MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

31/07/2018

HOMENAGEM A HILDA HILST

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 31 de julho de 2018)

Um dos privilégios da minha vida foi ter conhecido Hilda Hilst (a grande homenageada da FLIP 2018). Aos 20 anos, visitei a Casa do Sol, o sítio onde vivia. Era apaixonado por sua obra, que estava no auge, com a publicação da novela “A Obscena Senhora D” e os poemas de “Odes Mínimas” e “Cantares de Perda e Predileção”. O clímax inesquecível da visita foi a leitura em voz alta do ainda inédito “COM OS MEUS OLHOS DE CÃO”, publicado no ano seguinte (1986).

“COM OS MEUS OLHOS DE CÃO” trata-se de outro ponto alto da sua produção, cujo protagonista, Amós Keres, foi uma criança que fazia sempre perguntas incômodas, impressionado com a morte e a presença do sofrimento no mundo. Fortemente reprimido pelo pai autoritário, ele aos poucos calou em si essas perguntas, mergulhando no estudo da matemática, constituindo família, tornando-se professor universitário. Um dia, no alto de uma colina, ele tem uma visão epifânica e a partir daí ficarão esgarçadas todas as suas relações com um mundo mentiroso, sentimentalizado e complacente. Ele fica “alheio” nas aulas (os alunos se retiram e deixam recados jocosos na lousa), passa a sentir repulsa pela mulher e o filho, parece estar sempre com um sorriso desdenhoso (o que o mete em confusões) e a cabeça inclinada e seu único interlocutor é um amigo, Isaiah, que vive maritalmente com uma porca. Ao cabo, Amós decide voltar à casa da infância, com muito de rural ainda, e viver nos fundos do quintal, como um bicho, um ser desnudado, descobrindo também que o pai tinha os mesmos assomos de descortinamento do coração selvagem da vida: “que esforço para tentar não compreender, só assim se fica vivo, tentando não compreender”.

Não se pense que o texto é assim coeso, unívoco. Como sempre em Hilda Hilst, tudo vem numa forma agônica, emaranhada e intrincada, na qual todos os gêneros são misturados e a escatologia permeia todas as instâncias da condição humana (para se ter uma ideia, Amós Keres gostava de estudar matemática num puteiro), com a influência de Otto Rank & Ernest Becker de que vivemos sob o terror da morte e da nossa analidade “… Amós Keres. Inocente como um pequeno animal-criança olhando o Alto. Mas dizem que o Alto é o nada e é preciso olhar os pés. E o cu também. Com um espelho. Estou olhando. Impossível esquecer grotesco e condição”.

Plínio Marcos com Samuel Beckett. O leitor que se prepare, pois tem de estar disposto. Com essa obscena Senhora H, é tudo ou nada.

“Daqui onde estou posso ouvi-lo pensando da lucidez de um instante à opacidade de infinitos dias, posso ouvi-lo pensando nas diversas formas de loucura e suicídio. A loucura da busca, essa feita de círculos concêntricos e nunca chegando ao centro, a ilusão encarnada ofuscante de encontrar e compreender. A loucura da recusa, de um dizer tudo bem, estamos aqui e isto nos basta, recusamo-nos a compreender. A loucura da paixão, o desordenado aparentando ser luz na carne, o caos sabendo à delícia, a idiotia simulando afinidades. A loucura do trabalho e do possuir. A loucura do aprofundar-se depois olhar à volta e ver o mundo mergulhado em matança e vaidade, estar absolutamente sozinho no mais profundo. Amós está? Daqui onde estou posso ouvi-lo pensando como devo matar-me? Ou como devo matar em mim as diversas formas de loucura e ser ao mesmo tempo compassivo e lúcido, criativo e paciente, e sobreviver? ”.

 

Anúncios

26/06/2018

OS CRAQUES DA SELEÇÃO RUSSA, PARTE DOIS

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 26 de junho de 2018)

Continuo meu passeio pela grandiosa literatura russa, iniciado na semana passada.

Maksim Gorki, 1868 –1936, outro versátil, exercitando em vários gêneros, mas brilhando mesmo nas suas memórias em obras como “Infância” e “Minhas Universidades”.

Ivan Alekseyevich Bunin, 1870 — 1953, grande contista, retratando fim do regime czarista de forma intimista e sutil. Ganhou o Nobel em 1933. Comentei aqui “Contos Escolhidos” (editora Amarilys).

Leonid Nicolaevitch Andreiev, 1871 – 1919, o mestre da ficção expressionista e mórbida, em obras como “A conversão do Diabo”, “Judas Iscariotes” e “Os sete Enforcados”.

