MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/02/2011

Os mortos que não podem ser enterrados: duas resenhas-homenagens

 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de novembro de 2006)

No primeiro dia do mês morreu um dos maiores escritores do século XX, William Styron, aos 81 anos, após anos de luta contra a depressão e a tentação do suicídio, o que causou uma drástica diminuição de títulos novos da sua já pouco prolífica obra. Esse drama foi contado no curto e impressionante Perto das trevas (Darkness visible), onde podemos ler: “A depressão, quando me dominou, não era uma estranha, nem mesmo uma visitante inesperada. Há décadas ela batia à minha porta”.

Já no seu romance mais famoso, o maravilhoso A escolha de Sofia (1979), um dos livros mais lidos e relidos pelo autor deste artigo ao longo dos últimos 20 anos, podia-se ter uma indicação dessa proximidade com as trevas. O narrador, Stingo, afirma: “Na minha carreira de escritor, sempre me senti atraído por temas mórbidos –suicídio, estupro, assassinato, vida militar, casamento, escravidão”.

Parece ser um fardo dos escritores do chamado Deep South, herdeiros de William Faulkner. Styron certamente foi o mais brilhante deles, já a partir do primeiro romance, Deitada na escuridão (Lie down in darkness, 1951), história de uma jovem sulista, Peyton Loft, que se suicida em Nova York. O relato começa com seu cadáver voltando para casa e reconstitui toda a desagregação familiar que a transforma ao mesmo tempo numa mistura de Antígona e Ifigênia, partícipe e vítima do destino do clã.

Mesmo com a atmosfera carregada, esse texto de estréia impressionava mesmo pelo fabuloso domínio técnico do autor de 25 anos. Deitada na escuridão está para sua obra como Os Buddenbrooks para a de Thomas Mann (como foi observado pelo  crítico marxista Carlos Nélson Coutinho, discípulo de Georg Lukács, na edição brasileira de  Realismo Crítico Hoje): se nada mais tivesse produzido, já garantiria espaço para ele dentro de uma geração assombrosamente talentosa (Truman Capote, Norman Mailer, Saul Bellow, J.D. Salinger, Paul Bowles só para citar os mais óbvios).

Alguns anos depois apareceu o brevíssimo e austero A longa marcha, que mostrava a grotesca realidade da guerra sem precisar chegar a ela. Ele já teve duas traduções no Brasil (uma, como O preço da paz), só que está há anos fora de mercado. Mais absurdo ainda: o muito admirado Set this house on fire (1960), para o já citado  Carlos Nélson Coutinho o equivalente de A montanha mágica nos EUA, sequer foi traduzido!

Felizmente o mesmo não aconteceu com sua obra-prima As confissões de Nat Turner (1967), a qual, apesar do repúdio de intelectuais negros, ganhou o Pulitzer e é o mais cabal entrelaçamento entre o tema da escravidão com a problemática espinhosa da constituição de uma mentalidade religiosa contraditória na cultura afro-americana, ao dar a voz (num grande e também contraditório exercício narrativo em primeira pessoa) a um escravo que liderou uma rebelião violenta no século XIX. Aqui nesta coluna Nat Turner entrou na lista dos 100 maiores romances do século passado. Ainda assim, o meu  favorito continua sendo a memorável história do encontro entre o aspirante a escritor e a não-judia sobrevivente (se é que se pode chamá-la assim, e considerando o final do livro) de Auschwitz, na Nova York de 1947, que embora tenha proporcionado a Meryl Streep um personagem à altura do seu talento (e lhe valeu o Oscar mais merecido que algum intérprete já recebeu), empobreceu no cinema: A escolha de Sofia é um romance caleidoscópico e fascinante, com suas idas e vindas temporais, algo que só encontra paralelo nos livros de Jorge Semprún, como Um belo domingo.

Aí veio a deterioração psíquica, a necessidade de internar-se, após o uso indiscriminado de remédios como Halcion e Ativan. E, de vez, em quando, uma jóia como Uma manhã em Tidewater (1993), reunião de três narrativas. A mais bonita delas: Shadrach, na qual um negro quase centenário, com um falar incompreensível, aparece na propriedade de “brancos pobres” e faz com que o narrador, embrião do futuro escritor, tenha de traduzir a trajetória que o levou até ali, onde foi escravo, para morrer, despertando a família Dabney para sua própria história, perdida no empobrecimento crescente geração após geração.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,   em 27 de agosto de 2005)

Por conta de Lima Barreto, que ocupou esta coluna nas últimas semanas (VER aqui no blog:

https://armonte.wordpress.com/2012/05/08/genio-da-raca-lima-barreto/), quase que se deixa escapar uma data importante: a morte de Thomas Mann há 50 anos, em 12 de agosto (ele nasceu em 1875), na Suíça, numa espécie de exílio auto-imposto diante da guinada conservadora e totalitarista (após a guerra) do seu país de adoção, os EUA, depois de perder a cidadania alemã com a ascensão nazista.

O maior dos escritores já estreou com um romance genial: Os Buddenbrooks (1901), pelo qual ganhou o Nobel (em 1929) e que apresenta  seu mais inesquecível personagem, Thomas Buddenbrook, o qual, após elevar o prestígio sócio-comercial da firma da família, descobre, com a leitura de Schopenhauer, que tudo é “maya”, ilusão. A partir daí, tudo o que é sólido desmancha no ar.

Ainda nessa primeira fase, temos o revelador Tônio Kröger.  A  visão da arte como uma atividade perigosa e suspeita, essencialmente  desagregadora, que precisa ser refreada por uma vida exteriormente burguesa, é herdada de Nietzsche, e terá lugar até em O lobo da estepe (1927), de Hermann Hesse, cujo misantrópico protagonista, gosta de viver em casas burguesas e arrumadas.

Antes da Primeira Guerra, Mann ainda publica dois textos-chaves: Sua Alteza Real, onde aprimora seu estilo rumo a um realismo simbólico, e Morte em Veneza (a melhor novela do século XX, junto com A Metamorfose, de Kafka), na qual um grande e cansado escritor deixa-se levar pela beleza de um menino/anjo-da-morte, associado ao apelo do mar, o mundo informe, tentação suprema para quem sempre lutou para criar a forma.

Após um longo e obscuro ciclo, começa em 1924 o grande período de Mann como gênio da literatura, com sua mais apaixonante realização, A Montanha Mágica, caso raro de uma obra difícil, mas carismática e popular, ao ponto de a Nova Fronteira relançar neste ano mesmo uma reimpressão e ela se esgotar rapidamente em diversos lugares. Recentemente, esse romance inigualável  e seu protagonista, Hans Castorp ganharam uma bela homenagem de Harold Bloom em Como e por que ler.

O apelo do fascismo foi diagnosticado com precisão em Mário e o Mágico (1930). De 1933 a 1943, ou seja, da vida na Alemanha ao exílio nos EUA, foram publicados os quatro volumes de José e seus irmãos. O primeiro, Histórias de Jacó, é possivelmente o texto mais bonito e virtuosístico que Mann escreveu, ao ponto de eclipsar, talvez injustamente, os outros três. É o tipo de texto que seria escolha certa para a famosa hipótese da “ilha deserta” que sempre se propõe aos leitores.

O mais incrível , no entanto, é que reelaborando a fábula bíblica, ele ainda escreveu uma obra-prima como Carlota em Weimar (1939), narrativa sobre o reencontro de Goethe e a inspiradora da heroína de Werther, e na qual a alma alemã é dissecada. E também a divertida farsa hindu, As cabeças trocadas (1940), além de outra  história tirada do  Antigo Testamento: A Lei, sobre Moisés.

Depois da Segunda  Guerra, ainda começou outro período glorioso para Mann: em 1947, ele  pôde rir por último na tola questão de ser um “artista ultrapassado”, ao publicar o moderníssimo, ao mesmo tempo sinistro e paródico, Dr. Fausto, para muitos sua obra suprema, e que realmente é a mais impressionante. O impacto da mistura de pacto com o demônio, alma alemã, música e nazismo foi tão grande que ele chegou a ser cogitado para um segundo Nobel.

Livre de qualquer amarra, ainda escreveu dois romances imperdíveis: O Eleito (1951), que disputa com Histórias de Jacó a taça no quesito criatividade na prosa e estado de graça com que foi escrito; e o incompleto (ficou só no primeiro volume) As confissões do impostor Félix Krull (1954), texto que o acompanhou a vida inteira e que representa sua incursão na “alta comédia”, aquela em que a vida é sonho e estamos no grande teatro do mundo.

