MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

01/05/2018

O UNIVERSO DE LEONARDO SCIASCIA: A SÍCILIA OU O BRASIL DE HOJE?

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 13:27
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 01 de maio de 2018)

Em “A cada um o seu”, o fabuloso Leonardo Sciascia mostra o protagonista (um corretíssimo e quixotesco professor de literatura) indo ao fórum, para obter o atestado de antecedentes que lhe facultará a licença para dirigir: “Subia as escadarias, masoquistamente desenvolvendo aquelas apreensões que são típicas do italiano que está para entrar no labirinto de uma repartição pública, ainda mais dedicada à justiça”.

Em nenhuma região da Itália essa desconfiança com relação à justiça enquanto instituição do Estado, enquanto instância que não combina com sentimentos atávicos e milenares, é tão profunda quanto na Sicília, e esse é o tema do paradigmático “O DIA DA CORUJA”: o dirigente de uma cooperativa de construção, que recusou a “proteção” dos mafiosos locais (apesar de que, oficialmente, a Máfia não existe, é como se fosse uma lenda: “existiu alguma vez um processo que tenha concluído pela existência de uma associação chamada Máfia a qual atribuir, com certeza, o mandado e a execução de um delito? Foi, alguma vez, encontrado um documento, um testemunho, uma prova qualquer que constitua uma relação segura entre um fato criminal e a assim chamada Máfia? Faltando essa relação, e admitindo que a Máfia exista, eu posso dizer-lhe que é uma associação de socorro mútuo e secreto, nada mais nada menos como a maçonaria”) é assassinado numa aldeia e o encarregado da investigação é um “continental”, o capitão Bellodi. Aqueles que são intimados para prestar esclarecimento, ao conhecerem o oficial, pensam: “os continentais são gentis, mas não entendem nada”.

E realmente, Bellodi “não entende nada”: insiste em ligar o crime à ação local da Máfia (incomodando, com isso, várias instâncias políticas: deputados, senadores) enquanto todos propõem uma explicação “passional”, como raiz desse e de outros dois homicídios (uma testemunha incauta, que vira o assassino, e um delator).

Ele coloca em detenção três suspeitos, e vai juntando provas irrefutáveis, que serão refutadas, entretanto através da impostura, uma palavra cara ao universo sciasciano: cidadãos respeitáveis juntam-se para fornecer álibis para os culpados.

Bellodi pertence a uma categoria recorrente nos romances de Sciascia: o herói de antemão derrotado, de ação por fim irrisória, e resignado com sua derrota, como o investigador Rogas, de “A trama”, sem falar no iludido e incauto professor Laurana, aquele mesmo que subia a escadaria do fórum em “A Cada Um o Seu”, o qual, ao contrário dos outros, nem faz ideia de onde está se metendo.

“O DIA DA CORUJA” é uma narrativa maravilhosa, no seu registro dos costumes, da mentalidade e do dialeto sicilianos. O preciso e calibrado estilo de Sciascia faz dele o “inimigo mortal das palavras ocas”, estas tão celebradas na Sicília como aqui no nosso país: “Bellodi contou a história do médico de uma prisão siciliana que enfiou na cabeça que ia retirar dos presos mafiosos o privilégio de ficar na enfermaria… O médico ordenou que voltassem às dependências comuns… Nem os agentes nem o diretor deram sequência às determinações do médico. O médico escreveu ao ministério. E assim certa noite foi chamado à prisão… os chefões o espancaram, cuidadosamente, metodicamente. Os guardas não viram o nada… O médico foi exonerado de suas funções pelo ministério, visto que seu zelo era causa de distúrbios… Como não conseguiu obter satisfação pela agressão sofrida, procurou outro chefão da Máfia que lhe desse pelo menos a satisfação de mandar espancar, na prisão para onde tinha sido transferido, um daqueles que o haviam agredido. Teve, pouco depois, a confirmação de que o culpado já tinha recebido a surra que lhe competia”.

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10/04/2018

RESENHA COMEMORATIVA: 25 ANOS DESTA COLUNA

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 17:55
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 10 de abril de 2018)

Há 25 anos, eu iniciei essa coluna resenhando “A MÚSICA DO ACASO”. Mal sabia eu que duraria tanto e que Paul Auster seria um autor tão essencial na minha vida esse tempo todo, principalmente quando descobri tardiamente “A Trilogia de New York”. Meu desgosto é que nunca mais reeditaram “A MÚSICA DO ACASO” no Brasil.

