MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/07/2018

SOBRE UMA LEITURA INTERROMPIDA

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 03 de julho de 2018)

Durante muito tempo, mantive um compromisso comigo mesmo: ler um livro até o fim, por pior que fosse. Mas não consegui prosseguir com o horroroso “E SE DEUS FOR UM DE NÓS? ”, de Tadeu Sarmento. Parei na página 231 (cumprimento quem chegou até a página 384).

Há livros que comecei com pé atrás, temendo o besteirol, caso de “F” de Antônio Xerxenesky, e de “Digam a Satã que o recado foi entendido” de Daniel Pellizzari. Ambos se revelaram belos romances. Já no caso de “E SE DEUS FOR UM DE NÓS? ”, iniciei a leitura com a maior boa vontade. O título é lindo e Sarmento escreveu um relato intrigante, “Associação Robert Walser para sósias anônimos”, porém nada me preparou para o festival de abobrinhas de uma trama envolvendo o assassinato de ruivas virgens.

Uma ruiva virgem não assassinada foge da Irlanda para o Brasil o que seu pai fez um poema colocando-a como símbolo da restauração do IRA (Exército Republicano Irlandês, grupo terrorista que lutava pela independência com relação ao Reino Unido) mas a cada página surge novos personagens, cada um com um histórico bizarro e estapafúrdio. Pior ainda, sub tramas sem graça e irritantes.

A literatura brasileira atual vive um excelente momento, e não lembro de, nos últimos anos, de ter lido uma obra tão ruim, com a possível exceção de “Desde que o Samba é Samba”, de Paulo Lins.

Ruivo por ruivo prefiro reler “O Escaravelho do Diabo”, de Lucia Machado de Almeida, onde havia também assassinatos de ruivos, mas não virgens. Foi uma leitura fundamental da minha meninice.  Quanto a “E SE DEUS FOR UM DE NÓS?”, tenho uma doença grave e não tenho mais tempo e disposição para ler besteiras. Desfaço meu compromisso. Não sou caçamba de disque entulho.

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05/06/2018

UM ROMANCE ANACRÔNICO

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 05 de junho de 2018)

A coletânea “Insolitudes” foi uma excelente estreia do cearense Tiago Feijó. Como de costume, em seu segundo livro “DIÁRIO DA CASA ARRUINADA”, passou do conto ao romance.

Quim escreve um diário a partir da decisão de largar o fumo. Seu casamento está em crise (Madalena, a esposa, diz que “não está mais feliz”) e há um estranho desencontro com o pai, que parece evitá-lo.

Tiago Feijó se alinha aos romances intimistas, muito comuns no século passado, como “Marcoré” de Antonio Olavo Pereira, ou “Jazigo dos Vivos”, de Geraldo França de Lima, em especial aqueles que, seguindo a tradição de “Dom Casmurro”, mantêm o narrador imantado pelo ciúme e ressentimento com relação à amada, caso de “São Bernardo”, de Graciliano Ramos.

O problema de “DIÁRIO DA CASA ARRUINADA” é que estamos no século 21 e Feijó não acrescenta nada a essa vertente. Pior ainda: ele poderia ter escrito nos anos 30 que não faria diferença, e isto não é um elogio. “DIÁRIO DA CASA ARRUINADA” é anacrônico e defasado. Uma pena, quando pensamos na qualidade da linguagem do autor: “A verdade, eu que tanto a exigi nestes dias, que tanto a escrevi nestas linhas, que a clamei como um cego, agora a tinha ali, à minha vista, despida inteira, e cego não podia continuar a ser. Olhei o homem ao meu lado, agora espojado no chão, dormia na paz dos que dormem sozinhos. ‘…Selene…’. Ao pensar em Selene saí correndo dali, aos tropeços e aos boléus, ganhando as ruas em desespero, a plenos pulmões, engasgando lágrimas no descompasso da respiração. ‘… há-há-há-há…’. Talvez eu buscasse um lugar no mundo que me recolocasse na paz. ‘…meu pai… meu pai…’. Corri, corri, ruas e ruas, até exaurir a força do meu fôlego. Exausto, cedendo a essa dor espessa, desabei de joelhos numa poça imunda e nela encontrei meu reflexo transtornado, os olhos gordos de desesperação, desfigurados de desprezo. ‘…até onde um homem é capaz de chegar?…’”.

Em tempo: Selene é filha de Quim e Madalena.

22/05/2018

FALTOU RELEVÂNCIA A UM RELATO CUIDADOSO

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 22 de maio de 2018)

Uma família quatrocentona falida cujo casarão foi revitalizado por um banco como fundação cultural (eles vivem nos antigos quartos dos criados), reúne-se para ouvir o relato, escrito em 1667, do fundador do clã.  Descobrem que surgiram de uma impostura: o antepassado roubou a identidade de outro homem.

