MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/11/2012

Machado quintessencial: a contística do bruxo

Machado de Assis - Ivárias

 SOBRE CONTOS MACHADIANOS VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/12/02/pra-ingles-ver-segunda-parte-machado/

SOBRE ROMANCES MACHADIANOS:

https://armonte.wordpress.com/2012/12/01/o-gume-afiado-do-machado-e-o-realismo-simbolico-a-thomas-mann/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/01/o-gume-afiado-do-machado-e-a-luva-de-pelica-a-jane-austen/

I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de abril de 2005)

Machado de Assis vinha sendo sistematicamente maltratado por edições horríveis das suas obras. Era muito difícil encontrar alguma obra individual, principalmente as reuniões de contos, que não fosse preparada com fins paradidáticos ou que não merecesse um tratamento editorial inferior (estamos falando aqui de capas, diagramação etc), de causar desgosto.

Algumas editoras, como a Ateliê e a Martins Fontes, estão mudando esse panorama. A última acaba de publicar a mais decente edição já vista por quem assina esta coluna, de Várias histórias (1896), uma das três coletâneas machadianas fenomenais (junto com Papéis avulsos e Histórias sem data), por serem mais coesas, sem o caráter de miscelânea de que se ressentem, por exemplo, Páginas recolhidas e Relíquias de casa velha).

O quilate de Várias histórias pode ser avaliado pelo seguinte fato: quando John Gledson, o inglês que tem ajudado os brasileiros a entender melhor a obra de nosso maior escritor, preparou (em 1998) uma antologia de 75 contos para a Companhia das Letras, ele só excluiu dois dos dezesseis que o integram: Mariana (aparece ali outro conto com esse título, mais antigo) e, injustamente, o delicioso O cônego ou A metafísica do estilo, a história do encontro amoroso difícil entre um substantivo e um adjetivo em meio ao ato de escrever um sermão, além de ser uma intuição formidável dos processos de associação da mente: “ Grupos de ideias, deduzindo-se à maneira de silogismos, perdem-se no tumulto de reminiscências  da infância e do seminário. Outras ideias, grávidas de ideias, arrastam-se pesadamente, amparadas por outras ideias virgens. Coisas e homens amalgamam-se, Platão traz os óculos de um escrivão da câmara eclesiástica…memórias  pias e familiares cruzam-se e confundem-se. Cá estão as vozes remotas da primeira missa, cá estão as cantigas da roça que ele ouvia cantar às pretas, em casa, farrapos de sensações esvaídas, aqui um medo, ali um gosto, acolá um fastio de cousas que vieram cada uma por sua vez, e que ora jazem na grande unidade impalpável e obscura…”

   E qual seria o improvável melhor momento nesse mundo de melhores momentos, nessa experimentação incessante de formas de narrar? Seria Entre santos, no qual se flagra a conversa noturna dos santos de uma igreja, “terríveis psicólogos… desfibravam os sentimentos de cada um, como os anatomistas escalpelam um cadáver”, a respeito dos fiéis do dia?

Ou seria O enfermeiro, onde após assassinar involuntariamente seu paciente, o protagonista herda sua fortuna e o remorso progressivamente esvai-se na razão direta em que desfruta do imenso legado? Seria Uns braços, história de um menino de 15 anos, agregado à casa de um irascível comerciante e que fica fascinado com os braços da mulher do patrão, numa das melhores representações da imaginação erótica já escritas (e mais um flerte com o adultério na obra machadiana) ?

Seria A causa secreta, onde um filantropo se revela um sádico, capaz de saborear até as reações de dor de um apaixonado por sua mulher (e que poderia ter sido seu amante) diante do caixão dela? Seria Trio em lá menor, no qual a protagonista antecipa a Flora de Esaú e Jacó ao não se decidir entre dois homens, ficando satisfeita apenas quando os funde em sua mente? Seria Um homem célebre, em que um talentoso compositor de polcas vive insatisfeito por não compor música “séria”, um belo exemplo de alienação de um artista afinado com a arte de seu país e tentando, no entanto, ser “outra coisa” para a qual não nasceu (e esse texto é muito revelador a respeito do próprio autor, um dos primeiros profissionais da escrita que tivemos).

São, todos eles, contos famosíssimos. Há outros nem tão conhecidos, mas bárbaros (Dona Paula, por exemplo). E há outros, conhecidos de sobejo, e que causam certo fastio por terem sido tantas vezes incluídos em antologias escolares, e nem sempre pelos melhores motivos (pois havia o mito de Machado como exemplo do “belo escrever”, do estilo escorreito). É o caso de Um apólogo, de Conto de escola e, um pouco menos, de A cartomante, o qual, numa releitura, se revela  um modelo de perfeição e um texto perturbador. Como diz o preparador da edição (Hélio de Seixas Guimarães), muito bem comparando A cartomante  e Entre santos, “o contista deixa claro que nada será poupado, nem o ceticismo do cético, nem a crença do crente…”

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II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de dezembro de 2005)

Leio todos os anos os três principais romances (Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba & Dom Casmurro) de Machado de Assis, e sua coletânea de contos Papéis avulsos. Em 2005, não houve motivo para queixas quanto a essa última, a qual finalmente ganhou uma edição recente (pela Martins Fontes) digna da sua importância.

Publicada em 1881, é composta por 12 textos, todos eles especiais, alguns indispensáveis, caso de O alienista: se a língua portuguesa tivesse maior divulgação, ele seria tão famoso e comentado quanto as maiores obras-primas do século XIX. A história do médico Simão Bacamarte, que obtém o poder de trancafiar qualquer um no seu hospício, a Casa Verde, desde que julgasse que a pessoa pudesse apresentar um mínimo sintoma de perturbação mental, e com isso aterroriza a Vila de Itaguaí (pois de perto ninguém é normal), faria inveja ao Foucault que denunciou o controle social embutido no conceito de “loucura”.

Machado desmonta toda a autoridade opressiva que a ciência e a razão adquiriram a partir da Revolução Francesa e também os mais diversos tipos de retórica pomposa e vazia, incluindo aí o Romantismo aguado e reles que tanto sucesso fez (e faz) aqui no Brasil. Por isso, entre os muitos episódios deliciosos, talvez nenhum seja tão mordaz (tirando o final, é claro) como aquele em que Martim Brito, candidato provinciano a D. Juan, declama um discurso enaltecendo a insossa esposa do alienista, “em que o nascimento de D. Evarista era explicado pelo mais singular dos reptos. Deus, disse ele, depois de dar ao universo o homem e a mulher… Deus quis vencer a Deus e criou D. Evarista”. Reação do marido: “Trata-se de um caso de lesão cerebral, fenômeno sem gravidade, mas digno de estudo”; e lá acaba o orador peralvilho na temível Casa Verde, para desgosto da senhora  alvo do elogio.

O alienista é insuperável, mas tem também Teoria do medalhão, aquele famoso diálogo entre pai e filho, que explica o comportamento dos nossos políticos (as Tvs Senado e Câmara mostram a aplicação da teoria diariamente); tem o magnífico Dona Benedita, que já começa com uma frase maliciosa (“A coisa mais difícil do mundo, depois do ofício de governar, seria dizer a idade exata de D. Benedita”) e que poderia ser o equivalente feminino de Brás Cubas no estudo da superficialmente simpática, mas no fundo revoltante, volubilidade da alta burguesia brasileira. E que final genial, com o aparecimento da Fada Veleidade, que presidiu o nascimento da heroína!

Há o inquietante O espelho, que acabou desafiando Guimarães Rosa a criar outra obra-prima com a mesma temática: o protagonista só tem certeza da sua identidade e existência vestindo a personagem, por assim dizer. Solitário, abandonada, só a sua farda, vestida frente ao espelho, garante-lhe o sentimento de estar no mundo e ser alguém.

E a “realidade” moldada pela propaganda, pelo apelo publicitário, pela opinião pública, é, com incrível poder de antevisão, dissecada no impagável e mortífero O segredo do bonzo: “Se puserdes as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos em um sujeito solitário, remoto de todo contato com os homens, é como se eles não existissem”.

Deus quis vencer Deus e, sendo brasileiro, criou Machado de Assis, Que sorte a nossa!

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III

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de setembro de 2008)

Só faltavam Páginas Recolhidas e Relíquias de Casa Velha para a Martins Fontes completar sua edição das sete coletâneas de Machado de Assis. Ela agora os lança num só volume, no qual Marta de Senna adotou um ousado (e bastante acertado) critério: reproduzir apenas os contos e sacrificar o feitio de “miscelânea” que os caracterizava originalmente.

Em 1899, momento de Páginas Recolhidas, Machado estava no pleno domínio do seu gênio, tanto que lançaria no final desse ano (e do século) Dom Casmurro; ao mesmo tempo ele tinha o seu lado “Academia Brasileira de Múmias”, que infelizmente ele fundara dois anos antes, portanto estava impregnado do horrível compadrio de literatos medíocres, que o fez achar talvez insuficientes os oito contos que escolheu na sua prolífica produção, e acrescentar evocações do Império, uma peça chinfrim, crônicas imemoráveis e, pior que tudo, um discurso por ocasião do lançamento da pedra fundamental de uma estátua de José de Alencar (aliás, Machado protegeu o filho dele, Mário de Alencar, com um afinco que o levou a cometer graves injustiças literárias). Que bom é às vezes o desrespeito à memória. Se a Universidade e a crítica adotassem atitudes como essa, e não uma veneração supersticiosa que nivela as obras-primas e a cartilha de beabá dos escritores, seríamos poupados de muita porcaria. Pois o que emerge da “limpa” realizada por Marta de Senna é o que realmente importa, mesmo que nos últimos tempos queiram nos convencer de que a crônica machadiana é o máximo e atingiu os píncaros da percepção e acuidade (leitor:dê preferência ao nosso supremo criador literário, que também é um mestre na arte de contar histórias especiosas, se não daqui a pouco teremos textos circunstanciais suplantando sua ficção).

É em Páginas Recolhidas que encontramos Missa do Galo, o equivalente miniaturesco de Dom Casmurro em narração enganosa e maliciosa, na história da tentativa de sedução de um adolescente, evocada (e fantasiada?) por ele anos depois; igualmente perfeito é O Caso da Vara, mais uma prova da miopia dos que acham Machado um escritor alienado dos problemas sociais. São dois textos assombrosos: parece não haver uma palavra a mais ou a menos. Um Erradio não fica muito atrás, ao satirizar as febres de inspiração literária que acometem a juventude (principalmente num país de “emoção fácil” como o nosso), e a facilidade da acomodação à vida burguesa e “prosaica”. Lendo sob o prisma da aparente “acomodação” do próprio Machado, ele se torna mais fascinante ainda. Já Eterno!, além de ser um dos melhores contos “profissionais” e brejeiros da produção machadiana tardia, ainda foi parafraseado num grande poema de Carlos Drummond de Andrade. E há o fulminante Papéis Velhos em que o parlamentar preterido para um ministério pensa em abdicar da vida pública, mas o desenrolar da narrativa vai dissuadi-lo de uma forma que é uma mortífera anatomia do nosso gênero de políticos. Os outros quatro não fazem feio (principalmente Idéias de Canário), mas esses são as jóias da coroa.

 

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IV 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de setembro de 2008)      

“Preguiça amamenta muita virtude”.

Frases como essa fazem as delícias dos apaixonados por Machado de Assis. No ano da sua morte, ele publicara seu último romance, Memorial de Aires, risivelmente tomado por muitos como uma espécie de “reconciliação com a vida”, escrito num tom mais compassivo e benévolo. O autor deste artigo pensa justamente o contrário, e acha Machado mais perverso ainda por trazer sua corrosividade disfarçada de um modo ainda mais sutil e enigmático do que qualquer uma de suas experiências ficcionais anteriores.

A citação de abertura pertence a Marcha Fúnebre, um dos cinco contos da sua derradeira coletânea, Relíquias de Casa Velha (1906), que ainda não tinham sido publicados na imprensa. Entre eles, encontram-se os dois melhores textos curtos dessa fase final da sua produção: o impactante e inesperado Pai contra Mãe, um dos raros momentos não enviesados em que ele apresenta a escravidão, numa situação brutalmente dramática, e um dos poucos entre os nove textos que não apresenta um tom cansado, saturado de profissionalismo e maneirismo, em que as obsessões machadianas já estão vazadas num molde já “de mestre”, sem o vigor de outrora; e, bem no meio, dividindo a seleção, Suje-se Gordo (ou seja, cometa um crime de monta, não um reles, café pequeno), súmula brilhante da sua preocupação com a desfaçatez imoral com que a sociedade brasileira é conduzida desde sempre; e, seguindo a mesma linha (e o melhor entre os não-inéditos) Evolução (de uma safra mais antiga e forte, 1884), que mostra um sujeito que se apropria das opiniões e concepções alheias.

