MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

31/01/2013

Destaque do Blog: O CORUJA, de Aluísio Azevedo

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É HORA DE FUGIR AOS CLICHÊS SOBRE ALUÍSIO AZEVEDO

No centenário da sua morte (em 21 de janeiro de 1913), Aluísio Azevedo (nascido no Maranhão em 1857) continua vítima de afirmações estereotipadas e petrificadas quanto ao valor de sua obra. Chega-se ao ridículo de valorizar ou não certos títulos com a mesma visão da época em que foram escritos (nas duas últimas décadas do século XIX). Naquele momento, tinha tudo a ver os embates entre escolas literárias (e Aluísio, como se sabe, pertenceu à corrente naturalista), contudo cem anos depois, não era hora de espanar a poeira de certos juízos a fim de verificar se ele não foi mais do que o autor de O Cortiço, Casa de Pensão & O Mulato (os dois últimos sem a unanimidade do reconhecimento do primeiro, mas ainda assim sempre destacados no conjunto da sua produção)?

Por isso, decidi comentar O Coruja (publicado como folhetim em 1885, só tendo aparecido em livro depois de O Cortiço, em 1890) sem a menor preocupação em enquadrá-lo nesta ou naquela escola literária, e nesse sentido determinar seu sucesso ou seu fracasso. O que me importou foi a seguinte questão: vale a pena, para o leitor comum do século XXI, ler esse romance, desvinculado do chamado “valor histórico”?

O Coruja é uma narrativa com forte pendor alegórico, acompanhando a amizade—desde os tempos de internato até a idade madura—entre André, um órfão que ganha, ainda pequeno, a alcunha do título por ser antissocial e esquisito (feio de doer, caladão, ele angaria sempre uma antipatia geral à sua volta), e Teobaldo, filho de um barão, mimado, voluntarioso, cheio de impulsos românticos (lindo, sedutor, ele tem várias mulheres a seus pés—e aliás as espezinha frequentemente: as cenas da mulherada fazendo o chamado barraco na sua vida estão entre as melhores do livro[1]).

A primeira parte transcorre no interior de Minas Gerais, quando André é acolhido pela família de Teobaldo (a quem protegera no internato),nas férias, na sua fazenda. As outras duas já mostram os dois na Corte. A certa altura, o perdulário todavia romanesco Teobaldo se vê privado dos pais e de sua herança, e quem o sustenta é André, trabalhador incansável, embora obscuro e desprezado por quase todo mundo. Em vários momentos, a fortuna sorri para Teobaldo, mas ele tem a irresistível tendência de se arruinar.

ficção completa

Disse que é uma narrativa alegórica. Sim, porque acompanhando os amigos, acompanhamos as transformações na sociedade brasileira. Num dos momentos de prosperidade do amigo do Coruja, lemos: “Todo ele agora respirava júbilo, elegância e prosperidade; seus esplêndidos vinte e sete anos luziam por toda a parte. Também a época não podia ser melhor para isso: o Rio de Janeiro passara por uma transformação violenta, estava em guerra; e, enquanto as províncias se despiam para cobrir com seus filhos os sertões paraguaios, o Alcazar erguia-se na Rua da Vala e a opereta francesa invadia-nos de cabeleira postiça e perna nua.Durante o dia ouvia-se o Hino Nacional acompanhando para bordo dos vasos de guerra os voluntários da pátria; à noite, ouvia-se Offenbach.E o nosso entusiasmo era um só para ambas as músicas.

     A guerra tornava-nos conhecidos na Europa e uma nuvem de mulheres de todas as nacionalidades precipitava-se sobre o Brasil, que nem uma praga de gafanhotos sobre um cafezal; as estradas de ferro desenvolviam-se facilitando ao fazendeiro as suas visitas à corte e o dinheiro ganho pelos escravos desfazia-se em camélias e champanha; abriam-se hotéis onde não podiam entrar famílias, multiplicavam-se os botequins e as casas de penhores. Redobrou a loteria e a roleta, correram-se os primeiros cavalos no prado; surgiram impostos e mais impostos, e o ouro do Brasil transformou-se em papel-moeda e em fumaça de pólvora.

   Teobaldo estava, pois, com seu tempo; já demandando todas as noites o Alcazar dentro do seu cabriolé…”  ”

Com o casamento de Teobaldo com Clara, rica herdeira (a quem dissipa a fortuna em especulações infelizes) e sua entrada na política, os caminhos começam a se separar e fica clara a intenção do autor maranhense: o belo representa a máscara superficial, o verniz da nação; o feio representa a verdadeira face do povo brasileiro, e essa massa desprovida de “encantos”, em sua luta pela sobrevivência, é um constrangimento para essa sociedade afluente. Com crueza, Aluísio mostra também que a massa se identifica mais com o lado “bonito” (Teobaldo) do que com seu lado “Coruja”. Não tem sido sempre assim? Não há tanta gente que sente saudades do governo FHC, afinal um homem tão “culto”, tão “ilustrado”, um sociólogo, e sente vergonha de ter tido um ex-operário, ainda rusticão, como nosso presidente e exulta ao associá-lo a falcatruas?

O casamento entre Teobaldo e Clara torna-se realmente “de aparência” (e ela, uma espécie de consciência crítica do marido, numa dinâmica muito hábil, que rende bastante interesse à 3ª. parte[2]); André, por sua vez, durante anos junta capital para abrir uma escola e mantém uma noiva desagradável (com uma mãe, que é um dos grandes achados de O Coruja), à espera, pacientemente, durante anos. No entanto, apesar de todo o seu empenho, seus planos cuidadosamente traçados e escrupulosos, sempre se frustram porque sempre há uma emergência na vida de Teobaldo. Pois viver de aparência tem um alto custo. E muita sordidez nos bastidores.

Aluísio Azevedo não é um escritor sutil. Ele carrega nas tintas, em especial na figura do personagem-título que é bom demais para ser verdade, e se torna um personagem até ultra-romântico (alguns críticos o associaram ao Quasímodo de Victor Hugo[3]). Não acho que isso enfraqueça efetivamente o livro, em especial por causa do contraste com Teobaldo, e com a caracterização deste, que, ao fim e ao cabo, é quem faz a transição entre romantismo e realismo (ele é quase um Brás Cubas que não descobriu ainda o poder de rir de si mesmo pós-túmulo). E o estilo é tão colorido e ágil, e além disso a trama vai apresentando sempre novos pontos de interesse e personagens que nos transportam para dentro de seus dilemas (como Clara, ao desiludir-se com o marido) ou de suas vilanices (como Aguiar, que tenta prejudicar Teobaldo). O conjunto, apesar de longe da perfeição, é absorvente e fascinante. E esses não são, afinal, os atributos básicos para que uma narrativa se mantenha viva, tanto tempo depois? Portanto, a suposta “obra menor” de Aluísio Azevedo nos oferece uma visão e tanto do Brasil do Segundo Reinado. Do Segundo Reinado? Quando empresários ingleses tentam convencer Teobaldo de uma maracutaia, lhe dizem: “Oh! a política do Brasil está cheia de exemplos muito mais escandalosos, e não me consta que nenhum dos seus autores ficasse desmoralizado; ao contrário, criam novo e maior prestígio quando enriquecem.” 

(resenha publicada originalmente, sem notas de rodapé e anexo, em A TRIBUNA de Santos, em 29 de janeiro de 2013)

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ANEXO- Linhas de força do século XIX em “O CORUJA”:

No meu texto acima, quis desembaraçar O Coruja das vinculações. Mas diversas linhas de força, nem sei se com a total consciência por parte do autor maranhense, se fazem presentes, e acredito que o livro seja mais fruto da influência decisiva de Balzac & Dickens (não esquecendo o traço victorhugoano de André, o Coruja) do que da influência de Zola.

De Dickens encontramos aquela relação forjada no internato (como em Nicholas Nickelby), entre um herói “bonito”, que sofrerá revezes da sorte, e um triste colega.  Além disso, há essas amizades “dialéticas”, que atravessam a vida (lembrem-se de David Copperfield) e que, exageros à parte, são até hoje interessantes (pelo menos, para mim) pelos contrastes éticos e morais que estabelecem.

De Balzac temos os provincianos “se fazendo” (ou não) na Capital, e o custo íntimo da decisão de “conquistar o mundo”. Teobaldo é um personagem mais balzaquiano do que à Zola. As críticas que Aluísio Azevedo faz ao tipo de educação que ele teve e que o incapacitaram a uma vida séria e desvinculada do interesse próprio e hedonista, me lembraram as de Balzac à educação da protagonista de O Baile de Sceaux.

E, como avento na resenha, no fundo, Teobaldo representa o mesmo tipo social do Brás Cubas de Machado de Assis, Só que em Machado, Balzac dá as mãos a Sterne. De qualquer forma, um leitor de Ilusões Perdidas não deixará de reconhecer o mundo evocado pela seguinte passagem do belo romance de Aluísio (quando Teobaldo e o Coruja chegam à Corte, e um fornecedor comercial do pai do primeiro lhe dá conselhos):

“Não se meta a escrevinhador, que isso tem posto muita gente a perder! Poderia citar-lhe mais de cem nomes de estudantes, de quem fui correspondente, que perderam anos, que cortaram a carreira por causa da maldita patifaria das letras!”

Quanto a um lastro tipicamente naturalista, é interessante a alusão (em alguns momentos) à condição de “mestiço” de Teobaldo (ele é descendente de um português com uma índia), que dá um “fermento” dinâmico (contudo deletério, ao que parece) à sua personalidade (o que vai de encontro aos clichês da identidade étnica nacional):

“Nunca o seu privilegiado talento de insinuar-se em cada um, a quem ele queria agradar, teve tanta ocasião de fazer valer a sua força; a todos comunicava O INSINUANTE MESTIÇO uma faísca do seu espírito sedutor; a tudo um reflexo do seu diletantismo aristocrata.”

opinião


[1] Embora sejam divertidas amostras de um talento narrativo incontestável, essas cenas também mostram forte adesão àquela visão medicalizada da mulher que existia na época, cristalizada pela condição de “histérica”. Como se sabe, abundam na produção naturalista as descrições de histeria feminina. Um exemplo, em O Coruja:

“… teve André por conseguinte de servir de enfermeiro à rapariga, sem licença de abandoná-la um só instante, porque as convulsões histéricas e os espasmos se repetiam nela quase que sem intermitência.

   Foi uma noite de verdadeira luta para ambos; o rapaz, apesar da riqueza dos seus músculos, nem sempre lhe podia conter os ímpetos nervosos. A infeliz escabujava como um possesso, atirava-se fora da cama, rilhando os dentes, trincando os beiços e a língua, esfrangalhando as roupas, em um estrebuchamento que lançava por terra todos os objetos ao seu alcance. No fim de algumas horas o Coruja sentia o corpo mais moído do que se o tivessem maçado com uma boa carga de pau.”

Aliás, também é forte o pendor para o sensacionalismo, para a ilustração melodramática de extremos (que aproxima tanto o Naturalismo do Romantismo), como na descrição da mesma personagem feminina, que acidentalmente ateou fogo em si mesma, num acesso de descontrole histérico (ela se dispunha a beber a querosene de uma lamparina, matando-se para causar remorso a Teobaldo):

“Puxou-se o sofá para o meio da sala e nele se depôs o corpo de Ernestina; não foi possível despi-lo totalmente dos farrapos que o cobriam, porque estes se tinham grudado às enormes fendas abertas pelo fogo. Toda ela, coitadinha, apresentava uma triste figura negra e esfolada em muitos pontos. Estava horrível; o cabelo desaparecera-lhe; os olhos eram duas orlas vermelhas e ensanguentadas; a boca, totalmente deslabiada, mostrava os dentes, cerrados com desespero; e dos ouvidos sem orelhas e do nariz sem ventas escorria-lhe um líquido gorduroso e amarelento.”

Também quanto à cerrada visão moralista do destino da mulher (que era considerada “velha” aos 40 anos), não se fica devendo nada aqui à Dama das Camélias ou a José de Alencar (Lucíola), como podemos ver nessa passagem, a respeito de Leonília, a prostituta que se apaixona por Teobaldo:

“Ela estava na dolorosa transição dos quarenta anos; época em que toda mulher só pode ser sublime ou ridícula. Sublime se a fizeram casta e principalmente se a natureza lhe permitiu ser mãe; e ridícula, se a desgraçada perdeu a flor da sua mocidade ao reflexo das orgias e ao grosseiro embate da prostituição.”

[2] “Pois calcula que, de um momento para outro, senti rasgarem-se-me defronte dos olhos os véus da minha ignorância, e desde então vejo tudo às claras, vejo certo, posso julgar com justeza, dando a cada figura, a cada grupo, a cada ação e a cada fato o valor que lhe compete, a sua capacidade, a sua grandeza ou a sua pequenez, determinando os seus fins e calculando as suas intenções boas ou más (…) Adormeci ainda no meu ridículo estado de credulidade e sonhei que me achava entre os meus amigos e conhecidos; via-os como te estou vendo a ti, tão bons, tão afáveis e tão meigos! Mas de súbito, senti uma grande agitação em torno de mim, olho espantada; então um singular espetáculo se apresenta: a máscara de cada um havia caído por terras e um grande montão de fisionomias misturava-se a meus pés, imóveis e frias como rostos de defuntos. E todas aquelas figuras humanas, que acabavam de despir a máscara, começaram a rir e a escarnecer umas das outras, descaradamente, sem rebuços de delicadeza. E as mais vergonhosas confissões saíram de cada boca…”, diz Clara ao marido.

[3] “E sempre bom, escondendo de todas as suas privações e os seus desgostos, procurando ocupar no mundo o menor espaço que podia e sempre superior aos outros, sempre além da esfera de seus semelhantes, atravessava a existência, caminhava por entre os homens sem se misturar com eles, que nem um pássaro que vai voando pelo céu e apenas percorre a terra com a sua sombra.

   Fazia dolorosa impressão ver sair todas as manhãs, pelos fundos da chácara de Teobaldo, aquele vulto sombrio todo envolto em um velho sobretudo, a tossir esfalfado de trabalho e sem querer  incomodar com a sua tosse os criados que ainda dormiam.

   A  nova existência do amigo como que o fizera ainda mais triste e só.”

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30/01/2013

ORGULHO E PRECONCEITO 200 anos: Traduções Brasileiras

austen

Com a comemoração dos duzentos anos da publicação original de ORGULHO E PRECONCEITO (Pride and Prejudice), de Jane Austen (1775-1817), o leitor comum pode sentir a necessidade de indicações quanto às mais confiáveis entre as numerosas traduções brasileiras desse romance genial. Editoras nunca muito cortejadas pela mídia, uma delas injustamente (a L&PM); a outra, só agora dando mostras de sair do atoleiro de descrédito abissal, contudo lucrativo, em que se afundara (a Martin Claret), apresentam boas traduções, que ombreiam com a tradução paradigmática (e ainda muito útil, a meu ver) de Lúcio Cardoso, a qual desde 1940 vem sendo incessantemente republicada. Não sei nem o que dizer da versão publicada pela Landmark, tão abaixo do nível de uma Jane Austen ou de qualquer autor clássico ela me parece.

Entre as mais recentes, a mais badalada—inclusive pelo aparato que a acompanha—foi certamente a publicada pela Penguin/Companhia. No entanto, houve incríveis falhas sobretudo de revisão, e ela resultou desleixada e discutível. Logo nas primeiras páginas há um erro incrível: são atribuídas QUATRO filhas ao casal Bennet (na verdade, são cinco, e no original lemos: “When a woman has five grown-up daughters…”; traduziu-se assim: “Uma mulher com quatro filhas adultas…”; não seriam “cinco filhas [já] crescidas”?); logo a seguir este trecho incompreensivelmente truncado: “Lizzy não é em nada melhor que as outras; e garanto que sua beleza não chega nem à metade da beleza de Lydia.” (no original: “Lizzy is not a bit better than the others; and I am sure she is not half so handsome as Jane, nor half so good-humoured as Lydia.”). Portanto, acautele-se leitor com relação a essa versão.

Nota- Para maiores informações sobre traduções de Jane Austen, aconselho a leitura de:

http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2010/01/orgulho-e-preconceito-da-best-seller.html

http://naogostodeplagio.blogspot.com.br/2010/01/orgulho-e-preconceito-da-lpm.html

pride_and_prejudice

Escolhi um trecho do capítulo 42 para cotejar as cinco traduções de que disponho:

Primeiramente o original:

“Had Elizabeth´s opinion been all drawn from her own family, she could not have formed a very pleasing picture of conjugal felicity or domestic comfort. Her father captivated by youth and beauty, and that appearance of good humour, which youth and beauty generally give, had married a woman whose weak understanding and illiberal mind, have very early in their marriage put an end to all real affection for her. Respect, esteem, and confidence, had vanished for ever; and all his views of domestic happiness were overthrown. But Mr. Bennet was not of a disposition to seek comfort for the disappointment which his own imprudence had brought on, in any of those pleasures which too often console the unfortunate for their folly or their vice. He was fond of the country and of books; and from these tastes had arisen his principal enjoyments. To his wife he was very little otherwise indebted, than as her ignorance and folly had contributed to his amusement (…)

    Elizabeth, however, had never been blind to the impropriety of her father´s behavior as a husband. She had always seen it with pain; but respecting his abilities, and grateful for his affectionate treatment of herself, she endeavoured to forget what she could not overlook, and to banish from her thoughts that continual breach of conjugal obligation and decorum which, in exposing his wife to the contempt of her own children, was so highly reprehensible.”

