MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/03/2013

Para seguidores e neófitos de Poe: Os arabescos de CONTOS DE IMAGINAÇÃO E MISTÉRIO

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“E então insinuou-se em minha imaginação, como uma rica nota musical, o pensamento do doce descanso que devia ser o túmulo (…) Desmaiara;mas mesmo assim não direi que perdi de todo a consciência. O que dela restava não tentarei definir, nem sequer descrever; contudo, nem tudo estava perdido. No sono mais profundo—não! No delírio—não! Em um desmaio—não! Na morte—não! até mesmo no túmulo, nem tudo está perdido. Despertando do mais profundo dos sonos, rompemos a teia diáfana de algum sonho. E, contudo, um segundo depois (por mais frágil que pudesse ser a teia),não lembramos de ter sonhado. No regresso à vida após o desfalecimento há dois estágios; primeiro, o da sensação de existência mental ou espiritual; segundo, o da sensação de existência física. Parece provável que, ao atingir esse segundo estágio, se pudéssemos recordar as impressões do primeiro, deveríamos julgar essas impressões eloqüentes em lembranças do abismo que jaz além. E esse abismo é—o quê? Como de algum modo distinguir suas sombras daquelas que há na tumba?”

“… um asco para o qual o mundo não tem um nome…”

           (Edgar Allan Poe, O poço e o pêndulo)

Poe capa

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(a resenha abaixo, sem as notas de rodapé e os trechos selecionados, foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de março de 2013)

Um novo seriado de sucesso, The Following, no qual um professor de literatura psicopata arregimenta seguidores em crimes que evocam o universo de Edgar Allan Poe (1809-1849), recolocou em pauta o fascínio exercido pelo genial escritor norte-americano[1].

Assim, é oportuno que a Tordesilhas tenha lançado Contos de Imaginação e Mistério, em tradução de Cássio de Arantes Leite [o Prefácio, um célebre texto de Baudelaire, foi traduzido por Daniel Abrão]. Aproveitou-se uma edição clássica (Tales of mystery and imagination, publicada em Londres pela editora Harrap, em 1919), reunindo um terço das histórias de Poe, com ilustrações marcantes e altamente estilizadas (com toque à Beardsley) de Harry Clarke (1889-1931) para o universo das 22 narrativas, entre as quais poucas não são presença constante em antologias: Leonizando, 1835; Silêncio—Uma fabula, 1837;  O Colóquio de Monos e Una, nenhuma das três, a meu ver, memorável, a não ser que o leitor se deleite, por exemplo, com o diálogo entre as almas de dois amantes, em que um dos interlocutores narra sua própria decomposição.

Entre as “canônicas”, a mais antiga é de 1833, Manuscrito encontrado numa garrafa, que dá o tom a quase todas elas (geralmente em primeira pessoa[2]):  o protagonista, após um fenômeno atmosférico singular em alto mar ,descobre-se a bordo de um navio fantasma. Como sói acontecer nas minhas leituras de Poe, nunca dera até agora importância ao texto antes, porém a revisão—e ter em mente que foi escrito aos 24 anos—o valoriza tremendamente. A derradeira, em termos cronológicos, é uma obra-prima sobre a execução atroz de uma vingança, O Barril de Amontillado (1846), e já mostra como ele se exercitava novas modulações para seus temas recorrentes: o diálogo é vivo e matreiro, e nada falta-nada sobra no texto; pois, genialidade à parte, Poe não costumava apurar sua prosa (até porque morreu aos 40 anos), e atura-se muita retórica pomposa, muita necessidade pueril de enfatizar desnecessariamente uma atmosfera “tenebrosa”, que as fabulações já tinham de sobra, sem essas apelações. Até a qualidade da tradução (com uma exceção importante, que comentarei adiante, e não levando em conta os injustificáveis erros de revisão[3]) colabora para que esses floreios cansativos fiquem evidentes.

Da safra dos anos 1830, temos O Encontro Marcado, Rei Peste,  A Queda da Casa de Usher, William Wilson,  todas famosas e marcantes:  um pacto de morte entre amantes, em Veneza; uma estranha corte onde marinheiros pândegos elegem um “rei”  na Londres abandonada devido à Peste, um solar que vem abaixo, apocalipticamente, no momento mesmo que o casal de gêmeos—últimos descendentes de uma família senhoria—sucumbe à morte anunciada; e, claro, a fábula pré-freudiana que originou  infinidade de variações, envolvendo um duplo do herói[4] ;  e como esquecer a trinca de nome de mulheres: Berenice, Morella, Ligeia: a primeira é ainda a mais impressionante, com o heroi violando o túmulo da amada para ficar com seus dentes; as outras não ficam muito atrás: uma filha que é a reencarnação da mãe (falecida no parto) e com uma personalidade adulta e moribunda desde tenra infância; e uma segunda esposa que é possuída pela alma da primeira.

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Embora cultuadas por uma infinidade de leitores (que justificam o postulado de The Following), é preciso dizer que nenhuma delas deixa de ter páginas rebarbativas e “poluídas”. Poe  quase estraga A Queda da Casa de Usher por prolongar inutilmente  suas obsessões necrófilas , só chegando ao clímax da destruição da casa nuns poucos parágrafos finais abruptos. Sequer a extraordinária e paradigmática William Wilson escapa de umas  tantas “gordurinhas”.

Nos textos dos anos 1840, já bem amadurecido, ele vai oscilar entre os relatos bem longos (é caso das aventuras que deram origem ao gênero detetivesco: Os Assassinatos da Rue Morgue e O Mistério de Marie Roget, das quais nunca consegui ser muito entusiasta, apesar da sua óbvia importância histórica) e contos mais bem modulados, menos monocórdios e bombásticos. Dessa década, infelizmente a final, temos Uma descida no Maelström, A Máscara da Morte Vermelha,  O poço e o pêndulo, O Coração Denunciador O Escaravelho de Ouro, O Gato Preto, O Enterro Prematuro: uma exemplar “história de pescador”; as alucinantes (e definitivas) visões da Peste como “penetra” num baile de uma torpe elite, que deixara o povo à mercê do caos e do horror, e das torturas impetradas pela Inquisição; temos um coração e um gato que denunciam, de um modo excruciante, em clima de pesadelo, os crimes dos narradores (diga-se de passagem, há um quê de revolucionário em apresentar protagonistas criminosos e sórdidos); temos uma caça ao tesouro através da decifração de um criptograma (aqui, todos os efeitos engenhosos do texto são destruídos no que concerne ao leitor brasileiro, pois o Cássio de Arantes Leite não se deu ao trabalho de encontrar equivalentes em português às partes do código; uma pena, pois a narrativa—uma das “longas” do volume—é brilhante); e, por fim, temos uma sequência de “causos” sobre a possibilidade de se enterrar alguém vivo, que tem o seu quinhão de mistificação, e também o charme de mostrar que Poe já se divertia e brincava com seus temas obsedantes. O que ficou dele, portanto, já é assombroso e único, imagine se vivesse mais tempo, com sua arte se apurando em consonância com sua afiadíssima imaginação.

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TRECHOS SELECIONADOS

“Voltando meus olhos para o alto, contemplei um espetáculo que gelou o sangue em minhas veias. A uma terrível altura, diretamente acima de nós, e bem na beirada do declive escarpado, pairava um navio gigantesco, de talvez quatro mil toneladas. Embora empinado no cume de uma onda com mais de cinquenta vezes sua própria altura, seu tamanho aparente ainda assim excedia o de qualquer navio de linha ou embarcação da Companhia das Índias Orientais existente (…) No momento em que o avistamos, inicialmente, a curvatura de seu beque era a única parte visível, conforme o navio ascendia vagarosamente do abismo escuro e tenebroso atrasa de si. Por um momento de intenso terror ele ficou imóvel sobre o vertiginoso pináculo, como que a contemplar a própria sublimidade, então estremeceu-se, oscilou—e precipitou-se.”  (Manuscrito encontrado numa garrafa, 1833-a ilustração abaixo não é de Harry Clarke)

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“Sonhar, continuou, retomando o tom de sua conversa errática, conforme erguia à rica luz de um incensório um dos magníficos vasos—, sonhar tem sido a ocupação de minha vida. De tal modo que excogitei para mim, como vê, um refúgio de sonhos. No coração de Veneza poderia eu ter erguido um melhor? O que o senhor contempla em torno, admito, é uma miscelânea de ornamentos arquitetônicos. A pureza da Jônia ultrajada por motivos antediluvianos, e as esfinges do Egito esticando-se sobre tapetes de ouro. E contudo, o efeito é incongruente apenas para o tímido. Convenções de lugar, e sobretudo de época, nada são além de abominações que insuflam terror na espécie humana, abstendo-a de contemplar a magnificência…” (O encontro marcado, 1834)

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“A batida de uma porta me perturbou e, ao erguer o rosto, descobri que minha prima partira do aposento. Mas do desordenado aposento da minha cabeça, ai de mim!, não partira, nem era expulso, o espectro branco e fantasmagórico de seus dentes (…) Vejo-os agora ainda mais inequivocamente do que os contemplei então. Os dentes!—os dentes!—estavam aqui, e lá, e por toda parte, e visivelmente, palpavelmente, diante de mim; longos, estreitos e excessivamente brancos, com os lábios pálidos se contraindo em torno, como no próprio momento de seu primeiro e terrível crescimento. Então seguiu-se a plena fúria de minha monomania, e lutei em vão contra sua estranha e irresistível influência. Dentre os múltiplos objetos do mundo externo eu não tinha pensamentos senão para os dentes. Por eles anelava com desejo maníaco (…) e eles, em sua individualidade única, tornaram-se a essência de mina vida espiritual…” (Berenice, 1835)

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“Mas na verdade, chegara agora um tempo em que o mistério da conduta de minha esposa me oprimia como um feitiço. Eu já não suportava o contato de seus dedos lívidos, nem o tom grave de seu falar musical, tampouco o brilho de seus olhos melancólicos. E ela sabia disso tudo, mas não me censurava; parecia consciente de minha fraqueza ou de minha insensatez e, sorrindo, chamava a isso Destino. Parecia, ainda, consciente de uma causa, por mim desconhecida, para o gradual alheamento de minha estima (…) E contudo era mulher, e o anseio a consumia a cada dia. No fim, a mancha escarlate  se fixou firmemente em sua face, e as veias azuis sobre a fronte pálida ficaram proeminentes; e, num instante, minha natureza se fundia em piedade, mas no seguinte, eu cruzava o relance de seus olhos eloqüentes, e então minha alma adoecia e ficava tonta com a tontura de quem baixa o rosto para o interior de algum abismo austero e insondável…” (Morella, 1835)

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“_Eis aqui então um convite, minha vida. Posso contar mesmo com sua presença?

__Querida Duquesa, irei de todo coração.

__ Ora bolas, não!—virás com todo teu nariz?

__Cada pedacinho dele, meu amor, disse eu; então lhe apliquei uma ou duas torceduras, e vi-me no Almack´s.

  Os salões estavam lotados ao ponto da sufocação.

__ Aí vem ele!, disse alguém na escadaria.

__ Aí vem ele!, disse alguém mais no alto.

__ Aí vem ele!, disse alguém ainda mais no alto.

__ Ele veio!, exclamou a Duquesa. Ele veio, o amorzinho!—e, tomando-me firmemente pelas duas mãos, beijou-me três vez no nariz.” (Leonizando, 1835, que tem algo de um Oscar Wilde “avant le lettre”, por isso coloquei uma ilustração de Beardsley abaixo)

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“Diante de cada um daquele grupo havia um crânio cortado, que era usado como taça. Acima ficava suspenso um esqueleto humano, pendurado por uma corda amarrada a uma das pernas e presa a uma argola no teto. A outra perna, livre de qualquer peia, projetava-se do corpo em ângulo reto, levando toda a ossada solta e chocalhante a balançar e girar ao sabor de qualquer ocasional sopro de vento que porventura invadisse o ambiente. No crânio dessa coisa hedionda havia um punhado de carvão em brasa que lançava uma luz indecisa mas vívida sobre toda a cena; enquanto caixões e outros artigos pertencentes à oficina de um agente funerário empilhavam-se até o teto em torno da sala, obstruindo todas as janelas e impedindo qualquer raio de luz de escapar para a rua.

  À visão dessa extraordinária assembléia, e deus ainda mais extravagantes aparatos, nossos dois marujos não se conduziram com esse grau de decoro que seria de esperar…”  (O Rei Peste, 1835)

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“Então amaldiçoei os elementos com a maldição da comoção; e uma apavorante tempestade se formou no céu onde, antes, vento algum soprava. E o céu ficou lívido com a violência da tempestade—e as pancadas de chuva se abateram sobre a cabeça do homem—e houve cheias no reio—e o rio tornou-se um tormento espumoso—e os nenúfares guincharam em seus leitos—e a floresta foi destroçada pelo vento—e o trovão reverberou—e o raio caiu—e a rocha sacudiu em suas fundações. E eu permaneci em meus esconderijo e observei as ações do homem. E o homem tremia na solidão;–mas a noite  declinava e ele sentava sobre a rocha.

   Então tomei-me de fúria e amaldiçoei, com a maldição do silêncio, o rio, e os nenúfares, e o vento, e a floresta, e o céu, e o trovão, e os suspiros dos nenúfares. E foram amaldiçoados, e acalmaram-se…” (Silêncio-Uma fábula, 1837; há discrepâncias no texto quanto a essa data de publicação original—nas notas aparece o ano de 1838)

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“Umas poucas otomanas e candelabros de ouro, de feitio oriental, eram dispostos em pontos variados—e havia também o divã—o divã nupcial—de um modelo indiano, baixo, esculpido em ébano sólido, encimado por um dossel semelhante a um pálio fúnebre. Em cada um dos cantos do aposento fora colocado de pé um gigantesco sarcófago de granito negro, das tumbas dos reis diante de Luxor, com suas tampas antiqüíssimas cobertas de entalhes imemoriais. Mas era na colgadura do apartamento que residia, hélas! A principal fantasia de todas. As elevadas paredes, gigantescas na altura—beirando mesmo a desproporção—cobriam-se de alto a baixo, em bastos pregueados, por uma tapeçaria pesada e de aspecto maciço—feita de um material que era igualmente encontrado no chão, como coberta para as otomanas e a cama de ébano, como dossel para a cama e como as cortinas de suntuosas volutas que tampavam parcialmente a janela. O material era um riquíssimo tecido de ouro. Pintado inteiramente, a intervalos irregulares, com padrões de arabescos, medindo cerca de 30 centímetros de diâmetro, e lavrados sobre o tecido em padrões do mais negro azeviche. Mas esses padrões partilhavam da genuína característica do arabesco (…) eram feitos de modo a assumir um aspecto mutável. Para alguém adentrando o ambiente, exibiam a aparência de simples monstruosidades; mas ao se avançar mais além, essa aparência gradualmente desaparecia; e, passo a passo, conforme o visitante mudasse de posição no aposento, via-se cercado por uma infinita sucessão das formas espectrais pertencentes à superstição dos normandos ou surgidas nos sonos culpados do monge. O efeito fantasmagórico era vastamente ampliado pela introdução artificial de uma corrente de vento forte e persistente por trás dos reposteiros—emprestando ao todo uma animação hedionda e inquietante…” (Ligeia, 1838)

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“Ele era prisioneiro de certas impressões supersticiosas com respeito à morada que ocupava,e a qual, por muitos anos, jamais se aventurara a deixar—com respeito a uma influência cuja força espúria era transmitida em termos obscuros demais para serem aqui reiterados—uma influência que algumas peculiaridades na mera forma e substância de sua mansão familiar haviam, por força do longo sofrimento, disse-me, obtido sobre seu espírito—um efeito que a constituição das paredes e torres cinzentas, e do escuro lago dentro do qual tudo isso se mirava, havia, enfim, produzido sobre o ânimo de sua existência.

   Ele admitia, entretanto, embora com hesitação, que grande parte da peculiar melancolia que desse modo o afligia podia ser rastreada até uma origem mais natural e muito mais palpável—à enfermidade grave e prolongada—na verdade, ao óbito evidentemente próximo—de uma irmã ternamente adorada—sua única companheira por longos anos—sua última e única relação de sangue no mundo. Seu falecimento, disse com um amargor que jamais esquecerei, faria dele (ele, o desesperado e frágil), o último da antiga estirpe dos Usher…” (A Queda da Casa de Usher, 1839)

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“Já falei mais de uma vez dos repulsivos ares protetores que assumia em relação a mim, e da interferência freqüente e obsequiosa com minha vontade. Essa interferência muitas vezes ganhava o caráter indesejável de um conselho; conselho não abertamente dado, mas sugerido ou insinuado. Eu recebia isso com uma aversão que ficava mais forte a cada ano que passava. E contudo, nesse dia distante, que me seja permitido lhe fazer apura justiça de admitir que não consigo me recordar de uma ocasião sequer em que as sugestões de meu rival tenderam pelo lado desses erros ou tolices tão comuns a sua idade imatura e aparente inexperiência; que seu senso moral, no mínimo, quando não seus talentos gerais e sabedoria mundana, eram de longe muito mais penetrantes que os meus; e que eu poderia, hoje, ter me constituído num homem melhor e, desse modo, mais feliz, houvesse com menos freqüência rejeitado os conselhos manifestados naqueles sussurros significativos que na época com tanta veemência odiei e com tanta amargura desprezei.

    Do modo como foi, acabei por me mostrar impaciente ao extremo sob sua tutela desagradável e a me ressentir cada vez mais abertamente do que considerava sua arrogância intolerável…” (William Wilson, 1839)

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“Parece-me que o mistério é considerado insolúvel pelo mesmo motivo que deveria fazer com que fosse tido como de fácil solução—quero dizer, pelo caráter outré de suas circunstâncias. A polícia está perplexa com a aparente ausência de motivo—não com o crime em si—mas com a atrocidade do crime. Estão desconcertados, também, pela aparente impossibilidade de conciliar as vozes ouvidas em altercação com o fato de que ninguém foi encontrado no andar de cima além da assassinada Mademoiselle L´Espanaye, e de que não havia meios de sair sem passar pelo grupo que subia. A desordem selvagem do quarto; o cadáver enfiado, de cabeça para baixo, pela chaminé; a pavorosa mutilação do corpo da velha senhora; essas considerações, juntamente com as que acabo de mencionar, e outras a que não é necessário fazer menção, bastaram para paralisar as autoridades, deixando completamente às escuras seu tão propalado acúmen. A polícia caiu no erro grosseiro mas comum de confundir o insólito com o abstruso. Mas é nesses desvios do pano do ordinário que a razão encontra seu caminho, se é que o encontra, na busca da verdade. Em investigações tais como as que empreendemos agora, não deve tanto ser perguntado o que ocorreu como o que ocorreu que nunca ocorreu antes. Na verdade, a facilidade com que chegarei, ou cheguei, à solução desse mistério está em proporção direta cm sua aparente insolubilidade aos olhos da polícia…” (fala o gabola detetive Dupin de Os assassinatos da Rue Morgue, 1841)

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“Pode parecer estranho, mas agora, quando estávamos nas próprias garras da voragem, eu sentia maior frieza do que no momento em que apenas nos aproximávamos. Tendo me determinado a não alimentar mais qualquer esperança, livrei-me em grande parte daquele terror que me privava do brio no início. Presumo que era o desespero que me abalava os nervos.

    Pode parecer bravata—mas o que lhe digo é a verdade—comecei a refletir sobre a coisa magnífica que era morrer daquela maneira, e que tolice da minha parte pensar numa consideração tão mesquinha como minha própria vida individual em vista de uma manifestação tão maravilhosa do poder de Deus (…) Pouco depois fui possuído da curiosidade mais intensa sobre o próprio torvelinho. Senti um positivo desejo de explorar suas profundezas, mesmo ao preço do sacrifício que estava prestes a fazer…” (Uma descida no Maelström, 1841)

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“A atividade no corpo animal cessara por completo. Músculo algum estremecia; nervo algum vibrava; artéria alguma palpitava. Mas ele parecia ter brotado no cérebro, isso a respeito do qual palavra alguma podia transmitir à inteligência meramente humana uma concepção até mesmo vaga. Permita-me denominá-lo uma pulsação pendular mental. Era a encarnação moral da ideia abstrata que o homem faz do Tempo. Pela absoluta uniformização desse movimento—ou de tais como ele—os ciclos dos próprios orbes do firmamento foram ajustados. Com seu auxílio medi as irregularidades do relógio sobre a lareira, e dos relógios de bolso dos atendentes. O tique-taque deles chegou-me penosamente aos ouvidos. Os mais ligeiros desvios da autêntica proporção—e esses desvios predominavam em todos—afetavam-me exatamente como as violações da verdade abstrata costumavam, no mundo, afetar o senso moral. Embora não houvesse ali no aposento dois relógios capazes de  dar os segundos individuais pontualmente juntos, mesmo assim não tive dificuldade em manter com firmeza em minha mente os tons e respectivos erros momentâneos de cada um…” (O Colóquio de Monos e Una, 1841)

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“O sétimo apartamento era densamente amortalhado em reposteiros de veludo negro pendendo por todos os lados do teto e das paredes, caindo em pesados drapejamentos sobre um tapete de mesmo material e matiz. Mas apenas nesse recinto a cor das janelas deixava de corresponder à da decoração. As vidraças eram escarlates—uma profunda cor de sangue. Ora, em nenhum dos sete aposentos havia lamparina ou candelabro em meio à profusão de ornamentos dourados que jaziam espalhados por todo o recinto ou pendurados no teto. Não havia luz de espécie alguma emanando de lamparina ou de vela dentro do conjunto de salões. Mas nos corredores que atravessavam o conjunto ficava, diante de cada janela, um pesado tripé portando um braseiro incandescente que projetava seus raios através do vidro colorido e, desse modo, iluminava intensamente o ambiente. E assim se produzia uma variedade de fenômenos extravagantes e fantásticos. Mas no aposento oeste, ou salão negro, o efeito da luz do fogo que vertia sobre os reposteiros escuros através das vidraças tintas de sangue era macabro ao extremo e produzia uma expressão tão selvagem nos semblantes dos que ali entravam que poucos dentre os convidados eram suficientemente ousados para até mesmo pisar ali dentro.

