MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/03/2010

A PERSPECTIVA DOS ESPELHOS

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O PÁSSARO DA JUVENTUDE (doce?!)

“Uma mulher como eu não teria coragem de terminar? Vamos, vamos, já tivemos o suficiente, minha bela, para nossa casta. Contemplava a magnífica Léa de pé, mãos nas cadeiras, que lhe sorria.

        Uma mulher assim não termina nos braços de um velho. Uma mulher assim, que teve a sorte de nunca sujar as mãos nem a boca com uma criatura decrépita! Sim, aí está ela, a vampira que só quer carne fresca.

      Chamou em sua memória os namorados e amantes de sua juventude preservada de velhos, e viu-se pura, altiva, devotada havia 30 anos a moçoilos radiosos ou adolescentes frágeis (….)

     Bolas! Adeus a tudo, é o mais apropriado. Vamos comprar um baralho, um bom vinho, fichas de bridge, agulhas de tricô, todos os bibelôs necessários para vedar uma grande caverna, tudo que é necessário para disfarçar o monstro: a mulher velha…”

“Sinto em mim a perspectiva dos espelhos” (Chérie, de Colette)

Não sou muito fã da primeira reunião entre o diretor Stephen Frears e Michelle Pfeiffer, Ligações Perigosas. Acho que ela é o grande destaque do filme. A adaptação de Christopher Hampton é dinâmica, mas superficial, “ligeira” demais, acentuando o aspecto vaudevillesco presente no livro de Laclos, o que é acentuado pela direção de Frears (cuja produção é muito irregular). E a dupla central, Glenn Close & John Malkovitch, deixa muito a desejar. Ele, na minha opinião (ainda mais comparando com a interpretação de Colin Firth do mesmo personagem, Valmont, dirigido por Milos Forman), é um desastre, com suas caras e bocas, seu andar afetado, sua ridícula “aura” de sedutor consumado. A grande Glenn Close, por sua vez, está em certos momentos ótima como megera ou como mulher vingativa, perversa e ressentida (e, no final, há um grande close dela),  porém muitas vezes ela está também na base da interpretação burlesca e careteira, e é ainda mais difícil de engolir como “femme fatale”, grande sedutora.

Frears & Pfeiiffer se reúnem em outra adaptação literária, outro filme de época: CHÉRI, um romance da hoje em dia meio esquecida Colette  (1873-1954), que teve muita influência na primeira metade do século passado, com seu ciclo sobre a heroína Claudine e o romance A vagabunda. Assim como Gide e Proust (guardadas as devidas proporçoes entre este, um visionário , tirante seu apego ao mundanismo, e todos os outros que eu pssa citar), ela herdou aquela perspectiva balzaquiana da sociedade, mas numa clave mais intimista. Ela pertence àquele grupo de autores (o próprio Proust, Oscar Wilde,  certo Tolstói, certo Thomas Mann, o Eça final,  Henry James, Edith Wharton, para lembrar alguns) tão encharcados de mundanismo que muita gente hoje em dia acha muito recôndito, muito elitista, “ultra-civilizado” em demasia,  para que eles tenham algum interesse para o leitor atual (o que é uma pena, pois se trata de uma leitura superficial).

A atmosfera dessa novela (é uma pequena narrativa, com cerca de 170 páginas na edição brasileira, publicada pela Record e traduzida por André Telles) é toda huis clos, com  poucos ambientes e poucos personagens, uma sociedade muito restrita, composta basicamente de cortesãs aposentadas ou a ponto de, sua criadagem, seus agregados e amantes. Trata-se de um mundo em que o vestuário, os objetos, as jóias, são tão importantes para os personagens quanto seus sentimentos. Léa usa uma roupa marrom e, dolorosamente, evoca o amante perdido: “ele, que nunca foi  capaz de  suportar o marrom”; ele, por sua vez, elogiando a antiga mentora: “Essa mulher, meu velho, quando está com o chapéu apropriado (…) pode colocar qualquer outra mulher de lado, ninguém lhe chega aos pés”.  Ou ainda, para reforçar essa materialidade mundana e ultra-civilizada, ainda que não necessariamente sofisticada: “Tenaz, incisivo, mistura de flores intensas e madeiras exóticas, o perfume de Chéri circulava”.