Jim Nashe, como vários personagens de Auster, acredita na “tabula rasa”, ou seja, reinventar a existência. No seu caso, uma herança paterna (e paternidade e heranças são recorrentes na sua obra). Nashe resolve atravessar o país de carro e, após um ano, percebe que sua disponibilidade e “liberdade” diminuem conforme o dinheiro vai escasseando.

De forma aleatória ele se junta a Jack Pozzi, jogador inveterado (e não há símbolo maior para o acaso que os jogos de azar). Formam uma parceria contra dois milionários e perdem tudo. Nashe e Pozzi perdem e são obrigados a saldar a dívida na construção de um muro dentro da propriedade dos milionários (que viajam). Embora nada fique explícito, eles se sentem prisioneiros e vigiados, o que é confirmado no dia em que Pozzi tenta fugir… Assim resumido (em parte), o enredo de “A MÚSICA DO ACASO” dá a impressão de pertencer à linha da literatura que seguindo as pegadas dos grandes Franz Kafka e Samuel Beckett, parece querer demonstrar que o homem ou está à mercê de potências indiferentes e cruéis ou é fruto do acaso, produto gratuito e quase risível. Afinal, o protagonista —que acreditava no acaso como uma força que leva a vida para a frente —descobre que é também um sinal das irremediáveis forças coercitivas que nos regem.

Mas o romance de Paul Auster, tem o maravilhoso senso do concreto e do cotidiano ligados à fabulação que parece ser um dom da ficção dos EUA. Seja para comentar a vida de Nashe pré-herança, seja para narrar sua errância ao acaso das estradas, seja para contar seu encontro fortuito com Pozzi e depois a rotina dos dois como pedreiros de uma muralha absurda, capricho dos “donos do mundo”, Auster jamais perde de vista a verossimilhança da história, seu pé no real.

Não há espaço nesse romance para cenários bizarros ou atemporais ou para situações de teatro do absurdo, como fizeram tantos seguidores de Kafka e Beckett para mostrar a “condição humana”. Ainda mais pertinentemente (o que já é uma proeza) do que Milan Kundera, em “A insustentável leveza do ser”, Auster efetua uma cabal equação do que é “fortuito” (porque é fruto do acaso) e do que é “irrevogável” (porque não pode ser alterado), de uma maneira tão parecida com um romance de suspense que é impossível contar detalhes, sob pena de estragar as várias surpresas e emoções do leitor (e difícil, também, é largar a leitura).

Só não se pode deixar de destacar um grande personagem secundário, o capataz Murks, que é igualmente uma espécie de carcereiro e carrasco para Nashe e Pozzi, mas que se afeiçoa ao primeiro, como se este fosse um amigo: [Nashe] “queria apenas odiar Murks, transformá-lo em algo abaixo do humano com a simples força de seu ódio; mas como poderia conseguir isso se o homem não se comportava como monstro? Murks começou a aparecer no trabalho com pequenos presentes (…) e, no trabalho, era no mínimo indulgente, sempre aconselhando Nashe a ir mais devagar, a não exigir tanto de si próprio. ”

20/03/2018

A GENIAL JANE AUSTEN AGORA EM NOVELA DA GLOBO

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 16:55
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 20 de março de 2018)

Numa entrevista que concedi a Herasmo Braga (em 2013), ele me fez a seguinte pergunta: “HB – Quais autores são imprescindíveis para um leitor qualificado em sua opinião?

AM – Mas o que importa mesmo é não ler ‘de orelha’, nem de ‘segunda mão’. Mesmo que através de traduções, é necessário conhecer a grande tradição de autores que foram ‘inventando o humano’ além do Shakespeare à Bloom. Outro dia li uma declaração de uma autora, da qual não direi o nome, que admiro. Ela disse que não tinha muito tempo de ler os clássicos porque tinha de ficar atenta à ‘cena atual’. Acho essa declaração não só uma bobagem imensa como também perigosa: o que é bom na literatura é sempre ‘cena atual’. Tem coisas de dois anos atrás e que já estão prontas pro disque-entulho. Enquanto Jane Austen é sempre ‘da hora’”.

