas a morte do sujeito e a desconfiança com relação a qualquer foco narrativo (marcas de uma verdadeira literatura “exigente”), como aceitar um discurso ficcional com base na reles psicologia individual, tateando por entre as experiências formativas de um “real” (que, está decretado também, sempre terá de vir entre aspas), muitas vezes ancorado no (cruz credo, vade retro) autobiográfico?

Pois eu, como leitor (porventura anacrônico ou não-exigente), fico contente de ver autores talentosos resistindo a essa risível redução do ficcional a experiências metalinguísticas e/ou a uma desconsideração pelo real e pelo autobiográfico (pois se a vida individual não tem importância, por que nos apaixonamos por personagens de ficção?). É o caso de Chico Lopes (Nó de sombras, Dobras da noite, Hóspedes do vento, O estranho no corredor), de Nilton Resende (Diabolô) e de Marilia Arnaud, de cujo romance de estreia, publicado pela Rocco, Suíte de silêncios retirei os trechos que abrem este texto.

Suíte de silêncios propõe ao leitor uma equação (talvez fosse melhor dizer partitura, para ficar no universo em que se movimenta a protagonista) ao mesmo tempo simples, elegante e dolorosa: confrontada com um diagnóstico de câncer (ou seja, com uma doença que costuma—em suas formas mais severas—“selar” um destino; a certa altura, lemos sobre a “inutilidade de todos os procedimentos frente à obscura tenacidade das células —ah, a exatidão da morte!”), ela vai para a cidade natal do amante que a abandonou, forjando um discurso dirigido ao ausente, em que vêm à tona as coisas não-terminadas, não “seladas”, da sua existência, entre elas a relação entre ambos, o abandono da mãe quando ela tinha nove anos e a devastação emocional e a incomunicabilidade que acarretou na família (“Papai é um homem gentil e reservado. Sei que deseja me dizer coisas boas, mas dentro dele mora um anjo de silêncio, e o que gostaria de falar acaba sempre boiando em seus olhos”), a relação abusiva com o professor de violino quando era adolescente (narrada sem a menor melodramatização), a inadaptação ao mundo e às outras pessoas, a frustração com a carreira musical…

Apesar da feição ora angustiante ora patética que essas incompletudes da existência adquirem na voz de Duína Torrealba,  há um elemento estranhamente  (mesmo porque Suíte de silêncios passa longe de ser um romance otimista) reconfortante nesse diálogo interminado e interminável com o amante: não parece que a vida possa ter um fim, chegar a uma conclusão, há sempre o que dizer…

E é ao recapitular seu percurso formativo, sem linearidade, como que obedecendo a uma modulação musical diáfana e no entanto muito  determinada, que percebemos a qualidade intimista do livro da escritora paraibana: a vida é repassada em seus aspectos banais (pois mesmo que individualizadas ao extremo, ao ponto do solipsismo, são experiências que qualquer pessoa poderia viver) através de formulações precisas  e maduras que só a apreensão literária de primeira água pode proporcionar, quando ancorada numa vivência autêntica. No anexo abaixo, transcrevo alguns exemplos da capacidade de Marilia Arnaud de dar ao leitor o que Lily Briscoe (em Ao farol, de Virginia Woolf) sentiu ao terminar seu quadro: “Qual o sentido da vida?—isso era tudo — uma pergunta simples, das que tendem a aguilhoar uma pessoa com o passar dos anos. A grande revelação nunca chegou. Ao invés disso houve pequenos milagres diários, iluminações, fósforos inesperadamente acesos na escuridão e aquele era um deles… a onda estourando a sra. Ramsay dizendo Para aqui, vida!, a sra. Ramsay tentando transformar o momento em alguma coisa permanente… isso era da mesma natureza que uma revelação. No meio do caos havia uma forma…”[1].

Se a autora de Suíte de silêncios tem estofo para oferecer alto nível de intimismo na maior parte do livro, no embate de Duína com seu passado sofrido e nunca “acabado”, mesmo que congelado num “destino”, infelizmente há o outro lado da moeda, e nesse sentido a invocação de Virginia Woolf é ainda mais proposital, uma vez que a partir da genial escritora inglesa começou a ser postulada uma coisa abominável chamada “escrita feminina”, cuja vinculação com o intimismo gera confusão e equívocos literários.

De saída, quero deixar claro meu horror aos “estudos de gênero” e quejandos, no sentido sexualizado do termo, masculino, feminino, hetero ou homo. O fato é que Virginia Woolf escreve como Virginia Woolf, Clarice Lispector como Clarice Lispector, e Marguerite Duras como Marguerite Duras, e não porque aderiram a uma “escrita feminina”.

Marilia Arnaud adota um vezo no seu discurso (dirigido a um “você”, o amante) que pode ser encontrado em alguns textos de Duras e em Água viva, de Clarice. Isso de forma alguma os torna textos-irmãos e nem qualifica a autora de Suíte de silêncios à altura daquelas autoras. Muito pelo contrário. Apesar da equação (ou partitura) apontada no início, o uso do “você” acaba em muitas páginas sendo mais um defeito do que um acerto na tessitura do romance: em muitas páginas fracas, Marilia adota o pior da “escrita feminina” ao enveredar (não somente, mas principalmente, em outras passagens infelizes, há um tom de auto-ajuda ou, ainda, um tom lamentoso decididamente cafona) por um irritante erotismo-clichê, que lembra não as grandes autoras citadas, mas autoras de naipe mais modesto e discutível, como Olga Savary, em seus piores momentos, e Nélida Piñon, que há exatamente 40 anos escreveu um livro-referência em termos de relação equívoca e desfocada entre “intimismo feminino” e “erotismo”: A casa da paixão (1972). Se em certos momentos, Marilia Arnaud é bem feliz ao evocar para nós João Antonio, em outros, ela podia ter podado seu texto sem dó nem piedade (essa oscilação aparece no anexo).

Portanto, a romancista estreante demonstra acertos ao dar ao vivido as fórmulas exatas que ele precisa para existir no verbo feito carne, assim nos dando a “voz” autêntica e inconfundível (ainda que cheia de dissonâncias) de Duína,  e erros quando tenta transformar a carne e o sofrimento em malabarismo verbal, criando ruídos de comunicação entre nós e essa voz.

A grande promessa para o gênero (literário) que Suíte de silêncios representa é que os acertos superam com larga vantagem os erros.

ANEXO

Como disse acima, Suíte de silêncios oscila entre páginas repletas de “paixão medida” e outras que escorregam para o mau-gosto e para o “pinõnesco”.

Por isso, fiz uma pequena antologia de momentos de que gostei (que estarão em negrito) e outros (que estarão em itálico) que, francamente…

O leitor há de notar que às vezes nas boas passagens há umas passagens um tanto chavão, mas que se incorporam bem à partitura como um todo. Pois não é a originalidade da experiência ou da formulação que está em jogo, mas o seu poder de nos convencer. Não há nada de novo, mas o discurso  pode ter a característica de  traduzir o “cintilar enceguecedor de dunas sob o sol”, ao invés de tentar poetizar de maneira brega “o brilho candente e enceguecedor do irresoluto amor”. Enceguecedor por enceguecedor, prefiro o primeiro caso.

“Custava-me retornar para casa depois das aulas, dedos indicador e médio cruzados, olhos bem cerrados, sob buzinas estridentes e xingamentos de motoristas, esbarrando em postes, paredes e pessoas, sufocada de calor e esperança, na fantasia que encontraria minha mãe no terraço, balançando-se na cadeira de palhinha, Pedrinho no colo e Leila deitada aos seus, aguardando por mim, desde que eu conseguisse chegar lá sem abrir os olhos uma unia vez, se não fosse atropelada por nenhum automóvel, e, chegando mais uma vez constatar que não, ela não voltara, não ainda, e me sentar à mesa e comer sem nenhuma fome debaixo de um silêncio difícil, partido apenas pela fala estridente de Pedrinho ou por um ganido de Leila, e novamente estar de frente à cadeira vazia e inútil, triste como sabem ser as coisas que um dia foram usadas por quem amamos”.

“Ao mesmo tempo em que comecei a suspeitar de que seu retorno estava fora do alcance do meu desejo, por maior que fosse esse desejo, um pensamento, de início breve e sem consistência, foi tomando forma e ganhando espaço em minha mente, até que, constante e inequívoco como um objeto sólido, espedaçou minha confiança íntima, impondo-me a desconcertante certeza de que minha mãe nunca mais voltaria para nós, porque simplesmente não queria voltar, porque assim escolhera.

   Então, arregalei os olhos, e tal uma borboleta noturna, espaventada com o alumbramento do mundo à minha volta, dei de cara com um tanto de gente e de coisas para serem vistas.”

”Dentre todas as coisas que existem no mundo, chuva e música são as que mais gosto.

  Da chuva, gosto desde quando no céu as nuvens vão enegrecendo e se amontoando e descendo, descendo, a ponto de quase tocarem a ponta do farol, e um vento nervoso começa a assobiar e a assanhar as fruteiras de papai, as flores de vó Quela, e a enfunar as roupas nos varais, os vestidos das mulheres que passam nas calçadas, e um perfume intenso de terra e mato vai se espalhando pelo mundo, até o momento em que as gotas d´água começam a tamborilar nas vidraças das janelas (…)

   Música me abre um rasgão no meio do peito. Papai me deu a música; mamãe, a saudade. Pai e mãe fazem doer; aprendi a gostar da dor.”

“Você acredita na alardeada inocência das crianças? Não se iluda, meu bem, só há inocência nos bebês (…) Por trás da lembrança mais devastadora da minha infância, daquela que lançou uma sombra sobre o meu coração, fazendo com que ele nunca mais batesse no mesmo tom, escondem-se uma criança e algumas palavras. No rastro dessas, vieram outras, crianças e palavras, com pequenas variações, e olhares enviesados, silêncios e reticências.

    Atrás disso tudo, e no centro de todas essas recordações, esconde-se a minha mãe, a que estava em toda parte e em lugar nenhum.

   Sim, foram elas as crianças, que me puseram frente a frente com a perversidade em sua forma mais espontânea, mais absoluta. Mataram dentro de mim uma coisa sem nome…”

“E assim foi, e foi tanto e mais, que todo o meu dia, as horas brancas e as negras, a música e os sonhos, as palavras e o silêncio, as pessoas e as coisas, a cidade e o quarto, tudo passou a ser você e o seu sorriso inteiro, e o seu olhar de anil, e seus braços de calor e claridade, e seu sexo de sol, você, você, você…

   Sim, eu o amei como só é possível amar em tempos de guerra, com a lucidez alucinada de quem sabe que aquela pode ser a última vez, que o corpo adorado pode ser o corpo para sempre perdido (…)

   Enxergava em você algo dos homens do deserto que eu não sabia precisar, e que soprava uma tempestade de areia quente em meu sangue (…) Meu Tuaregue de impossíveis olhos azuis, o que é isto, de tanta força e encantamento, senão amor? Haverá outra palavra que traduza este cintilar enceguecedor de dunas sob o sol?”

“Alguma coisa nova estava para me ser revelada. Sim, alguma coisa estava para acontecer e invadir minha vida. E bastava espiar o professor Ramon para sentir a tal coisa vindo em minha direção (…) passado o assombro das primeiras vezes, segui em frente sem que me queixar, mais aplicada nesse aprendizado do que no da música, e até com mais habilidade, como se já tivesse jogado muitas vezes antes de conhecer o professor Ramon, em algum tempo impossível de ser lembrado, como se esse saber estivesse gravado em minha carne, e fizesse parte de mim, do meu eu mais oculto e mais significante (…) Agora, não há como voltar atrás. E mesmo que houvesse, seria de todo inútil, pois o que está feito não pode ser desfeito. Então, faço simplesmente o que o professor Ramon espera que eu faça. A cada aula, em meio às cordas mudas e partituras desnecessárias, avançamos mais um pouco, sempre mais um pouco…”

“Fui encontrá-las, todas lacradas, no cofre do meu pai, como se fossem colares, brincos, anéis, broches, tiaras, joias de uma morte, mantidas ali há mais de vinte anos, para o olhar de posse e secreta saudade do amante (…) Não me recordava da caligrafia infantil, as letras diminutas, inclinadas para a direita, uma atropelando o espaço da outra, como se tivessem urgência em se fazer palavras.

   As datas dos selos confirmavam o que vó Quela me dissera, que as cartas haviam começado a chegar aproximadamente quatro meses após a partida de minha mãe, e que somente se interromperam com a sua morte, anunciada por telegrama, não se sabia por quem.

   Então, à sua maneira, minha mãe lutara para não ser esquecida.

   Das profundezas do tempo, nos envelopes cerrados, as palavras rangiam, presas da longa espera, e urravam, vermelhas, negras, inchadas de significados.

   Finalmente, a verdade.

   Mas o que é a verdade, quando se trata de pessoas? (…)

   Não, ainda que tentada, não cheguei a erguer a pedra que meu pai colocara sobre a sua desgraça. Não me cabia a coragem, ou o desespero, para descerrar aquele silêncio, tecido fio a fio em sua humilhação e em minha derrotada espera.”

“Como Pedro ousava se esquecer do inesquecível? Oh, meu irmão, por que será que os que se foram nos dominam mais do que os que seguem ao nosso lado? Por que temos que carregar esses cadáveres em nossas costas? Por que seguimos buscando as chaves dos quartos proibidos, tentando decifrar os hieróglifos gravados nas suas paredes intemporais?—Como podia fingir que não fora apanhado pela mão do abandono, aquela que cravara suas unhas em nossa infância e a empurrara por um despenhadeiro, inscrevendo em nossas almas sua marca de desolação? (…) Não se escolhe viver essas experiências, são elas que vêm a nós, e desarranjam nossas existências, e nos estigmatizam, e nos destroem.

  O que me resta, senão uma postura de humildade perante a vida? De joelhos, frente ao seu vasto mistério, rogo, vida, vida minha, não me tome mais nada,por tudo que há de sagrado, não me prive da minha verdade, não viole minha essência!”

“Durante anos, andei por consultórios de terapeutas  e psicanalistas, submetendo-me a tratamentos convencionais e alternativos (…) Devia ser exaustivo tentar me curar dessas feridas sem nome que carrego comigo. Aquilo exigia horas de delirantes sessões, um sem-fim de palavras e lágrimas, e também de enormes silêncios, durante os quais eu tinha pensamentos descabidos, como, por exemplo, se aquele psicanalista empavonado, que me ouvia balançando a cabeça com ar grave, e que se dizia deficiente visual, o era de fato, ou se fazia passar por tal com a finalidade de deixar as pacientes como eu mais à vontade e, assim, por trás dos óculos escuros, desfrutar com avidez de partes dos seus corpos que normalmente não estariam à vista.

   Deitada, abria bem as pernas, e sim, parecia-me que uma tensão se apoderava dele, dos músculos do seu rosto, que as narinas se dilatavam e lhe tremia o queixo, e suspeitava que, escondido sob as calças, o sexo inchasse à sua revelia.

   Assombroso? Não, apenas excitante.

   Quem ali de nós dois poderia ser considerado ´normal´? Não seríamos todos neuróticos, paranoicos, fóbicos, psicóticos, fetichistas, maníacos, obsessivo-compulsivos, todos buscando algum sentido para a vida?

   Tão tênue a fronteira entre a fragilidade e a loucura, meu amor…

   Como escapar da pungente consciência da nossa finitude, senão através de fantasias e atos extremos?”

“E quando o desejo se tornava maior que nós, você estacionava e me tomava toda nos braços, e por alguns instantes as igrejas seculares viravam o rosto para não assistir ao brilho candente e enceguecedor do nosso irresoluto amor (…) Você tinha pressa de estar dentro de mim—desde sempre, a inquietude, a voracidade nos gestos, a impetuosidade no querer–, e em breve estaria, porém, em meio a beijos, lambidas, toques, desejava vê-lo, vê-lo mais, ah, João Antonio, não queria que nada me escapasse, nem o mais remoto sinal, a mais secreta singularidade do seu corpo, os pelos no interior das narinas, a cicatriz de uma cirurgia no tórax, os músculos retesados das coxas, a surpreendente opulências das nádegas, todas as suas mais íntimas partes.

