MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

RAPIDINHAS DO ALFREDO(atualizadas em 12.04.13): O Freud de Huston & Montgomery Clift

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12 de abril de 2013
Acho que nunca cansarei de ver FREUD-ALÉM DA ALMA ( FREUD- THE SECRET PASSION, 1962-passou ontem na Cultura), para mim um dos maiores momentos de John Huston (que, naquela década, fez muitos passeios pela psicopatologia, a julgar por OS PECADOS DE TODOS NÓS e A NOITE DO IGUANA).
Há quem diga que o filme super-simplifique demasiado a trajetória das ideias freudianas. Mas com o impacto dramático do filme isso se torna secundário.
Ele é um exemplo de um pequeno ciclo (final dos anos 1950, começo dos anos 1960) de auge de concentração estética, tanto no sentido dramático quanto visual, de alguns mestres: Ford (O homem que matou o facínora), Hitchcock (Psicose), Welles (A marca da maldade), com forte preferência por um preto-e-branco impressionante (caso da fotografia de Douglas Slocombe–e o que dizer da música de Jerry Goldsmith, arrepiante).
Agora: obra-prima é a interpretação de Montgomery Clift. Sempre achei que ele era o maior ator dessa época (muito maior que Brando, de quem não sou muito fã), aqui ele chega quase que ao transcendental. É o seu maior desempenho.
Li, e adorei, o fascinante monstrengo de Sartre, mas seu não-aproveitamento por Huston, ao fim e ao cabo, não prejudicou em nada a densidade e o impacto do filme.
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09 de abril de 2013- OS POEMAS DE PAUL AUSTER
Pensando em comemorar os 20 anos da minha coluna semanal em A TRIBUNA de Santos, e  omo Paul Auster foi o autor abordado na resenha inaugural em 1993, e ao longo desse tempo todo vem sendo uma leitura constante, e visto que acabaram de lançar a tradução de toda a sua poesia, decidi logo de cara falar sobre TODOS OS POEMAS.
Não deu certo. Não os achei ruins, como parece ter sido a avaliação de Ricardo Lísias, só não consegui penetrá-los, para mim são opacos e incompreensíveis, com seu léxico de bucolismo envenenado pela farpa conceitual (há muitas árvores, riachos, folhas, mas também cabras misturadas a escaravelhos).
Não estou fugindo da raia, ou sendo evasivo, porque sou fiel leitor de Auster. Não posso dizer que são poemas de má fatura, só posso dizer que não consegui me interessar por eles. As imagens não me dizem nada: “o cheiro de menta/dos escombros”, por exemplo). Em cada poema há sempre alguns versos que prometem, prometem, e o poema em sua totalidade não aguenta o tranco. Alguns exemplos: “ e a terra escreve: tudo/ é da cor do silêncio” Num poema sobre o outono: “nós, também, viramos esta luz/ enquanto morre/ a luz/ sob a forma de uma folha” (no original, “we, too, will become this light/even as the light/dies/ in the shape of a leaf”).
“E cada coisa aqui, como se fosse a última/a ser dita: o som de uma palavra/casada com a morte, e a vida/que é esta força em mim/de sumir“…palavras-poços/descendo a luz mineirada/de riacho acalanto/e abismo” (no original: “…well-words/down the quarred light/of lullaby rill/and chasm”).
Devo dizer que apesar de habitualmente admirar Caetano W. Galindo, achei várias soluções adotadas por ele muito discutíveis, principalmente um quê a mais de formalismo e sentenciosidade, por exemplo ao transformar “what you say” em “o que dizes”, procedimento que se repete várias e várias vezes. O “you” transformado nesse rígido “tu” é muito infeliz e dá um ar anacrônico aos poemas. Outros pequenos exemplos: “the repetition” vira “a iteração” “the dust of a former self” vira “o pó de um eujá-não-mais” !!!??? “turn to raging phlox” se transforma em “viraram furibundas rainhas-das-flores” !!!??
Acabei desistindo, pelo menos para fins de resenha, na pág. 134, e resolvi comentar SUNSET PARK, uma leitura austeriana que ainda estava devendo a mim mesmo, concentrado em 2012 mais em leituras de autores nacionais.
Todos-os-poemas
05 de abril de 2013
 Não sabia que a grande Ruth Prawer Jhabvala tinha morrido.
Não conheço sua obra literária, mas ao longo das últimas décadas venho admirando sua maestria em adaptar obras de outros, como nos casos de Howards End e Os vestígios do dia, filmes bastante conhecidos, e excepcionais, e caso também de Quartet (de 1981, aqui no Brasil, Luxúria ou qualquer coisa similar, em todo caso a versão exemplar de um livro de Jean Rhys), outra bela colaboração com James Ivory (e momento extraordinário do trio Alan Bates, Isabelle Adjani e Maggie Smith), e da qual ninguém quase se lembra.
Ela também adaptou o seu premiado romance Heat and Dust, sempre com Ivory (Verão Vermelho não é um grande filme, mas é bem bacana–é que, penso eu, não há um equilíbrio entre as partes de Julie Christie e Greta Scacchi).
Nos últimos anos, parece que ambos perderam um pouco a mão e os trabalhos que realizaram não são tão bons, porém qualquer um dos títulos que eu citei merece ser visto e revisto (como também A room with a view-Uma janela para o amor e o maior de todos, pelo menos o meu favorito: Mr. e Mrs. Bridge).
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31-03- 13- BOA PÁSCOA PARA TODOS, principalmente com uma amostra do talento de ANTONIO GERALDO FIGUEIREDO FERREIRA, publicada hoje no caderno “Ilustríssima” da Folha:

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/1254576-imaginacao-cor-da-lua.shtml

29 de março de 2013- APÓS REVER A MARCA DA MALDADE

Vendo, acho que pela quarta vez, ontem na Cultura A MARCA DA MALDADE, uma daquelas obras-primas insuperáveis que justificam a existência do culto cinéfilo (e me faz recordar o apaixonado por cinema que eu era, mais jovem), um momento de transcendência da ate cinematográfica, lembrei que nunca se fala do romance que inspirou ORSON WELLES, e que eu nunca tive oportunidade de escrever sobre ele. Saqueei então meu caderno de anotações e citações e espero que tenha saído algo aproveitável, inclusive para outros admiradores do filme. Está aqui no blog:

https://armonte.wordpress.com/2013/03/29/longe-da-fronteira-a-marca-da-maldade-o-romance/

Foi uma época em que eu queria escrever sobre a relação entre os filmes e os livros, estes últimos geralmente mais obscuros, e nunca lidos e avaliados. Fica a sugestão para alguém com mais dedicação.

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26 de março de 2013-

Não vejo a hora de ler um livro de Éder Fogaça. De vez em quando atualizo a leitura dos seus poemas, dos seus contos, e fico sempre admirado com o que chamei de “charme do dizer mínimo” (mínimo em palavras, evidentemente, o talento é imenso).

Aqui vai mais uma amostra:

Adianta dizer que
acordei tarde outra vez e
que não tomei café direito mas
dei de comer aos cães

Adianta dizer que
recolhi o jornal molhado da chuva e
que verifiquei mais de duas vezes as
mesmas portas fechadas

Adianta dizer que
o trânsito não estava caótico e
que andei nos limites da velocidade
como sempre faço

Adianta dizer que
almocei tranquilamente
porque estava exatamente
dentro do horário

Adianta dizer que
um olhar pontiagudo me incomodou
e por ser sempre assim é melhor
eu não ligar

Adianta dizer que
não arrisquei outro caminho
porque é sempre conveniente buscar
o caminho que já se conhece

Adianta dizer que
apesar de tudo amanhã é outro dia
chovendo ou não é outro dia e que
é preciso ter respeito por ele

Não, nada disso adianta dizer
se o sorriso for apenas uma artifício
cruel para manter tudo
em equilíbrio

Acho que está mais do que na hora de ler o grande Éder nas páginas de um livro.

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16 de março de 2013

Morris West (19126-1999), num livro agora cinquentenário (AS SANDÁLIAS DO PESCADOR. “The Shoes o the fisherman”, foi publicado em 1963), que eu li em 1978, ano da morte de Paulo VI e João Paulo I, falando de uma eleição papal fictícia ( mas olha se é tão “fictícia” assim):
“Havia, por consequência, uma argumentação, bastante razoável, em defesa de uma nova sucessão, não-italiana, ao trono papal, assim como havia razão, também justificável, para crer que um papa não-italiano poderia tornar-se um fantoche dos seus ministros ou joguete dos seus talentos de intriguistas. A perpetuidade da Igreja foi um artigo de fé; mas os seus rebaixamentos e corrupções, as suas dilapidações, pelas loucuras dos seus dignatários, já constituem uma parte canônica da história. Havia, pois, razões de sobra para certa atitude de cinismo” (trad. Fernando de Castro Ferro, edição do Círculo do Livro).
Pena que, enquanto na eleição de mentirinha do romance do autor de FORA DE SÉRIE, um papa de fato inovador e não-italiano (o  ucraniano Kiril I) é alçado ao “trono de Pedro”, na eleição “real”, de 2013, o tal trono será assento de mais um petrificado.

Devo dizer, no entanto, que relendo tantos anos depois a cena da eleição inesperada de Kiril I,  me parece que ela foi melhor explorada sob o ponto de vista dramático no filme (de 1968) dirigido por Michael Anderson. É muito bonita essa cena do filme.

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Hoje se despreza Morris West, mas quem começava a ler e tinha seus romances à disposição, não pode se queixar: era um bom romancista, um narrador hábil e seus assuntos eram relevantes. Por isso, tenho-o ainda em muito boa conta, assim como nunca consegui desdenhar o diretor Stanley Kramer e alguns de seus filmes (Julgamento em Nuremberg, O vento será tua herança)

27 de fevereiro de 2013

Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira é um escritor notável . Ando hipnotizado com seu PEIXE E MÍNGUA, com o “assinalar de indescobertas” que marca sua poesia, da qual dou a amostra abaixo:

MEMÓRIA

na mesa da sala

fazendo-se de herança

o cupim é o tempo

essência da árvore

não importa a ausência

do prato do avô

a gordura fica

a mancha não sai

é uma outra coisa

sempre mesma coisa

atavismo triste

ou nódoa ou nó

(que toalha irá

disfarçar a vida

que se fez caminho

trilha para dentro

noutros tantos furos

de outros mais cupins?)

ainda habitante

de lugar algum

rosto de impresença

há sem existir

as faces do filho

em que me adivinho

enterrado vivo

–o cerne da mesa

no interior do verme

no cerne da mesa

UMA ESPÉCIE DE SOLIDÃO

um mundo de gente

uma porrada de gente

gente pra cacete

todo mundo pra caralho

 

um bando de gente

uma procissão de gente

formigueiro a dar com pau

 

e eu ninguém pra burro

    Em algumas há até o embrião do movimento discursivo que dá base ao seu extraordinário AS VISITAS QUE HOJE ESTAMOS, romance lançado pela Iluminuras no final de 2012:

ELEGIA

ela enfia os pés sob minhas pernas

nas dobras dos joelhos

 

ela não me ama mais

mas tem um frio danado nos pés

 

UM PUTA GOZO

ela não deixa por menos

aquela vaca

não adianta, ela não cai de quatro por ninguém

peixe e míngua

24 de fevereiro- Sei que não vai ganhar, e nem estou colocando-o nas votações que andam por aí, mas eu gostaria que As aventuras de Pi levasse como melhor filme.
  Outros palpites fracassados:
diretor- Ang Lee
ator- Joaquim Phoenix
atriz- Emmanuelle Rivas
aventuras de pi
18 de fevereiro de 2013:
                                           I
   Não sei se é caso de chorar ou rir, mas simplesmente me assombra  ver a reverência que anda cercando Kathryn Bigelow. Nem vou discutir o novo filme, A HORA MAIS ESCURA, que nem sei ainda se assistirei no cinema (sempre dá para ver em DVD ou na tevê depois), ou o anterior, GUERRA AO TERROR, que acende o mais básico anti-americanismo e anti-patriotadas em mim, mas que obra Bigelow tinha até então?
   Como levar esta diretora tão a sério, como ela está sendo levada, em críticas que beiram a hagiografia, se ela tem em seu currículo obras como CAÇADORES DE EMOÇÃO (POINT BREAK), que até é divertidinho e legal de ver, mas que só será visto como uma verdadeira realização ” cinematográfica” (tal como entendo o termo) por quem tem a mais profunda nerdice arraigada em si, aquela coisa que se tornou tão presente pós-Spielberg e pós-Lucas? E os filmes “psicológicos” de Bigelow, como BLUE STEEL?
No máximo, uma sub-Clint Eastwood (e este tantas vezes também já é sub), será que agora teremos de aturar outra reputação de araque?
hora mais escura
                                                           II
     Ainda sobre minha perplexidade com a reputação atual de Kathryn Bigelow (a meu ver, totalmente injustificada): não sou daquelas pessoas saudosistas e nostálgicas, a achar que os filmes eram melhores antigamente, os livros eram melhores, as canções idem… Acho que cada ano traz a sua cota de coisas interessantes para assistir, ler ou ouvir, e talvez sejamos nós que perdemos progressivamente a capacidade de nos antenar.
    Mas quando penso nos concorrentes ao Oscar de, digamos, 1976,  o primeiro ano em que prestei atenção e me interessei pelo prêmio, com relação a anos recentes, dá tristeza.
Peguemos, por exemplo, para não atacar diretamente os indicados do Oscar de melhor filme de 2012, o ano em que a sra. Bigelow ganhou seu Oscar de diretora (2010).       Concorriam dez filmes: AMOR SEM ESCALAS, AVATAR, BASTARDOS E INGLÓRIOS, DISTRITO 9, EDUCAÇÃO, PRECIOSA, UM HOMEM SÉRIO, UM SONHO POSSÍVEL, a animação UP e o vencedor, GUERRA AO TERROR.
Ora, ora, tietagens tarantianas à parte, é possível ver nessa lista algo glorioso? Alguns filmes “bons”, interessantes inegavelmente, mas algum filme realmente grande, daqueles que alimentarão futuras discussões? DISTRITO 9 é o GUERRA AO TERROR levado em embalo de fantasia, e com os sinais trocados, com aqueles aliens favelados.
     Só uma boa alma acharia que UM SONHO POSSÍVEL, PRECIOSA, EDUCAÇÃO OU AMOR SEM ESCALAS poderiam ser sérios candidatos a melhor filme de qualquer ano. E AVATAR já tinha ganhado o Oscar anteriormente, no seu avatar DANÇA COM LOBOS…
    Voltando a 1976. Os concorrentes eram: REDE DE INTRIGAS, TAXI DRIVER, TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE, ESTA TERRA É MINHA TERRA e o vencedor foi ROCKY.   Lógico, ganhou o mais fraco, o que o lance irresistível da superação, que mais tem a ver com o gosto médio (de todo modo, não um mau filme). Mas vejam os outros, todos filmes importantes, geradores de discussão, marcos nas obras de seus diretores (Sidney Lumet, Scorsese, Alan Pakula e Hal Ashby). Não são filmes experimentais, não revolucionam a linguagem cinematográfica, mas ética e dramaturgicamente são filmes relevantes (o meu favorito é REDE DE INTRIGAS, que considero a obra-prima do lote, mas são todos muito bons), memoráveis.
     Que diferença.
taxi driveresta terra é minha terratodos os homensnetworkrocky
13 de fevereiro de 2013- Já está nas bancas a revista METÁFORA 16, com dois textos meus:
__ um pequeno estudo sobre a “vereda pedagógica” de Grande Sertão: Veredas;
__ uma resenha sobre a nova tradução de O arco e a lira
          Olha a capa:
metáfora
29 de janeiro de 2013- Olhando há pouco (são 18: 30) as estatísticas do MONTE DE LEITURAS, constatei uma totalização de 500.038 visitas.
                 Obrigado a todos os amigos e visitantes. Rumo ao primeiro milhão.
16 de janeiro:
Não posso deixar em branco a morte de NAGISA OSHIMA.
Quando eu tinha 15 anos consegui entrar (com RG de um amigo, maior de idade) no cinema e assistir O IMPÉRIO DOS SENTIDOS. No mesmo ano, ou um ano antes, vi O IMPÉRIO DA PAIXÃO (a idade, nesse, não era tão controlada).
São filmes que alargaram a minha experiência, a minha visão das coisas, as possibilidades estéticas de se falar de sexo, de paixão, de coisas que normalmente não são representáveis, e que o bom gosto ligado ao gosto pelo extremo de Oshima conseguiu.
Filmes tão belos, e tão gravados na minha memória (eu, que não vi sua fase de Nicholas Ray japonês, filmes com a juventude transviada de lá) que não deixam na sombra até uma produção posterior, muito bonita, FURYO (ou “Merry Christmas, Mr. Lawrence), diga o que quiser o sr. Inácio Araújo.
Filmes seminais. O império de Oshima.
filme de oshima 2filme de oshima
08 de janeiro de 2013- Luiz Costa Lima é um dos grandes nomes da crítica literária brasileira. E recentemente publicou uma resenha sobre um romance de estreia, o belo AS VISITAS QUE HOJE ESTAMOS , o qual está na minha lista de Destaques de 2012. Sinto-me orgulhoso de ter descoberto um autor novo, em sincronicidade com o grande mestre. Aqui vai o link:
http://www.valor.com.br/cultura/2957204/uma-grande-surpresa
das_visitas
04 de janeiro de 2013- Para quem, como eu, tem fascínio pelo poeta ADONIS, uma ótima resenha, no sentido de apreensão literária e do didatismo, de Adriana Armony:
http://rascunho.gazetadopovo.com.br/espelho-do-mundo/
23 de dezembro-
  Se alguém quiser uma amostra da poesia de Lêdo Ivo (também um grande tradutor, foi com ele que conheci Rimbaud, e um grande ensaísta, além de uma figura intelectual incrível):
Os Pobres na Estação Rodoviária

