MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/03/2013

Destaque do Blog: A MORTE DO INIMIGO, de Hans Keilson

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/02/08/menos-e-mais-comedia-em-tom-menor-de-hans-keilson/

https://armonte.wordpress.com/2013/01/08/a-shoah-e-a-fabulacao-beatriz-virgilio-de-yann-martel/

A resenha abaixo foi publicada de forma mais condensada  no Caderno Ilustrada, da Folha de São Paulo, em 30 de março de 2013:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/101126-obra-sobre-holocausto-abdica-da-singularidade-tragica-dos-judeus.shtml

Em Beatriz e Virgílio, Yann Martel discute a visível resistência contra a apropriação artística da Shoah (popularizada pela indústria cultural com o termo Holocausto, principalmente depois de uma popular minissérie televisiva), evento tomado como único, e geralmente narrado em termos de testemunho, a forma “aceitável” de representação.

Se o autor de Vida de Pi apresenta a questão como um desafio em 2010, imagine-se a perplexidade em 1959, com A Morte do Inimigo [Der Tod  des Widersachers]: Hans Keilson  recusa-se a  usar termos como “judeu”, “nazista”, “Hitler”, ao longo do relato no qual seu protagonista sofre todo o conhecido processo de banimento (num  país nunca claramente identificado) até a clandestinidade final, porque o “inimigo” (que lhe fora anunciado, ainda criança pelo pai[1]), alcança o poder, utilizando a ele e a seu povo como bode expiatório.

“Contarei tudo, e nada hei de omitir no que se refere ao meu inimigo e a mim. Quando penso na sua morte, recordo a minha vida. Compreendo mais profundamente seu destino desde que ele se tornou o meu, maior do que cheguei a pensar.”

Parece um achado simples, mas que se revela de um alcance (além da ousadia) quase inescrutável: ao abdicar da singularidade reivindicada pelos judeus com relação à trágica perseguição de que foi vítima, A Morte do Inimigo mostra como qualquer um pode ser peça da engrenagem da exclusão: daí podemos pensar nos negros africanos durante o apartheid, nos gays, nas mulheres na Índia, nos muçulmanos diante da hostilidade ocidental, nos palestinos, num ativista de esquerda na ditadura; enfim, a lista é enorme e mostra que a particularidade é apenas um dos elementos de uma equação terrível (“A natureza humana vive do restrito. O espírito humano colhe suas experiências no espaço que suas mãos alcançam ativamente”). Não que Keilson, hábil ficcionista, não explore o que há de característico na sua experiência (ele mesmo teve seu momento de Anne Frank) nos fatos que levaram à Segunda Guerra e à Shoah, no entanto, ele executa um salto mortal que faz toda a originalidade do seu livro, descoberto pela crítica apenas na década passada, pouco antes de sua morte, em 2011, aos 101 anos.

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Entretanto, enquanto cada vez mais me inclino a considerar seu outro romance traduzido no Brasil (também por Luiz A. de Araújo), Comédia em Tom Menor (1947) uma obra-prima, certas passagens rebarbativas de A Morte do Inimigo me pareceram indicadoras de uma forte  tendência à lengalenga (o livro tem o dobro da extensão do outro, e metade da sua eficácia enquanto estratégia narrativa).

Não se pode esquecer, porém, da tremenda decisão já apontada, cujos efeitos se irradiam com vigor pelo livro todo, e sobretudo dos pontos altos, como o aterrador episódio em que ele, visitando a moça por quem está meio “caído”, acaba lanchando e bebendo com os amigos do irmão dela: são todos adeptos e entusiastas do “inimigo”, momento em que um deles relata a profanação de um cemitério por um grupo de assalto do qual fazia parte como neófito. Poucas vezes se mostrou de forma tão lapidar como a brutalidade de um regime vai se disseminando capilarmente, desmoralizando  todas as relações, e trazendo à tona tendências de grupos que estavam adormecidas. Tudo numa cena só, cotidiana: um lanche entre jovens.

“…retinha-me a curiosidade e a vontade de ludibriá-los, de afastar suas suspeitas assumindo outra aparência mediante uma atitude corajosa e decidida. Devo admitir que teria demonstrado mais caráter se houvesse ido embora (…) Enfim, o jogo me atraía, o mesmo que me atraíra na câmara escura e no episódio dos selos, curiosidade e também um pouco de malandragem, a vontade de me colocar do outro lado para me sentir eu mesmo, o prazer de venerar um deus e, simultaneamente, traí-lo com o bezerro de ouro.

   Decidi aguentar até o fim, a qualquer preço,  mesmo que fosse o da autonegação, a qual, confesso, não me era tão difícil assim. Vi a garota recostada no divã junto à parede, a cabeça pousada na almofada, ela notou que eu a olhava e me dirigiu um olhar firme e amável.  Se ela soubesse, pensei, será que retribuiria com tanta doçura meu olhar?”

Quando um romance tem momentos extraordinários como esse, impossível não considerá-lo grandioso.

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ANEXO

Escolhi um trecho, entre os meus favoritos do romance, em que o pai do narrador, fotógrafo não muito bem-sucedido (aliás, não o foi em nenhuma atividade profissional) conta à família a sessão de fotos em que a dona de uma gata e de uma cachorra [Bützi e Hützai] desejava que seus bichos de estimação (que “se davam muito bem”) fossem retratados juntos; no entanto, durante a sessão, os animais—desassossegados—não permitiram o tão desejado retrato idílico.

O pai conta como resolveu o problema:

“É mesmo, alegrei-me, conte como conseguiu.

 Venha. Vou lhe mostrar como foi.

Para mim, você pode mostrar depois, disse a mãe, e desapareceu.

     Nós descemos ao ateliê, onde a cadeira e o equipamento continuavam no mesmo lugar. A luz estava apagada (…)

     Venha, diz o pai, e, na suave treva, eu o vejo tirar de uma bandeja grande e cheia de líquido uma placa escura (…) Sempre que estou aqui, sozinho com ele, invade-me um temor repleto de expectativa, diferente de quando estou sozinho com ele num cômodo iluminado. Porque é no escuro que se engendra o feito de cada um, é possível levá-lo á claridade e devolvê-lo à escuridão, na escuridão ele é concebido.   

     É um cachorro, digo com voz abafada.

     É Hützi, corrige ele. E me mostra outra placa. E aqui?

     Bützi, exclamo. Quer dizer que você conseguiu fotografá-las!

   Sim, mas uma por vez.

    Elas se detestam. E agora?

    Vou pôr as duas numa placa e fazer uma prova. E, na fotografia, Hützi e Bützi estarão juntas e em paz, como é seu hábito em casa: o presente de aniversário.

    As duas placas fotográficas voltam para a bandeja grande de vidro. Eu olho para ele, tenho a impressão de que a escuridão ficou mais clara. Reconheço as suas feições carnudas, nas quais se esboça um ar de triunfo. Já não é uma sombra, voltou a ser uma forma.

   E digo: Acontece que não é verdade, pois elas não ficaram juntas aqui. Ao mesmo tempo, sinto crescer em mim uma admiração por ele, ainda que minhas palavras só contenham crítica.

   Que importa?, diz o pai, assombrado, Isso se chama montagem fotográfica.

    Mas não é verdade, teimo. Você faz isso e acha muito divertido, mas não passa de fingimento.

 

       Ora essa!, ele se irrita, Aí é que está a graça. Você ainda não entendeu…”

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[1] “O inimigo entrou na minha vida, meu pai o introduziu: Deus nos acuda—e—Nós ainda vamos conhecê-lo, receio. Jamais vou esquecer essa ameaça nem o momento em que a proferiu.

   Mas, na hora, isso não teve significado para mim. Um elemento estranho me penetrou, e cá ficou imóvel, mudo, encapsulado, sem contato nem ligação nervosa com os outros órgãos. Até mesmo minha fantasia parecia ter me deixado na mão. Foi procurar outros objetos em torno dos quais pudesse fazer voltearem seus temores e esperanças pueris. Meus pensamentos o haviam relegado a um silêncio peculiar, um silêncio em que palpitavam os primeiros germes da solidão.”

Veja-se outra passagem, depois que o narrador descobre que seu melhor amigo venera o “inimigo”:

“É bom ir se acostumando, disse afinal, e olhou fixamente para mim.

    O ódio foi instantâneo. Surgiu e me acometeu tão subitamente que não tive tempo de refreá-lo. Senti raiva do meu pai, em cuja fisionomia transparecia minha dor. Acostumar-me, pensei, você diz isso como se fosse a única coisa que me resta. Não tem nada melhor para dizer? Acostumar-me, como você se acostumou, e seu pai e o pai dele e toda a série que os precedeu, como se perder um amigo fosse a coisa mais corriqueira do mundo. Tive muito ódio, pois senti que ele havia me prendido com o grilhão do inevitável, tal como se acorrenta um presidiário. Tolice querer escapar. A sentença fora pronunciada, mas a culpa era dele, do meu pai. Ele mesmo a recebera um dia como uma dádiva herdada, um fardo entregue com aflição e com aflição recebido. Encarei-o. Meu pai devia ter me preparado melhor para essa dádiva…”

Hans Keilson

  

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29/03/2013

LONGE DA FRONTEIRA: “A MARCA DA MALDADE”, o romance

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     “Não importava o que seus adversários fizessem, Holt sabia que precisava se manter dentro da lei. Essa era a sua força e sua única esperança de vitória.

Agradeço sua solidariedade, Oscar, mas prefiro que volte para o México.

     Irmão e irmã protestaram com veemência.

Mitch, por quê?—indagou Connie. Numa situação como esta, com você precisando tanto de ajuda…

Sem querer ofender Oscar, mas ele acaba de envolver a si e a todos nós em um problema. Essa arma que ele está carregando é o bastante para mandá-lo para a cadeia, mesmo que nunca a tenha usado.

Não preciso de um revólver—respondeu Oscar, orgulhosamente, enfiando-o por debaixo do paletó. Tenho duas mãos muito boas.

Você é um cidadão mexicano—Holt lembrou-o. Isso o coloca hors de combat neste lado da fronteira. Sinto muito, mas é assim que as coisas são. Você vai me ajudar muito mais indo para casa.

     Oscar deu de ombros, exasperado:

Tem vezes que não entendo vocês, americanos. Um homem atira em você… duas vezes… e você só se preocupa com a lei.”

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Após aquele plano-sequência—tão admirado, com razão—abrindo   Touch of Evil- A Marca da Maldade (1958), Orson Welles (1915-1985) deixa seu espectador na fronteira.