Mann teve a sorte de ser esplendidamente traduzido no Brasil, especialmente por Herbert Caro e Agenor Soares de Moura. Teve a sorte de ter um admirador, Anatol Rosenfeld, que deixou ótimos ensaios sobre sua obra. Pena que as biografias sobre ele sejam lamentáveis: Nigel Hamilton, em Os irmãos Mann, procura sempre depreciá-lo, em favor de Heinrich Mann. E há uma ridícula e desonesta biografia de Donald Prater, Thomas Mann, que já é comprometida de saída pela maldisfarçada e inoportuna antipatia do biógrafo pelo biografado e pelo visível fastio que sua obra lhe causa. É realmente muito pouco para um criador tão raro e fascinante que, como se lê na capa da edição de estréia da “EntreLivros” (na qual foi o destaque), “desafia e seduz o leitor atual”. Sempre tachado de ultrapassado, Mann , como Flaubert, sempre acaba por ultrapassar, deixando para trás os detratores.

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20/02/2011

Viver no além

Num dos melhores capítulos de Temporada de caça (“Affliction”), o narrador dá a palavra às pessoas que testemunharam diretamente os eventos que está tentando reconstruir para o leitor. Russell Banks fez desse procedimento a estrutura total de O doce amanhã (the sweet hereafter, EUA, 1991),transformado num filme belíssimo e doloroso de Atom Egoyan (embora a adaptação de Temporada de caça, realizada por Paul Schrader, não seja nada desprezível; o problema é que, ao contrário da versão de Egoyan, dá a impressão de ser uma diluição do texto literário).

  O doce amanhã conta, de forma desoladora, é preciso dizer, um acidente com um ônibus escolar que mata quase todas as crianças e pré-adolescentes da pequena comunidade de Sam Dent. Quatro personagens tomam a palavra: Dolores, a motorista; Bill, um dos pais e herói da cidade; Nicole, uma sobrevivente (mas que ficou paralítica); e Mitch Stevens (que, no filme, é interpretado de maneira soberba por Ian Holm, uma das maiores atuações que já vi), o único “estranho” à tragédia, um advogado de cidade grande que vem oferecer seus serviços aos pais num possível processo de negligência criminosa.

     Apesar de dar origem à trama e de ser um fato quase inimaginável de tão terrível, o acidente não é o que mais importa no romance (e nem no filme). O que faz a grandeza de O doce amanhã (um título nacional muito mal escolhido, uma vez que o “hereafter” do original se refere á “vida depois da morte”, que é uma sensação compartilhada pelos personagens principais) é o entrelaçamento que faz fa constatação da precariedade da vida (o qual, não se pode deixar de admitir, fica até mais forte no filme porque ele mistura cenas acontecidas antes e depois do acidente) com a sutil descrição da desagregação da comunidade. Desagregação que já estava em curso, é verdade, e da qual o acidente foi mais um elemento catalisador.

    Já em Temporada de caça, Banks mostrara uma pequena comunidade em meio a uma paisagem gelada, onde conviviam destroços dos anos 60 com o tradicional puritanismo conformista e estranho do norte-americano médio, que faz com que muitos autores dos EUA (e do Canadá) nos mostrem os personagens mais solitários que já existiram, mesmo cercados por famílias e vizinhos. Nos últimos anos, além de Banks, e The sweet hereafter é a sua declaração mais eloqüente sobre o assunto, isso é muito perceptível na obra de Sue Miller, autora de The good mother (aqui no Brasil, O preço de uma paixão-!!!???), Por amor & A hóspede especial.

    E, no meio de veteranos do Vietnã, de hippies que ainda insistem numa vida alternativa meia boca, de pessoas que vivem da assistência social e de ajuda das igrejas, de pessoas fracassadas que moram  num lugar que apenas “está no caminho” e que, portanto, não tem qualquer atrativo, nós vamos conhecendo um pouco como eram as pessoas antes do acidente, como o simpático viúvo Billy Ansel, que tem um casal de gêmeos, escondia uma vida não tão simpática com sua esposa (há a narração de uma viagem medonha à Jamaica, na qual se alternam a esquizofrenia e a paranóia) e que, após a morte dela, começou um caso com Risa, esposa de um amigo; o também simpático e meio apagado Sam Burnell, pai de Nicole, mantinha relações sexuais com a filha, cujo depoimento no processo é uma forma de punir o pai; o marido de Risa, Wendell, por sua vez, utiliza o processo como meio de expressão  para o seu ressentimento contra tudo e todos.

    E, como contraponto, há a própria relação de Mitch, o advogado forasteiro, com a filha. Após desistir de interná-la em clínicas para viciados, ele recebe ocasionais telefonemas em que ela mente tenta extorqui-lo, o agride, e assim por diante. É essa relação horrível que permite que se extrapole o drama do lugarejo de Sam Dent e permite a Mitch proferir a grande frase apocalíptica do livro (e do filme também): “Todos nós perdemos nossos filhos”. E que se torna mais horrivelmente irônica por causa de uma lembrança da infância da filha em que Mitch teve que fazer ele mesmo uma operação traumática para salvá-la de um envenenamento (não convém contar aqui, contudo é um dos pontos altos de O doce amanhã e talvez a parte que melhor simbolize o significado da história).

     Como se vê, o romance de Russell Banks é sobre a perda, uma perda mais perversamente disseminada no nosso cotidiano e nas nossas relações do que a causa pela morte, mas que a morte transforma numa aflição irreversível (porque deixa tudo sem sentido).[1]

    Igualmente sem sentido são certas soluções da tradução: por exemplo, fazer Nicole formar-se no primário, aos catorze anos!!??; a mesma Nicole, que talvez tenha reflexões até maduras demais (é preciso aceitar certas incongruências num livro tão bom) para sua idade: “Mas eu olhava para meu pai. Olhava direto para ele. Mudei depois do acidente, e não mudei só no corpo, e ele sabia disso. O segredo dele era meu agora; eu  o possuía. Antes, era como  se eu o compartilhasse com ele; mas agora não. Antes,  tudo era fluido e mudava e confundia,  sem que eu soubesse direito o que tinha acontecido ou de quem era a culpa.  Mas agora o via como um ladrãozinho safado no meio da noite que roubou da própria filha o que deveria ser permanentemente dela—como se ele tivesse roubado minha alma ou algo que o valha… Depois veio o acidente e roubou o meu corpo…”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de fevereiro de 1999).


[1] nota de 2010: Anos depois desta resenha, em 2004, perdi meu irmão caçula e The sweet hereafter se tornou mais forte para mim, nesse sentido.

A deformação da psique masculina: o “homem” visto pelo homem

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 26 de janeiro de 1999)

    Nick Nolte esteve entre os indicados ao Globo de Ouro e está indicado ao Oscar deste ano por sua interpretação em Temporada de caça[1], filme do grande Paul Schrader[2] baseado num romance de Russell Banks (Affliction: EUA-1989, traduzido por Geni Hirata), no qual  o narrador chamado Rolfe, um professor universitário, procura revelar a seqüência de eventos que levaram seu irmão, Wade, a assassinar o pai (esmagou o crânio dele com um rifle e depois incendiou-o) e Jack, um colega de serviço (ambos trabalhavam para uma companhia de perfuração).

      Ao contrário de Rolfe, Wade permaneceu na pequena cidade onde ambos nasceram, Lawford. Divorciado, fracassado, bêbado e violento, além do serviço que divide com Jack, ocupa o posto de único policial do lugarejo. Não que isso lhe dê qualquer prestígio ou autoridade, pois não consegue entregar sequer uma multa de trânsito ao dono de uma BMW (que coloca a multa no bolso de Wade e o manda passear).

     Três situações vão desencadear a “explosão” de Wade, ao mesmo tempo em que transcorre a temporada de caça aos veados da região: uma dor-de-dente intolerável (Wade arrancará o dente com um alicate); a luta pela custódia da filha com a ex-mulher; a possibilidade de que seu patrão na companhia perfuradora, Gordon, tenha utilizado Jack no assassinato de um importante sindicalista, morto durante uma excursão de caça.

    Mais do que uma mera historinha de fracassados e de conspirações criminosas, a Aflição de Wade e Rolfe é uma impressionante investigação ficcional a respeito da brutalidade e da boçalidade masculinas. Enquanto escrevo este artigo, vejo uma matéria sobre a rivalidade de gangues de jiu-jitsu, que levou dois idiotas a trocarem tiros numa danceteria. E toda a estrutura do livro de Banks é destinada a mostrar os estragos causados por essa cultura da porrada e da demonstração de macheza.