(extraído de The complete novels of Jane Austen, The Wordsworth Library Collection)

pride and prejudice

“Se as opiniões de Elizabeth se originassem do exemplo dado por sua própria família, sua ideia de felicidade conjugal e de conforto doméstico não poderia ser das mais lisonjeiras. Seu pai, cativado pela mocidade, beleza e aparência de bom humor que a juventude em geral confere às mulheres, casara-se com uma pessoa de compreensão limitada e de ideias estreitas; pouco depois do casamento, esses defeitos haviam extinto toda a afeição sincera que tinha por ela. O respeito, a estima, a confiança, tinham-se desvanecido para sempre. E todos os seus anseios de felicidade doméstica foram destruídos. Mas o senhor Bennet não era desses homens que procuram se consolar das desilusões causadas por suas próprias imprevidências entregando-se a esses prazeres em que os infelizes procuram uma compensação para suas loucuras e vícios. Ele gostava do campo e dos livros, suas principais distrações. Quanto à sua mulher, pouco mais lhe devia do que os divertimentos que o espetáculo de sua ignorância e sua falta de sensibilidade lhe tinham proporcionado (…)

   Elizabeth, no entanto, nunca fora cega aos defeitos de seu pai como marido. Aquilo sempre lhe doera, mas, admirando suas qualidades e grata pela maneira afetuosa com que a tratava, esforçava-se por esquecer o que não podia deixar de  perceber e bania dos seus pensamentos essas contínuas irregularidades de conduta conjugal, que, expondo sua mãe aos desprezo das próprias filhas, era portanto altamente repreensível.”

(tradução de Lúcio Cardoso, utilizada em diversas edições, ao longo das décadas)

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“Se a opinião de Elizabeth fosse formada a partir de sua própria família, ela não teria estabelecido uma opinião muito favorável sobre a felicidade conjugal ou o conforto doméstico. Seu pai, cativado pela juventude e pela beleza, e por aquela aparência de bom-humor que a juventude e a beleza geralmente dão, tinha se casado com uma mulher cuja fraca compreensão e mente nada liberal tivesse [sic] colocado um termo, logo no começo do casamento, a toda real afeição por ela. O respeito, a estima e a confiança teriam se esvaído para sempre; e todas as opiniões dele sobre a felicidade no lar seriam reviradas. Mas o Sr. Bennet não tinha o temperamento de buscar conforto, pelo desapontamento que sua própria imprudência tinha causado, em nenhum desses prazeres que muito comumente consolam os desafortunados pela sua fantasia ou pelo seu vício. Ele era apaixonado pelo campo e pelos livros; e desses gostos, se erguiam suas principais diversões. Por outro lado, ele devia muito pouco à sua esposa, do que a ignorância e os desatinos tinham contribuído para seu deleite (…)

    Elizabeth, porém, nunca fora cega à impropriedade do comportamento de seu pai como marido. Ela sempre o vira com dor; mas respeitando suas habilidades e grata pelo tratamento afetuoso que recebia, ela tentava se esquecer do que não conseguia passar despercebido e banir de seus pensamentos aquela contínua quebra de obrigação conjugal e decoro que, ao expor sua esposa ao desprezo de suas próprias crianças, era tão altamente repreensível.”

(tradução editado pela Landmark e realizada por Marcella Furtado que—entre tantas soluções horrendas—parece titubear nos tempos verbais, basta ver o trecho sublinhado)

landmark

“Fossem todas as opiniões de Elizabeth formadas a partir de sua própria família, sua ideia de felicidade conjugal ou conforto doméstico não seria das mais agradáveis. O pai, cativado pela juventude, pela beleza e por aquela aparência de bom-humor que em geral acompanha a juventude e a beleza, casara-se com uma mulher cuja pouca inteligência e espírito intolerante em pouco tempo destruíram todo o afeto que sentira por ela. Respeito, estima e confiança desapareceram para sempre, e toda esperança de felicidade doméstica foi abandonada. Mas o sr. Bennet não tinha propensão para buscar conforto para o desapontamento causado por sua própria imprudência em nenhum daqueles prazeres que tantas vezes consolam os desafortunados por sua loucura ou devassidão. Ele gostava do campo e de livros; e dessas preferências brotaram suas maiores alegrias. À esposa, ao contrário, pouco devia, além da diversão provocada pela ignorância e pela loucura (…)

    Elizabeth, entretanto, nunca fora cega à impropriedade do comportamento do pai enquanto marido. Sempre sofreu com isso, mas, respeitando suas qualidades e grata pelo afetuoso tratamento que ele lhe dispensava, tentava esquecer o que não podia deixar de perceber e afastar do pensamento a contínua transgressão das obrigações conjugais e a falta de decoro que, por expor a mulher ao desprezo de suas próprias filhas, era tão altamente condenável.”

(Tradução editada pela L&PM, e realizada com Celina Portocarrero, que nada fica a dever à tradicional e vetusta versão de Lúcio Cardoso)

L&PM

“Se a opinião de Elizabeth se baseasse apenas em sua própria família, não poderia ter feito um julgamento muito favorável da felicidade conjugal ou da paz doméstica. Seu pai, cativado pela juventude e pela beleza e por aquela aparência de bom humor que a juventude e a beleza geralmente provocam, casara-se com uma mulher cuja pouca inteligência e generosidade mental haviam, desde muito cedo no casamento, posto um ponto final em todo real afeto por ela. Respeito, estima e confiança haviam desaparecido para sempre; e todos os seus projetos de felicidade doméstica foram arruinados. Não era da natureza do sr. Bennet, porém, procurar reconforto para a decepção que sua própria imprudência produzira em algum desses prazeres que muitas vezes consolam o infeliz por sua insensatez ou seu vício. Adorava o campo e os livros; e desses gostos vinham suas principais alegrias. Sua dívida para com a mulher era muito pequena, a não ser pela diversão que o espetáculo de sua ignorância e insensatez lhe proporcionava (…)

   Elizabeth, porém, nunca foi cega à impropriedade do comportamento do pai como marido. Sempre a encarava com pesar; mas, respeitando a capacidade dele e grata ao tratamento carinhoso que ele lhe dispensava, tentava esquecer o que não podia superar, e expulsar de seus pensamentos essa violação das obrigações e do decoro conjugais, que, ao expor a mulher ao desdém das próprias filhas, era tão repreensível.”

(Editada pela Martin Claret—num volume onde estão também Razão e Sensibilidade  & Persuasão—e realizada por Roberto Leal Ferreira, também num trabalho de qualidade)

martin claret

Se as opiniões de Elizabeth fossem sempre as mesmas de sua família, ela não teria criado um quadro muito agradável  da felicidade conjugal ou dos confortos do lar. Seu pai, cativo da juventude e da beleza, e daquela aparência de bom humor que a juventude e a beleza costumam conferir, casara-se com uma mulher de parcas luzes e mentalidade tacanha, e logo no início do casamento abdicara de qualquer afeto genuíno por ela. Respeito, estima e confiança haviam sumido para sempre; e todas as suas aspirações à felicidade doméstica foram abolidas. Mas o senhor Bennet não parecia disposto a procurar consolo para uma frustração que sua própria imprudência acarretara em nenhum daqueles prazeres que tantas vezes consolam os desafortunados em sua loucura ou seu vício. Ele gostava do campo e de livros; e desses dois prazeres extraía o principal de seus deleites. À esposa, ele era grato simplesmente na medida em que sua ignorância e suas tolices ajudavam a distraí-lo (…)

    Elizabeth, contudo, jamais fora cega às impropriedades do comportamento do pai como marido. Sempre lamentara tal atitude; mas, respeitando suas qualidades e grata pelo tratamento afetuoso que lhe dedicava particularmente, ela procurava esquecer  o que não conseguiria relevar e bania de seus pensamentos a contínua falha dos deveres e do decoro conjugal que, expondo a esposa ao desprezo das próprias filhas, era nele altamente repreensível.”

(Co-editada pela Penguin-Companhia, essa tradução de Alexandre Barbosa de Souza é altamente irregular, como se pode ver pelo início infeliz do trecho, e muito literal por vezes, apresentando no entanto boas soluções aqui e ali)

AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2010/07/30/minha-amiga-elizabeth/

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29/01/2013

ONZE, de Bernardo Carvalho, “O Mestre”, de Paul Thomas Anderson e os seis graus de separação

carvalho, bernardoonze

“Alguma coisa ali já me parecia falar da verdade, uma estranha manifestação da verdade, numa forma ao mesmo tempo bruta e intrincada”. (de Os bêbados e os sonâmbulos, Bernardo Carvalho)

Provavelmente estarei chovendo no molhado, pois vários espectadores devem ter feito a ligação, e algum porventura até tenha escrito sobre isso; não obstante, não posso deixar de comentar minha perplexidade ao sair agora à noite de uma sessão de O Mestre, filme de Paul Thomas Anderson, onde Philip Seymour Hoffman, na pele de Lancaster Dodd,  obnubila a mente já não muito equilibrada de Joaquim Phoenix com uma seita denominada “A Causa”, pois a terceira parte de ONZE,  primeiro romance de Bernardo Carvalho, lançado em 1995, chama-se justamente “A Causa”. Não chegamos a conhecer o criador da seita do livro, mas seus reflexos radicais em seguidores:

“Eles chamam o professor de cínico e de louco, mas não pode ser um sendo o outro. Eles não sabem o que querem. O professor percebeu isso muito cedo. Resolveu agir. Não é de esperar (…) o que ele não pode potencializar: A causa estava lá, no mundo; ele apenas indicou o caminho. Estávamos esperando alguém indicar o caminho…”

Isto aqui não é uma resenha. Estou saqueando, após algumas cervejas e uma caipirinha de saquê, meu caderno de anotações de leitura (mais de citações, verdade seja dita), pois li ONZE  há muitos anos, logo, terei de me valer da memória e de algumas páginas registrando essa leitura.[1]

À época, sem chegar a uma conclusão definida, eu gostara muito e achava algo que tinha o toque de Thomas Pynchon, em seus aspectos de paranoia, de sentimento de liberdade controlada, extremamente vigiada (e olhe que estávamos ainda distantes do onze de setembro de 2001), e achara bacana os aspectos envolvendo terrorismo, atentados, conspirações, que não caíam na esbórnia do pastiche nem da chanchada. Também achei importante (e isso já vinha da leitura dos contos de Aberração, como Atores[2]) o que eu hoje consideraria uma percepção da AIDS como uma Grande Narrativa do mundo das últimas décadas, no tocante a como interferiu na existência, nas apostas de vida, na percepção individual, no equacionamento da vontade de liberdade e num sentimento difuso, mas muito presente, de opressão. Não sei se é o caso de afirmar tão categoricamente, mas no universo do Carvalho inicial, a AIDS adquire uma potência simbólica à Pynchon (lembrem-se de que ela era, estatisticamente, muito mais mortífera naquela época, com todas as conotações de peste).

o mestre

Na verdade, não estou evocando ONZE aqui neste texto porque Bernardo Carvalho configurou “A Causa” quase duas décadas antes de Paul Thomas Anderson, e sim  porque este romance, do qual quase não se fala mais (ofuscado, como outros dessa fase, pela consagração de livros como Nove Noites & Mongólia) de fato se mostrou “avant la lettre” com relação a uma tendência cada vez mais difundida, e que recentemente chegou aos seriados de televisão, como Touch (em breve, estará nas telenovelas): é o que eu chamo de estilo “seis graus de separação” (talvez fosse mais exato dizer que é um Zeitgeist da indústria cultural), e que não passa da aplicação daquele clichê batidíssimo da Teoria do Caos (se uma borboleta bater asas em São Paulo, choverá em Tóquio, coisas assim) ou da “sincronicidade” junguiana.

É fato que a peça (depois transformada em filme, que não lembro mais de quem é) de John Guare é do começo dos anos 90, anterior ao romance do autor brasileiro.  Parece-me  que, em ONZE, Carvalho intuiu (com os devidos graus de ironia e ceticismo) não apenas o conceito de que, ao fim e ao cabo, as vidas das pessoas, em todas as partes do planeta, estão muito mais interligadas e conectadas do que se poderia supor, e de que uma ação afeta outros, de forma muito mais efetiva (o que tem a ver com a diminuição das distâncias, através da universalização dos voos aéreos e das mídias eletrônicas, claro) do que a princípio a distância geográfica deixaria entrever ao pensamento “lógico”, linear, conceito que é discutido com elegância e clima de jogo de salão, em Seis graus de separação; acredito que ele entreviu e antecipou, com rara perspicácia, a estrutura dramático-narrativa de uma série cada vez mais frequente de obras.

Primeiro, eram aqueles filmes que entrecruzavam histórias várias (do próprio Paul Thomas Anderson tem o Magnólia, tem o Felicidade, de Todd Solondz—é isso?, o fraquinho e diluído Crash, de Paul Haggis), depois se passou a um patamar mais ambicioso, a narrativa globalizada, e a insistência de que nenhum ato é gratuito, no sentido de ficar sem consequências (aí temos a base de Babel, de Alejandro González Iñárritu—é isso? ,talvez o mais aparatoso exemplo da tendência), e hoje podemos apontar vários trabalhos nessa linha inclusive o livro de Jonathan Safran Foer Extremamente alto e incrivelmente perto, que tem aquela versão cinematográfica lamentável, e o filme de Fernando Meirelles, 360, além da ideia ficar difusa em vários e vários trabalhos menos ambiciosos. E, como disse, ela já figura com destaque em seriados, dos quais o mais evidente é Touch.

Pelo que eu me lembro (e desculpem-me qualquer imprecisão), ONZE reiterava esse número, em pormenores diversos (na quantidade de personagens de cada parte, nos horários e dias mencionados[3]). Na primeira parte, passada num sítio, num ambiente “huis clos”, eram onze personagens que numa brincadeira adulta de esconde-esconde, se revelavam numa ciranda existencial-afetivo claustrofóbica (parecia até aqueles filmes pouco estimados de Woody Allen, muito apreciados por mim, contra o consenso geral: Interiores, Setembro). O detalhe interessante é que algumas informações que apareciam rapidamente nessa primeira parte seriam exploradas nas outras partes, como uma tragédia no aeroporto em Paris, o engravidamento da filha da caseira, que tinha ido morar na Baixada Fluminense, um foragido da ditadura que virara mendigo na Europa (eu já não sei mais de quem ele era filho ou irmão dentro da trama).

Se essa primeira parte era extremamente concentrada em termos espaciais e temporais, além de ser muito individualista (e por que não dizer: burguesa?), depois havia uma parte (“Os gritos do Rio de Janeiro”) que se abria para um estrato social bem mais precário (constato no meu caderno que fiquei muito impressionado com essa parte), quando se contava a história de um grupo de onze garotos (inclusive o filho da filha da caseira da primeira parte), que sofre abusos severos nas mãos de um artista estrangeiro, o qual se instalara na comunidade para criar suas obras (havia uma abertura espacial, já que os meninos participavam de exposições em diversos países, sempre monitorados pelo artista, o que contrastava com as afirmações dele, de que eles estavam condenados ao mundo da Baixada).

Esse alargamento espacial e a estrutura “vidas que se tocam” ficam mais evidentes ainda na terceira parte, aquela mesma chamada “A Causa” e que é o mote deste texto. Novamente, são onze personagens, que vão se encontrar afinal na tragédia do aeroporto evocada na primeira parte (tragédia que é provocada por seguidores da Causa, que desejam assassinar um empresário cuja adesão a ela fizera com que redigisse um testamento legando ao Mestre todos os seus bens, ou seja, selando seu destino).

Entretanto, como disse, isto não é uma resenha, é uma evocação apenas, acarretada por um filme.  Aliás, um dos meus planos sempre acalentados (nunca levados a cabo porque o dia deveria ter mais de 24 horas e a gente deveria ter uma “sombra” que ficasse lendo ou escrevendo  enquanto vivêssemos nosso anedotário pessoal, tal como o escritor de A vida privada, de Henry James) era fazer uma revisão dos livros de Bernardo Carvalho, relendo sequencialmente o que li separadamente e preenchendo duas ou três lacunas que ficaram. Quem sabe agora não fosse o momento. É só ter o ânimo de vasculhar à procura.

(escrito na madrugada de 29 de janeiro de 2013)

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ANEXO

Abaixo transcrevo do meu caderno o trecho mais longo que copiei de ONZE:

“Quando desapareceu, a única coisa que pensei foi o que faria com a raiva que tinha guardado num canto da cabeça, bem no fundo, para o dia em que pudesse matá-lo. Mal pensei e ela já estava de volta. Tive de me controlar para não matar qualquer um na rua. De certa forma os ensinamentos do artista, ainda que enlouquecedores, foram úteis, me fizeram compreender que ali, na Baixada, que era no nosso destino, como ele sempre dizia, de  onde nunca poderíamos escapar (…) ali qualquer ação seria contra mim mesmo, porque na Baixada a raiva é tão grande que chega uma hora em que você atira em si mesmo, e isso pode ser por descuido ou porque a raiva é tanta, que não pode mais se livrar ela, quer escapar daquele corpo e não pode a não ser matando, não dá para saber mais se é raiva ou descuido. Como a história daquele policial que voltava para casa no trem outro dia. A mulher e o filho de quatro anos o esperavam na estação. Ao vê-lo, o menino veio correndo e pulou em seus braços. O policial beijou o filho, o apertou em seus braços. A mulher veio atrás. Ele a beijou no rosto. Enquanto conversavam distraídos, e o filho sempre nos braços do pai, o menino tirou o revólver do coldre e atirou no peito do policial. Você nunca sabe se é raiva ou descuido…”

aberração


[1] Não me animo a procurar o volume, fininho, no meio de milhares de outros a esta altura da noite, quase madrugada, apesar da tentação de relê-lo.

[2] Dou-me conta de que essa coletânea (que foi, creio eu, a estreia de Carvalho), da qual gosto de vários contos, e ainda acho um dos seus melhores livros, está comemorando 20 anos agora em 2013.

[3] Um pouco como a palavra “aberração” aparecia escrupulosamente em cada um dos 11 (!) contos do livro com esse nome.

seis graus de separação

25/01/2013

“O triste hábito de ser alguém”: a poesia do último (ou penúltimo) Borges

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INTRÓITO (30.06.09)

Num dos poemas do espólio de Joseph Knecht (knecht= servo, em contraposição ao Wilhelm Meister, de Goethe; meister= patrão), protagonista de O jogo das contas de vidro (1943), “Um sonho”, vemos um visitante de um convento nas montanhas, o qual, enquanto todos estão rezando, vai à biblioteca, que possui “livros aos milhares”, pergaminhos “com inscrições maravilhosas”:

“Tomei de um livro e li:

Último passo para se encontar

A quadratura do círculo.

