MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/06/2017

OS CINQUENTA ANOS DE ÓPERA DOS MORTOS

 

(Uma versão originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos em 20 de junho de 2017)

Autran Dourado é um dos meus autores do coração, por isso ele aparece tanto nesta coluna. Sua obra-prima, ÓPERA DOS MORTOS (Rocco), completa 50 anos em 2017.

O romance conta a história da principal família de Duas Pontes, no início da República. Rosalina, a última dos Honório Cota, mantém-se trancada no sobrado familiar, recusando-se a qualquer tipo de ligação com a cidade. Após longos anos de isolamento, Rosalina admite como empregado Juca Passarinho, um malandro boa-vida, “apenas porque não é da cidade”. Juca descobrirá o segredo de Rosalina: ela se embebeda todas as noites.

A dona do sobrado Honório Cota acaba enlouquecendo e apavora os habitantes, ao ficar entoando uma cantiga estranha no cemitério. Até que se descobre a identidade do “fantasma” e a cidadezinha tem a oportunidade de entrar novamente no sobrado, que lhe parecia definitivamente vetado: “Agora a gente estava de novo no sobrado, esperando. De uma certa maneira todo mundo ficava de dono da casa… A confusão, a promiscuidade era geral. Já mexiam nos armários, nas panelas, tinha gente que fazia café”.

Essa “profanação”, por assim dizer, do sobrado Honório Cota, mostra como Dourado absorveu bem o clima das tragédias gregas.  O nosso maior romancista soube transportar isso muito bem para um “tamanho mineiro”, para a atmosfera da “vida besta” de uma “cidadezinha qualquer” (essas imagens aparecem num célebre poema do ilustre conterrâneo de Autran, Carlos Drummond de Andrade). Em compensação, até os personagens parecem imbuídos do teor teatral da trama. Ao enfrentar a cidade nos momentos decisivos, Rosalina sempre parece agir como que diante de uma plateia. Aliás, com relação à Rosalina, um dos pontos mais fascinantes de ÓPERA DOS MORTOS é o fato de ela duplicar, em si, o amálgama do sobrado: este era uma construção térrea, feita inicialmente pelo brutal e misterioso fundador da família, Lucas Procópio; o segundo andar foi acrescentado pelo filho, João Capistrano, de personalidade oposta ao pai; e a casa ficou com os dois estilos de personalidade em seu traçado.

Ao se entregar a Juca Passarinho, Rosalina dicotomiza-se como o sobrado: de dia, ela se mantém senhorial e distante, como João Capistrano; à noite, ela perde todas as amarras, como o despótico e desregrado Lucas Procópio. Dessa forma, também a relação entre ela e o agregado assume um caráter “ritual”. E o desenvolvimento da obra de Autran Dourado tornou ainda mais complexa e instigante a história da família mais ilustre de Duas Pontes. Dois outros romances “completaram” (se possível) o quadro: Lucas Procópio (1985) e Um Cavalheiro de Antigamente (1992). O que prova que, como já sabiam os gregos, e volta-se a ver nos cafundós de Minas, o destino sempre acaba se cumprindo, de uma forma ou de outra.

 

06/06/2017

CINQUENTA ANOS DE TUTAMEIA

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 06 de junho de 2017)

Assim como Clarice Lispector, que no ano de sua morte publicou um dos seus mais relevantes romances, João Guimarães Rosa, ao morrer em 1967, deixou uma obra-prima, TUTAMEIA. Colaboravam para a sensação de estranheza despertada por TUTAMEIA: o título peculiar (um vocábulo com o significado de “coisa de pouco valor”), os quatro prefácios com títulos abusadamente esdrúxulos (“Hipotrélico”; Nós, os temulentos, por exemplo); e, sem contar os títulos de várias estórias (“Antiperipléia”; “Droenha”; “Rebimba”, “O Bom”; “Tapiiraiauara”), os textos herméticos e quase impenetráveis.

Hoje percebe-se melhor ter ele tão somente condensado ao extremo as características que se “espalhavam” nos amplos espaços épicos de “Grande Sertão: Veredas & Corpo de Baile”, fazendo de cada texto de TUTAMEIA a coisa mais similar à poesia que já se criou na ficção: impossível mexer numa palavra sequer. Além disso, investindo nas “anedotas” do sertão mineiro, ele tenta atingir uma realidade “mais verdadeira”. Para isso, é importante “contar” mais do que “viver”.

Quanto à acusação de hermetismo, mesmo se levando em conta a linguagem peculiaríssima de Rosa, nada mais delicioso do que as “anedotas” (tenho minhas dúvidas e ressalvas quanto aos prefácios) da coletânea. Nem por isso, nos “desenredos” tramados pelo autor de Sagarana, deixamos de entrever as linhas tortas pelas quais lemos a vida.

Por exemplo, temos o guia de cego que ajuda o patrão a se envolver num caso adúltero e que termina suspeito da morte dele, para a qual, como em “Rashomon”, há várias versões (“Antiperipléia”). Esse guia pode ser o anão que aparece na última estória do livro, “Zingaresca” (sim, as histórias são dispostas em ordem alfabética), aquele que “vigia o que não há”. Como Riobaldo, ele conta sua história para um interlocutor citadino.

Em Lá, nas campinas, Drijimiro não consegue lembrar o local da sua infância, só restou na memória as palavras que dão título à estória, “o que guardado sempre sem saber lhe ocupara o peito, rebentado: luz, o campo, pássaros, a casa entre bastas folhagens, amarelo o quintal da voçoroca, com miriquilhos borbulhando nos barrancos.

Esses são alguns pontos altos do livro. E sempre, em qualquer uma delas, as frases genialmente únicas: “as coisas começam deveras é por detrás, do que há, recurso; quando no remate acontecem, estão já desaparecidas”; “calava-se a ternura, infinito monossílabo”; “memória, que é o que sem arrumo há, das muitas partes da alma”; “a gente tem de existir—por corpo real, continuado—condenado”; “o mundo se repete mal é porque há um imperceptível avanço”; “de onde vem o medo? Ou este terráqueo mundo é de trevas, o que resta do sol tentando iludir-nos do contrário”… E assim, Guimarães Rosa iluminou a nossa literatura como a borboleta que (ele mesmo diz, raiando pela indescrição) “sai do bolso da paisagem”.

16/05/2017

A MORTE DE ANTÔNIO CÂNDIDO

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 16 de maio de 2017)

Admiro muito o crítico americano Harold Bloom, porém, me sinto afastado dele por causa do excessivo peso que ele dá à individualidade estética, como se cada gênio literário fosse um milagre independentemente da época a qual pertence. Com Antônio Cândido aprendi que o contexto (momento histórico, a recepção do público etc) faz parte da obra literária, interiorizando-se até em seus aspectos formais, e que a excelência artística não está solta no espaço como se tudo dependesse apenas do talento.