Quem já conheceu alguém assim (é o caso de quem assina esta coluna) se delicia particularmente, como na passagem em que se descreve a volúpia de Benedito com os clichês protocolares do parlamento (fáceis de serem surrupiados): “Saboreava-os tanto que eu não sei se ele aceitaria jamais a liberdade real sem aquele aparelho verbal; creio que não. Creio até que, se tivesse de optar, optaria por essas formas curtas, tão cômodas, algumas lindas, outras sonoras, todas axiomáticas, que não forçam a reflexão, preenchem os vazios, e deixam a gente em paz com Deus e os homens.

Aqui Machado está muito mais afiado do que nas graças já requentadas e quase preguiçosas de Marcha Fúnebre (embora sempre cintile o gume de uma frase perfeita aqui e ali): “Quando rezava, ao levantar da cama, o Padre Nosso, não imitava um de seus amigos que rezava a mesma prece, sem todavia perdoar aos devedores, como dizia de língua; chegava a cobrar além do que eles lhe deviam…” Nem parece um texto que começa tão fulminante: “O deputado Cordovil viera cedo do Cassino Fluminense… e durante o baile não tivera o mínimo incômodo moral nem físico. Ao contrário, a noite foi excelente; tão excelente que um inimigo seu, que padecia do coração, faleceu antes das dez horas, e a notícia chegou ao Cassino pouco depois das onze”.  É esse o Machado que não morreu em 29 de setembro de 1908 e jamais morrerá.

 

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27/11/2012

Destaque do Blog: “Diário de um médico louco”, de Edson Amâncio

 

             

“E tenho especial apreço por meu aparelho de endoscopia e meus livros…”

 “Como estou inabalavelmente determinado  a continuar o diário—só Deus sabe se vou acabá-lo—preciso estabelecer regras fixas, pois me propus, também, antes do ´desfecho final´, a ler, como assinalei em outra parte, todos os livros da estante na ordem em que estão colocados…”

“… passo agora o dia todo a escrever o diário. Como essa tarefa deverá ser a última coisa que realizo e vida, dá-me prazer ainda maior do que o trabalho diuturno. Dá-me a sensação da onipotência, da onisciência, de ser dono dos meus dias, das minhas horas e minutos, da minha verdade enfim…”

(uma versão  da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, de 27 de novembro de 2012, com o título Uma literatura a salvo de modismos)

                                         I

Pensei muito no que poderia escrever a respeito da experiência da leitura de Diário de um médico louco que não fosse a óbvia vinculação a uma certa linhagem na ficção  cujo protótipo encontramos em Diário de um louco (1835), de Gógol[1]: trata-se do discurso de alguém que já não distingue o que é realidade ou delírio, um discurso desassossegante porque deixa entrever que toda noção de realidade, no final das contas, não passa de uma ficção. É o reino de Poe, Dostoiévski, Hoffmann, Robert Walser, entre outros, além do já referido e paradigmático Gógol.

Como inserir o romance de Edson Amâncio na ficção brasileira atual, ainda mais quando ele utiliza o recurso consagrado, mas algo anacrônico (a não ser que seja retomado de forma paródica), tão século XIX, de um primeiro narrador apresentar-se como depositário do diário do colega, que desaparecera?

Lembrei, então, de Tólia, conto de Ricardo Lísias publicado na GRANTA dedicada aos melhores jovens escritores brasileiros, em que o narrador (chamado Ricardo Lísias) desiste de todos os seus investimentos existenciais (o xadrez, a literatura) e, na Rússia, se junta a uma comunidade mística,  dedicada ao silêncio radical e à reunião de Mestres dispersos pelo planeta, que possam levar a humanidade a outro estágio de evolução.

Tólia faz parte de um recente ciclo na obra de Lísias (ao qual pertencem também os contos Meus três Marcelos, Evo Morales e o romance O céu dos suicidas), que tem como tema recorrente as experiências “malucas” e dissociativas de um protagonista homônimo (o qual se encontra um tanto quanto “surtado”) do autor. E é uma ótima amostra de uma prática que anda muito em voga, a autoficção: experiências pessoais deformadas e reformatadas, criando um universo movediço, um terreno pouco firme (típico da pós-modernidade), onde o leitor perde a noção do que é fato e do que é forjado, “fingido” na vida do autor-personagem em questão[2].

Posso me arriscar a arrolar Diário de um médico louco também nessa linha, com a ressalva de que o narrador (chamado simplesmente Dr. B.) não tem, como nos casos mais exemplares da autoficção,  o nome do autor. Faço essa alegação porque, sem dúvida, ali estão experiências vividas biograficamente (viagens a Paris e à Rússia, por exemplo; aliás, a pátria de Dostoiévski, como acontece em Tólia, ocupa largo espaço no romance: “Pela primeira vez eu viajava com quem chega a um lar durante muito tempo abandonado. Eu não era um turista, nem mesmo um simples viajante. Eu era um russo. Eu estava de volta à casa…”), com as quais ele joga de forma a desconstruí-las, ao contá-las sob o ângulo da consciência alterada e disfuncional (ao mesmo tempo, não se vexando em se valer de um topos literários já cristalizado no imaginário do leitor ocidental): “..quando fui tomado de uma estranha sensação que já se apoderou de mim em outras ocasiões. É como seu eu estivesse vivendo outra vida, como se não fosse eu que estivesse presente ali naquele quarto, e um impostor tivesse se apoderado do meu espaço e do meu próprio ser. Naqueles poucos segundos transportei-me para os lugares mais recônditos de Petersburgo, aqueles lugarzinhos que eu já havia visitado de outras vezes, becos escuros onde se escondem os pequenos demônios russos, escadarias imundas e malcheirosas, por onde circulam bêbados e as mais disformes criaturas do submundo…”

A lógica que guia o percurso narrativo está contida na seguinte passagem: “… eu não me esquecia de como utilizar meu endoscópio, mas era incapaz de encontrá-lo quando precisava.”

Médico em Santos, o Dr. B. narra como a vontade de suicidar-se foi se inoculando em seu ser. Como tantos anti-heróis literários, ele também é visitado pelo diabo, e no ir-e-vir não muito cronológico e linear de seu diário,  e em todas as anedotas biográficas (por exemplo, em Paris, é acometido pela tentação de roubar um desconhecido que sacara alta quantia no banco, e repassa cada giro mental—até atingir a ideia de latrocínio—a partir do impulso original, naquela mistura tão típica de método e racionalidade com estado-limite da mente), ele sente a presença zombeteira dessa entidade, instigando-o e espicaçando-o: “Já lhes falei que o Mestre me visitou certo dia (os russos o chamam assim). Isso mesmo, o demo em pessoa (…) Vejam a que ponto cheguei. Em poucos segundos vocês começam a imaginar que sinto falta dele. Explico melhor. Antes de tudo, é uma criatura sem travas na língua. Um conversador nato. Nada de monossílabos, como estamos hoje acostumados. A  pessoa acomoda-se diante de você e não abre a boca. Ninguém mais sabe conversar…”

                                      II

Portanto, Edson Amâncio poderia se gabar de ver seu romance associado a duas práticas recorrentes entre os “melhores” escritores jovens,  e em vários deles (não é o caso de Lísias decerto) , tomadas como se fossem a reinvenção da roda: além da autoficção, a intertextualidade. O que diferencia abissalmente Diário de um médico louco é que justamente o mergulho que nos proporciona na literatura (pois o Dr. B. é useiro e vezeiro na citação de autores) revela-se antípoda à usual complacência dos praticantes desse jogo metaficcional: pois ele nos insere no coração de uma linhagem criativa que propõe o mais doloroso e profundo diagnóstico das fraturas da condição humana, da situação aberrante de sermos criaturas tão racionais e ao mesmo tempo presas de instintos primitivos, de pulsões destrutivas e derrisórias. É o ato de escrever conforme caracterizado por Pedro Meira Monteiro: “A escrita nunca é liberação. Quando escrevemos selamos acordos com uma corte de demônios que mal conhecemos”.

E o uso de um alter ego negativo, o Dr. B, aponta justamente para o lado “saudável” da literatura: enquanto todo o universo da loucura, da fragmentação do ser, das dicotomias dilacerantes, aponta para o caos, para a ausência de sentido, o discurso literário—mesmo passando a pente fino toda essa realidade lancinante—é ainda a ordem, a coerência, a possibilidade de um “remate de males”, no mínimo.

Ricardo Lísias (o personagem) e o Dr. B. perdem a partida contra a realidade, e mergulham no autoengano da loucura, procurando suavizar o estado de vexame existencial em que estavam mergulhados, como não-participantes funcionais do sistema social. Ricardo Lísias (o autor) e Edson Amâncio nos proporcionam, paradoxalmente, a sensação de que a literatura ainda é um muro de contenção contra o caótico e o dissolvente.

ANEXO 1- TRECHOS SELECIONADOS DE DIÁRIO DE UM MÉDICO LOUCO:

“… já na minha infância fui tomado por estranhos pressentimentos e muitas vezes chamado de habitante ´do mundo da lua´. De tal forma era envolvido por êxtases e arrebatamento da alma que me perguntava se não estaria vivendo um sonho. Que tipo de sortilégio me dominava o espírito ainda na minha mais tenra infância! Meus pais, cujo equilíbrio mental está exageradamente distante de exemplar, levaram-me aos curandeiros da vizinhança e um deles me faz passar a mais terrível experiência que uma criança é capaz de suportar. Colocaram-me nu, sentado no chão, coberto de folhas de bananeira de uma cabana e despejaram sobre a minha cabeça o sangue ainda quente de uma galinha esgorjada…”

“Voltei do banco onde tive uma curiosa entrevista com o gerente.

     Ele disse que não havia saldo em minha conta. Exigi explicações (…)

__ Não há um único depósito na sua conta desde dezembro do ano passado.

__ Por que dezembro?-eu disse.

__ Ué! Sei lá!-respondeu.

   Pensei cá com meus botões: Esse sujeito está querendo me enrolar ou não passa de um biruta (…)

__ Dezembro é o mês do Natal, é ou não é?

__ Sim…

__ Acontece que no Natal costumo dar presentes. Vê se acompanha o meu raciocínio—falei pedagogicamente, já a ponto de perder as estribeiras.

__ Hum…-ele resmungou.

__ Pois bem- continuei- Se é Natal, e costumo dar presentes, é claro que tem de haver—acentuei o tem de haver- saldo em minha conta!

__ Sim- disse ele, e desta vez sorriu.- Desde que o senhor deposite alguma coisa.

__ Como assim? (Eu já estava além do meu limite—de paciência).

__ Simples- ele retrucou.-Basta o senhor colocar o dinheiro em sua conta. Dessa forma, poderá gastá-lo com presentes ou com o que for.

  Ora essa! Depositar em conta! Veja só…”

 

“Termino-a (a vida, é claro!) muito melhor do que comecei. Hoje tenho meu endoscópio e uma profissão digna, nenhuma sinecura—rejeitei todas que se estenderam diante de mim. Vivo só, isso é verdade e lhes daria de presente mais um clichê, se não fosse abusivo e não quero parecer autoritário. Mas seja, vá lá: às vezes é melhor só. Agora, penso eu, devo voltar à análise do primeiro motivo verdadeiro que me levou inexoravelmente a essa estória do suicídio. É uma estoriazinha, não mais do que meia dúzia de linhas. Ei-la: eu vinha caminhando pela rua, o pensamento imerso nesse mar de questões que tenho levantado desde que completei 65 anos—curioso: faz exatamente 3 anos, 4 dias e 2 horas que os completei. Depois disso, não tive mais sossego. É como se aos 65 anos tivesse ocorrido na minha vida um divisor de águas. Algo assim: Pois bem, agora vai ser diferente. Vamos ao que verdadeiramente interessa: o suicídio! Dessa data em diante, não parei de pensar ´no assunto´. Sei que os aborreço com essas longas introduções e interrupções, mas me declaro incapaz de fazer de outra maneira. Vejamos. Eu, como já dizia, vinha caminhando. Ao passar por uma janela aberta, alguém, uma criatura da pior catadura possível, disparou uma cusparada. O míssil, se posso assim me expressar, por pouco não me atingiu em cheio, no rosto. Apenas um passo mais acelerado e isso fatalmente não teria acontecido. Mas, felizmente, aquilo me atingiu no ombro esquerdo. Eu havia olhado para o interior daquele cômodo miserável, onde pessoas trabalhavam, por mera curiosidade. Depois entendi que naquele  quarto de subúrbio funcionava uma alfaiataria. O alfaiate, ao perceber que a cusparada havia me atingido, ficou paralisado, ainda com uma das mãos suspensas no ar para limpar os últimos resíduos de umidade nos lábios. Eu, de minha parte, também estaquei na calçada. Aquilo era demais. Vocês estarão loucos para saber como reagi, não é? Pois bem, imaginem-se, portanto, numa situação semelhante. Isso os possibilitará ter uma ideia do que aconteceu a seguir. Eis aí o cerne da questão…”

ANEXO 2- TRECHOS SELECIONADOS DE OUTRAS OBRAS:

Diários e narrativas em primeira pessoa disfuncionais (quatro amostras):

“Ela não me reconheceu, e eu mesmo procurei esconder-me ao máximo porque estava com um capote cheio de manchas e, além disso, de corte fora de moda (…) A cadelinha dela, que não conseguiu passar pela porta a tempo, ficou na rua. Eu conheço essa cadelinha: chama-se Medji. Eu mal havia passado um minuto ali quando de repente ouvi uma vozinha fina: Olá, Medji!. Vejam só que coisa: de quem será essa voz? Olhei ao redor e vi duas mulheres que passavam sob um guarda-chuva: uma velha, a outra bem mocinha.  Mas elas já haviam passado, e no entanto tornei a ouvir ao meu lado: Estás em falta, Medji!. Que diabo é isso! Vi Medji se cheirando com uma cachorrinha que vinha atrás das mulheres. Sim senhor!—disse eu cá comigo—mas chega; será que estou bêbado? No entanto, tenho a impressão de que isso me acontece raramente.—Não, Fidèle, não é o que pensas—e vi com meus próprios olhos Medji pronunciando essas palavras—, eu estive au! Au!Eu estive au, au, au! Muito doente.

