MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/03/2013

Para seguidores e neófitos de Poe: Os arabescos de CONTOS DE IMAGINAÇÃO E MISTÉRIO

Edgar_Allan_Poe_21

“E então insinuou-se em minha imaginação, como uma rica nota musical, o pensamento do doce descanso que devia ser o túmulo (…) Desmaiara;mas mesmo assim não direi que perdi de todo a consciência. O que dela restava não tentarei definir, nem sequer descrever; contudo, nem tudo estava perdido. No sono mais profundo—não! No delírio—não! Em um desmaio—não! Na morte—não! até mesmo no túmulo, nem tudo está perdido. Despertando do mais profundo dos sonos, rompemos a teia diáfana de algum sonho. E, contudo, um segundo depois (por mais frágil que pudesse ser a teia),não lembramos de ter sonhado. No regresso à vida após o desfalecimento há dois estágios; primeiro, o da sensação de existência mental ou espiritual; segundo, o da sensação de existência física. Parece provável que, ao atingir esse segundo estágio, se pudéssemos recordar as impressões do primeiro, deveríamos julgar essas impressões eloqüentes em lembranças do abismo que jaz além. E esse abismo é—o quê? Como de algum modo distinguir suas sombras daquelas que há na tumba?”

“… um asco para o qual o mundo não tem um nome…”

           (Edgar Allan Poe, O poço e o pêndulo)

Poe capa

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/meu-duplo-no-meio-do-caminho-havia-um-superego/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/dr-fortunato-e-o-sr-valdemar-o-medico-e-a-cobaia/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/o-americano-nada-tranquilo-os-200-anos-de-poe/

(a resenha abaixo, sem as notas de rodapé e os trechos selecionados, foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de março de 2013)

Um novo seriado de sucesso, The Following, no qual um professor de literatura psicopata arregimenta seguidores em crimes que evocam o universo de Edgar Allan Poe (1809-1849), recolocou em pauta o fascínio exercido pelo genial escritor norte-americano[1].

Assim, é oportuno que a Tordesilhas tenha lançado Contos de Imaginação e Mistério, em tradução de Cássio de Arantes Leite [o Prefácio, um célebre texto de Baudelaire, foi traduzido por Daniel Abrão]. Aproveitou-se uma edição clássica (Tales of mystery and imagination, publicada em Londres pela editora Harrap, em 1919), reunindo um terço das histórias de Poe, com ilustrações marcantes e altamente estilizadas (com toque à Beardsley) de Harry Clarke (1889-1931) para o universo das 22 narrativas, entre as quais poucas não são presença constante em antologias: Leonizando, 1835; Silêncio—Uma fabula, 1837;  O Colóquio de Monos e Una, nenhuma das três, a meu ver, memorável, a não ser que o leitor se deleite, por exemplo, com o diálogo entre as almas de dois amantes, em que um dos interlocutores narra sua própria decomposição.

Entre as “canônicas”, a mais antiga é de 1833, Manuscrito encontrado numa garrafa, que dá o tom a quase todas elas (geralmente em primeira pessoa[2]):  o protagonista, após um fenômeno atmosférico singular em alto mar ,descobre-se a bordo de um navio fantasma. Como sói acontecer nas minhas leituras de Poe, nunca dera até agora importância ao texto antes, porém a revisão—e ter em mente que foi escrito aos 24 anos—o valoriza tremendamente. A derradeira, em termos cronológicos, é uma obra-prima sobre a execução atroz de uma vingança, O Barril de Amontillado (1846), e já mostra como ele se exercitava novas modulações para seus temas recorrentes: o diálogo é vivo e matreiro, e nada falta-nada sobra no texto; pois, genialidade à parte, Poe não costumava apurar sua prosa (até porque morreu aos 40 anos), e atura-se muita retórica pomposa, muita necessidade pueril de enfatizar desnecessariamente uma atmosfera “tenebrosa”, que as fabulações já tinham de sobra, sem essas apelações. Até a qualidade da tradução (com uma exceção importante, que comentarei adiante, e não levando em conta os injustificáveis erros de revisão[3]) colabora para que esses floreios cansativos fiquem evidentes.

Da safra dos anos 1830, temos O Encontro Marcado, Rei Peste,  A Queda da Casa de Usher, William Wilson,  todas famosas e marcantes:  um pacto de morte entre amantes, em Veneza; uma estranha corte onde marinheiros pândegos elegem um “rei”  na Londres abandonada devido à Peste, um solar que vem abaixo, apocalipticamente, no momento mesmo que o casal de gêmeos—últimos descendentes de uma família senhoria—sucumbe à morte anunciada; e, claro, a fábula pré-freudiana que originou  infinidade de variações, envolvendo um duplo do herói[4] ;  e como esquecer a trinca de nome de mulheres: Berenice, Morella, Ligeia: a primeira é ainda a mais impressionante, com o heroi violando o túmulo da amada para ficar com seus dentes; as outras não ficam muito atrás: uma filha que é a reencarnação da mãe (falecida no parto) e com uma personalidade adulta e moribunda desde tenra infância; e uma segunda esposa que é possuída pela alma da primeira.

harryclarkepoe (1)

Embora cultuadas por uma infinidade de leitores (que justificam o postulado de The Following), é preciso dizer que nenhuma delas deixa de ter páginas rebarbativas e “poluídas”. Poe  quase estraga A Queda da Casa de Usher por prolongar inutilmente  suas obsessões necrófilas , só chegando ao clímax da destruição da casa nuns poucos parágrafos finais abruptos. Sequer a extraordinária e paradigmática William Wilson escapa de umas  tantas “gordurinhas”.

Nos textos dos anos 1840, já bem amadurecido, ele vai oscilar entre os relatos bem longos (é caso das aventuras que deram origem ao gênero detetivesco: Os Assassinatos da Rue Morgue e O Mistério de Marie Roget, das quais nunca consegui ser muito entusiasta, apesar da sua óbvia importância histórica) e contos mais bem modulados, menos monocórdios e bombásticos. Dessa década, infelizmente a final, temos Uma descida no Maelström, A Máscara da Morte Vermelha,  O poço e o pêndulo, O Coração Denunciador O Escaravelho de Ouro, O Gato Preto, O Enterro Prematuro: uma exemplar “história de pescador”; as alucinantes (e definitivas) visões da Peste como “penetra” num baile de uma torpe elite, que deixara o povo à mercê do caos e do horror, e das torturas impetradas pela Inquisição; temos um coração e um gato que denunciam, de um modo excruciante, em clima de pesadelo, os crimes dos narradores (diga-se de passagem, há um quê de revolucionário em apresentar protagonistas criminosos e sórdidos); temos uma caça ao tesouro através da decifração de um criptograma (aqui, todos os efeitos engenhosos do texto são destruídos no que concerne ao leitor brasileiro, pois o Cássio de Arantes Leite não se deu ao trabalho de encontrar equivalentes em português às partes do código; uma pena, pois a narrativa—uma das “longas” do volume—é brilhante); e, por fim, temos uma sequência de “causos” sobre a possibilidade de se enterrar alguém vivo, que tem o seu quinhão de mistificação, e também o charme de mostrar que Poe já se divertia e brincava com seus temas obsedantes. O que ficou dele, portanto, já é assombroso e único, imagine se vivesse mais tempo, com sua arte se apurando em consonância com sua afiadíssima imaginação.

Harry-Clarke--Poe--Tales-of-Mystery-and-Imagination--8_9001 (1)

TRECHOS SELECIONADOS

“Voltando meus olhos para o alto, contemplei um espetáculo que gelou o sangue em minhas veias. A uma terrível altura, diretamente acima de nós, e bem na beirada do declive escarpado, pairava um navio gigantesco, de talvez quatro mil toneladas. Embora empinado no cume de uma onda com mais de cinquenta vezes sua própria altura, seu tamanho aparente ainda assim excedia o de qualquer navio de linha ou embarcação da Companhia das Índias Orientais existente (…) No momento em que o avistamos, inicialmente, a curvatura de seu beque era a única parte visível, conforme o navio ascendia vagarosamente do abismo escuro e tenebroso atrasa de si. Por um momento de intenso terror ele ficou imóvel sobre o vertiginoso pináculo, como que a contemplar a própria sublimidade, então estremeceu-se, oscilou—e precipitou-se.”  (Manuscrito encontrado numa garrafa, 1833-a ilustração abaixo não é de Harry Clarke)

não é ilustração do clarke

“Sonhar, continuou, retomando o tom de sua conversa errática, conforme erguia à rica luz de um incensório um dos magníficos vasos—, sonhar tem sido a ocupação de minha vida. De tal modo que excogitei para mim, como vê, um refúgio de sonhos. No coração de Veneza poderia eu ter erguido um melhor? O que o senhor contempla em torno, admito, é uma miscelânea de ornamentos arquitetônicos. A pureza da Jônia ultrajada por motivos antediluvianos, e as esfinges do Egito esticando-se sobre tapetes de ouro. E contudo, o efeito é incongruente apenas para o tímido. Convenções de lugar, e sobretudo de época, nada são além de abominações que insuflam terror na espécie humana, abstendo-a de contemplar a magnificência…” (O encontro marcado, 1834)