Este livro, pensei. levo comigo!

num outro livro, um in-quarto de couro dourado,

Em letras minúsculas se lia:

De como Adão também comeu da outra árvore…

Da outra árvore? De qual: da vida?

Nesse caso, imortal seria Adão?

Não era em vão, eu percebi, que eu me encontava ali…”

     E assim ele vai de maravilha em maravilha:

“… E comecei a pressentir,

O que cada livro que eu pegava

Vinha comprovar:

Nessa sala se achava a biblioteca

Do Paraíso; todas as perguntas

Que jamais me atormentaram,

Toda a sede de conhecimento

Que me havia queimado,

Encontrava ali sua resposta,

E toda a fome o pão do espírito.

Porque por onde quer que eu lançasse

Um rápido olhar a um volume,

Encontrava nele um título

Cheio de promessas; havia ali resposta

Para todas as necessidades, e podia-se

Partir toda a espécie de frutos

Que um discípulo jamais imaginou e desejou a medo,

A que jamais um mestre estendeu ousado a mão.

O sentido mais oculto e mais puro das coisas,

Toda espécie de sabedoria,

Poesia, ciência, a força mágica

De toda espécie de investigação,

Com sua chave e seu vocabulário,

A mais fina essência do espírito,

Conservavam-se ali em obras magistrais,

Misteriosas, inauditas,

Havia ali respostas a todas as questões

E todos os mistérios, cuja posse era o dom

Que o favores da hora de magia ofereciam…

 

Nas revelações sonhadas pelos povos,

Heranças de milênios de experiência cósmica,

Unia-se em novos laços, harmoniosamente,

Em que jogo mútuo de correlações;

Surgia em revoada toda espécie

De conhecimento de outras eras,

De símbolos, e descobertas sempre novas

De questões sublimes.

E assim, ao ler, em minutos ou horas,

Eu percorri de novo

O caminho de toda humanidade.

Apreendendeo o sentido comum interior

Das mais antigas e modernas descobertas;

Eu lia e via os vultos simbólicos da escrita

Se aparelharem, se afastarem,

Circularem, separarem-se a fluir,

Derramando-se em novas formações,

Simbólicas figuras de um caleidoscópio,

Que recebiam um sentido novo, inesgotável

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Ele percebe que não é o único visitante desse espetáculo deslumbrante. Ou não será um outro visitante, mas o arquivista: trata-se de um ancião, fervorosamente dedicado a uma ocupação. É preciso chegar mais próximo a ele para ver do que se trata:

“E vi o ancião, com engelhada e branda mão,

Tomou de um livro leu

O que estava escrito na lombada,

Sussurrou com lábios pálidos o título

–Um título de entusiasmar, prometedor

De horas preciosas de leitura!–

Borrou-o com os dedos, levemente,

Escreveu sorrindo um novo título,

Completamente diferente, e em seguida

Continuou a andar, tomando aqui um livro,

E um outro acolá, o título apagando,

E escrevendo outro em seu lugar.

 

Confuso, observei-o longamente,

E então , já que minha razão

Negava-se a entender, voltei ao livro

Onde há pouco havia lido algumas linhas;

Mas a seqüência de imagens

Que me encantara não mais encontrei,

E o mundo simbólico

Apagou-se e se afastou,

Esse mundo em que eu mal penetrara

E cujo conteúdo era tão rico de sentidos cósmicos;

Vacilou, correu em círculo,

Pareceu nublar-se,

E ao se esvair, nada mais deixou de si

do que o vislumbre pardacento

De pergaminhos vazios.

 

Sobre meu ombro eu senti u´a mão,

Ergui aos olhos e vi ao meu lado

O aplicado macróbio; ergui-me. A sorrir,

Ele  pegou meu livro, enquanto um calafrio

Percorria-me, e qual esponja, seu dedo

Foi borrando o título; sobre o couro limpo

Escreveu novo título, questões e promessas,

E desenhando cuidadosamente as letras

Uma a uma, sua pena deu

A velhas questões as mais modernas refrações.

Em seguida levou em silêncio livro e pena.”

      Num poema intitulado “Junho, 1968”, Jorge Luis Borges escreveu:

“…Ordenar bibliotecas é exercer,

de modo silencioso e modesto,

a arte da crítica…”

        Em outro poema do mesmo livro (Elogio da sombra), chamado “O guardião dos livros”, no qual  lemos:

“Ali estão os jardins, os templos e a justificação dos templos,

A música precisa, as precisas palavras,

Os sessenta e quatro hexagramas,

Os ritos que são a única sabedoria

Que o Firmamento concede aos homens…

As secrretas leis eternas,

O concerto do orbe;

Essas coisas ou sua memória estão nos livros

Que eu guardo na torre.

 

Os tártaros vieram do Norte

em crinudos potros pequenos;

Aniquilaram os exércitos…

Mataram o perverso e o justo,

Mataram o escravo acorrentado que vigia a porta,

Usaram e esqueceram as mulheres…

O pai de meu pai salvou os livros.

Aqui estão na torre em que, jazendo,

Recordo os dias que foram de outros,

Os alheios e os antigos.

 

Em meus olhos não há dias. As prateleiras

são muito altas e meus anos não podem alcançá-las.

Léguas de pó e sono circundam a torre.

Para que me enganar?

A verdade é que eu nunca soube ler,

mas me consolo pensando

que o imaginado e o passado já são o mesmo

para um home que foi

e que contempla o que foi a cidade

e agora volta a ser o deserto.

O que me impede de sonhar que um dia

eu decifrei a sabedoria

e desenhei com aplicada mãos os símbolos?

Meu nome é Hsiang.  Sou o que guarda os livros,

que talvez sejam os últimos

porque nada sabemos do Império…

Ali estão nas altas prateleiras,

ao mesmo tempo perto e distantes,

secretos e visíveis como os astros.

Ali estão os jardins, os templos.”

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ANOTAÇÕES DE LEITURA (30.06.09)

      A Companhia das Letras reuniu num único volume (singelamente intitulado Poesia)  os sete livros da maturidade poética de Borges, num período que vai de 69 a 85 (ele morreu em 86): Elogio da sombra, O ouro dos tigres, A rosa profunda,  A moeda de ferro,  História da noite, A cifra, Os conjurados.

O volume começa em esplendor, já que Elogio da sombra (69) é um dos melhores livros de Borges. Foi um dos primeiros que li (numa edição do Círculo do Livro, que o reunia a três coletâneas de ficções, no sentido borgeano da palavra), quando adolescente: uma colega de colegial, Lúcia,  me emprestou dois livros do irmão mais velho (o outro era O eu profundo e outros eus, a conhecida seleção de poemas de Fernando Pessoa editada pela Nova Fronteira; devido a esse contato precoce, ambos, Borges e Pessoa, me ficaram desde essa época, embora não tenha entendido muita coisa, quase como “pessoas da família”, e por isso logo me acostumei com as estranhezas muitas vezes irritantes das suas obras.  Aliás, só aquilo ou aquele de que se gosta muito consegue irritar).

Reli-o há alguns anos quando a Globo lançou uma nova edição (ver resenha acima), e agora mais uma vez me ocupo de suas imagens quase lapidares, de suas construções paradigmáticas do que Borges tem de mágico e ao mesmo tempo de exasperante.

Acho que o poema de Hermann Hesse, do qual eu transcrevi a maior parte, fornece uma boa idéia da atmosfera desses 31 poemas onde o que se leu é tão importante quanto o que se viveu, e no final tudo é irrisório porque transitório, mas também é recorrente a idéia de continuidade : continuidade dos antepassados no sangue, do Israel bíblico e da tradição apátrida no país que se desenvolveu no século XX, do labirinto clássico na cidade contemporânea, da memória no esquecimento, da natal Buenos Aires nas outras cidades que o poeta percorre (“New England” termina assim: “Buenos Aires eu continuo caminhando/ por tuas esquinas, sem por que nem quando”):

“Que outros se vangloriem das páginas que escreveram;

eu me orgulho das que li…

ao longo de meus anos professei

a paixão da linguagem.

Minhas noites estão repletas de Virgílio;

ter conhecido e esquecido o latim

é uma posse, porque o esquecimento

é uma das formas da memória, seu porão difuso,

a outra face secreta da moeda.

Quando em meus olhos se apagaram

as vãs aparências estimadas,

os rostos e a página,

dediquei-me ao estudo da linguagem de ferro

empregada por meus antepassados para cantar

espadas e solidões…”

Ou ainda num dos poemas a Israel:

“Quem me dirá se estás nos perdidos

Labirintos de rios seculares

Do meu sangue, Israel? Quem, os lugares

Por meu sangue o teu sangue percorridos?

Não importa. Sei que estás no sagrado

Livro que abarca o tempo e que a história

do rubro Adão resgata na memória

E agonia do Crucificado.

Nesse livro estás, que é o reflexo

De cada rosto que sobre ele se inclina

E do rosto de Deus, que, em seu complexo

E árduo cristal, terrível se adivinha…”

No seu prólogo (Borges era afeito a eles, e era uma das suas estratégias favoritas para ir retocando sua imagem) desse livro que publicou aos 70 anos, o grande escritor argentino afirma que se trata do seu quinto livro de poemas. Nas obras completas pela Emecé ,(e se não contarmos também o inclassificável e fabuloso O fazedor) encontramos Fervor de Buenos Aires; Lua defronte; Caderno San Martín; O outro, o mesmo; Para seis cordas (será que estes dois últimos foram publicados juntos?). O “quinto” (ou o sexto) livro e, como já se disse (Jorge Schwartz), sua “summa” poética:

“Somos nossa memória,

somos esse quimérico museu de formas inconstantes,

essa pilha de espelhos quebrados” (“Cambridge”)

Nessa edição que estou lendo e comentando, foram retirados três poemas (que constavam nas edições da Globo):  “Elsa” (que ficava entre os poemas “Cambridge” e “New England 1967”); “Milonga de Manuel Flores” & “Milonga de Calandria” (que ficavam entre “Acevedo” e “Invocação a Joyce”).

“Elsa”:

“Noites de longa insônia e de castigo

Que ansiavam a alba e a temiam,

Dias daquele ontem que repetiam

Outro inútil ontem. Hoje os bendigo.

Como pressentiria nesses anos

De solidão de amor, que as atrozes

Fábulas da febre e as ferozes

Auroras não eram mais que degraus

Intrincados e errantes galerias

Que me conduziriam à pura

Culminância de azul que no azul perdura

Desta tarde de um dia e de meus dias?

Elsa, em minhamão eu prendo a tua. Vemos

No ar a neve e a queremos”. (Cambridge, 67).

Acho que o motivo da exclusão é óbvio. Nada que melindre madame Kodama.

Já as duas milongas fazem parte agora (nas Obras Completas) de Para seis cordas.

O primeiro dos 31  poemas restantes, “João I, 14” (que evoca o famoso “o verbo se fez carne”) mostra um Cristo nostálgico da sua encarnação:

“Vi por Meus olhos o que nunca havia visto:

as noites e suas estrelas.

Conheci o polido, o arenoso, o díspar, o áspero,

o sabor do mel e da maçã,

a água na garganta da sede,

o peso de um metal na palma,

a voz humana, o rumor de uns passos sobre a relva,

o odor da chuva da Galiléia”

E a idéia de CONTINUIDADE nos avatares transitórios já dá o tom, dentro do jogo de imagens típico da obra borgeana:

“Amanhã serei um tigre entre os tigres

e predicarei Minha lei a sua selva,

ou uma grande árvore na Ásia.

Às vezes penso com nostalgia

no odor dessa carpintaria”.

      A impossibilidade ou o provável também são também faces da eternidade com sua promessa:

“Um pintor prometeu-nos um quadro.

Agora, em New England, sei que morreu. Senti, como outras vezes, a tristeza de compreender que somos  como um sonho. Pensei no homem e no quadro perdidos.

(Só os deuses podem prometer, porque são imortais).

Pensei depois se estivesse aí, seria com o tempo uma coisa mais, uma coisa, uma das vaidades ou hábitos da casa; agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer forma e qualquer cor e a ninguém vinculada.

Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma música e estará comigo até o fim. Obrigado, Jorge Larco.

(Também os homens podem prometer, porque na promessa há algo imortal).

(02.07.09):                                    O OURO DOS TIGRES

Publicado em 1972, no seu belo título já trai a recorrente fascinação de Borges com esse que é o animal mais bonito. A imagem do ouro ligado ao animal selvagem, uma espécie de fulgor da ferocidade, também trai um dos temas centrais dessa coletânea de 48 poemas. Em ocasiões diversas (por exemplo, ao comentar Ulisses, de Joyce, ou A pedra do reino, de Ariano Suassuna), eu  levantei a questão da nostalgia do épico, e é isso que vemos em O ouro dos tigres. Borges como o fazedor de versos, descendente longínquo e pálido dos aedos e cantores de sagas, ou ainda, em termos mais pessoais e irrisórios, último representante de uma família de militares “machos”, um eco já apagado, uma sombra, do que foi grandioso, e se não foi, ficou assim  “naquele plástico ontem irrevogável”, “Essas coisas podiam não ter sido./ Quase não foram. Nós as concebemos/ em um ontem fatal e inevitável”,“O ontem ilusório é um recinto/ de imutáveis figuras de cera/ ou de reminiscências literárias/ que o tempo irá perdendo em seus espelhos” (“O passado”). Não por acaso, os dois primeiros poemas, que estabelecem o “clima”, por assim dizer, tratam de um conquistador, um homem de ação (“Tamerlão”), que protagonizou uma tragédia de Christopher Marlowe, o grande rival do jovem Shakespeare, e de espadas famosas (“Espadas”).

A ação heróica, destinada a ser literatura (e um dos elementos daquela continuidade de que eu falava nos comentários sobre Elogio da sombra), o épico que encontra o lírico e o cósmico em Whitman, presença tutelar do livro desde o prólogo (apesar de este fornecer uma imagem ambivalente, mais negativa que positiva; “Para um verdadeiro poeta, cada momento da vida, cada fato, deveria ser poético, já que profundamente o é. Que eu saiba, ninguém alcançou até hoje essa alta vigília. Browning e Blake se aproximaram mais do que qualquer outro; Whitman a propôs, mas suas deliberadas enumerações nem sempre passam de catálogos insensíveis”):

“Roma, que impõe o numeroso hexâmetro

Ao obstinado mármore dessa língua

Que manejamos hoje, espedaçada;

Os piratas de Hengist que atravessam

A remo o temerário mar do Norte

E com fortes mãos e a coragem

Fundam um reino que será o Império;

O rei saxão que oferta ao da Noruega

Sete palmos de terra e que cumpre,

Antes que o sol decline, a promessa

Na batalha de homens; os cavaleiros

Do deserto, que cobrem o Oriente

E ameaçam as cúpulas da Rússia;

Um persa que relata a primeira

Das Mil e uma noites e não sabe

Que deu início a um livro que os séculos

Das outras gerações, ulteriores,

Não entregarão ao quieto esquecimento;

Snorri, que salva em sua perdida Tule,

Sob a luz de crepúsculos morosos

Ou na noite propícia à memória,

As letras e os deuses da Germânia;

O jovem Schopenhauer, que descobre

Um projeto geral do universo;

Whitman, que numa redação do Brooklyn,

Entre o cheiro de tinta e de tabaco,

Toma e a ninguém conta a infinita

Resolução de ser todos os homens

E de um livro escrever que seja todos…”

WaltWhitman

E o poeta Borges, ou o avatar de poeta que ele tomou para si neste livro? Vejamos o último dos  “Tankas”  (estrofe japonesa que tem um primeiro verso de cinco sílabas, o segundo de sete sílabas, o terceiro de cinco sílabas e os dos últimos de sete sílabas):

“Não ter tombado

Como outros de meu sangue,

Na batalha.

Ser na inútil noite.

O que conta sílabas.”

 

“…com o verso / devo lavrar meu insípido universo”, lemos em “O cego”; “…o resignado / exercício do verso não te salva” (“Ao triste”), enquanto se espalham as alusões ao projeto whitmaniano:. Em “On his blindness”: “Walt Whitman, esse Adão nomeador / das crianças que existem sob a lua”; em 1971 (um poema em homenagem à descida do homem na lua e seus antecedentes míticos e literários): “Esses filhos de Whitman haviam pisado/ o páramo lunar, o inviolado…”, numa paródia a sério da expressão “filhos de Adão”.

E por falar em Adão, uma das “Treze moedas” recapitula concisamente uma situação já explorada  no poema “Lenda” de Elogio da sombra:

 

“Foi no primeiro deserto.

Dois braços atiraram uma grande pedra.

Não houve um grito. Houve sangue.

Houve pela primeira vez a morte.

Já não me lembro se foi Abel ou Caim”.

No poema anterior:

“Abel e Caim se encontraram depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e se reconheciam  de longe, porque os dois eram muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, fizeram um fogo e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando o dia declina. No céu despontava alguma estrela, que ainda não recebera seu nome. À luz das chamas, Caim notou na testa de Abel a marca da pedra e deixou cair o pão que estava para levar à boca e pediu que seu crime lhe fosse perdoado.

    Abel respondeu:

–Tu me mataste ou eu te matei? Já não me lembro; aqui estamos juntos como antes.

–Agora sei que você me perdoou de verdade, disse Caim, porque esquecer é perdoar. Eu também tentarei esquecer.

      Abel disse devagar:

–Assim é. Enquanto dura o remorso, dura a culpa”.

 

    Voltando à “nostalgia do épico”, um dos elementos constituintes na mítica pessoal borgiana é a figura do “gaúcho” e seu cenário natural, o pampa:

“O beco final com seu poente.

Inauguração do pampa.

Inauguração da morte.” (“Oeste”)

“No fim de sua terceira geração

Regresso às planícies dos Acevedo,

Os meus antepassados. Vagamente

Procurei-os por esta velha casa…

Na chuva que ensombrece a varanda,

Entre o crepúsculo de seus espelhos,

Num reflexo, um eco, que foi seu

E que agora é meu, sem que eu o saiba…

Aqui foram a espada e o perigo,

As duras prescrições e os levantes;

Firmes sobre o cavalo, aqui regeram

A sem princípio e a sem fim planura…” (“A busca”)

                              “… Professaram

A antiga fé do ferro e da coragem…

Por essa fé morreram e mataram.