  Queria devassá-la devagar e perversamente—onde se oculta o mistério da carne?—, encher meus olhos, fartá-los das estrelas, flores, montanhas, rios e lajedos do seu corpo, dos palácios, templos e catedrais que o engrandeciam—seu corpo Olimpo (…) uma trilha de desejo crescente, vem, João Antonio, meu corpo alucinava, vem logo (…)

   Qual o destino de um corpo, senão a sublimidade de outro? (…) e agigantava-se em mim uma saudade do seu corpo, que tinha o cheiro de chuva, o gosto morno e felpudo de um mistério da minha infância, uma saudade dos seus olhos que sabiam contar coisas bonitas de mim, das suas mãos, que me teciam incêndios na pele…”

VEJA TAMBÉM : http://literaturasemfronteiras.blogspot.com.br/2012/07/a-suite-de-silencios-de-marilia-arnaud.html


[1] Esta é a tradução de Luiza Lobo. No original, “What is the meaning of life? That was all—a simple question; one that tended to close in on one with years. The great revelation had never come. The great revelation perhaps never did come. Instead there were little daily miracles, illuminations, matches struck unexpectedly in the dark, here was one … the breaking wave; Mrs. Ramsay bringing them together, Mrs. Ramsay saying Life stand still here; Mrs. Ramsay making of the moment something permanent… this was of the nature of a revelation. In the midst of chaos there was shape…” (utilizo a edição da Wordsworth Library Collection, 2007).

26/10/2012

BORGES E O NOME DA ROSA

“No dialeto de hoje

Direi, por minha vez, coisas eternas…”

“Ao esquecimento, às coisas do esquecimento, acabo de

Erigir este monumento…”

“Que arco terá lançado esta seta

que sou ? Que cume pode ser a meta?”

Em A rosa profunda (1975), talvez o poema central (ele fica mais ou menos no meio dos 26 poemas) é “1972”:

“Temi que o porvir (que já declina)

Seria um profundo corredor de espelhos

Indistintos, ociosos e minguantes,

Um repetir sem fim de fatuidades,

E na penumbra que precede o sonho

Pedi a meus deuses, cujo nome ignoro,

Que algo ou alguém enviassem a meus dias.

Fizeram-no. É a Pátria. Meus ancestrais

Serviram-na com longas proscrições,

Com penúrias, com fome, com batalhas,

Aqui de novo está o formoso risco.

Não sou aquelas sombras tutelares

Que honrei com versos que não esquece o tempo (…)

Mas hoje a Pátria profanada quer

Que com minha obscura pena de gramático,

Douta em nimiedades acadêmicas

E distante dos trabalhos da espada,

Congregue o grande rumor da epopéia

E exija o meu lugar. Eu o estou fazendo.”

Outro poema que me parece central (e que está bem próximo ao anterior) é “All our yesterdays”:

“Quero saber de quem é meu passado.

De qual dos que já fui? Do genebrino

Que traçou algum hexâmetro latino

Pelos anos lustrais já apagado?

Édo menino que buscou na inteira

Biblioteca do pai as pontuais

Curvaturas do mapa e as ferais

Formas que são o tigre e a pantera?

Ou daquele outro que empurrou uma porta

Atrás da qual um homem morria

Para sempre, e beijou no branco dia

A face que se vai e a face morta?

Sou os que já não são. Inutilmente

Sou em meio à tarde essa perdida gente.”

Na coletânea, há um poema chamado “Eu” (“os caminhos de sangue que não vejo”) e um poema chamado “Sou” (“Sou, tácitos amigos, o que sabe/ Que não há outra vingança que o olvido/ Nem há outro perdão (…) Sou eco, olvido, nada”).

E os temas do rio, da trama do tecido, do sonho (“Bem no fundo do sonho estão os sonhos”, lemos em “Efialtes”; “Eu também sou um sonho fugitivo que dura/ Alguns dias mais…”, lemos em “A cerva branca”) e do mapa do Tempo continuam entretecidos nesse Boitempo (“… a morte, esse outro nome/Do incessante tempo que nos rói…”, lemos em “Elegia”) borgeano:

“O grande rio de Heráclito, o Obscuro,

Seu curso misterioso não empreendido,

Que do passado flui para o futuro,

Que do olvido flui para o olvido.” (“Cosmogonia”)

“Serei todos ou ninguém. Serei o outro

Que sem saber eu sou, o que fitou

Esse outro sonho, minha vigília. E a julga,

Resignado e sorridente…” (“O sonho”)

“…o humano tempo,

Cujo espelho espectral é a memória” (“O bisão”)

…”Cada coisa

É infinita coisas. Tu és música,

Firmamentos, palácios, rios e anjos,

Rosa profunda, ilimitada, íntima…” (“The unending rose”)

Machadianamente (pelo menos, no que se refere ao narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas), neste nosso “intolerável universo”, o suicida pode afirmar: “Lego o nada a ninguém” (“O suicida”). Mas, para compensar, há o rouxinol, “voz repleta de mitologias”, que merece este belíssimo verso: “Keats te ouviu por todos, para sempre” (“Ao rouxinol”).

As 13 moedas de O ouro dos tigres, retomadas, foram acrescidas de mais duas. Em uma delas temos essa homenagem a Poe:

“Os sonhos que sonhei. O poço e o pêndulo.

O homem das multidões. Ligéia…

Mas também este outro.” (“Quinze moedas”)

O tigreiro Simón Carbajal:

“Sempre estava matando o mesmo tigre

Imortal. Não te assombre demasiado

Seu destino. É o teu e é o meu,

Salvo que nosso tigre possui formas

Que mudam sem parar. Chama-se o ódio,

O amor, o acaso, cada momento.” (“Simón Carbajal”)

A cegueira:

“Não sei qual é o rosto que me mira

Quando miro o rosto do espelho;

Não sei que velho espreita em seu reflexo

Com silenciosa e já cansada ira.

Lento em minha sombra, com a mão exploro

Meus invisíveis traços. Um lampejo

Me toca. Teu cabelo entrevejo,

Se ora de cinza ou ainda de ouro, ignoro.

Repito que o perdido foi somente

A inútil superfície das coisas.” (“Um cego”)

A nostalgia do épico persiste, claro. Alguém percorre os caminhos de Ítaca e não se lembra daquele rei que partiu para Tróia, que desceu ao Hades para consultar Tirésias (“O desterrado”).

Os destinos que não são nossos; os destinos não que não nos couberam, nesse jardim de veredas que se bifurcam da existência:

“Eu, com ela, morro de infinitos

Destinos que o acaso não me depara.” (“Em memória de Angélica”)

Enquanto (creio que não dá para ser totalmente solipsista), “Sobre nós vai crescendo, atroz, a história” (“Em memória de Angélica”):

“…as vozes dos mortos

vão me dizer para sempre.” (“Meus Livros”)

Esclarecendo que os “meus livros” são os livros que ele possui (mas não pode ler) e não aqueles que ele mesmo escreveu.

E, por fim, a visão da “cerva branca”:

“Leve criatura feita de uma certa memória

E de um pouco de olvido…” (“A cerva branca”).

(anotações de leitura de julho de 2009; todos os trechos foram traduzidos por Josely Vianna Baptista)

Dentro da mesma linha, acesse também:

https://armonte.wordpress.com/2012/11/02/historia-da-noite-o-que-a-memoria-concede/

https://armonte.wordpress.com/2012/11/01/as-perpetuas-aguas-de-heraclito-a-moeda-de-ferro-de-borges/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/25/o-ontem-fatal-e-inevitavel-borges-e-o-ouro-dos-tigres/

25/10/2012

O “ontem fatal e inevitável”: Borges e o ouro dos tigres

O OURO DOS TIGRES

Publicado em 1972, no seu belo título já trai a recorrente fascinação de Borges com esse que é o animal mais bonito. A imagem do ouro ligado ao animal selvagem, uma espécie de fulgor da ferocidade, também trai um dos temas centrais dessa coletânea de 48 poemas. Em ocasiões diversas (por exemplo, ao comentar Ulisses, de Joyce, ou A pedra do reino, de Ariano Suassuna), eu levantei a questão da nostalgia do épico, e é isso que vemos em O ouro dos tigres. Borges como o fazedor de versos, descendente longínquo e pálido dos aedos e cantores de sagas, ou ainda, em termos mais pessoais e irrisórios, último representante de uma família de militares “machos”, um eco já apagado, uma sombra, do que foi grandioso, e se não foi, ficou assim “naquele plástico ontem irrevogável”, “Essas coisas podiam não ter sido./ Quase não foram. Nós as concebemos/ em um ontem fatal e inevitável”,“O ontem ilusório é um recinto/ de imutáveis figuras de cera/ ou de reminiscências literárias/ que o tempo irá perdendo em seus espelhos” (“O passado”). Não por acaso, os dois primeiros poemas, que estabelecem o “clima”, por assim dizer, tratam de um conquistador, um homem de ação (“Tamerlão”), que protagonizou uma tragédia de Christopher Marlowe, o grande rival do jovem Shakespeare, e de espadas famosas (“Espadas”).

A ação heróica, destinada a ser literatura (e um dos elementos daquela continuidade de que eu falava nos comentários sobre Elogio da sombra), o épico que encontra o lírico e o cósmico em Whitman, presença tutelar do livro desde o prólogo (apesar de este fornecer uma imagem ambivalente, mais negativa que positiva; “Para um verdadeiro poeta, cada momento da vida, cada fato, deveria ser poético, já que profundamente o é. Que eu saiba, ninguém alcançou até hoje essa alta vigília. Browning e Blake se aproximaram mais do que qualquer outro; Whitman a propôs, mas suas deliberadas enumerações nem sempre passam de catálogos insensíveis”):

“Roma, que impõe o numeroso hexâmetro

Ao obstinado mármore dessa língua

Que manejamos hoje, espedaçada;

Os piratas de Hengist que atravessam

A remo o temerário mar do Norte

E com fortes mãos e a coragem

Fundam um reino que será o Império;

O rei saxão que oferta ao da Noruega

Sete palmos de terra e que cumpre,

Antes que o sol decline, a promessa

Na batalha de homens; os cavaleiros

Do deserto, que cobrem o Oriente

E ameaçam as cúpulas da Rússia;

Um persa que relata a primeira

Das Mil e uma noites e não sabe

Que deu início a um livro que os séculos

Das outras gerações, ulteriores,

Não entregarão ao quieto esquecimento;

Snorri, que salva em sua perdida Tule,

Sob a luz de crepúsculos morosos

Ou na noite propícia à memória,

As letras e os deuses da Germânia;

O jovem Schopenhauer, que descobre

Um projeto geral do universo;

Whitman, que numa redação do Brooklyn,

Entre o cheiro de tinta e de tabaco,

Toma e a ninguém conta a infinita

Resolução de ser todos os homens

E de um livro escrever que seja todos…”

E o poeta Borges, ou o avatar de poeta que ele tomou para si neste livro? Vejamos o último dos “Tankas” (estrofe japonesa que tem um primeiro verso de cinco sílabas, o segundo de sete sílabas, o terceiro de cinco sílabas e os dos últimos de sete sílabas):

“Não ter tombado

Como outros de meu sangue,

Na batalha.

Ser na inútil noite.

O que conta sílabas.”

“…com o verso / devo lavrar meu insípido universo”, lemos em “O cego”; “…o resignado / exercício do verso não te salva” (“Ao triste”), enquanto se espalham as alusões ao projeto whitmaniano:. Em “On his blindness”: “Walt Whitman, esse Adão nomeador / das crianças que existem sob a lua”; em 1971 (um poema em homenagem à descida do homem na lua e seus antecedentes míticos e literários): “Esses filhos de Whitman haviam pisado/ o páramo lunar, o inviolado…”, numa paródia a sério da expressão “filhos de Adão”.

E por falar em Adão, uma das “Treze moedas” recapitula concisamente uma situação já explorada no poema “Lenda” de Elogio da sombra:

“Foi no primeiro deserto.

Dois braços atiraram uma grande pedra.

Não houve um grito. Houve sangue.

Houve pela primeira vez a morte.

Já não me lembro se foi Abel ou Caim”.

No poema anterior:

“Abel e Caim se encontraram depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e se reconheciam de longe, porque os dois eram muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, fizeram um fogo e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando o dia declina. No céu despontava alguma estrela, que ainda não recebera seu nome. À luz das chamas, Caim notou na testa de Abel a marca da pedra e deixou cair o pão que estava para levar à boca e pediu que seu crime lhe fosse perdoado.

Abel respondeu:

–Tu me mataste ou eu te matei? Já não me lembro; aqui estamos juntos como antes.

–Agora sei que você me perdoou de verdade, disse Caim, porque esquecer é perdoar. Eu também tentarei esquecer.

Abel disse devagar:

–Assim é. Enquanto dura o remorso, dura a culpa”.

Voltando à “nostalgia do épico”, um dos elementos constituintes na mítica pessoal borgiana é a figura do “gaúcho” e seu cenário natural, o pampa:

“O beco final com seu poente.

Inauguração do pampa.

Inauguração da morte.” (“Oeste”)

“No fim de sua terceira geração

Regresso às planícies dos Acevedo,

Os meus antepassados. Vagamente

Procurei-os por esta velha casa…

Na chuva que ensombrece a varanda,

Entre o crepúsculo de seus espelhos,

Num reflexo, um eco, que foi seu

E que agora é meu, sem que eu o saiba…

Aqui foram a espada e o perigo,

As duras prescrições e os levantes;

Firmes sobre o cavalo, aqui regeram

A sem princípio e a sem fim planura…” (“A busca”)

“… Professaram

A antiga fé do ferro e da coragem…

Por essa fé morreram e mataram.

Entre os acasos de uma montonera

Pereceu pela cor de uma divisa;

Foi quem nada pediu, nem a efêmera

Glória, feita de alarde e de brisa.”

Há até uma poética do épico em “Os quatro ciclos”, que afirma que “Quatro são as histórias. Durante o tempo que nos resta, continuaremos a narrá-las, transformadas”. São elas a história da Ilíada, da Odisséia, de Jasão e o velocino, e do sacrifício de um deus (Átis, Odin, Cristo).

Nessa obsessão pelo épico, que só estou pincelando, há uma homenagem a Camões (no poema “O mar”; aliás, mar e épico estão inextricavelmente ligados), embora seu nome não seja citado:

“O mar. O mar de Ulisses…

É o do tal cavaleiro que escrevia

A um só tempo a epopéia e a elegia

De sua pátria, no pântano de Goa…”

E o próprio Borges, numa auto-ironia, mostra sua fidelidade aos ideais militares que, vinculada a coisas imemoriais e nada comezinhas, tiveram o efeito desastroso de propiciar desastradas declarações políticas num país sob ditadura militar. No poema “A sentinela”, e Borges- O outro determina coisas para Borges-o mesmo::

“Converteu-me ao culto idolátrico de militares mortos, com

os quais talvez não pudesse trocar uma única palavra”.

Acho que esse trecho esclarece bem a questão “Borges & regime militar”.

Esse mesmo poema termina de uma forma terrível:

“A porta do suicida está aberta, mas os teólogos afirmam

que na sombra ulterior do outro reino estarei eu, me

esperando.”

Que ecoa a fórmula de “O ameaçado”: “o horror de viver no sucessivo”, o que expressa a impotência dos seres majestosos e enjaulados (a pantera, o tigre, cuja visão o fascinou antes da cegueira):

“Em vão é vário o orbe. A jornada

Que cumpre cada qual já foi fixada” (“A pantera”)

Do ouro dos tigres só sobrou na cegueira a cor amarela:

“Agora só perduram contornos amarelos,

E só consigo ver para ver pesadelos.”