O nosso maior crítico literário, morto aos 98 anos, em seu monumental “Formação da Literatura Brasileira” (1959), prova cabalmente que a preocupação cada vez mais visível, desde a era colonial, é com a constituição de uma identidade nacional, e isso é a base (e permite compreendê-la) da obra de José de Alencar. Essa visão do fenômeno literário explica a razão de estudarmos livros às vezes muito fracos, mas que têm sua razão de ser na sequência histórica.

Cândido, além de ter renovado a crítica de jornal, foi um magistral ensaísta, em obras como “Literatura e Sociedade”; “Ficção e Confissão”; “A Educação pela Noite”; “O Discurso e a Cidade” (um dos meus livros favoritos). Em “Esquema de Machado de Assis”, em poucas páginas, sucintas e brilhantes, ele elenca todos os motivos e características que merecem a atenção do leitor da ficção machadiana, é uma verdadeira mina de ouro. O fascinante é que, além da qualidade da análise, o estilo (ao contrário de outros grandes críticos brasileiros, notadamente Luiz Costa Lima, uma leitura árdua e espinhosa) é límpido, cristalino.

Antônio Cândido foi um dos homens exemplares do século passado. Era lúcido, generoso, com um engajamento político que, em retrospecto, nos enche de orgulho e tristeza, uma preocupação pedagógica admirável (explicando, por exemplo, num famoso ensaio, o que é um personagem de ficção, ou como fazer a análise de um poema, em “Na Sala de Aula”). Tive a sorte de fazer a pós-graduação com alguns de seus discípulos, como Davi Arrigucci Junior, o falecido prematuramente João Luiz Lafetá.

O único senão (que, inclusive, me afastou da vida acadêmica) ao mestre e seus discípulos é a relutância em abrir o cânone para novos autores, o que eu considerava um conservadorismo deplorável, não sei se as coisas mudaram. Clarice Lispector conseguiu entrar, apesar da má vontade de quase todos eles. Mas eu ouvi, espantado, que Hilda Hilst, Carlos Nejar, Adélia Prado, nunca entrariam no departamento de Teoria Literária da USP, eram leituras adolescentes. Uma pena. Um time tão excepcional e tão restritivo, o que não tira a importância essencial de Antônio Cândido para a história do Brasil.

 

09/05/2017

Belchior, o poeta de uma geração e da eternidade

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Musico Belchior em 1977. FOTO DIVULGAÇÃO.

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 9 de maio de 2017)

Numa entrevista maravilhosa, Pedro Bial perguntou ao ex-presidente do Uruguai, José Mujica, o que era mais importante: O manifesto ou a poesia. Resposta: A poesia, a longo prazo.

Para a minha geração, a qual (e peço desculpas pela imodéstia de querer ser seu porta-voz), cresceu durante a ditadura militar, mas teve a sorte de se formar com um time inigualável de letristas da MPB (por exemplo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Aldir Blanc, Fernando Brant; e, pairando sobre todos, Chico Buarque), o gênio do manifesto lírico foi Belchior. Migrou do Ceará para o Rio de Janeiro, “com lágrimas nos olhos de ver o verde da cana e de ler o Pessoa”, “um rapaz latino americano, sem dinheiro no banco, nem parentes importantes”, viveu a miséria, a exclusão social, junto ao “preto, o pobre, o estudante”, revoltado com o conformismo (“minha dor é perceber que apesar de sermos jovens ainda somos e vivemos como nossos pais”), alertando que “uma mudança em breve vai acontecer, o que era novo, hoje é antigo, e precisamos rejuvenescer”.

A sua alucinação “é viver o dia a dia, o meu delírio é com coisas reais”, “enquanto houver espaço, tempo e algum modo dizer não, eu canto”. Como o leitor pode perceber, fiz uma costura de trechos das canções de Belchior. A tentação é prosseguir, pois há muita coisa linda no seu repertório. Talvez a sua ambição poética seja melhor sintetizada pelos versos finais de “Paralelas”: “teu infinito sou eu, no Corcovado quem abre os braços sou eu, Copacabana esta semana o mar sou eu, como é perversa a juventude do meu coração, que só entende o que é cruel e o que é paixão”.

A partir dos anos 80 Belchior caiu na obscuridade, e recentemente ganhou uma fama folclórica, quase ridícula. Com sua morte, todo mundo se deu conta da sua grandeza. Como afirmou Mujica, a poesia ficou mais evidente com a passagem do tempo, sem perder o seu recorte histórico. Dois exemplos do que o “longo prazo” produziu: “eu não vou querer o amor somente, é tão banal, busco a paixão fundamental, edípica e vulgar, de inventar meu próprio ser”; “Contemplo o rio, que corre parado, e a dançarina de pedra que evolui. Completamente sem metas, sentado, não terei sido, não serei, nem fui”. Mesmo entendendo a mensagem, foi sim, senhor Belchior. Um dos maiores.

31/01/2017

MARIA VALÉRIA REZENDE CONQUISTA O VASTO MUNDO

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de janeiro de 2017)

O lendário prêmio Casa de Las Américas acaba de ser atribuído ao livro OUTROS CANTOS (Alfaguara, 2016) de Maria Valéria Rezende, poucos meses depois de seu romance Quarenta Dias ganha o Jabuti, não apenas como melhor romance de 2015, como também o de livro do ano. Estas premiações prestigiosas tiraram a grande escritora santista (embora radicada na Paraíba), de um limbo em que ela era mais conhecida e premiada por sua obra infanto-juvenil – não que isso fosse demérito (eu, por exemplo, adoro O Arqueólogo do Futuro e O problema do Pato) –, contudo a força do seu universo ficcional está nos romances e contos adultos.

Assim como José Saramago, ela começou a publicar tardiamente, o que se revelou uma dádiva, pois sua obra é uma poética da experiência, marcada pela materialidade do mundo e das relações humanas, desde o seu primeiro livro publicado, Vasto Mundo (Editora Beca, 2001). Ali conhecíamos as histórias do povoado de Farinhada, um ermo sertanejo invadido pelo “vasto mundo” numa incrível sucessão de estórias. Já era maravilhoso nesta primeira versão. Em 2016, ganhou fôlego ainda maior transformado definitivamente em romance.

Mas sua primeira obra no gênero foi o extraordinário O Voo da Guará Vermelha (Objetiva, 2005), o qual contava o amor entre uma prostituta com AIDS e um peão cujas peripécias eram a base de uma relação “pedagógica”. No ano seguinte apareceu Modo de Apanhar Pássaros à Mão, coletânea onde ela (e o leitor também) se comprazia em demonstrar sua versatilidade formidável, na abordagem tanto do meio rural quanto do urbano (com predominância do espaço urbano).

