MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/11/2018

DO BAÚ DE SURPRESAS DE MARIA VALÉRIA REZENDE

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 06 de novembro de 2018) 

Maria Valéria Rezende, campeã de prêmios de romances dos últimos anos, lançando livros de contos, “A FACE SERENA e “HISTÓRIAS NADA SÉRIAS 

O primeiro vem sendo burilado através de várias versões. Em meio a diversas histórias de adolescentes temos “Monstro” onde um bebê nasce pela metade, temos “Especulofobia”, onde um homem jamais viu o próprio reflexo. Temos o pungente, o juiz não entende onde uma mãe inteira o dinheiro para construir um quarto para o filho que está na FEBEM. E temos, finalmente, “O muro” obra síntese das escolhas de vida da grande escritora: “Nem pensei em voltar para a passagem no muro. Deus atirou-me para dentro de seu samburá de estreita boca, já não me debato. Soube logo que subiria, mas não por qual caminho, até que vi, pouco mais adiante, numa parede suja daquele mesmo beco, a marca do menino magro, fresca e brilhante, um fio de vermelho líquido ainda escorrendo. O único sinal que eu, vagamente, podia interpretar, neste mundo estranho onde nunca antes sequer imaginei penetrar. Meti-me pela viela que, alguns metros adiante, ao topar com uma parede de zinco e madeira carcomida, quebrava-se para a esquerda. Ninguém. Tive a impressão de que já não havia mais ninguém nesse labirinto, só eu e o menino pichador, porque pouco antes de que o caminho se bifurcasse, mais acima, vi outra vez a rubra assinatura. Sem outro fio senão aquele para guiar-me, eu o segui. Hesitei na bifurcação, mas ela estava lá outra vez, a marca, dizendo-me que lado escolher, direção que tomei sem mais duvidar, entranhando-me na armadilha das ruelas intrincadas”. 

Durante muitos anos, Valéria participou do clube do conto da Paraíba. Isso explica sua versatilidade e profissionalismo, destaco dois textos de “HISTÓRIAS NADA SÉRIAS“Happy hour” onde um empresário falido arrota mentiras até a hora de pegar seu táxi. Em “A chave”, uma ero moça é assediada por dois passageiros e tem uma solução genial. Os dois livros compartilham o mesmo texto com finais diferentes: “Vidraça” (de “HISTÓRIAS NADA SÉRIAS”) e “Pelas superfícies” (de “A FACE SERENA”). Confesso que prefiro o final ironicamente singelo de “Vidraça”.

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23/10/2018

GÊNIO DA RAÇA PARTE DOIS

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 23 de outubro de 2018) 

Continuo meu comentário sobre “VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ, de Lima Barreto. Foi o primeiro romance levado a cabo pelo grande escritor carioca (por isso se nota a “angústia da influência” com relação a Machado de Assis e seu Conselheiro Aires). 

Através da amizade entre Machado e Gonzaga de Sá, vislumbramos o Rio de Janeiro do início do século, sobrepondo mais do que contrapondo a revolta do jovem e a resignação filosófica do velho funcionário diante da mediocridade imperante e da destruição do Rio imperial que Gonzaga de Sá conheceu e que está sendo desfigurado pela Primeira República. 

A atitude filosófica de Gonzaga de Sá lembra, é claro, mas só superficialmente, a do Conselheiro Aires criado por Machado de Assis para filtrar de modo ainda mais sutil seu humor e pessimismo corrosivos.  

Por vezes, o velho Gonzaga abandona sua atitude de “sábio obscuro”, de “geólogo da memória da cidade” para revoltar-se, enraivecer-se, numa atitude mais adequada a seu discípulo, um idealista revoltado como o narrador de outro grande romance de Barreto (foi o próximo a ser completado), “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” (publicado em 1909): “Longe de me confortar, a educação que recebi só me exacerba, só fabrica desejos que me fazem desgraçado. Por que mas deram? Para eu ficar na vida sem amor, sem parentes e, porventura, sem amigos? Ah! Se eu pudesse apagá-la do cérebro! Varreria, uma por uma, as noções, as teorias, as sentenças, as leis que me fizeram absorver; e ficaria sem a tentação danada da analogia, sem o veneno da análise”. 