Os pobres viajam, Na estação rodoviária
eles alteiam os pescoços como gansos para olhar
os letreiros dos ônibus. E seus olhares
são de quem teme perder alguma coisa:
a mala que guarda um rádio de pilha e um casaco
que tem a cor do frio num dia sem sonhos,
o sanduíche de mortadela no fundo da sacola,
e o sol de subúrbio e poeira além dos viadutos.
Entre o rumor dos alto-falantes e o arquejo dos ônibus
eles temem perder a própria viagem
escondida no névoa dos horários.
Os que dormitam nos bancos acordam assustados,
embora os pesadelos sejam um privilégio
dos que abastecem os ouvidos e o tédio dos psicanalistas
em consultórios assépticos como o algodão que
tapa o nariz dos mortos.
Nas filas os pobres assumem um ar grave
que une temor, impaciência e submissão.
Como os pobres são grotescos! E como os seus odores
nos incomodam mesmo à distância!
E não têm a noção das conveniências, não sabem
portar-se em público.
O dedo sujo de nicotina esfrega o olho irritado
que do sonho reteve apenas a remela.
Do seio caído e túrgido um filete de leite
escorre para a pequena boca habituada ao choro.
Na plataforma eles vão o vêm, saltam e seguram
malas e embrulhos,
fazem perguntas descabidos nos guichês, sussurram
palavras misteriosas
e contemplam os capas das revistas com o ar espantado
de quem não sabe o caminho do salão da vida.
Por que esse ir e vir? E essas roupas espalhafatosas,
esses amarelos de azeite de dendê que doem
na vista delicada
do viajante obrigado a suportar tantos cheiros incômodos,
e esses vermelhos contundentes de feira e mafuá?
Os pobres não sabem viajar nem sabem vestir-se.
Tampouco sabem morar: não têm noção do conforto
embora alguns deles possuam até televisão.
Na verdade os pobres não sabem nem morrer.
(Têm quase sempre uma morte feia e deselegante.)
E em qualquer lugar do mundo eles incomodam,
viajantes importunos que ocupam os nossos
lugares mesmo quando estamos sentados e eles viajam de pé.

 Transcrevo do UOL:

Morre o poeta e escritor Lêdo Ivo, aos 88 anos

O escritor e poeta Lêdo Ivo morreu na madrugada deste domingo (23), aos 88 anos, na cidade espanhola de Sevilha, segundo informou a Academia Brasileira de Letras. Lêdo foi vítima de um infarto às 2h e morreu nos braços do filho, o artista plástico Gonçalo Ivo, que vive em Paris  e o acompanhava na visita a Sevilha. O corpo do acadêmico será cremado na Europa, e as cinzas levadas ao Rio de Janeiro.

Lêdo Ivo sofria de câncer de próstata e passou mal durante um jantar. Ele chegou a ser levado ao hospital, mas não resistiu e morreu no caminho. “Ele estava na cidade de férias, onde ia passar o Natal com alguns familiares e retornaria na próxima semana a Maceió para cumprir seus compromissos de trabalho”, disse à EFE a sobrinha do escritor, Laudicéia Eurídice Ivo.

Segundo a sobrinha do escritor,  familiares e amigos estão se mobilizando para fazer uma missa no Rio de Janeiro e outra em Maceió. O governador de Alagoas, Teotonio Vilela Filho, decretou luto oficial de três dias.

“Lêdo Ivo é referência de sensibilidade poética e visão de mundo com o olhar do coração e da alma. Lêdo está no mesmo patamar que Aurélio Buarque de Holanda, Pontes de Miranda, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz. Ele deixa um legado inestimável para a literatura brasileira. Estou decretando luto oficial no Estado por três dias. Meus sentimentos de pêsames aos seus familiares e amigos”, escreveu o governador em sua página no Twitter.

Ao saber da morte, a presidente da ABL, Ana Maria Machado, determinou que a bandeira da Academia fosse hasteada a meio mastro, e convocou para  o dia 10 de janeiro uma sessão acadêmica extraordinária. “Lêdo Ivo gozava de uma vitalidade assombrosa para seus quase 90 anos e sua saúde frágil. Falava alto, gostava de comer bem, se esmerava em contar histórias divertidas”, comentou ela.

17 de dezembro-
  Que “Hobbit”, que “Vida de Pi”, que “Lincoln”, que nada.
  O grande filme de 2012 é APOLO TITE- DO DESASTRE AO TRIUNFO.
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5 de dezembro- Nunca fiquei realmente satisfeito com a forma que publiquei minha resenha sobre Precisamos falar sobre o Kevin aqui no blog, numa LEITURA EM ESPELHO com o muito inferior Os descendentes. Por isso, agora a publico separadamente, como deveria ter sido desde o começo. Trata-se, talvez, do mais poderoso romance publicado até agora neste século. Às vezes me desagradam algumas entrevistas de Lionel Shriver, acho-a meio posuda, mas que talento enorme!
20100408-Lionel_Shriver_blog
11 de dezembro– Quem disse que ser premiado não é bom?Ainda quais quando é merecido, como é o caso de Ricardo Lísias com seu ótimo “O céu dos suicidas”, ganhador do prêmio APCA de melhor romance de 2012. Além dele, outros grandes talentos foram premiados: João Anzanello Carrascoza e o tradutor Caetano W. Galindo (pelo seu “Ulysses” tão delicioso de ler). Parabéns a eles.
    E vai, Corinthians, também quase ganhando o grande prêmio.
10 de dezembro de 2012:
   Tá chegando a hora! Agora é sofrer, torcer, e comemorar (se Deus quiser, mas acho que ele quer):
Gavioes-Japao-torcendo-pelo-Timaonação nipo-corinthiana
04 de dezembro de 2012-
    Maria Valéria Rezende, que comecei admirando como escritora (ao ler “Vasto Mundo” em 2001) e depois se tornou grande amiga, completa 70 anos no dia 8, sábado. Por isso, o blog a ela será dedicado nos próximos dias.
Veja no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=yPcqcFL46nM
mvr
30 de novembro- NENO (1993-2012)
E faleceu meu amado Neninho, meu companheirinho por quase 20 anos:
Neninho
18 de novembro:
A matéria abaixo saiu na Ilustrada da “Folha de São Paulo”. Por isso, resgatei meu post sobre Louise Erdrich. E aí encafifei: e Jayne Anne Phillips? O que andará fazendo? No mesmo ano, dois romances das duas, Love MedicineMachine Dreams tiveram grande repercussão. Ambos são ótimos, apesar de Phillips ter sido maltratada no Brasil (o seu livro foi lançado como Sonhos desfeitos, e com toda a pompa de best seller), fiquei muito ligado na produção das duas na segunda metade dos anos 1980. E depois…
16/11/2012 – 20h46

Novas e velhas gerações são contempladas pelo National Book Awards nos EUA

O National Book Awards, premiação literária anual realizada desde 1936 nos Estados Unidos, divulgou seus vencedores na quinta (15). As escolhas contemplaram novas e velhas gerações de escritores americanos, como a veterana Louise Erdrich e a estreante Katherine Boo.

Erdrich venceu por seu “The Round House”, segunda parte de uma trilogia sobre um garoto de origem indígena que planeja vingar o estupro sofrido por sua mãe.

É a primeira vez que a autora é contemplada pelo prêmio, embora seus livros sejam publicados já há cerca de 30 anos.

A infância também é o foco de “Behind the Beautiful Forevers: Life, Death, and Hope in a Mumbai Undercity” o primeiro livro de Boo, uma obra não ficcional.

Sua pesquisa nas favelas de Mumbai joga luz sobre a educação de um menino que enfrenta problemas relacionados à violência e ao crime.

A autora é uma jornalista da equipe da revista “The New Yorker” que já recebeu um Pulitzer por seu trabalho jornalístico. Ela concorreu com feras da não ficção, como o jornalista Robert Caro, autor de biografias e vencedor de dois prêmios Pulitzer.

Também foram premiados pela National Book Awards William Alexander (na categoria literatura juvenil, por “Goblin Secrets”) e David Ferry (pelo livro de poesia “Bewilderment”).

Cada um dos vencedores recebe US$ 10.000. Os juízes avaliam cerca de 1.300 livros.

16 de novembro– Os leitores deste meu blog talvez nem aguentem mais, todavia saiu um texto meu sobre Autran Dourado na edição de novembro da Revista Metáfora.

13 de novembro– Mais uma vez, Denise Bottmann oferece ao leitor brasileiro a possibilidade de um roteiro no meio da selva de publicações: ela acaba de colocar no seu blog a lista de traduções feitas no país das obras de Púchkin (e não é pouca coisa).

Acesse: http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2012/11/puchkin-no-brasil-ii.html

http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2012/11/puchkin-no-brasil-i.html

Uma coisa para se deliciar: certas capas ao longo do tempo.

primeiro de novembro– Durante anos meu pai teve o hábito de comprar o “Jornal da Tarde”. Na minha adolescência, eu adorava ler o “Caderno de Sábado”, sempre tinha coisas interessantes, especialmente as resenhas enormes de Léo Gilson Ribeiro. Apesar do seu quase cômico anti-comunismo e de certos exageros passionais, Ribeiro me ensinou muito e sou até hoje seu admirador.  Por exemplo, em novembro de 1982, foi lançado A Obscena Senhora D e a página que ele escreveu sobre o livro, as relações que estabeleceu entre o pensamento da autora e a obra A negação da morte, de Ernest Becker, tudo isso àquela altura me parecia apaixonante. Tenho pena de, pelas andanças pela vida e lugares diferentes, não ter guardado muitos daqueles artigos e textos, tanto dele como de outros, do Caderno de Sábado.

Por isso, apesar de já não ler há vários e vários anos, fiquei triste com o encerramento da circulação do JT.  Foi um elemento relevante na minha formação. Acho que é por causa de notícias assim que vamos ficando não só mais velhos, como também  elegíacos, nostálgicos, proustianos.

26 de outubro de 2012– Caros leitores do blog, faço aqui propaganda da edição de aniversáriod e um ano da REVISTA METÁFORA (número 13), tanto pela qualidade dessa publicação, que eu já constatara em edições anteriores, quanto em causa própria, já que há um texto meu ali sobre Thomas Mann (um perfil de sua vida e obra e um roteiro de leituras básicas).

Aproveito, também, para mandar um abraço para Edgard Murano pelo excelente trabalho.

11 de outubro–  E minhas proposições nobeleiras (https://armonte.wordpress.com/2012/10/07/nobel-de-literatura-2012-algumas-proposicoes/ ) acabaram sendo atendidas: é lógico que eu queria alguém da língua portuguesa, mas também anelei por um “desconhecido” (ou pelo menos, não tão manjado) do mundo africano ou asiático.

Premiaram o chinês Mo Yan. Não será surpresa saber que ele não tem nenhuma obra traduzida por aqui. Esperemos que não leve tanto tempo quanto Wislawa Szymborska (anunciada em 1996, traduzida em livro apenas em 2011).

O que irrita um pouco é que, ao pesquisar matérias sobre o autor chinês, todas repisam as mesmas informações, na mesma sequência.

7 de outubroO pequeno Eurípedes contra o grande Eric- ou a Veja contra Hobsbawm

Leio a “Veja” porque frequento a casa dos meus pais e para eles o funcionamento do mundo tem a ver com assistir o Jornal Nacional e ler essa revista. Então, como que atraído de forma malsã, acabo lendo de vez em quando tal publicação.

E aconteceu o que tinha de ser. Convocaram alguém do seu rico plantel (parece que eles brotam como cogumelos nesse terreno), dessa vez um tal Eurípedes Alcântara (mas poderia ter sido qualquer outro ali, tão permutáveis são em tom e mediocridade intelectual), para fazer o necrológio de Eric Hobsbawm. Não poderiam evitar, logicamente. O defunto era muito grande para que passasse em silêncio. Também dessa vez não optaram por meia página, como fizeram com José Saramago. E nem citaram Vargas Llosa, a quem eles adoram recorrer para representar o intelectual sonhado pela “Veja”.

