MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/01/2015

MERLIN REVIVE: a Trilogia de Mary Stewart

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(o texto abaixo tem como base a resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de julho de 1994, com o título “Fôlego épico marca Trilogia de Merlin”)

Por terra e água voltará ao lar e ficará escondida numa pedra flutuante até ser erguida novamente pelo fogo. Assim tinham dito os antigos e teriam reconhecido aquele lugar como eu; ou como o pescador que voltara do Sobrenatural, admirado com os salões do rei das sombras. Ali a espada ficaria segura até a chegada do jovem que teria o direito de erguê-la (…) Larguei-a ainda enrolada no pano sobre a mesa de pedra e voltei pela lagoa. Os ecos encheram o ambiente e parei um pouco enquanto diminuíam, tornando-se um murmúrio. Naquele silêncio até minha respiração era ruidosa demais e parecia uma intrusão. Deixei a espada em sua longa espera silenciosa e voltei rapidamente à luz do dia…”

(trecho de As Colinas Ocas)

A inglesa Mary Stewart, nascida em 1916, chegou bem perto dos cem anos, mas foi um dos muitos nomes importantes da literatura a falecer em 2014. Sua obra de maior prestígio, a Trilogia de Merlin, está sendo reeditada pelo selo Hunter Books. Os três volumes fizeram muito sucesso quando lançados pela ed. Best Seller no início dos anos 1990[1], em traduções de Vera Maria Marques Martins, Marcília Britto e Evelyn Kay Massaro. São eles: A caverna de cristal (“The crystal cave”, 1970[2]), As colinas ocas (“The hollow hills”, 1973) e O último encantamento (“The last enchantment”, 1979).

Com relação ao resto de sua produção paira aquela reputação ambígua das autoras (Victoria Holt, por exemplo) que exploraram mistérios góticos anacrônicos, mas ao que parece ainda bem atrativos, unindo suspense e alto grau de romantismo, cuja forma mais popular é a daqueles livros vendidos em banca, “Júlia”, “Sabrina” e similares. É o caso de “Nine coaches waiting” (1958), “The moon-spinners” (1962) ou “Touch not the cat” (1976)[3].

Também não se deve esquecer que o êxito da Trilogia no Brasil veio no bojo de um daqueles periódicos recrudescimentos do interesse pelo ciclo arturiano; nesse caso, o maior responsável foi o ciclo As brumas de Avalon (1983), de Marion Zimmer Bradley— e também o filme Excalibur, de John Boorman, lançando em 1981—, cuja maior consequência, uma vez que se voltava para uma figura comumente secundária na trama geral, a fada Morgana, foi ter criado uma febre pela releitura do papel de outros personagens que orbitavam em torno de Arthur e dos cavaleiros da távola redonda; tanto é assim que, paralelamente ao trio de romances de Mary Stewart em torno do mago Merlin, a Best Seller publicava a Trilogia de Guinevere (1987-93) da norte-americana Persia Wooley[4]. De modo curioso, são as mulheres que capitaneiam as releituras da velha lenda patriarcal (talvez concretizando a farpa verbal lançada por Morgause a Merlin: “Tem mesmo certeza de que estais protegido da magia das mulheres?”)

A singularidade da série de Mary Stewart está em apresentar a juventude de Merlin, visto sempre como homem maduro ou mesmo um ancião. Os três volumes fazem uma impressionante reconstituição de uma época, o século V d.C., quando, na Bretanha (Inglaterra e parte da França) confluíam tradições romanas, celtas e bárbaras, iniciando assim a Idade Média.

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Merlin é o filho bastardo de Ambrosius, o homem que inicia o trabalho de unificação da Bretanha, continuado por seu irmão Uther e consumado pelo filho deste, Artur. Criado longe do pai, desde a infância Merlin tem visões que o diferenciam (e uma aparência “morena”, a qual, como acontece com a Morgana de Brumas de Avalon, o marginaliza de seu povo). A caverna de cristal gira em torno do reconhecimento de Merlin por Ambrosius e de como este utiliza os dons do filho para sua vitória. Após sua morte, Uther tem uma noite adúltera com Igrayne, que gerará Artur, o qual será escondido por Merlin e cuja educação é o centro de interesse (bem absorvente) de As colinas ocas; O último encantamento, por sua vez, fixa a decadência dos poderes de Merlin — após o triunfo de Artur — e seu amor por Nimuë (o ex-pupilo fica espantado: “Pensei que você fosse um sábio”, ao que ele retruca: “Porque sou um sábio, sei bem demais que o amor não pode ser contestado. Aconteça o que acontecer daqui por diante, é tarde demais...”), que ficará como sua sucessora.

São 1.300 páginas de um fôlego épico (malgrado o narrador não ser um guerreiro) que inexiste, por exemplo, nos quatro volumes de Marion Zimmer Bradley, cujo maior defeito é banalizar a grandiosa (e ao que parece inesgotável) lenda através de cenas domésticas que parecem recortadas do cotidiano norte-americano contemporâneo. Na trajetória de seu Merlin, Stewart compõe um mapa ficcional da Bretanha, explorando cada parte dela com uma riqueza de detalhes geográficos e topográficos e um emaranhado de personagens, e isso incrivelmente não atrapalha em nenhum momento a leitura. E assumindo a voz de Merlin (o relato é em primeira pessoa), cria um personagem fantástico, e não só ele. Há uma grande vilã, Morgause, meia-irmã de Artur, que tem um filho com ele e envenena o seu tutor, cumprindo um papel que geralmente é atribuído a Morgana (como no belo filme de John Boorman), e o próprio único e eterno rei aparece mais aprofundado e interessante que em outras versões, nas quais parece mais uma marionete do destino.

Difícil dizer qual o melhor volume. Cada qual apresenta sua voltagem de emoção e ritmo próprio, e portanto todos são memoráveis, embora o leitor saia meio desconcertado da leitura do terceiro (por causa do final)[5], que ainda assim apresenta a passagem mais extraordinária de toda a massa narrativa, quando Merlin é enterrado vivo e acorda na sua tumba (a caverna onde foi instruído na magia), sem poderes:

    “…e eu continuava deitado no estranho limbo criado por um corpo inerte e uma mente ativa (…) Não havia a menor esperança de mover as pedras que selavam minha tumba, mas eu talvez conseguisse atrair a atenção de alguém que passasse por ali. Esse local era um santuário desde tempos imemoriais e pessoas do vale subiam regularmente o monte levando oferendas para o deus que guardava a fonte sagrada ao lado da caverna. Era bem possível que agora esse ponto tivesse se tornado ainda mais santo, porque Merlin, o profeta do Grande Rei, mas que primeiro fora o médico dessa gente humilde, estava enterrado ali…”

Bela e apurada como entretenimento e narrativa, rica como alegoria místico-política de um momento-chave da história ocidental (em “As colinas ocas”, Merlin nos diz: “… fui obrigado a continuar cuidando da capela. Imagino que qualquer outro, como o Velho, manteria o lugar para seu próprio deus, mas esperei apenas que qualquer um o ocupasse…”), a Trilogia de Merlin deixa a sensação (quiçá injusta) de que as brumas exploradas posteriormente não passam de fumaça diante dessa construção romanesca de primeira.