Não aquela física, existente entre os EUA e o México, mas uma fronteira moral, em que um homem (aliás, um veterano policial) corrupto e bêbado destila à sua volta uma realidade parecida com a tortuosidade da sua mente; uma fronteira estética, onde realmente se abole a realidade em prol de uma linguagem corporal e uma marcação de movimentos altamente estilizadas, que permite a todo mundo espreitar o seu próximo, esgueirar-se à sombra de seus passos (o diretor-roteirista intensificou a um ponto inacreditável a atmosfera sugerida pelo próprio livro no capítulo 18: “Holt sentou-se durante alguns minutos no seu carro estacionado, suando frio. O roubo pouco importava; as garotas tinham feito cópias a carbono e arquivado em algum lugar. O que realmente importava era o fato assustador de que não estava sozinho. Estava sendo vigiado. Passou os olhos pelos arredores instintivamente, mas viu apenas carros comuns nas rua e cidadãos inocentes passando pela calçada”) , até o clímax em que um shakesperianamente acuado Orson Welles  (como ator) perde a batalha nesse jogo de sombras (e no universo de Welles tudo sempre desemboca em Shakespeare); uma fronteira que descortina territórios e territórios  ambíguos: o herói (um promotor mexicano que interfere com agentes da lei norte-americanos), com relação ao público-alvo inicial (o espectador norte-americano) não tem 100% de credibilidade, já a partir da sua origem (lembre-se, leitor, de que é um filme de 1958), mesmo estando do lado “certo” (talvez não da fronteira, mas da justiça e da aplicação correta da lei), e como marido (apesar de um momento de bravata) deixa muito a desejar, pois permite que sua mulher fique à mercê de seus inimigos, de uma forma quase revoltante. Ajudado pela escolha mais “fake” que se poderia imaginar de um ator (Charlton Heston) para um personagem com características tão específicas, é mais fácil se identificar com os personagens com um “touch of evil” do que com esse herói-galã tão cônscio das suas cruzadas, mas tão difícil de acreditar.

Esse é um dos pontos que eu considero mais fascinantes em A Marca da Maldade-filme:  Welles ter transformado o protagonista do livro num mexicano, com decisões equivocadas (como as que toma com relação à esposa) e sempre para lá e para cá da fronteira,  solapando assim a fácil identificação do público da sua época com o herói. O fato de ter ele mesmo, com sua presença de peso (em todos os sentidos), encarnado o vilão, torna essa escolha ainda mais significativa.

No romance, quem é de origem mexicana é Connie (Consuelo Mayatotena), casada com o herói, um promotor-assistente (Mitchell Holt) e a fronteira é apenas usada de forma alusiva.

Além de  pontos que discutirei adiante, a outra grande mudança operada pelo filme com relação ao romance é a compressão do tempo: através do plano-sequência, conhecemos o herói e sua mulher (Janet Leigh) e presenciamos o incidente (um carro explode na fronteira, devido a uma carga de dinamite) que movimentará o filme numa espécie de realidade temporal encapsulada, como se começássemos a sonhar e tudo se passasse num espaço de horas. Se o tempo é comprimido e densificado, o espaço—a fronteira—, como resultado do jogo de câmera, se reveste de um verniz claustrofóbico e inóspito, de confim: beira de deserto, sem falar de estabelecimentos e imóveis sempre um pouco apertados e sórdidos (até o elevador é apertadíssimo, e um dos poucos espaços internos amplos de que eu me lembro é o arquivo da polícia onde o herói recolhe informações sobre a prática contumaz do vilão em plantar evidências contra os acusados).

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No romance Badge of Evil (publicado em 1956 e traduzido no Brasil apenas em 2000, por Luiz Antonio Aguiar—com a colaboração de Ernani Aguiar & Marisa Sobral) de Whit Masterson escrito a quatro mãos[1] , a explosão ocorre numa cabana de praia, vitimando um rico,  influente  e consideravelmente mais pudico Rudy Lineker (no filme, ele morre na explosão do carro, com uma stripper), e a investigação leva pelo menos dez dias para “engrenar”, o que faz com que o chefe de Holt, James P. Adair, o convoque para acompanhar o caso.

O filme de Welles é uma obra-prima suprema, onde confluem—já que estamos na fronteira—o faroeste, o noir e o cinema expressionista, e em que ele antecipa em décadas o mundo de David Lynch, com aquele bizarro e algo caricatural assédio à personagem de Janet Leigh (que nunca se deu muito bem em motéis, como se sabe[2]). Já o livro tem mais uma atmosfera de Os corruptos (aquele grande Fritz Lang), inclusive pela calcanhar-de-aquiles do protagonista, a família (o que viraria depois um chavão batidíssimo). Ao fim e ao cabo, é mais uma história exemplar de um idealista que, sozinho, ou quase, luta contra o sistema, o que hoje até desperta sorrisos, no entanto ainda não era tão ordinário.

Quase que obliterado pelo prestígio do filme, é possível ler A Marca da Maldade-livro, como se aquele não existisse? Colocando melhor a questão: ele seria um romance a ser lido, se Orson Welles nunca tivesse feito sua adaptação (sua transformação)?

Sim. Se Welles arrastou a história para a fronteira, e fez transformações cruciais que a tornaram uma parábola em que o heroísmo é destituído, o romance se mantém no lado norte-americano (aliás, com a proximidade do mar, ou seja, num território menos inóspito), e nos trilhos da boa ficção de teor policial ou legal, apesar do tanto que esse gênero se desgastou nos últimos tempos, em fórmulas e em reciclagem de chavões, que só receberam um molho moderninho de cinismo e descrença total nas instituições e nos seus agentes.

Como já disse, no romance Mitch Holt, brilhante mas um tanto empacado promotor-assistente, começa a firmar sua reputação ao conduzir vitoriosamente o processo contra um chefão local do crime.  Como uma “celebridade” da promotoria, ele se sente desconfortável em disputar a investigação da morte do ricaço Linneker, com  a capitão aposentado Loren McCoy (que é chamado de volta do seu rancho quando os casos se revelam mais difíceis) e o sargento Hank Quinlan[3], os quais desconfiam da filha do assassinado e de seu namorado pobretão.

Já antecipo que, no filme, Orson Welles inverteu a dinâmica hierárquica e psicológica da dupla: ele interpreta Quinlan, utilizando uma bengala (com um resultado soberbo), com as características maquiavélicas e ardilosas do McCoy do romance.[4]

Entrevistando os suspeitos por conta própria, Holt se convence da sua inocência, e por isso encarrega o investigador da promotoria, Van Dusen, de fazer averiguações paralelas:

“É isso mesmo que você quer que eu faça, Mitch?

Por que não?

Porque você corre o risco de se tornar uma pessoa muito impopular. Se estragar o caso contra Tara Linneker e Delmont Shayonm, vai aparecer algum irritadinho acusando você de estar fazendo o jogo da defesa (…) Adair está contando com o julgamento Linneker para conseguir um novo mandato.

Pode ser que ele consiga, mas não se levarmos a pessoa errada a julgamento.

Mas eles são mesmo as pessoas erradas?—insistiu Van Dusen, cético (…) Certo, vou dar umas voltas por aí, Mitch. Mas estou com um forte pressentimento de que todo mundo vai ficar muito mais feliz se eu não encontrar nada.

   Descendo de carro o bulevar da enseada sob o sol frio de fevereiro, Holt pensava sobre o que Van Dusen dissera. De fato, todo mundo ia ficar mais feliz se ele deixasse as coisas correrem—todo mundo exceto o casal suspeito, claro. De qualquer forma, Holt  precisava ter certeza. Do contrário, não conseguiria em sã consciência pedir ao júri uma condenação, sobre a qual ele próprio não se sentia convencido. Para ser um promotor bem-sucedido o sujeito precisava da mesma coisa que um vendedor de sucesso ou um pregador de sucesso: acreditar no seu produto.”[5]

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Por um acaso feliz, Holt descobre o verdadeiro criminoso. Nesse entretempo, porém, a polícia (leia-se McCoy & Quinlan) descobrira na casa do namorado pobretão uma caixa de sapatos contendo explosivos da mesma marca utilizada no atentado fatal ao pai da namorada, e ele fora preso (no filme, Vargas—o personagem de Charlton Heston correspondente a Holt—está presente durante a revista do apartamento do suspeito, e como tinha ido ao banheiro e vira a caixa de sapatos vazia, contesta a “prova” descoberta, o que marca definitivamente seu antagonismo com relação ao personagem de Welles).

Holt, então, está para sair de férias, tem o assassino preso, e os inocentes liberados. É assim que  começa o capítulo 13:

“Ao sair do escritório ao meio-dia, Mitch Holt deixou suas responsabilidades igualmente para trás. Isso incluía toda e qualquer dúvida sobre as implicações do caso Linneker. Tinha cumprido o seu dever e o que não resolvera pessoalmente havia transferido para suas mãos igualmente eficientes. Tudo que levou para casa foi sua maleta, agora tranquilizadoramente vazia. Depois de colocar Connie brevemente a par dos acontecimentos, declarou para ela que não desejava ouvir mais nada relacionado ao assunto nas próximas duas semanas.”

Antes de prosseguir, só gostaria de chamar a atenção para um detalhe da decoração do escritório do promotor-chefe, significativamente ressaltado no relato: “dirigiu o olhar sombriamente para a fonte no pátio do Centro Cívico, depois para o par de antigas pistolas de seis tiros pendurados na parede. Holt jamais conseguira entender se a decoração à Velho Oeste do escritório de Adair — com pinturas a óleo retratando cenas de expansão das fronteiras, coleções de ferretes de marcar gado e antigos distintivos de xerife — representava um interesse genuinamente histórico ou uma tentativa de escape para um passado mais simples, fugindo de um presente complexo e violento.” 

Voltando aos trilhos da trama,  o episódio dos explosivos encontrados não sai da cabeça de Holt, o que fará com que ele não saia de férias, comece a investigar casos anteriores da reputada dupla de policiais (VER ANEXO), e coloque a promotoria e a força policial da cidade contra si. Sofre atentados, que não são levados a sério pelo chefe de polícia, levanta dados suspeitos, que não são devidamente considerados pelo promotor-chefe, que está mais preocupado com a próxima eleição e os efeitos políticos da “teimosia” do subordinado.

Obrigado a tirar férias, Holt envia—por segurança—mulher e filha para a família dela no México, e continua suas averiguações, mesmo começando a ser cercado pelo descrédito e desmoralização.

Connie volta do México para apoiá-lo e ele decide contar a história para um jornal de oposição. Como retaliação, acontece o episódio com a esposa que Welles explorou bastante na sua adaptação: atraída para uma armadilha, ela é drogada e encontrada com indícios incriminadores, e vestida apenas com a chamada “roupa de baixo”, num muquifo[6], o que leva à demissão de Holt, por causa do escândalo (no filme, além disso tudo, o Quinlan de Welles ainda assassina um homem no quarto onde está Janet Leigh, para comprometê-la ainda mais e ao marido, mas comete o erro fatal de esquecer sua bengala; nos dois, livro e filme, ele também se apossa da arma do herói para completar a atmosfera de suspeita em torno dele—no romance, Holt dá margem a essa manobra, ao comprar a arma e tentar registrá-la sem sucesso, após um dos atentados, pois essa é uma das seções sob comando de Quinlan).

Apesar de eu estar fortemente contrariando meu propósito inicial, de comentar o livro de uma forma independente do filme, creio que dá para perceber como ele é interessante. E não apenas enquanto um relato bem-ajambrado, mas até como uma construção romanesca, portanto uma visão organizada do mundo e dos valores (nesse sentido, a reunião de Holt com os representantes do jornal, no capítulo 21, é exemplar, talvez o ponto alto do romance). Gosto de certos lances de humor e malícia. Por exemplo, Holt, o típico homem casado conversando com  Van Dusen, solteirão convicto:

“Vamos deixar para amanhã, no café da manhã. Neste momento, o que preciso é ir para casa e contar a Connie que as nossas férias foram adiadas novamente.