Boris Leonidovitch Pasternak, 1890 — 1960, não conheço sua consagrada poesia, porém sofri impacto da poesia da sua prosa em “Doutor Jivago”, um dos mais belos romances do século passado. Ganhou o Nobel em 1959, contudo o regime soviético o obrigou a não aceitar o prêmio.

Mikhail Afanásievitch Bulgákov, 1891 –1940, perseguido por Stalin, sua obra-prima “O mestre e Margarita” foi publicada vinte anos após sua morte. Tão exuberante e original quanto esse romance, deixou suas “Memórias de um Jovem Médico”, adaptada pela HBO com Daniel Radcliffe, o Harry Potter.

Isaac Emmanuilovich Babel, 1894 – 1940, Doris Lessing o admirava, o que me levou a ler suas maravilhosas “Novelas e Cavalarias”.

Vladimir Vladimirovich Nabokov, 1899 — 1977, antes de se consagrar como autor de língua inglesa, o “Russo Branco” (exilado do regime soviético) publicou muitas obras em seu idioma natal, como “Desespero”, “A Defesa”, “Gargalhada na Escuridão”, sempre dispensando a “delegação vienense” (assim se referia a Freud e seus seguidores), mais um prato cheio para a psicanalise.

Mikhail Aleksandovitch Cholokhov, 1905 — 1984, há rumores de que roubou a obra-prima “O dom Silencioso” de um colega caído em desgraça no período stalinista. Verdade ou não, o livro é lindo e ele ganhou o Nobel em 1965.

Vasily Semyonovich Grossman, 1905 – 1964, no seu grande épico “Vida e Destino” escancarou o antissemitismo russo. Foi um excelente correspondente de guerra.

Anatoly Naumovich Rybakov, 1911 – 1998, seu romance “Os filhos da Rua Arbat” foi emblemático no período da “Glasnost”, que marcou o fim da União Soviética.

Alexander Issaiévich Soljenítsin, 1918 — 2008, Milan Kundera disse que era um gigante entre os homens, mas não entre os escritores. Não concordo. Além de revelar os horrores do regime stalinista em “O arquipélago Gulag”, escreveu obras-primas como “Um dia na vida de Ivan Denisovich” e o monumental “Agosto 1914”. Ganhou o Nobel em 1970.

Leonid Borisovich Tsypkin, 1926 —1982, escreveu “Verão em Baden-Baden”, lindo romance sobre Dostoiévski e seu vício em jogos.

Andrei Georgiyevich Bitov, 1937, o único vivo da lista. Seu romance “A casa de Puchkin” não apenas uma alusão ao fundador da literatura russa, mas uma profunda reflexão existencialista.

Craques RUssos - Jornal

19/06/2018

CRAQUES DA SELEÇÃO RUSSA: PARTE UM

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 15:44
Tags: ,

(Uma versão da resenha abaixo foi publicado originalmente em A TRIBUNA de Santos em 19 de junho de 2018)

A Rússia é uma potência literária. Apresento alguns dos seus craques. Haverá lacunas e ausências, mas a lista reflete trinta e tantos anos de leituras.

Alexander Sergueievitch Pushkin0p, 1799 — 1837, o fundador da literatura russa. Versátil, experimentou todos os gêneros. Sua obra mais ambiciosa é o poema épico “Eugênio Oneguin”.

Nikolai Vasilievich Gogol, 1809 — 1852, o genial autor de novelas como “O Capote” e “O Nariz”. Escreveu a deliciosa peça “O inspetor geral” e deixou um romance inacabado, “Almas Mortas”.

Mikhail Iúrievitch Lérmontov, 1814 — 1841, seu “Herói do nosso Tempo” coloca as aventuras de seu protagonista num cenário geopolítico ainda hoje conflituoso.

Ivan Aleksandrovitch Gontcharov, 1812 – 1891, lendo sua obra-prima “Oblomov” nos espantamos com as similaridades do império russo e o Brasil imperial.

Nikolai Semyonovich Leskov, 1831 — 1895, outro grande novelista, comprovam os textos de “Homens Interessantes”.

Ivan Sergeiévitch Turguêniev, 1818 — 1883, apesar de ser um estilista, admirado por Flaubert, seus romances tratam de conflitos de gerações e ideológicos, caso de “Rudin” e “Pais e filhos”.

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski 1821 – 1881, seria o escritor supremo se não existisse Tolstói, majestoso tanto em obras curtas, como “O Duplo”, “Notas do Subsolo” e “Um Jogador”, quanto nos romances ciclópicos como “Crime e Castigo”, “O Idiota”, “Talvez seu mais belo livro”, e “Irmãos Karamazovi”. Atormentado por Deus e pelo vício de jogar, foi um dos autores mais influentes do ocidente.