poe104a

“A batida de uma porta me perturbou e, ao erguer o rosto, descobri que minha prima partira do aposento. Mas do desordenado aposento da minha cabeça, ai de mim!, não partira, nem era expulso, o espectro branco e fantasmagórico de seus dentes (…) Vejo-os agora ainda mais inequivocamente do que os contemplei então. Os dentes!—os dentes!—estavam aqui, e lá, e por toda parte, e visivelmente, palpavelmente, diante de mim; longos, estreitos e excessivamente brancos, com os lábios pálidos se contraindo em torno, como no próprio momento de seu primeiro e terrível crescimento. Então seguiu-se a plena fúria de minha monomania, e lutei em vão contra sua estranha e irresistível influência. Dentre os múltiplos objetos do mundo externo eu não tinha pensamentos senão para os dentes. Por eles anelava com desejo maníaco (…) e eles, em sua individualidade única, tornaram-se a essência de mina vida espiritual…” (Berenice, 1835)

t_d4f01b50-a090-11e1-a6d4-87847d200004

“Mas na verdade, chegara agora um tempo em que o mistério da conduta de minha esposa me oprimia como um feitiço. Eu já não suportava o contato de seus dedos lívidos, nem o tom grave de seu falar musical, tampouco o brilho de seus olhos melancólicos. E ela sabia disso tudo, mas não me censurava; parecia consciente de minha fraqueza ou de minha insensatez e, sorrindo, chamava a isso Destino. Parecia, ainda, consciente de uma causa, por mim desconhecida, para o gradual alheamento de minha estima (…) E contudo era mulher, e o anseio a consumia a cada dia. No fim, a mancha escarlate  se fixou firmemente em sua face, e as veias azuis sobre a fronte pálida ficaram proeminentes; e, num instante, minha natureza se fundia em piedade, mas no seguinte, eu cruzava o relance de seus olhos eloqüentes, e então minha alma adoecia e ficava tonta com a tontura de quem baixa o rosto para o interior de algum abismo austero e insondável…” (Morella, 1835)

$(KGrHqZ,!iIE-rHZmTjlBP)Q(RHcpg~~60_35

“_Eis aqui então um convite, minha vida. Posso contar mesmo com sua presença?

__Querida Duquesa, irei de todo coração.

__ Ora bolas, não!—virás com todo teu nariz?

__Cada pedacinho dele, meu amor, disse eu; então lhe apliquei uma ou duas torceduras, e vi-me no Almack´s.

  Os salões estavam lotados ao ponto da sufocação.

__ Aí vem ele!, disse alguém na escadaria.

__ Aí vem ele!, disse alguém mais no alto.

__ Aí vem ele!, disse alguém ainda mais no alto.

__ Ele veio!, exclamou a Duquesa. Ele veio, o amorzinho!—e, tomando-me firmemente pelas duas mãos, beijou-me três vez no nariz.” (Leonizando, 1835, que tem algo de um Oscar Wilde “avant le lettre”, por isso coloquei uma ilustração de Beardsley abaixo)

aubrey_beardsley6 (1)

“Diante de cada um daquele grupo havia um crânio cortado, que era usado como taça. Acima ficava suspenso um esqueleto humano, pendurado por uma corda amarrada a uma das pernas e presa a uma argola no teto. A outra perna, livre de qualquer peia, projetava-se do corpo em ângulo reto, levando toda a ossada solta e chocalhante a balançar e girar ao sabor de qualquer ocasional sopro de vento que porventura invadisse o ambiente. No crânio dessa coisa hedionda havia um punhado de carvão em brasa que lançava uma luz indecisa mas vívida sobre toda a cena; enquanto caixões e outros artigos pertencentes à oficina de um agente funerário empilhavam-se até o teto em torno da sala, obstruindo todas as janelas e impedindo qualquer raio de luz de escapar para a rua.

  À visão dessa extraordinária assembléia, e deus ainda mais extravagantes aparatos, nossos dois marujos não se conduziram com esse grau de decoro que seria de esperar…”  (O Rei Peste, 1835)

profondo-nero-harry-clarke-L-XnZGFL

“Então amaldiçoei os elementos com a maldição da comoção; e uma apavorante tempestade se formou no céu onde, antes, vento algum soprava. E o céu ficou lívido com a violência da tempestade—e as pancadas de chuva se abateram sobre a cabeça do homem—e houve cheias no reio—e o rio tornou-se um tormento espumoso—e os nenúfares guincharam em seus leitos—e a floresta foi destroçada pelo vento—e o trovão reverberou—e o raio caiu—e a rocha sacudiu em suas fundações. E eu permaneci em meus esconderijo e observei as ações do homem. E o homem tremia na solidão;–mas a noite  declinava e ele sentava sobre a rocha.

   Então tomei-me de fúria e amaldiçoei, com a maldição do silêncio, o rio, e os nenúfares, e o vento, e a floresta, e o céu, e o trovão, e os suspiros dos nenúfares. E foram amaldiçoados, e acalmaram-se…” (Silêncio-Uma fábula, 1837; há discrepâncias no texto quanto a essa data de publicação original—nas notas aparece o ano de 1838)

fox_upfronts_2012_following_needledrop_640x360_17666910

“Umas poucas otomanas e candelabros de ouro, de feitio oriental, eram dispostos em pontos variados—e havia também o divã—o divã nupcial—de um modelo indiano, baixo, esculpido em ébano sólido, encimado por um dossel semelhante a um pálio fúnebre. Em cada um dos cantos do aposento fora colocado de pé um gigantesco sarcófago de granito negro, das tumbas dos reis diante de Luxor, com suas tampas antiqüíssimas cobertas de entalhes imemoriais. Mas era na colgadura do apartamento que residia, hélas! A principal fantasia de todas. As elevadas paredes, gigantescas na altura—beirando mesmo a desproporção—cobriam-se de alto a baixo, em bastos pregueados, por uma tapeçaria pesada e de aspecto maciço—feita de um material que era igualmente encontrado no chão, como coberta para as otomanas e a cama de ébano, como dossel para a cama e como as cortinas de suntuosas volutas que tampavam parcialmente a janela. O material era um riquíssimo tecido de ouro. Pintado inteiramente, a intervalos irregulares, com padrões de arabescos, medindo cerca de 30 centímetros de diâmetro, e lavrados sobre o tecido em padrões do mais negro azeviche. Mas esses padrões partilhavam da genuína característica do arabesco (…) eram feitos de modo a assumir um aspecto mutável. Para alguém adentrando o ambiente, exibiam a aparência de simples monstruosidades; mas ao se avançar mais além, essa aparência gradualmente desaparecia; e, passo a passo, conforme o visitante mudasse de posição no aposento, via-se cercado por uma infinita sucessão das formas espectrais pertencentes à superstição dos normandos ou surgidas nos sonos culpados do monge. O efeito fantasmagórico era vastamente ampliado pela introdução artificial de uma corrente de vento forte e persistente por trás dos reposteiros—emprestando ao todo uma animação hedionda e inquietante…” (Ligeia, 1838)

770085-original

“Ele era prisioneiro de certas impressões supersticiosas com respeito à morada que ocupava,e a qual, por muitos anos, jamais se aventurara a deixar—com respeito a uma influência cuja força espúria era transmitida em termos obscuros demais para serem aqui reiterados—uma influência que algumas peculiaridades na mera forma e substância de sua mansão familiar haviam, por força do longo sofrimento, disse-me, obtido sobre seu espírito—um efeito que a constituição das paredes e torres cinzentas, e do escuro lago dentro do qual tudo isso se mirava, havia, enfim, produzido sobre o ânimo de sua existência.

   Ele admitia, entretanto, embora com hesitação, que grande parte da peculiar melancolia que desse modo o afligia podia ser rastreada até uma origem mais natural e muito mais palpável—à enfermidade grave e prolongada—na verdade, ao óbito evidentemente próximo—de uma irmã ternamente adorada—sua única companheira por longos anos—sua última e única relação de sangue no mundo. Seu falecimento, disse com um amargor que jamais esquecerei, faria dele (ele, o desesperado e frágil), o último da antiga estirpe dos Usher…” (A Queda da Casa de Usher, 1839)

tumblr_lwkilvDvqU1r7n5doo1_1280

“Já falei mais de uma vez dos repulsivos ares protetores que assumia em relação a mim, e da interferência freqüente e obsequiosa com minha vontade. Essa interferência muitas vezes ganhava o caráter indesejável de um conselho; conselho não abertamente dado, mas sugerido ou insinuado. Eu recebia isso com uma aversão que ficava mais forte a cada ano que passava. E contudo, nesse dia distante, que me seja permitido lhe fazer apura justiça de admitir que não consigo me recordar de uma ocasião sequer em que as sugestões de meu rival tenderam pelo lado desses erros ou tolices tão comuns a sua idade imatura e aparente inexperiência; que seu senso moral, no mínimo, quando não seus talentos gerais e sabedoria mundana, eram de longe muito mais penetrantes que os meus; e que eu poderia, hoje, ter me constituído num homem melhor e, desse modo, mais feliz, houvesse com menos freqüência rejeitado os conselhos manifestados naqueles sussurros significativos que na época com tanta veemência odiei e com tanta amargura desprezei.