Esqueci que você era um pobre homem casado—zombou Van Dusen, rindo. Certo, amanhã de manhã, então. Se não aparecer, vou checar nos hospitais.

    Holt soltou um grunhido, antes de retrucar:

Não me venha com essa sua lógica de solteiro. Você tem visto televisão demais. Não conheço um único marido que honestamente tema a sua mulher.

    Ele ainda refletia sobre as idéias de Van Dusen acerca da inevitabilidade do desastre no matrimônio, quando chegou em casa e entrou com o carro na garagem. Sua mulher estava sentada de pernas cruzadas em cima do seu banco de trabalho com um rifle no colo. Holt não pôde evitar que a previsão de Van Dusen atravessasse sua mente.

Oi, querida. O que está fazendo com a arma?

   Connie Holt veio correndo receber o seu beijo, ainda agarrada ao rifle.

Queria fazer-lhe uma surpresa…”

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    A história se encaminha para o clímax de forma similar tanto na versão literária quanto na cinematográfica: o assecla inconsciente (mais inconsciente no livro do que no filme: o Quinlan do romance realmente não sabia que seu parceiro plantava provas), revoltado com o que acontece com a esposa de Holt, ajuda-o a obter uma confissão do vilão. Os dois preparam uma armadilha, usando uma escuta e um gravador. Isso permite uma marcação maravilhosa de movimentos na versão de Welles, um grande momento cinematográfico; mas eu também gosto do material original; ali há um momento em que se engrandece quase de forma cósmica a figura do policial corrupto, um detalhe que não deve ter passado despercebido ao  criador de personagens como Kane, o marido aleijado de Rita Hayworth, em A dama de Shanghai & Mr. Arkadin: “E embora fosse a fúria frenética de um homem velho, sem pernas que pudessem derrotar os cavalos de força no motor do veículo que dirigia, Holt quase acreditava nele. Naquele momento de pânico, McCoy parecia ter os poderes da escuridão reforçando seus apelos…”.[7]    

 E  aquelas  pistolas de seis tiros e gravuras a óleo retratando a expansão para o Oeste, enfim, aquela evocação toda de um “passado mais simples” do escritório do chefe de Holt? Não foi aleatoriamente que elas apareceram no primeiro capítulo. No final das suas peripécias, o protagonista volta a percorrê-las com os olhos (tendo diante de si um chefe que teve papel ativo na sua desmoralização e descrédito): “Holt olhava pensativamente para as relíquias do tempo da luta nas fronteiras afixadas na parede, estrelas de estanho e pistolas, restos simbólicos de antigos sonhos com uma justiça que simplesmente funcionasse para todos.” Os restos simbólicos de lado (no livro), aqueles quase restos (um cenário que parece quase de pós-bombardeio, no filme). Apesar das aparências, pouco ficou em pé.

 O que prova que podemos estar longe da fronteira, mas que uma aragem daqueles lados pode vir roçar um romance competente e bacana.

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ANEXO

Gosto muito do trecho abaixo, do capítulo 13, porque vindo logo após o momento de otimismo por ter “cumprido o dever” e assim poder satisfazer o desejo da esposa, de passar dias absorvido com a família, é por causa de uma confidência da própria Connie (o pai dela tem várias cabeças de animais expostas para provar o caçador que é, e ela revela que uma boa parte fora comprada para aumentar seu prestígio como caçador) que a história prossegue e se complica:

“Ora, o segredo dele está seguro comigo.—E Holt balançou a cabeça, divertindo-se em admirar as sutilezas que o espírito humano esconde. A reputação de Papa Mayatorena como caçador era basicamente autêntica, e mesmo assim ele não resistira a ornamentá-la um pouco mais. De fato, todo ser humano deseja que os outros o considerem melhor do que realmente é, mesmo empregando uma pequena fraude. No caso de Papa Mayatorena, a fraude era inofensiva, consistia simplesmente em misturar alguns troféus falsificados entre os verdadeiros, até um ponto em que ele já não sabia se estava enganado os outros ou a si próprio. E os animais, antílopes, ursos e pumas, não iriam protestar, por certo, assim… E foi quando Holt se deteve para pensar em Papa Mayatorena que sua mente, de súbito, num desses saltos relâmpagos de que o cérebro humano é capaz, precipitou-se de um assunto para o outro, quase instantaneamente. Era um assunto tão extenso que não pôde abarcá-lo todo de uma vez, logo de início, e pressentiu que iria perdê-lo de vista, ou que ele conseguiria ocultar-se, como uma montanha por trás do nevoeiro. Mas e se… Era ali que fincara o pé… e se apegou a isso… Mas e se…”

 

 

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[1] Esse pseudônimo e outros mais foram utilizados por Robert Wade (1920-2012) e Bill Miller (1920-1961).

[2] É muito interessante Hithcock tê-la aceitado, apenas dois anos depois, para viver uma personagem que também vai para um motel e tem contato com um tipo disfuncional (o personagem de Dennis Hopper é quase um embrião de Norman Bates/Anthony Perkins, com seu desajeitamento, seu voyeurismo e sua grotesquerie).

[3] Há o componente de conflito de gerações também nessa disputa. Ao anunciar a sua “vitória” provisória sobre a promotoria, McCoy diz:

“…posso voltar para o rancho e retomar a vida calma. Realmente, estou ficando muito velho para este batente. Está na hora de deixar os mais moços cuidarem das coisas. Que tal dar um pulo lá para me visitar, Holt? Darei a você um peru para a Páscoa. Faço criação deles, você sabe.

     Quinlan entrou mancando, sua bengala marcando os passos com toques no ladrilho do chão.

Mac, o mandado está pronto. Você quer ir comigo para apanhá-lo? Oi, como vai, Holt? Está sabendo das novidades?

Estou. Parabéns.

     McCoy examinou-o, pressentindo algo.

Hank, acho que o nosso amigo, o investigador especial, está um pouco desapontado porque estes dois cães velhos demonstraram que estavam com a razão. Talvez achasse que fosse levar a melhor sobre nós.—Ele piscou para seu parceiro.”

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[4] Sem que isso atrapalhe muito o resultado final genial, quem não tem muito a fazer no filme é Marlene Dietrich, a não ser como um rosto de uma expressividade sempre impressionante. Mas como tudo ali é confim, e fronteira, até sua presença parece acrescentar algo à fauna simbólica: é uma referência imediata à estética expressionista e a uma marcada ambiguidade.

[5] Apesar das analogias pragmáticas, o trecho ressalta o idealismo arraigado de Holt, que podemos constatar também em outra passagem: numa pasta ele carrega a pesquisa que realizou sobre casos antigos de McCoy & Quinlan: “… a pasta repousava pesadamente sobre os seus joelhos, como se fosse o peso de sua consciência.” A pasta também é um elemento simbólico, que separa Holt do lar, e a sua mulher, Connie, faz alusão a ela várias vezes. O ponto da narrativa onde o descrédito do herói é mais patente, é quando essa pasta é encontrada rasgada e vazia.

[6] A visita de Holt na cadeia dá margem para que a dupla de autores mostre seu senso de observação:

“Pode me mostrar suas coisas?

Foi tudo apreendido como prova.—Zook deu-lhe outra folha de papel. Mas aqui está a lista do que foi recolhido.

    O inventário não ajudou muito. Como a maioria dos maridos, Holt dificilmente seria capaz de reconhecer os pertences da esposa, mesmo vendo-os, quanto mais lendo a relação deles numa folha datilografada.”

    Além desse belo detalhe, há um dado dramático crucial, como se vê na continuação: “Mas percebeu a ausência de um item. Sua pistola calibre.32 e a munição não estavam com Connie quando foi presa.”

[7] Não é ocioso lembrar que, na versão de Welles, apesar de toda a sua corrupção e desprezo pela verdade, seu personagem de fato está certo quanto à culpabilidade do casal, que de fato explodiu o pai da moça. Porque a questão da perversão da lei em A Marca da Maldade—filme é muito mais labiríntica.

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Os mistérios que palpitam na escuridão ou A prosa mais arrojada do século XIX

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https://armonte.wordpress.com/2012/09/13/o-processo-flaubert-e-a-modernidade-promotor-paul-valery-defensor-marcel-proust/

Na segunda parte de Fausto, Mefistófeles diz: “compreender à luz do dia é ninharia, mas na escuridão todos os mistérios palpitam”.

Em As tentações de Santo Antão, procurando convencer o anacoreta a adorá-lo, a maldizer “o fantasma a que chama Deus”,  ele se vale da palpitação de todos os mistérios na escura noite da alma: “… as coisas só te chegam por intermédio de teu espírito. Tal como um espelho côncavo, ele te deforma os objetos e todos os meios te faltam para verificar a exatidão deles. Jamais conhecerás o universo em toda a sua extensão. Por conseqüência, não podes  fazer uma idéia da sua causa, ter uma noção justa de Deus,  nem mesmo dizer que o universo é infinito, porque seria preciso primeiro conhecer o infinito. A forma é talvez um erro de teus sentidos, a substância uma ilusão do teu pensamento…”

     Se o Finnegans Wake, de James Joyce, é o extremo de linguagem a que se chegou no século XX (e no nosso, até agora), as obras citadas acima, de  Goethe e Gustave Flaubert (1821-1880), ocupam esse lugar no século XIX.  Não há nada mais arrojado naquele período, em termos de linguagem, do que Fausto-Segunda Parte e As tentações de Santo Antão. Este último ganhou uma nova tradução brasileira, realizada por Luís de Lima para a Iluminuras (já havia pelo menos uma anterior, que eu saiba, a bela versão de Carlos Chaves, publicada há décadas pela Melhoramentos), na qual se pluralizou impertinentemente o título original, La tentation de Saint-Antoine.

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Apesar do desfile de imagens que o assediam na Tebaida, no alto de uma montanha, quando o dia declina (deuses, monstros e seres diversos), há apenas uma única tentação: vencer a multiplicidade dos fenômenos para se concentrar na sua missão espiritual.

Numa apoteose visual em que a fronteira dos reinos é abolida (“… e assim as plantas se confundem com as pedras. Pedras soltas aparentam crânios, estalactites parecem tetas, flores de ferro são como tapeçarias ornadas de figuras. Em pedaços de gelo ele apercebe florescências, marcas de conchas e arbustos, a ponto de não saber se são sinais dessas coisas ou as próprias coisas…”), ele procura reencontrar Cristo e as orações. Muitos viram nesse alucinante flagelo do santo uma alegoria da vida do próprio Flaubert, a meu ver o maior escritor do seu século junto com Tolstoi. Após ler para amigos uma primeira versão (a tentação dessa obra o acompanhou boa parte da vida, como o Fausto acompanhou o de Goethe), carregada de romantismo, e vê-la ridicularizada, o autor de Madame Bovary construiu uma obra que oscilou entre as tentações da sua imaginação desenfreada e a preocupação com a exatidão, a minúcia, com a informação escrupulosamente pesquisada. Aliás, ele diz na sua apaixonante Correspondência que sempre negou a si mesmo os mais inocentes prazeres, trabalhando de acordo com uma disciplina estritamente regulada. E arremata: “Certamente porque há um monge dentro de mim”.