     Wade tem um comportamento violento e ameaçador porque, sendo costumeiramente espancado pelo pai desde criança, quando chegou à adolescência, mesmo assim não conseguiu revidar ou enfrentá-lo, como fizeram outros irmãos. Essa “covardia” inata distorceu completamente seu relacionamento com um mundo cheio de códigos truculentos (não é à toa que Temporada de caça, e nesse sentido o título brasileiro foi bem feliz, relaciona a história de Wade com a revoltante cerimônia anual dos caçadores “por esporte” chegando à região para matar o “seu” veado; aliás, qualquer sociedade que permita e tolere a caça “por esporte” jamais poderá ser chamada de civilizada e, no que me diz respeito, quem gosta de caçar está junto do estuprador, do pedófilo e do latrocida).

    Todos os personagens masculinos importantes do livro são destruídos pela mistura de frustração e violência: Wade, Rolfe, o pai deles, Jack. A esse respeito, nenhuma passagem é tão contundente em Temporada de caça quanto aquela em que Wade e Rolfe atribuem um ao outro um espancamento que teria ocorrido aos seis anos. Wade conta o episódio como se tivesse acontecido com Rolfe, este nega e diz que, na verdade, ouviu dos outros irmãos que tinha acontecido com Wade, como uma advertência do que poderia acontecer a ele. Rolfe, que está  sempre conversando com o leitor, diz então que se tornou uma criança cautelosa e depois um jovem cauteloso e, por fim, um adulto cauteloso, mutilado de qualquer espontaneidade e autenticidade na sua relação com o mundo.

   É curioso notar como Temporada de caça faz o leitor brasileiro lembrar  dos dois magistrais romances de Graciliano Ramos, São Bernardo & Angústia, que também tratam da deformação da psique masculina por causa da tradição da violência e brutalidade: tanto Wade quanto Rolfe crescem num ambiente que incita a vencer o mundo pela brutalidade (uma brutalidade que não desdenha de utilizar a astúcia), como faz Paulo Honório em São Bernardo, mas o fracasso social (de Wade) e a intelectualização da frustração (por Rolfe) lembram o Luís de Anngústia. Não por acaso ambos os livros têm como títulos distúrbios emocionais e psicológicos (angústia e aflição).

     Infelizmente, o autor de Perdidos na América fica aquém do nosso Graciliano por conta de escorregões no tom da narrativa, momentos em que ele adquire um meloso emocionalismo, um exagero da dramaticidade, que leva quase ao dramalhão, portanto ao pieguismo, lembrando muito um autor de talento que se perdeu no clima soap opera, Pat Conroy, de O príncipe das marés (que, como o leitor deve recordar, gerou um dos mais horrorosos filmes de todos os tempos, por coincidência estrelado também pelo sonolento Nick Nolte,e que também lhe rendeu uma indicação ao Oscar), no qual o narrador-protagonista também era um produto da violência e da brutalidade, que ele procura apaziguar em si mesmo ao longo da história.

     Mesmo com as imperfeições apontadas, Temporada de caça não se perde no caminho como O príncipe das marés (que, no entanto, não é de se desprezar). É  um romance marcante, forte, porque mostra que ainda temos de lutar com as forças irracionais, primitivas e desagregadoras que as pessoas geralmente se abstêm de analisar e sentimentalizam, perpetuando-as em relações familiares e amorosas.

   


[1] Mas quem acabou levando Oscar pelo filme foi o veterano James Coburn no papel do pai de Nolte, e de fato sua interpretação é muito forte.

[2] Lamentavelmente, apesar de ser uma adaptação da mais absoluta correção, não é dos filmes mais marcantes de Schrader.

16/02/2011

LÍDIA JORGE E A VIRADA DO MILÊNIO

       O final de Combateremos a sombra (2007), de Lídia Jorge[1] (e peço  de saída desculpas por revelá-lo) me lembrou os romances de Leonardo Sciascia: o protagonista, Osvaldo Campos, após descobrir duas frentes conspiratórias e mafiosas no curso de alguns poucos meses que se seguem à virada do milênio, e ingenuamente se arvorar em denunciador (mandando cartas a agências internacionais, à órgãos de imprensa e até à presidência e preparando um dossiê com nomes e dados), é assassinado (tentam, de forma canhestra, encenar um pretenso suicídio para encobrir o crime, o que não dá muito certo).

      O assassinato,  já aguardado pelo leitor como aqueles finais inexoráveis das tragédias, de um protagonista que sucumbe ao labirinto conspiratório, foi magistralmente exercitado por Sciascia em A trama, porém Campos me lembra mais o incauto professor Laurana de A cada um o seu. Não que ele seja enganado por alguma mulher (o grande autor siciliano usa magnificamente o clichê do cherchez la femme no seu romance), ou que viva com antolhos, cego para a realidade à volta. Mas porque seu heroísmo esbarra na impotência e na falta de fio de ariadne, hoje em dia, para desenovelar-se do labirinto de desmoralização ética à nossa volta.

     Isso me faz evocar, mais uma vez, Georg Lukács e sua problematização da ação épica no romance: para que o épico exista, a ação do herói deve ser necessária (mesmo que não reconhecida a princípio pela comunidade) e possível. A ação de Osvaldo Campos  seria necessária e, mais ainda, possível?

     Para responder à pergunta, voltemos ao princípio do grande romance de Lídia Jorge, um dos mais lindos  que li nos últimos tempos: Combateremos a sombra  começa justamente na virada do milênio. Em meio ao frenesi geral dessa data-pop, Osvaldo deixa a  burguesíssima esposa, Maria Cristina, muito irritada porque resolve ir ao seu consultório (no Prédio Goldoni, o 75 da Avenida de Santa Pulquéria, em Lisboa) terminar um artigo, para uma revista especializada,  sobre o tema  “Quanto pesa uma alma?”. Após batalhar com o texto (enquanto evita os incessantes telefonemas de seus  pacientes-dependentes, entre os quais tomamos conhecimento com  nomes  que adquirirão peso no transcorrer da trama como Maria London e Lázaro Catembe), achando, aliviado, que chegaria a tempo ao Grande Hotel do Guincho para a recepção de réveillon (num autismo surpreendente, pois como não imaginar o trânsito do fim de ano?), há a aparição inesperada de um ex-paciente, um jornalista veterano “dançado”, Elísio Passos, a princípio aparentemente “normal”,  a lhe anunciar que fora envenenado nessa última noite do século e do velho milênio por um dos ovos de Salazar:

“Pois talvez o senhor não saiba que Salazar tinha um galinheiro em São Bento, há quarenta anos atrás, e que aí criava galinhas, e que as galinhas punham ovos que ele mesmo vendia… Eram ovos envenenados . Estramônio puro. E sabe o que fazia ele, depois, a esses cestos? Não sabe? – Mandava-os entregar no Supremo Tribunal de Justiça, na Assembléia Nacional, enviava-os à Nunciatura  [etc etc]…  e por sua vez distribuíram-nos posteriormente pelas juntas de freguesia, regedorias, paróquias, grandes e pequenas comarcas, repartições públicas, registros de fazenda e finanças, e esses sim, pobres papalvos, foram-nos comendo e distribuindo  por seus parentes e amigos que os comeram também… Eu resisti desde criança, desde o dia em que o meu pai escarrou por cima do fato da Mocidade Portuguesa que a minha mãe me tinha comprado e eu assisti… O jornalista fez uma pausa, um suspiro— Mas passado todo este tempo, sabe o que aconteceu, professor? Passado todo este tempo de vigilância, distraí-me e esta noite comi um…”

     Osvaldo Campos fica surpreendido consigo mesmo por não ter vislumbrado a loucura do antigo paciente, que lhe pede companhia para ser atendido num Pronto-Socorro. O que o psicanalista mais deseja é se livrar do doido e chegar a tempo de fazer as pazes com a mulher. Ele se livra do doido numa esquina, porém seu casamento acaba aquela noite (e ele fica sabendo que Maria Cristina mantinha um caso com seu colega e ex-sócio, Navarra, um psicanalista muito cortejado pela mídia, tendo sido matéria até da Times; aliás, Navarra foi o primeiro terapeuta a tratar de Maria London).

    Dias depois, intimado pela polícia, fica sabendo que o jornalista “caíra morto” naquela noite mesmo de réveillon (e após a leitura total do romance nos perguntamos se Elísio Passos não pode ter sido assassinado, e se seu destino  não prefigura o de Campos, até na exaltação meio que fora do compasso da vida ordinária, a sugerir delírios e loucura, sem contar o mergulho obsessivo numa “teoria da conspiração”).