“RELATO DAS VENTURAS, CONFISSÕES E ARREPENDIMENTOS DO SR. JOÃO DOS MATOS E SUAS NEFASTAS CONSEQUÊNCIAS”, de Rosangela Petta, divide-se em três planos: em 1617, Salvador Amaro desembarca como degredado em São Vicente e sofre mil desventuras até conhecer o homem cuja identidade usurpará. É uma narrativa em terceira pessoa; 50 anos depois, faz um exame de consciência em primeira pessoa; por fim, em 2017, em terceira pessoa, a família descobre a verdade.

Infelizmente apesar do cuidado com a linguagem de época e de ser gostoso de ler, “RELATO DAS VENTURAS, CONFISSÕES E ARREPENDIMENTOS DO SR. JOÃO DOS MATOS E SUAS NEFASTAS CONSEQUÊNCIAS” é um romance irrelevante. Não apresenta nenhum personagem ou cena marcantes, e desperdiça o material histórico que supostamente lhe daria sustentação.

Há até passagens piegas: “Higino, perto da janela, olhava a Rua Almirante Marques Leão. Na calçada oposta, em frente ao casarão-museu, um cubo de papelão cobria um colchão de espuma, de onde escapava um par de pés descalços e imundos: ali dormia um sobrevivente. Eram pés de quem não sabe o que vai ser amanhã. Podiam ser de João de Matos, dos gentios do século XVII. Ou os de Salvador Amaro, que desceram no batel, pisaram na restinga, entraram no rio gelado, fugiram das flechas… O homem debaixo do cubo de papelão não sabe que dorme em paz: ele não tem que se preocupar, não tem que decidir nada agora nem nunca apenas sobreviver”.

 

 

22/08/2017

“Oito do Sete”, um romance invertebrado

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 22 de agosto de 2017)

“Eu estava ali como a sombra da normalidade comedida, eu era um não à rebeldia, um sim ao sacrifício, digna da piedade dos caretas. Gasta e suja, eu queria ter na sola do sapato a terra do continente pisado, absorver magmas alheios, reconstruída como austera e ariana, respeitável milady”. Este é um trecho do “OITO DO SETE”, primeiro romance de Cristina Judar, a qual me impressionou fortemente com os contos de “Roteiros para uma vida curta”, ao narrar as sensações físicas e mentais de suas personagens.

No clássico “Quarteto de Alexandria”, de Lawrence Durrel, acompanhávamos as relações amorosas e as repercussões de um grupo de personagens, uns sobre os outros, tendo como ponto de fuga a cidade de Alexandria, que era quase uma outra personagem. Em “OITO DO SETE, temos as ligações homoafetivas entre casais (Magda, Glória, Jonas e Rick) que chegam ao sexo grupal, filtradas em quatro perspectivas, a de Magda, a de Glória, a de Serafim (uma espécie de anjo exterminador) e a da cidade de Roma (outra cidade mítica).

Mas dessa vez a linguagem epidérmica de Cristina Judar não funcionou. Não nos interessamos pelos personagens e a narração é aborrecida. “Eu tenho sim visões de outros tempos, sensações antigas, o que ninguém mais teve nem nunca terá. Das vantagens dessa minha formação chamada de ser. Das vantagens dessa minha aglomeração classificada entre urbe e vilarejo. Vivo de desgostos, entre barro e tecnologias”. De fato. “OITO DO SETE é um romance invertebrado.

15/08/2017

Antonio Cícero, O Novo “Imortal”

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 15 de agosto de 2017)

O meu leitor sabe que desprezo a Academia Brasileira de Letras e as indicações geralmente confirmam esse sentimento, caso do mais novo imortal, Antonio Cícero, bom letrista, mas mau poeta e pífio filosofo.

Temos um misto de helenismo, hedonismo e homoerotismo, ou seja, referências à cultura greco-romana clássica (“Vai e diz ao rei/ cai a casa magnífica/ O santuário de apolo/ fenece o louro sagrado”) e uma procura do prazer, do corpo masculino bonito, do momento perfeito em que esse corpo se insere numa paisagem, num instante de beleza.

Antonio Cícero está para Konstantinos Kaváfis como o chup-chup para o sorvete. Temos de aguentar elegias para surfistas, hinos às furtivas caçadas gays em parques e aborrecidas alusões clássicas. Logo no início ele avisa: “Jamais regressarei à Esparta”. Esse tom solene logo é substituído pela necessidade estridente de exaltar o corpo masculino da forma mais ávida, óbvia, servil e constrangedora possível: “Hesitante entre o mar ou a mulher/ a natureza o fez rapaz bonito/rapaz/ pronto para armar e zarpar”; ou então: “Dormes/Belo/ Eu não, eu velo/Enquanto voas ou velejas/ E inocente exerces teu império/ Amo: o que é que tu desejas/ Pois sou a noite, somos/Eu poeta, tu proeza/ E de repente exclamo/Tanto mistério é/Tanta beleza”. E o leitor exclama: quanta abobrinha!