Nesse entrançar de mocidade e velhice, revolta e sabedoria, amizade e solidão, espírito amplo e amargura, o Rio de Janeiro avulta. O livro é uma das mais cabais demonstrações da “poesia das cidades” instaurada por Baudelaire, sendo, como é, um passeio pela cidade, centro, praias e subúrbios, passado e presente. É por isso que seu ponto alto é a extraordinária sequência de capítulos em que Machado acompanha Gonzaga de Sá para velar e enterrar um compadre que morava no subúrbio. É ali que, na atmosfera carregada do velório, Machado despertará para o desejo sexual representado por Alcmena, vizinha do compadre falecido: “No dia seguinte, diante do caixão já fechado, senti-me penetrado de uma indiferença glacial… O domingo estava maravilhoso, glorioso de luz, e os ares eram diáfanos, estava sedutor e sorria abertamente, convidando a gozá-lo em passeios alegres. O silêncio da sala, aquelas velas mortiças, os semblantes contrafeitos e estremunhados das pessoas presentes, diante da soberba luz do sol, da cantante alegria da manhã, pareceram-me sem lógica.”.

16/10/2018

GÊNIO DA RAÇA PARTE UM

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 16 de outubro de 2018) 

Em 1919 foi publicado (por Monteiro Lobato) o derradeiro livro de Lima Barreto, “VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ”. Na verdade, foi o primeiro que ele escreveu. 

Nele, o narrador, Augusto Machado, conta como conheceu o personagem-título, também funcionário público (só que bem mais velho) por causa de uma ridícula questiúncula envolvendo o número de salvas de canhão devidas a um bispo em visita a uma cidade. 

Através da amizade entre Machado e Gonzaga de Sá, vislumbramos o Rio de Janeiro do início do século, sobrepondo mais do que contrapondo a revolta do jovem e a resignação filosófica do velho funcionário diante da mediocridade imperante e da destruição do Rio imperial que Gonzaga de Sá conheceu e que está sendo desfigurado pela Primeira República. 

Veja-se o que Machado nos conta no capítulo “O passeador”: “O que me maravilhava em Gonzaga de Sá era o abuso que fazia da faculdade de locomoção. Encontrava-o por toda parte… Subia morros, descia ladeiras, devagar sempre e fumando voluptuosamente, com as mãos atrás das costas, agarrando a bengala. Imaginava ao vê-lo, nesses trejeitos que pelo correr do dia, lembrava-se: como estará aquela casa, assim, assim, que eu conheci em 1876? E tocava pelas ruas em fora para de novo contemplar um velho telhado, uma sacada e rever nelas fisionomias… Ia em procura de sobrados, das sacadas, dos telhados, para que à vista deles não se lhe morressem de todo na inteligência as várias impressões, noções e conceitos que essas coisas mortas sugeriram durante aquelas épocas da sua vida”. 

O leitor de “VIDA E MORTE DE M. J. GONZAGA DE SÁ” vai notando que, conforme o livro vai se desenvolvendo, Gonzaga de Sá parece o passeador e mais ele e Machado representam, no fundo, uma só pessoa: Machado, a mocidade; Gonzaga, a maturidade (uma maturidade, uma atitude sábia, um tanto problemáticas). Por vezes, o velho Gonzaga abandona sua atitude de “sábio obscuro”, de “geólogo da memória da cidade” para revoltar-se, enraivecer-se, numa atitude mais adequada a seu discípulo, um idealista revoltado (continua na próxima semana). 

31/07/2018

HOMENAGEM A HILDA HILST

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 31 de julho de 2018)

Um dos privilégios da minha vida foi ter conhecido Hilda Hilst (a grande homenageada da FLIP 2018). Aos 20 anos, visitei a Casa do Sol, o sítio onde vivia. Era apaixonado por sua obra, que estava no auge, com a publicação da novela “A Obscena Senhora D” e os poemas de “Odes Mínimas” e “Cantares de Perda e Predileção”. O clímax inesquecível da visita foi a leitura em voz alta do ainda inédito “COM OS MEUS OLHOS DE CÃO”, publicado no ano seguinte (1986).