    Após a tumultuada separação (disvórcio, uma das inúmeras ‘brincadeiras” com a linguagem que forma um capítulo à parte da beleza de Combateremos a sombra), Osvaldo Campos (que até aí se assemelha muito ao típico herói “em crise” do romance burguês tradicional)  passa a residir no seu consultório, e entramos então na sua rotina de psicanalista, auxiliado pela inesquecível Ana Fausta, secretária que quase rouba o livro. Vemos aí como até numa narrativa de feitio mais minimalista, um escritor consumado, sagaz, de mão cheia, consegue nos oferecer um vislumbre de totalidade através de um universo inteiramente “mobiliado” [2]., inclusive nos mais corriqueiros detalhes, até nos clientes “pagantibus” (anotados a caneta) e “gratuitos” (anotados a lápis), cuja desproporção (em favor crescente dos segundos) preocupa tanto a aflita funcionária.

     A “paciente magnífica” de Osvaldo Campos é Maria London, que lhe conta sonhos compridíssimos e narrativamente bem encadeados, sempre com a onipresença de navios de cruzeiros que parecem cidades imensas, auto-suficientes, e onde sempre predomina a degradação, a exploração humana, um submundo triunfante, enquanto a nau avança num oceano de corpos mortos. Como o foco narrativo também nos permite dar uma espiada na mente de Maria London, ficamos sabendo que ela, filha de um “magnata”, está na expectativa de uma reação do analista, uma pergunta, algo que rasgasse o véu de mitomania, histeria e labilidade. Apesar da “atenção” de Campos, ele está muito preso ao seu referencial minimalista para pressentir a Grande Narrativa que se esconde nos relatos oníricos de Maria London, assim como achara apenas um delírio a “teoria da conspiração” do jornalista que morreu na virada do milênio.  Voltarei à questão das Grandes Narrativas em breve.

II

“Quem me diz que eu desço  até Alcântara e não encontro uma coisa dessas, com o nome escrito no convés, exatamente assim–ALEXANDRIA? Pode imaginar o que pensaria eu de si, se fosse pela manhã  a correr lá embaixo e deparasse com uma das suas fantasias a andar por ali, ao vivo? Tenho-lhe dito muitas vezes, Maria London, que é preciso respeitar o real, acima de tudo…”

     Tendo cristalizado uma certa rotina na sua vida dupla de morador e profissional no consultório do Prédio Goldoni, Campos gosta de correr de manhãzinha. Um dos aspectos mais gritantes do “trabalho do sonho” de Maria London (que, aliás, mora num loft em frente ao Prédio Goldoni, e é testemuha das vigílias e da insônia do seu analista) é que os paquetes não só são descritos luxuriosamente, como os seus nomes avultam significativamente. Pois bem, numa de suas corridas, nosso herói dá de cara com um dos paquetes dos sonhos de Maria London. Pior ainda, a presença desse navio não está registrada em nenhum canto, é como se fosse uma alucinação do próprio psicanalista: ninguém reconmhece que aquele paquete esteve em Lisboa (mais tarde, ele verá a paciente embarcar, levada pelo pai, em outro, após tê-la espreitado sorrateiramente). A partir daí a visita noturna da paciente magnífica, sobre a qual ele acalentava o sonho de escrever um memorial do caso, nos moldes dos famosos casos freudianos, ganha novos contornos, em que ela fornece informações sobre uma rede internacional de tráfico de drogas e sabe mais lá o quê da qual ela participa e o pai é um dos mandantes (as informações de Maria forma uma das bases do dossiê que Osvaldo prepara depois e pelo qual é morto).

         Por outro lado, desde a noite do réveillon, ele conhecera uma mulher angolana (filha de um italiano e uma local) que parece alojada no Prédio Goldoni, no apartamento-“matadouro” de um conhecido de Osvaldo, um sujeito poderoso e repelente, ao que parece. Aos poucos, muito aos poucos, ele e Rossiana vão se envolvendo, se apaixonando e ela revela que não é manteúda de ninguém, mas uma fotógrafa que registrou imagens de trabalhadores ilegais, que presenciou uma mula de tráfico (chamadas ali de “cagões”, com a proverbial sutileza lusitana) morrer por ter engolido saquinhos em demasia (ela nessa época era técnica de raio X na clínica onde os cagões vinham defecar sua carga),k enfim, mais portas para o submundo, que de certa forma tangenciam de alguma forma o mundo do pai de Maria London. Era para Rossiana ter sido eliminada, mas um dos seus executores a conhecia de outros tempos (fotografaram juntos) e ele a poupa e a mantém “de molho” no terceiro andar do Goldoni (Osvaldo ocupa o quinto andar).

   Osvaldo consegue tirar Rossiana do país (ela se esconde com freiras em Roma, e sua execução é anunciada num site específico), e, embora mantenham contato telefônico, ele não diz a ela que está preparando um dossiê e tentando divulgar os detalhes do que soube através dela e de Maria London (ele será assassinado justamente quando estiver de partida para se encontrar com ela em Roma).

O que impressiona é o aspecto pífio que reveste o heroísmo de Osvaldo Campos. A princípio, e ainda mais com o narrativamente anti-climático final (com o óbvio assassinato),  embora não pudesse haver outro final, creio eu, incomodou-me bastante a falta de grandeza dos personagens principais de Combateremos a sombra, especialmente o protagonista, Rossiana e Maria London, nenhum dos quais desperta grande empatia nem são inesquecíveis (a linguagem do narrador é que o é). Esse estofo diminuído das personagens, no entanto, é uma qualidade mimética, no final das contas: para dar conta da virada do milênio, Lídia Jorge nos dá as personagens possíveis dessa virada. Perguntei acima se a ação do herói era necessária e possível? Sem dúvida, necessária, sempre o é (apesar de cada vez menos reconhecida pela sociedade, é evidente). Mas possível? Ao herói do milênio que começou parece só restar preparar dossiês que se confundirão com outros dossiês (há uma jornalista combativa e passional que diz a Osvaldo que só ela tinha em mãos uns cinco dossiês “daqueles”) e mandar cartas. Pelo menos, ele saiu do refúgio minimalista e se deu conta de que a teoria da conspiração pode ser uma fantasia delirante (Elísio Passos, mesmo assim evocando a última Grande Narrativa de Portugal, o período salazarista, antes de ser engolido pela comunidade européia como a raspa do tacho) ou uma visão de um submundo que de alguma forma rege nossas vidas. E não deixa de ser irônico que aquilo que num romance de crime e submundo exigiria espaços diversos, perseguições e aventuras desenfreadas, passe tudo por um consultório médico num quinto andar de um prédio. É um triunfo do romance de Lídia Jorge essa contradição, um lance de mestre. O que Osvaldo Campos vislumbra, com seu pequeno heroísmo malogrado, como os resignados e derrotados heróis sciascianos, é a presença da superestrutura na nossa vida.  E eu, que cada vez mais considero verdadeiras e essenciais as Grandes Narrativas de Freud e Marx, mesmo que todos os indícios e todos os proclamas indiquem seu óbito (eu talvez seja uma mula empacada, uma besta quadrada), penso que, se não estou redondamente enganado, esse é um dos aspectos que tornam Combateremos a sombra um romance particularmente fascinante. Do homem que, resignado com o fim do casamento, se satisfaz com a filosofia de um paciente, “Professor, navego por dia mares de trampa, para conseguir caçar um, dois peixes…” (trampa, que pode ser merda ou logro), a qual não deixa de ter a sua verdade, se torna o comovente-quixotesco-cômico homem que a jornalista Marisa  Octaviano  conhece pouco antes da sua morte: “… se sentira tão sensibilizado pela atenção de Marisa Octaviano que se tinha lembrado de proceder com o seu pai, diante das mulheres que respeitava –Quando a veterana lhe estendeu a mão, ele beijou-lha. Um sinal de gratidão. Mesmo que as suas diligências desembocassem em nada, Osvaldo Campos sentia-se a partir daquele instante a fazer parte dum grupo, duma seita subversiva a que também pertencia aquela veterana. Um reconhecimento profundo. A Passionaria não sabia do que se tratava e riu — Deixe-me dizer-lhe que você, além do mais, até é cômico.– E desapareceu na porta, levando o material consigo”.

