MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/05/2012

A tessitura da genialidade: “O pássaro de cinco asas” e “A trombeta do anjo vingador”


(as anotações e citações abaixo são excertos de apontamentos da leitura, em agosto de 2007 da edição conjunta—pelo Círculo do Livro—de A trombeta do anjo vingador e O pássaro de cinco asas, quando então planejava um curso sobre a obra de Dalton Trevisan que se chamaria “Curitibenses”, usando a palavra em lugar do correto “curitibanos” por causa de James Joyce e seu Dublinenses; ao todo, são 41 textos de um universo fabuloso e peculiaríssimo)[1]

“Quanto mais ele se humilhava, mais era exaltada: égua branca de fogo, terceiro olho na testa, querubim de cinco asas, não de seis dedos, boca de sete espirros.

   Negava-lhe o menor carinho:

__ A boca é para beijar meu filho!”

Dalton Trevisan é o gênio mimetizador de uma época em que o rural e o urbano ainda conviviam ostensivamente, em que a hipocrisia criava todo um fetichismo sexual, em que fantasia e realidade podiam conviver na linguagem (e ele mostra isso de forma magistral). Nele, o kitsch se revela como requinte autoral.

Veja-se o trecho abaixo do paradigmático Mister Curitiba (de A TROMBETA DO ANJO VINGADOR, 1977):

“Monstro de mil máscaras, desta vez quem seria? O confessor na cela da freirinha, de sete saias, a madre escutando atrás da porta? Um estropiado de guerra, a enfermeira suspensa no pescoço, girando sem parar na cadeira de rodas? O noivo de pé no corredor, rasga em tira a calcinha, os pais da menina .circo… Ela a domadora de botinha preta e chicotinho?

     Zumbia no ouvido um chorrilho de meigos palavrões…”

Ou este outro trecho, de As setes pragas da noiva:

“Em agonia, pedindo água, tapa nas costas, colher de azeite. E tossia, o maldito caroço entalado na garganta.

   Por mais que ela apontasse o olhinho negro espinho no bolso do pijama…”

Ou ainda (de Durma, gordo):

“Você sabe, não é? Então me diga, dona Chica: Por que a segunda empadinha nunca é tão gostosa? Por que o garçom não serve a segunda antes da primeira?”

E esta imagem genial (do extraordinário Questão de herança): “Sem responder, uma funda tragada, as bochechas murchas se beijaram”. E até o mundo dos michês adolescentes ele captura (em O caçador furtivo). E num dos meus contos prediletos, Meu pai, meu pai podemos ler: “Fim de noite um chorou nos braços do outro, pai e filhos bêbados. Se Pedro, que era Pedro, por três vezes negou a Jesus, por que não podia ele negar o pai?”

A tessitura da genialidade:

“Perdido de casa, sem dinheiro para o táxi, fugitivo do último inferninho…”

“…no fundo azedo das entranhas, floresce o lírio vermelho da azia…”

“Na adoração das nascidas rainhas da noite aberto o saco de presentes e distribuídos seus tesouros. Os três magos num só, em busca da estrela do Oriente, a quem ofertou o reloginho de pulso? Todo o ouro para a gorda do Tiki Bar? A mirra para a que era o palácio dos prazeres? O incenso para a Ritinha dos quatro mosqueteiros?”

“Na boca os mil beijos da paixão, sabendo uns a amendoim torrado, outros a batatinha frita…” (são todos trechos da obra-prima que é A longa noite de natal)

E do conto-título, “as mil pulgas da insônia”. E em O despertar do boêmio, “o  lírico e maldito rei da noite, maior tarado da cidade, último vampiro de Curitiba… À procura do sapato perdido na famosa viagem ao fim da noite… Enfia o roupão de seda azul com bolinha branca—lembrança da lua-de-mel… No mapa da babugem a rosa-dos-ventos indica os sete inferninhos da paixão… araponga louca do meio-dia…Tateia o pulso e, ó surpresa, ali está—um relógio à procura de uma bailarina?… Um noivo toucando-se para as núpcias com o sol…”

Achei uma anotação minha, da primeira leitura, já há quase vinte anos, no final de Galinha pinicando na cabeça: “conto genial, o melhor da coletânea inteira”. Não sei se afirmaria isso agora, contudo sei o que me atraiu: a crueza, a rapidez, a eficiência sintética e lapidar. Três páginas concisas que valem por dez: “De noite a gente quer se chegar. Mulher não é para isso? O calorzinho gostoso. Toda a alegria do pobre. Mãezinha do céu, por que ela não deixa? São oito filhos, o que é mais um?

