MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/06/2010

Um verdadeiro exercício de paródia

“Desentender-se, entre o povo dos urubus, já disse, é uma atividade insistente, contínua e caprichosa. O que se deu, contudo, nos baixios infectos, foi estertor de carne viva e o sangue da veia aorta.  Nem queiram saber, os urubus, quando dispostos a dilacerar no bico a carne de seus pares… Só para se ter uma fraca idéia, o urubu é mais agressivo com os de sua espécie—tendo como vítimas preferenciais os seus irmãos doentes ou morituros—do que qualquer outro animal que sobre a Terra ande ou voe. Odeia-se, entre si, persistente, quase macabro, o povo dos urubus… Mesmo sem razão alguma, o ódio dos urubus a seus iguais é alarmante.”

 

Longe de ter a repercussão da morte de José Saramago, o assassinato de Wilson Bueno em 31 de maio[1] causou certa  comoção nos meios literários nacionais, pois  o escritor paranaense (nascido em 1949) era tido como um dos inovadores da nossa ficção das últimas décadas, principalmente por causa do livro Mar Paraguayo no qual mistura português, espanhol e guarani.

Uma das obras mais recentes de Bueno foi o espantoso A Copista de Kafka (publicado em 2007, pela Planeta), no qual ele imagina Felice Bauer, aquela mesma do irrealizado noivado de Franz Kafka (1883-1924), no seu projeto sempre procrastinado de casar-se e libertar-se do jugo familiar (como ficamos conhecendo no magistral ensaio de Elias Canetti, O Outro Processo de Kafka), escrevendo um diário no qual conta como o conheceu e passou a fazer cópias dos seus manuscritos, recebendo alguns que não eram do conhecimento nem do melhor amigo e executor literário, Max Brod (responsável pela preservação das obras kafkianas, contrariando o desejo expresso do autor; no livro de Bueno, julgando que Brod irá efetivar a vontade do amigo, Felice destrói os textos que recebera; assim como em Kafka e a boneca viajante, de Jordi Sierra i Fabra, temos mais uma hipótese de manuscritos desgarrados do grande escritor tcheco).

O diário de Felice aparece em quatro etapas, percorrendo o espectro temporal de 1912 a 1925 (um ano após a morte do “noivo”, que rompera o noivado há muito tempo, embora o diário não registre o fato), em A Copista de Kafka. Permeando-as, temos 27 textos (divididos em três grupos de nove) que se dividem entre relatos fantásticos, parábolas e aforismos, sempre recheados por um peculiar bestiário. É desconcertante  a ambição de Wilson  Bueno: ele cria textos não só no espírito, mas principalmente na letra da lei kafkiana, imitando seus modos e técnicas, tais como encontramos especialmente nas Narrativas do Espólio, mas também em livros como Contemplação, Um médico rural, Um artista da fome.

Pode-se ou não gostar de A Copista de Kafka, mas ele é um raro exemplar do que é realmente  paródia: uma imitação a sério, e não um pastiche, que é o comumente praticado na pós-modernidade. E por vezes ele consegue realmente evocar aquela coisa inquietante e avassaladora, como se um vento gelado nos perpassasse, dos textos curtos do autor de O processo, que talvez sejam a sua maior realização (e certamente são a maior realização literária do século passado, ler as Narrativas do Espólio e A construção é chegar aos confins da literatura).

Há alguns textos meio forçados (principalmente): por exemplo, no primeiro bloco,  Zbwsk, sem chegar a ser um texto fraco, parece um decalque—talentoso decerto—mais  do que uma criação legítima, do universo kafkiano; entretanto, gostei muito de As mãos, onde, no consultório de um dentista,  o narrador relata que o cliente sentado ao lado põe a mão dele sobre a sua. Dessa situação (que nada tem de erótica, veja-se o trecho seguinte: “…ameacei apanhar uma revista na mesinha do centro, o que, claro, eu deveria fazê-lo com a mão que o homem premia contra o meu próprio joelho, momento em que sofri a trágica consciência de que a protuberância, fosse o que fosse, tinha desaparecido e o que eu tocava era, acreditem, arrepiante… o que a palma de minha mão apertava era o puro osso do fêmur, esqueletizado, no exato interstício do joelho, esse engenho admirável…”), decorrem páginas admiráveis; e de “O vizinho”, que não fica nada a dever às mais climáticas criações do autor de O veredicto: ‘… em mim a melancolia dói como a uma espécie de degradação espiritual. Não há elegância nem nenhum encanto no sentimento movediço, que me desmobiliza a princípio como se fosse um leve roçar de folhas no coração até erigir  sobre o mesmo uma coroa gelada—de suplício, penúria e comiseração…”

