MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/12/2012

O autor como personagem: O ÚLTIMO DICKENS, de Matthew Pearl

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“O Chefe me falou de um sonho que teve certa vez—explicou Tom.—Nele, recebia um manuscrito e lhe diziam que aquilo salvaria sua vida. Contudo, ao olhar para o papel, não conseguiu ler o que estava escrito.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de dezembro de 2012)

Há 19 anos, resenhei para esta mesma coluna A Verdade sobre o Caso D, de Fruttero & Lucentini, no qual um congresso de detetives famosos da ficção (Holmes, Poirot, Maigret etc) tentava desvendar o enigma de O Mistério de Edwin Drood, manuscrito interrompido com a morte abrupta de Charles Dickens, aos 58 anos, em 1870. A meu ver, o maior charme do romance paródico da dupla italiana estava na inclusão dos capítulos deixados pelo genial escritor vitoriano, os quais eu não conhecia. Era tão incrível, tão absorvente, que impedia que o leitor se interessasse minimamente por quaisquer brincadeiras pós-modernas ao seu redor. O que existia do relato, mesmo inacabado, fazia dele uma obra-prima, tal como mais tarde aconteceria com O primeiro homem, de Albert Camus.

“__ Aqui—disse o Dr. Steele.—Um furo no braço do Sr. Osgood. É a picada de uma seringa hipodérmica. Vê?

    O médico continuou a falar:

__ Alguém lhe aplicou uma dose alta de narcótico, senhor. É por isso que a droga demorou tanto tempo para sair de seu corpo.

   Rebecca sentiu que tremia. Osgood soergueu-se na cama. Olharam-se, espantados. Havia atravessado meio mundo, em parte como um esforço para deixar a tragédia de Daniel para trás, e acabaram se deparando com a mesma marca de injeção que havia nele. Tudo parecia fazer parte da mesma sinistra situação, embora o motivo ainda fosse um mistério (…)

__ Sr. Osgood, isso é igual ao que o senhor viu… no corpo de Daniel?—perguntou Rebecca em um sussurro, de modo que o médico não os ouvisse.—Não deve esconder nada de mim. Foi isso, não foi?

__ Sim—murmurou Osgood.

__ O que pode significar?

__ Que estamos enfrentando o mesmo adversário, desde a manhã em que Daniel morreu.

__ Mas quem?

__ Não sei.—Então, em parte  magoado e em parte triunfante, exclamou: — Não foi Daniel quem se injetou com ópio. Agora temos certeza disso. Ele foi envenenado, Srta. Sand, assim como eu!

__ Acredita nisso?

__ Só pode ser! Dickens não poderia ter escrito tal descoberta por coincidência! Isso muda tudo.  Precisamos  ter uma visão mais clara da situação de Daniel, dos bandidos, de Drood, Srta. Sand…”

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A Record lançou em 2012 a tradução de Alexandre Raposo para outro romance que se debruça sobre a possibilidade de se desvendar O mistério de Edwin Drood, e mesmo até descobrir uma possível continuação da história, supostamente já escrita: O Último Dickens [The Last Dickens, EUA, 2009].

É o terceiro romance de Matthew Pearl, prosseguindo a linha dos outros: histórias de suspense ligadas à própria literatura. Em O Clube Dante (2003),  um assassino utilizava passagens da Divina Comédia e quem investigava os crimes eram renomados escritores da Boston pós-Guerra de Secessão (o grande Longfellow, James Russell Lowell e Oliver Wendell Holmes), cujo editor era J.T. Fields (também personagem de O Último Dickens); em A Sombra de Allan Poe (2006), um jovem advogado de Baltimore investigava o fim do criador das Histórias Extraordinárias, envolvendo-se até na sucessão do poder na França.

È preciso dizer que nenhum desses livros convenceu totalmente, apesar das premissas atraentes e de representarem uma leitura satisfatória, (enquanto distração). Teria Pearl realizado algo mais substancial em O Último Dickens que o tornasse finalmente o praticante-mor do gênero “mistério literário”?

Não, ainda não foi dessa vez. O livro alterna três sequências narrativas. Em 1870, divide-se em duas frentes: as investigações efetuadas por James Ripley Osgood, editor de Dickens na América, sócio mais jovem do  Fields de O Clube Dante, para descobrir mais capítulos de Edwin Drood, permitindo que sua empresa enfrente a pirataria corrente (Dickens era o maior best seller da época); e as diligências, na Índia, de Frank, filho da celebridade  recém-falecida, a fim de desbaratar uma quadrilha de ladrões de cargas de ópio (comercializado pela Inglaterra, e cultivado às custas da agricultura local, pauperizando ainda mais os camponeses). E em 1867, narra a temporada de conferências levadas a cabo por Dickens nos EUA, cercada de peripécias dramáticas e momentosos fatos políticos (o processo de impeachment do então presidente Andrew Johnson), e filtrada para o leitor pelos olhos de um dos criados da comitiva dickensiniana: o irlandês Tom Branagan, que salvará o Chefe (como era chamado num círculo mais íntimo) de uma fã psicopata, a qual também fornecerá, mais tarde, a chave do mistério que cerca o derradeiro manuscrito.

Parece bastante rico e movimentado, não? Nem tanto assim. Pearl sempre abusa do número de páginas (já era um problema em A Sombra de Allan Poe), e nas primeiras 150 muito pouco acontece. Além disso, ele não consegue unir satisfatoriamente todos os fios da meada. Não há justificativa para os episódios na Índia, a viagem de Dickens pelos EUA, que poderia ser a melhor parte, é meio apagada e arrastada, mesmo com as apelações melodramáticas, e o vilão (facilmente identificável pelo leitor mais atento), que está na cola de Osgood e de sua funcionária (o interesse romântico do livro) Rebecca Sand, para eliminar quaisquer vestígios de uma “segunda parte” de O Mistério de Edwin Drood (cuja trama seria baseada em fatos reais), ao se explicar para o herói e à amada, no clímax, consegue ser tão inconvincente que beira a comicidade.

Mas para o leitor que se aflija muito com o fato de que, mesmo com essa correria toda, “o último Dickens” permaneça inconcluso, eu posso revelar o que seria quase um milagre e um presente de Papai Noel: o espírito do autor de tantas histórias natalinas memoráveis incorporou-se num certo Thomas P. James e ditou a continuação da história, como se pode ler na edição brasileira de O Mistério de Edwin Drood, agora relançada pelo Instituto Lachâtre (cujo chamado na capa, na edição anterior,  era “versão concluída pelo próprio autor”!!!???). O porquê de alguém, no Além, se preocupar com a continuação de um romance, isso sim é um mistério digno de investigação.