  Ah, essa cadelinha! Confesso que fiquei muito surpresa ao vê-la falando como gente. Mas depois de compreender bem tudo isso, não me surpreendi mais…”

(Gógol, Diário de um louco, em tradução de Paulo Bezerra)

“Chegou-se à hospedaria. Entrei para o pequeno quarto que me foi designado. O pesado bafio do corredor sufocava-me. O porteiro entrou com a mala; a camareira acendeu a vela (…)

  A chama reavivara-se e iluminava o azul raiado de amarelo das paredes, o tabique, a mesa gasta, o pequeno divã, o espelho, a janela e a estreiteza de todo quartinho de hospedaria. E, de repente, o terror de Arzamas agitou-se dentro de mim. Meu Deus! Como farei para pernoitar aqui? (…)

   Passei uma noite horrível, pior do que aquela de Arzamas. Somente de manhã, enquanto atrás da porta começava o velho a tossir, adormeci; e não sobre a cama, onde tentara tantas vezes deitar-me, mas sobre o divã. Durante toda a noite sofrera de modo intolerável; de novo, torturantemente, a alma se destacara do corpo. Vivo, vivi, viverei ainda, e, de repente, a morte, o aniquilamento de tudo. Para que fim, então, viver? Morrer? Matar-se de repente? Causa-me medo. Estar assim esperando a morte, até quando chegar? Causa-me ainda mais medo. Viver, então. Mas para que fim? Para morrer? Não saía deste círculo (…) Deus fez isto. Com que fim? Não perguntes (dizem), reza. Bem: eu havia rezado, rezava ainda agora, como já havia feito em Arzamas. Mas lá, e depois, tinha rezado, simplesmente, à maneira dos meninos. Agora, ao contrário, a minha oração tinha um significado: Se Tu existes, revela-me então: para que fim, que coisa sou eu? Curvava-me para o chão, recitava quantas orações sabia, compunha orações minhas e depois acrescentava: Revela-me então! E ficava em  silêncio, à espera de uma resposta. Mas não havia resposta, como se não existisse nem mesmo alguém que pudesse responder. E procurava, então, dar-me qualquer resposta em lugar de quem não queria responder…”

(Tolstói, Memórias de um louco, em tradução de Oscar Mendes, ligeiramente adaptada).

“Pois aí está: foi, digamos, para me autoeducar, ou para me preparar para uma futura autoeducação, que me tornei pupilo deste Instituto Benjamenta, porque aqui nos prevenimos para o duro e o sombrio que está por vir. É por isso também que não escrevo para meus pais, porque já um simples relato me desencaminharia, arruinaria por completo meu plano de começar bem de baixo. Uma empreitada grandiosa e ousa precisa acontecer em silêncio absoluto, ou estará corrompida, debilitada, e o fogo já vivido tornará a se extinguir. Conheço meus gostos, é quanto basta. Ah, sim, ia me esquecendo. De nosso velho criado, Fehlmann, que segue vivo e servindo, tenho uma história divertida para contar. É o seguinte. Um dia, Fehlmann cometeu uma falta grosseira e seria demitido. Fehlmann, disse minha mãe, pode ir. Não precisamos mais de você. O coitado do homem, que acabara de enterrar um filho, morto de câncer (divertido não é), atirou-se, então, aos pés dela e foi logo suplicando clemência. O pobre-diabo tinha lágrimas nos olhos velhos. Mamãe o perdoou. No dia seguinte, contei o episódio a meus camaradas, os irmãos Weibel, que se puseram a rir muito de mim e a me desdenhar. Daí em diante,  passaram a me recusar sua amizade, porque, em sua opinião, vigorava em nossa casa hábitos demasiado monárquicos. Acharam suspeita a história de lançar-se aos pés de alguém e começaram a caluniar da maneira mais disparatada tanto a mim como a minha mãe. Como verdadeiros garotos, sim, mas também como verdadeiros republicanos mirins, aos quais o uso da clemência ou da inclemência, pessoal ou senhorial, inspira horror e repugnância. Como tudo isso me parece engraçado agora! E, no entanto, como esse pequeno incidente é emblemático do correr dos tempos. O juízo dos irmãos Weibel de outrora é hoje o do mundo todo (…) Devo me entristecer por isso? Nem me passa pela cabeça fazê-lo. Por acaso, sou responsável pelo espírito desta nossa época?”

(Robert Walser, Jakob von Gunten-um diário, em tradução de  Sérgio Tellaroli)

“Mantenho um diário porque gosto de escrever. Não pretendo mostrá-lo a ninguém. A vista anda  espantosamente fraca, não consigo ler quanto gostaria e, como não tenho outras distrações, estou sempre disposto a escrever para passar o tempo. Uso pincel grosso e escrevo graúdo para facilitar a leitura. Guardo o diário num cofre pequeno, não quero que ninguém o leia. Já lotei cinco desses cofres. Imagino que será melhor queimar os manuscritos algum dia, mas me agrada também a ideia de deixá-los para a posteridade. Às vezes, abro e releio alguns mais antigos e me espanto de ver como ando esquecido. Fatos ocorridos há um ano me impressionam com a força de uma novidade, não cansam de despertar em mim um agudo interesse.”

(Junichiro Tanizaki, Diário de um velho louco, em tradução de Leiko Gotoda)

A autoficção

“A autoficção reivindica para si a possibilidade de reconstrução livre, arbitrária e ficcional dos fragmentos da memória, sem compromisso com a transcrição literal dos acontecimentos” (Ana Maria Lisboa de Mello)

Características Recorrentes do romance de autoficção:

-autor, narrador e protagonista têm o mesmo nome (coincidência onomástica);

– o tempo presente é predominante na narrativa;

– os limites entre memória, ficção e realidade se confundem;

-narrativa fragmentária, descentrada e não linear;

-sensação de work in progress, como se o leitor participasse da escrita do romance;

– postura de perplexidade e de questionamento do leitor.

(fonte: A ficção da realidade? Ou a realidade da ficção?, de André Bernardo, Revista Metáfora 14)

A autoficção de Ricardo Lísias

“Esse silêncio me faz bem. O barulho da cidade me deixava aturdido. Para conseguir terminar a versão final de O livro dos mandarins, meu  último romance, cheguei a alugar uma casa de pescadores em uma praia isolada. Funcionou por algum tempo, mas percebi que eu mesmo produzia uma espécie de tumulto interno muito forte. Comecei a roncar. Estava agitado e infeliz: meu corpo não parava de fazer barulho.

   Fiz algumas tentativas depois de O livro dos mandarins, mas em poucos meses optei por abandonar a literatura para tentar me encontrar em algo mais silencioso: o jogo de xadrez.”

(Tólia)

“Minha mãe ficou um mês morando comigo em Campinas. Depois, cheia de medo, voltou para São Paulo. Nos finais de semana, meus dois irmãos vinham.

   Tenho algumas fantasias imaturas de provar-me forte: dessa vez consegui e nunca mais usei nenhum tipo de drogas. Comecei um longo tratamento psicológico. O meu grande medo era ver de novo os anõezinhos. Perguntei se sou esquizofrênico. Essa doença que nos faz ver coisas, anõezinhos nos rodeando. Depois de seis meses o terapeuta me respondeu. Nada disso, Ricardo. O seu problema é a memória.”

(Meus três Marcelos)

“Meu caro Evo, sinto-me um pouco mais animado hoje. Resolvi levantar-me da cama. Minha mãe me disse que logo devo ver o médico. Talvez até o final dessa semana. Ou na próxima, se estou bem lembrado. Não tenho mais passeado tanto lá fora. No inverno, o jardim não fica tão bonito. À rua, não nos deixam sair. Deve ser por causa deles lá, os que estão aqui por motivos psiquiátricos. Eu vim operar minhas bochechas. Nunca imaginei que uma simples operação plástica exigisse tanto tempo assim de descanso. Tenho ficado deitado. É o que mais faço. Não se trata apenas de um mero relaxamento. Às vezes acordo com um peso muito grande embaixo do peito. Por isso, prefiro ficar deitado. Se eu encher os pulmões bem lentamente, consigo manter um ritmo razoável de respiração. Só dá certo se eu me concentrar bastante. Mas esse nunca foi um problema para mim. Não me incomodo nem um pouco de ficar o dia inteiro deitado, já que não nos deixam sair à rua e o jardim agora no inverno não é tão bonito. Mas percebi que isso tem deixado minha mãe bastante aflita.”

(Evo Morales)

“Meu rosto ficou muito vermelho, mas a sensação de queimado que mais incomoda é nas orelhas. Na testa também é desagradável, porque com o suor a reação imediata é esfregar as mãos na pele. Dói. Depois que acordei na praia desse jeito, demorei algumas horas para acostumar. Resolvi não entrar na água. Voltei para o hotel, comi alguma coisa e saí para comprar uma loção para a pele. A balconista da farmácia insinuou que talvez fosse melhor ir ao hospital. Insinuei que talvez fosse melhor ela ir à merda.

  Telefonei para o herdeiro dos taxímetros e disse que não cuidaria daquela bosta. Vende para um desmanche, idiota. Eu queria perguntar uma coisa: por que vocês herdeiros querem sempre vender tudo? Porque vocês herdeiros só pensam em dinheiro.

   Fui direto à Fundação Arquivo e Memória de Santos. Pedi à mulherzinha que me atendeu todos os registros que pudesse haver sobre a presença de terroristas na cidade. Então, sua tonta, vou explicar melhor. Meu tio-avô trocou cartas, durante toda a década de 1970, com uma pessoa que vivia em Santos. Desconfio que essas cartas tenham ligação com o terrorismo. Não sei o nome da pessoa, minha senhora. Também não sei o endereço. Então a senhora vá tomar no cu.

   Como a maior biblioteca de Santos também é uma merda, voltei para São Paulo. Caí na besteira de atender o telefone e minha mãe insistiu em me visitar. Expliquei que não poderíamos nos ver porque eu viajaria para o Líbano a trabalho. Ela começou a chorar e eu bati o telefone.”

(O céu dos suicidas)


[1] Embora no caso de Edson Amâncio a ligação mais gritante seja com as narrativas febris e alucinatórias de Dostoiévski, como O duplo (1846), não obstante esta não ser em primeira  pessoa, ou Memórias do Subsolo (1864). Há episódios que evocam de forma paródica cenas de obras dostoievskianas, como o pedido de perdão à prostituta, em nome da humanidade em geral, de Crime e Castigo (1866).

[2] O próprio termo que utilizo no texto acima, “fingido”, que evoca a definitiva concepção do fazer literário de Fernando Pessoa, mostra que autoficção é um daqueles termos da moda que não trazem nada de novo, substancialmente. Fosse assim, o Marcel-personagem, de Em busca do tempo perdido, já seria uma experiência pós-moderna avançada. Não há nada de novo sob o sol.

DICA- Sobre o livro de Edson Amâncio acesse também:

http://revistapausa.blogspot.com.br/2012/11/lugares-para-se-matar-em-santos.html

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26/11/2012

COMO CHEGAR AO CASTELO?

(resenha publicada originalmente em “A Tribuna”  de Santos em 26 de dezembro de 2000)

Era  muito aguardada a tradução de O CASTELO, a única inédita entre as realizadas até agora por Modesto Carone e editada pela Companhia das Letras. Antes dela, tinhamos a versão de Torrieri Guimarães, com forte sabor lusitano, e a do obscuro D. P. Skroski, cujo nome já tem um sabor kafkiano, feita a partir da versão americana (o título original aparece como The Castle!!??) e com um texto truncado, cheio de erros de revisão, embora não faltem soluções interessantes.