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(uma versão do texto acima foi publicada no Letras in.verso e re.verso, em 28 de janeiro de 2015, VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/01/merlin-revive-nova-edicao-da-trilogia.html)

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[1] A autora acrescentou posteriormente dois livros à série, The Wicked Day (1983) e The prince and the pilgrim (1995)

[2] Traduzido no Brasil também como “A gruta de cristal” (ed. Record)

[3] Mas há vários outros de sua autoria traduzidos no Brasil. Considero “Não toque no gato” (que li numa edição do Círculo do Livro)  muito bom, dentro do seu gênero.

[4] De resto, todos esses ciclos têm sua origem na mais prestigiada de todas as retomadas das lendas arturianas, uma das obras literárias mais amadas do século passado: a tetralogia “O único e eterno rei” (1938-1958 — há ainda um volume póstumo, publicado apenas em 1977), de T.H. White, cujo falecimento em janeiro de 1964, aos 57 anos.

[5] “Agora chegamos à parte de minha crônica que é a mais difícil de contar. Se é ou não verdade que o cometa com cauda de dragão veio anunciar o fim dos poderes mais elevados do mago Merlin, como afirma a crença popular, o fato é que não tenho certeza se o que lembro foi real ou um sonho.”

Lady Mary Stewart

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27/01/2015

O atulhamento e o vácuo do universo familiar: “Fôlego”, de Rafael Mendes

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“Em que parte da memória estão armazenadas as palavras exatas que ele falava depois de umas cervejas no sangue, quando decidia reunir a família na cama de casal e, através de promessas sem sentido, nos fazia chorar?” (trecho de Fôlego)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de janeiro de 2015)

“Você há de concordar comigo quando afirmo que as nossas lembranças mais significativas, as minhas, as suas e as de Mateus, estão sempre atreladas ao pai, ele estivesse presente ou não…”

Assim Manuela se dirige a Pedro, filho do pai com outra mulher (ele manteve duas famílias paralelas), incitando-o a colaborar na reconstrução do passado, que até então parecia ser a tarefa de Mateus, narrador da maior parte de Fôlego, estreia num texto mais longo do paulista Rafael Mendes, 31 anos, após um livro de contos, “A Melhor Maneira de Comprar Sapato”.

O relato de Mateus (entremeado com curtas intervenções da irmã, a partir do enterro do pai — que cometera suicídio) pontua a “derrota” desse estranho pater familias, incapaz de sair do círculo sufocante da dependência dos sogros, vivendo num puxadinho ligado à casa deles, encanador mais por bico do que por competência — segundo o filho, “E além de tudo era um mau encanador”[1]; na visão da rebelde Manuela, “Pai, o senhor tá fedendo a merda; se fosse pela sogra, como ela confidencia, já viúva, à filha, casada com ele (e evangélica fervorosa), tudo seria diferente, contudo a decisão do marido de “ajudar o genro” amarrou o destino de todos: “Se o Paulo não fizesse isso, contra a minha vontade, talvez você estivesse em Curitiba uma hora dessas, e a história seria outra…”, instaurando uma onipresente sensação de falta de espaço, de corpos e fados se entrechocando, tendo como cristalização a asfixiante asma do narrador.

A história não pode ser outra, o vivido é um só. Fôlego mostra que a história, todavia, é sempre outra, mesmo com esse sufoco todo, daí a outra família, a existência paralela levada em outra cidade, e sobretudo o suicídio desconcertante, que coloca a todos em xeque. E enquanto Manuela escolhe o caminho do confronto, a partir da orientação sexual, Mateus tentará dilatar esse mundo de confinamento e aperto com uma trajetória “proativa”, como se costuma dizer, ascendente. Malgrado esse projeto, otimista e frágil, a história sempre é outra, e sua narrativa terá de ser completada pelos irmãos, tarefa em aberto, ligada ao futuro enraizado a esse passado, a esse pai fugidio e esquivo, presença-ausência, eterno retorno…

O ponto fraco da novela de Rafael Mendes reside numa certa falta de confiança no leitor: Mateus e Manuela às vezes atropelam a nossa leitura e já querem nos impor, com um discurso quase didático, a “moral da fábula”, as conclusões que nós mesmos poderíamos tirar desse universo de afetos no ambiente da periferia da Grande São Paulo. Um exemplo: “Alguém precisava contrabalançar a minha postura egoísta, a minha intempestividade, e esse alguém só podia ser ele. Talvez seja por isso que nesses dias nos mantivemos distantes um do outro. Só mesmo Mateus para aguentar tudo calado, pacientemente, ainda que lhe sufocasse. Agora, no entanto, eu entendo que aquela postura era um embuste, um disfarce, e que na verdade quem mais sofreu com a situação que vivenciamos foi o Mano.”!!??

O vigor do texto está justamente em que, assim como os personagens se recusam a ser apenas os partícipes de uma “só história”, unívoca e coesa, as palavras ajudam a compor um quadro no qual o que é deixado à sombra se impõe — as vidas dos avós, da mãe (diga-se, de passagem, que um dos méritos de Fôlego é se furtar totalmente ao vezo redutor, para não dizer caricatural, com que o fervor evangélico é comumente retratado), da outra mulher do pai e, claro, deste, que por si só valeria a leitura. E um dos momentos mais bonitos da nossa ficção mais recente é justamente a apreensão, num pequeno haicai narrativo sobre a aparência desse pai, no último encontro com o filho, que conjuga seu “fracasso” e o seu “mistério”: “Na lanchonete, meu pai tomava cerveja no balcão. Pediu um x-salada para mim e mais uma garrafa para ele. O lugar estava cheio de gente (…) Um cheiro de fritura, uma faladeira, um abafamento que sobrevinha da chapa quente. Eu não queria dizer nada e também não queria ouvir. Meu pai tomou um gole. Disse que se sentia cansado, que trabalhou o sábado inteiro, que no dia seguinte começaria um novo serviço. Vi suas têmporas inchadas, sua barba por fazer, as olheiras, os fios de cabelo branco. Não estava feio, mas nas já não era bonito.”