   Havia nesse aposento, ainda, encostado na parede oeste, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo oscilava de um lado para o outro com um ruído surdo, pesado, monótono; e quando o ponteiro dos minutos completava seu percurso diante do mostrador, e soava a hora, dos brônzeos pulmões do relógio brotava um som distinto, alto, profundo, extraordinariamente musical, mas vibrando com nota e ênfase tão peculiares que, ao lapso de cada hora, os músicos da orquestra eram obrigados a fazer uma pausa momentânea em sua apresentação, para escutar o som; e desse modo os valsistas forçosamente interrompiam suas evoluções; e um breve desconcerto tomava conta de toda a alegre comitiva; e, enquanto o carrilhão do relógio ainda soava, observava-se que os mais agitados iam ficando pálidos, e os mais idosos e entorpecidos passavam a mão na testa como que em confuso devaneio ou meditação…” (A máscara da morte vermelha, 1842)

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“Como você observou em suas anotações, a opinião mais geral acerca desse triste episódio é, e sempre foi desde o início, a de que a garota havia sido vítima de uma gangue de meliantes. Ora, a opinião popular, sob certas condições, não deve ser desprezada. Quando surgida por si mesma—quando se manifestando de um modo estritamente espontâneo—devemos olhar para ela como análoga a essa intuição que é a idiossincrasia do homem de gênio individual. Em 99 de cada 100 casos eu me pautaria pelo que ela decidir. Mas é importante não encontrarmos o menor vestígio palpável de sugestão. A opinião deve ser rigorosamente apenas do público; e a distinção é muitas vezes sumamente difícil de perceber e de manter. No presente caso, parece-me que essa opinião pública em relação a uma gangue foi introduzida pelo evento colateral que está detalhado no terceiro dos meus excertos. Toda Paris ficou agitada com a descoberta do cadáver de Marie, uma moça jovem, muito bonita e conhecida. Esse corpo foi encontrado exibindo marcas de violência e boiando no rio. Mas é depois divulgado que, nesse mesmo período, ou por volta desse mesmo período, em que se supõe que a garota foi assassinada, uma barbaridade de natureza similar à que se submeteu a falecida, embora em menor extensão, foi perpetrada por uma gangue de jovens rufiões contra a pessoa de uma segunda jovem. Não é extraordinário que uma atrocidade conhecida influencie o juízo popular em relação à outra, desconhecida? Esse juízo aguardava uma orientação, e a conhecida barbaridade pareceu tão oportunamente concedê-la! (…) A ligação entre os dois eventos teve tanto de palpável que o verdadeiro motivo de espanto teria sido a população deixar de percebê-la e dela se apoderar…” (O Mistério de Marie Roget, 1842)

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“Finalmente, senti que estava livre. A sobrecilha pendeu em tiras de meu corpo. Mas os golpes do pêndulo já se precipitavam sobre meu peito. O instrumento atravessava a sarja do robe. Cortara até a camisa de linho que eu vestia por baixo. Duas vezes mais oscilou, e uma aguda sensação de dor espicaçou cada nervo. Mas o momento de fuga chegara (…) Naquele momento, ao menos, eu estava livre.

   Livre!—e nas garras da Inquisição! Nem bem deixei a madeira em meu leito de horror e passei ao piso de pedra da prisão, o movimento da máquina infernal cessou, e fiquei assistindo, conforme se recolhia, por alguma força invisível, para dentro do teto. Foi uma lição que aprendi em desespero. Cada movimento meu era sem dúvida observado. Livre!—eu apenas escapara da morte em uma forma de agonia para ser confiado a uma outra qualquer pior que a morte. Com esse pensamento passeei os olhos nervosamente em torno pelas barreiras de ferro que me cercavam. Alguma coisa incomum—alguma mudança que, de início, não pude perceber distintamente—, isso era óbvio, havia ocorrido no ambiente…” (O poço e o pêndulo, 1842)

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“Mas mesmo então me refreei e permaneci imóvel. Mal respirava. Segurava a lanterna sem um movimento. Tentava manter o mais fixamente possível a réstia sobre o olho. Nesse ínterim o infernal tamborilar do coração aumentava. Foi ficando mais rápido, mais rápido, e mais alto, mais alto a cada instante. O terror do velho devia ser extremo! Ficava mais alto, e digo mais, ficava mais alto a cada momento!—prestais bastante atenção em minhas palavras? Já vos expliquei como sou nervoso; sou, de fato. E agora, na calada da noite, em meio ao pavoroso silêncio daquela antiga casa, um ruído assim tão estranho enervou-me ao ponto de um terror incontrolável. E contudo, por mais alguns minutos, refreei-me e permaneci imóvel. Mas o batimento ficava mais alto, mais alto! Achei que  o coração fosse explodir. E então uma nova angústia tomou conta de mim—o som alcançaria os ouvidos de algum vizinho!…” (O coração denunciador, 1843—pode ser apenas uma impressão confusa da minha parte, mas me parece que, em termos estilísticos, a primeira pessoa é exercitada aqui de maneira superior aos textos da década anterior)

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“Nesse estágio de minhas reflexões, empenhei-me em me lembrar, e de fato lembrei-me, com perfeita nitidez, de cada incidente ocorrido no período em questão. Fazia frio (ah, que acidente raro e feliz!), e um fogo ardia na lareira. Eu estava acalorado pelo exercício e sentei-me perto da mesa. Você, entretanto, puxara uma cadeira para junto da lareira. Assim que pus o pergaminho em sua mão, e você estava no ato de inspecioná-lo, Wolf, o terra-nova, entrou e saltou sobre seus ombros. Com sua mão esquerda, o acariciou e o manteve à distância, enquanto sua mão direita, segurando o pergaminho, pôde pender frouxamente entre seus joelhos, e em estreita proximidade com o fogo. A certa altura imaginei que a chama o alcançara, e estava prestes a adverti-lo, mas, antes que pudesse falar, você o recolheu, e passou a examiná-lo. Quando considerei todas estas particularidades, não duvidei sequer por um momento que o calor fora o agente que trouxera à luz, sobre o pergaminho, o crânio que ali vi desenhado. Está bem ciente de que tais preparados químicos existem, e existiram desde sempre, por meio dos quais é possível escrever, seja em papel, seja em velino, de modo que os sinais se tornem visíveis apenas quando submetidas à ação do fogo (…)

    Examinei então a caveira cuidadosamente. Seus contornos exteriores—as bordas do desenho mais próximas das bordas do velino—eram muito mais nítidas do que as outras. Ficou claro que a ação térmica fora imperfeita ou desigual. Imediatamente acendi uma chama e submeti cada área do pergaminho a um calor ardente…” (O escaravelho de ouro, 1843, mau momento da tradução de Cássio de Arantes Leite, e texto-arauto tanto de Verne quanto de Stevenson)

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“De minha parte, não demorou para que a repugnância começasse a crescer dentro de mim. Isso era precisamente o oposto do que eu havia esperado; porém—não sei dizer como nem por que—sua evidente afeição por mim antes me repelia e irritava. Gradativamente, esses sentimentos de repulsa e irritação evoluíram para a amargura do ódio. Eu evitava a criatura; uma vaga sensação de vergonha e a lembrança de meu antigo ato de crueldade impediam-me de cometer algum abuso físico. Abstive-me, por algumas semanas, de aplicar-lhe maus tratos ou usar de violência de qualquer espécie; mas, gradualmente—muito gradualmente—comecei a lhe devotar o mais inexprimível asco, e a fugir em silêncio de sua odiosa presença como se fosse o hálito de uma pestilência.

   O que contribuiu, sem dúvida, para o meu ódio do animal, foi a descoberta, na manhã subseqüente à noite em que o levei para casa, de que como Pluto, ele também fora privado de um olho (…) Com minha aversão, entretanto, o apreço desse gato por mim parecia aumentar. Ele seguia meus passos com uma pertinácia que seria difícil fazer o leitor compreender…” (O gato preto, 1843)

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“As fronteiras que dividem a Vida e a Morte são, na melhor das hipóteses, obscuras e vagas. Quem poderá dizer onde uma termina e onde a outra começa? Sabemos da existência de enfermidades em que ocorre a total cessação de todas as funções aparentes de vitalidade, e nas quais contudo essas cessações são meramente suspensões, propriamente falando. São apenas pausas temporárias no mecanismo incompreensível. Um certo período transcorre, e algum misterioso princípio mais uma vez põe em movimento os mágicos escapos e as enfeitiçadas engrenagens. O fio de prata ainda não se soltou para sempre, tampouco o cálice de ouro se quebrou irremediavelmente. Mas onde, nesse meio-tempo, ficou a alma?” (O enterro prematuro, 1844, que por incrível que pareça é um dos textos mais “leves” da coletânea)

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“Falei tanto de som como de voz. Quero dizer que o som foi pronunciado com extrema nitidez—com extraordinária, penetrante nitidez—, sílaba a sílaba. O Sr. Valdemar falou—obviamente em resposta à pergunta que eu lhe apresentara alguns minutos antes. Eu havia perguntado, é mister lembrar, se continuava dormindo. Ele agora dizia:

__ Sim;–não; eu estava dormindo—e agora—agora—estou morto.

    Nenhum dos presentes sequer teve pretensão de negar, ou de tentar reprimir, o calafrio de horror inexprimível que essas poucas palavras, assim pronunciadas, tão previsivelmente provocaram. O estudante desmaiou. Os enfermeiros deixaram o quarto imediatamente e não houve como convencê-los a voltar. Quanto a minhas próprias impressões, abstenho-me de tentar torná-las inteligíveis ao leitor. Durante quase uma hora, ocupamo-nos, em silêncio—sem que ninguém pronunciasse uma única palavra—, dos procedimentos para reanimar o estudante. Quando ele voltou a si, tornamos a nos concentrar em investigar a condição do Sr. Valdemar. (Os fatos do caso do Sr. Valdemar, 1845, em cuja tradução mexi ligeiramente)

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“__ (…) Um trago deste Médoc nos protegerá da umidade.

   Nisso destampei o gargalo de uma garrafa que puxei de uma longa fileira de outras iguais a ela que jaziam no solo do sepulcro.

__ Beba, falei, oferecendo-lhe o vinho.

    Ele a levou aos lábios com um lúbrico olhar de soslaio. Parou e balançou a cabeça para mim com familiaridade, os guizos tilintando.

__ Bebo, disse, aos sepultados que repousam em torno de nós.

__ E eu à sua longa vida.

   Voltou a segurar meu braço, e prosseguimos.

__ Estas suas caves, disse, são extensas.

__ Os Montresor, repliquei, eram uma família grande e numerosa.

__ Esqueci quais são suas armas.

__ Um enorme pé dourado, em um fundo blau; o pé esmaga uma serpente rompante cujas presas estão cravadas no calcanhar.

__ E a divisa?

__ Nemo me impune lacessit [Ninguém me fere impunente]

__Magnífico!, disse ele…” (O barril de Amontillado, 1846)

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[1] Os primeiros episódios de The Following foram deprimentemente ruins e previsíveis (dava para antecipar cada cena). Nem mesmo James Purefoy, que esteve tão marcante (ao mesmo tempo bruto e sensual) em Roma, está bem, no seu papel estereotipado de psicopata genial, culto e charmoso. E as alusões a Poe não poderiam ser mais óbvias, quase todas restritas ao poema O Corvo. Voo curtíssimo, portanto, pelo menos até agora. Se mudar o panorama, caso eu não desista de ver, reformularei esta nota.

[2] As exceções se tornam, talvez por isso, bem expressivas, caso de A máscara da morte vermelha.

[3] Em O poço e o pêndulo,um trecho fica absurdo: “Havia ao todo, desse modo, cem passos; e, considerando cada dois passos como um metro, inferi que o calabouço tinha um perímetro de cem metros” !!!!????

A palavra “incontinenti” é trocada várias vezes por “incontinente”,por exemplo:

“deixei, incontinente, as dependências do antigo ateneu para nunca mais voltar”!!!??

Também há confusão entre “brocha” e “broxa”:

“aplicava pinceladas distraídas com uma brocha alcatroada às beiradas de um cutelo cuidadosamente dobrado sobre um barril perto de mim”!!!???

Um exemplar custa R$59,90. Podiam ser mais profissionais, não?

Em compensação, há momentos muito bacanas na tradução, como o seguinte trecho de Uma descina no Maelström: “Houve uma circunstância inesperada que contribuiu imensamente para reforçar essas observações, e deixar-me ansioso em delas tirar partido, e essa circunstância foi que, a cada revolução, passávamos por algo como um barril, ou então a verga ou o mastro quebrado de um navio, enquanto inúmeras dessas coisas, que havia estado em nosso nível quando abi os olhos pela primeira vez para os portentos do turbilhão, encontravam-se agora muito acima de nós, e pareciam ter se movido muito pouco de sua posição original.”  Aí recupera-se o sentido original de “revolução” e o trecho ganha em expressividade. Há também uma “expressão arabesca” no rosto de alguém, e outros achados bem felizes.

[4] Talvez seja a obra-prima suprema de Poe.

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24/01/2013

Traduções dos sonetos de Antero (primeira parte)

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A CLÁUDIA, pelo presente e pela amizade


Consulta

 

Chamei em volta do meu frio leito

As memórias melhores de outra idade,

Formas vagas, que às noites, com piedade,

Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito…

 

E disse-lhes: —No mundo imenso e estreito

Valia a pena, acaso, em ansiedade

Ter nascido? dizei-mo com verdade,

Pobres memórias que ao seio estreito….

 

Mas elas perturbaram-se —coitadas!

E empalideceram, contristadas,

Ainda a mais feliz, a mais serena…

 

E cada uma delas, lentamente,

Com um sorriso mórbido, pungente,

Me respondeu: —Não, não valia a pena!

os sonetos

Recebi da minha diletíssima amiga Cláudia um inesperado e belo presente, numa visita à Disquería, a loja dela e de Wagner Parra, com discos, CDs, DVDs e livros:  OS SONETOS COMPLETOS, de Antero de Quental (1842-1891), ou Anthero de Quental, como está, numa edição de 1890, da Livraria Portuense, de Lopes & C.A.-editores. Pois bem, tenho várias edições diferentes da obra desse que é meu poeta oitocentista favorito, em língua portuguesa, junto com o igualmente admirável Cesário Verde, desse que é um romântico incurável perdido em plena época positivista, materialista, burguesa, que faz uma poesia filosófica que tem nostalgia dos arroubos do mais descabelado romantismo.

Que diferença esta traria? Além da grafia (ao reproduzir os poemas em português, achei melhor modernizá-la, para facilitar a leitura, entretanto até me arrependi um pouco de tê-lo feito. Olha que delícia: “Só uma vez ousei interrogal-o:/Quem és (lhe perguntei com grande abalo)/Phantasma a quem odeio e a quem amo?// Teus irmãos (respondeu) os vão  humanos/ Chamam-me Deus, há mais de dez mil annos…/Mas eu por mim não sei como me chamo…”), o volume é completado com diversas traduções dos poemas em espanhol, em francês, em italiano, em alemão, algumas das quais reproduzo abaixo, junto com o original “modernizado”. Têm sido minha diversão nos últimos dias e quero compartilhá-la com meu leitor:

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Evolução

 

Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,

Tronco ou ramo na incógnita floresta…

Onda, espumei, quebrando-me na aresta

Do granito, antiquíssimo inimigo…

 

Rugi, fera talvez, buscando abrigo

Na caverna que ensombra urze e giesta;

Ou, monstro primitivo, ergui a testa

No limoso paul, Glauco pascigo…

 

Hoje sou homem —e na sombra enorme

Vejo, a meus pés, a escada multiforme,

Que desce, em espirais, na imensidade…

 

Interrogo o infinito e às vezes choro…

Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro

E aspiro unicamente à liberdade.

 

 

Evolution

 

Einst war ich Fels und war in alter Welt

Baum oder Strauch im unbekannten Wald;

Als schäum´ge Welle ward ich ohne Halt

Vom frühsten Feinde, dem Granit, zerschellt;

 

Ich brüllt als Raubthier, wo zu schatt´gem Zelt

Einhüllten Ginst und Farn den Höhlenspalt,

Und hob als urweltart´ge Missgestalt

Lässig den wüsten Kopf aus Sund und Belt;

 

Jetzt bin ich Mensch —und seh´im falben Licht

Weithin zu Füssen mir die Stufenschicht,

Die niedersteigt in vielgewund´nem Gang;

 

Das Unbegrenzte fragend, wein´ich still;

Doch, ausgestreckt die Händ´in´s Leere, —will

Und wünsch´inh Freiheit bloss aus diesem Zwang.

(tradução de Guilherme Storck)

 

 

 

Elogio da morte III

 

Eu não sei quem tu és —mas não procuro

(Tal é a minha confiança) devassá-lo.

Basta sentir-te ao pé de mim, no escuro,

Entre as formas da noite com quem falo.

 

Através de silêncio frio e obscuro

Teus passos vou seguindo, e, sem abalo,

No cairel dos abismos do Futuro

Me inclino à tua voz, para sondá-lo.

 

Por ti me engolfo no noturno mundo

Das visões da região inominada.

A ver se fixo o teu olhar profundo…

 

Fixá-lo, compreendê-lo, basta uma hora,

Funérea Beatriz de mão gelada…

Mas única Beatriz consoladora!

 

 

Elogio de la muerte III

 

Yo quien eres no sé; mas no procuro,

Tal es mi confianza, averiguarlo;

Para huir el temor, para esquivarlo,

Bástame verte junto á mi en lo oscuro.

 

Tu paso lento y á tu fin seguro

Persigo en el silencio, sin turbarlo,

E inclínome á tu voz, por sondëarlo,

Al borde del abismo del futuro.

 

Por ti me engolfo en la región fecunda

De los nocturnos sueños, tu mirada

Solicitando plácida y profunda;

 

Mirada á mi hondo afan reveladora,

Fúnebre Beatriz de mano helada,

Mas única Beatriz consoladora.

(tradução de Manoel Curros Henriquez)

 

 

Divina Comédia

 

Erguendo os braços para o céu distante

E  apostrofando os deuses invisíveis,

Os homens clamam: “Deuses impassíveis,

A quem serve o destino triunfante,

 

Porque é que nos criastes?! Incessante

Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,

Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,

Num turbilhão cruel e delirante…

 

Pois não era melhor na paz clemente

Do nada e do que ainda não existe,

Ter ficado a dormir eternamente?

 

Porque é que para a dor nos evocastes?”

Mas os deuses, com voz inda mais triste,

Dizem: “Homens! porque é que nos criastes?”

 

 

Divine Comédie

 

Levant leurs bras meurtris vers le cieux incléments,

Apostrophant, hagards, tous  les dieux invisibles,

Les hommes disent: “Dieux éternels, impassibles,

Dieux servis par le sort vainqueur, dieux  triomphants,

 

Pourquoi nous avez-vous créés?! Toujours le temps

Marche, aveugle semeur, semant d´inextinguibles

Douleurs, illusions, deuils, pleurs, combats terribles,

En des noirs tourbillions, hurlants et sanglotants!

 

Ne serions-nous bien mieux dans la paix infinite

Du néant, de ce qui n`a pas encor la vie,

Dans um sommeil clément et sans réveil noyés?

 

Pour la douler pourquoi faut-il que l`homme existe?”

Mais les dieux, d`une voix infinitement plus triste,

Disent: “Hommes, pourquoi nous avez-vous crées?”

(tradução de Fernando Leal)

 

 

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03/11/2012

Na “delicada penumbra da cegueira ”: “A CIFRA”, de Borges

“Oh, dias consagrados ao inútil

empenho de esquecer a biografia

de um poeta menor do hemisfério

austral, a quem o fado ou os astros

deram um corpo que não deixa um filho

e a cegueira, que é penumbra e cárcere,

e a velhice, alvorecer da morte,

e o renome, que ninguém merece,

e o hábito de tecer decassílabos

e o velho amor pelas enciclopédias

e pelos finos mapas caligráficos

e pelo marfim tênue e a nostlagia

eterna do latim…

e esse mau costume, Buenos Aires…

e que na tarde, igual a tantas outras,

resigna-se a estes versos.”

 

Passaram-se alguns anos após uma sucessão ininterrupta de livros (O ouro dos tigres, A rosa profunda, A moeda de ferro, História da noite) e em 1981 o agora octogenário Borges reaparece com um livro surpreendentemente ágil e intenso, A cifra, com 45 poemas. Novamente há uma “Inscrição” para María Kodama e um prólogo importante:

“Minha sina é o que se costuma chamar de poesia intelectual… Admirável exemplo de uma poesia puramente verbal é a seguinte estrofe de  Jaimes Freyre: Peregrina paloma imaginária/que avivas os últimos amores / alma de luz, de música e de flores/ peregrina paloma imaginária. Não quer dizer nada e, à maneira da música, diz tudo; exemplo de poesia intelectual é aquela silva de Luis de Leon, que Poe sabia de cor: Viver comigo quero / gozar do bem que devo ao Céu anseio / sem testemunha, austero / de amor e ciúme, alheio / de ódio, de esperança, de receio. Não há uma única imagem. Não há uma única palavra bonita, com a duvidosa exceção de testemunha, que não seja uma abstração.

