MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/08/2017

“Oito do Sete”, um romance invertebrado

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 22 de agosto de 2017)

“Eu estava ali como a sombra da normalidade comedida, eu era um não à rebeldia, um sim ao sacrifício, digna da piedade dos caretas. Gasta e suja, eu queria ter na sola do sapato a terra do continente pisado, absorver magmas alheios, reconstruída como austera e ariana, respeitável milady”. Este é um trecho do “OITO DO SETE”, primeiro romance de Cristina Judar, a qual me impressionou fortemente com os contos de “Roteiros para uma vida curta”, ao narrar as sensações físicas e mentais de suas personagens.

No clássico “Quarteto de Alexandria”, de Lawrence Durrel, acompanhávamos as relações amorosas e as repercussões de um grupo de personagens, uns sobre os outros, tendo como ponto de fuga a cidade de Alexandria, que era quase uma outra personagem. Em “OITO DO SETE, temos as ligações homoafetivas entre casais (Magda, Glória, Jonas e Rick) que chegam ao sexo grupal, filtradas em quatro perspectivas, a de Magda, a de Glória, a de Serafim (uma espécie de anjo exterminador) e a da cidade de Roma (outra cidade mítica).

Mas dessa vez a linguagem epidérmica de Cristina Judar não funcionou. Não nos interessamos pelos personagens e a narração é aborrecida. “Eu tenho sim visões de outros tempos, sensações antigas, o que ninguém mais teve nem nunca terá. Das vantagens dessa minha formação chamada de ser. Das vantagens dessa minha aglomeração classificada entre urbe e vilarejo. Vivo de desgostos, entre barro e tecnologias”. De fato. “OITO DO SETE é um romance invertebrado.

Anúncios

15/08/2017

Antonio Cícero, O Novo “Imortal”

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 15 de agosto de 2017)

O meu leitor sabe que desprezo a Academia Brasileira de Letras e as indicações geralmente confirmam esse sentimento, caso do mais novo imortal, Antonio Cícero, bom letrista, mas mau poeta e pífio filosofo.

Temos um misto de helenismo, hedonismo e homoerotismo, ou seja, referências à cultura greco-romana clássica (“Vai e diz ao rei/ cai a casa magnífica/ O santuário de apolo/ fenece o louro sagrado”) e uma procura do prazer, do corpo masculino bonito, do momento perfeito em que esse corpo se insere numa paisagem, num instante de beleza.

Antonio Cícero está para Konstantinos Kaváfis como o chup-chup para o sorvete. Temos de aguentar elegias para surfistas, hinos às furtivas caçadas gays em parques e aborrecidas alusões clássicas. Logo no início ele avisa: “Jamais regressarei à Esparta”. Esse tom solene logo é substituído pela necessidade estridente de exaltar o corpo masculino da forma mais ávida, óbvia, servil e constrangedora possível: “Hesitante entre o mar ou a mulher/ a natureza o fez rapaz bonito/rapaz/ pronto para armar e zarpar”; ou então: “Dormes/Belo/ Eu não, eu velo/Enquanto voas ou velejas/ E inocente exerces teu império/ Amo: o que é que tu desejas/ Pois sou a noite, somos/Eu poeta, tu proeza/ E de repente exclamo/Tanto mistério é/Tanta beleza”. E o leitor exclama: quanta abobrinha!

E o leitor exclama isso porque ainda está na página 53 e não viu o que tem pela frente. Ele ainda não chegou a um poema chamado “Onda”, onde se fala de um garoto conhecido no Arpoador, “garoto versátil, gostoso/ ladrão, desencaminhador/ de sonhos, ninfas e rapsodos”. E o que o nosso poeta/rapsodo faz? Segura o tchan? Não: “Comprei-lhe um picolé de manga”. Não é lindo, não é bucólico? Mas ele é recompensado: “…e deu-me um beijo de língua/ e mergulhei ali à flor/ da onda, bêbado de amor”. E ainda estamos apenas na página 57.

Há, é claro, poemas onde se fala do ser, da poesia, do tempo, não se fique com a impressão de que ele só pensa naquilo, porém por que será que sentimos que eles são só embromação para o tema principal?

Depois do picolé do garoto versátil, chegamos ao verdadeiro banana split que é o poema “Eco”: “A pele salgada daquele surfista/parece doce de leite condensado”. Não é lírica essa conjunção agridoce de pele salgada com doce de leite condensado?

Os cicerólogos do mundo da cabeça oca terão muitos símbolos fálicos a desvendar: picolés de manga, pranchas em riste, embora o poeta não perca tempo em sutilezas: “O amante/ Cabeça tronco membro/Eretos para o amado/ Não o decifra um só instante…/ Já o amado/Por mais ignorante e indiferente/Decifra o seu amante/De trás pra frente”. Ao leitor comum restará a saudade de uma letra tão bonita como o “Menino do Rio”, de Caetano Veloso.

Kaváfis também cultuava o fálico. Ele tem um conselho a si mesmo que poderia ser útil a Antonio Cícero: “Esforça-te, poeta, para retê-las todas/embora sejam poucas as que se detêm/ As fantasias do teu erotismo/ Põe-nas, semi-ocultas, em meio às tuas frases/ Esforça-te, poeta, por guardá-las todas/ quando surgirem no teu cérebro, de noite/ ou no fulgor do meio-dia se mostrarem”…

 

15/11/2016

Desencontro no espelho entre autor e personagem: “O Marechal de Costas”, José Luiz Passos

o-marechal-de-costas-livro jose-luiz-passos

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de novembro de 2016)

“O vigor da alma macerada pela dúvida, ou insuflada pelo arroubo da imagem pública, quase sempre arremata o fado desses protagonistas que pelejam consigo, fazendo do amor-próprio a companhia constante de um segundo eu, um que não raro é infiel e inimigo. O resultado é que todos eles temem o espelho; e os que encontram conforto nele, nos deixam intuir a ironia que se lhes impõe sob a máscara nem sempre confortadora de um autoengano engenhosamente sutil. ” (José Luiz Passos, “Machado de Assis: o romance com pessoas”, 2007)

“Emarame. Ato de ir e vir ao mesmo tempo, também o duplo, o indissolúvel movimento, ante o espelho, de um corpo refletido em seu cristal, desde que ambos, corpo e reflexo, sejam contemplados por alguém. Silvino era, na realidade, um enérgico utopista”. (José Luiz Passos: O MARECHAL DE COSTAS)

Na ordem do dia, temos mais um vice que se torna o presidente do país, em pleno mandato do titular; temos o resgate do indicioso “ordem e progresso” como lema do governo; temos um impasse com relação aos caminhos da república. José Luiz Passos, em O MARECHAL DE COSTAS (Editora Alfaguara), resgata a figura do primeiro vice alçado a presidente, com a renúncia prematura do Marechal Deodoro, o qual proclamou a república em 15 de novembro de 1889.