Por isso, ao encarar numa versão definitiva a pedra-de-toque do seu simbolismo pessoal, ele não se contentou apenas em imaginar a tentação de Santo Antão como também fazer desfilar os mais diversos conhecimentos enciclopédicos. No final, a luxúria do saber consolidado tenta tanto quanto a luxúria dos sentidos. E o paladino cristão se torna Fausto, ainda mais num mundo em que “por toda parte triunfa a estupidez das multidões, a mediocridade do indivíduo, a fealdade das raças”.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 17 de agosto de 2004)

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28/03/2013

O INCOMENSURÁVEL

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https://armonte.wordpress.com/2013/03/28/a-genese-do-doutor-fausto/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/02/contaminacoes-arremedos-pactos-e-parodias-um-mundo-terminal-em-doutor-fausto-de-thomas-mann/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/02/thomas-mann-fazendo-arte-no-romance/

https://armonte.wordpress.com/2011/10/09/para-criancas-frankensteins/

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O Fausto quinhentista, o qual se lamentava por ser apenas “ainda um homem”, era tentado a pactuar com o Diabo para obter poderes mágicos: “Oh, dai-me algumas provas de magia/Que eu possa conjurar num bosque espesso/E plena posse tenha de tais bens”, podemos ler na História Trágica do Doutor Fausto, de Christopher Marlowe.

240 anos depois, no ápice da lenda em sua feição literária, no quinto ato da Segunda Parte do Fausto de Goethe, o herói, pouco antes da sua conversa com a Apreensão (Sorge), num solilóquio que marca o começo do fim do seu pacto, diz: “Pudesse eu rejeitar toda a feitiçaria/Desaprender os termos de magia/ Só homem ver-me, homem só, perante a Criação/ Ser homem valeria a pena, então. // Era-o antes que as trevas explorasse/ Blasfemo, o mundo e o próprio ser amaldiçoasse/ Hoje o ar está de espíritos tão cheio/ Que não há como opor-se a seu enleio”.

Um longo percurso. Da lenda e da sua elaboração literária. Da peça de Goethe, que ele começou a elaborar na juventude e concluiu no ano da sua morte, já octogenário (a primeira parte apareceu na íntegra em 1808). Da tradução de Jenny Klabin Segall, que (numa sincronia apreciável com o lançamento da obra de Marlowe pela Hedra) reaparece agora em grande estilo, numa cuidadíssima edição bilíngüe de mil páginas, trabalho que lhe consumiu décadas, sendo terminado também só no seu derradeiro ano de vida e publicado (como o original alemão) postumamente.

E é um longo, longo percurso que se exige do leitor. Se ele conhece apenas a Primeira Parte pode esquecê-la, a Segunda pouco tem a ver com ela. Trata-se de uma daquelas obras exuberantes e idiossincráticas, cuja leitura representa um desafio cognitivo até para admiradores, como é o caso também da Tentação de Santo Antão, de Flaubert, ou do Finnegans Wake, de Joyce (e, para citar um exemplo da fusão música e texto, da Flauta Mágica, de Mozart, com seu simbolismo igualmente extravagante). Um efeito perseguido, uma vez que Goethe afirmou ao seu fiel Eckermann, pouco antes de conclui-la: “Estou persuadido de que quanto mais incomensurável e difícil de ser compreendida é uma obra, tanto melhor ela é”! Incomensurável. Nenhuma palavra caracterizaria mais precisamente o desenvolvimento da história para além do pacto (na verdade, uma aposta entre o Diabo e o Criador, na visão goethiana). Saímos da sedução que envolve e destrói Gretchen e que representa o fulcro dramático da Primeira Parte, e vemos Fausto no “grand monde”, dotado de poderes incríveis, sempre acompanhado por Mefistófeles, embora cercado de uma atmosfera de charlatanismo.

No primeiro ato, eles aparecem como cortesãos do Imperador, num ritmo de mascarada. Fausto é capaz de ir aos confins do universo para satisfazer o soberano, fazendo com que retornem ao nosso plano, como espetáculo para a Corte, os espíritos de Páris e Helena, e apaixonando-se por esta. Temos dois atos em que entidades greco-romanas se misturam à cultura judaico-cristã, e sejamos francos: já era árdua essa parte quando a li numa tradução mais prosaica de Flávio M. Quintiliano; em versos, torna-se quase uma travessia do Liso do Sussuarão (o lugar mortífero de Grande Sertão: Veredas). Não desista, leitor, há vários momentos belíssimos nesse festim peculiar e exasperante do velho Goethe. Contudo, apenas nos dois atos finais é que retornamos à Corte e ao cerne da tragédia, a luta de Deus e o Diabo pela alma do pactário.


(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 26 de maio de 2007)

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A gênese do doutor fausto

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Embora seja um mito forjado a partir do século XVI e, portanto, bem recente em termos de história da humanidade, Fausto, o homem que faz o pacto com o Diabo, se impôs como um dos grandes paradigmas literários e psicológicos do Ocidente, sendo matéria prima para autores como Goethe, Thomas Mann, Fernando Pessoa. Curiosamente, seu protótipo real, um tal de Jörg Faust, que morreu por volta de 1540, era uma espécie de charlatão, afamado como mago e herege.

As primeiras versões escritas (muito divulgadas com a revolução tipográfica daquela época) consagraram os contornos da lenda: o pacto como contrato, a data marcada para a entrega da alma. O protestantismo fez com que a ênfase, a moral da história, ficasse por conta da responsabilidade do indivíduo pela sua própria danação.

A primeira grande versão literária (provavelmente de 1592, pouco antes da sua precoce morte) foi escrita pelo maior rival de Shakespeare no início de sua carreira: Christopher Marlowe, cujo A história trágica do doutor Fausto, numa das duas famosas versões portuguesas (a outra é a da dupla João Ferreira Duarte & Valdemar Azevedo Ferreira), acaba de ser editado no Brasil, pela Hedra. Na sua peça, não é o diabo (através do seu servo, Mefistófeles) quem procura Fausto, ele mesmo manda chamá-lo e propõe o pacto.

O que ele deseja? Basicamente, apesar de todo o conhecimento alcançado, ser um super-homem (sobre-ser-se, diria Fernando Pessoa), como fica claro no primeiro monólogo, quando lança o lamento: “Contudo, és inda Fausto, inda um homem…”. A suprema tentação de Fausto é a magia, ter poder sobre os elementos: Oh, dai-me algumas provas de magia / Que eu possa conjurar num bosque espesso / E plena posse tenha de tais bens”.

Dentro da tradição elisabetana, versos belíssimos misturam drama intenso e cenas cômicas, nas quais Marlowe parece projetar algo do espírito de estudante arruaceiro e irreverente (que ele foi) no seu suposto sábio (a cena na qual, invisível, fica atormentando o Papa é um exemplo).

A maravilhosa cena em que Fausto conjura Mefistófeles mostra como é ingênua a sensação do pactário de ter o Mal como servo: “Ordeno-te que vás mudar de forma/ Que horrendo estás demais para me servir/ Volta tal qual um velho franciscano /Convém piedoso aspecto a um diabo…” (note-se a ironia brilhante e o gosto pelo paradoxo); Há, pois, virtude, em meus celestes termos! / Quem perito nesta arte não seria? / Que dócil se apresenta Mefistófeles / De obediência e de humildade cheio! / Tal a força de encantos e magia!”

24 anos depois, tal arrogância é virada do avesso.  Mas o arrependimento não salva a alma, não é como a confissão católica. Quatrocentos anos após serem escritas, as cenas finais ainda são impressionantes em sua simplicidade e efeito dramático.

Guimarães Rosa deve ter lido e apreciado a versão de Marlowe tanto quanto a de Goethe. Pois há um momento em que Fausto pergunta para Mefistófeles o que é, e onde está, o Inferno para Mefistófeles e obtém uma resposta digna de um Riobaldo: “O Inferno é sem limites. Circunscrito /Não está a um lugar, pois, onde estamos/ Inferno é, e sempre aí estaremos.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de maio de 2007)

27/03/2013

Os estrangeiros no território da condição humana: “O poder e a glória”

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https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/globalizacao-literaria-a-obra-de-graham-greene/

https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/os-esgotos-do-pos-guerra-e-os-escombros-da-camaradagem-masculina/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/20/personagem-a-procura-de-um-autor/

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de fevereiro de 2000

Comentei nesta coluna, na semana passada, Fim de Caso https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/o-abismo-das-impossiveis-reconstituicoes-e-os-resignados-habitantes-do-inferno/ sem fazer alusão a nenhuma das outras narrativas do mesmo cacife que o autor, Graham Greene (1904-1991), publicou em sua carreira de muitas décadas (ele publicou seu primeiro romance em 1928), por exemplo, O americano tranqüilo, Um caso liquidado, Viagens com minha tia, O cônsul honorário, O fator humano, Monsenhor Quixote. Mesmo com a alta qualidade de todas elas (e de outras mais), ainda assim perdem longe para um genial trio produzido ao longo de dez anos: Brighton Rock- O Condenado (1938); O poder e a glória (1940); The heart of the matter- O cerne da questão (1948).

No final da década de 30, Greene—que se convertera ao catolicismo—recebeu a incumbência de noticiar as perseguições religiosas do México revolucionário. Ele, então, escreveu um livro-reportagem, The lawless roads. Ninguém podia imaginar (apesar dos seus primeiros trabalhos serem muito bonitos —é o caso de Expresso do Oriente, Um Campo de Batalha, England made me-Bela e Querida Inglaterra, Assassino de aluguel, cuja leitura foi  uma das consequências da apaixonada e prolongada convivência com  Ways of escape-Pontos de fuga— e de ele já ter publicado uma obra-prima como Brighton Rock) que dessa pesquisa factual surgisse um dos livros de ficção essenciais e obrigatórios do século: O poder e a glória.

Ele se passa numa província onde os bananais e a expectativa da estação chuvosa, que torna os caminhos intransitáveis, dão o tom, além dos abutres que sobrevoam o tempo todo os acontecimentos. As igrejas foram fechadas ou destruídas, vários padres fugiram ou foram fuzilados como “traidores da Revolução”. Restaram dois: um, padre José, abjurou de sua fé e casou-se, sendo constantemente ridicularizado. Um outro, que não ganha nome na narrativa, é um bêbado que consegue manter-se em liberdade, e que teve uma filha.

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Um fanático tenente deseja “limpar” o país das superstições e da corrupção clerical e persiste na perseguição ao padre fugitivo. Este, por sua vez, em meio à degradação material e psicológica, “toca” a vida para a frente, conhecendo cada vez mais a Humanidade, muito mais do que no seu encastelamento como sacerdote, cargo que usava para sua própria ascensão social.