É uma linguagem bem “francesa”, com muita auto-inspeção dos personagens, examinando os próprios sentimentos, muitas formulações que parecem silogismos filosóficos e muitas réplicas, que mostram o universo “venenoso” e dúbio em que as personagens se movem. Afinal, as duas personagens femininas centrais mantêm uma “amizade rancorosa de rivais à espreita da primeira ruga e do primeiro fio de cabelo branco”. Eis algumas réplicas:

“Mme. Peloux- Você sabe, quando um Peloux volta a sua casa depois da devassidão, não sai mais de novo.

Léa- É uma tradição de família?”

 

“Mme. Peloux- Você sabe como lido com fofocas!

Léa- Ninguém sabe melhor do que eu”

 

“Mme. Peloux- Anda a tricotar?

Léa- Ainda não, mas vai acontecer”

Hoje em dia podemos ler superficialmente Chéri (publicado em 1920) como algo recôndito, quase exótico, com suas cortesãs ricas, que moram em mansões e vivem à larga, com motoristas e criadagem. Léa de Lonval, a protagonista, é uma lenda entre elas. Aos 49 anos “encerrava uma bem-sucedida carreira”, poupada pela vida “das catástrofes lisonjeiras e das mágoas nobres”. Seus deuses são “o amor e o dinheiro”.

Chéri, ou Fred, é o filho de uma ex-rival, a venenosa Charlotte Peloux (no filme, a grande Kathy Bates; no texto é descrita com uma megera com voz trombeteante  e cujos olhos “não exprimiam senão a suspeita, a atenção indiscreta e implacável“), e fez sua educação sentimental com Léa: dos 19 aos 25 anos foi seu amante, ele que é um ai-jesus da mulherada, cobiçado por todas : “ser belo a esse ponto é uma nobreza”, diz Léa a respeito dele, mesmo achando-o muitas vezes bruto, burro, e sobretudo vendo os aspectos vulgares herdados da mãe (além da avareza): “Aqueles langores da tarde davam-lhe asco. Nunca seu jovem amante a surpreendera desarrumada, nem com o espartilho aberto, nem de chinelos durante o dia. Numa, se quiserem, dizia ela, mas nunca desmazelada. Pegou de volta seu jornal ilustrado e não o leu. Ponha essa mãe Peloux e seu filho, pensava, diante de uma mesa farta ou leve-os para o campo e pronto, a mãe tira o sutiã e o filho o colete. Naturezas de donos de botequim em férias. Ergueu os olhos rancorosos para o dono de botequim incriminado e viu que ele dormia, os cílios pousados sobre suas faces brancas, a boca fechada. O arco delicioso do lábio superior, iluminado por baixo, retinha em seu topo dois pontos de luz prateada, e Léa admitiu que ele se parecia mais com um Deus do que com um vinhateiro.”

    Chéri não é nenhum Julien Sorel. Ele é rico (todo mundo é rico, no texto), mas tem alma de gigolô: “alguém é gigolô quando possui 300 mil francos de renda. Isso não depende da cifra, depende da mentalidade. Existem indivíduos a quem se poderia dar meio milhão e que nem por isso seriam gigolôs… Mas Chéri? E no entanto nunca lhe dei dinheiro… Mesmo assim…”

Quando a narrativa começa, mme. Peloux está planejando o casamento do filho. A partir daí, começa a imperar a “perspectiva dos espelhos” para Léa; curiosamente, tanto no começo quanto no fim, são os espelhos que marcam a situação dos personagens; no início é Chéri quem se contempla: “Achava-se em frente a um espelho comprido… e contemplava sua bela imagem de adolescente, nem alto nem baixo, cabelo azulado como a penugem de um melro. Abriu o pijama e exibia um peito fosco e duro, abaulado como um escudo…” etc, etc; no final, é a própria Léa, mas não antecipemos).