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ADENDO

Em tempo: há alguns probleminhas nem um pouco sobrenaturais no texto publicado pela Record. Na página 228, por exemplo, afirma-se: “O presidente  Andrew Johnson compareceu a todas as leituras em Washington e convidou Dickens e Dolby à Casa Branca no aniversário do romancista (…) Dickens convenceu-se de que Johnson se sairia bem…” Até aí tudo bem, apesar da literalidade das “leituras”. Mas logo a seguir se lê uma frase estranhíssima em sua formulação, um comentário de Dickens a respeito do presidente: “Esse é um homem que deveria ser morto para sair do caminho”; e na pág. 325, numa alusão à postura de um ator que encarnava Edwin Drood, morto num incêndio suspeito,  lemos: “Aquele Grunwald costumava dizer que ninguém que tivesse encarnado Edwin Drood poderia entender a atitude do personagem…” [na verdade, precisávamos aqui de um “não”: “ninguém que NÃO tivesse encarnado Edwin Drood poderia entender a atitude do personagem…”]

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TRECHOS SELECIONADOS    

“Ao recolher seus pertences no saguão do hotel, Osgood se pegou olhando para um espelho pela primeira vez desde que fora atacado. Ao ver seu reflexo, ergueu as mãos involuntariamente até o rosto e então as deixou escorregar até o pescoço, como se tentando manter a cabeça no lugar. Ele piscou. Quando desaparecera sua aparência infantil, aquela expressão inocente que ele sempre amaldiçoara e louvara? No lugar, havia o rosto pálido de um fantasma, quase cadavérico, com uma complexa teia de rugas de cansaço e sombras escuras ao redor de olhos fundos. Seu cabelo estava quebradiço e sem vida. Ou assumira uma máscara de morte prematura ou passara de uma tenra juventude para uma dura maturidade. Ele não conseguia distinguir. Mas havia um elemento encorajador em sua aparência. Ele não era mais inexpressivo ou passível de ser confundido  com outro jovem homem de negócios de Boston. Aquele era James R. Osgood, embora abatido. Não havia dúvidas quanto àquilo.”

“__ E se isso quiser dizer que não há nada a ser descoberto?

__ Talvez estejamos apenas procurando nos lugares errados—disse Rebecca, corajosamente.

__ Sim—retrucou Tom, enfático. Então, bateu com a mão sobre a mesa.—Sim, Srta. Sand! Mas não é apenas isso. Não apenas o lugar errado, mas o tempo errado!

__ O que quer dizer, Sr. Branagan?—perguntou Rebecca.

__ Eu estava me lembrando quando estávamos nos EUA,  em um trem a caminho das leituras na Filadélfia, o Chefe começou a falar sobre Edgar Allan Poe com muita tristeza. Disse que, quando viu Poe na última vez que fora à Filadélfia, conversaram sobre Caleb Williams. Quem é o autor deste romance?

 __ William Godwin—disse Osgood.

__ Obrigado. O Sr. Dickens contou a Poe que Godwin havia escrito a última parte do livro e somente então começara a escrever a primeira parte. Poe disse que ele também escrevia histórias de mistério de trás  para a frente. E se o Sr. Dickens, ao escrever seu grande mistério,começou pelo fim?” [aqui nesta passagem final, que aparece na pág. 299, há também um probleminha, pois a frase foi publicada do seguinte jeito: “E se o Sr. Dickens, ao escrever seu grande mistério, não começou pelo fim?”, esse “não” evidentemente sobrando]

The Last Dickens cover from publisher

23/12/2012

O autor como personagem: O CLUBE DANTE

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Henry Wadsworth Longfellow, James Russell Lowell e Oliver Wendel Holmes eram grandes estrelas da literatura em meados do século 19, nos EUA. Eram de Boston,  ligados à Harvard e tinham o mesmo e prestigiado editor, J.T. Fields.

A amizade fez com que Lowell e Holmes auxiliassem Longfellow na primeira tradução americana da Divina Comédia(o poema é quase desconhecido no país), e  justamente no momento em que ela se encaminha para o término, há uma onda de crimes, cujas características copiam detalhes de cantos do Inferno. Esse é o argumento básico de O Clube Dante, de Matthew Pearl. Já envolvidos com intrigas de membros da diretoria de Harvard, os quais não vêem com bons olhos a incorporação de Dante ao cânone universitário, graças ao fato de Holmes ser médico os membros do insólito clube  ficam sabendo da similaridade alcançada pelo criminoso e começam a imaginar que ele pode ser um erudito, profundo conhecedor da obra de Dante.

O que os intriga é a aleatoridade das punições: há um indiferente, um simoníaco e um fomentador de desavenças, que aparecem em cantos diversos (mais tarde, haverá traidores, mas já é outra história…). O quarteto (Longfellow, Holmes, Lowell, Fields) descobrirá que os crimes estão relacionados mesmo é com a Guerra de Secessão, que terminara e que, como se sabe, fraturou a identidade nacional  (“Todos os tempos foram separados em duas épocas:  antes da guerra e depois da guerra”), de um modo que lembra a dividida Florença, retratada de forma tão crítica por Dante. E descobrem que realmente foi a tradução de Longfellow que motivou os crimes, embora da forma mais inusitada possível. Nessa investigação, eles  ganham a colaboração de um dos primeiros policiais negros da cidade, Nicholas Rey, uma conseqüência progressista da guerra, que gera previsíveis tensões sociais, convenientemente incorporadas ao enredo.

Apesar do estilo meio laborioso, e às vezes meio pueril (frases do tipo “as narinas promeminentes do soldado agitaram-se de interesse”, alguém consgue imaginar a agitação de narinas interessadas?) adotado por Pearl em seu romance de estréia, ler Clube Dante  é uma experiência divertida. Quem é que, gostando de literatura, não acha empolgante ver mistérios criados por livros gerando crimes reais, ou então ver escritores correndo pra lá e pra cá em aventuras perigosas ? Esse era um dos encantos de O nome da rosa.

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Não há como negar que Pearl nos transmite muito bem o clima intelectual de Harvard e Boston. Particularmente bem sucedido  nas figuras do timorato e pusilânime, por vezes, Wendell Oliver Holmes, e do destemido e temperamental James Russell Lowell, a amizade entre ambos,  feita de embates  é o destaque do livro, sem dúvida. Por outro lado, quem sai perdendo no livro é Dante.  No que se refere ao uso do poema na trama, tudo é clichê e trivial. E, é lógico, mais uma vez se sacrificou  a estrutura tripartite, ignorando-se solenemente o Purgatório e o   Paraíso, e insistindo-se no Inferno. Que o assassino inculto fizesse isso, tudo bem, mas que chances foram desperdiçadas ao longo das discussões dos membros do clube no decorrer da narrativa! Quem pode esquecer, no romance de Umberto Eco, as apaixonantes discussões sobre Aristóteles (e esse, com certeza, era um dos encantos de O nome da rosa) ?

Além disso, e é algo que contamina até a apelativa capa colocada pela editora Francis [com a tradução de Maria José Silveira, não se entende muito bem a insistência de Pearl nas moscas varejeiras, que deveriam  fazer parte apenas do primeiro crime, mas ganham uma amplificação forçada e até de mau-gosto no  início do romance, e depois reaparecem aqui e ali sem ter o que fazer, após a morte do juiz culpado de indiferença, a ponto de fazer a Grande Negação.

Talvez ao  pesquisar para o livro, Pearl tenha fica muito impressionado com a existência dessas moscas. No terceiro mundo, ela não nos causam qualquer espécie.

[resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 26 de novembro de 2005)] 

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O autor como personagem de si mesmo e dos outros: Edgar Allan Poe

 

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Nos 200 anos do nascimento de Edgar Allan Poe (1809-1849), o leitor pode encontrar duas obras sobre ele: a biografia-almanaque O Livro Completo de Edgar Allan Poe e o romance A Sombra de Allan Poe[1].