É muito espinhoso para quem não tem fé fazer um comentário imparcial ou simpático com relação aos problemas católicos levantados pelo livro. Prefiro abordar outro ponto essencial, mais afim com o existencialismo do que com a religiosidade: todos os personagens de O poder e a glória são ou se sentem estrangeiros na aldeia, na cidade, na província, no mundo. Seja o padre perseguido, seja o tenente fanático pelo dever revolucionário, seja o dentista (sr. Tench) que não consegue juntar dinheiro para sair do país e voltar à Inglaterra, seja a menina inglesa (Coral) que, exilada da infância, tem de tomar decisões de adulta devido à inutilidade e infantilização dos pais (o casal Fellows), seja o “gringo” assassino que vem encontrar seu fim no México, seja o mestiço que acabará por trair o padre, seja o menino que não consegue se convencer da baboseira católica com a qual a mão doutrina a todos na sua casa, ninguém que venha a primeiro plano deixa de demonstrar o mesmo desconforto com a vida. Todos apresentam o mesmo “olhar de estrangeiro” com que o sr. Tench abre a narrativa, olhar compartilhado que impede essa obra-prima de ser a visão eurocêntrica de um escritor sobre o Terceiro Mundo. Greene conseguiu um feito enorme evitando a armadilha de focalizar personagens de um país dependente. A fissura que existiria entre o narrador e o mundo retratado já está nos personagens, já está no absurdo do homem e do mundo coexistirem.

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Além disso, poucos romances podem se gabar de ter a quantidade de cenas admiráveis de O poder e a glória. Entre as que nunca saíram da memória, mesmo anos depois da leitura do romance (primeiro, numa excelente tradução portuguesa, quem diria, de Antônio Gonçalves Rodrigues; depois, na clássica versão de Mário Quintana; atualmente se publica a de Lea Viveiros de Castro), estão a cena em que o tenente reúne todos os habitantes de uma aldeia onde o padre acabou de rezar uma missa furtiva e este fica esperando alguém delatá-lo; a longa cena da noite na prisão (por bebedeira!), que termina com a demonstração da generosidade paternalista do tenente, o qual dá ao padre uns trocados para prosseguir a vida, sem suspeitar que ele é o homem a quem persegue; a cena terrível em que o tenente procura padre José para que ele seja o confessor do outro padre, antes de sua execução; e, mais que todas, a cena em que o padre chega faminto ao local onde a família de Coral habitava e o encontra desabitado, acabando por disputar um osso com alguma carne com uma cachorra moribunda. É um dos dois ou três momentos mais impressionantes da ficção no século XX.

    Infelizmente, não há espaço para falar do estilo de O poder e a glória. Graham Greene criou para si mesmo o folclore de que escrevia diariamente 500 palavras e parava, independentemente de estar no meio de uma frase. O que ele nunca explicou e ninguém talvez explique é como conseguia encontrar 500 palavras iluminadas todos os dias para dar vida à sua obra suprema.

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O abismo das impossíveis reconstituições e os resignados habitantes do Inferno

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de fevereiro de 2000)

Os freqüentadores de cinema já estão assistindo ao trailer da adaptação que Neil Jordan fez de Fim de Caso. O que está reservado a essa que é uma das melhores obras do escritor inglês só Deus sabe, após Jordan ter perpetrado o horrível In Dreams- Premonição, onde a maravilhosa Anette Benning enfrentava uma bizarra e constrangedora mistura de O sexto sentido comPsicose.

Seja qual for o resultado cinematográfico, versão ou aversão, pelo menos servirá para colocar o livro em evidência novamente.

O narrador-protagonista de Fim de Caso é o escritor Maurice Bendrix, que reencontra Henry Miles, marido de sua ex-amante, Sarah. A essa altura da narrativa, Bendrix faz questão de informar ao leitor várias vezes o ódio que sente por ela, após tê-la amado durante os anos de guerra.

Henry (que não desconfia que Sarah e Bendrix enganavam-no) confessa ter dúvidas a respeito da esposa. Pensou até em procurar uma agência de detetives, desistindo por medo de se expor. Insidiosamente, Bendrix sugere tomar seu lugar na ida à agência, “passando-se por amante de Sarah”. Henry recusa a oferta, mas o outro, tomado pelo ciúme e pelo ressentimento, resolve de fato contrata um detetive para segui-la.

Entre as muitas qualidades desse romance de 1951, o primeiro exercício de Greene com a 1ª. pessoa, seu agudo e arguto estudo do sentimento inquisitorial, para usar uma expressão de Proust, que é o ciúme, irmana-o a duas outras obras-primas supremas a respeito do tema, Dom Casmurro  e Em busca do tempo perdido. É bem de Greene transformar uma questão passional numa investigação detetivesca, um território profanando o outro. Pois Parkis, o detetive, desenvolve uma admiração romântica por Sarah, enquanto Bendrix deixa que o lado sórdido da investigação deforme o passado, para descobrir, ao fim e ao cabo, que nem de posse das palavras mais íntimas de Sarah (Parkis furta seu diário) consegue “saber tudo”: “Então ela ainda tinha segredos, pensei. Ela não colocou isto em seu diário, assim como não tinha escrito sobre sua doença. Quanta coisa mais haveria a descobrir? Essa idéia era desesperadora”.

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Nessa “corrida para o abismo das impossíveis reconstituições”, para mais uma vez usar palavras do mestre do assunto, Proust, Bendrix certamente concordaria com a seguinte passagem de A Prisioneira (quinto volume de Em busca do tempo perdido), assim como também subscreveria embaixo o seu outro colega, Bentinho Santiago: “Interminável é o ciúme, pois mesmo se o ser amado, tendo morrido, não o pode mais provocar pelos seus atos, acontece que reminiscências posteriores a qualquer fato se comportam de repente em nossa memória como outros tantos fatos, reminiscências que não havíamos esclarecido até então, que nos tinham parecido insignificantes e às quais basta que reflitamos sobre elas para lhe darmos um sentido novo e terrível… basta estarmos sós no quarto, a pensar, para que novas traições de nossa amante aconteçam, embora ela esteja morta. Por isso não se deve temer no amor tão somente o futuro, mas também o passado, o qual se realiza para nós muitas vezes depois do futuro, e não falamos apenas do passado que só se nos revela mais tarde, mas também daquele que conservamos há muito tempo em nós e que de repente aprendemos a ler”.

A originalidade de Fim de Caso é o Outro que emerge da investigação das idas e vindas de Sarah, Outro que determinou a separação entre ela e Bendrix, devido a um episódio que não convém contar. Quem é esse Outro, esse mr. X ? Greene assume o risco do ridículo e nos dá nada mais nada menos do que Deus. O descrente e ressentido Bendrix é obrigado a acompanhar, na sua corrida para o abismo das impossíveis reconstituições, passo a passo, o processo de conversão de Sarah, e obrigado, além disso, a encarar (aceitar já seria dizer muito) a possibilidade de existência do inaceitável, o milagre: após a morte de Sarah, alguns atos podem ou não configurar eventos milagrosos e Bendrix terá que se manter na corda bamba da dúvida. Se alguém tiver dúvida da intensidade a que se chega nesse triângulo em que Deus é um dos vértices, basta ler a cena inacreditavelmente (para usar um termo apropriado à trama) linda em que Bendrix encontra (e é a última vez em que a vê com vida) Sarah numa igreja.

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E haveria tanta coisa a mais a dizer sobre o livro: como Sarah é uma personagem incrível (o capítulo em que se conhece o teor do seu diário é um grande tour-de-force); como é emocionante a relação de amizade que se estabelece entre Bendrix e Henry (um dos achados de Fim de Caso é fazer com que eles, no final, acabem vivendo juntos, na esteira da “presença” de Sarah na existência de ambos); como o detetive Parkis e seu filho poderiam fazer parte do mundo de Samuel Beckett (o de Molloy, por exemplo, publicado no mesmo ano), com seu comportamento a um só tempo pateta e patético. Ou, ainda, a maneira como a trama é construída, com brilhantes ziguezagues temporais que permitem ao leitor conhecer passado (o tempo do “affair”) e presente (a partir do reencontro com Henry), ao mesmo tempo, e sem que ele quase se dê conta do deslizar de um para o outro.

É sempre assim com o autor de O poder e a glória e The heart of the matter- O cerne da questão: tem-se a ilusão de que se vai ler algo simples e linear e, de repente, somos assombrados por tramas mágicas e inquietantes. Ele aprendeu muito bem os feitiços de seu mestre, Henry James, o qual já foi chamado (por Borges) de habitante resignado do Inferno. Alguém que escreveu Fim de Caso só pode estar residindo na mesma localidade. Deve ser uma área do Além extremamente valorizada.

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Os esgotos do pós-guerra e os escombros da camaradagem masculina

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(resenha publicada de forma mais condensada em A TRIBUNA de Santos, em 30 de junho de 2007)

Aos poucos, Graham Greene, um dos meus autores favoritos  (apesar do veredicto derrisório de Vargas Llosa, em A verdade das mentiras: “um escritor eficiente, tímido e funcional, que se sentia satisfeito contando uma história com acerto, que fizesse toda uma classe de leitores passar um tempo feliz e distraído.. o que se propôs foi sempre pouco e muito abaixo do seu talento”), vai reaparecendo nas livrarias.

A Globo acaba de lançar novas traduções de O americano tranqüilo e do magnífico The heart of the matter, agora com o título nacional de O cerne da questão, após ter circulado por décadas como um risível O coração da matéria. A L&PM já republicara O fator humano e adicionou O terceiro homemà série que é vendida pelo espantoso preço de seis reais (mais espantosos ainda é o rol de autores que dela constam: Rilke, Sartre, Rimbaud, Scott Fitzgerald, Dalton Trevisan…)

Basicamente o argumento para um filme (aquela curiosa obra-prima de Carol Reed, que parece ter a mão, senão a alma, de Orson Welles, já que ele e seu amigo Joseph Cotten são os astros e toda a atmosfera evoca o universo do criador de Cidadão Kane e Mr. Arkadin mais do que o do próprio Reed, sempre um diretor mais para o “eficiente, tímido, funcional”, o que pode ser uma grande injustiça), escrito em 1949, O terceiro homem representa uma peça-chave para se compreender Graham Greene, principalmente pela maneira como Rollo Martins, o protagonista, se envolve na trama (cujo cerne da questão aparenta ser o mercado negro de penicilina no após guerra), e pelo cenário (Viena ocupada pelas grandes potências, uma terra de ninguém, ora patrulhada por americanos ora por russos).

A narrativa é feita por Calloway, o oficial britânico que está à caça de Harry Lime, o “terceiro homem”, companheiro de adolescência do imaturo Rollo, para quem é um ídolo, uma amizade de fascinação e subjugação, que o mantém em Viena, mesmo quando é informado da morte de Harry. A relutância de Rollo em aceitar conhecer o “verdadeiro” Harry Lime o faz penetrar cada vez mais nos meandros do submundo e na humilhação vienense, nessa ex-capital do supra-sumo da cultura européia, transformada numa opressiva e deprimente zona de guerra e mercado negro; ao mesmo tempo, um espaço privilegiado para a intuição poderosa de um escritor como Greene, que praticamente condensou o romance noir com o thriller da Guerra Fria (o filme ainda adicionou a pitada de pesadelo expressionista: quem pode esquecer, entre outras coisas, a perseguição pelos esgotos?).