E o leitor exclama isso porque ainda está na página 53 e não viu o que tem pela frente. Ele ainda não chegou a um poema chamado “Onda”, onde se fala de um garoto conhecido no Arpoador, “garoto versátil, gostoso/ ladrão, desencaminhador/ de sonhos, ninfas e rapsodos”. E o que o nosso poeta/rapsodo faz? Segura o tchan? Não: “Comprei-lhe um picolé de manga”. Não é lindo, não é bucólico? Mas ele é recompensado: “…e deu-me um beijo de língua/ e mergulhei ali à flor/ da onda, bêbado de amor”. E ainda estamos apenas na página 57.

Há, é claro, poemas onde se fala do ser, da poesia, do tempo, não se fique com a impressão de que ele só pensa naquilo, porém por que será que sentimos que eles são só embromação para o tema principal?

Depois do picolé do garoto versátil, chegamos ao verdadeiro banana split que é o poema “Eco”: “A pele salgada daquele surfista/parece doce de leite condensado”. Não é lírica essa conjunção agridoce de pele salgada com doce de leite condensado?

Os cicerólogos do mundo da cabeça oca terão muitos símbolos fálicos a desvendar: picolés de manga, pranchas em riste, embora o poeta não perca tempo em sutilezas: “O amante/ Cabeça tronco membro/Eretos para o amado/ Não o decifra um só instante…/ Já o amado/Por mais ignorante e indiferente/Decifra o seu amante/De trás pra frente”. Ao leitor comum restará a saudade de uma letra tão bonita como o “Menino do Rio”, de Caetano Veloso.

Kaváfis também cultuava o fálico. Ele tem um conselho a si mesmo que poderia ser útil a Antonio Cícero: “Esforça-te, poeta, para retê-las todas/embora sejam poucas as que se detêm/ As fantasias do teu erotismo/ Põe-nas, semi-ocultas, em meio às tuas frases/ Esforça-te, poeta, por guardá-las todas/ quando surgirem no teu cérebro, de noite/ ou no fulgor do meio-dia se mostrarem”…

 

15/11/2016

Desencontro no espelho entre autor e personagem: “O Marechal de Costas”, José Luiz Passos

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de novembro de 2016)

“O vigor da alma macerada pela dúvida, ou insuflada pelo arroubo da imagem pública, quase sempre arremata o fado desses protagonistas que pelejam consigo, fazendo do amor-próprio a companhia constante de um segundo eu, um que não raro é infiel e inimigo. O resultado é que todos eles temem o espelho; e os que encontram conforto nele, nos deixam intuir a ironia que se lhes impõe sob a máscara nem sempre confortadora de um autoengano engenhosamente sutil. ” (José Luiz Passos, “Machado de Assis: o romance com pessoas”, 2007)

“Emarame. Ato de ir e vir ao mesmo tempo, também o duplo, o indissolúvel movimento, ante o espelho, de um corpo refletido em seu cristal, desde que ambos, corpo e reflexo, sejam contemplados por alguém. Silvino era, na realidade, um enérgico utopista”. (José Luiz Passos: O MARECHAL DE COSTAS)

Na ordem do dia, temos mais um vice que se torna o presidente do país, em pleno mandato do titular; temos o resgate do indicioso “ordem e progresso” como lema do governo; temos um impasse com relação aos caminhos da república. José Luiz Passos, em O MARECHAL DE COSTAS (Editora Alfaguara), resgata a figura do primeiro vice alçado a presidente, com a renúncia prematura do Marechal Deodoro, o qual proclamou a república em 15 de novembro de 1889.

Era uma oportunidade de ouro para o autor do admirável “O Sonambulo Amador” de fazer um paralelo entre os primórdios republicanos e o nosso tumultuado cenário político. Infelizmente, ele optou por deixar óbvia as similaridades entre os períodos, colocando segmentos da época contemporânea (abordando as manifestações contra o governo de Dilma Roussef, até o impeachment), alternando-se com a exploração biográfica da vida de Floriano. Esse recurso narrativo simplesmente não funciona e desfibra o romance, divido em cinco partes.

Nas duas partes iniciais, o leitor desfruta de um dos encantos da refinada prosa de Passos, a formação da imaginação moral de um personagem. Floriano é fisgado pelo mito napoleônico (como tantos jovens de sua época), tem uma rígida formação militar positivista, luta na guerra contra o Paraguai; ao mesmo tempo, é obcecado por vaginas, mantendo uma caderneta com desenhos de várias formas do órgão sexual feminino.

Nas partes seguintes, o encanto se desfaz, os segmentos digressivos se multiplicam; e, quanto à vida de Floriano, já presidente, sucumbi a resumos de fatos históricos, sem nenhum traço autoral mais relevante; pelo contrário, parece mais um hábil apanhado acadêmico, que não nos ajuda a compreender melhor a figura do Marechal de Ferro. Embora trace o apurado perfil de Dom Pedro II, é de pasmar que Passos, profundo conhecedor da obra de Joaquim Nabuco, faça dele uma figura tão inexpressiva, comentando os acontecimentos do governo florianista (a revolta da armada, por exemplo) de forma tão superficial, perdendo a chance de confrontar personagens históricos fascinantes.