Mas o cara tem tanta má fé que escreve coisas do tipo (pensando atingir Hobsbawm): “O marxismo é um credo que tem profeta, textos sagrados e promete levar seus seguidores ao paraíso”. Vê-se perfeitamente que ele nunca leu (ou só passou os olhos) Marx, e também não leu (idem) o historiador recém-falecido, que no seu Como mudar o mundo comenta justamente a saia justa da ortodoxia soviética que desejava imobilizar o corpus inquietante deixado por Marx (seus rascunhos inéditos), porque desestabilizavam o cânone fixado pelo Partido.

E Hobsbawm mergulha nas contradições e coisas mal resolvidas, apesar das intuições brilhantes e fecundas, que existem tanto na Ideologia Alemã quanto nos Grundrisse.

Que divertido ler de Eurípedes, o pequeno, a citação de H.G. Wells (nossa, foi Wells que mudou o mundo e que foi um dos pensadores mais discutidos e estudados dos últimos 130 anos, não?) sobre Marx (“uma mente de terceira, postulador de uma tese de segunda, propagandeada por fanáticos de primeira”). Ele não pensou decerto em citar gente que jamais seria suspeita de simpatizante do marxismo ou do comunismo, como Raymond Aron (este, realizando cursos por boa parte da vida, a respeito do pensamento de Marx), Isaiah Berlin (este, escrevendo um livro inteiro a respeito do pensador alemão, além de ensaios diversos) ou Hannah Arendt (que dedicou uma boa parte de A condição humana a discutir os pressupostos revolucionários de Marx), que se lançaram à leitura de Marx com afinco e seriedade, mesmo não compactuando de suas ideias.

Escrevendo numa revista de terceira, destilando parágrafos com a marca de fábrica de uma mente de segunda, ele terá como destinatários de coração apenas a anomia de primeira dos  que compõem a maioria silenciosa.

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A quem porventura estranhar a publicação do texto-homenagem a Benedito Nunes, esclareço que a razão é muito simples: eu o escrevi para A TRIBUNA, onde foi publicado, e depois, inadvertidamente, esqueci de publicá-lo aqui no blog.

Nos últimos dias, com a morte de tanta gente de peso (Autran Dourado, Carlos Nelson Coutinho, Eric J. Hobsbawm) me pareceu adequado corrigir essa lacuna. Pois se jmais houve um nome de peso na inteligência brasileira, foi justamente Benedito Nunes.

O título (o mesmo da resenha) peca pelo exagero e inexatidão. Estou a léguas, ali, de dar conta, mesmo minimamente, do legado de Benedito Nunes. Foi apenas um apelo jornalístico.

02.10.12- O post sobre As codornas e o outono era para ser o Destaque do Blog de setembro, no entanto a morte de Autran Dourado atropleou meu intento de publicá-lo no último dia do mês. De todo modo, ele  deve ser considerado como tal, o que significa que ainda haverá o Destaque do Blog de outubro.

PRIMEIRO DE OUTUBRO-Eita, nós, é liquidação? Agora foi o Hobsbawm (1917-2012)

Depois de Autran Dourado, o ESCRITOR EM SEGREDO, cuja existência mimetizou o destino de sua grande personagem, a prima Biela, agora é a vez do historiador dos historiadores, o homem que deu a síntese mais brilhante e convincente dos últimos 250 anos, com um estilo arguto refinado, bem-humorado, de uma inteligência arejada e luminosa: Eric J. Hobsbawm

Tudo bem que eles eram macróbios (no caso de Hobsbawm, BEM macróbio, nascido em 1917). Isso não tira a sensação enorme de perda.

Viva Hobsbawm, mesmo morto!

30 de setembro de 2012– Minha tese de doutorado foi um estudo da obra de Autran Dourado. Entretanto, mesmo que não tivesse mergulhado no seu universo por conta de um título acadêmico, seria seu leitor fiel. Desde que li, ainda adolescente, as “Três Histórias no Internato”, para mim ele sempre foi um dos grandes da nossa literatura. Profundamente emocionado, me despeço de alguém cujos textos me acompanharam por tantos e tantos anos da minha vida.

28 de setembro– Eu não sei porque ainda me dou  ao trabalho de ver notícias sobre  Benjamin Netanyahu. Deve ser alguma forma de masoquismo, de tanto que me irrita esse homem e sua retórica repelente, sua arrogância, sua desfaçatez. Premiê de um estado espúrio, ele vem com um desenhinho tosco, quase tão ofensivo quanto o filme “A inocência dos muçulmanos”, de uma bomba, para vociferar a respeito do “perigo atômico” que o Irã representaria e pedindo sanções e intervenções (além das ameaças, claro…).

Agora: por que  Israel pode ter arsenal nuclear e não o Irã? Por que Israel teria mais a simpatia ocidental (ou pelo menos das potências ocidentais) do que a nação islâmica?  Que patrimônio ético ou moral Netanyahu pode evocar para deblaterar contra o programa nuclear iraniano e insistir que representa um perigo para o mundo? Israel possuir armamento nuclear não representa perigo para a paz? Sem falar na opressão aos palestinos, à violação contínua dos direitos humanos. É o fim…

25 de setembro– Graças ao sempre excelente (e utilíssimo) blog NAO GOSTO DE PLÁGIO, de Denise Bottmann, fiquei sabendo da morte  (no dia 20, aos 70 anos) do admirável Carlos Nelson Coutinho, grande crítico da linha marxista, de feição lukácsiana, com ensaios indispensáveis a respeito de Lima Barreto, Kafka, Proust, sobre o próprio Lukács e a tradição do “realismo crítico”. Foi por causa das análises de Coutinho, na Introdução de Realismo Crítico Hoje, a grande obra (até em suas percepções “defeituosas”) de Lukács, que fui atrás da obra de William Styron e Jorge Semprún. Ele vai fazer falta. Penso que só a morte de Benedito Nunes nos  últimos anos tem o mesmo peso, de vazio intelectual deixado em volta.

E ontem, dia 24, no RODA VIVA da TV Cultura, que entrevista! Robert Darnton, o magnífico historiador do Iluminismo e do século XVIII(e veja-se como se perdeu com a morte de Coutinho, aos 73 anos ele está mais vivo intelectualmente do que nunca). Não conhecia nada da sua obra até ler o apaixonante A questão dos livros; depois saí correndo atrás de outros títulos e recomendo o monumental  O iluminismo como negócio, Os best sellers proibidos da França Revolucionária e  se for necessário  escolher apenas um, algo mais sintético, mais “portable Darnton”:  Boêmia Literária e Revolução. Ele é o máximo.

21 de setembro

Já expliquei na minha resenha de A mulher que escreveu a Bíblia, porque–desde que  o romance chinfrim de Moacyr Scliar ganhou o Jabuti -nunca mais levei a sério esse prêmio tão badalado por aqui.

Ao ver a lista de indicados deste ano, mais uma vez minha desconsideração pelo Jabuti se ratifica: acabo de publicar um post em que comento a ruindade de chorar de Procura do Romance, de Julián Fuks, e ei-lo entre os que podem ganhar o prêmio de melhor romance.

Claro, entre os indicados tem coisa boa, mas é uma tal mistura (quem teve a ideia cretina de encampar conto e crônica na mesma categoria?), e geralmente os premiados são tão discutíveis, que entra ano, sai ano, esse prêmio tem a legitimidade de certas pesquisas. Ou seja, quase nenhuma.

Veja os principais indicados:

Romance

“Mano, A Noite Está Velha” – Wilson Bueno “Infâmia” – Ana Maria Machado “Procura do Romance” – Julián Fuks “O Passeador” – Luciana Hidalgo “Habitante Irreal” – Paulo Scott “Nihonjin” – Oscar Nakasato “Naqueles Morros, Depois da Chuva” – Edival Lourenço “Tapete de Silêncio” – Menalton Braff “O Estranho No Corredor” – Chico Lopes “Herança de Maria” – Domingos Pelegrini

Contos e crônicas

“Livro de Praga” – Sérgio Sant’anna “Vento Sul – Ficções” – Vilma Arêas “O Anão e a Ninfeta” – Dalton Trevisan “O Destino das Metáforas” – Sidney Rocha “Nós Passaremos em Branco” – Luis Henrique Pellanda “Axilas e Outras Histórias Indecorosas” – Rubem Fonseca “Enquanto Água” – Altair Martins “Onde Terminam os Dias” – Francisco de Morais Mendes “Contos de Mentira” – Luisa Geisler “Passaporte Para a China – Crônicas de Viagem” – Lygia Fagundes Telles

Poesia

“Alumbramentos” – Maria Lúcia Dal Farra “Vesúvio” – Zulmira Ribeiro Tavares “A Viagem” – Valmir Hayala “Roça Barroca” – Juvely Vianna Baptista “Curare” – Ricardo Corona “Junco” – Nuno Ramos “A Fera Incompletude” – Fabrício Marques “Trans” – Age de Carvalho “Laetitia, SP” – Gabriel Pedrosa “Sísifo desce a montanha” – Affonso Romana de sant’anna

Em tempo: citei no meu post sobre Procura do romance o seguinte trecho, que seria digno da prosa de Nélida Piñon nos seus momentos mais inspirados: “AS RETINAS VÃO SE MACULANDO DE TODOS AQUELES INCONTÁVEIS SINAIS GRÁFICOS”. Uma leitora me mandou via o seguinte comentário:

Tem alguma coisa errada comigo: quanto mais eu leio mais me doi o olho, cujo problema é exatamente ter perdido a mácula da retina!  E as letras não estão me produzindo outra mácula!  Vou perguntar pra ele qual é o oftalmologista dele!
   Que Jabuti valeria um tão prestimoso serviço?

01-09-12- Devido ao centenário de A morte em Veneza, certamente um dos textos mais belos já escritos, resolvi republicar minhas resenhas sobre Thomas Mann e colocá-las todas numa categoria à parte, “Resenhas sobre o meu autor favorito”. É o que farei ao longo dos próximos dias, talvez com algum comentário sobre a belíssima novela  com a qual ele compensou um período de marasmo criativo, entre “Sua Alteza Real” (1909) e “A Montanha Mágica” (1924).

26 de agosto– Tudo bem, no penúltimo jogo, em que houve aquele erro de arbitragem, não marcando o impedimento para o gol do Santos. Mas cadê o time que tinha uma defesa inexpugnável na Libertadores? Perder para o São Paulo foi um desgosto principalmente por ver que se desmantelou até a maior virtude  do Corinthians na era Tite. E quando Romarinho voltará a ter mira? Ele me irritou com sua miopia golzística no jogo contra o Santos e continua sem acertar… Mira, Romarinho, mira.

24 de agosto- Notícias boas sobre pessoas talentosas.

Sobre a tradutora de O RETORNO DO HOOLIGAN, Eugenia Flavian, que informa:” foi lançado na Bienal de SP mais um livro que traduzi do romeno: “O Fim dos Ceausescu”, pela É Realizações Editora.
A obra é fruto de três anos de pesquisas do jornalista Grigore Cartianu que descreve (e interpreta) a derrocada daqueles ditadores na Romênia, em 1989.
Eu, que nasci naquele país, vejo com alegria que parte da História da Romênia seja (finalmente) divulgada no Brasil.”

E sobre Nilton Resende, de quem resenhei o belo livro Diabolô no post “Sobre meninos e lobos” acessem:

http://www.estadao.com.br/noticias/arteelazer,revista-machado-anuncia-os-escritores-selecionados-para-a-edicao-de-estreia,920640,0.htm

Ambos merecem divulgação.

dezenove de agosto– inicio hoje uma SEMANA NELSON RODRIGUES no blog. O centenário do pernambuco-carioca acontece em 23 de agosto e pretendo comentar algumas peças, já que não tenho tempo de reler seus deliciosos romances folhetinescos (Meu destino é pecar; Asfalto selvagem, este último a estória de Engraçadinha) ou suas histórias curtas (a centena que forma A vida como ela é).

Diga-se de passagem, apesar da hagiografia a que o submete a provincianamente auto-centrada cultura carioca, há traços desagradáveis ad nauseam na figura humana de  Nelson Rodrigues e recentemente veio à baila o episódio nada honroso das traduções que ele não fez, mas assinou (episódio, aliás, que deixava o presidente atual do grupo Record orgulhosíssimo, sabe-se lá por que).

Mesmo assim, não há como pensar nosso teatro sem Nelson Rodrigues. Agora: é incrível a falta de timing da Agir em não relançar neste momento o TEATRO COMPLETO em 4 volumes (peças psicológicas e peças míticas, um volume cada; tragédias cariocas, dois volumes), que está para lá de esgotado há um bom tempo.

dezessete de agosto– O grande Rosário Fusco, magnífico tradutor de CRIME E CASTIGO e autor do especialíssimo O AGRESSOR morreu há 35 anos. A minha dica é o que Ronaldo Werneck escreveu a respeito:

http://www.ronaldowerneck.blogspot.com.br/

ezesseis de agosto– Um dos leitores mais atentos e antenados, não apenas do meu blog (já  “cruzei” com ele, por assim dizer, percorrendo outros blogs), Fabrizio Lyra, me deu uma informação que eu desconhecia: embora estivesse bem atento aos centenários de Jorge Amado (dia 10) e Nélson Rodrigues (no próximo dia 23), deixei escapar o de Lúcio Cardoso (dia 14).

Na verdade, como respondi ao atentíssimo Fabrizio, não sou muito fã de Cardoso, que me parece mais um caso de personalidade carismática e ambição desmedida do que de realização literária. Sempre me indignou constatar que ele foi publicado na coleção de obras representativas da UNESCO, em detrimento (pelo menos no que foi lançado até hoje) de títulos muito mais bem-acabados e representativos. Estou falando de CRÕNICA DA CASA ASSASSINADA, para mim o  caso mais estranho de um romance supostamente polifônico e no qual todas as vozes têm o mesmo tom, se parecem muito. A ambição era dostoievskiana, com Freud no meio, mas o tom ficou o samba de uma nota só.

Aliás, há um grupo de escritores mais voltados para o “psicológico” e que se mostram hoje em dia leitura insatisfátória ao extremo, caso de Cardoso, Octavio de Faria e José Geraldo Vieira, os quais escreveram romances laboriosos, chatos e mal acabados. E sinceramente não tenho muito ãnimo de fazer uma revisão de Crônica da casa assassinada, Mundos Mortos ou A ladeira da memória , os quais são superestimados e mais para ruins.   É claro que Lúcio Cardoso tem seu lugar na nossa história literária e teatral, mas infelizmente muito mais modesto do que ele almejava, com seu ego imenso.

