MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/01/2013

Traduções dos sonetos de Antero (segunda parte): O Palácio da Ventura, Il Pallazzo della Ventura, Erdenglüch

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O PALÁCIO DA VENTURA

Sonho que sou um cavaleiro andante.

Por desertos, por sóis, por noite escura,

Paladino do amor, busco anelante

O palácio encantado da Ventura!

                                                           

Mas já desmaio, exausto e vacilante,

Quebrada a espada já, rota a armadura…

E eis que súbito o avisto, fulgurante

Na sua pompa e aérea formosura!

 

Com grandes golpes bato à porta e brado:

Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…

Abri-vos, portas d´ouro, ante mais ais!

 

Abrem-se as portas d´ouro, com fragor…

Mas dentro encontro só, cheio de dor,

Silêncio e escuridão—e nada mais!

 

“A vida biológica e social tem uma propensão muito profunda a fixar-se na sua imanência: os homens aspiram simplesmente a viver e as estruturas sociais a manter-se intactas; e o afastamento, a ausência de um Deus ativo tornaria onipotente a inércia dessa vida que se basta a si mesma e se abandona em paz à sua própria estagnação se não acontecesse aos homens, dominados pelo poder do demônio, elevar-se por vezes acima de si mesmos—de uma maneira infundada e infundável—e renunciar aos fundamentos psicológicos e sociológicos da sua própria existência.  É então que esse mundo abandonado por Deus se revela de repente como privado de substância, mistura irracional, simultaneamente densa e porosa; o que parecia ser o mais firme, quebra-se como argila seca sob os golpes do indivíduo possesso do demônio, e a transparência vazia que deixava entrever paisagens de sonho transforma-se bruscamente numa parede de vidro contra a qual, vítimas de uma vã e incompreensível tortura, nos chocamos como a abelha contra o vidro, sem conseguir furá-lo, sem querer perceber que aqui não há caminho…” (György Lukács)

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O PALÁCIO DA VENTURA é um dos mais belos e perfeitos, e provavelmente o mais paradigmático, entre os sonetos de Antero de Quental, porque é uma constatação do homem contemporâneo, do homem tocado pelo “demoníaco” no sentido lukácsiano, o anti-herói do “romantismo da desilusão”, em plena era burguesa, quando não encontra mais sentido no mundo ao seu redor. O imaginário medieval fornece uma daquelas imagens recorrentes de um mundo que é, ainda, costurado por uma ideia-mestra alegórica (O Palácio da Ventura), a peregrinação se dá naquele tônus cristão típico (clima de Mistérios). Vagabundo, deserdado, espada quebrada, armadura rota, símbolos externos que não são alheios aos próprios cavaleiros medievais em suas demandas, mas igualmente são signos de um desalinho interno, bem característico de uma época em que a costura do mundo se desalinhavou e há um hiato entre consciência e aquilo que a cerca. Mas a grande decepção é encontrar o ideal externo, o que se busca, o objetivo transcendente, “vazio”, pleno de escuridão e silêncio apenas. No mais, o moto de Antero habitual: o sonho.

Eu, que tenho a mania comparativa, sempre penso no soneto de Quental associado a um outro, igualmente belíssimo e com o mesmo imaginário épico-cristão enxovalhado, por assim dizer:

VANDALISMO (Augusto dos Anjos)

Meu coração tem catedrais imensas,

Templos de priscas e longínquas datas,

Onde um nume de amor, em serenatas,

Canta a aleluia virginal das crenças.

 

Na ogiva fúlgida e nas colunatas

Vertem lustrais irradiações intensas

Cintilações de lâmpadas suspensas

E as ametistas e os florões e as pratas.

 

Como os velhos templários medievais

Entrei um dia nessas catedrais

E nesses templos claros e risonhos…

 

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,

No desespero dos iconoclastas

Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos.

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Abaixo, duas traduções italianas e uma alemã de O PALÁCIO DA VENTURA, encontradas numa edição de 1890 de OS SONETOS COMPLETOS:

IL PALLAZZO DELLA VENTURA

Son io, nei sogni, un cavaliero errante.

Ai raggi ardenti, e per la notte oscura,

Paladino di amor cerco anelante

Il palagio incantato di Avventura.

 

Nei deserti già stanco e vacillante

Sono e rotta é la spada e l´armatura:

Ecco a un tratto la veggo sfolgorante

Quell´aerea beltade e le alte mura.