Jane Austen é tão da hora que a nova novela da Globo, “Orgulho e Paixão” é baseada em “ORGULHO E PRECONCEITO” (com pitadas de “Emma”), seu mais famoso romance. Elizabeth Bennet é uma das personagens mais carismáticas da história da ficção, como digna sucessora que é daquelas heroínas inteligentes, mordazes e apaixonadas de Shakespeare. Como se sabe, ela pertence a uma família que tem muitas filhas (cinco), todas sem dote e cuja propriedade, com a morte do pai, deverá passar para um distante (e insuportável) parente masculino. Este, em certo ponto da narrativa, resolve pedir a mão de Elizabeth, mas ela está encantada com o forasteiro Wickham, desafeto de Mr. Darcy, melhor amigo de outro estranho ao lugar onde mora a família Bennet, Mr. Bingley, que se apaixona por Jane, irmã mais velha de Elizabeth (romance desaprovado pelo orgulhoso e preconceituoso Darcy). Aliás, Mr. Collins, o absurdo pretendente, toca na questão central da vida de mulheres como as Bennet: “A senhora deve levar em conta que apesar dos seus múltiplos atrativos, nada garante que outra proposta de casamento lhe seja feita algum dia. O seu dote infelizmente é tão pequeno que em todas as situações pesará contra a sua beleza e as suas louváveis qualificações”.

Com implacável precisão e lucidez, ficamos conhecendo aquela sociedade em que cada um é prisioneiro de sua condição social e sexual, em que o mais rasteiro cálculo materialista e comodista dita as regras, como mostra a melhor amiga de Elizabeth, Charlotte, ao aceitar Mr. Collins como marido: “Sem pensar muito nem nos homens nem no matrimônio, o casamento sempre fora o seu objetivo; era a única condição digna para uma moça bem-educada e de pouca fortuna e por mais incertas que fossem as perspectivas de trazer felicidade, ainda era a forma mais agradável de se preservar da necessidade”.

Mesmo assim, provavelmente os leitores apaixonados por Jane Austen, como eu, nunca cansarão de reler “ORGULHO E PRECONCEITO” é por causa mesmo da mudança de sentimentos de Elizabeth com relação a Mr. Darcy, depois que reconhece o caráter dúbio e escorregadio de Wickham (que seduzirá a irmã dela), percorrendo lentamente (em termos psicológicos, não narrativos) o arco que vai da antipatia ao amor. E isso através de diálogos ainda insuperados (a cena da declaração de amor dele é particularmente antológica).

Outro prazer adicional é o de retomar contato com um dos pais mais deliciosamente irônicos já criados, Mr. Bennet, sempre roubando a cena quando aparece e que, entretanto, não escapa à prodigiosa visão crítica da genial escritora inglesa: “Elizabeth, no entanto, nunca fora cega à impropriedade do comportamento do pai como marido. Aquilo sempre a fizera sofrer, mas, respeitando as suas qualidades e grata pelo seu tratamento afetuoso, esforçava-se por esquecer o que não podia fingir não ver e bania dos seus pensamentos aquela contínua quebra das obrigações e do decoro conjugal, expondo a esposa ao desprezo das próprias filhas”.  Todavia, como resistir a um personagem que, quando sua tola esposa diz: “Você se diverte em me aborrecer, não tem compaixão pelos meus pobres nervos”, responde: “Está enganada, minha cara. Tenho um alto respeito pelos seus nervos. São meus velhos amigos. Ouço-a mencioná-los com consideração há pelo menos vinte anos”.

13/03/2018

Garp Quarentão

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 15:46
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 13 de março de 2018)

Há exatamente 40 anos era lançado um romance fascinante: “O MUNDO SEGUNDO GARP”, terceira obra de John Irving, escrita aos 36 anos e que marcou definitivamente seu estilo extravagante, barroco, extremista, baseado no exagero. 40 anos depois é possível afirmar que ele continua um dos maiores romancistas do mundo e ainda seria se tivesse parado na história de T.S. Garp.