III-

 A propósito da beleza da linguagem de Combateremos a sombra e da sua mágica com as palavras mais simples e singelas,  uso como exemplo uma das minhas passagens favoritas do romance :  como já se viu, Osvaldo passa a morar no seu consultório e como não consegue dormir muito, na madrugada fica ouvindo um programa radiofônico chamado “Gracias a la vida”, como na canção de Mercedes Sosa. Entre os vários depoimentos de madrugadores por que dariam “gracias a la vida”, aquele que intriga e pouco a pouco encanta o psicanalista é o da mulher que afirma:”Gracias a la vida, o meu bubu beijou-me“:
“O que era um bubu?  Um bubu que beijava?” Ele se pergunta se seria um pássaro, um cão, e o que poderia ter acontecido para que fosse tão especial esse beijo, nessa manhã, do tal bubu:
Ou talvez um amante. Talvez um amante que demora a revelar-se.  Talvez bubu fosse o diminutivo guardado no silêncio da espera e até ao momento em que o amante beijasse, e a destinatária, uma mulher de voz bem timbrada,  cuja idade não se revela, só o timbre acima da idade, essas vozes maravilhosas que são a própria alma desincarnada da voz,  que pairam acima do tempo, naquele caso viesse agradecer sob anonimato, chamando a um homem amado, nas ondas da madrugada, bubu.  A sua idéia, definitiva,  era pois que, à semelhança de tudo, o bubu fosse o nome de um outro nome. A sua idéia era de  que tudo tinha um rosto visível e um outro estava escondido. A própria voz de Sosa era isso. Uma promessa. A beleza era uma promessa.  O que era maravilhoso atrás da palavra bubu era a coisa maravilhosa que lá não estava e não era palavra. Passava a vida a escutar histórias de bubu — Osvaldo Campos disse em voz alta o nome do seu bubu– Rossiana.”

    E podemos também citar passagens do relato da propria Rossiana da sua visão-de-mundo como fotógrafa: “Emprestaram-me uma Yashica, e num papel exposto numa parede, inscreveram-se dez rapazes e cinco raparigas. Como dizer? O que eu sabia pouco mais era do que aquilo que eles sabiam, mas entendemo-nos. Não há nada como crianças a ensinarem crianças…Eu disse-lhes mais ou menos isto: Pois podemos chamar àquilo que vamos fazer, a forma como vamos trabalhar e aos objetos e ângulos que vamos escolher, tudo o que voa… Malta, disse eu, o pessoal vai andando pelo nosso bairro adiante, e lá onde encontra um objeto com interesse, uma situação entre gente que diga alguma coisa com jeito, um sapato bonito na lama, uma gaiola sem pássaro lá dentro, uma coisa assim esquisita por ser bela e dê vontade de levar para casa, e dê vontade de a gente se agarrar a ela, a malta fotografa para ver como é. Mas para que se perceba que voa, tem de ter à mostra o local de onde parte… Daqui de onde estamos, todos vemos como a vizinha tem um vaso com uma azaléa à janela. Se só fotografarem a azaléa, é uma merda de usar em todos os lugares, até numa estufa de flores, não vale a pena. Mas se a azaléa tiver junto dela o cortinado puído da janela da vizinha, a azaléa voa, a azaléa diz: Porra, eu sou a harmonia no meio das coisas rotas e puídas, eu voo. Compreenderam o que diz a azaléa? TUDO O QUE VOA será assim…. Uma rapariga fotografou a língua dum homem velho de olhos fechados a tomar a hóstia dominical e eu achei que isso era digno de TUDO O QUE VOA, mas alguém tomou o efeito pela causa e foi acusar-nos de provocação e a fotografia teve de ser retirada… Mas ficaram os gatos com guizo a olharem para pássaros sobre telhados de zinco. Ficaram duas pernas de miúdo sujas de lama, puxando um carrinho. Ficaram dois ovos a cavalo num bife pousados sobre metade dum prato. Ficaram duas raparigas a comporem a gravata do pai tetraplégico. Ficaram duas rosas vermelhas, uma delas ainda em botão, plantadas num velho penico de esmalte onde alguém num tempo remoto tinha pintado um nome: Senhora…”

 


[1] Publicado  pela Dom Quixote e ainda sem edição brasileira

[2] Cf. essa expressão em Pós-escrito a O Nome da Rosa, de Umberto Eco.

ANEXO-  resenha publicada em 25 de maio de 2010 em “A Tribuna” de Santos

LÍDIA JORGE E O NOVO MILÊNIO

Na passagem dos anos 70 para a década seguinte, dois poderosos nomes surgiram na ficção portuguesa: António Lobo Antunes e Lídia Jorge. O primeiro tem se dedicado nos últimos anos a um fluxo ininterrupto de romances “totais”. Já a segunda, que estreou exatamente há 30 anos, com o talentoso O dia dos prodígios, tem sido menos prolífica. Sua obra mais recente é Combateremos a Sombra.

Na noite da virada do milênio, o psicanalista Osvaldo Campos atrasa-se no seu consultório para a festa do réveillon, o que acarreta o fim do seu casamento. Após um curto período de desagregação psicológica (chega a agredir a ex-mulher), ele volta à pacata rotina de atendimento dos pacientes, vivendo no local de trabalho, e adotando como divisa, numa atitude de tabula rasa com relação à existência pregressa, a afirmação de um dos muitos clientes não-pagantes que aceita, para desespero da sua secretária, Ana Fausta (uma personagem secundária memorável): “Professor, navego por dia mares de trampa, para conseguir caçar um, dois peixes”. A vida, então: uma travessia minimalista por mares de excremento ou de armadilhas e logros, conforme se queira entender a metáfora.

O dr. Campos tem uma “paciente magnífica”, a sua “visita da noite”, Maria London, filha de um magnata. Um dia, descobre que as elaboradas fantasias dela a respeito de navios de cruzeiro que aportam em Lisboa e nos quais o pai a embarca regularmente, são bem reais e correspondem a um submundo pesado de tráfico, bem nas barbas (ou com a conivência) das autoridades. Por outro lado, na noite do réveillon que virou sua vida do avesso, conhecera casualmente uma angolana no prédio onde fica seu consultório. Ao longo dos meses nos quais a narrativa se desenvolve, o incauto psicanalista (que a acreditava manteúda de um sujeito poderoso) descobre que ela é testemunha de vários crimes (trabalhava numa clínica onde iam se aliviar os cagões, aqueles que conhecemos como mulas de drogas, e um deles morreu por excesso de carga; além disso, ela fotografou trabalho escravo de imigrantes ilegais), e fora poupada pelos seus executores (um deles, colega de juventude), que a mantém escondida num apartamento.

Os dois iniciam uma ligação amorosa e, após enviá-la para um refúgio seguro em Roma, o dr. Campos resolve enfrentar o submundo que descortinou através das revelações de Maria London e de Rossiana, a sua amada, elaborando dossiês e entrando em contato com organizações internacionais, com a Interpol, a polícia, órgãos da imprensa e até a Presidência.

Como sempre, essa atitude quixotesca tem resultados desastrosos e o dr. Campos nunca reencontrará Rossiana em Roma. Mas permite a uma das maiores autoras da atualidade encarar de frente o novo milênio e seu desafio à imaginação literária. Combateremos a Sombra é um senhor romance.

 

06/02/2011

O ALTO, OS PÉS, O CU E O ESPELHO: “Com os meus olhos de cão”, 25 anos

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 14:19
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“Daqui onde estou posso ouvi-lo pensando da lucidez de um instante à opacidade de infinitos dias, posso ouvi-lo pensando nas diversas formas de loucura e suicídio. A loucura da busca, essa feita de círculos concêntricos e nunca chegando ao centro, a ilusão encarnada ofuscante de encontrar e compreender. A loucura da recusa, de um dizer tudo bem, estamos aqui e isto nos basta, recusamo-nos a compreender. A loucura da paixão, o desordenado aparentando ser luz na carne, o caos sabendo à delícia, a idiotia simulando afinidades. A loucura do trabalho e do possuir. A loucura do aprofundar-se depois olhar à volta e ver o mundo mergulhado em matança e vaidade, estar absolutamente sozinho no mais profundo. Amós está? Daqui onde estou posso ouvi-lo  pensando como devo matar-me? Ou como devo matar em mim as diversas formas de loucura e ser ao mesmo tempo compassivo e lúcido, criativo  e paciente, e sobreviver?”

(a resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 08 de fevereiro de 2011)

Durante a maior parte da sua longa carreira, iniciada em 1950,  Hilda Hilst  (1930-2004) teve seus textos publicados por editoras obscuras—no sentido da distribuição e alcance comercial—e   pequenas (por exemplo, a Massao Ohno). Era uma grande escritora “invisível” para o público, apesar do seu prestígio e dos seus cultuadores.