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TRECHO SELECIONADO

“Ela nunca me disse nada a respeito disso, mas para mim não é absurdo que minha mãe tenha se apaixonado pelo meu pai à primeira vista (…) Frequentando os botecos, meu pai já conhecia as mulheres solteiras do bairro. Mesmo sem querer, ele as cativava, atraía para si os olhares. Até mesmo as mocinhas de família e algumas donas de casa reparavam nele. Meu pai falava pouco, apenas o necessário. Embora modesto, de gestos contidos, ele conservava um charme natural; era diferente, misterioso, convidativo. Esse jeito dele chamou a atenção também de minha mãe. Não foi com dificuldade que ela ouviu os elogios dele, nos dias seguintes ao serviço feito na casa de meu avô. Meu pai a acompanhou ao colégio algumas vezes; fazia o favor de carregar as sacolas de frutas se topasse com minha mãe na feira. E em cada oportunidade ele articulou um  gracejo, um comentário breve, aludindo à beleza dela: a pele branca, os traços finos, os olhos claros. Minha mãe não demorou a gostar daqueles elogios, a esperar por eles, a andar devagar pelas ruas do bairro, na expectativa de encontrar meu pai…”

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NOTA

[1] Ser um “mau encanador” de certa forma contraria o atavismo sufocante das frases imediatamente anteriores à passagem: “Para mim, meu pai já nasceu encanador. Já nasceu com as mãos sujas, com o macacão fedorento, carregando aquela caixa de ferramentas pesada.”

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20/01/2015

Destaque do Blog: ARTHUR BISPO DO ROSÁRIO- O SENHOR DO LABIRINTO, de Luciana Hidalgo

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“É que alinhavar toda uma existência dava muito trabalho. E exigia toda a linha disponível no mundo dos homens.” (Luciana Hidalgo)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de janeiro de 2015)

   A aguardada exibição de sua versão cinematográfica em circuito comercial renova o interesse por Arthur Bispo do Rosário- O Senhor do Labirinto, publicado em 1996.

Não que o livro de Luciana Hidalgo (que co-escreveu também o roteiro do filme de Geraldo Motta e Gisella de Mello) precisasse disso. Premiado, referência absoluta no tocante à vida do artista que passou a maior parte da sua longa existência institucionalizado em manicômios (da véspera do natal de 1938, data de uma transfiguradora experiência “mística”— ou de um radical surto esquizofrênico — até sua morte, em 1989), realiza uma admirável mescla, bem ao modo de seu protagonista, cuja  característica é o aproveitamento de materiais diversos (tornando-se assim um pioneiro da pós-modernidade), de biografia e ensaio, numa narrativa que lembra o rendendê, o bordado de incomum refinamento praticado na terra natal de Bispo do Rosário, nascido em 1909 em Japaratuba (“rio de muitas voltas”),  em Sergipe.

Mas foi noutro Rio (a Cidade Maravilhosa), com outras voltas, que o nordestino negro e pobre teve seu encontro com a nêmesis da doença mental diagnosticada, malgrado sua personalidade ímpar ter sempre permitido que ele estabelecesse suas próprias regras, e principalmente suas obsessões estéticas, de forma que, ao ser “descoberto” pela imprensa e pelo establishment das artes plásticas (paralelamente à abertura política do começo dos anos 1980 e à mudança na orientação do tratamento psiquiátrico, até então beirando o mundo totalitário das mais sombrias distopias), era “o senhor de seu latifúndio, um grande salão rodeado por dez quartos-fortes, dignos de seu mundo. A sala de espera do juízo final.”

Como demonstraria depois num excelente romance sobre Lima Barreto (O Passeador, Rocco, 2011), a talentosa escritora carioca desenha universos interiores de urgência crônica, contrapostos à marginalidade e exclusão forçadas, caminhando no fio da navalha entre normalidade e insanidade (tal como etiquetadas pela medicina em voga em determinada época), fracassos e pequenas vitórias obtidas a alto preço (em termos pessoais).

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No caso de Arthur Bispo do Rosário, sua vocação demiúrgica, de salvação do mundo, através da criação de mantos (como o célebre Manto da Apresentação), estandartes, “assemblages”, isto é, colagens com objetos, ou, como caracteriza a biógrafa, numa das suas formulações exemplares, “pequenos bazares do universo. Um dos elementos mais importantes dessa recriação minaturizada do mundo era a nomeação (de pessoas, em especial): “Quando eu subir, os céus se abrirão e vai recomeçar a contagem do mundo. Vou nessa nave, com esse manto e essas miniaturas que representam a existência. Vou me apresentar.”

Luciana Hidalgo, com toda a fidalguia já inscrita no seu sobrenome, nos apresenta a vida e a obra de Arthur Bispo do Rosário sem condescendência ou melodrama, e também sem aparatos conceituais, tentando explicá-la, torná-la palatável e unívoca. Rio de muitas voltas, o senhor do labirinto é um exemplo do descaso, da injustiça, das mazelas sociais[1], e um indivíduo complexo e inesgotável (além de um poderoso criador). Até um momento biográfico especialmente delicado, seu conturbado relacionamento (platônico) com a estagiária Rosangela Maria Grillo, é narrado com uma sobriedade que o torna mais triste e contundente. Não que o veterano paciente da Colônia Juliano Moreira não lance suas frases dignas do teatro elizabetano: “Tudo bem, eu já entendi. Pode ir que eu vou ficar por aqui reconstruindo o mundo.”

Aliás, o estilo de O Senhor do Labirinto (afora seu personagem, claro), é a sua maior força. Tratando de uma vida com escassas fontes, toda ressignificada pela loucura e pela cifrada combinação de signos e materiais artísticos, sem maiores alardes, quase como quem não quisesse nada, essa ariadne dos labirintos de vidas descarrilhadas vai inoculando no leitor sua prosa ao mesmo tempo faca só lâmina e rendendê de grande beleza: “O tempo, fosse qual fosse, urgia, era precioso”. Ela e Arthur Bispo do Rosário nos fazem sentir isso no coração e na mente a cada palavra.

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 NOTA

[1] Somos apresentados às “sórdidas estatísticas” ligadas ao tipo de instituição que era um manicômio ao longo do século passado, e que coincide justamente com a biografia de Bispo do Rosário, a não ser em seus últimos anos.

Diga-se de passagem, tem sempre alguém que evoca o que foi feito no regime soviético, especialmente no período stalinista, com dissidentes de toda ordem (e, de fato, foi um horror inominável), como uma espécie de epítome do totalitarismo.

