MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/08/2011

O coração das trevas à beira do Báltico: o menino é o pai do homem II

O texto abaixo, na verdade uma leitura comentada, foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: O médico e o monstro, Bartleby, Memórias do Subsolo, A morte de Ivan Ilitch, O alienista, O mandarim, O coração das trevas & A volta do parafuso; em torno de cada um, analisei outros: William Wilson, O homem invisível, O duplo, O capote, A tumba dos ancestrais, O horla, O homem da areia, A vida privada, etc

“O maravilhoso e estranho dessa aventura arrebatou minh´alma, e eis por que, caro leitor, eu precisava despertar em você a inclinação para o fantástico, o que não é nada fácil, e me esforçar para começar a história de Natanael de forma significativa, original, surpreendente: Era uma vez, o mais belo começo para qualquer história, mas muito tímido… Não me ocorreu nenhum discurso que pudesse, pelo menos, refletir o brilho colorido do quadro que eu elaborara no espírito. Decidi então simplesmente não começar…”

                   (E.T.A. Hoffmann, O Homem da Areia, 1815)

 

         Der Sandmann- O Homem da Areia,  foi escrito em 1815 por E.T.A. Hoffmann, autor estudado por Freud, justamente pelo ponto de vista do umheimlich, o inquietante, o insólito, o sinistro até. Ernst Theodor nasceu em Königsberg (pertencente então ao Império Prussiano), em 24 de janeiro de 1776. Depois de muitos anos doente, e completamente paralisado, Hoffmann morreu em 25 de junho de 1822, aos 46 anos. Ele ficou famoso por suas histórias fantásticas e geralmente se associa à influência de Poe nos escritores que se aventuraram por esse caminho, embora o alemão tivesse a divulgação do inglês.

         O Homem da Areia (e não “de” areia) é uma história de cerca de 30 páginas divididas em duas epístolas de Natanael a seu amigo Lotar, com uma curta carta intercalada entre ambas, de Clara a Natanael, e depois da 3ª. missiva, o narrador assumindo o relato de forma abrupta.  O gênero epistolar, aliás, está estreitamente ligada às origens da narrativa moderna “sentimental”, leia-se psicológica.

         Natanael inicia a narrativa desculpando-se com seu amigo Lotar por não se comunicar com ele e a família já há bastante tempo: Ah, mas como poderia escrever-lhes com o estado de espírito tão dilacerado que vem me confundindo todos os pensamentos! Algo de terrível aconteceu em minha vida! Sombrios pressentimentos de um cruel e ameaçador destino estendem-se sobre mim quais sombras de nuvens negras, impenetráveis a qualquer benevolente raio de sol” [1] . Aqui temos o mote, o leitmotiv padrão para esse tipo de ficção: esse clima de angústia, “algo de terrível aconteceu ou vai acontecer”, “minha vida está destruída ou ameaçada”. O Horla segue justamente essa linha.

         O acontecimento terrível foi o aparecimento de um vendedor de barômetros no seu quarto de estudante, no dia 30 de outubro, exatamente ao meio-dia. Por que a pessoa desse “funesto caixeiro-viajante teve tal efeito pernicioso? Porque faz retornar temores e terrores da infância, ocasionando o já clássico “retorno do reprimido” freudiano. A originalidade de O Homem da Areia é que justamente o acontecimento mais terrífico está perdido na infância e portanto muito mais difuso e onipresente na vida adulta, ao contrário dos relatos em que o herói tem de enfrentar o medo como “novidade”.

       Quando Natanael era menino, após o jantar toda a família (os pais, ele e o irmão) iam para o gabinete do pai, o qual fumava seu cachimbo e bebia um grande copo de cerveja. Soando as nove horas, a mãe entristecia-se e dizia: “E agora, crianças, para a cama, para a cama.! O Homem da Areia está chegando, já posso sentir seus passos. O Homem da Areia é uma figura do tipo Bicho-Papão ou o Homem do Saco, com o qual minha mãe ou minha avó assustavam a mim e meus irmãos (será que a garotada de hoje ainda se assustaria? Difícil crer). E de fato, Natanael sempre ouvia passadas pesadas e lentas subindo a escada, algum tempo depois. Quer dizer, algo real acontece na vida dessa família e a mãe criou uma explicação sobrenatural que virou um mito infantil pessoal e ameaçador. Um dia, a mãe explica que não existe nenhum Homem da Areia: “Quando digo que o Homem da Areia está chegando, isso quer dizer apenas que vocês estão com sono e não conseguem manter os olhos abertos, como se alguém tivesse jogado areia neles”. Alguém acredita? Natanael, pelo menos não: “em meu espírito infantil desenvolveu-se claramente a idéia de que mamãe só negava a existência do Homem da Areia para que não ficássemos amedrontados. Ele fica obcecado pela figura do Homem da Areia ligado à noite, à vulnerabilidade do dormir, e, pior ainda, a uma possível relação do pai com esse ser fantasmagórico. Ele nutre o projeto de ver com os próprios olhos esse ente misterioso: Ele me conduzira para o caminho do maravilhoso, do romanesco, que com muita facilidade instala-se na alma infantil. Nada me agradava mais do que ouvir ou ler aterrorizantes histórias de duendes, bruxas e anões. Natanael se define então, para o amigo Lotar e para o leitor, como um homem da imaginação. Aliás, ele desenha a possível figura do Homem da Areia com giz ou carvão.

         Aos dez anos, Natanael resolve esconder-se no gabinete do pai, atrás da cortina que cobria um armário aberto ao lado da porta. Ele então descobre a identidade do Homem da Areia: o advogado Coppelius (podemos lembrar de O relógio, de Turgueniêv, dos negócios escorregadios do pai do narrador, inclusive com aquele padrinho escuso que lhe dá o relógio de presente que movimenta todo o relato): “a mais aterrorizante figura não me teria provocado tanto horror quanto aquele Coppelius”. Segue-se um retrato meio anti-semita, que nos dá uma espécie de judeu errante: A figura no conjunto  era medonha e abjeta; para nós, crianças, o que nos chocava mais eram suas grandes mãos, ossudas e peludas, tanto que evitávamos pegar no que tocassem. Ele notara essa repugnância, e então se divertia em bolinar com as mãos, sob esse ou aquele pretexto, um pedaço de bolo ou uma fruta que a boa mamãe deixara furtivamente em nosso prato. Nós, com lágrimas nos olhos, não conseguíamos mais desfrutar, por nojo e aversão, as gulodices antes destinadas ao nosso prazer. Coppelius é um desmancha-prazeres; mais profundamente porém é um envenenador da inocência, e (sei que mais uma vez demonstro meu lado malicioso) não consigo deixar de ver uma atmosfera sexual, de abuso latente, na última passagem citada, toda fundamentada em imagens hipertrofiadas de toque e repugnância. Feio e hostil, Coppelius estraga as reuniões familiares e Natanael nota o ódio e asco da mãe. Já o pai… “Papai comportava-se como se fosse ele um ser superior, com cujos maus costumes devia-se ter paciência e conservar o bom-humor”.

         Então a realidade junta no gabinete do pai duas figuras de Bicho-Papão, duas presenças ameaçadoras à vida familiar: o repugnante advogado, conviva de almoços, e o ser misterioso, companhia do pai a desoras. Natanael observa, “enfeitiçado” o pai e o visitante vestirem longas túnicas negras e descortinarem um laboratório alquímico: Ao inclinar-se em direção ao fogo, meu pai parecia outro. Uma dor cruel e convulsiva parecia metamorfosear seus traços na mais horrenda e repugnante imagem diabólica. Ele se assemelhava a Coppelius!”  Durante os experimentos estranhos daquela estranha associação que desmoraliza totalmente o pai aos olhos do filho, Coppelius repete aos gritos: Que venham os olhos, que venham os olhos!” Aterrado, Natanael berra e sai do seu esconderijo; agarrado pelo advogado, é jogado sobre o fogão e sente seus cabelos chamuscados. Coppelius diz: Agora temos olhos, olhos, um lindo par de olhos infantis” (note-se que ele ia pagar o pato com o órgão  que rege a sua vontade de saber a respeito do Homem da Areia: a visão). O pai implora “Mestre, Mestre, e Natanael desmaia, acordando com a mãe inclinada sobre ele (e, significativamente, “beijando e acariciando o filho predileto, agora inimigo do pai).

         Natanael fica de cama por várias semanas. Coppelius sumira. Diziam que deixara a cidade.

O narrador adverte seu destinatário: Devo contar-lhe ainda o mais terrível momento de meus anos de infância; então ficará convencido de que não é culpa de meus olhos se agora tudo me parece descolorido, que realmente uma fatalidade cobriu minha vida com um denso céu de nuvens, que só com minha morte, talvez, se dissipará”.

         Transcorre um ano, e uma noite, justamente às nove horas, ouvem-se os passos lentos e pesados de Coppelius. A mãe diz ao pai: “Meu amigo, meu amigo! Precisa ser assim?” “Pela última vez”, responde o pai.

         No seu quarto, Natanael não consegue dormir. Ouve, então, a porta da frente batendo ruidosamente e um lamento horrível no gabinete do pai, para o qual ele se precipita: Diante do fogão fumegante, no chão, encontrava-se meu pai, morto, com  o rosto terrivelmente desfigurado e queimado” e a mãe ao lado do cadáver, desmaiada. Natanael grita: “Coppelius, maldito Satã, você assassinou meu pai!” Coppelius desaparecera, entretanto. Até ressurgir na figura do vendedor de barômetros, com o nome de Giuseppe Coppola: Estou decidido a enfrentá-lo e vingar a morte de meu pai, aconteça o que acontecer”.

         Na segunda carta, Clara, irmã de Lotar, escreve a Natanael. Logo de início, percebemos que ela é o oposto de seu interlocutor: ele se deixa arrastar pela imaginação, e ela é sensata: se a casa desabasse, eu agiria como aquela mulher que, antes da fuga rápida, ainda arrumou as cortinas da janela. Uma afirmação desconcertante deixa isso mais claro ainda: Não me leve a mal, meu querido, se Lotar lhe disser que eu, apesar do seu estranho pressentimento de que Coppelius irá prejudicá-lo, estou tão serena e despreocupada como sempre. Isso porque ela acredita que a sensibilidade exacerbada de Natanael criou a maior parte do incidente, e principalmente as associações (Homem da Areia/advogado repugnante/desprezo pelo pai) fez com que mantivesse no espírito um crime imaginário: “As práticas sinistras com o seu pai, à noite, nada mais eram senão experiências alquímicas secretas, com os quais sua mãe se afligia, já que certamente muito dinheiro era desperdiçado… Seu pai, com certeza, por um descuido qualquer, causou a própria morte, e Coppelius não poderia ser acusado”. Eis a voz da razão, e nossa amiga poderia ser crítica literária.

         E então começa a segunda carta de Natanael, que afirma já não acreditar que Coppelius/Coppola são a mesma pessoa, principalmente pela garantia do professor de física Spalanzani, com o qual ele tem aulas, um tipo esquisito. Mais uma vez há uma cortina escondendo algo, nesse caso na casa do professor. Natanael, que pelo visto não aprendeu a lição da infância, resolve espiar através dela: Uma moça alta e muito magra, esplendidamente vestida, estava sentada no quarto diante de uma mesinha, sobre a qual pousava os braços, com as mãos cruzadas. Estava sentada diante da porte, de forma que pude ver com clareza o seu belo rosto angelical. Ela pareceu não me notar, e seu olhar tinha algo de fixo, diria até que não via nada, como se ela dormisse de olhos abertos”. Logo de saída, percebemos na filha de Spalanzani, Olímpia, o atributo da imobilidade e do quietismo excessivo.

         Natanael informa que passará algum tempo com a família de Lotar e Clara, e aí o relato passa para as mãos do narrador anônimo (que se dirige ao “caro ou benevolente leitor”), amigo do pobre estudante Natanael: “Devo confessar, caro leitor, que ninguém me pediu que contasse a história do jovem Natanael; mas você bem sabe que pertenço à peculiar espécie de autores que, carregando consigo algo como o que acabei de descrever, tem a sensação de que todos que se aproximam, e ainda o mundo inteiro, perguntam: O que aconteceu? Conte, meu caro! Foi essa força que me arrastou a contar o fatal destino que assaltou a vida de Natanael” [2] .

         Ele nos explica que Lotar e Clara, órfãos de um parente afastado, foram acolhidos pela mãe de Natanael, e que este último cultivava afeição (correspondida) por Clara, ou seja, aquele tipo de círculo íntimo padrão na época. Cresce-se junto, apaixona-se no grupo, há uma amada, há um amigo especial. É a continuação da família na vida adulta.