Quando propus na minha coluna uma lista dos 100 maiores romances do século XX, O CASTELO (escrito por volta de 1922, mas só publicado postumamente em 1926) veio em terceiro lugar (vindo depois de A montanha mágica, de Mann, e de Luz em agosto, de Faulkner). Poderia vir em primeiro.  Junto da “classificação” havia o seguinte comentário: “Extraordinária alegoria da condição humana, ao mesmo tempo terrível e cômica. Não é à toa que kafkiano se tornou um vocábulo corrente, usual”.

Ao se pensar em alegoria, se pensa imediatamente na sua decodificação inequívoca: alegoria de quê? Infelizmente, as coisas não são tão fáceis com Kafka, e temos de fazer eco ao lamento de vários comentadores das suas obras: como interpretá-las? Como penetrar no seu mistério, no seu fascínio, na sua junção do terrítel e do cômico? Que interpretação dar para a história de K., que chega à aldeia dominada pelo Castelo do Conde Westwest e se apresenta como agrimensor contratado? Como se sae, houve um erro nos trâmites administrativos e essa contratação era desnecessária. Oferecem a K. emprego como zelador da escola da aldeia,em meio à confusão que ele arranja não só por suas tentativas malogradas de entrar em contato com o alto escalão do Castelo (especialmente Herr Klamm), como também por se tornar amante de Frieda (a quem todos no lugarejo atribuem uma ligação com Klamm), encarregada do bar na Estalagem dos Senhores, isto é, utilizada pelo pessoal administrativo do Castelo quando ele se encontra na aldeia, fazendo com que ela abandone seu posto.

Como se não bastasse, ele também se torna íntimo de uma família proscrita na aldeia, cuja história ocupará boa parte do romance e espelhará a de K.

K. é isso: um erro administrativo. Sua individualidade é o elo mais frágil e fantasmagórico de uma incessante tramitação burocrática de memorandos, dossiês e processos. Ele, com teimosa paciência, tenta afirmar-se enquanto indivíduo, entretanto malogra porque ninguém consegue compreendê-lo, é sempre aceito ou rejeitado pelo cargo que ocupa ou não ocupa (agrimensor ou zelador) ou pela situação de seu processo no Castelo (que se parece muito com um julgamento).

Quando encontra um interlocutor, como Amália e Olga, as irmãs proscritas, ou Pepi, substituta de Frieda no bar da Estalagem dos Senhores, esse interlocutor é quem toma a palavra e monologa interminavelmente sobre suas próprias desventuras.

Foram citadas, neste meu texto, as mulheres da história (embora haja várias personagens masculinas): Amália, Olga, Frieda, Pepi. Pois há uma atmosfera difusa e viscosa de sexualidade em O CASTELO, a qual parece ir minando a força do herói, ou melhor, parece ser a única dimensão em que se permite a ele alguma ação, ainda que leve a diversos equívocos. Esse clima promíscuo liga-se à opressão do Castelo na medida em que se anula o que é privado e o que é público no romance: quando K. e Frieda transam no bar da Estalagem dos Senhores pela primeira vez, o ato é assistido pelos ajudantes de K. recrutados pelo Castelo, os quais testemunham igualmente toda a intimidade do casal quando passam a morar juntos, e não apenas os ajudantes como também  criadas, professores, alunos. Dificilmente há um momento na narrativa em que K.  consiga ficar sozinho e geralmente nesses parcos momentos ele está perdido ou desorientado.

O grande autor de Praga escreveu alguns textos sobre filhos oprimidos (O veredicto, A metamorfose), numa clave mais evidentemente autobiográfica. Em seus dois grandes romances (O processo é o outro) tudo se complica: filhos sem pais se lançam no mundo, literalmente perdendo-se e desorientando-se, o que demonstra como ele reelaborou ao extremo os resíduos biográficos na sua obra, tornando a interpretação mais complexa e tortuosa.

O fator mais insólito do texto é a maneira côica, quase à moda de um pastelão do cinema mudo, com que Kafka vai estabelecendo situações intoleráveis: “No albergue foi logo para o quarto e deitou-se na cama. Frieda instalou-se num leito ao lado, no chão, os ajudantes haviam se enfiado ali, foram expulsos, mas voltaram de novo pela janela….volta e meia entravam também as criadas fazendo barulho com suas botas de homem, para trazer ou pegar algo.Se precisavam de alguma coisa entre as várias que entupiam a cama, puxavam-na sem nenhuma consideração por debaixo de K.”.

É preciso dizer que a versão de Modesto Carone deixa a desejar em alguns aspectos. Já foi uma opção infeliz, a meu ver indefensável, dividir os enormes parágrafos a que estamos acostumados, toda vez que um personagem toma a palavra, diluindo a densidade opressiva e “fechada” da obra-prima máxima de Kafka (quem se der ao trabalho de comparar com as versões anteriores pode constatar o que se perdeu em atmosfera). Além disso,  entre outros detalhes,  é difícil acreditar que, estando K. e Frieda nus na cama, uma criada atire sobre eles uma toalha (para Torrieri Guimarães, ela atira uma coberta e para o misterioso sr. Skroski um cobertor,o que é mais lógico, convenhamos).  Trechos inteiros ficam mais compreensíveis nas outras traduções. Há também erros gritantes, como na página 307 (mas há aí parece ser mais um caso de problemas com a revisão): “Ora, vocês são muito parecidas, mas o que distingue Amália de vocês duas é totalmente desfavorável a  ela” . Na verdade,  as duas irmãs, Amália e Olga, são parecidas entre si, e com o irmão, Barnabás,  suposto mensageiro entre Klamm e K., não há três irmãs mulheres.

O mundo nos arredores do Castelo já é labiríntico e opressivo sem tais falhas e erros, ocultos pela fanfarra das “traduções definitivas”. Sendo o mundo kafkiano o que é, sabemos aonde podem levar falhas e erros…

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A traição ao anonimato papeleiro

A editora Record vem lançando uma coleção com os textos da primeira edição de clássicos brasileiros, entre eles, o de Triste Fim de Policarpo Quaresma, publicado em 1915 (mas escrito anos antes), um dos textos mais brilhantes e lúcidos da nossa ficção.

Muitos veem o herói, Policarpo Quaresma, como um Dom Quixote nacional (mas se pensarmos em algumas figuras da Primeira República cheias de projetos nacionalistas utópicos, como o escritor gaúcho João Simões Lopes Neto, dos Contos gauchescos , Quaresma não chega a ser um caso tão peculiar). Ele é um funcionário público quarentão que se entupiu de livros e abraçou um ideal absoluto de nacionalidade, e que começa a cometer “loucuras” para o senso comum, como propor à Assembleia Legislativa a adoção do tupi-guarani como língua oficial do país. Há em Quaresma o mesmo desencontro entre o mundo vislumbrado nos livros e a realidade, e a mesma tomada de consciência da “realidade”, destruindo o ideal, ao final, quando “recobra-se” do fervor patriótico ao ser preso por protestar contra os desmandos da ditadura de Floriano Peixoto, que avilta os direitos humanos após sufocar a Revolta da Armada.

Os embates de Quaresma têm seu lado cômico, contudo há a grandeza pressentida pela afilhada, Olga: “Sentia confusamente nele alguma coisa de superior, uma ânsia de ideal, uma tenacidade em seguir um sonho, uma ideia, um voo enfim para as altas regiões do espírito que ela não estava habituada a ver em ninguém o mundo em que freqüentava”.

E é nesse diferenciar-se da mediocridade imperante que podemos ver também (e sobretudo) a influência de Flaubert, mais nítida ainda do que a de Cervantes, que considero mais superficial. Pois se Olga não está habituada a ver em ninguém a grandeza, mesmo que submetida ao ridículo, de seu padrinho, é porque Lima Barreto enfatiza para o leitor as mesquinharias e mazelas, a bêtise triunfante na vida social na última década do século passado, concentrando-se na vida suburbana e dos pequenos funcionários (na primeira parte), depois mostrando a vida rural, quando Quaresma tnta tornar produtivo um sítio na cidadezinha de Curuzu (na segunda parte, digna de Bouvard e Pécuchet), e,mais tarde, ao mostrar o jogo de interesses que preside o “patriotismo”, o sentimento nacionalista, quando explodem as revoltas contra Floriano. Tudo se mostra pequeno, acanhado, acachapante, a própria Olga (que tem mais imaginação que as outras moças) resigna-se ao destino do casamento por conveniência.

Veja-se a descrição de como os colegas de trabalho de Quaresma reagem à sua súbita notoriedade por causa da proposta da adoção oficial do tupi-guarani: “É como se se visse no portador da superioridade um traidor da mediocridade, do anonimato papeleiro. Não há só uma questão de promoção, de interesse pecuniário; há uma questão de amor-próprio, de sentimentos feridos, vendo aquele colega, aquele galé como eles, sujeito aos regulamentos, aos caprichos dos chefes, ás olhadelas superiores dos ministros, com mais direito à consideração, com algum direito a infringir as regras e os preceitos” (é preciso lembrar que já em meados do século XIX, Gogol, com O Capote, e Hawthorne, na introdução de A letra escarlate, já lançavam um olhar de medusa ao reino encantado da mediocridade burocrática).

Enfim, o espetáculo miúdo da estupidez cotidiana, o pesadelo burocrático, a corrupção e a tirania política conduzem ao belíssimo capítulo final, um dos mais amargos já escritos. Felizmente, para contrabalançar a tristeza, onde o “triste fim” de Policarpo quaresma não é tanto sua morte físico, mas a morte dos seus sonhos, há o despertar de Olga,que retoma um processo de diferenciação que não é o da loucura (um dos grandes tema do livro) ou o do quixotismo e sim a consciência de si mesma. E é aí, talvez, que Lima Barreto deixa para trás paralelos com quaisquer outros autores e torna-se ele mesmo, um autor único.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, , em 26 de outubro de 1999)

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25/11/2012

O TERROR NAS DOBRAS DO PASTELÃO: “O Desaparecido” de Kafka

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de outubro de 2003)

O acontecimento editorial do ano, a tradução de O DESAPARECIDO (Der Verschollene)de Kafka, resgatando o título original pretendido pelo autor (pois seu amigo Max Brod o publicou postumamente como Amerika, em 1927, pelo qual ainda é conhecido[1]) e baseando-se numa edição crítica histórica, acabou  sendo uma grande surpresa. Esperava-se a versão de Modesto Carone, que vem sistematicamente traduzindo a obra de Kafka , mas a editora 34 e  Susana Kampf Lages adiantaram-se. O resultado é excepcional.

Iniciado em 1912, antes de seus companheiros mais célebres (O processo & O castelo), O DESAPARECIDO  pertence à fase “filhos” de Kafka, que inclui também O veredicto e A metamorfose. Em todos, filhos são punidos e banidos pelos pais. A diferença é que, enquanto os outros dois permanecem no âmbito da casa paterna, numa concentração claustrofóbica, a história de Klaus Rossmann, enviado a uma América totalmente recriada pela imaginação de Kafka (ou seja, uma Amérika), após ter sido seduzido pela criada, já aciona o mecanismo  de “lançar no mundo” o filho pródigo, cuja maior realização ocorrerá em O castelo.

Curiosamente, mesmo lançado no mundo, Rossmann viverá a experiência do banimento repetidas vezes (pelo tio, pelo camareiro-mor do hotel onde se emprega) e só encontrará guarida em ambientes desabonadores, sórdidos e permeados pela sexualidade. O sexo é a grande ameaça aos “esforços” dos personagens kafkianos e representa um ímã, um visgo que os prende a uma situação degradada. O clímax do romance (que permaneceu inacabado, como se tivesse chegado a um ponto insustentável) e a submissão de Karl a Brunelda, uma mulher imensa, uma espécie de Grande Prostituta, que transforma os homem em seus criados; uma Circe cõmica, portanto, que os mantém a todos numa Ogígia vaudevillesca, um apartamento minúsculo e entulhado (espaço típico do universo kafkiano).

Entretanto, já a sedução pela criado apresenta essa advertência quanto ao lado dissolvente da sexualidade (‘…apertou a barriga nua contra o corpo dele, procurou com a mão de uma maneira tão repulsiva entre as suas partes que Karl esticou a cabeça e o pescoço para fora dos travesseiros; ela então empurrou algumas vezes sua barriga contra ele— ele teve a sensação de que ela fosse parte de si mesmo, e talvez por esse motivo foi tomado por uma terrível sensação de desamparo”).