Era uma oportunidade de ouro para o autor do admirável “O Sonambulo Amador” de fazer um paralelo entre os primórdios republicanos e o nosso tumultuado cenário político. Infelizmente, ele optou por deixar óbvia as similaridades entre os períodos, colocando segmentos da época contemporânea (abordando as manifestações contra o governo de Dilma Roussef, até o impeachment), alternando-se com a exploração biográfica da vida de Floriano. Esse recurso narrativo simplesmente não funciona e desfibra o romance, divido em cinco partes.

Nas duas partes iniciais, o leitor desfruta de um dos encantos da refinada prosa de Passos, a formação da imaginação moral de um personagem. Floriano é fisgado pelo mito napoleônico (como tantos jovens de sua época), tem uma rígida formação militar positivista, luta na guerra contra o Paraguai; ao mesmo tempo, é obcecado por vaginas, mantendo uma caderneta com desenhos de várias formas do órgão sexual feminino.

Nas partes seguintes, o encanto se desfaz, os segmentos digressivos se multiplicam; e, quanto à vida de Floriano, já presidente, sucumbi a resumos de fatos históricos, sem nenhum traço autoral mais relevante; pelo contrário, parece mais um hábil apanhado acadêmico, que não nos ajuda a compreender melhor a figura do Marechal de Ferro. Embora trace o apurado perfil de Dom Pedro II, é de pasmar que Passos, profundo conhecedor da obra de Joaquim Nabuco, faça dele uma figura tão inexpressiva, comentando os acontecimentos do governo florianista (a revolta da armada, por exemplo) de forma tão superficial, perdendo a chance de confrontar personagens históricos fascinantes.

Mas, realmente decepcionante é a parte atual, onde uma suposta bisneta de Floriano trabalha como cozinheira de uma família abastada no Rio de Janeiro (vale lembrar, que Floriano era alagoano) todos os personagens ligados a ela são caricatos e rasos.

No final, temos páginas cintilantes num todo opaco. Mais do que de costas o Marechal é visto de longe, muito longe.

floriano-peixoto

marechal-de-costas-jornal

12/12/2015

“A vida que às vezes nem parece ter sido a sua”: os rumos da ficção de Michel Laub

hqdefault42135374

[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de dezembro de 2015]

A Maçã Envenenada é a segunda parte de uma trilogia (iniciada com o excelente Diário da Queda, 2011[1]) sobre “os efeitos individuais de catástrofes históricas”, nas palavras do próprio Michel Laub, um autor fiel aos seus temas: no novo romance, assim como no anterior, ou em Longe da Água (2004), a narração evolui em volutas retomando  um ponto fortuito da juventude, que se revestiu, na dinâmica da trajetória de vida, como signo de desvio, de “queda”, cristalizando a irrevogabilidade do acaso e prefigurando um destino: são as passagens que «em quarenta anos de vida analisada» permanecem numa zona de sombras. Agregam-se a esse instante inflexivo as amizades e lealdades escorregadias e a reflexão geracional.

A Maçã Envenenada evoca, já pelo título (refere-se a um verso da canção Drain You), o lendário Nirvana, e aquela concepção romântica que a morte precoce de um artista carrega, de não conseguir lidar com a realidade corrompida[2]. Ao rememorar o suicídio de Kurt Cobain, revive também o namoro tumultuado com a intensa e destrutiva Valéria, à época do show do cantor e sua banda aqui no Brasil (a ida ao show é um elemento narrativo da maior importância, muito bem trabalhado). O gancho para esse recuo aos anos 1990 é a entrevista com uma sobrevivente daquele memorável genocídio em Ruanda, cuja vontade de viver mesmo tendo passado por horrores funciona como a sombra desse drama afinal tão burguês.

Equacionando Cobain, o primeiro amor, a sobrevivência, o talentoso autor gaúcho nos oferece suas “canções de inocência e experiência” contra um pano de fundo basicamente irônico, quando não cínico como foi o da geração sobre a qual se debruça. Quando canta a inocência, ou algo muito parecido com ela, apesar da contenção e parcimônia do narrador, o relato é incisivo. Faz falta um aprofundamento da “experiência” e a questão no seu bojo: «Uma pergunta que também era: por que eu não consigo agir de outro modo? ».

De fato, sempre elogiada por inserir na narrativa um veio ensaístico, esse é o ponto onde, conforme amadurece e requinta sua fabulação, a prosa laubiana se mostra mais frágil. Raramente sai da zona de conforto, da moldura que adotou como base, eximindo-se de aprofundar os temas perturbadores e dramáticos que suas histórias nos oferecem, contentando-se com afirmações genéricas e alusivas, o que me parece estranho numa obra onde as questões morais são importantes. Por exemplo, ao falar da sobrevivente de Ruanda: «Adianta esta mulher ter passado por uma experiência tão radical, Valéria, se ao término tudo o que ela faz é dar uma lição aguada de breguice…»[3]. Como ele não vai muito adiante na reflexão, fica parecendo a opinião fútil de alguém comodamente refestelado na sua melancolia pós-moderna. O que é injusto, claro, pois duvido que Laub seja tão superficial. O que ele, como autor, não pode, ou não deveria, é continuar mantendo a mesma parcimônia de seus personagens e suas meias-vidas («essa sensação quase absoluta, que às vezes me assustava porque é só estender a liberdade e de um instante para outro você não tem mais passado, nem sente falta de nada porque é como se nada tivesse acontecido, ou só as coisas que você escolheu, as lembranças boas e inofensivas, e nada do que você disse ou fez a uma pessoa tem consequências porque nunca mais precisará encontrá-la, nem pensar nela, nem imaginar e confrontar o que foi feito dela em outro tempo e outro continente numa vida que às vezes nem parece ter sido a sua»).

Quarenta anos de vida analisada já dão matéria para cantar também a pós-inocência. Tomara que a sua ficção se arroje nessa direção.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/08/24/as-cancoes-da-inocencia-e-da-experiencia-de-michel-laub-a-maca-envenenada/

laub

NOTAS

[1] VER: https://armonte.wordpress.com/2012/11/08/auschwitz-alzheimer-alcoolismo-amizade-e-quebrando-o-circulo-natalidade-diario-da-queda-de-michel-laub/

[2] «como ele incorporou o espírito de uma época esmagada pelo fim das utopias».

[3] Por exemplo, parar para pensar que, depois de uma experiência tão radical, talvez não tenha muita importância para Immaculée Ilibagiza expressar-se através de um discurso mais “refinado” e afinado com padrões estéticos “exigentes”. Talvez esses padrões sejam muito pequenos, acanhados, para ela, e tanto faz que os cultuadores dos padrões não bregas, a ouçam e lidem com ela com um respeito condescendente e envergonhado.

421623_340392766003497_339235612785879_946366_764582296_nimg-1021465-kurt-cobain

27/10/2015

“Afogado no grande mar da informação”: a era da suspeita em NÚMERO ZERO, de Umberto Eco

Umberto-Eco42894360

«__ Para você são suficientes todas essas coincidências?