Mas o que pensar do discurso abaixo, feito pelo diretor empossado da Colônia Juliano Moreira, em Jacarepaguá, ao lançar a pedra fundamental do manicômio?
Também não se propõe uma erradicação, por segregação, de indesejáveis e dissidentes? Pior: é um discurso ainda presente, sob novas roupagens:

“Foi, pois, jubiloso e esperançado que compareci a esta festividade,  a fim de saudar o Sr. Ministro da Justiça, que vem remodelando a Assistência a Alienados, pela fundação destas Colônias… e pela provável promulgação de uma nova legislação na qual serão resolvidos delicados problemas atuais de higiene e defesa social pertinentes aos deveres do Estado para com os tarados e desvalidos da fortuna, do espírito ou do caráter,  para com os ébrios, loucos e menores retardados, ou delinquentes e abandonados, assim como para com os indesejáveis inimigos da ordem e do bem público, alucinados pelo delírio vermelho e fanáticos das perigosíssimas e sanguinárias doutrinas anarquistas ou comunistas, do maximalismo ou bolchevismo.”

   Com referência ao período pós-1964, lemos: “Um conflito que impediria a liberdade no país, sem mudar muito aquele asilo de alienados, cárcere público, quartel-general de vidas há muito cassadas.”

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15/01/2015

OS TRABALHOS E OS DIAS NA POESIA DE DONIZETE GALVÃO

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[uma versão da resenha abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, em 14 de janeiro de 2015, VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/01/os-trabalhos-e-os-dias-na-poesia-de.html]

“De fato a linhagem agora é de ferro:  nunca, de dia,

se livrarão da fadiga e da agonia, nem à noite,

extenuando-se: os deuses darão duros tormentos.

Todavia, para eles aos males juntar-se-ão  benesses…”

(Hesíodo, Trabalhos e Dias, versos 176-9, trad. Christian  Werner)

“Poderia ser este o lugar.

Este o tempo de repouso.

Mas a roda dentada nunca para…” (Donizete Galvão)

Entre os trinta e seis poemas reunidos em Ofícios do Tempo (ed. Positivo), dois podem ser considerados nucleares, inclusive por sua concisão e perfeição:  “Memória do paraíso/não tenho não. /Lembro-me da dor. /Da vergonha. /Do desgosto. /Da gota de suor/pingando do rosto.” (depois da queda); “Nu/bailo/numa/navalha//Sem/nada/que me valha/só/me prende/um fio/de esperança” (equilíbrio).

Ao destacá-los, corre-se o risco de sublinhar o lado mais abstrato, mais “condição humana”, relegando a segundo plano uma das linhas de força da poesia de Donizete Galvão,  cuja morte prematura completa um ano agora em janeiro: a concretude das referências, na intersecção delicada e perigosa do rural e do urbano, do eu lírico que traz as marcas do interior profundo de Minas mesmo na mais caótica das metrópolis, São Paulo. Diga-se, de passagem, que a antologia levada a cabo no volume (sob responsabilidade de Lindsey Rocha Lagni), muito feliz nesse aspecto, ressente-se de uma incômoda uniformização do fazer poético de Galvão, passando ao leitor a (falsa) impressão, ainda mais quando a autora do posfácio, Marina Ianelli, nos diz que estamos diante do “sumo do sumo” da obra[1], de que sua vocação, por assim dizer, é a dicção do verso curto, “simples”, “claro”, e sobretudo muito calcada, como em boa parte do melhor lirismo a partir do modernismo, nas perplexidades do cotidiano, o que deixa de fora uma linha mais “ambiciosa”, mais intelectualizada, no diálogo com a mitologia, cujo exemplo mais notável é “Nós e Filoctetes”, ponto alto de A carne e o tempo (1997)[2]. Feita tal ressalva, e assumindo que nenhuma seleção, por mais criteriosa e feliz, dá conta de todas as facetas de um universo complexo, voltemos à dialética entre a “condição humana” e  o contigencial que domina esse póstumo e oportuno Ofícios do Tempo.

Como já apontado, o rural ainda é muito presente nessa experiência do contingencial, particularmente como substrato da memória. Mas, aqui, o grande poeta mineiro foge totalmente de certa deturpação malsã e kitsch desse universo rural a infestar tantas narrativas infanto-juvenis e muito da recepção do universo de um poeta como Manoel de Barros, leitores não levando em conta de que se tratava de uma topografia lírica extremamente peculiar (além de tardia), e desabrochada a partir do uso incomum da linguagem, e não de uma representação de alguma realidade rural encantada que já houvesse existido e que se perdeu nos processos de urbanização.

O rural que emerge da memória lírica de Donizete Galvão é um mundo de trabalhos e dias (o que não deixa de apontar, se pensarmos no poema de Hesíodo, para a “condição humana”)[3], de ofícios, como observamos em reboco:

“Sexta feira:

dia de rebocar o chão.

É preciso ir ao curral

e trazer na bacia

o estrume das vacas.

Melhor aquela pasta

que solta fumaça,

ainda cheirando a capim.

Na beira do barranco,

perto do córrego,

cava-se a tabatinga.

Do branco do barro

com o verde da bosta,

que se mistura com os dedos,

surge uma argamassa

com que se barreiam

o piso da cozinha,

a taipa e os lados da trempe.

Para quem não tem muito,

tudo tem serventia:

a argila, a bosta da vaca,

o perfume da grama,

o giro ágil das mãos,.

Faz-se sem saber como,

sabendo-se desde sempre

essa alquimia.”

Por conta dessa vivência, o eu lírico pode interligar os topói da vida alienada na era burguesa e da “vida de gado”, fruto da massificação, com relação ao seu (e ao de tantos outros) cotidiano urbano, de uma forma que recupera a contudência das analogias, em poemas como curral, onde orquestra toda uma movimentação  da cidade, em diversos estratos sociais (“saem dos subterrâneos das garagens… saem dos conjugados sem luz do sol… saem de bairros Jardim Qualquer Coisa… saem de buracos sob a linha do trem…saem das esquinas, nos semáforos…saem dos portões com grades…saem das lojas de mármore e vidro…”), e autorretrato como boi, ele um “Boi com crachá/ e carteira assinada./Boi comprovado./Boi indistinto /na boiada da cidade…”.

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Nessa vida bovina, a única “distinção” é a insônia onipresente: “No curral da insônia,/rumino palavras pastadas/na ribanceira dos dias”. Aliás, a insônia mesma torna-se um “trabalho” dentro dos “dias”, como mostra, já a partir do título, lida:

“Peleja

para pegar

no sono.