Apesar desses aspectos sombrios, é preciso dizer que O DESAPARECIDO exercita a alta comédia, é um livro muito engraçado. Aliás, é a obra longa de Kafka onde mais acontecem coisas. Não é à toa que ele se inspirou no romance à Dickens. Pode-se dizer igualmente que ele livra o romance das amarras da verossimilhança e instala uma relação do personagem com o espaço que resgata a disponibilidade de Dom Quixote e Sancho Pança ou  Jacques, o fatalista, e seu amo, ou mesmo de Wilhelm Meister: o mundo está  à nossa frente e tudo pode nos acontecer.

É por isso que até a parte em que Rossmann se rende à autoridade de Brunelda (e de seu amante Delamarche), após ser banido pelas autoridades masculinas (e com o fracasso de outra autoridade feminina, a cozinheira-mor, no sentido de mantê-lo na “trilha certa”,  seja lá o que for que isso signifique), O DESAPARECIDO mantém uma notável coesão (há ainda alguns capítulos fragmentários, inclusie aquele famoso em que Rossmann, abdicando do seu nome, adere à trupe do Teatro Natural de Oklahama—é isso aí, leitor, o nome vem errado mesmo)]— um evento que parece se confundir com o mundo todo).

O que diferencia O DESAPARECIDO de Dom Quixote, de Jacques, o fatalista ou de Wilhelm Meister (no qual um rapaz também ‘cai no mundo” ao contrariar a vontade paterna)  e dos livros de Dickens, é que não há nexo de causalidade entre as aventuras do herói ou entre suas descobertas psicológicas. Não há romance de formação, aqui, tudo contribui para o absurdo (há um capítulo em que Karl vai visitar um amigo do tio, entra numa hilária luta corporal com a filha dele, e ao pensar em encontrá-la novamente: ‘se ao menos ele tivesse consigo a barra de ferro que  tio tinha lhe dado de presente para servir de peso para papéis! O quarto de Klara podia ser uma toca bem perigosa), para o divórcio entre a ação e um possível significado.

A comédia pastelão de Kafka (há cenas inesquecíveis que lembram as comédias do cinema mudo, como a perseguição pela policia, na chegada ao edifício de Brunelda) esconde em suas sobras o filme de terror.

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[1] O livro ocupa na obra de Kafka uma função equivalente (de tateio e busca da própria voz) de Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá  na obra de Lima Barreto. Recordações do escrivão Isaías Caminha seria  O Processo do grande escritor carioca, Clara dos Anjos (que eu não aceito como “incompleto” e sim como uma novela perfeitamente acabada) seria o seu A Metamorfose, e por fim, sua obra-prima suprema, Triste Fim de Policarpo Quaresma seria o equivalente de O Castelo. É lógico que essas aproximações só existem de fato na minha cabeça, aproximações que comecei a elaborar a partir de 2005 [nota de 2010]

O FALSO CONSELHEIRO AIRES: “Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá”

A Ática incluiu na sua série de clássicos da língua portuguesa Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá, uma das melhores obras de Lima Barreto, mas que está bem longe de ser conhecida como Triste Fim de Policarpo Quaresma ou, nos últimos anos, Clara dos Anjos. Foi o primeiro romance levado a cabo pelo grande escritor carioca (por isso se nota a “angústia da influência” com relação a Machado de Assis e seu Conselheiro Aires), porém o último a ser publicado em vida (por iniciativa de Monteiro Lobato, em 1919, só que não parece ter sofrido nenhuma demão muito significativa).

Nele, o narrador, Augusto Machado, conta como conheceu o personagem-título, também funcionário público (só que bem mais velho) por causa de uma ridícula questiúncula envolvendo o número de salvas de canhão devidas a um bispo em visita a uma c cidade.

Através da amizade entre Machado e Gonzaga de Sá, vislumbramos o Rio de Janeiro do início do século, sobrepondo mais do que contrapondo a revolta do jovem e a resignação filosófica do velho funcionário diante da mediocridade imperante e da destruição do Rio imperial que Gonzaga de Sá conheceu e que está sendo desfigurado pela Primeira República.

Veja-se o que Machado nos conta no capítulo “O passeador”: “O que me maravilhava em Gonzaga de Sá era o abuso que fazia da faculdade de locomoção. Encontrava-o por toda parte… Subia morros, descia ladeiras, devagar sempre e fumando voluptuosamente, com as mãos atrás das costas, agarrando a bengala. Imaginava ao vê-lo, nesses trejeitos que pelo correr do dia, lembrava-se: como estará aquela casa, assim, assim, que eu conheci em 1876? E tocava pelas ruas em fora para de novo contemplar um velho telhado, uma sacada e rever nelas fisionomias… Ia em procura de sobrados, das sacadas, dos telhados, para que à vista deles não se lhe morressem de todo na inteligência as várias impressões, noções e conceitos que essas coisas mortas sugeriram durante aquelas épocas da sua vida”.

A atitude filosófica de Gonzaga de Sá lembra, é claro, mas só superficialmente, a do Conselheiro Aires criado por Machado de Assis para filtrar de modo ainda mais sutil seu humor e pessimismo corrosivos. O leitor de Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá vai notando que, conforme o livro vai se desenvolvendo, menos Aires parece o passeador e mais ele e Machado representam, no fundo, uma só pessoa: Machado, a mocidade; Gonzaga, a maturidade (uma maturidade, uma atitude sábia, um tanto problemáticas). Por vezes, o velho Gonzaga abandona sua atitude de “sábio obscuro”, de “geólogo da memória da cidade” para revoltar-se, enraivecer-se, numa atitude mais adequada a seu discípulo, um idealista revoltado como o narrador de outro grande romance de Barreto (foi o próximo a ser completado), Recordações do escrivão Isaías Caminha (publicado em 1909): “Longe de me confortar, a educação que recebi só me exacerba, só fabrica desejos que me fazem desgraçado. Por que mas deram? Para eu ficar na vida sem amor, sem parentes e, porventura, sem amigos? Ah! Se eu pudesse apagá-la do cérebro! Varreria, uma por uma, as noções, as teorias, as sentenças, as leis que me fizeram absorver; e ficaria sem a tentação danada da analogia, sem o veneno da análise. Então, encher-me-ia de respeito por tudo e por todos, só sabendo que devia viver, de qualquer modo”.

Nesse entrançar de mocidade e velhice, revolta e sabedoria, amizade e solidão, espírito amplo e amargura, o Rio de Janeiro avulta. O livro é uma das mais cabais demonstrações da “poesia das cidades” instaurada por Baudelaire, sendo, como é, um passeio pela cidade, centro, praias e subúrbios, passado e presente. É por isso que seu ponto alto é a extraordinária seqüência de capítulos em que Machado acompanha Gonzaga de Sá para velar e enterrar um compadre que morava no subúrbio. É ali que, na atmosfera carregada do velório, Machado despertará para o desejo sexual representado por Alcmena, vizinha do compadre falecido, rebelando-se contra o fato de estar atrelado a uma cerimônia de morte, quando deseja tanto viver, sentir-se vivo, antecipando um pouco o “estrangeiro” de Camus: “No dia seguinte, diante do caixão já fechado, senti-me penetrado de uma indiferença glacial… O domingo estava maravilhoso,glorioso de luz, e os ares eram diáfanos, estava sedutor e sorria abertamente, convidando a gozá-lo em passeios alegres. O silêncio da sala, aquelas velas mortiças, os semblantes contrafeitos e estremunhados das pessoas presentes, diante da soberba luz do sol, da cantante alegria da manhã, pareceram-me sem lógica.”

É um dos maiores momentos da nossa literatura, que compensa até a frouxidão (justificável, num texto escrito aos 20 e poucos anos, e hesitando entre dois caminhos conflitantes: um deles, faria dele um êmulo talentoso de Machado; o outro, o que ele seguiu gloriosamente) da estrutura narrativa e o excesso de discursos na fala dos personagens (como se estivessem fazendo preleções e não conversando).

75 anos após a sua morte (em primeiro de novembro de 1922), Lima Barreto continua muito vivo, mais do que muitos autores do Modernismo.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de outubro de 1997, ano dos 75 anos da Semana de Arte Moderna)

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23/11/2012

“O que raia pela indescrição”: TUTAMÉIA

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 18 de novembro de 1997)

    Há 30 anos (em novembro de 1967), morria João Guimarães Rosa, que publicara Tutaméia  poucos meses antes, surpreendendo muita gente, inclusive admiradores das suas outras obras. Colaboravam para a sensação de estranheza despertada por Tutaméia: o título peculiar (um vocábulo com o significado de “coisa de pouco valor”); o subtítulo ainda mais esquisito, Terceiras Estórias (em 1962, Rosa havia lançado as Primeiras Estórias, mas onde estavam as Segundas?); os quatro prefácios com títulos abusadamente esdrúxulos (Hipotrélico; Nós, os temulentos, por exemplo[1]); e, sem contar os títulos de várias estórias (Antiperipléia; Droenha; Rebimba, o bom; Tapiiraiauara), os textos herméticos e quase impenetráveis. Afundara o escritor mineiro no experimentalismo meramente formalista, exibicionista e cabotino?

    Hoje percebe-se melhor ter ele tão somente condensado ao extremo as características que se “espalhavam” nos amplos espaços épicos de Grande Sertão: Veredas & Corpo de Baile, fazendo de cada texto de Tutaméia a coisa mais similar à poesia que já se criou na ficção: impossível mexer numa palavra sequer. Além disso, investindo nas “anedotas” do sertão mineiro, ele tenta atingir uma realidade “mais verdadeira”. Para isso, é importante “contar” mais do que “viver”.  Já afirmara antes, em Festa de Manuelzão (um dos mais belos textos de Corpo de Baile):

“… o mundo era grande. Mas ainda era muito maior quando a gente ouvia contado, a narração de outros, e volta da viagem. Muito maior do que quando a gente mesmo viajava, serra-abaixo-serra-acima, quando a maior parte do que acontecia era cansativo (…) tudo trabalho empatoso, a gente era sofrendo e tendo de aturar…”

    E afirma definitivamente  em Tutaméia:

“A vida também é para ser lida. Não literalmente, mas em seu supra-senso. E a gente, por enquanto, só a lê por linhas tortas…”

   Quanto à acusação de hermetismo, mesmo se levando em conta a linguagem peculiaríssima de Rosa, nada mais delicioso do que as “anedotas” (tenho minhas dúvidas e ressalvas quanto aos prefácios) da coletânea. Nem por isso, nos “desenredos” tramados pelo autor de Sagarana, deixamos de entrever as linhas tortas pelas quais lemos a vida.

   Por exemplo, temos o guia de cego que ajuda o patrão a se envolver num caso adúltero e que termina suspeito da morte dele, para a qual, como em Rashomon, há várias versões (Antiperipléia). Esse guia pode ser o anão que aparece na última estória do livro, Zingaresca (sim, as histórias são dispostas em ordem alfabética), aquele que “vigia o que não há”. Como Riobaldo, ele conta sua história para um interlocutor citadino: “E o senhor ainda quer me levar, às suas cidades, amistoso?… Cidade grande, o povo lá é infinito.”

dos pais por um dos violentos Lopes e que, mansa, insidiosamente, foi apoderando-se da fortuna dele, envenenando-o então. Porém, outros membros do clã também querem usufruir dela e ela faz então com que todos se destruam. Tem um caso com um homem mais jovens, quer ter filhos com ele: “Quero o bom-bocado que não fiz, quero gente sensível. De que me adianta estar remediada e entendida, se não dou conta da questão da saudades? Eu, um dia, já fui muito menininha…”

    Em Lá, nas campinas, Drijimiro não consegue lembrar o local da sua infância, só restou na memória as palavras que dão título à estória, “o que guardado sempre sem saber lhe ocupara o peito, rebentado: luz, o campo, pássaros, a casa entre bastas folhagens, amarelo o quintal da voçoroca, com miriquilhos borbulhando nos barrancos. Tudo e mais, trabalhado completo, agora, tanto—revalor—, como o que raia pela indescrição: a água azul das lavadeiras, lagoas que refletem os picos dos montes, as árvores e os pedidores de esmolas. Tudo era esquecimento, menos o coração.”

   Esses são alguns pontos altos do livro (e Barra da Vaca; Como ataca a sucuri; Curtamão; Desenredo; Faraó e a água do rio; Reminisção; Os três homens e o boi; Umas formas; Intruge-se, também não são?). E sempre, em qualquer uma delas, as frases genialmente únicas: “as coisas começam deveras é por detrás, do que há, recurso; quando no remate acontecem, estão já desaparecidas”; “calava-se a ternura, infinito monossílabo”; “memória, que é o que sem arrumo há, das muitas partes da alma”; “a gente tem de existir—por corpo real, continuado—condenado”; [os ciganos] “não criavam apego aos lugares, de tanto que conhecessem a ligeireza do mundo; as cantigas que sabiam, era para aumentar a quantidade de amor”; “o mundo se repete mal é porque há um imperceptível avanço”; “de onde vem o medo? Ou este terráqueo mundo é de trevas, o que resta do sol tentando iludir-nos do contrário”… E assim, Guimarães Rosa iluminou a nossa literatura como a borboleta que (ele mesmo diz, raiando pela indescrição) “sai do bolso da paisagem”.