__Mas não será essa sua tendência a ver conspiração por todo lado que faz você colocar tudo no mesmo saco?

__ Eu? Eu não, são autos judiciários que podem ser encontrados por quem souber procurar nos arquivos, mas deu-se um jeito para que eles escapulissem do público entre uma notícia e outra».

[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de outubro de 2015]

«Quando se entra num estado de suspeita não se deixa de lado mais indício algum». Essa frase do inesquecível O Pêndulo de Foucault (1988) poderia estar presente no mais recente Umberto Eco, Número Zero, grande sucesso de vendagem deste ano, no qual ele revisita—de forma mais enxuta—a atmosfera paranoica do seu segundo romance[1].

Ao invés de tramoias seculares ou pseudomísticas, remontando aos templários, a narrativa—localizada na Milão de 1992—concentra-se na esfera do jornalismo e da sua linguagem. Colonna, o protagonista, aceita a proposta de participar da criação de um veículo de imprensa “de laboratório”, por assim dizer, composto apenas por números zeros. A exploração das notícias passadas, sobretudo as ilações tiradas a partir delas, serviriam como arma, como instrumento de pressão e chantagem, para o investidor, o Comendador Vimercate, agindo por meio do cínico Simei. A certa altura das reuniões de pauta, ele afirma que «os jornais ensinam como se deve pensar». Questionado por Maia, uma das redatoras («Mas os jornais seguem as tendências ou as criam? »), responde: «As duas coisas, senhorita Fresia. As pessoas no início não sabem que tendências têm, depois nós lhes dizemos e elas percebem que as tinham…».[2]

Um dos colaboradores da empreitada, Braggadocio, aproxima-se de Colonna, confidenciando a ele uma acalentada teoria da conspiração: Mussolini não teria sido de fato executado após a vitória dos Aliados, e vários eventos políticos aparentemente desconectados formariam um mosaico da tentativa subterrânea de colocar o fascismo de novo no poder. Como acontecia em Pêndulo de Foucault, a exposição dessa enciclopédia de suspeitas e indícios é tão hiperbólica que ganha contornos bizarros e burlescos. Para contrabalançar esse tétrico (ao mesmo tempo divertido) umbral a uma realidade-impostura, temos Maia Fresia, a redatora que questionou Simei. Envolvendo-se com ela, Colonna será devolvido ao mundo do senso comum, com uma pontinha de excentricidade, para garantir o charme.

Embora eu não tenha entendido muito bem que progressão Eco queria exatamente imprimir ao seu livro, pois considero Número Zero um texto truncado, concluído de forma frustrante, o charme de Maia certamente é um de seus achados (aliás, por causa disso gostei tanto do capítulo 13, onde ela imagina uma seção de anúncios pessoais peculiar, que permite ler as entrelinhas dos dados pessoais auto-publicitários).

Outro achado (e uma promessa e tanto, afinal não cumprida) é que Braggadacio, para além das pistas e sinais de uma vasta conspiração, a qual desvela toda a desmoralização e corrupção da chamada “vida pública” (tão parecidas na Itália e no Brasil!), tem um tal apego a certa porção do passado (única estável e real de uma existência fantasmática), mesmo com ingredientes escusos, que acaba por aproximar o autor de O Nome da Rosa—nesse sentido tão próximo de seu compatriota Leonardo Sciascia—do universo do Nobel 2014, Patrick Modiano, cujos personagens também tentam evocar algo de permanente, que remanesça (“flores da ruína”), em meio a uma memória fuliginosa e dissolvente: «meu pai me acostumou a não acreditar nas notícias. Vivemos na mentira e, se você sabe que estão lhe mentindo, precisa viver desconfiado.  Eu desconfio, desconfio sempre. A única coisa verdadeira da qual posso dar testemunho é essa Milão de tantas décadas atrás»[3].

Em 207 páginas, 192 nos acenam com a soma de todos os dons de Eco; para, depois, mostrarem-se, se puder me valer de um dos clichês que ele deliciosamente reitera ao longo do romance (parodiando o mau jornalismo), “tempestade em copo d’água”. O furacão prometido torna-se mera tempestade tropical.

TRECHO SELECIONADO

«A questão é que os jornais não são feitos para divulgar, mas para encobrir as notícias. Ocorre o fato X, você não pode deixar de falar dele, mas cria problemas para gente demais, então no mesmo número você põe umas manchetes de arrepiar o cabelo, mãe degola os quatro filhos, a nossa poupança talvez vire pó, descoberta uma carta de insultos de Garibaldi a Nino Bixio e assim por diante, a sua notícia se afoga no grande mar da informação».

zero

NOTAS

[1] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2012/12/30/tratado-sobre-a-tolice-humana-o-pendulo-de-foucault-de-umberto-eco/

[2] Mas o relato de Colonna mostra também a limitação do alcance dessa dialética manipuladora, basta reparar no erro de previsão de  Simei com relação aos celulares, no nono capítulo.

[3] Todas as citações são da tradução de Ivone Benedetti (editora Record).

large_150111-235052_to110115spe_1923-kqj-1200x900@Quotidiano_Inside_Italy-Web

14/07/2015

LEONARDO PADURA E O STALINISMO NARRATIVO: “O HOMEM QUE AMAVA OS CACHORROS”

11698535_492081274289526_5343590653563768565_nLeonardo-Padura-gana-premio-Nacional-1750093

«__ Gostaria de ser o Ramón que era há três anos, antes de começarem as mentiras. Gostaria de poder entrar amanhã naquela casa e dar cabo da vida de um traidor renegado, tendo a certeza de que o faria pela causa. Agora não sei onde começam a causa nem as mentiras.

__ A verdade e a mentira são muito relativas e, nesse trabalho que você e eu fazemos, não há fronteiras entre uma e outra[…] Que importam meia dúzia de mentiras se isso servir para salvar nossa grande verdade? »

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de julho de 2015)

O homem que amava os cachorros, de Leonardo Padura, publicado originalmente em 2009[1], é um dos romances mais amados e aclamados dos últimos anos.

Trata-se mesmo de uma obra ímpar? A princípio, parece que sim. O escritor cubano, conhecido pelas suas tramas policiais (como A névoa do passado, de 2004) surpreende com aquele “apetite pela totalidade” que Vargas Llosa crê ser a vocação suprema do romance — e ele mesmo praticou, no auge de sua carreira, basta lembrar de Conversa no Catedral e A guerra do fim do mundo.