 

Picchio e ripicchio ed urlo, quanto ho fiato,

Il vagabondo io son, diseredato,

Porte d´oro v´aprite ad um dolente!

 

Le porte d´oro s´apron com fragore,

E non vi trovo, pieno di dolore,

Che tenebra, silenzio… e più niente.

(tradução de Emilio Teza)

 

 

 

IL PALAZZO DELLA VENTURA

Per desertí, col sole, a notte oscura,

Sogno Che sono un cavaliere errante,

Paladino d´amor, cerco anelante

L´incantata magion de la Ventura.

 

Ma l´acciar franto e fessa è l´armatura,

Io casco a terra esausto e vacillante

E allor mel veggo incontro sfolgorante

De la beltá più maestosa e pura.

 

Picchio a l´ingresso e grido con furore:

“Sono Il diseredato, Il vagabondo…

Schiudetevi al mio pianto, aurate porte!”

 

S´apron la porte d´oro con fragore…

E veggo dentro con dolor profondo

Nient´altro, ohimè, che orror, silenzio e morte!

(tradução de Thomaz Cannizzaro)

 

ERDENGLÜCH

Mir träumt, ich fahr´umirrend ohne Rast,

Ein Paladin der Minne, durch die Lande

Und such´in  Winterfrost, und Sommerbrande

Ringsher nach Frau Fortunas Wunschpalast;

 

Bereits erlieg´ich all der Müh´und Hast,

Am Schwerte Scharten, Riss´im Stahlgewande:

Da she ´ich plötzlich fern am Bergesrande

Aufglüh´n der Zinnen Kranz in gold, gem Glast;

 

Hineilend ruf´ich mit Geschrei und Pochen:

“Ich bin enterbt, verlassen und gebrochen,

Spring auf, erbarme dich, du Thor des Lichts!”

 

Da klafft die Pforte mit gewalt´gem Schlage;

Jedoch im Inn´ren find´ich Schmerz und Klage,

Schweigen und Finsterniss—und anders nichts.

(tradução de Guilherme Storck)

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24/01/2013

Traduções dos sonetos de Antero (primeira parte)

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A CLÁUDIA, pelo presente e pela amizade


Consulta

 

Chamei em volta do meu frio leito

As memórias melhores de outra idade,

Formas vagas, que às noites, com piedade,

Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito…

 

E disse-lhes: —No mundo imenso e estreito

Valia a pena, acaso, em ansiedade

Ter nascido? dizei-mo com verdade,

Pobres memórias que ao seio estreito….

 

Mas elas perturbaram-se —coitadas!

E empalideceram, contristadas,

Ainda a mais feliz, a mais serena…

 

E cada uma delas, lentamente,

Com um sorriso mórbido, pungente,

Me respondeu: —Não, não valia a pena!

os sonetos

Recebi da minha diletíssima amiga Cláudia um inesperado e belo presente, numa visita à Disquería, a loja dela e de Wagner Parra, com discos, CDs, DVDs e livros:  OS SONETOS COMPLETOS, de Antero de Quental (1842-1891), ou Anthero de Quental, como está, numa edição de 1890, da Livraria Portuense, de Lopes & C.A.-editores. Pois bem, tenho várias edições diferentes da obra desse que é meu poeta oitocentista favorito, em língua portuguesa, junto com o igualmente admirável Cesário Verde, desse que é um romântico incurável perdido em plena época positivista, materialista, burguesa, que faz uma poesia filosófica que tem nostalgia dos arroubos do mais descabelado romantismo.

Que diferença esta traria? Além da grafia (ao reproduzir os poemas em português, achei melhor modernizá-la, para facilitar a leitura, entretanto até me arrependi um pouco de tê-lo feito. Olha que delícia: “Só uma vez ousei interrogal-o:/Quem és (lhe perguntei com grande abalo)/Phantasma a quem odeio e a quem amo?// Teus irmãos (respondeu) os vão  humanos/ Chamam-me Deus, há mais de dez mil annos…/Mas eu por mim não sei como me chamo…”), o volume é completado com diversas traduções dos poemas em espanhol, em francês, em italiano, em alemão, algumas das quais reproduzo abaixo, junto com o original “modernizado”. Têm sido minha diversão nos últimos dias e quero compartilhá-la com meu leitor:

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Evolução

 

Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,

Tronco ou ramo na incógnita floresta…

Onda, espumei, quebrando-me na aresta

Do granito, antiquíssimo inimigo…

 

Rugi, fera talvez, buscando abrigo

Na caverna que ensombra urze e giesta;

Ou, monstro primitivo, ergui a testa

No limoso paul, Glauco pascigo…

 

Hoje sou homem —e na sombra enorme

Vejo, a meus pés, a escada multiforme,

Que desce, em espirais, na imensidade…

 

Interrogo o infinito e às vezes choro…

Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro

E aspiro unicamente à liberdade.