Depois veio interregno de quase uma década, em que ela esteve mais engajada na área infanto-juvenil, a explosão representada por Quarenta Dias, a segunda versão de Vasto Mundo e Outros Cantos. Agora aguardo ansiosamente não só um novo romance, como também a reunião de vários contos maravilhosos, dispersos aqui e ali, numa só coletânea, principalmente “O Muro”, genial texto alegórico, que sintetiza suas escolhas de vida, e muito pertinente num momento histórico nomeado por uma figura grotesca como Donald Trump. O conto narra o descenso social da narradora, que, é uma ascensão na escala solidária e humanitária: “Nem pensei em voltar para a passagem no muro. Deus atirou-me para dentro de seu samburá de estreita boca, já não me debato. Soube logo que subiria, mas não por qual caminho, até que vi, pouco mais adiante, numa parede suja daquele mesmo beco, a marca do menino magro, fresca e brilhante, um fio de vermelho líquido ainda escorrendo. O único sinal que eu, vagamente, podia interpretar, neste mundo estranho onde nunca antes sequer imaginei penetrar. Meti-me pela viela que, alguns metros adiante, ao topar com uma parede de zinco e madeira carcomida, quebrava-se para a esquerda. Ninguém. Tive a impressão de que já não havia mais ninguém nesse labirinto, só eu e o menino pichador, porque pouco antes de que o caminho se bifurcasse, mais acima, vi outra vez a rubra assinatura. Sem outro fio senão aquele para guiar-me, eu o segui. Hesitei na bifurcação, mas ela estava lá outra vez, a marca, dizendo-me que lado escolher, direção que tomei sem mais duvidar, entranhando-me na armadilha das ruelas intrincadas”.

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11/08/2015

Uma personagem inesquecível, um grande romance e um escritor para ser descoberto: Mila, “Os olhos da treva” e Gilvan Lemos (1928-2015)

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«__ Não, não esqueço nada, meu rapaz. Entende o que quero dizer?

__ Acho que sim. E só agora sei: também eu»

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de agosto de 2015)

   «Foi não existe, apenas é. Se foi existisse, não haveria dor ou tristeza». O célebre dito de William Faulkner ajuda a entender a tensão que percorre a narrativa de Os Olhos da Treva. Quarenta anos após a sua publicação original[1], continua sendo um dos mais vigorosos e bem urdidos romances da nossa ficção, e é incompreensível o quase absoluto silêncio em torno de seu autor, o pernambucano Gilvan Lemos (falecido no início do mês, aos 86 anos). Ele mesmo reconhecia não ter “grandes sucessos” em sua carreira, mas que vivia «exclusivamente para ler e escrever. O que eu sempre quis de fato foi ser escritor, escritor e escritor».

    Vou imitar Harold Bloom, crítico que costuma extravasar sua admiração por determinadas personagens, e dizer de saída: que mulher incrível Mila, a protagonista de Os Olhos da Treva, que inteligência afiada, alternando cálculo e desatino passional[2]!  Ela aparece em Santa Cruz (povoado que cresce em função de Paraúna, latifúndio de Leonardo Velho, dono daquele mundo e emprenhador de quase todas as mulheres) nos braços do capataz Jacinto (figura trágica e inesquecível), recém-nascida, única sobrevivente de uma área de isolamento forçado para atingidos pela epidemia de varíola[3]. Por causa das marcas bexiguentas no rosto, ela e sua família de adoção (o pai, descendente de índios) são obrigados a viver num ermo:  «Vê donde venho, donde me origino? Ah! como gosto que tenha sido assim,  Jomo. Isto me deu todo o direito de ser ruim». Mais tarde, trazida para a casa-grande, alça aos poucos o posto de principal amante de Leonardo, ganhando autoridade na região. Mesmo assim, sempre se sentirá estigmatizada, e resumirá sua tragédia pessoal da seguinte forma: «Meu querido Jomo, desencontrei-me dos homens que verdadeiramente amei na vida. Um velho demais para mim; o outro, jovem demais».

    Mesmo se dando a outros homens (manipuladora consumada), Mila é louca por Leonardo, do qual décadas a separam (o relato da sedução do fazendeiro é antológico, e o carinho e intimidade para além do sexo entre uma mulher mais jovem e um idoso também aparecem no belo texto que dá título à coletânea A Era dos Besouros, de 2006)[4], e quer ter um filho dele, antes que mergulhe na senilidade. Descobrindo-se estéril, concebe o plano de fazê-lo engravidar uma retirante, apossando-se da criança, Jomo.  A desgraça é que ele se vai se tornar a paixão obsessiva da sua existência: «Amei-o deveras como um filho, Jomo. Durante certo tempo, sim. Depois, Leonardo se acabando, revivendo em você. Com que firmeza, com que afirmação isso se verificava! Não tanto no físico, mas no temperamento, no modo de falar, nos silêncios, no jeito de agradar a todo mundo. Porque você, Jomo, é como Leonardo: as coisas boas ou más vêm para você sem que você faça nenhum esforço para ganhá-las ou evitá-las».

   Jomo é, de certa forma, um herói passivo[5]. O eixo do romance é a sua volta, após vários anos como foragido (por causa do assassinato da amante, esposa de um dos herdeiros de Leonardo—ele era motorista da família), sobrevivendo em subempregos em Recife, participando de incidentes sórdidos e patéticos, para enfim confrontar sua “protetora”, Mila, a qual, já entrada em anos, vive sozinha, tendo perdido a visão. Ela é um dos quatro de quem Jomo suspeita como verdadeiro autor do crime.

   Numa longa jornada noite adentro, realmente é com um olhar de trevas (oriundas da cegueira, da casa sem luz elétrica[6], dos tormentos da alma e das culpas) que ambos constatarão as dores e tristezas do passado, do foi sobre o é, o elo que os liga e separa. E o leitor terá o prazer de um romance de mistério (quem matou?) aliado à densidade da mais alta ficção, aquela que desdobra perspectivas e versões (usando muito o discurso indireto livre, no qual o narrador se cola à visão dos personagens, e parênteses em que eles comentam, retificam, debatem, acrescentam,  enfatizam, exageram, deformam—VER TRECHO SELECIONADO) ao longo de um colóquio entre personagens, a um só tempo equívoco e esclarecedor [7]. É a linhagem de um Absalão, Absalão!, de Faulkner, ou de um Conversa no Catedral, de Vargas Llosa, junto dos quais Os Olhos da Treva certamente não faz feio. Só falta o leitor descobri-lo.