         O narrador diz que para muita gente Clara era fria, insensível e prosaica. Natanael fica muito contente em reencontrá-la e aos seus, mas nem por isso a sombra da repugnante figura do vendedor de barômetros Coppola deixa de ser evidente: logo começou a agir de modo estranho, como ninguém vira antes. Tudo, toda a vida era para ele sonho e pressentimento: falava sempre que toda pessoa, julgando-se livre, só fazia servir a poderes obscuros, num jogo cruel, contra os quais é inútil revoltar-se; devia-se submeter humildemente àquilo que designara o destino. Para a sensata Clara aquelas exaltações eram desagradáveis, principalmente a idéia de Natanael de que sua alma fora maculada pelo Espírito do Mal (Coppelius) ao espreitar atrás da cortina na infância (Freud deve ter se deliciado com essa imagem). Ela lhe dá um conselho bastante razoável: Coppelius terá poder sobre ele enquanto não o banir do espírito: “Enquanto acreditar nele, ele existirá e agirá; sua credulidade é a força dele”. O Homem da Areia continua agindo, vindo da remota infância. Natanael irrita-se com a insistência de Clara em atribuir a existência do Mal apenas ao seu fraco espírito, à sua débil força de vontade em libertar-se e passa a considerá-la  uma “natureza inferior”, não-apta a aprofundar-se ou compreender os mistérios do espírito. Ele quer ler passagens de livros místicos e ela o repele: “Outrora ele alimentara um talento especial para a composição de histórias encantadoras e graciosas, as quais Clara ouvia com o maior prazer; agora seus textos eram sombrios, incompreensíveis, disformes, de modo que, mesmo quando Clara não o dizia, ele mesmo sentia que eles pouco lhe haviam interessado. Nada era para Clara pior do que o tédio; em seu olhar e em suas palavras expressava-se uma invencível sonolência mental. Ora, as composições de Natanael eram de fato entediantes. Seu desgosto para com o espírito frio e prosaico de Clara aumentou, e esta não podia superar a sua irritação com o sombrio, obscuro e entediante misticismo de Natanael e, sem perceber o fato, ambos se distanciavam cada vez mais um do outro” [é o gosto romântico aflorando, sendo incompreendido, no início do século XIX].

         Natanael resolve escrever uma história sobre Coppelius e olhos. Ela fica horrorizada quando a ouve e aconselha-o a queimá-la: “Indignado, Natanael levantou-se abruptamente e gritou: Maldito autômato sem vida!”. A moça boazinha e insípida realmente não pode apaziguar alguém dominado pelo retorno do reprimido. Lotar, ofendido por causa da irmã com o comportamento de Natanael, desafia-o para um duelo. Na hora H, Clara intervém conseguindo reconciliar os amigos e fazer renascer (melancolicamente, diz o narrador) o amor de Natanael por ela.

         Ele tem de voltar para mais um ano (o último) de estudos em G. (possivelmente Glogau, onde o próprio Hoffmann viveu certa época de sua vida, aos vinte anos, após a morte da mãe).

         Quando chega ao seu dormitório, encontra tudo queimado. O fogo começara no laboratório do boticário que morava no andar abaixo. Natanael instala-se em outro quarto, em frente à casa do professor Spalanzani: “de sua janela podia olhar diretamente no quarto onde freqüentemente Olímpia sentava-se solitária, de modo que agora podia nitidamente contemplar sua silhueta, ainda que as feições do rosto permanecessem indistintas e confusas. Finalmente, pôde notar que Olímpia sentava-se à pequena mesa muitas vezes horas a fio na mesma posição e sem qualquer ocupação [e ele não acha estranho? Não, não acha, só fica deslumbrado com a beleza dela], do mesmo jeito que a vira, tempos atrás…”

         Batem à porta e quem é? Coppola, que não vende mais barômetros e sim “olhos”, belli occhi”. Chocado, Natanael pergunta como alguém pode vender olhos? [segundo o que li, olhos são uma obsessão que ataca esquizofrênicos]. Coppola tira do bolso do sobretudo lornhões, óculos, lunetas e outros produtos ópticos: Milhares de olhos olhavam e piscavam convulsivamente, dardejando Natanael; este não conseguia desviar o olhar da mesa, e Coppola continuava tirando cada vez mais óculos, e cada vez com mais voracidade olhares inflamados saltavam uns sobre os outros [estamos numa atmosfera de sonho ou pesadelo, não acham? O clima é mais onírico do que real. Como alguém poderia ter milhares de aparelhos ópticos consigo; e sua transformação em olhares inflamados?]atirando no peito de Natanael seus raios vermelhos de sangue. Dominado por um terror delirante, ele gritou: Pare, pare com isso, homem terrível!”.  É a lembrança de Clara que acalma Natanael e o restitui à razão: reconheceu que todas aquelas aparições  eram fruto de seu cérebro, como também que Coppola era um mecânico e ótico extremamente respeitável e de forma alguma o maldito sósia ou fantasma de Coppelius. Para compensar, compra um pequeno binóculo de bolso do sujeito: Nunca em sua vida vira uma lente que trouxesse aos olhos os objetos de forma tão pura, límpida e nítida”. É assim que ele contempla o semblante de Olímpia do outro lado da rua: Apenas os olhos pareciam-lhe estranhamente hirtos e mortos. Mas à medida que a contemplava com mais cuidado, tinha a sensação de que dos olhos de Olímpia saíam úmidos raios de luar. E, é óbvio, apesar de Clara, ele fica “enfeitiçado” com a inebriante visão.

         Haverá festa na casa do professor Spalanzani, com concerto e baile, e metade da Universidade fora convidada. Era a apresentação em sociedade, pela primeira vez, da filha. Natanael recebe convite: “Olímpia apareceu vestida ricamente e com muito bom gosto. Seu rosto e seu corpo, de belas formas, foram inevitavelmente admirados. Mas muitos a acham rígida e comedida demais. Só Natanael está completamente deslumbrado, principalmente quando ela toca piano e canta uma ária (com voz límpida, evidentemente, com a “sonoridade de um sino de cristal”).

         Na hora do baile, ele dança com ela: A mão de Olímpia estava gelada, o que fez com que sentisse um arrepio mortal. Fitou-a nos olhos, que só lhe transmitiam amor e desejo, e naquele momento, foi como se as artérias de sua mão começassem a pulsar e o sangue da vida corresse ardente por suas veias glaciais. Ardendo de paixão [notem as antíteses, típicas do alto Romantismo], Natanael enlaçou a bela Olímpia pela cintura e deslizou com ela por entre os pares do salão”.  Ele se declara a ela, que sofre uma estranha indiferença por parte dos outros rapazes. Quem parece satisfeito com a situação é o professor Spalanzani. Na hora de partir, Natanael beija a mão de Olímpia (que ainda não ouvimos dizer nada), a qual, inclinando-se sobre a sua boca, tocou-a com seus lábios frios como gelo! Assim como quando tocara as mãos frias de Olímpia, viu-se penetrado por um profundo terror: repentinamente lembrara-se da lenda da Noiva Cadáver; mas Olímpia o abraçara com ternura e o ardor de seu beijo fazia com que seus lábios ganhassem vida. Ele pergunta se ela o ama e ela responde duas vezes: Ah, ah!”. Muito eloqüente, nossa amiga Olímpia [que já tem esse nome “olímpico”, distante, inacessível].

         O professor convida o aluno a visitá-los com freqüência, já que ele conversou “animadamente” (sim, esse é o termo usado) com a filha. E os comentários sobre a festa  espalham-se: “Não obstante o professor tivesse feito tudo para receber a todos com magnificência, as pessoas mais atentas puseram-se a contar toda espécie de fatos singulares, falando principalmente da inerte e muda Olímpia, a quem se atribuía, a despeito da formosura, uma total estupidez. Viam nisso a razão pela qual Spalanzani a mantivera isolada por tanto tempo”. Sigmund, um colegas, provoca Natanael por se entusiasmar por uma “boneca de madeira”. Ele replica: Talvez a vocês, pessoas prosaicas, Olímpia possa parecer sinistra. Apenas ao espírito poético revelam-se tais personalidades… e só no amor de Olímpia posso reencontrar o meu ser!” E a essa altura ele esqueceu completamente de Clara: ele só vivia para Olímpia, na casa de quem ficava diariamente horas a fio”. Olímpia o ouve, a seus textos, essas horas a fio, a ouvinte perfeita, não manifestando opiniões contrárias e críticas como Clara: “Ó, alma esplêndida e profunda, somente você me compreende” [esse Natanael parece tão bobão que até tem algo de cômico, como acontece com personagens de Goethe como Werther e Wilhelm Meister].

         Natanael quer pedir Olímpia em casamento e é encorajado pelo pai dela. Resolve ofertar um anel que sua mãe lhe dera na despedida: “Naquele momento, as cartas de Clara e de Lotar lhe caíram às mãos, e ele com indiferença repeliu-as; encontrou o anel, guardou-o e correu à casa de Olímpia”. Ao chegar lá, percebe uma agitação tremenda no gabinete de trabalho do professor: “Arrastar de pés, um estranho ruído, batidas, golpes contra a porta, em meio a maldições e imprecações . Ouve o seguinte diálogo (entre Spalanzani e Coppola): Largue-a” “Não foi assim que combinamos” “Eu, eu fiz os olhos”, “E eu, o mecanismo” “Aos diabos com o seu mecanismo, cão maldito, relojoeiro simplórioetc. Adentrando ali, angustiado, vê o professor segurando Olímpia pelos ombros, e esta sendo puxada e arrastada por Coppola para outro, os dois brigando pela sua posse: “Coppola virou-se com uma força gigantesca e, arrancando o corpo de Olímpia das mãos do professor, aplicou-lhe, com a própria moça, um terrível golpe na cabeça, de forma que este cambaleou e caiu de costas sobre uma mesa cheia de retretas, tubos de ensaio, garrafas e cilindros de vidro; tudo aquilo se partiu em mil cacos. Coppola lançou então a figura feminina nos ombros e correu pela escada gargalhando horrível e estridentemente, fazendo com que os pés daquela miserável figura humana, dependurados desordenadamente, fossem quicando pelos degraus, estalando como madeira. Natanael estava atônito, com muita clareza pôde ver que o rosto de cera mortalmente pálido de Olímpia era desprovido de olhos, cavidades negras ocupavam seu lugar: era uma boneca inanimada”.

         O sangue jorra do professor como se ele fosse um chafariz, em meio aos vidros quebrados, mas ele grita: “Coppelius, Copellius, você me roubou o meu melhor autômato, trabalhei nele durante vinte anos, dediquei-me de corpo e alma, o mecanismo, fala, andar, são meus, os olhos, os olhos, roubei de você, aqui estão os olhos… Natanael então percebeu no chão um par de olhos ensangüentados fitando-o fixamente”.  Será que por ter espiado as atividades do pai aos dez anos ele sofrerá sempre esse castigo? Ele tenta matar o professor, mas chega uma multidão que salva Spalanzani e Natanael, dando golpes ao redor com os punhos cerrados (precisa-se de muita gente para contê-lo) e vociferando palavras sem sentido é encaminhado para o manicômio.

         Spalanzani é obrigado a abandonar seu cargo na Universidade por causa do escândalo e da burla: A fim de se convencerem por completo de que não estariam amando uma boneca de madeira, vários amantes exigiram que as amadas cantassem e dançassem um pouco fora do ritmo, que, ao ouvirem uma leitura, bordassem, tricotassem e brincassem com o cãozinho; mas sobretudo que não apenas ouvissem e falassem às vezes de uma maneira que as palavras demonstrassem o que realmente pensavam e sentiam… Nunca se pode saber com  certeza, dizia um ou outro”.

         E Natanael desperta como de um sonho pesado e horrível: Abriu os olhos e percebeu que uma indescritível sensação de prazer o percorria com um calor suave e celestial. Estava na casa de seus pais, Clara se havia inclinado sobre ele, e não muito longe, estavam a mãe e Lotar”. Os sinais de loucura haviam desaparecido e ele recupera suas forças, graças aos cuidados da mãe, da noiva e dos amigos, Lotar e Sigmund. Acima de tudo, “reconheceu o espírito puro, divino e esplêndido de Clara. Ninguém fazia a menor alusão ao passado”.