A biografia escrita por Shelley Costa Bloomfield é muito  prejudicada pelo bizarro aparato que cerca o texto principal. O livro se assemelha àquelas páginas da internet nas quais vão se abrindo janelas e janelas. O que parece evidente, no entanto, é a falta de confiança na inteligência do leitor, infantilizado por uma divisão idiota em subtítulos e janelas explicativas (pífias e cheias de informações banais) que fica mais chocante ainda porque o trabalho de Bloomfield, discutível na medida em que se deixou editar desse jeito, é bastante sólido: ela nos dá uma boa medida de como Allan Poe foi precursor de Fernando Pessoa em imaginar vidas alternativas à sua deprimente condição de pobreza, estendendo a literatura até os seus dados biográficos, incessantemente recriando sua ascendência e até seu nome.

Já o romance de Matthew Pearl mostra mais uma vez, após O Clube Dante, o domínio que ele tem do século XIX. A narrativa é feita por Quentin Hobson Clark, jovem advogado de Baltimore que, ao saber que seu ídolo literário morreu em sua cidade e foi enterrado de forma tão indigente, resolve investigar os fatos que cercam esse triste fim, como num relato policial. Ao fazer isso, perde sua posição social, sua noiva e até é preso, acusado de tentativa de homicídio, escapando da prisão de uma forma bem romanesca, durante uma enchente.

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Antes de ficar nessa situação que o irmana à vida terrível que Poe levou, ele vai a Paris em busca da pessoa que supostamente teria inspirado os dons de dedução e raciocínio do mítico detetive dos contos de Poe, Auguste Dupin. E aí Pearl tem o maior achado de seu texto porque aparecem em Baltimore dois candidatos que rivalizam para ser o protótipo de Dupin e dar a solução ao caso: o Barão Dupin, um charlatão, especialista em disfarces, intimidação e penetração no submundo, que conta com uma ladra assassina, Bonjour, para as suas ações, e o melancólico e aparentemente inerte (em termos de ação) Duponte, o qual se instala na casa de Clark e cuja principal ocupação é ler jornais.

As implicações da morte de Poe, segundo o relato de Clark, envolveriam até os problemas políticos da França e os parentes “americanos” de Napoleão.

A Sombra de Allan Poe tem seu calcanhar-de-aquiles no narrador: raras vezes se viu um protagonista tão tolo e bocó quanto esse Quentin Hobson Clark. Além disso, assim como na sua obra anterior, Pearl mostra que não aprendeu a grande lição de Edgar Allan Poe: a criação de uma narrativa enxuta, no tempo certo, em que o efeito é construído pela ausência de lengalenga. Umas cento e cinqüenta páginas a menos e o romance seria outro e melhor. E, por favor, outro herói, menos indigno do mestre.

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de janeiro de 2009


[1]  O primeiro, lançado pela Madras, com tradução de Soraya Borges de Freitas; o segundo, cujo título original é The Poe Shadow (EUA, 2006), traduzido por Maria Inês Duque Estrada (Ediouro).

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17/11/2012

O autor como personagem: o Goethe de Martin Walser

OS SOFRIMENTOS DE WERTHER ENVELHECIDO

Que ora devo esperar de algum rever,

Da flor ainda fechada deste dia?

Com Paraíso e Inferno a te envolver,

Na indecisão tua alma se angustia! –

Adeus, ó dúvidas! No umbral dos Céus

Ela te leva a alçar nos braços seus.

No Paraíso então foste acolhido,

Como se jus fazendo à vida eterna;

Finda a esperança, e o desejo contido,

Cá estava pois a meta mais interna,

E ao contemplar da singular beleza

Secava a fonte ansiosa da tristeza.

(…)

 

A um seu olhar, como ao vigor solar,

E a um sopro seu, como aos da primavera,

Derrete-se o egoísmo a degelar

Toda a crosta invernal em que estivera;

Finda o interesse, acaba a teimosia,

Quando ela chega e os põe em letargia.

É como se dissesse; `De hora em hora

A vida se oferece amigamente.

Do passado o registro é incerto agora.

Do amanhã é vedado estar ciente.

E se com a noite eu já me amedrontei,

Com o pôr do sol, que brilha, me alegrei.

Faça pois como eu: sensato e rindo,

Olhe bem o momento! Sem tardança!

Com simpatia o tome por bem-vindo,

Quer em hora de ação, quer em festança.

Ponha-se inteiro e puro onde estiver,

Para tudo e invencível você ser.`

Bem dito isso, achei: se um deus lhe deu

Do momento essa graça tão presente,

Quem acaso ao amável lado seu

Um eleito da sorte não se sente?

Mas eu, mandado embora, o que faria,

Já sem você, de tal sabedoria?

Ora estou muito longe! E o que convém

Ao minuto atual não sei dizer;

O bom e o belo que dele me advêm

São apenas um fardo a rebater,

Ante a bruta saudade me impelindo,

Só me resta um remédio, o choro infindo.

Choro que jorra e flui, mas não tem jeito

De em meu íntimo a flama arrefecer…

(…)

Perdendo o Todo, eu mesmo, que era outrora

Favorito dos deuses, me perdi.

A me provar mandaram-me Pandora,

Que mais riscos que bens trazia em si;

À boca dadivosa eles me alçaram

E, ao separar-me dela, me arrasaram.”

    Os versos acima são de um dos mais famosos poemas de Goethe (1749-1832), a Elegia, composta por 23 sextetos,  agora universalmente conhecida como Elegia a Marienbad, e que faz parte de um pequeno volume chamado Trilogia da Paixão (que pode ser encontrado numa edição conjunta da Rocco com a L&PM). A versão que utilizei foi feita por um dos nossos tradutores mais admiráveis e escrupulosos, Leonardo Fróes. A Elegia foi escrita em 1823, aos 74 anos do autor. O doloroso episódio biográfico que o inspirou (a paixão por uma mocinha de 19 anos, Ulrike von Levetzow) e que alijou o poeta da posição de “favorito dos deuses” é o mote para um delicioso e brilhante romance de Martin Walser [publicado em 2008, e traduzido agora no Brasil por Renata Dias Mundt, em edição da planeta], Um homem apaixonado. Nele, encontraremos integralmente a Elegia (vertida de forma literal pela tradutora, por isso, apesar da sua competência optei pela versão de Fróes como intróito desta resenha).

   Não vou entrar aqui no mérito da conveniência ou não desse gênero de paixão (no caso, uma diferença de 55 anos), que foi uma tendência da vida madura de Goethe. Só pretendo enaltecer as virtudes de uma obra que ousa nos fornecer um retrato verossímil de um criador quase inescrutável, apesar do teor confessional de boa parte da sua produção, e do tour-de-force de Thomas Mann, ao retratá-lo num famoso capítulo de Carlota em Weimar, obra-prima de 1939.