[1] Nota de 2012– Tais prefácios foram estudados com grande acuidade por Irene Gilberto Simões em As paragens mágicas, um dos melhores estudos rosianos, e ao qual a minha resenha acima é muito devedora em suas linhas gerais, como—aliás—sou devedor à autora pela inspiração intelectual, pela sua postura como leitora. Na época da publicação da resenha, não tive espaço para fazer essa quase dedicatória, mas agora posso corrigir a lacuna.

1956, annus mirabilis de Guimarães Rosa (primeira parte)

 

MANUELZÃO E MIGUILIM

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de fevereiro de 2006)

    Guimarães Rosa publicou suas duas principais obras, Corpo de Baile Grande Sertão: Veredas em 1956. A primeira delas apareceu em janeiro e mesmo quem já apreciara Sagarana (1946) ficou impactado. Até há pouco tempo, os sete textos que a compõem encontravam-se divididos em 3 volumes (uma edição especial da Nova Fronteira restaurou a ordem original). Neste artigo, falaremos de um deles, Manuelzão e Miguilim.

   Miguilim é o protagonista de Campo Geral, certamente  o texto mais famoso de Guimarães Rosa, depois de Grande Sertão e de  “A Terceira Margem do Rio”. E embora haja várias narrativas incríveis evocando o mundo da infância (a primeira parte de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, A Harpa de Ervas, de Truman Capote, por exemplo), é provável que nenhuma seja tão inesquecível quanto a história do menininho que vive “em ponto remoto, no Mutúm”. Hiper-sensível, míope (até que lhe coloquem óculos), ligadíssimo na mãe e no irmãozinho Dito (cuja morte é o centro dramático do texto), com um pai ignorante, violento e desconfiado, Miguilim faz com que participemos da sua “descoberta do mundo” de uma forma que nos devolve nosso próprio sentimento de infância. É uma ótima iniciação para quem quiser conhecer pela primeira vez o universo do nosso maior escritor pós-Machado.

 A beleza emocionante de Campo Geral sempre eclipsou injustamente o outro texto desse volume de Corpo de BaileUma Estória de Amor (Festa de Manuelzão), uma obra-prima. Seu protagonista é o encarregado da  fazenda Samarra, o qual, finalmente estabelecido na vida, resolve inaugurar uma capelinha nas terras do seu patrão (o pessoal da região, entretanto, vê em Manuelzão a encarnação da autoridade) e, por conta disso, suspender a labuta da vida numa grande festa: “Amanhã é que ia ser mesmo a festa, a missa, o todo do povo, o dia inteiro. Dião de dia!”

    Manuelzão, em meio à festa, descobre-se numa encruzilhada. Sua saúde já não é tão boa, a morte não é tão remota, ele morre de medo de retornar à miséria na qual nasceu, e pesa-lhe não ser o dono do lugar, ainda que respeitado. Tem um filho do qual não gosta nem respeita, uma atração inequívoca pela nora (“Leonísia era linda sempre, era a bondade formosa”). Mas o que a festa começa a desmanchar nele é a alienação de si mesmo, de quem sublimou no trabalho ininterrupto todas as perplexidades da vida. Nem novo (como os vaqueiros que se divertem) nem velho (como seo Camilo, a quem recolhe como agregado ou o Senhor de Vilamão, um latifundiário caduco), ele sente a solidão de quem tem de estar em atividade constante para não cair na angústia: “Ao que veio o desânimo. A gente afrouxa… A ser, o que se dava. A gente afrouxa: Ao desalentos, o amontôo. Acizilino –amigo, de sua mesma idade, velho companheiro. Assim mesmo, esse tinha se casado, ainda na mocidade legal, agora estava no meio de sua família acostumada, somente que no peso da vida.”

    Enquanto Miguilim descobria o mundo, Manuelzão tenta redescobrir o gosto pelo mundo, dificultosamente, através da festa, através das estórias contadas na festa pelos representantes daqueles seres que não se consomem na luta pela vida, párias de uma sociedade obcecada pelo produtivo: Joana Xaviel e Seo Camilo, figuras que atraem Manuelzão assim como o irmão de sua nora, Promitivo, com sua vadiagem simpática, enquanto o filho trabalhador lhe causa antipatia.

   E, entremeando tudo, a festa da linguagem única de Guimarães Rosa: “Assim aquela procissão, ela marcava o princípio da festa ? Mas Manuelzão, que tudo definira e determinara, não a tinha mandado ser, nem previra aquilo. Quem então  imaginava o verdadeiro recheio das coisas, que impunham ara se executar, no sobre o desenho da ordem?”

 

 NO URUBUQUAQUÁ, NO PINHÉM

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de fevereiro de 2006)

 “faça pirâmides, não biscoitos”(G.Rosa)

    O 2o. volume  de Corpo de Baile reúne três dos seus sete textos e tem o extravagante título de No Urubuquaquá, no Pinhém. No Urubuquaquá, temos a fazenda do personagem-título de Cara-de-Bronze, um dos relatos mais desafiadores de Rosa e um dos raros que justificariam a fama de difícil, quase ilegível. Ele abusou tanto da sua inventividade que, na tentativa de desdobrar os planos do texto, colocando até notas de rodapé, acabou forçando a barra em dois aspectos: ao propor um inconvincente roteiro cinematográfico no meio da narrativa e, de forma mais pernóstica ainda, ao incluir no rodapé referências a Goethe e Dante, com citações não-traduzidas em alemão e italiano.

    Nem por isso é menos fascinante o grande coro de vaqueiros que comenta a volta do Grivo (o qual já fora companheiro de infância de Miguilim, em Campo Geral) da enigmática viagem ordenada pelo patrão. O que o Grivo foi fazer, o que foi buscar? Qual a missão confiafa a ele? Talvez trazer notícias da vida que Cara-de-Bronze  perdeu no processo de se fazer latifundiário, “ajuntando suas duras riquezas” (há um certo paralelo com a situação do protagonista de Festa de Manuelzão): “Eu estava cumprindo lei. De ver, ouvir e sentir. E escolher.” A viagem do Grivo (durante a qual ele esbarra com Nhorinhá, aquela mesma que aliviava os dilemas da paixão de Riobaldo por seu colega jagunço, em Grande Sertão) dá vazão ao amor de Guimarães Rosa pelo nome das coisas, dos lugares, dos seres, num atordoante inventário-catálogo enumerando o mundo que escapou ao desalentado e perrengo Cara-de-Bronze, cujo verdadeiro nome, como de praxe no universo roseano, passa por várias metamorfoses (Sigisbé,  Sejisbel Saturnim, Xezisbéo Saturnim,  Zijisbéu Saturnim, Jizisbéu Saturnim, Sezisbério,  Segisberto Saturnino).

    No Pinhém, noutra fazenda, transcorre a intriga da belíssima Estória de Lélio e Lina: o jovem vaqueiro Lélio, forasteiro no lugar, tem a idosa Dona Rosalina, num singular caso de amor entre idades antípodas, para atar os fios da sua educação sentimental em meio aos companheiros de trabalho e às mulheres, solteiras, casadas ou “para uso” da região. Não, leitor, não espere –felizmente—nada do tipo Ensina-me a Viver. Um trecho pode esclarecer o que se passa entre eles: Isso aos outros Lélio não podia explicar, repetido longe dela aquele fraseado se esfriava de valor, era preciso escutar direto quando ela falasse, era preciso gostar da Velhinha. Dizia aquilo, o siso da gente achava que ela estivesse ensinando outro poder inteiro de se viver.” Poucos textos da nossa literatura têm momentos tão bonitos quanto aquele em que Lélio e Dona Rosalina se conhecem, ou aquele da visita dele à amante, Jiní, esposa de Tomé (ele, irmão de Miguilim), após a partida do marido, em que ele sente o estrago feito pelo adultério, a ausência do amigo, atração sexual, repulsa, tudo ao mesmo tempo. Como todos os maiores escritores, Guimarães Rosa é tanto um fabulador quanto um psicólogo, um filósofo, um pedagogo das emoções, ou, resumindo tudo, um arqueólogo das relações humanas como Irving Howe chamava Doris Lessing.

    O texto mais famoso de No Urubuquaquá, No Pinhém não se passa nem no Urubuquaquá nem no Pinhém, e sim em trânsito. Trata-se da obra-prima O Recado do Morro, no qual a tentativa de assassinato do galã sertanejo, Pedro Orósio, que está guiando um estrangeiro (que parece ser uma brincadeira de Guimarães Rosa consigo mesmo, a respeito da sua mania de anotar tudo, como mostra em Cara-de-Bronze), um padre e um fazendeiro pelas serras de Minas, por parte de sete desafetos, é desmascarada através de uma série de indícios revelados por miseráveis, simples de espíritos, loucos místicos, crianças, até que um cantador os recolhe e organiza numa forma que dá chance a Orósio de figurar seu destino, escapar dele e voltar ao seu lugar de origem. Objeto de estudos até obsessivos,  é um daqueles textos que já valem a obra inteira. Por um simples motivo: é uma leitura deliciosa, saborosa, um fino biscoito fabricado com malícia e artimanha por alguém que estava em vias de revelar a maior pirâmide (Grande Sertão) da nossa literatura.

 

 MIL E UMA NOITES DO SERTÃO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de fevereirod e 2006)

     O menos conhecido dos três volumes de Corpo de Baile  é Noites do Sertão, uma das mais requintadas representações literárias das relações erótico-amorosas que o responsável por esta coluna conhece. O autor se dá ao luxo, inclusive, de recriar a linguagem dos Cânticos de Salomão num dos momentos mais belos de Lão-Dalalão (ou Dão-Lalalão ou ainda O Devente), uma das duas “estórias” do livro, as quais são a coisa mais próxima de narrativas tradicionais que Rosa chegou a escrever pós-Sagarana.

    O protagonista de Lão-Dalalão  é Soropita e ele está voltando para casa,  “em meio-sonhada ruminação”. Ex-matador famoso, acabara casando com uma prostituta de Montes Claros, Doralda, e tornando-se fazendeiro, “dono de seus alqueires”: “todos o respeitavam, seu nome era uma garantia falável.” Só que, no caminho, esbarra com Dalberto, antigo companheiro dos tempos de vaqueiro e, como é de praxe, é obrigado a acolhê-lo como hóspede, embora tencione até matá-lo. Por quê ? Devido à possibilidade de Dalberto ter conhecido Doralda na sua época de quenga, o que destruiria seu bom nome na região, mas também por ciúme. Soropita pertence à galeria dos grandes ciumentos retrospectivos (obcecados com o passado amoroso da amada) cujo grande representante na nossa ficção é o Bentinho de D. Casmurro. Além de Dalberto, Soropita também fica tomado pela cisma de que Doralda pudesse ser conhecida (em todos os sentidos, inclusive o bíblico) pelo “preto Iládio”, em razão de um violento ódio racial, materializado em violentas imagens sexuais.

    Aliás, o que faz com que Lão-Dalalão seja uma das obras-primas de Guimarães Rosa é a maneira como ele insinua no texto a voltagem erótica (e psicologicamente intrincada) das fantasias sexuais de Soropita, que chega a imaginar Doralda na cama com Dalberto no momento mesmo em que este lhe confidencia a paixão por outra prostituta e a sua vontade de casar com ela.

    Também complicada,  contudo não tão perfeita como realização artística,  é a ciranda amorosa de Buriti, a narrativa mais longa escrita pelo genial autor mineiro, tirando Grande Sertão. Nela reaparece o Miguilim de Campo Geral, agora médico e adulto, “estrangeiro” de sua terra natal. Ele  chega à fazenda do Buriti-Bom (na região há um colossal buriti, um símbolo fálico gritante), uma espécie de pórtico para os Gerais. Ela pertence a iô Liodoro,  patriarca-garanhão, o qual todas as noites sai para se satisfazer com suas várias mulheres. Na casa, há três moças: Lalinha, nora de iô Liodoro, que foi buscá-la na cidade grande quando o filho a abandonou e a trouxe para viver com a família num estado de espera pela volta do marido, alimentado por rezadeiras e mandingas; Glorinha, assim como a feiosa Maria Behú, é filha de iô Liodoro (e todos são parentes da inesquecível dona Rosalina, de Estória de Lélio e Lina, outro texto de Corpo de Baile) e será a amada do titubeante, hesitoso e angustiado dr. Miguel.