Articulam-se três fios narrativos de longo e significativo alcance temporal: o narrador ensaia ser escritor numa Cuba eriçada ideologicamente (por conta da pressão internacional), na década de 1970, e acaba por desistir, derrotado por uma sociedade monolítica; só retoma o sonho da escrita durante a miséria terrível que se seguiu à dissolução da União Soviética, e por causa do cíclico reaparecimento de rastros e mensagens de um estrangeiro com quem, por acaso, travara um fugaz conhecimento na juventude, e que também partilhava de seu amor pelos cachorros; esse homem é Ramón Mercader, e conheceremos sua trajetória desde a época da Guerra Civil Espanhola, mobilizadora da esquerda mundial, e no meio  da qual é escolhido — através de um árduo processo de despersonalização—para ser o assassino do Trotski, um dos mentores e líderes da Revolução Russa, e depois o principal dissidente da perversão stalinista dessa tentativa de concretizar uma utopia; também acompanharemos o teórico da “revolução permanente” (Trotski também adorava cães e não conseguia se imaginar sem a companhia de um), desde a sua expulsão do território soviético, e ao longo dos seus conturbados 12 anos de expatriamento, passando pela Turquia, pela França, pela Noruega, até o estabelecimento no México, onde—ao mesmo tempo que a Europa mergulha na Segunda Guerra—o golpe de uma picareta transformará sua vida em destino.

aout-trotski-2658612-jpg_451297

De modo lastimável, porém, todas essas trajetórias e linhas cruzadas, esse mundo meio John le Carré (com uma mirada histórica digna de um Eric Hobsbawm[2]), se diluem e o livro perde fôlego, tornando-se chato e pomposo, porque ao invés de uma narrativa prismática (como acontecia nos melhores romances de Llosa e do próprio Le Carré, como O espião que sabia demais ou Sempre um colegial)[3], mostrando pontos-de-vista divergentes e ambivalentes, jamais unívocos (o de Trotski; o de Mercader; o de Ivan, o narrador), O homem que amava os cachorros, em todas as suas instâncias, bate na mesma tecla e insiste numa nota só:  aqueles que se deixaram arrastar pelo sonho revolucionário, por vontade própria, ou movidos pelas contingências históricas (quando não oprimidos por sociedades totalitárias), foram ludibriados, viveram uma fantasmagoria, uma manipulação monstruosa[4].

Ainda que discutível e polêmica, se essa fosse uma conclusão tirada a partir da leitura, daria para defender O homem que amava os cachorros enquanto prosa de ficção[5]. O que torna isso impossível é que Padura troca o apetite pela totalidade que presumivelmente insuflava seu projeto por uma atitude totalitarista de fazer inveja a Stálin, não dando a menor margem de liberdade para a imaginação e inteligência de quem lê seu romance: tudo já é explicado pelos próprios personagens, eles mesmos já didatizam as lições da História, a moral da fábula, e embora haja compensações nas quase 600 rebarbativas e demasiadas páginas  (certos episódios do desterro de Trotski, a relação edipiana entre Ramón e sua mãe, Caridad), a sensação final é de um imenso desperdício de material, de um relato tão morno e quadradinho quantos os últimos  dos já citados Llosa e Le Carré, epitáfios lúgubres e viscosos de utopias e ideais (por exemplo, O sonho do celta e Amigos absolutos)[6]. E pensar que antigamente a desilusão rendia grande literatura.

42962137libro_elhombre

NOTAS

[1] O título original é El hombre que amaba a los perros. Minhas citações são da tradução de Helena Pitta.

[2] Não que isso seja decisivo, em se tratando de uma obra ficcional, mas há anacronismos e detalhes falsos: por exemplo, Ramón jamais poderia ter visto os “jovens existencialistas” nos cafés parisienses antes da guerra, e muito menos, entre eles, Albert Camus (que vivia, então, na sua Argélia natal).

[3] VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/25/varios-romances-num-so-conversa-na-catedral-vargas-llosa-apetite-pela-totalidade-i/

https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-dos-anos-70-e-sua-obra-prima/

[4] Pelo menos, a certa altura, afirma-se no romance: «… lembre-se de que reescrever a história e colocá-la de onde convenha o poder não foi uma invenção de Stálin, embora ele a tenha utilizado, à sua maneira tosca e depreciativa, até se saciar».

[5] Embora, nas mãos de um leitor muito jovem e inexperiente, o livro possa funcionar como um desserviço, torço que pelo menos aguce a curiosidade para levá-lo a leituras mais ricas e proveitosas, entre elas o magnífico A segunda morte de Ramón Mercader, de Jorge Semprún.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/06/21/saudacoes-a-federico-sanchez

https://armonte.wordpress.com/2011/06/20/variante-semprun-do-eterno-retorno/

[6] VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/09/sonho-do-celta-pesadelo-do-leitor/

https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-da-primeira-decada-do-nosso-seculo/

resenha oadyra

9788483835777

09/04/2015

MIASMAS DA DITADURA: “A Merda do Mundo”

10382173_780082292027759_6855065703075000350_n

10968551_794720077287616_7265290349754107767_n

“Lendo alguns relatórios, o psiquiatra soube que o general sentia, às vezes por várias horas seguidas, um forte cheiro de pudim queimado (…) Já estava na hora de tudo aquilo terminar. O psiquiatra cobriu o general, fez que sim respondendo a alguma bobagem que ele estava falando, abriu o envelope com o papel em que deveria escrever o laudo, assinou antes e, sentado à minúscula mesa, escreveu em letras redondas e muito compreensíveis apenas uma linha: Augusto Pinochet Ugarte não apresenta boas condições mentais.

    O general Pinochet, por outro lado, é um filho da puta”. (Ricardo Lísias, “Anna O.”)

“Os gritos surgiam ora em português; ora na língua inaudita e forte dos Kiña; ora na língua inconfundível da dor”. (trecho de “Apiemieke?”)

I

Thiago Roney é um jovem de Manaus, prestes a completar 30 anos, que vem demonstrando apreciável ambição como escritor: já fez duas versões do seu livro de estreia, O estouro da artéria de um cavalo húngaro — e a segunda, com relação à original, é uma prova e tanto de amadurecimento da sua prosa[1] — e agora se arrisca em aventuras editoriais, sem contar o desafio de desenvolver uma obra em parceria: o seu selo, Thysanura, lançou recentemente A merda do mundo, coautoria dele e de Arcângelo Ferreira (nascido em Parintins, em 1969).

Os onze textos são apresentados como contos, dois deles escritos por Ferreira (“Pausa” e “As transfigurações de um tempo imóvel”), dois outros, por Roney (“O cano duplo da anarco-sindicalista” e “Apiemieke?”), os demais a quatro mãos (“Os minotauros de Pancrácio”, “Está feito”, “O Velázquez de Danúbia”, “A merda do mundo”, “O baile das carnes”, “A fenda e as pedras” e “Quando o teu nome cortou minha memória”), mas também podemos tomá-los como capítulos de um romance, girando em torno de um velho militar (ora apresentado como coronel, ora como general), Pancrácio, torturador contumaz no regime militar pós-1964.

Em torno dele se constrói um universo miasmático, nos umbrais do onírico, num tom com seu quê de expressionista, e também de alegórico, sempre remetendo, no entanto, a esse período sombrio da vida brasileira, quando torturadores tinham à sua disposição um “baile de carnes”. Sobrevivendo a ele, atormentado e decrépito[2], Pancrácio como que convoca o mitológico, o monstruoso, o labiríntico, minotauro ele mesmo, num “contratempo”[3], sem nunca ter enfrentado um Teseu redentor, assim como nunca enfrentamos de forma satisfatória os anos de chumbo, por conta de um tortuoso conceito de anistia e conciliação.