         Antes de mudarem todos para uma propriedade rural herdada, passeiam pela cidade e Clara propõe que subam até a alta torre da Prefeitura, para olhar as montanhas: “E lá estavam os dois namorados, de braços dados, na mais alta galeria da torre, olhando as profundezas dos bosques perfumados, atrás dos quais os picos das montanhas azuis erguiam-se como uma cidade de gigantes” . E, numa volta do parafuso, reentramos no elemento umheimlich, na atmosfera onírica ou de pesadelo: Natanael acha nos seus bolsos o binóculo vendido por Coppola (que é uma forma diferente de olhar, e sabemos os perigos dessa atividade para o nosso herói): Clara estava diante das lentes! Um estremecimento convulsivo percorreu suas veias e seu pulso. Pálido, como a morte, fitou-a fixamente… De repente os olhos dela, girando em suas órbitas, expeliram raios de fogo; ele começou a uivar como um animal acuado… com uma violência formidável pegou Clara para precipitá-la lá de cima, mas ela, com medo de morrer, agarrou-se com firmeza à balaustrada. Lotar assiste à cena e corre para socorrer a irmã. Ele arromba a porta: Clara, erguida pelo furibundo Natanael, pairava no ar, do lado de fora da balaustrada… Rápido como um raio, Lotar pegou a irmã, atirou-a sobre a plataforma e no mesmo instante deu um soco no alucinado, de forma que esta cambaleou, soltando sua presa da morte. Lotar desceu correndo com a irmã desfalecida nos braços. Ela estava salva. Natanael corria pelo terraço, saltava no ar e gritava… Com essa gritaria selvagem, as pessoas acorreram, dentre elas o advogado Coppelius, que acabava de chegar à cidade… As pessoas queriam subir e dominar o louco furioso. Coppelius pôs-se a rir, dizendo: Esperem que logo ele vai descer sozinho, e, como os outros, olhou para cima. Subitamente, Natanael parou como que petrificado; então se debruçou, percebeu a presença de Coppelius, e com um grito, Ah, bonitos olhos, belli occhi, saltou por sobre a balaustrada. Enquanto Natanael, com a cabeça estraçalhada, jazia no chão, Coppelius havia desaparecido na multidão”.

         O último parágrafo fala do destino da sensata e serena Clara: mais tarde encontrou um simpático homem, casou-se com ele, e numa bonita casa de campo criaram duas saudáveis crianças.


[1] Utilizo a tradução de Cláudia Cavalcanti para a coleção Lazuli da Imago, na coletânea Contos fantásticos que reúne ainda mais dois textos de Hoffmann.

[2] É um longo e digressivo titubear scherezadiano para chamar a atenção do leitor, simulando a dificuldade de narrar a história, após nos ter fisgado com as cartas. Uma observação deve ser citada: Talvez, então, o leitor acredite que nada é mais fantástico e louco do que a vida real, e que o escritor só poderia apreender tudo isso como um reflexo confuso de um espelho mal polido”. Hoffmann acaba aqui com a idéia de mimesis enquanto “imitação”: a ficção apreende a vida na “deformação”, no reflexo confuso de um espelho mal polido.

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26/08/2011

O menino é o pai do homem?

(o texto abaixo, na verdade uma leitura comentada, foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: O médico e o monstro, Bartleby, Memórias do Subsolo, A morte de Ivan Ilitch, O alienista, O mandarim, O coração das trevas & A volta do parafuso; em torno de cada um, analisei outros: William Wilson, O homem invisível, O duplo, O capote, A tumba dos ancestrais, O horla, O homem da areia, A vida privada, etc)

 

 

 

“Mas não é este o resto do livro. O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente.”

(Machado de Assis, Dom Casmurro, 1899)

“O essencialmente novo em minha teoria é a afirmação de que a memória não se encontra numa versão única, mas em várias, ou seja, que se acha transcrita em diferentes classes de signos…”

(Freud, Correspondência com Wilhelm Fliess, carta 52, 1896)

Das histórias curtas de  Ivan Turguêniev, tão cultuado por James & Conrad, entre outros, eu até preferiria comentar Mumu (1854), uma obra-prima em que ele retrata acidamente a própria mãe (que lhe atormentou a existência; só depois da sua morte é que ele “destravou” como escritor), porém é uma história que sempre me entristece, pois a intolerância da senhora da casa obriga o criado a matar sua cachorrinha. Por isso, optei por outra história, O relógio (1850). Outro motivo tem a ver com a escolha de adolescentes (e indicando isso com muita ênfase, o que não era comum no século XIX, e James seria um dos que abriram caminho para uma percepção dessa faixa etária que não pagasse tributo ao convencional, Tom Sawyer que me perdoe). O interessante é que o relato é retrospectivo, mas pára justamente no “turning point” que marca a adolescência do narrador. O máximo que conhecemos da vida adulta são algumas indicações vagas e a sombra que os eventos narrados deixaram na sua existência. É como um Dom Casmurro ou um Grandes Esperanças dos quais só fosse contada a parte inicial da vida, mas que nos deixasse pressentir o “todo”.

Bem, como de praxe, falemos um pouco do autor: Turguêniev seria o antípoda de Dostoiévski e do tardio Tolstói, já que estes são eslavófilos, enquanto ele era da corrente cosmopolita, ligado à cultura européia, especialmente a francesa. Nascido em 1818 em Orel, viveu bastante tempo fora da Rússia, na Alemanha e na França. Em Paris (onde passou a viver nos anos 70) conviveu com Flaubert de quem foi grande amigo, e também com Henry James, o qual, após a morte de Turguêniev (em 1883), escreveu um extenso elogio sobre ele como pessoa e escritor.  Com relação a este último aspecto nos interessa a seguinte passagem: “Nada que Turguêniev tivesse a dizer poderia ser mais interessante do que seus comentários a respeito da sua obra, da sua maneira de escrever. Aquilo que o ouvi contar sobre isso era digno dos resultados magníficos que produziu; do profundo propósito que perpassa todas suas obras, de nos mostrar a vida em si mesma[eu nunca vi Henry James elogiar ninguém, nem mesmo Guy de Maupassant, sem reservas de qualquer tipo]. O germe de uma história, para ele, jamais era uma questão de trama, essa era a última coisa em que ele pensava: tratava-se da representação de certas pessoas. A primeira forma em que um relato surgia para ele era na figura de um indivíduo, ou uma combinação de indivíduos, que ele desejava ver em ação… Eles se erguiam à sua frente bem definidas, nítidas, e ele queria conhecer, e mostrar, o mais possível de sua natureza… a história toda se apoiava na pergunta: o que farei com eles? Sempre os levava a fazer algo que os revelava completamente; mas, como dizia, o defeito do seu método e a objeção feita a ele era a sua falta de arquitetura; em outras palavras, de composição….  A história, no sentido convencional da palavra, é a mais escassa possível. Resume-se aos movimentos de um grupo seleto de criaturas, que não constituem o resultado de uma ação preconcebida, mas uma conseqüência dos atributos dos atores” . Creio que isso define a fundação do moderno conto psicológico. Turguêniev mesmo afirmou: “Não começo a escrever antes que o personagem se tenha tornado um velho conhecido meu, antes que eu o veja e ouça sua voz”.

O relógio tem como subtítulo Relato de um velho em 1850  e é, muito antes de Proust, um exercício de reminiscência muito bonito. O “velho” narrador, Alieksei, em 1850 começa assim seu relato: Vou contar-lhes uma história curiosa, a história de um relógio. Ela se passa no início deste século XIX, em 1801”[1] . Enquanto batalhas ideológicas dividiam a Rússia na metade do século, Turguêniev se volta para outra época convulsiva: em1801, a era napoleônica prolongava a virada social gerada pela Revolução Francesa e pela Independência dos EUA. Os franceses (no sentido revolucionário, os jacobinos) eram o inimigo.

O procedimento de Turguêniev também lembra o de Machado de Assis que projeta seus narradores de romance (por exemplo, Brás Cubas) num tempo ligeiramente recuado. Pois bem, seu narrador diz quem em 1801 tinha dezesseis anos e morava em Riazan, com o pai (a mãe morrera),um “rábula” (advogado de segunda) uma tia solteirona, muito desagradável, e um primo (filho de um “jacobino”, deportado para a Sibéria em 1797; o filho se chama, afrancesadamente, David). Esse primo, um ano mais velho,  espadaúdo e forte, é o ídolo de Alieksei: “Minha tia não o suportava, e, quanto ao meu pai, ele até parecia temê-lo. Ou quem sabe se sentisse culpado: diziam na cidade que, seu meu pai não tivesse dado com a língua nos dentes, se não tivesse entregado o irmão, o pai de David não teria sido enviado para a Sibéria”. O que se percebe de imediato é que a política atravessa o campo familiar, questões públicas influenciam a vida privada. É uma casa dividida.

O padrinho de Alieksei é Nastassêi Nastassêitch, “um péssimo sujeito, uma atravessador, sempre metido em negociatas… Mas era útil ao meu pai”.  É ele quem o presenteia com o relógio que dá título à narrativa, “um relógio de prata, um cebolão, com uma roseta pintada no mostrador e uma corrente de bronze”. O presente causa comoção na casa, mas para a decepção de Alieksei,  David demonstra desprezo por ele ter aceitado o relógio de um homem da laia de Nastassêi Nastassêitch. Alieksei pensa: “Quer dizer que ele me reprova. Talvez aos seus olhos eu também seja um sujeito ordinário. Ele jamais se rebaixaria assim… Mas o que eu podia fazer? Devolver o relógio era impossível. Tentei conversar com David, pedir-lhe um conselho. Ele me respondeu que não dava conselhos a ninguém e que eu fizesse o que quisesse. O que quisesse! É fácil dizer isso. Lembro-me de que passei aquela noite em claro, torturado pelos meus pensamentos. Iria me custar muito separar-me do relógio… Mas sentir que Davi me desprezava… isso me parecia insuportável”. Como se vê, o relógio acirra os ressentimentos e dissensões da casa:  um tio deportado, um pai que se dá com sujeitos escusos e que pode ter delatado o irmão, um primo revoltado, uma tia que tem raiva dos sobrinhos e que baba de prazer diante de um objeto caro e vistoso (ela obrigou Alieksei a beijar a mão do repulsivo padrinho).

Alieksei resolve dar o relógio de presente a um garoto que esmola perto da sua casa. Dois dias depois: “eu não parava de pensar no relógio. A aprovação, a suposta aprovação de David, não me servia de consolo. Mesmo porque ele não a demonstrava… Por fim, não agüentei mais e saí sorrateiramente de casa, a fim de procurar o garoto a quem dera o meu relógio”.

Através de humilhações (o pai do garoto é um soldado reformado e amargo) e do sacrifício de um rublo, ele recupera o presente do padrinho: “Estava novamente com o relógio, mas isso não me dava nenhum prazer. Não me atrevia a usá-lo; era preciso esconder de David o que eu fizera. O que ele iria pensar de mim?” Contudo, David logo se dá conta dos seus expedientes e lhe diz que sabe que o relógio ainda está em seu poder. E novamente Alieksei se obriga a se desfazer do cebolão; dessa vez, ele o dá a um criado, Iúchka: Eu estava plenamente convencido de que nunca mais me acusariam de não ter caráter, pois esse relógio, esse presente repugnante do meu repugnante padrinho, havia-se tornado para mim tão odioso que eu já não compreendia como pudera me arrepender de tê-lo dado”. O que fica claro aqui é a diferença entre os primos: atitude inabalável e firme do primo; pusilanimidade, hesitação, recalcitrância e necessidade de afeto e respeito de outro, por parte de Alieksei. Em meio a essas idas e vindas do relógio, morre o Czar e seu filho, mais liberal, sobe ao trono. Há esperança de libertação de Iégor, pai de David. Os dois primos devaneiam: “Ficávamos pelos cantos, imaginando quantos meses, quantas semanas, quantos dias faltavam para a volta do Irmão Iégor e como seria a nossa vida depois da sua volta. O Irmão Iégor era arquiteto; decidimos que ele deveria se mudar para Moscou e construir ali grandes escolas para os pobres, e que nós seríamos seus auxiliares. Alieksei mantém sua aliança com David contra o pai e a tia, tanto que deseja ir-se de casa junto com o primo e o tio. Entretanto, como ele mesmo afirma, “o cebolão de prata tinha o firme propósito de não cair no esquecimento”.