Ao se consumar a sua separação de Chéri,  percebe que o amava bem mais do que pretendia e até supusera, e o mimado rapaz se transforma numa espécie de anjo da morte, um pouco como o Tadzio de Morte em Veneza, de Thomas Mann, ou seja, o apelo final de Eros,  a apoteose de uma vida, após a qual virá o inevitável declínio.

O próprio Chéri, sem saber, faz um diagnóstico perfeito do destino da amante, mesmo antes da separação: não ligo a mínima para o fato de não ter sido seu primeiro amante! O que eu gostaria, ou melhor, o que teria sido… conveniente…limpo…seria ter sido o último”. Aliás, essa fala está em um passo magnífico do texto, em que se misturam o tom ferino que rege as relações entre as personagens, a dor escamoteada da separação (mas ainda muito exangue e pálida perto do que virá depois) e  a confirmação da percepção de Léa, de que ela e Chéri têm uma ligação em que “não falam a mesma língua”. Ela joga na cara o dinheiro que gastou com ele, e que ele economizou do próprio dinheiro (“Então não valho isso?”,o vaidoso moçoilo replica), e ele diz que ela devia cumprir seu papel na comédia: “Você, a vítima. Você, o personagem simpático da coisa, uma vez que eu a estou dispensando”. Ao que ela retruca ironicamente: “Ora, meu querido, não tenho a intenção de mudar nada em minha vida. Durante uma semana, continuarei a encontrar em minhas gavetas um par de meias, uma gravata, um lenço… E quando digo uma semana… são muito bem-arrumadas, você sabe, minhas gavetas. Ah! Vou mandar reformar o banheiro.” Vendo a expressão dele, de desgosto, por ela não demonstrar o sentimento de vítima de um cataclismo (o que ela será de fato, mas as aparências…, o jogo de poder que existe em cada relação): “Não ficou satisfeito? Queria o quê? Que eu voltasse para a Normandia para esconder meu sofrimento? Que eu emagrecesse? Que não tingisse mais os cabelos? Que mme. Peloux acorresse à minha cabeceira?

      Imitou a trombeta de mme. Peloux abanando os antebraços: A sombra de si mesma!A sombra de si mesma! A infeliz envelheceu 100 anos! 100 anos! Era isso que você queria?

     Ele a escutara com um sorriso abrupto e um frêmito das narinas que talvez fosse emoção: Sim.”

É interessante experiência de ler essa lapidar autópsia de sentimentos  num momento em que o sucesso de um filme “alto astral” como Simplesmente complicado (dirigido por Nancy Meyers, que também utilizou a mesma fórmula em Alguém tem que ceder) representa um auge na valorização da mulher madura, reflexo da emancipação feminina de vários tabus e preconceitos, pelo menos em certa faixa social.  Chéri é um registro definitivo daquela mentalidade patriarcal em que o destino da mulher mais velha é a solidão e o recolhimento, por mais sombrios que sejam, ou o ridículo e o escândalo. Seu relacionamento era, na verdade, de amante-mãe, todo em estufa, visando protelar o momento em que o amado-filho cairá no mundo, e só restará o vazio, o tricô, as fofocas e a troca de farpas em meio a uma mulherada que só tem passado, e nenhum futuro. Por isso mesmo, poucas cenas são mais patéticas do que aquela em que, após um idílio fugaz com Chéri, Léa se vê abandonada definitivamente por ele, que desce a escada da mansão dela e pára “no meio do pátio. Ele está voltando! Ele está voltando!, ela gritou, erguendo os braços. Uma velha ofegante repetiu, no espelho oblongo, seu gesto, e Léa perguntou-se o que ela podia ter em comum com aquela louca”.

Seria uma inverdade afirmar que essa “perspectiva dos espelhos” não assombra mais as mulheres. Ela só adquiriu novas formas de pressão e tortura.