A Memória, aqui, toma a forma de uma dança macabra, em que os passos evocam referências literárias (Scorza, por exemplo), musicais (Soza, por exemplo), geracionais (tanto a juventude daquela época como a de agora, fascinada por Roberto Bolaño)[4] e arrastando “comboios de ressentimento”.

Nesses espelhos deformantes, “o caminhão do velho Pancrácio” (“bruto general nojento disfarçado de caminhoneiro”) não por acaso “tem a força de mil novecentos e sessenta e oito cavalos” (1968, o ano que nunca terminou, ano do AI-5). E todos têm de enfrentar o Tempo, “esse poema de amor e ódio deixado nos muros de Pompeia”. Uma Pompeia de desaparecidos e procurados pelo regime, que povoam a infância do narrador de “As transfigurações de um tempo imóvel”. Uma Pompeia (aliás, uma nação imaginária, Maro) invadida pela merda do mundo, onde o indivíduo é “enclausurado na multidão”.

E o impune Pancrácio terá de se haver com o lamento das tribos amazônicas massacradas em nome da Ordem e do Progresso: “Porque era o certo, seus vermes! Se não aprenderam a serem civilizados, tinham que morrer mesmo, porra! Por quê? Não viram a importância da civilização? Por que quem pergunta sou eu, por que não morrem de uma vez, caralho? Nem pra morrer vocês servem?”.

No final das contas, nessa mistura do histórico-memorialístico (quase a contrapelo) com um onírico muito marcado pelo fisiológico (e sobretudo pelo escatológico), Pancrácio “deixa as lembranças fluírem, as inventa. Aponta um estigma do lado interno das coxas e diz que as marcas são como os vestígios da existência. Mas aquela não iria retratar em narrativa, iria ficar nela para todo o sempre, levaria para o túmulo. Deixaria no arquivo de sua memória individual, para ele memória coletiva era uma fantasia perversa da Ordem que ajudou a forjar”.

10351451_766288230130801_6477301604039613752_n

2

Lastimavelmente, apesar dessa virtual riqueza de veios temáticos, em torno dos miasmas que a ditadura deixou em nossa atmosfera civil, A merda do mundo também é miasmático do ponto de vista textual.

Com a exceção de “Apiemieke?”, todos os textos deixam a desejar. Além da monocórdia, eles são truncados e muitas vezes incompreensíveis[5]. Em uma das Fisiologias (a da Solidão) de Ricardo Lísias, o narrador afirma: “Acho patéticos os ficcionistas que continuam claros no século XXI…São artistas vulgares. Pessoas ignorantes. A limpidez ficcional, no mundo contemporâneo, revela personalidades simplórias[6]. Não, não estou exigindo esse tipo primário de limpidez, mas a senda oposta, a da amorfia obscura, também não me parece uma opção viável.

O que podemos entender da seguinte passagem: “É impossível ficar na sombra de uma fotografia, pois a fotografia é a própria sombra”???!!! Ou então: “Muito mais que uma catarata da dor em um menino, era uma toxoplasmose ocular de um pau de arara”???!!! E “minhas manhãs nunca foram tardes de baralho”!!!???

Há contos particularmente toscos, como “A fenda e as pedras”, que joga com referências sem que os autores se preocupem em dar uma mínima vestimenta ficcional para elas.

O coitado (nesse sentido específico, evidentemente) do Pancrácio, um achado dos autores, acaba perdido nessa mixórdia.

Mesmo não apreciando o resultado, sou obrigado a confessar que, sem embargo desse tratamento miasmático e confuso, A merda do mundo ainda assim assombrou estes meus dias, especialmente as noites, desde a leitura, com sua conjunção da evocação de um regime terrível e um clima alucinatório. Portanto, há um imaginário muito válido e virtualmente possante. Tomara que os autores algum dia consigam dar conta dele em termos verbais convincentes, apesar de não exatamente “límpidos”. Afinal, Roney já provou que pode se reinventar na escrita, para proveito nosso. Era o caso, aqui.

(uma versão da resenha acima foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 8 de abril de 2015, VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/04/miasmas-da-ditadura-merda-do-mundo.html)

10924760_780082895361032_3760114872982288399_n

____________________________________

NOTAS

[1] VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/08/14/notas-sobre-um-jovem-contista-o-estouro-da-arteria-de-um-cavalo-hungaro-de-thiago-roney/

https://armonte.wordpress.com/2014/02/18/o-talentoso-mr-roney-os-contos-de-o-estouro-da-arteria-de-um-cavalo-hungaro-2a-edicao/

[2] “…aquela assinatura saturada de Tempo seria do decrépito coronel Pancrácio?”, lemos em “Pausa”.

[3]Como desatar os nós enjaulados nos buracos do contratempo”, lemos em “Os minotauros de Pancrácio”.

[4] Como vemos em “A fenda e as pedras”.

[5] Numerosos problemas de revisão atrapalham também, ortográfica e sintaticamente.

[6] Em outra delas (a da Amizade), lemos: “Apenas escritores muito ingênuos acreditam em ficção histórica”. Os trechos de Lísias podem ser encontrados em CONCENTRAÇÃO E OUTROS CONTOS (Alfaguara, 2015).

10372017_794720807287543_4954599877241961358_n

17/02/2015

Ervas daninhas no jardim: VIOLETA VELHA E OUTRAS FLORES, de Matheus Arcaro

10559781_855000101199387_8353147912582079234_nvioleta

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  17 de fevereiro de 2015)

Matheus Arcaro organizou cuidadosamente seu livro de estreia, Violeta velha e outras flores: vinte e dois contos dispostos em seis seções, e sentimos fortemente a afinidade temática que rege esses agrupamentos; por exemplo, o conto-título, no qual o protagonista, já idoso, rememora a relação permeada de violência com o filho (em que um sempre é o elo mais fraco) está em companhia de outros cinco onde situações-limites de desamparo afloram: a estudante destruída pelo vício até chegar à indigência total (“Alice”); a mulher com câncer, com um diagnóstico-sentença de poucos meses de vida, que procura cura espiritual (ou mero conforto?) num centro espírita (“A cura); o residente  de uma casa de repouso que, no dia do aniversário de noventa anos, espera ansiosamente os familiares (“Visita); a moça atropelada («O farol do carro apagou as luzes do meu porvir»), em estado vegetativo (“Festa”).

Em outros blocos temos o despertar de uma sensibilidade infantil para o selvagem coração da vida (“Casulo Rompido”); situações que desnudam a hipocrisia e as máscaras das relações instituídas, como o casamento (“Até que a morte os separe”); temos até relatos que transitam entre o filosófico e o paródico, como a visitação ao inferno, ao paraíso e ao purgatório, com a oferta de se decidir por um deles concedida ao protagonista (“Está tudo escrito”); sem contar experiências como  “A fúria sem som”, onde o relato de um deficiente mental, abusado por uma cuidadora (com resultados trágicos) e misturando instâncias temporais de toda uma vida, remete à parte mais famosa e intrincada de O som e a fúria (1929), de William Faulkner.