Em 1970, Borges esteve em São Paulo e lá escreveu “Poema da quantidade”:

“Aqui são excessivas as estrelas.

O homem é excessivo. As gerações

Inúmeras de aves e de insetos,

Do jaguar constelado e da serpente,

De galhos que se tecem e entretecem,

Do café, da areia e das folhas

Oprimem as manhãs e nos prodigam

Seu minucioso labirinto inútil.

Talvez cada formiga que pisamos

Seja única ante Deus, que a define

Para a execução das regulares

Leis que regem Seu curioso mundo.

Não fosse assim, o universo inteiro

Seria um erro e um oneroso caos.

Os espelhos do ébano e da água,

O espelho inventivo de um sonho,

Os liquens e os peixes, as madréporas,

Tartarugas alinhadas no tempo,

Os vaga-lumes de uma única tarde,

As araucárias e suas dinastias,

As perfiladas letras de um volume

Que a noite não apaga são sem dúvida

Não menos pessoais e enigmática

Que eu, que as confundo. Não me atrevo

A julgar nem a lepra nem Calígula.”

Não posso me furtar a transcrever parte de “A um gato”:

“Não são mais silenciosos os espelhos

Nem mais furtiva a aurora aventureira;

Tu és, sob a lua, essa pantera,

Que divisam ao longe nossos olhos…

Mais remoto que o Ganges e o poente,

Tua é a solidão, teu o segredo.

Teu dorso condescende à morosa

Carícia de minha mão. Sem um ruído,

Da eternidade que ora é olvido,

Aceitaste o amor dessa mão receosa.

Em outro tempo estás. Tu és o dono

De um espaço cerrado como um sonho.”

E para finalizar essa minha passagem pelos poemas de O ouro dos tigres, duas passagens que eu acho emocionante. Uma é o último verso de “O ameaçado”, um poema sobre o amor “com suas mitologias, com suas pequenas magias inúteis”):

“Dói-me uma mulher por todo o corpo” (que bom ver o corpo referido em Borges).

A outra, que considero um fecho perfeito para qualquer texto, é de “O palácio”. Apesar do horror de viver no sucessivo:

“… já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memória. Eu sei que não estou morto.”

Escrito em julho de 2009;  todas as passagens foram traduzidas por Josely Vianna Baptista

Dentro da mesma linha, acesse também:

https://armonte.wordpress.com/2012/11/02/historia-da-noite-o-que-a-memoria-concede/

https://armonte.wordpress.com/2012/11/01/as-perpetuas-aguas-de-heraclito-a-moeda-de-ferro-de-borges/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/26/borges-e-o-nome-da-rosa/

22/10/2012

DEZ DE DORIS

Filed under: autores centrais,Livros que eu indico — alfredomonte @ 14:30
Tags: ,

Quando gostamos muito de um autor, fazendo constantes referências a ele, e principalmente quando sua obra é composta de uma variedade enorme de títulos, é comum as pessoas interessadas perguntaram qual o livro que seria ideal para começar a leitura, ou quais os nossos  favoritos.

Como Doris Lessing desde 1950 publicou muito, resolvi fazer um roteirinho básico de leitura, com dez dos meus textos prediletos, destinado a quem deseje se iniciar no universo da “arqueóloga das relações humanas”. A numeração abaixo não tem qualquer sentido de hierarquia (e nem quer dizer que os livros não arrolados não sejam importantes,é apenas um vislumbre de uma produção multifacetada e riquíssima):

1)    A tentação de Jack Orkney– Acho que este pequeno romance, publicado como conto, em 1972, e assim mantido nas Collected stories- volume 2 (1978), é a melhor porta de entrada do mundo lessinguiano.  Jack Orkney é um político de esquerda ateu  que, a certa altura da vida, se deixa contagiar, quase como que uma infecção, por Deus. Imaginem, presos como somos a grades de referências e a personalidades encouraçadas ao longo do tempo, o que isso acarreta. Como li o texto de Lessing mais ou menos na mesma época da leitura de A negação da morte,  de Ernest Becker, eles ficaram indissociavelmente ligados na minha memória como grandes reflexões sobre fé, construção neurótica de caráter e prisões  referenciais.

2)     Memórias de um sobrevivente– Outro texto que pode servir de porta de entrada. Publicado em 1974, no Brasil teve o charme extra de ser traduzido por Clarice Lispector. Ele se passa num futuro indeterminado, em que os jovens se transformaram em hordas hostis, toda a estrutura social está precária e esgarçada, e os mais velhos tentam sobreviver refugiados em seus apartamentos. Num deles, a narradora percebe que as paredes “se abrem”, levando-a a realidades alternativas, a territórios diversos. De todas as distopias das últimas décadas, essa é a mais pungente e conseqüente, a meu ver. E é um dos textos mais lindos e perfeitos de uma autora que parece ter vergonha de construir textos lindos e perfeitos.

3)    Ao quarto dezenove (To room nineteen, no Brasil apenas “O quarto 19”)- Publicado inicialmente numa coletânea de 1963, pertence ao ciclo de The Golden Notebook, ciclo perigoso porque poderia confinar a escrita lessinguiana a uma questão de gênero. Contudo, como sempre, ela vai muito além de qualquer limitação. É curioso que a história foi homenageada por Michael Cunningham em As Horas (a parte da mãe do poeta), e nela, uma mulher aluga o mesmo quarto para ali fugir das suas referências. Aos poucos vai se apegando tanto àquele  espaço, vai de tal forma alargando sua permanência ali, que o leitor já deve desconfiar do desfecho. Uma obra-prima.

4)    O caderno  dourado(1962)- Atingiu o meio-século esse monumento do romance que faria por si só a glória literária de Doris Lessing não fosse pela equívoca questão do feminismo. Sejamos claros, é um livro feminista, mas é principalmente uma grande experiência com a forma do romance. Ao explodir a neurótica divisão da protagonista (que compartimenta sua vida em cadernos de notas estanques, de cores diferentes –um para a política, outra para a literatura, outro para os problemas psicológicos, e assim por diante), num caderno de notas (o dourado) que representa o caos e a piração do mundo, ela de certa forma absorveu toda a sua obra anterior, muito prestigiada pelos temas “africanos”. Estamos no pórtico da “grande” Doris Lessing, a narradora épica e tolstoiana do nosso tempo.

     Escolhi verter o título original (The golden notebook) de forma mais literal porque não suporto o título brasileiro (O carnê dourado), particularmente infeliz.

5)    A cidade de quatro portas (The four-gated City)- Em 1969, ela completou um ciclo que se iniciara em 1952, com Martha Quest. Os quatro volumes anteriores são belos romances de formação, com cenas inesquecíveis, e quem é apaixonado por Doris Lessing não os dispensa nem morto. Comparados, no entanto, ao quinto, empalidecem visivelmente: Martha Quest abandona a África e vai para a Inglaterra pós-guerra, e de mulher independente torna-se uma espécie de babá dos filhos de um intelectual. É o fantasma que persegue Lessing, mas ainda é pouco: há o espectro da guerra nuclear, há a possibilidade da criação de uma humanidade pós-nuclear, novas concepções da mente, do homem, da família. Enfim, é Freud, Marx e o Apocalipse, tudo no mesmo livro. Doris Lessing começa a conter a vida inteira em seus livros.

6)    Roteiro para um passeio ao Inferno (Briefing for descent into the Hell, 1971)- Foi o primeiro livro que li de Lessing e, até certo ponto, o mais impressionante. No início, ele se passa no plano da alucinação, evocando mitos civilizatórios e de barbárie, se passando em ambientes primitivos e arquetípicos; depois, ficamos sabendo que o protagonista é um professor que “pirou”. Mais uma vez, a corda bamba se dá entre o caos que pode dar início a um novo começo, ou a volta a uma ordem conformista e  compartimentadora, que só leva à neurose e ao desespero. Menosprezado por alguns, como se fosse uma mera ilustração das idéias de Ronald D. Laing (O eu dividido), esse romance é de uma riqueza assombrosa, provavelmente daí vem sua irregularidade genial.

7)    Gatos e mais gatos (On Cats, 2002)- Doris Lessing dedicou muitas páginas e alguns livros aos gatos. Esse livro reúne tanto ficção quanto passagens biográficas reveladoras. Como eu mesmo sou devoto da religião felina, ninguém deve estranhar a inclusão desse título. No entanto, sinceramente acho que o incluiria de qualquer forma, pela perspicácia e valor literário.

8)    Amor, de novo (Love, again, 1996)- O belíssimo romance sobre o envelhecer que marcou a volta da ficcionista maior da nossa época após alguns anos de mornidão (aqueles que escreveu depois do lindíssimo Planeta 8-Operação Salvamento, de 1982—nenhum deles chega a ser fraco, mas em todos parece faltar algo, um brilho maior). De fato, parece ter destravado de tal forma sua escrita que ela voltou a apresentar nova fase de brilho.

9)     As avós (The grandmothers, 2002) e A fenda (The Cleft, 2007)- Dois pequenos romances que também seriam ótimas introduções não fossem uma espécie de quintessencialização, de depuração extrema, dos temas que sempre foram dominantes na obra de Lessing: no primeiro, com perversidade, ela volta aos universos femininos sufocantes, na história de mães amigas que se tornam amantes dos filhos uma da outra numa espécie de “planeta em separado”, criando mais do que as famílias disfuncionais da moda, uma espécie de clã autofágico; no segundo, já pela ressonância fisiológico-sexual do título, ela opõe padrões civilizatórios, masculinos e femininos, numa parábola que eu considero politicamente incorreta (graças a Deus).

10)    Shikasta(1979)- Ficou o melhor por último, ou seja, a grande obra que deu munição aos críticos que sempre a menosprezaram (ou passaram a menosprezá-la daí para a frente, entre eles Harold Bloom e George Steiner).  É a história de como um planeta que era cuidado por uma potência extraterrestre “espiritual” (Canopus) perde essa conexão, e vai mergulhando no materialismo, na violência e na degradação ambiental, ambicionado pelo pragmático império rival de Canopus, Sirius, e saqueado pelos piratas de Shammat. Depois, vieram mais quatro romances da série Canopus em Argos: Arquivos, três deles extremamente belos, mas no quinto, Os agentes sentimentais (1983), ela já parecia mais desinteressada (e mais didática do que ficcional).

     O que impressiona especialmente em Shikasta é a alquimia da fabulação com a exposição reflexiva. É a literatura seguindo sua vocação de transcender a si mesma.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/22/destaque-do-blog-shikasta-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/18/a-filha-da-primeira-guerra-alfred-e-emily-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/multipla-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/a-rede-social/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/a-maravilhosa-vida-longa-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/leitura-em-espelho-andando-na-sombra-de-doris-lessing-e-a-forca-das-coisas-de-simone-de-beauvoir/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/amor-de-novo-e-a-vocacao-de-doris-lessing-para-borrar-quadros-harmoniosos/

A MARAVILHOSA VIDA LONGA DE DORIS LESSING

Filed under: rapidinhas — alfredomonte @ 12:45
Tags: , , ,

Hoje, 22 de outubro, é aniversário de Doris Lessing, num determinando sentido o autor mais importante na minha trajetória de leitor, e ainda hoje uma das (re)leituras que mais encanto me trazem à minha vida. Por nenhum outro motivo, exumando algumas coisas antigas, extraí de 2007 observações ligeiras sobre dois textos dela que li naquele ano (em que ela ganhou o Nobel)[1] Não são nada demais, é só para a data não passar em branco, ainda mais depois da morte de Autran Dourado (em 30 de setembro), outra companhia diária por anos e anos, em agradecimento a tudo o que ela já me proporcionou desde 1982, quando a li pela primeira vez.

Quando se começa a ler O sonho mais doce, de Doris Lessing, é-se projetado de imediato no mundo dela, nas suas obsessões, essas mulheres que são cercadas por gente o tempo todo, essas dependências que se criam dentro das grandes casas[2] (e também a sobreposição de perspectivas—como um fato ou gesto poderia ser interpretado anos depois).

Por isso mesmo, o livro pode trazer ao apreciador da estupenda escritora inglesa, a sensação de déjà vu. No entanto, como não admirar o verdadeiro poder simbólico que ela conferiu à mesa da casa de Julia, que reúne as características de comunhão e proteção, opostas à dispersão, além da fartura (oposta ao abandono e à penúria); e enfim, é um apelo à unidade (oposta ao desmantelamento de todos os valores) e à fraternidade (oposta ao egoísmo intolerável dos que “sonham com a comunhão” e amam uma “humanidade futura”, ainda totalmente inexistente):

“Na cozinha, Colin acomodou Sylvia em volta da mesa, a MESA , de novo ampliada  para sua capacidade máxima (…) [Sylvia] Estava deprimida; Londres às vezes tem esse efeito em londrinos que estiveram fora e que, enquanto morava ali, não faziam muita ideia do peso, das numerosas dádivas e capacidades da cidade.Londres, depois da missão,  estava lhe dando um murro mais ou menos na região do estômago. É um erro ir muito depressa de, digamos, Kwadere, para Londres; antes, é preciso passar por alguma coisa equivalente a uma câmara de descompressão”.

Se a princípio parece fadado a ser um livro mais mais fraco entre os romances realmente longos de Lessing, O sonho mais doce cresce alucinantemente na sua centena de páginas final, apesar de haver uma certa falta de empatia com a personagem dominante nesse passo [Sylvia].

Pensado bem, o romance tem um movimento  de se abrir para o mundo e ao mesmo tempo de fazer as personagens sempre voltarem a certas constantes  [a mesa mítica, por exemplo],que o faz um inesperado irmão das histórias de John Irving (como Hotel New Hampshire  ou As regras da Casa de Sidra). No final, remontamos a Dickens, acompanhando gente que cresce, se afasta e “ganha o mundo”, mas sempre se reencontra.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/22/destaque-do-blog-shikasta-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/18/a-filha-da-primeira-guerra-alfred-e-emily-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/leitura-em-espelho-andando-na-sombra-de-doris-lessing-e-a-forca-das-coisas-de-simone-de-beauvoir/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/multipla-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/amor-de-novo-e-a-vocacao-de-doris-lessing-para-borrar-quadros-harmoniosos/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/dez-de-doris/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/a-rede-social/


[1]  Eram textos que ainda não conhecia (demorei um pouco para ler O sonho mais doce, achando que seria a última obra dela, e queria guardá-lo ainda um pouco mais, como se fosse um amuleto para que ela continuasse entre nós—e não é que, ela hoje está completando 93 anos ?)– hoje o meu exemplar de Alfred e Emily é que faz essa função dentro do meu pensamento mágico; no início de 2007, eu relera O carnê dourado por conta de um curso sobre Cortázar; numa das aulas, fiz  uma leitura comparativa entre a obra-prima de Lessing e O jogo da amarelinha.

[2] As avós, a obra seguinte (bem mais curta, com um quê de Henry James na sua fusão de uma narrativa quase mundana e polida com um sopro de crueldade e perversidade) bagunça o coreto: são mulheres que centralizam a vida à sua volta, mas com um propósito bem definido: criar um “nós” entre elas e os filhos (que se tornam amantes), estabelecendo uma linha divisória com o “eles” (o resto do mundo, mesmo que sejam eventuais maridos e esposas).

Leitura em espelho: ANDANDO NA SOMBRA, de Doris Lessing, e A FORÇA DAS COISAS, de Simone de Beauvoir

    

                              I

“A memória é uma grande criadora de comédia. Décadas depois, um evento que foi doloroso, ou mesmo aterrorizante, pode parecer simplesmente absurdo”. Esse trecho é do primeiro volume autobiográfico de Doris Lessing, Debaixo da minha pele, e ajuda a entender Andando na sombra: esse segundo volume é um ajuste de contas com o comunismo, que dominou e assombrou a vida da grande escritora inglesa durante muitos anos, um “evento doloroso e aterrorizante” que, colocado sob perspectiva, revela-se absurdo.

