MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/11/2016

Destaque do Blog: ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS, DE IACYR ANDERSON FREITAS

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de novembro de 2016)

Corredores de hospital, sangue fezes, câncer, tumores, gases, alzheimer, este é o universo que percorrem os poemas de ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS (publicado numa edição caprichada pela editora Escrituras). Um poema é emblemático: “o espírito sangra/desde o princípio//já o corpo/hoje sangra/escondido//o que o outro/lhe sugere/em sigilo”.

Faz tempo que eu tenho vontade de comentar a poesia de Iacyr Anderson Freitas, uma das melhores da literatura contemporânea, embora com uma certa ressalva: que sua perícia técnica engessava seus poemas num formalismo excessivo. Em ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS, sem perder o rigor poético, ele aparece mais solto e cru, misturando o visceral e o jocoso (principalmente nos títulos, como em “Camilinho, acamado”: “dois dias de dores/no baixo-ventre/ou quase//e/o médico/o de sempre/:gases//nada de grande/importância//até para sofrer/lhe falta/substância”): “cada segundo/sabe o sal/ de sua queda//tudo existe para cair//até o não//de nenhum/chão”.

Quem já foi internado e se viu cercado pela burocrática da vida medicalizada, uma das características da nossa época, vai ao mesmo tempo rir e chorar com a verdade profunda que Iacyr imprimi em “raiz tão profunda”: “era só tirar/uma verruga/coisa boba de tudo/e foi aquela tortura//sete dias internado/e a morte/na agenda/para o próximo/sábado//é que a verruga era funda/assim tão funda/assim tão funda/e tão alva//que feria/a alma”.

Um dos belos lançamentos de 2016, ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS pode ser resumido pelos maravilhosos versos finais de “Menos um dia”: “para ascender mais um dia/ao calvário//de nenhum/calendário”.

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22/11/2016

“PORQUE MEIO QUE GOSTO DE FAZER E REFAZER TRAÇOS”: A MAIOR AUTORA BRASILEIRA DA ATUALIDADE

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 22 de novembro de 2016)

(Ele espantado com ele mesmo, demorando para terminar aquele café da manhã, mais uma xícara, e mais uma.
Porque ele nota que não foi o xixi, o problema. Foi a ideia de que a garota estava achando o que ela falava importante).

Elvira Vigna deixa seus leitores, inclusive os críticos, como baratas tontas. Eu, por exemplo, já considerava “Por Escrito” o auge da sua produção, e eis que ela publica COMO SE ESTIVÉSSEMOS EM PLAIMPSESTO DE PUTAS¸ um livro ainda mais extraordinário e cruel, com suas recorrentes personagens de origem humilde que reinventam, mesmo carregando os traços do passado.

O incrível do romance é que ela parte de um fio mínimo de enredo: a narradora e João trocam intimidades no escritório prestes a ser fechado. João conta que conheceu uma garota de programa, Lola e casou-se com ela. Mas ele não conseguiu dominar a compulsão de procurar outras garotas de programa.

A partir daí nós vamos desvendando o passado e o futuro por várias décadas, tudo misturado labiríntico. A chave desse jogo exasperante, é que não apenas o vivido surge, como também o possível não-realizado; ou seja, as ausências são importantes quanto a existência “real”. Temos uma narradora que faz suposições, e lança hipóteses admitido que não tem controle das vidas de João e Lola. Por isso, as cenas são retomadas, e algum detalhe não percebido, muda toda a sua interpretação dos fatos, o que permiti que, nas suas últimas páginas, Elvira Vigna atinja o cume da prosa de ficção da literatura deste século.

Esperando uma nova obra perturbadora, eu me pergunto: Como não se descobriu que Elvira Vigna é a nossa maior escritora da atualidade?

“Lola fica lá, pensando, sozinha. E ela está um pouco triste porque risadas, principalmente as internas, quando acabam, é assim mesmo. Fica, na ausência delas, a tristeza que estava lá desde sempre”.