Liev Nikoláievich Tolstói, 1828 —1910, o maior gênio da literatura, a meu ver. Obcecado pela morte, fez a vida pulsar em “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”, os maiores romances já escritos. Enfrentou sua nêmesis no avassalador “A morte de Ivan Ilitch”. Educador, fundador de uma religião própria, escreveu também peças poderosas como “O cadáver vivo”. Custa a crer que tenha morrido de fato.

Anton Pavlovitch Tchecov, 1860 — 1904, o maior contista de todos os tempos, basta ler coletâneas como “A dama do Cachorrinho” e “O Beijo”. Não contente em ser gênio em um gênero, escreveu peças magistrais sobre a inércia da classe alta, como “O jardim das Cerejeiras” e “As três irmãs”. (continua na próxima semana).

29/05/2018

A IMPRUDÊNCIA MAJESTOSA DE PHILIP ROTH

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 29 de maio de 2018)

Já disse que John Updike e Philip Roth eram o Tolstói e o Dostoiévski da literatura americana. Updike se foi há alguns anos, seu “outro” judaico morre agora, aos 85 anos, deixando uma obra vasta e majestosa, da qual nenhuma resenha daria conta. Por isso, escolhi o meu favorito entre tantos títulos marcantes (“O complexo de Portnoy”, “O Ghost Writer”, “Pastoral Americana”, “O avesso da Vida”, por exemplo).

Um dos aspectos fabulosos de “O TEATRO DE SABBATH”, é o fato de o romance ter 544 páginas e toda a história praticamente ser contada nas primeiras cinquenta. O leitor fica a se perguntar o tempo todo: como Roth vai dar conta do recado? (Preencher e rechear as páginas que faltam) e, quando dá por si, leu o texto inteiro deliciado e maravilhado com o virtuosismo do genial escritor norte-americano.

“O TEATRO DE SABBATH” mostra um artrítico ex-titereiro (isto é, manipulador de fantoches) judeu que é a chaga da cidadezinha chamada Madamaska Falls, na Nova Inglaterra. Aos 64 anos, tem uma esposa alcoólatra e uma voluptuosa, opulenta amante, a qual descobre estar com câncer. E principalmente uma reputação de obscenidade.

Quando Drenka (a amante) morre, Sabbath passa a ir diariamente até o seu túmulo masturbar-se (e descobre que outros amantes de Drenka fazem o mesmo). Nesse ínterim, recebe a notícia da morte de um ex-conhecido do mundo teatral, em Nova Iorque. Ele hesita em ir ou não prestar suas homenagens, até que, após um confronto com a atual esposa, a cerimônia fúnebre torna-se uma perspectiva atraente. E é a partir daí que Roth, como romancista, mostra que tinha todos os trunfos na manga, e pode jogar à vontade com as informações que já fornecera ao leitor, sobre o passado do seu protagonista.

Nada, absolutamente nada, é desperdiçado no livro. Tudo oferece chance para cenas brilhantes e impagáveis, na qual Sabbath destila sua sexualidade politicamente incorreta e afrontosa. Nunca convide Sabbath para passar a noite em sua casa, leitor. Ele pode ocupar seu tempo vasculhando a roupa íntima das suas filhas, masturbando-se com as calcinhas delas ou fazendo propostas indecentes à sua esposa.

Demolindo a caretice e o conformismo triunfantes nos tempos modernos (e que se acreditava terem sido deixados para trás), a obra-prima de Roth faz com que Sabbath sempre fique no limite do intolerável, do inconveniente, do inapropriado. Herói de uma incipiente contracultura, nos anos 50, ele é um desconforto ambulante na década de 90, uma espécie de Rei Lear da sexualidade (não faltam alusões shakespearianas em “O TEATRO DE SABBATH”), despojado de tudo a não ser do seu pênis. Que continua dando trabalho a todos, ao dono e as pessoas que lidam com ele.

O maravilhoso em Philip Roth é que ele nunca cai na autoindulgência com a sexualidade masculina (tal como um Charles Bukowski). Seu talento corrosivo não poupa o próprio discurso libertário e abusado do sexômano sexagenário, que, mesmo assim, vem trazer uma lufada de ar fresco e um tempero picante, com sua degradação e sua inconveniência, a nossos tempos de “sexo seguro” (e tudo o mais totalmente inseguro e líquido): “Sem esposa, sem amante, sem tostão, sem profissão, sem casa… e agora, para coroar tudo isso, em fuga. Se não fosse velho demais para voltar para o mar, se seus dedos não estivessem aleijados, se Morty tivesse sobrevivido e Nikki não fosse louca, ou se ele mesmo não fosse louco também, se não houvesse guerra, loucura, perversidade, doença, estupidez, suicídio e morte, existiria alguma chance de Sabbath estar em uma situação bem melhor”.

