MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/05/2010

Doctorow, Rushdie, DeLillo e a virada do milênio

Primeira parte

    Nos anos 80, um recorde de estupidez foi alcançado quando a Rocco transformou Roger´s version, de John Updike, em Pai-Nosso Computador. A Record, talvez inspirada por seu nome, tentou quebrá-lo recentemente com o título brasileiro de City of God, de E.L. Doctorow: Deus—Um fracasso amoroso!!??

      Doctorow escreveu um dos melhores romances norte-americanos, O livro de Daniel (1971). Chegou perto com A Grande Feira e a novela Vida dos poetas, e ainda tem outros belos livros, como os muito famosos Ragtime e Billy Bathgate, além de Tempos Difíceis (na verdade, Benvindo a Tempos Difíceis, pois Hard Times é o nome de um lugarejo) e The Waterworks- A mecânica das águas.

      Estabelecida, portanto, a minha admiração, é preciso dizer que City of God (traduzido com empenho por Roberto Muggiati) representa um fracasso amoroso de leitura. O título original nada tem a ver com o nosso Cidade de Deus, de Paulo Lins, e sim com Santo Agostinho. Como a metrópole urbana dos nossos dias, representada por Nova Iorque, pode ser o palco da manifestação do Senhor, como podemos nos relacionar com Ele num mundo como o nosso, com seus problemas específicos e carregando o fardo dos horrores muito particulares do século XX?

      “…do jeito que as coisas estão acho que temos de refazê-Lo. Se precisamos nos refazer, precisamos refazer o Senhor, Deus”.

     Um Deus contemporâneo?  “Estamos vivendo numa democracia pós-moderna. Acha que Deus não sabe disso?”

    O livro de Santo Agostinho serve como referência devido à “toda a sua mala de truques de escritor. Todas aquelas doutrinárias tratadas como se existissem, como personagens num romance de Henry James” (outro padroeiro do romance é Wittgenstein, o qual tem até seu estilo parodiado).

      Os problemas de Deus são associados aos problemas dos narradores. Como organizar esse material caótico à nossa volta? Tim Pemberton, o protagonista, diz ao seu amigo Everett: “Está perturbado porque se deu conta… como você, errônea e gloriosamente, presumiu que podia escrever um livro sobre isto!” Everett tenta tecer um romance partindo do roubo da cruz de uma Igreja Episcopal, ato sacrílego que servirá para  aproximar o casal central, o reverendo Pemberton e a rabina Sarah Blumenthal, embora Doctorow, autor evocativo por excelência, continue a exercitar sua máquina do tempo, desta vez com incursões nos guetos judeus da época da Segunda Guerra e nas trincheiras da Primeira, só para dar dois exemplos. Ele se vale também dos nomes de família que utilizou em Mecânica das águas, Pemberton e McIlvaine.

    Ele precisava de 350 páginas para exercitar a ironia de contestar a onipresença tanto de Deus quanto do Narrador? Já que estamos no terreno religioso, Doctorow cometeu os pecados do orgulho e da soberba, pretendeu escrever o Livro da virada do milênio, a obra-referência. Não conseguiu. O que salva City of God de ser apenas um romance cansativo e falho, são as mesmas qualidades que também salvavam Loon Lake- O lago da solidão, até então seu trabalho mais discutível: iluminações repentinas, o estilo, enfim,  toda a sua mala de truques de escritor.

(resenha publicada em  26 de outubro de 2004)

 

Segunda parte

    Em City of God, de E.L. Doctorow, tentativa meio frustrada de sintetizar ficcionalmente a virada do milênio, se pode ler: “Os infelizes migrantes do mundo acham que, se conseguirem apenas chegar aqui, poderão fincar um pé. Manter uma banca de jornais, uma birosca, dirigir um táxi… o que pintar. Você quer dizer a eles que este não é um lugar para pessoas pobres. A linha de fractura racial que corre pelo coração da terra também corre através do seu coração. Somos seres étnicos sujeitos a um código de cor e criadores de enclaves sociais, multiculturalmente desconfiados e verbalmente agressivos, como se a cidade, considerada como uma Idéia, fosse um fardo pesado demais até mesmo para as pessoas que moram nela”.

     Outro grande escritor, Salman Rushdie, ousou encarar de frente a virada do  milênio elegendo Nova Iorque, o centro do Império, como ponto de inflexão, apesar do resultado não ser tão caudaloso quanto suas imensas (e fabulosas) obras-primas anteriores (Os filhos da meia-noite; Os versos satânicos; O último suspiro do mouro). Enquanto Doctorow investigava manifestações de Deus na secularização triunfante (e Deus é uma obsessão norte-americana, junto com as armas, como bem lembrou Harold Bloom), Fúria (Fury, traduzido por José Rubens Siqueira e lançado pela Companhia das Letras), o modesto—em páginas—romance do milênio de Rushdie , atualiza o mito grego das Erínias, ou seja, as Fúrias, as divindades destruidoras que ameaçam seu protagonista, Malik Solanka, no primeiro verão do novo  milênio, enquanto Bush e Al Gore, ou Gush e Bore, se digladiam pela posse da coroa do Império, com os resultados que conhecemos.

     Solanka está longe de ser o migrante pobre que tenta fincar pé na terra da promissão americana. Pelo contrário, está rico devido à criação de uma boneca, Little Brain, um dos produtos mais rentáveis da indústria cultural. Amargurado com o destino da sua criatura, e após um ligeiro surto psicótico (quando pensara em assassinar esposa e filho), ele abandona sua família em Londres, como já riscara da sua vida suas origens, em Bombaim, procurando a América como lugar de renascimento. Dentro de si ele surpreende o regurgitar de uma raiva avassaladora, com lapsos de memória que o levam a suspeitar que bem poderia ser o assassino de três belas jovens da alta-sociedade, enquanto o eterno ruído da cidade o persegue (“A cidade estava lhe ensinando uma lição. Não havia como escapar da invasão do barulho. Viera em busca de silêncio e encontrara um ruído maior que aquele que deixara para trás. O ruído agora estava dentro dele”).

    “Debaixo da auto-satisfação retórica dessa Améria empacotada, homogeneizada, dessa América com 22 milhões de novos empregos e a maior taxa de casas próprias da história, dessa América Shopping Center dona de ações, de orçamentos equilibradose baixo déficit, as pessoas estavam estressadas, pirando, e falando nisso  o dia inteiro em supercadeias de clichês burríssimos”.

      Não pense o leitor que Fury se limita a ser essa diatribe anti-Império Americano, embora haja passagens assassinas, de uma forma que Michael Moore jamais sonharia.  A grande força de Salman Rushdie, apesar de todo o magma discursivo do livro, que não poupa nada e ninguém, ainda reside no seu talento incomum de contar histórias, com relação ao qual não parece ter perdido o prazer (ao contrário de Doctorow), na teia emocional que ata Malik Solanka às três mulheres mais importantes da sua vida: sua esposa; Mila, uma garota sérvia que lembra (pois quer fazer lembrar) sua boneca Little Brain; e sua verdadeira paixão, Neela, que fará com que ele se confronte com sua infância e o arrastará para fora de Nova Iorque,a city of god da hora,  ainda que para se dar conta de que a Fúria, ou seja, aquela linha de fractura racial que corre pelo coração da terra, está confortavelmente alojada no mundo todo.

(resenha publicada em 2 de novembro de 2004)

 

Terceira Parte

    Em Cosmópolis, o poema em prosa de Don DeLillo a respeito da insubstancialidade do mundo contemporâneo, pode-se ler: “O futuro se torna insistente… o passado está desaparecendo. Antigamente, a gente conhecia o passado, mas não o futuro. Isso está mudando… Precisamos de uma nova teoria do tempo”.

     Há duas semanas, estou comentando obras que vinculam o novo milênio a essa insistência do futuro em detrimento da percepção do passado e o sentimento fantasmagórico que o real, pensado dessa forma, suscita: City of God (2000), de E.L. Doctorow, Fury (2001), de Salman Rushdie. Neste último, vimos como o ruído da cosmópolis (DeLillo: “A cidade come e dorme barulho. Ela faz barulho em qualquer século. Faz os mesmos barulhos que fazia no século XVII, mais os outros que surgiram de lá para cá”, diz o protagonista, que mandara forrar sua limusine com cortiça) correspondia às potências destruidoras agitando-se dentro de Malik Solanka, o professor de história das idéias (passado) que ficou rico com a criação de uma boneca-ícone da indústria cultural (a insistência do futuro).

      Na visão escabrosa de Rushdie, a condição-boneca se torna o epítome da deterioração do material humano, daí a intensa associação entre esse artefato lúdico e três jovens da  alta-sociedade barbaramente assassinadas (“Um corpo morto na rua parece muito uma boneca quebrada”). Em sua origem, a boneca representava diretamente uma pessoa e era um perigo em mãos alheias.Mais tarde, com o advento da produção em massa, tal ligação se rompeu, pois as bonecas passaram para a esfera da linha de montagem, sem personalidade, uniformes: “Tudo isto estava mudando de novo. A conta bancária de Solanka devia tudo ao desejo das pessoas modernas de possuir bonecas não apenas com personalidade, mas com individualidade. Agora mulheres vivas queriam ser como bonecas, cruzar a fronteira e parecer brinquedos. Agora a boneca era o original, a mulher a representação”.

     Nesse caos,com seres humanos-brinquedos,com o virtual devorando o real, há espaço no entanto para um momento literariamente extraordinário, de resgate do Mito em plena cosmópolis. Mila, a garota que imitava a boneca de Solanka, o leva para  o mercado da alta-computação, e vendo-a em frente ao seu laptop, ele assiste, na verdade, à aparição daquele tipo de entidade tão recorrente na cultura da Índia, a que destrói e refaz o mundo: “Mila como Fúria, a engolidora do mundo, o eu como pura energia transformadora. Nessa encarnação, era simultaneamente aterrorizante e maravilhosa”.

(resenha publicada em 9 de novembro de 2004)

 

Quarta Parte

    “Estava parado na rua. Não havia o que fazer. Nunca havia imaginado que isso pudesse acontecer com ele. Era um momento esvaziado de urgência e propósito. Ele não havia planejado aquilo. Onde estava a vida que ele sempre levara?  Não tinha vontade de ir a lugar nenhum, não tinha nada em que pensar, não havia ninguém à sua espera. Como podia dar um passo em determinada direção se todas as direções eram a mesma?”

      Tenho examinado a solução que grandes escritores encontraram (ou não) para representar o início do novo milênio. Nada mais justo que terminar a série com Don DeLillo, autor do maior romance dos derradeiros anos do século passado, Submundo, e cujo Cosmópolis (2003) possivelmente representa a mais alta literatura de ficçãoque se pode encontrar nesses primeiros anos do novo século-milênio-era. Na história do último dia (em abril de 2000) do jovem—já se sentindo ultrapassado (“Eu sempre fui mais jovem que todo mundo. Um dia isso começou a mudar”)—milionário Eric Packer, mega-especulador financeiro, que perde sua fortuna e é assassinado enquanto cruza Nova Iorque para cortar o cabelo (“Ele não sabia o que queria. Então descobriu. Queria cortar o cabelo”), numa limusine gigantesca forrada com cortiça, a grande tentação de qualquer resenhador é citar, citar, citar (mesmo porque a tradução de Paulo Henriques Britto, publicada pela Companhia das Letras, é irretocável). 

    Como se trata de um texto alucinantemente perfeito, pode-se extrair citações incríveis quase que página a página, embora talvez o melhjor seja seguir o conselho da primeira: “Dizer o quê? Era uma questão de silêncio, não de palavras”.

     Parente espiritual do Psicopata americano, de Bret Easton Ellis, Eric move-se (embora o trânsito com freqüência fique congestionado, inclusive com violentas manifestações contra a globalização, numa das grandes seqüências do livro) num mundo em que a obsolescência é muito rápida e no qual as relações esgarçam-se ao ponto da insubstancialidade: “Levou um instante para se dar conta de que conhecia a mulher no banco de trás do táxi ao lado. Era a mulher com quem ele havia se casado 22 dias antes”.

    A característica mais intrigante em DeLillo é que ele consegue manter o estatuto épico, que é básico para uma narrativa (ainda que tão maltrato na ficção contemporânea), mesmo quando mergulha fundo na estética minimalista mais fantasmática. Como Clarice Lispector e Robert Musil, ele mantém-se no mundo do grandioso, evocando mitos e potências muito maiores do que a da pós-modernidade: “Estavam cercados por um crescendo de buzinas. Havia naquele barulho alguma coisa que ele não queria apagar da mente. Era o tom de alguma dor fundamental, um lamento tão antigo que parecia aborígene. Pensou em homens esfarrapados em bandos, dando urros rituais, unidades sociais formadas para matar e comer. Carne vermelha. Era esse o chamado, essa a necessidade gritante”.O motorista de Eric: “Ibrahim parecia desconfiado e reparado, uma preparação que ele adquirira em algum deserto, setecentos anos antes de nascer”. O assassino de Eric lhe diz: “Mesmo quando você se autodestrói, você quer fracassar mais, perder mais, morrer mais que os outros, feder mais que os outros. Nas tribos antigas o chefe que destruía mais coisas dele mesmo que todos os outros chefes era o mais poderoso”.

      A citação que abre este texto mostra como a jornada de Eric por Nova Iorque e sua própria vida são desprovidas de sentido. Cosmópolis, porém, mostra que a literatura ainda faz todo o sentido do mundo.