   Essa traidora, depois de velha, não me quer na cama. Sou cachorro sem dono na chuva?”

E o eterno “doutor”, onipresente, ouvindo todas as torpezas, em tantos contos? E os eternos joões e marias. E tem o eterno amigo, André, que às vezes come a Maria.

“Se não vem, Maria, deixa eu…

   Guardada pelas verdes asas do dragão na parede.

__ Dormir com você?

    Fez biquinho, estalou a língua, tão pouco-caso.

__ Ah, é? Ah, é?

   Maria arregalou os grandes olhos putais. Não é que ele já de pistolinha na mão?

__Me acuda, Nossa Senhora. Me salve.

               (…)

   Abrindo a blusa em desafio:

__Atire, covarde. Atire em peito de mulher!” (A pombinha e o dragão vermelho).

E as deliciosas referências intertextuais: “Mudou o natal ou mudei eu?” “Janeiro é o menos cruel dos meses”. “outros barões assinalados”. E tem até um que sonha ser o “Fellini de Curitiba”, enquanto arruína uma puta, mas já estamos em O pássaro das cinco asas (1974):

“…a fabulosa égua do carro do Faraó (…) e se for gaguinha? Ou fanhosa? (…)Amor tão furioso, carro de bombeiro com a sirena uivando, a pobre Laura não podia ignorá-lo—a simples bolinha de papel que ela pisava era escorpião abrasado de fogo.

(…) No álbum de retratos antigos o calvário de sua perdição—normalista seduzida pelo próprio tio (…) Entre beijos soluçando que a crucificava de pequenas delícias, ó gostosão de todos o mais fogoso. Menos doida de paixão estivesse, não falaria assim, obrigado a recordar-se de quantos tipos a desfrutaram.

(…) Caçula mimado, o rapaz quase nos 30 anos, não trabalhava e sua mesada mal dava para o cigarro, o jornal, o cinema…”

Aliás, esse conto-título introduz um elemento novo, salvo engano: o intelectualizado, fã de Fellini e Bergman. Mas agarrado ás saias da mãe [e das putas, claro]. E há a narrativa sofisticada (no quesito tempo narrativo) em A segunda volta da chave. Já O gatinho perneta pressagia o rumo do hai-kai narrativo que o grande escritor curitibano trilharia.

E mais trechos:

“Sofria as noites curitibanas, cálice de conhaque na mão (…) á sua espera no final do corredor o sórdido quartinho de pensão.

   Era a mulher da minha vida. Por que é que eu não sabia? Como é que ninguém me contou? (…) Não tivesse ela casado com o garçom eu a esquecia. Hoje estava com outra. Agora fiquei preso a ela para sempre.” ( Noites de Curitiba)

“(…)barata leprosa

    Cambaleando ou não, os bêbados são o verdadeiro mistério do mundo (…) Ou como você explica que, por mais labirintos em que se enveredem, nunca se percam no caminho, encontrem sempre a porta exata, que fecham atrás de si com a segunda volta da chave?

 (…) O triste da noite é dormir com uma mulher”. (O guardador de bêbados)

“Esfregava o bigodão na perna gorducha, deliciando-se ao ver a pele que se arrepiava e os pelinhos que se eriçavam. Tivesse ali na coxa uma pinta de beleza? Não é—intuição? Visão do paraíso? Milagre?—que tinha mesmo, olho negro de longas pestanas.” (Peruca loira e botinha preta)

“(…) a moça pagou o táxi e o hotel.