“COM OS MEUS OLHOS DE CÃO” trata-se de outro ponto alto da sua produção, cujo protagonista, Amós Keres, foi uma criança que fazia sempre perguntas incômodas, impressionado com a morte e a presença do sofrimento no mundo. Fortemente reprimido pelo pai autoritário, ele aos poucos calou em si essas perguntas, mergulhando no estudo da matemática, constituindo família, tornando-se professor universitário. Um dia, no alto de uma colina, ele tem uma visão epifânica e a partir daí ficarão esgarçadas todas as suas relações com um mundo mentiroso, sentimentalizado e complacente. Ele fica “alheio” nas aulas (os alunos se retiram e deixam recados jocosos na lousa), passa a sentir repulsa pela mulher e o filho, parece estar sempre com um sorriso desdenhoso (o que o mete em confusões) e a cabeça inclinada e seu único interlocutor é um amigo, Isaiah, que vive maritalmente com uma porca. Ao cabo, Amós decide voltar à casa da infância, com muito de rural ainda, e viver nos fundos do quintal, como um bicho, um ser desnudado, descobrindo também que o pai tinha os mesmos assomos de descortinamento do coração selvagem da vida: “que esforço para tentar não compreender, só assim se fica vivo, tentando não compreender”.

Não se pense que o texto é assim coeso, unívoco. Como sempre em Hilda Hilst, tudo vem numa forma agônica, emaranhada e intrincada, na qual todos os gêneros são misturados e a escatologia permeia todas as instâncias da condição humana (para se ter uma ideia, Amós Keres gostava de estudar matemática num puteiro), com a influência de Otto Rank & Ernest Becker de que vivemos sob o terror da morte e da nossa analidade “… Amós Keres. Inocente como um pequeno animal-criança olhando o Alto. Mas dizem que o Alto é o nada e é preciso olhar os pés. E o cu também. Com um espelho. Estou olhando. Impossível esquecer grotesco e condição”.

Plínio Marcos com Samuel Beckett. O leitor que se prepare, pois tem de estar disposto. Com essa obscena Senhora H, é tudo ou nada.

“Daqui onde estou posso ouvi-lo pensando da lucidez de um instante à opacidade de infinitos dias, posso ouvi-lo pensando nas diversas formas de loucura e suicídio. A loucura da busca, essa feita de círculos concêntricos e nunca chegando ao centro, a ilusão encarnada ofuscante de encontrar e compreender. A loucura da recusa, de um dizer tudo bem, estamos aqui e isto nos basta, recusamo-nos a compreender. A loucura da paixão, o desordenado aparentando ser luz na carne, o caos sabendo à delícia, a idiotia simulando afinidades. A loucura do trabalho e do possuir. A loucura do aprofundar-se depois olhar à volta e ver o mundo mergulhado em matança e vaidade, estar absolutamente sozinho no mais profundo. Amós está? Daqui onde estou posso ouvi-lo pensando como devo matar-me? Ou como devo matar em mim as diversas formas de loucura e ser ao mesmo tempo compassivo e lúcido, criativo e paciente, e sobreviver? ”.

 

26/06/2018

OS CRAQUES DA SELEÇÃO RUSSA, PARTE DOIS

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 26 de junho de 2018)

Continuo meu passeio pela grandiosa literatura russa, iniciado na semana passada.

Maksim Gorki, 1868 –1936, outro versátil, exercitando em vários gêneros, mas brilhando mesmo nas suas memórias em obras como “Infância” e “Minhas Universidades”.

Ivan Alekseyevich Bunin, 1870 — 1953, grande contista, retratando fim do regime czarista de forma intimista e sutil. Ganhou o Nobel em 1933. Comentei aqui “Contos Escolhidos” (editora Amarilys).

Leonid Nicolaevitch Andreiev, 1871 – 1919, o mestre da ficção expressionista e mórbida, em obras como “A conversão do Diabo”, “Judas Iscariotes” e “Os sete Enforcados”.

Boris Leonidovitch Pasternak, 1890 — 1960, não conheço sua consagrada poesia, porém sofri impacto da poesia da sua prosa em “Doutor Jivago”, um dos mais belos romances do século passado. Ganhou o Nobel em 1959, contudo o regime soviético o obrigou a não aceitar o prêmio.

Mikhail Afanásievitch Bulgákov, 1891 –1940, perseguido por Stalin, sua obra-prima “O mestre e Margarita” foi publicada vinte anos após sua morte. Tão exuberante e original quanto esse romance, deixou suas “Memórias de um Jovem Médico”, adaptada pela HBO com Daniel Radcliffe, o Harry Potter.