Andando na sombra começa em 1949 , a partir da emigração da autora de Roteiro para um passeio ao inferno da Rodésia para a Inglaterra, e sua estréia como escritora, com a publicação de A canção da relva. Mesmo assim, tudo que não tem a ver com a experiência dela como militante do Partido Comunista fica secundário no livro, o que, ao mesmo tempo, representa sua força e sua fraqueza.

Doris Lessing já abordou muitas vezes essa sua desilusão, já explorou muitas vezes a dificuldade que tantas pessoas tiveram para se desvencilhar da lealdade para com ideais que nunca correspondiam à realidade e que, ao fim e ao cabo, legitimavam atrocidades cometidas na URSS, principalmente no período stalinista. Ela sempre associou a dificuldade de abandonar o partido e a própria idéia de comunismo, sem se tornar vítima de uma “má consciência”, de estar cometendo uma traição aos explorados e descamisados do mundo, como uma espécie de substituto do fervor religioso.

Nunca, entretanto, ela se estendeu tanto na questão como em Andando na sombra, onde a narração do período e a reflexão propiciada pelo olhar memorialista se alternam (processo que ela já usara magistralmente em Debaixo da minha pele, um de seus melhores textos), fazendo com que o livro seja quase  que o seu testamento, a súmula de suas idéias, o seu balanço final: “Será que têm interesse hoje essas antigas paixões políticas? Para mim o importante é o que se aprende com elas. Continuamos convivendo com o (hoje) incrível e imperdoável fato de que algumas das pessoas mais preocupadas com a sociedade, mais esperançosas quanto ao futuro, mais dedicadas, foram coniventes com os crimes do mundo comunista, recusando-se, primeiro, a reconhecê-los…. E essa atitude, essa relutância em criticar a URSS, continua até hoje e se evidencia na forma como Hitler é colocado na posição de criminoso-mor de nossos tempos, ao passo que Stálin era mil vezes pior…. O interesse, com certeza, é o porquê. Afinal de contas, essa situação, ou uma que lhe seja parecida, voltará a acontecer, num contexto diverso, numa história diferente. Tudo volta.”

Apesar do brilho com que ela captura toda a “atmosfera” da Guerra Fria, é justamente a concentração maciça de pormenores da atividade política que faz com que Andando na sombra não seja tão bom quanto Debaixo da minha pele. Casas,pessoas, obras e outros “detalhes” que aparecem nesse segundo volume, ficam apenas como um pano-de-fundo fuliginoso nessa sombria constatação a posteriori da comédia absurda que foi o engajamento dos anos 50, através da observação mortífera da memória.

Há maravilhosas observações sobre diversos outros temas (os gatos, por exemplo, que ganham três páginas inesquecíveis) e a narração da mudança, em 1962, para uma casa própria (no final do livro) é demais, com sua descrição da reforma, dos trabalhadores e dos vizinhos, porém tudo  fica acachapado no todo do livro e ele fica desarmônico, desigual.

E embora Andando na sombra seja esclarecedor no sentido de mostrar por que Doris Lessing tantas vezes colocou como alter ego das suas narrativas donas-de-casa (como em O verão antes da queda,  A cidade de quatro portas, Memórias de um sobrevivente, por exemplo), é pena que ela  equacione tão pouco sua vida com os livros que surgiram a partir dessa época, como os maravilhosos The golden notebook- O carnê dourado e Landlocked- Exilada em seu país.

Nesse ponto, Andando na sombra perde longe para as incríveis memórias de Simone de Beauvoir, principalmente Na força da idade & A força das coisas, nas quais política, literatura, existência dia-a-dia são capturadas de uma forma coesa e poderosa, e uma coisa não avassala a outra no texto, mesmo que o tenha feito na vida.

Mas a própria Simone de Beauvoir  adverte para as conclusões apressadas demais: “Apresento cada momento da minha evolução e é preciso ter a paciência de não fechar a conta antes do fim”.

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de setembro de 1998)

                                    II

 Há poucas leituras mais apaixonantes e absorventes que a dos volumes autobiográficos de Simone de Beauvoir: Memórias de uma moça bem-comportada,Na força da idade, A força das coisas, Balanço Final.

A força das coisas (1963) recentemente ganhou nova tradução no Brasil (feita por Maria Helena Franco Matias, pela Nova Fronteira; já havia  outra, com o belo título de Sob o signo da história). Cobre um período mais ou menos similar ao retratado por Andando na sombra, de Doris Lessing.

Quando Paris foi libertada pelos Aliados e a Segunda Guerra terminou havia um clima de esperança e fraternidade entre simpatizantes e militantes do socialismo e do comunismo. As dissensões  entre todos e a Guerra Fria fizeram com que as posições se radicalizassem,  o engajamento muitas vezes descambou para o sectarismo fanático, e a postura pró-URSS levava a conflitos internos que Jean-Paul Sartre e Simone tentaram superar.

Já tendo contado esse período em Os mandarins (que deverá figurar como um dos grandes romances do século), por que tentar de novo? “Eu pensava que é projetando uma experiência no imaginário que apreendemos com mais clareza o seu significado. Mas eu lamentava que o romance sempre fracassasse em expressar sua contingência. Numa autobiografia, os acontecimentos se apresentam em sua gratuidade, seus acasos, suas combinações,tal qual se passaram: essa fidelidade faz compreender melhor do que a mais hábil transposição como as coisas acontecem a sério com os homens. O perigo é que, através da sua caprichosa profusão, o leitor possa não distinguir nenhuma imagem clara, apenas um amontoado confuso de coisas. O escritor não tem meios para contar simultaneamente os fatos de uma vida e seu significado. Nenhum desses dois aspectos da realidade é mais verdadeiro que o outro. Os mandarins, portanto, não me dispensava de prosseguir essas memórias…”

E, à medida que o leitor vai prosseguindo nas memórias de La Beauvoir, elas vão ficando cada vez mais desoladas e desoladoras. A Guerra da Argélia a transforma numa “exilada em seu país” , com ódio de seus compatriotas, que consentem com a tortura, o massacre, as injustiças gritantes. O governo de De Gaulle torna-se uma ditadura.

Ao mesmo tempo, a autora de A convidada (outro belíssimo romance) vai se dando conta do seu processo de envelhecimento: “Bruscamente esbarro na minha idade… Muitas vezes paro, espantada, diante desta coisa incrível que me serve de rosto. Detesto a minha imagem. Talvez as pessoas que me encontrem vejam simplesmente uma qüinquagenária que não está nem bem nem mal, tem a idade que tem. Mas eu vejo minha cara de velha, onde se instalou uma varíola da qual jamais me curarei”.

Mesmo assim ela vive, escreve, sente, ama, participa.E tudo isso é mostrado de uma forma quase milagrosa, mesmo no discurso ultra-organizado, cartesiano. Esse rigor discursivo, essa  austeridade e transparência, não conseguem neutralizar a contradição (instigante, aliás, e que fornece a chave do livro) entre viver o horror da ditadura e dar o devido valor a um instante, a uma paisagem,a um encontro, a um sentimento individual e fugaz. A vida salta dessas páginas, em que “a força das coisas” destrona o amor pelo absoluto que foi o núcleo do projeto pessoal de Simone de Beauvoir na sua infância,mocidade e começo da maturidade, como ela conta em Memórias de uma moça bem-comportada e no extraordinário Na força da idade, e que fica clara nos textos de Quando o espiritual domina, suas primeiras tentativas ficcionais mais articuladas. É possível que a vitalidade poderosa do livro seja resultado também do fato de ter sido escrito muito perto dos acontecimentos, ainda no calor da hora, ainda com o engajamento total da autora no que está contando, sem indulgência, sem conciliação, sem serenidade.

Os livros de Simone de Beauvoir dão o que ela pede a uma obra literária em A força das coisas: “…a recriação de um mundo que envolve o meu e que lhe pertence, que me desambienta e me ilumina, que se impõe a mim para sempre com a evidência de uma experiência que eu teria vivido”.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em  29 de setembro de 1998)

VER TAMBÉM NO BLOG

(sobre Simone de Beauvoir):

https://armonte.wordpress.com/2010/05/07/simone-de-beauvoir/

(sobre Doris Lessing):

https://armonte.wordpress.com/2013/10/22/destaque-do-blog-shikasta-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/18/a-filha-da-primeira-guerra-alfred-e-emily-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/multipla-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/amor-de-novo-e-a-vocacao-de-doris-lessing-para-borrar-quadros-harmoniosos/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/dez-de-doris/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/a-rede-social/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/a-maravilhosa-vida-longa-de-doris-lessing/

MÚLTIPLA DORIS LESSING

20071011-lessing1

Na semana passada, num artigo em que fazia “apostas” para o Nobel (ver abaixo), declarei que o primeiro nome a vir à minha mente era o de Doris Lessing. Era, na verdade mais uma indicação do gosto pessoal persistente, revelando uma paixão que dura há um quarto de século (a primeira vez que a li foi em 82, e comecei já com um dos melhores, Roteiro para um passeio ao inferno) do que uma aposta: aquela que é o maior nome vivo da ficção (agora com 87 anos) fora preterida nas duas oportunidades em que deram o prêmio a escritoras de língua inglesa: em 91, para Nadine Gordimer (fina estilista, autora de romances excelentes, e por quem eu tenho o maior respeito, só que seria o mesmo que premiar Lygia Fagundes Telles no lugar de Clarice Lispector); e em 93, para Toni Morrison, em minha opinião uma escritora decepcionante e menor, embora a unanimidade da crítica em torno de obras (Amada, A canção de Solomon, Jazz, Paraíso) que eu considero recheadas de partes ridículas e constrangedoras, me leve a crer que o erro de percepção é meu, e se trate de uma incompatibilidade fundamental mais do que um juízo crítico.

memórias

Parecia pouco provável que a essa altura do campeonato lhe atribuíssem o prêmio. E que surpresa: 50 anos após o anúncio de Albert Camus como ganhador, sai da caixinha o nome de um autor que me influenciou tanto quanto ele. Considero a premiação mais relevante desde 1969 (o ano de Samuel Beckett). Não que, de lá para cá, não fossem anunciados grandes nomes (Neruda, Soljenítisin, Bellow, Singer, Montale, Canetti, William Golding, Claude Simon, Pinter, Saramago, Naguib Mafhouz, Octavio Paz, Coetzee, Günter Grass), porém nenhum deles foi, é ou será o que Doris Lessing representa: um mundo, a recuperação épica de toda as fraturas individuais e desmoronamentos coletivos das últimas décadas, uma romancista de quem vários títulos parecem conter toda a vida, e que ainda por cima, numa chave mais miniaturista, a do conto, consegue igual maestria.

Quando ela estreou na literatura, em 1950, chegando a Londres, aos 30 anos, vinda da África (nasceu no Irã, em 1919, que então era a romanesca Pérsia), com The Grass is singing-A canção da relva, no qual conta a história de uma fazendeira branca assassinada por um criado negro, com quem tivera relações, parecia uma estilista tão fina quanto sua colega Nadine Gordimer, na tradição flaubertiana, capaz de tratar um tema explosivo com grande elegância. Volta e meia, aliás, ela publica um livro “perfeito” e bem acabado, talvez para nos mostrar: olha o que eu poderia ter sido, como eu faria bem isso…

Mas assim com a parede do apartamento da narradora do extraordinário Memórias de um sobrevivente insiste em se abrir para outros tempos e outras possibilidades da realidade, os romances de Doris Lessing começaram a romper os diques da mera ficção (enquanto isso ela estabelecia um sólido nome como contista, com suas histórias africanas, reunidas em dois volumes obrigatórios a qualquer um que ame a arte da narrativa, no Brasil intitulados A terra do velho chefe e Sabores do exílio).

roteiro para um passeio ao nfernoDoris_lessing_(doc_1)

Isso aconteceu com duas obras-primas: 1º.) o ciclo de cinco romances que acompanha a protagonista Martha Quest da infância na África até a Terceira Guerra Mundial, Os filhos da violência, iniciado em 1952 e só concluído em 1969, com A cidade de quatro portas. Para mim, é a única realização romanesca do século XX a rivalizar com Guerra e Paz, em abrangência e ímpeto épico, e que lhe valeu o epíteto (dado por Irving Howe) de “arqueóloga das relações humanas”. Não é que a ficção lessinguiana seja epigonal ao realismo do século XIX, não, ela é tomada pelo mesmo furor arcaico e homérico do velho Tolstoi, um talento que parece natural, nem parece “literatura”. É claro que isso é mentira, sua fabulação é tão construída como a de qualquer outro, mas o efeito é poderoso e único; 2º.) o seu romance mais famoso, The golden notebook- O carnê dourado, onde a heroína, Anna Wulf, enfrenta a loucura e a fragmentação, o caos do mundo à sua volta, subdividindo-os em diferentes cadernos que procuram conter a realidade, até que essas frágeis molduras também explodem. Embora O carnê dourado tenha sido encampado como bíblia do feminismo, a sua incomparável arquitetura narrativa e seu visionarismo sempre o resgatarão de ficar datado e reduzido a um manifesto.

shikasta

Se Doris Lessing tivesse ficado por aí, já seria um dos maiores nomes da literatura. A partir da sua adesão ao sufismo, ela parece ter ficado cada vez mais ousada literariamente. Além de dois contos longos antológicos, O quarto 19 (homenageado em As horas) e A tentação de Jack Orkney (onde o protagonista, comunista, é contagiado pela idéia da existência de Deus), em 1971 aparecia Roteiro para um passeio ao inferno, que começa em pleno delírio do protagonista, um professor de literatura que “pira” e mistura medos pessoais, arquétipos e mitos civilizatórios. Aos poucos, ficamos sabendo que ele foi enviando por instâncias intergalácticas (ou deuses) para cumprir uma missão, mas a esqueceu e se perdeu na condição humana (daí, o sentido literal do título, “instruções para uma descida aos infernos”); em 1973, apareceu o livro que a tornou famosa no Brasil, O verão antes da queda (que está na linha daqueles livros que citei mais atrás, no comentário a The Grass is singing); em 1974, um ponto alto da sua produção, Memórias de um sobrevivente, que prenunciava um pouco o que estava para vir: no final da década de 70, Lessing se lançou na criação de uma série cosmológica, que contava os embates entre dois impérios, o de Canopus, e o de Sirius (um contra-império maléfico, Shammat, representava o desequilíbrio entre ambos). Os agentes de Sirius não conseguiam compreender os métodos e intenções dos agentes de Canopus porque acreditavam na tecnologia, no progresso material, na racionalização do mundo.

O primeiro resultado dessa confrontação (resumida aqui de forma tão simplória) foi Shikasta, o meu favorito pessoal entre todos os livros de Doris Lessing, numa preferência absolutamente aliterária. É uma lindíssima reescritura da história da Terra, e ainda que esnobado por críticos do naipe de George Steiner e Harold Bloom, acho que é um dos livros necessários na bagagem de qualquer existência. Por isso, considero-o além do literário.

O outro grande livro da saga, e complementar, é As experiências de Sirius, que tem algumas das cenas mais lindas já escritas pela grande escritora britânica.  Mas há dois outros volumes onde se pode dizer que ela atingiu a perfeição absoluta do relato literário, duas jóias de ourivesaria narrativa: Os casamentos entre as zonas 3,4 e 5 e Planeta 8-Operação Salvamento.

Quando a série termina, com Os agentes sentimentais, parece que é mais por desinteresse do que por outra coisa. O livro não é ruim, mas parece uma dramatização literária das suas idéias sintetizadas num livro emblemático: Prisão que escolhemos para viver:

 

Parece-me, cada vez mais, que estamos sendo governados por ondas de emoções de massa e que, enquanto o fenômeno durar, não será possível avaliar respostas sérias, ponderadas e desapaixonadas que poderiam nos salvar. Olhando para minha vida, que agora conta 60 anos, o que vejo é uma sucessão de grandes eventos de massa, de emoções inflamadas, de paixões selvagens e sectárias (…) Um movimento de massa sucede a outro; pela guerra e contra ela; pela tecnologia e contra ela. E cada um cria nas pessoas um determinado ânimo, violento, emocional, sectário, suprimindo os fatos que não convém, mentindo e abandonando a sensatez da fala ponderada que, para mim, é a única maneira de chegarmos à verdade (…) Todo avanço do mundo, todo o seu desenvolvimento, estão ligados à complexa capacidade de nutrir várias idéias, muitas vezes contraditórias, ao mesmo tempo.”