Repele

os becos

em que

os pensamentos

giram em falso.

Rumina

os restolhos

ofertados

pelo dia.

Coloca

cunhas de

imagens

de bicas d´água

e pastagens

para que represem

os círculos infernais…”

Mais adiante, no lapidar insônia:

“Passou a noite na capina.

Quanto mais capinava

mais tarefa espichava.

Acordou com o corpo moído.

Agora o olho desconfiado

não quer mais dormir

com receio  de trabalho

                  dobrado.”

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Mas outro poema, além de reboco, situado numa sexta-feira alçada a um plano simbólico que permeia a civilização ocidental (a da Paixão), talvez seja a mais cabal demonstração da arte com que esse poeta fazia os grandes temas da “condição humana” passarem pelo crivo dos “trabalhos e dias”, pelo “áspero caroço” dos instantes, engolidos ainda assim, pela roda dentada[4]:

“A mulher que ganhou os peixes

não traz os olhos cabisbaixos

nem os ombros arqueados.

Treze peixes finos e prateados

deslizaram para dentro da sacola.

A mulher que ganhou os peixes

dá uma gostosa gargalhada.

Para que bairro de Belo Horizonte

irá com sua sacola de peixes?

Vai comentar o presente

com o cobrador de ônibus?

Usará a frigideira  preta

que fica no armário da pia?

Vai passar os peixes na farinha,

fritá-los e servi-los bem sequinhos.

Quem dividirá os peixes com ela?

O marido aposentado? Os filhos?

Haverá um gato eriçado

defendendo o inesperado das tripas?

A mulher que ganhou os peixes

não os salgou com sua mágoa.

Recebeu-os como um milagre

embora lhe fossem dados de esmola.” (sexta-feira da Paixão)

Assim, nessa nossa condição mais-que-contingente, onde tanto não tem cabimento na linguagem (“…nenhuma palavra / traduz o tormento / somente grito/gemido/uivo/corte/ferimento/podem dizer/o que não tem/cabimento”), é necessário e urgente ficar atento (“… a atenção: /forma natural/de oração” lemos no poema inaugural, e um dos mais belos, da antologia), sob o vento frio de julho, aos virtuais pêssegos da primavera (afinal, Hesíodo nos diz em seu poema sobre os trabalhos e os dias, após narrar o mito de Pandora: “…Lá mesmo só Esperança, na casa inquebrável /ficou, dentro do cântaro, sob as bordas, e não porta/afora voou…[5]), mesmo sendo a morte nosso horizonte, fazendo o equilibrista  estremecer de calafrio, na  “antecipação do abismo”.

Numa poética que é “Roçar de andorinha/entre voo e pouso”, o mundo da experiência, sendo também desejo, pede e não encontra o fio que a solde:

“Os pensamentos saltam do trilho

e ferem e vibram e caotizam,

sem que nenhum fio

possa soldá-los…”

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VER TAMBÉM NO NO BLOG

https://armonte.wordpress.com/2014/02/04/donizete-galvao-1955-2014-a-travessia-das-coisas-e-a-edificacao-de-escombros/

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NOTAS

[1] Composta pelos seguintes livros: Azul Navalha (1988); As faces do rio (1991); Do silêncio da pedra (1996);

A carne e o tempo (1997); Ruminações (1999); Mundo mudo (2003); O homem inacabado (2010).

[2]  Do qual cito um trecho:

 “Naqueles dias tão transparentes,

ela pressentia a noite que depois viria?

 

Aquela película de mágoa acompanhou-a,

dormente por dormente, desde o Rio?

 

Nas conversas com o vento,

sabia que um dia abriria em mim

a mesma ferida que consigo trazia?

 

Nas súbitas aparições de santos,

antevia os mesmos signos da melancolia,

impressos nas correntes dos genes,

a memória da dor gravada nos neurônios?

 

Seriam também meus os vincos de sua carne triste?

 

Se acaso soubesse disso, me avisaria

que nem pó de carvão, nem água boricada,

nem mesmo a visita do filho de Aquiles

fechariam a ferida que nós dois possuíamos?”

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[3] O próprio poeta nos diz explicitamente:

“Baldados os trabalhos e os dias,

os abraços em gente sem serventia

e os apertos de mão de última hora.

Ama só aqueles de quem nasceu,

a quem deu vida e os amigos

cujos afetos enraizaram-se na alma.

Que não se gaste apreço ao geral,

ao que por todo mundo é gostado,

às imagens e notícias em demasia…”

No trecho acima, de tatu-bola, temos uma espécie de convocação para a concentração no ofício de viver e seus afetos, um não à dispersão, à falsa ideia de se estar “conectado” com o mundo em geral, tão vendida nos dias atuais.

[4] “Um tapete de goiabas

estende-se sobre a grama.

Os jacintos em bloco

ergueram as suas flores.

Poderia ser este o lugar.

Este o tempo de repouso.

Mas a roda dentada nunca para.

Mói o caramujo envolto em formigas.

Mói o cão içado do poço por um balde.

Mói os fios de cabelo de Anita

que protegem os pés de rosa.

Mói as rosas.

(Em direção ao rio,

lá vai a mulher com a pedra no bolso.

Lá está ele na cama

com os tubos no nariz.)

Há perfumes de jacintos

e  goiabas vermelhas de outono.

Cada instante tem sua polpa

e no centro o áspero caroço.” (a dureza do instante)

[5] versos 96-8 (ed. Hedra, 2013)

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13/01/2015

“As duas faces de janeiro” e as obsessões de Patricia Highsmith

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“__ Escute, Rydal, se é dinheiro o que está procurando, talvez possamos chegar a um acordo.

__ Ah-h—Rydal sorriu e sacudiu o fósforo para apagá-lo—Não me oponho a um pouco de dinheiro, mas duvido que você e eu possamos um dia chegar a um acordo.

      Chester riu com desprezo.

__ Não dou dinheiro a pessoas om quem não chego a um acordo.

__ Não? Pense de novo.

__ Pena que não deixou claro desde o início que era um chantagista. Poderia ter-me dito que era um chantagista. Poderia ter-me dito antes de irmos para Creta.

__ Não era claro para mim antes de Creta. Acho que foi o fato de ter-me associado a você que me tornou obcecado por dinheiro…”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de janeiro de 2015)

No ano em que completou meio século, As Duas Faces de Janeiro (cuja tradução — de Marcelo Pen — acaba de ser relançada pela Benvirá[1]) transformou-se no filme de estreia como diretor do roteirista iraniano Hossein Amini (de Branca de Neve e o caçador), ora em exibição em Santos.