Isaac Emmanuilovich Babel, 1894 – 1940, Doris Lessing o admirava, o que me levou a ler suas maravilhosas “Novelas e Cavalarias”.

Vladimir Vladimirovich Nabokov, 1899 — 1977, antes de se consagrar como autor de língua inglesa, o “Russo Branco” (exilado do regime soviético) publicou muitas obras em seu idioma natal, como “Desespero”, “A Defesa”, “Gargalhada na Escuridão”, sempre dispensando a “delegação vienense” (assim se referia a Freud e seus seguidores), mais um prato cheio para a psicanalise.

Mikhail Aleksandovitch Cholokhov, 1905 — 1984, há rumores de que roubou a obra-prima “O dom Silencioso” de um colega caído em desgraça no período stalinista. Verdade ou não, o livro é lindo e ele ganhou o Nobel em 1965.

Vasily Semyonovich Grossman, 1905 – 1964, no seu grande épico “Vida e Destino” escancarou o antissemitismo russo. Foi um excelente correspondente de guerra.

Anatoly Naumovich Rybakov, 1911 – 1998, seu romance “Os filhos da Rua Arbat” foi emblemático no período da “Glasnost”, que marcou o fim da União Soviética.

Alexander Issaiévich Soljenítsin, 1918 — 2008, Milan Kundera disse que era um gigante entre os homens, mas não entre os escritores. Não concordo. Além de revelar os horrores do regime stalinista em “O arquipélago Gulag”, escreveu obras-primas como “Um dia na vida de Ivan Denisovich” e o monumental “Agosto 1914”. Ganhou o Nobel em 1970.

Leonid Borisovich Tsypkin, 1926 —1982, escreveu “Verão em Baden-Baden”, lindo romance sobre Dostoiévski e seu vício em jogos.

Andrei Georgiyevich Bitov, 1937, o único vivo da lista. Seu romance “A casa de Puchkin” não apenas uma alusão ao fundador da literatura russa, mas uma profunda reflexão existencialista.

Craques RUssos - Jornal

19/06/2018

CRAQUES DA SELEÇÃO RUSSA: PARTE UM

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 15:44
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicado originalmente em A TRIBUNA de Santos em 19 de junho de 2018)

A Rússia é uma potência literária. Apresento alguns dos seus craques. Haverá lacunas e ausências, mas a lista reflete trinta e tantos anos de leituras.

Alexander Sergueievitch Pushkin0p, 1799 — 1837, o fundador da literatura russa. Versátil, experimentou todos os gêneros. Sua obra mais ambiciosa é o poema épico “Eugênio Oneguin”.

Nikolai Vasilievich Gogol, 1809 — 1852, o genial autor de novelas como “O Capote” e “O Nariz”. Escreveu a deliciosa peça “O inspetor geral” e deixou um romance inacabado, “Almas Mortas”.

Mikhail Iúrievitch Lérmontov, 1814 — 1841, seu “Herói do nosso Tempo” coloca as aventuras de seu protagonista num cenário geopolítico ainda hoje conflituoso.

Ivan Aleksandrovitch Gontcharov, 1812 – 1891, lendo sua obra-prima “Oblomov” nos espantamos com as similaridades do império russo e o Brasil imperial.

Nikolai Semyonovich Leskov, 1831 — 1895, outro grande novelista, comprovam os textos de “Homens Interessantes”.

Ivan Sergeiévitch Turguêniev, 1818 — 1883, apesar de ser um estilista, admirado por Flaubert, seus romances tratam de conflitos de gerações e ideológicos, caso de “Rudin” e “Pais e filhos”.

Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski 1821 – 1881, seria o escritor supremo se não existisse Tolstói, majestoso tanto em obras curtas, como “O Duplo”, “Notas do Subsolo” e “Um Jogador”, quanto nos romances ciclópicos como “Crime e Castigo”, “O Idiota”, “Talvez seu mais belo livro”, e “Irmãos Karamazovi”. Atormentado por Deus e pelo vício de jogar, foi um dos autores mais influentes do ocidente.

Liev Nikoláievich Tolstói, 1828 —1910, o maior gênio da literatura, a meu ver. Obcecado pela morte, fez a vida pulsar em “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”, os maiores romances já escritos. Enfrentou sua nêmesis no avassalador “A morte de Ivan Ilitch”. Educador, fundador de uma religião própria, escreveu também peças poderosas como “O cadáver vivo”. Custa a crer que tenha morrido de fato.