Como o narrador mesmo nos diz, “os 64 anos de vida de Sabbath o haviam, muito tempo antes, liberado da falsidade do bom senso”. Sabbath possui “o talento que um homem arruinado tem para cometer imprudências… o poder de ser alguém que nada mais tinha a perder”.  Tanto é, que perto do final, quando desistiu de cometer suicídio (para o qual estava se preparando boa parte da narrativa), por motivos que só uma leitura desse romance obrigatório (como tantos outros de Philip Roth) pode esclarecer, ao provocar o filho de Drenka, um policial, para que ele o execute, ele se resume da seguinte forma: “Sou um cara imprudente. Para mim, também é uma coisa inexplicável. Isso substituiu praticamente tudo o mais na minha vida. Parece constituir o único objetivo do meu ser”. Melhor para nós, leitores.

 

01/05/2018

O UNIVERSO DE LEONARDO SCIASCIA: A SÍCILIA OU O BRASIL DE HOJE?

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 13:27
Tags: , ,

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 01 de maio de 2018)

Em “A cada um o seu”, o fabuloso Leonardo Sciascia mostra o protagonista (um corretíssimo e quixotesco professor de literatura) indo ao fórum, para obter o atestado de antecedentes que lhe facultará a licença para dirigir: “Subia as escadarias, masoquistamente desenvolvendo aquelas apreensões que são típicas do italiano que está para entrar no labirinto de uma repartição pública, ainda mais dedicada à justiça”.

Em nenhuma região da Itália essa desconfiança com relação à justiça enquanto instituição do Estado, enquanto instância que não combina com sentimentos atávicos e milenares, é tão profunda quanto na Sicília, e esse é o tema do paradigmático “O DIA DA CORUJA”: o dirigente de uma cooperativa de construção, que recusou a “proteção” dos mafiosos locais (apesar de que, oficialmente, a Máfia não existe, é como se fosse uma lenda: “existiu alguma vez um processo que tenha concluído pela existência de uma associação chamada Máfia a qual atribuir, com certeza, o mandado e a execução de um delito? Foi, alguma vez, encontrado um documento, um testemunho, uma prova qualquer que constitua uma relação segura entre um fato criminal e a assim chamada Máfia? Faltando essa relação, e admitindo que a Máfia exista, eu posso dizer-lhe que é uma associação de socorro mútuo e secreto, nada mais nada menos como a maçonaria”) é assassinado numa aldeia e o encarregado da investigação é um “continental”, o capitão Bellodi. Aqueles que são intimados para prestar esclarecimento, ao conhecerem o oficial, pensam: “os continentais são gentis, mas não entendem nada”.

E realmente, Bellodi “não entende nada”: insiste em ligar o crime à ação local da Máfia (incomodando, com isso, várias instâncias políticas: deputados, senadores) enquanto todos propõem uma explicação “passional”, como raiz desse e de outros dois homicídios (uma testemunha incauta, que vira o assassino, e um delator).

Ele coloca em detenção três suspeitos, e vai juntando provas irrefutáveis, que serão refutadas, entretanto através da impostura, uma palavra cara ao universo sciasciano: cidadãos respeitáveis juntam-se para fornecer álibis para os culpados.

Bellodi pertence a uma categoria recorrente nos romances de Sciascia: o herói de antemão derrotado, de ação por fim irrisória, e resignado com sua derrota, como o investigador Rogas, de “A trama”, sem falar no iludido e incauto professor Laurana, aquele mesmo que subia a escadaria do fórum em “A Cada Um o Seu”, o qual, ao contrário dos outros, nem faz ideia de onde está se metendo.

“O DIA DA CORUJA” é uma narrativa maravilhosa, no seu registro dos costumes, da mentalidade e do dialeto sicilianos. O preciso e calibrado estilo de Sciascia faz dele o “inimigo mortal das palavras ocas”, estas tão celebradas na Sicília como aqui no nosso país: “Bellodi contou a história do médico de uma prisão siciliana que enfiou na cabeça que ia retirar dos presos mafiosos o privilégio de ficar na enfermaria… O médico ordenou que voltassem às dependências comuns… Nem os agentes nem o diretor deram sequência às determinações do médico. O médico escreveu ao ministério. E assim certa noite foi chamado à prisão… os chefões o espancaram, cuidadosamente, metodicamente. Os guardas não viram o nada… O médico foi exonerado de suas funções pelo ministério, visto que seu zelo era causa de distúrbios… Como não conseguiu obter satisfação pela agressão sofrida, procurou outro chefão da Máfia que lhe desse pelo menos a satisfação de mandar espancar, na prisão para onde tinha sido transferido, um daqueles que o haviam agredido. Teve, pouco depois, a confirmação de que o culpado já tinha recebido a surra que lhe competia”.