No segundo bloco, há o aterrador O povo dos urubus (vide epígrafe) e adorei O gato de cinco patas, que faz justamente um jogo de gato-e-rato com o leitor incauto: “Há de perguntar o leitor: onde está o gato de cinco patas e a arca de ferro? E então terei me realizado por completo ante a vã curiosidade e o lascivo enfado que vos anima saber o final desta história-armadilha: gato de cinco patas, desprevenido leitor, é coisa que não existe nem nunca existiu”. O liricamente patético “Lindonéia, a bailarina” evoca Josefina, a cantora, um dos derradeiros e mais extraordinários textos kafkianos,na sua mistura de ridículo, grotesco e no entanto de afirmação de uma fome de beleza que transcende tudo: “Que aulas de dança, que nada, ou outro modo de ensino que aula não fosse, se a maior lição é a do vôo-audacioso ou temerário?”

No terceiro bloco, além de O insulado[2], que lembra o argumento de um filme expressionista (“A desconfiança que tenho às mulheres ao é somente uma coisa atávica; tem, também, muito de religioso. Cedo aprendi que eram capazes de levar um homem à loucura… Por isso, digo de novo, eu sou o insulado, em permanente exílio, e toda vez que saio do meu círculo é porque o desejo foi maior que eu ou porque a raiva sobrepujou-me. Então é que as procuro—qualquer um entende por quê e para quê…”), temos Carta ao senhor M.K ou O corcunda, que parece mesmo ter saído da pena de Kafka (“Agora, contudo, nada me liga a nada. Da janela da enfermaria se insinua, ainda, o sol, muito embora já passe das sete da noite. É o verão em nossa cidade, senhor M.K. Faz esse calor aqui, já vos disse, faz bastante calor aqui, senhor M.K. … acho, depois desta missiva, passe a vigorar uma nova força em mim e então não terei mais, não terei mais, juro, pena de vós. Hoje, meu caro senhor, percebo, sem pânico nem desesperança, uma coisa exata: quem desce as escadas, agora, e claudica por corredores sabendo a iodo, de um andar para outro, quem desce com extrema dificuldade as escadas agora, senhor M.K,sou eu…”) e os textos vão se aproximando cada vez mais do escritor como personagem de si mesmo, como os notáveis Um leitor de salão e Uma alegoria doméstica, no qual Franz quebra sem querer uma xícara sacralizada pela tradição familiar, para fúria do pai.

No final da travessia, sentimos que passamos por uma experiência quase mediúnica. Um feito impressionante de um autor que deixará saudade.

resenha publicada originalmente em “A Tribuna” em 29 de junho de 2010

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/11/26/como-chegar-ao-castelo/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/25/fascinio-de-kafka-nao-se-esgota/

https://armonte.wordpress.com/2009/12/14/o-processo-e-a-peste-a-culpa-e-a-inocencia-da-humanidade/

https://armonte.wordpress.com/2012/11/25/o-terror-nas-dobras-do-pastelao-o-desaparecido-de-kafka/

https://armonte.wordpress.com/2010/04/07/a-morte-do-caixeiro-viajante/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/25/o-amor-complicado-dos-marxistas-por-um-cinefilo/

https://armonte.wordpress.com/2010/06/27/toy-story-as-exigencias-da-infancia/

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[1] Ele foi morto a facadas supostamente pelo michê  Cleverson Petreceli Schmitt, a quem conheceu  numa sauna. Ou seja, no final das contas, o escritor inventivo é vítima de um clichê.

nota sobre a nota– Meu amigo Nilton Resende não gostou do teor dessa nota: “escrevo para sugerir uma coisa: retirar a nota em que você fala de como foi um clichê a morte do autor inventivo, isso pode soar cruel, saca? meio insensível; é clichê sim e todos sabemos que é, porque sempre há notícias sobre essas mortes, e todos têm de estar atentos para não ser personagem de mais uma narrativa desse teor,
no entanto,
é clichê e não é clichê, porque toda morte é novidadeira. principalmente para os familiares, amigos,
e ao mesmo tempo, toda morte é clichê.”