É temerário resumi-la: a mãe de Garp, Jenny Fields, quer ter um filho sem relacionar-se com homem algum; fica grávida, então, em 1942, de um sargento, paciente desenganado do hospital onde trabalha como enfermeira.

Mais tarde ela se torna uma referência da contracultura feminista, por sua autobiografia “Uma suspeita sexual”; Garp, ao viajar com a mãe para Viena, começa a escrever, mas alternará algumas poucas obras com longos períodos de inatividade criadora, quando se concentra maniacamente na família, obcecado com a segurança dos filhos, o que não impedirá a tragédia: um acidente matará um de seus filhos e deixará o outro cego de um olho (aliás, mutilações não faltam no livro: são pênis, línguas, olhos e pedaços de orelha perdidos em diversos episódios inesquecíveis).

Há uma introdução de Irving na qual ele insiste na questão do excessivo medo paterno de Garp de perder os filhos: “Sou apenas um pai com boa imaginação. Em minha imaginação eu perco meus filhos diariamente”.

Na verdade, como já se constatou diversas vezes, “O MUNDO SEGUNDO GARP” é uma profunda parábola sobre as duas obsessões e temores norte-americanos: a mortalidade e o sexo (Jenny Fields identifica todos os males com a lubricidade; o acidente trágico com os filhos de Garp acontece porque sua esposa, Helen, está fazendo sexo oral em seu amante, quando estão terminando o caso, justamente na entrada de carros da sua casa; o marido chega inesperadamente mais cedo e os dois carros colidem: a boca de Helen arranca no impacto o pênis do amante, Walt, o caçula, morre—e inquietantemente não é mencionado mais por páginas e mais páginas—e Duncan, o outro filho, perde um olho ao ser projetado sobre o câmbio que há meses estava sem a rosca protetora…). Isso explica a gritante e bizarra imaturidade de seus personagens. A certa altura, se afirma: “São inúmeras as culpas. Em tudo que Garp escreve sempre há culpas por todos os lados”. Para temperar as situações, há ainda —no espectro temporal do romance— a   virada de valores e as revoluções de todo tipo, em contraste com a caretice e o conformismo dos anos 40 e 50.

O passar do tempo (e a publicação de seus outros livros, principalmente “Viúva por um ano”) evidenciou algo mais importante e essencial: inseridos no texto há trechos das obras de Garp. Na primeira, “A pensão Grillparzer”, a imaginação recria totalmente o mundo; nas posteriores, Garp se aproveita de suas experiências, ou seja, da “vida real”. Pela lógica narrativa, essa evolução representa perda, empobrecimento.

Irving sempre teve certa notoriedade, desde seu primeiro romance, por aproveitar passagens da sua autobiografia de uma forma exuberante e inusitada. A partir do romance seguinte, o extraordinário “Hotel New Hampshire” (o romance que me abriu a porta do seu universo), ele mostra que aderiu inteira e magistralmente ao clima sugerido por “A pensão Grillparzer”. É um rude golpe naqueles que gostam do baseado em fatos reais: a obra de Irving representa o triunfo da ficção, no que ela tem de mais verdadeiro e real.

06/03/2018

OS 50 ANOS DE “A OBRA EM NEGRO”, DE MARGUERITE YOURCENAR

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 06 de março de 2018)

Há 50 anos Marguerite Yourcenar publicou “A OBRA EM NEGRO”, que se tornou um dos meus livros prediletos: desde os 18 anos leio e releio as aventuras de Zênon, seu herói lunar (em contraste com o protagonista solar de “Memórias de Adriano”).

“A OBRA EM NEGRO” é a história de Zênon, filho bastardo dentro de uma abastada família flamenga, que deixa Bruges, sua terra natal, após matar numa briga o aprendiz de artesão Perrotin, tornando-se com os anos um famoso (e para a Igreja, herético) médico, filósofo e alquimista, na linha de Leonardo, para Celso, Giordano Bruno.