(resenha publicada em 16 de novembro de 2004)

 

16/05/2010

Destaque do blog: O DIA DA CORUJA, de Leonardo Sciascia

O INIMIGO MORTAL DAS PALAVRAS OCAS (ou o insólito cruzamento Rulfo-Borges)

INTRODUÇÃO

Mesmo entre os maiores ficcionistas,  poucos poderiam aspirar ao adjetivo “irretocável”, a uma essencialidade quase que absoluta da expressão. Os nomes que me vêm à mente de imediato, nesse sentido, são o mexicano Juan Rulfo, autor de Pedro Páramo & Chão em Chamas, e o bem mais prolífico italiano Leonardo Sciascia (1921-1989), de quem eu li pelo menos quatro obras-primas que posso considerar irretocáveis: Il giorno della civetta- O dia da coruja (1961), Il Consiglio  d´Egitto- O Conselho do Egito (1963), A ciascuno il suo- A cada um o seu (1966) e Il contesto- A trama  (1971).

Interessei-me por Sciascia devido a um grande filme de Francesco Rosi (que, aliás, fez um dos meus filmes favoritos, Tre Fratelli- Três Irmãos,uma das coisas mais belas feitas na virada dos anos 70 para os 80 do século passado), Cadaveri eccelenti- Cadáveres ilustres (convenhamos, um título maravilhoso), de 1976. Por sorte, na época do lançamento no Brasil da adaptação de Rosi de Il contesto, a editora Fontana e o Instituto Italiano di Cultura lançavam os três outros.  Até hoje foi a única edição brasileira, salvo engano, do melhor de todos, O Conselho do Egito (traduzido por Aurora Bernardini), magistral romance sobre imposturas e perseguições inquisitórias no século XVIII. A cada um o seu (traduzido por  Homero Freitas de Andrade) teve uma recente nova versão (por Nilson Moulin), publicado pela Alfaguara, que publicou há pouco uma nova tradução de O dia da coruja (de Eliana Aguiar), a terceira: a primeira foi a de Solange Lima Caribé da Rocha, e a segunda (de Mario Fondelli) fez parte de uma série de lançamentos sciascianos pela Rocco (entre eles, a tradução do mesmo Fondelli para A trama, que eu considero o romance que Jorge Luis Borges escreveria se ele fosse dado a alegorias políticas.[1]

I-

“Com efeito, disse o advogado Di Blasi, cada sociedade gera o tipo de impostura que, por assim dizer, lhe convém. E a nossa sociedade, que de por si é uma impostura, impostura jurídica, literária, humana (…) Nossa sociedade nada mais fez a não ser produzir, naturalmente, obviamente,a impostura oposta (…) se na Sicília a cultura não fosse, mais ou menos conscientemente, uma impostura, se não fosse um instrumento nas mãos do poder dos barões, a falsificação da realidade, da história… Pois bem, eu lhes digo que a aventura do abade Vella [um religioso com rudimentos de árabe que falsifica um Código, que na verdade era apenas uma corriqueira vida de Maomé, anunciando-o como um documento sobre os anos de domínio árabe na Sicília, e que se serve dele para chantagear toda a nobreza da região, temerosa de revelações incômodas a respeito dos ancestrais e de como adquiriram a posse da terra] teria sido impossível… Digo mais: o abade Vella não cometeu um crime, apenas montou a paródia de um crime, trocando os termos… De um crime que na Sicília se perpetra há séculos”… (O Conselho do Egito)

“… tratava-se de defender o Estado  contra aqueles que o representavam, os que detinham o poder. O Estado detido. Era mister libertá-lo. Mas ele mesmo estava em detenção: só podia tentar abrir uma rachadura no muro”… (A trama)

Em  A cada um o seu, o fabuloso  Sciascia mostra o protagonista (um corretíssimo e quixotesco professor de literatura) indo ao fórum, para obter o atestado de antecedentes que lhe facultará a licença para dirigir: “Subia as escadarias, masoquistamente desenvolvendo aquelas apreensões que são típicas do italiano que está para entrar no labirinto de uma repartição pública, ainda mais dedicada à justiça”.  

Em nenhuma região da Itália essa desconfiança com relação à justiça enquanto instituição do Estado, enquanto instância que não combina com sentimentos atávicos e milenares, é tão profunda quanto na Sicília, e esse é o tema do paradigmático  O dia da coruja: o dirigente de uma cooperativa de construção, que recusou a “proteção” dos mafiosos locais (apesar de que, oficialmente, a Máfia não existe,é como se fosse uma lenda: “existiu alguma vez um processo que tenha concluído pela existência de uma associação chamada Máfia a qual atribuir, com certeza, o mandado e a execução de um delito? Foi, alguma vez, encontrado um documento, um testemunho, uma prova qualquer que constitua uma relação segura entre um fato criminal e a assim chamada Máfia? Faltando essa relação, e admitindo que a Máfia exista, eu posso dizer-lhe que é uma associação de socorro mútuo e secreto, nada mais nada menos como a maçonaria”) é assassinado numa aldeia e o encarregado da investigação é um “continental”, o capitão Bellodi [2]. Aqueles que são intimados para prestar esclarecimento, ao conhecerem o oficial, pensam: “os continentais são gentis, mas não entendem nada”. 

E realmente, Bellodi “não entende nada”: insiste em ligar o crime à ação local da Máfia (incomodando, com isso, várias instâncias políticas: deputados, senadores) enquanto todos propõe uma explicação “passional”, como raiz desse e de outros dois homicídios (uma testemunha incauta, que vira o assassino, e um delator): “um daqueles motivos passionais que, para a Máfia e a polícia são, em proporções iguais, um grande recurso. Desde quando,no súbito silêncio do seio da orquestra, o grito ´Mataram o compadre Turiddu` tinha, pela primeira vez, estremecido o fio da espinha dos apaixonados da ópera,nas estatísticas criminais relativas à Sicília e nas combinações do jogo da loto, entre chifres e mortos assassinados estabeleceu-se uma freqüente relação. O homicídio passional se descobre rápido e logo passa a fazer parte do ativo da polícia; o homicídio passional se paga pouco, e entra portanto no ativo da Máfia.”  

Ele coloca em detenção três suspeitos, e vai juntando provas irrefutáveis, que serão refutadas entretanto através da impostura, uma palavra cara ao universo sciasciano: cidadãos respeitáveis juntam-se para fornecer álibis para os culpados.

II-

Bellodi (“com a fé de um homem que  participou de uma revolução e desta viu surgiu a Lei; a esta Lei que assegurava liberdade, justiça, a Lei da República, servia e fazia respeitar. E se ainda vestia a farda, por circunstâncias fortuitas envergada, se ainda não havia deixado o serviço para enfrentar a profissão de advogado à qual era destinado, era porque o mister de servir à Lei da República, e de fazê-la respeitar, tornava-se cada vez mais difícil”)  pertence a uma categoria recorrente nos romances de Sciascia: o herói de antemão derrotado, de ação por fim irrisória, e resignado com sua derrota, como o investigador Rogas, de A trama ou o nobre libertário e iluminista de O Conselho do Egito, Francesco Paolo Di Blasi, sem falar no iludido e incauto professor Laurana, aquele mesmo que subia a escadaria do fórum em A Cada Um o Seu, o qual, ao contrário dos outros, nem faz idéia de onde está se metendo.

O Dia da coruja é uma narrativa maravilhosa, no seu registro dos costumes, da mentalidade e do dialeto sicilianos. O preciso e calibrado estilo de Sciascia faz dele o “inimigo mortal das palavras ocas” (como Goethe se caracterizou pouco modestamente na sua Viagem à Itália, ao chegar em Veneza), estas tão celebradas na Sicília como aqui no nosso país: “Bellodi contou a história do médico de uma prisão siciliana que enfiou na cabeça que ia retirar dos presos mafiosos o privilégio de ficar na enfermaria…O médico ordenou que voltassem às dependências comuns.. Nem os agentes nem o diretor deram seqüência às determinações do médico. O médico escreveu ao ministério. E assim certa noite foi chamado à prião…os chefões o espancaram, cuidadosamente, metodicamente. Os guardas não viram o nada… O médico foi exonerado de suas funções pelo ministério, visto que seu zelo era causa de distúrbios…Como não conseguiu obter satisfação pela agressão sofrida, procurou outro chefão da Máfia que lhe desse pelo menos a satisfação de mandar espancar, na prisão para onde tinha sido transferido, um daqueles que o haviam agredido. Teve, pouco depois, a confirmação de que o culpado já tinha recebido a surra que lhe competia”. 

 

(uma parte deste post foi publicada, de forma condensada, numa resenha em “A Tribuna” publicada em 11 de maio de 2010)


[1] Aliás, Borges é citado explicitamente no texto: “Fecho os olhos e vejo um bando de aves. A visão dura um segundo, talvez até menos. Não sei quantos pássaros vi. O número deles era definido ou indefinido? O problema abrange o da existência de Deus. Existindo Deus, o número era definido, uma vez que Deus sabe quantos eram os pássaros. Não havendo Deus, o número é indefinido, pois ninguém podia contá-los. Digamos, neste caso, que eu vi menos de dez pássaros e mais de um, mas não vi nove, nem três,nem dois. Vi um número de pássaros compreendido entre dez e um, e que não é nove, nem oito, nem sete, nem seis,nem cinco  etcetera. Ese numero entero es incocebible, ergo, Diós existe. Quando a breve página toma forma na sua memória do jeito que está aqui impressa, ele procura afastá-la do pensamento e voltar a prestar atenção no que o presidente dizia: mas com a impressão de que aquele bando de pássaros, que durante um segundo ou menos tinha passado voando pelos olhos fechados de Borges, fosse muito mais real, além de mais definido, do que o homem que estava falando e qualquer outra coisa ali em volta”.

[2]  Apesar da sua alta qualidade, as traduções de Fondelli & Eliana Aguiar cometem alguns pecados contra o pitoresco siciliano, ora adotando um tom muito formal, ora abrasileirando em excesso: por exemplo, uma das coisas mais saborosas desse e outros romances de Sciascia é o fato de que a hierarquia dos carabinieri ter suboficiais com títulos pomposos como “marechal” e “brigadeiro”, o que, convenhamos, dá maior sabor à sua subalternidade.

14/05/2010

MOTES PARA UM CURSO AMBICIONADO (e não-realizado)

RUDIMENTOS PARA ENTENDER A COSTURA BÍBLICA

 karen armstrong

“Durante o século VIII houve uma revolução literária em todo o Oriente Médio e no Mediterrâneo Oriental. Reis encomendaram documentos que glorificassem seu regime e guardaram esses textos em bibliotecas. Na Grécia, os épicos homéricos foram fixados nessa época, e, em Israel e Judá, historiadores começaram a combinar narrativas ancestrais para criar sagas nacionais, que foram preservadas nos estratos mais arcaicos do Pentateuco, os cinco primeiros livros da Bíblia.

         A partir das variadas tradições de Israel e Judá, os historiadores do século VIII construíram uma narrativa coerente. Os estudiosos chamam em geral o épico sulista de Judá de J porque os autores sempre chamavam seu Deus de Jeová ou Javé, ao passo que a saga do norte é conhecida como E porque o Deus era então conhecido como Elohim.

         Mais tarde essas duas sagas distintas foram combinadas para formar uma história única que constituiu a espinha dorsal da Bíblia hebraica (e, por extensão, da Bíblia cristã).

         J e E não escreviam relatos históricos modernos. Como Homero e Heródoto, eles incluem lendas sobre personagens divinos e elementos mitológicos e condensadores que tentam explicar o sentido do que aconteceu. Suas narrativas são mais que história. Desde o princípio, não houve uma mensagem única e fidedigna sobre o que iria se tornar a Bíblia. Os autores J e E interpretaram a saga de Israel de maneiras muito diferentes e os futuros editores não fizeram qualquer tentativa de eliminar as incoerências e contradições. Em J, por exemplo, vemos imagens antropomórficas de Deus que causariam embaraço a exegetas posteriores. Jeová passeia pelo Jardim do Éden como um potentado do Oriente Médio, fecha a porta da arca de Noé, irrita-se e muda de idéia. Contudo, em E há uma concepção mais transcendente de Elohim, que mal ´fala´, preferindo enviar anjos como seus mensageiros. A religião hebraica posterior iria se tornar passionalmente monoteísta, convencida de que Jeová era o único Deus. Mas nem J nem E eram monoteístas.”

             (extraído de “A Bíblia”, de Karen Armstrong, com ligeiras adaptações da minha parte)

Livro de J é utilizado aqui como um título para o que os estudiosos concordam ser o estrato mais arcaico do Pentateuco, obra de uma autora, a Javista. Os estratos ulteriores do Gênesis, Êxodo e Números são todos revisões ou censuras a J, e seu (s) autor(es), é (são) designado(s) por E, o Eloísta (J sempre utiliza “Elohim” como um nome para seres divinos em geral, e nunca como o nome de Deus); P, da Escola Sacerdotal, o qual escreveu quase todo o Levítico; D, responsável pelo Deuteronômio; e R, de Redator, o responsável pela revisão final e homogeneização forçada.