10/04/2018

RESENHA COMEMORATIVA: 25 ANOS DESTA COLUNA

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 17:55
Tags: , ,

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 10 de abril de 2018)

Há 25 anos, eu iniciei essa coluna resenhando “A MÚSICA DO ACASO”. Mal sabia eu que duraria tanto e que Paul Auster seria um autor tão essencial na minha vida esse tempo todo, principalmente quando descobri tardiamente “A Trilogia de New York”. Meu desgosto é que nunca mais reeditaram “A MÚSICA DO ACASO” no Brasil.

Jim Nashe, como vários personagens de Auster, acredita na “tabula rasa”, ou seja, reinventar a existência. No seu caso, uma herança paterna (e paternidade e heranças são recorrentes na sua obra). Nashe resolve atravessar o país de carro e, após um ano, percebe que sua disponibilidade e “liberdade” diminuem conforme o dinheiro vai escasseando.

De forma aleatória ele se junta a Jack Pozzi, jogador inveterado (e não há símbolo maior para o acaso que os jogos de azar). Formam uma parceria contra dois milionários e perdem tudo. Nashe e Pozzi perdem e são obrigados a saldar a dívida na construção de um muro dentro da propriedade dos milionários (que viajam). Embora nada fique explícito, eles se sentem prisioneiros e vigiados, o que é confirmado no dia em que Pozzi tenta fugir… Assim resumido (em parte), o enredo de “A MÚSICA DO ACASO” dá a impressão de pertencer à linha da literatura que seguindo as pegadas dos grandes Franz Kafka e Samuel Beckett, parece querer demonstrar que o homem ou está à mercê de potências indiferentes e cruéis ou é fruto do acaso, produto gratuito e quase risível. Afinal, o protagonista —que acreditava no acaso como uma força que leva a vida para a frente —descobre que é também um sinal das irremediáveis forças coercitivas que nos regem.

Mas o romance de Paul Auster, tem o maravilhoso senso do concreto e do cotidiano ligados à fabulação que parece ser um dom da ficção dos EUA. Seja para comentar a vida de Nashe pré-herança, seja para narrar sua errância ao acaso das estradas, seja para contar seu encontro fortuito com Pozzi e depois a rotina dos dois como pedreiros de uma muralha absurda, capricho dos “donos do mundo”, Auster jamais perde de vista a verossimilhança da história, seu pé no real.

Não há espaço nesse romance para cenários bizarros ou atemporais ou para situações de teatro do absurdo, como fizeram tantos seguidores de Kafka e Beckett para mostrar a “condição humana”. Ainda mais pertinentemente (o que já é uma proeza) do que Milan Kundera, em “A insustentável leveza do ser”, Auster efetua uma cabal equação do que é “fortuito” (porque é fruto do acaso) e do que é “irrevogável” (porque não pode ser alterado), de uma maneira tão parecida com um romance de suspense que é impossível contar detalhes, sob pena de estragar as várias surpresas e emoções do leitor (e difícil, também, é largar a leitura).

Só não se pode deixar de destacar um grande personagem secundário, o capataz Murks, que é igualmente uma espécie de carcereiro e carrasco para Nashe e Pozzi, mas que se afeiçoa ao primeiro, como se este fosse um amigo: [Nashe] “queria apenas odiar Murks, transformá-lo em algo abaixo do humano com a simples força de seu ódio; mas como poderia conseguir isso se o homem não se comportava como monstro? Murks começou a aparecer no trabalho com pequenos presentes (…) e, no trabalho, era no mínimo indulgente, sempre aconselhando Nashe a ir mais devagar, a não exigir tanto de si próprio. ”

20/03/2018

A GENIAL JANE AUSTEN AGORA EM NOVELA DA GLOBO

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 16:55
Tags: , ,

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 20 de março de 2018)

Numa entrevista que concedi a Herasmo Braga (em 2013), ele me fez a seguinte pergunta: “HB – Quais autores são imprescindíveis para um leitor qualificado em sua opinião?

AM – Mas o que importa mesmo é não ler ‘de orelha’, nem de ‘segunda mão’. Mesmo que através de traduções, é necessário conhecer a grande tradição de autores que foram ‘inventando o humano’ além do Shakespeare à Bloom. Outro dia li uma declaração de uma autora, da qual não direi o nome, que admiro. Ela disse que não tinha muito tempo de ler os clássicos porque tinha de ficar atenta à ‘cena atual’. Acho essa declaração não só uma bobagem imensa como também perigosa: o que é bom na literatura é sempre ‘cena atual’. Tem coisas de dois anos atrás e que já estão prontas pro disque-entulho. Enquanto Jane Austen é sempre ‘da hora’”.