   Alisava a costeleta e exibia a falha do pré-molar—o galã penteia mil vezes o fulgurante cabelo negro, sempre esquece de escovar os dentes…” (um dos melhores entre os melhores: A noite não tem segredos)[2]

  Adoro A rosa despedaçada, um daqueles contos mini-biografias em que ele é mestre:

“…um gigante de 18 anos, dono da única moto da cidade.

(…) Em bacanal no famoso quarto de espelhos, surpreendida no uniforme de normalista.

   À saída, preveniu o rapaz que de nada lhe valia conhecer as 64 posições do KAMA SUTRA, gritar de amor só com o infame Josias, arrebatada para sempre na garupa da moto, franguinha ao vento.

  O moço chorou de ódio, assim mesmo casou.”

Tem o telefonema-paradigma para a esposa, após a noitada de farra e excesso, e não ter chegado no “santo lar”: “Insistiam os amigos que dona Maria era uma santa, ele rato piolhento de esgoto. Santa podia ser, mas imprestável na cama.” E a frase-paradigma da mulher sobre o homem “desgracido”: “Assim que ele morra eu começo a viver”.

Entre os contos que eu destacaria, estão  Que fim levou o vampiro de Curitiba?, narrado pelo indefectível Nelsinho, e Eu, bicha:

“…que foi feito do inocente menino?

(…) O corpo de moço bonito, mais bem construído que o da mulher, não pode ser altar de sacrifício?

(…) corredor do Cine Curitiba (ali era chão sagrado)

…Django

…barata leprosa de olho pintado

(…)observavam de mão no bolso…”

   Trevisan sempre capricha nos seus títulos. Mas Última corrida de touros em Curitiba é quase insuperável.

Cito agora os dois extraordinários parágrafos finais de Moela, coração e sambaquira:

“Todas as noites do velho são dores, eis que vem o fim. No tempo das aflições minha alma é uma lesma aos uivos que retorce os chifres e se derrete no pires de sal. Devo catar as migalhas debaixo da mesa? Morder a pelanca do meu braço?

  (…) Que gosto tem a gota de sangue na gema do ovo (…) se não posso ter a minha sopa de bucho com dois aperitivos e um pão, só me cabe morrer (…) O rei da terra, quando a peticinha oferecia, erguendo um canto da saia e exibindo a grossa coxa nua: Aqui tem bastante, meu velho, para a tua fome?”

Agora: terrível mesmo é Ó doce cantiga de ninar, no qual a mãe “satisfaz” o filho, mostrando que até no aleijamento e retardo a gente não se livra do desejo e do instinto sexual, é a nossa maldição, pelo menos das formas que vivemos isso.

E Os velhinhos é o fecho perfeito para a coletânea, com seu malicioso título que evoca qualquer coisa de cândido e com um sopro nostálgico, e mostra o inferno humano, a falta de sabedoria mesmo na avançada idade:

“…única diferença de um para outro quarto é a morrinha de cada velho, ali a catinga de cachorro molhado, aqui a tristura de papagaio piolhento.

…lambem as migalhas esses que, um dia, poderosos e terríveis, foram os reis da terra… Mais que se enfeitem, não passam de velhinhos sebosos (…) A primeira janela que se ilumina no edifício vizinho encontra-os no canto escuro, passando o binóculo um para o outro (…) É suficiente olhar, espiar, frestar. Não sozinho, na doce companhia tenebrosa dos outros (…) enxame fervente de baratas leprosas na cinza do fogão…”


[1] Sou eternamente grato à coleção “Literatura Comentada” da Abril Cultural que me apresentou, entre outras, a obra de Dalton Trevisan. Foi no volume dedicado a ele que me apaixonou por Virgem louca, loucos beijos; logo depois, li Cemitério de elefantes e então o mal já estava feito.

[2] Aliás, naqueles dias de leitura do livro de Trevisan assisti numa madrugada qualquer, no Canal Brasil, um filme dos anos 1970, Bordel-Noites proibidas, que me ajudou deveras a entender ainda mais esse clima sórdido, com seus atores velhos em cenas de cama deprimentes, maus tratos às mulheres, babujando, com ar de taradas, e assim mesmo, com toda essa caíção, refletindo o gosto do público. Por que, em caso contrário, por que fariam tal filme? A que demanda ele atendia?

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