     Na sua primeira parte, a narrativa localiza Goethe e a família Levetzow (mãe viúva e três filhas) na Marienbad de 1823, que começa a se tornar uma estância badalada no “circuito das águas” europeu. O ancião ocupa a posição mais eminente entre os homens de letras europeus, e é seguido, bajulado, citado, ou seja, aquela coisa pomposa que cerca a figura de Goethe como “ser olímpico”. Portanto, para as mulheres do clã é um privilégio sua convivência com ele, o qual há dois anos está fascinado por Ulrike. Ela, por sua vez, parece manter sempre uma atitude de flerte, provocativa e sedutora. O sucesso do “casal” enamorado (eles chegam a trocar beijos, o que é evocado na Elegia) chegará ao auge quando ganharem um concurso de fantasias, ele como Werther, seu personagem mais famoso, e ela como Lotte, a amada do infeliz e suicida herói. Já nesse passo do romance, Walser nos impressiona porque, seguindo os meandros mentais e sentimentais de Goethe, nem por isso deixamos de pressentir, pulsando sob diálogos admiráveis em elegância e discrição, as intrigas da pequena sociedade ali instalada para o verão. Nessa parte, há também a constrangedora e cruel cena da queda de Goethe (num colóquio no escuro com Ulrike), em que se fica patente (e patético, até no sentido etimológico de “páthos”) seu esforço desesperado de manter a “dignidade”, grande meta dos seus anos tardios, mesmo movido por uma paixão potencialmente ridícula.

      Ele usa seu protetor e amigo, o soberano de Weimar, para pedir em seu nome a mão de Ulrike. Na segunda parte, vemos como, sem querer perder o apelo mundano da presença do grande homem, a mãe da moça fará tudo para mantê-los sob vigilância, depois de uma discreta fuga para Karlsbad, ele no encalço delas.

   Quando se pensa que não há o que avançar no romance, ele se torna melhor ainda: Goethe voltou a Weimar e escreveu a sua Elegia. O que fazer com ela? Não a pode mostrar para quase ninguém. E o grande homem é quase refém na sua casa: sua nora Ottilie (que está mais para esposa, tal forma voraz com que se apossou da vida cotidiana do famoso sogro) faz cenas, cai doente, devido aos boatos da possível ligação com Ulrike (transmitidos de boca em boca), o vigia, conspira, e ele chega a acreditar que até sua correspondência é revistada e censurada. Pela arte de Walser, missivas reais e imaginárias se misturam, e ficamos conhecendo tanto a vida externa, os hábitos e as regras férreas que sustentam a existência (e freiam seu lado passional) do velho Werther como a sua vida interior de “homem apaixonado”, mas condenado à resignação: “…estás em terra inimiga… és agora o resignado, como nunca o foras… a mais nobre fachada cultural da Alemanha, da Europa, do mundo todo, o exemplo de resignação para os tempos vindouros, todos os infelizes devem levantar os olhos para ti como para uma constelação: assim se lida com uma grande dor, vês, de forma que a dor não seja mais dor… um sorriso, um esgar cultural que torna o teu rosto mais belo, a dor é uma poema de ocasião…” O poder da máscara.

(uma versão da resenha acima foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 14 de setembro de 2010)

A MAIOR PERSONAGEM FEMININA DE THOMAS MANN

Venho comentando sistematicamente nesta minha coluna de A TRIBUNA o relançamento das obras de Thomas Mann pela Nova Fronteira. Já quase no final do percurso, a avaliação do empreendimento acaba sendo negativa. A princípio, as edições pareciam boas e bonitas. Não resistem, porém, a um olhar mais cuidadoso: não há unidade nas capas, umas são de muito bom gosto, outras surpreendem pela breguice; no caso dos livros mais volumosos, elas vão se descolando e o exemplar fica todo deformado. Cobrando tão caro,  a editora poderia pelo menos ter utilizado um papel melhor porque, somando tudo, sua coleção Thomas Mann ficou com um ar bem ordinário.

As deficiências da apresentação gráfica não são nada comparadas às encontradas nos textos. A Nova Fronteira prometeu “traduções revistas”. Ora, ora. Pegue-se CARLOTA EM WEIMAR. A não ser em alguns casos demasiadamente gritantes, a nova edição mantém quase todos os erros da anterior (lançada em 1984). Por exemplo, Goethe era indulgente com os horários de seu secretário Riemer, mas tanto em 1984 quanto agora o leitor brasileiro lerá que ele era indulgente com os honorários. O mesmo Goethe afirmava ter mão de artesão, apesar do seu refinamento aristocrático, só que o infortunado leitor daqui encontrará, em 1984 e agora, um absurdo não de artista. Etc etc etc. As traduções devem ter sido revistas por Stevie Wonder.

É uma pena, uma vez que LOTTE IN WEIMAR  é notável e não apenas por trazer a melhor personagem feminina criada por Mann: o famoso sétimo capítulo penetra diretamente na mente de Goethe, num enorme e complexo monólogo interior, com jogos de palavras e alusões que necessitavam de um tratamente editorial decente para não trazer mais dificuldades ao leitor. Esse capítulo e a parte inicial de José e seus irmãos são os maiores tours-de-force de Mann em termos técnicos, seus maiores feitos virtuosísticos.

Antes desse momento genial, a Senhora Conselheira Carlota Kestner chega a Weimar em 1816 (com 68 anos). Ela foi, na juventude, a inspiradora de Lotte, amada de Werther na obra-prima de Goethe, fato que sombreou toda a sua existência burguesa respeitável como mãe de 11 filhos.Apesar do pretexto da viagem (visitar a irmã e o marido desta), Carlota tem como objetivo confrontar-se com Goethe, o qual pontifica em Weimar como o supremo homem da nação alemã. Como ela mesma (um personagem pelo qual o leitor se apaixona) afirma, a certa altura: “existe uma velha conta entre a montanha e eu, uma conta que não foi saldada”. Mais tarde, num diálogo fantasmagóricona carruagem do próprio Goethe: “Vim para considerar o que teria sido possível, e cujas desvantagens diante do real verdadeiro são tão evidentes; e que entretanto permanece no mundo a seu lado como um Mas, e se…? e Se tivesse sido de outro modo…, o que é digno de nossa investigação. Você não acha também, velho amigo, e não pergunta também, às vezes, pelo possível no meio das dignidades da sua realidade?”

Os seis primeiros capítulos do romance são bem teatrais. Carlota, que se instalara numa hospedaria, procura sair para visitar a casa da irmã e é impedida por diversas visitas, as quais lhe oferecem visões indiretas e sombrias do autor de Werther e Fausto. Depois, temos o extraordinário capítulo central do livro, em que percebemos o trabalho alquímico processando-se na mente goethiana, à margem e além de todas as visões exteriores e parciais que tivemos dele. O clímax do romance seria, é claro, o encontro (não se viram por 44 anos) entre Carlota e o “grande homem”, num almoço formal na casa dele, no capítulo seguinte, contudo Mann deliberadamente (creio eu) o constrói como um anti-clímax, para depois jogar o leitor no intrigante e belo capítulo final, onde a velha conta não saldada entre a montanha e Carlota é discutida numa atmosfera onírica, como se não fosse possível um entendimento real entre ambos no cotidiano solene, pesado e reverente que cerca o antigo apaixonado de Lotte.