    Do modo como foi, acabei por me mostrar impaciente ao extremo sob sua tutela desagradável e a me ressentir cada vez mais abertamente do que considerava sua arrogância intolerável…” (William Wilson, 1839)

edgar-allan-poela-et-the-following

“Parece-me que o mistério é considerado insolúvel pelo mesmo motivo que deveria fazer com que fosse tido como de fácil solução—quero dizer, pelo caráter outré de suas circunstâncias. A polícia está perplexa com a aparente ausência de motivo—não com o crime em si—mas com a atrocidade do crime. Estão desconcertados, também, pela aparente impossibilidade de conciliar as vozes ouvidas em altercação com o fato de que ninguém foi encontrado no andar de cima além da assassinada Mademoiselle L´Espanaye, e de que não havia meios de sair sem passar pelo grupo que subia. A desordem selvagem do quarto; o cadáver enfiado, de cabeça para baixo, pela chaminé; a pavorosa mutilação do corpo da velha senhora; essas considerações, juntamente com as que acabo de mencionar, e outras a que não é necessário fazer menção, bastaram para paralisar as autoridades, deixando completamente às escuras seu tão propalado acúmen. A polícia caiu no erro grosseiro mas comum de confundir o insólito com o abstruso. Mas é nesses desvios do pano do ordinário que a razão encontra seu caminho, se é que o encontra, na busca da verdade. Em investigações tais como as que empreendemos agora, não deve tanto ser perguntado o que ocorreu como o que ocorreu que nunca ocorreu antes. Na verdade, a facilidade com que chegarei, ou cheguei, à solução desse mistério está em proporção direta cm sua aparente insolubilidade aos olhos da polícia…” (fala o gabola detetive Dupin de Os assassinatos da Rue Morgue, 1841)

harry-clarke-poe-tales-of-mystery-and-imagination-22-900 (1)

“Pode parecer estranho, mas agora, quando estávamos nas próprias garras da voragem, eu sentia maior frieza do que no momento em que apenas nos aproximávamos. Tendo me determinado a não alimentar mais qualquer esperança, livrei-me em grande parte daquele terror que me privava do brio no início. Presumo que era o desespero que me abalava os nervos.

    Pode parecer bravata—mas o que lhe digo é a verdade—comecei a refletir sobre a coisa magnífica que era morrer daquela maneira, e que tolice da minha parte pensar numa consideração tão mesquinha como minha própria vida individual em vista de uma manifestação tão maravilhosa do poder de Deus (…) Pouco depois fui possuído da curiosidade mais intensa sobre o próprio torvelinho. Senti um positivo desejo de explorar suas profundezas, mesmo ao preço do sacrifício que estava prestes a fazer…” (Uma descida no Maelström, 1841)

clarke

“A atividade no corpo animal cessara por completo. Músculo algum estremecia; nervo algum vibrava; artéria alguma palpitava. Mas ele parecia ter brotado no cérebro, isso a respeito do qual palavra alguma podia transmitir à inteligência meramente humana uma concepção até mesmo vaga. Permita-me denominá-lo uma pulsação pendular mental. Era a encarnação moral da ideia abstrata que o homem faz do Tempo. Pela absoluta uniformização desse movimento—ou de tais como ele—os ciclos dos próprios orbes do firmamento foram ajustados. Com seu auxílio medi as irregularidades do relógio sobre a lareira, e dos relógios de bolso dos atendentes. O tique-taque deles chegou-me penosamente aos ouvidos. Os mais ligeiros desvios da autêntica proporção—e esses desvios predominavam em todos—afetavam-me exatamente como as violações da verdade abstrata costumavam, no mundo, afetar o senso moral. Embora não houvesse ali no aposento dois relógios capazes de  dar os segundos individuais pontualmente juntos, mesmo assim não tive dificuldade em manter com firmeza em minha mente os tons e respectivos erros momentâneos de cada um…” (O Colóquio de Monos e Una, 1841)

3564858474_0c25292947_b

“O sétimo apartamento era densamente amortalhado em reposteiros de veludo negro pendendo por todos os lados do teto e das paredes, caindo em pesados drapejamentos sobre um tapete de mesmo material e matiz. Mas apenas nesse recinto a cor das janelas deixava de corresponder à da decoração. As vidraças eram escarlates—uma profunda cor de sangue. Ora, em nenhum dos sete aposentos havia lamparina ou candelabro em meio à profusão de ornamentos dourados que jaziam espalhados por todo o recinto ou pendurados no teto. Não havia luz de espécie alguma emanando de lamparina ou de vela dentro do conjunto de salões. Mas nos corredores que atravessavam o conjunto ficava, diante de cada janela, um pesado tripé portando um braseiro incandescente que projetava seus raios através do vidro colorido e, desse modo, iluminava intensamente o ambiente. E assim se produzia uma variedade de fenômenos extravagantes e fantásticos. Mas no aposento oeste, ou salão negro, o efeito da luz do fogo que vertia sobre os reposteiros escuros através das vidraças tintas de sangue era macabro ao extremo e produzia uma expressão tão selvagem nos semblantes dos que ali entravam que poucos dentre os convidados eram suficientemente ousados para até mesmo pisar ali dentro.

   Havia nesse aposento, ainda, encostado na parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo oscilava de um lado para o outro com um ruído surdo, pesado, monótono; e quando o ponteiro dos minutos completava seu percurso diante do mostrador, e soava a hora, dos brônzeos pulmões do relógio brotava um som distinto, alto, profundo, extraordinariamente musical, mas vibrando com nota e ênfase tão peculiares que, ao lapso de cada hora, os músicos da orquestra eram obrigados a fazer uma pausa momentânea em sua apresentação, para escutar o som; e desse modo os valsistas forçosamente interrompiam suas evoluções; e um breve desconcerto tomava conta de toda a alegre comitiva; e, enquanto o carrilhão do relógio ainda soava, observava-se que os mais agitados iam ficando pálidos, e os mais idosos e entorpecidos passavam a mão na testa como que em confuso devaneio ou meditação…” (A máscara da morte vermelha, 1842)

Poe at work under Catalina's eye

“Como você observou em suas anotações, a opinião mais geral acerca desse triste episódio é, e sempre foi desde o início, a de que a garota havia sido vítima de uma gangue de meliantes. Ora, a opinião popular, sob certas condições, não deve ser desprezada. Quando surgida por si mesma—quando se manifestando de um modo estritamente espontâneo—devemos olhar para ela como análoga a essa intuição que é a idiossincrasia do homem de gênio individual. Em 99 de cada 100 casos eu me pautaria pelo que ela decidir. Mas é importante não encontrarmos o menor vestígio palpável de sugestão. A opinião deve ser rigorosamente apenas do público; e a distinção é muitas vezes sumamente difícil de perceber e de manter. No presente caso, parece-me que essa opinião pública em relação a uma gangue foi introduzida pelo evento colateral que está detalhado no terceiro dos meus excertos. Toda Paris ficou agitada com a descoberta do cadáver de Marie, uma moça jovem, muito bonita e conhecida. Esse corpo foi encontrado exibindo marcas de violência e boiando no rio. Mas é depois divulgado que, nesse mesmo período, ou por volta desse mesmo período, em que se supõe que a garota foi assassinada, uma barbaridade de natureza similar à que se submeteu a falecida, embora em menor extensão, foi perpetrada por uma gangue de jovens rufiões contra a pessoa de uma segunda jovem. Não é extraordinário que uma atrocidade conhecida influencie o juízo popular em relação à outra, desconhecida? Esse juízo aguardava uma orientação, e a conhecida barbaridade pareceu tão oportunamente concedê-la! (…) A ligação entre os dois eventos teve tanto de palpável que o verdadeiro motivo de espanto teria sido a população deixar de percebê-la e dela se apoderar…” (O Mistério de Marie Roget, 1842)

poemask1

“Finalmente, senti que estava livre. A sobrecilha pendeu em tiras de meu corpo. Mas os golpes do pêndulo já se precipitavam sobre meu peito. O instrumento atravessava a sarja do robe. Cortara até a camisa de linho que eu vestia por baixo. Duas vezes mais oscilou, e uma aguda sensação de dor espicaçou cada nervo. Mas o momento de fuga chegara (…) Naquele momento, ao menos, eu estava livre.