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TRECHO SELECIONADO

«__Lá vem você, Jõberto! Não pode deixar a vida daquele homem em paz? Que importa o passado? Ele está velho, no fim da vida…

__ No fim da vida? Aquele vai passar dos cem. Ainda tem ruindade pra muito tempo.

__ Só você é quem conhece essas ruindades. Nunca ouvi ninguém mais falar mal de Leonardo Velho.

­­__ É minha mentira, então? Olha, Morena, falo mal dele porque eu é que fui o prejudicado. Eu e meu pai, nós. O Velho sempre foi um homem dissimulado, estradeiro.  Suas andanças com Jacinto pelo mato, sua amizade com meu avô… Já estava tudo de caso pensado. Leonardo começou a ficar rico na seca de 77, e só prosperou de tudo depois que meu avô morreu. Na seca de 77 só havia água na Fazenda Pará. Leonardo aproveitou-se disso, explorou os necessitados ao máximo. De cinco reses que bebiam lá, uma ficava como pagamento.

__ Era um direito que lhe assistia. Quem teve a ideia de construir o açude?

__ Não me fale nisso por Nossa Senhora! Construiu o açude com dinheiro do governo, e a nascente da água com a qual encheu o açude não ficava em terras da Pará. Conhecedor como era de toda a região, para isso tinha furado mundo, fingindo que caçava. Leonardo, depois de ter comprado a conivência do tabelião, falsificou a escritura da Pará e a da fazenda vizinha, pertencente ao meu avô. Nessa manobra a nascente do rio ficou situada na Fazenda Pará.

­­__ Tinha alcance.

__ Com essa honestidade toda… Também pouco adiantava que a nascente estivesse na fazenda do meu avô ou na Pará; quando morreu, meu avô deixou suas terras, de mão beijada, para Leonardo I, o Procriador […]

__ Ouvi dizer que eram muito amigos.

__ Eram! Falavam até dos dois. Não sei se meu avô era fresco ou se Leonardo era gilete, não sei. Mas o certo é que Leonardo, não sei como mas ele sabe, pois tinha prática nesses assuntos, falsificou o testamento do meu avô. Quando meu avô morreu, leu-se o testamento e todo mundo ficou de boca aberta: Leonardo I, o Herdador, era herdeiro universal de Jerônimo, o Besta… »

RESENHA

NOTAS

[1] Pela Civilização Brasileira. A edição mais recente foi pela CEPE (2012). Li-o pela primeira vez numa edição do Círculo do Livro (1983).

[2] Há outras figuras femininas marcantes (e com dizeres marcantes) nas ramificações da trama, como Alzira, dona de uma modesta hospedaria: «A gente vive mesmo é esperando o que é da gente. Às vezes nem sabe que está esperando, chega a passar pela vida sem que o que é da gente apareça. E nem sabe, nem nota. Só quando aparece é que sabe…».

[3] Uma estória dentro da estória digna de nota é a tragédia do casal Salvino e Ana. Ele, mesmo são, é mandado para o isolamento devido à obsessão sexual da cunhada, Minerva (já contaminada pela varíola). Parece episódio do Velho Testamento, Minerva  jurando em falso ter deitado com ele.

[4] «Eu, de minha parte, tirava-o por completo. Tirava-o de seu corpo decrépito, de sua marca de homem, de seu passado de macho».

[5] E bem faulkneriano: «Sou um homem preso ao passado, Mila»; numa passagem anterior: «Mesmo agora, se ela calasse, ele não dormiria. Dormir? Nunca mais. Dormir significava apagar tudo da memória, limpar a mente com uma esponja umedecida, recomeçar do começo, do nada. E ele podia?».

Não sei se Gilvan Lemos foi leitor de Nikos Kazantzákis, todavia há também um quê de kazantzakiano na atmosfera do livro, nas especulações de Mila sobre Deus, o Inimigo Secreto, além do campo simbólico envolvido por luz e trevas: «…o mal existe, inegavelmente o mal existe. Foi Deus quem o inventou?»

[6] «Ali, naquela casa tão pequena, em companhia apenas de uma pessoa, e um mundo tão grande       se reabrindo…».

[7] Sem falar da força da linguagem. Veja-se esta descrição de anatomia masculina, tão expressiva: «Suas nádegas se destacavam, bipartidas, altas e claras, como um pássaro que ensaiasse as asas para voar».

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04/08/2015

O idílio entre a ficção e história: “Ragtime” e a obra de E.L. Doctorow

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« Três coisas. A primeira, ler. Não precisa ser muito, umas sessenta páginas por dia já resolvem; a segunda, escrever sobre as próprias obsessões porque delas nunca se escapa; e, terceira: nunca, mas nunca mesmo, fale a respeito do que está escrevendo—além de ser uma chatice, falar, fazer pesquisa, pensar a respeito, não é escrever. Escrever é escrever…» (E.L. Doctorow)

[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de agosto de 2015]

« Os dois amigos saíam todas as manhãs para os trechos desertos da praia, onde as dunas e o capim bloqueavam o hotel. Cavavam túneis e canais para a água do mar, muralhas, bastiões e moradias com degraus. Construíam cidades, rios e canais […] À tarde brincavam à vista dos guarda-sóis de praia, recolhiam gravetos e conchinhas, caminhando devagar com o bebê negro espalhando água atrás deles, na orla das ondas»[1].

A passagem acima, de Ragtime (1975), reúne a ambígua inocência possível do cadinho étnico levantado pelo recém-falecido E.L. Doctorow em seu livro mais famoso: temos um bebê negro, uma menina judia e um rapazote anglo-saxão (os “dois amigos”).

Para se chegar a essa cena idílica (e tão precária), os rumos de três famílias cavaram túneis em meio ao racismo desenfreado, à violência policial à miséria dos imigrantes, à exploração do trabalho, aos avanços tecnológicos do início do século passado (Henry Ford, personagem da narrativa, cria a linha de montagem), ao capitalismo financeiro que sobrepujará a chamada modernidade “pesada” representada pela indústria e pelo estado-nação, tornando-a “líquida”, até mesmo volátil (o americano mais poderoso, J.P. Morgan «atravessava todas as fronteiras e estava à vontade em qualquer parte do mundo,  um monarca do invisível, transnacional reino do capital, dominando recursos que tornavam insignificantes fortunas reais»), à sociedade do espetáculo.

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O bebê negro é enterrado vivo no quintal da casa dos brancos, uma família conhecida por designações genéricas (Papai, Mamãe, Vovô, Irmão Mais Novo de Mamãe, Menino), e salvo por Mamãe[2], que acolherá também Sarah, que tentou matar o próprio filho. O pai aparece: Coalhouse Walker Jr., tocador de ragtime e proprietário de um carro, despertando a truculência invejosa de um grupo de bombeiros voluntários (de origem irlandesa). Vandalizado seu veículo, Coalhouse precipitará seu destino e o de Sarah na tragédia, ao tentar uma reparação, primeiro judicialmente; depois, através do terrorismo (é bom lembrar que a prosperidade de Papai vem da fabricação de artefatos patrióticos, incluindo fogos de artifício).