O grande autor inglês se dá ao luxo de brincar consigo mesmo: a essa altura, ele já publicara seus três maiores romances (O condenado, O poder e a glória e o recém batizado O cerne da questão; eu adicionaria ainda pelo menos mais quatro na lista de suas obras máximas: Fim de caso,  O americano tranqüilo, O cônsul honorário e Monsenhor Quixote). Não é que ele caracteriza Rollo Martins, o homem que se recusa a crescer (“A muralha uniforme da ilusão não exibira rachaduras reais ao toque de seus dedos, até então, diz Calloway), aquele que será “sempre um colegial” (para utilizar um título dado aqui no Brasil a um romance do discípulo de Greene, John Le Carré), como autor daqueles livros ordinários de faroeste, escritos sob pseudônimo (e sequer ganha dinheiro com essa produção!) –e quem leu Pontos de fuga sabe como foi angustiante, para Greene, a adoção de uma carreira profissional de escritor.

Pois bem, mal chega a Viena, Rollo é confundido com um prestigiado e aguardado romancista inglês, e se vê dando uma palestra sobre “o romance moderno”. Um dos pontos altos de O terceiro homem, a cena torna-se particularmente deliciosa ao lhe perguntarem sobre James Joyce, como “situaria” o autor de Ulisses no quadro do romance moderno: “tivera um dia cheio: bebera demais com o coronel Cooler; apaixonara-se; um homem fora assassinado, e agora tinha a impressão de que estavam mangando dele. Zane Grey era um dos seus heróis. Estavam loucos se pensavam que ia aturar disparates…

__Se quer mesmo saber, nunca ouvi falar de Joyce. O que é que ele escrevia?”

    No angustiante universo de mentiras e logros de O terceiro homem, esse é um dos raros instantes (ainda que cômico) em que se diz uma verdade.

GLOBALIZAÇÃO LITERÁRIA: A OBRA DE GRAHAM GREENE

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https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/os-esgotos-do-pos-guerra-e-os-escombros-da-camaradagem-masculina/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/20/personagem-a-procura-de-um-autor/

(aqui estão reproduzidas algumas das resenhas escritas por mim sobre obras de Graham Greene ao longo dos anos e publicadas em “A Tribuna” de Santos)

 

 Resenha publicada em  A TRIBUNA de Santos, em 18 de janeiro de 1994:

Reflexões é um daqueles constrangedores produtos da decrepitude ou pós-morte de um autor importante, quando se fuça seus rabiscos e publica-se até a caderneta da padaria e a cartilha do beabá? Sabemos o quanto de lixo isso nos trouxe de Pessoa e Drummond, por exemplo, esse culto necrófilo e/ou mercenário das sobras…

Muitos textos dessa coletânea de textos circunstanciais escritos ao longo de décadas por Graham Greene (1904-1991) ou são curtos, abruptos e vagos demais ou são francamente ruins e juvenis no pior sentido. Há lugares comuns indefensáveis, como no tributo a Jorge Luis Borges, “espantou-me a expressão daqueles olhos cegos. Não pareciam cegos. Era como se estivessem olhando para dentro de si mesmos”!!!!

O leitor deve dar preferência mesmo ao ficcionista extraordinário, que nos deixou contos memoráveis, um trio de romances geniais (Brighton Rock- O condenado, de 1938; O Poder e a Glória, de 1940; The heart of the matter- O cerne da questão, de 1948), além de obras como Fim de Caso, O Cônsul Honorário, Viagens com minha tia, O fator humano ou Monsenhor Quixote, para citar algumas, que aguardam uma reavaliação para se conferir se não estão no mesmo patamar. Sem falar nos dois fundamentais depoimentos autobiográficos, Quase uma vida e Pontos de fuga.

Mesmo assim, há algo de instigante em Reflexões, pela revelação que faz da ética pessoal de Greene. Escrevendo sobre a Alemanha e a França pós-Primeira Guerra (e prevendo, com acerto, aos vinte anos, a segunda), sobre a Indochina, o Haiti, Cuba, Paraguai, Chile, Conan Doyle, sebos, cinema (artigos marcantes sobre este assunto, afinal ele foi crítico cinematográfico por anos), acaba nos esclarecendo um pouco porque foi o romancista que ampliou a consciência mundial da literatura, que deu sentido à frase lapidar de Joan Didion (no seu belíssimo romance Democracia): “ninguém está isento do movimento geral”; e, ao mesmo tempo, mostrou dilemas psicológicos tão intimistas e intrincados. No seu entender, o que acontece em Phat Diem ou o que ocorreu em 1597 com católicos ingleses coloca a todos nós em questão.

Por isso, o mais perturbador de todos os textos de Reflexões é “A virtude da deslealdade”: “Sempre foi conveniente aos interesses do Estado envenenar os poços psicológicos, estimular vais, limitar a solidariedade humana. Não será tarefa do contador de histórias agir como advogado do diabo, provocar simpatia e uma certa compreensão para com aqueles que estão fora dos limites da aprovação do Estado? (…) Ele representa as vítimas, e as vítimas mudam. A lealdade nos confina às opiniões aceitas, a fidelidade nos proíbe de compreender, de maneira solidária, os nossos companheiros dissidentes; a deslealdade, porém, nos estimula a penetrar qualquer mente humana”.

    Realmente, esse é o espírito que sopra sobre as águas da obra de Greene. Não foi por acaso que ele pôde escrever Monsenhor Quixote, romance definitivo sobre a equação ideologia e individualidade (não confundir com individualismo).

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Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 9 de janeiro de 1996:

Em A última palavra, coletânea de 12 contos, há duas histórias da Segunda Guerra: “As notícias em inglês” e “O tenente morreu por último”. Em ambas, dois solitários são o pivô dos acontecimento: uma mulher cujo marido é considerado por todos (a mãe, inclusive) um traidor, e que carrega consigo o peso de saber a “verdade”; um caçador ilegal que salva um daqueles típicos povoados ingleses (eles se tornaram quase míticos, após tantos filmes e livros, está aí Mrs. Minniver-A rosa da esperança, de William Wyler, que não me deixa mentir) de uma invasão alemã.

Como são dois textos de alto nível, possuem outros aspectos que poderiam ser explorados, mas esta resenha insistirá na impressionante maneira como a solidão ecoa de uma ponta a outra, dando notável unidade e coerência a essa reunião de “filhos pródigos” do autor de The heart of the matter- O cerne da questão. São contos que ele deixou de lado e dos quais, salvo engano, apenas “O bilhete de loteria”, um dos melhores, já fora publicado no Brasil, em outra tradução, pela editora Agir (em 1959, na coletânea Contos, cujos 18 integrantes foram meu primeiro contato com o Greene contista).

a última palavra

A própria história-título, que abre o livro, com um tom que parece ter saído dos versos de T.S. Eliot, aqueles do final de A terra arruinada, que nos falam do fim do mundo como evento mais melancólico que apocalíptico, mostra um solitário: o último papa, desmemoriado após um atentado e o qual, já não possuindo seguidores e não representando mais uma ameaça (ou seja, não podendo tornar-se mártir), é executado por um compadecido inimigo.

Em “O momento da verdade”, um garçom descobre-se condenado pelo câncer e deposita toda esperança de solidariedade e simpatia num casal de fregueses americanos, freqüentadores por alguns dias do restaurante.

Restaurantes também são os lugares onde passa a vida o espião de “Uma divisão do serviço”, uma das inúmeras brincadeiras de Greene com o serviço secreto britânico, para o qual trabalhou e que adorava espicaçar. Já nesse conto a solidão se reveste de um ridículo atroz, explorado também em “Assassinato pelo motivo errado”, no qual aparece um personagem freqüente na ficção greeniana, o assassino recalcado e inseguro. Basta lembrar A gun for sale- Assassino de aluguel e do inesquecível Pinkie da obra-prima Brighton Rock- O condenado.

Outros que não escapam da ironia do grande autor inglês são os turistas, basta ler “O homem que roubou a Torre Eiffel”. Na verdade, só existem dois textos realmente fracos em A última palavra: “A casa nova” e “Uma obra inacabada”.

O que sobressai do conjunto é uma visão da sociedade em que todos estão abandonados à própria sorte, uma sociedade que torna cada verdade pessoal paródia de si mesma, uma sociedade em que as pessoas dedicam-se por anos a atividades miseráveis e incompreensíveis (os espiões durante a Guerra Fria, por exemplo). Enfim, um mundo que os críticos costumam chamar de greeneland (ele brinca com isso em Ways of escape- Pontos de Fuga, depoimento sobre a feitura das suas obras) e que nada mais é do que o mundo globalizado, um mundo que ele soube intuir e retratar de maneira magistral.

Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 17 de junho de 2003

o condenado

Com relação ao centenário do nascimento de Marguerite Yourcenar comentei que seu livro Golpe de Misericórdia (1939) era apreciado até mesmo por quem não gostava muito da obra da escritora belga. Isso acontece também com Brighton Rock- O Condenado, que geralmente sai ileso das críticas mais pesadas feitas a Graham Greene (de ser um autor convencional, comercial, para consumo da classe média, etc).

Ele está sendo apresentado numa edição que se apresenta como “revista”, embora ainda utilize como base uma velha tradução de Leonel Vallandro, igualmente utilizada em Portugal (como A inocência e o pecado), e que é muito boa, só ficou anacrônica no quesito gíria, já que o romance se passa no submundo e nos meios populares. E também há o problema do aportuguesamento dos nomes próprios. Eu costumava me irritar com a aportuguesada Rosa (a personagem-chave do enredo) e fiquei feliz ao vê-la se tornar uma legítima e inglesa Rose. Mas parece a dose foi demasiada e o remédio só piorou a doença: uma sucessão de palavras incorporou o Rose reconquistado. O leitor conhece uma polícia vagaRose? Pois aparece na página 152. E há um vagaRosemente tanto na 205 quanto na 296. Temos doloRosemente (155,283,336), doloRose (190,279, 317), rancoRose (200), tenebRosemente (218), tenebRose (283, 295), indecoRosemente (291), prazeRosemente (239), temo “Roses, roses, roses, por todo o caminho” (234), ficamos sabendo que a vida não é cor-de-Rose (220), que “nem tudo são Roses” (270)!!???!!

Será que estamos diante da versão Finnegans Wake de O condenado? A revisão é tão malfeita que fica faltando uma frase num diálogo entre Pinkie, o protagonista (vivido de forma memorável no cinema pelo então ótimo ator e agora soporífero cineasta Richard Attembourough), e Spicer, o comparsa que ele acabará por assassinar (“Para ? Que está querendo insinuar?”, o leitor NÃO encontrará na página 136), além de metade da frase “Que não foi vocês sabem quem, na página 159; além disso, dividiram em dois parágrafos uma fala importantíssima de Pinkie (numa conversa com Rose, quando tenta incitá-la ao suicídio), na página 311, truncando-a e quase a tornando incompreensível. Haveria muito mais a dizer. Paremos por aqui. Edição “revista” !!! é esse o respeito que as editoras brasileiras têm pelos seus leitores (ou vítimas).

É uma pena que a obra-prima de Greene chegue aos brasileiros tão desfigurada: quando a publicou, em 1938, ele estava apenas com 34 anos e já escrevera alguns romances talentosos: o geralmente subestimado, até pelo próprio autor, Expresso do Oriente, Um campo de batalha, Bela e querida Inglaterra, Assassino de aluguel. Chegara, entretanto, a hora da genialidade na história do gangsterzinho de 17 anos, Pinkie, o Garoto, cuja quadrilha disputa com mr. Coleoni o faturamento do submundo das apostas em corridas de cavalo na cidade balneária de Brighton. Eles assassinam um jornalista, Hale, o qual (para azar deles), antes de ser apanhado, procurou refúgio nos braços de Ida Arnold, mulher de “implacável vitalidade” e que partirá para uma insólita retaliação. Dela se diz não havia lugar no mundo onde se sentisse forasteira”, “não havia nada a que se sentisse alheia”, “somente aquelas trevas em que se movia o Garoto lhe eram estranhas. Não tinha piedade com aquilo que não compreendia”.