De qualquer forma sou muito grato a Fabrizio pela informação. E quem quiser informações sobre o ilustre trabalho de Cardoso como tradutor, acesse:

http://www.naogostodeplagio.blogspot.com.br/2012/08/lucio-cardoso-tradutor.html

quinze de agosto- Pessoas me perguntam sobre o que acho do Prêmio São Paulo de Literatura. Como não dá para ler (e nem ter interesse por) tudo que se publica, é difícil ter uma opinião objetiva e ampla. Só posso dizer que certas indicações foram bizarras, dada a evidente ruindade do indicado (caso de Dois rios) ou dada a evidente inadequação do livro ao gênero, além do resultado discutível (caso de Domingos sem Deus). Mas pelo menos o talentoso Chico Lopes, com seu texto mais longo, O estranho no corredor, foi reconhecido. Caso alguém se interesse em conferir mais detalhadamente minha visão dos três livros citados, estou reatualizandos-os na página principal do blog.

nove de agosto– Hoje e amanhã o blog é dedicado a Hermann Hesse, cujo cinquentenário da morte, acontece hoje, dia 9, e Jorge Amado, cujo centenáriode nascimento é comemorado amanhã. Ambos merecem, por razõesque às vezes parecem diferentes, mas apresentam uma surpreendente coincidentia oppositorum. Quem ler meus posts poderá intuir isso.

Entrementes, passarei uns dias no Nordeste e dou folga aos meus leitores. Evoé.

primeiro de agosto– E foi-se o grande e implacável GORE VIDAL.

Minha tristeza é que só resenhei livros dele de que não gosto muito (Burr, 1876, A cidade e o pilar).

No começo dos anos 1980, ele me ensinou a gostar de romances históricos (que eram bem desprestigiados pela crítica). Na época, me apaixonei por dois de seus livros no gênero,  CRIAÇÃO e JULIANO, que sempre serão para mim  modelos do que um romancista deve fazer ao tratar de épocas remotas. Ainda acho que são dois dos melhores romances que já li.

Em compensação, daquela longa safra de romances sobre a história americana, só acho indispensável, e uma obra-prima, WASHINGTON D.C.   Já BURR é  uma chatice, longo e aborrecido, e dos outros da série (1876, IMPÉRIO, HOLLYWOOD, acho que tem mais um, mas não o li), gosto bastane de IMPÉRIO, por vários motivos; os outros são irregulares. Também aprecio LINCOLN, mas poderia ser menos longo.

Agora: que maravilha Kalki (o primeiro romance que li de Vidal, e ainda meu favorito), Myra Breckinridge. Duluth. Juntam tudo o que há de bom em Vidal, e o que fará falta.

 

29 de julho– A Boitempo, editora pela qual sempre tive o maior apreço, ainda mais nesses últimos anos, em que venho estudando a obra de Marx com afinco, acabou de perder sua moral comigo. Utilizou-se uma antiga tradução de Denise Bottman para A CRISE DA CRISE DO MARXISMO, de Perry Anderson, publicada nos anos 1980 pela Brasiliense, e, sob o nome de Isa Tavares (heterônimo, quem sabe, da grande e valorosa Denise) lançaram a contrafação que é o texto brasileiro de Considerações sobre o Marxismo Ocidental/Nas trilhas do materialismo histórico.

Para acompanhar esse escandaloso episódio, clique aqui:

http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2012/07/you-kiddin-rite-parte-i.html

19 de julho- É com dor no coração que comemoro a vitória de 3 a O do Corinthians sobre o Flamengo, pois este último seria o time para o qual torceria sobre não pertencesse à nação corinthiana.

Apesar disso, foi uma maravilhosa vitória, que fez esquecer o vexame contra o Botafogo. Além disso, foi o dia D, com dois gols de Douglas e mais um do maravilhoso Danilo (que já fizera 2 contra o Náutico na última partida do Timão; sem esquecer que foi dele o gol que eliminou o Santos da Libertadores e nos colocou na final).

de julho- Hoje a morte de William Faulkner completa 50 anos. Na verdade, ele morreu relativamente jovem (aos 64 anos), prncipalmente para os padrões de hoje.

Além das resenhas que publiquei ou republiquei, tinha planos de escrever um post especial em que abordaria o começo de tudo, a “fundação” de Yoknapatawpha (Solaris), um livro do meio da trajetória faulkneriana (se ele começou em 1924, com os poemas de Th O fauno de mármore e morreu em 1962, o meio seria lá por 1938, com um belo livro híbrido entre reunião de contos e romance (Os invencidos) e seu livro derradeiro, publicado no ano da sua morte (e que  no Brasil já teve dois títulos: Os desgarrados e Os  invictos.

Porém, as emoções da final da Libertadores, a celebração da vitória do Timão, enfim, tudo o que já se sabe até demais pelo país afora, bagunçou o coreto. Nestes dias, meu atuor favorito é Emerson Sheik.

Fico devendo. Mas sou um devedor feliz.

Abraço para todos.

02 de julho- Nesta semana, a morte de Faulkner (6 de julho de 1962) completa 50 anos. Por isso, o blog será todo dedicado a ele,  que é um dos meus dois autores prediletos (o outro é Thomas Mann). Por conta disso, o leitor perdoará um certo tom extremado em várias das minhas resenhas, já que em certa época eu tinha uma ardorosa reverência pelo gênio de New Albany, Mississipi.

O tom pode ser exagerado em algumas passagens, mas corresponde à verdade: trata-se de um autor admirável, entra ano passa ano. E quando leio/releio diversos autores, constato a influência indiscutível que ele exerceu. Por exemplo, há poucos meses reli “A morte de Artemio Cruz”, do recém-falecido Carlos Fuentes, e lá estava Faulkner.

primeiro de julho de 2012-Quem acompanha o blog pode estranhar que não comente Soldados de Salamina, de Javier Cercas, que saiu pela coleção de escritores ibero-americanos da Folha (também foi relançada a edição da Globo). Pude comentar os doze anteriores, porque à exceção de um (Navegações e regressos, de Pablo Neruda), que era inédito no Brasil e que li com o maior prazer, já tinha lido os livros, e até publicado resenhas sobre a maioria (O livro de areia, Sonetos do amor obscuro, Tia Julia e o escrevinhador, O túnel, A trégua, Ensaio sobre a lucidez, Histórias fantásticas, Um copo de cólera).; quanto aos outros, recorri a apontamentos pessoais para os comentários que publiquei no blog (Memória de elefante, Suicídios exemplares, Respiração artificial).

Não deu para fazer o mesmo sobre Soldados de Salamina, que aguarda na fila (sempre crescente) de leituras a serem feitas futuramente (para ser honesto, tenho mais interesse sobre outro lançamento deste ano de Javier Cercas, Anatomia de um instante). Portanto, pulo o número 13 da Coleção. Nada a ver com o número.

25 de junho- Neste dia do meu aniversário, só posso me declarar devoto de São Romarinho.

21 de junho- Cadê a joia santista? Nesses jogos da semi-final pareceu mais bijuteria.

De qualquer forma, eu não podia querer mais nada perto do meu aniversário.  E viva o Cássio, mais uma vez.

11 de junho de 2012- Sábado que vem acontece o ‘Bloomsday”, o dia clássico em que transcorre o Ulisses-Ulysses joyceano. Ao longo desta semana, o genial autor irlandês dá o tom.

Caso alguém tenha curiosidade, acesse também:

http://trajeslunares.wordpress.com/2012/06/10/o-ulysses-de-galindo-no-monte-de-leituras/

06 de junho de 2012– Sabendo da morte de Ray Bradbury agora há pouco, só me ocorreu transcrever um trecho do prólogo maravilhoso que Jorge Luis Borges escreveu à sua obra-prima Crônicas Marcianas, um dos livros mais importantes do século passado:

“O que fez esse homem de Illinois , pergunto-me, ao fechar as páginas de seu livro, para que episódios de outro planeta povoem-me de terror e solidão? Como podem tocar-me essas fantasias, e de modo tão íntimo? Toda literatura (atrevo-me a responder) é simbólica. Há poucas experiências fundamentais, e é indiferente que um escritor, para transmiti-las, recorra ao fantástico ou ao real…. Neste livro de aparência fantasmagórica, Bradbury colocou seus longos domingos vazios, seu tédio americano, sua solidão, como fez o realista Sinclair Lewis em Rua Principal”.

21 de maio- Na minha opinião, Dalton Trevisan é nosso maior autor vivo, por isso nada mais merecido do que o Camões, que já premiou tanta gente inferior a ele. E quem sabe não venha o Nobel?

Incansável, ele como escritor tem mais energia do que eu como leitor. Estou desatualizadíssimo com a produção (incessante) de Dalton Trevisan. Mas seus clássicos, eu não esqueço (O vampiro de Curitiba, O pássaro das cinco asas, Cemitério de elefantes, A trombeta do anjo vingador, Virgem loucas loucos beijos, o inusitado e genial “romance” que é A polaquinha).

18 de maio– Aproveitando a publicação da minha resenha sobre Walt Whitman, não posso deixar de apontar o inestimável levantamento (com a contribuição de seus leitores, inclusive, o que torna tudo mais interessante) que Denise Bottmann fez nos últimos dias das traduções brasileiras de Walt Whitman.

Os interessados podem acessar em: http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2012/05/walt-whitman-no-brasil.html

16 de maio- Não poderia deixar passar em branco a morte de Carlos Fuentes (ontem, 15 de maio), apesar de ter sentimentos ambivalentes a respeito da sua obra como um todo. Por coincidência, entretanto, este ano fiz uma releitura de dois dos seus melhores trabalhos, ambos cinquentenários (foram lançados em 1962), Aura (numa resenha para A TRIBUNA de Santos) e A morte de Artemio Cruz (num pequeno estudo escrito especialmente para a dEsEnrEdos de abril-maio-junho deste ano) e justamente por esses dias iniciei a leitura do mais recente livro dele traduzido no nosso país, Adão no Éden.

Fuentes tem livros extremamente bonitos, como os dois clássicos já citados, mais Gringo Velho, A fronteira de cristal, A laranjeira, Todas as famílias felizes (os que me vem logo à memória) e textos montanhas-russas com altos e baixos, e que tendem a ser ou superestimados ou subvalorizados  como Terra Nostra, Cristóvão Nonato, A vontade e a fortuna.

Mas acho que é um dos autores que ficarão.

.14 de abril de 2012Hoje o blog chega ao seu terceiro ano. E, como sempre, só me resta agradecer aos visitantes. Quando olhei há alguns minutos, totalizavam 270 mil.

No ano passado,  comemorei a data publicando resenhas sobre Eça de Queiroz. Este ano, tive o prazer de ler o novo livro de Ricardo Lísias, um dos melhores autores atuais, e aproveito para publicar as duas resenhas que escrevi para veículos diferentes sobre O céu dos suicidas.

   Aliás, nesta semana, minha colujna semanal em A TRIBUNA de Santos (Caderno Galeria) completou, ufa!,  dezenove anos. E justamente com o comentário a respeito do romance de Lísias.

Obrigado a ele por escrever tão bem e a todos que me visitam.

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28 de  março de 2012– Graças ao engenho e arte de Millôr Fernandes, eu já ri tanto, já tive tantos momentos de leitura em que via misturadas leveza, agudeza e um senso do ridículo quase machadiano, que não sei muito como homenagear esse grande mestre do humor, do olho clínico (além de um tradutor maravilhoso). Roubo aqui e ali alguns momentos:

O Rei dos Animais

Millôr Fernandes

Saiu o leão a fazer sua pesquisa estatística, para verificar se ainda era o Rei das Selvas. Os tempos tinham mudado muito, as condições do progresso alterado a psicologia e os métodos de combate das feras, as relações de respeito entre os animais já não eram as mesmas, de modo que seria bom indagar. Não que restasse ao Leão qualquer dúvida quanto à sua realeza. Mas assegurar-se é uma das constantes do espírito humano, e, por extensão, do espírito animal. Ouvir da boca dos outros a consagração do nosso valor, saber o sabido, quando ele nos é favorável, eis um prazer dos deuses. Assim o Leão encontrou o Macaco e perguntou: “Hei, você aí, macaco – quem é o rei dos animais?” O Macaco, surpreendido pelo rugir indagatório, deu um salto de pavor e, quando respondeu, já estava no mais alto galho da mais alta árvore da floresta: “Claro que é você, Leão, claro que é você!”.

Satisfeito, o Leão continuou pela floresta e perguntou ao papagaio: “Currupaco, papagaio. Quem é, segundo seu conceito, o Senhor da Floresta, não é o Leão?” E como aos papagaios não é dado o dom de improvisar, mas apenas o de repetir, lá repetiu o papagaio: “Currupaco… não é o Leão? Não é o Leão? Currupaco, não é o Leão?”.

Cheio de si, prosseguiu o Leão pela floresta em busca de novas afirmações de sua personalidade. Encontrou a coruja e perguntou: “Coruja, não sou eu o maioral da mata?” “Sim, és tu”, disse a coruja. Mas disse de sábia, não de crente. E lá se foi o Leão, mais firme no passo, mais alto de cabeça. Encontrou o tigre. “Tigre, – disse em voz de estentor -eu sou o rei da floresta. Certo?” O tigre rugiu, hesitou, tentou não responder, mas sentiu o barulho do olhar do Leão fixo em si, e disse, rugindo contrafeito: “Sim”. E rugiu ainda mais mal humorado e já arrependido, quando o leão se afastou.

Três quilômetros adiante, numa grande clareira, o Leão encontrou o elefante. Perguntou: “Elefante, quem manda na floresta, quem é Rei, Imperador, Presidente da República, dono e senhor de árvores e de seres, dentro da mata?” O elefante pegou-o pela tromba, deu três voltas com ele pelo ar, atirou-o contra o tronco de uma árvore e desapareceu floresta adentro. O Leão caiu no chão, tonto e ensangüentado, levantou-se lambendo uma das patas, e murmurou: “Que diabo, só porque não sabia a resposta não era preciso ficar tão zangado”.

M O R A L: CADA UM TIRA DOS ACONTECIMENTOS A CONCLUSÃO QUE BEM ENTENDE.

Poeminha Tentando Justificar Minha Incultura Ler na cama
É uma difícil operação
Me viro e reviro
E não encontro posição
Mas se, afinal,
Consigo um cómodo abandono,
Pego no sono.

Millôr Fernandes, in “Pif-Paf”

Poeminha de Insatisfação Absoluta O que me dói
É que quando está tudo acabado
Pronto pronto
Não há nada acabado
Nem pronto pronto
Pintou-me a casa toda
Está tudo limpado
O armário fechado
A roupa arrumada
Tudo belo, perfeito.
E no mesmo instante
Em que aperfeiçoamos a perfeição
Uma lasca diminuta, ténue, microscópica,
Não sei onde,
Está começando
Na pintura da casa
E as traças, não sei onde,
Estão batendo asas
E a poeira, em geral, está caindo invisível,
E a ferrugem está comendo não sei quê
E não há jeito de parar.