Jane Austen é tão da hora que a nova novela da Globo, “Orgulho e Paixão” é baseada em “ORGULHO E PRECONCEITO” (com pitadas de “Emma”), seu mais famoso romance. Elizabeth Bennet é uma das personagens mais carismáticas da história da ficção, como digna sucessora que é daquelas heroínas inteligentes, mordazes e apaixonadas de Shakespeare. Como se sabe, ela pertence a uma família que tem muitas filhas (cinco), todas sem dote e cuja propriedade, com a morte do pai, deverá passar para um distante (e insuportável) parente masculino. Este, em certo ponto da narrativa, resolve pedir a mão de Elizabeth, mas ela está encantada com o forasteiro Wickham, desafeto de Mr. Darcy, melhor amigo de outro estranho ao lugar onde mora a família Bennet, Mr. Bingley, que se apaixona por Jane, irmã mais velha de Elizabeth (romance desaprovado pelo orgulhoso e preconceituoso Darcy). Aliás, Mr. Collins, o absurdo pretendente, toca na questão central da vida de mulheres como as Bennet: “A senhora deve levar em conta que apesar dos seus múltiplos atrativos, nada garante que outra proposta de casamento lhe seja feita algum dia. O seu dote infelizmente é tão pequeno que em todas as situações pesará contra a sua beleza e as suas louváveis qualificações”.

Com implacável precisão e lucidez, ficamos conhecendo aquela sociedade em que cada um é prisioneiro de sua condição social e sexual, em que o mais rasteiro cálculo materialista e comodista dita as regras, como mostra a melhor amiga de Elizabeth, Charlotte, ao aceitar Mr. Collins como marido: “Sem pensar muito nem nos homens nem no matrimônio, o casamento sempre fora o seu objetivo; era a única condição digna para uma moça bem-educada e de pouca fortuna e por mais incertas que fossem as perspectivas de trazer felicidade, ainda era a forma mais agradável de se preservar da necessidade”.

Mesmo assim, provavelmente os leitores apaixonados por Jane Austen, como eu, nunca cansarão de reler “ORGULHO E PRECONCEITO” é por causa mesmo da mudança de sentimentos de Elizabeth com relação a Mr. Darcy, depois que reconhece o caráter dúbio e escorregadio de Wickham (que seduzirá a irmã dela), percorrendo lentamente (em termos psicológicos, não narrativos) o arco que vai da antipatia ao amor. E isso através de diálogos ainda insuperados (a cena da declaração de amor dele é particularmente antológica).

Outro prazer adicional é o de retomar contato com um dos pais mais deliciosamente irônicos já criados, Mr. Bennet, sempre roubando a cena quando aparece e que, entretanto, não escapa à prodigiosa visão crítica da genial escritora inglesa: “Elizabeth, no entanto, nunca fora cega à impropriedade do comportamento do pai como marido. Aquilo sempre a fizera sofrer, mas, respeitando as suas qualidades e grata pelo seu tratamento afetuoso, esforçava-se por esquecer o que não podia fingir não ver e bania dos seus pensamentos aquela contínua quebra das obrigações e do decoro conjugal, expondo a esposa ao desprezo das próprias filhas”.  Todavia, como resistir a um personagem que, quando sua tola esposa diz: “Você se diverte em me aborrecer, não tem compaixão pelos meus pobres nervos”, responde: “Está enganada, minha cara. Tenho um alto respeito pelos seus nervos. São meus velhos amigos. Ouço-a mencioná-los com consideração há pelo menos vinte anos”.

13/03/2018

Garp Quarentão

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 15:46
Tags: , ,

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 13 de março de 2018)

Há exatamente 40 anos era lançado um romance fascinante: “O MUNDO SEGUNDO GARP”, terceira obra de John Irving, escrita aos 36 anos e que marcou definitivamente seu estilo extravagante, barroco, extremista, baseado no exagero. 40 anos depois é possível afirmar que ele continua um dos maiores romancistas do mundo e ainda seria se tivesse parado na história de T.S. Garp.

É temerário resumi-la: a mãe de Garp, Jenny Fields, quer ter um filho sem relacionar-se com homem algum; fica grávida, então, em 1942, de um sargento, paciente desenganado do hospital onde trabalha como enfermeira.