(uma versão da resenha acima foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 09 de março de 2010)

04/03/2010

PRECIOSA

“Ela conhecia ligeiramente a estação da estrada de ferro. Era um lugar que ela gostava de visitar, pois lembrava-lhe a velha África,  os dias de desconforto nos trens apinhados, as viagens vagarosas de travessia das grandes planícies, ou a cana-de-açúcar que se costumava chupar para o tempo passar mais rápido, ou o bagaço da cana que se costumava cuspir para fora das amplas janelas. Aqui ainda era possível ver essa velha África, ou uma parte dela, aqui, onde os trens que vinham do Cabo passavam devagar diante da plataforma em sua viagem via Botsuana para Bulawayo; aqui, onde as lojas indians ao lado dos prédios da estação continuavam a vender cobertores baratos e chapéus para homens com uma pena espalhafatosa enfiada na fita.

     Mma. Ramotswe não queria que a África mudasse. Não queria que seu povo se tornasse igual a qualquer outro, desalmado, egoísta, esquecido do que significa ser africano, ou, pior ainda, envergonhado da África…”

“Tudo aquilo era útil, da primeira à última linha, quer tratasse dos previsíveis discursos dos políticos, quer das notícias da igreja. Nunca se podia saber quando algum conhecimento local se tornaria útil.”

Além das suas qualidades como tramas policiais e como ficção pura e simplesmente, os livros de Agatha Christie enfocando Miss Marple têm, sobretudo, charme (os de Poirot também, evidentemente). Esse foi um dos fatores que me irritaram na leitura de O clube filosófico dominical: tudo era prosaico, sem graça, não havia charme. No entanto, que diferença encontramos em outro livro de Alexander McCall Smith, Agência número 1 de mulheres detetives (1998). Não sei como qualificá-lo dentro da ficção ou do gênero policial, não sei se ele é um ótimo livro, porém ele tem charme, assim como sua heroína, a deliciosa Preciosa Ramotswe, uma africana da gema que, aos 34 anos, resolve ser a primeira mulher-detetive de Botsuana, após cuidar do pai durante 14 anos, até sua morte (ela havia sido abandonada pelo marido, que a espancava, e seu filho só vivera por alguns dias). A descrição dos detalhes concretos, de como ela usa sua herança para montar a agência e a casa onde mora, a contratação da secretária, as reflexões de Mma. Ramotswe, os casos que ela investiga, tudo é muito revelador de uma curiosa característica de McCall Smith que é muito presente também no livro de Edimburgo (ver post abaixo), mas que ali desandava: ele tem uma visão muito prosaica da vida, da sociedade e das relações. Sua detetive chega a ser simplória e singela. E isso cai como uma luva. Mesmo porque o livro é muito discreto com relação ao que poderíamos chamar de “investigações”. Já notara (embora ele seja posterior) a falta de fôlego evidente em O clube filosófico dominical. Não se tinha um romance ali, de jeito nenhum. E também não temos um romance, no sentido convencional, em Agênica número 1 de mulheres detetives. O que temos é um livro de contos disfarçado numa narrativa mais geral, uma série de anedotas meio que frouxamente reunidas, porém tão saborosas em si mesma, e com o mesmo denominador comum, que é Mma. Preciosa Ramotswe, que não consigo ver a falta de fôlego como uma falha, e sim um elemento da visão de mundo de McCall, que não sei porque se perdeu na passagem de Botsuana para Edimburgo.

Há um caso que atravessa uma boa parte do livro (o menino que é sequestrado,  e que parecia ter sido vítima de feiticeiros–há até a descoberta de um dedo que poderia ser dele, porém ele não foi sacrificado em nenhum ritual:era utilizado como um escravo, sendo resgatado por Preciosa Ramotswe). De resto, temos a história de como a agência foi criada, a história do pai dela, do seu casamento com o marido que não vale nada (que a tornará refratária às propostas de casamento, até o final inesperado), e a investigação de 7 casos prosaicos (é preciso dizer que são deliciosas as referências ao manual de detetive que nossa heroína estuda atentamente): há o caso do impostor que se passa por pai de uma sub-contadora bem-sucedida; há um marido que mergulhara num culto religioso e desaparece (na verdade, ele foi devorado por um crocodilo); há o caso da filha adolescente do retrógrado senhor Patel, que é um momento muito movimentado e divertido do livro, pois mma. Ramotswe tem de segui-la pela cidade, e comete muitos erros que não constam do manual; há o caso da mulher que se preocupa porque o marido roubou um carro . há o caso impagável do marido mulherengo, com quem a própria Preciosa sai para provar sua infidelidade (quando mostra as fotos que tirou com ele para a esposa, é destratada e xingada), há o caso do empregado que forja um acidente, alegando ter perdido um dedo, para conseguir uma indenização, e, finalmente, temos o caso do médico que uma hora é competente, na outra é inepto, outro que faz com que a detetive se desloque para cá e para lá com sua pequena van branca.