Millôr Fernandes, in “Pif-Paf”

 

ete de fevereiro- Publiquei hoje o post 500 e só podia ser uma homenagem a Júlio Verne, meu autor favorito da infãncia, mesmo porque amanhã é o dia Verne (data do seu nascimento) e ele é o campeão entre os autores comentados por aqui, o mais acessado. Nele, abordo um livro menos conhecido, UMA CIDADE FLUTUANTE, onde vemos aquele movimento transatlântico que caracterizou a carreira de alguns escritores marcantes do século XIX, que !descobriram” a América, caso de Dickens e Wilde, entre outros.

tres de fevereiro– Através de comentários dos leitores, tive a informação–com dois dias de atraso–da morte da grande Wislawa Szymborska, aos 88 anos, cuja poesia me acompanhou em viagem no ano passado, e foi em si mesma uma grande viagem para mim em 2011. Recomendo enfaticamente.

05 de janeiro de 2012

Caros amigos, no meu post sobre os destaques de 2012, entre os quais incluí a tradução de Marcelo Backes (ótimo tradutor, cujo trabalho acompanho há anos) para OS SONÂMBULOS, de Hermann Broch, fiz um pequeno reparo a um determinado trecho.

    O mais que consciente da importância do seu trabalho Backes enviou-me o seguinte comentário (para não ficar perdido, transcrevo-o aqui), que funciona como um oportuno esclarecimento:

Caro Alfredo!
Parabéns pelo blog e pelas excelentes leituras.
Alguém me escreveu dizendo que citaste um erro crasso na minha tradução de Broch.
Li o que escreveste e até me assustei; fui logo ao documento em word que mandei à editora e, mais uma vez, o erro foi do revisor; tenho até um personagem que vive a sacanear a classe dos revisores em “três traidores e uns outros”, porque constantemente eu, o autor, sou vítima deles quando traduzo.
Entreguei o trecho que referiste da seguinte forma: “No dia seguinte, ele soubera do médico que havia sofrido um traumatismo craniano, e ficara muito orgulhoso disso. Helmuth estava sentado em sua cama, e ainda que Joachim soubesse que o pônei fora abatido com um tiro pelo pai, eles não disseram uma palavra a respeito, e mais uma vez foi uma época boa….” Foi apenas para o revisor que o pônei sofreu o traumatismo craniano. Não sou Pilatos, mas lavo – e de coração dolorido – as minhas mãos, tornando pública a discussão, e ademais garantindo que a tradução portuguesa apara em demasia as arestas do original.
Abraço
Marcelo Backes

    Desta forma, meu leitor também fica esclarecido a respeito da questão e cabe à editora sanar esses deslizes imperdoáveis.

            

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20 de outubro de 2011

“não há perguntas mais urgentes

do que as perguntas ingênuas” (Wiswala Szymborska)

O blog está meio devagar em suas postagens porque estou em férias, longe de casa. Mas gostaria de compartilhar com meus leitores pelo menos um poema da minha companheira de viagem, a polonesa Wislawa Zzymborka (em tradução de  Regina Przybycien),  apesar de ter vontade de transcrever vários outros:

 O quarto do suicida

Vocês devem achar que o quarto estava vazio.

Pois havia ali três cadeiras de encosto firme.

Uma boa lâmpada contra a escuridão.

Uma mesinha, e sobre a mesinha uma carteira, joranis.

Um buda alegre, um Jesus aflito.

Sete elefantes para dar sorte, e na gaveta um caderninho.

Vocês acham que nele não estavam nossos endereços?

Acham que faltavam livros, quadros ou discos?

Pois lá estava o trompete consoador nas mãos negras.

Saskia com uma for cordial.

Alegria, centelha divina.

Na estante Ulisses, num sono reparador

depois dos esforços do Canto Cinco.

Os moralistas,

seus nomes inscritos em letras douradas

nas lindas lombadas de couro.

Ao lado, também os políticos perfilados.

Não parecia que o quarto fosse

sem saída, pelo menos pela porta,

nem sem vista, pelo menos pela janela.

Os óculos para onge largados no parapeito.

Uma mosca zunindo, ou seja, ainda viva.

Devem achar que ao menos a carta explicasse algo.

E se eu lhes disser que não havia carta–

éramos tantos os amigos e coubemos todos

no envelope vazio apoiado ao lado do copo.”

06 de outubro de 2011-  É sempre meio frustrante quando há o anúncio do Nobel e não conhecemos nada do autor, ainda mais depois de vários anos em que isso não acontecia: de 2005 para cá (após a vitória, no ano anterior, da “desconhecida” Elfriede Jelinek) ganharam Harold Pinter (cujas peças eu sempre admirei), Orhan Pamuk (pelo menos tinha lido O castelo branco), Doris Lessing (de quem eu já lera 20 e poucos livros), J.M.G. Le Clézio (já lera três romances), Herta Müller (não lera, mas tinha O compromisso, e portanto estava à mão conhecer sua obra), Vargas Llosa (outro de quem eu já lera 20 e poucos livros).

Era previsível que um poeta ganhasse este anos, após o teatro e a ficção terem sido privilegiados anos a fio (como se pode deduzir da pequena lista acima). Infelizmente, não posso contribuir com nenhum comentário pessoal sobre o ganhador Tomas Tranströmer. Apenas posso reproduzir os dois únicos poemas dele que conheço, em tradução do português Luiz Costa:

FUNCHAL
O restaurante do peixe na praia, uma simples barraca,
construída por náufragos.
Muitos, chegados à porta, voltam para trás, mas não assim
as rajadas de vento do mar.
Uma sombra encontra-se num cubículo fumarento e assa
dois peixes, segundo uma antiga
receita da Atlântida. Pequenas explosões de alho.
O óleo flui nas rodelas do tomate. Cada dentada diz-nos que
o oceano nos quer bem,
um zunido das profundezas.
Ela e eu: olhamos um para o outro. Assim como se trepássemos
as agrestes colinas floridas,
sem qualquer cansaço. Encontramo-nos do lado dos animais,
bem-vindos, não envelhecemos. Mas já suportámos tantas
coisas juntos, lembramo-nos disso, momentos em que
de pouco ou nada servíamos (por exemplo, quando esperávamos
na bicha para doarmos sangue ao saudável gigante –
ele tinha prescrito uma transfusão).
Acontecimentos, que nos poderiam ter separado, se não nos tivessem
unido, e acontecimentos
que, lado a lado, esquecemos – mas eles não nos esqueceram!
Eles tornaram-se pedras. Pedras claras e escuras. Pedras de
um mosaico desordenado.
E agora mesmo acontece: os cacos voam todos na mesma direcção,
o mosaico nasce.
Ele espera por nós. Do cimo da parede, ilumina o quarto de hotel,
um design, violento e doce,
talvez um rosto, não nos é possível compreender tudo, mesmo
quando tiramos as roupas.
Ao entardecer, saímos.
A poderosa pata azul escura da meia ilha jaz expelida sobre o mar.
Embrenhamo-nos na multidão, somos empurrados, amigavelmente,
suaves controlos,
todos falam, fervorosos, na língua estranha.
“ Um homem não é uma ilha “
Por meio deles fortalecemo-nos, mas também por meio de
nós mesmos. Por meio daquilo que
existe em nós e que o outro não consegue ver. Aquela coisa
que só se consegue encontrar
a ela própria. O paradoxo interior, a flor da garagem, a válvula
contra a boa escuridão.
Uma bebida que borbulha nos copos vazios. Um altifalante
que propaga o silêncio.
Um atalho que, por detrás de cada passo, cresce e cresce.
Um livro que só no escuro se consegue ler.

 
LISBOA
No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas
subidas.
Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!
“Mas aqui”, dizia o revisor e ria baixinho, maliciosamente,
“aqui sentam-se os políticos”. Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.
A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde, perguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real, ou fui eu que sonhei?

 A academia que outorga o Nobel de Literatura até que tem se mostrado circunspecta e parcimoniosa com relação aos autores do seu país e dos adjacentes, depois de–no primeiro meio século do prêmio–abusarem um pouco da proximidade geográfica ou do conceito cristão de que a caridade começa em casa . Quem no futuro avaliar a literatura européia pelo Nobel pensará que os países escandinavos e a Alemanha dominavam a literatura da época: logo de saída tivemos Theodor Mommsem, Bjornstjene Bjorson (será assim o nome?!), Rudolf Eucken e Selma Lagerlof–isso na primeira década; logo depois tivemos Paul Heyse, Gerhart Hauptmann, Verner von Heidenstam,  Karl Gjellurup, Henrik Pontoppidam, Carl Spitteler, Knut Hamsum, Sigrid Undset,  Erik Axel Karlffeldt, Emil Sillanpaa, Johannes Vilhelm Jensen, Par Lagerkvist, Halldor Laxness. Como se pode ver, uma lista quase exótica (aqui não se está discutindo o valor de cada um, apenas a estranheza da quantidade). Mas o último prêmio dado a suecos foi em 1975, no empate entre os “desconhecidos” Eyvind Johnson e Harry Martinson. Portanto, a situação se equilibrou.

19 de setembro de 2011– O título do meu post em homenagem ao grande William Golding é uma brincadeira com o título brasileiro do divertido romance de Joseph Heller Gold vale ouro (no original, Good as Gold),.

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20 de junho de 2011– Fiquei tão ocupado com Jung e Vila-Matas nas últimas semanas que só fiquei sabendo da morte de Jorge Semprun, por acaso, folheando a Veja na casa dos meus pais.  Então, demorou um pouco, mas acabei escrevendo para “A Tribuna” uma resenha-homenagem, e não poderia faltar, pois na minha trajetória pessoal de leitor, Semprun é central. Mesmo assim, devo dizer que fiquei curioso a respeito do destaque dado pela “Veja” ao seu passamento: uma página inteira. O pobre Ernesto Sabato mereceu apenas uma notinha, e o caso José Saramago foi escandaloso: o autor da língua portuguesa mais prestigiado das últimas décadas mereceu meia-página. Mas é claro, Saramago era renitentemente comunista, enquanto que Semprun–como Vargas Llosa–inclinou-se cada vez mais para um anti-esquerdismo (embora, se formos precisos, nem ele nem o peruano podem ser rotulados tão facilmente assim). É por isso que, apesar do tanto que admiro o autor de Autobiografia de Federico Sanchez me irritei, pois não há uma avaliação mínima do seu valor literário no texto da Veja, só se destaca seu rompimento com o comunismo. Eta revista chinfrim!

 

primeiro de maio – Só soube da morte do grande Ernesto Sabato lá pela hora do almoço, quando fui na casa dos meus pais. Até lá, o dia estava dominado pela expectativa do jogo Corinthians X Palmeiras.

Sabato foi um dos primeiros autores que amei seriamente. Li “O túnel” em 1981 e “Sobre heróis e tumbas” , “Abadon, o exterminador” e “O escritor e seus fantasmas” em 1982, portanto são 30 anos de uma convivência que às vezes se tornou difícil, pois como todas as verdadeiras relações, não faltavam atritos, conflitos e questionamentos. Contudo, para se ver como ele foi importante para mim, no meu projeto inicial de mestrado “Sobre heróis e tumbas” era um dos livros focalizados (depois seria tema de um curso).

Sabato não chegou aos 100 anos, que faria dia 24 de junho. Mas tem tudo para sobreviver ao longo de muitos outros centenários.

10 de abril de 2011

Antes de mais nada, adeus Sidney Lumet, grande mestre de uma arte quase perdida: saber tirar o máximo de um texto, tirar o máximo dos atores e ter um assunto, uma causa… Hoje parece ter valor um trabalho conteudístico, um vigor de temas com contornos mais tradicionais, mas se houve um apogeu dessa forma de fazer filmes, ao mesmo tempo popular e difícil, um de seus mestres foi esse realizador notável que faleceu ontem.

Para mim, sua obra-prima é Network-Rede de Intrigas (1976), que me impressionou quando eu era garoto, e que revi há pouco, para continuo admirando (é um tremendo momento para William Holden, secundado por Peter Finch e Faye Dunaway,num texto excepcional de Paddy Chayefski). Da mesma safra, acho que Um dia de cão, que também tinha me impressionado, me deixado de boca aberta, envelheceu um pouco, mesmo assim gosto bastante do filme.

Tem os mais antigos e memoráveis Doze homens e uma sentença,  Limite de segurança, O homem do prego, a adaptação inesquecível de Longa jornada noite adentro, todos eles com um preto e branco denso, e uma austeridade que os torna quase atemporais.

Tem o  belíssimo O veredito (muito melhor que os outros concorrentes a melhor filme no Oscar de 1982: Gandhi, E.T., Tootsie e Missing). Por mais que se tenha visto filmes de tribunal, é um trabalho brilhante (e a cena do depoimento de Lindsay Crouse inesquecível; aliás, Crouse também está memorável no meu outro filme favorito de Lumet, Daniel, altíssimo momento do cinema político norte-americano; outo exemplar dessa linha e que eu adoro é Running on empty, com River Phoenix,Christina Lahti, Judd Hirsch e Steven Hill, todos bárbaros).

E pensar que Network perdeu o Oscar para “Rocky” e Lumet para John Gl Alvidsen (quem?) e O veredito perdeu para o xaroposo “Gandhi” e Lumet para a direção paquidérmica de Richard Attemborough!

28 de março de 2011– Aproveito a biografia vibrante de Nadia Fusini sobre Virginia Woolf,Sou dona da minha alma, para não deixar passar a data: há 70 anos, mais ou menos pelo final da manhã (11h45m), ela colocou pesadas pedras nos bolsos do seu casaco e atirou-se no rio.

Há bonitas biografias de Woolf, a de Quentin Bell e a de John Lehmann, mas elas eram respeitosas por demais, creio eu, talvez porque um era sobrinho e o outro amigo e discípulo. A de Fusini traz uma perspectiva nova e é mais um ensaio do que uma biografia convencional.

Para quem se interessar em saber a importância de mrs. Woolf para mim, coloquei algumas resenhas que fui escrevendo ao longo dos anos sobre ela, pálido reflexo da presença dos seus livros na minha vida. A título de curiosidade, quando em 1999 fiz uma lista dos “melhores livros” do século XX (que pretensão!), para o jornal A TRIBUNA de Santos, os dez primeiros eram estes:

1) A montanha mágica (Thomas Mann)

2) Luz em agosto (William Faulkner)

3) O castelo (Franz Kafka)

4) As ondas (Virginia Woolf)

5) Em busca do tempo perdido (Marcel Proust)

6) As asas da pomba (Henry James)

7) Ulisses (James Joyce)

8) O estrangeiro (Albert Camus)

9) O homem sem qualidades (Robert Musil)

10) Nostromo (Joseph Conrad)

A vertigem das listas…

16 de fevereiro de 2011– Para comemorar as cem mil visitas no blog (chegamos a esse número hoje), além de agradecer aos meus visitantes, publico um post sobre o grande escritor português José Luís Peixoto (após dois romances lidos, não tenho dúvidas a respeito). Eu já devia ter escrito sobre Cemitério de pianos, mas deixei a oportunidade passar. Na semana passada, apesar do calor quase que dantesco que fazia, a  linguagem de Peixoto me envolveu, me embalou e me salvou.