Nesse ínterim, o pai da menina, Tateh (judeu socialista, contudo arraigado a um férreo chauvinismo machista), após renegar a esposa (que, para ajudar o difícil sustento da família, se entregou a um cliente) e as tentações oferecidas por Evelyn Nesbit, causadora do crime mais escandaloso dessa época pré-1914[3] (seu marido assassina o renomado arquiteto Stanford White por ciúme), atravessa os EUA tentando proteger, em vão, a filha da corrupção do Novo Mundo, e nesse périplo metamorfoseia-se em empreendedor bem-sucedido na nascente indústria cinematográfica.

Doctorow já escrevera belos romances antes (O Livro de Daniel, 1971[4]) e ainda produziria outros depois dessa obra-prima, caso de A Grande Feira (World´s Fair, 1985), A Marcha (2005) e seu outro livro muito querido e premiado, Billy Bathgate (1989)[5]. Em todos, demonstrou ser um poeta-arqueólogo das mentalidades de períodos históricos bem recortados, embaçando as fronteiras entre o visionarismo literário e a exatidão factual com um virtuosismo que faz dele um dos maiores prosadores pós-Segunda Guerra.

No entanto, é preciso admitir que alguma bruxaria genial em ação, em meados dos anos 1970, para que ele encontrasse a fórmula mágica que dá tanta vida a Ragtime: a interpenetração da densidade e mistério de vidas anônimas a um mundo de manchetes e noticiários sobre celebridades (Houdini, o mágico[6], Freud e Jung, a anarquista Emma Goldman, a própria Evelyn Nesbit, primeira “deusa do sexo” da indústria cultural, cujo rastro foi seguido por Rita Hayworth, Marilyn Monroe, entre tantas outras), o panorâmico e o minimalista encontrando-se em estado de idílio ficcional, tanto quanto as crianças do trecho de abertura (e, nesse sentido, nada precário: quarenta anos depois, ainda é um feito. E inimitável.

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NOTAS

[1] Em todas as citações de Ragtime utilizo a tradução de Áurea Weissenberg, editada pela Record, pela Abril Cultural, pelo Círculo do Livro e, mais recentemente, pela Bestbolso.

[2] Na soporífera versão cinematográfica de Milos Forman (a qual, pelo menos, utiliza a esplêndida música evocada pelo livro), muito frustrante, Mamãe e Papai roubam a cena, a meu ver, em maravilhosas interpretações de Mary Steenburgen e James Olson, embora os maiores elogios tenham sido para Mandy  Patinkin (Tateh).

[3] O que sempre me fez pensar no romance de Doctorow como o equivalente americano de A montanha mágica, de Thomas Mann.

[4] Mas sua estreia, Welcome to Hard Times(1960), traduzido—também por Áurea Weissenberg—como Tempos Difíceis, é digna de nota. Aliás, ganhou uma competente versão cinematográfica, estrelada pelo grande Henry Fonda e dirigida por Burt Kennedy, em 1967 (no Brasil, O homem com a morte nos olhos). Diga-se de passagem, Sidney Lumet realizou uma brilhante versão do Livro de Daniel em 1983, com atuações fantásticas, especialmente a de Lindsay Crouse.

[5] E tão mal filmado (em 1991, por Robert Benton, que desperdiçou um maravilhoso roteiro) quanto Ragtime.

Sou obrigado a confessar que, embora goste do romance, achei exagerados os arrulhos em torno dele. Mesmo assim, sempre há o que gostar nos textos de Doctorow, até em suas realizações menos felizes, caso de Loon Lake- O lago da solidão (1980) e City of God- Deus: um fracasso amoroso (2000) —a respeito deste último, VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2013/03/25/a-cidade-de-deus-de-doctorow-um-fracasso-amoroso-de-leitura/

[6] O qual se angustia pela apropriação midiática do conceito de espetáculo (a vida como reality show) e consequente apagamento do triunfo artístico:

«Havia um espetáculo que utilizava o mundo real como palco e a este ele não conseguia alcançar. Apesar de todas as suas realizações, era um vigarista, um ilusionista, um simples mágico. Que sentido teria a sua vida se as pessoas ao saírem do teatro o esquecessem? As manchetes dos jornais diziam que Peary chegara ao Polo. Eram os feitos da vida real que ingressavam nos livros de História… »

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RAGTIME

09/06/2015

O planeta do Sr. Bellow- A escritura da meditação e da imaginação moral

Paris september 20. File photo: American writer Saul Bellow (1915-2005) Photo by Ulf Andersen / Getty Images

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Photo by Ulf Andersen / Getty Images

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«Mas não se atreva nunca a contradizer a sua época, não vá contradizê-la, só isso. A não ser que você seja do tipo Sammler, sentindo que o lugar de honra está do lado de fora…»

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de junho de 2015)

Ao contrário da época de sua morte (em abril de 2005), quando havia um vazio editorial em torno de uma das mais importantes obras literárias contemporâneas (agraciada com o Nobel em 1976)[1], no centenário de nascimento de Saul Bellow (10 de junho), o leitor brasileiro encontrará facilmente títulos célebres como Henderson-O Rei da Chuva, Herzog, O Legado de Humboldt e As Aventuras de Augie March. Este último, seu terceiro romance, lançado em 1953, demorou para ser traduzido, mas foi o livro que o consagrou. Imenso, prolixo, tentacular, um pouco cansativo em alguns momentos, representou, contudo, um feito de imaginação e estilo, dentro daquela ambição arquetípica dos jovens escritores dos EUA de produzir “o grande romance americano”. Aliás, a geração a que o criador de Augie March pertence (que se consolidou nos anos seguintes ao final da Segunda Guerra) revelou-se pródiga em candidatos a essa realização: Norman Mailer, Truman Capote, J.D. Salinger, William Styron, Flannery O´Connor, Mary McCarthy, Gore Vidal, entre outros.

As peripécias do jovem judeu egresso dos bairros pobres de Chicago («Sou americano, nascido em Chicago, aquela cidade sombria, e faço as coisas do jeito que aprendi a fazer, estilo livre», declara de saída Augie, narrador das próprias desventuras[2]) destoam da atmosfera pesada e viscosa dos primeiros livros de Bellow (bem mais curtos), Por um fio(1944)[3], A Vítima (1947) e mesmo do posterior Agarre a vida (1956)[4], que podem ser tomados como uma trilogia sufocante sobre a obsessão em fugir ao fracasso, representado pela corda bamba financeira (seus protagonistas em geral não são exatamente hábeis em gerir ou manter seu dinheiro, e quase todos acabam enredados em situações sórdidas e desmoralizantes).