ONDE FICA ESSA EDIMBURGO?

Um título desperdiçado

Um título irresistível; uma ambientação diferente (Edimburgo); uma protagonista que é especialista em filosofia moral, editora de uma “Revista de Ética Aplicada”; um autor nascido no Zimbábue e que já escrevera uma série policial cujo cenário era Botsuana. Era presumível que O Clube Filosófico Dominical (“The Sunday Philosophy Club”, 2004; tradução de Alexandre  Hubner, Companhia das Letras) , de Alexander McCall Smith, transcendesse o mero entretenimento de mistério e tivesse o fôlego necessário para ingressar no ainda seleto cânone dos que realmente sobreviveram num gênero ingrato, às vezes subestimado, às vezes supervalorizado.

Isabel Dalhousie vai a um concerto e assiste à queda mortal de um desconhecido, Mark Fraser, das galerias superiores. Investigando por conta própria (e pela absoluta falta do que fazer na vida) o incidente, que aos poucos vai se configurando em sua mente como assassinato, ela descobre transações financeiras desonestas e um triângulo amoroso envolvendo os parceiros de moradia de Mark e seu chefe e a noiva deste.

A sensaborona síntese acima é proposital: não existe nada mais sem graça do que O Clube Filosófico Dominical. Que entretenimento, que nada! Que candidato a cânone! E, o que é pior, que desperdício de um título e suas possibilidades! Entre as muitas queixas que se pode fazer contra o livro, está o fato de que o tal clube só é citado e nunca aparece em cena. Que saudade das sessões (de mah jong ou bridge) das senhoras de St. Mary Mead, o vilarejo de Mrs. Marple, com seus mexericos e revelações involuntárias! Não nos deparamos, apesar das constantes caminhadas de Isabel, com um personagem ou situação interessante: nem sua sobrinha, Cat, em cuja vida sentimental a tia se intromete, porque prefere (até demais da conta…) o antigo namorado, que a ajuda na investigação, ao atual; nem a empregada, Grace, com julgamentos morais inflexíveis; nem os prováveis suspeitos. Até mesmo o momento de maior “suspense” (ela liga para o celular de um homem que lhe deu informações e o aparelho começa a tocar dentro da sua casa, praticamente no seu quarto) se perde na mornidão geral.

O pior de tudo é a chatice da heroína. Que ela seja uma filósofa é risível. Seus pensamentos são pífios (para se ter uma idéia, ela lembra de Hannah Arendt e pensa: “A banalidade do mal”!!?? Faça-me o favor, Mr. McCall Smith!), suas conclusões morais, banais (“Os relacionamentos entre as pessoas não podiam ser usados como base de comparação por outros”) e sua rotina é uma mistura de ociosidade e privilégios que chega a causar espanto, senão repulsa. Há até um momento cômico, quando ela reflete: “Havia ocasiões em que ser a editora da Revista de Ética Aplicada era um peso, parecia tão difícil relaxar…”

A tal Isabel é de uma caretice sem par: ela candidamente fica transtornada ao saber que existem casos extraconjugais e falcatruas no mercado financeiro, o que nos leva a pensar que a Edimburgo de O Clube Filosófico Dominical não fica na Escócia, e sim em outra galáxia, a muitos anos-luz daqui.

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos,  em 22 de março de 2008)

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