Quando ganhava notoriedade, era sempre por aspectos folclóricos: sua chácara (a Casa do Sol) com dezenas de cachorros, suas gravações de vozes de mortos, os textos ostensivamente pornográficos que escreveu…

Em 1986, após alcançar o cume da criação literária contemporânea (nas palavras de Jorge Coli, e que eu subscreveria sem hesitação), com Odes mínimas (1980) e A obscena Senhora D (1982), Hilda teve seu primeiro lançamento por uma editora de peso comercial (à época), a Brasiliense. Era o inédito Com os meus olhos de cão,  reunido a textos mais antigos, e que no entanto passou em brancas nuvens. Nem dava para imaginar que, um quarto de século depois, haveria no mercado uma Coleção Hilda Hilst pela Globo (sob a responsabilidade de Alcir Pécora), esgotando sucessivas tiragens.

Nessa coleção, Com os meus olhos de cão ganhou um volume para si. Merecidamente. Trata-se de outro ponto alto da sua produção, cujo protagonista, Amós Keres, foi uma criança que fazia sempre perguntas incômodas, impressionado com a morte e a presença do sofrimento no mundo. Fortemente reprimido pelo pai autoritário, ele aos poucos calou em si essas perguntas, mergulhando no estudo da matemática, constituindo família, tornando-se professor universitário. Um dia, no alto de uma colina, ele tem uma visão epifânica e a partir daí ficarão esgarçadas todas as suas relações com um mundo mentiroso, sentimentalizado e complacente. Ele fica “alheio” nas aulas (os alunos se retiram e deixam recados jocosos na lousa), passa a sentir repulsa pela mulher e o filho, parece estar sempre com um sorriso desdenhoso (o que o mete em confusões) e a cabeça inclinada e seu único interlocutor é um amigo, Isaiah, que vive maritalmente com uma porca. Ao cabo, Amós decide voltar à casa da infância, com muito de rural ainda, e viver nos fundos do quintal, como um bicho, um ser desnudado, descobrindo também que o pai tinha os mesmos assomos de descortinamento do coração selvagem da vida: “que esforço para tentar não compreender, só assim se fica vivo, tentando não compreender”.

Não se pense que o texto é assim coeso, unívoco. Como sempre em Hilda Hilst, tudo vem numa forma agônica, emaranhada e intrincada, na qual todos os gêneros são misturados e a escatologia permeia todas as instâncias da condição humana (para se ter uma idéia, Amós Keres gostava de estudar matemática num puteiro), com a influência de Otto Rank & Ernest Becker de que vivemos sob o terror da morte e da nossa analidade “… Amós Keres. Inocente como um pequeno animal-criança olhando o Alto. Mas dizem que o Alto é o nada e é preciso olhar os pés. E o cu também. Com um espelho. Estou olhando. Impossível esquecer grotesco e condição”.

Plínio Marcos com Samuel Beckett. O leitor que se prepare, pois tem de estar disposto. Com essa obscena Senhora H, é tudo ou nada.

04/02/2011

Memorial do Caso Germinal

 
 



(artigos publicados originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 e 27 de julho de 2004)

PRIMEIRA PARTE 

     Uma das editoras que surgiram nos últimos anos, a Germinal, vem publicando traduções suspeitíssimas. Contatos foram tentados com os responsáveis, mas não há explicações plausíveis para o fato de as traduções de Felipe Padula Borges para Mulheres apaixonadas, de D. H. Lawrence, e Wilson Hilário Borges para Os Sonâmbulos, de Hermann Broch, serem cópias de versões anteriores. Não tiveram nem o cuidado de disfarçar um pouco, o máximo a que se deram ao trabalho foram algumas mudanças insignificantes!

    É lamentável, ainda mais porque se perdeu a oportunidade de oferecer, no caso de Broch, a primeira tradução legítima no Brasil (pois o suposto trabalho de Wilson Hilário Borges copia o do português Jorge Camacho para as Edições 70) de uma obra-prima; no caso de Lawrence, apesar de circular em nosso país há muito tempo, numa adaptação de Ruth de Biasi, a versão descaradamente copiada também é um texto lusitano, de Cabral do Nascimento, editada pela Record, pelo Círculo do Livro, pela Abril Cultural e recentemente pela Nova Cultural, herdeira mais pobre (em qualidade).

     Nas próximas semanas, poderei fazer justiça, aqui, à qualidade das obras em si. O que é preciso salientar agora é o acintoso desrespeito com o público leitor: capas bregas, preços absurdos (Mulheres apaixonadas, 59 reais; Os sonâmbulos, 77 reais; ainda por cima, na capa deste último, o sobrenome do autor austríaco saiu errado: Hermann Brock!!!!), incríveis erros de copidesque, falta de informações (textos clássicos mereciam no mínimo orelhas decentes e esclarecdoras) e tratamento editorial estapafúrdio: em Mulheres apaixonadas há um bisonho texto na contracapa no qual ridiculamente se compara o grande romance lawrenciano a uma reles telenovela exibida há pouco pela Globo. Tirando o oportunismo deslavado, é o mesmo que comparar o rio Amazonas a uma piscina infantil que se monta em qualquer casa. Temos pérolas do tipo: “… a grande semelhança entre Lawrence e Manoel Carlos encontra-se na exposição do amor como uma força intrínseca da natureza humana. Ambos colocam as paixões como vendavais ou tempestades que arrastam os vulneráveis e frágeis seres humanos”. Ora, ora.

    Pobre Lawrence, encontramos trechos irritantes e aflitivos em Mulheres apaixonadas (o que não me impediu de colocá-lo aqui nesta minha coluna de A TRIBUNA entre os 100 maiores romances do século passado) e em outras grandes obras suas, mas ele não merecia isso.

 SEGUNDA PARTE

    Em artigo anterior, esclareci para os meus leitores que uma suposta nova tradução de Mulheres apaixonadas (1921), de D.H. Lawrence, lançada recentemente pela editora Germinal, é na verdade cópia de uma anterior, a qual circula desde os anos 70.

     Picaretagens à parte, é incrível como um livro excessivo e desigual, cheio de idéias regressivas e reacionárias, ideologicamente anti-democrático, e cujas personagens são boa parte do tempo antipáticas e desagradáveis, pode ser tão genial e belo.

      Lawrence coloca contra a paisagem demoníaca criada pelas minas de carvão a pedagogia amorosa que envolve dois casais: as irmãs Brangwen, Ursula e Gudrun (bem diferente de duas outras irmãs famosas da literatura eduardiana, as Schlegel de Howards End, de E.M. Forster) envolvem-se com os amigos (uma estranha amizade) Rupert Birkin e Gerald Crich, respectivamente.

      Gudrun representa os artistas avançados e moderninhos, desligados das suas raízes e incapazes de encontrar um referencial “autêntico”; Gerald é o magnata que se fez pela exploração dos mineiros e no processo, estabelecida uma organização industrial implacável, não há mais lugar para uma liderança viva e orgânica, tornando-o —com todo o seu poder e dinheiro —outra peça da engrenagem. A relação deles  sempre mantém uma atmosfera ameaçadora (como os futuros casais de Marguerite Duras, penso em Moderato Cantabile, por exemplo) e é tão exasperante que tem de acontecer algo trágico para que eles possam se libertar um do outro.

      Enquanto isso, após relutar muito, Ursula casa-se com Rupert e eles se tornam um casal experimental, testando novos limites, que não sejam apenas os dos egos pessoais e do amor passional, mas não de maneira linear, e sim por avanços e recuos. Eles aventuram-se na vivência de uma Masculinidade e uma Feminilidade fora dos padrões da sociedade burguesa, caminho que Lawrence radicalizará em seus dois projetos finais ambiciosíssimos, A serpente emplumada (1926) e O amante de Lady Chatterley (1928).

    O  romance, como romance, perde muito com isso. O leitor fica admirado com cenas extraordinárias, como aquela em que a amante de Rupert, Hermione, o agride homicidamente para se livrar da relação sufocante e ele tem de defender sua vida, fugindo para a noite, uma noite de auto-contemplação, uma das mais belas “noites escuras da alma” da ficção; ou aquela em que Rupert e Gerald lutam judô (com a tensão homossexual entre eles a mil), ou ainda o clímax na neve, com o confronto final entre Gudrun e Gerald. Eu as li pela primeira vez aos 18 anos, releio-as agora beirando os 40 e continuam achando-as admiráveis, momentos que nunca saem da cabeça do leitor. Que, depois, aos 18 ou aos 40, tem de aturar preleções intermináveis dos personagens e reflexões odiosas por parte do narrador. E, de repente, uma frase lapidar, um trecho inexcedivelmente lúcido, resgatam tudo.