         O Livro de J está encravado naquilo a que chamamos de Gênesis, Êxodo e Números. Presumo que J viveu na corte do filho e sucessor de Salomão, Roboão de Judá, sendo uma mulher extremamente sofisticada e bem posicionada da elite salomônica, iluminada e irônica. Na verdade, não sabemos se J era homem ou mulher, mas nossa imaginação moral pode calcular a passagem das possibilidades para o nível das probabilidades, quando comparamos J aos outros trechos dos livros citados, ou ao conjunto da literatura subsistente do antigo Oriente Médio. O que é novo em J? Onde se reúnem suas originalidades ? O que há no tom, na postura e no modo de narrar de J que foi diferente o bastante para fazer a diferença? Grande parte da resposta dirá respeito à representação da mulher se comparada à do homem; outra parte à ironia…a qual produz a curiosa questão do antropomorfismo da representação de Javé (Jeová) como humano, demasiado humano. O que J retrata com terna ironia é um judaísmo arcaico. O embaraço causado pelas traquinagens do Javé de J já começou com os primeiros revisionistas… A mais gritante postura irônica de J concerne à representação de realidades totalmente incomensuráveis se justapondo e contrapondo. Como pode Abraão discutir com Javé? Como pode Jacó ser capaz de lutar de igual para igual com um enviado? Ou, bem mais singelamente, como se pode achar convincente que Esaú troque seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas? Tudo nos leva à representação de um Javé infantil, até pueril, e ainda assim Javé, e nenhum outro, ou seja, totalmente incomensurável, incognoscível.

         A economia é, certamente, a força específica de J. O mais elíptico dos grandes escritores, ela demonstra de modo contínuo que deixar alguma coisa de fora é a melhor maneira de compelir o leitor/ouvinte a estar rigorosamente alerta.

         Mas com que autoridade, e com que propósito, pode se empreender essa busca? Que utilidade pode ter a recuperação de um hipotético Livro de J? Tenho consciência de que pode ser um esforço vão almejar uma reversão de dois mil e quinhentos anos de desleitura institucionalizada. O Eloísta, E, trabalhando cerca de duas gerações mais tarde que J combinou o texto dela com um material variado, retrabalhou o sacrifício de Isaac, a luta de Jacó com o anjo, e então deu início à tradição de reduzir a extraordinária autora a algo mais normativo… Um redator de gênio inquestionável produziu a Toráh provavelmente da forma como hoje a conhecemos. Considero esse redator, R, um homem impressionante, mas temo que ele seja o vilão do presente livro, pois estou certo de que ele é o grande mutilador de J.

         R é o autor compósito da Toráh, creditado por Robert Alter como o realizador de uma mescla altamente estético e novelística dos textos de J, E, D e P. O elogio maior feito a R veio do grande crítico Northrop Frye, para quem a pulverização das várias fontes foi tão completa que somos totalmente incapazes de reconstituir qualquer uma delas. Meu livro visa à reconstituição de J, o maior escritor judeu, pelo bem da escrita e pelo nosso bem.”

              (adaptação de trechos do LIVRO DE J, de Harold Bloom)

 haroldo de campos

“O termo javista, no qual se inclui o episodio do Éden, da criação de Adão do pó da terra e da Eva de sua costela, e da intervenção desagregadora da serpente, foi, não faz muito, reproposto polemicamente à consideração dos estudiosos como extraordinária arte verbal a ser resgatada da leitura meramente confessional. O responsável por essa proposta é Harold Bloom, o qual, em 1990, publicou O Livro de J., onde sustenta a tese de que o autor do excerto javista da Bíblia Hebraica seria uma autora, uma dama ilustrada da Corte Salomônica, e que essa porção do Toráh podia ser reconhecida como uma obra-prima, mesmo levando em conta as mutilações, revisões e rasuras.

     Nada obsta, em princípio, que se conjecture, com engenho e empenho, em torno de uma remotíssima figura de mulher e escritora, educada no áureo período salomônico (século X antes da era cristã)… Mas Robert Alter refutou minuciosamente a hipótese de Bloom, tecendo críticas cerradas, embora elogie seu convite para olhar os antigos escritos com olhos novos. Quais seriam os furos da interpretação bloominiana? Em primeiro lugar, seu escasso conhecimento de hebraico. Disso decorreria uma gravíssima conseqüência: Bloom ter se apoiado, para suas intuições críticas, avaliações estéticas e desenvolvimentos exegético-hermenêuticos, não no original, mas na versão para o inglês do suposto texto de J., feita por David Rosenberg. Para Alter, Bloom tomou uma decisão catastrófica ao atrelar seu projeto à tradução de Rosenberg, porque quando ele nos fala de J. ele está falando na verdade da versão inglesa e atual de Rosenberg. Este estaria muito longe de recriar convincentemente o original e mostraria, segundo Alter, um pendor de poetastro por clichês metafóricos. Que Bloom tenha sido capaz de tão extremado lapso de gosto, comparando o discutível estilo tradutório de Rosenberg ao deslumbrante inglês shakesperiano, isto somado a outras falhas, leva Alter a ser cético quanto à hipótese da autoria feminina levantada pelo scholar de Yale. Encara-a como o resultado, fragilmente documentado, de um fundamentalismo, não religioso, mas reivindicatório de uma personalidade autoral, por um lado, e, por outro, das virtudes de um intuitivismo crítico desvelador, capaz de captar as inflexões de uma suposta Voz feminina.

       Outro estudioso, Richard Friedman ratifica, ademais, que não é possível distinguir de fato o ângulo estilístico entre J. e E., fato que relativizaria ainda mais a singularidade de J. tão decantada por Bloom.

        Tanto quanto posso julgar, a tradução de Rosenberg não tem, de fato, a categoria que lhe atribui Bloom (apesar de apresentar, aqui e ali, soluções de interesse). Para quem se deu ao trabalho de confrontar o texto original hebraico com essa versão para o inglês, como eu o fiz, minuciosamente, será fácil comprovar a procedência das restrições de Alter.

       Assim, por exemplo, no episódio de Babel, Bloom, alicerçando-se na versão de Rosenberg, dá extrema importância a um suposto jogo de palavras e de sentidos (atribuído às intenções de sua J.), em torno do verbo to bind e derivados. No hebraico, onde Rosenberg coloca unbound, desvinculados, no original aparece apenas pen-nafutz, dispersados. O mesmo se diga de bound to build, vinculados, comprometidos com; no original, asher banú, construindo (apenas no sentido de edificação, sem o vínculo moral, o comprometimento)… e assim por diante…

   Dessa forma, o sutil jogo de palavras de J., na acepção de Bloom, só existe na versão substitutiva de Rosenberg, ainda que o texto do Gênese, em outros pontos, apresente-se perpassado por efeitos relevantes de som e sentido.

     Mas Bloom não fica só no terreno da avaliação estilística, estética. Como teórico da desleitura (misreading), ironicamente enredado em sua própria percepção teórica, continua, sempre imaginoso e estimulante, a derivar conclusões de matriz lúdica que põe em relevo, ainda que dúbia, equivocada, quando conferida com o texto hebraico de origem. Assim, o conceito de boundary (derivado daquele jogo de palavras é arrolado por ele entre os grandes tropos do exílio. Citando-o: o Exílio definitivo é a confusão, a dispersão até mesmo dos limites (boundaries), a perda que não tem qualquer nome”, prolongando a Queda e a Expulsão do Éden no episódio de Babel.”

             (adaptação de trechos de Éden, um tríptico bíblico, de Haroldo de Campos)

 robert alter

“A um exame mais minucioso logo se vê que o texto bíblico é ao mesmo tempo múltiplo e fragmentário. É muito comum não se ter certeza sobre os limites de um determinado texto, sobre como ele prossegue em textos adjacentes e por que é ignorado, discutido, citado ou mesmo copiado em outros lugares da Bíblia. Um desafio ainda mais sério à integridade de muitos textos bíblicos que gostaríamos de considerar como totalidades literárias deriva da natureza delicadamente estratificada do material articulado pela tradição antiga… o que temos, na realidade, é uma costura contínua de textos anteriores, provenientes de tradições divergentes, inclusive de tradições orais, com interferências, menores ou maiores, de revisões posteriores sob a forma de glosas, costuras, fusões, e assim por diante. Os especialistas identificaram como o exemplo mais notável desse caráter compósito do texto bíblico os primeiros quatro livros do Pentateuco; análises exaustivas de estilo, consistências de dados narrativos, visões teológicas e premissas históricas demonstram que eles são uma montagem de três linhagens básicas e independentes de documentos: o documento javista (J), o documento eloísta (E) e o documento sacerdotal (P)… O que se deve fazer então quando lemos textos que os especialistas nos convidam a ver, pelo menos nos exemplos mais radicais, como uma colagem desvairada de tradições antigas?… Gostaria de propor neste capítulo que os autores e redatores bíblicos, visto que a distinção entre os dois nem sempre é clara, trabalhavam com noções de unidades bastante diferentes das nossas, e que a plenitude de expressão que procuravam obter levou-os muitas vezes a transgredir o que uma cultura e uma época posteriores inclinaram-se a diagnosticar como cânones de unidade e coerência lógica. O texto bíblico pode não ser o tecido acabado que a tradição judaico-cristã pré-moderna imaginou, mas pode ser que a miscelânea confusa forme um padrão intencional, se lida com mais minúcia.

         É claro que certas passagens da narrativa bíblica parecem resistir a toda interpretação harmonizadora, levando-nos a concluir que determinadas circunstâncias na transmissão e redação dos antigos textos hebreus provocaram uma incoerência inerente ou que a noção bíblica de seqüência narrativa pode ser às vezes inescrutável, dada a enorme distância histórica e intelectual… Não acho razoável atribuir a confusão a mera negligências dos redatores… É claro que nossos conceitos de coerência espacial dos acontecimentos, de identidade dos personagens, de coesão lógica entre ação e motivo de ação são aqui flagrantemente violados.

         Vejamos agora um exemplo conciso de narrativa compósita em que a duplicação se soma a uma suposta contradição: no fim da primeira visita dos irmãos de José ao Egito (Gênesis, 42), José, que eles ainda julgam ser apenas o vice-rei egípcio, dá ordens secretas para que o dinheiro que eles pagaram pelo trigo seja enfiado de volta nos sacos de cada um. Lembremos que os irmãos já tinham se abalado por conta da prisão temporária a que foram submetidos, sob a acusação de serem espiões, e por José ter tornado Simeão refém, insistindo que trouxessem Benjamin, o caçula, ao Egito. Esses dois últimos atos do vice-rei fizeram com que os irmãos, por uma série de associações motivadas pela culpa, lembrassem a crueldade que haviam praticado contra o jovem José e imaginassem que afinal chegara o castigo pelo crime. Pois bem, no primeiro sítio em que acamparam, um deles abriu o saco de forragem e viu o dinheiro. Os corações deles desfaleceram e disseram-se: Que é isto que Deus nos fez?

         Assim que levantam essa dúvida acerca da estranha obra do destino, pois a força da palavra Deus, no original, não fica muito distante do sentido de destino, o narrador faz com que corram à casa do pai, Jacó, para contar os problemas que tiveram com o vice-rei egípcio, inventando uma explicação para a ausência de Simeão e o pedido do egípcio que levassem Benjamin até ele. Exatamente nessa altura do texto, o dinheiro escondido nos sacos faz um estranhíssimo reaparecimento: Quando eles descarregavam os sacos, eis que a bolsa de dinheiro de cada um estava dentro do saco, e quando viram suas bolsas de dinheiro sentiram medo, eles e seu pai. Então Jacó disse: Vós me privastes de meus filhos: José se foi, Simeão se foi, e agora quereis me tomar Benjamin? É sobre mim que tudo isso recai. Em nosso modo de entender a lógica narrativa, é obviamente impossível que os irmãos tivessem descoberto duas vezes o mesmo dinheiro escondido e ficassem igualmente surpresos e amedrontados nas duas ocasiões… Geralmente, os estudos especializados sobre a Bíblia explicam essas duplicações como um descuido na redação final do texto. A hipótese aceita é a de que havia duas versões paralelas da história de José, a da tradição eloísta (E) e a da tradição javista (J), entre as quais existiam diferenças de detalhes essenciais.  O relato da tradição eloísta é a fonte principal; nessa versão, o dinheiro só é descoberto quando os irmãos chegam em casa. Na versão javista, a palavra empregada não é saq (saco, bolsa) e sim ´amtahat, que pode conter tanto forragem quanto moedas de prata. Tende-se a presumir que o redator final, seja por fidelidade equivocada à segunda fonte, seja por erro de julgamento, incluiu um fragmento de J que destoa do todo.

         A esse respeito, eu gostaria de levantar uma questão de princípio que poderá nos ajudar a entender o propósito das duplicações. A contradição entre os eventos é tão patente que parece ingenuidade supor que o redator fosse tão tolo ou incapaz a ponto de não percebê-la. Gostaria de sugerir, em vez disso, que o redator estava perfeitamente consciente da contradição, mas considerou-a superficial. Pela lógica linear, a mesma ação não poderia ocorrer duas vezes de duas maneiras diferentes, mas pela lógica narrativa com a qual ele trabalhava, fazia sentido incorporar as duas versões que tinha à mão, porque juntas elas revelavam implicações mutuamente complementares do evento narrado e lhe permitiam fazer um relato completo. A versão J, na qual os irmãos descobrem o dinheiro quando estão sozinhos na caravana entre o Egito e Canaã, acentua o espanto deles diante do acontecimento inesperado: a ênfase recai na impressão que lhes fica dos estranhos caminhos do destino. A versão J tem por isso importância crucial, porque vincula a descoberta do dinheiro ao tema do conhecimento de José dos fatos em contraste com a ignorância dos irmãos, o que é decisivo para os dois encontros no Egito e, na realidade, para a história inteira. Quando os irmãos perguntam o que Deus fizera com eles, detectamos uma ironia dramática, ligada às ironias dramáticas da cena anterior no palácio do vice-rei. A verdade é que José serve e age como agente do destino (instrumento de Deus), no grande plano da história, e até os irmãos, que tanto se escandalizaram com o sonho em que José vê o sol,  a luz e onze estrelas prostradas a seus pés, falam agora em Deus, quando nós, leitores, sabemos que estão se referindo ao que José fez (mandar esconder de volta o dinheiro do trigo).