     Estas páginas procuram, não sem alguma incerteza, uma via intermediária”. 

    O primeiro poema, “Ronda”, não poderia ser mais típico:

 

“O Islã, que foi espadas

que desolaram o poente e a aurora

e um fragor de exércitos na terra

e uma revelação e uma disciplina

e a aniquilação dos ídolos

e a conversão de todas as coisas

em um terrível Deus, que está só…”

 

Na minha leitura das coletâneas, não tive dificuldade de extrair pequenas citações de cada poema. A cifra, no entanto, me deu trabalho: é difícil não transcrever cada poema inteiro.

“O ato do livro” entrelaça Cervantes e sua criação ao Islã: “Será esta fantasia mais estranha que a predestinação do Islã que postula um Deus, ou que o livre-arbítrio, que nos dá a terrível potestade de escolher o inferno?”

    “Descartes” inaugura um tipo de poema comum no volume: aquele que repete em uma seqüência de versos a palavra inicial, dando uma cadência diferente ao livro com relação aos anteriores.

“Talvez um deus tenha me condenado ao tempo, essa

         longa ilusão.

Sonho a lua e sonho meus olhos, que percebem a lua.

Sonhei a tarde e a manhã do primeiro dia.

Sonhei Cartago e as legiões que desolaram Cartago…

Sonhei a geometria.

Sonhei o ponto, a linha, o plano e o volume.

Sonhei o amarelo, o azul e o vermelho.

Sonhei minha enfermiça infância.

Sonhei os mapas e os reinos e aquele duelo ao alvorecer.

Sonhei a inconcebível cor…

Quem sabe eu sonho ter sonhado.

Sinto um pouco de frio, um pouco de medo…

Continuarei sonhando Descartes e a fé de seus pais.”

Dois poemas seguidos, “As duas catedrais” e “Beppo” aludem aos Arquétipos platônicos.

Transcrevo algo de “Beppo”:

“O gato branco e casto se contempla

no luzidio vidro do espelho

e não pode saber que essa brancura

e esses olhos de ouro nunca vistos

antes na casa são sua própria imagem.

Quem lhe dirá que o outro que o observa

é somente um sonho do espelho?

Digo-me que esses gatos harmoniosos,

o de cristal e o de sangue quente,

são simulacros que concede ao tempo

um arquétipo eterno…”

“Ao adquirir uma enciclopédia”, após falar da “dilatada miscelânea que sabe mais que qualquer homem”, ele alude a um  

 

                             “…novo hábito

deste antigo hábito, a casa,

uma gravitação e uma presença,

o amor misterioso pelas coisas

que nos ignoram e se ignoram”.

Em “Duas formas da insônia”, ficamos sabendo que a insônia é “ensaiar com inútil magia uma respiração regular, é o peso de um corpo que bruscamente muda de lado, é apertar as pálpebras, é um estado parecido com a febre e que certamente não é a vigília…é querer mergulhar no sono e não conseguir mergulhar no sono, é o horror de ser e de continuar sendo…”; mas há a insônia pior, a da longevidade, “o horror de existir em um corpo humano cujas faculdades declinam, é uma insônia que se me mede por décadas e não com ponteiros de aço… é não ignorar que estou condenado à minha carne, a minha detestada voz, a meu nome, a uma rotina de lembranças, ao castelhano, que não sei manejar, à nostalgia do latim, que não sei, a querer mergulhar na morte e não poder mergulhar na morte, a ser e continuar sendo”.

“Buenos Aires”, onipresente desde o seu primeiro livro de versos, Fervor de Buenos Aires, publicado nos anos 20:

“Nasci em outra cidade que também se chamava Buenos Aires.

Recordo o ruído dos ferros do portão gradeado.

Recordo os jasmins e o algibe, coisas da nostalgia…

Recordo o que vi e o que me contaram meus pais…

Naquela Buenos Aires, que me deixou, eu seria um estranho.

Sei que os únicos paraísos não proibidos ao homem são os

         paraísos perdidos.

Alguém quase idêntico a mim, alguém que não terá lido esta

         página,

lamentará as torres de cimento e o talado obelisco.”

Em “Hino”:

“Esta manhã

há no ar o incrível aroma

das rosas do Paraíso.

Às margens do Eufrates

Adão descobre o frescor da água,

Uma chuva de ouro cai do céu;

é o amor de Zeus….

Pitágoras revela a seus gregos

que a forma do tempo é a do círculo…

Whitman canta em Manhattan.

Homero nasce em sete cidades.

Uma donzela captura agora

o unicórnio branco.

Todo o passado volta feito onda

e essas antigas coisas reaparecem

porque uma mulher te deu um beijo.”

 

(o8.07.09)

Dentro da mesma linha, acesse também:

https://armonte.wordpress.com/2012/11/02/historia-da-noite-o-que-a-memoria-concede/

https://armonte.wordpress.com/2012/11/01/as-perpetuas-aguas-de-heraclito-a-moeda-de-ferro-de-borges/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/26/borges-e-o-nome-da-rosa/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/25/o-ontem-fatal-e-inevitavel-borges-e-o-ouro-dos-tigres/

 

02/11/2012

HISTÓRIA DA NOITE: O que a memória concede

“…A memória

Me concede esta estampa de um livro

Cuja cor e cujo idioma ignoro…

Às vezes sinto medo da memória.”

“…no tempo repetem uma trama

Eterna e frágil, misteriosa e clara”

“As coisas são seu porvir de pó.

É óxido o ferro. A voz, o eco”

Contrariando seu apego por prólogos,  HISTÓRIA DA NOITE (1977), essa obra-prima que expressa o “recato da melancolia” e reúne 31 poemas começa com uma “Inscrição” dedicada a María Kodama (a quem ele fizera um poema “A lua”). Em compensação, há um “Epílogo”:

“Um volume de versos não passa de uma sucessão de exercícios mágicos. O modesto feiticeiro faz o que pode com seus modestos meios… Trabalhamos às cegas. O universo é fluido e cambiante; a linguagem é rígida.

De todos os livros que publiquei, o mais íntimo é este. É pródigo em referências livrescas; também prodigalizou-as Montaigne, inventor da intimidade… Como certas cidades, como certas pessoas, uma parte muito grata de meu destino foram os livros. Poderei repetir que a biblioteca de meu pai foi o fato capital de minha vida? A verdade é que nunca sai dela, com nunca saiu da sua Alonso Quijano”.

“O algibe. Lá no fundo a tartaruga.

E sobre o pátio a vaga astronomia

Do menino. Essa herdada prataria

Que se espelha no ébano. A fuga

Do tempo, que no início nunca passa.

Um dos sabres que serviu no deserto.

Um grave rosto militar e morto.

O tímido saguão. A velha casa.

Naquele pátio que foi dos escravos

A sombra da parreira, encurvada.

Um tresnoitado assovia na calçada.

No mealheiro dormem os centavos.

Nada. É somente pobre mediania

Que procuram o olvido e a elegia.” (“Buenos Aires, 1899)

A palavra “noite” já aparece no primeiro verso do primeiro poema, “Alexandria 641 a.D.”: “Desde o primeiro Ada que viu a noite…” Também temos o tema da vida virtual, que segue existindo na não-existência:”Ordeno a meus soldados que destruam/ Pelo fogo essa vasta Biblioteca,/Que não perecerá…”. Nesse poema inaugural há um verso belíssimo: “o verso em que perdura a carícia”. E quem diz que o nosso poeta não era um lírico?

“Alguém” homenageia os narradores anônimos que transmitiram o nosso repertório de histórias: “Não sabe (nunca o saberá) que é nosso benfeitor”.

Em “Leões”:

“Nem o esplendor do cadencioso tigre

Nem do jaguar os signos prefixados

Nem do gato o sigilo. Dessa tribo

É o menos felino, e no entanto

Sempre os sonhos dos homens acendeu…”

Em “Endímion em Latmos”: “Inútil repetir-me que a lembrança/ de ontem e um sonho são iguais”, que nos prepara, talvez, para o lindo poema sobre Cervantos/Quijano/Quixote (“Eu nem mesmo sou pó”):

“Não quero ser quem sou. A avara sorte

Deparou-me o século XVII,

O pó e a rotina de Castela,

As coisas repetidas, a manhã

Que, prometendo o hoje, nos dá a véspera…

Sou um homem entrado em anos. Uma página

Casual me revelou não usadas vozes

Que me buscavam, Amadis e Urganda…

Cavaleiros cristãos iam e vinham

Pelos reinos da terra, vindicando

A honra ultrajada ou impondo

Justiça com os gumes da espada.

Queira Deus que um enviado restitua

A nosso tempo esse exercício nobre.

Meus sonhos o divisam. Já o senti

Em minha triste carne celibatária.

Não sei ainda seu nome. Eu, Quijano,

Serei esse paladino. E meu sonho.

Dentro da velha casa há uma adarga

Antiga e uma espada de Toledo

E uma lança e os livros verdadeiros

Que a meu braço prometem a vitória.

A meu braço?Meu rosto (que não vi)

Não projeta nenhum rosto no espelho.

Eu nem mesmo sou pó. Sou aquele sonho

Que entretece no sono e na vigília

O meu irmão e pai, capitão Cervantes,

Que militou nos mares de Lepanto

E soube algum latim e algo de árabe…

A fim de que eu possa sonhar o outro

Cuja verde memória será parte

Da existência dos homens, eu te suplico:

Meu Deus, meu sonhador, segue a sonhar-me.”

Nessa nostalgia do épico, do “rumor de hexãmetros”, que nos traz poemas sobre a Islândia ou Gunnar Thorgilson, temos também a memória do trágico, como no poema sobre “Macbeth” (“…a grande voz de Shakespeare (na qual estão as outras)…”.

“Apenas uma coisa entre as coisas

Mas também uma arma. Foi forjada

Na Inglaterra, em 1604,

E carregada com um sonho. Encerra

Som e fúria e noites e escarlate.

Minha palma a sopesa. Quem diria

Que contém o inferno: as barbadas

Bruxas que são as parcas, os punhais

Que executam as leis da sombra…

Esse tumulto silencioso dorme

No espaço de um daqueles livros

Da sossegada estante. Dorme e espera.” (“Um livro”)

E voltamos também aos compadritos, aos duelos de punhais dos arrabaldes, ao passional que movimenta o tango, o compadrito Ezequiel Tabares que quer se vingar, em 1890, do homem que lhe roubou a mulher: “Faz tempo que não se lembra da mulher; só pensa no outro… Sem que ele saia, Buenos Aires cresceu a seu redor como uma planta que faz barulho… As pessoas o atravessam e ele não sabe… Hoje,13 de junho de 1977, os dedos da mão direita do compadrito morto Ezequiel Tabares, condenado a certos minutos em 1890, roçam em um eterno entardecer um punhal impossível”.

No poema “O suicida” o eu lírico afirmava terrificamente: “Lego o nada a ninguém”. Veja-se a contrapartida, ainda que com o recato da melancolia, em “Things that might have been”:

“Penso nas coisas que poderiam ter sido e não foram…

A história sem a tarde da Cruz e sem a tarde da cicuta.

A história sem o rosto de Helena…

O orbe sem a roda ou sem a rosa.

O juízo de John Donne sobre Shakespeare…

O filho que não tive.”

Temos um poema “À França”: “Desviaram-me outros amores/ e a erudição vagabunda, / mas não deixei nunca de estar na França/ e estarei na França quando a grata morte me chamar/ em algum lugar de Bueno Aires./Não direi a tarde e a lua; direi Verlaine. / Não direi o mar e a cosmogonia; direi o nome de Hugo./ Não a amizade, e sim Montaigne…”

Temos “Um sábado” do poeta: “Um homem cego em uma casa oca/ Fatiga certos limitados rumos/ E toca as paredes que se alongam/ E o cristal das portas interiores/ E as lombadas ásperas dos livros/ Proibidos a seu amor …/ E sente que os atos que executa/ Interminavelmente em seu crepúsculo/ Obedecem a um jogo que não entende/ E que dirige um deus indecifrável…”

Para terminar, o poema-título (“Ao longo de diversas gerações/ os homens erigiram a noite./ Em seu começo era cegueira e sonho…/ Nunca saberemos quem forjou a palavra/ para o intervalo de sombra/ que cinde os dois crepúsculos) e dois dos melhores poemas, os quais, creio eu, fornecem as senhas e cifras para o recato da melancolia:

“Quando menino, eu temia que o espelho

Me mostrasse outro rosto ou uma cega

Máscara impessoal que ocultaria

Algo na certa atroz. Temi também

Que o silencioso tempo do espelho

Se desviasse do curso cotidiano

Dos horários do homem e hospedasse

Em seu vago extremo imaginário

Seres e formas e matizes novos.

(Não disse isso a ninguém, menino tímido.)

Agora temo que o espelho encerre

O verdadeiro rosto de minha alma,

Lastimada de sombras e de culpas,

O que Deus vê e talvez vejam os homens.” (“O espelho”)

“…Sou apenas a sombra que projetam

Essas íntimas sombras intrincadas.

Sou sua memória, e sou também o outro

Que, como Dante e os homens todos,

Já esteve no raro Paraíso

E nos muitos Infernos necessários.

Sou a carne e o rosto que não vejo.

Sou no final do dia o resignado

Que dispõe de modo algo diverso

As palavras da língua castelhana

Para narrar as fábulas que esgotam

O que se chama de literatura.

Sou o que folheava enciclopédias,

O tardio escolar de fontes brancas

Ou cinza, prisioneiro de uma casa

Cheia de livros que não possuem letras,

Que na penumbra escande um temeroso

Hexâmetro aprendido junto ao Ródano…

O passado me acossa com imagens…

Sou o que não conhece outro consolo

Que recordar o tempo da ventura.

Às vezes sou a ventura imerecida.

SOU O QUE SABE NÃO PASSAR DE UM ECO,

O que anseia morrer inteiramente.

Sou talvez o que tu és no sonho.

Sou a coisa que sou. Já disse Shakespeare… “ (“The thing I am”)

(julho de 2009; todas as passagens foram traduzidas por Josely Vianna Baptista)

Acesse também, na mesma linha de anotações de leitura da poesia tardia de Borges:

https://armonte.wordpress.com/2012/11/01/as-perpetuas-aguas-de-heraclito-a-moeda-de-ferro-de-borges/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/26/borges-e-o-nome-da-rosa/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/25/o-ontem-fatal-e-inevitavel-borges-e-o-ouro-dos-tigres/

01/11/2012

“As perpétuas águas de Heráclito”: A MOEDA DE FERRO, de Borges

“…o intrincado jogo

Que urdem a terra, a água, o ar, o fogo”

“Hoje somos noite e nada”

“Eu cometi o pior dos pecados

Possíveis a um homem. Não ter sido

Feliz…”

‘A firme trama é de incessante ferro”

São 36 os poemas dessa coletânea de 1976, muito marcada pelo tema do “sonho” (e também pela nostalgia do épico, claro, e também pelo “remordimiento”, o remorso de não viver plenamente e o apego a “naderías”, e também pelas perpétuas águas de Heráclito, que seguem nos arrastando, através dos “hábitos do Tempo”) e pela forma soneto. Ele começa, no entanto, com uma bela elegia:

“Que não daria eu pela memória

De uma rua de terra com muros baixos,

De um alto cavaleiro invadindo a alvorada

(Longo e surrado o poncho)

Em um dia qualquer sobre a planura,

Em um dia sem data.

Que não daria eu pela memória

De minha mãe contemplando a manhã

Na estância de Santa Irene,

Sem saber que seu nome ia ser Borges.

Que não daria eu pela memória

De haver combatido em Cepeda

E de ter visto Estanilao del Campo

Cumprimentando a primeira bala

Com a alegria da coragem (…)

Que não daria eu pela memória

(Que já tive e perdi)

De uma tela de ouro de Turner,

Extensa como a música.

Que não daria eu pela memória

De ter sido um ouvinte de Sócrates

Que, na tarde da cicuta,

Examinou serenamente o problema

Da imortalidade,

Alternando os mitos e as razões (…)

Que não daria eu pela memória

De que tivesses dito que me amavas

E de não adormecer até a aurora,

Perdido e feliz.” (“Elegia da lembrança impossível”).

Que não daria ele para ser, talvez, como o coronel Suárez, com seu “sombrio semblante de metal e melancolia” (veja-se que junção maravilhosa, essa do metal e da melancolia) ou o “antigo rei”(“Sei que me sonha e que me julga…”): “Já não há rostos assim. A firme espada/ Vem acatá-lo, como seu cão, leal”. Ou ter, talvez, o destino de Hilário Ascasubi: “Houve um dia a felicidade. O homem/ Aceitava o amor e a batalha/ Com o mesmo regozijo…” Que não daria ele para falar como Einar Tambarskever: “Não há outra obrigação que ser valente”. E que pena que ele seja apenas aquele que diz, desse episódio da saga islandesa: “Agora eu a traslado/ Tão longe desses mares e desse ânimo”.

Que não daria ele para ser, talvez, o aedo épico da Pátria:

“Pompas do mármore, árduos monumentos,

E pompas da palavra, parlamentos,

Centenários e sesquicentenários,

São apenas a cinza, a menor flama

Dos vestígios de uma antiga chama.” (“Elegia da Pátria”)

“Tua versão da Pátria, com seus faustos brilhantes,

Entra na minha vaga sombra como se entrasse o dia

E a ode zomba da Ode. (É apenas nostalgia

–Minha própria versão –de facas ignorantes

E de velha coragem.) Já estremece o Canto,

Já, a custo contidas pela prisão do verso,

Surgem as multidões do futuro e diverso

Reino que será teu, seu júbilo e seu pranto.

Manuel Mujica Lainez, algum dia tivemos

Uma pátria—recordas?—e os dois a perdemos.” (“A Manuel Mujica Lainez”)

Que não daria ele para escrever em outra língua que não “esse latim decaído, o castelhano”. Que não daria ele para ser aquele que fixou uma batalha memorável em 991 a.D.: “As pessoas o seguiam com atenção. Iam recordando os fatos que Aidan [aedo] enumerava e que pareciam compreender só agora, quando uma voz cunhava as palavras”. Que não daria ele para ser o filho de Aidan que o pai pede para renunciar à contenda e escreva versos “para que perdure o dia de hoje na memória dos homens”.

Que não daria ele para não morrer “sem ter visto minha infindável casa”, ainda que vivo, “sou uma sombra que a Sombra ameaça”.

Que não daria ele para ser um dos homens do Arquétipo do Conquistador: “Eu sou o Arquétipo. Eles, os homens…”, para dizer, ao final: “O resto não importa. Eu fui valente”.

Que daria ele para que o futuro não fosse “…tão irrevogável/ Quanto o rígido ontem…”.

Que daria ele para não ser uma “procissão de sombras”, um “homem cinza”.

Que não daria ele para ser verdadeiramente o poeta que fizesse justiça a Brahms:

“Quem te honre há de ser nobre e valente.

Sou um covarde. Sou um triste. Nada

Poderá justificar esta ousadia

De cantar a magnífica alegria

–Fogo e cristal—de tua alma enamorada.” (“A Johannes Brahms”)

Se ainda fosse Shakespeare:

“… alguns séculos

E o rei volta a morrer na Dinamarca

E ao mesmo tempo, curiosa magia,

Em um tablado em meio aos arrabaldes

De Londres…” (“Os ecos”)

Ou Espinosa:

“…O assíduo manuscrito

Aguarda, já repleto de infinito (…)

O feiticeiro insiste e lavra

Deus com geometria delicada…” (“Baruch Espinosa”)

Mesmo que sentisse o horror de Heráclito, ao descobrir sua fórmula:

“… E então sente

Com o assombro de um horror sagrado

Que também ele é um rio e uma fuga.

Deseja recobrar essa manhã

E sua noite e a véspera. Não pode”. (“Heráclito”)

Mas resta o consolo dos espantos singelos:

“não há no orbe

Uma coisa que não seja outra, ou contrária, ou nenhuma.

A mim só inquietam os espantos singelos.

Assombra-me que a chave tenha uma porta aberta;

Assombra-me que minha mão seja um fato certo;

Assombra-me que do grego a eleática seta

Instantânea não alcance a inalcançável meta;

Assombra-me que a espada cruel seja formosa,

E que a rosa tenha o perfume da rosa.” (“O ingênuo”)

Um dos poemas mais bonitos é sobre a onipresente memória do pai:

“Nós te vimos morrer risonho e cego.

Nada esperavas ver do outro lado,

Mas tua sombra talvez tenha avistado

Os arquétipos que Platão, o Grego,

Sonhou e que me explicavas. Ninguém sabe

De que manhã o mármore é a chave.” (“A meu pai”)

Assim como o poema a Melville:

“Sempre o cercou o mar dos ancestrais,

Os saxões, que ao mar deram o nome

De rota da baleia, em que se juntam

As duas enormes coisas (…)

Sempre foi seu o mar. Quando seus olhos

Viram em alto-mar as grandes águas,

Já o havia desejado e possuído

Naquele outro mar, que é da Escritura (…)

…o prazer, por fim, de avistar Ítaca (…)

Melville cruza nas tardes New England.

Mas o habita o mar…” (“Herman Melville”)

Ou o sonho com Kafka:

“Ela era a companheira de Kafka.

Kafka a sonhara…

Ele era o amigo de Kafka.

Kafka o sonhara…

A mulher disse ao amigo:

Quero que esta noite me queiras…

O homem lhe respondeu: Se pecarmos,

Kafka deixará de sonhar-nos…

Kafka disse a si mesmo:

Agora que os dois partiram, fiquei sozinho.