Por essa época, ela criou um alter ego e enganou as editoras e meios de comunicação na Inglaterra, com Jane Somers, uma escritora “menor” e bem acomodada à tradição da narrativa britânica. Da brincadeira resultaram Diário de uma boa vizinha e Se os velhos pudessem. A “verdadeira” Doris Lessing produzia, por sua vez, mais um grande e provocativo livro (que veio divulgar no Brasil), The good Terrorist- A terrorista. Já parecia, contudo, estar perdendo o fôlego.

Alguns anos depois, porém, reaparecia em plenos anos 90, com um romance maravilhoso e inusitado: Amor, de novo. E lançava pouco depois dois volumes autobiográficos: o primeiro, Debaixo da minha pele, é excepcional; já o segundo, Andando na sombra, deixou um pouco a desejar no seu acerto de contas com o comunismo, talvez porque ela já o tivesse feito em várias ocasiões, na sua ficção, e porque ela minimiza muito sua carreira literária, cujo desabrochar deveria ser o contraponto do livro.

E agora, na década que estamos vivendo, mais um romance ciclópico, O sonho mais doce (2001), sua chegada ao século XXI. E se alguém acha que ela virou uma doce e boa velhinha, basta ler o malicioso, incisivo e lapidar prefácio que escreveu (em 2003) para textos recuperados de Virginia Woolf (homenageando o único outro nome comparável a ela na literatura inglesa), A casa de Carlyle e outros contos. O prefácio é tão ela, e isso representa uma força tão grande, que até deixa a autora prefaciada em segundo plano.

(texto publicado originalmente em duas partes, em A TRIBUNA de Santos,  em 13 de outubro e 20 de outubro de 2007)

VER TAMBÉM SOBRE DORIS LESSING:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/22/destaque-do-blog-shikasta-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/18/a-filha-da-primeira-guerra-alfred-e-emily-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/amor-de-novo-e-a-vocacao-de-doris-lessing-para-borrar-quadros-harmoniosos/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/dez-de-doris/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/a-rede-social/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/a-maravilhosa-vida-longa-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/leitura-em-espelho-andando-na-sombra-de-doris-lessing-e-a-forca-das-coisas-de-simone-de-beauvoir/

ANEXO

APOSTAS PARA O NOBEL

Chega outubro e as pessoas começam a perguntar: quem você acha que merece ganhar o Nobel? Quais as suas apostas?

Há 50 anos Albert Camus foi anunciado como o vencedor. Quem sabe em 2007 o nome escolhido seja tão fundamental para a literatura…

Se Doris Lessing  é o primeiro nome a vir à mente do responsável por esta coluna, dos grandes escritores ativos da atualidade o que produziu as obras mais impressionantes em anos recentíssimos (caso de Submundo e Cosmópolis) foi Don DeLillo. Nos EUA, além dele, seriam escolhas mais que justas Philip Roth, John Updike, Thomas Pynchon,Joyce Carol Oates, Joan Didion, John Irving, sem falar no lendário Norman Mailer, cuja obra-prima Um sonho americano acaba de ser reeditada no Brasil.

Na América Latina, o peruano Mario Vargas Llosa é imbatível, embora o mais venerável (ainda que inativo) seja o argentino Ernesto Sábato (e não possamos esquecer o uruguaio Mario Benedetti). O Brasil também poderia passar a existir no mapa Nobel com o genial Dalton Trevisan, nosso maior escritor vivo, ou com Autran Dourado. Na nossa ex-metrópole, o nome mais cotado é mesmo o de Antônio Lobo Antunes.

A literatura da França anda muito fraca, mas seria justo lembrar o espanhol que criou obras-primas em francês, Jorge Semprún (A grande viagem, A segunda morte de Ramón Mercader, Um belo domingo); ou do tcheco Milan Kundera, que após ter escrito alguns dos melhores livros do século XX (A brincadeira, A valsa dos adeuses) na sua língua natal, adotou a língua do seu país de exílio nos seus últimos textos.

É, aliás, a síndrome Camus (escritor que veio da Argélia para o coração da literatura de língua francesa). Os “que vêm de fora” lentamente dominam a cena. Ninguém exemplifica melhor isso do que o extraordinário anglo-indiano que escreveu Os filhos da meia-noite, Os versos satânicos, O último suspiro do mouro e Fúria:  Salman Rushdie.

Mas se o império britânico agoniza e os imigrantes é que lhe trazem seiva nova, um escritor como Ian McEwan, com livros da categoria de Amsterdam, ainda representa seu último alento.

Aqui também não poderia faltar a canadense Margaret Atwood, de Madame Oráculo e Olho de gato. E um autor insólito e inventivo de um país que foi destruído e pulverizado, a Iugoslávia: Milorad Pavitch, de Dicionário Kazar e Paisagem pintada com chá. E por falar em paisagens na neblina temos ainda o albanês Ismail Kadaré, de Abril despedaçado e Dossiê H.

E se o mundo islâmico é a maior inquietação do Ocidente de Bush, um escritor lúcido e poderoso não pode faltar nesta lista: Táriq Ali, de Sombras da Romãzeira e Medo de espelhos.

Apostas feitas.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 6 de outubro de 2007)

GD7120672@Doris-LessingFrom-the-6488

“Amor, de novo” e a vocação de Doris Lessing para “borrar quadros harmoniosos”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de outubro de 1996)

Ela odeia esse tipo de afirmação, mesmo assim vamos lá: Doris Lessing é o maior nome vivo da ficção,  um gênio literário cujo conjunto da obra paradoxalmente ultrapassa os limites da própria literatura, com livros que fizeram a cabeça de muita gente, pela apaixonante discussão e idéias e problemas fundamentais das últimas décadas, pela sua percepção das relações humanas, pela sua capacidade de contar histórias que parecem nos incluir e nos dizer respeito infinitesimalmente.

Vista da maneira acima, sua obra ganha um ar monumental, seus maiores livros parecem conter a vida inteira! E isso é um pouco verdade, em se tratando de The golden notebook (que, no Brasil, virou algo como uma propaganda do baú da felicidade: O carnê dourado), Roteiro para um passeio ao inferno, os cinco volumes de Os filhos da violência ou Shikasta.

De vez em quando, no entanto, ela concentra-se num trabalho mais flaubertiano, no sentido de algo mais curto, mais trabalhado estilisticamente, mais harmonioso formalmente. É o caso de A canção da relva, Memórias de um sobrevivente ou Planeta 8 (este último pertence à mesma série iniciada por Shikasta, Canopus em Argos; arquivos). E é nesse nicho que se alinharia o seu novo livro, Amor, de novo (Love, again, na tradução de José Rubens Siqueira), não fosse por alguns detalhes. A própria Doris Lessing já afirmou que gosta de “borrar os quadros harmoniosos e seguros”.

Amor, de novo não é a história de amores geriátricos que a grande escritora inglesa já tentara, com resultados módicos (para ela), em Se os velhos pudessem (1984). Apesar de Sarah, a protagonista, ter 65 anos e apaixonar-se por dois homens na trama (um ator e um diretor, pois estamos, aqui, no meio teatral), ambos com metade da sua idade, não seria Doris Lessing quem cairia na complacência irresponsável e tola de algo tipo Ensina-me a viver.

Pois qualquer um que já viveu no ambiente de um grupo teatral, tal como ela o descreve, sabe como sempre há joguinhos sexuais, conquistas cobiçadas e (quando o grupo convive muito proximamente) transferência de expectativas da peça para as relações comezinhas. É claro que no contexto do romance essa “magia” é intensificada pelo teor da peça que o grupo está montando e que estreará numa cidadezinha francesa (e que eu não revelarei aqui).

Por outro lado, o torvelinho de exacerbação romântica em que Sarah é projetada serve para que ela resgate sua própria história amorosa, para que ela sobreponha diversas fases da vida, diversas camadas de experiências, o que acaba sendo, de certa forma, um “roteiro para um passeio ao inferno” por causa da dor, da ansiedade, do desejo sexual insatisfeito, mas, como sempre acontece nos livros de Doris Lessing, as paredes se abrem e algum autoconhecimento, mesmo que precário, é proporcionado. E obviamente ninguém quer isso porque é mais charmosos sofrer e obcecar-se do que ir ao fundo do poço, à origem de toda essa azáfama em torno do Outro:

“Sarah, que durante anos jamais pensara em se casar ou mesmo viver com um  homem, passaria agora a procurar um homem com quem pudesse partilhar aquele amor que carregava com ela como uma carga que tinha de depositar nos braços de alguém… Eus esquecidos brotavam como bolhas num líquido fervente, explodindo em palavras: Aqui estou—lembra-se de mim? Ela disse a si mesma que era como uma crisálida dependurada de um ramo, seca e morta por fora, mas cuja substância por dentro, perde a forma, ferve e se agita, sem nenhum objetivo aparente, e, no entanto, essa sopa acaba tomando a forma de um inseto: uma borboleta. Estava, obviamente, dissolvendo-se em alguma espécie de sopa fervente, que talvez viesse a assumir outra forma em algum momento. Não precisava ser nada como uma borboleta, ela já ficara contente com um como-era-antes”.

E como é que Doris Lessing borra seu confortável quadro, isto é, seu livro tão brilhantemente escrito, com um estilo que ninguém consegue superar hoje em dia? Através de uma série de pequenas frases, dirigidas ao leitor, provocando-o para que participe do jogo, como se o narrador estivesse a espreitá-lo tanto quanto a Sarah. Essas pequenas frases quebram a “perfeição” óbvia que Amor, de novo teria facilmente e funcionam como as paredes que se abriam para a percepção renovada da narradora do extraordinário Memórias de um sobrevivente, fazendo com que sejamos levados para aquele universo narrativo, mesmo    que queiramos ficar apenas como compadecidos espectadores dos lances cênicos.

Para quem estava sentindo falta da presença luminosa e arejante de Doris Lessing no mundo (fazia muitos anos que não tínhamos uma obra de ficção sua), esse novo e poderoso livro veio nos mostrar que, aos 77 anos (a ser comemorados em 22 de outubro próximo), ela continua arguta, generosa, impactante, a grande “arqueóloga das relações humanas” (como já foi chamada), e que ler um livro seu continua a ser uma experiência iniciática, para não dizer única.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/22/destaque-do-blog-shikasta-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/18/a-filha-da-primeira-guerra-alfred-e-emily-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/multipla-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/dez-de-doris/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/a-rede-social/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/a-maravilhosa-vida-longa-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/leitura-em-espelho-andando-na-sombra-de-doris-lessing-e-a-forca-das-coisas-de-simone-de-beauvoir/

A REDE SOCIAL

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em 27 de maio de 1997)

Há uma sincronicidade nas queixas de quem acompanha diariamente o noticiário:  aos poucos sentimo-nos embrutecendo diante de fatos que parecem atingir um pico insuperável de horror, mas que são superados pelos fatos seguintes, e começamos a achar qualquer horror perfeitamente assimilável.

Para Doris Lessing, nas cinco conferências que compõem Prisões que escolhemos para viver (Prisons we choose to live inside, traduzido por Jacqueline Klimeck Gouvêa Lima), realizadas em 1985  (no Canadá), esse estado de coisas é uma reação inconsciente de forças retrógradas contra o impulso para a frente que se delineia nos  últimos séculos na humanidade. A tese do livro é que a raça humana atualmente dispõe de uma quantidade enorme de informações esclarecedoras sobre o nosso comportamento e as razões que nos fazem agir dessa ou daquela maneira em determinadas situações “mas que não as utilizamos na melhoria de nossas instituições e, conseqüentemente, de nossas vidas”.

Isso acontece porque contra a porção sensata, disposta a aprender, da mente humana, há uma camada de primitividade, selvageria e reações irracionais, muito mais profunda e arraigada, que responde imediatamente aos apelos “emotivos”: “Parece-me, cada vez mais, que estamos sendo governados por ondas de emoções de massa e que, enquanto o fenômeno durar, não será possível avaliar respostas sérias, ponderadas e desapaixonadas que poderiam nos salvar. Olhando para a minha vida, que agora conta sessenta e seis anos, o que vejo é uma sucessão de grandes eventos de massa, de emoções inflamadas, de paixões selvagens e sectárias (…) Um movimento de massa sucede a outro: pela guerra e contra ela; pela tecnologia e contra ela… E cada um cria nas pessoas um determinado ânimo: violento, emocional, sectário, suprimindo os fatos que não convêm, mentindo e abandonando a sensatez da fala ponderada, que, para mim, é a única maneira de chegarmos á verdade. E, paralelamente, enquanto todas essas convulsões sociais ocorrem, surge uma outra revolução, silenciosa, baseada na sensatez e na observação acurada de nós mesmos, de nosso comportamento, de nossas capacidades”.

O grande obstáculo à “revolução silenciosa” que é a observação acurada de nós mesmos, são as táticas dos governos para permanecerem no poder, utilizando a propaganda e manipulando a sociedade como um todo. Como se afirma no texto, na nossa “democracia” “as pessoas (as sortudas, as que não são excluídas) são treinadas apenas para atuarem em determinado estágio, quase sempre temporário, da tecnologia, educadas para atuarem a curto prazo”.

Nada do que é dito em Prisões que escolhemos para viver é original. O mérito, nem um pouco desprezível, desse pequeno livro é colocar as coisas de maneira clara, impondo-se como uma boa síntese da nossa época.

Uma das causas do nosso aprisionamento na teia de primitividade e emoções de massa é o medo do pensamento individual, medo de contrariar o grupo, medo de ficar sozinho. Quem já leu as obras de ficção, as maiores da nossa época, de Doris Lessing, sabe que essa é uma antiga preocupação da genial escritora inglesa: a falácia da valorização do indivíduo pela sociedade democrática: “O fato é que vivemos nossas vidas em grupos—grupos familiares, profissionais, sociais, religiosos e políticos. Pouquíssimas pessoas, na realidade, são felizes sozinhas, e tendem a ser vistas pelos vizinhos como esquisitas, egoístas ou coisa pior. A maioria não suporta a solidão por muito tempo. Estão sempre querendo pertencer a grupos (…) O perigo não está em pertencer a um grupo, mas em não compreender as leis que governam o grupo e, conseqüentemente, os indivíduos. A coisa mais difícil do mundo é manter uma opinião pessoal dissidente, sendo membro de um grupo”.

Sofremos uma lavagem cerebral diária para que não pensemos por nós mesmos, para aderirmos a uma visão-padrão, para nos embrutecermos diante dos fatos concretos que aparecem à nossa frente e quebram a conveniente superfície das coisas. E tanto o conhecimento que poderíamos ter sobre nós mesmos quanto a sensatez que poderíamos cobrar de nós mesmos vão por água abaixo para podermos nos manter “ajustados”, “antenados” com um mundo que se dissolve a cada dia.

Ler Doris Lessing, e isso fica bem claro em Prisões que escolhemos para viver, é uma atitude antípoda à leituras dos livros de auto-ajuda, que prometem fazer com que nos ajustemos à sociedade. Lessing propõe justamente o oposto: o ajustamento à sociedade causa a fragmentação da mente e da personalidade (tema do magnífico Roteiro para um passeio ao inferno, possivelmente seu romance mais marcante, ao lado de A cidade de quatro portas e de Shikasta, embora não haja um livro de Doris Lessing que não valha a pena ler).