 

Entre os acasos de uma montonera

Pereceu  pela cor de uma divisa;

Foi quem nada pediu, nem a efêmera

Glória, feita de alarde e de brisa.”

 

Há até uma poética do épico em “Os quatro ciclos”, que afirma que “Quatro são as histórias. Durante o tempo que nos resta, continuaremos a narrá-las, transformadas”. São elas a história da Ilíada, da Odisséia, de Jasão e o velocino, e do sacrifício de um deus (Átis, Odin, Cristo).

Nessa obsessão pelo épico, que só estou pincelando, há uma homenagem a Camões (no poema “O mar”; aliás, mar e épico estão inextricavelmente ligados), embora seu nome não seja citado:

“O mar. O mar de Ulisses…

É o do tal cavaleiro que escrevia

A um só tempo a epopéia e a elegia

De sua pátria, no pântano de Goa…”

 

    E o próprio Borges, numa auto-ironia, mostra sua fidelidade aos ideais militares que, vinculada a coisas imemoriais e nada comezinhas, tiveram o efeito desastroso de propiciar desastradas declarações políticas num país sob ditadura militar. No poema “A sentinela”, e Borges- O outro determina coisas para Borges-o mesmo::

“Converteu-me ao culto idolátrico de militares mortos, com

         os quais talvez não pudesse trocar uma única palavra”.

caricatura (borges)

Acho que esse trecho esclarece bem a questão “Borges & regime militar”.

Esse mesmo poema termina de uma forma terrível:

“A porta do suicida está aberta, mas os teólogos afirmam

         que na sombra ulterior do outro reino estarei eu, me

         esperando.”

Que ecoa a fórmula de “O ameaçado”: “o horror de viver no sucessivo”, o que expressa a impotência dos seres majestosos e enjaulados (a pantera, o tigre, cuja visão o fascinou antes da cegueira):

“Em vão é vário o orbe. A jornada

Que cumpre cada qual já foi fixada” (“A pantera”)

Do ouro dos tigres só sobrou na cegueira a cor amarela:

“Agora só perduram contornos amarelos,

E só consigo ver para ver pesadelos.”

 

     Em 1970, Borges esteve em São Paulo e lá escreveu “Poema da quantidade”:

“Aqui são excessivas as estrelas.

O homem é excessivo. As gerações

Inúmeras de aves e de insetos,

Do jaguar constelado e da serpente,

De galhos que se tecem e entretecem,

Do café, da areia e das folhas

Oprimem as manhãs e nos prodigam

Seu minucioso labirinto inútil.

Talvez cada formiga que pisamos

Seja única ante Deus, que a define

Para a execução das regulares

Leis que regem  Seu curioso mundo.

Não fosse assim, o universo inteiro

Seria um erro e um oneroso caos.

Os espelhos do ébano e da água,

O espelho inventivo de um sonho,

Os liquens e os peixes, as madréporas,

Tartarugas alinhadas no tempo,

Os vaga-lumes de uma única tarde,

As araucárias e suas dinastias,

As perfiladas letras de um volume

Que a noite não apaga são sem dúvida

Não menos pessoais e enigmática

Que eu, que as confundo. Não me atrevo

A julgar nem a lepra nem Calígula.”

Não posso me furtar a transcrever parte de  “A um gato”:

“Não são mais silenciosos os espelhos

Nem mais furtiva a aurora aventureira;

Tu és, sob a lua, essa pantera,

Que divisam ao longe nossos olhos…

Mais remoto que o Ganges e o poente,

Tua é a solidão, teu o segredo.

Teu dorso condescende à morosa

Carícia de minha mão. Sem um ruído,

Da eternidade que ora é olvido,

Aceitaste o amor dessa mão receosa.

Em outro tempo estás. Tu és o dono

De um espaço cerrado como um sonho.”

borges cugato

E para finalizar essa minha passagem pelos poemas de O ouro dos tigres, duas passagens que eu acho emocionante. Uma é o último verso de “O ameaçado”, um poema sobre o amor “com suas mitologias, com suas pequenas magias inúteis”):

“Dói-me uma mulher por todo o corpo” (que bom ver o corpo referido em Borges).

A outra, que considero um fecho perfeito para qualquer texto, é de “O palácio”. Apesar do horror de viver no sucessivo:

“… já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memória. Eu sei que não estou morto.”

el oro de los tigres

, 

              

jorge_luis_borges[2]

(05.07.09)

Nos últimos três dias me ocupei dos livros de poemas que Borges publicou em meados dos anos 70 (em 75, 76 e 77): A rosa profunda; A moeda de ferro; História da noite. Fiquei encantado, contrariando a expectativa (sempre tive um pé atrás com essa fase tardia da poesia borgiana). E na verdade, acredito que História da noite é um dos seus grandes livros e os dois outros livros estão a ele (e à Macro-Narrativa borgiana) tão intimamente ligados, que mesmo o que ficou de repetitivo, de exasperante, faz parte de um conjunto “de ferro” (para utilizar uma locução adjetiva cara ao autor). Em A rosa profunda & A moeda de ferro não há nada particularmente genial ou excepcional nos poemas, mas quase todos têm uma distinção, uma dignidade que nada tem a ver com o acadêmico… E História da noite é um livro de mestre. Neles, perpassa o sopro das quatro metáforas que ele localiza nas Mil e uma noites:  a do rio (no sentido de Heráclito); a da trama do tapete;  a do sonho; a do mapa do Tempo:

                        “…um orbe fluido

De formas que variam como nuvens,

Sujeitas ao arbítrio do destino

Ou do acaso, que são a mesma coisa (…)

                        … a trama

De um tapete, que oferece ao olhar

Um caos de várias cores e de linhas

Irresponsáveis, acaso e vertigem.

Mas uma ordem secreta o governa.

Como aquele outro sonho, o Universo,

Esse Livro das Noites está feito

De cifras tutelares e de hábitos:

Os sete irmãos e as sete viagens.

O trio de cádis e os três desejos (…)

Como no paradoxo do eleata,

O sonho se desfaz em outro sonho

E este, em outro e em outros, que entretecem

Ociosos um ocioso labirinto.

No livro está o Livro (…)

                        … um mapa

Daquela região indefinida, o Tempo,

De quanto medem as graduais sombras

E o perpétuo desgaste de alguns mármores

E os passos de diversas gerações.

Tudo. A voz e o eco, o que miram

As duas opostas faces do Bifronte (…)

Dizem os árabes que ninguém consegue

Ler até o fim esse Livro das Noites.

As Noites são o Tempo, o que não dorme…” (“Metáforas das Mil e Uma Noites”, de História da  Noite)

A ROSA PROFUNDA

                                  “No dialeto de hoje

                                  Direi, por minha vez, coisas eternas…”

 

                                  “Ao esquecimento, às coisas do esquecimento, acabo de

                                  Erigir este monumento…”

 

                                  “Que arco terá lançado esta seta

                                  que sou ? Que cume pode ser a meta?”

Em A rosa profunda, talvez o poema central (ele fica mais ou menos no meio dos  26 poemas) é “1972”:

“Temi que o porvir (que já declina)

Seria um profundo corredor de espelhos

Indistintos, ociosos e minguantes,

Um repetir sem fim de fatuidades,

E na penumbra que precede o sonho

Pedi a meus deuses, cujo nome ignoro,

Que algo ou alguém enviassem a meus dias. 

Fizeram-no. É a Pátria. Meus ancestrais

Serviram-na com longas proscrições,

Com penúrias, com fome, com batalhas,

Aqui de novo está o formoso risco.

Não sou aquelas sombras tutelares

Que honrei com versos que não esquece o tempo (…)

Mas hoje a Pátria profanada quer

Que com minha obscura pena de gramático,

Douta em  nimiedades acadêmicas

E distante dos trabalhos da espada,

Congregue o grande rumor da epopéia

E exija o meu lugar. Eu o estou fazendo.”

 

Outro poema que me parece central (e que está bem próximo ao anterior) é “All our yesterdays”:

“Quero saber de quem é meu passado.

De qual dos que já fui? Do genebrino

Que traçou algum hexâmetro latino

Pelos anos lustrais já apagado?

Édo menino que buscou na inteira

Biblioteca do pai as pontuais

Curvaturas do mapa  e as ferais

Formas que são o tigre e a pantera?

Ou daquele outro que empurrou uma porta

Atrás da qual um homem morria

Para sempre, e beijou no branco dia

A face que se vai e a face morta?

Sou os que já não são. Inutilmente

Sou em meio à tarde essa perdida gente.”

Na coletânea,  há um poema chamado “Eu” (“os caminhos de sangue que não vejo”) e um poema chamado “Sou” (“Sou, tácitos amigos, o que sabe/ Que não há outra vingança que o olvido/ Nem há outro perdão (…) Sou eco, olvido, nada”).

E os temas do rio, da trama do tecido, do sonho (“Bem no fundo do sonho estão os sonhos”, lemos em “Efialtes”; “Eu também sou um sonho fugitivo que dura/ Alguns dias mais…”, lemos em “A cerva branca”) e do mapa do Tempo continuam entretecidos nesse Boitempo (“… a morte, esse outro nome/Do incessante tempo que nos rói…”, lemos em “Elegia”) borgeano:

“O grande rio de Heráclito, o Obscuro,

Seu curso misterioso não empreendido,

Que do passado flui para o futuro,

Que do olvido flui para o olvido.” (“Cosmogonia”)

“Serei todos ou ninguém. Serei o outro

Que sem saber eu sou, o que fitou

Esse outro sonho, minha vigília. E a julga,

Resignado e sorridente…” (“O sonho”)

                        “…o humano tempo,

Cujo espelho espectral é a memória” (“O bisão”)

                        …”Cada coisa

É infinita coisas. Tu és música,

Firmamentos, palácios, rios e anjos,

Rosa profunda, ilimitada, íntima…” (“The unending rose”)

Machadianamente (pelo menos, no que se refere ao narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas), neste nosso “intolerável universo”, o suicida pode afirmar: “Lego o nada a ninguém” (“O suicida”). Mas, para compensar, há  o rouxinol, “voz repleta de mitologias”, que merece este belíssimo verso: “Keats te ouviu por todos, para sempre” (“Ao rouxinol”).

As 13 moedas de O ouro dos tigres, retomadas, foram acrescidas de mais duas. Em uma delas temos essa homenagem a Poe:

“Os sonhos que sonhei. O poço e o pêndulo.

O homem das multidões. Ligéia…

Mas também este outro.” (“Quinze moedas”)

   O tigreiro Simón Carbajal:

“Sempre estava matando o mesmo tigre

Imortal. Não te assombre demasiado

Seu destino. É o teu e é o meu,

Salvo que nosso tigre possui formas

Que mudam sem parar. Chama-se o ódio,

O amor, o acaso, cada momento.” (“Simón Carbajal”)

A cegueira:

“Não sei qual é o rosto que me mira

Quando miro o rosto do espelho;

Não sei que velho espreita em seu reflexo

Com silenciosa e já cansada ira.

Lento em minha sombra, com a mão exploro

Meus invisíveis traços. Um lampejo

Me toca. Teu cabelo entrevejo,

Se ora de cinza ou ainda de ouro, ignoro.

Repito que o perdido foi somente

A inútil superfície das coisas.” (“Um cego”)

A nostalgia do épico persiste, claro. Alguém percorre os caminhos de Ítaca e não se lembra daquele rei que partiu para Tróia, que desceu ao Hades para consultar Tirésias (“O desterrado”).

Os destinos que não são nossos; os destinos não que não nos couberam, nesse jardim de veredas que se bifurcam da existência:

“Eu, com ela, morro de infinitos

Destinos que o acaso não me depara.” (“Em memória de Angélica”) 

    Enquanto (creio que não dá para ser totalmente solipsista), “Sobre nós vai crescendo, atroz, a história” (“Em memória de Angélica”):

                       “…as vozes dos mortos

vão me dizer para sempre.”  (“Meus Livros”)

Esclarecendo que os “meus livros” são os livros que ele possui (mas não pode ler) e não aqueles que ele mesmo escreveu.

E, por fim, a visão da “cerva branca”:

“Leve criatura feita de uma certa memória

E de um pouco de olvido…” (“A cerva branca”).

             A MOEDA DE FERRO: “As perpétuas águas de Heráclito”

“…o intrincado jogo

                                  Que urdem a terra, a água, o ar, o fogo”

 

                                 “Hoje somos noite e nada”

 

                                  “Eu cometi o pior dos pecados

                                  Possíveis a um homem. Não ter sido

                                  Feliz…”

 

                                  ‘A firme trama é de incessante ferro”

     São 36 os poemas dessa coletânea de 1976, muito marcada pelo tema do “sonho” (e também pela nostalgia do épico, claro, e também pelo “remordimiento”, o remorso de não viver plenamente e o apego a “naderías”, e também pelas perpétuas águas de Heráclito, que seguem nos arrastando, através dos “hábitos do Tempo”) e pela forma soneto. Ele começa, no entanto, com uma bela elegia:

“Que não daria eu pela memória

De uma rua de terra com muros baixos,

De um alto cavaleiro invadindo a alvorada

(Longo e surrado o poncho)

Em um dia qualquer sobre a planura,

Em um dia sem data.

Que não daria eu pela memória

De minha mãe contemplando a manhã

Na estância de Santa Irene,

Sem saber que seu nome ia ser Borges.

Que não daria eu pela memória

De haver combatido em Cepeda

E de ter visto Estanilao del Campo

Cumprimentando a primeira bala

Com a alegria da coragem (…)

Que não daria eu pela memória

(Que já tive e perdi)

De uma tela de ouro de Turner,

Extensa como a música.

Que não daria eu pela memória

De ter sido um ouvinte de Sócrates

Que, na tarde da cicuta,

Examinou serenamente o problema

Da imortalidade,

Alternando os mitos e as razões (…)

Que não daria eu pela memória

De que tivesses dito que me amavas

E de não adormecer até a aurora,

Perdido e feliz.”  (“Elegia da lembrança impossível”).

Que não daria ele para ser, talvez, como o coronel Suárez, com seu “sombrio semblante de metal e melancolia” (veja-se que junção maravilhosa, essa do metal e da melancolia) ou o “antigo rei”(“Sei que me sonha e que me julga…”): “Já não há rostos assim. A firme espada/ Vem acatá-lo, como seu cão, leal”. Ou ter, talvez, o destino de Hilário Ascasubi:  “Houve um dia a felicidade. O homem/ Aceitava o amor e a batalha/ Com o mesmo regozijo…” Que não daria ele para falar como Einar Tambarskever: “Não há outra obrigação que ser valente”. E que pena que ele seja apenas aquele que diz, desse episódio da saga islandesa: “Agora eu a traslado/ Tão longe desses mares e desse ânimo”.

Que não daria ele para ser, talvez, o aedo épico da Pátria:

“Pompas do mármore, árduos monumentos,

E pompas da palavra, parlamentos,

Centenários e sesquicentenários,

São apenas a cinza, a menor flama

Dos vestígios de uma antiga chama.” (“Elegia da Pátria”)

“Tua versão da Pátria, com seus faustos brilhantes,

Entra na minha vaga sombra como se entrasse o dia

E a ode zomba da Ode. (É apenas nostalgia

–Minha própria versão –de facas ignorantes

E de velha coragem.) Já estremece o Canto,

Já, a custo contidas pela prisão do verso,

Surgem as multidões do futuro e diverso

Reino que será teu, seu júbilo e seu pranto.

Manuel Mujica Lainez, algum dia tivemos

Uma pátria—recordas?—e os dois a perdemos.”  (“A Manuel Mujica Lainez”)

Que não daria ele para escrever em outra língua que não “esse latim decaído, o castelhano”. Que não daria ele para ser aquele que fixou uma batalha memorável em 991 a.D.:  “As pessoas o seguiam com atenção. Iam recordandoos fatos que Aidan [aedo] enumerava e que pareciam compreender só agora, quando uma voz cunhava as palavras”. Que não daria ele para ser o filho de Aidan que o pai pede para renunciar à contenda e escreva versos “para que perdure o dia de hoje na memória dos homens”.

Que não daria ele para não morrer “sem ter visto minha infindável casa”, ainda que vivo, “sou uma sombra que a Sombra ameaça”.

Que não daria ele para ser um dos homens do Arquétipo do Conquistador: “Eu sou o Arquétipo. Eles, os homens…”, para dizer, ao final: “O resto não importa. Eu fui valente”.

Que daria ele para que o futuro não fosse “…tão irrevogável/ Quanto o rígido ontem…”.

Que daria ele para não ser uma “procissão de sombras”, um “homem cinza”.

Que não daria ele para ser verdadeiramente o poeta que fizesse justiça a Brahms: 

 “Quem te honre há de ser nobre e valente.

Sou um covarde. Sou um triste. Nada

Poderá justificar esta ousadia

De cantar a magnífica alegria

–Fogo e cristal—de tua alma enamorada.” (“A Johannes Brahms”)

Se ainda fosse Shakespeare:

“… alguns séculos

E o rei volta a morrer na Dinamarca

E ao mesmo tempo, curiosa magia,

Em um tablado em meio aos arrabaldes

De Londres…” (“Os ecos”)

Ou Espinosa:

                     “…O assíduo manuscrito

Aguarda, já repleto de infinito (…)

O feiticeiro insiste e lavra

Deus com geometria delicada…”  (“Baruch Espinosa”)

Mesmo que sentisse o horror de Heráclito, ao descobrir sua fórmula:

“… E então sente

Com o assombro de um horror sagrado

Que também ele é um rio e uma fuga.

Deseja recobrar essa manhã

E sua noite e a véspera. Não pode”. (“Heráclito”)

Mas resta o consolo dos espantos singelos:

                     “não há no orbe

Uma coisa que não seja outra, ou contrária, ou nenhuma.

A mim só inquietam os espantos singelos.

Assombra-me que a chave tenha uma porta aberta;

Assombra-me que minha mão seja um fato certo;

Assombra-me que do grego a eleática seta

Instantânea não alcance a inalcançável meta;

Assombra-me que a espada cruel seja formosa,

E que a rosa tenha o perfume da rosa.”  (“O ingênuo”)

Um dos poemas mais bonitos é sobre a onipresente memória do pai:

“Nós te vimos morrer risonho e cego.