Em 1959, Henderson-O Rei da Chuva inaugurou uma fase fantástica, que se estendeu até Dezembro Fatal(1982)[5], no meio da qual encontramos suas obras-primas, caso do cultuado Herzog (1964); de O Planeta do Sr. Sammler (1970, a mais sentida ausência em termos de edição brasileira neste centenário: trata-se de uma poderosa meditação ficcional sobre a morte, o destino da civilização, a estatura contemporânea da ideia de ser humano—como se vê, Bellow não se intimidava diante dos assuntos grandiosos—a partir de um sobrevivente: o Sr. Sammler, vivendo numa Nova York babélica, havia sido fuzilado por soldados nazistas, junto a um grupo enorme de judeus, mas conseguira escapar abrindo caminho pela pilha de mortos (entre os quais, sua esposa); e de O Legado de Humboldt (1975). Em todos eles, intelectuais, muitas vezes autocomplacentes, semeiam (ou se envolvem em) confusões, e discute-se a natureza dos afetos, da amizade (um tema muito importante para Bellow), da lealdade, sempre com digressões brilhantes (e integradas ao movimento da narrativa), envolvendo balanços civilizatórios e inquietações sobre a condição humana: «Há no Livro de Jó aquela famosa queixa de que Deus exige demais. Jó protesta que está se sentindo atormentado de maneira insuportável […] Fora uma exigência grande demais para a consciência e a capacidade humanas, ultrapassando suas possibilidades de resistência. Não estou falando apenas das exigências morais, mas também da imaginação necessária para produzir uma figura humana de estatura adequada. Qual a verdadeira estatura de um ser humano?»[6].

Mesmo nos seus livros mais tardios, menos ambiciosos (onde ele parece ter retornado à forma mais curta dos iniciais), como Presença de Mulher(1997)[7], ou ainda nos contos (Trocando os pés pelas mãos, 1984)[8] seus anti-heróis introvertidos e voltados para si mesmo continuaram a se defrontar com pessoas extrovertidas, aparentemente ajustadas ao mundo ao redor (ao mesmo tempo, vivendo ilusões e autoengano), encarnações definitivas do modo junguiano de caracterizar os Tipos Psicológicos: «…o que tende para fora tem de viver o seu mito, o que tende para dentro sonhará seu meio ambiente, a chamada vida real». Saul Bellow sonhou a chamada vida real como poucos, desvelando seus mitos com argúcia, fôlego e uma extensa galeria de personagens inesquecíveis.

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TRECHOS SELECIONADOS DE O PLANETA DO SR. SAMMLER

«O Sr. Sammler tinha alguma experiência desses momentos de inaproveitável claridade…»

«Depois da guerra, Sammler mandara dinheiro, pacotes com víveres para Cieslakiewicz, Houve correspondência com a família […] após alguns anos, as cartas começaram a exprimir sentimentos antissemíticos. Nada de muito exagerado. Não fora uma grande surpresa, nem mesmo era inesperado. Cieslakiewicz tivera seu momento de honra e de caridade. Arriscara a vida para salvar Sammler. O velho polonês também fora um herói, mas o seu heroísmo acabara, terminara. Afinal, era um ser humano comum e desejava tornar-se novamente o que sempre fora. Fizera já o suficiente. Não tinha ele, então, o direito de ser outra vez ele próprio? De retornar a seus antigos preconceitos?…»

«O Sr. Sammler possuía um caráter simbólico… Mas de que é que era símbolo? Nem mesmo ele próprio saberia dizê-lo. Será que era porque sobrevivera? Mas se nem isso fizera, já que tanto da sua pessoa anterior desaparecera. Não se tratava de sobrevivência, apenas de duração…»

«O que é que havia para recuperar? Tinha pouca saudade das primitivas formas do que ele fora. Inamistoso[…] No ambiente humano, como todos os outros, dentro das particularidades da vida comum, ele era humano—e, aos poucos, voltava ao normal das criaturas, com as suas baixezas e o seu encanto animalesco. Assim, agora, realmente, Sammler já não mais sabia como enfrentar-se a si próprio. Desejava, com Deus, ficar livre dos liames do comum e do finito, tal e qual uma alma liberada da natureza das impressões e da vida diária. Para que isso pudesse acontecer, o próprio Deus estaria à espera, sem dúvida. E um homem que fora morto, e até enterrado, não deveria ter outros interesses. Deveria estar completamente desinteressado. Eckhart dizia que Deus amava a pureza e a unidade desinteressadas[…] E o que além do espírito havia de causar cuidados a um homem egresso do túmulo? Porém, misteriosamente acontecia, conforme Sammler pudera observar, encontrar-se novamente atraído, poderosamente atraído e devolvido à condição puramente humana. Assim sendo, aquelas manchas que se encontravam no interior da substância de cada um sempre pontilhariam de reflexos tudo o que o homem procura e tudo o que o circunda. E assim, a sombra dos seus nervos sempre projetaria listras, como as árvores por cima do capim, ou como a água na areia, uma rede feita de raios deluz. Era como um segundo encontro do espírito desinteressado com necessidades biológicas causadas pelo destino, uma luta permanente com a criatura persistente…»

«É isso o que acontece quando o indivíduo começa a voltar da área desinteressada para a condição de mera criatura. Parcelas ou aspectos de seu próprio ser anterior tendem a reviver. O caráter anterior reafirma-se novamente e mesmo, às vezes, de maneira bem desagradável, fraca e desgraciosa…»

«Dinheiro, jactância—fraquezas judaicas. Seriam também americanas? Sammler encontrava-se em dúvida, deficiente nas suas informações a respeito de americanismo contemporâneo…»

«Era europeu e o que aqui havia eram, afinal, meros fenômenos americanos…»

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NOTAS

[1] VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/07/08/um-artesao-genial-das-palavras-e-a-respeitabilidade-mental-saul-bellow-1915-2005/

[2]  Utilizo a tradução de Sonia Moreira (Companhia das Letras, 2009) de The adventures of Augie March.

[3] No original, Dangling man.

[4] Esse é o título da tradução de Donaldson M. Garschagen (Rocco, 1986) para Seize the day. Há uma versão anterior, feita por Ana Maria M. Machado (Edições Bloch,  1967), com o título Aqui e agora.

[5] No original, The dean´s december.

[6] Trecho da tradução de Denise Vreuls (utilizo a edição da Abril Cultural, 1982) para Mr. Sammler´s planet. Em 1982, tive esse primeiro contato com a obra de Bellow, que se aprofundou nos anos imediatamente seguintes e até hoje, 33 anos depois, considero-o um escritor admirável, um dos mestres da imaginação moral na prosa de ficção.