   Livre!—e nas garras da Inquisição! Nem bem deixei a madeira em meu leito de horror e passei ao piso de pedra da prisão, o movimento da máquina infernal cessou, e fiquei assistindo, conforme se recolhia, por alguma força invisível, para dentro do teto. Foi uma lição que aprendi em desespero. Cada movimento meu era sem dúvida observado. Livre!—eu apenas escapara da morte em uma forma de agonia para ser confiado a uma outra qualquer pior que a morte. Com esse pensamento passeei os olhos nervosamente em torno pelas barreiras de ferro que me cercavam. Alguma coisa incomum—alguma mudança que, de início, não pude perceber distintamente—, isso era óbvio, havia ocorrido no ambiente…” (O poço e o pêndulo, 1842)

james-purefoy-the-following-pilot-fox

“Mas mesmo então me refreei e permaneci imóvel. Mal respirava. Segurava a lanterna sem um movimento. Tentava manter o mais fixamente possível a réstia sobre o olho. Nesse ínterim o infernal tamborilar do coração aumentava. Foi ficando mais rápido, mais rápido, e mais alto, mais alto a cada instante. O terror do velho devia ser extremo! Ficava mais alto, e digo mais, ficava mais alto a cada momento!—prestais bastante atenção em minhas palavras? Já vos expliquei como sou nervoso; sou, de fato. E agora, na calada da noite, em meio ao pavoroso silêncio daquela antiga casa, um ruído assim tão estranho enervou-me ao ponto de um terror incontrolável. E contudo, por mais alguns minutos, refreei-me e permaneci imóvel. Mas o batimento ficava mais alto, mais alto! Achei que  o coração fosse explodir. E então uma nova angústia tomou conta de mim—o som alcançaria os ouvidos de algum vizinho!…” (O coração denunciador, 1843—pode ser apenas uma impressão confusa da minha parte, mas me parece que, em termos estilísticos, a primeira pessoa é exercitada aqui de maneira superior aos textos da década anterior)

7118596773_ea606f4346_z

“Nesse estágio de minhas reflexões, empenhei-me em me lembrar, e de fato lembrei-me, com perfeita nitidez, de cada incidente ocorrido no período em questão. Fazia frio (ah, que acidente raro e feliz!), e um fogo ardia na lareira. Eu estava acalorado pelo exercício e sentei-me perto da mesa. Você, entretanto, puxara uma cadeira para junto da lareira. Assim que pus o pergaminho em sua mão, e você estava no ato de inspecioná-lo, Wolf, o terra-nova, entrou e saltou sobre seus ombros. Com sua mão esquerda, o acariciou e o manteve à distância, enquanto sua mão direita, segurando o pergaminho, pôde pender frouxamente entre seus joelhos, e em estreita proximidade com o fogo. A certa altura imaginei que a chama o alcançara, e estava prestes a adverti-lo, mas, antes que pudesse falar, você o recolheu, e passou a examiná-lo. Quando considerei todas estas particularidades, não duvidei sequer por um momento que o calor fora o agente que trouxera à luz, sobre o pergaminho, o crânio que ali vi desenhado. Está bem ciente de que tais preparados químicos existem, e existiram desde sempre, por meio dos quais é possível escrever, seja em papel, seja em velino, de modo que os sinais se tornem visíveis apenas quando submetidas à ação do fogo (…)

    Examinei então a caveira cuidadosamente. Seus contornos exteriores—as bordas do desenho mais próximas das bordas do velino—eram muito mais nítidas do que as outras. Ficou claro que a ação térmica fora imperfeita ou desigual. Imediatamente acendi uma chama e submeti cada área do pergaminho a um calor ardente…” (O escaravelho de ouro, 1843, mau momento da tradução de Cássio de Arantes Leite, e texto-arauto tanto de Verne quanto de Stevenson)

the-gold-bugwb

“De minha parte, não demorou para que a repugnância começasse a crescer dentro de mim. Isso era precisamente o oposto do que eu havia esperado; porém—não sei dizer como nem por que—sua evidente afeição por mim antes me repelia e irritava. Gradativamente, esses sentimentos de repulsa e irritação evoluíram para a amargura do ódio. Eu evitava a criatura; uma vaga sensação de vergonha e a lembrança de meu antigo ato de crueldade impediam-me de cometer algum abuso físico. Abstive-me, por algumas semanas, de aplicar-lhe maus tratos ou usar de violência de qualquer espécie; mas, gradualmente—muito gradualmente—comecei a lhe devotar o mais inexprimível asco, e a fugir em silêncio de sua odiosa presença como se fosse o hálito de uma pestilência.

   O que contribuiu, sem dúvida, para o meu ódio do animal, foi a descoberta, na manhã subseqüente à noite em que o levei para casa, de que como Pluto, ele também fora privado de um olho (…) Com minha aversão, entretanto, o apreço desse gato por mim parecia aumentar. Ele seguia meus passos com uma pertinácia que seria difícil fazer o leitor compreender…” (O gato preto, 1843)

clarke_blackcat

“As fronteiras que dividem a Vida e a Morte são, na melhor das hipóteses, obscuras e vagas. Quem poderá dizer onde uma termina e onde a outra começa? Sabemos da existência de enfermidades em que ocorre a total cessação de todas as funções aparentes de vitalidade, e nas quais contudo essas cessações são meramente suspensões, propriamente falando. São apenas pausas temporárias no mecanismo incompreensível. Um certo período transcorre, e algum misterioso princípio mais uma vez põe em movimento os mágicos escapos e as enfeitiçadas engrenagens. O fio de prata ainda não se soltou para sempre, tampouco o cálice de ouro se quebrou irremediavelmente. Mas onde, nesse meio-tempo, ficou a alma?” (O enterro prematuro, 1844, que por incrível que pareça é um dos textos mais “leves” da coletânea)

20071031_poe_telltale

“Falei tanto de som como de voz. Quero dizer que o som foi pronunciado com extrema nitidez—com extraordinária, penetrante nitidez—, sílaba a sílaba. O Sr. Valdemar falou—obviamente em resposta à pergunta que eu lhe apresentara alguns minutos antes. Eu havia perguntado, é mister lembrar, se continuava dormindo. Ele agora dizia:

__ Sim;–não; eu estava dormindo—e agora—agora—estou morto.

    Nenhum dos presentes sequer teve pretensão de negar, ou de tentar reprimir, o calafrio de horror inexprimível que essas poucas palavras, assim pronunciadas, tão previsivelmente provocaram. O estudante desmaiou. Os enfermeiros deixaram o quarto imediatamente e não houve como convencê-los a voltar. Quanto a minhas próprias impressões, abstenho-me de tentar torná-las inteligíveis ao leitor. Durante quase uma hora, ocupamo-nos, em silêncio—sem que ninguém pronunciasse uma única palavra—, dos procedimentos para reanimar o estudante. Quando ele voltou a si, tornamos a nos concentrar em investigar a condição do Sr. Valdemar. (Os fatos do caso do Sr. Valdemar, 1845, em cuja tradução mexi ligeiramente)

518760-original

“__ (…) Um trago deste Médoc nos protegerá da umidade.

   Nisso destampei o gargalo de uma garrafa que puxei de uma longa fileira de outras iguais a ela que jaziam no solo do sepulcro.

__ Beba, falei, oferecendo-lhe o vinho.

    Ele a levou aos lábios com um lúbrico olhar de soslaio. Parou e balançou a cabeça para mim com familiaridade, os guizos tilintando.

__ Bebo, disse, aos sepultados que repousam em torno de nós.

__ E eu à sua longa vida.

   Voltou a segurar meu braço, e prosseguimos.

__ Estas suas caves, disse, são extensas.

__ Os Montresor, repliquei, eram uma família grande e numerosa.

__ Esqueci quais são suas armas.

__ Um enorme pé dourado, em um fundo blau; o pé esmaga uma serpente rompante cujas presas estão cravadas no calcanhar.

__ E a divisa?

__ Nemo me impune lacessit [Ninguém me fere impunente]

__Magnífico!, disse ele…” (O barril de Amontillado, 1846)

Harry-Clarke--Poe--Tales-of-Mystery-and-Imagination--12_900


[1] Os primeiros episódios de The Following foram deprimentemente ruins e previsíveis (dava para antecipar cada cena). Nem mesmo James Purefoy, que esteve tão marcante (ao mesmo tempo bruto e sensual) em Roma, está bem, no seu papel estereotipado de psicopata genial, culto e charmoso. E as alusões a Poe não poderiam ser mais óbvias, quase todas restritas ao poema O Corvo. Voo curtíssimo, portanto, pelo menos até agora. Se mudar o panorama, caso eu não desista de ver, reformularei esta nota.

[2] As exceções se tornam, talvez por isso, bem expressivas, caso de A máscara da morte vermelha.

[3] Em O poço e o pêndulo,um trecho fica absurdo: “Havia ao todo, desse modo, cem passos; e, considerando cada dois passos como um metro, inferi que o calabouço tinha um perímetro de cem metros” !!!!????

A palavra “incontinenti” é trocada várias vezes por “incontinente”,por exemplo:

“deixei, incontinente, as dependências do antigo ateneu para nunca mais voltar”!!!??

Também há confusão entre “brocha” e “broxa”:

“aplicava pinceladas distraídas com uma brocha alcatroada às beiradas de um cutelo cuidadosamente dobrado sobre um barril perto de mim”!!!???

Um exemplar custa R$59,90. Podiam ser mais profissionais, não?

Em compensação, há momentos muito bacanas na tradução, como o seguinte trecho de Uma descina no Maelström: “Houve uma circunstância inesperada que contribuiu imensamente para reforçar essas observações, e deixar-me ansioso em delas tirar partido, e essa circunstância foi que, a cada revolução, passávamos por algo como um barril, ou então a verga ou o mastro quebrado de um navio, enquanto inúmeras dessas coisas, que havia estado em nosso nível quando abi os olhos pela primeira vez para os portentos do turbilhão, encontravam-se agora muito acima de nós, e pareciam ter se movido muito pouco de sua posição original.”  Aí recupera-se o sentido original de “revolução” e o trecho ganha em expressividade. Há também uma “expressão arabesca” no rosto de alguém, e outros achados bem felizes.