As fórmulas-miojo da auto-ajuda querem tornar confortável nossa prisão, simplificando a realidade, assim como os dogmas, as posições sectárias, a indústria cultural. Contra a lavagem cerebral da simplificação, o melhor antídoto são as iluminadoras palavras abaixo:

   “Todo avanço do mundo, todo seu desenvolvimento, estão ligados à complexa capacidade de nutrir várias idéias, muitas vezes contraditórias, ao mesmo tempo”.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/22/destaque-do-blog-shikasta-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/18/a-filha-da-primeira-guerra-alfred-e-emily-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/a-maravilhosa-vida-longa-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/leitura-em-espelho-andando-na-sombra-de-doris-lessing-e-a-forca-das-coisas-de-simone-de-beauvoir/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/multipla-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/amor-de-novo-e-a-vocacao-de-doris-lessing-para-borrar-quadros-harmoniosos/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/dez-de-doris/

20/10/2012

“If he be Mr. Hyde, I shall be Mr. Seek”: O MONSTRO INCURÁVEL (ou Lendo “O médico e o monstro”)

O texto abaixo, na verdade uma leitura comentada, foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: O médico e o monstro, Bartleby, Memórias do Subsolo, A morte de Ivan Ilitch, O alienista, O mandarim, O coração das trevas & A volta do parafuso; em torno de cada um, analisei outros: William Wilson, O homem invisível, O duplo, O capote, A tumba dos ancestrais, O horla, O homem da areia, A vida privada, etc

 


“…há homens que parecem racionais e sensatos, sábios e virtuosos, e cujo objetivo é levar uma vida regrada e honesta, para agir pelo exemplo sobre seus semelhantes, para provar-lhes que se pode viver moral e racionalmente neste mundo. Mas o que acontece então?  Sabe—se que muitos desses virtuosos acabam mais tarde contradizendo-se e tornando-se personagens de histórias escandalosas.  Agora eu vos pergunto: o que se pode esperar do homem, dessa criatura dotada de tão estranhas qualidades? Derramai sobre ele todos os bens do mundo, mergulhai-o de cabeça na felicidade, tão profundamente que só apareçam à superfície algumas bolhas de ar; satisfazei suas necessidades econômicas a tal ponto que ele nada mais tenha que fazer senão dormir, comer pão-de-ló e cuidar  da continuidade da história universal, pois bem, mesmo nesse caso o homem, por pura ingratidão, pela necessidade de se sujar, cometerá à guisa de agradecimento, uma torpeza qualquer. Correrá até o risco de perder seu pão-de-ló e procurará deliberadamente as bobagens mais arriscadas, os absurdos mais desvantajosos, apenas para misturar a esse bom senso tão positivo  seu pernicioso elemento fantástico. São precisamente seus sonhos fantásticos, é precisamente sua estupidez crassa que ele pretenderá conservar, apenas para demonstrar a si mesmo que os homens continuam a ser homens e não teclas de piano que a s leis da natureza se dedicam a dedilhar…”

(Dostoievski, Zapíski iz Podpólia- Notas do Subterrâneo, 1864)

Um fato demonstra bem que estamos num mundo já contaminado pelo “olhar de suspeita” pós-Nietzsche, pós-Freud e pós-modernismos: qualquer um, ao pegar O estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde sabe que o Sr. Hyde é, na verdade, o Dr. Jekyll, isto é, que o monstro é o médico que se transformou nele. E, no entanto, isso devia ser um fator-surpresa na época e devia causar assombro.  È que nós temos hoje a impossibilidade da candura e da inocência, pois já somos formados na paródia. Além do mais, não faltam versões da história. Nunca assisti a nenhuma que fosse fiel ao original e todas se preocupam muito com a transformação física.

Falemos primeiramente de Robert Louis Stevenson. Ao mesmo tempo em que ele é admirado por escritores do porte de Jorge Luis Borges, é relegado às coleções infanto-juvenis, às adaptações e condensações, o que não seria válido sequer para os seus livros mais aventurescamente “juvenis” como  A ilha do tesouro  ou Raptado (as aventuras de David Balfour), quanto mais para Jekyll e Hyde. Ainda falaremos, em outra aula, sobre O clube dos suicidas, outra de suas obras-primas. Infelizmente falta espaço para O senhor de Ballantrae (traduzido no Brasil com pompa, como O morgado de Ballantrae), seu romance mais importante.

Eu falava mais atrás da pulsão da morte identificada por Freud. Quem fugiu mais dessa pulsão, procurando anelo através de Eros, do que Stevenson?  Desenganado pelos médicos na infância, praticamente sempre viveu com os dias contados, como li em algum lugar. No entanto, nos seus 44 anos, escreveu muito e viajou muito: nasceu em Edimburgo (13 de novembro de 1850) e acabou morando e morrendo (em três de dezembro de 1894) na Oceania, no arquipélago de Samoa, de uma hemorragia cerebral fulminante (e não de sua tuberculose crônica). Nunca viveu em Londres, cenário de Jekyll e Hyde, que ele escreveu aos 36 anos.

É impressionante a sofisticação e complexidade da narrativa (não obstante, o estilo “simples” e “claro”). Um dos grandes efeitos da sua construção indireta é que não precisamos assistir à transformação de Jekyll e Hyde, como querem tanto as adaptações cinematográficas, para sentir a força da história. Além do mais, a construção da narrativa é parte integrante da antecipação freudiana que reivindico no meu curso.

O pequeno romance (o original [1], na edição Penguin de bolso que eu tenho, tem 88 páginas), ou novela, se divide em dez capítulos. Já na abertura do primeiro capítulo conhecemos o Sr. Utterson, o advogado de Jekyll. Ele é o decoro vitoriano personificado, e também um homem compassivo. Costuma dar passeios a pé aos domingos com um parente, Richard Enfield [2]. Um dia, ao entrarem por uma ruazinha de lojas prósperas, na qual há uma “porta” destoante do clima de prosperidade geral, entrada de uma construção decadente e meio sórdida, Enfield conta um incidente relacionado a ela: numa madrugada, passava por ali e viu o encontrão que levaram um cavalheiro e uma menina que vinha correndo (saíra com o intuito de chamar um médico para alguém doente em sua família). A reação do homem foi violenta, inesperada e inexplicável: começou a pisotear a criança. Enfield e outras pessoas intervieram, e no bololô de gente que se formou, um sentimento era comum: aversão ao tal homem, que se apresentou como Sr. Hyde. Um sentimento tanto mais estranho por se ligar mais ao próprio homem do que ao seu ato. Todos se sentiam desconfortáveis diante dele, também, como se carregasse uma deformidade que ninguém conseguia localizar em sua aparência (no mais, era jovem, baixinho e desagradável, além de agir com desfaçatez).  Quando se exige dele uma reparação (cem libras), ele entra pela referida porta e volta com um cheque assinado por uma figura respeitável da sociedade londrina. Todos pensam se tratar de uma falsificação, mas quando o banco abre e o Sr. Hyde saca o dinheiro, os que o acompanhavam (entre eles, Enfield) se certificam de que o cheque é autêntico.

Por que esse incidente interessa ao Sr. Utterson? Pois, ao ser informado desses atos do até então desconhecido Hyde, tem acrescida sua perturbação e inquietação com o estranho testamento de um dos seus clientes (e amigos íntimos), Dr. Jekyll, cujo beneficiário em caso de morte (e, mais estranhamente, de desaparecimento) seria o tal Hyde. Como Enfield, Utterson acha que ele pode estar chantageando Jekyll por algum erro do passado, talvez até mesmo ser fruto de um desses erros. Ao procurar o amigo e mencionar o incidente da menina, ele não consegue nenhuma informação e não vê nenhuma atitude de preocupação, embora se resolva a conhecer Hyde, “emboscando-o” na famosa porta (que é a entrada para a parte de trás da casa de Jekyll, uma parte utilizada como laboratório). Daí temos a famosa frase, “If he be Mr. Hyde, I shall be Mr. Seek”“Se ele é o Sr. Hyde [Escondido], eu serei o Sr. Seek [buscador, ou mais precisamente, perseguidor][3].  No confronto rápido entre os dois, Utterson se vê reproduzindo o mesmo mecanismo psicológico evocado por Enfield: repulsa, aversão, percepção de alguma deformidade oculta.

Então Hyde comete um escandaloso crime: assassina sem motivo, a bengaladas, Sir Danvers Carew em plena rua e com testemunhas.  Utterson colabora com a polícia na investigação do caso, chegando a conhecer os cômodos que Hyde ocupara no Soho londrino. Não se consegue achá-lo, todavia. Mais uma vez, Utterson procura Jekyll, que lhe diz estar preocupado com sua reputação e quer se desvencilhar do protegido, o qual lhe enviou um bilhete, afirmando que “sumiria no mundo”, deixando-o em paz.  Meio aliviado, Utterson se abre com seu funcionário mais graduado, Guest, especialista em caligrafia, que comenta a semelhança entre as letras de Hyde (o bilhete) e Jekyll (em outro escrito), o que escandaliza o advogado (O quê? Henry Jekyll forjou isto para proteger um assassino!”), “sentindo seu sangue gelar nas veias”.

Com o passar do tempo, tendo Hyde desaparecido sem deixar rastros (a não ser o que se apura sobre os seus vícios e delitos), Utterson volta à tranqüilidade e Jekyll sai da sua estranha reclusão de anos, tornando-se socialmente ativo de novo, recebendo e visitando os amigos e “fazendo o bem”.  Até que, dois meses depois, quando Utterson vai visitá-lo, ele começa a não recebê-lo.  O advogado vai à casa de Lanyon, um amigo comum, e o encontra transtornado; pior ainda, de homem saudável e cheio de vitalidade, transformou-se num  homem que tem os dias contados. Lanyon diz que a culpa é de Jekyll e que nunca mais quer revê-lo ou saber dele, mas se recusa a comentar mais detalhes.

Num domingo (é o sétimo capítulo), repete-se o passeio de Utterson e Enfield, e ambos retomam o assunto da “porta” e agora falam explicitamente de Jekyll, resolvendo passar pelo lado da frente da sua casa. Eles o encontram à janela, e o convidam para um passeio. De repente, como se alguém o estivesse ameaçando lá dentro, ele muda sua atitude, mostra-se tomado de pavor e fecha imediatamente a janela, perturbando consideravelmente os dois cavalheiros.

No capítulo seguinte, Poole, o mordomo de Jekyll, procura Utterson e diz que todos na casa estão apavorados e que pode ter acontecido algo ao seu empregador. Utterson vai com ele à casa do amigo, encontra todos os criados reunidos, e indo ao laboratório, ouve o apelo do amigo (que apresenta uma voz bem mudada) de que o deixe em paz. Poole explica que teve de ir a várias boticas procurar um determinado pó, que, trazido, no entanto não satisfazia nunca Jekyll, que o comprara uma vez numa grande encomenda e não o encontrava mais naquele teor de pureza. Mais ainda, Poole transmite a Utterson a sua suspeita de que o empregador fora assassinado e de que a pessoa que está lá dentro é Hyde, o que é meio incompreensível para o espírito lógico de Utterson: por que o assassino permaneceria dias, à mercê da lei, na cena do crime? Mesmo assim, persuadido pelo mordomo e pelos seus próprios temores, assume a responsabilidade de colocar a porta do gabinete abaixo e descobrir quem se tranca ali. Quando isso é efetivado, descobrem o corpo de Hyde, que acabara de se suicidar. Antes de chamar a polícia, Utterson vasculha o laboratório e as imediações, em busca do cadáver de Jekyll. Não o encontra, apenas um novo testamento e uma papelada dirigida a ele. Como Lanyon, o outro amigo, antes de morrer, também lhe enviou uma papelada para ser lida no caso da morte (ou desaparecimento, o termo estranho se repete) de Jekyll, ele se resolve a ler a documentação toda, antes de tomar providências legais que podem manchar a reputação do amigo.

É no capítulo seguinte (o nono, “O relato do Dr. Lanyon”) que o leitor fica sabendo que Hyde é Jekyll transformado pela ação de um preparado.  Lanyon vê isso com seus próprios olhos e esse é o motivo do abalo moral que o liquidou.

No décimo e último capítulo (“O depoimento completo de Henry Jekyll sobre o caso”), o maior do texto, é o próprio Jekyll quem toma a palavra, amarrando todos os pontos da história, que conhecíamos fragmentária e indiretamente. Vou me estender mais nesse capitulo em citações porque, quando recapitular seu mythos (segundo Northrop Frye, a ordem da narrativa, como se apresenta a sua fabulação), em busca da sua diánoia (seu sentido), me concentrarei mais no Sr. Utterson.

Jekyll revela sua dualidade desde a juventude: visava a altos propósitos, queria ser respeitado e considerado, mas gostava de “irregularidades”, para utilizar um eufemismo para o que se poderia considerar devassidão, luxúria ou vício: “… ia-se cavando em mim, mais do que na maioria dos mortais, esse profundo fosso que separa o mal do bem e divide e compõe a dualidade da nossa alma”.

Jekyll mostra-se como um ego plenamente formado, mas que têm consciência do custo da repressão, de sacrificar o Principio do Prazer ao da Realidade, que ele denomina “pesada lei da vida” (“hard law of life”), o que, como pode se ver, é uma formulação já totalmente freudiana. Aliás, ao refletir sobre sua descoberta de que o homem não é uno, mas duplo, de que duas naturezas formam o conteúdo da consciência, ele reconhece que foi até onde alcançou em sua pesquisa, e que outros podem avançar e revelar a multiformidade da pretensa identidade humana (é o trecho que coloquei em epígrafe na seção dedicada a Freud, mais atrás). Seu único equívoco é afirmar que as diversas facetas são independentes umas das outras; na verdade, a pesquisa freudiana revelará como elas são interdependentes. Mas nem precisaríamos dela: basta lembrar que William Wilson não sobrevive ao seu homônimo nem Hyde consegue sobreviver sem Jekyll.

Como cientista faustiano, diria até nietzschiniano, se isso indicar o desprezo pelo horror ao Mal que a moralidade convencional apregoa, ele conta que  se entretinha com a “fantasia deliciosa, o pensamento da separação daqueles dois elementos [o mal e o bem]. Se cada um, dizia eu comigo, pudesse habitar numa entidade diferente, a vida libertar-se-ia de tudo o que é intolerável. O mau poderia seguir o seu destino, livre das aspirações e remorsos do seu irmão gêmeo, a contraparte boa; e esta caminharia resolutamente, cheia de segurança, no caminho da virtude, fazendo o bem em que tanto se compraz, sem se expor à desonra e à penitência engendrada pelo perverso. Constitui uma maldição do gênero humano que esses dois elementos estejam tão estreitamente ligados; que no âmago torturado da consciência continuem a digladiar-se.” Se substituirmos a retórica maniqueísta de “bem” e “mal”, como conceitos absolutos, temos os conflitos que “id” e “superego” deflagram no ego. De fato, o nosso cientista louco tem perfeita consciência do caráter simbólico da identidade humana (o que o leva bem longe do biologismo triunfante daquela época): “Percebi mais claramente do que nunca a trêmula imaterialidade, a nebulosidade efêmera deste corpo tão aparentemente sólido ao qual somos atrelados”.

Bem, Jekyll consegue seu intento. Consegue que seu lado mau (vamos dizer, seu “id” e toda sua expectativa narcisista de satisfação de apetites, afora a agressividade sem freio advinda da pulsão de morte) apareça como uma pessoa autônoma, ainda que saída de si, isto é, substituindo o seu corpo. Ele se duplica, porém não seu corpo, que apenas adquire uma aparência afim à sua natureza. Hyde, o id, é compreensivelmente mais jovem, mais baixo, ou seja, tem algo de infantil e ainda não totalmente formado, o que pode ser o motivo de todos procurarem nele uma deformidade: ele é a criança que leva a vida de adulto. E Jekyll, “quando olhava no espelho para essa feia imagem, não sentia nenhuma repugnância, antes um alvoroçado prazer. Pois se era eu também” inadvertidamente nos revela que a dualidade continua, há um Jekyll espreitando Hyde em algum lugar, pois se não fosse assim ele não poderia olhar para si como Hyde e ter prazer como Jekyll de aquela feia imagem ser ele também! E aqui podemos ver a armadilha que preparou para si mesmo, ao mesmo tempo em que admiramos a perícia do autor, Stevenson, que percorre novamente todos os incidentes da narrativa, agora colocando-as sob a devida perspectiva.