[7] No original, The actual. A respeito, ver aqui: https://armonte.wordpress.com/2013/07/08/o-introvertido-junguiano-na-otica-de-saul-bellow/. Depois de Dezembro fatal, Bellow só publicou mais um romance de fôlego, o melancólico More Die of Heartbreak (1987), traduzido como A mágoa mata mais. Os posteriores, Um furto e A conexão Bellarosa, “novellas”, foram publicados no mesmo ano, 1989.

[8] Ver aqui: https://armonte.wordpress.com/2013/07/08/um-forte-candidato-a-maior-autor-dos-eua-saul-bellow/

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25/05/2015

O ruim do mundo e o melhor da ficção: os 50 anos de “A coleira do cão” nos 90 anos de Rubem Fonseca

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«João continuou: Já viu coisa igual? Não acha que ele pode ser o campeão?. Eu disse: Talvez, ele tem quase tudo, só falta um pouco de força e de massa. O crioulo, que estava ouvindo, perguntou: Massa? Eu disse: Aumentar um pouco o braço, a perna, o ombro, o peito, o resto está — ia dizer ótimo mas disse: bom. O crioulo: E força? Eu: Força é força, um negócio que tem dentro da gente. Ele: Como é que você sabe que eu não tenho? »

(trecho de A força humana)

[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de maio de 2015]

1

Dois dos nossos escritores mais cultuados, ambos mestres na arte do conto, comemoram 90 anos em 2015: Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, este último agora em maio—e um de seus títulos fundamentais, A Coleira do Cão (1965), tornando-se cinquentenário, ganhou nova edição pela Nova Fronteira[1].

Nele estão reunidos oito contos que ajudam a compreender por que Fonseca influenciou de forma decisiva, para o bem e para o mal, a ficção nas últimas décadas, sendo imitado à exaustão, inclusive nos seus maneirismos (a pseudo-erudição que infesta seus romances, muito ruins, na minha opinião) e na sua inclinação ao gênero policial. Eles valem tanto como registro histórico de um momento em que a balança da realidade nacional pendeu definitivamente para o urbano na imaginação literária («Ah, estava explicado, pensei, o Rio estava ficando diferente»), quanto como demonstrações cabais do que não mudou e resiste até hoje de forma lamentável: o classismo, o machismo, o racismo, a exploração, a corrupção, a desmoralização da sociedade civil[2]—espantoso é que, passado o regime militar, tudo isso persista—, mesmo que o “vocabulário” seja vigiado pelo “politicamente correto” (não é mais tão  “natural” e  “inofensivo” usar o termo “crioulo”, como fazem os personagens do livro). Até a atualíssima questão da diversidade sexual aparece, embora no texto mais frágil do conjunto, A opção.

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2

Já o texto de abertura, A força humana, é um dos maiores momentos da nossa literatura. O narrador é um personagem recorrente nos primeiros livros fonsequeanos, o fisiculturista-galã, no fundo intrinsicamente solitário, prisioneiro da incomunicabilidade—o que repercutirá, aliás, em todos os relatos de A Coleira do Cão[3]. Ao levar para a sua academia, devido ao potencial do seu corpo («Eu ainda não tinha visto o crioulo sem roupa, mas fazia fé—a postura dele só seria possível com uma musculatura firme»), um jovem que conhecera por acaso, acaba (como Bette Davis, em A Malvada) arranjando um sinuoso rival e sendo desbancado[4].

A voz narrativa é um feito, um daqueles exercícios de linguagem inconfundíveis, mais fascinante ainda porque multiplicado em outras “vozes” notáveis ao longo da coletânea, como a do rapaz que tenta aproveitar um fim-de-semana sozinho em seu apartamento (os pais viajam) para arranjar uma mulher, no excepcional Madona, e que ao cabo de um irrisório périplo de  atividades praieiras, barzinhos, festinhas e paqueras, tem de se contentar com uma “rapidinha” furtiva com uma das empregadas domésticas de seu edifício:  «… um dia que se acabou é um dia que se acabou, não volta mais, está perdido, sumido, é um bem que se foi, um pedaço perdido do tesouro, do tesouro de poucas riquezas…».

Também antológicos: Relatório de Carlos, no qual acompanhamos o declínio de um advogado cujo maior prazer era “reeducar” as amantes; e o conto-título, que coloca em foco não apenas o cotidiano de uma delegacia como um dos nossos maiores impasses civilizatórios, ainda agora: a violência policial.

E o que dizer do recatado romance que se estabelece via telefone entre uma dona de casa e um inválido (O gravador), ou do vigoroso retrato dos conflitos de uma família de raízes portuguesas, aquelas que associamos às padarias e a uma parte essencial do pequeno comércio no Brasil, e também a muitos dos nossos “valores” dominantes (O grande e o pequeno)?

E, apesar de antecipar a futura afetação do Rubem Fonseca “maduro” (e que tanto corroeu a qualidade da sua obra a partir dos anos 1980, com algumas exceções como O buraco na parede, sensacional coletânea de 1995) Os graus traça um impressionante perfil do desalento de um amante envelhecido. Pois como pressente o ainda muito jovem Sérgio, de Madona: « … o ruim do mundo eu ainda não tinha visto, mas faltava pouco, muito pouco para que isto acontecesse».

[a resenha acima apareceu no Letras in.verso e re.verso, em 20 de maio de 2015, VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/05/rubem-fonseca-90-anos-o-relancamento-de.html]

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NOTAS

[1] Na Coleção Saraiva de Bolso.

[2] Até as reclamações das “pessoas de bem” (as quais, via de regra, são as mais discriminatórias), capitaneadas pela mídia dominante, continuam as mesmas: «A cidade está entregue à sanha dos marginais. A polícia nada faz. Os habitantes desta cidade já não podem mais sair à rua sob pena de serem assaltados e perderem os seus bens ou terem a própria vida estupidamente sacrificada...», lemos numa matéria de jornal do conto A coleira do cão.

[3] «.Não quero saber coisa alguma da vida de ninguém, prostituta, mulher de família, presidente da República, artista de cinema, a vida dos outros não me importa, o que importa é a minha vida. A minha vida.», lemos em Relatório de Carlos.

[4] «… e João olhou para mim com cara de amigos-amigos-negócios à parte, com cara de contar dinheiro—já se respaldava no crioulo…»

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12/05/2015

Como nascem os monstros: o centenário da publicação de “A Metamorfose”

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de maio de 2015)

«Seja como for, éramos tão diferentes e nessa diferença tão perigosos um para o outro, que se alguém por acaso quisesse calcular por antecipação como eu, o filho que se desenvolvia devagar, e tu, o homem feito, se comportariam um em relação ao outro, poderia supor que tu simplesmente me esmagarias sob os pés, a ponto de não sobrar nada de mim… » (da Carta ao Pai)

Texto mais famoso de Franz Kafka(1883-1924), obra paradigmática do século passado, A Metamorfose  (“DIE VERWANDLUNG”) completa agora em 2015 o centenário de sua publicação original. Entre as diversas traduções, recomendo a de Marcelo Backes, publicada pela L&PM (na série Clássicos, um formato diferente da Pocket[1]), pois dessa edição consta também o conto, bem mais curto, Das Urteil-O Veredicto (isto é, a condenação à morte de um filho pelo próprio pai), o qual ajuda a esclarecer os motivos pelos quais «Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso».