Em CARLOTA EM WEIMAR alternam-se três planos: o plano do jogo literário (pois Carlota, no livro, se torna duplamente personagem: já o era de Goethe, torna-se novamente em Mann, afastand0-se ainda mais da sua existência biográfica real), que é  mola propulsora para o plano do espelhamento biográfico (a frustração, incompreensão e desilusão dos vários personagenscom relação a aspectos da personalidade e comportanento de Goethe, no texto, reproduzem as mesmas reações com relação ao próprio Thomas Mann, uma pessoa que, no entender do seu risível biógrafo Donald Prater, era mais fácil de admirar como escritor do que se gostar como ser humano, como se isso tivesse a menor importância: há gente simpática demais no mundo, um Thomas Mann é muito raro); e, por fim, o plano alegórico: ao desenhar um perfil da época pós-napoleônica na visita de Carlota a Weimar, o grande escritor alemão projeta o momento histórico no qual escrevia, com a sua pátria dando os passos decisivos para iniciar a Segunda Guerra.

Quem ler o romance com atenção, tendo em mente o ano da sua publicação (1939), verá como Mann faz com que as afirmações de Goethe, que é afinal o nome mais alto da cultura germânica, mesmo para os nazistas, funcionem como advertências diretas para os seus compatriotas (ele já se encontrava exilado): “não é certo que tenham de odiar a luz. Lamento por eles não conhecerem o encanto da verdade…que se consagrem credulamente a qualquer rufião místico que apele para o mais baixo, confirme-os em seus vícios e lhes ensine a entender a nacionalidade como isolamento…” A antipatia aos judeus “só era comparável com outra, a que existe contra os alemães, cujo papel atribuído pelo destino e cuja posição interior e exterior entre os povos demonstravam o mais espantoso parentesco com a posição dos judeus… às vezes o assaltava o medo angustioso de que um dia se pudesse desencadear o ódio coligado do mundo contra o outro sal da tera, a germanidade…”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de fevereiro de 2001)

 

16/11/2012

O autor como personagem: o Dostoiévski de Coetzee

  

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/07/nos-confins-da-rarefacao-elizabeth-costello-de-j-m-coetzee/

Em 1869, Dostoiévski volta à Rússia por causa da morte (suicídio? acidente? assassinato?) do seu enteado, Pavel. Aluga o quarto onde ele estava vivendo e envolve-se com a proprietária, Anna, e a filha dela, Matryona. Ao tentar resgatar os papeis de Pavel que ficaram em poder da polícia, descobre o seu envolvimento (e também o de Matryona) com o ideólogo terrorista Nechaev; este, por sua vez, entra em contato com o grande escritor russo, apesar da perseguição da polícia.

Em O Mestre de São Petersburgo (The Master of Petersburg, 1994, traduzido por Luis Roberto Mendes Gonçalves, e que na edição da Best Seller ganhou o rebarbativo título de Dostoiévski, o mestre de São Petersburgo), o sul-africano J.M. Coetzee[1] parece ter almejado uma combinação da atmosfera de Crime e Castigo e a de Os Demônios, duas das principais obras de Dostoiévski. Será que ele conseguiu?

No começo, e até certa altura, parece que sim. É muito persuasiva a maneira como o quarte de Pavel e o “fantasma” do enteado vão se apossando de Dostoiévski, paralisando sua vontade de voltar para a Alemanha e reencontrar a esposa, fazendo com que ele tenha de se debater com a questão da paternidade (tão presente em seu universo, basta lembrar o exemplo mais óbvio, Os irmãos Karamázovi). E a técnica narrativa de Coetzee ajuda bastante a manter o interesse: ele parece convencido de que é impossível capturar a vida interior, o movimento subjetivo dos personagens, pelas palavras. O discurso do narrador atua, então, como uma câmera cinematográfica, mantendo um forte teor descritivo. Temos a sensação nítida de estar acompanhando a um filme em palavras, com aquela qualidade opaca da imagem, de só sugerir o que pode estar acontecendo intimamente com os personagens. Nesse passo da história, Anna, a senhoria, com o qual ló padrasto de Pavel estabelece uma tensa relação sexual, chega a lembrar certas personagens de José Saramago, como a Blimunda, de Memorial do Convento, ou a Joana Carda, de A Jangada de Pedra, mulheres do povo com uma sabedoria recôndita e crispada.

Por outro lado, embora a narrativa até se torne mais “dinâmica” com a entrada de Nechaev (o terrorista que tenta cooptar Dostoiévski, utilizando sua obsessão com Pavel), o livro perde sua força narrativa ao entrar no mundo conspiratório de burocracia policial, informantes e disfarces de terroristas. A trama de Coetzee aproxima-se sorrateiramente, como um informante, da lengalenga.

Quando, no final, a leitura da papelada deixada por Pavel se transforma numa espécie de arcabouço para Os Demônios, nem parece mais que estamos lendo o mesmo romance. Dostoiévski se perde com Nechaev pelas vielas de São Petersburgo (com o subversivo pretendendo mostrar a miséria russa para convencer seu interlocutor a colaborar com a Causa) e Coetzee perde o rumo da narrativa. O tom, pelo menos. Até mesmo Anna perde a qualidade saramaguiana que lhe dava certa magia e escorrega para a banalidade. O próprio Dostoiévski fica mais com cara de Barton Fink, emparedado num quarto que é, na verdade, uma metáfora da sua mente. Aliás, acontece com Coetzee o efeito irmãos Coen, criadores de Fink (e também de Miller´s Crossing): há muita ambição, muito estilo, só que nunca se chega a dizer a que se veio. O talento (inegável) é corroído pela gratuidade.

Encarando os 20 capítulos de O Mestre de são Petersburgo, pode-se dizer que ele segura as pontas até o capítulo 15, e, aos poucos, começa a ficar difuso, repetitivo, e encher linguiça. É uma pena porque, vindo de um país cuja base social estruturava-se num problema catalisador como o apartheid, que coloca todos em questão, Coetzee poderia ter a medida certa  para tratar desse mundo dostoievskiano, no qual o íntimo e o social entrelaçam-se, no qual um é a ampliação do outro.

Entretanto, sobram ainda as belas páginas que evocam os bons tempos do romance existencialista, como A Náusea: “Por que essa lenta caçada através dos campos vazios, atrás da impressão de um fantasma, o fantasma de uma impressão? Porque eu sou ele. Porque ele é eu. Alguma coisa que tento agarrar: o momento antes da extinção, quando o sangue ainda corre, o coração ainda bate. Coração, o boi fiel que mantém o moinho girando, que levanta apenas um olhar aturdido quando o machado se ergue alto, mas aceita o golpe, dobra os joelhos e expira.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de novembro de 1997)


[1] Nota de 2012; Essa foi a minha primeira leitura de um livro de Coetzee, e pouco sabia da sua produção (e prestígio). Só fui conhecer melhor seu universo alguns anos depois, já quando ele estava no estágio “Companhia das Letras”, após alguns títulos lançados pela Best Seller, entre eles o extraordinário À espera dos bárbaros.