A princípio tudo corre bem, principalmente considerando a divisão de classes e a hipocrisia da sociedade vitoriana. Ele consegue com facilidade retornar ao seu estado “normal” como Jekyll, “regressei um anjo em lugar de ficar demônio” (e logo adiante, um trecho revelador “A poção não tinha nenhuma ação característica, não era diabólica nem divina, apenas abalou as portas da prisão das minhas inclinações”, ou seja, anulou a repressão; “inclinações”= sujeito desejante): “…eu era não só muito conhecido e altamente considerado, como também caminhava para uma idade respeitável e essa incoerência da minha vida principiava a tornar-se importuna. Foi nessas condições que aquele novo poder me tentou até me tornar seu escravo. Bastaria beber um novo copo da poção para me libertar do corpo do médico célebre e assumir, como um disfarce perfeito, a figura de Edward Hyde. Sorri àquela idéia. Parecia-me então ser uma coisa divertida, e fiz os meus preparativos com toda a precaução. Arranjei e mobiliei essa casa no Soho, depois revistada pela polícia, e contratei como governanta, uma mulher que sabia ser discreta e sem muitos escrúpulos. Por outro lado, participei aos meus antigos criados que um tal Sr. Hyde, cujo aspecto descrevi, ficaria com plenos poderes e liberdade de entrar em casa; e para prevenir qualquer problema, eu próprio me tornei, sob o meu segundo caráter e aspecto, assíduo ali. Depois redigi o testamento a respeito do qual Utterson iria fazer tantas objeções; pois se algo me acontecesse na qualidade de Dr. Jekyll, eu entraria sem prejuízo econômico na pessoa de Edward Hyde. E assim precavendo-me, como supus, em todos os pormenores, comecei a usufruir as estranhas imunidades da minha posição…Existem homens que contratam matadores para lhes praticarem os crimes,enquanto a sua própria pessoa e reputação ficam a salvo. Eu era o primeiro que satisfazia os seus instintos, por si mesmo e à vontade… era o primeiro que, aos olhos do público, exibia uma vida de respeitabilidade e que num átimo, como um estudante irresponsável, se despojava dessa hipocrisia e mergulha, de cabeça, no mar da liberdade. Para mim, envolto em um anonimato impenetrável, a impunidade estava garantida. Pense: eu tinha a identidade que quisesse![4]

A contraditória atitude auto-apaziguadora de Jekyll fica evidente numa passagem mais adiante: “Ao voltar dessas excursões, muitas vezes recaía numa espécie de assombro ao pensar na minha depravação… Por vezes Jekyll ficava horrorizado com os atos praticados por Hyde. Mas a situação estava à margem da lei e fora do alcance da consciência. Afinal, era Hyde e só Hyde o culpado. Jekyll não ficava pior por isso: regressava, integro, às suas boas qualidades…” Íntegro? Será que ele conseguiu anular o superego? Não, se atentarmos que, no parágrafo seguinte, ele diz: “fatos subseqüentes me indicaram que o castigo não demoraria a chegar”. Freud nos ensinou que a idéia de castigo é interiorizada durante a formação do ego, sendo um dos papéis do superego. É por isso que tantas vezes determinados indivíduos elegem a autopunição.

Chegamos então ao fato que deu início à narrativa: a agressão gratuita à menina (observe-se a seguinte frase introdutória à sua narração do incidente: “se não tivesse mais conseqüências, nem valeria a pena mencionar”; é a idéia da “conseqüência”, e não o problema ético e moral, que o preocupa). Acontece algo ainda pior: sem o uso da poção, uma noite Jekyll acorda transformado em Hyde: “comecei a pensar mais seriamente nos prós e contras da minha dupla existência. A parte do meu ser que eu tinha a faculdade de projetar fora de mim estava agora mais exercitada e desenvolvida. Era como se o corpo de Edward Hyde tivesse crescido, como se —quando sob essa forma— o sangue me percorresse com mais calor. Foi quando inferi um perigo: se tal coisa se prolongasse, a balança da minha natureza começaria a pender para um lado, o poder da transformação voluntária tornar-se-ia difícil e o caráter de Edward Hyde integrar-se-ia irrevogavelmente no meu… Todas as circunstâncias, na atualidade, pareciam indicar que eu ia perdendo lentamente a influência da minha primitiva e melhor parte, e incorporando-me pouco a pouco no meu duplo, secundário e pior. Era preciso escolher entre os dois… Entregar a minha sorte na carcaça de Jekyll era estrangular todos esses apetites que eu secretamente acariciara durante tempos e de que começava agora a regalar-me. Confinar-me no esqueleto de Hyde era morrer para milhares de aspirações e interesses espirituais e ficar, para sempre, tombado no opróbrio…”

Ele opta por Jekyll, abstendo-se da poção. Sintomaticamente, não se desfaz, contudo, da morada no Soho nem das roupas de Hyde. E o tempo, acalmando os remorsos, traz a tortura das ansiedades e desejos. E aí Hyde mostra como Eros é permeado pelo seu gêmeo Thânatos, pois ao ceder à fraqueza, e tomar a poção, Jekyll libera seu alter ego no ponto mais agressivo e destrutivo, acarretando o assassinato de sir Danvers: “Com um transporte de alegria infernal, ataquei o corpo indefeso, gozando deliciosamente cada golpe que desferia. E foi só quando a fraqueza do braço deu sinal que eu de repente, no auge da fúria, senti-me tomado por um arrepio de terror. A névoa dissipara-se; vi a minha cabeça posta a prêmio —e fugi da cena daqueles excessos, ao mesmo tempo trêmulo e triunfante, satisfeita a luxúria da maldade [Thânatos], e o meu amor à vida[Eros] exacerbou-se até o limite.”  Não é ocioso lembrar que Hyde ataca justamente alguém muito parecido com o seu outro, em idade, posição social e respeitabilidade. A fúria da destruição sempre é voltada para nós mesmos. Como ele não pode destruir Jekyll, por motivos óbvios, vale-se de um substituto.

Como Hyde tornara-se de fato um foragido, Jekyll o reprime inteiramente e temos aqueles meses, após a entrega do bilhete a Utterson, em que o médico retorna à sua antiga (e insatisfatória para ele, embora aos dois amigos, Utterson & Lanyon, pareça uma ressurreição espiritual) existência benemérita e mundana. Um dia, passeando no Regent´s Park e sentando-se num banco, sentiu que “a animalidade dentro de mim remexia-se e instigava a memória; o lado espiritual condescendia, prometendo subseqüente penitência, mas não disposto ainda a começá-la”. E se transforma em Hyde. Procura se esconder, e escreve a Lanyon, pedindo que ele arrombe seu laboratório e apanhe os instrumentos para sua transformação. É quando ele procura o amigo (como Hyde) e se metamorfoseia à sua frente que ele causa o já contado abalo moral que deu cabo em Lanyon e fez com que ele dissesse nunca mais querer revê-lo.  São cruciais ao texto o relato das horas que passou à espera de que Lanyon atendesse seu pedido. Vemos Hyde transformado em id puro: “Ele… não posso dizer Eu… esse filho do Inferno não tinha mais nada de humano: nele mais nada existia além do medo e do ódio”. No meio da noite londrina, protegido pelo anonimato da metrópole, ele vaga, as “duas paixões abjetas” num tumulto dentro de si: “Em certa ocasião houve uma prostituta que se lhe dirigiu, oferecendo-se. Ele golpeou-a na cara, e ela fugiu”.

Depois do incidente com Lanyon, apesar da angústia, Jekyll ainda procura se auto-iludir: “Acordei no dia seguinte, cansado, fraco, mas com algum alívio. Ainda me assustava a idéia de que um animal dormia dentro de mim, e eu naturalmente não esquecera os medonhos perigos da véspera; porém, uma vez mais, encontrei-me na antiga casa, sozinho com as minhas drogas; o fulgor da gratidão por me haver salvado e o resplendor da esperança rivalizavam agora na minha alma.”. Só que a partir daí as transformações serão todas involuntárias e cada vez mais constantes, e ele terá de se trancar no laboratório, despachando Poole às farmácias tentando obter a substância original que fizesse a poção ter a mesma força e resultados das primeiras vezes. Em vão.  E agora as duas partes frontalmente se odeiam. O ódio de Jekyll é o pavor do irracional: “… do fundo do abismo cavado pareciam erguer-se vozes e imprecações, o barro amorfo como que gesticulava e amaldiçoava, o que estava morto, e não tinha forma, tomava o lugar das funções da vida [há um nome para isso na teoria freudiana, é o retorno do reprimido], e isso, essa miséria rebelde, prendia-se a ele, mais abraçado que uma mulher, mais cerrado do que as pálpebras; jazia enclausurado na sua carne, onde o sentia implorando e lutando por nascer; e em cada hora de fraqueza, em cada momento de sonolência, prevalecia contra si e destituía-o dos seus direitos”;  em contrapartida, “O ódio de Hyde por Jekyll era diferente. O medo da forca impelia-o constantemente a cometer suicídios temporários e a voltar à posição subalterna de uma parte do seu todo; mas detestava essa necessidade, aborrecia-o o desânimo em que Jekyll se abatia,ressentido do ódio do qual era objeto. Daí os ardis simiescos com os quais pretendia me enredar, obrigando-me a rabiscar blasfêmias à margem dos meus livros, a queimar cartas e a destruir o retrato de meu pai [mas se Hyde é feito de parte da substância de Jekyll, essas ações específicas ganham um significado maior, não?]. E se não fosse o seu medo da morte, há muito ter-se-ia destruído para me envolver na sua própria ruína. O amor pela vida, contudo, era extraordinário”. Algo que não pode deixar de ser comentado, é a habilidade psicológica de Stevenson, ao mostrar a divisão do médico na própria linguagem, ora utilizando a primeira pessoa, ora a terceira, no movimento mesmo de um parágrafo como o acima transcrito.

O relato termina assim: “É inútil —meu tempo agora é tão curto… — prolongar esta descrição… O meu castigo poderia durar muitos anos, mas essa última calamidade separou-me finalmente da minha própria expressão e natureza. A minha provisão de sais, que nunca fora renovada desde a data da primeira experiência, começou a diminuir. Mandei comprar outra quantidade e procedi à mistura: produziu-se a efervescência e a primeira mudança de cor, porém não a segunda. Tomei-a, e não senti resultado nenhum. Poole deve ter-lhe contado como o mandei vasculhar por toda Londres. Foi tudo inútil. E estou agora persuadido de que o primeiro suprimento é que era impuro e que foi essa desconhecida impureza  a razão da eficácia da poção[5].

         Já se passou quase uma semana, e estou agora encerrando este relato sob a influência da última dose dos primeiros sais. É pois a última vez, a menos que aconteça um milagre, que Henry Jekyll pensa com os seus pensamentos e contempla o  seu autêntico rosto, tão tristemente desfigurado!, no espelho do gabinete. Não devo alongar-me na conclusão deste relato. Se a minha narrativa escapou até agora à destruição, deve-se isso a uma combinação de prudência e de sorte. Quando, no ato de escrever, me tomam as angústias da transformação, Hyde rasga em pedaços o papel. Mas, se decorrer algum tempo, depois de tê-la posto de lado, o espantoso egoísmo do monstro e sua preocupação com o presente, provavelmente a deixarão a salvo. A sentença, que pesa sobre nós dois, começará a esmagá-lo já. Daqui a meia hora, quando de novo e para sempre me tornar aquela personalidade odiosa, sentar-me-ei a tremer e chorar numa poltrona, ou continuarei, com os ouvidos atentos, a passear por este aposento, meu último refúgio terreno, à escuta de algum ruído ameaçador. Hyde morrerá no patíbulo? Ou terá a coragem de libertar a si mesmo, no último instante? Só Deus o sabe. Não me preocupo. Esta é que é a minha última hora, e o que vai acontecer depois concerne a outro, não a mim. Aqui, portanto, ao descansar a pena e selar minha confissão, ponho ponto final na infeliz vida deste médico infortunado que se chamava Henry Jekyll.”

Hyde não suporta viver além de Jekyll, nem tem instrumentos psíquicos para isso, é no fundo uma criança e está despreparado para enfrentar quaisquer responsabilidades, advindas do Princípio da Realidade, que só existia para ele… na forma de Jekyll.

Portanto, com assombrosa intuição e eficiência ficcional, Stevenson se antecipou a Freud.  Rosemary Jackson, em A literatura da  subversão, examina o texto como um parábola do dualismo libidinal: “O outro lado do humano retorna para ativar tendências libidinais latentes escondidas pelo ego social, exemplificando a teoria de Freud da narrativa fantástica como relato do retorno do reprimido”.

Quem, no entanto, dá atenção ao pobre Sr. Utterson, para mim a personagem-chave mais interessante da história? Porque ela é construída para ele, não só porque representa o leitor (já que este o acompanha no deciframento dos fatos), mas porque ele é o verdadeiro superego da trama. Ele é que, apesar de compassivo e tolerante com os pecados do próximo, vai ser o insistente arauto do Princípio da Realidade a cobrar de Jekyll uma explicação, que irá atrás de Hyde e colaborará com a polícia, como um Sherlock Holmes improvisado. É ele que participa de todos os acontecimentos, a não ser nos relatos finais esclarecedores dos seus dois melhores amigos, Lanyon (um superego secundário, falarei daqui a pouco disso) e Jekyll. Ele é que ordenará arrombar a porta do gabinete para esclarecer o que de fato está acontecendo, não tolerando mistérios nem a ambigüidade, embora tomando atitudes com o fito de manter o decoro e a reputação dos amigos que também são clientes (esse século XIX utilitário). Mas que é obrigado, a princípio, a ver “o fio vermelho do crime se misturando à meada cinzenta da vida” (frase de Conan Doyle em Um estudo em vermelho), e no final tem a revelação de que esse fio vermelho sempre fez parte do novelo, e pertence à mesma tessitura. Ele é o investigador do mal que descobre na vítima que fora socorrer o mal que perseguia. Coisa muito comum para nós, leitores do século XXI, mas desconcertante em 1886.

A caracterização do Sr. Utterson, que, não por acaso, abre a narrativa, já é fascinante: “O advogado Utterson era um homem de fisionomia severa, que jamais se iluminava com um sorriso [ou seja, já aqui ele é convocado como representante da sociedade vitoriana, um espelho dela; Jekyll será o espelho deformante]; frio, concentrado, de poucas palavras, reservado; magro, alto, parcimonioso e melancólico, porém de certa maneira simpático, apesar de tudo. Nas reuniões de amigos, e quando o vinho lhe agradava, brilhava-lhe no olhar qualquer coisa de extraordinariamente humano; qualquer coisa que, na verdade, não se exprimia por suas palavras e que falava não só na silenciosa manifestação do semblante, satisfeito depois do jantar, mas, na maioria das vezes, e com eloqüência, nos atos da sua vida. Austero consigo mesmo, bebia gim quando estava só, a fim de se penitenciar do seu gosto pelo vinho; e, embora adorasse o teatro, havia já vinte anos que não freqüentava nenhum [atitude característica do superego, auto-contrariar-se [6]].Mas com os outros mostrava-se condescendente. Por vezes, sentia admiração, quase inveja, por certos espíritos febrilmente empenhados nos seus próprios delitos; e, em qualquer situação, inclinava-se mais a ajudar que a censurar: Solidarizo-me com a heresia de Caim, costumava dizer, Deixo meu semelhante danar-se com suas próprias pernas. Assim, sua sina era ser amiúde a última companhia decente de alguns homens decaídos, ou a última influência favorável de criatura envilecidas. Sempre que vinham bater à sua porta, nunca mostrava a mais leve sombra de alteração em suas atitudes.