         A versão E do mesmo acontecimento, na qual a descoberta se dá na presença de Jacó, é muito mais resumida e descreve sucintamente a reação dos irmãos à vista do dinheiro encontrado, com uma única palavra, medo, e sem um diálogo que represente sua estupefação com os caminhos escolhidos pela Providência Divina. A meu ver, essa versão sugere simplesmente medo, sem assombro, porque pretende mostrar uma ligação  direta entre a descoberta do dinheiro e o sentimento de culpa dos irmãos pelo que haviam feito a José. No estilo característico da Bíblia, o narrador não explica a culpa, limita-se a sugeri-la e volta a insinuá-la nas palavras com que José responde aos irmãos. Assim como os filhos, Jacó viu o dinheiro. E também deve ter percebido neles o medo que sentiam. Então, como que verbalizando a culpa silenciada, Jacó volta-se para eles e acusa. Não faz nenhuma acusação direta, mas agora é como se, impelido pela retórica, ele chegasse perto da verdade pura.

         A história de José tem um eixo moral-psicológico e um eixo teológico-histórico. Neste, o que importam são as obras misteriosas de Deus, o papel de José e o importantíssimo tema do conhecimento em oposição à ignorância. No primeiro eixo, o aspecto fundamental é o doloroso processo pelo qual os irmãos aceitam a responsabilidade pelo que fizeram e são levados a lidar com a culpa. Não tenho como verificar cabalmente minhas conclusões sobre o princípio formal que guiou o redator bíblico, mas me parece pelo menos plausível que ele se tenha disposto a incluir na narrativa o mal menor da duplicação e da aparente contradição em prol de conferir visibilidade aos dois eixos principais de sua história num momento crítico do enredo. O escritor bíblico, habituado a cortar, juntar e montar com extrema perícia materiais literários anteriores, parece ter tido a intenção de obter esse efeito de verdade multifacetada ao apresentar em seqüência duas versões diferentes, que ressaltavam duas dimensões distintas do mesmo assunto.

           (trechos adaptados de A arte da narrativa bíblica, de Robert Alter)

“As narrativas da Bíblia são afinal relatos históricos ou ficções? Há certas áreas verbais, como a do jornal diário, onde julgamos importante saber se as histórias que ali encontramos são verdadeiras ou apenas elucubrações, o tipo de importância normalmente atribuída a Bíblia aponta para a consideração de que ela também seja uma dessas áreas. Além disso, essa questão não é secundária ou anacrônica: mesmo o Velho Testamento é jovem o suficiente para que seus escritores tenham sido capazes de nos transmitir a história real, se assim o quisessem (apesar de que há partes ali que são anteriores a Heródoto). E ninguém nega que a Bíblia tenha um interesse apaixonado por questões de caráter histórico. Ainda assim a formalização da Bíblia para essa questão permanece curiosamente enigmática, tão enigmática que ficamos com a impressão de que deve haver algo de errado.

       Começa-se com histórias de criação e dilúvio, que parecem ser mitos não apenas no sentido de histórias cosmogônicas e sagradas, mas também no sentido coloquial e negativo de serem relatos de eventos que dificilmente teriam se passado daquela forma, e que são parecidíssimas com outros mitos de criação e dilúvio oriundos de outras partes do mundo.

      Já as histórias de Abraão e do Êxodo pertencem a uma área que devemos chamar de reminiscências históricas. Ou seja, sem dúvida contêm um grão de história real.  Já que base histórica há para a narrativa que chegou até nós é uma outra história. Ainda não foi possível para os egiptólogos ligar o êxodo hebreu a nenhuma outra coisa que saibam da história do Egito. Parece que os egípcios nada sabiam a respeito de um imenso êxodo, assim como o Imperador Augusto nada sabia do nascimento de Cristo.

       Quando chegamos ao que parece ser realmente histórico, onde podemos acrescentar algumas datas e provas, descobrimos que a histórica (no sentido didático) é manipulada. Os reinos do norte da Judéia e de Israel recebem uma classificação em preto e branco (branco, se promovem o culto a Javé; preto, em caso contrário).

        Chegamos a um princípio geral que pode ser expresso da seguinte maneira:  se alguma coisa na Bíblia é verdadeira do ponto de vista histórico, ela lá está por outra razão que não esta. A verdade histórica nada tem a ver com profundidade espiritual. É óbvio que o Livro de Jó, jamais visto seriamente como algo além de um drama imaginativo (um dos mais poderosos já concebidos pela humanidade), é muito mais profundo espiritualmente do que as listas que constam dos Paralipômenos, embora estas listas contenham registros históricos genuínos. Quando nos movemos do obviamente lendário para o provavelmente histórico a fronteira nunca é muito precisa. Ou seja, de que o sentido de fato histórico como tal simplesmente não é delimitado na Bíblia.

      Uma indicação do viés pelo qual a Bíblia se interessa está no Livro dos Juízes. Este livro era uma coleção de histórias sobre heróis que originalmente eram líderes tribais; ele foi editado de tal modo a ganhar a aparência de ser a história de uma Israel unida que atravessa uma série de crises muito semelhantes entre si. Israel, onde o espírito de apostasia se manifesta de modo excepcionalmente consistente, renuncia a seu Deus, é escravizada, clama ao mesmo Deus por liberdade, e então um juiz é enviada para libertá-la. Aqui se vê uma série de conteúdos diversos que acompanham uma forma narrativa ou mítica repetitiva que os contém. Há uma enorme ênfase na estrutura, devido ao interesse moral que justifica sermos submetidos ao mesmo tipo de história interminavelmente, o que indica serem as histórias individuais construídas para que se ajustem a um mesmo padrão. A distância que têm dos eventos históricos é a mesma quer tem a pintura abstrata de uma representação realista; mais: a relação é a mesma. A prioridade cai sobre a estrutura mítica, ou esboço, da história, não sobre o conteúdo histórico.”

        (trechos adaptados de The Great Code- O Código dos Códigos, de Northop Frye)

auerbach 

“Pode-se abrigar facilmente objeções histórico-críticas quanto à Guerra de Tróia e quanto às errâncias de Ulisses, e ainda assim sentir, na leitura de Homero, o efeito que ele procurava, mas quem não crê na oferenda de Abraão não pode fazer do relato bíblico o uso para o qual foi destinado. É necessário ir mais longe ainda: a pretensão de verdade da Bíblia é não só muito mais urgente que a de Homero, mas chega a ser tirânica; exclui qualquer outra pretensão. O mundo dos relatos das Sagradas Escrituras não se contenta com a pretensão de ser uma realidade historicamente verdadeira. Pretende ser o único mundo verdadeiro, destinado ao domínio exclusivo. Qualquer outro cenário, quaisquer outros desfechos ou ordens não têm direito algum a se apresentar independentemente dele, e está escrito que todos eles, a história de toda a humanidade, se integrarão e se subordinarão aos seus quadros… Na história de Isaac não é somente a intervenção de Deus no princípio e no fim do relato, mas também os elementos factuais e psicológicos no seu interior que permanecem obscuros, tocados apenas de leve, carregados de segundos planos; e é justamente por isso que não só precisam de investigação profunda e interpretação, mas até o exigem. Que Deus tente até o mais piedoso da maneira mais terrível, que a obediência incondicional seja a única atitude possível perante Ele, mas que também a sua Promessa seja inamovível, por mais que as suas decisões pareçam destinar-se a produzir a dúvida e o desespero, estes são os ensinamentos mais importantes contidos na história de Isaac e, por sua causa, o curto texto fica tão pesado, tão carregado de conteúdo, contendo em si tantas alusões acerca da essência de Deus e da atitude do homem piedoso, que o crente se vê motivado a se aprofundar uma e outra vez no texto e a procurar em todos os seus pormenores a luz que possa estar oculta. E como, de fato, há no texto tanta coisa obscura e inacabada,e como ele sabe que Deus é um Deus oculto, o seu afã interpretativo encontra sempre novo alimento. A doutrina e o zelo na procura da iluminação estão indissoluvelmente ligados ao caráter do relato (este, portanto, é mais do que mera realidade)… Se, desta forma, o texto do relato bíblico necessita tanto de interpretação a partir do seu próprio conteúdo, sua pretensão à autoridade absoluta leva-o ainda mais longe por esta senda: devemos inserir nossa própria vida no seu cosmos, sentirmo-nos partícipes da sua estrutura histórico-universal. Isto se torna cada vez mais difícil à medida que o nosso mundo vital se afasta do mundo das Escrituras, e se este mundo textual, apesar de tudo, mantém em pé a sua pretensão  à autoridade, é imperioso que ele próprio se adapte, através de uma transformação interpretativa. Isto foi relativamente fácil por muito tempo: durante a Idade Média européia era possível, ainda, representar os acontecimentos bíblicos como sucessos quotidianos contemporâneos, para o que o método exegético fornecia as bases. Quando isso se torna impraticável, pela transformação demasiado profunda do meio ambiente e pelo despertar de uma consciência crítica, a pretensão à autoridade corre perigo; o método exegético é desprezado e deixado de lado, os relatos bíblicos convertem-se em velhas lendas e a doutrina, desmembrada dos mesmos, torna-se uma forma incorpórea que não mais penetra na realidade sensível ou que se volatiliza na exaltação pessoal…

    Os poemas homéricos fornecem um complexo de acontecimentos preciso, espacial e temporalmente delimitado; independente dele, concebem-se tranqüila e facilmente outros complexos anteriores, simultâneos e posteriores. O Velho Testamento, porém, fornece História Universal; começa com  o princípio dos tempos, com a criação do mundo, e quer acabar com o fim dos tempos, com o cumprimento da promessa, com a qual o mundo deverá encontrar o seu fim. Tudo o mais que ainda acontece no mundo só pode ser apresentado como elemento dessa estrutura, como parte constitutiva do plano divino, e como isto só é possível pela interpretação do novo material afluente, a necessidade exegética se estende além dos campos primitivos da realidade judaico-israelita, por exemplo, à história assíria, babilônica, persa, romana; a interpretação torna-se um método geral de apreensão da realidade… O trabalho interpretativo de maior ressonância desta espécie ocorreu nos primeiros séculos do Cristianismo, como conseqüência da missão entre pagãos, e foi realizado por Paulo e pelos Pais da Igreja; eles re-interpretaram toda a tradição judaica numa série de figuras a prognosticar a aparição de Cristo e indicaram ao Império Romano o seu lugar dentro do plano divino da salvação. Portanto, enquanto por um lado a realidade do Velho Testamento aparece como verdade plena, com pretensões à hegemonia, as mesmas pretensões obrigam-na a uma constante modificação interpretativa do seu próprio conteúdo, ressignificando-o…

         O Velho Testamento é incomparavelmente menos unitário na sua composição do que os poemas homéricos, é mis evidentemente feito de retalhos, mas cada um deles pertence a um contexto histórico-universal e interpretativo da História da Humanidade. Ainda que tenham recebido elementos dificilmente encaixáveis, ainda assim estes são apreendidos pela interpretação; e assim o leitor sente a cada instante a perspectiva religiosa e histórico-universal que confere a cada um dos relatos o seu sentido e a sua meta globais. Quanto mais isolados e horizontalmente independentes são os relatos e os grupos de relatos, se comparados com os da Ilíada e os da Odisséia, tanto mais forte é a sua ligação vertical comum que os mantém todo juntos sob um mesmo signo, o que falta totalmente a Homero.”

         (trechos adaptados de Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental, de Erich Auerbach)

“Quanto à produção do Antigo Testamento como um todo, sugeriu-se que o primeiro material a ser coletado e colocado numa narrativa coerente foi a história das origens de Israel. Sugeriu-se também ue a época de Ezequias (727-698) foi uma ocasião plausível para esta atividade. A destruição do reinado do norte em 722-721 e a a migração para Jerusalém de grupos de escribas e profetas ue preservaram a tradição sobre Jacó, o ancestral do norte, assim como sobre os profetas Elias e Eliseu, foram o catalisador para o empreendimento da tarefa de construir uma grande narrativa. Como ele foi feito em Judá, as tradições sobre o ancestral judaíta, Abraão, precederam as do ancestral israelita, Jacó.      Um segundo estágio importante foi o surgimento e obra dos deuteronomistas no século VII a.C. durante o reinado de Josias. Leis provavelmente derivadas das tradições do norte formaram o grosso das seções legais do Deuteronômio. A narrativa a partir do relato de Josué em diante foi intensamente reeditada para mostrar que as tragédias que haviam assolado o povo, inclusive a perda do reino do norte, tinham acontecido por causa dos pecados do próprio povo e, em especial, de seus governantes, particularmente no reino do norte.      O estágio seguinte foi a destruição de Jerusalém, em 587. Exigiu mais reflexões sobre a narrativa em geral e também chamou a atenção para as duas outras áreas: lei e profecia.  Como os profetas tinham sempre alertado para um iminente desastre se governantes e povo não observassem a Lei, a coleção e edição dos oráculos dos profetas se tornaram uma prioridade, como se tornaram a coleção e estudo das leis. Por conseguinte, as primeiras duas seções do cânon hebraico posterior, a lei (Gênesis e Deuteronômio) e os profetas (Josué, Juízes, Samuel, Reis, Isaías, Jeremias, Ezequiel) começaram a se aproximar da sua atual forma.      Mas um estágio importante da edição, a dos círculos sacerdotais, ainda estava por vir, e é provável ue isto tenha acontecido em Jerusalém nos séculos V-IV. Essa revisão afetou particularmente Gênesis e Números, e viu não só a inclusão do ritual, leis sacerdotais e sacrificiais de Êxodo, Levítico e Números, mas também o uso da chamada história sacerdotal como a estrutura básica de toda a narrativa. Hoje ela começa com a criação do mundo e também incorporou tradições evidentemente não-sacerdotais como a história do Jardim do Éden e Caim e Abel.