Nada esperavas ver do outro lado,

Mas tua sombra talvez tenha avistado

Os arquétipos que Platão, o Grego,

Sonhou e que me explicavas. Ninguém sabe

De que manhã o mármore é a chave.” (“A meu pai”)

Assim como o poema a Melville:

“Sempre o cercou o mar dos ancestrais,

Os saxões, que ao mar deram o nome

De rota da baleia, em que se juntam

As duas enormes coisas (…)

Sempre foi seu o mar. Quando seus olhos

Viram em alto-mar as grandes águas,

Já o havia desejado e possuído

Naquele outro mar, que é da Escritura (…)

…o prazer, por fim, de avistar Ítaca (…)

Melville cruza nas tardes New England.

Mas o habita o mar…” (“Herman Melville”)

Ou o sonho com Kafka:

“Ela era a companheira de Kafka.

Kafka a sonhara…

Ele era o amigo de Kafka.

Kafka o sonhara…

A mulher disse ao amigo:

Quero que esta noite me queiras…

O homem lhe respondeu: Se pecarmos,

Kafka deixará de sonhar-nos…

Kafka disse a si mesmo:

Agora que os dois partiram, fiquei sozinho.

Deixarei de sonhar-me”.  (“Ein Traum”)

Duas citações bonitas poderiam ser a “summa” de angústia (“que não daria ele…”) do livro: uma, tirada de “Signos”, com aquela formulação lapidar típica: “Posso ser tudo. Deixa-me na sombra”; a outra de “Não és os outros”: “Não és os outros e te vês agora/ Centro do labirinto que tramaram/ Os teus passos”.

Mas outras duas citações bonitas são mais esperançosas, menos atadas a essa trama de incessante ferro.

De “Para uma versão do I-Ching”:

“A firme trama é de incessante ferro.

Porém em algum canto de teu encerro

Pode haver um descuido, a rachadura.

O caminho é fatal como a seta,

Mas Deus está à espreita entre a greta”.

E do poema-título:

“Aqui está a moeda de ferro. Interroguemos

As duas contrárias faces que serão a resposta

Da pertinaz pergunta que ninguém já se fez:

Por que um  homem precisa que uma mulher o queira?”

Isso me lembra “O palácio” (de O ouro dos tigres): “já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memória. Eu sei que não estou morto”.

HISTÓRIA DA NOITE: O QUE A MEMÓRIA CONCEDE

          “…A memória

                             Me concede esta estampa de um livro

                             Cuja cor e cujo idioma ignoro…

                             Às vezes sinto medo da memória.”

 

                             “…no tempo repetem  uma trama

                             Eterna e frágil, misteriosa e clara”

 

                             “As coisas são seu porvir de pó.

                             É óxido o ferro. A voz, o eco”

Contrariando seu apego por prólogos, essa obra-prima que expressa o “recato da melancolia” e reúne 31 poemas começa com uma “Inscrição” dedicada a María Kodama (a quem ele fizera um poema “A lua”). Em compensação, há um “Epílogo”:

“Um volume de versos não passa de uma sucessão de exercícios mágicos. O modesto feiticeiro faz o que pode com seus modestos meios… Trabalhamos às cegas. O universo é fluido e cambiante; a linguagem é rígida.

     De todos os livros que publiquei, o mais íntimo é este. É pródigo em referências livrescas; também prodigalizou-as Montaigne, inventor da intimidade… Como certas cidades, como certas pessoas, uma parte muito grata de meu destino foram os livros. Poderei repetir que a biblioteca de meu pai foi o fato capital de minha vida? A verdade é que nunca sai dela, com nunca saiu da sua Alonso Quijano”.

 

“O algibe. Lá no fundo a tartaruga.

E sobre o pátio a vaga astronomia

Do menino. Essa herdada prataria

Que se espelha no ébano. A fuga

Do tempo, que no início nunca passa.

Um dos sabres que serviu no deserto.

Um grave rosto militar e morto.

O tímido saguão. A velha casa.

Naquele pátio que foi dos escravos

A sombra da parreira, encurvada.

Um tresnoitado assovia na calçada.

No mealheiro dormem os centavos.

Nada. É somente pobre mediania

Que procuram o olvido e a elegia.”  (“Buenos Aires, 1899)

    A palavra “noite” já aparece no primeiro verso do primeiro poema, “Alexandria 641 a.D.”: “Desde o primeiro Ada que viu a noite…” Também temos o tema da vida virtual, que segue existindo na não-existência:”Ordeno a meus soldados que destruam/ Pelo fogo essa vasta Biblioteca,/Que não perecerá…”. Nesse poema inaugural há um verso belíssimo: “o verso em que perdura a carícia”. E quem diz que o nosso poeta não era um lírico?

“Alguém” homenageia os narradores anônimos que transmitiram o nosso repertório de histórias: “Não sabe (nunca o saberá) que é nosso benfeitor”.

Em “Leões”:

“Nem o esplendor do cadencioso tigre

Nem do jaguar os signos prefixados

Nem do gato o sigilo. Dessa tribo

É o menos felino, e no entanto

Sempre os sonhos dos homens acendeu…”

Em “Endímion em Latmos”: “Inútil repetir-me que a lembrança/ de ontem e um sonho são iguais”, que nos prepara, talvez, para o lindo poema sobre Cervantos/Quijano/Quixote  (“Eu nem mesmo sou pó”):

“Não quero ser quem sou. A avara sorte

Deparou-me o século XVII,

O pó e a rotina de Castela,

As coisas repetidas, a manhã

Que, prometendo o hoje, nos dá a véspera…

Sou um homem entrado em anos. Uma página

Casual me revelou não usadas vozes

Que me buscavam, Amadis e Urganda…

Cavaleiros cristãos iam e vinham

Pelos reinos da terra, vindicando

A honra ultrajada ou impondo

Justiça com os gumes da espada.

Queira Deus que um enviado restitua

A nosso tempo esse exercício nobre.

Meus sonhos o divisam. Já o senti

Em minha triste carne celibatária.

Não sei ainda seu nome. Eu, Quijano,

Serei esse paladino. E meu sonho.

Dentro da velha casa há uma adarga

Antiga e uma espada de Toledo

E uma lança e os livros verdadeiros

Que a meu braço prometem a vitória.

A meu braço?Meu rosto (que não vi)

Não projeta nenhum rosto no espelho.

Eu nem mesmo sou pó. Sou aquele sonho

Que entretece no sono e na vigília

O meu irmão e pai, capitão Cervantes,

Que militou nos mares de Lepanto

E soube algum latim e algo de árabe…

A fim de que eu possa sonhar o outro

Cuja verde memória será parte

Da existência dos homens, eu te suplico:

Meu Deus, meu sonhador, segue a sonhar-me.”

Nessa nostalgia do épico, do “rumor de hexãmetros”, que nos traz poemas sobre a Islândia ou Gunnar Thorgilson, temos também a memória do trágico, como no poema sobre “Macbeth” (“…a grande voz de Shakespeare (na qual estão as outras)…”.

“Apenas uma coisa entre as coisas

Mas também uma arma. Foi forjada

Na Inglaterra, em 1604,

E carregada com um sonho. Encerra

Som e fúria e noites e escarlate.

Minha palma a sopesa. Quem diria

Que contém o inferno: as barbadas

Bruxas que são as parcas, os punhais

Que executam as leis da sombra…

Esse tumulto silencioso dorme

No espaço de um daqueles livros

Da sossegada estante. Dorme e espera.”  (“Um livro”)

E voltamos também aos compadritos, aos duelos de punhais dos arrabaldes, ao passional que movimenta o tango, o compadrito Ezequiel Tabares que quer se vingar, em 1890, do homem que lhe roubou a mulher: “Faz tempo que não se lembra da mulher; só pensa no outro… Sem que ele saia, Buenos Aires cresceu a seu redor como uma planta que faz barulho… As pessoas o atravessam e ele não sabe… Hoje,13 de junho de 1977, os dedos da mão direita do compadrito morto Ezequiel Tabares, condenado a certos minutos em 1890, roçam em um eterno entardecer um punhal impossível”.

No  poema “O suicida” o eu lírico afirmava terrificamente: “Lego o nada a ninguém”. Veja-se a contrapartida, ainda que com o recato da melancolia, em “Things that might have been”:

“Penso nas coisas que poderiam ter sido e não foram…

A história sem a tarde da Cruz e sem a tarde da cicuta.

A história sem o rosto de Helena…

O orbe sem a roda ou sem a rosa.

O juízo de John Donne sobre Shakespeare…

O filho que não tive.”

Temos um poema “À França”: “Desviaram-me outros amores/ e a erudição vagabunda, / mas não deixei nunca de estar na França/ e estarei na França quando a grata morte me chamar/ em algum lugar de Bueno Aires./Não direi a tarde e a lua; direi Verlaine. / Não direi o mar e a cosmogonia; direi o nome de Hugo./ Não a amizade, e sim Montaigne…”

Temos “Um sábado” do poeta: “Um homem cego em uma casa oca/ Fatiga certos limitados rumos/ E toca as paredes que se alongam/ E o cristal das portas interiores/ E as lombadas ásperas dos livros/ Proibidos a seu amor …/ E sente que os atos que executa/ Interminavelmente em seu crepúsculo/ Obedecem a um jogo que não entende/ E que dirige um deus indecifrável…”

Para terminar, o poema-título  (“Ao longo de diversas gerações/ os homens erigiram a noite./ Em seu começo era cegueira e sonho…/ Nunca saberemos quem forjou a palavra/ para o intervalo de sombra/ que cinde os dois crepúsculos) e dois dos melhores poemas, os quais, creio eu, fornecem as senhas e cifras para o recato da melancolia:

“Quando menino, eu temia que o espelho

Me mostrasse outro rosto ou uma cega

Máscara impessoal que ocultaria

Algo na certa atroz. Temi também

Que o silencioso tempo do espelho

Se desviasse do curso cotidiano

Dos horários do homem e hospedasse

Em seu vago extremo imaginário

Seres e formas e matizes novos.

(Não disse isso a ninguém, menino tímido.)

Agora temo que o espelho encerre

O verdadeiro rosto de minha alma,

Lastimada de sombras e de culpas,

O que Deus vê e talvez vejam os homens.” (“O espelho”)

“…Sou apenas a sombra que projetam

Essas íntimas sombras intrincadas.

Sou sua memória, e sou também o outro

Que, como Dante e os homens todos,

Já esteve no raro Paraíso

E nos muitos Infernos necessários.

Sou a carne e o rosto que não vejo.

Sou no final do dia o resignado

Que dispõe de modo algo diverso

As palavras da língua castelhana

Para narrar as fábulas que esgotam

O que se chama de literatura.

Sou o que folheava enciclopédias,

O tardio escolar de fontes brancas

Ou cinza, prisioneiro de uma casa

Cheia de livros que não possuem letras,

Que na penumbra escande um temeroso

Hexâmetro aprendido junto ao Ródano…

O passado me acossa com imagens…

Sou o que não conhece outro consolo

Que recordar o tempo da ventura.

Às vezes sou a ventura imerecida.

SOU O QUE SABE NÃO PASSAR DE UM ECO,

O que anseia morrer inteiramente.

Sou talvez o que tu és no sonho.

Sou a coisa que sou. Já disse Shakespeare… “ (“The thing I am”)

(o6.07.09)

“…se a memória me devolve um verso,

repito o ritual inumeráveis

vezes em meu assinalado rumo.

Não posso executar um ato novo,

teço e torno a tecer a mesma fábula,

repito um repetido decassílabo,

torno a dizer o que outros me disseram,

as mesmas coisas sinto, sempre à mesma

hora do dia ou da abstrata noite…

Sou o cansaço de um espelho imóvel…”

 ****

“… certo homem

feito de solidão, de amor, de tempo,

acaba de chorar em Buenos Aires

todas as coisas.”

NA “DELICADA PENUMBRA DA CEGUEIRA”

 

“Oh, dias consagrados ao inútil

empenho de esquecer a biografia

de um poeta menor do hemisfério

austral, a quem o fado ou os astros

deram um corpo que não deixa um filho

e a cegueira, que é penumbra e cárcere,

e a velhice, alvorecer da morte,

e o renome, que ninguém merece,

e o hábito de tecer decassílabos

e o velho amor pelas enciclopédias

e pelos finos mapas caligráficos

e pelo marfim tênue e a nostlagia

eterna do latim…

e esse mau costume, Buenos Aires…

e que na tarde, igual a tantas outras,

resigna-se a estes versos.”

 

Passaram-se alguns anos após aquela sucessão de livros e em 1981 o agora octogenário Borges reaparece com um livro surpreendentemente ágil e intenso, A cifra, com 45 poemas. Novamente há uma “Inscrição” para María Kodama e um prólogo importante:

“Minha sina é o que se costuma chamar de poesia intelectual… Admirável exemplo de uma poesia puramente verbal é a seguinte estrofe de  Jaimes Freyre: Peregrina paloma imaginária/que avivas os últimos amores / alma de luz, de música e de flores/ peregrina paloma imaginária. Não quer dizer nada e, à maneira da música, diz tudo; exemplo de poesia intelectual é aquela silva de Luis de Leon, que Poe sabia de cor: Viver comigo quero / gozar do bem que devo ao Céu anseio / sem testemunha, austero / de amor e ciúme, alheio / de ódio, de esperança, de receio. Não há uma única imagem. Não há uma única palavra bonita, com a duvidosa exceção de testemunha, que não seja uma abstração.

     Estas páginas procuram, não sem alguma incerteza, uma via intermediária”. 

    O primeiro poema, “Ronda”, não poderia ser mais típico:

 

“O Islã, que foi espadas

que desolaram o poente e a aurora

e um fragor de exércitos na terra

e uma revelação e uma disciplina

e a aniquilação dos ídolos

e a conversão de todas as coisas

em um terrível Deus, que está só…”

 

Na minha leitura das outras cinco coletâneas, não tive dificuldade de extrair pequenas citações de cada poema. A cifra, no entanto, me deu trabalho: é difícil não transcrever cada poema inteiro.

“O ato do livro” entrelaça Cervantes e sua criação ao Islã: “Será esta fantasia mais estranha que a predestinação do Islã que postula um Deus, ou que o livre-arbítrio, que nos dá a terrível potestade de escolher o inferno?”

    “Descartes” inaugura um tipo de poema comum no volume: aquele que repete em uma seqüência de versos a palavra inicial, dando uma cadência diferente ao livro com relação aos anteriores.

“Talvez um deus tenha me condenado ao tempo, essa

         longa ilusão.

Sonho a lua e sonho meus olhos, que percebem a lua.

Sonhei a tarde e a manhã do primeiro dia.

Sonhei Cartago e as legiões que desolaram Cartago…

Sonhei a geometria.

Sonhei o ponto, a linha, o plano e o volume.

Sonhei o amarelo, o azul e o vermelho.

Sonhei minha enfermiça infância.

Sonhei os mapas e os reinos e aquele duelo ao alvorecer.

Sonhei a inconcebível cor…

Quem sabe eu sonho ter sonhado.

Sinto um pouco de frio, um pouco de medo…

Continuarei sonhando Descartes e a fé de seus pais.”

Dois poemas seguidos, “As duas catedrais” e “Beppo” aludem aos Arquétipos platônicos.

Transcrevo algo de “Beppo”:

“O gato branco e casto se contempla

no luzidio vidro do espelho

e não pode saber que essa brancura

e esses olhos de ouro nunca vistos

antes na casa são sua própria imagem.

Quem lhe dirá que o outro que o observa

é somente um sonho do espelho?

Digo-me que esses gatos harmoniosos,

o de cristal e o de sangue quente,

são simulacros que concede ao tempo

um arquétipo eterno…”

“Ao adquirir uma enciclopédia”, após falar da “dilatada miscelânea que sabe mais que qualquer homem”, ele alude a um  

 

                             “…novo hábito

deste antigo hábito, a casa,

uma gravitação e uma presença,

o amor misterioso pelas coisas

que nos ignoram e se ignoram”.

Em “Duas formas da insônia”, ficamos sabendo que a insônia é “ensaiar com inútil magia uma respiração regular, é o peso de um corpo que bruscamente muda de lado, é apertar as pálpebras, é um estado parecido com a febre e que certamente não é a vigília…é querer mergulhar no sono e não conseguir mergulhar no sono, é o horror de ser e de continuar sendo…”; mas há a insônia pior, a da longevidade, “o horror de existir em um corpo humano cujas faculdades declinam, é uma insônia que se me mede por décadas e não com ponteiros de aço… é não ignorar que estou condenado à minha carne, a minha detestada voz, a meu nome, a uma rotina de lembranças, ao castelhano, que não sei manejar, à nostalgia do latim, que não sei, a querer mergulhar na morte e não poder mergulhar na morte, a ser e continuar sendo”.

“Buenos Aires”, onipresente desde o seu primeiro livro de versos, Fervor de Buenos Aires, publicado nos anos 20:

“Nasci em outra cidade que também se chamava Buenos Aires.

Recordo o ruído dos ferros do portão gradeado.

Recordo os jasmins e o algibe, coisas da nostalgia…

Recordo o que vi e o que me contaram meus pais…

Naquela Buenos Aires, que me deixou, eu seria um estranho.

Sei que os únicos paraísos não proibidos ao homem são os

         paraísos perdidos.

Alguém quase idêntico a mim, alguém que não terá lido esta

         página,

lamentará as torres de cimento e o talado obelisco.”

Em “Hino”:

“Esta manhã

há no ar o incrível aroma

das rosas do Paraíso.

Às margens do Eufrates

Adão descobre o frescor da água,

Uma chuva de ouro cai do céu;

é o amor de Zeus….

Pitágoras revela a seus gregos

que a forma do tempo é a do círculo…

Whitman canta em Manhattan.

Homero nasce em sete cidades.

Uma donzela captura agora

o unicórnio branco.

Todo o passado volta feito onda

e essas antigas coisas reaparecem

porque uma mulher te deu um beijo.”

 

(o8.07.09)

ESPELHO E ECO

“Não passo de imagens que o acaso

Vai embaralhando e que nomeia o tédio.