    Para escapar da forca, o Garoto resolve se casar com a única testemunha que sobrou do caso Hale, a garçonete Rose. Tanto ele quanto ela são católicos. Como também são menores, casam-se por meio de uma artimanha legal apenas no civil, caindo no mundo do pecado mortal segundo as leis da igreja (e é bom levar a sério esse conceito de pecado mortal, leitor, pois é essencial ao romance). Começa, então, a disputa entre Pinkie e Ida (essa mulher nem sabe o que é um pecado mortal”) pela alma de Rose, que revolucionará a trama noir e transformará Brighton no palco temporário do Inferno.

ADENDO DE 2010-André de Oliveira Lima editor atual de literatura da Globo, entrou em contato comigo e gentilmente me enviou um exemplar da reimpressão de O condenado (de 2006) onde esses erros todos foram corrigidos.

Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, 24 de junho de 2003

greene

Depois de comentar os imperdoáveis erros da nova edição de O condenado, de Graham Greene,, é preciso falar mais a respeito do livro, obra-prima de um autor cuja popularidade não parece dar sinais de arrefecer, como mostram as contínuas adaptações cinematográficas: tivemos, há pouco tempo, uma surpreendente e brilhante versão de Neil Jordan para Fim de Caso (a qual deu ensejo para a alta inspiração de Julianne Moore e Stephen Rea como intérpretes de Sarah e seu marido Henry); no ano passado, Philip Noyce refilmou O americano tranqüilo, com o grande Michael Caine (que já havia sido um fantástico personagem-título na adaptação de O cônsul honorário).

Como já se comentou aqui, o protagonista de O condenado, Pinkie, vulgo o Garoto, é um gangsterzinho de 17 anos, um “pequeno ditador”, que carrega sua “cruel virgindade”, assumindo a liderança de uma quadrilha no submundo das corridas de cavalo em Brighton, especialmente após a eliminação do jornalista Hale. Para não correr riscos, Pinkie resolve casar-se com a única testemunha que pode ligá-lo a Hale, a garçonete Rose, católica e menor de idade como ele.

Casam-no civil, porém o sentimento de pecado mortal (por não se sacramentar o matrimônio na igreja) assombra o casal, “na sombria teologia em que os dois estavam absortos”.

    Uma das raras coisas boas da edição da Globo é o prefácio de Marcelo Pen, onde se fala do livro como “thriller metafísico”. De fato, é como se fosse um enredo policial ao estilo de um Borges ou de uma Clarice Lispector. Por um curioso erro de percepção, Greene achava que a base policialesca da intriga (a Primeira Parte, com a perseguição de Hale) deveria ter sido cortada quando o romance tomou sua feição final.  É o que se lê em Pontos de fuga: “As primeiras 50 páginas são tudo o que resta da história policial. Iriam irritar-me, se eu ousasse examiná-las agora, pois deveria ter tido a força de vontade suficiente para retirá-las, e começar a história outra vez, por mais difíceis que se tornassem as revisões, com a agora chamada Segunda Parte.

O problema é que a desprezada Primeira Parte é incrível: tudo está lá, todas as linhas de força do romance, a partir da inesquecível frase inicial (“Ainda não fazia três horas que Hale estava em Brighton quando compreendeu que pretendiam assassiná-lo); aliás, poucos livros podem se gabar de começar de forma tão inspirada, e terminar com uma frase mais perfeita ainda, se possível (Rose caminhava rapidamente, no leve sol de junho, ao encontro do maior de todos os horrores).

Outro inacreditável erro de avaliação de Greene é justamente com relação a Rose. Para ele, era uma de suas personagens que não conseguiram adquirir vida, que só estão ali por causa da trama. Pois bem, Rose é a grande personagem, a alma de O condenado, bem mais do que o próprio Pinkie ou sua oponente, Ida Arnold. Rose está para Graham Greene como Macabéa para Clarice Lispector: a mesma nulidade social, o mesmo desamparo existencial, a mesma qualidade patética de “ser” com tão pouco, de tirar tanto de nada. Nos momentos em que Rose está no centro do palco, o estilo de Greene chega ao auge.

E por falar em estilo, há determinadas imagens insólitas que parecem Faulkner (é só pegar Santuário). É o caso de uma caracterização do advogado, mr. Prewitt, responsável pelos arranjos para o casamento (e que tem perfeita consciência da situação de todos, ao citar Fausto: “O inferno é aqui e nós estamos dentro dele”; de passagem, há até um detalhe bobo e dispensável para indicar isso: o número do telefone da pensão de Pinkie é 666): “A expressão de simpatia não lhe assentava; tinha-se a impressão de que era possível despegá-la dos seus olhos, como etiqueta colada pelo leiloeiro num antigo instrumento de sílex. Parece Faulkner (que justamente publicava suas grandes obras por essa época), mas a semelhança é devida a uma influência comum a ambos: Joseph Conrad. Pois o coração das trevas tanto fica em Brighton quanto no Mississipi.

Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 16 de março de 2004

os farsantes

Há algum tempo, Caetano Veloso cantava que o Haiti era aqui. Em 1966, Graham Greene mostrou-se mais profético ainda ao escrever em Os farsantes o seguinte trecho: “O Haiti não era uma exceção num mundo sadio: era uma pequena fatia do dia a dia tomada ao acaso.

Quase quatro décadas depois, com o estado das coisas no Brasil e no mundo, e depois da intervenção totalitarista dos EUA exilando de forma sumária um chefe de estado, o lançamento do romance pela Globo torna-se mais relevante, embora não seja uma das obras mais citadas do grande escritor inglês, cujo centenário de nascimento se comemora este ano.

Felizmente, não temos uma edição “revisada” ao modo desastroso de O condenado. Mesmo assim, alguns problemas persistem. O título, por exemplo. Talvez fosse melhor manter a solução da antiga versão de Brenno Silveira, um literal Os comediantes (para The comedians), uma vez que as ligações entre os personagens são metaforizadas sob a forma da atuação (o que deixa indignada a protagonista feminina, que se recusa a ser vista como alguém que está “representando um papel”, como admitem cinicamente –ou seria resignadamente?—seus companheiros). O único problema no caso é que o termo comediante está associada em nossa língua aos papéis cômicos, e aqui teria de ser estendido à comédia humana que nos envolve a todos. “Farsantes” ou seu correlato “impostores” diminuem muito o alcance da metáfora.

Há lapsos na revisão: na página 37, o sr. Smith diz que nem ele nem a esposa (ambos, personagens antológicos) são pessoas “que tenham prazeres moderados” (e é justamente o oposto); na página 79, a frase “quando penso em todo aquele desperdício na Broadway é atribuída a Martha, amante do narrador e protagonista, Brown, e é a mulher que se recusa a ser uma “comedian”, comediante ou farsante (na burocrático e sonífera versão de Peter Glenville eles serviram de veículo para mais uma reunião do casal Elizabeth Taylor e Richard Burton), quando na verdade é dita pela sra. Smith (que, no filme, era a lendária Lílian Gish); na página 112, Brown afirma que tinha razão para se preocupar e deveria ser o contrário (naquele momento, ele não tinha razão nenhuma para ficar preocupado, o que será ironicamente desmentido pelos acontecimentos); enfim, volta e meia esbarramos nalgum enguiço. No geral, entretanto, a tradução é boa.

Depois de Fim de caso (1951), Greene afeiçoou-se às narrativas em primeira pessoa. Em The comedians, Brown é o cidadão de nacionalidade inglesa (embora de origem duvidosa) que mantém um hotel de luxo em Porto Príncipe, abandonado pelos turistas quando a violência da ditadura de Papa Doc e dos tontons macoutes se torna mais virulenta. Ele é mais dos estrangeiros envolvidos em situações locais no mapa da Greenelândia (no México, em O poder e a glória; na África, em O coração da matéria; bi Vietnã, em O americano tranqüilo; em Cuba, em Nosso homem em Havana; no Paraguai, em O cônsul honorário), embora talvez seja o menos ilustre, talvez porque aqui o autor se mostre um tanto cansado. Além disso, ele persiste numa certa sátira aos americanos tranqüilos, ou “inocentes”: o casal Smith chega ao Haiti no mesmo navio de Brown e Jones (este, o mais enigmático e ambíguo dos “comedians” da trama) e hospedam-se no hotel do primeiro. Sua meta: convencer o governo haitiano das vantagens do vegetarianismo, o qual consumiria as paixões humanas.

Humanitário, progressista, otimista, o casal comove Brown e o leitor, escapando do ridículo por causa da sua integridade e bravura quixotesca, ainda que ineficazes e até inconvenientes, quando se opõem às situações de arbítrio e opressão que por acaso testemunham, como o seqüestro, a caminho do velório, do corpo de um ministro que se matou (à beira da piscina do hotel de Brown) ao figurar como persona non grata do regime: “numa ditadura, as pessoas não são donas de nada, nem de um marido morto”.

    Parece que hoje em dia as coisas ficaram piores. As pessoas não são donas nem de um presidente em exercício. Ele pode ser levado a qualquer momento.


26/03/2013

CHINUA ACHEBE (1930-2013) E A MALDIÇÃO DA SERPENTE

chinua achebe

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/08/16/destaque-do-blog-o-mundo-se-despedaca-de-chinua-achebe/

“O primeiro dia de Obi no serviço público foi memorável, quase tão memorável quanto seu primeiro dia na escola da missão do campo, em Umuofia, quase vinte anos antes. Naquele tempo, homens brancos eram muito raros… O Sr. Jones era inspetor de escolas e era temido em toda a província… Visitava cada escola mais ou menos de dois em dois anos e sempre fazia algo de que todos se lembravam até a visita seguinte. Dois anos antes, ele havia jogado um menino pela janela da sala de aula. Dessa vez foi o diretor que se meteu numa encrenca. Obi nunca descobriu qual foi o problema, porque tudo foi tratado em inglês. O Sr. Jones ficou vermelho de raiva enquanto andava para lá e para cá, dava passadas tão largas que, a certa altura, Obi achou que ele ia passar direto por cima dele. O diretor, Sr. Nduka, ficou o tempo todo tentando explicar alguma coisa.

   Cale a boca!, esbravejou o Sr. Jones, e completou com um tapa. Simeon Nduka era uma daquelas pessoas que haviam adotado os costumes dos brancos, numa fase bem inicial da vida. E uma das coisas que ele tinha aprendido em sua juventude era a grande arte da luta corpo a corpo. Num piscar de olhos, o Sr. Jones estava estatelado no chão e a escola inteira se transformou numa grande confusão. Sem saber por quê, professores e alunos fugira todos em desabalada carreira. Derrubar no chão um homem branco era o mesmo que desmascarar um espírito ancestral.