    Buriti demora a engrenar. Começa sob o ponto-de-vista de Miguel (alternando dois tempos diferentes e um deslizar suave entre a 1a. e a 3a. pessoas) e oscila entre momentos geniais e cansativos. A arte de Guimarães Rosa às vezes beira a monotonia de tanto reiterar os mesmos pontos e o leitor tem a impressão de que ele não soube encontrar o “ponto” do bolo. Em compensação, quando o ponto-de-vista passa a ser o da Lalinha, o texto cresce em intensidade, precisão e sofisticação ao nos fazer compartilhar das noites em que sogro e nora (iô Liodoro e Lalinha) se comprazem num jogo de sedução peculiaríssimo, mostrando que as noites do sertão nada ficam a dever a D.H. Lawrence ou a qualquer outro mapeador da presença do desejo em nossas existências. 

 

1956, annus mirabilis de Guimarães Rosa (segunda parte)

PELAS VEREDAS: COLOCANDO A ALMA EM LINGUAGEM

                                I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 06 de maio de 2006)

“Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa –a inteira— cujo significado vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem— mas a gente mesmo, no comum não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas fora dessa conseqüência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer,  fica sendo o falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada como o que se põe, em teatro, ara cada representador –sua parte, que antes já foi inventada, num papel…

Eis que em maio de 1956, do pântano do regionalismo brasileiro, com seus jagunços, coronéis, quengas, lutas armadas, tudo num sururu pitoresco  e raso que continua a fazer sucesso (na televisão, por exemplo) ainda hoje, mantendo-se um bom artigo de exportação da nossa  “identidade nacional”, surgiu um romance único, o maior da nossa literatura: Grande Sertão:Veredas. Os mesmos elementos (jagunços, etc), mas que diferença! A travessia de Riobaldo, o narrador, pelo sertão brasileiro parecia uma jornada pelo cosmo; a aventura nos devolvia o sentido da jornada espiritual (ou existencial, como se queira) e na nossa dessacralizada época o livro de Guimarães Rosa nos proporcionava o que o crítico canadense Northrop Frye colocaria como um dos pontos essenciais da grande ficção do último século (Joyce, Kafka, Mann): o retorno ao mito.

Infelizmente, Grande Sertão:Veredas passou a ser visto sobretudo como um artefato lingüístico estúrdio, quando não estapafúrdio, tal a rejeição por parte de tantos leitores, que não suportam a linguagem adotada por Riobaldo e as dificuldades das primeiras páginas, e acabam por abandonar o livro (foi o caso de colegas de ofício como Érico Veríssimo, o qual escreveu para Clarice Lispector: “não consegui ir além da pág.20”; mesmo um entusiasta já de primeira hora como Fernando Sabino escreveu o seguinte disparate: “no princípio, as 10 primeiras páginas, é meio assim-assim, custa um pouco a engrenar”).

A verdade é que em boa parte do texto há um processo de embaralhamento da seqüência do enredo (basicamente, o relato das guerras internas de um grupo de jagunços) que colabora na decisão de desistir da leitura. Por isso, depois de tantas interpretações críticas, uma grande contribuição foi dada em 1972 por José Carlos Garbuglio e seu O mundo movente de Guimarães Rosa, que atacou pela raiz a questão da dificuldade da leitura e justificou a estrutura narrativa adotada por Rosa:  segundo ele, a 2a. parte do livro é o momento em que se revela o derradeiro chefe do bando de jagunços que faltava conhecer na embaralhada primeira parte: o próprio Riobaldo. É quando ele assume o seu destino, fazendo o pacto com o diabo que permite que ele resolva os assuntos pendentes do bando e comece as tremendas dúvidas existenciais que alimentarão e justificarão sua narrativa, que é toda feita para um interlocutor urbano que chegou à sua fazenda.

Graças ao processo empregado na 1a. parte, que está longe de ser confusa, quando começa o julgamento, por parte dos líderes jagunços, de Zé Bebelo (cena que está na metade do romance), já conhecemos por antecipação cada personagem importante e suas  características essenciais. Todos os chefes já foram apresentados e apareceram em ação (menos Riobaldo, que parecia ser levado passivamente pelos acontecimentos e pelo amor a Diadorim). Por sua atuação no julgamento (salva a vida de Zé Bebelo), Riobaldo se torna o chefe virtual do bando. Sua chefia já está inscrita no futuro. E justamente a sua atuação e o resultado é que causam as conseqüências (traição, nova guerra, pacto com o diabo, morte de Diadorim) que fazem a narrativa durar ainda centenas de páginas apaixonantes, que nos fazem adentrar nesse sertão que está em toda a parte e principalmente dentro da gente.

II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 13 de maio de 2006)

“Recorro a apenas três critérios em relação ao que leio e ensino: esplendor estético, força intelectual e sapiência… A mente sempre volta às suas necessidades de beleza, verdade, discernimento. A mortalidade flutua no ar e todos aprendemos que o tempo triunfa. Vivemos num intervalo e, então, nosso lugar não mais nos reconhece (…) os maiores escritores, antigos e modernos produzem equilíbrios (ainda que precários) que permitem a coexistência da sabedoria prudencial e de certas insinuações de esperança. A verdade, segundo William Blake, não pode ser conhecida, mas pode ser encarnada.  Quanto à sabedoria,  eu afirmo o contrário: não podemos encarná-la, mas podemos aprender a conhecê-la, a despeito de ser ou não identificável  com a Verdade que talvez nos liberte.”

As palavras acima, de Onde encontrar a Sabedoria(ed. Objetiva), de Harold Bloom, nos ajudam a prosseguir o comentário sobre o  grande livro da nossa literatura, Grande Sertão: Veredas.

Quem já leu o leu sempre se lembra de uma citação que ilumina um problema, uma situação, um dilema, a  condição humana, tal como foi sendo construída ao longo dos milênios. Há pessoas que o citam constantemente. Há até os que, sem nunca o terem lido, conhecem (e citam) trechos. Um exemplo famoso: “… o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas—mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro –dá gosto! A força dele, quando quer –moço!—me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho—assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.”

Onde encontrar a Sabedoria ? Em Grande Sertão: Veredas. Nesse monumental livro de auto-ajuda, que pulveriza as dicas-miojo presentes no mercado editorial de como encarar a vida e o quotidiano, esplendor estético, força intelectual e sapiência (no sentido existencial e místico) se entrelaçam de uma forma tão perfeita que mesmo recentes interpretações cujo objetivo é desmistificar a figura de Riobaldo (por conta do seu Pacto, o qual seria não com o Demo, mas com o poder instituído–como depreendemos de leituras críticas menos metafísicas e mais historicizantes) não conseguem tirar o seu charme e carisma de Hamlet/Fausto sertanejo.

O mais importante e bonito da obra-prima de Guimarães Rosa é que essa Sabedoria que se tira da leitura, contínua ou renovada algumas vezes, do romance está mergulhada no fluxo da narrativa, não dá para separar da “matéria vertente que é o existir, o ser-tão em meio a veredas que podem ser acaso ou destino. Como nunca permanecemos iguais (e mocidade não é “tarefa para mais tarde se desmentir ?) cada leitura é uma nova experiência e aferição de achados neste nosso misturado mundo. Pois a sabedoria que possamos conseguir jamais se desvincula do tipo específico de vivência que temos. Nem a religião (e Riobaldo prova de todos) é garantia suficiente: “Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório”.

Como bem notou Kathrin Rosenfeld (em Os Descaminhos do Demo, ed. Imago), o paradoxo da sabedoria a ser encontrada num mundo de veredas faz com que a narrativa de Riobaldo seja não a revelação e o desvendamento de um Sentido, “mas o desdobramento de uma densa trama de imagens nas quais a verdade –a essência, o Nome—se oculta(…) no desdobramento das imagens  do sertão  confuso e misturado, que impede a visão imediata da verdade, obrigando-nos a seguir laboriosamente os rastros sinuosos das veredas labirintícas.” Nesse ponto, porém, temos sorte: podemos seguir laboriosa e precariamente as veredas labirínticas (todavia tão prosaicas) desse viver que é tão perigoso (até na sua banalidade essencial), contudo as da travessia de Riobaldo são sempre um chamado ao máximo prazer da leitura

 III  

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de maio de 2006)

 “Quer percebamos claramente ou não o caráter de coisa organizada da obra literária torna-se um fator que nos deixa mais capazes de ordenar a nossa própria mente e sentimentos e em conseqüência mais capazes de organizar a visão que temos do mundo… A produção literária tira as palavras do nada e as dispõe como todo articulado… toda obra literária pressupõe esta superação do caos, determinada por um arranjo especial das palavras e fazendo uma proposta de sentido.” (Antonio Candido, O direito à literatura)

Na seção anterior afirmei que Grande Sertão: Veredas era um dos Livros de Sabedoria à nossa disposição, tanto no sentido básico das palavras acima de Antonio Candido, da literatura como organizadora da experiência (ou como diz Clarice Lispector tão belamente em A maçã no escuro: “organizar a alma em linguagem”), quanto no sentido de uma função—ou missão—pedagógica. É o traço que une livros tão díspares como os de Hermann Hesse (O jogo das contas de vidro), Thomas Mann (A montanha mágica), Doris Lessing (Shikasta), Marguerite Yourcenar (Memórias de Adriano) ou José Saramago (Ensaio sobre a cegueira), para citar alguns romances que nos ensinam um pouco a viver. O fato de serem extraordinárias obras literárias também não é fortuito: para continuar citando o mestre da crítica brasileira, “quando recebemos o impacto de uma produção literária, ele é devido à fusão inextricável da mensagem com sua organização… o conteúdo só atua por causa da forma, e a forma traz em si, virtualmente, uma capacidade de humanizar devido à coerência mental que pressupõe e que sugere” (como se vê, não é à toa que Candido escreveu o pioneiro ensaio esclarecedor sobre o significado da obra-prima de Guimarães Rosa, hoje chamado O homem dos avessos).

Esse é o lado iluminado, radioso, do livro. Todavia, há um lado sombrio, terrivelmente desolador, e é a sua revelação de que não basta organizar a alma em linguagem, como faz Riobaldo, seria preciso modificar o mundo em que se vende essa mesma alma ao diabo. Os recentes episódios do crime organizado impondo sua vontade à nossa desorganizada sociedade civil deram mais atualidade ao sertão simbólico de Guimarães Rosa onde o banditismo é um poder paralelo. Sertão simbólico que porém se enraíza em dados históricos bem reais (sua ação transcorre no início da República).

Um dos episódios mais impressionantes de Grande Sertão: Veredas é o encontro do bando de jagunços liderados por Zé Bebelo (do qual fazem parte Riobaldo e Diadorim) com os “catrumanos”, o povo mais miserável do sertão. Encontrá-los é como entrar numa máquina do tempo que remetesse ao remoto, ao arcaico, ao mais atrasado, ao verdadeiramente vergonhoso em nossa nação: falam outra linguagem, estão devorados pela doença, pelo abandono, pela desesperança. É aí que Riobaldo percebe o vazio dos discursos progressistas de Zé Bebelo, o qual apregoa querer “civilizar” o sertão, como hoje políticos falam em políticas sociais compensatórias como se fossem milagres mandados por Deus.

Mais ainda: na região dos catrumanos, Riobaldo conhece um fazendeiro, seô Habão, e percebe como é derrisória (e tão perto da condição pária do sertanejo, ou melhor, do povo brasileiro em geral) a vida de jagunço, que ele acreditava a princípio ter uma aura de glória: “—aí eu entendi a gana dele: que nós, Zé Bebelo, eu, Diadorim, e todos os companheiros, que a gente pudesse dar os braços, para capinar e roçar, e colher, feito jornaleiros dele. Até enjoei. Os jagunços destemidos, arriscando a vida, que nós éramos; e aquele seô Habão olhava feito o jacaré no juncal: cobiçava a gente para escravos! Não sei se ele sabia que queria… Mas a natureza dele queria, precisava de todos como escravos”.

Logo depois, nosso amigo Riobaldo faz seu famoso pacto com o Diabo. Não seria lícito ver na junção desses episódios algo de extremamente revelador sobre a natureza da sociedade brasileira ? Jagunço levado pelo destino, Riobaldo se entende com o demo e se habilita a se tornar líder do bando; mais ainda, se habilita a  transformar-se num rico proprietário como seô Habão, livre, leve e solto para transformar sua vendida alma em portentosa linguagem.

 

20/11/2012

Jorge Amado em estado de graça: “Tenda dos Milagres”

(texto escrito especialmente para o blog em comemoração do centenário de Jorge Amado, em dez de agosto de 2012)

A Tenda continuava… a ser o centro da vida popular, ruidosa assembleia de conversas, ideias, realizações. Ali se escondiam pais e mães-de-santo perseguidos ali foram preservadas riquezas dos axés, ali o pai Procópio curou-se da surra de chicote que lhe rasgou as costas na polícia…”

“Daqui saí e aqui permaneço. Se em algo mudei e certamente assim aconteceu, se dentro de mim romperam-se valores e foram substituídos, se morreu uma parte de meu ser antigo, não renego nem renuncio a nada do que fui… Em meu peito tudo se soma e se mistura…” (diz o oswaldiano Pedro Archanjo[1])

Mesmo no tempo em que implicava com Jorge Amado, sempre mantive minha estima por TENDA DOS MILAGRES (1969). Enquanto, por mais que o respeitasse como realização épica, me irritava a sucessão de lugares-comuns que apareciam já no primeiro parágrafo de Terras do Sem-fim (uma besteira, porque o livro se garante de outra maneira, não como triunfo de “estilo”), não conseguia desencavar nada que desabonasse a história de Pedro Archanjo e a grande apologia da mestiçagem decorrente dela.