O AUTOR COMO PERSONAGEM: UM JOGADOR CHAMADO DOSTOIÉVSKI

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de fevereiro de 2005)

“…havia uma carta endereçada a Anna Grigórievna contendo cem rublos…agora eles iriam poder pagar o que deviam à senhoria, sem precisar mais se esconder dela, e resgatar o broche, os brincos, as alianças e os outros objetos e, finalmente, ir embora desse lugar maldito. Decidiram partir no dia seguinte, e assim que chegaram em casa Anna Grigórievna começou a fazer as malas, enquanto Fédia saiu para trocar o dinheiro e resgatar o broche, os brincos e as alianças …”

Quem leu Um jogador, de Dostoievski, ou quem simplesmente gosta de literatura, não pode deixar de ler o esplêndido Verão em Baden-Baden (1981), de Leonid Tsípkin, pequeno romance que faz o leitor vivenciar, como se estivesse ao lado dele, o vício de jogar do próprio Dostoiévski, o Fédia do trecho acima, cujo desenlace é o seguinte: “Fédia apareceu justamente nessa hora –estava pálido e caiu a seus pés, como de costume, dizendo que havia perdido o dinheiro que Anna Grigórievna lhe confiara…era preciso salvar o dinheiro que restava…”.

Acompanhamos Fédia arrastando sua esposa por diversas cidades da Europa, tentando “fazer um capital” com o jogo em Baden-Baden, sentindo-se enganado pelos senhorios e serviçais alemães, o casal cada vez mais maltrapilho, penhorando até suas poucas roupas melhores, e o autor de livros supremos oscilando entre a exaltação e a mortificação, com um amor-próprio doentio, ao ponto dos atos mais infantis, mas com uma capacidade de se auto-diagnosticar impressionante, indo e vindo febrilmente do cassino para a pensão, da pensão para os passeios habituais dos veranistas (onde ele e a esposa fazem triste figura), e daí novamente para o cassino. E seu confronto humilhante com seus competidores literários, Turgueniêv e Gontchárov, a quem enfrenta no campo das idéias, porém sempre com um travo amargo no plano social (o porteiro do hotel de Turgueniêv barra sua passagem, Gontchárov coloca  com soberba em suas mãos moedas de ouro que ele imediatamente perde na roleta).

E o mistério de toda relação: por que Anna Grigórievna persistiu nesse casamento ? Aliás, por que casou com ele ? Como se sabe, ela a princípio era secretária dele, que ditava suas obras para cumprir prazos de entrega com maior rapidez (portanto, já havia dívidas, já havia o vício, já havia todo um mundo familiar conspiratório e complicado).

No final, o narrador, judeu, não consegue entender seu amor avassalador por esse autor tão anti-semita, embora praticamente tenha solucionado a questão ao fazer de Fédia um personagem dostoievskiano, atingindo toda a gama de sentimentos humanos, até os mais “feios”, os mais ridículos.

O que fica difícil de explicar é a magia da narrativa de Verão em Baden-Baden. Feita sob o signo do deslocamento (além da perambulação de cidade em cidade do casal Dostoiévski, o fio condutor é uma viagem de trem do narrador), no tempo e no espaço, ela se fundamenta toda na relutância em usar pontos finais: um travessão se abre, e outro e mais outro, e aí um  momento da vida de Fédia e Anna, ou do narrador, se abre, e assim somos levados a viajar no ritmo e na intensidade dessas vidas, de uma forma que nenhuma biografia linear conseguiria.

No prefácio ao livro, Susan Sontag nos conta que Tsípkin nunca conseguiu publicar nada em vida. Ele escrevia para “a gaveta”. E ela acrescenta: “para a literatura propriamente dita”. O que pode ser uma frase retórica, de efeito, mas que dá o que pensar em alguns casos, como no de Tsípkin. Ao nos fazer viajar, por menos de 200 páginas, na essência da vida de um gênio como Dostoiévski, realmente ele  atingiu o que só a verdadeira literatura consegue: “Mais vida, em um tempo ilimitado”.

O autor como personagem: Machado morre

 

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de março de 2006)

       Machado de Assis, um gênio brasileiro, de Daniel Piza, sofreu um  bombardeio crítico, sobretudo devido a diversos erros de informação (José Bonifácio seria português e Deodoro seria o “Marechal de Ferro”, por exemplo).

Só que eles podem ser corrigidos numa nova edição. Mais difícil de reparar são os tolos resumos das obras, as análises atabalhoadas ou pífias, ou os trechos decididamente toscos, como este em que ele  comenta a célebre fórmula “Ao vencedor, as batatas”: “Mais uma vez, a frase é entendida como uma ironia de Machado no sentido de que o vencedor não tem nenhuma vantagem salvo a de ficar com umas batatas…” !!! Que coisa incrível, não ? Ainda não satisfeito, ele caracteriza, na página seguinte, a loucura de Rubião (protagonista de Quincas Borba) do seguinte modo: “Era um perdedor com batatas” !!!

Mais uma vez, a ficção ganhou longe da pesquisa biográfica, ficando com as batatas.  Há uma nova edição de um finíssimo –em todos os sentidos—romance de Haroldo Maranhão, lançado com pouco alarde em 1991: Memorial do fim. Nele, encontramos Machado de Assis agonizante. Seu leito foi descido para o andar térreo, a porta da casa no Cosme Velho está sempre aberta, pois muitos querem vê-lo antes do trespasse: são amigos que chegam, são anônimos que vêm prestar a última homenagem, é o Barão do Rio Branco que comparece e dá azo a um momento constrangedor, é uma romancista que espera extrair do moribundo um prefácio, é uma mulher que pode ter sido o derradeiro investimento afetivo do grande escritor, após a morte da esposa, Carolina (um dos piores momentos do livro de Piza é quando “analisa” o famoso soneto póstumo dedicado a ela).

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Aliás, a figura da mulher aparece com a mesma ambigüidade que torna fascinantes tantas figuras femininas de Machado. Memorial do fim já começa com uma delas, real ou imaginária, a inquietar um dos seus amigos fiéis, o crítico José Veríssimo, descrito numa carta (de Mário de Alencar, filho do autor de Iracema, e discípulo dedicado do Bruxo do Cosme Velho a ponto de querer manter o decoro e afugentar qualquer fantasma feminino que assombre a figura impecável, o lado Conselheiro Aires, do seu mestre) em termos deliciosos, se lembrarmos que Haroldo Maranhão é paraense:

Diz-se um roceiro, e o é, do Amazonas semibárbaro, onde a marca racial se traduz nas impetuosidades dos elementos, nas águas possuídas de cólera, que rompem florestas e terras bem fincadas, levando-as no arrasto da força primitiva. O íncola parece plácido, demonstra-o ser, mas lá um dia muda-se nas raivas dos répteis ensandecidos. Então, e sem nexo de causa e efeito, lacera pessoas mesmo as amigas; são gentes indomadas que copiam a natureza indomada. Subsistem de outra face, nele, laivos de extremada curiosidade, para não falar-se [sic] de bisbilhotice, e de leves toques de picardia acerca de autores e livros, tudo obra da herança roceira.”

Com picardia e desfaçatez, Maranhão nos dá o fim de Machado mimetizando a maneira como ele mostrou a comédia humana, fundamentada em máscaras e fingimentos. Mais assombrosa ainda é a perícia com a qual mimetizou sua linguagem e técnica romanesca, conversando com o leitor, investindo nas desconcertantes digressões, contrariando expectativas, fazendo o próprio processo de escrever ser desmascarado, chegando até à gratuidade de compor capítulos com trechos de romances machadianos, e talvez este seja o ponto menos feliz do livro.