     A obra foi executada em círculos sacerdotais no templo de Jerusalém, e a estes círculos também é plausível atribuir a coleção e edição dos Salmos, do Livro dos Provérbios e Lamentações. Uma geração posterior de autores sacerdotais compôs o Livro das Crônicas, com a tônica na continuidade do seu templo com a adoração da época de Davi e Salomão.

       A Jerusalém dos séculos IV-IIII viu o surgimento de uma sociedade urbana mais diversificada que a anterior, e foi nestes círculos que obras como Jó, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos foram produzidas. É também necessário supor a existência de uma biblioteca, ou bibliotecas, se levarmos em conta a preservação e disponibilidade desses textos para posterior inclusão no Antigo Testamento. A crise final que precipitou a atividade literária e editorial foi a perseguição sob Antíoco, em 169 a.C, que produziu os Livros de Daniel e Ester.

       Devemos lembrar, entretanto, que produzir livros não era uma questão de o autor completar algo que depois era aperfeiçoado. O processo de composição não tinha fim, com a obra de autores transformando-se gradualmente na dos copistas atrávés de editores.”

Cronologia da composição dos livros do Antigo Testamento e de alguns Apócrifos

séculos X e IX a.C

registros da administração do templo e da corte compilados em Jerusalém

século VIII a.C

Início da coleção de material escrito que vai ser, ou compor, o Antigo Testamento: oráculos dos profetas Oséias, Amós, Miquéias e Isaías; primeiros esboços da história de Israel e Judá desde Abraão; coleção de leis, provérbios e salmos

século VII a.C

coleção de palavras dos profetas  Jeremias, Naum, Sofonias, primeiros esboços do Deuteronômio, história geral de Israel & Judá ampliada até a época de Josias

século VI a.C

coleção de palavras dos profetas (Jeremias, Ezeuiel, Isaías, Habacuue, Ageu, Zacarias); outras demãos editoriais sobre a História de Israel e Judá, desde Abraão até a destruição de Jerusalém; e sobre o Deuteronômio. Composição de Salmos e Lamentações

século  V a.C

O Pentateuco (Gênesis + Deuteronômio) começa a assumir algo parecido com a sua forma atual. Livros de Esdras, Neemias, Jonas, Rute.

século IV a.C.

Novas composições: Livros de Crônicas, Malauias, capítulos posteriores de Zacarias, Cântico dos Cãnticos, Jó, Eclesiastes, Estes.

século III a.C.

Novas composições (Isaías, capítulos 24 ao 29), Enoque (capítulos que vem do 1 ao 36 e 72 a 92).

século II a.C.

Novas composições incluem Daniel, Macabeus, apócrifos (Jesus ben Sirac, Eclesiástico), além de outras partes de Enoque e Sabedoria de Salomão.

século I a.C

Partes complementares de Macabeus, Tobit, Judite, Baraque, Manassés.

             (extraído com ligeiras adaptações de Uma Introdução à Bíblia, de J.W. Rogerson).

 

séculos XIII-XII a.C: os israelitas se estabelecem numa região montanhosa de Efraim, Galiléia e Transjordânia. Os filisteus se estabelecem na planície costeira.

século XI a.C: os crescentes conflitos entre filisteus e israelitas levam ao surgimento de um “reinado” israelita sob o comando de Saul (c. de 1020)

séc. X a.C: Davi derrota os filisteus, faz de Jerusalém a capital e une Israel e Judá, sendo sucedido por Salomão, que edifica o Templo. Depois de sua morte, Israel se separa de Judá.

séc. IX a.C: Israel se torna uma nação dominadora na região, controlando Judá e arredores.

séc. VIII a.C: Os profetas Oséias e Amós criticam a injustiça social e o sincretismo religioso em Israel, ue é destruído pelos assírios em 722-721. Judá, sob Ezequias, assume o papel de Israel+Judá, mas é invadido em 701.

séc. VII a.C: Judá é província da Assíria, que declina como nação, enquanto a Babilônia ascende. Josias proclama a independência de Judá e faz um reforma religiosa.

séc. VI a.C: Nabucodonosor,da Babilônia, domina a região e submete Jerusalém em 597. A cidade é destruída em 587. Em 540, Ciro, rei da Pérsia, derrota os babilônios.  O Templo é reconstruído em 515.

séc. V a.C: Judá é província a Pérsia.

séc.  IV a.C: A Pérsia é derrotada por Alexandre. Inicia-se a era de influência grega em Judá.

séc. III a.C: Judá é governado pelos Ptolomeus, governantes gregos do Egito. O estabelecimento de colônias judaicas no Egito, especialmente Alexandria, faz com que parted do Antigo Testamento sejam traduzidos para o grego.

séc. II a.C.: A helenização do judaísmo, mais a profanação do templo, graças à interferência do rei Antíoco IV, levam à revolta dos macabeus.

séc. I a.C: Judá torna-se província romana, sob o governo de Herodes.

“…quanto mais fundo sondamos, quanto mais abaixo tenteamos e calcamos o mundo inferior do passado, tanto mais comprovamos que as bases mais remotas da humanidade, sua história e cultura, se revelam inescrutáveis. Por temerários que sejamos no cumprimento que dermos à nossa sonda, ela se estira ainda, aprofundando-se cada vez mais. Não é sem razão que falamos em estirar-se e aprofundar-se, porquanto aquilo que é investigável zomba dos nossos ardores inquisitivos; oferece pontos-de-apoio e metas aparentes, por trás das quais, depois que as atingimos, surgem ainda novas províncias do passado, tal como acontece a quem navega ao longo da costa sem encontrar termo para sua viagem, porque, por trás de cada promontório de duna argilosa que ele conquista, pontas de terras inesperadas e novas distâncias continuam a negaceá-lo.

         Podem assim existir origens provisórias que praticamente e de fato formam os primórdios da tradição particular mantida por uma dada comunidade, por um povo ou por uma comunhão de crença; e a memória, embora suficientemente inteirada de que na realidade não foram sondadas as profundezas, pode, contudo, do ponto de vista nacional, conformar-se com aqueles primórdios e, pessoal e historicamente falando, vir a descansar aí.

         O jovem José, por exemplo, filho de Jacó e da formosa Raquel… José, vivendo naquela região da terra de Canaã, nas tendas de seu em pai em Hebron, José que era  um jovem famoso pelo encanto que herdara de sua mãe… José, afinal e para concluir (pela quarta ou quinta vez eu digo o nome dele, e com prazer, porque há mistério nos nomes…); José, pela sua parte, considerava uma certa cidade chamada Ur, na Babilônia Meridional, como o princípio de todas as coisas, isto é, de todas as coisas que lhe diziam respeito.

         É que dali, em época já muito remota (José nunca tivera cabal certeza de quão remota ela era), um homem pensativo e interiormente inquieto, com sua mulher, a quem ele, provavelmente por ternura, costumava chamar de irmã, partira com outras pessoas de sua família, para fazer como fazia a lua, que era a divindade de Ur, vagueando sem rumo certo, porque achava isto muito adequado à sua situação insatisfeita, dúbia, tormentosa… A tradução transmitida a José variava um tanto em relação àquilo que mais particularmente molestara o desassossegado… Diz a tradição que seu Deus (aquele Deus diante de cuja imagem seu espírito trabalhava, o mais alto dentre todos, único a quem resolvera servir por orgulho e amor, o Deus para o qual ele procurara um nome e não achara nenhum conveniente e por isso lhe dera o plural, chamando-lhe provisoriamente Elohim, a Divindade), pois bem, Elohim lhe fizera promessas de imenso alcance e claramente definidas, de acordo com as quais não só ele, o homem de Ur, viria a ser um povo tão numeroso quanto as areias do mar e uma bênção para todos os povos, mas também a terra onde ele vivia como estrangeiro e aonde o conduzira Elohim, tirando-o da Caldéia, seria possessão perpétua dele e de sua descendência… Por outras palavras, Deus fadara as populações nativas à derrota e à sujeição ao interesse do homem de Ur e de sua raça. Tudo isso, porém, deve ser acolhido com restrições, ou no mínimo com critério. Estamos lidando com interpolações posteriores, feitas deliberadamente para confirmar, como intuitos primitivos da divindade, situações políticas que de começo tinham sido estabelecidas pela força. Na realidade o espírito daquele homem erradio não era talhado para receber ou provocar promessas de natureza política… O que  o pusera em movimento foi desassossego de espírito, necessidade de Deus e se lhe foram outorgados favores, tinham relação com as irradiações do seu conhecimento pessoal de Deus, que era de uma espécie inteiramente nova

         Por vezes, José tinha o homem errático na conta de seu bisavô, embora tal idéia deva ser francamente afastada dos domínios do possível… e quando o fazia era para divertir o pensamento, o que condiz admiravelmente com o seu espírito, mas não ficaria bem ao nosso, sendo-nos portanto vedado fazê-lo… entre o menino José e a peregrinação de seu suposto antepassado no espírito e na carne mediavam bem, conforme o sistema cronológico em vigor na sua idade e esfera, vinte gerações, ou, em números redondos, seiscentos anos babilônicos, lapso de tempo tão longo como o que vai do nosso século vinte ao período gótico da Idade Média; tão longo quanto ele, no entanto muito menor… Seiscentos anos naquelas eras e embaixo daquele céu não significavam o que significam na nossa história ocidental. Era um período mais igual, mais silencioso, mais mudo; o tempo era menos eficiente, sua faculdade de suscitar mudanças tinha um alcance mais fraco e mais restrito, muito embora naquelas vinte gerações ele por certo produzira mudanças e revoluções de considerável monta… e contudo, tomado em conjunto, o tempo de então fora mais conservador que o tempo de agora, o teor da vida de José, seus modos e hábitos de pensar eram muito mais chegados aos seus do que os nossos em relação aos dos cruzados. A memória, repousando na tradição oral de geração a geração, era mais direta e confiante, fluía mais livremente, o tempo apresentava uma vista mais uniforme e por isso mesmo mais fácil de abranger. Não se pode censurar a José o encurtá-lo em seus sonhos, e estando alguma vez a devanear, talvez à noite, ao luar, confundir o homem de Ur com o avô de seu pai…. o seu desejo de achar um começo para a série de acontecimentos que lhe diziam respeito ia tropeçar na mesma dificuldade que sempre se contrapõe a um tal esforço, isto é: verificar que cada qual tem um pai, que nenhuma coisa é  a primeira e nasce de si mesma, nem é causa de si própria e que toda a gente é gerada e aponta para trás, mais fundo dentro da profundidade das origens, nos abismos e sumidouros do passado… Aqui o cérebro do jovem começava a sentir vertigens, exatamente como acontece ao nosso quando nos debruçamos sobre o poço do passado; e deixando de parte umas insignificantes inexatidões que a si mesma permitia sua linda e graciosa cabecinha mas que a nós não ficam bem, podemos sentir-nos bem próximos dele, quase seus contemporâneos, quando falamos nessas remotas profundezas e abismos do tempo em que ele, tantos séculos atrás, já fitava a vista.”