Anton Pavlovitch Tchecov, 1860 — 1904, o maior contista de todos os tempos, basta ler coletâneas como “A dama do Cachorrinho” e “O Beijo”. Não contente em ser gênio em um gênero, escreveu peças magistrais sobre a inércia da classe alta, como “O jardim das Cerejeiras” e “As três irmãs”. (continua na próxima semana).

29/05/2018

A IMPRUDÊNCIA MAJESTOSA DE PHILIP ROTH

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 29 de maio de 2018)

Já disse que John Updike e Philip Roth eram o Tolstói e o Dostoiévski da literatura americana. Updike se foi há alguns anos, seu “outro” judaico morre agora, aos 85 anos, deixando uma obra vasta e majestosa, da qual nenhuma resenha daria conta. Por isso, escolhi o meu favorito entre tantos títulos marcantes (“O complexo de Portnoy”, “O Ghost Writer”, “Pastoral Americana”, “O avesso da Vida”, por exemplo).

Um dos aspectos fabulosos de “O TEATRO DE SABBATH”, é o fato de o romance ter 544 páginas e toda a história praticamente ser contada nas primeiras cinquenta. O leitor fica a se perguntar o tempo todo: como Roth vai dar conta do recado? (Preencher e rechear as páginas que faltam) e, quando dá por si, leu o texto inteiro deliciado e maravilhado com o virtuosismo do genial escritor norte-americano.

“O TEATRO DE SABBATH” mostra um artrítico ex-titereiro (isto é, manipulador de fantoches) judeu que é a chaga da cidadezinha chamada Madamaska Falls, na Nova Inglaterra. Aos 64 anos, tem uma esposa alcoólatra e uma voluptuosa, opulenta amante, a qual descobre estar com câncer. E principalmente uma reputação de obscenidade.

Quando Drenka (a amante) morre, Sabbath passa a ir diariamente até o seu túmulo masturbar-se (e descobre que outros amantes de Drenka fazem o mesmo). Nesse ínterim, recebe a notícia da morte de um ex-conhecido do mundo teatral, em Nova Iorque. Ele hesita em ir ou não prestar suas homenagens, até que, após um confronto com a atual esposa, a cerimônia fúnebre torna-se uma perspectiva atraente. E é a partir daí que Roth, como romancista, mostra que tinha todos os trunfos na manga, e pode jogar à vontade com as informações que já fornecera ao leitor, sobre o passado do seu protagonista.

Nada, absolutamente nada, é desperdiçado no livro. Tudo oferece chance para cenas brilhantes e impagáveis, na qual Sabbath destila sua sexualidade politicamente incorreta e afrontosa. Nunca convide Sabbath para passar a noite em sua casa, leitor. Ele pode ocupar seu tempo vasculhando a roupa íntima das suas filhas, masturbando-se com as calcinhas delas ou fazendo propostas indecentes à sua esposa.

Demolindo a caretice e o conformismo triunfantes nos tempos modernos (e que se acreditava terem sido deixados para trás), a obra-prima de Roth faz com que Sabbath sempre fique no limite do intolerável, do inconveniente, do inapropriado. Herói de uma incipiente contracultura, nos anos 50, ele é um desconforto ambulante na década de 90, uma espécie de Rei Lear da sexualidade (não faltam alusões shakespearianas em “O TEATRO DE SABBATH”), despojado de tudo a não ser do seu pênis. Que continua dando trabalho a todos, ao dono e as pessoas que lidam com ele.

O maravilhoso em Philip Roth é que ele nunca cai na autoindulgência com a sexualidade masculina (tal como um Charles Bukowski). Seu talento corrosivo não poupa o próprio discurso libertário e abusado do sexômano sexagenário, que, mesmo assim, vem trazer uma lufada de ar fresco e um tempero picante, com sua degradação e sua inconveniência, a nossos tempos de “sexo seguro” (e tudo o mais totalmente inseguro e líquido): “Sem esposa, sem amante, sem tostão, sem profissão, sem casa… e agora, para coroar tudo isso, em fuga. Se não fosse velho demais para voltar para o mar, se seus dedos não estivessem aleijados, se Morty tivesse sobrevivido e Nikki não fosse louca, ou se ele mesmo não fosse louco também, se não houvesse guerra, loucura, perversidade, doença, estupidez, suicídio e morte, existiria alguma chance de Sabbath estar em uma situação bem melhor”.