No momento em que se comemora o centenário de nascimento de Amado, nada mais natural que me voltasse para um livro no qual há também, ainda que de forma bem irônica, a comemoração de um centenário. E, com essa atualização da leitura, não mais sob o efeito da nostalgia (o único aspecto que teve o seu quê de nostálgico foi que, ao reler o romance na edição sem-graça da Companhia das Letras, senti saudade da bela edição original da Martins, ainda insuperada), posso alardear aos quatro ventos: trata-se de um belíssimo romance. Se não cria um mundo completo, na acepção balzaquiana, como Gabriela, cravo e canela (1958), possivelmente a obra-prima suprema do autor baiano, em termos de vitalidade do estilo e visão da vida, de verve, de  riqueza de ideias, acho que Tenda dos milagres é imbatível. Para mim, está para sua obra como O eleito está para a obra de Thomas Mann. Em ambos, parece que os autores estavam em estado de graça ao escrever, ambos dão a impressão de uma milagrosa reunião das qualidades e peculiaridades dos seus determinados universos autorais.

Comentei dos constrangimentos que a leitura de Amado (ainda mais uma orientada pela má vontade) acarreta mesmo no caso de seus melhores livros como Terras do Sem-fim, o que dirá dos piores  (Os ásperos tempos, primeiro volume de Os subterrâneos da liberdade, é um desfiar incessante de prosa fácil, calcada no lugar-comum e num apelo quase de folhetim barato). Mas de alguma forma Amado escapou das armadilhas da facilidade e cunhou um discurso narrativo delicioso, flexível, rico em inflexões e achados, ara TENDAS DOS MILAGRES.

Se Os ásperos tempos adota as soluções do folhetim sentimental, na história de Pedro Archanjo vemos um verdadeiro exercício da narrativa em todas as suas modulações, inclusive as picarescas e folhetinescas (só que de forma bem autoconsciente[2], basta lembrar da subtrama em que um dos filhos naturais de Archanjo, Tadeu, que se forma engenheiro e é rejeitado como pretendente da amada, por sua cor, não admite o plano do “padrinho”, como chama o progenitor, em raptar a noiva, por rocambolesco e exagerado —Tadeu já representa o aburguesamento:  “Pedro Archanjo pôde finalmente rir, não se propunha a palmatória do mundo, Lu e Tadeu resolvessem conforme melhor lhes aprouvesse, de qualquer maneira teriam seu apoio. Legalista e demorada, não era aquela a sua solução nem a de Alexandre Dumas, Pai, o mulato nascido do general de Napoleão e da bela negra da Martinica (da Martinicia ou de Guadalupe?—não se lembrava): se ouvidos, teriam optado pelo rapto incontinenti, de peito aberto”).[3]

Seu achado mais feliz foi fazer a narrativa ocorrer em dois tempos distintos (principalmente se atentarmos para a perigosa época em que o livro foi publicado; aliás, encontraremos diversas alusões e referências diretas aos arbítrios daqueles anos): em 1968, quando o renomado “sábio” norte-americano James D. Levenson chega, festejado e paparicado, à Bahia, e esnoba toda a agenda social tecida em torno da sua estadia, para se dedicar aos prazeres da companhia de uma jornalista mulata, Ana Mercedes, e à exaltação de um portentoso (porém, até então desconhecido) pensador baiano, cujos quatro livros fizeram a descrição e análise da riqueza dos costumes populares, das tradições africanas incorporadas à cultura brasileira, a mistura de sangues e de raças presente no cerne da baianidade, e quiçá, da brasileiridade,e, por fim, a riqueza que essa miscigenação étnico-cultural trouxe ao nosso país. Quem é Pedro Archanjo? Ao perceberem que ele é exaltado em terras estrangeiras, as autoridades e os intelectuais tentam se “apropriar” desse fenômeno, e o dono de um importante jornal tem a ideia genial de criar um calendário de eventos para comemorar o centenário de nascimento desse ilustre varão da terra.

O narrador é Fausto Pena, jovem poeta obscura, namorado constantemente corneado (e depois sumariamente posto de lado), inclusive pelo eminente e fogoso  Levenson, de Ana Mercedes, que, no entanto consegue para ele a incumbência de pesquisar para o “gringo” a vida obscura de Archanjo.

Primeiramente de maneira não-linear e emaranhada, depois mais nos trilhos, abre-se o segundo plano narrativo e recuamos para a Bahia das primeiras décadas do século XX (Archanjo morre aos 75 anos, em 1943) e descobrimos o porquê de todos ignorarem a existência desse pensador. Simplesmente porque ele mesmo era “mestiço”, além disso pobre (um mero bedel na faculdade de medicina, cargo que ocupou por trinta anos até ser expulso por ofender a honra de um professor racista, por ter publicado um livro sobre a mistura de raças na genealogia das tradicionalíssimas famílias baianas, e afirmar que ambos tinham um antepassado comum).

“Foi a partir desse tempo, moço de vinte e poucos anos, que Pedro Archanjo deu na mania de anotar histórias, acontecidos notícias, casos, nomes, datas, folhas, detalhes insignificantes, tudo que se referisse à vida popular. Para quê? Quem sabe lá. Pedro Archanjo era cheio de quizilas, de saberes e certamente não se devera ao acaso sua escolha, tão moderno ainda, para alto posto na casa de Xangô, levantado e consagrado Ojuobá, preferido entre tantos outros candidatos, velhos de respeito e sapiência. Coube-lhe, no entanto, o título, com os direitos e  os deveres; não completara ainda trinta anos quando o santo o escolheu e o declarou: não pudera haver maior acerto—Xangô sabe os porquês…”

A princípio, mesmo na releitura, já conhecendo o livro, apesar de gostar da mistura de tempos, das situações, enfim, apesar de achar o livro delicioso, eu implicava com a figura de Pedro Archanjo, que me parecia boa demais para ser verdade, um pouco como a figura do Zorba de Nikos Kazantzakis. Essa alegria de viver, essa mistura de genialidade com garanhice, essa identificação com o povo, essa coisa de ojuobá, me parecia “temperada” demais, excessiva, a ponto de não ver encanto justamente na figura principal do livro. O que ajudava a digerir bem esse excesso de tempero na composição de Archanjo era justamente a maneira hábil com que Amado abordava-o: um misto de diz-que-diz, meio lenda meio verdade, sem que os fatos chegassem a formar um conjunto nítido[4].

Mas isso era arrogância de leitor e eu pequei por não confiar suficientemente na maestria de Amado, mesmo adorando o texto. Se por um lado a narrativa vai ficando mais linear, sem perder que a prosa perca seu prodigioso sabor e saber, ao mesmo tempo a figura de Archanjo vai se tornando mais crível e enfim temos um personagem de primeira grandeza, não apenas um “fodão” do povo. Surpreendeu-me que eu, já macaco velho de montes de leituras, ficasse tão emocionado com a parte final de TENDA DOS MILAGRES, que eu acho muito triste (embora o livro, como deve ser, termine numa apresentação de samba-enredo de carnaval—mas quando foi que o samba não teve um fundo triste?)[5]. Depois que Archanjo vai escrevendo seus livros, e confessa ao seu “camarado” professor da faculdade de medicina que no fundo não acredita mais nos ritos do candomblé, naquela coisa de ojuobá, que ele os executa por um sentimento de adesão à cultura popular, mais ainda, a um sentimento de pertencimento, de fraternidade[6], ele se torna “o” personagem da galeria criada por Jorge Amado; não podemos esquecer também a narração do fim de sua vida, sem seu compadre Lídio Corró, vivendo de bicos, sempre anotando ditos e informações. São as melhores páginas que o autor de Jubiabá escreveu em sua vida.

E TENDA DOS MILAGRES se torna não apenas o meu livro predileto de Jorge Amado, mas um dos meus livros prediletos de toda a vida.


[1] Oswald de Andrade dizia: “eu somo, eu encaixo, eu incorpro”…. O burguês branco de São Paulo e o mulato baiano, ambos com a mesma glutonaria antropofágica pela vida.

[2] Ou nem tanto, o que de maneira nenhuma entrava o romance. Por exemplo, na subtrama em que a filha de Rosa de Oxalá se casa, e a mãe tem de assistir (escondida) a cerimônia na igreja, por ser negra e manteúda do dr. Jerônimo de Alcântara Pacheco, parece que estamos acompanhando um dramalhão estilizado de Douglas Sirk, o diretor da versão de Imitação da Vida, com Lana Turner.

Porém, o segredo dos romances realmente grandíssimos é o de incorporar várias linguagens e estratos.

[3] Diga-se de passagem, a própria origem de Tadeu é uma mescla do realismo literário com o lendário e o folhetinesco, pois sua mãe, Dorotéia, seria uma iaba, uma orixá encapetada, que queria brincar com a sexualidade do femeeiro Pedro Archanjo e acabou enrabichada por ele, depois no entanto “sumindo no mundo”, sem saber o que fazer com o filho “que só queria saber de livro e de contas”. A deserção de Tadeu da vida do “padrinho” é um dos muitos elementos que melancolizam as últimas páginas de TENDA DOS MILAGRES e ao mesmo tempo representa uma evolução pessoal do personagem e um processo social. Desse ponto de vista, o livro é um perfeito exemplo do romance histórico na acepção lukácsiana, mas não sei se o mestre húngaro da crítica literária concordaria.

[4] Veja-se esta passagem: “Em meio  a tanto embeleço, uma coisa é certa: a presença de Zabela na festa de Ogun em que se deu o encantamento. Divergem os relatos de narrador para narrador. Todos viram o bafafá com os olhos que a terra um dia há de comer mas cada qual o enxergou á sua maneira”.

[5] “Nas escolas de capoeira, a discutir com Budião e Valdeloir, nos pastoris, na sede dos Afoxé dos Pândegos da África, nos terreiros, nas madrugadas nas Sete Portas, em Água dos Meninos. De conversa em conversa, tomando notas na pequena caderneta preta, fazendo rir e chorar com casos acontecidos, numa correria, viveu o velho Pedro Archanjo os últimos anos de sua vida. Tanta corrida, tanta gente, tão sozinho.”

[6] “Tudo aquilo que foi meu lastro, terra onde tinha fincado os pés, tudo se transformou num jogo fácil de adivinhas. O que era milagrosa descida dos santos reduziu-se a um estado de transe que qualquer calouro da Faculdade analisa e expõe. Para mim, professor, só existe a matéria. Nem por isso deixo de ir ao terreiro e de exercer as funções de meu posto de Ojuobá, cumprir meu compromisso. Não me limito como o senhor que tem medo do que os outros possam pensar, tem medo de diminuir o tamanho de seu materialismo.

__ Sou coerente, você não é!, explodiu Fraga Neto, Se não acredita mais, não acha desonesto praticar uma farsa, como se acreditasse?

__ Não. Primeiro, como já lhe disse, gosto de danar e de cantar, gosto de festa, antes de tudo de festa de candomblé. Ademais, há o seguinte: estamos numa luta, cruel e dura. Veja com que violência querem destruir tudo que nós, negros e mulatos, possuímos, nossos bens, nossa fisionomia. Ainda há pouco tempo, com o delegado Pedrito, ir a candomblé era um perigo, o cidadão arriscava a liberdade e até a vida (…) O senhor pensa que, seu eu fosse discutir com o delegado Pedrito, como estou discutindo com o senhor, teria obtido algum resultado? Se eu houvesse proclamado meu materialismo, largo de mão o candomblé, dito que tudo aquilo não passava de um brinquedo de criança, resultado medo primitivo, da ignorância e da miséria, a quem eu ajudaria? Eu ajudaria, professor, ao delegado Pedrito e sua malta de facínoras, ajudaria a acabar com uma festa do povo. Prefiro continuar a ir ao candomblé, ademais gosto de ir, adoro puxar cantiga e dançar em frente aos atabaques.

__ Assim, mestre Pedro, você não ajuda a modificar a sociedade, não transforma o mundo.

__ Será que não? Eu penso que os orixás são um bem do povo. A  luta da capoeira, o samba-de-roda, os afoxés, os atabaques, os berimbaus são bens do povo. Todas essas coisas  e muitas outras que o senhor, com seu pensamento estreito, quer acabar, professor, igualzinho ao delegado Pedrito, me desculpe lhe dizer. Meu materialismo não me limita…”

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