Na primeira parte, “A vida Errante”, após um perfil de Zênon aos 20 anos, a grande escritora belga (de expressão francesa) acaba mostrando-o quase sempre de viés, mais como um objeto da opinião pública, que especula a respeito de suas várias transgressões, em meio a mentiras, boatos e distorções. Conhecemos também, paralelamente, a trajetória de algumas pessoas ligadas a Zênon: sua mãe, Hilzonda, que morre num cerco aos anabatistas, rebeldes religiosos; seu primo, Henri-Maximilien, que abandona a família para engajar-se em qualquer guerra…

É no capítulo “Conversa em Innsbruck” que conhecemos o Zênon já maduro, resultado das viagens e perseguições, enfim, de uma vida precária e ameaçada. E a princípio não se tem certeza de que se pode simpatizar com um tipo tão opiniático, tão lúgubre e amargo, tão consumido pela experiência.

Se a primeira parte já é interessante, com seu painel do século XVI, onde se vive, grosso modo, o conflito entre o Catolicismo e a Reforma Protestante, “A OBRA EM NEGRO” cresce vertiginosamente (e também a figura de Zênon, que passa a ocupar o primeiro plano quase que exclusivamente) nas duas outras partes, “A vida Imóvel” e “A Prisão”. O belo filme de André Delvaux, com um notável Gian-Maria Volonté no papel central, concentra-se mais nesse ponto da história, muito menos movimentado, porém mais denso: Zênon decide voltar clandestinamente a Bruges, estabelecendo-se como o médico Sebastian Theus, de certa forma protegido pelo compassivo prior dos franciscanos, Jean-Louis de Berlaimont (que foi admiravelmente encarnado por Sami Frey na versão cinematográfica). Depois da morte do prior, por causa de confusões sexuais de noviços no mosteiro, acaba nas mãos da Inquisição, sentenciado à fogueira, da qual escapa pelo suicídio.

Da vida imóvel de Zênon emerge o grande tema das maiores obras de Yourcenar, na minha opinião: o tudo-nada que é a experiência. Ela nos descreve a experiência da vida da forma mais detalhista, para depois nos mostrar a sua dissolução e a sua negação. É o que faz Zênon, no “Abismo” (título do capítulo-âmago do romance), experimentando os limites do corpo e da mente, de forma que, em meio aos resíduos do que ele viveu e pensou e sentiu, ele consegue roçar o não-ser.

A ironia é que, engajado nessa experiência de superação dos limites da nossa condição, ele se vê ao mesmo tempo enredado (no sentido mesmo da vítima na teia de aranha), num contexto histórico que não deixa muitas saídas para quem não professe um dogma ou pertença a um partido, a uma determinada associação. Tendo escolhido uma existência sem laços, Zênon sempre será o suspeito, o dissidente, o que traz em si o princípio da negação, embora dele se diga: “por estar mais familiarizado com o procedimento que consiste em negar tudo—para depois ver se em seguida se pode reafirmar alguma coisa—e, em desfazer tudo—para ver depois tudo se refazer em outro plano ou de outra forma…”

Ou como ele mesmo diz, é preciso morrer um pouco menos tolo do que quando se veio ao mundo.

17/10/2017

UM NOBEL SURPREENDENTE E MERECIDO

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 17 de outubro de 2017)

Kazuo Ishiguro, o surpreendente e merecido Nobel 2017, é um especialista em vidas desperdiçadas (um exemplo pungente: “Não me abandone jamais”), escreveu uma das obras-primas das últimas décadas, “OS RESÍDUOS DO DIA”.

É nirvânica a concepção que o mordomo Stevens tem do seu ofício. A individualidade deve desaparecer no exercício da função: “Um mordomo de qualidade tem que mostrar que habita seu papel, inteira e completamente; não pode ser visto jogando-o de lado num momento e simplesmente vesti-lo no momento seguinte, como se nada mais fosse que uma fantasia teatral”. Em virtude desse modo de pensar, tirar uma semana de folga (em 1956) só é aceitável com uma motivação profissional: reencontrar, e se possível trazer de volta, miss Kenton, a antiga governanta de Darlington Hall.

Por que, então, omite ou nega ter sido seu mordomo em vários momentos da sua viagem? Será, também, que ele acredita de fato estar buscando miss Kenton de volta ao seu antigo emprego (que ela deixou para casar-se), se ela ao longo de tantos anos procurou de todas as formas desencantá-lo do seu feitiço de sapo-mordomo e transformá-lo no seu príncipe encantado (guardadas as devidas proporções, claro)? Uma luta que nos é mostrada através de diálogos relembrados, nos quais tudo que é importante não é dito, ficando irremediavelmente para trás, à revelia das palavras. Até que miss Kenton desiste.