  Minha resposta a esse justíssimo comentário:

“Caro Nilton, acho que o problema da minha nota foi o de ser mal escrita. Na verdade, eu queria dizer que, com morte desse tipo, que traz à tona preconceitos e estereótipos, um cara como Wilson Bueno nunca mais vai ser visto como um autor talentoso e inventivo que foi morto estupidamente, mas como mais uma bicha que procurou a morte, que abriu a porta para o perigo, pois é o estilo de vida gay, etc etc, e por isso todo mundo acha tão `bonito` que os gays hoje em dia casem em cerimônias formais , que formem casais estáveis, que adotem filhos, ou seja, que fiquem iguais a todo mundo… E todo o exercicio de liberdade e disponibilidade ainda possível na ´condição´ gay, por assim dizer, se esvazia.
   Foi essa a intenção por detrás da minha nota. Mas acho que não funcionou.”
 

[2] Estou deixando de lado textos “divertidos” para ficar nos mais obviamente chamativos. Mas gostaria de chamar atenção aqui para Adestramento da mulher-tigre do circo Excelsior, por exemplo,ou a parábola da preguiçosa. A copista de Kafka é um livro para se voltar, não adianta querer esgotá-lo aqui, de pronto.

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27/06/2010

TOY STORY: As exigências da infância

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de julho de 2010)

Achei tocante e delicada a idéia de KAFKA E A BONECA VIAJANTE  (Kafka y la muñeca viajera, 2006, traduzido no Brasil por Rubia Prates Goldoni para a Martins), do espanhol Jordi Sierra i Fabra: ele se inspirou numa anedota da vida de Kafka contada por sua última amante, Dora Dyamant, segundo a qual, tendo encontrado uma menininha desconsolada por ter perdido sua boneca num parque, ele começou a escrever cartas (as quais  entregava, adotando a identidade de “carteiro de bonecas”) que seriam da boneca desaparecida, com relatos de suas viagens.

Nunca foram encontradas tais cartas, nunca se soube da identidade da menina ou da veracidade do incidente, ou seja, é mais um daqueles “enigmas” e caça a textos perdidos que comprazem os especialistas e os obcecados e criam uma aura em torno dos grandes autores.

Pois Sierra i Fabra resolveu recriar ficcionalmente todo o incidente, narrando-o num romance infanto-juvenil: ele começa de maneira muito adequada e pertinente, mostrando a solidão de Kafka e sua fome de vida, de alegria, de coisas espontâneas e descomplicadas (“Quando a vida floresce, tudo são janelas e portas abertas”). Está morando em Berlim com Dora (1923), sua tuberculose agravou-se, ele está perto da morte, e adora perambular, pelas manhãs, no parque Steglitz, com sua figura magra e cavalheiresca (“Tinha quarenta anos, portanto era um velho para a menina. E, com sua saúde frágil,talvez fosse mesmo. Como não seria um velho precoce alguém que já está afastado do mundo e aposentado  havia um ano devido à tuberculose…”). Numa manhã, ele encontra a pequena Elsi debulhada em lágrimas devido ao desaparecimento de Brígida, sua boneca de estimação.

Uma das coisas mais bonitas do texto é a reação do adulto diante do desamparo infantil (“Por que a dor infantil é tão poderosa?”). Por isso, desorientado e perplexo diante desse sorvedouro emocional, Kafka diz a menina que a boneca não se perdeu, que ela “viajou”, e que ela receberá no dia seguinte uma carta explicando tudo, criando um tumulto de expectativa, uma fenda na realidade prosaica: “Por nada neste mundo, por mais criança que fosse, ela esqueceria a carta. Chegaria em casa e passaria o resto do dia pensando nela. Almoçaria, jantaria e iria dormir se tirá-la da cabeça. Não havia mais nada.  Sem Brígida, só lhe restava a carta. Um pequeno grande mundo. Franz Kafka tinha certeza de que pela manhã ela acordaria e faria tudo o que devia, brincar, estudar, ir à escola ou qualquer outra coisa a que estivesse acostumada, mas, quando chegasse a hora, correria até o parque Steglitz à sua procura…”