No próximo capítulo (o sétimo), a tia irrompe no quarto gritando com ele, xingando-o, dizendo que foi convocado pelo pai. Este por sua vez lhe dá uma bofetada (que deve ter causado grande prazer à minha tia, pois a ouvi cacarejar de prazer; James em seu ensaio fala do amor de Turguêniev por Dickens e a influência é claríssima, esses parentes ou responsáveis por crianças e adolescentes cruéis e sádicos, e as “alianças” redentoras entre os fracos, no sentido social) e mostra que o ardil foi descoberto porque Iúchka vendeu o relógio, o qual, exposto numa vitrine, fora reconhecido pelo padrinho.

A tia se propõe a guardar o relógio e dá-lo a alguém mais merecedor, um tipo dos mais dissimulados chamado Krisante Lúkitch (o padrinho “saboreia” toda a cena “com os seus olhos de raposa). Alieksei, então, indignado, resolve furtar o relógio que era dele, à noite, enquanto todos dormem: “Eu ardia de terror e alegria à simples idéia do crime. Franzindo o cenho, murmurava: Esperem só. Eu me sentia ameaçador, mau, perigoso, e evitava David. Ninguém, nem mesmo ele, poderia nutrir a menor suspeita sobre o que eu desejava perpetrar! Agirei só, e sozinho responderei pelo meu ato!”  Vejam que está havendo uma transformação em Alieksei, que começa a ficar mais decidido, mais temerário, menos dependente do primo.

É deliciosa a narração do furto: “Alto! Que ruído foi esse? Sentia meu corpo formigar… Fiquei à escuta, mas não ouvi nada. Prossegui. Estava escuro, mas sabia o caminho. De repente esbarrei numa cadeira. Que barulho e que dor! A pancada foi bem na canela. Será que acordaram? Crescia a coragem. A sala de jantar já ficara para trás; abri a porta que dava para o vestíbulo com um puxão. A maldita rangeu, nem por isso parei; subi afoitamente a escada, um, dois! um, dois! A segunda porta estava apenas encostada: adentrei o corredor”. No quarto da tia, a chama do ícone religioso, ela imóvel como morta, o relógio pendurado em cima da cama. Algo roça a perna esquerda de Alieksei. Com um grito estrangulado na garganta, constata que entrou com ele o gato da casa. Ele o afaga. Depois pega o relógio e a tia se ergue, com os olhos bem abertos. Mas ela está se mexendo, falando dormindo. Ele sai com o relógio.

Alieksei e David decidem enterrar o relógio, para encerrar o assunto, no pomar atrás da casa, sob uma velha macieira. Tumulto na casa devido ao roubo. Histerismo da tia, Peláguia Pietróvna. O pai liquida o assunto, dizendo que não quer ouvir falar novamente do relógio: “Minha tia, morta de raiva, teve de se contentar em fazer caretas e me chamar de ladrão em voz baixa, cada vez que passava por mim.

Turguêniev dizia ser fraco na “arquitetura”, isto é, na composição. Nada desmente mais isso do que O relógio. Ele termina essa seqüência de capítulos, criando expectativa e introduzindo um personagens que enriquecerão a história( e lhe darão nova tonalidade, mais melancólica e triste): Quem acha que a história do relógio terminou, engana-se redondamente. Ela ainda renderia muito. Para poder prosseguir o meu relato, devo apresentar uma personagem nova, e, para fazer isso, preciso contar alguns fatos anteriores”.

O pai de Alieksei fazia negócios com um funcionário aposentado, Látkin, um sujeito que não possuía boa aparência, nem o dom da palavra. Um dia, eles romperam a sociedade e a amizade devido a uma traição de Látkin, na verdade uma crise de consciência: Látkin abriu os olhos de um de seus clientes, um jovem e rico comerciante, para uma certa… uma certa jogada, que deveria trazer grandes vantagens ao meu pai” (o episódio, assim como outros indícios, não lança uma luz muito favorável sobre o caráter desse pai). Látkin pede perdão, porém em vão, pois é expulso da casa. O ex-sócio lhe diz: O senhor é muito cheio de escrúpulos! Vai acabar na rua da amargura e será bem feito!”  Como diz Alieksei, o destino parece ter ouvido esse cruel desejo. Pouco depois do rompimento (que acontecera dois anos antes, então por volta de 1799), Látkin fica viúvo e sofre um ataque apoplético e uma de suas filhas fica surda e muda. A família mergulha na mais negra miséria, vivendo numa choupana. A filha mais velha, Raíssa (ou Amorinha, devido a uma marca de nascença acima do lábio superior), é que foi anunciada como a “personagem nova” do relato. Ela e David são muito unidos, apesar da proibição do pai de Alieksei. Quanto ao pai dela, a apoplexia que o acometera “deixara uma seqüela estranha: seus braços e pernas, mesmo enfraquecidos, não lhe eram de todo inúteis e o seu cérebro até que funcionava vem; mas a sua língua se enrolava e ele trocava as palavras; era preciso adivinhar o que ele queria dizer. Ti, Ti, Ti, balbuciava com esforço (ele começava qualquer frase sempre com Ti, Ti, Ti), a tesoura! E tesoura significava pão”. Através de Raíssa, David e Alieksei ficam sabendo da miséria quotidiana da família: “Suas necessidades aumentavam a cada dia”. Por isso, Alieksei atribui a Raíssa uma maturidade maior do que a das moças de dezesseis anos.

Ele relembra a morte da mãe dela e a necessidade de achar um caixão em conta, entre outras situações de aperto. David diz para ela não chorar. Ela: “Chorar, eu? Ou faço a comida ou choro; das duas, uma.

Após o enterro do relógio, Raíssa (uma preocupação constante para David) é um pouco deixada em segundo plano, pela perspectiva da volta do jacobino Iégor: “David não admitia que pudéssemos continuar em Riazan. Alieksei diz: Vocês partirão, mas eu terei de ficar aqui. David: Bobagem! Nós te levamos conosco! E o meu pai? Teu pai? Tu o deixarás, ora! Se não o deixares, estarás perdido (creio que não se podia ser mais eloqüente em condenar um tipo social, representante de uma classe). Mesmo assim, ele lembra de informar a Alieksei que pretende desposar Raíssa. No entanto, nada de chegar ou mandar notícias o pai de David! “Nesse meio-tempo, começaram a correr boatos de que a saúde de Látkin piorara e de que a sua família, se não morresse de fome, poderia ser esmagada pelo desabamento do telhado da choupana onde morava.

E de repente Alieksei percebe que o relógio foi desenterrado. Sua primeira suspeita recai sobre David, e ele o justifica, pensando que deve ter sido para auxiliar a família de Raíssa. Mas não confiar nele: “eu me sentia traído”. Ele logo descobrirá o seu erro: casualmente, ouve um outro criado da casa, Vassili, gabando-se de ter desenterrado o cebolão. Alieksei corre para contar (e pedir perdão) a David, que curiosamente fica furioso, desmentindo seu desdém anterior sobre o paradeiro do relógio: “Confesso que até hoje não entendi o que o enfureceu tanto”. Após o almoço (naquele “silêncio modorrento que envolve toda a Rússia depois do almoço”), David dá uma prensa em Vassili, dizendo que lutará com ele para reaver o relógio se for preciso: “Vassili caiu na risada: Lutar? Lutar com um servo? Isso não é coisa de senhores! David agarrou-o pelo colarinho: Mas não será com as mãos que nós vamos brigar, será com facas” . Isso abala a desfaçatez do criado e ele devolve o cebolão. No quarto, os dois caem na risada: “Não conseguimos nos livrar desse relógio, de jeito nenhum. Acho que está enfeitiçado. O que fazer?  Note-se que agora os dois primos parecem em pé de igualdade. E David não admite usar o relógio nem para auxiliar os Látkin. De repente, ouve-se uma gritaria dentro da casa e o pai de Alieksei aparece exigindo o relógio: “Patifes, bradou, agora apanhamos vocês!… Mas David, sem dizer uma palavra, saltou pela janela e, em dois tempos, estava na rua. Acostumado a imitá-lo em tudo, eu também pulei.”.

Na confusão, com gente perseguindo e gritando “Pega ladrão” , Alieksei fica passado ao ver que David se atira no rio: “Minha cabeça começou a girar, sentia uma forte pressão na nuca. De repente, tudo ficou verde, e então desmaiei.. Alieksiei vê o “corpo” de David, que ele crê afogado, ser resgatado do rio. No final do incidente, ele pergunta a David por que se atirou no rio: Pular? ! Não m,e agüentei no parapeito, foi só isso. Se soubesse nadar, aí teria pulado”. O pai de Alieksei admoesta David chamando-o de “ ladrão e suicida” e David replica: “Não sou suicida nem ladrão, mas o que é verdade, é verdade: na Sibéria, vai parar gente que vale muito mais do que eu e o senhor”.  E David pede a Alieksei para procurar Raíssa. Lá a encontra meio apatetada, e ele grita que David está vivo: “Lentamente Raíssa ergueu os olhos para mim; depois piscou algumas vezes, inclinou a cabeça sobre o ombro e, pouco a pouco, a palidez foi deixando seu rosto; seus lábios se entreabriram, ela respirou fundo, fez uma careta de dor e corre para o amado. Lá, ignorando as convenções sociais, se atira nos braços de David. O pai de Alieksei aparece com mil injúrias odiosas, David se empluma contra o tio (declarando que Raíssa é sua noiva). E de repente aparece Látkin, o pai dela (“nos mesmos trajes em que eu o vira ainda há pouco, esquálido, lamentável, parecendo um fantasma), após David implorar ao tio que não ofendesse Raíssa. O pai de Alieksei fica tão transtornado com essa aparição que lhe perde perdão. E no mesmo dia Látkin acaba falecendo e retorna da Sibéria o pai de David. O pai jacobino e o filho rebelde se trancam no quarto e trocam idéias. Quando Látkin é enterrado, David apresenta Raíssa ao pai, que a aprova. É o pai de David quem paga o enterro (mas o pai de Alieksei comparece e reza com fervor). O jacobino comunica ao irmão que irá embora para Moscou, com o filho: Meu pai ainda tentou (é verdade que não muito) dissuadir o irmão de tal idéia, mas imagino que, no fundo do coração, ele ficou contente com a resolução. A presença desse irmão, com quem tinha tão pouco em comum, e que não se dignara sequer a censurá-lo, oprimia-o visivelmente; por outro lado, a partida de David não lhe causava muito desgosto”, O tio vai embora e não só leva David, como também o que restou da família do ex- sócio do irmão: E eu fiquei sozinho. O último capítulo se dedica a contar como David, casado com “Amorinha”,  morreu em 1812 na batalha de Borodino, e como o narrador daí para cá teve diversos relógios, inclusive um de ouro. Mesmo assim, ele guarda numa gaveta um relógio de prata, o qual comprara de um judeu, motivado pela incrível semelhança com aquele que ganhara do padrinho:  Às vezes, quando estou sozinho e não espero nenhuma visita, eu o tiro do esconderijo e, contemplando-o, recordo a minha juventude e o companheiro daqueles dias, que não voltarão nunca mais. Além de Henry James, vejo a atmosfera desse texto em obras tão díspares como A educação sentimental, de Flaubert, & Dom Casmurro, de Machado, esse clima de algo irrecuperável, de uma inocência perdida que deixou um vácuo na vida adulta. O relógio é o signo catalisador, e assim como Bentinho procura reconstruir a casa da sua infância na velhice, tentando atar as duas pontas da vida, o relógio “substituto” tenta operar o mesmo milagre, confrontando-o com o mesmo tipo de frustração. Porque, na verdade, a história acaba no “e eu fiquei sozinho”.


[1] Utilizo a tradução de Tatiana Belinki.

24/08/2011

O prazer de perambular por Vigàta

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 23 de agosto de 2011)

“O comissário examinou atentamente o solo, enquanto o cão se afastava rosnando, mas não achou nada, nem sequer uma guimba de cigarro. E como é que se acha uma guimba de cigarro hoje em dia, quando todo mundo tem pavor de fumar por causa daquelas frases que aparecem nos maços, tipo O fumo vai matar você de câncer? Até os delinqüentes perdem o vício do fumo, e o pobre do policial acaba privado de indícios essenciais…”

Em A paciência da aranha (La pazienza del ragno, na habitual e competente tradução de Joana Angélica D´Avila Melo para a Record [1]),, livro que marcou os 10 anos da deliciosa série policial (iniciada em 1994 com A forma da água [2]) protagonizada pelo comissário Montalbano, na cidade siciliana imaginária (mas tão vívida para o leitor) de Vigàta, Andrea Camilleri coloca seu herói cinqüentão num momento de impasse: levou um tiro no ombro, está em convalescença, no entanto já sente o gelado sopro da aposentadoria (não é muito benquisto pelos superiores, que adorariam se livrar dele) e da velhice solitária, o que o leva a constrangidos surtos de comoção e a uma mais agudizada percepção de como o politicamente correto é incapaz de abranger boa parte da vida, e pode ser até mesmo danoso (e essa percepção montalbaniana gera trechos ótimos como a citação que abre este meu texto e o seguinte: “Mas por que agora todo vilarejo, mesmo que só tivesse duzentos habitantes, acreditava ser no mínimo Noviorque e estabelecia complicadíssimas regras de trânsito que mudavam a cada quinze dias?”[3]).