Portanto, temos um escritor jovem (30 anos), mas que leva muito a sério seu ofício, com uma intuição estrutural acurada[1]. Não obstante essas qualidades ponderáveis, que mostram um jardineiro dedicado, o que realmente importa em Violeta velha e outras flores, os relatos, revela a intrusão de ervas daninhas que comprometem tais cuidados com o jardim.

Grosso modo, o que a meu ver (pois é preciso dizer que o livro vem colhendo fartos elogios) incomoda na coletânea como uma falha grave é a falta de uma voz pessoal, de uma personalidade de autor que ilumine de forma peculiar, única, todo o cultivado buquê de temáticas e técnicas narrativas. Não sentimos em nenhum momento um universo ficcional com a marca inconfundível de Matheus Arcaro. Um ou outro conto ameaça timidamente um desabrochar nesse sentido, caso de “Festa” ou “Maquinando”, todavia sempre sentimos que falta algo essencial[2].

Por outro lado, em sua prosa, ele se deixou levar pela sereia do “escrever bonito”, caindo inúmeras vezes no pior beletrismo, aquele que transformou em escritores irremediavelmente anacrônicos Coelho Neto ou Afrânio Peixoto, e que faz dos contemporâneos Nélida Piñon (Vozes do Deserto) e Evandro Affonso Ferreira (O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam) exemplos de afetação e tom postiço (no fundo, subliterário).

Deparamo-nos, com trechos como «As papilas salivares censuram aos lábios o direito da separação»!?; «O ar árido e o hálito do sol, entrelaçados feito jovens amantes, salgam seus olhos»!?; «Como a viúva que levanta o véu do caixão para o beijo derradeiro na boca frígida, as cortinas se abrem»!?;«suas reflexões diluíam-se no reflexo que arrombava sua retina»!?; «a lua lambeu seus pés»!?[3]

Claro que há também trechos bons («Com o vestido florido, Clarice parece costurada ao ambiente»;«O esforço ineficaz daquele homem em escombros trouxe um espelho à sua frente; viu-se pelada numa cadeira de rodas, com o tempo ancorado nos ombros»;«Eram seis da tarde, mas o crepúsculo habitava-o há horas») infelizmente estrangulados entre a floração malsã de imagens de gosto duvidoso[4], piñonescas.

Ao fim e ao cabo, seria aconselhável ao jardineiro a poda implacável: melhor concentrar-se menos nos contornos do jardim e mais com a qualidade de cada flor[5]. Como lemos (aliás, uma passagem ruim) em “Reencontro”: «Como germinariam flores na boca se seco está o espírito?»

15623_428193784011609_441739961300056719_n

__________________________________

TRECHO SELECIONADO

«será que vou pro céu não estou no mesmo degrau que o padre Ambrósio ou que as senhoras que puxam o terço de terça à noite porém não posso ir pro mesmo lugar que um matador de aluguel ou um político decerto foi pra evitar esse tipo de confusão que Deus inventou o purgatório o padre disse que não se fica lá por muito tempo só até pagar os pecados mais graves eu me esforço pra seguir os ensinamentos dele amar o próximo e tal mas é difícil sem crédito celular da porra»

matheus - web

__________________________________

NOTAS

[1] Que encontrou na edição da Patuá o excepcional talento de Leonardo Mathias, que realizou um de seus melhores trabalhos.

[2] “A fúria sem som” talvez seja o conto mais impecável da coletânea do ponto de vista da tessitura textual, e mesmo assim tem um ar de exercício estilístico de oficinas criativas.

[3] O conto de abertura, “Casulo rompido”, já é comprometido por passagens e expressões infelizes, como “o menino moldado por seus genes”, “como se algo de dentro da flora o sugasse suavemente”, “líquido salso”, além de uma certa falta de rigor, como em “Ele era um títere encantado; um ser no qual o êxtase espreguiçava seus tentáculos” (afina, títere ou ser?, os dois não dá para ser, não?).  O que  nos leva também às frases sem qualquer sentido, como esta, de “Teclado”: “Júlio parecia com o que devia parecer. Um livro erótico de capa sóbria”!?  Ou às afirmações banais e estereotipadas: “ele tinha que lavar o ranço do passado não vivido” (“Noite nua”)!?

[4] O já citado “Visita” fornece um bom exemplo desse estrangulamento: veja-se o primeiro parágrafo, marcado pelo excesso de imagens: “Inspirou como se erguesse a existência com os pulmões. Elas virão! A bofetadas, o tempo lhe ensinara que a vida não é uma equação  pitagórica: uma delas pode ter passado mal; nesta época do ano, a gripe costuma atacar  os que estão com o escudo em repouso. Ou, quem sabe, o carro pode ter enguiçado no caminho; estes carros modernos são mais frágeis que um coração empoeirado. Sentindo a menção do pensamento, o órgão  debateu-se no calabouço torácico, mas logo foi domado pelo marca-passo e, resignando-se como um escravo recém-açoitado, voltou à sua função de tesoureiro da esperança.” (de “Maquinando”)

   Ao longo do conto o leitor se depara com a felicidade que “fora concubina” do protagonista; uma mulher que carregava no peito “sublimes paradoxos” e uma filha com “hálito hialino”!?

[5] E mesmo no quesito “seleção”, há reparos a se fazer: ter escrito vinte e dois contos não é razão para publicá-los todos. O que justificaria a inclusão de “Guerra” e “À beira do abismo”?

card_lancamento_sampa

1491719_873218239377573_3829658819621603874_n

02/02/2015

Colleen McCullough no pêndulo entre a inspiração e a mornidão: “Pássaros Feridos” e “A canção de Troia”

Portraits Of Colleen McCullough At HomeArquivoExibir

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de novembro de 2002)

A CANÇÃO DE TROIA[1] era um dos lançamentos mais aguardados do ano. Afinal, na última década, Colleen McCullough destacou-se por sua avassaladora reconstituição ficcional da Roma Antiga, na série iniciada com Primeiro Homem de Roma e, como uma das mais brilhantes contadoras de histórias da atualidade, ela era perfeita para recriar em forma de romance a “Ilíada”.

Em Canção de Troia reencontramos todos os episódios famosos: a fuga de Helena, mulher de Menelau, com Páris, príncipe troiano; a união dos líderes gregos em torno de Agamêmnon, irmão do traído, no cerco à Troia, que dura dez anos; a desavença entre Agamêmnon e o maior guerreiro entre os gregos, Aquiles; o ardil do cavalo de madeira inventado pelo astuto Ulisses, que permite a invasão e saque da cidade protegida por invencíveis muralhas. Todavia, a autora de Pássaros feridos trata o evento como uma guerra entre potências, envolvendo rotas comerciais: de um lado, o conglomerado de reinos que forma a Grécia; de outro, a Ásia Menor, justamente liderada por Troia. E para o leitor de hoje são perfeitamente plausíveis as pretensões imperialistas de Agamêmnon.