[4] Talvez seja a obra-prima suprema de Poe.

the following-cartaz

22/12/2012

Meu duplo: no meio do caminho havia um superego

Este é mais um texto de 2008, do meu curso AS MARGENS DERRADEIRAS sobre textos-limite do século XIX, na verdade mais uma leitura comentada do que uma análise.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/o-americano-nada-tranquilo-os-200-anos-de-poe/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/dr-fortunato-e-o-sr-valdemar-o-medico-e-a-cobaia/

https://armonte.wordpress.com/2013/03/06/para-seguidores-e-neofitos-de-poe-os-arabescos-de-contos-de-imaginacao-e-misterio/

“Duas almas, oh! Habitam em meu peito

                                       E cada qual está ávida por abandonar sua irmã

(Goethe, Fausto, 1808)

Em 1839 (exatos cem anos antes da morte de Freud), Edgar Allan Poe publicou William Wilson, seu sensacional conto que se tornou o paradigma das histórias de doppelgänger, isto é, do Duplo, daquele Outro que é um Sósia [1].

O clima da história já é pressuposto pela sua epígrafe extraída do obscuro Pharronida, de um tal Chamberlain, que Poe reputa tão conhecido quanto Goethe ou Nietzsche a ponto de não lhe acrescentar qualquer outro nome ou identificação: “Que dirá ela? Que dirá a terrível consciência, aquele espectro no meu caminho?”

William Wilson é o garoto rico e mimado, educado numa escola de elite, e que, apesar da sua ascendência sobre os camaradas e sua posição social, se sente incomodado, espicaçado e humilhado pela presença de um homônimo que ainda por cima se parece com ele (além de ter nascido no mesmo dia: 19 de janeiro de 1813[2]): O meu caráter ardente, entusiasta e dominador, deu-me uma situação proeminente entre os meus colegas e, gradualmente, uma ascendência poderosa sobre todos os que eram mais novos ou da mesma idade que eu; sobre todos, exceto sobre um…o meu homônimo; rivalizava comigo nas lições, nos jogos e nas lutas do recreio; não acreditava nas minhas afirmações, assim como não se submetia à minha vontade; recusava enfim suportar a minha ditadura e manifestava-o sempre que lhe era possível…A rebeldia de Wilson constituía para mim fonte de desgostos, tanto mais que, apesar do desdém com que eu afetava tratá-lo e às suas pretensões, bem no fundo temia-o… Parecia que o único fim da sua rivalidade era o caprichoso desejo de me contradizer, de me atemorizar, de me atormentar, embora muitas vezes eu não pudesse deixar de notar, com um sentimento misto de espanto, de raiva e de humilhação, que o meu rival associava às suas contradições impertinentes uns assomos de afeto muito intempestivos e muito desagradáveis. E eu nem sequer conseguia explicar a mim mesmo a sua conduta, senão julgando-a como o resultado de uma insolência presunçosa, que se permitia ares de superioridade e de proteção” (note-se que ele diagnostica no rival defeitos que podem ser imputados a ele mesmo). A única arma contra o adversário acaba sendo a dissimulação da hostilidade através da ironia e da troça. De nada adianta. Além disso, nada me irritava mais —embora eu forcejasse por não o demonstrar— do que as alusões às nossas semelhanças físicas ou morais… tendo notado quanto essas semelhanças me desgostavam, William tornava-as mais notadas, arremedando-me com prodigiosa habilidade. Copiava-me os gestos e as palavras; imitava a minha maneira de vestir, o meu andar, os meus modos e, enfim, nem sequer a minha voz lhe escapara”.  Se essa “caricatura” o agasta, pior ainda a idéia de que o “outro” possa adotar cruciantes ares protetores : Essa intervenção tomava, por vezes, a forma de um conselho, que não era dado abertamente, mas sugerido, insinuado, e que era por mim recebido cada vez mais de má vontade…” A grande ironia é que os tais conselhos irritantes eram cheios de bom senso, superiores mesmo à nossa idade, destituída ordinariamente de reflexão e de experiência o que é seguido por um trecho especialmente revelador: A sua sensatez, o seu talento e o seu conhecimento  da vida e das coisas eram muito superiores aos meus, e eu seria hoje um homem melhor e, por isso mesmo, mais feliz, se tivesse seguido os conselhos que essas sensatas sugestões continham e que, então, só me inspiravam raiva e desprezo.”

Uma noite, o narrador resolve pregar uma peça no seu homônimo. Vai até o recinto onde o outro dorme e de repente a luz do candeeiro revela o seu rosto: Senti-me penetrado por uma sensação de frio; o coração pulsava-me furiosamente no peito, as pernas vacilavam-me; senti uma sensação de horror inexplicável! Minha respiração tornou-se convulsa, quando aproximei mais a luz do candeeiro. Seriam realmente aquelas as feições de William Wilson? Sim, eram! Que havia então de extraordinário no seu rosto para que eu me sentisse assim impressionado… ele não era ´assim´, não! Nunca fora ´assim´, nos momentos em que me contrariava! Seria humanamente possível, ou o que eu agora contemplava era o resultado desse hábito de imitação sarcástica?”

Devido a esse episódio, ele retira-se da escola. E, durante três anos, se abandona ao que chama de turbilhão de loucura, através de sucessivos desregramentos. Numa das orgias que ele oferece aos camaradas, o criado aparece anunciando alguém, que lhe pede para ir encontrá-lo no vestíbulo. Embriagado, o narrador vai de encontro a um “jovem mais ou menos da minha estatura, vestido com um terno de casimira branca, absolutamente igual ao que eu então vestia. Mal me viu, veio até mim, agarrou-me por um braço com um gesto imperativo e impaciente e disse-me ao ouvido: William Wilson.” A embriaguez desaparece, “como se na minha alma tivesse se produzido a descarga de uma pilha elétrica”. Investigando, ele descobre que o adversário deixara o colégio no mesmo dia. Passam-se alguns meses de obsessão, porém aos poucos ele vai deixando de pensar no assunto, “absorvido como andava com a idéia da minha partida próxima para Oxford, na qual “a desmedida ostentação” dos pais lhe permite uma “renda fixa anual que me permitia abandonar-me à vontade à luxúria, já tão cara ao meu coração”“. Componente importante das farras é o jogo e, sem ninguém saber, e malgrado a sua imensa fortuna, Wilson trapaceia no jogo, por pura desfaçatez. Acontece então que ele, utilizando desses escusos expedientes, “depena” um jovem otário recém-chegado, um nobre muito rico chamado Glendinning. Isso acontece numa casa alheia (de um tal Preston). Ao ganhar, Wilson percebe que no rosto do oponente de jogo “a vermelhidão do vinho fora substituída, quase subitamente, por uma terrível palidez. Percebe, então, os olhares recriminatórios de alguns e fica sabendo, pelos murmúrios entreouvidos, que Glendinning está totalmente arruinado. De repente, em meio à situação embaraçosa, As pesadas portas da sala onde estávamos abriram-se repentinamente de par em par, com tal ímpeto que todas as velas se apagaram como que por encanto, o que permite a entrada teatral de um “indivíduo aproximadamente da minha estatura, embuçado numa capa”. Tomando a palavra, o tal indivíduo, em meio à escuridão, revela aos presentes o caráter de William Wilson, denunciando as cartas marcadas que ele esconde no forro do casaco. Wilson é revistado, desmascarado, expulso da casa por Preston e advertido de que o melhor a fazer é abandonar imediatamente Oxford (lembrem-se: é um tempo em que a honra era levada a sério, tanto que o duelo fazia parte do quotidiano cavalheiresco)[3].

Sendo perseguido de tal forma pelo “amaldiçoado destino”, Wilson começa uma interminável excursão pelas principais cidades da Europa (Paris, Roma, Viena, Berlim, Moscou) e o “misterioso poder” sempre lhe atabalhoa os passos e frustra-lhe os (maus) intentos. O “duplo” aparece sempre, vestido identicamente, porém já não mostra o rosto. E o círculo vicioso vai se mantendo até o carnaval em Roma em 18.. (os autores oitocentistas adoram esse expediente): Até então, eu sempre me submetera, de uma maneira covarde, à sua imperiosa vontade. Wilson planeja seduzir a jovem esposa do velho duque que oferece o baile carnavalesco (carnaval=máscaras=personas=identidades desdobráveis). Antes, todavia, de poder abordá-la, ele próprio é abordado com um leve toque no ombro e um inesquecível murmúrio ao ouvido, murmúrio que eu tantas vezes já amaldiçoara!” Enfurecido, ele provoca o seu duplo, abre caminho pelo salão de baile até uma pequena antecâmara, sabendo que o outro o seguirá.  E assim os dois começam uma luta de espadas, após uma pequena hesitação por parte do “outro” William Wilson, o qual com um ligeiro suspiro, pôs-se em guarda, silenciosamente demonstrando uma calma extraordinária”.

O narrador vence o combate, trespassando o peito do adversário sucessivas vezes, após fazê-lo recuar até uma parede. Enquanto pessoas tentam forçar a fechadura, ele se debruça junto ao inimigo agonizante: Ah! Só então senti como a linguagem humana é impotente para exprimir o espanto e o horror que experimentei perante o espetáculo que se me deparou! (…) No lugar onde momentos antes eu nada vira, havia agora um grande espelho… Aproximei-me dele cheio de terror e vi caminhar para mim a minha própria imagem, com o rosto extremamente pálido e todo salpicado de sangue, avançando a passos lentos e vacilantes (…) Tratava-se do meu inimigo, de William Wilson, que, agonizante, se erguia perante mim. A máscara e o manto jaziam no chão. Não havia uma só peça do seu traje nem um só traço do seu rosto…que não fossem, na mais absoluta identidade, meus!”