TRECHO SELECIONADO:
Barulhinhos, ruídos.
Um recado que chega, uma bobagem dessas. Não era para ser nada. As garotas, um ruído de fundo na vida de João. Ia apagar o recadinho naquele dia mesmo, ou no outro. As perguntas também, apagadas, ou quase. Passadas por cima, outras coisas por cima”.

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15/11/2016

Desencontro no espelho entre autor e personagem: “O Marechal de Costas”, José Luiz Passos

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de novembro de 2016)

“O vigor da alma macerada pela dúvida, ou insuflada pelo arroubo da imagem pública, quase sempre arremata o fado desses protagonistas que pelejam consigo, fazendo do amor-próprio a companhia constante de um segundo eu, um que não raro é infiel e inimigo. O resultado é que todos eles temem o espelho; e os que encontram conforto nele, nos deixam intuir a ironia que se lhes impõe sob a máscara nem sempre confortadora de um autoengano engenhosamente sutil. ” (José Luiz Passos, “Machado de Assis: o romance com pessoas”, 2007)

“Emarame. Ato de ir e vir ao mesmo tempo, também o duplo, o indissolúvel movimento, ante o espelho, de um corpo refletido em seu cristal, desde que ambos, corpo e reflexo, sejam contemplados por alguém. Silvino era, na realidade, um enérgico utopista”. (José Luiz Passos: O MARECHAL DE COSTAS)

Na ordem do dia, temos mais um vice que se torna o presidente do país, em pleno mandato do titular; temos o resgate do indicioso “ordem e progresso” como lema do governo; temos um impasse com relação aos caminhos da república. José Luiz Passos, em O MARECHAL DE COSTAS (Editora Alfaguara), resgata a figura do primeiro vice alçado a presidente, com a renúncia prematura do Marechal Deodoro, o qual proclamou a república em 15 de novembro de 1889.

Era uma oportunidade de ouro para o autor do admirável “O Sonambulo Amador” de fazer um paralelo entre os primórdios republicanos e o nosso tumultuado cenário político. Infelizmente, ele optou por deixar óbvia as similaridades entre os períodos, colocando segmentos da época contemporânea (abordando as manifestações contra o governo de Dilma Roussef, até o impeachment), alternando-se com a exploração biográfica da vida de Floriano. Esse recurso narrativo simplesmente não funciona e desfibra o romance, divido em cinco partes.

Nas duas partes iniciais, o leitor desfruta de um dos encantos da refinada prosa de Passos, a formação da imaginação moral de um personagem. Floriano é fisgado pelo mito napoleônico (como tantos jovens de sua época), tem uma rígida formação militar positivista, luta na guerra contra o Paraguai; ao mesmo tempo, é obcecado por vaginas, mantendo uma caderneta com desenhos de várias formas do órgão sexual feminino.

Nas partes seguintes, o encanto se desfaz, os segmentos digressivos se multiplicam; e, quanto à vida de Floriano, já presidente, sucumbi a resumos de fatos históricos, sem nenhum traço autoral mais relevante; pelo contrário, parece mais um hábil apanhado acadêmico, que não nos ajuda a compreender melhor a figura do Marechal de Ferro. Embora trace o apurado perfil de Dom Pedro II, é de pasmar que Passos, profundo conhecedor da obra de Joaquim Nabuco, faça dele uma figura tão inexpressiva, comentando os acontecimentos do governo florianista (a revolta da armada, por exemplo) de forma tão superficial, perdendo a chance de confrontar personagens históricos fascinantes.

Mas, realmente decepcionante é a parte atual, onde uma suposta bisneta de Floriano trabalha como cozinheira de uma família abastada no Rio de Janeiro (vale lembrar, que Floriano era alagoano) todos os personagens ligados a ela são caricatos e rasos.

No final, temos páginas cintilantes num todo opaco. Mais do que de costas o Marechal é visto de longe, muito longe.

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01/11/2016

Destaque do Blog: A VISTA PARTICULAR de Ricardo Lísias

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em primeiro de novembro de 2016).