Deixarei de sonhar-me”. (“Ein Traum”)

Duas citações bonitas poderiam ser a “summa” de angústia (“que não daria ele…”) do livro: uma, tirada de “Signos”, com aquela formulação lapidar típica: “Posso ser tudo. Deixa-me na sombra”; a outra de “Não és os outros”: “Não és os outros e te vês agora/ Centro do labirinto que tramaram/ Os teus passos”.

Mas outras duas citações bonitas são mais esperançosas, menos atadas a essa trama de incessante ferro.

De “Para uma versão do I-Ching”:

“A firme trama é de incessante ferro.

Porém em algum canto de teu encerro

Pode haver um descuido, a rachadura.

O caminho é fatal como a seta,

Mas Deus está à espreita entre a greta”.

E do poema-título:

“Aqui está a moeda de ferro. Interroguemos

As duas contrárias faces que serão a resposta

Da pertinaz pergunta que ninguém já se fez:

Por que um homem precisa que uma mulher o queira?”

Isso me lembra “O palácio” (de O ouro dos tigres): “já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memória. Eu sei que não estou morto”.

(anotações de julho de 2009; passagens traduzidas por Josely Vianna Baptista)

Dentro da mesma linha, acesse também:

https://armonte.wordpress.com/2012/11/02/historia-da-noite-o-que-a-memoria-concede/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/26/borges-e-o-nome-da-rosa/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/25/o-ontem-fatal-e-inevitavel-borges-e-o-ouro-dos-tigres/

26/10/2012

BORGES E O NOME DA ROSA

“No dialeto de hoje

Direi, por minha vez, coisas eternas…”

“Ao esquecimento, às coisas do esquecimento, acabo de

Erigir este monumento…”

“Que arco terá lançado esta seta

que sou ? Que cume pode ser a meta?”

Em A rosa profunda (1975), talvez o poema central (ele fica mais ou menos no meio dos 26 poemas) é “1972”:

“Temi que o porvir (que já declina)

Seria um profundo corredor de espelhos

Indistintos, ociosos e minguantes,

Um repetir sem fim de fatuidades,

E na penumbra que precede o sonho

Pedi a meus deuses, cujo nome ignoro,

Que algo ou alguém enviassem a meus dias.

Fizeram-no. É a Pátria. Meus ancestrais

Serviram-na com longas proscrições,

Com penúrias, com fome, com batalhas,

Aqui de novo está o formoso risco.

Não sou aquelas sombras tutelares

Que honrei com versos que não esquece o tempo (…)

Mas hoje a Pátria profanada quer

Que com minha obscura pena de gramático,

Douta em nimiedades acadêmicas

E distante dos trabalhos da espada,

Congregue o grande rumor da epopéia

E exija o meu lugar. Eu o estou fazendo.”

Outro poema que me parece central (e que está bem próximo ao anterior) é “All our yesterdays”:

“Quero saber de quem é meu passado.

De qual dos que já fui? Do genebrino

Que traçou algum hexâmetro latino

Pelos anos lustrais já apagado?

Édo menino que buscou na inteira

Biblioteca do pai as pontuais

Curvaturas do mapa e as ferais

Formas que são o tigre e a pantera?

Ou daquele outro que empurrou uma porta

Atrás da qual um homem morria

Para sempre, e beijou no branco dia

A face que se vai e a face morta?

Sou os que já não são. Inutilmente

Sou em meio à tarde essa perdida gente.”

Na coletânea, há um poema chamado “Eu” (“os caminhos de sangue que não vejo”) e um poema chamado “Sou” (“Sou, tácitos amigos, o que sabe/ Que não há outra vingança que o olvido/ Nem há outro perdão (…) Sou eco, olvido, nada”).

E os temas do rio, da trama do tecido, do sonho (“Bem no fundo do sonho estão os sonhos”, lemos em “Efialtes”; “Eu também sou um sonho fugitivo que dura/ Alguns dias mais…”, lemos em “A cerva branca”) e do mapa do Tempo continuam entretecidos nesse Boitempo (“… a morte, esse outro nome/Do incessante tempo que nos rói…”, lemos em “Elegia”) borgeano:

“O grande rio de Heráclito, o Obscuro,

Seu curso misterioso não empreendido,

Que do passado flui para o futuro,

Que do olvido flui para o olvido.” (“Cosmogonia”)

“Serei todos ou ninguém. Serei o outro

Que sem saber eu sou, o que fitou

Esse outro sonho, minha vigília. E a julga,

Resignado e sorridente…” (“O sonho”)

“…o humano tempo,

Cujo espelho espectral é a memória” (“O bisão”)

…”Cada coisa

É infinita coisas. Tu és música,

Firmamentos, palácios, rios e anjos,

Rosa profunda, ilimitada, íntima…” (“The unending rose”)

Machadianamente (pelo menos, no que se refere ao narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas), neste nosso “intolerável universo”, o suicida pode afirmar: “Lego o nada a ninguém” (“O suicida”). Mas, para compensar, há o rouxinol, “voz repleta de mitologias”, que merece este belíssimo verso: “Keats te ouviu por todos, para sempre” (“Ao rouxinol”).

As 13 moedas de O ouro dos tigres, retomadas, foram acrescidas de mais duas. Em uma delas temos essa homenagem a Poe:

“Os sonhos que sonhei. O poço e o pêndulo.

O homem das multidões. Ligéia…

Mas também este outro.” (“Quinze moedas”)

O tigreiro Simón Carbajal:

“Sempre estava matando o mesmo tigre

Imortal. Não te assombre demasiado

Seu destino. É o teu e é o meu,

Salvo que nosso tigre possui formas

Que mudam sem parar. Chama-se o ódio,

O amor, o acaso, cada momento.” (“Simón Carbajal”)

A cegueira:

“Não sei qual é o rosto que me mira

Quando miro o rosto do espelho;

Não sei que velho espreita em seu reflexo

Com silenciosa e já cansada ira.

Lento em minha sombra, com a mão exploro

Meus invisíveis traços. Um lampejo

Me toca. Teu cabelo entrevejo,

Se ora de cinza ou ainda de ouro, ignoro.

Repito que o perdido foi somente

A inútil superfície das coisas.” (“Um cego”)

A nostalgia do épico persiste, claro. Alguém percorre os caminhos de Ítaca e não se lembra daquele rei que partiu para Tróia, que desceu ao Hades para consultar Tirésias (“O desterrado”).

Os destinos que não são nossos; os destinos não que não nos couberam, nesse jardim de veredas que se bifurcam da existência:

“Eu, com ela, morro de infinitos

Destinos que o acaso não me depara.” (“Em memória de Angélica”)

Enquanto (creio que não dá para ser totalmente solipsista), “Sobre nós vai crescendo, atroz, a história” (“Em memória de Angélica”):

“…as vozes dos mortos

vão me dizer para sempre.” (“Meus Livros”)

Esclarecendo que os “meus livros” são os livros que ele possui (mas não pode ler) e não aqueles que ele mesmo escreveu.

E, por fim, a visão da “cerva branca”:

“Leve criatura feita de uma certa memória

E de um pouco de olvido…” (“A cerva branca”).

(anotações de leitura de julho de 2009; todos os trechos foram traduzidos por Josely Vianna Baptista)

Dentro da mesma linha, acesse também:

https://armonte.wordpress.com/2012/11/02/historia-da-noite-o-que-a-memoria-concede/

https://armonte.wordpress.com/2012/11/01/as-perpetuas-aguas-de-heraclito-a-moeda-de-ferro-de-borges/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/25/o-ontem-fatal-e-inevitavel-borges-e-o-ouro-dos-tigres/

25/10/2012

O “ontem fatal e inevitável”: Borges e o ouro dos tigres

O OURO DOS TIGRES

Publicado em 1972, no seu belo título já trai a recorrente fascinação de Borges com esse que é o animal mais bonito. A imagem do ouro ligado ao animal selvagem, uma espécie de fulgor da ferocidade, também trai um dos temas centrais dessa coletânea de 48 poemas. Em ocasiões diversas (por exemplo, ao comentar Ulisses, de Joyce, ou A pedra do reino, de Ariano Suassuna), eu levantei a questão da nostalgia do épico, e é isso que vemos em O ouro dos tigres. Borges como o fazedor de versos, descendente longínquo e pálido dos aedos e cantores de sagas, ou ainda, em termos mais pessoais e irrisórios, último representante de uma família de militares “machos”, um eco já apagado, uma sombra, do que foi grandioso, e se não foi, ficou assim “naquele plástico ontem irrevogável”, “Essas coisas podiam não ter sido./ Quase não foram. Nós as concebemos/ em um ontem fatal e inevitável”,“O ontem ilusório é um recinto/ de imutáveis figuras de cera/ ou de reminiscências literárias/ que o tempo irá perdendo em seus espelhos” (“O passado”). Não por acaso, os dois primeiros poemas, que estabelecem o “clima”, por assim dizer, tratam de um conquistador, um homem de ação (“Tamerlão”), que protagonizou uma tragédia de Christopher Marlowe, o grande rival do jovem Shakespeare, e de espadas famosas (“Espadas”).

A ação heróica, destinada a ser literatura (e um dos elementos daquela continuidade de que eu falava nos comentários sobre Elogio da sombra), o épico que encontra o lírico e o cósmico em Whitman, presença tutelar do livro desde o prólogo (apesar de este fornecer uma imagem ambivalente, mais negativa que positiva; “Para um verdadeiro poeta, cada momento da vida, cada fato, deveria ser poético, já que profundamente o é. Que eu saiba, ninguém alcançou até hoje essa alta vigília. Browning e Blake se aproximaram mais do que qualquer outro; Whitman a propôs, mas suas deliberadas enumerações nem sempre passam de catálogos insensíveis”):

“Roma, que impõe o numeroso hexâmetro

Ao obstinado mármore dessa língua

Que manejamos hoje, espedaçada;

Os piratas de Hengist que atravessam

A remo o temerário mar do Norte

E com fortes mãos e a coragem

Fundam um reino que será o Império;

O rei saxão que oferta ao da Noruega

Sete palmos de terra e que cumpre,

Antes que o sol decline, a promessa

Na batalha de homens; os cavaleiros

Do deserto, que cobrem o Oriente

E ameaçam as cúpulas da Rússia;

Um persa que relata a primeira

Das Mil e uma noites e não sabe

Que deu início a um livro que os séculos

Das outras gerações, ulteriores,

Não entregarão ao quieto esquecimento;

Snorri, que salva em sua perdida Tule,

Sob a luz de crepúsculos morosos

Ou na noite propícia à memória,

As letras e os deuses da Germânia;

O jovem Schopenhauer, que descobre

Um projeto geral do universo;

Whitman, que numa redação do Brooklyn,

Entre o cheiro de tinta e de tabaco,

Toma e a ninguém conta a infinita

Resolução de ser todos os homens

E de um livro escrever que seja todos…”

E o poeta Borges, ou o avatar de poeta que ele tomou para si neste livro? Vejamos o último dos “Tankas” (estrofe japonesa que tem um primeiro verso de cinco sílabas, o segundo de sete sílabas, o terceiro de cinco sílabas e os dos últimos de sete sílabas):

“Não ter tombado

Como outros de meu sangue,

Na batalha.

Ser na inútil noite.

O que conta sílabas.”

“…com o verso / devo lavrar meu insípido universo”, lemos em “O cego”; “…o resignado / exercício do verso não te salva” (“Ao triste”), enquanto se espalham as alusões ao projeto whitmaniano:. Em “On his blindness”: “Walt Whitman, esse Adão nomeador / das crianças que existem sob a lua”; em 1971 (um poema em homenagem à descida do homem na lua e seus antecedentes míticos e literários): “Esses filhos de Whitman haviam pisado/ o páramo lunar, o inviolado…”, numa paródia a sério da expressão “filhos de Adão”.

E por falar em Adão, uma das “Treze moedas” recapitula concisamente uma situação já explorada no poema “Lenda” de Elogio da sombra:

“Foi no primeiro deserto.

Dois braços atiraram uma grande pedra.

Não houve um grito. Houve sangue.

Houve pela primeira vez a morte.

Já não me lembro se foi Abel ou Caim”.

No poema anterior:

“Abel e Caim se encontraram depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e se reconheciam de longe, porque os dois eram muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, fizeram um fogo e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando o dia declina. No céu despontava alguma estrela, que ainda não recebera seu nome. À luz das chamas, Caim notou na testa de Abel a marca da pedra e deixou cair o pão que estava para levar à boca e pediu que seu crime lhe fosse perdoado.

Abel respondeu:

–Tu me mataste ou eu te matei? Já não me lembro; aqui estamos juntos como antes.

–Agora sei que você me perdoou de verdade, disse Caim, porque esquecer é perdoar. Eu também tentarei esquecer.

Abel disse devagar:

–Assim é. Enquanto dura o remorso, dura a culpa”.

Voltando à “nostalgia do épico”, um dos elementos constituintes na mítica pessoal borgiana é a figura do “gaúcho” e seu cenário natural, o pampa:

“O beco final com seu poente.

Inauguração do pampa.

Inauguração da morte.” (“Oeste”)

“No fim de sua terceira geração

Regresso às planícies dos Acevedo,

Os meus antepassados. Vagamente

Procurei-os por esta velha casa…

Na chuva que ensombrece a varanda,

Entre o crepúsculo de seus espelhos,

Num reflexo, um eco, que foi seu

E que agora é meu, sem que eu o saiba…

Aqui foram a espada e o perigo,

As duras prescrições e os levantes;

Firmes sobre o cavalo, aqui regeram

A sem princípio e a sem fim planura…” (“A busca”)

“… Professaram

A antiga fé do ferro e da coragem…

Por essa fé morreram e mataram.

Entre os acasos de uma montonera

Pereceu pela cor de uma divisa;

Foi quem nada pediu, nem a efêmera

Glória, feita de alarde e de brisa.”

Há até uma poética do épico em “Os quatro ciclos”, que afirma que “Quatro são as histórias. Durante o tempo que nos resta, continuaremos a narrá-las, transformadas”. São elas a história da Ilíada, da Odisséia, de Jasão e o velocino, e do sacrifício de um deus (Átis, Odin, Cristo).

Nessa obsessão pelo épico, que só estou pincelando, há uma homenagem a Camões (no poema “O mar”; aliás, mar e épico estão inextricavelmente ligados), embora seu nome não seja citado:

“O mar. O mar de Ulisses…

É o do tal cavaleiro que escrevia

A um só tempo a epopéia e a elegia

De sua pátria, no pântano de Goa…”

E o próprio Borges, numa auto-ironia, mostra sua fidelidade aos ideais militares que, vinculada a coisas imemoriais e nada comezinhas, tiveram o efeito desastroso de propiciar desastradas declarações políticas num país sob ditadura militar. No poema “A sentinela”, e Borges- O outro determina coisas para Borges-o mesmo::

“Converteu-me ao culto idolátrico de militares mortos, com

os quais talvez não pudesse trocar uma única palavra”.

Acho que esse trecho esclarece bem a questão “Borges & regime militar”.

Esse mesmo poema termina de uma forma terrível:

“A porta do suicida está aberta, mas os teólogos afirmam

que na sombra ulterior do outro reino estarei eu, me

esperando.”

Que ecoa a fórmula de “O ameaçado”: “o horror de viver no sucessivo”, o que expressa a impotência dos seres majestosos e enjaulados (a pantera, o tigre, cuja visão o fascinou antes da cegueira):

“Em vão é vário o orbe. A jornada

Que cumpre cada qual já foi fixada” (“A pantera”)

Do ouro dos tigres só sobrou na cegueira a cor amarela:

“Agora só perduram contornos amarelos,

E só consigo ver para ver pesadelos.”

Em 1970, Borges esteve em São Paulo e lá escreveu “Poema da quantidade”:

“Aqui são excessivas as estrelas.

O homem é excessivo. As gerações

Inúmeras de aves e de insetos,

Do jaguar constelado e da serpente,

De galhos que se tecem e entretecem,

Do café, da areia e das folhas

Oprimem as manhãs e nos prodigam

Seu minucioso labirinto inútil.

Talvez cada formiga que pisamos

Seja única ante Deus, que a define

Para a execução das regulares

Leis que regem Seu curioso mundo.

Não fosse assim, o universo inteiro

Seria um erro e um oneroso caos.

Os espelhos do ébano e da água,

O espelho inventivo de um sonho,

Os liquens e os peixes, as madréporas,

Tartarugas alinhadas no tempo,

Os vaga-lumes de uma única tarde,

As araucárias e suas dinastias,

As perfiladas letras de um volume

Que a noite não apaga são sem dúvida

Não menos pessoais e enigmática

Que eu, que as confundo. Não me atrevo

A julgar nem a lepra nem Calígula.”

Não posso me furtar a transcrever parte de “A um gato”:

“Não são mais silenciosos os espelhos

Nem mais furtiva a aurora aventureira;

Tu és, sob a lua, essa pantera,

Que divisam ao longe nossos olhos…

Mais remoto que o Ganges e o poente,

Tua é a solidão, teu o segredo.

Teu dorso condescende à morosa

Carícia de minha mão. Sem um ruído,

Da eternidade que ora é olvido,

Aceitaste o amor dessa mão receosa.

Em outro tempo estás. Tu és o dono

De um espaço cerrado como um sonho.”

E para finalizar essa minha passagem pelos poemas de O ouro dos tigres, duas passagens que eu acho emocionante. Uma é o último verso de “O ameaçado”, um poema sobre o amor “com suas mitologias, com suas pequenas magias inúteis”):

“Dói-me uma mulher por todo o corpo” (que bom ver o corpo referido em Borges).

A outra, que considero um fecho perfeito para qualquer texto, é de “O palácio”. Apesar do horror de viver no sucessivo:

“… já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memória. Eu sei que não estou morto.”

Escrito em julho de 2009;  todas as passagens foram traduzidas por Josely Vianna Baptista

Dentro da mesma linha, acesse também:

https://armonte.wordpress.com/2012/11/02/historia-da-noite-o-que-a-memoria-concede/

https://armonte.wordpress.com/2012/11/01/as-perpetuas-aguas-de-heraclito-a-moeda-de-ferro-de-borges/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/26/borges-e-o-nome-da-rosa/

24/05/2012

A tessitura da genialidade: “O pássaro de cinco asas” e “A trombeta do anjo vingador”

(as anotações e citações abaixo são excertos de apontamentos da leitura, em agosto de 2007 da edição conjunta—pelo Círculo do Livro—de A trombeta do anjo vingador e O pássaro de cinco asas, quando então planejava um curso sobre a obra de Dalton Trevisan que se chamaria “Curitibenses”, usando a palavra em lugar do correto “curitibanos” por causa de James Joyce e seu Dublinenses; ao todo, são 41 textos de um universo fabuloso e peculiaríssimo)[1]

“Quanto mais ele se humilhava, mais era exaltada: égua branca de fogo, terceiro olho na testa, querubim de cinco asas, não de seis dedos, boca de sete espirros.

   Negava-lhe o menor carinho:

__ A boca é para beijar meu filho!”

Dalton Trevisan é o gênio mimetizador de uma época em que o rural e o urbano ainda conviviam ostensivamente, em que a hipocrisia criava todo um fetichismo sexual, em que fantasia e realidade podiam conviver na linguagem (e ele mostra isso de forma magistral). Nele, o kitsch se revela como requinte autoral.

Veja-se o trecho abaixo do paradigmático Mister Curitiba (de A TROMBETA DO ANJO VINGADOR, 1977):

“Monstro de mil máscaras, desta vez quem seria? O confessor na cela da freirinha, de sete saias, a madre escutando atrás da porta? Um estropiado de guerra, a enfermeira suspensa no pescoço, girando sem parar na cadeira de rodas? O noivo de pé no corredor, rasga em tira a calcinha, os pais da menina .circo… Ela a domadora de botinha preta e chicotinho?

     Zumbia no ouvido um chorrilho de meigos palavrões…”

Ou este outro trecho, de As setes pragas da noiva:

“Em agonia, pedindo água, tapa nas costas, colher de azeite. E tossia, o maldito caroço entalado na garganta.

   Por mais que ela apontasse o olhinho negro espinho no bolso do pijama…”

Ou ainda (de Durma, gordo):

“Você sabe, não é? Então me diga, dona Chica: Por que a segunda empadinha nunca é tão gostosa? Por que o garçom não serve a segunda antes da primeira?”

E esta imagem genial (do extraordinário Questão de herança): “Sem responder, uma funda tragada, as bochechas murchas se beijaram”. E até o mundo dos michês adolescentes ele captura (em O caçador furtivo). E num dos meus contos prediletos, Meu pai, meu pai podemos ler: “Fim de noite um chorou nos braços do outro, pai e filhos bêbados. Se Pedro, que era Pedro, por três vezes negou a Jesus, por que não podia ele negar o pai?”

A tessitura da genialidade:

“Perdido de casa, sem dinheiro para o táxi, fugitivo do último inferninho…”

“…no fundo azedo das entranhas, floresce o lírio vermelho da azia…”

“Na adoração das nascidas rainhas da noite aberto o saco de presentes e distribuídos seus tesouros. Os três magos num só, em busca da estrela do Oriente, a quem ofertou o reloginho de pulso? Todo o ouro para a gorda do Tiki Bar? A mirra para a que era o palácio dos prazeres? O incenso para a Ritinha dos quatro mosqueteiros?”