Ambos pertencem (assim como o inacabado O Desaparecido) à fase “filhos” na obra kafkiana, aliás, uma explosão criativa por volta de 1912: em todas essas parábolas, filhos são banidos pelos pais. A diferença é que, enquanto os outros dois permanecem no âmbito da casa paterna, a história de Klaus Rossmann (em O Desaparecido), enviado à América totalmente recriada pela imaginação (uma Amérika, como o romance era conhecido) após ter sido seduzido pela criada, já aciona o mecanismo de “soltar no mundo” o filho pródigo, cuja maior realização ocorrerá em O Castelo.

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O «inseto monstruoso» é um caixeiro-viajante, arrimo financeiro dos pais[2]. Numa espécie de vingança masoquista, o genial escritor checo, ao reduzir seu protagonista a um estado inválido, incapaz para o trabalho, sobretudo vergonhoso, estaria dando vazão a um ressentimento pessoal que faz dos familiares de Gregor os verdadeiros monstros da narrativa—mesmo a irmã, Grete, bondosa e compassiva com ele a princípio, metamorfoseia-se numa tirana, quase uma megera.

O nó do problema é o pai (não esqueçamos aquele famoso e patético documento biográfico, a Carta para Hermann Kafka, escrita em 1919[3]). Não por acaso, os capítulos de A Metamorfose encaminham-se para confrontos onde o senhor Samsa praticamente esmaga o filho. Inicialmente, com uma bengalada, relegando-o à condição de prisioneiro no quarto; meses mais tarde, ao acertá-lo com uma maçã que apodrecerá no seu corpo, apressará seu fim.

Esse pai parece revitalizar-se com a desgraça do filho, revirilizar-se, ressentindo-se com a atenção dispensada a Gregor na sua “condição monstruosa”, a qual nada mais é do que a incapacidade de garantir o sustento da família, ou seja, de manter-se no mercado de trabalho, essa expressão odiosa que parece ter se metamorfoseado no nosso único horizonte. Pois o relato também pode ser lido através da ótica do esvaziamento das relações, isto é, a alienação progressiva da própria ideia do “humano”.  É por isso que nunca se limitará a ser apenas mera vingança de um filho oprimido e recalcado, para ganhar a dimensão de uma das definitivas alegorias do capitalismo.

O que, porém, só uma leitura, um contato efetivo, transcendendo a miríade de chaves biográficas e interpretativas que se pode ter do texto, mesmo quem não o tenha lido, pode mostrar de fato o impacto que é acompanhar o metamorfoseado rumo à sua morte decretada pela família e pela esfera de produção, em cenas que conseguem o milagre de ser engraçadas (quem pode esquecer a fuga do chefe de Samsa após sua aparição? Ou o espanto dos inquilinos? Ou a empregada jocosa?) e macabras, a um só tempo.

E, pouco antes da terrível sentença familiar contra ele, o inútil, desvalido num mundo em que todos precisam mostrar-se produtivos e capazes, o texto atinge o ápice da beleza quando Gregor rasteja, inconsciente dos danos iminentes (ele que se transformara num monstro rancoroso, rabugento e faminto), rumo à irmã, que toca violino: «…rastejou um pouco mais… a fim de que os seus olhares se encontrassem. Será que ele não passava de um animal, embora a música o emocionasse tanto? Parecia que ela lhe abria um caminho rumo a um alimento desconhecido pelo qual ele tanto ansiava».

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TRECHO SELECIONADO

«Depois de ter refletido acerca de tudo isso às pressas, sem conseguir se decidir a deixar sua cama – o despertador acabara de anunciar quinze para as sete –, bateram com cautela à porta, na cabeceira de sua cama.

     – Gregor – alguém chamou; era sua mãe –, já são quinze para as sete. Não querias ter partido a essa hora? – A voz suave! Gregor assustou-se quando ouviu sua voz respondendo; e era inconfundivelmente a mesma voz de antes, mas a ela misturava-se, como se vindo de baixo, um ciciar doloroso, impossível de evitar, que só no primeiro momento mantinha a clareza anterior das palavras, para destruir seu som de tal forma quando acabavam por sair, a ponto de fazer com que não se soubesse ao certo se havia ouvido direito. Gregor quis responder em detalhes e esclarecer tudo, mas limitou-se, dadas as condições, a dizer:

    – Sim, sim, obrigado mãe, já vou me levantar.

      Por causa da porta de madeira, a mudança na voz de Gregor por certo não foi percebida lá fora, pois sua mãe tranquilizou-se com a explicação e se afastou, arrastando as chinelas. Devido à troca de palavras, contudo, os outros membros da família ficaram cientes de que Gregor, ao contrário do que esperavam, estava em casa, e o pai já batia numa das portas laterais, fraco, mas com o punho:

     – Gregor, Gregor – ele chamou –, o que está acontecendo? –

      Depois de alguns instantes advertiu mais uma vez em voz mais grave:

     – Gregor! Gregor! Na outra porta lateral, entretanto, a irmã lamentava em voz baixa:

    – Gregor? Não estás bem? Precisas de algo? Gregor respondeu em ambas as direções:

      – Já estou pronto – e esforçou-se para, tomando o maior cuidado na pronúncia e fazendo longas pausas entre as palavras, evitar que sua voz chamasse a atenção.

O pai, em todo caso, voltou ao café da manhã, mas a irmã sussurrou:

      – Gregor, abra a porta, eu te imploro. »

VER:

https://armonte.wordpress.com/2010/04/07/a-morte-do-caixeiro-viajante/

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NOTAS

[1] Mas há também uma edição nesse formato.

[2] «Se eu não me contivesse por causa de meus pais, já teria pedido as contas há tempo; teria me apresentado ao chefe e lhe exposto direitinho o que penso, do fundo do meu coração. Ele teria de cair da escrivaninha! É um jeito bem peculiar o dele, de sentar-se sobre a escrivaninha e falar do alto a baixo com seu empregado, que além do mais tem de se aproximar bastante por causa das dificuldades auditivas do chefe. Bem, a esperança ainda não está de todo perdida; quando eu tiver juntado o dinheiro a fim de quitar a dívida de meus pais com ele – acho que isso demorará ainda uns cinco ou seis anos –, eu encaminho a coisa sem falta. Aí então terá sido feito o grande corte.»

[3]   “Brief an den Vater”, também traduzido por Backes para a L&PM.

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