         Um dos hábitos do “duplo” que mais irritavam o narrador quando ambos eram colegas de colégio era que ele falava muito baixo, enquanto que o seu próprio timbre era muito alto. Dessa vez, porém, o “outro” Wilson “já não murmurava ao falar!”; ele “falava de tal maneira alto que tive a impressão nítida de ouvir a minha própria voz dizendo: —Você venceu, e eu pereço. Mas daqui para o futuro você estará morto. Morreu para o mundo, para o céu e para a esperança! Existia em mim. Olhe bem para a minha morte, e nessa imagem…você verá o seu próprio suicídio!”

É óbvio que uma pessoa, com a malícia pós-moderna, tem o direito de dizer: mas estava na cara, desde o começo, que o Outro era ele mesmo, e esse final não podia ser mais rebarbativo!  Bom, a pessoa tem direito de pensar assim, mas eu retorquiria que a primeira vez em que li (lá pelos meus quatorze anos) essa história eu fiquei tão impressionado que nem me liguei no que “estava na cara”.  Eu diria também que o tipo de originalidade que Poe trouxe à ficção era de tal feitio que uma história dessas era mais que desconcertante em 1839, e que mesmo com a ressignificação proposta pelo final (e que nós, de hoje em dia, já tão versados em psicologia e psicanálise, já podemos prever desde o princípio) a história do duplo tinha um componente tenebroso e difícil de digerir a partir da solução. E finalmente eu diria que, enquanto Freud matutou quarenta anos para propor a tríade que comanda o mecanismo mental do ser humano, bastou a Poe  vinte páginas para nos mostrar a pressão exercida no indivíduo pelo conflito entre “id” e “superego”.

Recapitulemos. O narrador nos adverte que os pais o deixaram à vontade na vida desde a infância: então não há coerção de espécie alguma a lhe entravar as vontades. Wilson, tal como se nos apresenta, é o sonho do narcisista: faz tudo à sua vontade, é o ditador dos colegas na escola, um “reizinho” na vida[4] . Ou seja, é regido pelo Princípio do Prazer que, como Freud advertiu, é regulado também pela pulsão da morte, e daí os aspectos agressivos, e a sua tendência à “abandonar-se à luxúria, tão cara ao seu coração” (não se veja a depravação aqui num sentido moralista, mas no sentido amoralista, de “ausência de freios”). Temos aí um ego incompleto, cujo estágio de formação permanece atrelado ao “id”, incapaz de compreender o Princípio da Realidade.

Quando a história começa mesmo? Geralmente os fatos da vida infantil só nos fornecem impressões que são mal definidas. Tudo são sombras, vagas e irregulares lembranças, difusa confusão de prazeres pueris e mágoas sem fundamento. Não sucede assim comigo. Devo ter sentido na minha infância, com o vigor do homem feito, tudo aquilo que ainda hoje tenho gravado na minha memória, em traços indeléveis, tão profundos e tão duradouros como os da cunhagem das moedas cartaginesas.” Ou seja,em William Wilson não se deu o processo de repressão que permite o processo civilizatório, o qual impõe traços de caráter ao ego e o habilita para a vida social.

Mas ele não é imune totalmente ao processo. A dissociação da sua personalidade no seu doppelgänger é a solução desesperada do seu ego para não se dissolver totalmente no narcisismo (id)ílico. Daí a constante contrariedade a que é submetido pelas intervenções do colega, e depois da sua primeira fuga, as teatrais e abaladoras aparições dramáticas em momentos nos quais “está indo longe demais”. Ao assassinar seu superego, que é o seu tutor, o seu censor, o seu freio, ele assina seu próprio suicídio: não terá vida, pois sem o “outro” Wilson ele não reconhecerá o Princípio da Realidade que permita sua sobrevivência. Como já citei antes, a sensatez do “duplo”, seu talento, seu conhecimento da vida (ou seja, ele é muito mais maduro do que o seu idêntico porque o superego representa nosso “ego ideal” e ele sempre se projeta numa transcendente maturidade, por isso resistimos tanto a ele e às suas sugestões). O narrador reconhece, porque no fundo se conhece, que seria um homem melhor, e mais feliz, se tivesse seguido os conselhos, ou seja, chegado a um acordo com ele e permitido a fusão dos dois pólos numa mesma identidade. Eu afirmei que ele no fundo se conhece devido a um trecho para lá de esclarecedor, ainda na fase do colégio, quando ele discorre sobre o quanto o colega o incomoda com suas intervenções em sua vida: “Acudiam ao meu cérebro obscuras recordações da minha primeira infância, estranhas, quase apagadas recordações duma época que a memória já não podia alcançar. Dir-se-ia que eu já tinha visto o ente que me falava, numa época muito afastada, muito remota. Contudo essa ilusão apagou-se tão rapidamente como aparecera.” . Permanecendo atrelado ao império do “id”, ao reencontrar seu superego, ele lhe (a)pareceu como a Consciência da epígrafe do conto: um “terrível espectro”.


[1] Dois dos autores do nosso curso trabalharam com textos “doppelgänger”: Dostoievski, numa de suas primeiras obras, traduzida aqui como O Duplo e também como O Sósia; e Conrad, que em 1910, lançou O parceiro secreto (Imago e L&PM) ou O cúmplice secreto (Iluminuras).

[2] 19 de janeiro é a data do nascimento de Poe, só que ele nasceu em 1809. Nunca é demais lembrar que a fidalguia e vida à larga, em termos de grana, de William Wilson, é uma fantasia  do autor, quase sempre à beira da indigência. Aliás,é interessante notar que embora ele (Wilson, como narrador da história) assuma para o leitor que se vale de um pseudônimo, não deixa de revelar seu desgosto com o patronímico: “o meu nome, apesar da sua nobre origem, era um nome comum, um desses nomes que, desde tempos imemoriais, são também propriedade do povo”;  e mais claramente: “O meu nome de família, falho de graça e de elegância, e mesmo meu nome próprio, tão trivial e tão plebeu, eram e sempre foram para mim motivo de grande desgosto”  (utilizo aqui a tradução de José Paulo Paes, nos “Melhores Contos” do autor, editados pela Cultrix; também tenho uma tradução de Berenice Xavier em Histórias Extraordinárias, pela Abril Cultural; e uma tradução de Oscar Mendes para a Ficção Completa, Poesia & Ensaios, pela Aguilar).

[3] Há um detalhe a mais na cena: o denunciante vai embora, contudo deixa sua capa e no burburinho todo, mais do que a humilhação, Wilson se concentra no espantoso fato de que ele é idêntica à sua própria capa, que era forrada de boas e variadas peles, e —seria desnecessário enfatizá-lo— de elevado preço. O talhe, inventado por mim, porque nessa altura eu me preocupava muito com essas futilidades do luxo, era de fantasia. Creio que levava a minha fúria pelas modas até o exagero.

[4] “Fracos de espírito e sofrendo, além disso, do mesmo mal, meus pais pouco ou nada fizeram no sentido de modificar os maus instintos que eu tinha. No entanto, fizeram algumas tentativas; mas sem energia, sem direção, falharam inteiramente, redundando num triunfo completo para mim. Desde então, passei a mandar em minha casa, ditando ordens numa idade em que poucas crianças pensam em deixar o regaço materno, entregue ao meu livre-arbítrio, senhor absoluto de todas as minhas ações.”

Dr. Fortunato e o Sr. Valdemar: o médico e a cobaia

PREÂMBULO BREVE- O texto abaixo foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: “O médico e o monstro”, “Bartleby”, “Memórias do Subsolo”, “A morte de Ivan Ilitch”, “O alienista”, “O mandarim”, “O coração das trevas” & “A volta do parafuso”; na órbita de cada um deles, analisei outros: “William Wilson”, “O homem invisível”, “O duplo”, “O capote”, “A tumba dos ancestrais”, “O horla”, “O homem da areia”, “A vida privada”, etc.

MOTE

“Quando o homem mata em si o Minotauro, o que nele resta é a razão. Um ser esvaziado de sentido, cadáver do mito.”

(Autran Dourado, Novas proposições sobre Labirinto e Mito, 1976)

PRIMEIRA VOLTA

Examinarei, aqui, dois grandes textos curtos: um, de Machado de Assis, muito próximo da época de Jekyll e Hyde, perto do fim do século, A causa secreta; o outro, mais para meados do século Os fatos do caso do Sr. Valdemar, de Poe.

A causa secreta é mais um dos casos estranhos da genialidade de Machado, pois foi escrito antes de O médico e o monstro: sua publicação original foi na “Gazeta de Notícias”, em agosto de 1885. Onze anos mais tarde ele foi incluído na coletânea Várias histórias. É um dos raros textos em que Machado é “cru”, não-dissimulado, na narração de perversidades e violências psíquicas.

O relato (em 3ª. pessoa) começa, em 1862, com uma cena doméstica, quase pose para uma fotografia ou um retrato: “Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o teto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que estivera excelente, do Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço”.  Para a “pose” do retrato ou da moldura narrativa, reuniu-se um trio típico de Machado e da ficção oitocentista: marido, esposa e amigo.

Por trás da “pose” houve um assunto grave, “feio”, tão aflitivo que deixou os dedos de Maria Luísa trêmulos, e daí que há cinco minutos ninguém falasse nada. O narrador anuncia que remontará à origem da situação.