Fugindo da investigação de seus negócios escusos nos EUA, o quarentão Chester MacFarland leva a esposa, Colette (25 anos), para uma viagem pela Europa. Em Atenas, chamam a atenção de outro americano, Rydal Keener: Chester se parece muito com seu pai, recém-falecido, com quem tinha uma relação problemática; Colette, com a garota que fora sua paixão adolescente, com resultados desastrosos, como uma acusação de estupro. Ao segui-los, testemunha o assassinato de um policial; ajudando Chester a ocultar o cadáver, envolve-se com o casal de uma forma tortuosa e escusa (e sobretudo gratuita[2]: “As palavras pareceram sair de dentro dele vindas de lugar nenhum. Estava se oferecendo para cometer perjúrio. E por que motivo? Por quem? Um homem cujo ar cavalheiresco era só aparente, Rydal podia perceber agora; um homem cujas roupas tinham bom corte, tendo sido feitas por encomenda, mas cujas abotoaduras eram vistosas; um homem cuja disposição parecia desonesta, pois ele era desonesto”) que os levará a Creta, onde se cristaliza a mescla de fascinação  e ódio entre os dois homens; e depois à França, quando ambos, foragidos da justiça, usando identidades falsas, já são inimigos declarados[3], Chester procurando despistar Rydal, sempre em seus calcanhares…

De todos os 21 romances de Patricia Highsmith (1921-1995) publicados em vida[4], As Duas Faces de Janeiro talvez tenha sido o mais trabalhado e revisto, com várias versões rejeitadas por sua editora (que não o achava “à altura de uma escritora como ela”): “Um clima muito pouco saudável cerca o texto [que] transmite forte sensação de repulsa; ou então: “o livro só faz sentido se houver um relacionamento homossexual entre Rydal e Chester…Não conseguimos gostar de nenhum personagem, e mais difícil ainda é acreditar em algum deles[5].

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De fato, vindo na sequência da sua maior obra fora da série Ripley, O Grito da Coruja (1962), esse livro, cujo título evoca a dualidade de Jano (tocando fundo nos movimentos interiores dos personagens: Chester a princípio sempre se reinventando para o futuro, vezo essencial para sua vigarice; Rydal, fixado no passado; depois, a inversão entre eles), desconcerta o leitor e, no seu terço final, resvala para o exasperante[6], com uma narrativa estática e atitudes que soam singularmente inverossímeis, em especial num homem maduro que sempre viveu de golpes e da esperteza (“Quebrado, jurou a si mesmo que ficaria rico, e depressa.Assim, passou a operar de modo cada vez mais escuso, podia perceber agora, embora ao começar não tivesse a intenção de ficar milionário tornando-se um vigarista. Fora uma coisa gradual. Uma coisa gradual e ruim, Chester sabia. Mas agora estava preso a isso, realmente afundado nisso, entregue a isso como um viciado à droga”).

Entretanto, sem deixar de reconhecer alguns desequilíbrios sérios do romance enquanto tal, essa mirada apenas ratifica os equívocos das avaliações acima citadas sobre o manuscrito, o principal deles centrado na questão crucial de acreditar nos personagens (e gostar deles), sem contar a latente homossexualidade da trama. Pois bem, qual a novidade? Boa parte do universo de Patricia Highsmith é a exploração da atração-desejo de tomar o lugar entre dois homens. Pode-se até chegar ao ponto de afirmar que todos os cenários, por mais interessantes e bem-descritos que sejam, na Grécia ou na França, e mesmo o labirinto de Creta (onde acontece um episódio crucial)  só servem, em As Duas Faces de Janeiro,  para que a autora coloque tal obsessão em movimento[7], num labirinto psíquico que faz de tudo o mais mero acessório (inclusive Colette, o suposto pomo da discórdia). Portanto, não tem muito sentido cobrar verossimilhança nas atitudes e eventos (e assim dá para entender melhor a falta de jogo de cintura por parte de Chester, na reta final da narrativa), embora, a meu ver, os aficcionados e experimentados nos dédalos highsmithianos sentirão menor desconforto (nesse sentido, pelo menos) com esse livro tão peculiar e estranho. O aventureiro de primeira viagem talvez não aprecie muito a iniciação, pois os mapas da grande escritora texana geralmente levam a territórios proibidos ao conforto turístico[8].

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TRECHO SELECIONADO

“Chester pôs a mão no radiador, que ainda não dava sinais de estar perdendo a frieza. Teve um pressentimento de que à noite continuaria frio e que Colette ficaria acordada até o dia raiar dançando em algum lugar com Rydal, em vez de tentar dormir. A energia de Colette era supreendente—patinar no gelo a tarde inteira em Radio City ou andar a cavalo no Central Park, e então dançar numa festa até de madrugada, por exemplo. A energia da juventude, claro. Simplesmente não conseguia estar à altura. Suas pernas não aguentavam. Bem, as coisas ainda não tinham chegado a esse ponto e, se o cômodo  não aquecesse em duas horas, mudaria de quarto ou de hotel…”

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NOTAS

[1] Anteriormente publicada pela Editora A Girafa (2004). O título original é The Two Faces of January.

[2] Como sói acontecer no universo da autora de que me ocupo. Mas como a minha linha de argumentação mostrará, estamos longe do gratuito, que é apenas a superfície, a proverbial ponta do iceberg.

[3] Rydal: “Eu o detesto. Creio que isso me fascina. Não desejo matá-lo, nunca desejei matar ninguém. Mas devo confessar que gostaria de vê-lo desabar.” A questão, como sempre, é quem se revela o mais fraco. Em O Talentoso Ripley, o protagonista precisa matar o “amigo” a quem ama, Dickie, porque se descobre o mais fraco dos dois, e não há outro jeito.

[4] Small G foi publicado postumamente, em 2004. O último publicado em viva foi Ripley debaixo d´água (1992), quinto da série Ripley.

[5] Utilizo informações colhidas na biografia A talentosa Highsmith, de Joan Schenkar, na sua versão brasileira (feita por Ricardo Lísias, Globo, 2012).

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[6] O mesmo problema acontecia com  This sweet sickness (1960), mesmo assim um romance superior (há duas edições brasileiras, uma com o título Essa doce obsessão; outra, como Esse doce mal), a meu ver.