Mas, realmente decepcionante é a parte atual, onde uma suposta bisneta de Floriano trabalha como cozinheira de uma família abastada no Rio de Janeiro (vale lembrar, que Floriano era alagoano) todos os personagens ligados a ela são caricatos e rasos.

No final, temos páginas cintilantes num todo opaco. Mais do que de costas o Marechal é visto de longe, muito longe.

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12/12/2015

“A vida que às vezes nem parece ter sido a sua”: os rumos da ficção de Michel Laub

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[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de dezembro de 2015]

A Maçã Envenenada é a segunda parte de uma trilogia (iniciada com o excelente Diário da Queda, 2011[1]) sobre “os efeitos individuais de catástrofes históricas”, nas palavras do próprio Michel Laub, um autor fiel aos seus temas: no novo romance, assim como no anterior, ou em Longe da Água (2004), a narração evolui em volutas retomando  um ponto fortuito da juventude, que se revestiu, na dinâmica da trajetória de vida, como signo de desvio, de “queda”, cristalizando a irrevogabilidade do acaso e prefigurando um destino: são as passagens que «em quarenta anos de vida analisada» permanecem numa zona de sombras. Agregam-se a esse instante inflexivo as amizades e lealdades escorregadias e a reflexão geracional.

A Maçã Envenenada evoca, já pelo título (refere-se a um verso da canção Drain You), o lendário Nirvana, e aquela concepção romântica que a morte precoce de um artista carrega, de não conseguir lidar com a realidade corrompida[2]. Ao rememorar o suicídio de Kurt Cobain, revive também o namoro tumultuado com a intensa e destrutiva Valéria, à época do show do cantor e sua banda aqui no Brasil (a ida ao show é um elemento narrativo da maior importância, muito bem trabalhado). O gancho para esse recuo aos anos 1990 é a entrevista com uma sobrevivente daquele memorável genocídio em Ruanda, cuja vontade de viver mesmo tendo passado por horrores funciona como a sombra desse drama afinal tão burguês.

Equacionando Cobain, o primeiro amor, a sobrevivência, o talentoso autor gaúcho nos oferece suas “canções de inocência e experiência” contra um pano de fundo basicamente irônico, quando não cínico como foi o da geração sobre a qual se debruça. Quando canta a inocência, ou algo muito parecido com ela, apesar da contenção e parcimônia do narrador, o relato é incisivo. Faz falta um aprofundamento da “experiência” e a questão no seu bojo: «Uma pergunta que também era: por que eu não consigo agir de outro modo? ».

De fato, sempre elogiada por inserir na narrativa um veio ensaístico, esse é o ponto onde, conforme amadurece e requinta sua fabulação, a prosa laubiana se mostra mais frágil. Raramente sai da zona de conforto, da moldura que adotou como base, eximindo-se de aprofundar os temas perturbadores e dramáticos que suas histórias nos oferecem, contentando-se com afirmações genéricas e alusivas, o que me parece estranho numa obra onde as questões morais são importantes. Por exemplo, ao falar da sobrevivente de Ruanda: «Adianta esta mulher ter passado por uma experiência tão radical, Valéria, se ao término tudo o que ela faz é dar uma lição aguada de breguice…»[3]. Como ele não vai muito adiante na reflexão, fica parecendo a opinião fútil de alguém comodamente refestelado na sua melancolia pós-moderna. O que é injusto, claro, pois duvido que Laub seja tão superficial. O que ele, como autor, não pode, ou não deveria, é continuar mantendo a mesma parcimônia de seus personagens e suas meias-vidas («essa sensação quase absoluta, que às vezes me assustava porque é só estender a liberdade e de um instante para outro você não tem mais passado, nem sente falta de nada porque é como se nada tivesse acontecido, ou só as coisas que você escolheu, as lembranças boas e inofensivas, e nada do que você disse ou fez a uma pessoa tem consequências porque nunca mais precisará encontrá-la, nem pensar nela, nem imaginar e confrontar o que foi feito dela em outro tempo e outro continente numa vida que às vezes nem parece ter sido a sua»).

Quarenta anos de vida analisada já dão matéria para cantar também a pós-inocência. Tomara que a sua ficção se arroje nessa direção.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/08/24/as-cancoes-da-inocencia-e-da-experiencia-de-michel-laub-a-maca-envenenada/

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NOTAS

[1] VER: https://armonte.wordpress.com/2012/11/08/auschwitz-alzheimer-alcoolismo-amizade-e-quebrando-o-circulo-natalidade-diario-da-queda-de-michel-laub/

[2] «como ele incorporou o espírito de uma época esmagada pelo fim das utopias».