Garcia é o médico da história. Quando se encontraram pela primeira vez, ele ainda era estudante e o capitalista Fortunato causou-lhe forte impressão. Poucos dias depois, eles se reencontram no afastado teatro de S. Januário: “a peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e remorsos; mas Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos lances dolorosos, a atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um personagem a outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça reminiscências pessoais do vizinho. No fim do drama, veio uma farsa; mas Fortunato não esperou por ele e saiu; Garcia saiu atrás dele”.  Através da descrição (como sempre, irônica; Machado adora resumir enredos melodramáticos ou folhetinescos) da peça, Fortunato se revela um pouco para nós: um interesse pelo espetáculo violento, de fortes emoções. Seguindo o conhecido, Garcia viu a seguinte cena: “ia devagar, cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que dormia; o cão ficava ganindo e ele ia andando”. Um Hyde à solta pelo Rio?

Semanas depois, um incidente: alguns homens trazem um sujeito todo ensangüentado (foi atacado por um grupo de capoeiristas e um deles meteu-lhe o punhal); como García diz que é preciso chamar um verdadeiro médico. Alguém replica que isso já foi feito. Esse alguém é Fortunato. Ambos permanecem para auxiliar o médico:  “A ferida foi reconhecida grave. Durante o curativo, ajudado pelo estudante, Fortunato serviu de criado, segurando a bacia, a vela, os panos, sem perturbar nada, olhando friamente para o ferido, que gemia muito… Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqüilamente, estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no ferido. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura, seca e fria… Teria quarenta anos. De quando em quando, voltava-se para o estudante, e perguntava alguma coisa acera do ferido, mas tornava logo a olhar para ele, enquanto o rapaz lhe dava a resposta. A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade; não podia negar que estava assistindo a um ato de rara dedicação, e se era desinteressado  como parecia, não havia mais que aceitar o coração humano como um poço de mistérios [1]. Realmente, o coração humano é um poço de mistérios, mas a água que ali estagna é bem diferente do que pensava Garcia. Aliás, nós, que estamos treinados no olhar de suspeita pós-freudiano podemos desconfiar da perversidade e sadismo ocultos no “ato de rara dedicação” testemunhado pelo perplexo estudante; não esqueçamos como Machado escrevia numa época em que o que nos é “normal” como leitores e espectadores chocava, e muito. Aliás, o leitor que estivesse nessa altura do relato nem imaginaria, creio eu, o desenvolvimento que ele tomaria, pensaria decerto que há um “segredo” tão melodramático e folhetinesco na vida de Fortunato como o enredo da peça que assistiram (e Machado brinca com essa expectativa ingênua ao afirmar que o estudante suspeitou haver nela reminiscências pessoais). Acho que o leitor da época passava batido pelas bengaladas no cachorro ou no olhar frio e desapaixonado para o ferido.

Fortunato continua visitando o ferido por dias; quando este melhora, desaparece, “sem dizer ao obsequiado onde morava”.  Ele e Garcia só se reencontram tempos depois, e Fortunato casara nesse entreato; por esse motivo, convida o rapaz, que já se formara, para jantar na casa dele no primeiro domingo. Observando o casal, Garcia constata novamente a “frieza” que emana da pessoa do capitalista, embora obsequioso: “Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoas e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove”. Na segunda visita, Garcia percebe a dissonância entre o casal, a falta de “afinidade moral”. Um dia, ele conta a ela em que circunstâncias conheceu-lhe o marido (“uma bonita ação”) e ela se comove e se desconsola quando o ouve zombar do caso. O resultado dessa conversa é prático: Fortunato convida Garcia a fundarem uma casa de saúde, que seria ótima para alavancar a carreira de um médico iniciante. Dias depois, após certa hesitação, Garcia aceita e foi uma desilusão para Maria Luísa. Criatura nervosa e frágil, padecia só com a idéia de que o marido tivesse de viver em contato com enfermidades humanas, mas não ousou opor-se-lhe e curvou a cabeça. O plano fez-se e cumpriu-se depressa. Verdade é que Fortunato não curou de mais nada, nem então, nem depois. Aberta a casa, foi ele próprio o administrador e chefe de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo, compras e caldos, drogas e contas”.

Medicina e quotidiano, essa é a grande época em que eles se aproximam. Podemos ver o lado “da luz” de Fortunato nessa empresa: o capitalista esperto que percebe onde sopra o vento, o que dará dinheiro, numa sociedade em transformação; por outro lado, há a sua fachada obsequiosa (apesar da frieza), a capacidade de enfrentar o sofrimento sem firulas, de agir quando necessário, o humanitarismo no capitalismo (não se criou nesse tempo o termo benemérito ?): “Garcia pôde então observar que a dedicação ao ferido da rua de D. Manuel não era um caso fortuito, mas assentava na própria natureza desse homem  [e onde Garcia encaixa as bengaladas nos cachorros? Ele e o leitor da época devem já ter esquecido rapidamente]. Via-o servir como nenhum dos fâmulos. Não recuava diante de nada, não conhecia moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da noite. Toda a gente pasmava e aplaudia. Fortunato estudava, acompanhava as operações e nenhum outro curava os cáusticos. Tenho muita fé nos cáusticos, dizia ele.

Enquanto isso, seu jovem amigo se torna familiar na casa, jantando ali todos os dias, e assim observando a “solidão moral” de Maria Luísa. Solidão que lhe duplica o encanto e, claro, ele se apaixona e ela, claro, percebe, e eles não ousam dar o próximo passo: “Fortunato metera-se a estudar anatomia e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar cães e gatos. Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para casa; e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer”.  Eis o cientista que surge como um poder social que substitui o pai de família, o patriarca. E eis as malfadadas cobaias que ainda assombram a nossa época, por mais que se grite e proteste. Não é à toa que a figura meio sinistra meio caricata do “cientista louco” correu mundo. A ciência como campo para o id e a pulsão da morte é um dos avatares do umheimlich.

Maria Luísa pede a Garcia, já que o marido não a ouviria se ela mesma o fizesse, que fale com Fortunato para acabar com esses “estudos” terríveis dentro de casa: “Se os foi fazer em outra parte, ninguém o soube, mas pode ser que sim”. Na cena em que agradece a García, ela tosse intermitentemente. Garcia fica apreensivo.

Dali a dois dias chega o momento em que os vimos no primeiro parágrafo, a pose, agora já convenientemente vista pelo avesso. Garcia chega para jantar e encaminha-se para o gabinete de Fortunato. De lá sai uma consternada e aflita Maria Luísa: “O rato! o rato! exclamou a moça sufocada”. Numa cena doméstica, poderia se pensar que um rato assustou-a, como é comum, mas o terror é de uma espécie que a visão de um bicho nojento jamais poderia causar. Eu geralmente pulo esse trecho, que me aflige também, e só o escrúpulo profissional me obriga a transcrevê-lo: “No momento em que Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até a chama, rápido, para não matá-lo; e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado. Garcia estacou horrorizado. Mate-o logo!, disse-lhe. Já vai. E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O miserável estorcia-se, guinchando, ensangüentado, chamuscado, e não acabava de morrer. Garcia desviou os olhos, depois voltou-os novamente, e estendeu a mão para impedir que o suplício continuasse, mas não chegou a fazê-lo porque o diabo do homem impunha medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia. Faltava cortar a última pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cadáver. Ao descê-lo pela quarta vez até a chama deu ainda mais rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida. Essa é uma das descrições de sadismo mais exatas e por isso mesmo esse relato é um dos textos mais terríveis que já li. Imaginemos o pacato Machado, sempre homem de meios-tons, sentado, escrevendo cada frase dessa cena horripilante. O que o obsedou para fazer com que ele criasse uma história tão diferente no tom da grande maioria das suas narrativas, e tão premonitória? Fortunato, o Kurtz brasileiro, o Jekyll que não precisa se dividir em Hyde: o médico é o monstro, afinal: “Garcia, defronte, conseguiu dominar a repugnância do espetáculo para fixar a cara do homem. Nem raiva, nem ódio, tão somente um vasto prazer, quieto e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a vista de uma estátua divina, alguma coisa parecida com a pura sensação estéticaA chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda um resíduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para cortar-lhe o focinho e pela última vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o cadáver no prato, e arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue”  (ufa, espero que seja a última vez que leio linha por linha essa parte).

Fortunato finge ter se enraivecido com o rato porque ele lhe comera um documento importante, mas Garcia percebe a simulação. E formula o segredo, a causa secreta, do comportamento do sócio: sua “necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar”. E ainda acham que nossos tempos são violentos, há gente que se impressiona com os serial killers cinematográficos?

Fortunato ainda zomba dos nervos de Maria Luísa e aí os vemos na cena que abriu o relato: Hão de lembrar-se que, depois de terem falado de outras coisas, ficaram calados os três… Pouco depois foram jantar… Maria Luísa cismava e tossia, o médico indagava a si mesmo se ela não estaria exposta a algum excesso na companhia de tal homem. Era apenas possível, mas o amor trocou-lhe a possibilidade em certeza, temeu por ela e cuidou de os vigiar. Será que ela realmente não é vítima de um dos “estudos” do marido? Ou é a saúde frágil, típica da época? Nunca saberemos. O certo é que Maria Luísa se revela tísica e Fortunato se revela, surpreendentemente, um marido dedicado, mas conforme a doença avança, sua “índole” subjuga a afeição: “Não a deixou mais, fitou o olho baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a uma as aflições da bela criatura, agora magra e transparente… Egoísmo aspérrimo, faminto de sensações, não lhe perdoou um só minuto de agonia”.  Essa fome de sensações só termina, e o deixa aturdido, quando ela morre.