“Desta maneira são formados aqueles começos, aqueles bastidores do passado, onde a memória pode deter-se e acha um ponto-de-apoio para alicerçar sua história pessoal, como fez José em relação a Ur, a cidade, e a seu antepassado que dali partira. Era uma tradição de inquietação espiritual; ele a tinha no sangue.. tudo isso passando como um legado de geração a geração, desde o homem de Ur… Desassossego e dignidade, eis o sinal do espírito… [para José o Altíssimo] seria uma réplica superior de seu pai, e estava ingenuamente convencido de ser muito amado pelo Altíssimo exatamente como o era por aquele… em contrapartida, sua com toda a sua devoção, ele absolutamente não seguia nem aceitava a forma que ela tomara no caso de seu pai: o cuidado, a ansiedade, o desassossego, expressos na invencível aversão de Jacó por uma existência fixa, mais adequada à sua dignidade, e no seu modo de vida temporário, improvisado, seminômade. Também ele, sem dúvida possível, era amado, acarinhado e preferido por seu Deus… El-Shadai fizera seu pai rico na Mesopotâmia, rico em rebanho e inúmeras posses; caminhando por entre seu bando de filhos, seu séqüito de mulheres, seus servos e seu gado, dir-se-ia um príncipe entre os príncipes da terra, e era-o de fato, não somente na aparência exterior mas também pelo poder do espírito, na qualidade de nabi, isto é, o profetizador; na qualidade de homem prudente, sagacíssimo, cheio da ciência de Deus, como um dos chefes espirituais e anciãos a quem tinha tocado a herança do caldeu e que tinham por vezes sido considerados como descendentes diretos dele…. [mas era como] se ele não pudesse parar e criar raízes com outros, como se de hora em hora tivesse de estar à espera da Palavra que o faria deitar abaixo barracas e estábulos, pôr no lombo dos camelos as estacas, cobertores e peles, e partir… José, naturalmente, sabia por quê. Tinha de ser assim porque estavam servindo a um Deus cuja natureza não era repouso e conforto permanente, mas um Deus que tinha desígnios para o futuro, em cuja vontade coisas inescrutáveis, grandes, de longo alcance, estavam na fase de vir-a-ser e que, com  a sua vontade reflexiva e seus projetos sobre o mundo, estava ele próprio ainda no processo do vir-a-ser, sendo por isso um Deus de preocupações, de inquietude, que deve ser procurado, para o qual todos têm de se conservar desimpedidos em qualquer tempo, móveis e de prontidão

         Quanto a mim, que agora levo a termo a minha narrativa para mergulhar voluntariamente numa aventura sem limite, não esconderei minha compreensão nativa do mal-estar do velho e sua aversão a qualquer habitação permanente. Não me destinaram também a mim o desassossego? Não me foi dado um coração que desconhece o repouso? O astro do contador de histórias não será a lua, senhora da estrada, a vagabunda que vai de fase em fase, libertando-se de cada uma? O narrador faz várias pausas, andando e relatando, mas só habita em tendas, aguardando novas direções, e pouco depois sente que seu coração bate forte, quer de desejo, quer também pelo medo e angústia da carne, mas sempre como sinal de que deve tomar a estrada à cata das novas aventuras, que devem ser penosamente vividas até os seus mais remotos detalhes, de acordo com a vontade do espírito infatigável… O passado não é o elemento natural do narrador de história, a que ele se apega como o peixe à água? Sem dúvida. Mas, a falar assim, nem por isso meu coração cessa de pulsar de medo e curiosidade, provavelmente porque o passado pelo qual estou habituado a deixar-me conduzir para bem longe é muito diverso do passado ao qual agora desço, a tremor… Pois a essência da vida é o presente e só num sentido mítico seu mistério aparece nas formas temporais do passado e do futuro… o mítico é apenas o vestuário do mistério. Mas o traje domingueiro do mistério é a festa, a festa periódica que lança uma ponte sobre o tempo e torna o passado e o futuro concretos para o sentido do povo. Não é pois de admirar que no dia da festa a humanidade fermente e proceda com desenfreada desenvoltura; nela, morte e vida se encontram e se reconhecem. Festa de contar histórias, és o traje festivo do mistério da vida, pois evocas a eternidade na mente do povo e o mito, para que ele possa ser revivido no tempo atual.

            (Thomas Mann, Prelúdio: Descida aos infernos, em Histórias de Jacó, 1933)

“O que em substância há é que essa disposição de Deus não era originalmente dirigida nem contra Raquel nem a favor de Lia. Era antes uma advertência e uma disciplina para Jacó, que por meio dela ficava sabendo que a branda soberania que concedia a seus sentimentos,  a arrogância com que os acalentava e anunciava não eram vistas com bons olhos por Elohim, embora essa mesma tendência para a seleção, esse entregar-se em freio a um favoritismo arbitrário, esse orgulho do sentimento que não queria submeter-se a julgamento mas antes exigia que todo o mundo o tomasse pela sua avaliação, pudessem ser atribuídos primordialmente a um protótipo mais elevado de que era, de fato, a cópia mortal. Devo dizer embora? Precisamente porque a glorificação que Jacó concedia a seus sentimentos era uma reprodução da outra é que ela foi punida. Quem quer que se aventure a tocar nesse ponto deve tomar cuidado com suas palavras. Mas ainda depois do mais escrupuloso exame, não há dúvida de que o móbil principal da medida foi o ciúme que Deus tinha de um privilégio que, como ele procurou dar a conhecer com a humilhação a que submeteu o sentimento de Jacó, reputava como sua prerrogativa exclusiva. Podem levar-me a mal esta exegese, e hão de argüir que um motivo tão mesquinho e passional como o ciúme não quadra como explicação de decretos divinos. Aqueles, porém, que se escandalizam com a minha versão têm a liberdade de considerar o decreto como uma relíquia, espiritualmente não-digerida, de estágios antigos e menos disciplinados no desenvolvimento da essência divina… O pacto de Deus com o espírito humano atuante em Abraão era um pacto que tinha em mira a santificação mútua, uma aliança em que a necessidade humana e a divina de tal forma se misturavam que não é fácil dizer-se de que lado, o humano ou o divino, partia o impulso original…”

       (Thomas Mann, As irmãs, em Histórias de Jacó, 1933)

“Pela primeira vez, uma obra literária (que não tem a intenção de ser nem apologética do ponto de vista judaica nem exegética do ponto de vista cristã, mostra-nos, em Israel, ao mesmo tempo o que o une ao vasto mundo mítico e pagão e o que o separa dele) faz-nos assistir ao nascimento quase monstruoso da noção monoteísta de Deus”.

        (Marguerite Yourcenar a respeito do texto acima, em “Humanismo e Hermetismo em Thomas Mann”, ensaio de Notas à margem do tempo)

07/05/2010

SIMONE DE BEAUVOIR

SIMONE DE BEAUVOIR (1908-1986)

simone-de-beauvoir

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 26 de janeiro de 2008)

Num dos seus belíssimos livros autobiográficos, A força das coisas (1963), Simone de Beauvoir esclarece o que pede a uma obra literária: “a recriação de um mundo que envolve o meu e que lhe pertence, que me desambienta e me ilumina, e que se impõe a mim para sempre com a evidência de uma experiência que eu teria vivido”.

Janeiro quase vai indo embora e não é possível deixar em branco o centenário do nascimento (dia 9) de uma autora cujos textos me proporcionaram exatamente o que as palavras citadas descrevem. Infelizmente, quando ela não é reduzida a um satélite girando em torno do planeta Sartre, parece que só escreveu de importante O segundo sexo (1949), ou, quando muito, Os mandarins (1954). No entanto, sua obra é multifacetada, apaixonante e complexa, para além desses dois grandes títulos.

Exigente, ela mesma afirmou que “rabiscou” muito papel na década de 30, sem produzir nada satisfatório, tendo como óbice o espiritualismo católico que marcou sua infância e adolescência (antes de conhecer Sartre e seus camaradas), e principiando um processo em que a força das coisas destronaria o amor pelo absoluto e a busca obsessiva pela felicidade, núcleos do seu projeto pessoal (como ela narraria mais tarde em Memórias de uma moça bem comportada, de 1958, e A força da idade, de 1960; este último, o qual, caso interesse a alguém, é um dos meus livros prediletos, seria mais fielmente traduzido como “Na força da idade”).

a força das coisas

Curiosamente, no final da vida, ela permitiu a publicação de algumas dessas primeiras tentativas, novelas ligadas entre si, sob o título de Quando o Espiritual domina, e elas não se revelaram nem um pouco canhestras. Se aparecessem na época, contudo, não causariam o impacto do seu primeiro trabalho publicado, em 1943, A convidada, o meu outro favorito pessoal dentro da obra de Simone de Beauvoir. Escrito durante a ocupação de Paris pelos nazistas, com uma epígrafe inquietante de Hegel (“Toda consciência tem por objetivo a morte de outra”), mostra a rivalidade entre duas mulheres, num insólito triângulo amoroso (muito inspirado pelas experiências de Sartre e Simone como professores provincianos nos anos 30, antes da moda existencialista, embora a trama transcorra em Paris), que aos poucos se transforma num terrível confronto de consciências. A protagonista, Françoise, é uma daquelas personagens que se tornam quase nossas amigas pessoais, mas há a impressionante e exasperante Xavière, a “convidada” que se revela indesejável (e assassinável). Nunca esqueci uma passagem de A força das coisas em que o vanguardista Adamov fica chocado por Simone estar escrevendo um romance, com “começo, meio e fim”. Após a publicação de A convidada, ao reencontrá-lo, e esperando que a vitupere por tal atividade necrófila (já que o gênero morreu, segundo as vanguardas, aquela baboseira toda que escutamos vez em quando…), ele a surpreende com o seguinte elogio: “Ah, tem a Xavière, tem a Xavière!”

Sem terem a contundência de A convidada nem a amplitude e riqueza de Os mandarins, creio que é um erro subestimar (como a própria autora o fez) os dois romances intermediários entre ambos, O sangue dos outros (1945) e Todos os homens são mortais (1946). Gosto particularmente do segundo, um devaneio envolvendo o desejo de imortalidade, e já o reli com grande prazer, o que ainda não aconteceu com o outro, mais um ajuste de contas (cheio de altos e baixos) com as suas ilusões juvenis. Na mesma época, ela se lançou em outras direções: o teatro e o ensaio, culminando com a polêmica que cercou o brilhante Segundo sexo, que se tornou uma bíblia feminista, o que obliterou sua qualidade como estudo fundamental sobre processos de socialização e formação de mentalidades que se confundiram com fatores biológicos e atávicos, e que acabaram conduzindo a mulher a uma situação de cidadã de segunda classe. Não faz mal nenhum lê-lo; entre outros motivos, por ser incrivelmente bem escrito. A única coisa contra o livro, como já disse, é ter confinado Simone como a eterna “autora de O segundo sexo”.

o segundo sexo

Ainda bem que poucos anos depois ela triunfaria definitivamente na ficção com Os mandarins (inclusive ganhando o Goncourt, na época um prêmio que só perdia em prestígio para o Nobel, quando existia uma literatura francesa). É uma obra-prima, perfeitamente arquitetada, ao intercalar a história de Henri (a quem muitos associaram a Camus), dilacerado entre a literatura e os compromissos políticos, em 3ª pessoa, com a narrativa em 1ª. pessoa de Anne, a esposa de um intelectual importante, um “mandarim”, a qual, à margem das grandes questões francesas e mundiais após a Libertação, enfrenta seus próprios dilemas, igualmente dilacerantes. Parece que todos os grandes assuntos do século estão nas suas páginas. Há duas traduções muito boas do livro, uma de Maria de Lourdes Teixeira (um pouco rebuscada, é verdade), e a de Hélio de Souza, ainda em circulação (duas edições diferentes pela Nova Fronteira, ambas caras: 90 e 60 reais).

Os mandarins também marca um momento em que o casal Sartre-Simone, admirado ou combatido, dá as cartas na intelectualidade francesa, com repercussão mundial, o que vai se estender pela década seguinte.

simone e sartre

O centenário do nascimento de Simone de Beauvoir- balanço final

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em dois de fevereiro de 2008)

Seríamos caçadores de sentido, diríamos a verdade sobre o mundo e sobre as nossas vidas. Merleau achava-me otimista: estaria eu assim tão seguro de encontrar em tudo sentido? Ao que eu teria podido responder que o sentido do sem sentido existe e que nos competia descobri-lo. E sei o que ele teria respondido por sua vez: ilumina quanto tu queiras a barbárie, nunca conseguirás dissipar nela a obscuridade. A discussão nunca chegou a dar-se; eu era mais dogmático, ele era mais matizado, mas era uma questão de humor, ou como se costuma dizer, de caráter. Tínhamos ambos um mesmo desejo: sair do túnel, ver a claridade. (Sartre, Merleau-Ponty, 1961)

“A fraternidade que soldou nossas vidas tornava supérfluos e irrisórios todos os laços que eu e Sartre teríamos podido forjar. Para que, por exemplo, morar sob o mesmo teto se o mundo era nossa propriedade comum? E por que recear circunstâncias entre nós que nunca nos poderiam separar? Um só projeto nos animava: tudo abarcar e testemunhar tudo; ele mandava-nos seguir, em certas condições, caminhos diferentes sem roubarmos um ao outro o mais ínfimo dos nossos achados; juntos, nos dobrávamos às suas exigências, a tal ponto que no próprio momento em que nos dividíamos, nossas vontades confundiam-se. Era o que nos ligava e nos desligava; e, com esse desligamento, nós nos achávamos de novo ligados profundamente. (Simone de Beauvoir, A força da idade, 1960)

mandarins primeiro volumemandarins

As citações acima, de textos praticamente coevos, ajudam a esclarecer o projeto pessoal de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre até mais ou menos a época de Os mandarins (1954), romance que marca o auge da carreira da grande escritora francesa, nascida há 100 anos: um sentido de disponibilidade total, de aventura, desejo de “sair do túnel, ver a claridade”, “tudo abarcar e testemunhar tudo”. Um projeto otimista, quase se pode dizer (e é bom lembrar que se trata em ambos os casos de olhares retrospectivos, o que sempre significa uma releitura estudada, quando não tendenciosa, do passado).

Algum tempo depois de Os mandarins, ela iniciou seu ciclo de memórias, primeiro liquidando o espiritualismo católico que marcou sua formação em Memórias de uma moça bem comportada (1958). Aos poucos, com a Guerra Fria, no plano global; no plano nacional, a Guerra da Argélia e a ditadura de Charles de Gaulle; e, mais especificamente no plano da sua obra, com A força das coisas (1963), a nota de desencanto, de se encontrar “exilada em seu próprio país”, e à margem da voraz sociedade de consumo, é que prevalecerá na escrita de Simone de Beauvoir.