Como o narrador mesmo nos diz, “os 64 anos de vida de Sabbath o haviam, muito tempo antes, liberado da falsidade do bom senso”. Sabbath possui “o talento que um homem arruinado tem para cometer imprudências… o poder de ser alguém que nada mais tinha a perder”.  Tanto é, que perto do final, quando desistiu de cometer suicídio (para o qual estava se preparando boa parte da narrativa), por motivos que só uma leitura desse romance obrigatório (como tantos outros de Philip Roth) pode esclarecer, ao provocar o filho de Drenka, um policial, para que ele o execute, ele se resume da seguinte forma: “Sou um cara imprudente. Para mim, também é uma coisa inexplicável. Isso substituiu praticamente tudo o mais na minha vida. Parece constituir o único objetivo do meu ser”. Melhor para nós, leitores.

 

01/05/2018

O UNIVERSO DE LEONARDO SCIASCIA: A SÍCILIA OU O BRASIL DE HOJE?

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 13:27
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 01 de maio de 2018)

Em “A cada um o seu”, o fabuloso Leonardo Sciascia mostra o protagonista (um corretíssimo e quixotesco professor de literatura) indo ao fórum, para obter o atestado de antecedentes que lhe facultará a licença para dirigir: “Subia as escadarias, masoquistamente desenvolvendo aquelas apreensões que são típicas do italiano que está para entrar no labirinto de uma repartição pública, ainda mais dedicada à justiça”.

Em nenhuma região da Itália essa desconfiança com relação à justiça enquanto instituição do Estado, enquanto instância que não combina com sentimentos atávicos e milenares, é tão profunda quanto na Sicília, e esse é o tema do paradigmático “O DIA DA CORUJA”: o dirigente de uma cooperativa de construção, que recusou a “proteção” dos mafiosos locais (apesar de que, oficialmente, a Máfia não existe, é como se fosse uma lenda: “existiu alguma vez um processo que tenha concluído pela existência de uma associação chamada Máfia a qual atribuir, com certeza, o mandado e a execução de um delito? Foi, alguma vez, encontrado um documento, um testemunho, uma prova qualquer que constitua uma relação segura entre um fato criminal e a assim chamada Máfia? Faltando essa relação, e admitindo que a Máfia exista, eu posso dizer-lhe que é uma associação de socorro mútuo e secreto, nada mais nada menos como a maçonaria”) é assassinado numa aldeia e o encarregado da investigação é um “continental”, o capitão Bellodi. Aqueles que são intimados para prestar esclarecimento, ao conhecerem o oficial, pensam: “os continentais são gentis, mas não entendem nada”.

E realmente, Bellodi “não entende nada”: insiste em ligar o crime à ação local da Máfia (incomodando, com isso, várias instâncias políticas: deputados, senadores) enquanto todos propõem uma explicação “passional”, como raiz desse e de outros dois homicídios (uma testemunha incauta, que vira o assassino, e um delator).

Ele coloca em detenção três suspeitos, e vai juntando provas irrefutáveis, que serão refutadas, entretanto através da impostura, uma palavra cara ao universo sciasciano: cidadãos respeitáveis juntam-se para fornecer álibis para os culpados.

Bellodi pertence a uma categoria recorrente nos romances de Sciascia: o herói de antemão derrotado, de ação por fim irrisória, e resignado com sua derrota, como o investigador Rogas, de “A trama”, sem falar no iludido e incauto professor Laurana, aquele mesmo que subia a escadaria do fórum em “A Cada Um o Seu”, o qual, ao contrário dos outros, nem faz ideia de onde está se metendo.

“O DIA DA CORUJA” é uma narrativa maravilhosa, no seu registro dos costumes, da mentalidade e do dialeto sicilianos. O preciso e calibrado estilo de Sciascia faz dele o “inimigo mortal das palavras ocas”, estas tão celebradas na Sicília como aqui no nosso país: “Bellodi contou a história do médico de uma prisão siciliana que enfiou na cabeça que ia retirar dos presos mafiosos o privilégio de ficar na enfermaria… O médico ordenou que voltassem às dependências comuns… Nem os agentes nem o diretor deram sequência às determinações do médico. O médico escreveu ao ministério. E assim certa noite foi chamado à prisão… os chefões o espancaram, cuidadosamente, metodicamente. Os guardas não viram o nada… O médico foi exonerado de suas funções pelo ministério, visto que seu zelo era causa de distúrbios… Como não conseguiu obter satisfação pela agressão sofrida, procurou outro chefão da Máfia que lhe desse pelo menos a satisfação de mandar espancar, na prisão para onde tinha sido transferido, um daqueles que o haviam agredido. Teve, pouco depois, a confirmação de que o culpado já tinha recebido a surra que lhe competia”.