[7] Além do seu fascínio pela vigarice, pelas identidades falsas, e pelo dinheiro, no sentido mais literal possível: a obra de Highsmith em geral, e As duas faces de janeiro é muito ilustrativo, é pródiga em quantias, em notas que aparecem em cena, em detalhes financeiros exaustivos. Por exemplo, há a cena em que Andreou (aliado de Rydal, mas contratado por um iludido Chester para eliminar o antagonista) exibe o dinheiro que recebeu do americano: “…ele o havia trazido consigo também para exibi-lo, Rydal pensou. Ele fitou as notas novas de quinhentos dólares na mesa de madeira ao lado dos pratos sujos de guisado. Por alguns segundos todos miraram o dinheiro…”; anteriormente: “Notou a falta de jeito de Chester, sua falta de coragem em mencionar o dinheiro, possivelmente sua sovinice e, a despeito de todas as suas roupas gastas, Rydal achou-se bastante superior a Chester MacFarland”.

Num dos momentos da narrativa, em que se faz uma caracterização do “caráter” de Chester, lemos: “Rydal tentou explicar que Chester era o tipo de homem que se sentia mais à vontade depois de constranger as pessoas, ou procurar constrangê-las, a aceitar dinheiro”.

[8]Era uma  cidade desinteressante, Canéia, mas ele apreciava cidades desinteressantes, porque elas obrigavam as pessoas a examinar coisas—por falta do que fazer—que de outra forma passariam despercebidas…”

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08/01/2015

O LIVRO DE HENRIQUE: um grande romance de Heinrich Mann (1871-1950)

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“Ele avança imperceptivelmente. Tudo lhe serve, seus esforços e os dos outros que o querem expulsar ou matar. Certo dia perceberão que ele é famoso, e marcado pela sorte. Mas sua verdadeira sorte é sua determinação natural. Ele sabe o que quer, por isso distingue-se dos indecisos. Especialmente, ele sabe o que é bom, e o que a consciência dos seus iguais considera certo. Isso lhe dá, claramente, uma posição singular. Nenhum daqueles que fazem seu jogo nesse ambiente denso está tão seguro das leis morais quanto ele. Não se deve buscar em outra parte a origem de sua fama, que jamais empalidecerá…”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de dezembro de 1993)

Thomas Mann é o maior escritor do século. Seu irmão Heinrich, embora mais conhecido por causa de O anjo azul (Der Blaue Engel, 1930), a clássica adaptação de Josef von Sternberg de seu Professor Unrat (1905), também era grande, como prova A juventude do rei Henrique IV (“Die Jugend des Königs Henri Quatre”, 1935 — que comento em versão de Lya Luft). O lançamento da Editora Ensaio certamente é uma das traduções mais importantes deste ano.

Henrique foi um dos protagonistas da guerra religiosa que dividiu e empobreceu a França nos séculos XVI e XVII, envolvendo os grandes clãs nobres da Europa. Morta Jeanne, sua mãe, fanática huguenote (como eram chamados os protestantes franceses), ele é atraído para a Corte parisiense pela rainha-mãe, Catarina de Médicis (que envenenou Jeanne), com cuja filha — Margarida de Valois — se casa. Dias depois ocorre a famosa Noite de de São Bartolomeu, na qual os protestantes são massacrados. Henrique é mantido prisioneiro na Corte. Os filhos de Catarina vão se sucedendo no trono, e o reinado de Henrique III transforma o Louvre num palácio gay, com orgias e disputas de favoritos…

A teia de acontecimentos é contada com vivacidade ímpar, com discretas participações de Nostradamus e de ninguém menos do que Montaigne, que se torna amigo do futuro rei e influencia seu modo de pensar, baseado na tolerância e no conhecimento empírico das motivações humanas.

Tal resumo asséptico e praticamente insípido não dá conta do romance riquíssimo que é Henrique IV. Heinrich Mann surpreende um momento histórico em que as massas eram manipuladas via fanatismo religioso, como acontece em épocas de insegurança e miséria (a nossa, por exemplo). Por detrás dessas disputas intolerantes há sempre o espectro do poderio econômico e político (as outras potências europeias, Espanha e Inglaterra, fomentam a maldade de Catarina porque lhes é útil e conveniente). Cada seção do livro se encerra com uma moral dos acontecimentos e da evolução pessoal de Henrique, a quem conhecemos desde a infância. Sua maturidade e morte são narradas em outro volume, publicado em 1938.[1]

Sem o impacto que causou nos anos 1930, ainda assim é enorme a impressão que causa no leitor de hoje (malgrado o espinhoso e desajeitado texto em português, que parece aspirar a que concordemos com a opinião de Nigel Hamilton de se tratar de um empreendimento linguístico intraduzível), pela irreverência paródica de certos trechos, mas em especial pelo seu lado bem-humorado, cheio de vida. Elíptico, Mann realiza um fabuloso tour-de-force com a narração em terceira pessoa, que desliza para a própria fala ou pensamento dos personagens, quer individualizados, como Henrique ou Margarida, por exemplo, quer em momentos coletivos (como o pensamento do povo em momentos culminantes da narrativa: as núpcias, o massacre).

Um empreendimento cada vez mais difícil, só tentado vez em quando por alguém da estatura de uma Susan Sontag (em seu O amante do vulcão, outra grande tradução de 1993): o casamento entre o prazer de contar fatos passados e o prazer de ser significativo. Um raro prazer.

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TRECHO SELECIONADO

Henrique virou-se bruscamente. Não ouvira nada, mas entrementes Catarina de Médici entrara bamboleando, e fora até o centro do quarto. Ele reconheceu apenas seu contorno, pois estava ofuscado pela luz, mas ela avistara o rapaz e o examinava. As mãos dela estariam escondidas nas pregas do vestido? Vestia preto, e começou a falar com ele, na sua voz gasta.  “Mas ela está viva!” pensou o amargurado filho da morta. Com ódio ouvia-a protestar sua grande dor pela perda de sua boa amiga Jeanne, e que estava feliz por finalmente tê-lo ali consigo. Ele acreditou, mas decidiu: sua chegada não seria um bem para ela. Seus olhos tinham-se acostumado à claridade mais débil. Realmente, ela ocultava as mãos! Então ainda meteu a mão de Deus na sua fala. O filha da morta segurava a língua com os dentes, do contrário teria exigido: madame, deixe-me ver suas mãos! Mas ela fez isso! Tirou de seu vestido as mãozinhas gordas que ele queria ver, e depositou-as sobre a mesa diante da qual se sentou.

    Henrique deu uns passos irados, rápidos e impensados. A velha rainha tinha à sua frente a imensa mesa larga, atrás dela quatro fortes suíços com longas lanças. Era fácil ficar calma, a voz bonachona:

__ Como tenho pena de você, meu rapaz! Dezoito anos, não é, e já duplamente órfão! Pois encontrará em mim sua segunda mãe, que orientará seus passos, os passos dos jovens muitas vezes são apressados demais. Eu sei que vai me agradecer, meu jovem, sua natureza é viva e natural. Nós dois merecemos nos darmos bem.