Com elas, mesmo cego e alquebrado,

Hei de lavrar o verso incorruptível

E (é meu dever) salvar-me”.

Como já disse, A cifra é um livro muito “citável”. Por isso, quem ler e achar coisas lindas não fique achando que as desprezei, é que dá vontade de colocar poemas inteiros aqui (como, por exemplo, “Blake” ou “A trama”).

              “… Minha verdadeira estirpe

é a voz, que ainda ouço, de meu pai,

comemorando música de Swinburne,

e os grandes volumes que folheei,

folheei e não li, e que me bastam…”  (“Yesterdays”)

“Tem o hábito da mate, que de algum modo

povoa a solidão…

…costuma contar, sempre com as mesmas palavras, aquela longa marcha de tantas léguas de Junín a San Carlos. Talvez ele a conte com as mesmas palavras porque as saiba de cor e já tenha esquecido os fatos.” (“Andrés Armoa”.

“Realizei um ato irreparável,

estabeleci um vínculo.

Neste mundo cotidiano,

que se parece tanto

ao livro das Mil e Uma Noites,

não há um único ato que não corra o risco

de ser uma operação de magia,

não há um único fato que não possa ser o primeiro

de uma série infinita.

Pergunto-me que sombras não irão lançar

estas ociosas linhas.”  (“O terceiro homem”)

“Naquele exato momento, disse o homem a si mesmo:

Que  não daria eu pela ventura

de estar a seu lado na Islândia

sob o grande dia imóvel

e de compartilhar o agora

como se compartilha uma música

ou o gosto de uma fruta.

Naquele exato momento,

o homem estava junto dela na Islândia.” (“NOSTALGIA DO PRESENTE”)

Ele se permite inclusive repetir versos de poemas anteriores (veja-se “O ápice”); em contrapartida oferece-nos alguns dos seus melhores momentos, como o “Reverso”  do “Poema”:

“Acordar aquele que dorme

é impor a outro o interminável

cárcere do universo….

É revelar-lhe que é alguém ou algo

Que está sujeito a um nome que o divulga

E a um cúmulo de ontens…

É saturá-lo de séculos e estrelas.

É restituir ao tempo outro Lázaro

saturado de memória.

É infamar a água do Letes.” (belíssimo, não?)

“A noite nos impõe sua tarefa

mágica. Destecer o universo,

as infinitas ramificações

de efeitos e de causas, que se perdem

na vertigem sem fundo que é o tempo.

A noite quer que esta noite esqueças

teu nome, teus ancestrais e teu sangue;

cada palavra humana e cada lágrima,

o que a vigília pôde te ensinar,

o ponto ilusório dos geômetras,

a linha, o plano, o cubo, a pirâmide,

o cilindro, a esfera, o mar, as ondas,

tua face sobre a fronha, o frescor

do lençol estreado, os jardins,

os impérios, os Césares e Shakespeare

e o que é mais difícil, o que amas.

Curiosamente, uma pílula pode

riscar o cosmos e erigir o caos. (“O SONHO”)

Já “Um sonho” me trouxe à memória as histórias da Trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster, todo construído nessa atmosfera:

“Em um deserto lugar do Irã há uma não muito alta torre de pedra, sem porta nem janela. No único quarto… há uma mesa de madeira e um banco. Nessa cela circular, um homem que se parece comigo escreve em caracteres que não compreendo um longo poema sobre um homem que em outra cela circular escreve um poema sobre um homem que em outra cela circular…” 

“Do outro lado da morte talvez saiba

se fui uma palavra ou fui alguém”. (“Correr ou ser”, um título que tem o seu quê de cômico.)

Algumas razões que embasam “A fama”, ou seja, a figura construída publicamente:

“Professar o amor ao alemão e a nostalgia do latim…

Agradecer o xadrez e o jasmim, os tigres e o hexâmetro…

Ter honrado espadas e sensatamente desejar a paz…

Ser Alonso Quijano sem me atrever a ser Dom Quixote…

Ter urdido um ou outro decassílabo.

Ter voltado a contar velhas histórias.

Ter disposto no dialeto de nosso tempo cinco ou seis metáforas…

SER DEVOTO DE CONRAD.

Ser essa coisa que ninguém pode definir: argentino.

Ser cego.

Nenhuma dessas coisas é estranha e seu conjunto me depara

uma fama que não consigo compreender.”

 

Um dos “Justos” é “o que agradece que na terra exista Stevenson”

Em “O cúmplice”: “devo justificar aquilo que me fere”.

“Antes de adentrarem o deserto

os soldados beberam longamente da água do poço.

Hérocles entornou sobre a terra

a água do seu cântaro e disse:

Se havemos de entrar no deserto,

 já estou no deserto.

Se a sede vai me abrasar,

que me abrase já…

Um homem foi deixado pela mulher.

Resolveram fingir um último encontro.

O homem disse:

Se devo entrar na solidão,

já estou só.

Se a sede vai me abrasar,

que me abrase já…

Ninguém na terra

 tem a coragem de ser aquele homem. (“O DESERTO”)

“O bastão de laca” repete o mote de “O terceiro homem” (e de “A trama”), do vínculo secreto entre todas as coisas:

“Não é impossível que Alguém tenha premeditado

este vínculo.

Não é impossível que o universo precise deste

vínculo.”

 

“A certa ilha” é uma homenagem-idealização da Inglaterra: “Não falarei de teus mares, que são o Mar/ nem do império que te impôs, ilha íntima/ o desafio dos outros”.

Há uma série de poemas “orientais”, como “Shinto”: “…por instantes nos salvam/ as aventuras ínfimas/ da atenção ou da memória…” Entre eles, dezessete haikus, dos quais transcrevo quatro:

“É ou não é

o sonho que esqueci

antes da aurora?

 

Calam as cordas.

A música sabia

tudo o que sinto.

 

A ociosa espada

 sonha com suas batalhas.

Outro é meu sonho.

 

A lua nova.

Ela também a olha

de uma outra porta.”

Esse haiku prepara o poema-título, uma homenagem à lua, esse “hábito da noite”, que vivemos  “descobrindo e esquecendo”.

Como me surpreendeu esse velho Borges. Muito mais vivo e vivaz do que eu esperava, apesar dos seus cacoetes.

O NÚMERO DA AREIA

“… triste

hábito de ser alguém…”

 

“Somos a água, não o diamante duro…”

 

“esse fato tão notório de que ninguém pode morrer… A morte é mais inverossímil que a vida…”

Não posso dizer que Os conjurados (1985) seja um livro tão bom quanto História da Noite  ou A Cifra. Mesmo assim, não é uma despedida da vida (ele morreu um ano depois) que se possa desprezar. O próprio autor, mencionando os quatro elementos, no seu prólogo, diz: “costumo sentir que sou terra, cansada terra. Continuo, entretanto, escrevendo…Seria muito improvável que esse livro, que compreende quarenta composições, não entesourasse uma única linha secreta, digna de acompanhar-se até o fim”.

Muitos poemas são repetecos (há novamente uma “Trama”, por exemplo), cansados e corretos: “Já somos o passado que seremos”. Ele chega ao cúmulo, em “A soma”, de copiar (piorar) um de seus mais famosos textos, o epílogo de O fazedor. Mas prefiro descobrir as linhas dignas de se acompanhar até o fim.

“O hemisfério austral. Sob sua álgebra

de estrelas ignoradas por Ulisses,

um homem busca e seguirá buscando

as relíquias daquela epifania

a ele concedida, há tantos anos,

de outro lado de uma numerada

porta de hotel, junto ao eterno Tamisa,

que flui como flui esse outro rio,

o tênue tempo elementar. A carne

esquece seus pesares e venturas.

O homem espera e sonha. Vagamente

resgata circunstâncias triviais.

Um nome de mulher, uma brancura,

um corpo já sem rosto, a penumbra

de uma tarde sem data, o chuvisco,

umas flores de cera sobre um mármore

e as paredes, cor-de-rosa pálido.”  (“Relíquias”)

“As lustrais águas dessa noite já me absolvem

das cores variadas, das variadas formas.

As aves e os astros no jardim já exaltam

o regresso almejado das antigas normas

do sonho e da sombra. A sombra já selou

os espelhos que imitam a ficção das coisas.

Melhor o disse Goethe: O próximo se afasta.

Essas quatro palavras cifram todo o crepúsculo…” (“A jovem noite”)

“Alguém sonha”:

“… esses dois curiosos

irmãos, o eco e o espelho…

… o livro, esse espelho

que sempre nos revela outra face…

… a enumeração que os

tratadistas chamam de caótica e que,

de fato, é cósmica, porque todas as

coisas estão unidas por vínculos secretos…”

“Alguém sonhará”:

“O que sonhará o indecifrável futuro?… Sonhará que poderemos fazer milagres e que não o faremos, porque será mais real imaginá-los.”.

E o genial verso de “Sherlock Holmes”: “Vive de modo cômodo: em terceira pessoa”. Só esse já valeria o livro, além do belo título da coletânea (pena que o poema, no qual os membros de uma confraria atemporal ,, no que ele lembra mais uma vez Hesse e seu  Viagem ao Oriente, segue a “estranha decisão de ser razoáveis”, “no centro da Europa, nas terras altas da Europa, cresce uma torre de razão e de firme fé”, nao seja grande coisa).

“Furtivo e cinza na penumbra última,

vai deixando suas pegadas na margem…

Mil anos adiante um homem velho

vai sonhar-te na América. De nada

pode servir-te esse futuro sonho.

Estás cercado de homens que seguiram

pela floresta os rastros que deixaste,

furtivo e cinza na penumbra última..” (“Um lobo”)

“Aos outros todos resta o universo;

a minha penumbra, o hábito do verso…” (“On his blindness”)

Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las e que essas perdas, agora, são o que é meu… só e nosso o que perdemos… Todo poema, com o tempo, é uma elegia”. (“Posse do ontem”)

“A cinza é tudo que me resta. Nada.

Das máscaras que fui já absolvido,

serei na morte meu total olvido.” (“Pedras e Chile”)

“Deus permite que os homens

sonhem com coisas reais…

 

Entregaram-lhes a um só tempo

o rifle e o crucifixo….

 

Ele só queria saber

se era ou não era valente…

 

Ninguém fique admirado

de que eu sinta inveja e dó

desse homem e de seu fado.” (“Milonga do morto”)

Talvez o grande poema do livro seja “Juan López & John Ward”, alusivo à guerra das Malvinas.

“Coube-lhes por sorte uma época estranha.

    O planeta tinha sido dividido em diversos países, cada um provido de lealdades, de queridas memórias, de  um passado sem dúvida heróico, de direitos, de agravos,de uma mitologia peculiar…

     López nascera na cidade junto do rio imóvel; Ward, nos arredores da cidade pela qual caminhou Father Brown. Estudara castelhano para ler o Quixote.

      O outro professava o amor a Conrad…

    Talvez tivessem sido amigos, mas viram-se uma única  vez frente a frente, em umas ilhas muitíssimos famosas, e cada um dos dois foi Caim, e cada um, Abel.

    Foram enterrados juntos. A neve e a decomposição conhecem-nos.

     O fato que narro se passou em um tempo que não podemos entender;”

E para terminar essa minha travessia dos poemas maduros de Borges:

“Nosso belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos para perdê-lo em um ato de fé, em uma cadência, no sonho, nas palavras que se chamam filosofia ou na pura e simples felicidade.” (“O fio da fábula”)

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Traduções dos sonetos de Antero (segunda parte): O Palácio da Ventura, Il Pallazzo della Ventura, Erdenglüch

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O PALÁCIO DA VENTURA

Sonho que sou um cavaleiro andante.

Por desertos, por sóis, por noite escura,

Paladino do amor, busco anelante

O palácio encantado da Ventura!

                                                           

Mas já desmaio, exausto e vacilante,

Quebrada a espada já, rota a armadura…

E eis que súbito o avisto, fulgurante

Na sua pompa e aérea formosura!

 

Com grandes golpes bato à porta e brado:

Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…

Abri-vos, portas d´ouro, ante mais ais!

 

Abrem-se as portas d´ouro, com fragor…

Mas dentro encontro só, cheio de dor,

Silêncio e escuridão—e nada mais!

 

“A vida biológica e social tem uma propensão muito profunda a fixar-se na sua imanência: os homens aspiram simplesmente a viver e as estruturas sociais a manter-se intactas; e o afastamento, a ausência de um Deus ativo tornaria onipotente a inércia dessa vida que se basta a si mesma e se abandona em paz à sua própria estagnação se não acontecesse aos homens, dominados pelo poder do demônio, elevar-se por vezes acima de si mesmos—de uma maneira infundada e infundável—e renunciar aos fundamentos psicológicos e sociológicos da sua própria existência.  É então que esse mundo abandonado por Deus se revela de repente como privado de substância, mistura irracional, simultaneamente densa e porosa; o que parecia ser o mais firme, quebra-se como argila seca sob os golpes do indivíduo possesso do demônio, e a transparência vazia que deixava entrever paisagens de sonho transforma-se bruscamente numa parede de vidro contra a qual, vítimas de uma vã e incompreensível tortura, nos chocamos como a abelha contra o vidro, sem conseguir furá-lo, sem querer perceber que aqui não há caminho…” (György Lukács)

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O PALÁCIO DA VENTURA é um dos mais belos e perfeitos, e provavelmente o mais paradigmático, entre os sonetos de Antero de Quental, porque é uma constatação do homem contemporâneo, do homem tocado pelo “demoníaco” no sentido lukácsiano, o anti-herói do “romantismo da desilusão”, em plena era burguesa, quando não encontra mais sentido no mundo ao seu redor. O imaginário medieval fornece uma daquelas imagens recorrentes de um mundo que é, ainda, costurado por uma ideia-mestra alegórica (O Palácio da Ventura), a peregrinação se dá naquele tônus cristão típico (clima de Mistérios). Vagabundo, deserdado, espada quebrada, armadura rota, símbolos externos que não são alheios aos próprios cavaleiros medievais em suas demandas, mas igualmente são signos de um desalinho interno, bem característico de uma época em que a costura do mundo se desalinhavou e há um hiato entre consciência e aquilo que a cerca. Mas a grande decepção é encontrar o ideal externo, o que se busca, o objetivo transcendente, “vazio”, pleno de escuridão e silêncio apenas. No mais, o moto de Antero habitual: o sonho.

Eu, que tenho a mania comparativa, sempre penso no soneto de Quental associado a um outro, igualmente belíssimo e com o mesmo imaginário épico-cristão enxovalhado, por assim dizer:

VANDALISMO (Augusto dos Anjos)

Meu coração tem catedrais imensas,

Templos de priscas e longínquas datas,

Onde um nume de amor, em serenatas,

Canta a aleluia virginal das crenças.

 

Na ogiva fúlgida e nas colunatas

Vertem lustrais irradiações intensas

Cintilações de lâmpadas suspensas

E as ametistas e os florões e as pratas.

 

Como os velhos templários medievais

Entrei um dia nessas catedrais

E nesses templos claros e risonhos…

 

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,

No desespero dos iconoclastas

Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos.

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Abaixo, duas traduções italianas e uma alemã de O PALÁCIO DA VENTURA, encontradas numa edição de 1890 de OS SONETOS COMPLETOS:

IL PALLAZZO DELLA VENTURA

Son io, nei sogni, un cavaliero errante.

Ai raggi ardenti, e per la notte oscura,

Paladino di amor cerco anelante

Il palagio incantato di Avventura.

 

Nei deserti già stanco e vacillante

Sono e rotta é la spada e l´armatura:

Ecco a un tratto la veggo sfolgorante

Quell´aerea beltade e le alte mura.

 

Picchio e ripicchio ed urlo, quanto ho fiato,

Il vagabondo io son, diseredato,

Porte d´oro v´aprite ad um dolente!

 

Le porte d´oro s´apron com fragore,

E non vi trovo, pieno di dolore,

Che tenebra, silenzio… e più niente.

(tradução de Emilio Teza)

 

 

 

IL PALAZZO DELLA VENTURA

Per desertí, col sole, a notte oscura,

Sogno Che sono un cavaliere errante,

Paladino d´amor, cerco anelante

L´incantata magion de la Ventura.

 

Ma l´acciar franto e fessa è l´armatura,

Io casco a terra esausto e vacillante

E allor mel veggo incontro sfolgorante

De la beltá più maestosa e pura.

 

Picchio a l´ingresso e grido con furore:

“Sono Il diseredato, Il vagabondo…

Schiudetevi al mio pianto, aurate porte!”

 

S´apron la porte d´oro con fragore…

E veggo dentro con dolor profondo

Nient´altro, ohimè, che orror, silenzio e morte!

(tradução de Thomaz Cannizzaro)

 

ERDENGLÜCH

Mir träumt, ich fahr´umirrend ohne Rast,

Ein Paladin der Minne, durch die Lande

Und such´in  Winterfrost, und Sommerbrande

Ringsher nach Frau Fortunas Wunschpalast;

 

Bereits erlieg´ich all der Müh´und Hast,

Am Schwerte Scharten, Riss´im Stahlgewande:

Da she ´ich plötzlich fern am Bergesrande

Aufglüh´n der Zinnen Kranz in gold, gem Glast;

 

Hineilend ruf´ich mit Geschrei und Pochen:

“Ich bin enterbt, verlassen und gebrochen,

Spring auf, erbarme dich, du Thor des Lichts!”

 

Da klafft die Pforte mit gewalt´gem Schlage;

Jedoch im Inn´ren find´ich Schmerz und Klage,

Schweigen und Finsterniss—und anders nichts.

(tradução de Guilherme Storck)

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24/01/2013

Traduções dos sonetos de Antero (primeira parte)

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A CLÁUDIA, pelo presente e pela amizade


Consulta

 

Chamei em volta do meu frio leito

As memórias melhores de outra idade,

Formas vagas, que às noites, com piedade,

Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito…

 

E disse-lhes: —No mundo imenso e estreito

Valia a pena, acaso, em ansiedade

Ter nascido? dizei-mo com verdade,

Pobres memórias que ao seio estreito….

 

Mas elas perturbaram-se —coitadas!