Por ainda se encontrar em recuperação (e também para não ser um embaraçoso estorvo na comunicação com o público e a imprensa, com seus palpites e intuições “fora de esquadro”), ele é convocado para participar de uma investigação importante—só que mantido num nível subalterno: a universitária Susanna Mistretta, filha de um geólogo e de uma moribunda, foi seqüestrada. À medida que seus captores entram em contato, não só com a família (que não tem um tostão) como também com os meios de comunicação, e que novos fatos vão emergindo, fica claro que o seqüestro tem a ver com Antonio Peruzzo, tio de Susanna, forte candidato para as próximas eleições, e que sempre teve ligações com maracutaias e atos de corrupção. Peruzzo foi capaz de enganar a família da própria irmã, a mãe de Susanna, que por esse motivo, como todos dizem, “desistiu de viver” (a única visão que Montalbano tem da doente é um dos pontos altos de A paciência da aranha).  É quem pode pagar o resgate (mais de três milhões de euros) e a opinião pública se torna cada vez mais hostil a ele.

Para Montalbano, portanto, fica evidente que uma teia foi sendo urdida pacientemente para que se chegasse a esse estado de coisas. Antes, no entanto, um histérico representante da imprensa, acusava os estrangeiros (extracomunitários, no texto) de terem trazido a criminalidade para a região (o que não deixa de ser muito engraçado, em se tratando da Sicília), e por isso seriam os suspeitos óbvios. Como em todos os casos em que o peso da opinião pública é uma força[4], tudo leva ao exagero, à pressa, aos relatos mal ajambrados e à impostura (tema tão importante na ficção de outro ilustre siciliano, Leonardo Sciascia, cuja obra-prima O Conselho do Egito é explicitamente citada em A paciência da aranha). Afinal, se trata de um país (muito diferente do nosso, evidentemente) onde, “em matéria de obras públicas, o impossível até se torna possível”; ou onde, como podemos ver na solene biblioteca do advogado do duvidoso Peruzzo, “coletâneas de leis que remontavam ao século XIX, mas seguramente ainda em vigor, porque em nosso pais, das leis de cem anos atrás, não se jogava nada fora, como se faz com os porcos”. Como acontece  com o politicamente correto, essas minúcias legais de pouco servem, a não ser para enredar o cidadão comum em sua teia.

Eu recomendaria a leitura de A paciência da aranha mais para quem já conhece o mundo de Montalbano & Camilleri. Como primeira leitura da série, o livro talvez frustre o neófito, pois sem ser propriamente fraco ou banal[5] (embora ameace cair para esse lado várias vezes), depende do encanto geral que o conjunto tem para os seus apreciadores (também não aconselharia começar pelo primeiro, o já referido A forma da água, na minha opinião muito fraco, e sim por outros como O cão de terracota & O ladrão de merendas). Para o leitor contumaz, entretanto, percorrer Vigàta mais uma vez é sempre um prazer.


[1]  A edição brasileira, por sinal, tem uma das ilustrações de capa mais horrorosas que já vi, um verdadeiro atentado visual (diga-se de passagem, a mudança no estilo de capa da “Coleção Negra” não foi muito feliz). As ilustrações que abrem cada capítulo também são uma hora do espanto.

[2] Não é preciso lembrar que, à parte essa série, o grande autor italiano escreveu também maravilhosos romances como Um fio de fumaça, Por uma linha telefônica e A ópera maldita, em minha opinião, ainda melhores e saborosos do que as aventuras de Montalbano.

[3] O morador da Baixada Santista (SP) conhece muito bem esse fenômeno de “novaiorquização” do trânsito e de suas regras, as quais da lógica e da matemática saltam para a física quântica. Na tentativa de tudo racionalizar, tudo acaba ficando irracional. Ou estou ficando velho como Montalbano?

[4] Montalbano diz que os seqüestradores “continuam a nos mostrar o teatro que nos habituamos a ver. Um espetáculo fingido, o verdadeiro eles apresentaram para um só espectador, o engenheiro Peruzzo, e o chamaram para o palco. Também houve um terceiro espetáculo, destinado à opinião pública…” Os demais fãs e conhecedores  não precisam que eu destaque a importância do teatro, do espetáculo, do evento cênico, na obra camilleriana.

[5] Camilleri até brinca com uma espécie de flerte com a trivialidade que entretém ao longo do romance: “…o sorriso se transformou em gargalhada. A teia de aranha! Não havia lugar-comum mais batido do que aquele para falar de um plano tramado no escuro. Mas ele o adotara. E o lugar-comum quisera se vingar do seu desprezo concretizando-se e obrigando-o a levá-lo em consideração.”

ANDREA CAMILLERI, a aldeia-mundo

 

um fio de fumaça

A ENGRENAGEM DO RESSENTIMENTO E DO DESPEITO

Balzac, que agudamente intuiu e descreveu os mecanismos psíquicos que regem as chamadas leis sociais, teria apreciado muito Um fio de fumaça, cujo autor, o já septuagenário Andrea Camilleri, vem nos últimos anos fazendo enorme sucesso com romances policiais que se passam na Sicília, mais precisamente na cidadezinha de Vigàta (infelizmente, eu só li um, e achei apenas razoável, A forma da água).

A comédia humana de Um fio de fumaça recua no tempo, transcorrendo no dia 18 de setembro de 1890. O fio de fumaça do título (ironicamente roubado dos versos da mais famosa ária de Madame Butterfly, aquela em que a heroína imagina o amado voltando para ela num navio) refere-se a um vapor russo que despontará no horizonte a fim de apanhar um grande carregamento de enxofre prometido pela firma da família Barbabianca, da qual Don Totó é o patriarca.

O lugarejo todo espera pelo fio de fumaça porque este concretizará um desejo coletivo: a derrocada comercial dos Barbabianca. Urdiu-se uma trama para que, através da confusão de datas, o navio apanhe a firma desprevenida com relação à quantidade de enxofre necessária para honrar o compromisso. O filho de Don Totó, Nenê, percorre a cidade humilhando-se para outros comerciantes, procurando fazer com que algum deles ceda a mercadoria. Todos se comprazem em negar, educadamente a princípio, depois, conforme o dia progride, de forma abertamente afrontosa.

Lemmonier, um engenheiro piemontês (numa Itália que se unificou politicamente, mas continuou dividida no sentido mais profundo, isso equivale a ser um estrangeiro), vai apurando, ao longo do dia, os motivos do ódio geral por Totó Barbabianca: ele chantageou, prejudicou, ou espoliou muitos daqueles que “entram em cena”, por assim dizer, na grande encenação operística que a narrativa ensaia da queda do poderoso comerciante. E vai desvendado também a alma siciliana: “Pois nos dois anos de permanência em Vigàta já tinha aprendido alguma coisa sobre os sicilianos, que o que importavam não eram as palavras que diziam, nem os gestos que faziam, o engenheiro estava persuadido de que era preciso, pelo contrário, ficar atento a côo diziam aquelas palavras e a como faziam aqueles gestos. Nuances, inflexões, mudanças imperceptíveis de ritmo e entonação, eram essas as coisas que contavam”.

Mais adiante, Lemmonier sofre um rude golpe ao perceber quão falsa e idealista é sua concepção dos sicilianos como seres infantis (“se eram maus, tratava-se daquela maldade momentânea e superficial que é típica das crianças”), após encantar-se com um convite para contemplar uma bela vista e constatar que todos estão esperando pela fumaça do vapor russo: “Como um pássaro traiçoeiramente atingido em meio a um maravilhoso vôo, Lemmonier despencou violentamente no solo. Então, estava tudo explicado, o convite, que lhe parecera tão inocente, tinha pelo contrário, um significado preciso: a cerimônia canibalesca em torno de Barbabianca continuava, implacável, sem desvios, sem a menor hesitação, e toda aquela conversa fiada, aquelas falas sobre poesia, aquele agradável encontro era um modo de passar o tempo necessário a que se desse o evento esperado, a que este atingisse o amadurecimento”.

Um dos aspectos que tornam Um fio de fumaça uma novela memorável é sua apreensão de um mecanismo psíquico da natureza masculina (pois se trata de um relato em que a mulher tem pouco espaço e se refere quase exclusivamente à psicologia do homem) que interfere nas leis sociais: a inveja, a dor de cotovelo em ver que outro “se deu bem”, “que está por cima”, o chamado espírito de porco, a necessidade de ver fulano “dando com os burros n´água” e que se resolve (ou melhor, não se resolve, é por isso que o 18 de setembro de 1890 é tão especial em Vigàta) em rancores, mesquinharias e maledicência, numa maldade praticada socialmente, que nada tem de momentânea nem tampouco é superficial. É claro que rancor, mesquinharia e maledicência existem de sobra no mundo feminino, mas no masculino se reveste de um caráter especial, mais insidioso, mais disfarçado em comentários chulos e em bravatas machistas.

Sem precisar chegar à eminência de obras-primas do naipe de O povoado & Pantalão Negro, de William Faulkner, quem mostrou esse universo de maquinações invejosas muito bem foi Marcel Pagnol na história que gerou os filmes Jean de Florette & A vingança de Manon.

Infelizmente, ao contrário do enredo de Pagnol, em que aparecia a figura inesquecível do invejoso e dissimulado Ugolin (principalmente se o lembrarmos na interpretação fantástica de Daniel Auteiul, um dos dois ou três melhores atores da atualidade), Um fio de fumaça peca pela ausência de uma figura marcante. E isso Balzac certamente não apreciaria. O panorâmico, o coletivo, é representado de forma brilhante, só que faz falta o elemento individual. Li a novela de Camilleri duas vezes seguidas, admirando a forma cruel com que orquestra as mazelas da cidadezinha siciliana, e ainda assim mal lembro dos personagens a não ser nos seus detalhes mais gritantemente caricaturais, como o padre impenitente e blasfemo, o príncipe louco, obcecado pela quadratura do círculo, o nonagenário que mal enxerga, porém quer ver a fumaça do vapor para ter um último gostinho na vida, etc.

Fora isso, há uma irritante opção editorial: como vários autores italianos, e o exemplo mais ilustre é o de Carlo Emilio Gadda (Aquela confusão louca na Via Merulana, um dos romances do século), Camilleri privilegia o dialetal. E fez questão de mostrá-lo na sua especificidade mais radical, tendo com isso de explicar ao seu leitor vários termos. A edição brasileira colocou tais explicações em notas de rodapé, atravancando e poluindo a leitura, uma vez que tal aspecto só interessa a filólogos e especialistas. É um tratamento pedante e acadêmico para uma narrativa fluente, que está muito bem traduzida. Parece até aquelas edições “críticas” onde mal se consegue ler o texto.

No mais, é delicioso o uso dos provérbios em Um fio de fumaça (que atende também a uma tradição italiana e especificamente siciliana, basta lembrar de Giovanni Verga). Esse mundo proverbial, que mexe com um sentimento profundo de fatalismo (“aquele que nasce redondo não pode morrer quadrado”) tem um grande representante brasileiro: Autran Dourado, cujo Novelário de Donga Novais, todo construído em cima de provérbios utilizados pelo personagem-título, a leitura do texto de Camilleri faz lembrar algumas vezes. Aliás, o livro do também septuagenário autor mineiro está sendo relançado pela Rocco e seria uma experiência interessante para o leitor confrontar dois textos que confirmam de forma tão expressiva as seguintes palavras de Dante Maffia: “É a divertida saga coral e provinciana da inveja e da maledicência, da mediocridade e do beatismo, da extravagância e do sentimento, embora, por trás desse desfile, esteja a tragédia dos limites de uma sociedade pequena e, sobretudo, o encanto-desencanto de quem assiste à pantomima de um mundo absurdo, anacrônico e folhetinesco”.

(resenha publicada em “A Tribuna”, em quatro de julho de 2000; o livro original foi lançado em 1997)

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linha telefônica

                LINHA OCUPADA

Uma das formas de resistência ao processo de globalização é a insistência de certos grandes autores no particularismo de suas regiões, no privilégio dado à feição dialetal para a construção da sua linguagem. Portanto, longe de estar ameaçado, o regionalismo parece mais vivo do que nunca quando se lê, por exemplo, um autor como Andrea Camilleri.