Há todo um lado monstruoso em Stevens e miss Kenton quando levam a extremos seus papéis (ou seus trajes, para prolongar a analogia), mas jamais caem na caricatura ou no chavão. Há uma antológica cena que demonstra bem isso, na qual Stevens serve convidados de uma importante conferência organizada em Darlington Hall, enquanto seu pai agoniza aos cuidados de miss Kenton que, a essa altura, ainda não desistira.

O livro de Ishiguro parece fluente, transparente mesmo. Na verdade oculta artifícios e dissimulações, patéticas por parte do narrador, e brilhantes por parte do autor (em seu terceiro romance).

O diálogo final do reencontro entre os dois protagonistas é um dos momentos mais comoventes da ficção moderna.

Ao contrário dos proletários da famosa peça de Gianfrancesco Guarnieri, esses criados usam black ties, mas são igualmente explorados.

Além de “OS RESÍDUOS DO DIA” e “Não me Abandone Jamais”, outros títulos de Ishiguro: “Uma Pálida Visão dos Montes”; “Um Artista no Mundo Flutuante”; “O Desconsolado”; “Quando Éramos Órfãos”; “O Gigante Enterrado”.

 

02/05/2017

QUARENTA ANOS DA MAIS POPULAR OBRA DE CLARICE LISPECTOR

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 02 de maio de 2017)

“Se tivesse a tolice de se perguntar ”quem sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão. É que “quem sou eu?” provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto”.

Em 1977, poucos meses antes de sua morte, Clarice Lispector publicou um livro que seria sua obra mais famosa e amada, A HORA DA ESTRELA. Curiosamente, uma autora que era considerada hermética e difícil, conseguiu uma popularidade imensa, desde a época (começo dos anos 70) em que começou a publicar textos no Jornal do Brasil. Também ajudaram as edições de “A Legião Estrangeira” (contos) e “Para Não Esquecer” (crônicas) pela Ática, as quais a fizeram popular entre os jovens. Ao mesmo tempo, sua figura era mitificada, pelas suas excentricidades, o que fez com que muitos críticos não reconhecessem sua qualidade literária, até hoje.

A HORA DA ESTRELA conta o desamparo da singela nordestina Macabéa, tentando encontrar a felicidade no Rio de Janeiro, “uma cidade feita toda contra ela”. Macabéa é um “fiapo de ser”, mas sempre otimista e esperançosa: “Macabéa, ao contrário de Olímpico, era fruto do cruzamento de “o quê” com “o quê”. Na verdade ela parecia ter nascido de uma ideia vaga qualquer dos pais famintos”.

Quem nos relata as aventuras (ou desventuras), da mais frágil heroína da nossa literatura é o escritor Rodrigo S. M.; apesar de adorar o livro, acho que ele é o ponto fraco do texto, pois Clarice não consegue criar uma voz narrativa masculina. Rodrigo S. M. tem o mesmo tom das narradoras femininas dos outros livros da genial escritora (“A Paixão Segundo G. H.”; “Água Viva”). Isso não impede que haja passagens belíssimas, contudo, as primeiras páginas pareçam trôpegas (aliás, eu particularmente prefiro sua fase “hermética”, onde estão seus livros supremos: “A Maça no Escuro”; “Laços de Família”; “A Paixão Segundo G. H.”).

No entanto, o livro é de Macabéa. O fiapo de gente confirma as palavras do narrador: “Sim, estou apaixonado por Macabéa a minha querida Maca, apaixonado pela sua feiura e anonimato total pois ela não é para ninguém”. Ledo engano, Rodrigo S. M., ela é para todos nós.  Todos somos apaixonados por Macabéa.

28/03/2017

UM CLÁSSICO DO MODERNISMO E DA CONTRACULTURA

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de março de 2017)

Na semana passada, comentei Ao Farol, de Virginia Woolf, por conta dos 90 anos de sua publicação original. Outro clássico do modernismo, também surgido em 1927, ainda mais influente (marcou profundamente a época da contracultura, nos anos 60), é O LOBO DA ESTEPE, a mais conhecida obra do grande Herman Hesse.