O livro é todo em primeira pessoa, utilizando 16 narradores: Príamo, Páris, Heitor, Enéias (da parte de Troia); Peleu, Quíron, Agamêmnon, Aquiles, Ulisses, Diomedes, Pátroclo, Nestor, Automedonte, Neoptolemo (entre os gregos), e só duas mulheres, Helena e Briseis (esta última, concubina de Aquiles, o qual é o personagem que toma mais vezes a palavra: seis capítulos entre os trinta e três que compõem Canção de Troia).

A intenção da autora era enriquecer o foco narrativo, mas foi uma péssima estratégia: o recurso não convence. Volta e meia, os personagens resvalam para um tom didático e explanativo que fica muito parecido com o de um narrador em terceira pessoa. E há momentos verdadeiramente horríveis, como aquele em que Ulisses diz a Agamêmnon: “Menelau deveria exigir uma indenização adequada para os danos psicológicos que sofreu em consequência do rapto de Helena”!!!??? Ora, ora.

0752817639.02.LZZZZZZZ

Além disso, é constrangedor para quem há anos vem defendendo os livros de Colleen McCullough, desde Pássaros feridos (1977), da pecha de “meros best sellers” , deparar-se com passagens bregas do tipo “Definhara-se o amor que nos unira… o fogo transformara-se agora em cinza” (trata-se de Helena queixando-se das infidelidades de Páris)!!??

Porém, nem o uso capenga da primeira pessoa nem os trechos estereotipados (para não dizer, esfarrapados) pesam muito na decepção que é a leitura de Canção de Troia. As suas 600 páginas, tomadas objetivamente, são competentes e dão conta do recado de contar de forma linear a história do cerco. Não há o que reclamar quanto a isso, e o romance não apresenta quedas, mantendo-se equilibrado do início ao fim.

O que falta para o fã de Colleen, e isso tira toda a alma do projeto, é a sua verve, é a magia do seu fôlego ficcional, capaz de transfigurar qualquer evento e qualquer personagem. Esse toque, que fez de Pássaros feridos, Uma obsessão indecente e A Paixão do dr. Christian muito mais do que histórias melodramáticas, que fez de Primeiro Homem de Roma, A coroa de ervas e Os favoritos de Fortuna, mesmo com altos e baixos, estupendos mergulhos na história antiga, esse toque falta a Canção de Troia.

A mais desalentadora e melancólica derrota do longo cerco, após dez anos e seiscentas páginas, não é tanto a da estirpe de Príamo, nem a da reputação imaculada de Aquiles enquanto guerreiro: é o fato de que, se todos aqueles livros, com sua personalidade gritante, só poderiam ter sido escritos por Colleen McCullough, este—a não ser num ou noutro momento—poderia ter sido escrito por qualquer um.

Colleen-mccullough8528603350_q2livro-passaros-feridos-editora-difel-colleen-mccullough-livr-4268-MLB4901330057_082013-O

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de março de 2003)

A Bertrand está reeditando boa parte do seu catálogo com novas capas e paginação. Um desses relançamentos é o de PÁSSAROS FERIDOS que, desde sua publicação original, em 1977, já vendeu mais de dez milhões de cópias, embora seja um livro especial não exatamente por esse triunfo quantitativo.

Se não é tão bom quanto os livros da série romana de Colleen McCullough, é, entretanto, bem melhor do que seu último romance publicado no Brasil, A canção de Troia, pálida releitura da “Ilíada” de Homero.

Pena que a antiga e breguinha capa, sobrevivente de tantas reimpressões, e na qual aparecia um desenho chinfrim de árvore, foi substituída por uma capa igualmente brega, com uma paisagem rústica em que um céu de improvável azul é cortado pelo arco-íris (na contracapa, um raio fende um firmamento tempestuoso), que está em falta de sintonia com os recentes projetos editoriais da Bertrand. O pior é que colocaram umas letrinhas “estraga-vista” que se arrastam feito formiguinhas por 545 páginas! Já não bastam as vicissitudes do clã Leary em sua propriedade na Austrália, a fazenda Drogheda.

Agora sabemos que Colleen estava pronta para mergulhar na mentalidade greco-romana: ela consegue fazer uma bela transposição do clima da tragédia grega, onde a maldição dos deuses cai como um raio (não o da contracapa) no seio de clãs dominados por uma espécie de “demônio familiar”. Na contracapa do raio pode-se ler: “as vastas extensões dos campos australianos, povoados de carneiros e rarefeitos de homens, que forçam seus minguados habitantes a uma existência isolada, pioneira, quase primitiva…”, o que nos remete à obra-prima de um grande escritor compatriota da autora de Pássaros feridos, Patrick White: A árvore do homem (1955).

Ao contrário dos dramalhões familiares convencionais, não existe conciliação no final da história, não há desenlace feliz ou arrumadinha, onde o sofrimento é, enfim, redimido. Estamos longe de Danielle Steel, de Nora Roberts ou de Barbara Delinski, campeãs da hora na lista dos mais vendidos, e mesmo de Rosamunde Pilcher ou Isabel Allende, que são mais pretensiosas.

Só que há defeitos graves em Pássaros feridos: os diálogos são muito irregulares, não obstante haja alguns soberbos (particularmente entre Meggie e Fee), vez em quando nos deparamos com escorregões feios (frases do tipo “Não dispenso uma sarda do seu rosto nem uma célula do seu cérebro”) no mau-gosto, sem contar os resmungos infindos contra o sexo masculino e, claro, o título horrível e enganador. No geral, porém, passados pouco mais de 25 anos, ele ainda desconcerta completamente quem o procura por motivos “românticos” e escapistas. Ao cabo da saga dos Cleary, sobra a resignação diante da velhice e da violência bruta, e a sensação (digna do Eclesiastes) de que nada é novo sob o sol, que tudo é vaidade e que é imperativo que o círculo se feche e o ciclo recomece.

041bd29c-7340-4d4f-b786-497e327e5c1a-620x372

_________________

Nota de 2015– Uma parte do texto acima foi omitida. Ela pode ser encontrada em outra resenha a respeito do livro, VER https://armonte.wordpress.com/2015/02/01/passaros-feridos-ou-a-que-clube-pertencia-colleen-mccullough/)

______________________________________________________________

[1] The song of Troy (1998), que comento na tradução de Maria D. Alexandre.