À noite, Fortunato e Garcia velam o cadáver. Garcia manda que o sócio vá repousar por umas horinhas. Fortunato sai, deita-se no sofá da saleta contígua, e adormece por vinte minutos, não consegue mais conciliar o sono, se levanta e retorna à sala, caminhando na ponta dos pés (seu lado obsequioso) para não incomodar ninguém. E testemunha a seguinte cena: “Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lençol e contemplara por alguns instantes as feições defuntas[esse romantismo mórbido! Mas Henry James amaria essa reação]… como a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-o na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta… não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero. Não tinha ciúme, note-se, a natureza compô-lo de maneira que não lhe deu ciúme nem inveja, mas dera-lhe a vaidade, que na é menos cativa ao ressentimento… Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver, mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longo, deliciosamente longa. Volto a perguntar: esse homem existia?  Machado já era Nélson Rodrigues antes deste pensar em nascer e escrever suas suburbanas tragédias cariocas e míticas. Freud estudou Hoffmann, o que não faria então com esse texto?

SEGUNDA VOLTA

Recuemos agora para 1845 e ao caso do Sr. Valdemar. O narrador começa dizendo que não se espanta em que o referido caso tenha sido muito discutido: “Torna-se necessário agora que eu exponha os fatos, até onde alcança minha compreensão dos mesmos”  [2]. Ele nos fala então do seu interesse, já de alguns anos, pelo fenômeno do magnetismo (portanto, temos o termo “caso” quase indicando a esfera policial, e o termo “magnetismo” nos levando para o domínio da ciência). Em todas as experiências do gênero havia uma lacuna: nunca nenhum moribundo fora submetido ao magnetismo, para verificar “até que ponto ou por quanto tempo a invasão da morte poderia ser impedida pelo processo magnético. O sonho da ciência: deter a morte. O  lado monstruoso da ciência: servir-se de cobaias.

O escolhido é Ernest Valdemar, a quem já submetera ao mesmerismo e ao hipnotismo, mas sem sucesso devido ou ao seu temperamento muito nervoso ou ao seu precário estado de saúde (“em período algum sua vontade ficava inteira ou positivamente submetida à minha influência”).Valdemar é declarado tísico: “tinha ele o hábito de falar sobre a aproximação de seu fim como de uma questão que não devia ser lastimada nem se podia evitar”. E mostra-se interessado na experiência que o narrador lhe propõe. Combinam que 24 horas antes do prazo marcado pelos médicos para o falecimento, ele será chamado pelo moribundo para efetuá-la. Segundo o narrador, isso acontece sete meses antes do início do relato. Quando chega ao quarto do doente, espanta-se com seu declínio físico (“sua magreza era tão extrema que os ossos da face quase lhe rompiam a pele”), embora conservando a lucidez da mente. Quando os médicos que o tratam se retiram, “falei francamente com o Sr. Valdemar sobre o assunto de sua morte vindoura, bem como , mais particularmente, sobre a experiência vindoura. Ele mostrou-se ainda completamente de acordo e mesmo ansioso por sua realização, e insistiu comigo que a começasse imediatamente”. O narrador o faz a partir das oito da noite do dia seguinte. Ele começa os “passes” para influenciar o moribundo, que horas depois, já tem o pulso quase imperceptível e a respiração estertorosa. Até que ele solta um suspiro que parece o último alento antes da morte: “Cinco minutos antes das onze[a experiência, é evidente, está sendo toda anotada e registrada]percebi sinais inequívocos da influência magnética. O movimento vítreo do olho mudara-se naquela expressão de inquietante exame interior que só se vê em casos de sonambulismo. Os médicos concluem que o homem que acabava de morrer se acha num estado de “sono mesmérico”.  Ele deixa sua cobaia “tranqüila” por algum tempo até que se decide a fazer com que ele execute movimentos: “fiz um esforço para influenciar seu braço direito a acompanhar o meu, que passava levemente para lá  e para cá, por cima de sua pessoa. Em tais experiências com esse paciente, nunca antes eu conseguiria êxito completo… para espanto meu, seu braço bem pronta, embora fracamente, acompanhou todos os movimentos que o meu fazia”.

Ele decide-se então a “conversar” com o Sr. Valdemar: todo seu corpo se agitou em um leve calafrio, as pestanas abriram-se, permitindo que se visse a faixa branca do olho; os lábios moveram-se lentamente e dentre eles, num sussurro, mal audível, brotaram as palavras: Deixe-me morrer assim!” Todos os médicos acreditam que é melhor deixá-lo nesse estado sonolento até advir a morte. O narrador resolve conversar de novo com ele e perguntar-lhe o que quer de fato: “Enquanto eu falava, ocorreu sensível mudança no magnetizado. Os olhos se abriram devagar, desaparecendo as pupilas para cima; toda a pele tomou um ar cadavérico… as manchas héticas, circulares, que até então se assinalavam fortemente no centro de cada face, apagaram-se imediatamente… Ao mesmo tempo, o lábio superior retraiu-se acima dos dentes que até então cobria por completo, enquanto o maxilar inferior caía com movimento audível, deixando a boca escancarada e mostrando a língua inchada e enegrecida. Suponho que ninguém do grupo ali presente estava desacostumado aos horrores dos leitos mortuários, mas tão inconcebivelmente horrenda era a aparência do Sr. Valdemar que houve recuo geral de todos da proximidade da cama.”

Como se vê, Poe se esmera nos detalhes fisiológicos. É o horror a olhos vistos.

Mas o Sr. Valdemar não morreu: “irrompeu dos queixos distendidos uma voz, uma voz tal que seria loucura tentar descrever… parecia alcançar nossos ouvidos, pelo menos os meus, de uma vasta distância ou de alguma profunda caverna dentro da terra… dava-me a impressão que as coisas gelatinosas e pegajosas dão ao sentido do tato”. O  Sr. Valdemar está respondendo ao narrador (lembrem-se que este tentara conversar com ele novamente: “… estava adormecido… e agora… agora… estou morto”. Quase todos abandonam correndo o quarto. O narrador testa a respiração da cobaia no espelho: não há. Tentativas de extrair sangue falham. Movimentos não mais: A única e real demonstração da influência magnética achava-se, então, de fato, no movimento da língua quando eu dirigia uma pergunta ao Sr. Valdemar”. Isso é que é ouvir voz do além! “Era evidente que, até ali, a morte (ou o que se chama usualmente morte) fora detida pela ação magnética. Parecia claro a nós todos que despertar o Sr. Valdemar seria simplesmente assegurar sua morte atual, ou, pelo menos, apressar-lhe a decomposição”. Será que em nenhum momento ele se sente mal por essa experiência horrenda? Não há remorso ou sentimento de interdito: isso não é permitido (mas o quê ou quem não permite, esse é um problema também). Ele faz visitas diárias, durante sete meses, à casa do Sr. Valdemar.  Até que se decidem a despertar o pobre coitado (e segundo o narrador foi o resultado desse despertar que causou toda a celeuma referida no início).

Ele utiliza seus passes para libertar o Sr. Valdemar da influência magnética anterior. Lentamente são obtidos alguns resultados: a íris desce (acompanhada de uma profusão ejaculatória de um pus amarelento, sob a pálpebra, com um odor acre e repugnante), os círculos héticos voltam às faces. O narrador pergunta: Sr. Valdemar, pode explicar-me quais são os seus sentimentos ou desejos agora?” O  Sr. Valdemar: “Pelo amor de Deus… depressa… depressa… faça-me dormir… ou então, depressa… acorde-me… depressa… afirmo que estou morto” . Perplexo, o narrador não sabe o que fazer; na dúvida, tenta despertar o paciente: E estou certo de que todos no quarto se achavam preparados para ver o paciente acordar  [já que mesmo com as horríveis aparências, qualquer simulação de vida nos parece vida, e é preferível à morte]. Para o que realmente ocorreu, porém, é completamente impossível que qualquer ser humano pudesse estar preparado. Enquanto eu fazia rapidamente os passes magnéticos… todo seu corpo, de pronto, no espaço de um único minuto, ou mesmo menos, contraiu-se…. desintegrou-se, absolutamente podre, sob minhas mãos. Sobre a cama, diante de toda aquela gente, jazia uma quase líquida massa de nojenta e detestável putrescência”.

Eis aí o resultado de uma ciência que pretende dominar o que está além do seu alcance. Mas a experiência toda é o lado Hyde do médico: não respeitando os limites, não respeitando a pessoa, sujeitando tudo e todos à idéia de um hipotético avanço: como se vê no conto, a morte foi vencida, e o resultado foi um cadáver vivo.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/03/06/para-seguidores-e-neofitos-de-poe-os-arabescos-de-contos-de-imaginacao-e-misterio/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/meu-duplo-no-meio-do-caminho-havia-um-superego/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/o-americano-nada-tranquilo-os-200-anos-de-poe/

 


[1] O narrador diz que Garcia acreditava ter “a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo.  O homem de ciência-detetive, personagem padrão da época.

[2] Uso a tradução constante na Ficção completa, poesias & ensaios da Aguilar, de Oscar Mendes.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.