Harry Haller, o protagonista, está chegando aos 50 anos obcecado pela ideia de degolar-se com uma navalha, para fugir da angustiante divisão do seu ser em duas personalidades: uma burguesa, que deseja calor, companhia (ele, um errante, sempre se hospeda em casas que lembram sua infância); outra, que ele denomina de “lobo da estepe”, misantropa e desadaptada, destinada à solidão e orgulhosa dessa condição.

Doris Lessing, a respeito de O Carnê Dourado (1962), romance que tem muitas afinidades com O LOBO DA ESTEPE, inclusive por causa da estrutura ousada e complexa, afirmou que às vezes pirar é uma forma de autocura, uma maneira de nosso eu interior eliminar falsas dicotomias e divisões. É o que acontece com Harry Haller: ele é convidado a participar de um Teatro Mágico, “só para raros e loucos”.

Esse teatro é sua própria personalidade. Hesse investe contra a pretensa unidade do eu. Na verdade, somos um feixe de eus: “Não há nenhum eu, nem mesmo o mais simples, mas um mundo plural, um pequeno firmamento, um caos de formas”.

E Harry, ao longo do romance, irá experimentar algumas das suas outras almas, numa saudável esquizofrenia, por assim dizer, tendo como guias Hermione e Pablo. Hermione é seu duplo feminino, a cortesã que o obriga imperativamente a usufruir da vida, a dançar, a praticar intensamente o sexo, a se dissolver “na festa”.

Pablo, por sua vez, é o belo músico aparentemente burro e tolo, mas que se revela o guia para os mais recônditos cenários do Teatro Mágico, aqueles onde Harry terá que se deparar com suas almas mais sombrias. Pois uma das “lições” da história de Harry Haller é que se precisa do humor, acima de tudo; para se encarar a vida a sério é necessário não se levar a sério. Como o Mozart do Teatro Mágico diz a Haller: “Aprenda a levar a sério o que merece ser levado a sério, e a rir de tudo o mais!”.

Contudo, o melhor de O LOBO DA ESTEPE é que não há soluções ou verdades definitivas, nem o personagem acaba bem, apaziguado, conciliado. Esse livro, na terceira leitura, como na primeira (e provavelmente numa quinta ou décima) é um duro e perturbador reaprendizado da sensibilidade e da percepção do mundo. E sempre restará ao leitor a esperança de, na próxima leitura, ter aprendido a jogar melhor o jogo da existência, desejo formulado por Harry nas frases finais.

21/03/2017

90 ANOS DE UMA OBRA-PRIMA DE VIRGINIA WOOLF

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de março de 2017)

AO FAROL, completa 90 anos de sua publicação original, mantendo seu status de um dos mais belos romances já escritos; muitos o consideram a obra-prima de Virginia Woolf (eu ainda prefiro As Ondas, mas é questão de gosto). Recentemente, teve a sorte de ser traduzido pela ótima Denise Bottmann, publicada pela Editora L&PM.

O livro conta, se é possível dizer isso, a história da família Ramsay, que passa o verão nas Ilhas Hébridas (costa da Escócia), com seus muitos agregados e “protegidos”. Todos ora admiram ora invejam ora se incomodam com a sra. Ramsay, que não só cuida para que tudo corra bem com seus oito filhos e o marido, um conceituado pensador, como também influi na vida alheia. A sua presença, a força da sua maternidade, são o centro das atenções: sua casa de verão está gasta e empobrecida, há expectativas frustradas (como um planejado passeio ao farol local, que não acontece) e problemas afetivo-românticos, mas aparentemente ela consegue manter tudo coeso.  Ela, em si mesma, é um farol, um centro fixo.

A sra. Ramsay domina a própria narrativa: seguindo o seu ritmo interior, Virginia Woolf (que se inspirou na própria mãe) suspende o tempo, por assim dizer, pois tudo que está integrado ao mundo, à existência pura, não o sente. É por esse motivo que a sra. Ramsay, aos 50 anos, desperta “algo” em homens e mulheres, e é por esse motivo que, no vai-e-vem cronológico, o leitor fica sabendo dos “fatos” muito mais pela ótica das personagens masculinas, intelectuais que não conseguem a suprema integração da sra. Ramsay ao espetáculo do mundo.