[3] Por exemplo, parar para pensar que, depois de uma experiência tão radical, talvez não tenha muita importância para Immaculée Ilibagiza expressar-se através de um discurso mais “refinado” e afinado com padrões estéticos “exigentes”. Talvez esses padrões sejam muito pequenos, acanhados, para ela, e tanto faz que os cultuadores dos padrões não bregas, a ouçam e lidem com ela com um respeito condescendente e envergonhado.

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27/10/2015

“Afogado no grande mar da informação”: a era da suspeita em NÚMERO ZERO, de Umberto Eco

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«__ Para você são suficientes todas essas coincidências?

__Mas não será essa sua tendência a ver conspiração por todo lado que faz você colocar tudo no mesmo saco?

__ Eu? Eu não, são autos judiciários que podem ser encontrados por quem souber procurar nos arquivos, mas deu-se um jeito para que eles escapulissem do público entre uma notícia e outra».

[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de outubro de 2015]

«Quando se entra num estado de suspeita não se deixa de lado mais indício algum». Essa frase do inesquecível O Pêndulo de Foucault (1988) poderia estar presente no mais recente Umberto Eco, Número Zero, grande sucesso de vendagem deste ano, no qual ele revisita—de forma mais enxuta—a atmosfera paranoica do seu segundo romance[1].

Ao invés de tramoias seculares ou pseudomísticas, remontando aos templários, a narrativa—localizada na Milão de 1992—concentra-se na esfera do jornalismo e da sua linguagem. Colonna, o protagonista, aceita a proposta de participar da criação de um veículo de imprensa “de laboratório”, por assim dizer, composto apenas por números zeros. A exploração das notícias passadas, sobretudo as ilações tiradas a partir delas, serviriam como arma, como instrumento de pressão e chantagem, para o investidor, o Comendador Vimercate, agindo por meio do cínico Simei. A certa altura das reuniões de pauta, ele afirma que «os jornais ensinam como se deve pensar». Questionado por Maia, uma das redatoras («Mas os jornais seguem as tendências ou as criam? »), responde: «As duas coisas, senhorita Fresia. As pessoas no início não sabem que tendências têm, depois nós lhes dizemos e elas percebem que as tinham…».[2]

Um dos colaboradores da empreitada, Braggadocio, aproxima-se de Colonna, confidenciando a ele uma acalentada teoria da conspiração: Mussolini não teria sido de fato executado após a vitória dos Aliados, e vários eventos políticos aparentemente desconectados formariam um mosaico da tentativa subterrânea de colocar o fascismo de novo no poder. Como acontecia em Pêndulo de Foucault, a exposição dessa enciclopédia de suspeitas e indícios é tão hiperbólica que ganha contornos bizarros e burlescos. Para contrabalançar esse tétrico (ao mesmo tempo divertido) umbral a uma realidade-impostura, temos Maia Fresia, a redatora que questionou Simei. Envolvendo-se com ela, Colonna será devolvido ao mundo do senso comum, com uma pontinha de excentricidade, para garantir o charme.

Embora eu não tenha entendido muito bem que progressão Eco queria exatamente imprimir ao seu livro, pois considero Número Zero um texto truncado, concluído de forma frustrante, o charme de Maia certamente é um de seus achados (aliás, por causa disso gostei tanto do capítulo 13, onde ela imagina uma seção de anúncios pessoais peculiar, que permite ler as entrelinhas dos dados pessoais auto-publicitários).

Outro achado (e uma promessa e tanto, afinal não cumprida) é que Braggadacio, para além das pistas e sinais de uma vasta conspiração, a qual desvela toda a desmoralização e corrupção da chamada “vida pública” (tão parecidas na Itália e no Brasil!), tem um tal apego a certa porção do passado (única estável e real de uma existência fantasmática), mesmo com ingredientes escusos, que acaba por aproximar o autor de O Nome da Rosa—nesse sentido tão próximo de seu compatriota Leonardo Sciascia—do universo do Nobel 2014, Patrick Modiano, cujos personagens também tentam evocar algo de permanente, que remanesça (“flores da ruína”), em meio a uma memória fuliginosa e dissolvente: «meu pai me acostumou a não acreditar nas notícias. Vivemos na mentira e, se você sabe que estão lhe mentindo, precisa viver desconfiado.  Eu desconfio, desconfio sempre. A única coisa verdadeira da qual posso dar testemunho é essa Milão de tantas décadas atrás»[3].

Em 207 páginas, 192 nos acenam com a soma de todos os dons de Eco; para, depois, mostrarem-se, se puder me valer de um dos clichês que ele deliciosamente reitera ao longo do romance (parodiando o mau jornalismo), “tempestade em copo d’água”. O furacão prometido torna-se mera tempestade tropical.