E ele se entrega febrilmente, assim como em todos os seus projetos de escrita, a compor a carta em que Brígida se explica. Ela é um sucesso. A pequena Elsi “viaja” com sua boneca e então fica à espera de mais, e mais. E aí Kafka se vê enredado por uma menina-sultão que lhe exige o sherazadiano ofício de dar conta do destino da sua boneca viajante. A voracidade do mundo infantil, as exigências do maravilhamento infantil às quais estamos tão pouco equipados a corresponder (“De quantas cartas Elsi precisaria para ser feliz? E Brigida, de quantas para se libertar?”; “A menina nunca perguntava nada sobre ele. Que importava? Os pequenos imaginam que a vida alheia é como sua própria vida. O essencial para ela eram as cartas”; “Elsi nunca  se cansaria. Brígida era sua boneca, e cada carta era um maravilhoso jogo e a possibilidade de continuar a seu lado, unidas, compartilhando os dias felizes de sua existência. O final não viria por conta dela, mas dele mesmo”).

Assim, a cada noite ele se vê obrigado a prolongar a viagem de Brígida pelos mais diversos continentes (“No mundo das bonecas não existiam fronteiras, nem raças, nem problemas com as diversas línguas”), deixando sua própria e agônica obra interrompida, à espera, até que o impasse se resolva.

É uma bela idéia, como já afirmei antes, e gostei muito do livro, mas me permitam esse travo de insatisfação: não deixa de ser decepcionante Sierra i Fabra não ter mergulhado a fundo na ficção kafkiana da boneca, e ter dado vida às cartas, às viagens de Brígida. Senti falta disso o tempo todo da leitura: tudo é muito bem armado, o encontro de Kafka com Elsi, as semanas em que ele lhe entrega as cartas, a descrição do relacionamento dele com Dora, a caracterização de uma Berlim pós-guerra (e rumo a outra). O que faz falta é Brígida, no fundo ela continua desaparecida na narrativa, pois o autor nos mostra a “descrição” das suas aventuras, pouco se aventura em imaginar  as próprias cartas, ou deixar que elas conduzam a narrativa geral.

Apontada esta limitação, mesmo assim KAFKA E A BONECA VIAJANTE é um texto digno de nota, e com uma proposta aliciadora.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/11/26/como-chegar-ao-castelo/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/25/fascinio-de-kafka-nao-se-esgota/

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https://armonte.wordpress.com/2012/11/25/o-terror-nas-dobras-do-pastelao-o-desaparecido-de-kafka/

https://armonte.wordpress.com/2010/04/07/a-morte-do-caixeiro-viajante/

https://armonte.wordpress.com/2010/06/29/um-verdadeiro-exercicio-de-parodia/

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04/06/2010

VICENTE DE CARVALHO

Resenha publicada em ” A Tribuna”, de Santos,  de forma ligeiramente condensada em 10 de maio de 2008

   Poemas e Canções alcança o centenário agora em 2008 como obra difícil de encontrar: para conhecer a produção de Vicente de Carvalho (1866-1924), o leitor comum tem como opção acessível a seleção feita por Cláudio Murilo Leal para a Global, onde, entre versos ligeiros e “graciosos”, metrificados com uma “naturalidade” que, por um lado, pressagia a miraculosa obra de Manuel Bandeira e sua inacreditável simplicidade em meio a uma lírica afeita ao preciosismo lexical e a uma sintaxe arrevezada e, por outro, parece “fácil”, preguiçosa demais, deparamos com os seguintes trechos, pertencentes a De manhã:

“… Ver é o supremo bem.

                   Surpreendo-me a cismar

Se a alma será, talvez, uma função do olhar…

É com os olhos que eu sinto, e compreendo –ou suponho.

//

A vida é para mim como a névoa de um sonho

—Névoa confusa de um sonho material

A que somente o olhar, de certo modo, e mal,

Dá, com as formas e a cor, expressão e sentido…

//

…Sei que um beijo de amante é uma bem doce coisa:

Mas no encanto do beijo esfaimado de amor

Há muito da visão rósea de um lábio em flor.