 

     

Escrevi tais resenhas após tentar esclarecimentos da Germinal. Pouco depois, meu saudoso amigo Antonio Barbosa Jr. colocou-se em contato com a redação da Folha e entao eu e o jornalista  Luiz Fernando Vianna e trocamos a seguinte correspondência.

Alfredo,

 

Sou Luiz Fernando Vianna, fiz aquela matéria da Folha sobre o plágio da editora Germinal. Recebi sua mensagem e ficamos interessados em dar matéria na semana que vem. Queria tirar umas pequenas dúvidas com você. Se pudermos nos falar, meu número é (021) xxxxxxxxx. Ou (021) xxxxxxxxx.

 

Obrigado,

Luiz Fernando

 

 Alfredo,

 A tradução de “Mulheres Apaixonadas” que você tem é portuguesa, certo? Pergunto porque a tradução da Record é outra, de Renato Aguiar, e foi feita especialmente pra editora. A cópia, imagino, deve ter sido feita da portuguesa. E você sabe qual é a editora portuguesa?

 

Muito obrigado,

Luiz Fernando

 

Luiz,

a tradução de “Mulheres Apaixonadas” que a Record está lançando é nova, e faz parte de uma coleção que apresenta versões caprichadas de clássicos. Por exemplo, eles tinham em seu catálogo uma tradução antiga de Brenno Silveira, para O GRANDE GATSBY, de Fitzgerald, e no ano passado lançaram uma tradução de Roberto Muggiati.

   É o mesmo caso de “Mulheres Apaixonadas”. Eu tenho um exemplar que comprei em 1982, que é da Record, mas é uma adaptação brasileira feita por Ruth de Biasi de uma tradução portuguesa de Cabral do Nascimento (creio que lançada por lá pela ed. Ulisséia). Tive a pachorra de procurar em sebos, na época do meu artigo, e descobri que essa tradução/adaptação foi editada muitas vezes por aqui (pelo Círculo do Livro, pela Abril Cultural, pela Ediouro e pela Nova Cultural, além da Record). É ela que foi plagiada por Felipe Padula Borges.

   Eis um trecho plagiado:

pág. 482 (ed. Record): “Aquele lugar evocava uma panela pouco funda que jazesse entre neve e pedregulhos, num mundo perto das nuvens. Ali adormecera Gerald. Em volta os guias tinham pregado estacas de ferro, de maneira a poderem içar-se com o auxílio de uma comprida corda amarrada a elas; assim atingiriam, para além dos cimos denteados, a área de neve endurecida, que se confundia com o céu e onde se escondia  Marienhutte entre penhascos. Em toda a volta havia picos aguçados erguidos para o firmamento, como compridos pregos muito alvos.”

pág.  563 (ed. Germinal): ” Aquele lugar evocava uma panela pouco funda que jazesse entre neve e pedregulhos, num mundo perto das nuvens. Ali adormecera Gerald. Em volta os guias tinham pregado estacas de ferro, de maneira a poderem içar-se como auxílio de uma comprida corda amarrada a elas; assim atingiriam, para além dos cimos denteados, a área de neve endurecida, que se confundia com o céu e onde se escondia Marienhutte, entre penhascos. Em toda a volta havia picos aguçados erguidos para o firmamento, como compridos pregos muito alvos.”

     Como você vê, a única contribuição de Felipe Padula Borges para a versão anterior, foi uma vírgula após a palavra Marienhutte.

 

        Vejamos agora o caso de “Os Sonâmbulos”.  O livro foi lançado pelas edições 70, de Portugal, em três volumes ( os números 7, 11 e 13 da Coleção Caligrafias). O primeiro volume, “Pasenow ou O Romantismo” (em 1988), traduzido por António Ferreira Marques.

pág. 164 (ediçôes 70):  “Acudiu-lhe ao espírito uma frase de Clausewitz: ninguém age senão por pressentimento e instinto da verdade. E, num pressentimento, o coração revelou-lhe que lhes seria concedida, num lar cristão, a ajuda salvadora e protectora da graça, para que eles não tivessem de peregrinar sobre a terra ignorantes, desamparados e sem objectivo, a caminho do nada.”

pág. 160 (Germinal): “Acudiu-lhe ao espírito uma frase de Clausewitz:  ninguém age senão por pressentimento e instinto da verdade.  E, num pressentimento, o coração revelou-lhe que lhes seria concedida, num lar cristão,  a ajuda salvadora e protetora da graça, para que eles não tivessem de peregrinar sobre a terra ignorantes, desamparados e sem objetivos, a caminho do nada.”

   O sr. Wilson Hilário Borges teve muito trabalho nesse trecho: tirar o “c” lusitando de protectora e objectivo.

 

     O 2o. volume ((1989), “Esch ou A Anarquia”, foi traduzido (assim como o 3o., do mesmo ano, “Huguenau o O Realismo”) por Jorge Camacho.

pág. 306-7 do 3o. volume (edições 70): “Qualquer deles sabe efectivamente que a vida do homem não é suficiente para levar os passos ao longo dessa estrada que sobe em espiral para plataformas sempre mais elevadas e onde o que foi e o que se afunda ressurge mais alto, sob a forma de fim, para se enterrar a cada passo nas brumas mais distantes; via infinita do círculo fechado e da realização, realidade lúcida em que as coisas se desagregam e se afastam até aos pólos e aos confins do mundo” etc etc.

pág. 697 (Germinal, que publicou os três num volume só):“Qualquer deles sabe efetivamente que a vida do homem não é suficiente para levar oa passos ao longo dessa estrada que sobe em espiral para plataformas sempre mais elevadas e onde o que foi e o que se afunda ressurge mais alta, sob a forma de fim, para se enterrar a cada passo nas brumas mais distantes: via infinita do círculo fechado e da realização, realidade lúcida em que as coisas se desagregam e se afastam até os pólos e aos confins do mundo” etc etc.

      O trecho acima deu mais trabalho: além do “c” de efectivamente, ele teve de tirar uma preposição de “aos pólos”.

 

       Perdoe-me pela extensão dessa mensagem. Não encontrei (acho que acabei apagando) o e-mail que mandei para a Vera Lúcia, com exemplos como os que coloquei acima. Mas acho que são úteis para provar o plágio e não deixar nenhuma dúvida.

 

                             Um abraço, Alfredo Monte

 

 

Alfredo,

 muito obrigado pela resposta e os trechos, serão úteis. A Vera Lúcia ficou de falar comigo hoje para dar uma resposta. É possível que a matéria saia quarta. Obrigado por tudo.

 

Um abraço,

Luiz Fernando

 



*************************************

O artigo de Luiz Fernando saiu assim:

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Editora de SP é acusada de plagiar mais duas obras

Traduções de “Mulheres Apaixonadas”, de D.H. Lawrence, e “Os Sonâmbulos”, de Hermann Broch, são copiadas

LUIZ FERNANDO VIANNA – Da Sucursal do Rio

Constatada pela Folha em 11/12, a cópia da tradução de Francisco Inácio Peixoto para o romance Oblomov, de Ivan Alexandrovitch Gontcharov, não é o único caso de plágio da editora Germinal. O crítico Alfredo Monte, de A Tribuna, de Santos, revelou em julho deste ano que outros dois livros do selo paulista são cópias de traduções já existentes.

Um dos livros é Mulheres Apaixonadas, do autor inglês D. H. Lawrence (1885-1930). A Germinal lançou em 2002 uma tradução assinada por Felipe Padula Borges, sobrinho do então proprietário da editora, o advogado e jornalista Wilson Hilário Borges, morto em março de 2002 aos 62 anos.

O texto é praticamente idêntico ao de uma tradução feita pelo português Cabral do Nascimento e que, adaptada por Ruth de Biasi, foi lançada no Brasil nos anos 80 pela Record. Em 2004, a mesma Record lançou uma nova tradução, de Renato Aguiar.

“Segundo Felipe, o livro foi traduzido pelo Wilson, que lhe pediu para acertar algumas palavras e dar a forma final no texto. É o que eu sei”, diz a jornalista Vera Lúcia Rodrigues, 49, que viveu 22 anos com Borges e hoje responde pela Germinal. De acordo com ela, a editora era um projeto exclusivo de Borges, sobre o qual a família pouco sabia.