O poder da sra. Ramsay tem muito de ilusionismo: transmite a sensação de permanência e segurança.

Pois, como todos nós sabemos, o “tempo passa”. Na segunda parte, vem a Primeira Guerra Mundial, a sra. Ramsay e outros membros da família morrem e o círculo de amigos fragmenta-se.

Os sobreviventes reencontram-se na 3ª parte, anos depois, e finalmente realiza-se o tão almejado passeio ao farol. E é justamente na reconstituição desse projeto que todos constatam o efeito do tempo e a falta da mãe, e, ao mesmo tempo, se dão conta da ilusão que ela conseguiu manter enquanto viva, e como essa ilusão teve um poder mágico sobre suas vidas.

A “salvação” possível está na obra de arte, a única forma de se realizar no tempo, uma vez desfeita a integração com a natureza, com a mãe ausente. É o que faz Lily Briscoe, terminando seu quadro na praia: “A grande revelação nunca chegou. Ao invés disso, houve pequenos milagres diários, iluminações, fósforos inesperadamente acesos na escuridão e aquele era um deles… a onda estourando, a sra. Ramsay dizendo: Para aqui, vida! a sra. Ramsay tentando transformar o momento em alguma coisa permanente –isso seria da mesma natureza que uma revelação. No meio do caos havia uma forma”.

21/02/2017

O GIGANTE DE PIMDORAMA: RADUAN NASSAR

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raduan-nassar Obra Completa de Raduan Nassar

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em 21 de fevereiro de 2017 em A TRIBUNA de Santos)

Certa vez, num debate sobre a América Latina (assolada por ditaduras militares), Otavio Paz, Nobel de Literatura de 1990, (grande poeta e ensaísta, mas com posições ideológicas discutíveis), afirmou que existiam dois tipos de escritores, os indignados e os resignados. O também mexicano Juan Rulf, autor prodigioso replicou de forma definitiva: na verdade, existiam os indignados e os indignos.

O vencedor do prêmio Camões de 2017, o paulista, descendente de libaneses, Raduan Nassar, aos 81 anos, revelou-se, no discurso ao receber o galardão, um gigante ao atacar veementemente as forças obscuras que tomaram o poder em nosso país, utilizando o agourento lema “ordem e progresso” (a maior prova disso é a indicação de Alexandre de Moraes, para o STF). Ele já mostrara uma estatura gigantesca, logo no primeiro livro, LAVOURA ARCAICA, uma das obras primas de todos os tempos na prosa de língua portuguesa. Ali, ele reinventava a história do filho pródigo, com resultados perturbadores, abalando os alicerces da tradição patriarcal. Aqui cabe o clichê: se não tivesse publicado mais nada, Nassar, ainda assim, seria um dos maiores escritores do século 20.

Dois anos depois, ele publicou uma das mais mortíferas paródias do machismo, UM COPO DE CÓLERA, qual pertence o trecho seguinte: “E eu já vinha voltando daquele terreno baldio. Quando notei que ela e dona Mariana, nessa altura, estavam de conversinha… a claridade do dia lhe devolvendo com rapidez a desenvoltura de femeazinha emancipada…ela não só tinha forjado na caseira uma plateia, mas me aguardava também com um arzinho sensacional que era de esbofeteá-la assim de cara, e como se isso não bastasse, ela ainda foi me dizendo ‘não é para tanto, mocinho’”.

         O clichê acima mencionado acabou sendo ironicamente premonitório: Nassar desistiu da literatura, dizendo que era uma etapa ultrapassada.

E, uma coincidência curiosa, o outro “indignado”, Juan Rulf só publicou dois livros, o maior romance hispano-americano, PEDRO PÁRAMO e os contos de PLANALTO EM CHAMAS (os dois publicaram alguns textos e esparsos ao longo dos anos). Mas ambos continuaram a representar a luta contra os indignos, dentro ou fora do mundo literário. Além dos livros de Raduan Nassar, atualmente publicados pela Companhia das Letras, recomendo o volume dedicado a ele pelos “Cadernos de Literatura Brasileira”, organizado pelo Instituto Moreira Salles.

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