“Na boca os mil beijos da paixão, sabendo uns a amendoim torrado, outros a batatinha frita…” (são todos trechos da obra-prima que é A longa noite de natal)

E do conto-título, “as mil pulgas da insônia”. E em O despertar do boêmio, “o  lírico e maldito rei da noite, maior tarado da cidade, último vampiro de Curitiba… À procura do sapato perdido na famosa viagem ao fim da noite… Enfia o roupão de seda azul com bolinha branca—lembrança da lua-de-mel… No mapa da babugem a rosa-dos-ventos indica os sete inferninhos da paixão… araponga louca do meio-dia…Tateia o pulso e, ó surpresa, ali está—um relógio à procura de uma bailarina?… Um noivo toucando-se para as núpcias com o sol…”

Achei uma anotação minha, da primeira leitura, já há quase vinte anos, no final de Galinha pinicando na cabeça: “conto genial, o melhor da coletânea inteira”. Não sei se afirmaria isso agora, contudo sei o que me atraiu: a crueza, a rapidez, a eficiência sintética e lapidar. Três páginas concisas que valem por dez: “De noite a gente quer se chegar. Mulher não é para isso? O calorzinho gostoso. Toda a alegria do pobre. Mãezinha do céu, por que ela não deixa? São oito filhos, o que é mais um?

   Essa traidora, depois de velha, não me quer na cama. Sou cachorro sem dono na chuva?”

E o eterno “doutor”, onipresente, ouvindo todas as torpezas, em tantos contos? E os eternos joões e marias. E tem o eterno amigo, André, que às vezes come a Maria.

“Se não vem, Maria, deixa eu…

   Guardada pelas verdes asas do dragão na parede.

__ Dormir com você?

    Fez biquinho, estalou a língua, tão pouco-caso.

__ Ah, é? Ah, é?

   Maria arregalou os grandes olhos putais. Não é que ele já de pistolinha na mão?

__Me acuda, Nossa Senhora. Me salve.

               (…)

   Abrindo a blusa em desafio:

__Atire, covarde. Atire em peito de mulher!” (A pombinha e o dragão vermelho).

E as deliciosas referências intertextuais: “Mudou o natal ou mudei eu?” “Janeiro é o menos cruel dos meses”. “outros barões assinalados”. E tem até um que sonha ser o “Fellini de Curitiba”, enquanto arruína uma puta, mas já estamos em O pássaro das cinco asas (1974):

“…a fabulosa égua do carro do Faraó (…) e se for gaguinha? Ou fanhosa? (…)Amor tão furioso, carro de bombeiro com a sirena uivando, a pobre Laura não podia ignorá-lo—a simples bolinha de papel que ela pisava era escorpião abrasado de fogo.

(…) No álbum de retratos antigos o calvário de sua perdição—normalista seduzida pelo próprio tio (…) Entre beijos soluçando que a crucificava de pequenas delícias, ó gostosão de todos o mais fogoso. Menos doida de paixão estivesse, não falaria assim, obrigado a recordar-se de quantos tipos a desfrutaram.

(…) Caçula mimado, o rapaz quase nos 30 anos, não trabalhava e sua mesada mal dava para o cigarro, o jornal, o cinema…”

Aliás, esse conto-título introduz um elemento novo, salvo engano: o intelectualizado, fã de Fellini e Bergman. Mas agarrado ás saias da mãe [e das putas, claro]. E há a narrativa sofisticada (no quesito tempo narrativo) em A segunda volta da chave. Já O gatinho perneta pressagia o rumo do hai-kai narrativo que o grande escritor curitibano trilharia.

E mais trechos:

“Sofria as noites curitibanas, cálice de conhaque na mão (…) á sua espera no final do corredor o sórdido quartinho de pensão.

   Era a mulher da minha vida. Por que é que eu não sabia? Como é que ninguém me contou? (…) Não tivesse ela casado com o garçom eu a esquecia. Hoje estava com outra. Agora fiquei preso a ela para sempre.” ( Noites de Curitiba)

“(…)barata leprosa

    Cambaleando ou não, os bêbados são o verdadeiro mistério do mundo (…) Ou como você explica que, por mais labirintos em que se enveredem, nunca se percam no caminho, encontrem sempre a porta exata, que fecham atrás de si com a segunda volta da chave?

 (…) O triste da noite é dormir com uma mulher”. (O guardador de bêbados)

“Esfregava o bigodão na perna gorducha, deliciando-se ao ver a pele que se arrepiava e os pelinhos que se eriçavam. Tivesse ali na coxa uma pinta de beleza? Não é—intuição? Visão do paraíso? Milagre?—que tinha mesmo, olho negro de longas pestanas.” (Peruca loira e botinha preta)

“(…) a moça pagou o táxi e o hotel.

   Alisava a costeleta e exibia a falha do pré-molar—o galã penteia mil vezes o fulgurante cabelo negro, sempre esquece de escovar os dentes…” (um dos melhores entre os melhores: A noite não tem segredos)[2]

  Adoro A rosa despedaçada, um daqueles contos mini-biografias em que ele é mestre:

“…um gigante de 18 anos, dono da única moto da cidade.

(…) Em bacanal no famoso quarto de espelhos, surpreendida no uniforme de normalista.

   À saída, preveniu o rapaz que de nada lhe valia conhecer as 64 posições do KAMA SUTRA, gritar de amor só com o infame Josias, arrebatada para sempre na garupa da moto, franguinha ao vento.

  O moço chorou de ódio, assim mesmo casou.”

Tem o telefonema-paradigma para a esposa, após a noitada de farra e excesso, e não ter chegado no “santo lar”: “Insistiam os amigos que dona Maria era uma santa, ele rato piolhento de esgoto. Santa podia ser, mas imprestável na cama.” E a frase-paradigma da mulher sobre o homem “desgracido”: “Assim que ele morra eu começo a viver”.

Entre os contos que eu destacaria, estão  Que fim levou o vampiro de Curitiba?, narrado pelo indefectível Nelsinho, e Eu, bicha:

“…que foi feito do inocente menino?

(…) O corpo de moço bonito, mais bem construído que o da mulher, não pode ser altar de sacrifício?

(…) corredor do Cine Curitiba (ali era chão sagrado)

…Django

…barata leprosa de olho pintado

(…)observavam de mão no bolso…”

   Trevisan sempre capricha nos seus títulos. Mas Última corrida de touros em Curitiba é quase insuperável.

Cito agora os dois extraordinários parágrafos finais de Moela, coração e sambaquira:

“Todas as noites do velho são dores, eis que vem o fim. No tempo das aflições minha alma é uma lesma aos uivos que retorce os chifres e se derrete no pires de sal. Devo catar as migalhas debaixo da mesa? Morder a pelanca do meu braço?

  (…) Que gosto tem a gota de sangue na gema do ovo (…) se não posso ter a minha sopa de bucho com dois aperitivos e um pão, só me cabe morrer (…) O rei da terra, quando a peticinha oferecia, erguendo um canto da saia e exibindo a grossa coxa nua: Aqui tem bastante, meu velho, para a tua fome?”

Agora: terrível mesmo é Ó doce cantiga de ninar, no qual a mãe “satisfaz” o filho, mostrando que até no aleijamento e retardo a gente não se livra do desejo e do instinto sexual, é a nossa maldição, pelo menos das formas que vivemos isso.

E Os velhinhos é o fecho perfeito para a coletânea, com seu malicioso título que evoca qualquer coisa de cândido e com um sopro nostálgico, e mostra o inferno humano, a falta de sabedoria mesmo na avançada idade:

“…única diferença de um para outro quarto é a morrinha de cada velho, ali a catinga de cachorro molhado, aqui a tristura de papagaio piolhento.

…lambem as migalhas esses que, um dia, poderosos e terríveis, foram os reis da terra… Mais que se enfeitem, não passam de velhinhos sebosos (…) A primeira janela que se ilumina no edifício vizinho encontra-os no canto escuro, passando o binóculo um para o outro (…) É suficiente olhar, espiar, frestar. Não sozinho, na doce companhia tenebrosa dos outros (…) enxame fervente de baratas leprosas na cinza do fogão…”


[1] Sou eternamente grato à coleção “Literatura Comentada” da Abril Cultural que me apresentou, entre outras, a obra de Dalton Trevisan. Foi no volume dedicado a ele que me apaixonou por Virgem louca, loucos beijos; logo depois, li Cemitério de elefantes e então o mal já estava feito.

[2] Aliás, naqueles dias de leitura do livro de Trevisan assisti numa madrugada qualquer, no Canal Brasil, um filme dos anos 1970, Bordel-Noites proibidas, que me ajudou deveras a entender ainda mais esse clima sórdido, com seus atores velhos em cenas de cama deprimentes, maus tratos às mulheres, babujando, com ar de taradas, e assim mesmo, com toda essa caíção, refletindo o gosto do público. Por que, em caso contrário, por que fariam tal filme? A que demanda ele atendia?

18/05/2012

A COESÃO DE TUDO: antologia whitmaniana

Esses foram os poemas de Whitman que utilizei no meu curso de 2008 (comparando-o a Baudelaire); aqui aparecem em tradução de Luciano Alves Meira (publicada pela Martin Claret), com algumas intervenções e adaptações minhas:

Saudação ao Mundo! (Salut au monde!)

1

Ó pegue minhas mãos, Walt Whitman!

Que maravilhas neste vôo livre! Tais visões e sons!

Tais ligações infinitas e unidas, cada qual ligado ao próximo.

Cada um respondendo a tudo, cada um compartilhando a Terra como todos os demais.

O que se amplia dentro de ti, Walt Whitman?

Que ondas e solos gotejando?

Que plagas? Que pessoas e cidades estão aqui?

Quem são as crianças, algumas brincando, algumas dormindo?

Quem são as meninas? Quem são as mulheres casadas?

Quem são os grupos de homens andando vagarosamente

com seus braços em torno do pescoço uns dos outros?

Que rios são esses? Que florestas e frutos são esses?

Que nomes têm essas montanhas que se erguem tão altas em meio às brumas?

Que miríades de habitações há nelas, repletas com seus moradores?

2

Dentro de mim a latitude se alarga, a longitude se alonga,

Ásia, África, Europa, estão para leste; América está provida no oeste;

E atando a saliência dos ventos da terra, o quente equador,

Curiosamente para o norte e para o sol viram-se as pontas dos eixos,

Dentro de mim está o dia mais longo, o sol gira em anéis oblíquos

e não se põe durantes meses a fio,

Esticado na hora certa dentro de mim, o sol da meia-noite se ergue

bem acima da linha do horizonte e aparece novamente,

Dentro de mim zonas, mares, cataratas, florestas, vulcões, grupos,

Malásia, Polinésia e as grandes ilhas das Índias Orientais.

3

O que ouves, Walt Whitman?

Ouço o trabalhador cantando e a esposa do fazendeiro cantando,

Ouço na distância os sons das crianças e dos animais, de manhã cedo,

Ouço gritos rivais dos australianos perseguindo o cavalo selvagem,

Ouço a dança espanhola com as castanholas na sombra da castanheira

no ritmo da rabeca e do violão,

Ouço os ecos incessantes do Tamisa,

Ouço ardentes canções francesas pela liberdade,

Ouço do remador italiano a recitação musical de antigos poemas,

Ouço os gafanhotos na Síria quando atacam os grãos e as folhas

no avanço de suas nuvens terríveis,

Ouço o copta jejuar até o crepúsculo, meditativo, caindo no seio

da negra, venerável e vasta Mãe que é o Nilo,

Ouço a voz alegre da condutora de mulas mexicana e o som dos sinos da mula,

Ouço o almuadem árabe chamando do alto da mesquita,

Ouço os padres cristãos nos altares das suas igrejas (…)

Ouço o grito do cossaco e a voz dos marinheiros indo para o mar em Okotski,

Ouço a respiração ofegante que vem do comboio de escravos (…)

Ouço os judeus fazendo a leitura de suas exegeses e salmos,

Ouço os mitos rítmicos dos gregos e as poderosas lendas dos romanos,

Ouço a história da vida divina e da morte sangrenta do Cristo,

Ouço os ensinamentos do hindu ao seu discípulo dileto (…)

Tudo aquilo que os poetas escreveram há três milênios.

4

O que vês, Walt Whitman?

Quem são esses a quem saúdas, quem são eles que,um após o outro,te saúdam também?

Eu vejo um grande e circular espanto rolando pelo espaço,

Vejo fazendolas, fronteiras, ruínas, cemitérios, prisões, fábricas, palácios, choupanas,

ocas de bárbaros, tendas de nômade, sobre a superfície,

Vejo a parte sombria no lado em que os adormecidos dormem e a parte ensolarada

do outro lado,

Vejo a rápida mudança entre luz e sombra,

Vejo terras distantes, tão reais e próximas de seus habitantes

quanto as minhas terras para mim.

Vejo águas em abundância,

Vejo picos de montanhas, vejo as serras dos Andes onde elas se enfileiram,

Vejo claramente o Himalaia, Chien Shahs, Altays, Ghauts,

Vejo os pináculos gigantescos do Elbruz, Kazbek, Bazardjusi,

Vejo os Alpes estirenos e os Alpes de Karnak,

Vejo os Pireneus, os Bálcãs, os Cárpatos e para o norte os Dofrafields,

e em pleno mar o monte Hecla,

Vejo o Vesúvio e o Etna, as montanhas da Lua e as vermelhas de Madagascar,

Vejo os desertos da Líbia, da Arábia e o Asiático,

Vejo imensos e terríveis icebergs árticos e antárticos,

Vejo os oceanos superiores e inferiores, o Atlântico e o Pacífico, o mar do México,

o mar brasileiro, o mar do Peru, as águas do Industão,

o mar da China e o golfo da Guiné, as águas do Japão,

a bela baía de Nagasaki,de terras presas entre montanhas,

(…) O Mediterrâneo banhado pela claridade do sol,

de ilha em ilha,

o mar branco e o mar em torno da Groenlândia.

Contemplo os marinheiros do mundo,

Alguns em meio a tempestades, alguns em meio à noite, fazendo a ronda, vigilantes,

Alguns naufragando indefesos, alguns com doenças contagiosas.

Contemplo os veleiros e os navios a vapor, alguns agrupados nos portos,

alguns fazendo suas viagens (…

5

Vejo as trilhas das estradas de ferro da Terra (…)

Vejo os telégrafos elétricos da Terra,

Vejo os fios que trazem as notícias de guerra,

as mortes,as perdas,os ganhos,as paixões, de minha raça.

6

Vejo o local onde se erguia o antigo Império Assírio, e o Persa, e o da Índia,

Vejo a queda do Ganges sobre a borda alta do Saukara,

Vejo o lugar em que floresceu a idéia da Divindade

encarnada por avatares em forma humana,

Vejo os lugares em que se sucederam os sacerdotes da Terra,

sacrifícios, brâmanes, sábios, lamas, monges,

muftis, exortadores,

Vejo por onde os druidas caminhavam nos bosques de Mona, vejo o visco e a verbena,

Vejo os templos das mortes dos corpos dos deuses, vejo os antigos signatários,

Vejo o Cristo comendo o pão em sua última ceia, entre os jovens e os idosos,

Vejo onde o moço forte e divino, o Hércules, labora fiel e longamente antes de morrer,

Vejo o lugar da vida inocente e rica e o destino desafortunado

do maravilhoso filho noturno,o Baco repleto de membros

(…) Vejo Hermes, insuspeito, morrendo, bem amado, dizendo ao povo:

Não chorem por mim, esta não é minha verdadeira pátria, vivi exilado,

Agora retorno para esfera celestial para onde todos irão quando chegar a vez.

7

(…) Vejo os rastros das expedições modernas e antigas.

Vejo construções inomináveis, mensagens veneráveis de eventos desconhecidos

(…) Vejo o lugar das sagas

(…) Vejo os memoriais erigidos para os guerreiros escandinavos,

Vejo-os erguidos na altura, as pedras trazidas das margens de oceanos incansáveis,

Para que os espíritos dos mortos, quando se sentirem cansados

do silêncio de seus túmulos,

possam se levantar e atravessar os mundos (…)

8

(…) Vejo dois barcos com suas redes, flutuando no mar, à beira do litoral de Paumanok

(…) Vejo dez pescadores esperando: eles descobrem agora

um denso cardume de savelhas,

eles atiram as pontas da rede de arrastão dentro da água,

Os barcos se separam, cada qual rema para uma direção distinta,

Cada um fazendo um círculo no sentido da praia, cercando as savelhas;

A rede é conduzida para a praia por um guindaste por aqueles que ficam em terra,

Alguns dos pescadores descansam nos seus barcos,

Outros estão com os pés negligentemente imersos na água, na altura dos tornozelos,

equilibrados sobre pernas fortes,

Os barcos estão parcialmente acima da água, ela bate contra eles;

Sobre a areia, em pilhas enfileiradas, retiradas das águas, jazem as savelhas

com manchas verdes no dorso.

9

Vejo o desesperançado homem de pele vermelha no Oeste

(…) Ele ouviu a codorniz e contemplou a abelha-que-faz-mel

E com tristeza prepara-se para partir

(…) vejo penhascos, geleiras, corredeiras (…) reparo nos invernos longos

e no isolamento.

Vejo as cidades da terra e me lanço ao acaso para me tornar parte delas,

Sou um verdadeiro parisiense,

Sou um habitante de Viena, São Petersburgo, Berlim, Constantinopla,

Sou de Adelaide, Sidney, Melbourne,

Sou de Londres, Manchester, Bristol, Edinburgh…Madri, Cadiz, Barcelona, Porto,

Lyon, Bruxelas, Berna, Frankfurt, Stuttgart, Turim,

Florença, pertenço a Moscou, Cracóvia, Varsóvia

E para o norte em Christiana ou Estocolmo ou na siberiana Irkutski

ou em alguma rua da Islândia

Desço sobre todas essas cidades e, a partir delas, ergo-me novamente.

 

10

Vejo vapores exalando de países inexplorados,

Vejo tipos de selvagens, arco e flecha, seta venenosa, amuleto, cinturão,

Vejo vilas africanas e asiáticas

(…) Vejo o turco fumando ópio em Aleppo

Vejo as multidões pitorescas nas feiras de Khiva e aquelas no Herat,

Vejo Teerã, vejo Medina e o deserto que as separa, vejo as caravanas

sofrendo para ir em frente,

Vejo o Egito e os egípcios, as pirâmides e os obeliscos,

Vejo as histórias entalhadas, registradas pelos reis conquistadores,

Pelas dinastias, cortadas em lajes de pedra de moer ou em blocos de granito

(…) Vejo todos os lacaios da terra trabalhando, os prisioneiros nas prisões,

Vejo todos os corpos humanos defeituosos

(…) Vejo os homens e mulheres por toda a parte,

Vejo as serenas fraternidades de filósofos, a engenhosidade de minha raça,

Vejo os resultados da perseverança e do engenho de minha raça,

Vejo classes sociais, cores, barbáries, civilizações, caminho entre elas,

misturo-me a elas, indiscriminadamente,

E saúdo todos os habitantes da Terra.

11

Tu, sejas quem for!

Tu, filha ou filho da Inglaterra! Tu, do poderoso Império Eslavo! Tu, russo na Rússia,

Tu, negro, alma divina africana, de cabeça bela e grande,

Formada nobremente, com destino soberbo, nos mesmos termos que eu!

Tu, norueguês, sueco, dinamarquês, islandês! Tu, prussiano!

(…) Tu, amante da liberdade da Holanda! (isso, tu, reserva de onde eu mesmo descendo)

(…) Tu, operário do Reno, do Elba…!Tu, operária, também!

(…) Tu, montanhês residindo sem lei no Taurus ou no Cáucaso!

(…) Tu, persa de corpo modelar cavalgando velozmente em tua sela

(…) Tu, mulher da terra, subordinada aos teus trabalhos!

Tu, judeu peregrinando em tua idade avançada em meio a tantos riscos

para erguer-se uma vez em solo sírio!

Tu, outro judeu, esperando em todas as terras por teu Messias!

(…) Tu, homem japonês, ou tu, mulher japonesa!

Tu, que vives em Madagascar, Ceilão, Sumatra, Bornéu!

Todos vós, dos continentes da Ásia, África, Europa,Austrália,indiferentemente de lugar,

Todos vós, nas incontáveis ilhas dos arquipélagos que há no mar!

E vós, dos séculos vindouros, quando me ouvirdes!

E vós, de cada um dos locais que não especifiquei, mas a quem incluo igualmente!

Saúde para vós! Boa vontade para vós todos, enviados por mim e pela América!

Cada um de nós inevitável,

Cada um de nós sem limites, cada um com o seu direito sobre a Terra,

Cada um de nós recebendo os conteúdos eternos da Terra,

Cada um de nós aqui tão divino quanto qualquer um.

12

(…) Vós, escravizados gotejando, gotas doces ou gotas de sangue!

Vós, formas humanas com insondável e sempre impressionante expressão

de brutalidade!

(…) Tu, cafre, berbere, sudanês!

Tu, desfigurado, inculto, deseducado beduíno!

Vós, vítimas aglomeradas de uma epidemia em Madras, Nanquim, Cabul, Cairo!

Tu, nômade ignorante da Amazônia! Tu, patagônio! Tu, fijiano!

Não prefiro outros a ti,

Não digo uma única palavra contra ti, aí no fundo onde te encontras

(tu hás de vir para frente, quando a hora chegar, para estar ao meu lado).

13

Meu espírito compassivo e determinado circundou a Terra inteira,

Procurei os meus iguais e os meus amantes e os encontrei prontos para mim

em todas as terras,

Creio que uma conexão divina me fez entrar em sintonia com eles.

 

Vós, navios a vapor,creio que me ergui convosco e viajamos por continentes longínquos

e neles caímos;

por alguma razão creio que fui convosco carregado, ó ventos;

E vós, águas, toquei com meus dedos cada praia convosco,

Corri através dos mesmos leitos pelos quais já correram todos os rios ou canais do globo

Firmei minha posição nas bases das penínsulas e no alto dos rochedos para bradar de lá:

Salut au monde!