Mais tarde ela se torna uma referência da contracultura feminista, por sua autobiografia “Uma suspeita sexual”; Garp, ao viajar com a mãe para Viena, começa a escrever, mas alternará algumas poucas obras com longos períodos de inatividade criadora, quando se concentra maniacamente na família, obcecado com a segurança dos filhos, o que não impedirá a tragédia: um acidente matará um de seus filhos e deixará o outro cego de um olho (aliás, mutilações não faltam no livro: são pênis, línguas, olhos e pedaços de orelha perdidos em diversos episódios inesquecíveis).

Há uma introdução de Irving na qual ele insiste na questão do excessivo medo paterno de Garp de perder os filhos: “Sou apenas um pai com boa imaginação. Em minha imaginação eu perco meus filhos diariamente”.

Na verdade, como já se constatou diversas vezes, “O MUNDO SEGUNDO GARP” é uma profunda parábola sobre as duas obsessões e temores norte-americanos: a mortalidade e o sexo (Jenny Fields identifica todos os males com a lubricidade; o acidente trágico com os filhos de Garp acontece porque sua esposa, Helen, está fazendo sexo oral em seu amante, quando estão terminando o caso, justamente na entrada de carros da sua casa; o marido chega inesperadamente mais cedo e os dois carros colidem: a boca de Helen arranca no impacto o pênis do amante, Walt, o caçula, morre—e inquietantemente não é mencionado mais por páginas e mais páginas—e Duncan, o outro filho, perde um olho ao ser projetado sobre o câmbio que há meses estava sem a rosca protetora…). Isso explica a gritante e bizarra imaturidade de seus personagens. A certa altura, se afirma: “São inúmeras as culpas. Em tudo que Garp escreve sempre há culpas por todos os lados”. Para temperar as situações, há ainda —no espectro temporal do romance— a   virada de valores e as revoluções de todo tipo, em contraste com a caretice e o conformismo dos anos 40 e 50.

O passar do tempo (e a publicação de seus outros livros, principalmente “Viúva por um ano”) evidenciou algo mais importante e essencial: inseridos no texto há trechos das obras de Garp. Na primeira, “A pensão Grillparzer”, a imaginação recria totalmente o mundo; nas posteriores, Garp se aproveita de suas experiências, ou seja, da “vida real”. Pela lógica narrativa, essa evolução representa perda, empobrecimento.

Irving sempre teve certa notoriedade, desde seu primeiro romance, por aproveitar passagens da sua autobiografia de uma forma exuberante e inusitada. A partir do romance seguinte, o extraordinário “Hotel New Hampshire” (o romance que me abriu a porta do seu universo), ele mostra que aderiu inteira e magistralmente ao clima sugerido por “A pensão Grillparzer”. É um rude golpe naqueles que gostam do baseado em fatos reais: a obra de Irving representa o triunfo da ficção, no que ela tem de mais verdadeiro e real.

06/03/2018

OS 50 ANOS DE “A OBRA EM NEGRO”, DE MARGUERITE YOURCENAR

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 06 de março de 2018)

Há 50 anos Marguerite Yourcenar publicou “A OBRA EM NEGRO”, que se tornou um dos meus livros prediletos: desde os 18 anos leio e releio as aventuras de Zênon, seu herói lunar (em contraste com o protagonista solar de “Memórias de Adriano”).

“A OBRA EM NEGRO” é a história de Zênon, filho bastardo dentro de uma abastada família flamenga, que deixa Bruges, sua terra natal, após matar numa briga o aprendiz de artesão Perrotin, tornando-se com os anos um famoso (e para a Igreja, herético) médico, filósofo e alquimista, na linha de Leonardo, para Celso, Giordano Bruno.

Na primeira parte, “A vida Errante”, após um perfil de Zênon aos 20 anos, a grande escritora belga (de expressão francesa) acaba mostrando-o quase sempre de viés, mais como um objeto da opinião pública, que especula a respeito de suas várias transgressões, em meio a mentiras, boatos e distorções. Conhecemos também, paralelamente, a trajetória de algumas pessoas ligadas a Zênon: sua mãe, Hilzonda, que morre num cerco aos anabatistas, rebeldes religiosos; seu primo, Henri-Maximilien, que abandona a família para engajar-se em qualquer guerra…

É no capítulo “Conversa em Innsbruck” que conhecemos o Zênon já maduro, resultado das viagens e perseguições, enfim, de uma vida precária e ameaçada. E a princípio não se tem certeza de que se pode simpatizar com um tipo tão opiniático, tão lúgubre e amargo, tão consumido pela experiência.