10/04/2018

RESENHA COMEMORATIVA: 25 ANOS DESTA COLUNA

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 17:55
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 10 de abril de 2018)

Há 25 anos, eu iniciei essa coluna resenhando “A MÚSICA DO ACASO”. Mal sabia eu que duraria tanto e que Paul Auster seria um autor tão essencial na minha vida esse tempo todo, principalmente quando descobri tardiamente “A Trilogia de New York”. Meu desgosto é que nunca mais reeditaram “A MÚSICA DO ACASO” no Brasil.

Jim Nashe, como vários personagens de Auster, acredita na “tabula rasa”, ou seja, reinventar a existência. No seu caso, uma herança paterna (e paternidade e heranças são recorrentes na sua obra). Nashe resolve atravessar o país de carro e, após um ano, percebe que sua disponibilidade e “liberdade” diminuem conforme o dinheiro vai escasseando.

De forma aleatória ele se junta a Jack Pozzi, jogador inveterado (e não há símbolo maior para o acaso que os jogos de azar). Formam uma parceria contra dois milionários e perdem tudo. Nashe e Pozzi perdem e são obrigados a saldar a dívida na construção de um muro dentro da propriedade dos milionários (que viajam). Embora nada fique explícito, eles se sentem prisioneiros e vigiados, o que é confirmado no dia em que Pozzi tenta fugir… Assim resumido (em parte), o enredo de “A MÚSICA DO ACASO” dá a impressão de pertencer à linha da literatura que seguindo as pegadas dos grandes Franz Kafka e Samuel Beckett, parece querer demonstrar que o homem ou está à mercê de potências indiferentes e cruéis ou é fruto do acaso, produto gratuito e quase risível. Afinal, o protagonista —que acreditava no acaso como uma força que leva a vida para a frente —descobre que é também um sinal das irremediáveis forças coercitivas que nos regem.

Mas o romance de Paul Auster, tem o maravilhoso senso do concreto e do cotidiano ligados à fabulação que parece ser um dom da ficção dos EUA. Seja para comentar a vida de Nashe pré-herança, seja para narrar sua errância ao acaso das estradas, seja para contar seu encontro fortuito com Pozzi e depois a rotina dos dois como pedreiros de uma muralha absurda, capricho dos “donos do mundo”, Auster jamais perde de vista a verossimilhança da história, seu pé no real.

Não há espaço nesse romance para cenários bizarros ou atemporais ou para situações de teatro do absurdo, como fizeram tantos seguidores de Kafka e Beckett para mostrar a “condição humana”. Ainda mais pertinentemente (o que já é uma proeza) do que Milan Kundera, em “A insustentável leveza do ser”, Auster efetua uma cabal equação do que é “fortuito” (porque é fruto do acaso) e do que é “irrevogável” (porque não pode ser alterado), de uma maneira tão parecida com um romance de suspense que é impossível contar detalhes, sob pena de estragar as várias surpresas e emoções do leitor (e difícil, também, é largar a leitura).

Só não se pode deixar de destacar um grande personagem secundário, o capataz Murks, que é igualmente uma espécie de carcereiro e carrasco para Nashe e Pozzi, mas que se afeiçoa ao primeiro, como se este fosse um amigo: [Nashe] “queria apenas odiar Murks, transformá-lo em algo abaixo do humano com a simples força de seu ódio; mas como poderia conseguir isso se o homem não se comportava como monstro? Murks começou a aparecer no trabalho com pequenos presentes (…) e, no trabalho, era no mínimo indulgente, sempre aconselhando Nashe a ir mais devagar, a não exigir tanto de si próprio. ”

20/03/2018

A GENIAL JANE AUSTEN AGORA EM NOVELA DA GLOBO

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 16:55
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 20 de março de 2018)

Numa entrevista que concedi a Herasmo Braga (em 2013), ele me fez a seguinte pergunta: “HB – Quais autores são imprescindíveis para um leitor qualificado em sua opinião?