O outro romance plagiado é Os Sonâmbulos, do austríaco Hermann Broch (1886-1951). A Germinal publicou em um só livro os três volumes das Edições 70, de Portugal, lançados em 1988. O primeiro foi traduzido por Antônio Ferreira Marques e os outros dois, por Jorge Camacho.

No livro da Germinal, o nome do autor aparece grafado errado na capa: Hermann Brock. E a tradução está assinada pelo próprio Wilson Hilário Borges. “Eu só sei o que está no livro: ele assinou a tradução”, diz Vera Lúcia.

Em julho, quando procurada por e-mail por Alfredo Monte, ela defendeu a “idoneidade” dos tradutores e considerou um sinal de qualidade o fato de as traduções serem tão parecidas com versões portuguesas. Hoje, ela diz que, na época, ainda desconhecia a possibilidade de plágio e que não recebeu muitas informações para poder investigar a história.

“Para mim, é muito difícil pensar que ele [Borges] possa ter feito isso”, diz Vera Lúcia. Quando ouvida sobre Oblomov, ela afirmou estar disposta a corrigir os eventuais erros. “Não é meu objetivo lesar ninguém. Se alguém foi lesado, vamos buscar reparar.”

No caso de Oblomov, Borges pôs o nome de sua filha Juliana como tradutora. O texto é plágio do feito pelo poeta mineiro Francisco Inácio Peixoto (1909-1986) para a Edições O Cruzeiro em 1966. Juliana também aparece como tradutora nas edições de Chegada e Partida e Ladrões na Noite, ambos do húngaro Arthur Koestler (1905-1983).

Em comum com Oblomov, as edições de Mulheres Apaixonadas e Os Sonâmbulos têm muitos erros de revisão. Dentre as poucas mudanças feitas nas traduções estão a troca das grafias de palavras, como “protectora” e “objectivo”, escritas assim nas versões portuguesas.

Trechos complexos servem como exemplos do plágio, pois dificilmente seriam escritos por dois tradutores diferentes É o caso do que está na página 563 da edição da Germinal de Mulheres Apaixonadas: “Aquele lugar evocava uma panela pouco funda que jazesse entre neve e pedregulhos, num mundo perto das nuvens. Ali adormecera Gerald. Em volta os guias tinham pregado estacas de ferro, de maneira a poderem içar-se com o auxílio de uma comprida corda amarrada a elas; assim atingiriam, para além dos cimos denteados, a área de neve endurecida, que se confundia com o céu e onde se escondia Marienhutte, entre penhascos”.

Um trecho da página 160 de Os Sonâmbulos é um outro exemplo deste tipo: “Acudiu-lhe ao espírito uma frase de Clausewitz: ninguém age senão por pressentimento e instinto da verdade. E, num pressentimento, o coração revelou-lhe que lhes seria concedida, num lar cristão, a ajuda salvadora e protetora da graça, para que eles não tivessem de peregrinar sobre a terra ignorantes, desamparados e sem objetivos, a caminho do nada”.

para os interessados (e preocupados) com os plágios e picaretagens de traduções, o guia imprescindível (embora apresente uma riqueza de informações que vai além da questão) é o blog da tradutora Denise Bottman, www.naogostodeplagio.blogspot.com. Lá se conhecerá melhor o caso Germinal.

 

Robinson Crusoé na Martin Claret e a questão das traduções dúbias

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CLÁSSICOS TÊM TRADUÇÕES DÚBIAS

(resenha publicada em quatro de dezembro de 2001)

 

     Ultimamente, em qualquer livraria ou papelaria, o leitor se depara com uns livrinhos de formato atraente, com pouco capricho na apresentação gráfica, mas que sobrevivem à leitura (o que já não acontece com o empreendimento similar da L&PM) e que tem a dupla vantagem de dar acesso a clássicos, antigos e modernos, e serem muito baratos. E é até pitoresco que o nome da coleção da Martin Claret, A obra-prima de cada autor, seja desmentido pela própria lista de títulos publicados (há vários de Shakespeare, de Machado de Assis, de Nietzsche etc).

     Por conta disso, resolvi experimentar a coleção, relendo um dos meus livros prediletos, Frankenstein ou O Moderno Prometeu (1818), de Mary Shelley, o qual, sempre tão mal traduzido para o cinema, apesar de tantas tentativas, está na ordem do dia, com a possibilidade da clonagem de seres humanos. Mas outro tipo de clonagem, de deixar os desgrenhados cabelos de Juca de Oliveira/Albieri em pé, revelou-se nessa leitura: na sua ficha técnica, a Martin Claret apresenta Pietro Nassetti como tradutor. Será que é um pseudônimo de Everton Ralph, o tradutor do livro para a Ediouro? Se não for, estamos num terreno digno da série Arquivos X: duas pessoas diferentes que traduzem semelhantemente, vocábulo por vocábulo.

    O comecinho de alguns capítulos ainda sofreu ligeiras alterações, todavia é só um estratagema engana-trouxa. Por exemplo, o capítulo em que Victor Frankenstein narra as suas origens para Robert Walton, depois de umas vinte linhas encontramos em Pietro Nassetti: “Meu pai estimava Beaufort com devoção e sentia profundamente a partida do amigo em circunstâncias tão penosas, não lhe perdoando o falso orgulho que o levava a uma conduta tão pouco condizente com a afeição que os unia”. Veja-se em Éverton Ralph como o referido trecho fora traduzido: “Meu pai estimava Beaufort com devoção, e sentiu profundamente a partida do amigo em circunstâncias tão penosas, não lhe perdoando etc etc”. É um fenômeno para ser estudado essa telepatia em que duas pessoas encontram durante duzentas páginas as mesmas palavras para traduzir outra língua!

    Tal fenômeno não afetou outros tradutores de Frankenstein, como o da L&PM, Miécio Araújo Jorge Honkis (“Meu pai dedicava uma amizade muito sólida a Beaufort, e sentiu grandemente sua retirada nessa situação tão infeliz. Amargamente deplorou o falso orgulho que levou seu amigo a se conduzir de maneira tão pouco digna da afeição que então os unia”), e o da Ática, Geraldo Galvão Ferraz (“Meu pai gostava de Beaufort com a mais verdadeira das amizades e ficou profundamente magoado com esse afastamento em circunstâncias tão desafortunadas. Considerada deplorável o falso orgulho que levara seu amigo uma conduta tão pouco digna da afeição que os unia”).

    Depois dessa surpresa desagradável, nova tentativa, dessa vez com a obra-prima de outro autor inglês: Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe. E aí, outro cúmulo de cinismo: na contracapa e na página que abre o volume encontra-se a expressão texto integral. É claro que se pode ter alguma desconfiança inicial diante das magras duzentas páginas (ta certo que a letra é espremidinha) do volume, uma vez que a edição da Companhia Editora Nacional que me apresentou às aventuras do náufrago mais famoso tinha mais de quatrocentas páginas, o mesmo acontecendo com a edição clássica da Jackson com a tradução canônica de Flávio Poppe de Figueiredo & Costa Neves.

    O leitor poderá julgar por si mesmo. Na edição Jackson, a auto-apresentação de Robinson (“Nasci no ano de 1832 na cidade de York etc etc”) até sua fuga de casa para Londres, numa desastrosa primeira viagem de navio: cinco páginas e dez parágrafos. No texto integral da Martin Claret está tudo na primeira página e em três parágrafos!

    Não há nada de errado em se condensar um texto, aliás é uma prática há muito executada para atrair o leitor juvenil, para livros justamente como os de Shelley & Defoe. Agora, apresentar uma condensação como texto integral é algo indefensável pois desfigura a idéia que se terá do texto já de saída. Quanto a utilizar camufladamente, quase na íntegra, uma tradução anterior, há um nome no Direito para tal ação. Esperemos que os outros títulos publicados pela Martin Claret tenham procedimentos menos dúbios e mais corretos.

 

Adendo de 2009- Na maciota, a Martin Claret trocou sua nefanda condensação pela republicação da tradução de Flávio Poppe de Figueiredo & Costa Neves, o que foi ótimo porque trouxe de volta a mais impecável das versões brasileiras do livro. Agora a letra continua espremidinha porém são 384 páginas de texto. Um detalhe hilário: na 4ª. capa temos a seguinte afirmação: “esta nova edição sai, agora, completada com as partes que não foram incluídas nas edições anteriores”. Mas a capa da edição picareta era de melhor gosto. A nova é horrenda.

       Denise Bottmann me informou que a tradução de Frankenstein também foi substituída, por uma de Roberto Leal Ferreira.

Acesse: www.naogostodeplagio.blogspot.com

 

 

 

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