35857

02/12/2014

A BALADA DE ADAM HENRY: Ian McEwan, a dimensão do irreparável e a fachada cinzenta

Ian+McEwan

balada- capa

“Homens ocultavam recursos em contas do exterior, mulheres exigiam para sempre uma vida de conforto. Mães impediam crianças de ver os pais apesar de ordens judiciais; pais se negavam a oferecer sustento aos filhos apesar de ordens judiciais. Maridos agrediam esposas e filhos, esposas mentiam ou maquinavam ardis, um ou outro, bêbados, viciados em drogas ou psicóticos; e crianças, na prática, eram obrigadas a tomar conta de pais incapazes, crianças de fato vítimas de abusos sexuais ou mentais, ou ambos, seus depoimentos transmitidos numa tela ao tribunal. E fora da área de competência de Fiona, em casos das cortes criminais e não das varas de família, crianças torturadas, mortas de fome ou por espancamento, espíritos maus arrancados de dentro delas em ritos animistas padrastos jovens e cruéis quebrando ossos de bebês sob os olhares abobalhados e cúmplices das mães, e drogas, álcool, sujeira doméstica extrema, vizinhos indiferentes e seletivamente surdos para não ouvir os gritos, assistentes sociais descuidados ou atarefados demais para intervir…”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de dezembro de 2014)

A leitura de A Balada de Adam Henry me fez relembrar das bem-sucedidas peças de Peter Shaffer, como Real Caçador do Sol (1964), Equus (1973) e Amadeus (1979), nas quais com inteligência cênica (e boa dose de esquematismo, pois todas seguiam uma fórmula) um indivíduo disfuncional e incômodo[1], entretanto cheio de vida, no sentido pleno do termo (no que tem de dor e horror também) colocava em xeque o protagonista aparentemente realizado, “ajustado”. Textos de uma época em que a razão ocidental e seus parâmetros eram questionados visceralmente, ainda guardavam um quê da contracultura.

Fiona Maye, a protagonista de Ian McEwan em seu novo romance, é uma juíza da vara de família. Uma decisão controversa de sua parte afetará o futuro de Adam Henry, a poucos meses de se tornar maior de idade (o título original, The Children Act, refere-se à lei britânica correspondente ao nosso Estatuto da Criança e do Adolescente): testemunha de Jeová, ele recusava a transfusão de sangue que o salvaria de sequelas tenebrosas do tratamento de leucemia e da morte certa. Visando o seu bem-estar e pleno desenvolvimento (em especial, depois de visitá-lo no hospital), dentro do entendimento que a lei permite, apesar das convicções arraigadas do próprio rapaz e do respeito ao relativismo cultural, Fiona determina que ele receba a transfusão.

O problema é que Adam é um exaltado (e poeta, resgatando o sentido romântico que outrora revestia o epíteto), amante do absoluto (para quem foi jovem e idealista, será fácil reconhecer-se), por mais ridículo que pareça para os padrões atuais, quando até a juventude parece mergulhada na ironia e na negatividade. Ele se afasta da comunidade religiosa a que pertencia e passa a seguir Fiona, a qual representaria uma instância suprema diversa, a justiça secular, com outra sabedoria (pobre e iludido Adam!) e o poder de transfigurar o destino das pessoas. E dessa forma, no parco contato direto que tem com a mulher que salvou sua vida, ele a confronta com possibilidades transgressivas e insólitas (por exemplo, deseja morar com ela).

Mas nós, leitores, conhecemos muito bem, a essa altura, a juíza (Adam é focalizado de modo mais oblíquo — pudera, é um personagem espinhoso, roçando o improvável), sabemos que o marido a largou, à beira dos 60 anos, “por falta de ardor”, e que ela vive o cotidiano mais rotineiro e convencional, no que tais palavras podem sugerir de estreito, mesmo com uns laivos diferenciais (é musicista amadora, porém talentosa). Embora profissional capaz, justa, e uma boa pessoa, não há ninguém mais distante de ser um indivíduo estimulante — capaz de mudar, de fato, fora das prerrogativas legais, qualquer existência — do que ela.

Por infelicidade, num determinado momento, Fiona se deixa levar pela vitalidade voraz de Adam e comete uma ação impensada e ominosa, por todos os padrões da “normalidade”. E então, mesmo num formato narrativo limitado (vejo em A Balada de Adam Henry a vocação de um conto longo, esticado em demasia), Ian McEwan tem a oportunidade de colocar numa fábula de ambientação contemporânea a dimensão do irreparável, fundamento de seu livro mais celebrado, Atonement-Reparação (2001). Nele, o dano causado era retificado através das várias versões literárias que a perpetradora, uma escritora, se propôs ao longo da vida como expiação (uma delas, justamente o romance que líamos).

A questão fascinante suscitada pelos dilemas morais (numa época em que se prega, mas pouco se pratica, o respeito à diversidade) e pelos atos de consequência desastrosa no tecido narrativo de A Balada de Adam Henry se descortina quando o irreparável que se pratica não tem nem o esteio da reelaboração literária dos eventos. De volta a uma forma mais sucinta (não obstante Sweet Tooth-Serena, seu livro anterior, ser uma de suas melhores realizações), McEwan talvez atingisse novamente a voltagem crispada e implacável de sua obra-prima, Amsterdam (1998).

Nada feito. Ele preferiu (assim como sua Fiona) o morno, o cauteloso, aquele voo confortável nas asas da elegância estilística que já comprometera consideravelmente o escopo de Sábado (2006), outra fábula moral sobre a atualidade que prometia muito e resultava desfibrada. Temos muitas passagens citáveis (“Até onde era neurologicamente possível não pensar, ela não tinha nenhum pensamento”, na excelente versão de Jorio Dauster), nada incomuns, contudo, no time de prosadores britânicos de alto coturno, como Margaret Drabble ou Julian Barnes, para citar apenas dois nomes do seu naipe e próximos em faixa etária (e ambos já traduzidos no Brasil[2]).

O leitor, talvez injustamente, se sente meio Adam Henry, forçando a entrada para uma possível (e desejável) exploração em profundidade dos meandros morais o nosso estágio civilizatório, deparando-se com um cutucar a onça com vara longa demais, de dentro de uma zona de conforto bem delimitada. Daí a inesperada nostalgia pelos dramas maniqueístas (nunca chegavam ao fundo, decerto), todavia nada escassos em ardor, do mencionado Peter Shaffer. O Ian McEwan de A Balada de Adam Henry é todo ele uma impecável e indevassável fachada cinzenta

VER TAMBÉM NO BLOG

https://armonte.wordpress.com/2012/06/26/esplendores-e-miserias-de-reparacao/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/28/destaque-do-blog-serena-de-ian-mcewan-ou-as-praticas-invasivas/

balada

_________________________________________

NOTAS

[1] Como Atahualpa, em Real Caçador do Sol, pertencente a uma civilização diferente, “bárbara”, na visão do conquistador europeu. Mas sua função dramática não é muito diferente do perturbado Alan Strang de Equus e do Mozart tal como figurado em Amadeus.

[2] De Margaret Drabble recomendo  A era do gelo (1977), A geração do meio (1980) e A trilha luminosa (1987), publicados pela Rocco assim como diversos livros de Barnes, mais conhecido no Brasil nos últimos anos, após ter recebido o Booker Prize por O sentido de um fim (2011).

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/01/24/o-escritor-como-personagem-conan-doyle-e-seu-caso-dreyfus/

resenha mcewan

book1-sub-superjumbo

Próxima Página »

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.