Se, no final de Os Mandarins, lemos: “Estou aqui. Eles vivem, falam comigo, estou viva. De novo saltei de pés juntos na vida… Ou se soçobra na indiferença, ou a terra se repovoa: não soçobrei. Já que meu coração continua batendo, será preciso que ele bata por alguma coisa, por alguém. Já que não sou surda, ouvirei chamarem-me de novo. Quem sabe? Talvez um dia eu seja feliz outra vez. Quem sabe?, em A força das coisas, predomina o ódio por seus compatriotas, o sentimento de desolação em meio a uma sociedade que compactua com a tortura, o massacre, a injustiça. Há também a percepção angustiada do envelhecimento: Bruscamente esbarro na minha idade. Esta mulher ultra-madura é minha contemporânea. Um senhor idoso, que se parece com um dos meus tios-avós, diz-me sorrindo que brincamos juntos no jardim do Luxemburgo. Em todas as esquinas, a verdade me assalta, e custo a entender por que astúcia ela me atinge de fora, quando é dentro de mim que ela mora… Muitas vezes, paro espantada diante desta coisa incrível que me serve de rosto. Detesto a minha imagem. Talvez as pessoas que me encontram vejam simplesmente uma qüinquagenária que não está bem nem mal: tem a idade que tem. Mas eu vejo minha cara velha, onde se instalou uma varíola da qual jamais me curarei”.

Mesmo assim, ela vive, escreve, sente, participa. E tudo isso é mostrado de uma forma quase milagrosa, ainda que no discurso ultra-organizado, cartesiano. Esse rigor discursivo, essa austeridade e transparência, não conseguem neutralizar a contradição (instigante, aliás, e que fornece a chave do livro) entre viver o horror de se sentir sitiada numa ditadura e dar o devido valor a instante, a uma paisagem, a um encontro, a um sentimento individual.

Em todo caso, ainda sobrou fôlego para alguns vôos ficcionais curtos, porém nada rasantes, como o pequeno romance As belas imagens (1966) ou as três narrativas que compõem La femme rompue- A mulher desiludida (1968).

O texto tardio de maior repercussão e impacto de Simone de Beauvoir acabou sendo o assombroso relato do declínio físico e mental de Sartre e sua morte, nas 150 páginas de A cerimônia do Adeus (o volume parece bem maior, mas é recheado com as caudalosas entrevistas que ela realizou, num autocentramento característico, com… Sartre!). Já havia o precedente do relato sobre a morte da mãe, Morte serena (ou, numa outra tradução, Uma morte muito suave); nada, porém, antecipava o tom cortante e quase cruel na sua secura dessa despedida literária, que parece colocar o fantasma do malogro daquela disponibilidade toda que as citações do início revelam até no fim, todas as contas feitas (título original do livro batizado por aqui como Balanço final). O próprio Sartre já havia indicado esse caminho sombrio ao descrever sua formação como leitor e escritor, ou seja, como praticante da literatura, como fruto da neurose, em As palavras. Uma coisa seja dita: ambos foram fiéis até o derradeiro instante a essa neurose. Ou ainda se trata do “tudo abarcar e testemunhar tudo”?

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Serviço: as trajetórias de Sartre e Simone de Beauvoir são a matéria do recente Tête-à-Tête, de Hazel Rowley. Tradução de Adalgisa Campos da Silva. Editora Objetiva. 462 págs.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2014/01/09/cinco-duplas-na-obra-de-simone-de-beauvoir/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/leitura-em-espelho-andando-na-sombra-de-doris-lessing-e-a-forca-das-coisas-de-simone-de-beauvoir/

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MILAN KUNDERA- LÚDICO E LÚCIDO

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APROVEITANDO UMA NOVA EDIÇÃO (mas vejam a diferença de capa) DE A IDENTIDADE,  em 2009:

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Além do texto em si, A Identidade causa interesse por confirmar dois movimentos que parecem irreversíveis na obra mais recente de Milan Kundera: em primeiro lugar, ele está se acomodando naquela seleta categoria dos que se servem de uma outra língua para escrever ficção de primeira linha (embora Joseph Conrad fosse polonês e tenha escrito seus livros em inglês, os casos mais parecidos com o de Kundera são os de Beckett e Nabokov, que escreveram textos em sua língua natal e depois adotaram outra língua), sendo A Identidade sua segunda novela em francês; além disso, ele cada vez mais inclina-se a títulos curtos, que tomam como base algum conceito geral (seus trabalhos anteriores intitulavam-se A Imortalidade e A Lentidão). Não se pode esquecer, também, que ele está lançando livros mais curtos. Significaria que está às voltas com outro idioma e isso travaria seu fôlego? Ou então está adotando uma perspectiva mais essencialista, já a partir do título?

Talvez se possa ter uma visão mais clara a respeito dessa questão num próximo livro. Por enquanto, A Identidade fascina e faz sonhar ao lançar inquietação não exatamente quanto à identidade pessoal, mas as “identidades” por aliança que constituímos ao longo das nossas vidas: os amores, as amizades. O protagonista do livro, Jean-Marc, visita no hospital um antigo amigo e fica incomodado porque ele pede a toda hora que se lembre de eventos antigos. Daí pensa: “eis aí a verdadeira e única razão de ser da amizade: fornecer ao outro um espelho em que ele possa contemplar sua imagem de antigamente”.

Jean-Marc trata interiormente a amizade com tanto descaso, quase desdém, porque criou uma espécie de “reino em separado”, de aliança contra o mundo, com sua mulher, Chantal. A ironia de A Identidade é que, a partir da pequena viagem de Jean-Marc em visita ao tal amigo, a sua identidade e a de Chantal enquanto casal começará a se deteriorar. Essa deterioração vai operar-se através de procedimentos tipicamente kunderianos: a princípio, Jean-Marc e Chantal tomam consciência dos seus desacertos consigo mesmos e um com o outro por meio de pequenas fórmulas filosóficas, aquelas mesmas que irritam tantos críticos e leitores de Kundera, até mesmo os que gostam muito de sua obra (como é o meu caso); depois, a trama encaminha-se para um qüiproquó vaudevillesco (não fosse ele autor do genial A valsa dos adeuses e dos contos notáveis de Risíveis amores), quando Jean-Marc resolve mostrar à esposa que ela continua atraente (apesar dos temores dela de não o ser mais), escrevendo-lhe cartas anônimas, como se fossem de um outro.

O problema é que Chantal começa a ver possibilidades romanescas em tipos masculinos das redondezas (até num mendigo). Jean-Marc sente ciúme das suas primeiras cartas e aí o enredo corre o perigo de esborrachar-se na frivolidade ou numa atmosfera sub-Alberto Moravia. Felizmente, a imersão do casal num pesadelo que o desloca até da sua referência espacial (vão para Londres), perdendo-se completamente um do outro, no sentido mais amplo da palavra, projeta o livro numa outra dimensão, que transfigura o clima vaudevillesco anterior numa necessária preparação. Pois Jean-Marc e Chantal começam a viver numa espécie de baile de máscaras, mudando rapidamente de papéis. A questão é: eles já não viviam determinadas (e limitadas) máscaras antes? E por que seriam confortáveis então e não se sentem mais assim nos papéis que surgem, nas novas máscaras, dentro da “pérfida fantasia” que os arrastou,como quer o narrador?  Se, como Jean-Marc pensou diante do amigo, a relação de amizade é apenas um espelho de um momento já perdido, qualquer relação afetiva duradoura, que tenha “existência” e “identidade”, não poderia ter o mesmo objetivo, ancorado no ilusório?

E, em Londres, solapados os momentos que “identificam” o casal Jean-Marc/Chantal, ela perde a memória do marido, já que ele não pode ser espelho presente de momentos passados: “Nesse momento de angústia extrema, aparece diante de seus olhos a imagem de um homem que luta contra a multidão para chegar até ela. Alguém lhe torce o braço atrás das costas. Ela não vê seu rosto, apenas seu corpo curvado. Meu Deus, gostaria de se lembrar um pouco mais exatamente dele, recordar seus traços, mas não consegue, sabe apenas que é o homem que a ama e isso é a única coisa que importa agora.”

    Portanto, apesar da nova língua, o grande autor tcheco prossegue com esses personagens que sempre alimentam um mal estar diante do mundo, quer seja o mundo totalitário de uma ditadura, quer seja o mundo da democracia, dominado pelo kitsch (quem não se lembra do trio Tomas-Teresa-Sabina, de A insustentável leveza do ser, os quais se sentiam desconfortáveis na ocupada Praga e na livre Zurique?). Ainda bem que o sucesso (pois ele teve sua época de “best seller”) não o privou da sua “identidade” como escritor, isto é, das suas obsessões. Seu texto continua fluindo leve enquanto trata das insustentáveis coisas que sustentam nossa vida diária com o peso da sua irrealidade.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de dezembro de 1998, quando da primeira edição de A Identidade, o primeiro dos livros de Kundera a ser publicado pela Companhia das Letras, e agora, em 2009, reeditado na série “Companhia de Bolso”; anteriormente, seus livros foram editados pela Nova Fronteira)

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A LENTIDÃO

a lentidão

É prudente deixar correr algum tempo sobre o lançamento de um livro de Milan Kundera. Como se exaltou o seu A Insustentável Leveza do Ser no momento da publicação no Brasil! Como Kundera foi alçado às alturas! O livro fez sucesso (merecido). E o vento virou. Começou a haver uma atitude de desprezo com relação ao autor tcheco. E depois um quase silêncio…

O leitor que atravessar essas brumas de avalon da má vontade e dos modismos descobrirá em A Lentidão, seu mais recente texto, uma deliciosa diatribe contra o mundo contemporâneo, a partir da reflexão sobre o valor da velocidade para nós, a partir da ida do casal Kundera a um castelo-hotel: “A velocidade é a forma de êxtase que a revolução técnica deu de presente ao homem”.

O pernoite no castelo contrasta nossos valores e nosso uso do tempo com os do século XVIII. Há um congresso de entomologistas, no qual interferem o exibicionismo político, o culto ao sucesso e o sentimentalismo que servem de pasto, todos eles, para a mídia: “Nossa estada no castelo coincidiu com a época em que, durante semanas, todos os dias, mostravam crianças de um país africano com um nome já esquecido (…como guardar todos esses nomes!), devastado pela guerra civil e pela fome”.

Fã do aspecto lúdico da literatura, aproximando-se muito, por causa disso, de Salman Rushdie, Kundera cria uma cadeia de qüiproquós sexuais envolvendo entomologistas, políticos, intelectuais e jornalistas, dentro do espírito daquela forma convencionalmente chamada de vaudeville (na verdade, quase sempre uma “comédia de erros”), bastante praticada no século XVIII, a qual já fora exercitada por ele num de seus dois melhores romances, A valsa dos adeuses (o outro, em minha opinião, é A brincadeira, contudo vale a pena ler seus outros trabalhos, são todos muito bons).

Novidade em A Lentidão é a estrutura, mais despojada do que a dos anteriores, em sua maioria escritos em sete partes e cheios de “leitmotivs” filosóficos. A aparentemente desconjuntada maneira de propor vários fios no começo do livro mostra-se intencional porque todos eles amarram-se no fim, quando um sedutor do século XX encontra um sedutor do século XVIII, encontro que condensa todos os temas.

Nesse exercício de leveza e maestria desagrada um pouco a inclusão do autor e de sua mulher como personagens, talvez justificada se pensarmos que Kundera não quer se isentar da sua diatribe. Ele quer mostrar o ridículo e o risível com compassividade e envolvimento, porém as passagens em que o casal aparece são as mais apagadas do romance.

Não importa. A Lentidão tem tantas coisas a mais que, assim como os livros anteriores, os defeitos pertencem a um conjunto poderoso e (por que não?) harmonioso como um texto de Voltaire: “Nada mais? Coisa alguma? Nada?  Numa súbita iluminação todo o seu passado aparece-lhe, não como uma aventura sublime, rica em acontecimentos dramáticos e sublimes, mas como a parte minúscula de uma barafunda de acontecimentos confusos que atravessaram o planeta em tamanha velocidade que é impossível distinguir seus traços, a tal ponto que talvez Berck tenha razão de tomá-lo por um húngaro ou um polonês, porque quem sabe se ele não é mesmo húngaro ou polonês, talvez turco, russo ou até mesmo uma criança agonizante na Somália?”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de dezembro de 1995)

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a ignorância 

                                                          A IGNORÂNCIA

Apesar das qualidades de A Lentidão e A Identidade, é com sua terceira novela escrita diretamente em francês, A Ignorância, que Milan Kundera reencontra plenamente o melhor da sua forma, agora que se encontra duplamente exilado, como cidadão e como escritor.

O exílio e as ambigüidades da nostalgia da pátria natal são temas de A Ignorância, um dos pontos altos da sua obra (e certamente sua maior realização desde A Insustentável leveza do ser, em 1983), onde ele executa com maestria a mágica de sobrepor ao enredo considerações filosóficas e existenciais, sem que o estilo perca o despojamento e a precisão que aperfeiçoou ao longo dos últimos anos, talvez em função da nova língua.