Um dos mais importantes escritores italianos da atualidade, sua ficção circunscreve-se a um pedacinho da terra de Giovanni Verga, Luigi Pirandello, Leonardo Sciascia, a mítica Sicília: Vigàta, povoado da província de Montelusa (“órfã e malfadada província de nossa bem amada Itália”, diz um de seus personagens, insinuando, involuntariamente, que à idéia unificadora de uma bem amada Itália não corresponde uma fraternidade das suas diversas regiões).

O leitor pode penetrar nesse território ficcional através de um romance divertidíssimo e cruel, La concessione del telefono- Por uma linha telefônica (1998), que mostra, já no final do século XIX (1891-92) cidadãos “encurralados entre o Estado e a Máfia”, isto é, entre um mundo de burocracia ineficiente e propensa à corrupção, e o crime organizado. Familiar, não?

Quem aciona o imbróglio é Pippo Genuardi, um boa-vida aparentemente regenerado após o casamento (na verdade, mantém um caso com a madrasta da esposa). Ele quer uma linha telefônica entre sua oficina e a casa do sogro. Ao escrever equivocadamente, contrariando os trâmites burocráticos pertinentes, ao prefetto (não confundir com prefeito) da sua região, Vittorio Marascianno, um paranóico meio amalucado, desperta nele suspeitas de subversão política (por que Genuardi quereria uma linha telefônica?).

Por mais que o único trio de personagens sensatos da administração pública (Corrado Parrinello, Arrigo Moterchi & Antonio Spinoso) tente impedir as trapalhadas de Marascianno, o caso Genuardi toma um vulto imenso e fatal para o desmiolado requerente, que não imaginara o dédalo burocrático que teria de enfrentar.

Não é só o Estado que se interessa pelas atividades de Pippo. Um mafioso local, Don Lollò, quer descobrir o paradeiro de um amigo dele, e por causa da sua obsessão pela linha, o nada ético protagonista se decide a denunciá-lo. Só que Sasà (deliciosamente arrolado na lista de personagens no início do romance como “ex-amigo de Genuardi”) consegue sempre enganar seus perseguidores, o que acaba por tornar Pippo suspeito aos olhos de Don Lollò.

Como se vê, o desejo de Pippo por uma linha telefônica transcende os limites do seu interesse individual e se mistura ao cadinho de reivindicações populares (é uma época de agitação política e repressão por parte do governo) e à infiltração desmoralizadora do crime organizado no aparelho estatal. Essa interferência do público no privado (e sua contrapartida) revela-se grotescamente trágica no momento em que ele consegue alcançar seu objetivo: o sogro descobre que o telefone servirá para o caso entre a esposa e o genro, irá lavar sua honra e os carabinieri (os quais se aliam ao prefetto Marascianno na convicção de supostas atividades subversivas de Pippo) darão um jeito de manipular politicamente o acerto de contas entre eles.

    La concessione del telefono confirma a revelação que foi Um fio de fumaça para o leitor brasileiro, só que trazendo uma trama ainda mais colorida e caleidoscópica, impulsionada pela correspondência entre os personagens e por diálogos desbocados entre eles, método bem diferente do estilo enxuto e “neutro” do genial Leonardo Sciascia, e com uma qualidade que faltava àquela talentosa narrativa da expectativa do povoado de Vigàta pela bancarrota de um comerciante de enxofre odiado por todos: os personagens desta vez são mais individualizados e memoráveis. Ainda predomina o traço caricatural, mas é evidente o capricho com que Camilleri desenha, por exemplo, seu malfadado trio de funcionários escrupulosos e seus destinos ironicamente melancólicos, após sua bem-intencionada e inútil interferência no caso Genuardi.

No intróito do livro, há uma citação de Pirandello, o grande antepassado de Sciascia & Camilleri, que fala de corrupção política, concessões e favores escandalosos, clientelismo e vergonhoso desperdício do erário público. As imperdíveis 270 páginas de La concessione del telefono servem para demonstrar que realmente (como afirma Camilleri, ao explicar a origem do livro) Pirandello “diz tudo”. O Brasil de 2002 não fica atrás em demonstração cabal.

21/08/2011

O MÉDICO E O MONGE

(o texto abaixo foi escrito em 2008 como anotação inicial para um novo curso após “Margens Derradeiras; textos do limite”, desta vez enfocando as obras de Tchekhov e Pirandello—curso que acabou não acontecendo; essas anotações tentam fazer uma ponte entre os dois cursos, daí o texto ter parentesco com os que escrevi sobre O horla, O clube dos suicidas, O altar dos mortos, A tumba dos ancestrais, A causa secreta, Os fatos do caso do Sr. Valdemar)

 

 

“…a facilidade com que nosso pensamento se decide a aceitar um absurdo, quando tal aceitação satisfaz pensamentos saturados de afeto…”

         (Sigmund Freud, Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen, 1907)

“O que tende para fora tem de viver o seu mito, o que tende para dentro sonhará seu meio ambiente, a chamada vida real.”

                         (Carl Gustav Jung, Tipos Psicológicos: Extrovertido/Introvertido, 1921)

É o tipo introvertido, cuja tendência, a despeito dos seus esforços, é refugiar-se num mundo de lembranças e de afetos… Sucumbe-se à própria fascinação íntima e a pessoa enterra-se com os seus afetos para voltar a renascer de novo, depois de estes terem ido embora. É um tipo, porém, que se arrisca a que o saco onde se encerra rebente um dia…”

    (Carl Gustav Jung, O homem à descoberta da sua alma, 1934)

         É interessante o papel desempenhado pela novela O monge negro na obra tchekhoviana,  sempre vista como um dos pontos de partida da moderna narrativa por prescindir de “grandes tramas”, para se concentrar no quotidiano e nas situações banais [1], uma vez que, de uma maneira bastante peculiar, trabalha com o umheimlich e explora situações vizinhas à, por exemplo, atmosfera de O Horla, de Maupassant.

         Tchekhov nasceu em 17 de janeiro de 1860, em Taganrog; sua família mudou-se para Moscou (arruinada por uma crise financeira) quando ele tinha dezesseis anos, mas ele só foi para lá três anos mais tarde, após terminar seus estudos secundários. Em Moscou, enquanto toda a família repartia um porão miserável, sem dinheiro para comprar lenha no inverno (como a família da Amorinha de  O Relógio, de Turgueniêv), ele estuda medicina. Dr. Jekyll. E ganha dinheiro escrevendo (cinco copeques por linha). Seus contos e novelas falavam de um mundo esmagado pela mediocridade e pelo ridículo. Diga-se de passagem, ele também teorizará sobre a ficção, como Poe e Henry James, elaborando “regras essenciais”: não dar ênfase a problemas políticos, econômicos e sociais; ser sempre que possível objetivo e “verdadeiro”; ser breve, sem ser banal. Foi acusado de excessivo realismo, de mau gosto e de utilizar detalhes “sujos e grosseiros”. Aliás, a acusação de cínico, amoral e repugnante ressurgiria quando estreasse no teatro com Ivanov (1887).

         Tchekhov ficou tuberculoso e com o dinheiro que ganhava comprou uma propriedade rural próxima a Moscou, em 1891, trabalhando como médico contra uma epidemia de cólera.

         Em 1898, um encontro decisivo: conhece Constantin Stanislavski, que vai utilizar suas peças como meio de consagrar seu método de interpretação, agora clássico. É um teatro onde “nada acontece”. O verdadeiro drama é a inação, como já disseram. Gorki: Ninguém compreendeu tão lúcida e finamente como Tchekhov a tragédia da trivialidade da vida; ninguém antes dele mostrou aos homens, com tão impiedosa verdade, o retrato terrível e vergonhoso de suas vidas, no turvo caos da existência quotidiana da burguesia”.

         Sua obra-prima absoluta, a belíssima O jardim das cerejeiras, foi montada no ano da morte de Tchekhov (1904, em 15 de julho), numa viagem à Floresta Negra, na Alemanha, com 44 anos (uma idade comum aos nossos escritores derradeiros, veja-se o caso de Stevenson). Seus últimos anos são passados na Criméia, em Ialta, onde foi obrigado a viver por causa da sua doença pulmonar, mais ou menos como o personagem de O Monge Negro, relato com cerca de 70 páginas, dividido em nove capítulos. Começa sob o signo da medicina, portanto da ciência: “Andrei Vassilievitch Kovrin sofreu um esgotamento que lhe arruinou os nervos. Não se tratou; limitou-se, diante de uma garrafa de vinho, a conversar com um médico amigo, que o aconselhou a passar a primavera e o verão no campo” [2]. Kovrin é um professor, um intelectual, e nesse sentido identifica-se com o urbano; mas ele foi criado no campo, e a princípio temos aquela solução apaziguadora do Jacinto de Civilização e A cidade e as serras, de Eça (também sentimos que foi a solução inicial do narrador de O Horla, mais homem da cidade que do campo, solução que se revela aterrorizante, pois só o urbano o apazigua e adormece o “ser invisível” que convive com ele).

         Primeiro Kovrin passa três semanas sozinho na sua propriedade, e depois se instala na casa do antigo tutor, “segundo pai”, Pessotski, que vive em Borissovka com a filha, Tânia, companheira de juventude de Kovrin. Vemos o retorno a Borissovka com ares do Jacinto de Eça: “Tudo ali parecia convidar o visitante a sentar-se e escrever baladas…a ao redor da casa, os jardins e o pomar inspiravam ânimo e alegria de viver, mesmo com mau tempo. Havia rosas, camélias e lírios maravilhosos, tulipas em todos os tons possíveis, de um branco brilhante ao escuro fuliginoso, uma tal riqueza de cores como jamais Kovrin vira em outro lugar”. Entretanto, há um lado decadentista nas experiências de estufa do velho Pessotski, A parte ornamental do jardim produzia em Kovrin, quando menino, uma impressão  fabulosa. Que caprichos, que refinadas deformações, que escárnios feitos à natureza!. Portanto, temos aqui, uma dicotomia nítida: obras da natureza inspirando ânimo e alegria de viver versus escárnios feitos à natureza inspirando um sentimento de refinamento, caprichoso e deformante.

         Na chegada de Kovrin (após cinco anos de ausência), há um alvoroço devido à ameaça de geada: No grande pomar chamado comercial, que a cada ano rendia a Iegor Semionovitch milhares de rublos de lucro, já deslizava ao longo do solo a fumaça espessa, negra e ácida que devia proteger as folhas novas e salvar as plantas”. E é nessa atmosfera que caminham, recuperando sua familiaridade e camaradagem, Kovrin e Tânia (esta, “uma figura ereta e esbelta”, “agradável de contemplar” ). Ela o interpela: “Você acha que já não tem muito a ver conosco? Mas por que  estou perguntando? Você é um homem, tem a sua vida própria, tão interessante…Certo afastamento é natural. Mas seja lá o que for, quero que entre nós se sinta em casa. Temos direito a isso… meu pai lhe quer bem…o adora. Você é um intelectual, não é um homem comum; fez uma carreira brilhante, e ele está inteiramente convencido de que você deve esse sucesso todo à educação que lhe deu. Não desfaça essa ilusão dele”. Ela contrapõe a vida dela e do pai à dele: Toda a nossa vida gira em torno do jardim, não sabemos sonhar senão com maçãs e pêras”. A essa altura, Kovrin está dizendo a si mesmo que poderia se apegar a ela, até mesmo se apaixonar, só que permeando essas reflexões estão versos de Puchkin, o que já indica um distanciamento entre a vida real e a vida mental (alimentada de literatura e filosofia) do herói do relato [3].

         Se no final do primeiro capítulo, vemos Kovrin ficar na expectativa de um verão “extenso, claro, alegre”, esse mesmo final nos mostra que sua rotina de verão é ir para o quarto e ler atentamente, tomando notas. Por isso se justifica a afirmação que abre o segundo capítulo: “Continuou a viver no campo a mesma vida nervosa e desordenada que vivera na cidade. Lia e escrevia muito, estudava italiano, e quando ia passear pensava com prazer na volta ao trabalho. Dormia tão pouco que todos de casa se surpreendiam; se acaso cochilava meia hora durante o dia, perdia o sono à noite”. Dr. Jekyll precisa ocupar-se com sua ciência e o uso do tempo demanda eficácia, ocupações úteis e produtivas. Até o homem intelectual bate o cartão de ponto na mente no mundo capitalista e tem de demonstrar produtividade.