Ele é tão “feliz” em todo o resto, em que a pena da galhofa ajuda a suportar a tinta da melancolia de um fim, que ainda por cima é obrigado a fazer-se de espetáculo incessantemente aberto ao público, que alguns capítulos de gosto duvidoso pouco importam.

Ao contrário do próprio Machado (o qual não foi imune ao universo social que descreveu tão lucidamente) e seu discípulo, Mário de Alencar, Haroldo Maranhão nunca faz questão de ser impecável e decoroso. No entanto, houve (houve mesmo? Ou será mais uma gaiatice, um teste para o leitor, tão provocado ao longo da narrativa?) um cochilo no seu posfácio: diz que no capítulo XVII reuniu trechos de Quincas Borba. Trata-se, no entanto, de Dom Casmurro.

NOTA- Há duas edições de Memorial do fim, uma pela Marco Zero; outra, pela Planeta.

 

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O autor como personagem: A FOME DE NELSON

“Minha doença me revelou a minha mulher, e aliás me revelou a mim mesmo. Nunca fui de desconfianças, e sempre enchi Silvana de mimos, sem fazer uma crítica, um reparo, um senão. Quando as tosses começaram, o rosto dela assumiu uma expressão preocupada. Vivia torcendo um lencinho bordado nas mãos e estendendo-o para minhas mãos trêmulas. Tornou-se de forma geral mais atenciosa com tudo e com todos. Recebia as visitas com esmero e quase devoção: comprava flores, arrumava mil vezes os bibelôs sobre o aparador. Um dia, percebi um olhar diferente dela para um amigo meu, que nos visitava todas as segundas-feiras. Logo notei que nesses dias ela se arrumava de forma especial, sempre com um novo detalhe, como uma presilha nova ou uma sandália mais delicada. Seriam ciúmes de tuberculoso?—era o que me perguntava. Passei a responder com um resmungo ás perguntas que me fazia, e ela deixou de me olhar diretamente nos olhos, como costumava fazer, com seu rosto erguido e seu riso franco de outrora. Mas quando meu amigo chegava—e suas visitas eram cada vez mais frequentes—ela se desdobrava em sorrisos. Você sabe que a cara do marido pode influir no adultério; quanto mais uma tosse seca e insistente. Eu espionava-a quando ela pensava esta sozinha, e mais de uma vez a peguei cantando baixinho. Silvana saía todo fim de tarde, esquivando-se de mim. Meus amigos frequentavam então pouco a nossa casa; tenho certeza de que ela saía para encontrá-los em outros lugares—sabe-se lá em que antros. Via cenas horríveis: de boca vermelha e retorcida, ela me traía com meu irmão, meus amigos e até com um padre que conhecíamos. Eu estava magro, mas os braços e as pernas dela tinham se tornado diáfanos, quase transparentes. Finalmente mal nos olhávamos; e quanto tive de partir nos demos um vago adeus. O mais incrível de tudo é que eu, mesmo sem falar com ela, mesmo fingindo ignorá-la da maneira mais abjeta, a perdoava, desde o início, e ainda hoje a perdoo.”

“O tuberculoso é aquele que teima em viver depois de ter morrido”.

As duas citações acima foram extraídas de A fome de Nelson, romance de Adriana Armony publicado em 2005 pela Record. A autora carioca, então com 36 anos, vinha de uma tese de doutorado em que estudava Nelson Rodrigues como leitor de Dostoiévski. Logo, nada mais natural do que transformá-lo num personagem dostoievskiano.

O período da sua vida em que a família está na quase-miséria absoluta devido à sucessão de ocorrências trágicas (o assassinato do irmão, o galã da família, Roberto Rodrigues, por Sylvia Seraphim, a qual, na verdade, fora à redação do jornal que o pai dirigia para matar a ele, que acabou morrendo, de fato, pouco depois, e o declínio financeiro arrastou a todos), a aparência maltrapilha, a vida mental intensa e que muitas vezes não se ajusta à realidade circundante (candidato a escritor, escriba do jornal “O Globo”, frequenta meios literários, mas é como se fosse num clima de sonho: é apaixonado e alimenta projetos de casamento com uma linda bailarina, Eros Volúsia, filha da poetisa Gilka Machado, com a qual mal troca alguma palavras[1]), as caminhadas sem fim (premido pela falta de dinheiro para a passagem) pelo Rio de Janeiro nos anos 30, do subúrbio até o centro, todos esses elementos são perfeitos para criar uma atmosfera digna do autor de Crime e Castigo. E a cereja do bolo: a tuberculose, que leva o jovem escritor “febril” para a sua Sibéria pessoal, o Sanatorinho, em Campos de Jordão (Raskólnikhov foi para a Sibéria, degredado, no final do romance mais famoso de Dostoievski, e o próprio autor russo viveu essa experiência-limite, como nos conta em Recordações da casa dos mortos).

Para servir de anteparo a essa ligação estreita entre os dois escritores (e, sejamos francos, também em função de cacoetes da pós-modernidade[2]), Adriana Armony molda um narrador que resolve contar sobre a vida de Nelson porque supostamente teria sido seu contemporâneo na estadia em Sanatorinho (embora não se aproximassem muito ali). Mais tarde, funcionário público aposentado, escreverá um relato obsessivo e que pode conter uma mistura do factual com o literário e o alucinatório (como nota argutamente o autor da orelha do livro, Ricardo Oiticica, essa confluência aproxima A fome de Nelson da experiência levada a cabo por Nelson em Vestido de Noiva e seus planos alternados)[3].

Considero o livro muito bem realizado. Se há um senão a fazer é o fato de a autora não nos dar mais, de não ter feito um relato mais longo.

Eu sei, eu sei que o sintético é bom, que menos é mais (e também que o mais das vezes a reclamação é oposta: de que um livro poderia ser menor, sem prejuízo), e o próprio Nelson Rodrigues, excessivo como era, chegou aos píncaros da sua realização artística no “nada falta, nada sobra” de Senhora dos afogados (1947).

Entretanto, Adriana Armony coloca tantas coisas, misturando até focos narrativos distintos (como o da irmã de três anos de Nelson, num determinado momento) num texto tão curtinho, que ela mesma parece eloquentemente ressaltar que poderia ter percorrido outros caminhos dentro do texto e feito um romance maior.

Não acho justo que isso fique como uma sombra prejudicando o efeito geral de A fome de Nelson, apenas sublinho que não faltaria material para ela expandir seus paralelos dostoievskianos e que esse lado fuliginoso da biografia rodriguiana é propício para uma obra de fôlego maior.

Gostei especialmente da parte de Sanatorinho, da convivência com outros “mortos sem morte” (um dos quais é o que narra a história da epígrafe), e sobretudo, do relato da criação de um primeiro “espetáculo” rodriguiano dentro daquela instituição como forma de mostrar a passagem do candidato a romancista-epígono de Dostoievski para um autor teatral com sua voz única, além do fato de que aqueles “solteiros” forçados se movimentarem no polo psíquico dos abandonados, dos traídos que perdoam, dos ressentidos, dos impotentes, dos nostálgicos mesmo do desprezo e indiferença da mulher, ou seja o polo em que se movimentarão tantos personagens do futuro dramaturgo, cronista e folhetinista.