Cidades nas quais penetram a luz ou o calor, eu mesmo as penetro,

Todas as ilhas para as quais os pássaros voam em seu roteiro, eu mesmo vôo

em meu roteiro

Na direção de todos vós, em nome da América,

Eu ergo nas alturas a mão perpendicular, faço o sinal

Para que permaneça visível após mim, para sempre,

Para todos os abrigos e lares da humanidade.

 

O significado de Folhas de Relva

Não para excluir ou demarcar ou selecionar os maus de suas massas formidáveis

(até mesmo para expô-los),

Mas para adicionar, fundir, completar, entender –e celebrar o bom e o imortal

Insolente esta canção, suas palavras e seu escopo,

Para abarcar vastos domínios de espaço e tempo,

A evolução —cumulativa— desenvolvimentos e gerações.

Tendo iniciado em madura juventude e prosseguido continuamente,

Vagueando, perscrutando, brincando com todos —guerra, paz,

absorvendo de dia e à noite,

Nem por uma breve hora abandonando minha tarefa,

Termino-a aqui na doença, na pobreza e na velhice.

Eu canto a vida e, contudo, importo-me bastante com a morte:

Hoje a sombria Morte persegue meus passos, minha forma assentada,

e assim tem sido por anos:

Aproxima-se de mim algumas vezes e ficamos face a face.

 

O que não foi exprimido

Como alguém ousa dizê-lo?

Após os ciclos, os poemas, os cantores, as peças,

Ostentando o que da Jônia, da Índia, Homero, Shakespeare,

As estradas espessamente pontilhadas há muito, muito tempo, as áreas,

As constelações brilhantes e a Via Láctea, as pulsações da Natureza recolhidas,

Todas as paixões retrospectivas, heróis, guerra, amor, adoração,

As sondas de todas as eras lançadas em máximas profundezas,

Todas as vidas humanas, gargantas, desejos, cérebros,

a expressão de todas as experiências;

Após as canções incontáveis, longas ou curtas, todas as línguas, todas as terras,

Algo ainda não narrado na voz da poesia ou nos impressos, algo faltando

(Quem sabe? O melhor ainda sem expressão e faltando).

Canção do Universal

1.

Vem, disse a Musa,

Canta para mim uma canção que poeta algum tenha cantado até hoje,

Canta-me o Universal.

Nesta nossa terra vasta,

Em meio à densidade imensurável e à escória,

Guardada e segura dentro do coração central,

Aninha-se a semente da perfeição.

Para cada vida uma porção, ou mais ou menos,

Ninguém nasce sem que ela nasça, recôndita ou exposta, a semente está à espreita.

2.

Contempla! A elevada ciência de olhos agudos,

Como se de altos cumes, vigiando a modernidade,

Emitisse sucessivas ordens absolutas.

Contudo, mais uma vez contempla! A alma, acima de toda ciência,

Pois ela traz a história fundida como uma casca que envolve o globo,

Para ela todas as constelações rolam através do espaço.

Em rotas espirais por entre longos desvios (…)

Por ela o fluxo que vai de parcial a permanente,

Por ela o real tende ao ideal.

Por ela a mística evolução,

Não apenas a justificação do Bem, o que chamamos de Mal também se justifica.

Saindo de trás de suas máscaras, não importando as conseqüências,

Do enorme caule que se inflama, da arte e da malícia e das lágrimas,

Emerge a saúde e a alegria, a alegria universal.

Saindo do corpo volumoso, o mórbido e o superficial,

Saindo da maioria ruim, as diversificadas, incontáveis fraudes de homens e Estados,

Elétrico, anti-séptico também, clivando e inundando tudo,

Apenas o bom é universal.

3.

Sobre a protuberância das montanhas, doença e tristeza,

Um pássaro livre está sempre pairando, pairando,

Alto no ar mais puro, no ar mais feliz.

Das imperfeições das nuvens mais escuras,

Atira sempre um raio de perfeita luz,

Um brilho da glória celeste.

Para o que pertence à moda, para a discórdia dos figurinos,

Para o doido alarido de Babel, para as orgias ensurdecedoras,

Ao final de cada bonança, uma explosão é ouvida, apenas ouvida,

Vindos de alguma praia longínqua, os sons do coro derradeiro.

Ó olhos abençoados, corações felizes,

Que vêem, que conhecem o finíssimo fio condutor

Através do labirinto.

4.

E tu, América,

Pela culminação do esquema, pelo pensamento e pela realidade,

Por esses (não por ti mesma) tu vieste.

Tu também envolveste todos

Abraçando e conduzindo e acolhendo a todos, tu também caminhas

Por estradas largas e novas.

Tendendo ao ideal.

As fés conhecidas de outras terras, as grandezas do passado,

Não são para ti…

O amor, tal como a luz, silenciosamente envolve a todos,

Os aperfeiçoamentos da natureza abençoando a todos,

Os botões, frutos das eras, pomares divinos e certos,

Formas, objetos, crescimentos,humanidades, amadurecendo para as imagens espirituais.

Concede-me, ó Deus, que eu cante aquele pensamento,

Dá-me, dá a ele ou a ela a quem amo essa fé insaciável,

Em Tua imagem, tudo quanto guardares, não o negue a nós,

A crença nos Teus planos guardada no Tempo e no Espaço,

Saúde, paz, salvação universal!

Será um sonho?

Não, mas a ausência dele é o sonho,

E se ele falha o conhecimento e a riqueza da vida são apenas sonho,

E o mundo inteiro é apenas sonho.

Ao jardim, o mundo retorna

Ao jardim, o mundo retorna se elevando,

Poderosos companheiros, filhas, filhos, preludiando,

O amor, a vida de seus corpos, o sentido e o ser,

Curiosos, vede aqui a minha ressurreição após o sono ligeiro,

Os ciclos rotativos em sua ampla órbita me trazem de volta,

Amoroso, maduro, tudo tão maravilhoso para mim, tudo assombroso,

Meus membros e o fogo tremendo que sempre brinca através deles,

por razões, quase todas, assombrosas

Ao existir eu perscruto e vou além ao penetrá-las,

Feliz com o presente, feliz com o passado,

Ao meu lado ou atrás de mim, Eva me segue,

Ou à minha frente, e do mesmo modo eu a sigo.

Eras e eras retornando a intervalos

Eras e eras retornando a intervalos,

Intocadas, vagando imortalmente,

Vigorosas, fálicas, com as carnes originais potentes, perfeitamente doces,

Eu, cantor de canções adâmicas,

Através dos novos jardins do Ocidente, as grandes cidades convocando,

Delirante, preludiando assim aquilo que é gerado, oferecendo-os,

Oferecendo a mim mesmo,

Banhando-me, banhando minhas canções com o sexo,

Fruto da minha carne.

Como Adão ao amanhecer

Como Adão ao amanhecer,

Saio a caminhar, vindo do pavilhão do jardim, renovado pelo sono.

Contempla-me no lugar em que passo, ouve minha voz, aproxima-te,

Toca-me, toca a palma de tuas mãos no meu corpo enquanto passo,

Não tenhas medo do meu corpo.

Ó meu eu! Ó vida!

Ó meu eu! Ó vida! Das questões que são recorrentes,

Dos trens infinitos dos que não tem fé, das cidades cheias de tolos,

Ó eu mesmo para sempre censurando a mim mesmo (pois quem é mais tolo do que eu

E quem é mais sem fé?)

De olhos que em vão suplicam por luz, do meio dos objetos,das lutas sempre renovadas,

Dos pobres resultados de tudo,

Das laboriosas e sórdidas multidões que vejo à minha volta,

Dos vazios e inúteis anos dos demais, sendo que também faço parte dos demais,

A questão, ó meu eu, tão triste, recorrente: O que há de bom em meio a tudo isso?

Ó meu eu! Ó vida!

 Resposta:

Que estás aqui —e que a vida existe e a identidade,

Que a poderosa peça continua e tu podes contribuir com um verso.

Desde os rios confinados à dor

Desde os rios confinados à dor (…)

Desde aquilo que estou determinado a tornar ilustre,

Mesmo que eu viva solitário entre os homens,

Desde a minha própria ressonante voz, cantando o fálico (…)

Entoando a canção do companheiro de cama (Ó ardente desejo!

Ó por todos e por cada corpo que atrai o seu correspondente!

Ó por ti, quem quer que sejas, teu corpo correspondendo-me!

Ó isso, mais que qualquer coisa, tu deliciando-te!)

(…) Pesquisando algo que ainda não pude descobrir,

Embora tenha diligentemente procurado anos a fio,

Cantando a canção verdadeira da alma intermitente, ao acaso (…)

A bem-vinda proximidade, a visão do corpo perfeito,

O nadador nadando nu ou boiando sem movimentos (…)

……………………………eu pensante, amante do corpo, tremendo de dor,

A lista divina sendo feita para mim, para ti ou para qualquer um,

O rosto, os membros,o índice da cabeça aos pés,e aquilo que faz com que ele se levante,

O delírio do místico, o delírio amoroso, o completo abandono

(chega perto, e calado escuta o que agora sussurro para ti:

Eu te amo, ó tu que me tens por inteiro,

Ó tu e eu fugimos ao mundo e sumimos inteiramente, livres e sem lei,

Dois falcões voando, dois peixes nadando no mar tão sem lei quanto nós dois).

A furiosa tempestade por mim atravessando, e eu tremendo apaixonadamente (…)

(Ó eu desejando arriscar tudo por ti,

Ó deixe-me estar perdido se necessário for!

Ó tu e eu! (…)

O que é tudo o mais para nós? Apenas sabemos que desfrutamos um ao outro

E nos exaurimos se necessário for.)

(…) Desde a maciez das mãos que escorregam sobre mim e a passagem dos dedos

Pelos meus cabelos e minha barba

(…) Desde a pressão calorosa do corpo que me embriaga e embriaga qualquer homem

Até desmaiá-lo pelo excesso

(…) Desde a exultação, a vitória, o alívio,

Desde o abraço do companheiro de cama durante a  noite

(…) Desde o movimento de tirar a coberta que nos cobre

(…) Desde aquele que não deseja me ver partindo e eu que também não desejo partir

(será apenas um instante apenas, ó delicado ser que me aguarda, e eu retornarei),

Desde a hora das estrelas brilhantes e orvalhos gotejantes,

Desde a noite em que vou emergindo fugaz,

Celebro-te, ato divino…………………………………………………………

Do encapelado oceano da multidão

Do encapelado oceano da multidão chega, gentilmente, uma gota para mim,

Sussurrando: “Eu te amo, bem antes de eu morrer,

Percorri uma longa jornada meramente para olhar-te, tocar-te,

Pois não poderia morrer antes de olhar-te,

Pois temia que mais tarde poderia te perder”.

Agora já nos encontramos, já nos vimos, estamos seguros.

Volta em paz para o oceano, meu amor,

Também sou parte desse oceano, meu amor, não estamos assim tão separados,

Observa o grande orbe, a coesão de tudo: que perfeição!

Mas, quanto a mim e quanto a ti, o mar irresistível nos separa,

Se por uma hora pode nos manter dessemelhantes,

Por outro lado não nos pode conservar distintos para sempre;

Não sejas impaciente—um interregno—sabes tu que saúdo o ar, o oceano e a terra,

Todos os dias no crepúsculo, pelo teu amor, meu amor.

Meu legado

O homem de negócios de vastas aquisições,

Depois de árduos anos fazendo o balanço dos resultados,

Preparando para a partida,

Lega casas e terras para seus filhos, deixa ações como herança,

Bens, fundos para uma escola ou hospital,

Deixa dinheiro para certos companheiros, para que comprem lembranças,

Relíquias de pedras preciosas e ouro.

Mas eu, fazendo o balanço de minha vida, fazendo o fechamento,

Com nada para apresentar, para legar de meus anos preguiçosos,

Nem casas, nem terras, nem lembranças de pedras preciosas ou ouro para meus amigos,

Contudo, certas lembranças da guerra deixo para ti e para os que virão,

E pequenas relíquias de acampamentos e soldados, com meu amor,

Encaderno e deixo como herança neste feixe de canções.

Cidade de orgias

Cidade de orgias, passeios, alegrias,

Cidade daquele que, tendo vivido e cantado em teu seio, te fará ilustre um dia,

Não serão as tuas exposições, nem os teus quadros,

Nem teus espetáculos, que me recompensarão,

Não serão as tuas filas intermináveis de casas, nem os navios nas tuas docas,

Nem as procissões nas ruas, nem as vitrines brilhantes com os produtos lá dentro,

Nem o diálogo com pessoas cultas, nem a minha participação em um sarau ou uma festa

Nada disso, mas quando passo, ó Manhattan,

O teu freqüente e súbito brilho no olhar a me oferecer o amor,

Ofertando-me uma resposta, isso sim me recompensa,

Amantes, amantes permanentes, só esses me recompensam.

A certo civil

Pediste-me rimas doces?

Procuras as rimas pacíficas e lânguidas dos civis?

Achaste a canção que entoei anteriormente difícil de acompanhar?

Pois eu não estava cantando anteriormente

Para que tu pudesses seguir, para que entendesses, nem mesmo agora

(Despertei com a guerra, os intermináveis rufos dos tambores dos regimentos

São sempre doce música para mim, amo muito o hino fúnebre marcial,

Com lamentações vagarosas e palpitações convulsivas,

Conduzindo o funeral dos oficiais);

O que é, para alguém como tu, de qualquer modo, um poeta como eu?

Assim sendo, abandona meus trabalhos,

Ilude-te com aquilo que podes compreender e com os tons do piano,

Pois a ninguém iludo e jamais poderás entender-me.

Saindo de trás desta máscara (para confrontar um retrato)

1.

Saindo de trás desta máscara flexível, grosseiramente talhada,

Estas luzes e sombras, esse drama do Todo,

Esta cortina comum da face contida em mim e para mim, e em ti para ti,

Em cada um para cada um

(Tragédias, tristezas, lágrimas, ó céu!,

Estas abundantes peças cheias de paixão, escondidas atrás desta cortina!),

Este esmalte do mais puro e sereno céu de Deus,

Este filme da fervura de Satã no abismo,

Este mapa da geografia do coração, esse ilimitado pequeno continente,

Este mar insondável, saindo das circunvoluções deste globo,

Este orbe astronômico mais sutil que o sol ou que a lua, que Júpiter,Vênus, Marte,

Esta condensação do universo (e mais ainda o único universo que está aqui,

Aqui a idéia, tudo neste punhado de pacotes místicos);

Estes olhos entalhados, sinalizando para que passes para o tempo futuro,

Para lançar e fazer girar através do espaço, revolvendo-se obliquamente,

A partir destes para enviar-te, quem quer que sejas, um olhar.

2.

Um viajante de pensamentos e anos, de paz e de guerra,

De juventude longamente vivida e declínio da meia-idade

(Como o primeiro volume de um conto de fadas lido cuidadosamente e deixado de lado e este, o segundo, com canções, aventuras, especulações, até o epílogo na atualidade),

Demorando-se um pouco aqui e agora, volto-me ara o lado oposto de ti,

Como se estivesse na estrada ou na abertura de uma porta, por acaso,

Ou numa janela aberta;

Parando, inclinando-me, descobrindo minha cabeça, saúdo-te de modo especial,

Para atrair e abraçar tua alma uma vez, inseparavelmente com a minha,

E depois viajar, seguir viagem.

Uma aranha paciente e silenciosa

Uma aranha paciente e silenciosa,

Registrei o lugar do pequeno promontório em que ela estava isolada,

Registrei o modo como, para explorar as vastas redondezas vazias,

Ela lançou adiante filamentos, filamentos, filamentos que saíam de dentro dela,

Sempre os desenrolando, sempre os acelerando incansavelmente.

E tu, ó minha alma, no lugar em que estás,

Cercada, destacada, em imensuráveis oceanos de espaço,

Meditando incessantemente, aventurando-se, lançando-se,

Procurando as esferas para conectá-las,

Até a ponte que terá de ser formada por ti, até o cabo flexível da âncora,

Até que a fibra fina que atiras prenda-se em alguma parte, ó minha alma.

Mannahatta

O nome adequado e nobre da minha cidade retomado,

Escolha de nome aborígine, com maravilhosa beleza, significado,

Ilha rochosa fundada, praias em que sempre batem festivamente

As rápidas ondas do mar que vêm e vão.

Os Estados Unidos para os críticos do Velho Mundo

Aqui em primeiro lugar os deveres de hoje, as lições do concreto,

Riqueza, ordem, viagem, abrigo, produtos, abundância,

Como na construção de algum edifício diversificado, vasto, perpétuo,

Do qual se erguem, inevitavelmente pontuais, os altos telhados, as luminárias,

As pontas solidamente plantadas nas alturas, mirando as estrelas.

O lugar-comum

O lugar-comum eu canto;

Quão barata é a saúde! Quão barato é o caráter!

Abstinência, sem hipocrisia, sem glutonaria, sem luxúria;

O ar livre eu canto, liberdade, tolerância

(Leva, aqui, a principal lição, que não é a dos livros, nem a das escolas),

O dia e a noite comuns, a terra e as águas comuns,

Tua fazenda, teu trabalho, negócios, ocupações,

A sabedoria democrática subjacente, piso sólido para todos.

Travessia da balsa do Brooklynfragmento

2.

O meu imponderável alimento que vem de todas as coisas, a cada hora do dia,

O simples, pequeno, bem articulado esquema, meu ego desintegrado,

Cada um desintegrado e, contudo, sendo parte do esquema,

As similaridades do passado e aquelas similaridades do futuro,

As glórias penduradas como contas nas minhas menores visões

E em tudo o que ouço, na calçada das ruas e nas pontes sobre os rios,

A corrente descendo tão rapidamente, levando-me a nada para longe,

Os outros que devem me seguir, os laços que existem entre mim e eles,

A certeza dos outros, a vida, o amor, a visão, o ato de ouvir os outros.

Outros assistirão à rapidez do transbordamento da maré,

Outros verão os navios de Manhattan ao norte e a oeste

E as elevações do Brooklyn para o sul e para o leste,

Outros verão as ilhas grandes e pequenas;

Dentro de cinqüenta anos, outros terão essa visão quando fizerem a travessia,

O sol nascido há meia hora;

Dentro de cem anos, ou mesmo centenas de anos, outros terão essa visão,

Desfrutarão o pôr-do-sol, a água que entra pelo transbordamento da maré,

O retorno do mar no refluxo da maré.

9.

Desce, rio! Desce com a inundação da maré e reflui com o refluxo!

Brincai, projeções curvilíneas nas bordas das cristas das ondas!

Nuvens formosas do crepúsculo! Encharcai-me com vosso esplendor

Ou às gerações de homens e mulheres que virão após mim!

Levai, de uma margem à outra, incontáveis multidões de passageiros!

De pé, altos mastros de Mannahatta! De pé, lindas montanhas do Brooklyn!

Palpita, cérebro confuso e curioso! Lança de ti perguntas e respostas!

Suspende aqui e em toda a parte a eterna dança das soluções!

Olhai fixamente, olhos amorosos e sedentos, na casa ou na rua (…)

Soai, vozes, vozes de rapazes!Altas e musicais, chamai-me pelo meu nome mais íntimo!

(…) Considera, tu que me lês com atenção, que posso estar por caminhos desconhecidos

Pensando em ti;

(…) Reflete o céu de verão, tu, água, e lentamente o segura

Até que todos os olhos voltados para a tua superfície tenham tempo de vê-lo!

Dispersai-vos, finos raios de luz saídos da silhueta de minha cabeça,

Ou da cabeça de qualquer outra pessoa, refletidos na água iluminada pelo sol!

Avante, navios da baía inferior! Passai para cima e para baixo,

Escunas de velas brancas, corvetas, barcaças!

Ostentai-vos, bandeiras de todas as nações! Arriai-vos pontualmente no pôr-do-sol!

Queimai os vossos fogos, chaminés das fundições!

Lançai sombras negras sobre o anoitecer!

Lançai luzes vermelhas e amarelas sobre os telhados das casas!

As aparências, agora ou de agora em diante, indicam o que és,

Tu, necessário filme, continua envolvendo a alma,

Sobre o meu corpo por mim, e sobre o teu corpo por ti, pendurai-vos aromas divinos,

Prosperai, cidades, trazei vosso frete,trazei vossos espetáculos,rios amplos e suficientes,

Expandi-vos, tornando-se talvez aquilo que nada pode superar em espiritualidade,

Guardai vossos lugares, objetos que não encontrarão

nada mais duradouro que vós mesmos.

Já esperastes, sempre esperastes, vós, mudos, maravilhosos ministros,

Nós vos recebemos com um senso de liberdade, finalmente,

E nos tornamos insaciáveis de agora em diante,

Não mais sereis capazes de nos despistas ou de negar-vos a nós,

Usamos-vos e não vos lançamos fora, plantamos-vos permanentemente dentro de nós,

Não nos aprofundamos em vós, amamos-vos, também há perfeição em vós,

Fornecei vossas partes rumo à eternidade,

Grandes ou pequenas, vós ofereceis vossas partes para a alma.

Até breve!

Para terminar, anuncio o que vem depois de mim.

Lembro-me de ter dito antes que minhas folhas brotariam totalmente,

Eu ergueria minha voz aprazível e forte com referência às consumações.

Quando a América fizer o que foi prometido,

Quando através destes Estados andarem cem milhões de pessoas soberbas,

Quando os demais partirem, deixando as pessoas extraordinárias e apoiando-as,

Quando gerações das mais perfeitas mães denotarem a América,

Então haja para mim e para os meus a nossa devida fruição.