TRECHO SELECIONADO

«A questão é que os jornais não são feitos para divulgar, mas para encobrir as notícias. Ocorre o fato X, você não pode deixar de falar dele, mas cria problemas para gente demais, então no mesmo número você põe umas manchetes de arrepiar o cabelo, mãe degola os quatro filhos, a nossa poupança talvez vire pó, descoberta uma carta de insultos de Garibaldi a Nino Bixio e assim por diante, a sua notícia se afoga no grande mar da informação».

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NOTAS

[1] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2012/12/30/tratado-sobre-a-tolice-humana-o-pendulo-de-foucault-de-umberto-eco/

[2] Mas o relato de Colonna mostra também a limitação do alcance dessa dialética manipuladora, basta reparar no erro de previsão de  Simei com relação aos celulares, no nono capítulo.

[3] Todas as citações são da tradução de Ivone Benedetti (editora Record).

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14/07/2015

LEONARDO PADURA E O STALINISMO NARRATIVO: “O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS”

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«__ Gostaria de ser o Ramón que era há três anos, antes de começarem as mentiras. Gostaria de poder entrar amanhã naquela casa e dar cabo da vida de um traidor renegado, tendo a certeza de que o faria pela causa. Agora não sei onde começam a causa nem as mentiras.

__ A verdade e a mentira são muito relativas e, nesse trabalho que você e eu fazemos, não há fronteiras entre uma e outra[…] Que importam meia dúzia de mentiras se isso servir para salvar nossa grande verdade? »

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de julho de 2015)

O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, publicado originalmente em 2009[1], é um dos romances mais amados e aclamados dos últimos anos.

Trata-se mesmo de uma obra ímpar? A princípio, parece que sim. O escritor cubano, conhecido pelas suas tramas policiais (como A névoa do passado, de 2004) surpreende com aquele “apetite pela totalidade” que Vargas Llosa crê ser a vocação suprema do romance — e ele mesmo praticou, no auge de sua carreira, basta lembrar de Conversa no Catedral e A guerra do fim do mundo.

Articulam-se três fios narrativos de longo e significativo alcance temporal: o narrador ensaia ser escritor numa Cuba eriçada ideologicamente (por conta da pressão internacional), na década de 1970, e acaba por desistir, derrotado por uma sociedade monolítica; só retoma o sonho da escrita durante a miséria terrível que se seguiu à dissolução da União Soviética, e por causa do cíclico reaparecimento de rastros e mensagens de um estrangeiro com quem, por acaso, travara um fugaz conhecimento na juventude, e que também partilhava de seu amor pelos cachorros; esse homem é Ramón Mercader, e conheceremos sua trajetória desde a época da Guerra Civil Espanhola, mobilizadora da esquerda mundial, e no meio  da qual é escolhido — através de um árduo processo de despersonalização—para ser o assassino do Trotski, um dos mentores e líderes da Revolução Russa, e depois o principal dissidente da perversão stalinista dessa tentativa de concretizar uma utopia; também acompanharemos o teórico da “revolução permanente” (Trotski também adorava cães e não conseguia se imaginar sem a companhia de um), desde a sua expulsão do território soviético, e ao longo dos seus conturbados 12 anos de expatriamento, passando pela Turquia, pela França, pela Noruega, até o estabelecimento no México, onde—ao mesmo tempo que a Europa mergulha na Segunda Guerra—o golpe de uma picareta transformará sua vida em destino.

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De modo lastimável, porém, todas essas trajetórias e linhas cruzadas, esse mundo meio John le Carré (com uma mirada histórica digna de um Eric Hobsbawm[2]), se diluem e o livro perde fôlego, tornando-se chato e pomposo, porque ao invés de uma narrativa prismática (como acontecia nos melhores romances de Llosa e do próprio Le Carré, como O espião que sabia demais ou Sempre um colegial)[3], mostrando pontos-de-vista divergentes e ambivalentes, jamais unívocos (o de Trotski; o de Mercader; o de Ivan, o narrador), O homem que amava os cachorros, em todas as suas instâncias, bate na mesma tecla e insiste numa nota só:  aqueles que se deixaram arrastar pelo sonho revolucionário, por vontade própria, ou movidos pelas contingências históricas (quando não oprimidos por sociedades totalitárias), foram ludibriados, viveram uma fantasmagoria, uma manipulação monstruosa[4].

Ainda que discutível e polêmica, se essa fosse uma conclusão tirada a partir da leitura, daria para defender O homem que amava os cachorros enquanto prosa de ficção[5]. O que torna isso impossível é que Padura troca o apetite pela totalidade que presumivelmente insuflava seu projeto por uma atitude totalitarista de fazer inveja a Stálin, não dando a menor margem de liberdade para a imaginação e inteligência de quem lê seu romance: tudo já é explicado pelos próprios personagens, eles mesmos já didatizam as lições da História, a moral da fábula, e embora haja compensações nas quase 600 rebarbativas e demasiadas páginas  (certos episódios do desterro de Trotski, a relação edipiana entre Ramón e sua mãe, Caridad), a sensação final é de um imenso desperdício de material, de um relato tão morno e quadradinho quantos os últimos  dos já citados Llosa e Le Carré, epitáfios lúgubres e viscosos de utopias e ideais (por exemplo, O sonho do celta e Amigos absolutos)[6]. E pensar que antigamente a desilusão rendia grande literatura.