Ao contato da mão, ou num lírio, ou num verme,

É a sugestão do olhar que domina a epiderme…

//

…No que o ouvido escuta —é o olhar que traduz:

Para a imaginação do homem órfão da luz

Que exprimiria o som —canto, sussurro, grito,

Ribombo de trovão rolando no infinito…

//

…Nunca tivesse o olhar humano convivido

Com a natureza; nunca houvesse o homem subido,

Pelos olhos, suave escada de Jacó,

Da Terra e de si mesmo, isto é, de lama e pó,

Para a resplandecência astral e inacessível

Do céu…

//

…Desconheces a luz que revela a beleza,

A luz, que espiritualiza a Natureza,

Que, num foco fugaz de espuma sem valor,

Cria a mais deslumbrante apoteose da cor;

Não aprendesse, amando a luz fecunda, o forte

Horror da sombra, horror do vácuo, horror da morte.

//

Encerrado em si mesmo e chumbado no chão,

Insulado na funda, imensa solidão

Que em derredor do cego a cegueira dilata;

O homem, órfão da luz, na Terra estreita e chata,

Quase só conhecendo o Universo —através

Do pedaço de solo em que pousasse os pés,

//

Dentro da escuridão de su´alma vazia

Que humilde sonho de molusco sonharia?”

– 

   Esqueçamos os banais “beijo de amante”, “esfaimado de amor” e “visão rósea de um lábio em flor”. São poluentes agregados espuriamente à espuma das vagas dessa surpreendente e lúcida poética do olhar. É uma pena que esse exercício seja tão raro numa obra em que o dinamismo do verso e da rítmica poderia obedecer a um critério fenomenológico menos atrelado àquela “sensibilidade” que se espera do poeta, evitando a pobreza das seguintes anotações sobre a natureza:

“Vai branca e fugidia,

A nuvem pelo ar:

Roça de leve a lua,

Embebe-se em luar

//

E toda resplandece

No brilho do luar,

Mas pouco a pouco passa

E perde-se no ar…”

    E vai ficando pior, pelo entrecho sentimental:

“Minha alma na tua alma

—Nuvem que trouxe o vento—

Passou por um instante,

Roçou por um momento…

//

…Eu refleti apenas

Um brilho que era teu;

Passei, e tu ficaste,

Ficou contigo o céu.”

    E as célebres Cantigas Praianas  vão na mesma toada de lirismo trivial e fácil, “natural”, com uma “natureza” que parece feita de palavras cristalizadas em puros rochedos de clichês:

“Ouves acaso quando entardece

Vago murmúrio que vem do mar,

Vago murmúrio que mais parece

         Voz de uma prece

         Morrendo no ar?

//

Beijando a areia, batendo as fráguas,

Choram as ondas; choram em vão:

O inútil choro das tristes águas

         Enche de mágoas

         A solidão…”

         Vicente de Carvalho foi vítima da sua época, aquele período indeterminado, quase invertebrado, entre o Parnasianismo-Simbolismo e o Modernismo, etiquetado como o Pré-Modernismo. Ele escapou dos piores defeitos que assolam até a (grande) poesia de Olavo Bilac, aquele pedantismo horroroso, aqueles temas clássicos coligidos com informações de almanaque; como Afonso Schmidt, porém, nunca logrou uma voz poética inteiramente sua e parece ter se debatido entre destroços de tradições poéticas e vagas correntes intuitivas de uma “outra poesia”, que por vezes perpassa o seu lirismo e o faz surfar sobre águas menos rasas. Ele prova isso nos melhores trechos do seu A arte de amar, nas anotações sobre a natureza com uma clivagem mais irreverente, como nas Fantasias do luar (“O conjunto descosido/Da paisagem// A apagada fantasia/ Do colorido—parece /De um pintor que padecesse/ De miopia// Tudo, tudo quanto existe/ Extravaga, e se afigura/ Tomado de uma loucura/ Mansa e triste.”) ou no conceito freudiano de felicidade que aparece em Velho Tema:

“Essa felicidade que supomos

Árvore milagrosa que sonhamos

Toda arreada de dourados pomos,

//

Existe, sim: mas nós não a alcançamos

Porque está sempre apenas onde a pomos

E nunca a pomos onde nós estamos

    E dessa forma o melhor Vicente de Carvalho escapa ao moribundo “lirismo de crepúsculo” que inunda versos como:

“Tudo amortece; a tudo invade

Uma fadiga, um desconforto…

Como a infeliz serenidade

Do embaciado olhar de um morto.”

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