   Aquilo tinha acontecido vinte anos atrás. Hoje, poucos brancos ousariam sonhar em dar um tapa num diretor de escola em seu local de trabalho e, de fato, nenhum faria tal coisa. O que era a tragédia de homens como William Green, o chefe de Obi.”

A.paz_.dura_.pouco_.Chinua.Achebe

(resenha publicada sem notas de rodapé em A TRIBUNA de Santos, em 26 de março de 2013)

Certa feita, Chinua Achebe comentou de forma acerba o reparo a uma hipotética “falta de universalidade da literatura africana”: “…é claro que não ocorreria a esses críticos duvidar da universalidade de sua literatura. Pela própria natureza das coisas, a obra de um escritor ocidental é automaticamente modelada pela universalidade. São só os outros que têm de lutar para atingi-la… Como se a universalidade fosse uma curva lá longe na estrada, a que você pode chegar se seguir o suficiente na direção da Europa ou dos Estados Unidos, se você colocar uma distância adequada entre você e sua casa.”[1]

Bem, é um assunto de monta e muito longe de esgotar. Indubitáveis mesmo são a universalidade e relevância alcançadas pelo próprio Achebe. Romances como Things Fall Apart- O mundo se despedaça (1958) e A flecha de deus (1964) estão entre as maiores realizações do gênero. Já tive a oportunidade, nesta coluna, de realçar a importância deles. E agora vou aproveitar o recente lançamento de A paz dura pouco (1960, em tradução de Rubens Figueiredo[2]) pela para homenagear o magnífico escritor nigeriano, falecido neste último dia 21, aos 82 anos.

A narrativa centra-se em Obi Okonkwo, neto do protagonista de O mundo se despedaça. Enquanto este era um livro de forte teor simbólico tanto quanto histórico, seu sucedâneo é mais realista, e focado na geração a que pertenceu de fato seu autor (nascido em 1930): Obi é o nativo da região tribal da Umuofia (cujo dialeto é o ibo) escolhido para estudar na Inglaterra e preencher futuramente um dos cargos no governo que, antes, eram reservados aos brancos. Com a configuração pré-Independência, há a possibilidade de ascensão real para alguns “eleitos” recrutados entre as comunidades, e decorrente desse privilégio, uma grande responsabilidade pessoal (além da pesada dívida pelo subsídio).

Filho de um ferrenho praticante do cristianismo, Obi se revela uma decepção: de fato, alcança posição razoável na nova máquina administrativa, mas acaba se afastando da Associação dos seus compatriotas (a qual financiou seus estudos) e da própria família por insistir no relacionamento com uma moça osa (pária).

Mergulhando na vida típica de um jovem nigeriano de Lagos nos anos 50, Obi afrouxa seus vínculos étnicos. Ironicamente, numa das reuniões em que era festejado como a esperança comunitária, ele (no vezo africano de ilustrar todas as experiências com provérbios e historietas) discorrera retoricamente sobre a “maldição da serpente”, “o perigo de viver separado dos seus”“Se todas as serpentes vivessem juntas num mesmo lugar, quem é que teria coragem de se aproximar delas? Mas as serpentes deixam que cada uma viva por sua própria conta e por isso se tornam presa fácil para o homem”.

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Vivendo por sua própria conta, Obi enreda-se em dívidas e termina por ceder à prática que lhe causava a mais profunda repulsa quando escrevia poemas patrióticos: a aceitação de propinas. No longer at ease começa com o seu julgamento por esse crime (praticado indiscriminadamente), que o desmoraliza. Como diria o seu chefe, o inglês Mr. Green, num tom que nos é familiar, nestes últimos tempos, pelas declarações do pastor Marcos Feliciano, o homem-forte da comissão dos direitos humanos e minorias, para a alegria geral: “São todos corruptos. Sou totalmente a favor da igualdade e tudo o mais… Mas a igualdade não vai modificar os fatos… os africanos, ao longo de muitos séculos, foram vítimas do pior clima do mundo e de todas as doenças imagináveis. Não é culpa deles, claro. Mas o fato é que foram mental e fisicamente solapados. Nós trouxemos para eles a educação ocidental. Mas de que isso adianta?”[3]

Ao narrar a “maldição da serpente” que vitima Obi, não se pense que Achebe tome partido da tradição. Com sua prodigiosa capacidade de síntese, se não há aquela impressionante atmosfera ancestral de O mundo se despedaça (onde se confrontavam os valores e decisões do avô e do pai de Obi), em No longer at ease ele consegue nos enfronhar na  formação de seu herói lukácsiano, desvendando  ao mesmo tempo (de uma forma pedagógica) conflitos de gerações, estruturas de poder, dilemas éticos, lembrando muito aqueles romances russos maravilhosos, como os de Turgueniev (Pais e Filhos; Rudin), nos quais a trajetória e os conflitos de um personagem descortinavam um amplo panorama social e de embates ideológicos, geralmente num momento de encruzilhada[4].

E assim como Turgueniev e outros russos geniais, que sempre estão na pauta do dia, Chinua Achebe já desde o início de sua trajetória (ele publicou No longer at ease aos 30 anos) virava aquela curva da estrada onde particularidade e universalidade se cruzam. Um escritor essencial.

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ANEXO

JOURNEY OF THE MAGI

“A cold coming we had of it,

Just the worst time of the year

For a journey, and such a long journey:

The ways deep and the weather sharp,

The very dead of winter”.

And the camels galled, sore-footed, refractory,

Lying down in the melting snow.

There were times we regretted

The summer palaces on slopes, the terraces,

And the silken girls bringing sherbet.

Then the camel men cursing and grumbling

And running away, and wanting their liquor and women,

And the night-fires going out, and the lack of shelters,

And the cities hostile and the towns unfriendly

And the villages dirty and charging high prices:

A hard time we had of it.

At the end we preferred to travel all night,

Sleeping in snatches,

With the voices singing in our ears, saying

That this was all folly.

 

Then at dawn we came down to a temperature valley,

Wet, bellow the snow line, smelling of vegetation,

With a running stream and a water-mill beating the

         Darkness,

And three trees on the low sky.

And an old white horse galloped away in the meadow.

Then we came to a tavern with vine-leaves over the lintel,

Six hands at an open door dicing for pieces of silver,

And feet kicking the empty wine-skins.

But there was no information, so we continued

And arrived at evening, not a moment too soon

Finding the place; it was (you may say) satisfactory.

 

And this was a long time ago, I remember,

And I would do it again, but set down

This set down

This: were we led all that way for

Birth or Death? There was a Birth, certainly,

We had evidence and no doubt. I had seen birth and death,

But had thought they were different; this Birth was

Hard and bitter agony for us, like Death, our death.

We returned to our places, these Kingdoms,

But no longer at ease here, in the old dispensation,

With an alien people clutching their gods.

I should be glad of another death.”

Journey_of_the_Magi__TS_Eliot_drawings_by_McKnight_Kauffer


[1] Devo essa citação à leitura de Cultura e Imperialismo, de Edward W. Said (traduzido por Denise Bottmann para a Companhia das Letras). Tenho problemas com certas idéias e principalmente algumas análises de Said, e já cheguei a detestar seu livro, mas agora acredito tratar-se de uma leitura obrigatória.

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[2] Antes de comentar o infeliz título nacional, adianto que fiquei realmente surpreso, desagradavelmente surpreso, com essa tradução de Rubens Figueiredo, que me parece indigna dele. Não teria espaço aqui para enumerar as infelizes soluções (por exemplo, em vez de adotar um glossário, como fez a falecida—exatamente dois anos antes de Achebe, em 21 de março de 2011) Vera Queiroz da Costa e Silva, em suas ótimas versões de O mundo se despedaça & A flecha de Deus, ele usa o termo africano e o parafraseia!!!??? Além do mais, há passagens como aquela em que Obi tira uma garota para dançar e lemos: “Você vem dançando há muito tempo?”!!!??? (alguém fala assim?). E quando Obi está discutindo a obra-prima de Graham Greene, The heart of the matter, ele traduz o título literalmente como O coração da matéria (que não quer dizer nada, convenhamos), na melhor e mais bizarra tradição Oscar Mendes, mesmo sabendo que recentemente lançaram uma versão do livro de Greene com o título (correto) de O cerne da questão.

Possivelmente não é culpa do tradutor, mas A paz dura pouco é um título muito ruim. No original, é No longer at ease, retirado de um poema de T.S. Eliot, Journey of the magi-A viagem dos magos, que fazem parte dos Poemas de Ariel.

Chinua Achebe utiliza como epígrafe do se romance, os versos finais:

“We returned to our places, these Kingdoms,

But no longer at ease here, in the old dispensation,

With an alien people clutching their gods.

I should be glad of another death”.

Podemos não culpabilizar Figueiredo da escolha do título brasileiro, mas sim da tradução sofrível que ele faz do trecho:

“Voltamos para nossas moradas, estes reinos,

Mas a paz dura pouco aqui, nos antigos domínios,

Com um povo estrangeiro, aferrado a seus deuses.

Uma outra morte me deixaria feliz.”

Vejamos a solução encontrada por Ivan Junqueira (no volume dedicado à Poesia Completa de Eliot, publicado pela ARX):

“Regressamos às nossas plagas, estes Reinos,

Porém aqui não mais à vontade, na antiga ordem divina,

Onde um povo estranho se agarra aos próprios deuses.

Uma outra morte me será bem-vinda.”

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[3] É preciso dizer que Mr. Green, com toda a possível caracterização caricatural, é um dos achados do romance. Vejamos a percepção que Obi tem dele:

“Havia tempo que Obi passara a admitir para si mesmo que, por mais que o Sr. Green lhe desagradasse, ele tinha algumas qualidades admiráveis. Por exemplo, sua dedicação ao serviço. Com chuva ou sol, estava no escritório meia hora antes do horário oficial, e muitas vezes trabalhava até muito depois das duas horas, ou voltava de novo ao anoitecer. Obi não entendia aquilo. Ali estava um homem que não acreditava num país, e mesmo assim trabalhava duro por ele. Será que acreditava no dever simplesmente como uma necessidade lógica? Vivia adiando sua consulta ao dentista porque, como sempre dizia, tinha um trabalho urgente para fazer. Era como um homem que tem uma tarefa grandiosa e suprema que deve ser concluída antes que ocorresse uma catástrofe final. Aquilo fazia Obi se lembrar de uma coisa que tinha lido sobre Mohammed Ali do Egito, que quando velho trabalhou freneticamente para modernizar seu país, antes de sua morte.

   No caso do Sr. Green, era difícil enxergar qual era seu prazo, a menos que fosse a independência da Nigéria. Diziam que tinha pedido demissão quando se pensou que a Nigéria podia ficar independente, em 1956. Depois se viu que isso não ocorreria, e o Sr. Green foi persuadido a retirar o pedido de demissão.”

[4] É por esse motivo que me causou espanto a tosca crítica de Luís Brás sobre o livro na Folha de São Paulo, na qual o resenhista também faz um paralelo com um russo, no caso Dostoievski, e erra o alvo (a questão do final edificante), diferenças de opinião à parte, tanto com relação ao do livro de Achebe quanto com relação a Crime e Castigo:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrada/91794-nocao-de-justica-infalivel-tira-a-forca-de-livro-de-nigeriano.shtml

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