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NOTAS

[1] O título original é El hombre que amaba a los perros. Minhas citações são da tradução de Helena Pitta.

[2] Não que isso seja decisivo, em se tratando de uma obra ficcional, mas há anacronismos e detalhes falsos: por exemplo, Ramón jamais poderia ter visto os “jovens existencialistas” nos cafés parisienses antes da guerra, e muito menos, entre eles, Albert Camus (que vivia, então, na sua Argélia natal).

[3] VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/25/varios-romances-num-so-conversa-na-catedral-vargas-llosa-apetite-pela-totalidade-i/

https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-dos-anos-70-e-sua-obra-prima/

[4] Pelo menos, a certa altura, afirma-se no romance: «… lembre-se de que reescrever a história e colocá-la de onde convenha o poder não foi uma invenção de Stálin, embora ele a tenha utilizado, à sua maneira tosca e depreciativa, até se saciar».

[5] Embora, nas mãos de um leitor muito jovem e inexperiente, o livro possa funcionar como um desserviço, torço que pelo menos aguce a curiosidade para levá-lo a leituras mais ricas e proveitosas, entre elas o magnífico A segunda morte de Ramón Mercader, de Jorge Semprún.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/06/21/saudacoes-a-federico-sanchez

https://armonte.wordpress.com/2011/06/20/variante-semprun-do-eterno-retorno/

[6] VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/09/sonho-do-celta-pesadelo-do-leitor/

https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-da-primeira-decada-do-nosso-seculo/

resenha oadyra

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09/04/2015

MIASMAS DA DITADURA: “A Merda do Mundo”

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“Lendo alguns relatórios, o psiquiatra soube que o general sentia, às vezes por várias horas seguidas, um forte cheiro de pudim queimado (…) Já estava na hora de tudo aquilo terminar. O psiquiatra cobriu o general, fez que sim respondendo a alguma bobagem que ele estava falando, abriu o envelope com o papel em que deveria escrever o laudo, assinou antes e, sentado à minúscula mesa, escreveu em letras redondas e muito compreensíveis apenas uma linha: Augusto Pinochet Ugarte não apresenta boas condições mentais.

    O general Pinochet, por outro lado, é um filho da puta”. (Ricardo Lísias, “Anna O.”)

“Os gritos surgiam ora em português; ora na língua inaudita e forte dos Kiña; ora na língua inconfundível da dor”. (trecho de “Apiemieke?”)

I

Thiago Roney é um jovem de Manaus, prestes a completar 30 anos, que vem demonstrando apreciável ambição como escritor: já fez duas versões do seu livro de estreia, O estouro da artéria de um cavalo húngaro — e a segunda, com relação à original, é uma prova e tanto de amadurecimento da sua prosa[1] — e agora se arrisca em aventuras editoriais, sem contar o desafio de desenvolver uma obra em parceria: o seu selo, Thysanura, lançou recentemente A merda do mundo, coautoria dele e de Arcângelo Ferreira (nascido em Parintins, em 1969).

Os onze textos são apresentados como contos, dois deles escritos por Ferreira (“Pausa” e “As transfigurações de um tempo imóvel”), dois outros, por Roney (“O cano duplo da anarco-sindicalista” e “Apiemieke?”), os demais a quatro mãos (“Os minotauros de Pancrácio”, “Está feito”, “O Velázquez de Danúbia”, “A merda do mundo”, “O baile das carnes”, “A fenda e as pedras” e “Quando o teu nome cortou minha memória”), mas também podemos tomá-los como capítulos de um romance, girando em torno de um velho militar (ora apresentado como coronel, ora como general), Pancrácio, torturador contumaz no regime militar pós-1964.

Em torno dele se constrói um universo miasmático, nos umbrais do onírico, num tom com seu quê de expressionista, e também de alegórico, sempre remetendo, no entanto, a esse período sombrio da vida brasileira, quando torturadores tinham à sua disposição um “baile de carnes”. Sobrevivendo a ele, atormentado e decrépito[2], Pancrácio como que convoca o mitológico, o monstruoso, o labiríntico, minotauro ele mesmo, num “contratempo”[3], sem nunca ter enfrentado um Teseu redentor, assim como nunca enfrentamos de forma satisfatória os anos de chumbo, por conta de um tortuoso conceito de anistia e conciliação.

A Memória, aqui, toma a forma de uma dança macabra, em que os passos evocam referências literárias (Scorza, por exemplo), musicais (Soza, por exemplo), geracionais (tanto a juventude daquela época como a de agora, fascinada por Roberto Bolaño)[4] e arrastando “comboios de ressentimento”.