E empalideceram, contristadas,

Ainda a mais feliz, a mais serena…

 

E cada uma delas, lentamente,

Com um sorriso mórbido, pungente,

Me respondeu: —Não, não valia a pena!

os sonetos

Recebi da minha diletíssima amiga Cláudia um inesperado e belo presente, numa visita à Disquería, a loja dela e de Wagner Parra, com discos, CDs, DVDs e livros:  OS SONETOS COMPLETOS, de Antero de Quental (1842-1891), ou Anthero de Quental, como está, numa edição de 1890, da Livraria Portuense, de Lopes & C.A.-editores. Pois bem, tenho várias edições diferentes da obra desse que é meu poeta oitocentista favorito, em língua portuguesa, junto com o igualmente admirável Cesário Verde, desse que é um romântico incurável perdido em plena época positivista, materialista, burguesa, que faz uma poesia filosófica que tem nostalgia dos arroubos do mais descabelado romantismo.

Que diferença esta traria? Além da grafia (ao reproduzir os poemas em português, achei melhor modernizá-la, para facilitar a leitura, entretanto até me arrependi um pouco de tê-lo feito. Olha que delícia: “Só uma vez ousei interrogal-o:/Quem és (lhe perguntei com grande abalo)/Phantasma a quem odeio e a quem amo?// Teus irmãos (respondeu) os vão  humanos/ Chamam-me Deus, há mais de dez mil annos…/Mas eu por mim não sei como me chamo…”), o volume é completado com diversas traduções dos poemas em espanhol, em francês, em italiano, em alemão, algumas das quais reproduzo abaixo, junto com o original “modernizado”. Têm sido minha diversão nos últimos dias e quero compartilhá-la com meu leitor:

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Evolução

 

Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,

Tronco ou ramo na incógnita floresta…

Onda, espumei, quebrando-me na aresta

Do granito, antiquíssimo inimigo…

 

Rugi, fera talvez, buscando abrigo

Na caverna que ensombra urze e giesta;

Ou, monstro primitivo, ergui a testa

No limoso paul, Glauco pascigo…

 

Hoje sou homem —e na sombra enorme

Vejo, a meus pés, a escada multiforme,

Que desce, em espirais, na imensidade…

 

Interrogo o infinito e às vezes choro…

Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro

E aspiro unicamente à liberdade.

 

 

Evolution

 

Einst war ich Fels und war in alter Welt

Baum oder Strauch im unbekannten Wald;

Als schäum´ge Welle ward ich ohne Halt

Vom frühsten Feinde, dem Granit, zerschellt;

 

Ich brüllt als Raubthier, wo zu schatt´gem Zelt

Einhüllten Ginst und Farn den Höhlenspalt,

Und hob als urweltart´ge Missgestalt

Lässig den wüsten Kopf aus Sund und Belt;

 

Jetzt bin ich Mensch —und seh´im falben Licht

Weithin zu Füssen mir die Stufenschicht,

Die niedersteigt in vielgewund´nem Gang;

 

Das Unbegrenzte fragend, wein´ich still;

Doch, ausgestreckt die Händ´in´s Leere, —will

Und wünsch´inh Freiheit bloss aus diesem Zwang.

(tradução de Guilherme Storck)

 

 

 

Elogio da morte III

 

Eu não sei quem tu és —mas não procuro

(Tal é a minha confiança) devassá-lo.

Basta sentir-te ao pé de mim, no escuro,

Entre as formas da noite com quem falo.

 

Através de silêncio frio e obscuro

Teus passos vou seguindo, e, sem abalo,

No cairel dos abismos do Futuro

Me inclino à tua voz, para sondá-lo.

 

Por ti me engolfo no noturno mundo

Das visões da região inominada.

A ver se fixo o teu olhar profundo…

 

Fixá-lo, compreendê-lo, basta uma hora,

Funérea Beatriz de mão gelada…

Mas única Beatriz consoladora!

 

 

Elogio de la muerte III

 

Yo quien eres no sé; mas no procuro,

Tal es mi confianza, averiguarlo;

Para huir el temor, para esquivarlo,

Bástame verte junto á mi en lo oscuro.

 

Tu paso lento y á tu fin seguro

Persigo en el silencio, sin turbarlo,

E inclínome á tu voz, por sondëarlo,

Al borde del abismo del futuro.

 

Por ti me engolfo en la región fecunda

De los nocturnos sueños, tu mirada

Solicitando plácida y profunda;

 

Mirada á mi hondo afan reveladora,

Fúnebre Beatriz de mano helada,

Mas única Beatriz consoladora.

(tradução de Manoel Curros Henriquez)

 

 

Divina Comédia

 

Erguendo os braços para o céu distante

E  apostrofando os deuses invisíveis,

Os homens clamam: “Deuses impassíveis,

A quem serve o destino triunfante,

 

Porque é que nos criastes?! Incessante

Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,

Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,

Num turbilhão cruel e delirante…

 

Pois não era melhor na paz clemente

Do nada e do que ainda não existe,

Ter ficado a dormir eternamente?

 

Porque é que para a dor nos evocastes?”

Mas os deuses, com voz inda mais triste,

Dizem: “Homens! porque é que nos criastes?”

 

 

Divine Comédie

 

Levant leurs bras meurtris vers le cieux incléments,

Apostrophant, hagards, tous  les dieux invisibles,

Les hommes disent: “Dieux éternels, impassibles,

Dieux servis par le sort vainqueur, dieux  triomphants,

 

Pourquoi nous avez-vous créés?! Toujours le temps

Marche, aveugle semeur, semant d´inextinguibles

Douleurs, illusions, deuils, pleurs, combats terribles,

En des noirs tourbillions, hurlants et sanglotants!

 

Ne serions-nous bien mieux dans la paix infinite

Du néant, de ce qui n`a pas encor la vie,

Dans um sommeil clément et sans réveil noyés?

 

Pour la douler pourquoi faut-il que l`homme existe?”

Mais les dieux, d`une voix infinitement plus triste,

Disent: “Hommes, pourquoi nous avez-vous crées?”

(tradução de Fernando Leal)

 

 

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22/01/2013

Os muitos materiais misturados com precisão em NOSSO GRÃO MAIS FINO

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“Como em turvas águas de enchente,

Me sinto a meio submergido

Entre destroços do presente

Dividido, subdividido,

Onde rola, enorme, o boi morto.

 

Boi morto, boi morto, boi morto.

 

Árvores da paisagem calma,

Convosco—altas, tão marginais!—

Fica a alma, a atônita alma,

Atônita para jamais,

Que o corpo, esse vai como boi morto.

 

Boi morto, boi morto, boi morto.

 

Boi morto, boi descomedido…” (Manuel Bandeira)

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(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 22 de janeiro de 2013, sem notas de rodapé ou trechos adicionais)

“Não consultes dicionário”, nos diz Bentinho a respeito do significado do seu apelido, D. Casmurro. Hoje em dia sabemos: o relato do protagonista do clássico de Machado de Assis tornou-se tão suspeito que devemos fazer justamente o contrário do aconselhado.

A consulta de dicionários acaba sendo também uma consequência da leitura de José Luiz Passos (vou utilizar um chavão —perdoe-me, leitor, pois se trata da mais pura verdade: ele é uma das maiores revelações literárias dos últimos anos), não que ele tenha nada de preciosista do idioma: em Nosso grão mais fino, o protagonista é um químico, cuja família acabou perdendo as terras de que era proprietária, e nas quais se produzia açúcar. Entre outras “esquisitices”, por assim dizer, ele nos impinge um irmão imaginário (Zelino), com quem manteve intensa, para além da infância. Suas reminiscências são pontuadas, alternando-se com estranhos diálogos com Ana Corama, a amada, que amiúde parecem mais  recitativos, onde cada um está isolado em si mesmo.

Lemos: “Como um químico deve misturar seus muitos materiais?” Acompanharemos os desencontros entre Vicente e Ana, filha do antigo dono do engenho  (que teria se matado, atirando-se de um zepelim durante uma travessia do Atlântico), “tomado” pela família dele.  Ele e o tio materno, de idade muito próxima, Gaetano (que será o marido dela) transformam-se nos descendentes derradeiros das duas linhagens, os Campelo e os Dueire.  Também veremos o termo “maranha” muito utilizado. No Aurélio: “porção de fibras ou fios enredados; crespidão, grenha; coisa intrincada, emaranhamento, enredo, complicação, teia; intriga, embrulhada, confusão; conluio, pacto; astúcia, esperteza; manha, velhacaria”. O talentoso autor pernambucano não deixa suas palavras ao acaso: o leitor de Nosso grão mais fino encontrará tudo isso: um narrador autoproclamado “caviloso” (portanto useiro e vezeiro de manha, astúcia); todo o emaranhamento dessas vidas ligadas —atávica ou passionalmente; sequer falta a conotação ligada a cabelos, uma vez que, anos depois do seu caso de amor, Vicente e Ana encetam uma jornada a Santo Antão, a propriedade perdida, e o clímax é um ritual em que ele cortará os cabelos dela, ali mesmo, no carro, quando desistem de ir até o fim da empreitada nostálgico-purgativa.

Vicente especializa-se em zimotecnia. No relato está explicado: o estudo da fermentação. No verbete dedicado a este último vocábulo, encontramos: “Transformação química provocada por um fermento vivo ou por um princípio extraído de fermento; efervescência gasosa; efervescência moral, agitação, comoção, ebulição.” O que pensar da presença de Ana Corama, efervescendo e agitando esse clã gorado, o que pensar de um trecho como: “Hoje estou sozinho, sei. Zelino pode ser que não tenha existido da maneira como falo dele, mas tudo que volta pela comoção, retorna com a força dum segredo turbado…”? Como já disse, um dos segredos da magia narrativa de Nosso grão mais fino está na perícia da escolha de palavras com profundo  impacto conotativo e associativo (experimente, leitor, pesquisar os significados de “mascavo”, termo aparentemente óbvio e literal, numa trama que envolve o fabrico de açúcar).[1]

Esse drama familiar portentoso (cujo cerne é, sobretudo, a questão da identidade pessoal), em sua concentração poética, apresenta tal fermentação, tal tensão em seu emaranhamento, que muitas vezes a sintaxe “normal” é quebrada (há várias inversões frasais, principalmente no desafiador começo do livro), as formulações roçam um lirismo desautomatizador da lógica da linguagem (“olho para ela e ela me ouve” ou ainda “Você tem nos olhos o mesmo baque de seu pai, Ana”); por isso, não é de surpreender que, na ebulição de todos esses ingredientes e fios enredados, a parte final do livro relate uma enchente destruidora em Recife (Vicente e Gaetano ali consomem os resquícios do patrimônio familiar e roem a solidão dos deixados para trás), a qual parece trazer tudo de roldão. De fato, contrariando uma afirmação de Ana Corama (admoestando Vicente, “seu contato com o mundo é por vapores”), “Deve-se amar sem metáforas”, ironicamente a catástrofe parece ser a corporificação literal de uma metáfora: uma vida de coisas submergidas, de afetos e fetiches afogados pelo Tempo.

O que vem à tona é a desnorteante qualidade desse romance de estreia.

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ANEXO- TRECHO SELECIONADO: escolhi a passagem abaixo porque o heroizinho (de uma história infantil concebida por Ana Corama) chama-se Jurandir, nome do narrador-protagonista da segunda experiência de José Luiz Passos no gênero, O sonâmbulo amador:

“A história continua entre o menino e a passarinha. Meu heroizinho não tem o exagero de mãos coloridas, nem jardina ou maneja uma atiradeira, mas olha o céu dia e noite. Enxerga seus gigantes (…) Medo da mata ele tem, mas corre mais que o vento e faz pou! quando rompe a barreira do som (…) Esse estrondo assusta os pássaros (…) De noite então ele olha e seus olhos são dois luzeiros. Depois, não. Depois a lavandeira, a passarinha duma perna só, porque perdeu seu ninho, essa ave de quem meu herói havia caçoado, imitando sua perneta, enfim, ela lhe roga a má-fé. Diz a ele que fique mal. Que seja outra coisa. A praga de penas pegou. Meu heroizinho, virado em coruja caolha, vê agora o avesso do dia. Transmudado em ser noturno, vagabundeia pela madrugada e, quando fala, em vez de falar, pia. Dá medo a quem antes andava com ele na folga da brincadeira. Esse menino, por voar à noite, vê quem era e quem é, vê sua família à mesa. De cima das telhas, vigia sua própria coisa. Choram por ele, por sentirem sua falta. Mas o herói, temendo ser esquecido, virar estrela, decide enfrentar o mau-encanto e, com isso firme na cabecinha de coruja, parte numa jornada. Sua viagem é o meu livro, Magda. Já tenho, mesmo que você não me acredite, um final para a sorte desse herói que se esvai na procura de voltar a ser o que era antes. Anote, mulher, a coruja dum olho só voa rasante dia e noite, até que encontra quem buscava, e com raiva morde e rouba a última perna da lavandeira, a sacizinha do ar, ela agora nuela, despatada, não pode pousar, voa sempre. Eis a falta louca que meu heroizinho lhe impôs. É a pena do alerta perene. Agora cada qual, convertido no que não quer, sofre o que o outro lhe fez (…) Você pode pensar, Magda, porque vejo seu espanto,  que há crueldade demais. Mas não. A lavandeira, passarinha agoureira, era ave desde o começo transformada. Quando meu herói a beija, querendo ser seu pequeno Judas, ela volta a ser pessoa de sangue. Pou! (…) Pensando que a traía, ele a salva (…) Quando Magda voltar, vou lhe dizer que a lavandeira, passarinha mensageira, após o beijo volta a ser Marianha [maranha?], a prima perdida do menino Jurandir, meu herói. Há entre ele muito amor. Ela beija aquele moço e os dois, abraçados, agora Jurandir sem ser a coruja caolha, Marianha não mais a passarinha palerma, eles rolam na grama recém-cortada, os corpos salpicados de forragem verdosa pelas coxas, pelos braços, nos rostos e, um para o outro, dizem o que sabem, correm na carruagem cheia de cabelos esvoaçantes que eles catam das bocas, se desculpam e chegam afinal a um caminho de volta para casa. Vão se casar, é claro. Direi a Magda, não vou mais deixar que Vicente me atrapalhe com sua latomia de insistir no que é baldado. De agora em diante, o futuro…”

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[1] Todas as considerações acima, e mais a figura de Ana Corama, me trouxeram à mente o universo do grande escritor Osman Lins, cujo estilo (por exemplo, o de Avalovara, seu livro mais ambicioso) algumas vezes foi taxado de afetado. Certamente, há um quê de quase pernóstico na voz narrativa (de Vicente) nas primeiras páginas, mas assim como em Osman, tudo—até a suposta afetação—é funcional e necessário ao mundo ali evocado. Muito diferente do preciosismo subliterário de uma Nélida Piñon, por exemplo, modelo acabado de estilo fake.

LEIA AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/07/05/um-romance-admiravel-de-jose-luiz-passos-o-sonambulo-amador/

 

15/01/2013

RUBEM BRAGA E A CAIXINHA DO CRONISTA

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(resenha publicada originalmente, sem notas de rodapé ou textos adicionais, em  A TRIBUNA de Santos, em 15 de janeiro de 2013)

Como quase todo mundo, considero Rubem Braga o mestre insuperável da crônica. Mesmo não sendo muito afeito ao gênero[1], li um bocado o escritor capixaba quando era adolescente, assim como Paulo Mendes Campos, Stanislaw Ponte Preta e Fernando Sabino, outros nomes referenciais.

Com a comemoração do centenário de Braga (nascido em 12 de janeiro de 1913, em Cachoeiro de Itapemirim, e falecido em 1990), resolvi revisitar Ai de ti, Copacabana (1960), uma das suas coletâneas mais famosas. Um leitor que tivesse em mente uma visão mais abrangente, panorâmica, teria a opção das 200 Crônicas Escolhidas. Por que, então, aquele título específico?  O motivo é simples e pessoal: as 61 crônicas ali reunidas foram escritas entre 1955 e 1960 (durante o governo JK), quando o autor estava numa idade similar à que tenho agora; portanto, era a chance de conferir a mirada sobre a vida e o cotidiano de um quarentão aproximando-se dos 50 anos.

Os 10 primeiros textos foram escritos no Chile (onde exercia função diplomática): “Mandei um telegrama para o Brasil me demitindo… eu gosto do Chile; eu estava me acostumando… Tenho carinho por muitas cidades… dentro do meu amor multifiel”, mas a “volúpia de partir, “estranha, indefinível, amarga é maior.

Há  ainda uns poucos escritos em Nova Iorque e outros lugares, mas o Rio é o centro de  Ai de ti, Copacabana. A crônica-título é uma paródia do apocalipse bíblico: “muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares. Por falar em uísque, um dos melhores momentos é O poema que não foi aprovado, no qual aventa a deliciosa e politicamente incorreta proposta (já que estava em tempos de vacas magras), de pedir uma caixinha de natal, assim como os lixeiros: “Entra ano e sai ano/ Escrevendo sem cessar/São os vossos fiéis Cronistas/Que vêm vos cumprimentar/Feliz Natal e Ano Novo!// Se o uísque estiver sobrando/Lembrai-vos destes Cronistas/Que de sede estão penando…” Proposta repelida, “em nome dos bons princípios…e, desconfio, um pouco também de seus maus fígados.

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Com apenas dois ou três textos que podem ser considerados fracos, é tarefa árdua isolar momentos excelentes nessa obra-prima. O traquejo narrativo que faz o texto fluir com elegância ímpar (“O velho quer levar o antigo piano alemão; resisto; quero o piano; não sei tocar, mas me agrada ter em casa um piano; não seria possível deixar o piano? Os velhos se consultam; sim, ficará o piano”);  a ironia certeira, e tão atual (comentando um terremoto chileno: “Lamentemos esse morto e também os pobres pescadores que perderam seus barcos; mas qualquer enchente carioca dá mais prejuízo e vítimas”); a autoironia, não menos cruel e certeira (“A casa deve ser antes o asilo inviolável do cidadão triste”, lemos numa das crônicas mais geniais do livro, A Casa); a observação de tipos humanos e profissões (os taxistas portugueses do Rio, o padeiro que lhe conta como é recebido ao entregar o pão a domicílio:  “Não é ninguém, não, senhora, é o padeiro), as reflexões surpreendentes (no teto sobre  mulheres que esperam um homem: “Devia haver um santo especial para proteger a mulher esperando o homem…Porque a mulher que está esperando o homem sempre recebe a visita do Diabo, e conversa com ele…”), o “comércio sentimental com as outras criaturas” (“Perguntou-me a idade, eu disse. Espantou-se: –Puxa, quase o dobro da minha! É mesmo, você já está muito velho. Istoé, velho, velho mesmo, não, mas para mim está. Que pena!, e ele: “Que pena, digo eu. Se eu soubesse teria pedido a meus pais para me fazerem mais tarde, depois de outros filhos; mas não poderia prever que só iria encontrá-la em 1959. Agora acho que já fica difícil tomar qualquer providência”).