         Uma certa noite em que há visita de moças de propriedades vizinhas, que tocam piano e cantam com Tânia. Uma das cantigas fala de uma jovem de imaginação exaltada que ouve certa noite no jardim sons misteriosos, belos e estranhos, “uma sagrada harmonia, inacessível a nós, mortais, e que por isso retornava aos céus. Influenciado por ela, Kovrin se chega a Tânia e lhe confidencia, na varanda que sua mente só se ocupa de uma lenda, a qual não sabe onde leu ou ouviu, uma “lenda muito estranha e incoerente”: “Há uns mil anos, um monge, vestido de negro, errava pelo deserto em algum lugar da Síria ou da Arábia. A poucas milhas dali, pescadores viram outro monge negro caminhando lentamente sobre a superfície de um lago. Esse segundo monge era uma miragem. Agora, esqueça todas as leis da ótica, que a lenda, naturalmente, não reconhece, e ouça mais. Da miragem surgiu outra miragem e dessa uma terceira, de modo que a imagem do Monge Negro se refletia infinitamente de uma a outra camada da atmosfera. Ora era vista na África, ora na Espanha, ora na Índia, ou no Extremo Norte. Afinal, ultrapassou os limites da atmosfera terrestre, e agora vagueia pelo universo, mas nunca em condições que a façam desaparecer. Talvez seja avistada hoje em Marte ou em alguma estrela do Cruzeiro do Sul. Mas, minha querida, toda a questão, a essência mesma da lenda está na predição de que exatamente mil anos depois de o monge ter entrado no deserto a miragem tornará a penetrar na atmosfera terrestre e se tornará visível para o mundo dos homens. Esse prazo de mil anos, ao que parece, está terminando. De acordo com a lenda, devemos esperar o Monge Negro hoje ou amanhã[4].

         Enquanto Tânia volta às visitas como boa anfitriã, Kovrin caminha até o rio. Está escurecendo (hora perfeita para o umheimlich): “Kovrin cruzou a corrente. Diante dele estendia-se agora um vasto campo coberto de centeio novo. Não havia morada nem vivalma visível à distância; era como se o caminho conduzisse às inexploradas e ignotas regiões do Ocidente onde o sol já se pusera,  e onde, vasto e majestoso, flamejava ainda o esplendor do crepúsculo” [por essa época, Conrad começaria também a imaginar a batalha das trevas e da luz no crepúsculo na abertura de Coração das Trevas ].  Ele é a medida do narcisismo do nosso amigo, que imagina, nesta paisagem “ampla, livre e silenciosa” que o mundo todo está espreitando, num esconderijo, “esperando por mim para ser compreendido”.

         Mas ele vê é o assombroso. No horizonte se forma um ciclone (ou uma grande tromba d´água) e uma grande coluna negra se ergue da terra ao céu, movendo-se com incrível velocidade e então “um monge vestido de negro, cabelos grisalhos e sobrancelhas negras, as mãos cruzadas sobre o peito, passou perto dele. Seus pés descalços não tocavam o chão… Seu rosto era pálido e fino…” Ainda bem que não é o Alquimista do Paulo Coelho. Mesmo assim ele fita Kovrin, acena com a cabeça, e sorri, “um sorriso ao mesmo tempo afável e astucioso. Depois ele se mistura novamente ao ciclone, voando através do rio, esvaecendo-se como fumaça. Apesar de ter testemunhado um fenômeno bizarro, a sensação que Kovrin sente, de volta a casa, é trivial: uma agradável excitação, que cresce mais ainda quando percebe que só ele tinha visto o Monge Negro [será que isso não era, pelo contrário, para deixá-lo alerta e cabreiro?]: Riu alto, cantou, dançou uma mazurca, sentindo-se animadíssimo [vejam que ele faz coisas contrárias à sua índole contemplativa e intelectual]. Tanto Tânia como os convidados notaram em seu semblante uma expressão peculiar de êxtase e inspiração, e acharam-no muito interessante”.

         No terceiro capítulo, Tânia, já que Kovrin é um leitor avalizado, pede a ele que leia os artigos que o pai dela escreve sobre horticultura. O velho se finge de constrangido, contudo no fundo está bastante orgulhoso do que escreveu e louco para saber a opinião do antigo tutelado, agora uma autoridade intelectual. Isso acaba levando-o a uma confidência: o medo de morrer e ver todo o seu trabalho destruído. Imagine se Tânia casar, tiver filhos. O que será dos jardins e pomares? “…digo-lhe com toda a franqueza: não quero que Tânia se case. Tenho medo!” Ele só aprovaria um casamento da filha com… Kovrin: “se você e Tânia tiverem um filho, posso fazer dele um horticultor”.

         Ao ler os artigos de Pessotski (cheios de azedume e rancor contra as opiniões e práticas contrárias às dele), nosso amigo faz um diagnóstico perfeito para esse período fin-de-siècle permeado pelo decadentismo: É a mesma coisa por toda parte: em todas as carreiras os homens que têm idéias são nervosos e vítimas desse tipo de sensibilidade exacerbada. Quanto à sua visão do Monge, ele não se preocupa muito. Num trecho que já citei em epígrafe (na 4ª. aula), ele diz a si mesmo: “estou muito bem, e não fiz mal a ninguém. As minhas alucinações não têm nada de perverso, pensou, e sentiu-se de novo tranqüilo”. Só que todas as alucinações têm algo de perverso, meu caro Kovrin. O princípio da realidade está em xeque e o Desejo que aflora normalmente não está a serviço de Eros e sim de Thânatos.

         O final desse capítulo vai indicar uma nova fase emocional do protagonista: “os pensamentos que lia nos livros não mais o satisfaziam. Aspirava a algo mais vasto, infinito, assombroso… tocou a campainha e ordenou ao criado que lhe trouxesse vinho. Tomou com prazer uns copos, depois tapou a cabeça; sua consciência foi-se enevoando, e adormeceu”. O que talvez esteja adormecendo seja o superego.

         O quarto capítulo apresenta um clima tenso entre pai e filha, que na verdade é a constatação de que o “casamento” entre eles já não funciona tão bem, que algo falta. Com relação a isso, e ao desespero de Tânia devido à incompreensão do pai, Kovrin reflete: “Que ninharia bastava para fazer sofrer aquela criaturinha ao longo de todo um dia, o que é um pouco o desdém de Natanael (de O Homem da Areia ) pelo prosaísmo de Clara.  Em contrapartida ele reconhece que aquelas duas pessoas são os seus únicos elos afetivos, “ele, que perdera pai e mãe na primeira infância, teria vivido toda sua vida sem receber uma carícia sincera, sem experimentar sequer esse amor singelo e sem explicação que só dedicamos aos que nos são próximos pelo sangue. E sentia que seus nervos cansados, tensos como magnetos, respondiam aos nervos daquela moça chorosa e fremente”. A visão que fecha o capítulo é do nosso herói vendo a reconciliação entre pai e filha, como se nada houvesse acontecido, ambos comendo pão de centeio com sal, ambos com muito apetite.

         No quinto capítulo, reaparece repentinamente (após ele relembrar a primeira vez) a figura do Monge Negro: “de trás dos pinheiros em sua frente, avançou silencioso, sem o mínimo sussurro, um homem de meia altura. Trazia descoberto o cabelo grisalho, estava vestido de negro e descalço, como um mendigo. Em sua face macilenta, cadavérica, ressaltavam numerosas manchas pretas. Acenando com a cabeça, polidamente, o forasteiro ou mendigo caminhou silenciosamente até o banco e sentou-se”. E os dois (ou um só, desdobrando-se?) iniciam um diálogo, que se encontra justamente no meio da narrativa. O Monge reconhece ser um produto da imaginação excitada de Kovrin: “Eu existo na sua imaginação, e como sua imaginação é parte da natureza, devo existir também na natureza”. Vejam que maravilhosa exposição da realidade psíquica, da qualidade simbólica que a realidade ganha na nossa mente, fazendo duvidar que exista algo como a objetividade. No entanto, o discurso do Monge enveredará pela senda do afago ao narcisismo (justamente na persona de “homem intelectual”, de “servidor da ciência”, que é uma das formas principais do heroísmo oitocentista): “Você serve à verdade eterna. Seus pensamentos, suas intenções, sua ciência admirável, toda a sua vida traz o selo da divindade, um selo celestial [como os sons que a moça da cantiga ouvia]; e é tudo dedicado ao racional e ao belo, isto é, ao eterno… O verdadeiro prazer é o conhecimento… Você está doente porque forçou demais seus poderes, porque sacrificou sua saúde a uma idéia, e está próximo o tempo em que não sacrificará somente a saúde, mas a própria vida. Que mais pode desejar? É tudo a que aspira uma natureza bem dotada e nobre [5]. Kovrin questiona: se ele está fisicamente doente, como pode acreditar em si mesmo (note-se a aproximação nietzschiniana de doença com natureza bem dotada e nobre, o que será ratificado num trecho posterior: “Creia-me, as pessoas saudáveis e normais são vulgares: o rebanho. O medo do esgotamento nervoso, da superexaustão e da degenerescência só pode perturbar seriamente aqueles cujos objetivos na vida se encontram no presente: eis o rebanho… Repito: se quer ser saudável e normal, marche com o rebanho” ). Curiosamente, o Monge apela para o argumento seguinte (em se tratando de um homem racionalista): os gênios sempre tiveram “visões”. Mas a taça do sofismo, uma vez que ele acredita estar tendo uma alucinação (só que é uma alucinação narcísica) vai para o próprio Kovrin, que diz a seguinte pérola: Como é estranho que você esteja repetindo o que eu tenho pensado com tanta freqüência! E ainda: É como se me tivesse vigiado e ouvido os meus mais secretos pensamentos. Mr. Hyde (sintomaticamente, o desdobramento da consciência, o dissociar-se, está ligado a uma figura que, no imaginário medieval, é ligado ao recolhimento e ao saber; mas o adjetivo negro, ligado à batina, tem algo de lúgubre, ou de ameaçador, meio bruxo).

         E aí, mais uma vez, os traços do Monge enevoaram-se e ele se desfaz “no crepúsculo”, sumindo completamente. E Kovrin volta feliz, lisonjeado não no seu amor-próprio, pensa ele, mas na sua “alma”, em “todo o seu ser: “estar entre os eleitos, ministrar a verdade eterna, figurar entre aqueles que se empenham no curso de milênios para tornar a humanidade digna do reino de Cristo, libertar os homens de milhares de anos de luta, pecado e sofrimento, dar tudo a uma idéia (juventude, força, saúde, morrer pelo bem de todos), que idéia exaltante, gloriosa! E quando através da memória fluía sua vida passada, uma vida pura, sem mácula e cheia de trabalho, quando recordava o que aprendera e o que ensinara, era levado a concluir que não havia nenhum exagero nas palavras do monge. Hyde afagou o “ego ideal” de Jekyll, procurando o ponto certo onde minar suas defesas.

         Logo a seguir, quase sem transição, ele se declara à Tânia e pede sua mão.

         No capítulo seguinte, conta-se a novidade ao pai dela e segue-se o ritmo “os trabalhos e os dias”, como no poema de Hesíodo: “Com o calor do verão, as árvores tinham que ser regadas uma por uma; o processo custava tempo e mão-de-obra. Apareceram muitas largas, que os trabalhadores, e até Iegor Semionovitch e Tânia, esmagavam com os dedos, para grande nojo de Kovrin. As encomendas do outono, de frutas e árvores, deviam ser atendidas”. Nesses “trabalhos e dias” incluem-se os preparativos para o enxoval de Tânia: “com o permanente retinir das tesouras, o ruído das máquinas de costura, o cheiro dos ferros de engomar e os caprichos do nervoso e delicado costureiro, toda a casa parecia rodopiar. E, para piorar a situação, tinham visitas todos os dias, e havia que diverti-las, alimentá-las e dar-lhes pousada”.

         Enquanto Tânia e o pai vivem os esplendores e misérias desses dias de preparativos, muito preocupados também com as colheitas e coletas, Kovrin entusiasticamente trabalha, num diapasão diferente, e “mal percebe a confusão em torno”: “voltava a seu quarto enlevado e feliz, e se entregava ao trabalho com seus livros e manuscritos possuído da mesma paixão com que beijara Tânia e lhe declarara amor [esse nivelamento de entusiasmo não vaticina bom futuro à pobre noiva]. O que o Monge Negro lhe dissera sobre ser ele eleito de Deus, sobre a verdade eterna e o glorioso futuro da humanidade, dava a todo o seu trabalho uma significação peculiar, extraordinária. Uma ou duas vezes por semana, no parque ou em casa, encontrava o monge e conversava com ele horas a fio; isso, porém, não o assustava, ao contrário, deliciava-o, pois agora tinha a certeza de que essas aparições eram privilégio dos seres eleitos e excepcionais, que se dedicam à propagação das idéias. Kovrin representa um passo à frente do tipo de homem que já vimos nas histórias de Henry James, como aquele de O Altar dos Mortos; dessa vez, com o autocentramento projetando-se numa ideologia: a propagação de idéias. Quanto sectários e ideólogos o século seguinte não fabricará?