Mais uma vez, temos um mundo cheio de estranhos, isto é, os personagens experimentam desencontros e equívocos em situações que, para o sentimentalismo comum,  seriam claras e inequívocas: Irena e Josef, exilados tchecos que construíram suas vidas na França e na Dinamarca, são pressionados a “voltar à Pátria” após o fim do regime comunista, e percebem que nada mais têm a ver com as pessoas que reencontram, que suas vidas “verdadeiras” estão em outras partes.  Portanto, é um olhar estrangeiro que lançam sobre o país, assolado pela reconstrução (ou expropriação) capitalista, pela globalização e pela uniformização  crescente de tudo e de todos. Esse desconforto existencial é peculiar ao universo kunderiano e nos remete à emblemática Sabina de A insustentável leveza do ser, a qual entenderia perfeitamente o sentimento que se apossa de Josef ao deixar Irena no quarto de hotel, onde fizeram amor: “…ele nada sabia dela, mas uma coisa parecia clara: ela estava apaixonada por ele, pronta para ficar com ele, para deixar tudo, para recomeçar tudo… Ele tinha uma oportunidade, certamente a última, de ser útil, de ajudar alguém e, no meio daquela multidão de estrangeiros que povoa o planeta, encontrar uma irmã.”

Mais uma vez, entramos no planeta da inexperiência, onde tudo é fortuito e irrevogável e a soma dos anos acaba despida de consistência e identidade, traída pela memória ou pela nostalgia, ou por ambas. Carrega-se um “peso sem peso” no cômputo das coisas, por assim dizer. É esse o sentido de um belo diálogo de Irena com uma antiga amiga, Milada (ex-namoradinha de Josef; até tentou o suicídio por sua causa).Irena diz que casou para fugir da opressão representada pela mãe: “E, desde então, tudo estava decidido de uma vez por todas. Foi nesse momento que cometi um erro, um erro difícil de definir, imperceptível, mas que foi o ponto de partida de toda a minha vida e que nunca consegui reparar”. Milada acrescenta, explicando em parte o título do livro: “Um erro irreparável cometido na idade da ignorância. É a idade em que casamos, em que temos nosso primeiro filho, em que escolhemos nossa profissão. Um dia saberemos e compreenderemos muitas coisas, mas será tarde demais, pois toda a vida será a vida decidida numa época em que não sabíamos nada.”

Enfim, exilado na língua francesa, após alguns tateios e vacilos, com A Ignorância, Kundera reencontra seu tom, seu universo, seu laço secreto com a beleza, como Irena reencontra a “sua” Praga, que não é a Praga-clichê dos turistas e dos leitores e curiosos de Kafka: “É a essa Praga  que ela é afeiçoada, não aquela suntuosa, do centro… Sonhadora, ela caminha;  durante alguns segundos entrevê Paris,  que, pela primeira vez, lhe parece hostil: geometria fria das avenidas… e em nenhum lugar um único toque dessa intimidade amável, um só sopro desse idílio que ela respira aqui; aliás, durante todo seu exílio foi esta imagem que ela guardou como emblema do país perdido… ela se sentia feliz em Paris, mais do que aqui, um laço secreto de beleza a ligava só a Praga”.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  21 de maio de 2002)

 

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VAMPIROS E HIGH SCHOOL, DRÁCULA E ZACH EFRON

 

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Ontem assisti ao primeiro episódio de Vampire Diaries (Warner, 5as.feiras, 21 h) e foi o esperado em série capitaneada por Kevin Williamson: na linha de Dawson´s Creek  e de várias temporadas da não-williamsoniana na produção, porém bem parecida  na proposta, Smalville, temos esses jovens velhos, essas mensagenzinhas caretinhas (a irmã vai atrás do irmão viciado no banheiro dos homens para conferir se ele está “chapado” e lhe passar um sermão).  Tivemos o cemitério de praxe do livro, a floresta onde jovens incautas penetram à noite, a ausência dos adultos, a melhor amiga da heroína branca (agora, sempre uma negra), que são figuras de fundo geralmente chatas e empatadoras…

Fell´s Church do livro se transformou em Mystic Falls. Achei bem inteligente nos pouparem do ridículo de fazer com que Stefan e Damon fossem oriundos da Florença Renascentista. Não, aqui eles são da época colonial dos EUA, e talvez a guerra de secessão substitua a Renascença, o que é uma perspectiva muito mais convincente. Eles também não perderam tempo em tentar fazer com que a aparência dos vampiros fosse muito marcada: são dois mauricinhos e pronto (Stefan agora mora com um suposto “tio” e não mais numa pensão, como no livro).

O que estraga é que os dois atores são de lascar: em meio a todos os bonitinhos insípidos, escolheram justamente um ápice de insipidez: Paul Wesley, que é literalmente um “cara de nada”. Triste, preocupado, apaixonado, apavorado, em luta, em repouso, ele mantém, impávido, a mesmíssima cara de nada. Chega a ser cômico que as jovenzinhas do lugar se digladiem por ele, tanto que nem insistiram muito nesse aspecto (bem acentuado no livro). Quanto a Ian Somerhalder, quando ele apareceu em alguns episódios de Smalville, sem se destacar exatamente pelo talento, chamou atenção pela sua beleza, digamos “pura”, irretocável. Depois, ele participou da primeira temporada de Lost e de lá para cá o que aconteceu? Acho que não vão cair no ridículo de colocá-lo como jovem de ensino médio (não é a linha de Damon), como aconteceu com o Duda Nagle, em Caminho das Índias. Só que ele está com cara de plástico, parece embotocado, ou maquiado demais, comprometendo toda a sua beleza, ou seja, sua maior qualidade, já que no quesito carisma, personalidade ou talento…

Apesar do escândalo que é a cara sambada do elenco (Paul Wesley interpretar um jovem no ensino médio é uma piada, e não só ele; pelo menos poderiam adaptar a trama para alguma universidade provinciana), gostei da heroína Nina Dobrey, que no meio da insipidez geral, da inexistência de Wesley e da canastrice de Somerhalder, conseguiu o tom exato de sua Elena. Não sei o que vai ser da série, se ela vai vingar,ou o que vai ser da carreira de Nina Dobreý. Só sei que ela é a  melhor coisa de Vampires Diaries até agora. Ou a única coisa.

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O DESPERTAR, GENÉRICO DE CREPÚSCULO?

De quando em quando, os vampiros ressurgem dos seus túmulos e assolam a indústria cultural, abocanhando um suculento lucro. O tremendo sucesso dos romances de Stephenie Meyer (Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse, Amanhecer), agora prolongado no cinema, é certamente o marco da nova aparição daquelas figuras que nunca morrem. E dia 22, quinta-feira, estréia na Warner, o seriado Vampire Diaries, baseado em outra série de sucesso.

Confesso que não consegui encarar a empreitada de ler Meyer (só Crepúsculo tem 416 páginas, na edição brasileira), contentando-me com seu genérico: O Despertar, primeiro volume de Diários do Vampiro, tem apenas 236 páginas. Curiosamente, embora pareça vir na esteira do sucesso da rival, a série de L.J. Smith é muito anterior. Os livros iniciais foram lançados em 1991. Mas ainda que apresentassem alguma inovação impactante (não apresentam), Smith nunca mais vai poder se livrar da sombra de Meyer.

O único detalhe que diferencia O Despertar das histórias similares é que seus vampiros sobrevivem ao amanhecer e à luz solar, desde que usem um amuleto protetor, de tal forma que um deles pode freqüentar a escola e se tornar um elemento importante no time local.  Os irmãos Stefan e Damon (um, bonzinho; o outro, malvado) foram transformados no século XV, em Florença, pela menina que os dois amavam e que acirrara a rivalidade entre ambos. Reaparecem em Fell´s Church, na Virginia, como pretendentes de outra garota, Elena, a qual se parece com  a primeira amada. Original, não?  E, como já se convencionou, a figura dos vampiros  é sempre a de um dândi, cavalheiresco e meio lânguido (Damon  é perverso, mas charmoso e atraente).

É claro que com toda a vivência de séculos dos dois vampiros, e ainda mais tendo vivido na Renascença, eles acham o máximo encanto da vida e da existência se enterrar em cidadezinhas provincianas dos EUA, e viver toda a magia única da vida do ensino médio, com sua obsessão pela popularidade, pela identificação dos “perdedores”, pelos bailes de formatura, pela rainha da festa, e toda aquela avalanche de estereótipos e figuras carimbadas que já vimos em milhares de filmes. O curioso é que Smith tenta nos mostrar que os estudantes que estão no topo da popularidade, os belos, os atléticos, são o equivalente da nobreza de outros tempos.

As jovens do livro acreditam no “amor eterno”, quando encontrarem o “cara certo”, vão ao cemitério (que estão sempre abertos a qualquer hora) para conversar com  os pais mortos (a protagonista inevitavelmente tem um histórico de tragédia familiar, já notaram?), sempre têm pressentimentos certeiros e  conseguem conciliar todas essas emoções avassaladoras e experiências aterrorizantes (presença de vampiros, sepulcros abertos, assassinatos, etc) com trabalhos escolares, futricas e rivalidades comezinhas. Vampiros com séculos de experiências são abalados pela força de personalidade de jovenzinhas provincianas.

Por falar em experiência, só alguém muito jovem pode ler um livro desses e levá-lo minimamente a sério, até como fabulação. Não há nenhum momento em que O Despertar não seja absolutamente previsível: Elena vê um corvo meio ameaçador, e, é claro, descobre no final que se tratava de Damon., o irmão mau. Há um baile de Halloween e qualquer um percebe que um antipático professor de história, com o qual Stefan teve um entrevero, e que está fazendo o papel de uma vítima sacrificial druida, será realmente morto –por Damon—e que herói levará a culpa; há até aquele momento em que, ainda não sabendo que Stefan a ama, e sentindo-se desprezada por ele, Elena vai a um lugar ermo com um boçal da escola e  é quase surrada e estuprada e… é salva por Stefan.

Smith nos dá a era high school da temática vampiresca (não à toa, o criador da série televisiva é Kevin Williamson, de Dawson´s Creek, aquele seriado com jovens que pareciam velhos, jovens com corações,mentes e almas já senis). Enfim, é o mundo reduzido à visão adolescente. Só falta a aparição do Zach Efron e a trilha sonora do Jonas Brothers. Não há nada de errado em alguém se iniciar na leitura através dessa série de L.J. Smith. Mas qualquer pessoa com mais de 16 anos que se encantar com essa história levantará as mais sérias suspeitas…

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de outubro de 2009)

INTRODUÇÃO (18.10.09)

Na época da minha adolescência (estou falando aqui do final dos anos 70), após alguns anos de ostracismo, a figura do vampiro voltava: foi a  época dos antípodas Drácula, de John Badham, e Nosferatu, de Werner Herzog. Este, um belo filme; aquele, uma breguice (embora fosse uma produção “A”, que resgatava Drácula das sub-produções da Hammer inglesa, o filme envelheceu bastante) que trazia Frank Langella posando de vampiro-galã, numa composição que parece hoje meio cômica ou, no mínimo, equívoca, apesar de que o objetivo, na época, era deixar explícito o conteúdo erótico das investidas do vampiro e que as donzelas mordíveis e mordidas no fundo ansiavam por aquilo. Já o vampiro de Herzog era mais na linha da figura patética, quase de dar pena, com sua aparência verdadeiramente de morto-vivo (uma genial encarnação de Klaus Kinski), que Murnau imprimira à tradição pós-Bram Stoker.

A partir daí, volta e meia surgem ondas vampirescas, algumas avassaladoras (como a série de Anne Rice, uma gay fantasy, que fez sucesso também em filme. Gosto muito do livro Entrevista com o Vampiro e o filme é bom, mas o resto da série me deixa impaciente; o Drácula de Coppola, que uniu com rara felicidade, o conteúdo erótico, o patético, e o aterrorizante, com ênfase nos três, o que o torna a mais ampla abordagem do tema; os vampiros  de John Carpenter. uma sacada genial); algumas nem deixando marola (como a série–primeiro no cinema e depois na tevê–Blade. Só não posso deixar de dizer que Anjos da Noite, que está nesse sub-patamar, pelo menos tem a mais bela das vampiras: Kate Beckinsale, a qual teve, aliás, uma overdose  do sub-gênero, pois participou também do péssimo Van Helsing).

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Hoje novamente estamos em pleno vampirismo. Nos últimos anos, alguns seriados também abraçaram o tema: tivemos, entre outros, Blood Ties (exibido pelos canais AXN e Animax), com um vampiro-dândi, Henry Fitzroy, filho de Henrique VIII, vejam só, e que era companheiro de investigações sobrenaturais da detetive Vickie Nelson. Baseado em livros de Tanya Huff, o seriado tinha como atrativo a deliciosamente sedutora, fugindo de qualquer modismo de sensualidade, Christina Cox, uma das mulheres mais atraentes já vistas em qualquer série, capaz de ser gostosa utilizando comportado coque, cabelo preso e óculos. Tanto que quando vi um episódio pela primeira vez, não botando muita fé, não consegui desgrudar os olhos, não pela trama, pelos personagens (que até não são dos piores), mas pelo incrível magnetismo e pela presença de La Cox.

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O ousado e afrontoso True Blood talvez seja a mais original, ou pelo menos, a mais alternativa entre as releituras do vampirismo no cenário atual. E tem o correspondente masculino de Christina Cox no sentido de explosão de sensualidade e talento: Ryan Kwanten, o desajustado  irmão de Anna Paquin, a protagonista. Que diferença dos aguados Zach Efron e Robert Pattinson, que são bonitos, mas parecem virtuais, bonequinhos de bolo de noiva.

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