AM – Mas o que importa mesmo é não ler ‘de orelha’, nem de ‘segunda mão’. Mesmo que através de traduções, é necessário conhecer a grande tradição de autores que foram ‘inventando o humano’ além do Shakespeare à Bloom. Outro dia li uma declaração de uma autora, da qual não direi o nome, que admiro. Ela disse que não tinha muito tempo de ler os clássicos porque tinha de ficar atenta à ‘cena atual’. Acho essa declaração não só uma bobagem imensa como também perigosa: o que é bom na literatura é sempre ‘cena atual’. Tem coisas de dois anos atrás e que já estão prontas pro disque-entulho. Enquanto Jane Austen é sempre ‘da hora’”.

Jane Austen é tão da hora que a nova novela da Globo, “Orgulho e Paixão” é baseada em “ORGULHO E PRECONCEITO” (com pitadas de “Emma”), seu mais famoso romance. Elizabeth Bennet é uma das personagens mais carismáticas da história da ficção, como digna sucessora que é daquelas heroínas inteligentes, mordazes e apaixonadas de Shakespeare. Como se sabe, ela pertence a uma família que tem muitas filhas (cinco), todas sem dote e cuja propriedade, com a morte do pai, deverá passar para um distante (e insuportável) parente masculino. Este, em certo ponto da narrativa, resolve pedir a mão de Elizabeth, mas ela está encantada com o forasteiro Wickham, desafeto de Mr. Darcy, melhor amigo de outro estranho ao lugar onde mora a família Bennet, Mr. Bingley, que se apaixona por Jane, irmã mais velha de Elizabeth (romance desaprovado pelo orgulhoso e preconceituoso Darcy). Aliás, Mr. Collins, o absurdo pretendente, toca na questão central da vida de mulheres como as Bennet: “A senhora deve levar em conta que apesar dos seus múltiplos atrativos, nada garante que outra proposta de casamento lhe seja feita algum dia. O seu dote infelizmente é tão pequeno que em todas as situações pesará contra a sua beleza e as suas louváveis qualificações”.

Com implacável precisão e lucidez, ficamos conhecendo aquela sociedade em que cada um é prisioneiro de sua condição social e sexual, em que o mais rasteiro cálculo materialista e comodista dita as regras, como mostra a melhor amiga de Elizabeth, Charlotte, ao aceitar Mr. Collins como marido: “Sem pensar muito nem nos homens nem no matrimônio, o casamento sempre fora o seu objetivo; era a única condição digna para uma moça bem-educada e de pouca fortuna e por mais incertas que fossem as perspectivas de trazer felicidade, ainda era a forma mais agradável de se preservar da necessidade”.

Mesmo assim, provavelmente os leitores apaixonados por Jane Austen, como eu, nunca cansarão de reler “ORGULHO E PRECONCEITO” é por causa mesmo da mudança de sentimentos de Elizabeth com relação a Mr. Darcy, depois que reconhece o caráter dúbio e escorregadio de Wickham (que seduzirá a irmã dela), percorrendo lentamente (em termos psicológicos, não narrativos) o arco que vai da antipatia ao amor. E isso através de diálogos ainda insuperados (a cena da declaração de amor dele é particularmente antológica).

Outro prazer adicional é o de retomar contato com um dos pais mais deliciosamente irônicos já criados, Mr. Bennet, sempre roubando a cena quando aparece e que, entretanto, não escapa à prodigiosa visão crítica da genial escritora inglesa: “Elizabeth, no entanto, nunca fora cega à impropriedade do comportamento do pai como marido. Aquilo sempre a fizera sofrer, mas, respeitando as suas qualidades e grata pelo seu tratamento afetuoso, esforçava-se por esquecer o que não podia fingir não ver e bania dos seus pensamentos aquela contínua quebra das obrigações e do decoro conjugal, expondo a esposa ao desprezo das próprias filhas”.  Todavia, como resistir a um personagem que, quando sua tola esposa diz: “Você se diverte em me aborrecer, não tem compaixão pelos meus pobres nervos”, responde: “Está enganada, minha cara. Tenho um alto respeito pelos seus nervos. São meus velhos amigos. Ouço-a mencioná-los com consideração há pelo menos vinte anos”.

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