Eu adoro a crônica  “em homenagem” ao incorporador imobiliário que vem estragar a paisagem (“é verdade que no caso do Sr. Bezerra ainda não se pode falar propriamente em obras, mas em desobras, pois ele não fez nada, só desfez”), como também Sizenando, a vida é triste, em que afirma: “Sou um homem do interior… às vezes penso que eu merecia ser goiano e entrelaça solidão, esperanto, escotismo, acordar cedo, tabagismo; e como esquecer as crônicas metalinguísticas[2]? E aquela em que ele desanca os preciosistas do gramatiquês (“Confesso que escrevo de palpite, como outras pessoas tocam piano de ouvido”), que tem como mote algumas questões de concursos (o significado do vocábulo escardinchar, qual a fêmea do cupim, o antônimo de póstumo, e como se chama o natural do Cairo): “mas a mim é que não escardincham assim, sem mais nem menos: não sou fêmea de cupim nem antônimo de póstumo nenhum; e sou cachoeirense…”

Tem até um legítimo conto, História triste de tuim, que merecia estar entre as melhores histórias de bichos já escritas.

Não conseguindo largar Ai de ti, Copacabana, desde que comecei a leitura, estarrecido com a força, a graça, a poesia e o apelo de textos já pra lá de cinquentões, resolvi frear  minha homenagem por aqui. Senão, corria o risco de ficar lendo Rubem Braga por todo 2013.

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ANEXO– Adolescente (15 ou 16 anos), gostava demais da crônica abaixo, a qual, para mim, permaneceu como a mais paradigmática do universo de Rubem Braga. Hoje talvez desse preferência a outras,  mesmo assim creio que ela continua muito bonita, em sua singeleza e integridade poética (apesar dos riscos da pieguice), e por isso a transcrevo como amostra maior de Ai de ti, Copacabana:

 A outra noite

Outro dia fui a São Paulo e resolvi voltar à noite, uma noite de vento sul e chuva, tanto lá como aqui. Quando vinha para casa de táxi, encontrei um amigo e o trouxe até Copacabana; e contei a ele que lá em cima, além das nuvens, estava um luar lindo, de lua cheia; e que as nuvens feias que cobriam a cidade eram, vistas de cima, enluaradas, colchões de sonho, alvas, uma paisagem irreal.

Depois que o meu amigo desceu do carro, o chofer aproveitou um sinal fechado para voltar-se para mim:

__ O senhor vai desculpar, eu estava aqui a ouvir sua conversa. Mas, tem mesmo luar lá em cima?

Confirmei: sim, acima da nossa noite preta e enlamaçada e torpe havia uma outra—pura, perfeita e linda.

__ Mas, que coisa…

Ele chegou a pôr a cabeça fora do carro para olhar o céu fechado de chuva. Depois continuou guiando mais lentamente. Não sei se sonhava em ser aviador ou pensava em outra coisa.

__ Ora, sim senhor…

E, quando saltei e paguei a corrida, ele me disse um “boa noite” e um “muito obrigado ao senhor” tão sinceros, tão veementes, como se eu lhe tivesse feito um presente de rei. (Rio, setembro, 1959)

 

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[1] A meu ver, um subgênero, superestimado, mas essa é uma questão que não cabe aqui.

[2] “__ Fico admirado como é que você, morando nesta cidade, consegue escrever uma semana inteira sem reclamar, sem protestar, sem espinafrar!

   E meu amigo falou de água, telefone, Light em geral, carne, batata, transporte, custo de vida, buracos na rua etc, etc, etc.

   Meu amigo está, como dizem as pessoas exageradas, grávido de razões. Mas que posso fazer? Até que tenho reclamado muito isto e aquilo. Mas seu eu ficar rezingando todo dia, estou roubado: quem vai aguentar me ler? Acho que o leitor gosta de ver suas queixas no jornal, mas em termos…” (A nuvem)

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09/01/2013

A RATIFICAÇÃO DO ABSURDO: A morte de Albert Camus

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/12/21/contra-as-paredes-ideologicas-o-homem-revoltado-de-camus/

https://armonte.wordpress.com/2011/10/27/a-vida-apos-a-morte-de-albert-camus-o-primeiro-homem/

https://armonte.wordpress.com/2009/12/14/o-sim-e-o-nao-de-albert-camus/

https://armonte.wordpress.com/2009/12/14/o-processo-e-a-peste-a-culpa-e-a-inocencia-da-humanidade/

Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 09 de fevereiro de 2010, em função do cinqüentenário da morte de Camus

“Para corrigir uma indiferença natural, fui colocado a meio caminho entre a miséria e o sol. A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na História, o sol ensinou-me que a História não é tudo. Mudar a vida, sim, mas não o mundo do qual eu fazia minha a divindade. Assim é, sem dúvida, que abordei essa carreira desconfortável em que me encontro, enfrentando com inocência uma corda bamba, na qual avanço com dificuldade sem estar seguro de alcançar a outra ponta. Em outras palavras, tornei-me um artista, se é verdade que não há arte sem recusa nem consentimento.”

Há 50 anos, o absurdo que tanto ocupou o pensamento de Albert Camus se fez evidência inegável: o genial escritor franco-argelino (nascido em 1913) morreu, aos 46 anos, num acidente de carro. Para ele, existir essa era condição paradoxal: nada solicita ou justifica nossa presença no mundo, no entanto, como Sísifo em sua tarefa interminável, carregando sua mítica pedra, nós temos de esgotar o “campo do possível”, essa realidade contingente que é nosso único horizonte.

Essa visão camusiana das coisas e do humano dominou toda a minha adolescência. Atualmente, posso até ter idéias muito diferentes (a biologia prova que quem não muda, estaciona e morre), entretanto o que nunca mudou é a convicção de que ele foi um dos maiores escritores do século passado, com a sua linguagem precisa, lapidar, mais francesa do que a dos próprios franceses, na sua pureza clássica, que parece muito simples e fácil, muito solar, no entanto carrega consigo um lado oculto e permanentemente desafiador:

“Um homem sofre e passa por desgraças e mais desgraças. Ele as suporta e instala-se no seu destino. Ele é estimado. E, depois, uma noite, nada: encontra um amigo de quem gosta muito. Este lhe fala distraidamente. Ao voltar para casa, o homem se mata. Fala-se, em seguida, de tristezas íntimas e de drama secreto. Não. E se for absolutamente necessária uma causa, matou-se porque um amigo falou com ele distraidamente. Da mesma forma, cada vez que me pareceu experimentar o sentido profundo do mundo, foi sempre a sua simplicidade que me perturbou”.

Na década de 30, quando começou a publicar, Camus misturava a forma do ensaio com pequenas e preciosas anedotas sobre o cotidiano e a paisagem argelinos, nos  belos textos que compõem O avesso e o direito e Núpcias.

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Foi na França, durante a guerra e a ocupação alemã (contra a qual ele lutou como membro muito ativo da Resistência), no início dos anos 40, que vieram a lume seus dois livros paradigmáticos (após ele ter abandonado a escritura de A morte feliz, um romance fascinante publicado postumamente): O estrangeiro & O mito de Sísifo. O primeiro é um dos romances mais significativos da modernidade, descrevendo o que é a vida absurda. Para nós, que estamos vivendo dias infernalmente “ensolarados”, é fácil compreender por que o protagonista mata um árabe desconhecido: “por excesso de sol” na cabeça. No seu julgamento, ele é condenado não tanto pelo assassinato, mas por não ter chorado no enterro da mãe. O segundo é o ensaio que justifica as idéias que movimentam o imaginário camusiano, escrito, aliás, num estilo magnífico e irretocável.

Tornando-se amigo de Sartre, Simone de Beauvoir, numa relação que ficará cada vez mais conturbada até um rompimento célebre (por conta da polarização política pós-guerra), Camus se dedicará ao teatro (deixando pelo menos uma peça clássica, Calígula, e notáveis adaptações de Dostoievski e Faulkner), publicará ainda dois romances inesquecíveis e impressionantes ,  A peste e A queda, os quais, infelizmente, se encontram um pouco eclipsados pela fama de O estrangeiro. Provando sua versatilidade, ainda exercitou várias técnicas no contos de O exílio e o reino (publicado no ano em que ganhou o Nobel, em 1957), voltou ao ensaio anedótico da juventude  no lindíssimo O verão, e sacudiu a intelectualidade francesa esquerdista com o corajoso, brilhante e irregular O homem revoltado, no qual o conceito de revolta (contraposto ao de revolução, no sentido marxista-leninista) veio complementar o de absurdo, que informava as suas primeiras obras.

Ao morrer, ele escrevia sua provável obra-prima suprema, O primeiro homem, publicada apenas em 1994, e que, ao narrar, de uma forma que só se pode caracterizar de mágica, suas origens familiares, mostra que o fatídico acidente de1960 foi absurdo até no sentido de nos privar de um autor no auge da sua forma.

A. Camus. Le 1ºH.

08/01/2013

A Shoah e a fabulação: “Beatriz & Virgílio”, de Yann Martel

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“Como pode haver algo bonito depois de tudo que vivemos? (…) Ah, Beatriz, como vamos falar sobre o que nos aconteceu um dia, quando tudo tiver terminado?”

“É evidente que a sua filha está morta. Se pisar na cabeça dela, pode chegar um  pouco mais alto, onde o ar é melhor. Você pisa na cabeça da sua filha?”

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de janeiro de 2013)

Enquanto o espectador de As Aventuras de Pi se depara com graves questões filosóficas camufladas num enredo fantasioso e no formato 3D, o leitor brasileiro pode conferir Beatriz & Virgílio [tradução de Maria Helena Rouanet para Beatrice & Virgil, Canada-2010], o mais recente romance de Yann Martel, que escreveu o premiado livro transposto para as telas por Ang Lee.

Foram oito anos entre um e outro. E se Pi, não obstante toda a badalação, resultara controverso (acusado de plágio e rejeitado por uma parcela da crítica como uma “autoajuda” disfarçada de ficção, um pouquinho melhor que A Cabana; eu, por meu turno, considero-o admirável), Beatriz & Virgílio, alvo de desagrado quase geral, ganhou epítetos como “pretensioso” e “mixórdia”. Resumindo: para a maioria dos comentadores, Martel não conseguiu realizar seu intento de propor uma representação artística original, não-testemunhal e não-realista, para a questão da SHOAH, popularizada com o termo Holocausto, utilizando uma fábula com animais. Beatriz é uma mula e Virgílio, um macaco (mais especificamente, um bugio-labareda); ambos os nomes, como se sabe, remetem à Divina Comédia: são os guias de Dante pela cosmologia alegórica do poema. Não há dúvida de que os campos de extermínio nazistas eram espaços “dantescos”.

Henry, o protagonista, é um escritor que finaliza ao mesmo tempo dois manuscritos sobre o já exploradíssimo tema, um ficcional e outro ensaístico, planejando publicá-los num “flip book”, em que dois textos convivem no mesmo volume de forma invertida: “um livro com duas portas de entrada, mas sem nenhuma saída. O seu formato concretiza a noção de que o tema ali não tem solução, não tem qualquer quarta capa que possa clara e cabalmente dá-lo por encerrado. Seus editores rejeitam a proposta e ele, abandonando a carreira literária, muda-se para uma metrópole genérica do mundo globalizado, onde estuda música, participa de um grupo de teatro amador, passeia com seu cão (há uma gata também, e os dois bichos terão um destino cruel). Sua esposa fica grávida.

Nesse ínterim, recebe pelo correio um fragmento da peça na qual Beatriz e Virgílio são protagonistas. Ao entrar em contato com o autor, descobre tratar-se de um taxidermista octogenário, rude e misterioso, que almeja terminar a obra, que conheceremos em fragmentos, e vai cada vez mais se afigurar uma alegoria da SHOAH (realizando o que Henry queria alcançar), evocada como “Horrores”, no vocabulário peculiar aos dois animais, os quais provisoriamente conseguiram sobreviver a eles, embora não saibam como prosseguir suas vidas, nem falar sobre suas experiências (num cenário que é uma camisa listrada; a peça tem como título Uma Camisa do Século XX)…

A meu ver, não há nada de mixórdia ou de pretensioso em Beatriz & Virgílio. O surpreendente e brilhante canadense é um caso raro, nos dias de hoje, de um autor que se propõe a enfrentar grandes questões, não compartimentando a ficção das chamadas “áreas do conhecimento”. E ele está certo: o cunho testemunhal que cercou a SHOAH fez dela um evento-tabu, que as pessoas protegem da representação artística (muitos, e Adorno foi um abre-alas nessa linha, consideram algo inexprimível e condenam quem tente fazê-lo), como se fosse algo único na história. Pondo as cartas na mesa: foi algo monstruoso, mas nem único nem mesmo o pior. Muito próximo cronologicamente podemos localizar evento igualmente inconcebível: as bombas nucleares norte-americanas, que dizimaram civis inocentes em Hiroshima e Nagasaki. E vários exemplos, inclusive do noticiário recente (o próprio povo judeu, enquanto cidadãos do criminoso estado de Israel, em sua ação injustificável na Palestina, parece não ter aprendido a advertência que a SHOAH deveria representar para a humanidade), podem ser colhidos no tocante à determinação em causar sofrimento sistemático a populações inteiras devido a premissas políticas, étnicas ou econômicas.

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Por outro lado, eu diria que a ideia a de abordar o tema sob o ângulo da fábula com bichos (sem falar na dantesca loja do taxidermista) é extremamente necessária e urgente, uma vez que nós, humanos, continuamos a atormentar, torturar e extinguir os animais deste planeta, mesmo quando não há necessidade de sobrevivência envolvida (em safáris, rodeios, touradas, tráficos diversos). Aliás, o vulgarizado termo Holocausto é sumamente irônico, pois alude ao infame costume de sacrificar animais ao longo de toda a tradição judaica (agora eu me pergunto: que tipo de Deus gostaria desse tipo de oferenda?), embora prática assaz divulgada também em outras tradições, não menos bestiais.

O ponto fraco de Beatriz & Virgílio é justamente a peça: enquanto todos os outros ingredientes da narrativa são explorados com feliz acuidade, além de uma concisão muito bem-vinda (o único defeito de A Vida de Pi era ser longo em demasia), como o cotidiano de Henry, seu fascínio com a loja de animais empalhados, a estranha colaboração entre ele e o taxidermista, e apesar de alguns momentos poderosos (as lancinantes cenas de tortura e execução, por exemplo), ela nunca a chega a ser muito interessante como fábula (ao contrário do relato de Pi), atropelada pela sua “moral”, pela mensagem imediatamente decodificada. Em compensação, são arrepiantes as Brincadeiras para Gustav (uma das quais transcrevi em epígrafe) que encerram um livro que, se não é “gostável” como o anterior, ao ser fechado (e sem ser um “flip book”), ninguém consegue dá-lo como realmente encerrado. Todas as questões ficam martelando a nossa cabeça. Não há “moral” que dê conta dessa fábula.

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TRECHO ESCOLHIDO:

“O sujeito se levantou da cadeira e foi até a pia. Os cacos de vidro faziam craque, craque sob os seus pés. De uma prateleira embaixo de uma das bancadas, tirou uma vassoura e uma pá. Varreu o chão todo. Depois, apanhou umas luvas de borracha e as calçou. Debruçou-se na pia. O silêncio não lhe pesava nada. Henry ficou observando aquele homem e, minutos depois, o viu sob nova luz. Era um velho. Um velho encurvado diante de uma pia, trabalhando. Teria mulher, filhos? Não havia nenhuma aliança nos seus dedos, mas isso podia ser por causa do seu tipo de trabalho. Seria viúvo? Henry fitou o seu perfil. O que haveria por baixo daquela impassibilidade: Solidão? Preocupação? Ambição frustrada?

   O taxidermista se aprumou. O esqueleto do coelho estava nas suas mãos enormes. Era uma peça única, com cada osso ainda ligado ao vizinho; um objeto branquíssimo que parecia pequeno e frágil. Ele o virou, examinando-o com todo cuidado. Pareia até que estava segurando um bebê bem pequeno.

   Um homem de uma só história, um Lampedusa às voltas com o seu Leopardo, pensou Henry. Bloqueio criativo não é brincadeira, a não ser talvez para aqueles espíritos sem imaginação, que nem sequer tentaram pôr uma marca pessoal no que fazem. Não é apenas um esforço particular, um trabalho, que é negado, é todo o nosso ser. É a morte de um pequeno deus dentro de nós, uma parte que achávamos que devia ser imortal. Quando estamos enfrentando um bloqueio criativo, tudo o que nos resta—Henry olhou a oficina ao seu redor–tudo o que nos resta são peles mortas.

   O taxidermista abriu a torneira e enxaguou o esqueleto num filete de água. Voltou a sacudi-lo e o pôs na bancada perto da pia.

__ Por que um macaco e uma mula? O senhor me contou como conseguiu esses dois aqui—indagou Henry, estendendo a mão e tocando a mula. Ficou espantado ao sentir aquele pelo tão flexível e lanoso—Mas por que esses animais em especial para a sua história?

__ Porque acredita-se que macacos são espertos e ágeis, e que as mulas são teimosas e trabalhadoras. Estas são as características de que os animais precisam para sobreviver. Elas os tornam maleáveis e criativos, capazes de se adaptar às alterações das condições.”

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/12/13/leituras-em-espelho-max-e-os-felinos-e-vida-de-pi/

Shoah-Memorial-Paris

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