         Agir dessa maneira era fácil ao Sr. Utterson, em razão do seu caráter extremamente sereno; e até as suas melhores amizades dir-se-iam também baseadas numa ampla tolerância. É próprio do homem modesto aceitar a roda dos seus amigos do jeito que o destino lhe preparou. E assim acontecia com o advogado, pois os amigos ou eram consangüíneos, ou conhecidos bastante antigos. Os afetos, como a hera, cresciam com o tempo, e não em razão das propriedades particulares do objeto.”

Pensemos um pouco: é um quadro simpático? Favorável? Creio que a ambigüidade já se instalou: o Sr. Utterson é severo, reprimido, tolerante, mas de uma tolerância desdenhosa; compassivo, mas de um jeito que parece dizer que o mundo é assim, e pronto, portanto, representante de certo conformismo, do mais resignado conservadorismo. Os leitores o acham simpático porque é muito bem delineado, até com um toque de humor, e porque seria intolerável a uma narrativa que fosse “levada” quase até o seu fim por um personagem desagradável em primeiro plano. Mas de nenhuma forma ele deixa de ser o olhar vigilante da sociedade em prol da meada cinzenta. Além disso, ele tem outro papel importante: como advogado, ele é o detentor dos documentos, das provas, em última instância, da verdade última da narrativa. É a sua curiosidade (e seu desconforto) sobre o testamento[7] de Jekyll que faz com que o leitor penetre na estranha (e perniciosa) condição de protegido de Hyde. Quando apura dados sobre a personalidade do beneficiado, a partir do caso da menina agredida, vemos como Stevenson tinha uma firme intuição sobre os processos do inconsciente. Se o superego é o nosso lado hiper-consciente e censório, então Utterson tem razão de se sentir inquietado com as imagens inexplicáveis e ameaçadoras que evoca na seguinte passagem: “Bateram seis horas… e ele ainda continuava a debater-se com o problema. Até então encarara-o apenas pelo lado intelectual; mas agora a imaginação incitava-o, ou melhor, dominava-o; e enquanto estivera na cama, agitando-se no escuro da noite e do quarto sombreado pelas pesadas cortinas, voltou-lhe ao espírito como imagens projetadas em tela luminosa. Via-se à noite na cidade cheia de lampiões; um homem seguia velozmente; de outro lado vinha uma criança, da casa de um médico; os dois chocavam-se e o demônio humano pisoteava a menina, sem atender aos seus gritos. Ou então era um quarto numa residência luxuosa, onde o amigo Jekyll dormia, sorrindo no meio de um sonho; a porta abria-se, as cortinas da cama eram violentamente arrancadas, o dorminhoco acordava, e pronto!, ao seu lado estava um vulto possuído de poderes demoníacos; e, àquelas horas mortas, devia ele levantar-se e cumprir determinadas ordens. O espectro nas duas fantasias assombrou o advogado a noite inteira; e, se em alguns momentos, chegou a passar pelo sono, foi só para vê-lo deslizar furtivamente através das moradias silenciosas, ou mover-se cada vez mais rápido, vertiginosamente, pelos extensos labirintos de uma cidade iluminada, e em todas as esquinas esmagar uma criança, abandonando-a sem socorro. O espectro, porém, não tinha rosto pelo qual pudesse ser reconhecido; não, não o tinha em nenhum dos sonhos, ou então escondia-o, ou diluía-se quando procurava fixá-lo. E foi assim que nasceu e se desenvolveu depressa, na mente do advogado, uma curiosidade singular e forte, quase desordenada: conhecer o rosto do verdadeiro Hyde. Se conseguisse vê-lo pelo menos uma vez, parecia-lhe que o mistério seria esclarecido e desvendado claramente, como acontece com as coisas misteriosas quando bem examinadas.” Nem é preciso enfatizar a atmosfera de terror infantil redespertado naquelas imagens de labirintos de ruas, da noite da cidade cheia de ameaças, e a imagem do espectro sem rosto praticando maldades, assombrando a razão e o sono do advogado “são”, “sensato”, por quem a miséria humana era assistida de camarote e binóculo, a raça de Caim caminhando para a danação com suas próprias pernas, e ele sendo solícito e polido.  Como se vê, o foco narrativo em 3ª. pessoa acompanhando o Sr. Utterson enriquece muito o texto e prepara o terreno para a “confissão” (feita para o advogado, o detentor da reputação) de Jekyll.

Ainda a respeito desses primeiros capítulos, não podemos deixar de fazer uma analogia entre a personalidade do Sr.  Utterson (que vai nos dar a abertura para o “estranho caso” do médico e o monstro) e a rua na qual fica localizada a porta para os fundos da residência de Jekyll, isto é, por onde a respeitabilidade vitoriana é virada do avesso. Vale a pena transcrever a descrição, que é digna do início de O coração das trevas, de Joseph Conrad, porque mostra a civilização de fachada, ostensiva, ancorada na idéia de prosperidade e não de uma verdade íntima: “…em um desses passeios, o acaso os conduziu a uma ruazinha de um bairro comercial de Londres. Era uma travessa estreita e sossegada, não obstante nela se fizessem negócios importantes nos outros dias da semana. Os moradores, ao que parecia, eram gente próspera e competiam entre si, cada qual querendo fazer ainda melhor, gastando o que sobrava em melhoramentos; e as fachadas das lojas exibiam-se ao longo da viela, com ar convidativo, como filas de sorridentes balconistas. Mesmo aos domingos, quando se encobrem os mais sedutores encantos e o trânsito quase inexiste, a rua brilhava, por contraste, na escuridão que a cercava, tal qual uma fogueira na espessura dum matagal; e com os seus taipais pintados recentemente, os metais polidos, limpeza geral e ar acolhedor, logo prendia  deliciava o olhar dos que passavam.

         A dois passos de uma esquina, à esquerda de quem vai na direção leste, havia um desvio provocado pela abertura de um pátio; e exatamente nesse ponto avançavam sobre a rua os beirais do telhado de uma sombria construção de dois andares; não se lhe via janela, apenas uma porta no piso inferior, e por cima a testa sem olhos, que era aquela parede desbotada, mostrando os sinais de prolongada e sórdida negligência. A porta, sem campainha nem batente, estava empenada e suja… etc etc. É a porta para o laboratório, esse espaço mítico da imaginação cientificista do século XIX, e ao mesmo tempo  a porta Hyde, no lado oposto à entrada chique da residência Jekyll. E até a porta tem algo de incômodo, desconfortável, que causa um mal estar no meio das luzes da prosperidade que deixa a ruela com um ar de fogueira em pleno matagal (entretanto há um quê de destrutivo nessa imagem, como se para evidenciar a prosperidade algo tivesse que ser carbonizado).

Capítulos adiante, logo ao ser informado de que Hyde assassinou Sir Danvers, o Sr. Utterson, seu advogado e amigo, insiste em acompanhar a polícia ao endereço de Hyde (aliás, é ele quem reconhece a arma do crime, uma bengala que dera de presente a Jekyll). E no caminho até o Soho ele vê com outros olhos a cidade onde mora e nos permite olhar a Londres que desce do nível Jekyll para o nível Hyde: “Enquanto a carruagem seguia de rua em rua Utterson podia observar a quantidade maravilhosa de graduações e matizes de luz matutina: enquanto aqui estava escuro como se estivesse a anoitecer, ali surgia um brilho de castanho rico, mas lúgubre, como o clarão de um incêndio estranho [mais uma vez a imagem incendiária], e, mais além, a névoa esgarçava-se, e uma triste réstia de luz brilhava numa espiral ondulante. O bairro sombrio do Soho distinguia-se sob esses reflexos incertos, com as suas ruas lamacentas, os seus transeuntes em desalinho, os candeeiros que não se apagaram ou haviam sido acesos outra vez para combater a fúnebre invasão das sombras, tudo isso aos olhos do advogado parecia como um bairro de uma cidade de pesadelo. Os seus pensamentos eram tenebrosos; e quando relanceava o olhar pelo companheiro de viagem [o inspetor de polícia] sentia um pouco daquele terror da justiça e dos seus magistrados que às vezes se apodera até das pessoas mais honestas.

         Quando a carruagem chegou ao local indicado, o nevoeiro dissipara-se um pouco, mostrando, numa ruela escura, um botequim; um modesto restaurante francês; um bazar de miudezas; muitas crianças esfarrapadas acotovelando-se nos portais; e mulheres de diversas nacionalidades que saíam de chave na mão, para beber o primeiro copo. Depois o nevoeiro desceu outra vez, cor de terra, frustrando-lhe a visão daquelas misérias à volta. Era aqui que residia o protegido de Henry Jekyll, o herdeiro de um quarto de milhão de libras.” [8] (num capítulo posterior, aquele em que Poole pede socorro a Utterson, e os dois saem pela noite londrina rumo à residência de Jekyll, lemos: “Era uma noite de março, tempestuosa e fria; a lua estava pálida e vencida, como se o vento a tivesse magoado… O vento dificultava a conversa…Parecia ter varrido as ruas, afugentando os transeuntes, a tal ponto que Utterson pensou que nunca tinha visto essa parte de Londres tão deserta. O advogado teria desejado o contrário: nunca na vida sentiu uma vontade tão grande de tocar, de estar perto dos seus semelhantes. Por mais esforços que fizesse para o impedir, no seu espírito pesava o pressentimento da catástrofe”)

Caberia perguntar, se o Sr. Utterson é detentor dos segredos das pessoas amigas e que também são clientes, e se Jekyll o sabe tão zeloso da reputação, por que não o escolheu para ajudá-lo quando se viu na difícil situação no Regent´s Park, preferindo o Dr. Lanyon, com o qual ficou às turras durante anos por não concordarem em pontos científicos, o Dr. Lanyon claramente desdenhando as posições de Jekyll nesse campo. Aliás, Lanyon é bem menos compassivo e mais ácido na sua avaliação do comportamento de Jekyll (…há uns dez anos Henry Jekyll se tornou misterioso para mim. Ele começou a trilhar por caminhos errados…”[9] , óbvio que ele se refere a questões de conhecimento, e não de moralidade) e não se interessa muito pela aparição de Hyde na sua vida. Portanto, não caberia ver no ato de pedir a sua ajuda um pouco do desespero acuado de Hyde, porém muito mais um ato desafiador, provocativo, visando esmagar sua prepotência e arrogância, a sua segurança científica? Hyde (como uma espécie de porta-voz) chega mesmo a dizer, antes da sua transformação (descrita em termos discretíssimos, sem a gula naturalista de um Zola), quando Lanyon admite que está curioso em ver o efeito da poção para poder enfim despachá-lo, agastado que está pela “prestação de inexplicáveis favores”: “Está bem, Lanyon. Mas não se esqueça de que o que vai acontecer é segredo profissional. E agora você que por tanto tempo ficou confinado na estreiteza das coisas materiais, que negou a virtude da medicina transcendental, que escarneceu de quem lhe é superior… abra os olhos e veja!” Para terminar, chamo a atenção de que essa pequena fala de Hyde (uma das poucas que lhe ouvimos no livro) dá a medida da contraditória isenção de Jekyll com relação a ele: pois quem fala aí? O baixinho meio disforme, juvenil e primitivo? Falando em “medicina transcendental”, acusando Lanyon de confinar-se na estreiteza das coisas materiais?  Acho que o médico aí está muito presente no seu monstro…


[1] Quanto às traduções correntes do texto,  tenho muitas, mas estou longe de esgotar todo o campo disponível. As que possuo me deixam com a seguinte conclusão: nenhuma é especialmente ruim, mas todas deixam a desejar em algo. As melhores são as de Heloisa Jahn (Ática), e de Pietro Nassetti(Martin Claret, por incrível que pareça),, minhas favoritas, além da de Rodrigo Lacerda (Nova Fronteira) a do trio José Paulo Golob, Maria Ângela Aguiar & Roberta Sartori (L&PM).a de Flávia Villas Boas (Paz & Terra), a de Adriana Lisboa (Ediouro). Há uma pretensa “adaptação” de Edla Van Steen que, na verdade, é uma tradução muito boa que efetuou pequeníssimos cortes (sempre  imperdoáveis) no texto (Scipione). Discutível, ironicamente, é a premiada: de Lígia Cademartori (FTD), que apresenta erros grosseiros e sérios problemas de revisão

Nota de 2012- O texto em português que utilizo é o de Cabral do Nascimento, fato que só descobri agora, pois  a Martin Claret atribuía a tradução que editava a Pietro Nassetti (como fez, aliás, em diversas ocasiões). É uma tradução excelente.

 

Aqui não estão listadas edições posteriores a 2008. Mas eis algumas capas:

[2] Há uma marcante ausência de interesse feminino (erótico ou amoroso) na trama. Os personagens são todos solteirões: Utterson, Jekyll, Hyde, Lanyon, Enfield. Alguns, entre eles Nabokov, até viram nisso um subtexto homoerótico, mas creio que é mais a representação de um tipo social (afinal, Holmes & Watson, apesar das diversas mulheres que aparecem em suas aventuras, também pertencem à ordem dos solteirões). Só nas jamais explicitadas atrocidades morais de Hyde é que poderíamos tentar fazer com mais afinco tal leitura, mesmo assim foi sábia a decisão de deixá-las por conta da nossa imaginação.

[3] Geralmente, as traduções procuram indicar o trocadilho explicitamente, sem procurar reinventá-lo. Heloisa Jahn optou por deixá-lo implícito na sua tradução: “Se ele quer brincar de esconde-esconde, não perde por esperar”. Fosse eu o tradutor, levaria a coisa ao extremo: “Se ele quer brincar de esconde-esconde, brincarei de pega-pega”.

[4] Note-se que ele não vê dilema em “sobreviver” como Hyde a Jekyll. E podemos traçar com relação à evolução do caso um paralelo com o vício em geral, até na necessidade crescente de uma maior quantidade da droga transformadora, pois as doses já não serão suficientes, não serão tão eficazes e o efeito será mais depressivo que eufórico.

[5] Portanto, a própria poção assimila a dubiedade e mistura das coisas, que deu origem à trama.

[6] No capítulo seguinte, comenta-se que ele sempre termina os domingos, após o jantar, “com algum árido volume de teologia, até que o relógio da igreja próxima batesse meia-noite, quando ia, consolada e prudentemente, para a cama”.

[7] Cujo teor ele considera até meio ultrajante para o seu senso jurídico, por ser inexplicável e gratuito: “Este documento, durante muito tempo, fora o pesadelo do advogado; ofendia-o não só como jurista, mas como pessoa sã e sensata, para quem tudo que fugia à tradição e normalidade era coisa indecente…Já era bastante mau que se tratasse de um nome a respeito do qual não podia saber mais nada; mas ficava ainda pior quando esse nome parecia revestido de execráveis atributos.” Portanto, algo que ele não pode explicar ou ajustar a suas normas.

[8] No final, o herdeiro desse quarto de milhão de libras acaba sendo o próprio Utterson. Vitória do superego vitoriano sobre seus elementos desagregadores e desordeiros.

[9] Mais adiante, ao ser solicitada sua ajuda, manuseando anotações e frascos de Jekyll, ele afirmará: “Tudo isto, que aguçava minha curiosidade, pouco me dizia de concreto: um frasco com alguma tintura qualquer, papelotes com sais, e anotações de uma série de experiências que não haviam chegado, como muitas das experiências de Jekyll, a qualquer resultado prático.” Daí que se pode inferir que, na visão de Lanyon, Jekyll é um fracassado, enquanto cientista, bem entendido.

OUTROS POSTS RELACIONADOS:

https://armonte.wordpress.com/2011/08/07/o-mestre-de-edimburgo/

https://armonte.wordpress.com/2011/08/07/o-clube-dos-suicidas-um-texto-central-para-o-imaginario-da-leitura/

Próxima Página »

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.