Pressionei para entrar por meu direito próprio,

Cantei o corpo e a alma, a guerra e a paz cantei e as canções da vida e da morte,

E as canções do nascimento e mostrei que há muitos nascimentos.

A todos ofereci o meu estilo, jornadeei com passos confiantes;

E enquanto meu prazer ainda é total, sussurro Até breve!

E tomo as mãos da jovem mulher e do jovem homem pela última vez.

Anuncio a elevação das pessoas naturais,

Anuncio a justiça triunfante,

Anuncio a liberdade e a eqüidade sem comprometimentos,

Anuncio a justificação da candura e a justificação do orgulho.

Anuncio que a identidade destes Estados é uma única identidade singular,

Anuncio a União mais e mais consolidada, indissolúvel,

Anuncio os esplendores e a majestade que farão todas as políticas prévias da Terra

parecerem insignificantes.

Anuncio a adesão, digo que há de ser ilimitada,

Digo que ainda hás de encontrar o amigo por quem procuravas,

Anuncio um homem ou uma mulher, talvez sejas tu (Até breve!),

Anuncio o grande indivíduo, fluido como a Natureza,

Casto, afetuoso, compassivo, inteiramente constituído,

Anuncio uma vida que há de ser copiosa, veemente, espiritual, ousada,

Anuncio um fim que há de encontrar com leveza e alegria a sua tradução.

Anuncio miríades de jovens, cheios de beleza, gigantescos, de sangue doce,

Anuncio uma raça de esplêndidos e selvagens homens velhos.

(…) Prevejo algo demasiado, algo que significa mais do que eu imaginava,

Parece-me que estou morrendo.

Apressa-te, garganta, e soa o que está no fim,

Saúda-me, saúda os dias uma vez mais. Faz ressoar o velho brado uma vez mais.

Gritando eletricamente, usando a atmosfera,

Lançando olhares a esmo, absorvendo tudo o que noto (…)

…………….curiosas mensagens embrulhadas,

Quentes faíscas, sementes etéreas que caem na poeira,

Eu mesmo sem conhecê-las, obedecendo à minha missão, sem jamais ousar questioná-la

Para as eras e eras futuras, entretanto, deixando o desenvolvimento das sementes,

Erguendo-me para as tropas retiradas da guerra,

Promulgando para eles as tarefas que tenho,

Para as mulheres legando certos sussurros de mim…

Para os rapazes meus problemas oferecendo, testando os músculos de seus cérebros (…)

Apaixonadamente (a morte fazendo-me realmente imorredouro),

O melhor de mim então, quando não mais visível,

No rumo daquilo para o que venho me preparando sem cessar.

(…) Haverá um singelo adeus final?

Cessam minhas canções, eu as abandono,

Por detrás da tela onde me escondo, avanço pessoalmente apenas para Ti.

Companheiro, este não é um livro,

Aquele que toca isto toca um homem (…)

Eu sou aquele que abraças e aquele que te abraça,

Eu salto de dentro destas páginas para dentro dos teus braços, a morte me chama.

(…) Sinto-me imerso da cabeça aos pés,

É delicioso, basta.

Basta, ó feito improvisado e secreto,

Basta, ó presente deslizante; basta, ó passado resumido.

Querido amigo, quem quer que sejas, leva este beijo,

Dou-o especialmente a ti, não me esqueças,

Sinto-me como aquele que realizou o seu trabalho durante o dia

E que se retira por um tempo,

Recebo agora novamente minhas muitas interpretações,

Meus avatares ascendendo, enquanto outros sem dúvida esperam por mim!

Uma esfera desconhecida mais real do que a que sonhei, mais direta,

Lança raios despertadores sobre mim, Até breve!

Lembra-te de minhas palavras, posso novamente retornar,

Amo-te, deixo a materialidade,

Sou eu desencarnado, triunfante, morto.

Canção da estrada aberta

1.

A pé e com o coração iluminado, adentro a estrada aberta,

Saudável, livre, o mundo adiante de mim,

A longa senda à minha frente, conduzindo-me para onde quer que eu escolha.

A partir de agora não peço mais pela boa sorte, pois eu mesmo sou a boa sorte,

A partir de agora abandono as lamúrias, não mais procrastino, de nada mais necessito,

Estou farto de reclamações entre quatro paredes,

Forte e satisfeito eu viajo pela estrada aberta.

A Terra é suficiente para mim,

Não desejo as constelações mais próximas,

Sei que estão muito bem no lugar em que estão,

Sei que são suficientes para aqueles que lá vivem.

Ainda assim, por aqui, eu carrego meus velhos fardos deliciosos,

Carrego-os, homens e mulheres, carrego-os comigo onde quer que eu vá,

Juro que é impossível deles me livrar,

Estou realizado por eles, e hei de realizá-los em troca.

2.

Tu, estrada em que me adentro, olhando ao meu redor,

Acredito que não sejas apenas o que se vê aqui,

Acredito que muito do que é invisível também esteja aqui.

Aqui está a profunda lição da receptividade, não a da preferência nem a da negação,

O negro, o criminoso, o enfermo, o analfabeto, não são discriminados,

O nascimento, a procura apressada por um médico, o passo lento do mendigo,

A tontura do bêbado, a festa alegre dos mecânicos,

O jovem foragido, a carruagem do rico, o almofadinha, o casal fugitivo,

O homem que madruga na feira, o carro funerário, a entrada da mobília na vila,

O regresso da cidade,

Tudo passa, eu passo também, qualquer coisa passa, nada é interditado,

Nada deixa de ser aceito, nada deixará de ser querido por mim.

3.

(…) Vós, caminhos desgastados nas perfurações irregulares dos acostamentos!

Acredito que sejais latentes e que possuís existências insondáveis…

Vós, calçadas das cidades! Vós, robustas sarjetas nas beiradas!

Vós, balsas! Vós, pranchas e postes das  docas!

(…)…………………………………………………..Vós, arcos!

Vós, pedras cinzentas de intermináveis pavimentos! Vós, cruzamentos pisados!

Tudo o que vos tocou, acredito que haveis compartilhado entre vós

E agora compartilharíeis o mesmo em segredo comigo,

De vivos e de mortos haveis impregnado de pessoas a vossa impassível superfície,

E os espíritos ali presentes seriam evidentes e amistosos para comigo.

4.

A Terra, expandindo-se para a direita e para a esquerda,

Cada uma de suas partes em sua mais fulgurante luz,

A música descendo sobre aqueles que a desejam e deixando de entrar

Nos locais em que não a desejam,

A voz animada da estrada pública, o sentimento alegre, fresco, dos caminhos.

Ó estrada principal, por ti viajo (…) não tenho medo de deixar-te e contudo te amo,

Tu te expressas melhor sobre mim do que eu mesmo,

Há de ser mais para mim que meus poemas.

Creio que todas as canções heróicas foram concebidas ao ar livre

E também todos os poemas livres,

Creio que eu poderia parar aqui mesmo e operar milagres,

Creio que amarei tudo o que encontrar pela estrada,

E todos os que me contemplarem hão de gostar de mim,

Creio que quem quer que eu veja terá de ser feliz.

5.

Desde agora ordeno que meu ser livre-se de limites e linhas imaginárias,

Posso ir a todos os lugares que imaginar, sou meu próprio mestre, total e absoluto,

Ouço o que me dizem os outros, reflito bem sobre o que eles dizem,

Paro, procuro, recebo, contemplo,

Gentilmente, mas com vontade inflexível, dispo-me das amarras que me limitariam.

Inalo grandes e espaciais correntes de ar,

O leste e o oeste são meus, e o norte e o sul são meus.

Sou maior e melhor do que eu pensava,

Não sabia que poderia conter em mim tanta bondade,

Tudo me parece maravilhoso,

Posso repetir e repetir para homens e mulheres: vós fizestes tanto bem a mim

E eu faria o mesmo por vós,

Recrutarei para mim e para vós na medida em que avanço,

Derramar-me-ei entre os homens e as mulheres na medida em que avanço,

Lançarei nova alegria e aspereza entre eles,

E se alguém me negar, isso não me incomodará,

Quem quer que me aceite, ele ou ela, há de ser abençoado e há de abençoar-me.

6.

Agora, se mil homens perfeitos tivessem de aparecer, isso não me espantaria,

Agora, se mil formas maravilhosas de mulher aparecessem, isso não me assombraria.

Agora, vejo o segredo de como produzir as melhores pessoas:

É o de crescer ao ar livre e de comer e de dormir com a terra.

(…) O teste final da sabedoria não se dá nas escolas,

A sabedoria não pode ser transmitida por alguém que a tem para quem não a possui,

A sabedoria pertence à alma, não é suscetível de provas, ela é a prova de si mesma,

Ela se aplica a todos os estágios e objetos e qualidades e seus conteúdos,

É a certeza da realidade e da imortalidade das coisas, e da sua excelência,

Algo que está nela, está na superfície e na visão das coisas,

De tal modo a provocar que venha para fora da alma.

Agora eu reexamino filosofias e religiões,

Elas podem ser eficazes nos salões de conferências e, contudo,

Não funcionar abaixo da vastidão das nuvens, e ao longo das paisagens

E das correntes que fluem.

(…) Apenas o núcleo de cada objeto pode nutrir;

Onde está ele, que remove as cascas por ti  e por mim?
Onde está ele, que desfaz estratagemas e envelopes por ti e por mim?

Aqui está a adesividade, ela não foi talhada previamente, ela é pragmática.

Sabes o que significa ser amado por estranhos?

Sabes o que dizem aqueles olhos que se voltam para ti?

7.

Aqui está a emanação da alma,

A emanação da alma vem de dentro, atravessando portões sombreados,

Que sempre provocam polêmica,

Esses anelos, por que existem? Esses pensamentos na escuridão, por que existem?

Por que há homens e mulheres que enquanto estão próximos a mim

Fazem-me sentir a luz do sol a expandir meu sangue?

Por que quando eles me deixam minhas flâmulas de alegria se abatem murchas?

Por que há árvores sob as quais nunca caminho e, contudo,

Fazem descer sobre mim grandes e melodiosos pensamentos?

(…) O que é isso que permuto tão de repente com estranhos?

O que se dá com o condutor quando me sento ao seu lado?

O que se dá com o pescador, puxando a sua rede na praia, quando passo e paro por ali?

O que me permite estar disponível para a boa vontade de uma mulher ou de um homem?

8.

A emanação da alma é a felicidade, e aqui está a felicidade,

Creio que ela se infiltra no ar livre, esperando em todas as eras,

Agora ela flui para nós, estamos dela carregados, certamente.

Aqui se ergue o fluido e o caráter que se prende a nós

(…) Em direção ao fluido e ao caráter que se prende a nós,

Aparece o suor do amor dos jovens e dos mais velhos,

Deles cai destilado o charme que ri da beleza e de tudo o que se obtém,

Em direção ao fluido e ao caráter as náuseas fazem estremecer

Com saudade do contato.

9.

Allons! Quem quer que sejas, vem viajar comigo!

Viajando comigo encontrarás o que nunca faz cansar.

A terra jamais se cansa,

Rude, silenciosa, incompreensível à primeira vista (…)

Não desanimes, persevera, há segredos divinos bem guardados,

Juro-te que há segredos divinos mais belos do que as palavras podem descrever.

Allons! Não devemos parar aqui,

Por mais doces que sejam os bens armazenados,

Por mais convenientes que sejam estas moradas, não devemos permanecer aqui,

Por mais aconchegante que seja este porto e por mais calmas que sejam estas águas

Não devemos ancorar aqui,

Por mais convidativa que seja a hospitalidade que nos cerca,

Não se nos permita que a recebamos além de alguns momentos.

10.

Allons! As seduções hão de ser maiores,

Navegaremos sem rumo por mares bravios,

Iremos até onde os ventos podem soprar, até onde as ondas se arrojam

E o veloz cavalo ianque pode correr a toda brida.

Allons! Com poder, liberdade, a terra, os elementos,

Saúde, desafio, alegria, auto-estima, curiosidade:

Allons! De todas as fórmulas! De vossas fórmulas, ó padres materialistas…

O cadáver bolorento bloqueia a passagem, o enterro não pode mais esperar.

Allons! Contudo esteja alerta!

Aquele que viaja comigo precisa do melhor sangue, tendões, resistência,

(…) Não venhas para cá se já usaste o melhor de ti,

Só podem vir os que tenham seus corpos doces e determinados (…)

11.

Ouve! Serei honesto contigo,

Não ofereço os velhos prêmios amáveis, contudo ofereço prêmios novos e ásperos…

12.

 

Allons! Atrás dos Grandes Companheiros, para pertencer a eles!

Eles também estão na estrada, são homens rápidos e majestosos,

são as mais grandiosas mulheres,

(…) Marinheiros de muitos navios, andarilhos de muitas milhas,
Habitués de muitos países distantes…

Confiantes nos homens e nas mulheres, observadores das cidades,

Aqueles que param para contemplar os botões, as conchas do mar,

Dançarinos de festas de casamento, beijadores de noivas,

Carinhosos condutores de crianças,

Soldados de revoltas, sentinelas de túmulos abertos, coveiros,

Viajantes de estações consecutivas, através dos anos, os anos curiosos,

Cada qual emergindo daquele que o precedeu,

A saber suas próprias etapas diversas…

Viajantes alegres com sua própria juventude, com sua masculinidade de barba bem feita

Viajantes com sua feminilidade, ampla, insuperável, satisfeita,

Viajantes com sua própria masculinidade ou feminilidade de idade avançada e sublime,

Idade avançada, calma, expandida, ampla como a orgulhosa largura do universo,

Idade avançada, fluindo livremente com a deliciosa liberdade da morte que se aproxima.

13.

 

Allons! Para aquilo que não tem fim tal como não teve início,

Vivenciando muito: caminhadas ao dia e o repouso à noite,

Fundindo tudo na viagem,

Vendo nada em lugar algum, a não ser aquilo que se pode alcançar e ultrapassar,

Não concebendo tempo algum (…)

Não vendo possessão alguma, mas sendo capaz de possuir tudo (…)

Carregando casas e ruas contigo, onde quer que vás (…)

Conhecendo o próprio universo como uma estrada, tantas quantas sejam as estradas…

Tudo se fraciona pelo progresso das almas,

Toda a religião, tudo o que é sólido, as artes, os governos,

Tudo o que era ou é aparente sobre o globo cai em nichos ou esquinas

perante a procissão das almas ao longo das grandes estradas do universo,

Do progresso das almas dos homens e das mulheres,

Ao longo das grandes estradas do universo (…)

Elas vão! Elas vão! Eu sei que elas vão! Mas não sei para onde vão,

Mas sei que vão na direção do melhor (…)

Fora do confinamento na escuridão! Fora de detrás das cortinas!

É inútil protestar, tudo conheço e exponho!

(…)Através do riso, da dança, do jantar, da ceia, das pessoas,

Dentro dos vestidos e dos ornamentos, dentro daquelas faces lavadas e aparadas

Contemplo um segredo silencioso de abominação e desespero (…)

Outro ser, um duplo de cada um, se esquiva e se esconde sempre mais (…)

A morte debaixo das costelas, o inferno debaixo do crânio,

Debaixo da casimira fina e das luvas, debaixo dos laços e das flores artificiais,

Mantendo-se dentro dos costumes, não falando uma única sílaba de si mesmo,

Falando de qualquer outra coisa, mas jamais de si mesmo.

14.

 

Allons! Através de lutas e guerras!

Do objetivo que foi estabelecido não se pode retroceder.

(…) Minha chamada é a chamada da batalha, eu nutro a rebelião ativa.

Aquele que caminha comigo deve estar bem armado,

Aquele que caminha comigo enfrenta uma dieta espartana,

Escassez, inimigos coléricos, deserções.

15.

Allons! A estrada está diante de nós!

Já a provei, com meus próprios pés eu a experimentei bastante, não te detenhas!

Deixe que o papel permaneça sobre a mesa, em branco, o livro fechado na prateleira!

Deixa que as ferramentas jazam na oficina! Deixa que o dinheiro fique sem ser ganho!

Deixa que a escola espere! Não te importes com o chamado do professor!

Deixa que o pregador pregue no púlpito!

Deixa que o advogado defenda a causa na corte e que o juiz interprete a lei.

Camarada, dou-te a minha mão!

Dou-te meu amor mais precioso que dinheiro,

Dou-te meu ser antes de pregar ou legislar;

Dar-me-ás o teu ser? Viajarás comigo?

Seremos unidos um ao outro enquanto vivos estivermos?

A AURA PERDIDA: pequena antologia baudelairiana

A perda da aura

“E então, vossa senhoria por aqui, meu caro? Vossa senhoria, num antro! Vossa senhoria, o bebedor de quintessências! Vossa senhoria, o degustador de ambrosia! Na verdade, há razão para que me surpreenda.”

“Meu amigo, você conhece meu terror de cavalos e veículos. Ainda há pouco, quando atravessava o boulevard, a passo ligeiro, e saltava a lama, em meio a esse caos movimentado aonde a morte chega a galope por todos os lados ao mesmo tempo, minha aura [auréole= auréola, halo], num movimento brusco, escorregou da minha cabeça para a sujeira do macadame. Não tive coragem de reavê-la. Julguei menos desagradável perder minhas insígnias do que me quebrarem os ossos. E depois, disse para mim mesmo, há males que vem para o bem. Posso agora passear incógnito, cometer baixezas, e me abandonar à canalhice, como um simples mortal. E eis-me aqui, igualzinho a você, como você vê!”

“Vossa Senhoria deveria ao menos anunciar essa aura, ou reclamá-la na delegacia.”

“Minha nossa! Não! Sinto-me bem aqui. Só você me reconheceu. Além disso, a dignidade me entedia. E ademais penso, e me alegro, que algum poeta de segunda categoria vai apanhá-la e colocá-la na cabeça descaradamente. Fazer alguém feliz, que júbilo! E sobretudo um felizardo que me fará rir! Pense em X, ou em Z! Então! Como será bizarro.!”

Ao leitor

A tolice, o erro, o pecado, a usura,

Ocupam nossos espíritos e trabalham nossos corpos,

E alimentam nossos amáveis remorsos,

Como os mendigos nutrem seus piolhos.

Nossos pecados são teimosos, nossos pesares são frouxos

Nós colocamos alto preço nas nossas confissões

E nós entramos alegremente no caminho lamacento

Crendo através de mil lágrimas lavar nossas nódoas

Sobre a almofada do mal é Satã Trismegisto

Quem embala longamente nosso espírito enfeitiçado

E o rico metal de nossa vontade

É todo volatilizado por esse sábio alquimista.

É o Diabo que possui os fios que nos movimentam!

Nos coisas repugnantes nós encontramos atrativos;

Cada dia para o Inferno nós descemos um passo,

Sem horror, através de trevas que fedem.

Assim como o devasso pobre que beija e suga

O seio martirizado de uma já gasta vadia,

Nós queremos de súbito um prazer clandestino

Que nós esprememos como uma velha laranja.

Espremida, fervilhante, como um milhão de vermes intestinais

Nos nossos cérebros farreia uma população de Demônios,

E, quando nós respiramos, a Morte nos nossos pulmões

Desce, rio invisível, com surdas queixas.

Se a violação, o veneno, a punhalada, o incêndio,

Não bordaram ainda seus aprazíveis desenhos,

O desígnio banal de nossos patéticos destinos,

É que nossa alma, infelizmente, muito pouco ousou.

Mas entre os chacais, as panteras, os linces,

Os símios, os escorpiões, os abutres, as serpentes,

Os monstros estridentes, uivadores, grunhidores, rastejantes,

No bestiário infame de nossos vícios,

Não há um mais disforme, mais desagradável, mais imundo!

Ainda que ele não se atreva a grandes gestos nem a grandes gritos,

Ele voluntariamente faria da terra um monturo

E numa bocejada engoliria o mundo;

É o Tédio! – O olhar carregado de uma lágrima involuntária,

Ele sonha cadafalsos fumando seu narguilé

Tu o conheces, leitor, esse monstro delicado,

Hipócrita leitor, meu semelhante, meu irmão!

Esboço de um epílogo para a segunda edição, 1861

Tranqüilo como um sábio e doce como um maldito…

Eu disse:

Eu te amo, ó minha tão bela, ó minha encantadora…

Quantas vezes…

Tuas devassidões sem afã e teus amores sem alma,

Teu gosto pelo infinito,

Que em tudo, no próprio mal se proclama,

Tuas bombas, teus punhais, tuas vitórias, tuas festas,

Teus subúrbios melancólicos,

Tuas pensões,

Teus jardins cheios de suspiros e de intrigas,

Tuas igrejas vomitando a reza musicada,

Teus desesperos infantis, teus jogos de velha louca,

Teus desencorajamentos;

E teus fogos de artifício, erupções de alegria,

Que fazem rir o céu mudo e tenebroso,

Teu venerável vício entremeado na seda,

E tua risível virtude, de olhar infortunado,

Doce, extasiando-se com o luxo que ele descortina…

Teus princípios salvos e tuas leis conspurcadas,

Teus altivos monumentos onde se agarram As Brumas.

Teus domos de metal os quais incendeia o sol,

Tuas rainhas do teatro com vozes encantadoras,

Teus alarmes, teus canhões, orquestra ensurdecedora,

Tuas mágicas calçadas altas como fortalezas,

Teus pequenos oradores, com exageros barrocos,

Pregando o amor, e ademais, teus esgotos cheios de sangue,

Se engolfando no Inferno como Orenocos,

Teus anos, teus bufões noviços com velhuscos hábitos

Anjos cobertos de ouro, de púrpura e de jacinto,

Ó vós, sede testemunhas de que cumpri meu dever

Como um perfeito alquimista e como uma boa alma.