 

 

Evolution

 

Einst war ich Fels und war in alter Welt

Baum oder Strauch im unbekannten Wald;

Als schäum´ge Welle ward ich ohne Halt

Vom frühsten Feinde, dem Granit, zerschellt;

 

Ich brüllt als Raubthier, wo zu schatt´gem Zelt

Einhüllten Ginst und Farn den Höhlenspalt,

Und hob als urweltart´ge Missgestalt

Lässig den wüsten Kopf aus Sund und Belt;

 

Jetzt bin ich Mensch —und seh´im falben Licht

Weithin zu Füssen mir die Stufenschicht,

Die niedersteigt in vielgewund´nem Gang;

 

Das Unbegrenzte fragend, wein´ich still;

Doch, ausgestreckt die Händ´in´s Leere, —will

Und wünsch´inh Freiheit bloss aus diesem Zwang.

(tradução de Guilherme Storck)

 

 

 

Elogio da morte III

 

Eu não sei quem tu és —mas não procuro

(Tal é a minha confiança) devassá-lo.

Basta sentir-te ao pé de mim, no escuro,

Entre as formas da noite com quem falo.

 

Através de silêncio frio e obscuro

Teus passos vou seguindo, e, sem abalo,

No cairel dos abismos do Futuro

Me inclino à tua voz, para sondá-lo.

 

Por ti me engolfo no noturno mundo

Das visões da região inominada.

A ver se fixo o teu olhar profundo…

 

Fixá-lo, compreendê-lo, basta uma hora,

Funérea Beatriz de mão gelada…

Mas única Beatriz consoladora!

 

 

Elogio de la muerte III

 

Yo quien eres no sé; mas no procuro,

Tal es mi confianza, averiguarlo;

Para huir el temor, para esquivarlo,

Bástame verte junto á mi en lo oscuro.

 

Tu paso lento y á tu fin seguro

Persigo en el silencio, sin turbarlo,

E inclínome á tu voz, por sondëarlo,

Al borde del abismo del futuro.

 

Por ti me engolfo en la región fecunda

De los nocturnos sueños, tu mirada

Solicitando plácida y profunda;

 

Mirada á mi hondo afan reveladora,

Fúnebre Beatriz de mano helada,

Mas única Beatriz consoladora.

(tradução de Manoel Curros Henriquez)

 

 

Divina Comédia

 

Erguendo os braços para o céu distante

E  apostrofando os deuses invisíveis,

Os homens clamam: “Deuses impassíveis,

A quem serve o destino triunfante,

 

Porque é que nos criastes?! Incessante

Corre o tempo e só gera, inextinguíveis,

Dor, pecado, ilusão, lutas horríveis,

Num turbilhão cruel e delirante…

 

Pois não era melhor na paz clemente

Do nada e do que ainda não existe,

Ter ficado a dormir eternamente?

 

Porque é que para a dor nos evocastes?”

Mas os deuses, com voz inda mais triste,

Dizem: “Homens! porque é que nos criastes?”

 

 

Divine Comédie

 

Levant leurs bras meurtris vers le cieux incléments,

Apostrophant, hagards, tous  les dieux invisibles,

Les hommes disent: “Dieux éternels, impassibles,

Dieux servis par le sort vainqueur, dieux  triomphants,

 

Pourquoi nous avez-vous créés?! Toujours le temps

Marche, aveugle semeur, semant d´inextinguibles

Douleurs, illusions, deuils, pleurs, combats terribles,

En des noirs tourbillions, hurlants et sanglotants!

 

Ne serions-nous bien mieux dans la paix infinite

Du néant, de ce qui n`a pas encor la vie,

Dans um sommeil clément et sans réveil noyés?

 

Pour la douler pourquoi faut-il que l`homme existe?”

Mais les dieux, d`une voix infinitement plus triste,

Disent: “Hommes, pourquoi nous avez-vous crées?”

(tradução de Fernando Leal)

 

 

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