     Era cruel. Sobre a mesa adivinhava-se um invisível copo de veneno, os dedinhos da velha esgueirando-se até ele, enquanto o abismo falava através dela. Era um feitiço, era preciso rompê-lo! Certas palavras e sinais teriam talvez feito aquele rosto cor de chumbo com as bochechas caídas rebentar e desmanchar-se no ar. Mas Henrique naquele instante tenso fez coisa diferente: descobriu que a assassina de sua mãe era digna de comiseração- como no fundo do poço do Louvre, o resto da torre que sobrava sobre os séculos soterrados. Mas em breve será removida. Talvez afinal ela faça a mesma coisa. Ela ou sua linhagem construíram a fachada bonita do palácio ao sol do meio-dia. E ela pessoalmente ainda está aí, como o passado louco e mau. O que é ruim mas muito velho acaba sendo ridículo, ainda que deseje matar. Apesar de seus tardios crimes, desperta misericórdia pela sua impotência, e decadência!

     O jovem Henrique exclamou em voz clara e confiante:

__ Como são verdadeiras suas palavras, madame! Um dia lhe agradecerei, certamente.  Que meus atos sejam sempre da mesma naturalidade que os seus! Farei esforços para agradar a uma tão grande senhora…”

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NOTA

[1] “Die Vollendung des Königs Henri Quatre”, ainda inédito em português.

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06/01/2015

EM DIREÇÃO AO QUE IMPORTA: os belos haicais de “29”, de Marcos Messerschmidt

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“trinta e quatro dias numa clínica,

quarenta dias nos bosques do Japão,

onze meses sem beber.  

vinte e nove anos

enterrados em mim.”  

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de janeiro de 2015)

Na minha lista de destaques de 2014, publicada na semana passada, alguns autores (como Thiago Roney, Leonardo Villa-Forte, Rafael Sperling, todos com 29) beiravam os 30 anos[1]. O gaúcho Marcos Messerschmidt já alcançou a marca, mas antes, como um rito de passagem, escreveu os 70 haicais — emoldurados por dois poemas mais longos — que compõem 29. “Dia de chuva /bom começo/bom fim para um haicai.

Em seis seções, a forma japonesa consagrada, essencialista, muito focada na contemplação da natureza, e que teve um mestre como Bashô (1644-94: “Calou-se o sino/ O que chega a mim agora/ é o eco das flores),  é inteligentemente mesclada a notações urbanas, a clínicas de reabilitação, a autores-fetiche, cuja marca seria uma antípoda prolixidade, caso de Roberto Bolaño, os beatniks (como Kerouac ou Ginsberg), Bukowski, para não falar em Baudelaire e do santo padroeiro da abertura, o mais expansivo e derramado, Walt  Whitman (“poeta da relva/obrigado/ por me ensinar /a abraçar /a humanidade”; mais adiante: “em três linhas/ sou todo[s] /sou invencível”).

Já há tempos vem me enfadando o constante (e já estereotipado)  apelo à “literatura” como matéria do próprio fazer literário. E, Bolaño (malgrado sua culpa no cartório com relação à famigerada metaficção)[2], Whitman e especialmente Baudelaire à parte, nunca fui muito fã dos autores caros a Messerschmidt (“embriagado/ entre Bukowski/ e Baudelaire, lemos na seção Trêmula Cicuta, e eu me pergunto se não é misturar vinho fuleiro com o melhor champanhe — todavia, parece que o autor de Cartas na rua é irresistível para jovens escritores). Mesmo assim, o talento do poeta estreante logrou alguma alquimia secreta e imponderável, talvez o uso de uma cicuta nada trêmula no seu conciso discurso lírico,  conseguindo driblar miraculosamente, na maior parte de 29, os déjà vu, cacoetes geracionais e até mesmo a geralmente insuportável infestação de referências literárias e metalinguísticas (que, no livro, por causa da destreza de toque, se reduz a um suave veneno). haicaicesarea tinajero

Na primeira seção, Flores do Dilúvio, “a flor ensaia o absurdo/ descola do galho /espalhando multidões, e é onde a natureza parece mais presente, junto com os  “chamados irresistíveis da rua; na segunda, A Caminho da Barbearia, a ênfase nas referências começa a ser mais evidente, em meio a versos fantásticos, mesmo com quebra da forma usual (“o belo amigo coça sua melhor barba ), entretanto, como se afirmará na seção seguinte, Trêmula Cicuta, e creio que acabará tornando-se um dos haicais mais citados do livro, “encontro a forma/ nem redonda/ tampouco enquadrada”, espelhando uma rebelião vandalírica mais agônica: “maldigo o pai/ amaldiçoo o filho/ espírito não me contém; o quarto conjunto, Há Pouco, também tem como abertura um haicai que nasceu com vocação para citação: “pensei/ que fosse morrer/ era só a vida, e entre alusões até mesmo a personagens de Detetives Selvagens (para ser mais preciso, a mais-que-procurada poeta das garatujas,Cesárea Tinajero), temos momentos lindos: “o vaso quebra/ estilhaços/ de haicais, ou ainda: “em casa/ espera o mar/ fio solto da rede”, e eu penso que o admirador de Whitman tem uma dicção elíptica mais afinada com a nada garatujal Emily Dickinson, de todo modo a seção tem um fecho de ouro, um dos grandes momentos do lirismo brasileiro mais recente: “estávamos lá/ há pouco/ eis aí o símbolo”. Talvez por esse motivo, considero Disseca-se a seção mais inexpressiva de 29 — ainda bem que há o poema final, Still Beating, o qual começa assim: “nesta cidade baixa/ ensaio o voo torto/ em direção ao que me importa”. O encanto de fazer o percurso nas asas do voo torto do agora trintão Marcos Messerschmidt é que aquilo importa a ele passa a valer para nós também.

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TRECHO SELECIONADO

Um haicai com um quê à Manoel de Barros:

“perto de ti, rio

sou menino

deságuo maturidades”

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NOTAS

[1] VER https://armonte.wordpress.com/2014/12/30/livros-de-2014/

Lembrando que, na mesma lista, Antônio Xerxenesky, que aniversariou em dezembro, lançou seu F ainda com 29 anos, e que Débora Ferraz está com 27.

[2] VER https://armonte.wordpress.com/2013/07/13/estrela-cadente-roberto-bolano-o-visgo-da-literatura-e-o-desgaste-da-aura-de-um-autor/ Charles-BaudelairewaltwhitmanCharlesBukowski

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