03 de fevereiro de 2011

 28 de novembro de 2010- O caso O CONDENADO

No meu post  GLOBALIZAÇÃO LITERÁRIA: A OBRA DE GRAHAM GREENE reproduzo uma resenha de 2002 onde comento grotescos erros na edição de O condenado lançada então pela Globo. Na época, um amigo meu, Antonio Barbosa Jr. chegou a enviar um e-mail com a minha crítica, e o sr. Joaci Pereira Furtado me enviou a seguinte mensagem:

Prezado Sr. Alfredo Monte,

tomamos conhecimento hoje de seu artigo publicado em 17/06 no jornal
A TRIBUNA, de Santos, sobre O CONDENADO, de Graham Greene, e lhe agradecemos
a acurada leitura de nossa edição. Graças ao seu cuidado, pudemos constatar
os diversos e imperdoáveis erros que se encontram ao longo das páginas dessa
obra-prima que recolocamos no mercado. Por isso, comunicamos que estamos
tomando as devidas providências para recolher a edição das livrarias. Ao
mesmo tempo, estamos cuidando para corrigi-la e relançá-la em breve, agora
sem erros.
 
Cordialmente,
Joaci Furtado
editor assistente

 E nunca mais entraram em contato. Agora, com a publicação do post, o editor André de Oliveira Lima entrou em contato comigo e gentilmente me enviou um exemplar da reimpressão (de 2006, um pouco demorada, mas antes tarde do que nunca) do livro, na qual são corrigidos todos os erros mencionados no meu texto.  Gostei da atitude do André, profissional e expedita, que merece nosso aplauso,só me pergunto o seguinte: os compradores de 2002 tiveram seus direitos assegurados? Houve troca dos exemplares daquela primeira edição?

15 de novembro de 2010– Por conta da minha imersão na Guerra de Canudos versão Vargas Llosa para minha participação no I-Simpósio de Letras da UNIMES de Santos, acabei deixando passar uma efeméride importante, o centenário da morte de Tolstói, talvez o maior de todos os escritores, junto de Flaubert, que aconteceu em 7 de novembro de 1910. É verdade que fiquei um pouco à espera de The last station, onde Christopher Plummer vive o escritor em seus últimos dias, e Sua Majestade Helen Mirren a esposa-tirana, achando que não perderiam a oportunidade de lançar o filme nessa ocasião aqui no Brasil. Por isso, acabei me distraindo…

Como a CosacNaify publicou  este ano duas traduções de Tolstoi (uma, inédita, de Ressurreição; outra, já editada anteriormente pela Cultrix, de Khadji Murát) ainda há pano para manga nos próximos dias (embora eu esteja envolvido na leitura de obras de Rachel de Queiroz–outro centenário, só que de nascimento–que eu não conhecia, como Dôra Doralina & O galo de ouro, que me parecem o melhor da sua produção).

Vamos ver se há tempo pra tudo…

primeiro de setembro de 2010-

Recém-chegado de João Pessoa, queria transmitir aos meus leitores a alegria de ter participado do AGOSTO DAS LETRAS, mas logo fui atropelado pelo cotidiano e pela exibição do último episódio, ao que parece, da legendária série Law & Order, da qual gosto tanto que chego a acompanhar nos sábados à tarde a reprise de temporadas antigas, mesmo as que eu já vi.  Além disso, hoje é o dia do centenário do Timão, o que valeria um post, se esse fosse o propósito do blog. Infelizmente, não é, mas fico o registro da data histórica.

03.07.10- Nélida Piñon, a Sherazade de camelô.  Não a Sherazade de camelo pelo deserto,não. Sherazade de camelô, quer dizer produto falsificado, de segunda ou terceira, “do doce”.

14.06.10- Fiz uma pequena trilogia de autores em que o dever filial, o peso patriarcal,  a maldição de ser um filho pródigo, faz limite com a questão agrária, com a questão da posse da terra. As resenhas são de épocas diferentes, e as que escrevi sobre o talentoso Carlos Herculano Lopes me deixam até embaraçado, mas achei interessante a aproximação de Sombras de Julho & O último conhaque com Abril despedaçado & Lavoura arcaica.

19.05.10- Estou muito longe de estar satisfeito com o que escrevi de Combateremos a sombra, de Lídia Jorge, mas acho que pelo menos consegui sintetizar um pouco o romance para o leitor ter uma idéia. O que faltou foi a análise e uma demonstração cabal da sua linguagem, do  belo trabalho de narração, dos momentos de deslumbramento que o leitor do livro, independentemente do seu significado político, até alegórico, tem a cada passo.

Lídia Jorge foi uma das três autoras que me apaixonaram nos últimos meses: as outras duas são a britânica Kate Atkinson ( Quando haverá boas notícias?; Por trás das imagens no museu) e a canadense Anne Michaels (Peças em fuga).

13.05.10- Um bando de leitoras desvairadas de Dan Brown resolveu fazer campanha contra mim,  postando comentários malcriados a meu post sobre Anjos e Demônios. Ainda bem que, aqui, sou só virtual, porque elas querem fazer algo digno das Bacantes comigo: despedaçar é pouco… E eu ainda caí na besteira de responder de forma irônica, bancando o “superior”.

18.04.10- Agora o desmembramento do antigo post O SECO E O TRANSBORDANTE está completo. Ele foi transformado em quatro seções: temos a dupla de secos (Onetti & Rulfo) e a dupla transbordante (García Márquez & Carpentier). Embora aprecie mais a primeira dupla, isso não tira a eminência da segunda, e nem indica que gosto mais do seco do que do transbordante.

17.04.10- Como parte da retrospectiva do blog, após completar um ano, estou desmembrando um antigo post , O SECO E O TRANSBORDANTE, no qual arrolei vários autores latino-americanos, dois dos quais compartilhavam justamente a primeira característica (secura), enquanto dois outros primavam pela segunda (a transbordância).

27.03.10- No começo do blog, eu tinha o hábito de juntar textos sobre diversos autores num post só. Assim era a seção “Senhores da Ficção”, na qual estavam espremidos textos sobre nossos dois maiores escritores do século XX, Guimarães Rosa & Clarice Lispector. Resolvi tirá-los dali (apesar de gostar do nome “Senhores da Ficção”, que tem tudo a vem com autores como Rosa ou Tolkien, por exmplo) e lhes dar o destaque merecido, em posts próprios.

21.03.10- Nestes últimos dias, resolvi ler Ser Bambu, de Cesare Battisti, sobre o qual eu sabia–de fato–pouquíssimo, movido por pura curiosidade de leitor. Achava que seria um “depoimento”, uma auto-justificação. Nem sabia que havia uma obra literária no rastro da vida de Battisti. Por isso, peço ao meu leitor, que não considere o post sobre esse livro um posicionamento político, pró ou contra a extradição do ex-militante italiano. Não porque não goste de me posicionar, ou publicar de forma clara minhas opiniões, simplesmente porque não tenho o que dizer a respeito. O meu foco é o livro em si, que é interessante, apesar de o ser mais na primeira metade do que na segunda, um love story meio indigesto, envolvendo o MST e a Reforma Agrária.

11,03.10- Com a perspectiva do relançamento do filme de Scorsese baseado em Dennis Lehane, resolvi colocar no blog o que escrevera sobre outro romance do talentoso autor norte-americano, Mystic River. Não sei por que exatamente, mas não suporto o título brasileiro, Sobre meninos e lobos, e tenho sérias restrições sobre a versão de Clint Eastwood, principalmente quanto à direção de atores e à mão pesada para dar conta de uma trama complexa; apesar do roteiro desajeitado, gosto mais, ou pelo menos acho mais simpática a versão de Ben Affleck para Gone, baby, gone (parece que aqui não acertam os títulos de Lehane, é um escândalo a preguiça em tentar um título equivalente em português). O livro é muito irregular (mais do que Mystic River), contudo ganha vôo assombrosamente quando sentimos Lehane “em casa”, recortando e recriando o pedaço de mundo onde cresceu, e fazendo surgir ruas, bairros, tipos. É o que estou sentindo falta no que li até agora de Paciente 67, o romance que inspirou Scorsese. Mas isso é assunto para um post mais demorado.

02.03.10

14.02.10- E.M. Forster foi durante muito tempo eclipsado. Já na sua época, ele era preterido em função do sucesso de John Galsworthy ou Arnold Bennet, por exemplo, e havia Henry James e Joseph Conrad, sombras temíveis para qualquer um, é verdade; masi tarde, Joyce, Virginia Woolf e D.H. Lawrence é que o eclipsaram. Graças ao cinema, a David Lean (embora eu não goste de sua versão de Passagem para a Índia) e James Ivory, o grande escritor eduardiano foi resgatado do oblívio. A única grande obra dele que ainda não foi revalorizada acabou sendo o belíssimo A mais longa jornada.

Publico hoje minha resenha de 2006 sobre Howards End, obra-prima que se torna centenária em 2010. Ela foi escrita em cima de uma versão anterior, publicada em 1993, da qual eu nunca fui muito fã, sempre achei um dos meus trabalhos mais fracos, que acrescento aqui, por curiosidade arqueológica:

Pode-se presentear uma propriedade valiosa, devido a uma intuição?  HOWARDS END, de E.M. Forster (1879-1970) é a história de um legado inusitado: as Schelegel, Margaret e Helen, intelectuais, liberais, que vivem com uma renda limitada, mas segura, conhecem a rica família Wilcox. Num primeiro momento, Helen (a mais ousada das irmãs) envolve-se com Paul, o caçula dos Wilcox. Não dá certo. Depois, Margaret aprofunda a amizade com a (muito mais refinada que o restante da sua família) sra. Wilcox que, num arroubo, a convida para conhecer Howards End, a casa onde nascera. Não dá certo. A sra. Wilcox morre e sua família recebe um bilhete escrito a lápis e muito tosco, no qual ela pede ao marido que dê Howards End a Margaret. Não dá certo, os Wilcox, num conselho de fámília, resolvem queimar o bilhete com o estranho legado. Anos depois, o sr. Wilcox casa com Margaret, que de nada sabia. Dá certo?

Esse enredo foi recentemente recontado de uma forma maravilhosa na irretocável adaptação cinematográfica de James Ivory, pela qual Emma Thompson, a intérprete de Margaret, recebu o Oscar.  O livro, publicado em 1910, ganha agora uma edição da Ediouro, traduzido por Ruy Jungmann.

E se a história é a mesma, as qualidades do filme e do livro, ambos obras-primas (o que é raro) são diversas. James Ivory realizou alguns dos filmes obrigatórios dos últimos anos (como Uma janela para o amor- A room with a view, também baseado num romance de Forster, ou Mr. e Mrs. Bridges, por ser grande cineasta e não apenas tributário da grande literatura, embora busque a inspiração de vários de seus trabalhos nela.

Há uma personagem de HOWARDS END que nenhuma adaptação poderia transpor a contento: o narrador,  que não faz parte da intriga como personagem, contudo é essencial à narrativa, é o mestre de cerimônias que conversa com o leitor, que o provoca e que o guia com brilhantismo pelo complexo painel social, retratando o período eduardiano, que sucedeu a era vitoriana; e esta não foi só a era da repressão sexual, como sempre se mostra; foi também, e sobretudo, o cenário de imensas transformações sociais. Em HOWARDS END Forster disseca as consequências dessas transformações, principalmente o desenvolvimento da metrópole londrina. E elege Howards End, a casa, como símbolo da tensão entre os velhos valores (pois ela é associada à terra e à natureza) com os valores conflitantes do capitalismo puro e do idealismo não tão puro.

E se achamos apaixonantes os dilemas de sensibilidade e éticos das simpáticas Schlegel defrontadas com os materialistas e vulgares Wilcox, não podemos deixar de notar sua alienação e como todos, Schlegels e Wilcoxes, são parteiros da grande tragédia do livro, cuja vítima é Leonard Bast, o representante dos desfavorecidos nesse casamento entre prosperidade e civilização (para quantos?).

Já se descartara antes a telúrica, quase visionária, sra. Wilcox, a qual representa um tipo que Forster desenvolverá quase até a santidade leiga na figura da sra. Moore de Passagem para a Ìndia (1923), outro romance extraordinário, infelizmente transformado num filme paquidérmico e chato de David Lean.

De todo modo, seja a sra. Wilcox, seja Len Bast, sejam as Schlegel, seja o narrador entretecido na tentativa de descobrir, já que o dinheiro é a trama do mundo,  qual seria a tessitura, todos expressam perplexidades que continuam. E, como casa, literatura e cinema, em HOWARDS END, trama e tessitura se entrelaçam de forma inesquecível. É o realismo em sua melhor forma.

(resenha publicada originalmente emA TRIBUNA de Santos, em 30 de maio de 1993)

07.02.10

Estes últimos dias não foram muito produtivos no campo da leitura e da escrita, uma vez que voltei ao trabalho e meu pai passou por uma operação pesada e encontra-se na UTI.

31.01.10

Uma coisa que esqueci de esclarecer é que muitas citações que eu uso no meu post sobre J.D. Salinger, não dos textos dele, mas sobre a obra dele, eu extraí de um precioso livro  de Ian Hamilton, In search of J. D. Salinger (1988), que comprei por R$ 3 num sebo em S. Paulo, há muitos e muitos anos,  num daqueles golpes de sorte que às vezes acometem caçadores de livro. É uma mistura (breve e eficiente) de biografia, análise crítica e da recepção dos livros de Salinger. Recomendo.

28.01.10- Como soube, através de um recado na secretária do celular pelo meu amigo Chico Marques (que é um verdadeiro CHICONEWS), da morte do grande J.D. Salinger corri para transcrever dois artigos que publiquei em 2001 sobre Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour, uma apresentação; na época o livro reunindo os dois textos saíra pela Companhia das Letras, mas ao que tudo indica, há uma edição da L&PM mais recente com a mesma (e notável) tradução de Jorio Dauster. Em 2003, ainda escrevi três resenhas sobre a caixa que saíra pela Editora do Autor contendo o problemático Franny & Zooey, o sensacional O apanhador no campo de centeio e as “jóias da coroa” salingeriana, as Nove estórias, mas o meu impulso necrológico não chega ao ponto de transcrevê-las hoje. Fica para os próximos dias. De todo modo, um grandíssimo autor, mais um que se vai.

24.01.10- Caros amigos, neste domingo não haverá a seção SEMPRE AOS DOMINGOS porque ela é dedicada a autores brasileiros e estou enfronhado na leitura de António Lobo Antunes. Perguntaram-me também se eu tinha desistido de “Férias com Drummond”. Não desisti, mas estou num dos momentos mais difíceis da obra drummondiana, Claro Enigma, tão ou mais extenso que A rosa do pov e com poemas-pauleiras. Todavia, ainda esta última semana de férias pretendo fazer atualizações. Quando se lê Lobo Antunes não dá muita vontade de ler outra coisa junto, ele é um dos escritores mais absorventes e “totais” que já existiram, mas como um certo aspecto do seu universo é bem drummondiano, acho que dará para conciliar os dois.