Ao fim e ao cabo, esse curto e eficaz A fome de Nelson nos dá fome de Nelson, de mergulhar novamente no seu universo de tuberculoso que viveu depois de ter morrido.


[1] As cenas no “salão parisiense” de Eros lembram similares em Memórias do Subsolo ou O Duplo, com o protagonista sempre em “estado de vexame”.

[2] Daí que o relato comece com um tom paródico (apropriando-se do início de Memórias do Subsolo):

“Sou um homem doente, um homem desagradável, creio que sofro do fígado… É mais pura verdade; e no entanto alguém já escreveu isto, e me espreita das páginas de um livro com sua barba espessa e olhos que ´perscrutam a alma´ (…) surge-me inadvertidamente essa palavra antiga, alada, que se estende como um lençol perfumado sobre o meu corpo cansado. Quem hoje perscruta a alma de alguém? Ou antes: quem hoje tem alma? É uma palavra tão fora de moda quanto ´polainas´, por exemplo…”

[3] “… aqui me confundo, não sei mais quem é este, se ele ou outro, ou se fui eu, com minha febre de tuberculoso, em meu delírio de desenganado, que misturei tudo, pois o que ocorreu provavelmente foi algo inteiramente diverso, a tosse seca de Nelson simplesmente se repetiu até consultarem um médico, que pediu que ele repetisse 33, mas não disse que a melhor coisa a fazer era tocar um tango argentino; e era Dostoievski que tinha ataques epilépticos precedidos de uma iluminação que o cegava, uma sensação aguda de prazer que se espraiava em doces e terríveis convulsões; além do quê, toda essa história de crime soa talvez um tanto forçada; a verdade é que, descoberta a tuberculose, Nelson foi mandado para uma casa de recuperação, onde conheceu homens esquálidos e fascinantes, ´mortos sem morte´ que viriam mais tarde povoar sua imaginação; foi lá que eu o conheci e, a meu modo, o amei”.

27/06/2010

TOY STORY: As exigências da infância

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de julho de 2010)

Achei tocante e delicada a idéia de KAFKA E A BONECA VIAJANTE  (Kafka y la muñeca viajera, 2006, traduzido no Brasil por Rubia Prates Goldoni para a Martins), do espanhol Jordi Sierra i Fabra: ele se inspirou numa anedota da vida de Kafka contada por sua última amante, Dora Dyamant, segundo a qual, tendo encontrado uma menininha desconsolada por ter perdido sua boneca num parque, ele começou a escrever cartas (as quais  entregava, adotando a identidade de “carteiro de bonecas”) que seriam da boneca desaparecida, com relatos de suas viagens.

Nunca foram encontradas tais cartas, nunca se soube da identidade da menina ou da veracidade do incidente, ou seja, é mais um daqueles “enigmas” e caça a textos perdidos que comprazem os especialistas e os obcecados e criam uma aura em torno dos grandes autores.

Pois Sierra i Fabra resolveu recriar ficcionalmente todo o incidente, narrando-o num romance infanto-juvenil: ele começa de maneira muito adequada e pertinente, mostrando a solidão de Kafka e sua fome de vida, de alegria, de coisas espontâneas e descomplicadas (“Quando a vida floresce, tudo são janelas e portas abertas”). Está morando em Berlim com Dora (1923), sua tuberculose agravou-se, ele está perto da morte, e adora perambular, pelas manhãs, no parque Steglitz, com sua figura magra e cavalheiresca (“Tinha quarenta anos, portanto era um velho para a menina. E, com sua saúde frágil,talvez fosse mesmo. Como não seria um velho precoce alguém que já está afastado do mundo e aposentado  havia um ano devido à tuberculose…”). Numa manhã, ele encontra a pequena Elsi debulhada em lágrimas devido ao desaparecimento de Brígida, sua boneca de estimação.

Uma das coisas mais bonitas do texto é a reação do adulto diante do desamparo infantil (“Por que a dor infantil é tão poderosa?”). Por isso, desorientado e perplexo diante desse sorvedouro emocional, Kafka diz a menina que a boneca não se perdeu, que ela “viajou”, e que ela receberá no dia seguinte uma carta explicando tudo, criando um tumulto de expectativa, uma fenda na realidade prosaica: “Por nada neste mundo, por mais criança que fosse, ela esqueceria a carta. Chegaria em casa e passaria o resto do dia pensando nela. Almoçaria, jantaria e iria dormir se tirá-la da cabeça. Não havia mais nada.  Sem Brígida, só lhe restava a carta. Um pequeno grande mundo. Franz Kafka tinha certeza de que pela manhã ela acordaria e faria tudo o que devia, brincar, estudar, ir à escola ou qualquer outra coisa a que estivesse acostumada, mas, quando chegasse a hora, correria até o parque Steglitz à sua procura…”

E ele se entrega febrilmente, assim como em todos os seus projetos de escrita, a compor a carta em que Brígida se explica. Ela é um sucesso. A pequena Elsi “viaja” com sua boneca e então fica à espera de mais, e mais. E aí Kafka se vê enredado por uma menina-sultão que lhe exige o sherazadiano ofício de dar conta do destino da sua boneca viajante. A voracidade do mundo infantil, as exigências do maravilhamento infantil às quais estamos tão pouco equipados a corresponder (“De quantas cartas Elsi precisaria para ser feliz? E Brigida, de quantas para se libertar?”; “A menina nunca perguntava nada sobre ele. Que importava? Os pequenos imaginam que a vida alheia é como sua própria vida. O essencial para ela eram as cartas”; “Elsi nunca  se cansaria. Brígida era sua boneca, e cada carta era um maravilhoso jogo e a possibilidade de continuar a seu lado, unidas, compartilhando os dias felizes de sua existência. O final não viria por conta dela, mas dele mesmo”).

Assim, a cada noite ele se vê obrigado a prolongar a viagem de Brígida pelos mais diversos continentes (“No mundo das bonecas não existiam fronteiras, nem raças, nem problemas com as diversas línguas”), deixando sua própria e agônica obra interrompida, à espera, até que o impasse se resolva.

É uma bela idéia, como já afirmei antes, e gostei muito do livro, mas me permitam esse travo de insatisfação: não deixa de ser decepcionante Sierra i Fabra não ter mergulhado a fundo na ficção kafkiana da boneca, e ter dado vida às cartas, às viagens de Brígida. Senti falta disso o tempo todo da leitura: tudo é muito bem armado, o encontro de Kafka com Elsi, as semanas em que ele lhe entrega as cartas, a descrição do relacionamento dele com Dora, a caracterização de uma Berlim pós-guerra (e rumo a outra). O que faz falta é Brígida, no fundo ela continua desaparecida na narrativa, pois o autor nos mostra a “descrição” das suas aventuras, pouco se aventura em imaginar  as próprias cartas, ou deixar que elas conduzam a narrativa geral.

Apontada esta limitação, mesmo assim KAFKA E A BONECA VIAJANTE é um texto digno de nota, e com uma proposta aliciadora.

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