José de Arariboia é um artista plástico que está conseguindo certo renome, um pouco pela já veterana galerista Donatella (cujo pai fez fortuna com o mercado de obras de aquisição duvidosa, após o final da Segunda Guerra, auxiliado por uma rede de fascistas e nazistas, radicados no Brasil).

Só que Arariboia é um personagem de Ricardo Lísias, cada vez mais se torna “distraído” com relação à realidade sua volta. Essa distração o leva a subir o morro da favela Pavão-Pavãozinho. Não se sabe o que acontece com ele ali. Reaparece numa espécie de procissão mística até o mar de Copacabana. Os vídeos do acontecimento “bombom” no YouTube – curiosamente, foram gravados e editados pelo traficante do morro, Biribó.  Depois de um tempo de recolhimento, Arariboia procura Biribó para propor um projeto: partes da favela transformar-se-ão em “instalações”.

A partir daí A VISTA PARTICULAR (Alfaguara) vai dando pancadas e mais pancadas na complacência do leitor. Durante as Olimpíadas, a “instalação” de Arariboia é transferida para perto do evento esportivo, com partes denominadas “boca de fumo” e “mãe com filho bandido e outro na escola”, por exemplo. O menino é assassinado com uma bala perdida pela polícia e o cadáver incorporado como elemento estético. O projeto da Arariboia vai adquirindo tal dimensão na mídia e nas redes sociais, que a comunidade inteira do Pavão-Pavãozinho acaba sendo levado em exposição na Europa, antes passando por Minas Gerais: “O transporte de Comunidade brava: turismo Brasil formou uma fila imensa de ônibus na rodovia que liga os estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais. A televisão acompanhou tudo de cima, imagem que aliás foi aproveitada por mais um vídeo do Biribó. É com alegria que no primeiro ônibus do cortejo ele conta para o Pê que uma produtora europeia de cinema e vídeo o procurou interessada em levas suas filmagens para o cinema. Isso de internet é muito bom, entusiasmou-se, as uma hora temos que dar um salto.
A montagem do morro foi mais tranquila. Arariba tinha deixado à disposição uma série de materiais, já com as instruções do lugar de tudo. Não era preciso. Com a experiência, os moradores sabiam perfeitamente erguer os barracos, lembravam-se dos lugares onde deveriam ficar a vendinha, a boca de fumo, a igreja evangélica e a biblioteca comunitária. De qualquer forma, não é preciso deixar tudo igual. A arte contemporânea tomou para si, com grande criatividade, o aspecto efêmero das coisas humanas. Haverá alguma pulsão de morte na obra de Zé Arariba?, um crítico se pergunta em um longo artigo de jornal. Esse, por razões que não vêm ao caso, nosso artista leu e ficou abalado. Afinal de contas, estou sempre despedaçando alguma coisa. Às vezes fico pensando se vale mesmo a pena”.

Poucas vezes, o uso da miséria e exclusão social, transformadas em espetáculo (lembram da abertura das Olimpíadas?), a naturalização e estetização da violência, foram tratados de forma tão ácida na ficção brasileira. Ricardo Lísias volta à exuberância narrativa de sua obra-prima O LIVRO DOS MANDARINS, inclusive com a utilização de recursos que lhe são caros, como a redução do nome do personagem ao longo do romance (Arariboia, Arariba, Arara), o relato em espiral e a completa alienação do protagonista: a favela “ganha um mundo”, saindo do controle de Biribó, e Arariboia se desliga totalmente do projeto. Ironicamente, um artista que era considerado um pintor do universo carioca, anuncia um projeto com título #partiuBrasil.

Lísias nunca foi tão conciso e eloquente. Até a interferência do narrador no relato mostra, no final das contas, que tudo é uma representação multiplicada ao infinito da suposta realidade, tudo é simulacro, e às vezes oportunistas. A VISTA PARTICULAR, não poupa ninguém. Faca só lâmina.

 

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