BOA SEMANA PARA TODOS

21-01-10- Ontem terminei a leitura de O arquipélago da insónia, uma mistura inquietante e exorbitante de Faulkner com Beckett, e isso me deu a oportunidade de retomar uma seção que ficou meio perdida: “Leituras em Espelho”.  Na verdade, por uma questão de paralelismo, o mais recente Saramago (Caim) deveria ser alinhado com o mais recente Lobo Antunes (Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?, o qual saiu há pouco pela Alfaguara), contudo agora já é tarde, os espelhos serão esses mesmos. De qualquer forma, uma amostra de Que cavalos… pode ser dada, para acompanhar a noção de “eu nada” que guia o ajudante do feitor de Arquipélago da insónia e os demais narradores do livro. É uma vinheta contada por um dos narradores, a respeito do notário (cuja esposa usa uma peruca), com o qual ele combina um golpe no que restou da fortuna familiar:

“o notário continuando a olhar a peruca e ela a ajeitar de novo desejosa de agradar-lhe (…) quando não era a peruca que lhe fazia fernicoques, há eternidades que se desinteressara da peruca e da esposa, era a a ausência de nexo dos dias, o que se faz com eles, tudo tão claro dantes, tão lento, a empregada da aliança a arriscar

__ Não é feliz doutor?

e o notário olhando a empregada como olhava a peruca, de uma distâsncia que o afligia a si mesmo

___ Onde estou que não sei?

(…) com a certeza de que se passeasse na rua nem a sombra o acompanhava

(__O que aconteceu à minha sombra não mintam)”

10-01-10- E eis de volta a seção que criei para comentar a  literatura brasileira, “Sempre aos domingos”, e que leva este nome por ser escrita aos domingos e ser a base (sempre são um pouco mais curtas) para as minhas resenhas em “A Tribuna” de Santos, que saem às terças.

31.12.09- FELIZ 2010- Tudo de bom no próximo ano,caros amigos, e obrigado pelas 16 mil visitas desde o início “oficial” deste blog em 14 de abril de 2009

20-12-09- Enquanto vou me desvencilhando dos compromissos profissionais para sair de férias, aproveito para fazer um balanço das comemorações de 2009. Hoje postei o que lembro do século XIX (não vamos recuar aos outros séculos, ou a tarefa não teria fim). Depois, colocarei o que lembro do século XX. Além disso, pretendo reparar duas lacunas do blog, leituras que ficaram em suspenso, a de Microcosmo, de Claudio Magris, e a de O arquipélago da insónia, de Lobo Antunes, nem que seja para limpar a área para as seções nas quais os coloquei (“Leitura da Semana” & “Leituras em Espelho”), que seriam retomadas a partir do início do ano.

Perguntaram-me sobre o que seria a seção “Sempre aos domingos”. Se tudo correr bem, será o lugar onde comentarei novos livros da literatura nacional.

08.12.09- A enxurrada de resenhas que publiquei hoje sobre Paul Auster (e ainda não localizei todas) foi motivada pela reunião de ontem do nosso grupo de palpiteiros culturais, OS DEPORTADOS, formado por Chico, Cecília, Cláudia, Marcelo e eu: entre outros assuntos, fizemos uma panorâmica da obra de Auster, que deverá aparecer no blog www.osdeportados.blogspot.com ao longo da semana, além de outras pautas. Visite-nos, veja-nos e ouça-nos.Até a semana passada, ainda não tínhamos encontrado a fórmula visual correta, mas acho que agora estamos acertando.

18.11.09-

Li no domingo um artigo de Patricia Cohen, que saiu no The New York Times,  e foi reproduzido no Estadão (Caderno 2, 15.11.09), no qual ela comenta mais um livro anti-Heidegger, publicado na França em 2005: Heidegger-Introdução do nazismo na filosofia, de Emmanuel Faye. A preocupação levantada pelo texto é de que haja uma disseminação de idéias nazistas que embasam a filosofia heideggeriana. O texto termina assim: “Na sua opinião [ de Faye], ensinar as idéias de Heidegger sem revelar suas profundas simpatias pelo nazismo é como levar uma criança a um espetáculo de fogos de artifício sem alertá-la de que um rojão também pode explodir no rosto de alguém”.

A minha pergunta é: se alguém está gabaritado não só para ensinar, como também estudar, as idéias de Heidegger, dá para fazer tal analogia? Uma pessoa que enfrente tal desafio cognitivo (porque, convenhamos, e aqui escreve alguém que lutou com a primeira parte de Ser e Tempo), e consegue enfrentar essa linguagem atordoante, pode não ter consciência dos seus supostos perigos e conseguir desemaranhar idéias discutíveis e até temerárias das idéias válidas e seminais? Um Benedito Nunes (a quem devo quase tudo o que sei de Heidegger) levaria realmente alguém a um espetáculo de fogos de artifício e não chamaria atenção para os eventuais rojões? Há leitura isenta de Heidegger? Há leitura que não discrimine na sua filosofia o que interessa a quem a está estudando e interpretando?

Por isso, acho uma bobagem esse tipo de alarmismo pseudo-intelectual. Que há idéias fascistas, nazistas por aí, isso há. Mas é uma estupidez confundir a especulação filosófica com uma espécie de transmissão naîve de ideologias “embutidas” nos conceitos filosóficos de cada autor.

Quem está na chuva é pra se molhar. O nazista que alguém encontre em si não precisa de um Heidegger para legitimá-lo.

08.11.09:

acusados

Há mais ou menos 20 anos, o filme Acusados mostrava uma promotora levando aos tribunais os espectadores de um estupro. Por quê? Na verdade, eles incitaram o crime. Complicando as coisas, a moça era vulgar, bêbada, oferecida, isto é, a vítima parecia culpada do seu infortúnio.
Não era grande coisa cinematograficamente, mas era representante daquele “avanço” de percepção que é uma qualidade subestimada,muitas vezes, da indústria cultural. O fato de a heroína ser ordinária, fácil, disfuncional, e mesmo assim ter os seus direitos garantidos, e o público se identificar com ela,  é algo que me vem à mente agora quando aconteceu o espantoso episódio da UNIBAN de São Bernardo do Campos. Ainda na época de Acusados, a PM representava para nós a repressão, os estudantes é que representavam as forças saudáveis da sociedade que permitem avanços de percepção como o do filme (independentemente de sua mediocridade como obra cinematográfica). Hoje a PM parece representar as forças da razão contra a total intolerância, boçalidade e reacionarismo de, pasme-se, estudantes universitários.Que retrocesso, que coisa incrível de se verificar em 2009: uma turba xingando e apupando uma pessoa que incomoda, que instiga, que provoca… E uma turba que se arroga o direito de ditar quem deve ou não permanecer num espaço social, que por definição é de todos.
Há exemplos mais graves ainda, mais preocupantes: eu detesto novela de televisão. Mas nos últimos tempos fico cada vez mais abismado com os espectadores de telenovelas. Nada contra o folhetim, o maniqueísmo entre mocinhos e vilões, nada disso, essas fórmulas sempre vão (e devem) existir. Minha impaciência com as telenovelas vem da sua chatice, da mesmice do seu ritmo, dos fatos já conhecidos e divulgados de antemão. Porém, há uma rastaquerice dos espectadores de novela que é um fenômeno alarmante: no final de Caminho das Índias, as pessoas não queriam ver a vilã (Letícia Sabatella) ser derrotada, como demanda o folhetim. Eu observava as pessoas dizendo o seguinte: não vou perder de jeito nenhum o capítulo da novela hoje porque a fulana (a personagem de Sabatella) vai apanhar. Onde chegamos? Agora as pessoas assistem ao clímax das novelas para ver alguém apanhar. Bater no vilão, dar bofetadas e mais bofetadas, é obrigatório, não basta ele ser vencido, desmascarado, o bem vencer o mal.
Nâo é muito rastaqüera esse modo de vivenciar o ficcional? Não é um sintoma de uma impotência tão avassaladora diante da falência social do nosso sistema social que as pessoas acabem achando que esse baixo nível é uma resolução de problemas, que esse é um modo de solucionar conflitos e folhetins?
UNIBAN e bifa na vilã de novela: que saudade de “Acusados”…

28.10.09

“(10)Olhe , disse Yahweh, o homem vê como um de nós, conhecendo o bem e o mal. E agora ele pode, sem ver, estender sua mão, tomar também a árvore da vida, comer e viver para sempre.
Agora Yahwew o tirou do Jardim do Éden, para trabalhar -no solo de onde foi tirado.
O homem foi banido; agora, estabeleceu lá – ao oriente do Éden- as esfinges aladas e a espada tremulante, reluzindo as duas lâminas, para guardar o caminho da Árvore da Vida.
(11) Então o homem conheceu Hava, sua mulher, na carne; ela concebeu Caim. Como Yahweh, eu criei um homem, disse ela quando ele nasceu. concebeu de novo, nasceu Abel… Resultou que Abel foi pastor de ovelhas. Caim, lavrador.
(12) Os dias tornaram-se passado; um dia, Caim trouxe oferenda a Yahweh, do fruto da terra. Abel também trouxe uma oferenda do mais seleto do seu rebanho, de suas partes gordas, e Yahweh comoveu-se com Abel e seu holocausto. Mas com Caim e seu holocausto não se comoveu. Isso perturbou Caim, seu semblante descaiu.
O que tanto te perturba? perguntou Yahweh a Caim. Por que teu semblante está tão descaído? Vê: se concebes o bem, é comovente; se não, o pecado é uma porta aberta, um demônio de tocaia. Subirá em ti, embora estejas acima dele.
(13) Caim falava a seu irmão Abel, então aconteceu: lá no campo, Caim voltou-se contra seu irmão, matando-o.
Então Yahweh disse a Caim: Onde está teu irmão Abel? Não sabia que era eu a guarda de meu irmão.
(14) Que fizeste?, disse ele. Uma voz- o sangue do teu irmão- clama por mim desde a terra. Que então valha por maldição: o solo amarga-se de ti. Sangue de teu irmão, engasga-lhe a garganta.
Podes trabalhar o solo, mas ele não há de se render a ti…Não terás abrigo sobre a terra, soprado pelo vento.
Minha sentença é mais forte que minha vida, disse Caim a Yahweh: Olha: hoje me expulsaste da face daterra -de mim tua face voltaste. Volto a lugar nenhum, sem abrigo como o vento que sopra. Todos que me encontrarem poderão me matar.
Por minha palavra saberão, disse Yahweh, quem matar Caim será abatido pela raiz sete vezes mais fundo. Então Yahweh tocou Caim: um aviso para não matá-lo, a todos que o encontrassem.
Caim voltou as costas à presença de Yahweh, estabeleceu-se numa terra soprada pelo vento, a leste do Éden.
(15) Então Caim conheceu sua mulher na carne, ela concebeu, nasceu Henoc. Os dias tornaram-se passado: ele fundo uma cidade, chamando-a pelo nome de seu filho, Henoc.
Então Irad nasceu a Henoc; Irad gerou Maviael; Maviael gerou Matusael; e Matusael, Lamec.
(16) Lamec cresceu e desposou para si duas mulheres; uma chamava-se Ada; a segunda, Sela.
Ada deu à luz Jobal, que foi pai dos que vivem sob tenda, guardas de rebanhos.
Jubal foi o nome de seu irmão, pai dos músicos, mestres da flauta e da lira…
Ouvi minha voz, disse Lamec a suas esposas, a Ada e Sela, ouvi que se canta às esposas de Lamec: Um homem matei porque me feriu; um menino, também, por um soco- tão somente. Se a justiça de Caim corta sete vezes fundo, por Lamec ela chega a setenta e sete.
(17) Então Adão ainda conheceu sua mulher na carne; ela pariu um filho, chamou-o Set – Deus plantou em mim outra semente, que cresce além de Abel, que Caim abateu… Então Set cresceu para gerar um filho, de nome Enós… E nesse tempo começou a terna invocação do nome de Yahweh.
(18) Então olha, desde seu primeiro passo o homem se espalhou por sobre a face da terra. Ele gerou muitas filhas. Os filhos dos céus desceram para ver as filhas do homem, atentos a seu encanto, conhecendo a quem quer que os agradasse para esposa.
(19) Meu espírito não guardará o homem por tanto tempo, disse Yahweh. Ele é matéria mortal. Então seus dias estavam contados: até cento e vinte anos.
(20) Agora a raça de gigantes: eles estavam na terra desde o tempo em que os filhos dos céus penetravam nos quartos das filhas dos homens. Figuras heróicas nasceram a eles, homens e mulheres de mítica fama.”

Como pretendo comentar Caim, de Saramago, pensei em transcrever a história original bíblica. Só que geralmente todos têm uma Bíblia, e em qualquer de suas versões, podemos encontrá-la facilmente. Julguei, então, que talvez fosse  mais interessante transcrever a versão da suposta “J”, a autora de certos trechos do Antigo Testamento, os quais Harold Bloom tentou extrair do texto canônico a partir de uma versão de David Rosenberg.
Para Bloom, “J” seria uma das autoras fundamentais da nossa cultura literária. Mas o grande e idiossincrático critico norte-americano  não se detém muito, em seus comentários e análises, na figura de Caim, dando mais destaque à psicologia de Yahweh e a figura-chave de Abraão.
Os interessados encontrarão o texto transcrito em “O Livro de J”, de Harold Bloom (a partir da versão de David Rosenberg). Tradução (ótima; ao fim e ao cabo, ela é a nossa J, pois estamos lendo o texto dela) de Monique Balbuena. Imago, 1992.

livro de J

27.10.09- SARAMAGO & LOBO ANTUNES, nunca SARAMAGO vs. LOBO ANTUNES

Quando fiz minhas apostas para o Nobel e coloquei Antonio Lobo Antunes como um dos três maiores escritores em atividade (ao lado de Don DeLillo & Salman Rushdie), alguns leitores tiraram a conclusão de que eu o preferia a Saramago. Deixem-me esclarecer: essa polarização para mim não existe, é algo do tipo Chico & Caetano, Tolstói & Dostoiévski, Hermann Broch & Robert Musil, Fellini & Visconti.
Se pensarmos na última década, podemos dizer que a criatividade de Lobo Antunes imperou. Em 2004, ele publicou o poderoso “Eu hei-de amar uma pedra”. Já Saramago nunca mais atingiu o nível altíssimo de “Ensaio sobre a Cegueira” (1995), com as possíveis exceções de “Todos os nomes” e “A viagem do elefante”. Mas, se pensarmos que em 2002, ele completou 80 anos, seus livros posteriores não deixam nada a desejar, embora tenham puerilidades evidentes: “Ensaio sobre a lucidez”, “As intermitências da morte”, “A viagem do elefante” e agora “Caim”. Uma produção que não se pode ignorar, ainda que haja vacilos, preguiças e quedas de voltagem, enquanto que Lobo Antunes parece querer dar tudo de si a cada livro que lança, de uma maneira até feroz.
Mas como dizer que ele é “maior” do que Saramago se este tem atrás de si “O ano da morte de Ricardo Reis”, “Ensaio sobre a cegueira”, “O evangelho segundo Jesus Cristo” e “Memorial do Convento”? E tenho de confessar que sou um leitor mais fiel a cada lançamento de Saramago do que do seu desafeto? Dos seus romances após “Memorial do convento” só não li “O homem duplicado”.
Nestes últimos dias enviei a alguns amigos uma engraçadíssima correspondência imaginária entre os dois grandes autores portugueses, que tirei do criativo  www.peterofpan.blogspot.com:
Terça-feira, Outubro 18, 2005
Correspondência Saramago-Lobo Antunes
Caro António Lobo Antunes

Li o seu último romance, que veio a deixar-me perplexo e você sabe bem porquê, visto a quantidade de páginas do volume ser tremenda. Dir-me-á você, Não é nada, consigo escrever coisas maiores ainda, ao que respondo, Tenha tento na pena, pois enquanto uns dispoem de folhas para escrever calhamaços, como você, um pequeno-burguês, outros há que nem papel possuem para limpar o rabo, o que aliás deveria ser feito aos seus escritos.