Nesses espelhos deformantes, “o caminhão do velho Pancrácio” (“bruto general nojento disfarçado de caminhoneiro”) não por acaso “tem a força de mil novecentos e sessenta e oito cavalos” (1968, o ano que nunca terminou, ano do AI-5). E todos têm de enfrentar o Tempo, “esse poema de amor e ódio deixado nos muros de Pompeia”. Uma Pompeia de desaparecidos e procurados pelo regime, que povoam a infância do narrador de “As transfigurações de um tempo imóvel”. Uma Pompeia (aliás, uma nação imaginária, Maro) invadida pela merda do mundo, onde o indivíduo é “enclausurado na multidão”.

E o impune Pancrácio terá de se haver com o lamento das tribos amazônicas massacradas em nome da Ordem e do Progresso: “Porque era o certo, seus vermes! Se não aprenderam a serem civilizados, tinham que morrer mesmo, porra! Por quê? Não viram a importância da civilização? Por que quem pergunta sou eu, por que não morrem de uma vez, caralho? Nem pra morrer vocês servem?”.

No final das contas, nessa mistura do histórico-memorialístico (quase a contrapelo) com um onírico muito marcado pelo fisiológico (e sobretudo pelo escatológico), Pancrácio “deixa as lembranças fluírem, as inventa. Aponta um estigma do lado interno das coxas e diz que as marcas são como os vestígios da existência. Mas aquela não iria retratar em narrativa, iria ficar nela para todo o sempre, levaria para o túmulo. Deixaria no arquivo de sua memória individual, para ele memória coletiva era uma fantasia perversa da Ordem que ajudou a forjar”.

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2

Lastimavelmente, apesar dessa virtual riqueza de veios temáticos, em torno dos miasmas que a ditadura deixou em nossa atmosfera civil, A merda do mundo também é miasmático do ponto de vista textual.

Com a exceção de “Apiemieke?”, todos os textos deixam a desejar. Além da monocórdia, eles são truncados e muitas vezes incompreensíveis[5]. Em uma das Fisiologias (a da Solidão) de Ricardo Lísias, o narrador afirma: “Acho patéticos os ficcionistas que continuam claros no século XXI…São artistas vulgares. Pessoas ignorantes. A limpidez ficcional, no mundo contemporâneo, revela personalidades simplórias[6]. Não, não estou exigindo esse tipo primário de limpidez, mas a senda oposta, a da amorfia obscura, também não me parece uma opção viável.

O que podemos entender da seguinte passagem: “É impossível ficar na sombra de uma fotografia, pois a fotografia é a própria sombra”???!!! Ou então: “Muito mais que uma catarata da dor em um menino, era uma toxoplasmose ocular de um pau de arara”???!!! E “minhas manhãs nunca foram tardes de baralho”!!!???

Há contos particularmente toscos, como “A fenda e as pedras”, que joga com referências sem que os autores se preocupem em dar uma mínima vestimenta ficcional para elas.

O coitado (nesse sentido específico, evidentemente) do Pancrácio, um achado dos autores, acaba perdido nessa mixórdia.

Mesmo não apreciando o resultado, sou obrigado a confessar que, sem embargo desse tratamento miasmático e confuso, A merda do mundo ainda assim assombrou estes meus dias, especialmente as noites, desde a leitura, com sua conjunção da evocação de um regime terrível e um clima alucinatório. Portanto, há um imaginário muito válido e virtualmente possante. Tomara que os autores algum dia consigam dar conta dele em termos verbais convincentes, apesar de não exatamente “límpidos”. Afinal, Roney já provou que pode se reinventar na escrita, para proveito nosso. Era o caso, aqui.

(uma versão da resenha acima foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 8 de abril de 2015, VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/04/miasmas-da-ditadura-merda-do-mundo.html)

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NOTAS

[1] VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/08/14/notas-sobre-um-jovem-contista-o-estouro-da-arteria-de-um-cavalo-hungaro-de-thiago-roney/

https://armonte.wordpress.com/2014/02/18/o-talentoso-mr-roney-os-contos-de-o-estouro-da-arteria-de-um-cavalo-hungaro-2a-edicao/

[2] “…aquela assinatura saturada de Tempo seria do decrépito coronel Pancrácio?”, lemos em “Pausa”.

[3]Como desatar os nós enjaulados nos buracos do contratempo”, lemos em “Os minotauros de Pancrácio”.

[4] Como vemos em “A fenda e as pedras”.

[5] Numerosos problemas de revisão atrapalham também, ortográfica e sintaticamente.

[6] Em outra delas (a da Amizade), lemos: “Apenas escritores muito ingênuos acreditam em ficção histórica”. Os trechos de Lísias podem ser encontrados em CONCENTRAÇÃO E OUTROS CONTOS (Alfaguara, 2015).

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