Se a primeira parte já é interessante, com seu painel do século XVI, onde se vive, grosso modo, o conflito entre o Catolicismo e a Reforma Protestante, “A OBRA EM NEGRO” cresce vertiginosamente (e também a figura de Zênon, que passa a ocupar o primeiro plano quase que exclusivamente) nas duas outras partes, “A vida Imóvel” e “A Prisão”. O belo filme de André Delvaux, com um notável Gian-Maria Volonté no papel central, concentra-se mais nesse ponto da história, muito menos movimentado, porém mais denso: Zênon decide voltar clandestinamente a Bruges, estabelecendo-se como o médico Sebastian Theus, de certa forma protegido pelo compassivo prior dos franciscanos, Jean-Louis de Berlaimont (que foi admiravelmente encarnado por Sami Frey na versão cinematográfica). Depois da morte do prior, por causa de confusões sexuais de noviços no mosteiro, acaba nas mãos da Inquisição, sentenciado à fogueira, da qual escapa pelo suicídio.

Da vida imóvel de Zênon emerge o grande tema das maiores obras de Yourcenar, na minha opinião: o tudo-nada que é a experiência. Ela nos descreve a experiência da vida da forma mais detalhista, para depois nos mostrar a sua dissolução e a sua negação. É o que faz Zênon, no “Abismo” (título do capítulo-âmago do romance), experimentando os limites do corpo e da mente, de forma que, em meio aos resíduos do que ele viveu e pensou e sentiu, ele consegue roçar o não-ser.

A ironia é que, engajado nessa experiência de superação dos limites da nossa condição, ele se vê ao mesmo tempo enredado (no sentido mesmo da vítima na teia de aranha), num contexto histórico que não deixa muitas saídas para quem não professe um dogma ou pertença a um partido, a uma determinada associação. Tendo escolhido uma existência sem laços, Zênon sempre será o suspeito, o dissidente, o que traz em si o princípio da negação, embora dele se diga: “por estar mais familiarizado com o procedimento que consiste em negar tudo—para depois ver se em seguida se pode reafirmar alguma coisa—e, em desfazer tudo—para ver depois tudo se refazer em outro plano ou de outra forma…”

Ou como ele mesmo diz, é preciso morrer um pouco menos tolo do que quando se veio ao mundo.

17/10/2017

UM NOBEL SURPREENDENTE E MERECIDO

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 17 de outubro de 2017)

Kazuo Ishiguro, o surpreendente e merecido Nobel 2017, é um especialista em vidas desperdiçadas (um exemplo pungente: “Não me abandone jamais”), escreveu uma das obras-primas das últimas décadas, “OS RESÍDUOS DO DIA”.

É nirvânica a concepção que o mordomo Stevens tem do seu ofício. A individualidade deve desaparecer no exercício da função: “Um mordomo de qualidade tem que mostrar que habita seu papel, inteira e completamente; não pode ser visto jogando-o de lado num momento e simplesmente vesti-lo no momento seguinte, como se nada mais fosse que uma fantasia teatral”. Em virtude desse modo de pensar, tirar uma semana de folga (em 1956) só é aceitável com uma motivação profissional: reencontrar, e se possível trazer de volta, miss Kenton, a antiga governanta de Darlington Hall.

Por que, então, omite ou nega ter sido seu mordomo em vários momentos da sua viagem? Será, também, que ele acredita de fato estar buscando miss Kenton de volta ao seu antigo emprego (que ela deixou para casar-se), se ela ao longo de tantos anos procurou de todas as formas desencantá-lo do seu feitiço de sapo-mordomo e transformá-lo no seu príncipe encantado (guardadas as devidas proporções, claro)? Uma luta que nos é mostrada através de diálogos relembrados, nos quais tudo que é importante não é dito, ficando irremediavelmente para trás, à revelia das palavras. Até que miss Kenton desiste.

Há todo um lado monstruoso em Stevens e miss Kenton quando levam a extremos seus papéis (ou seus trajes, para prolongar a analogia), mas jamais caem na caricatura ou no chavão. Há uma antológica cena que demonstra bem isso, na qual Stevens serve convidados de uma importante conferência organizada em Darlington Hall, enquanto seu pai agoniza aos cuidados de miss Kenton que, a essa altura, ainda não desistira.

O livro de Ishiguro parece fluente, transparente mesmo. Na verdade oculta artifícios e dissimulações, patéticas por parte do narrador, e brilhantes por parte do autor (em seu terceiro romance).

O diálogo final do reencontro entre os dois protagonistas é um dos momentos mais comoventes da ficção moderna.

Ao contrário dos proletários da famosa peça de Gianfrancesco Guarnieri, esses criados usam black ties, mas são igualmente explorados.

Além de “OS RESÍDUOS DO DIA” e “Não me Abandone Jamais”, outros títulos de Ishiguro: “Uma Pálida Visão dos Montes”; “Um Artista no Mundo Flutuante”; “O Desconsolado”; “Quando Éramos Órfãos”; “O Gigante Enterrado”.

 

Próxima Página »

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.