Pois de cada coisa extraí a quintessência,

Tu me deste tua lama e eu fiz dela ouro.

O sol

Ao longo dos velhos arrabaldes, onde pendendo das mansardas

Persianas abrigam secretas luxúrias,

Quando o sol cruel atira setas redobradas

Sobre a cidade e os campos, sobre os tetos e os trigais,

Eu vou exercer solitário minha fantástica esgrima,

Farejando em todas as esquinas os acasos da rima,

Tropeçando em palavras como em calçadas,

Chocando-me às vezes com versos há muito tempo sonhados.

Esse pai benfeitor, inimigo da anemia,

Acorda nos campos os vermes como as rosas;

Faz evaporar-se o desassossego pelo céu,

E enche os cérebros e as colméias de mel.

É ele que rejuvenesce os aleijados

E os deixa alegres e doces como donzelas,

E ordena às colheitas crescerem e amadurecerem

No imortal coração que sempre deseja florescer!

Quando, como um poeta, ele desce às cidades,

Enobrece a categoria de coisas mais vis,

Introduz-se como um rei, sem alarde e sem criados,

Em todos os hospitais e em todos os palácios.

 

O  anoitecer ao crepúsculo

Eis a noite encantadora, amiga do criminoso;

Vem como um cúmplice, a passo de lobo; o céu

Se fecha lentamente como uma grande alcova,

E o homem impaciente se transforma em besta fera.

Ó noite, amável noite, desejada por aquele

Cujos braços, sem mentir, podem dizer: Hoje,

Nós trabalhamos! –É a noite que alivia

Os espíritos devorados por uma dor selvagem,

O sábio obstinado cuja testa entorpece,

E o operário curvado que retoma sua cama.

Entretanto demônios malsãos na atmosfera

Despertam pesadamente, como homens de negócios,

E arremessam qual petecas os postigos e os telheiros

Através dos clarões que açoitam o vento

O Meretrício se incendeia pelas ruas;

Como um formigueiro ele trama suas passagens;

Por toda parte ele estabelece um oculto caminho,

Assim como o inimigo que tenta um ataque surpresa;

Ele se desloca no seio da cidade de lama

Como um verme que rouba ao Homem o que ele come.

Escutamos aqui e ali as cozinhas a chiar,

Os teatros a ganir, as orquestras a roncar;

As mesas redondas, nas quais o jogo faz as delícias,

Se enchem de vadias e escroques, seus comparsas,

E os ladrões, que não têm trégua nem perdão,

Vão sem mais tardar começar seu ofício, eles também,

E forçar docemente as portas e os cofres

Para ter do que viver alguns dias e vestir suas senhoras.

Recolhe-te, minha alma, nesse grave momento,

E tapa tua orelha a esse bramido.

É a hora na qual as dores dos doentes se agudizam!

A escura Noite os sufoca; vai findando

Seus Destinos e levando-os para o abismo comum;

O hospital se enche de seus suspiros. –Mais de um

Não virá mais atrás da sopa aromática,

No canto do fogo, ao entardecer, perto de uma alma irmã.

Ademais a maior parte deles jamais conheceu

A doçura do lar e jamais tinha vivido!

A uma passante

A rua ensurdecedora em torno de mim ululava.

Alta, delgada, enlutada, dor majestosa,

Uma mulher passa, com mão suntuosa,

Erguendo, ajeitando, a grinalda e a bainha;

Ágil e nobre, com sua perna de estátua.

Eu, eu bebia,crispado como um perdulário,

No seu olhar, céu lívido onde aflora o furacão,

A doçura que fascina e o prazer que mata.

Um relâmpago… depois a noite! –Fugitiva beldade

Cuja mirada me fez subitamente renascer,

Não te verei mais senão na eternidade?

Alhures, bem longe daqui! Talvez nunca!

Pois eu ignoro onde tu foste, tu não sabes aonde vou,

Ó tu que eu teria amado, ó tu que o sabias!

O cisne A Victor Hugo

Andrômaca, penso em ti! O pequeno rio,

Pobre e triste espelho onde outrora resplendeu

A imensa majestade de tuas dores de viúva,

Este enganador Simeonte que tuas lágrimas encheu

Fecundou de súbito minha memória fértil,

Quando eu atravessava o novo Carrossel.

A velha Paris não mais existe (a forma de uma cidade

Muda mais depressa, infelizmente!,  que o coração de um mortal);

Vejo apenas na mente todo esse campo de barracos,

Essa pilha de capitéis esboçados e de colunas,

A relva, os grandes blocos esverdeados pela água das poças,

E, brilhando nos ladrilhos, o ferro velho misturado.

Ali se expunha outrora uma feira de animais,

Ali eu vi, uma manhã, à hora na qual sob os céus

Frios e claros o Trabalho desperta, quando o lixo

Levanta um escuro furacão no ar silencioso,

Um cisne que havia fugido do seu gradil,

E, patas espalmadas arranhando a calçada seca,

No solo aplainado arrastava sua branca plumagem,

Perto de um regato ressecado o bicho abrindo seu bico,

Banhava nervosamente suas asas na poeira,

E dizia, o coração cheio de seu belo lago natal:

“Água, quando cairás? Quando soarás, trovão?”

Eu vejo este desafortunado, mito estranho e fatal,

Para o céu, às vezes, como o homem de Ovídio,

Para o céu irônico e cruelmente azul,

Sobre seu pescoço convulsivo erguida sua cabeça ávida,

Como se dirigisse censuras a Deus!

II

Paris muda! Mas nada na minha melancolia

Alterou-se! Novos edifícios, andaimes, blocos,

Velhos subúrbios, tudo para mim torna-se alegoria,

E minhas recordações são mais pesadas que rochas.

Também diante do Louvre uma imagem me oprime;

Penso em meu grande cisne, com seus gestos frenéticos,

Como os exilados, ridículo e sublime,

E roído de um desejo sem trégua! E em seguida em ti,

Andrômaca, dos braços de um grande esposo tirada,

Vil gado, sob o jugo do soberbo Pirro.

À beira de um túmulo vazio em êxtase curvada;

Viúva de Heitor, que lástima!, e mulher de Heleno!

Penso na mulher negra, emagrecida e tísica,

Chapinhando na lama, e procurando, o olhar desvairado,

Os coqueiros ausentes da soberba África,

Por trás da muralha interminável da neblina.

Em qualquer um que perdeu e não recuperou

Nunca, nunca! Nesses que embebem de lágrimas

E mamam a Dor como uma boa loba!

Nos magros órfãos fenecendo como flores!

Assim na floresta onde meu espírito se exila,

Uma velha Reminiscência como um forte sopro do corne!

Penso nos marinheiros esquecidos numa ilha,

Nos prisioneiros, nos derrotados!…e em outros mais ainda!

Sonho parisiense

I

Dessa terrível paisagem,

Tal que nenhum mortal jamais viu,

Esta manhã ainda a imagem,

Vaga e longínqua, me arrebata.

O sono é cheio de milagres!

Por um capricho singular,

Eu havia banido desses espetáculos

O vegetal irregular.

E, pintor orgulhoso do meu gênio

Eu saboreava na minha tela

A embriagante monotonia

Do metal, do mármore e da água.

Babel de escadas e arcadas,

Era um palácio infinito,

Cheio de tanques e cascatas

Precipitando-se sobre ouro baço ou brunido;

E cataratas lentas

Como cortinas de cristal

Suspendiam-se, resplandecentes,

Por muralhas de metal.

Não árvores, mas colunas

Os tanques imóveis circundavam,

Onde gigantescas naiâdes,

Iguais às mulheres, se miravam.

Lençóis de água abundando, azuis,

Entre cais rosas e verdes,

Seguindo milhões de léguas

Até os confins do universo.

Havia pedras inauditas

E ondas mágicas; havia

Imensos espelhos ofuscados

Por tudo que elas refletiam.

Negligentes e taciturnos

Ganges, no firmamento,

Vertiam o tesouro de suas urnas

os abismos de diamante.

Arquiteto das minhas feéricas fantasias,

Eu fazia, a meu bel prazer,

Sob um túnel de pedrarias

Passar um oceano represado;

E tudo, mesmo a cor negra,

Parecia polido, claro, irisado;

O líquido engastava sua glória

No raio cristalizado.

Nem astro de alhures, nem vestígios

Do sol, mesmo no baixo céu,

Para iluminar esses prodígios

Que brilhavam com um fogo próprio!

E sobre essas movediças maravilhas

Pairava (terrível novidade!

Tudo para o olhar, nada para os ouvidos!)

Um silêncio de eternidade.

II

Reabrindo meus olhos em febre

Eu vi o horror do meu muquifo

E senti, entrando em minha alma

A pontada de desassossegos malditos.

O pêndulo com acentos fúnebres

Anunciava brutalmente o meio-dia

E o céu vertia trevas

Sobre o triste mundo embotado.

Uma carniça

Lembra-te da coisa que nós vimos, minha amada

Uma bela manhã de verão tão doce:

Na curva de uma vereda uma carniça infame

Num leito semeado de seixos.

De pernas pro ar, como uma mulher safada,

Destilando e suando miasmas,

Abria de maneira desleixada e cínica

Seu ventre cheio de exalações.

O sol brilhava sobre tal podridão,

Como querendo cozê-la ao ponto

Para dar multiplicado à Grande Natureza

Tudo o que num conjunto ela reunira.

E o céu olhava a carcaça soberba

Como uma flor a desabrochar,

O fedor era tão forte que, sobre a relva,

Tu crias desfalecer.

As moscas zumbiam sobre o ventre pútrido,

De onde saíam negros batalhões

De larvas que corriam como um espesso líquido

Ao longo desses vivos andrajos.

Tudo isso descia, subia, como uma onda,

Que espumava cintilando,

Dir-se-ia que o corpo, inflado por um sopro vago,

Vivia multiplicando-se.

E o mundo tocava uma estranha música

Como água corrente e vento,

Ou o grão que o peneirador com movimentos ritmados

Agita e repousa em sua peneira.

As formas se desfaziam e não eram mais que um sonho.

Um esboço lento a se delinear,

Sobre a tela esquecida, e que o artista acaba

Apenas de memória.

Atrás das rochas uma cadela inquieta

Nos fixava um olho irado

Vigiando o momento de reaver no esqueleto

O bocado que ela havia largado.

-E portanto tu serás semelhante a essa porcaria,

A essa horrível infecção,

Estrela de meus olhos, sol da minha natureza,

Tu, meu anjo e minha paixão!

Sim! Isso é o que serás, ó rainha das Graças,

Após os últimos sacramentos,

Quanto tu irás, sob a relva e as florações espessas,

Mofar em meio às ossadas.

Então, ó minha bela! Digas ao verme

Que te devorará de beijos

Que eu guardei a forma e a essência divina

De meus amores decompostos!

A musa doente

Minha pobre musa, que lástima, que tens esta manhã?

Teus olhos ocos são povoados de visões noturnas,

E eu vejo alternadamente refletidos na tua tez

A loucura e o horror, frios e taciturnos.

O súcubo esverdeado e o rosado duende

Teriam vertido a medo e o amor de suas urnas?

O pesadelo, com um punho despótico e revoltoso,

Teria te afogado no fundo de um fabuloso Minturnas?

Queria eu que exalando o odor da saúde

Teu íntimo de pensamentos fortes fosse sempre freqüentado

E que o sangue cristão corresse em ondas rítmicas,

Com os sons numerosos das sílabas antigas,

Onde revivem alternadamente o pai das canções,

Febo, e o Grande Pan, o senhor das colheitas.

O albatroz

Freqüentemente, para se divertir, os homens da equipagem

Pegam albatrozes, vastos pássaros dos mares,

Que seguem, indolentes companheiros de viagem,

O navio que desliza por abismos amargos.

Tão logo eles o largam sobre o convés

Esse rei do azul, desengonçado e envergonhado,

Largando lastimosamente suas grandes asas brancas

Como remos arrastados pelos lados.

Esse viajante alado, como é desajeitado e molenga!

Ele, há pouco tão belo, agora cômico e disforme!

Um, açula seu bico com um cachimbo,

Outro, imita, coxeando, o enfermo que antes voava!

O poeta é semelhante ao príncipe das nuvens

Que persegue a tempestade e se ri do arqueiro,

Exilado no solo em meio à balbúrdia,

Suas asas de gigante o impedem de andar.

 

 

 

O letes

Vens direto em meu coração, amada cruel e indiferente,

Tigre adorado, monstro de ar indolente;

Quero por muito tempo mergulhar meus dedos trêmulos

Na espessura de sua juba pesada;

Nas tuas anáguas encharcadas de um perfume

Sepultar minha cabeça dolorida,

E respirar, como uma flor murcha,

O doce ranço do meu amor defunto.

Quero dormir! Dormir de preferência a viver!

Num sono tão doce como a morte,

Eu espalharei meus beijos sem remorso

Sobre teu belo corpo polido como o cobre.

Para engolir meus soluços apaziguados

Nada se compara ao abismo do teu leito;

O esquecimento potente habita teus lábios,

E o Letes corre nos teus beijos.

A meu destino, doravante minha delícia,

Obedecerei como um predestinado;

Mártir submisso, inocente condenado,

Cujo fervor provoca o suplício,

Sugarei, para afogar meu rancor,

O elixir contra a tristeza e a boa cicuta

Nas arestas encantadoras desse colo ferino

Que nunca abrigou um coração.

A viagem A Maxime du Camp

I

Para a criança, apaixonada por mapas e estampas,

O universo é igual ao seu vasto apetite.

Ah! Que o mundo é grande à luz da lamparina!

Sob o olhar da memória o mundo é pequeno!

Uma manhã nós partimos, o cérebro cheio de ardor,

O coração repleto de rancor e desejos amargos,

E prosseguimos, seguindo o ritmo da lama

Embalando nosso infinito no finito dos mares:

Uns, jubilosos de fugir de uma pátria infame;

Outros, do horror de seus lares natais, e outros ainda,

Astrólogos afogados no olhar de uma mulher,

Circe tirânica com perigosos perfumes.

Para não serem transformados em bestas, embriagam-se

De espaço e de luz e de céu abrasados,

O gelo que os aguilhoa, o sol que os bronzeia,

Apagando lentamente a marca dos beijos.

Mas os verdadeiros viajantes são somente aqueles que partem

Por partir, corações ligeiros, semelhantes a balões,

De sua predestinação jamais se desviam.

E, sem saber por que, dizem sempre: Avante!                             !

Aqueles cujos desejos têm a forma de nuvens,

E que sonham, como um alistado, com o canhão,

Vastas volúpias, cambiantes, desconhecidas,

E das quais o espírito humano não sabe jamais o nome!

II

Nós imitamos, que horror!, o pião e a bola

Na sua valsa e seus pulos; mesmo na inconsciência

A Curiosidade nos atormenta e nos faz revirar

Como um anjo cruel que vergasta sóis.

Singular destino cuja meta se desloca

Não estando em nenhuma parte, talvez nem importando onde esteja!

Na qual o Homem, que nunca perde a esperança,

Para encontrar o repouso corre como um louco!

Nossa alma é uma embarcação procurando sua Icária;

Uma voz ecoa na ponte: “Abre os olhos”!

Uma voz na gávea, ardente, desvairada, grita:

“Amor…glória…felicidade!” que Inferno! É um escolho.

Cada ilhota avistada pelo vigia

É um Eldorado prometido pelo Destino;

A imaginação que enfeita sua orgia

Não encontra senão um recife na claridade da manhã.

Ó, o pobre desejoso por países quiméricos!

É necessário colocá-lo a ferros, jogá-lo ao mar,

Esse marinheiro ébrio, inventor de Américas,

Cuja miragem torna o abismo mais amargo!

Tal qual o velho vagabundo, lastimosamente na lama,

Sonha, nariz pro alto, com brilhantes édens;

Seu olhar iludido descobre uma Cápua

Onde a vela ilumina apenas um antro.

III

Assombrosos viajantes! Que nobres histórias

Lemos em vossos olhos profundos como os mares!

Mostrai os escrínios de vossas ricas memórias,

Essas jóias maravilhosas, compostas de astros e éters.

Nós vamos viajar sem vapor e sem vela!

Fazei, para alegrar o tédio de nossas prisões,

Passar por nossos espíritos, pendurados como uma tela

Vossas Lembranças com suas molduras de horizontes.

Dizei, o que vistes?

IV

“Nós vimos astros

E ondas; nós vimos areais também;

E, apesar de choques e de imprevistos desastres

Nós nos sentimos freqüentemente entediados, tal como aqui.

A glória do sol sobre o mar violeta,

A glória das cidades ao pôr-do-sol,

Acenderam em nossos corações um ardor inquieto

De mergulhar num céu de reflexo sedutor.

As mais ricas cidades, as mais imensas paisagens,

Jamais continham o atrativo misterioso

Daquelas que o acaso compunha com nuvens

E sempre o desejo nos deixava em desassossego!

Gozar ao desejo acrescenta a força.

Desejo, velha árvore à qual o prazer serve de adubo,

Enquanto engrossa e endurece sua casca,

Teus ramos querem ver o sol mais de perto!

Crescerás sempre, grande árvore mais vistosa

Que o cipreste? –Porém nós temos, com desvelo,

Colhido alguns croquis para vosso ávido álbum,

Irmão que considerais belo o que vem de longe!

Nós temos saudado ídolos com trompa,

Tronos constelados de jóias luminosas;

Palácios lapidados cuja feérica pompa

Seria para vossos banqueiros um sonho de ruína.

Costumes que som para os olhos uma embriaguez;

Mulheres cujos dentes e unhas são tingidos,

E jograis sábios que a serpente acaricia.”

V

E depois? E depois ainda?

VI                            “Ó cérebros pueris!

Para não esquecer a coisa essencial,

Vimos por toda parte, e sem haver buscado,

De alto a baixo da escada fatal,

O espetáculo tedioso do imortal pecado.

A mulher, escrava vil, orgulhosa e estúpida,

A sério adorando a si mesma e se amando sem desgosto,

O homem, tirano, glutão, libertino, rígido e ganancioso,

Escravo do escravo e valeta de esgoto.

O carrasco que desfruta, o mártir que lamenta,

A festa que condimenta e perfuma o sangue;

O veneno do poder obcecando o déspota,

E o povo enamorado pelo chicote embrutecedor.

Muitas religiões semelhantes à nossa,

Todas escalando o céu; a Santidade,

Tal qual num leito de plumas um delicado se chafurda,

Nos pregos e nas cerdas buscando a volúpia.

A Humanidade indiscreta, embriagada do seu gênio,

E, louca hoje como o foi outrora,

Clamando a Deus, na sua furibunda agonia:

“Ó meu semelhante, ó meu criador, eu te amaldiçôo”!

E os menos tolos, temerários amantes da Demência,

Fugindo ao grande rebanho encurralado pelo Destino,

E refugiando-se no vasto ópio!

–Tal é do Globo inteiro o eterno noticiário.”

VII

Amarga sabedoria, aquela que se extrai da viagem!

O mundo, monótono e pequeno, hoje,

Ontem, amanhã, sempre, nos faz ver nossa imagem:

Um oásis de horror num deserto de tédio!

É necessário partir? Ficar? Se tu podes ficar, fica;

Parte, se é necessário. Um corre, outro se esconde,

Para enganar o inimigo vigilante e funesto,

O Tempo! Há, infelizmente, que se correr sem repouso

Como o Judeu Errante e como os Apóstolos

Aos quais nada foi suficiente, nem vagão nem naves,

Para fugir ao Gladiador infame; e há outros

Que sabem matá-lo sem deixar a terra natal.

Quando enfim ele finca o pé sobre nossa espinha

Nós podemos esperar e gritar: “Avante!”

Assim como de outra feita nós partíamos para a China,

Os olhos fixos na distância e os cabelos ao vento,

Nós navegávamos no mar das Trevas,

Com o coração entusiasmado de passageiro jovem,

Escutando essas vozes encantadoras e funestas,

Que cantavam: “Por aqui! Vós que quereis comer

O Lótus perfumado! É aqui a vindima

Dos frutos miraculosos de que vosso espírito tem fome;

Viestes embriagar-vos da doçura estrangeira

Dessa sesta que não tem fim?”

De um sotaque familiar se adivinha o espectro:

Nosso Pílades ali adiante tem os braços aberto para nós.

“Para refrescar teu coração nada até tua Electra!”

Diz ela da qual outrora beijávamos os joelhos.

VIII

Ó Morte, velho capitão, é tempo! Levantemos a âncora!

Este país nos entedia, ó Morte! Equipemos!

Se o céu e o mar são negros como nanquim,

Nossos corações que tu conheces são inundados por lampejos!

Verte-nos teu veneno para que ele nos reconforte!

Queremos, tanto este fogo nos incendeia o cérebro,

Mergulhar no fundo do abismo, Inferno ou Céu, que importa?

No final do Desconhecido para encontrar O NOVO.

EPILOGO , em Spleen de Paris (pequenos poemas em prosa)

Coração contente, subi a montanha

De onde se pode contemplar a cidade em sua complexidade,

Hospital, lupanar, purgatório, inferno, prisão,

Onde toda enormidade floresce como flor.

Tu sabes bem, ó Satã, senhor do meu desespero,

Que por lá não ia espalhar um pranto vão;

Mas, como um velho lascivo de uma velha amante,

Queria me inebriar da enorme prostituta

Cujo encanto inffernal me rejuvenesce sem cessar.

Se tu dormes ainda nos lençóis da manhã,

Pesada, sombria, resfriada, ou se tu te pavoneias

Nos véus da noite com a passamanaria em ouro fino,

Eu te amo, ó cúpida capital! Cortesãs,

E bandidos, como tais ofereceis prazeres

Que não compreendem os profanos vulgares.

 

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