Cordialmente, José

P.S.: Eu tenho um prémio Nobel e tu não!

*

Caro José Saramago

Eu poderia vir aqui contar-lhe uma história para adormecer, tal qual faço semanalmente nas minhas crónicas para a revista Visão.
Mas não o vou fazer.
(não o quero fazer)
Vossa Excelência não o merece, uma vez que se auto-exilou em Lanzarote. Não teve a infelicidade de viver, como eu, as privações no Ubango, a fome no Condongo ou a guerra no leste do Cachungo.
(se estivesses lá, era bem feito que um preto te metesse uma bala nos cornos)
Pequeno-burguês é Vossa Excelência mais a degenerada da Pilar. Cale-se e ofereça um presente à nação, deixando de publicar livros.
(e artigos, pois também são uma porcaria)

Afectuosamente, António

P.S.: Olha, vai à merda e leva o Nobel contigo.

*

Caro António Lobo Antunes

Vai tu!

***********************************************************
22-10-09:90 ANOS DA MAIOR ESCRITORA

Hoje, 22 de outubro, minha escritora favorita, a que teve mais peso e importância na minha vida, de uma maneira até mais visceral do que Thomas Mann (o maior dos escritores, num sentido estritamente literário) chega aos noventa anos, tendo nascido no Irã (em 1919). quando era a Pérsia, filha de ingleses; depois crescido no Zimbábue, quando era a Rodésia, tão racista quanto a África do Sul; aos 30 anos emigrou para Londres, onde permaneceria, e iniciou sua carreira profissional de escritora. Duas de suas obras-primas estão comemorando “datas redondas” em 2009: há 40 anos lançou A cidade de quatro portas, último e mais extraordinário volume dos cinco que compõem Os filhos da violência; e há 30 anos ela iniciava a série Canopus em argos: arquivos com o ponto mais alto da sua obra, Shikasta. O MUNDO FAZ MAIS SENTIDO COM A PRESENÇA DE DORIS LESSING NELE.

doris_lessing

19 Comentários »

  1. absolutamente fantástico! Se pudesse eu viajar pelo tempo, certamente teria a mesma sensação ao pisar na Sheakspeare Co. Provoca a mágica sensação de deitar meus olhos nas estantes da biblioteca e Montaigne. Não poderia ser diferente, dado o seu bom gosto literario.

    Comentário por carlod eduardo mota — 21/12/2009 @ 11:57 | Responder

  2. Bom gosto literário? Se é isso que lhe quer chamar, quem sou eu para lhe tirar a felicidade?

    Comentário por sofia — 13/05/2010 @ 12:40 | Responder

  3. Ahahahahah!! Que moca. Não acredito nisto. Não, isto é bom demais! Não tem mesmo tomates nenhuns. Enfim.

    Comentário por sofia — 13/05/2010 @ 18:07 | Responder

  4. ´Quanto à questão HEIDEGGER E O NAZISMO, sugiro uma obra fantástica, de leitura “acachapante” que relata, inclusive documentalmente(muito bem fundamentado neste sentido), o “caso” em questão, bem como a importante participação de KARL JASPERS E ARENDT, nos acontecimentos e episódios que cercam a questão. Acho até então uma obra definitiva, além de um belÍssimo retrato da importância e surgimento da brilhante geração de intelectuais de entre guerras na Alemanha e sobretudo como viveram esse negro período histórico!
    É DE VARAR A NOITE!!!!!
    Trata-se de NOS PASSOS DE HANNAH ARENDT ´LAURE ADLER” RECORD

    Comentário por ICLÉA ALVES SIMÕES — 06/11/2010 @ 20:12 | Responder

    • Obrigado pelo seu comentário. Olha, eu li NOS PASSOS DE HANNAH ARENDT e achei o livro muito bom em vários aspectos, mas ele me desagradou jujstamente quanto à questão Heidegger, pois acho que ele é, ali, muito falado e contestado e desmistificado, sem que haja muita razão, pois ela perde o foco principal que é a vida de H.Arendt. Dá a impressão de que ela não quis perder a oportunidade de desancar o filósofo nazista. Posso até concordar com tudo o que se diz ali, mas acho o lugar inapropriado.

      Comentário por alfredomonte — 07/11/2010 @ 14:30 | Responder

  5. Meu caríssimo Alfredo, acabei de ler sobre o falecimento no dia 14 de setembro do poeta americano, ganhador do prêmio Pulitzer, Louis Simpson. Nunca li nada que ele escreveu e nem sei se temos algo dele traduzido no Brasil. Mas ao ler o seu obituário no New York Times fiquei tão interessado que procurei todas as informações possíveis sobre ele na internet e fiquei mais interessado ainda. De tal forma que dei destaque ao seu falecimento em minha página no facebook (aliás, se você tiver face, seria uma honra te adicionar). Gostaria de saber se você tem mais informações sobre ele e se alguma obra, texto ou poema seu já foi traduzido no Brasil.

    Abraços e obrigado!

    Comentário por Fabrizio Lyra — 19/09/2012 @ 13:50 | Responder

    • Caro Fabrizio, nada conheço desse autor, sinto muito.
      Não uso facebook nem twitter.
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 19/09/2012 @ 15:13 | Responder

  6. Pois é, caro Alfredo, lendo o que você escreveu sobre o prêmio Jabuti, me vêm a mente uma reflexão que faço sobre prêmios de uma forma geral há muito tempo. Em primeiro lugar, creio que dizer que uma obra, de literatura, cinema, teatro ou qualquer outro ramo é melhor do que outra é algo muito subjetivo. Muitos podem dizer que quando se diz subjetividade estamos nos referindo ao gosto pessoal de cada um. É isso também, mas não apenas isso. Vemos ao longo da história muitos prêmios como Oscar, Cannes, Berlim, Nobel, entre muitos outros, tendo que escolher e eleger candidatos que têm igualmente grandes qualidades. Elas são diferentes entre si mas mostram a excelência de todos eles. Imaginemos se todos os grandes autores da literatura estivessem vivos como Dostoiévsky, Tolstoy, Joyce, Proust, Machado de Assis, Clarice, etc e publicassem alguns de seus maiores romances em um mesmo ano e uma instituição como o Jabuti fosse encarregada de escolher o melhor. A mesma coisa podemos dizer para todas as instituições no mundo que dão prêmios em todas as áreas. E vejo que cada vez mais se multiplicam lugares oferecendo prêmios pelo mundo. E existe essa obrigação de se escolher um número de candidatos todo ano para premiar e um melhor entre eles. E podem existir, como existem, épocas em que nada de particularmente interessante é produzido. Mas mesmo assim, Oscar, Cannes, Berlim, Jabuti e muitos outros tem que dar o galardão, a coroa de louros a algum deles. E aí vemos as tantas injustiças e, até mesmo, aberrações que tão bem conhecemos ao longo da história dos prêmios. Injustiça quando uma obra obviamente inferior ganha e aberração quando todas não oferecem qualquer qualidade especial ou qualidade nenhuma e uma delas é premiada. E os prêmios acabam servindo para artistas que não buscam qualidade em suas obras, de atores a escritores, como escudo para a sua negligência e pouco caso como artistas. Já ouvi pessoas responderem quando recebem críticas educadas por seus trabalhos: “Eu fui premiado em um festival tal justamente por esse trabalho”. E quase sempre dizendo isso com a maior arrogância. Ou então usam isso para impor sua opinião em um ambiente ou sobre um determinado assunto dizendo: “Eu entendo disso muito bem, ganhei prêmio nessa área”. Li certa vez que Richard Burton e Humphrey Bogart estavam discutindo sobre atuação e como Bogart não conseguia vencer na argumentação, simplesmente se levantou, pegou o Oscar que tinha ganho por “Uma Aventura na África” e colocou na frente de Richard que não tinha ganho nenhum e morreu sem ganhar apesar de tantas grandes atuações.Muitas vezes me parece que prêmios são feitos para isso: para justificar a necessidade de vaidade e endeusamento do ser humano levando cada vez mais a selvagem competição entre eles que muitos chamam de saudável. Fora os muitos casos de bastidores que ouvimos de premiação combinada. Bem, é isso, meu caro Alfredo. Você diz não levar mais o Jabuti a sério. Eu cada vez mais tenho a tendência a não levar nenhum prêmio em consideração. A não ser, por exemplo, em casos esportivos. Um corredor ou nadador que chega na frente dos outros. Esses, sim, indiscutivelmente foram melhores e merecem ser premiados. Não há subjetividade aí ou qualquer outro componente. É fato concreto. Fico pensando também: será que o mundo e os seres humanos não seriam um pouco melhores se abolissem os prêmios?

    Forte abraço!

    Comentário por Fabrizio Lyra — 21/09/2012 @ 14:50 | Responder

    • Mas eu acho, caro Fabrizio, que no Brasil o grande problema da vida literária (e artística em geral) é o compadrio. Só isso explica certas reputações literárias.
      Acho mais compreensível a lógica do Oscar (já a do Globo de Ouro é outro caso, é uma espécie de “queridinhos da mídia”).
      Não sou contra competições, acho que o “ágon” tem o seu quê de saudável e natural.
      Mas os prêmios literários no Brasil, quando presto atenção neles, me deixam entre indignado e desacorçoado.
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 21/09/2012 @ 16:03 | Responder

  7. Caro Alfredo, gostaria de saber se você se incomodaria de me passar algum e-mail seu de contato para que eu possa pedir sua opinião e esclarecimento mais profundo sobre alguns assuntos sem ter que ficar ocupando o espaço do blog com temas que, às vezes, não tem relação com o assunto em questão mesmo que possam interessar à várias pessoas.

    Abraços e obrigado!

    Comentário por Fabrizio Lyra — 29/09/2012 @ 17:19 | Responder

  8. Quanto ao seu texto sobre o que a Veja disse de Hobsbawn: o que se pode esperar de uma revista que esse ano, em sua matéria de capa, publicou que os altos são superiores e privilegiados em relação aos baixos, passam mais confiança, seriedade, tem muito mais chances no mercado de trabalho, entre outras coisas e ainda colocando como representante do alto na capa um modelo jovem, sorridente, bem vestido e de boa aparência e o baixo como um senhor mal humorado e muito mal vestido. Fica difícil levar a sério. E quanto a Hobsbawn, o responsável por seu necrológio nem precisava ter lido seus livros. Em suas últimas entrevistas na imprensa, ele faz várias críticas lúcidas e equilibradas tanto ao modelo socialista quanto ao capitalista como alternativas para a melhoria da qualidade de vida no planeta. Mas, para alguns, dizer-se adepto de uma crença ou idelologia já leva a pré-julgamentos sobre a pessoa ser dogmática, incapaz de críticas e nuances em sua forma de pensar. E isso sem se dar ao trabalho de verificar o que a pessoa falou ou escreveu.

    Abraços!

    Comentário por Fabrizio Lyra — 08/10/2012 @ 19:10 | Responder

    • É isso aí, Fabrizio. Pena que, por menos credibilidade que tenha, seja em termos de notícias, críticas a filmes, livros, etc, a VEJA é muito lida ainda. Para mim, é a disseminação do mal.
      Abração.

      Comentário por alfredomonte — 09/10/2012 @ 18:54 | Responder

  9. Alfredo, como eu lembrei de você ao ver o anúncio do vencedor do Nobel de Literatura 2012.. Acompanhei todas as suas matérias sobre o prêmio e as que saíram na mídia sobre as apostas nos favoritos e nos que não eram tão favoritos. Não vi o nome de Mo Yan em nenhum lugar. Foi uma grande e, espero, que feliz surpresa pois nunca li nenhum livro dele visto que nunca foi traduzido no Brasil. Agora, como você disse, vamos esperar que o traduzam logo. De preferência, em uma boa tradução direta. Abraços!

    Comentário por Fabrizio Lyra — 11/10/2012 @ 14:47 | Responder

    • Esperemos que também mais da literatura chinesa contemporânea, Fabrizio.
      Um forte abraço.

      Comentário por alfredomonte — 11/10/2012 @ 16:07 | Responder

  10. Caro alfredo, não sei se você chegou a saber, mas perdemos hoje, dia 22, o escritor Hernâni Donato. Não sei se ele era um autor apreciado por você, mas devido a sua importância na área cultural brasileira e, muitas vezes, por essas notícias, mesmo devido a importância da personalidade, saírem em curtas notas (foi assim que fiquei sabendo) resolvi fazer o registro no seu blog. Até porque Hernâni, além de ter ficado consagrado com o romance Selva TrágicA que foi adaptado para o cinema nos anos 60 por Roberto Farias, atuou em muitas outras atividades culturais como você, com certeza, sabe. Foi historiador, biógrafo de vários escritores como José de ALencar e Casimiro de Abreu, entre outras personalidades de nossa história, tradutor (a Divina Comédia é considerada seu maior trabalho), contista, autor de livros infantis, roteirista e jornalista, além de autor muito premiado e membro de academias de letras em dois estados. Fica aqui o registro. Espero que seja relevante para o blog. Abraços!

    Comentário por Fabrizio Lyra — 22/11/2012 @ 20:58 | Responder

    • Não, Fabrizio, não conheço como escritor o Hernâni Donato, so como tradutor, justamente da “Divina Comédia” (foi a primeira tradução que li). Uma pena.
      Obrigado pelo toque, atento como sempre. Abração.

      Comentário por alfredomonte — 23/11/2012 @ 9:33 | Responder

  11. Gostei. Em meio ao lixo de opiniões sem substância que constituem a rede, às vezes aparece algo interessante, como seu blog ,que contém grandes pequenos recortes e ótimas palavras.

    Comentário por Lucas Frederico — 05/03/2013 @ 3:54 | Responder

    • Puxa vida, Lucas Frederico, fico ao mesmo tempo grato e encabulado com seu generoso comentário. Um grande abraço.

      Comentário por alfredomonte — 05/03/2013 @ 11:02 | Responder


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