         Chega afinal o dia do casório, celebrado com pompa, com festividades que duraram dois dias: “apesar de toda a música de mau gosto, dos brindes ruidosos, dos criados atarantados, do barulho, do ambiente abafado” , apesar de todos esses aspectos grosseiros, e do gasto de três mil rublos, nem valorizou ou deu importância aos “vinhos caros nem aos maravilhosos hors d´oeuvres especialmente encomendados em Moscou”.

         E no sétimo capítulo já estamos em pleno casamento de Kovrin e Tânia, a qual vive com dor de cabeça por causa da vida urbana. E uma das noites em que acometida pelo incômodo, vai dormir mais cedo, seu marido recebe a aparição do Monge Negro, numa cadeira, ao lado da cama. Conversam sobre a glória e a fama, o Monge afirmando que elas nada são para um espírito como Kovrin e este modestamente confirmando. Depois, passam para o tema da felicidade. Kovrin diz: “estou um pouco assustado com minha própria felicidade. Da manhã à noite, só sinto alegria, a alegria me absorve e afasta todos os outros sentimentos. Não sei o que é dor, aflição, ou preocupação”. Freudianamente, diríamos que isso não é alegria ou felicidade, e sim sintomas de uma profunda dissociação da realidade. Tanto é que Tânia, acordando, olha espantada e aterrorizada para o marido que, voltado para a cadeira ao lado da cama, gesticula e ri para o vazio, com os olhos brilhando. Ela pergunta com quem ele pensa estar falando e ele diz que é com o Monge Negro: “Não há ninguém ali… Ninguém, Andriucha, você está doente… Perdoe-me, querido, mas há muito tempo eu venho achando que você não está bem dos nervos”. O engraçado é que o marido reaproximou-se dela e do pai justamente por estar sofrendo um esgotamento nervoso, que se diluíra em meio aos incidentes da estadia dele. Ou, como é mais provável, ele nunca tocou no assunto com eles? Afinal, ele é o homem intelectual, o magister, o guiado pelas Luzes da Razão: “Foi somente ao olhá-la que Kovrin compreendeu o perigo de sua posição e entendeu o sentido do que o Monge queria dizer, de suas conversas. Tornou-se claro para ele que estava louco. É interessante essa situação de uma pessoa tomando consciência da própria loucura, diagnosticando-se: “Parece que não estou regulando da cabeça!” Então, levam-no ao médico e inicia-se um tratamento. Palavra mágica: tratamento. A solução para os males burgueses. Porém, com Ivan Ilitch não deu muito certo. E com Hyde ou Mr. Kurtz, daria?

         E temos um início cíclico no oitavo e penúltimo capítulo: mais uma vez chega o verão e mais uma vez se recomenda a Kovrin uma temporada campestre. Ele recuperara a saúde e já não via mais o Monge Negro. Portanto, a sanidade é fechar-se à sua voz mais íntima, que reflete seus desejos mais pulsantes (e utilizo esse termo “pulsantes” na esteira das pulsões freudianas, mesmo). Não é confrontá-la, reconhecer que ela existe em si e poder harmonizá-la; é acreditar que a neutralizou e procurar o “vigor físico”, índice de saúde: Estava na casa do sogro, bebia muito leite, trabalhava apenas duas horas por dia, não tocava em vinho e tinha deixado de fumar”.

         Num passeio, após uma missa, Kovrin dá um passeio e vemos a mudança de um ano para outro tornada sensível pela sua percepção da natureza: “Os grandes pinheiros, com suas raízes nuas, que um ano antes lhe haviam parecido tão novos, tão alegres, tão cheios de vida, já não sussurravam, estavam silenciosos e imóveis, como se não o reconhecessem… E de fato, com o seu cabelo cortado curto, seu passo trôpego, sua fisionomia alterada, tão sombria, pálida e diferente do que era no ano anterior, seria mesmo difícil reconhecê-lo”. Ele, o ser narcísico envolvido numa fantasia megalomaníaca, foi domesticado pelo casamento e pelo tratamento médico. A saúde, quando se tenta neutralizar o Hyde dentro de nós: um passo trôpego, uma fisionomia alterada, sombria e pálida. A hora do crepúsculo já não permite mais a dissociação gloriosa, é uma hora mágica só no exterior: “O sol se pusera, e no horizonte flamejava um vasto arrebol vermelho… tudo era imóvel; e, olhando para um ponto onde um ano antes avistara pela primeira vez o Monge Negro, Kovrin ficou uns vinte minutos contemplando aquele esplendor rubro. Quando voltou para casa, fatigado e inquieto, Iegor Semionovitch e Tânia estavam sentados nos degraus da varanda, tomando chá. Conversavam, mas, ao vê-lo se aproximar, calaram-se”[6] . Apesar da docilidade com que se submeteu ao tratamento e ao casamento, isto é, à normalidade, a grande corrente de intimidade é ainda entre pai e filha, e isso o exclui, como também ficou excluído da magia do crepúsculo.

         E Tânia passa a cumprir um papel prescritivo: “Está na hora de tomar o seu leite”. Kovrin ainda resiste: “Não, ainda não…eu não quero”. Taxativa: “Você sabe que o leite lhe faz bem. E avaliamos o sentimento de perda que o crepúsculo transmitiu a Kovrin na sua resposta, após informar que ganhou mais meio-quilo com o “regime do leite”: “Por que vocês me curaram? Poções de brometo, ociosidade, banhos quentes, vigilância, um terror idiota a cada garfada, a cada passo, tudo isso vai fazendo de mim um idiota. Fiquei transtornado da cabeça, deu-me a mania de grandeza, mas com isso tudo eu era jovial, ativo e até mesmo feliz, era interessante e original… Agora me tornei reacional e sólido, mas igual a todo mundo: sou uma mediocridade… Eu tinha alucinações, mas a quem isso fazia mal?”. Mais adiante ele dirá: “Como eram felizes Buda, Maomé e Shakespeare, a quem seus bondosos parentes e médicos não curaram do êxtase e da inspiraçãoSe Maomé tivesse tomado brometo de potássio [foi o mesmo tratamento do narrador de O Horla] para os nervos, trabalhado só duas horas por dia e bebido leite, esse homem assombroso não teria deixado atrás de si mais que seu cachorro. Médicos e parentes bondosos se esfalfam só para tornar cretina a humanidade, e tempo virá em que a mediocridade passará a ser considerado gênio, e a humanidade perecerá… Se vocês tivessem idéia de como eu estou agradecido!”  Parece-me que nosso amigo Tchekhov leu Nietzsche. E devo acrescentar que há uma atmosfera similar num outro texto dele, bem mais famoso (e igualmente longo), Enfermaria número seis, no qual vemos um médico entediado com a tolice e mediocridade do mundo “normal” e que faz amizade com um “louco interessante”, um maluco beleza.

         É evidente que o sogro e as esposa não podem entender essa declaração de princípio. E agora a presença deles passa a irritar Kovrin, principalmente o sogro, a quem passa a olhar com desprezo e ódio, e tratá-lo com rudeza. Para Tânia, o marido se tornara “irritadiço, caprichoso, excitável e desinteressante” e isso a atormenta e estressa. O capítulo termina com uma discussão do casal sobre o pai. Kovrin explode, dizendo que o mais odioso em Iegor Semionovitch é o seu “otimismo estomacal, bovino, ou mesmo suíno: “O rosto dele parecia a Tânia feio e desagradável: não lhe assentava bem a expressão de ódio e desprezo. Ela observou mesmo que alguma coisa estava faltando no rosto dele, que parecia mudado desde que cortara o cabelo. Veio-lhe um desejo irresistível de dizer algo insultuoso, mas se conteve a tempo, e tomada de terror saiu do quarto”. Tomada de terror pelo que ouvia do marido ou tomada de terror pelo desejo irresistível de dizer algo insultuoso? De assim estabelecer a falsidade desse casamento? De também impor o seu “otimismo estomacal”, de porta-voz do rebanho medíocre e disciplinado?

         Vejamos como as coisas se resolvem ou se acomodam no último capítulo. Kovrin deve dar a aula inaugural da importante cátedra universitária que conquistou, mas começa a cuspir sangue, “que por duas vezes num mês escorreu em fluxo”. Começa a se sentir muito fraco, tomado de sonolência. Sua mãe vivera dez anos assim, e os médicos declaram não haver perigo, apenas é preciso regrar a vida. Mais ainda? A essa altura, Kovrin separou-se de Tânia e está vivendo com outra mulher, e notem bem, “mais velha, que cuidava dele como se fosse uma criança”. A  mulher-mãe (ele antes tivera uma mulher-filha, e nada de bom resultara[7] ), Varvara Nicolaievna, convence-o (apesar do seu ceticismo) a uma mudança de ares. Vão para a Criméia.

         No hotel em que estão hospedados, enquanto Varvara dorme, ele, acossado pela angústia, procura se tranqüilizar, trabalhando numa compilação que está organizando, “E com isso teve a impressão de recuperar seu antigo estado de espírito tranqüilo, resignado, impessoal. No entanto, isso o leva a pensamentos acabrunhantes: “Para obter uma cátedra de filosofia aos quarenta anos, para ser um professor igual aos outros, para expor pensamentos que eram lugares-comuns, além do mais, pensamentos alheios, numa linguagem inexpressiva, cansativa e pesada; numa palavra, para alcançar a posição de uma mediocridade erudita, ele estudara quinze anos, trabalhara dia e noite, passara por um grave distúrbio psíquico, sobrevivera a um casamento infeliz, fora culpado de desatinos e injustiças que era doloroso lembrar”. Ou seja, esse é o verdadeiro horror com que o personagem de Tchekhov tem de lidar, como alguns personagens de Henry James também acabam fazendo (lembro, por exemplo, de A fera na selva ).

         Ele vai à sacada, e no andar de baixo vem o som de um violino e algumas vozes femininas, numa cantiga que já ouvira, aquela da moça de imaginação exaltada que ouve à noite, no seu jardim, uns sons misteriosos e sagrados: “Kovrin reteve a respiração, seu coração parou de bater e o mágico, extático transporte que há muito esquecera, voltou a palpitar em seu coração”. E aí toda a repressão não pode mais, o casamento (mulher-mãe que seja) e o tratamento não podem mais: “Uma coluna negra, semelhante a um ciclone ou uma tromba d´água, apareceu no litoral em frente. Moveu-se com incrível velocidade através da baía até o hotel; foi diminuindo, diminuindo, e Kovrin chegou-se a um lado para lhe dar passagem… O monge, com a cabeça grisalha descoberta, as sobrancelhas negras, descalço, os braços cruzados sobre o peito, passou voando por ele e se deteve no meio do quarto: Por que não acreditou em mim, perguntou em tom de censura”.

         Na exaltação causada pelo reaparecimento da sua sensação de ser um gênio, um eleito de deus, Kovrin sente o sangue jorrando de sua garganta sobre o peito e até “seus punhos se tingiram de vermelho (como a hora do crepúsculo, e é como se ele estivesse saindo de dentro para fora de si mesmo). Pensando em chamar Varvara, quando grita, o nome que sai (duas vezes) é “Tânia”. O que é a culpa! Mas o nome e a figura também estão associadas às promessas da juventude, a um esplendor de verão: “Gritava para Tânia, gritava para o grande jardim com suas flores miraculosas, gritava para o parque, para os pinheiros som suas raízes nuas, para o campo de centeio, gritava para sua maravilhosa ciência, para sua juventude, sua coragem, sua alegria, gritava para a vida que tinha sido tão bela. Viu no chão, diante dele, uma grande poça de sangue e, de tão debilitado que estava, não pôde pronunciar  uma só palavra. Mas uma inexprimível, infinita alegria invadiu todo o seu ser. Embaixo da sacada a serenata continuava, e o Monge Negro murmurava que ele era um gênio e que só morria porque seu corpo débil e mortal tinha perdido o equilíbrio e já não servia mais como invólucro do gênio… Quando Varvara Nicolaievna despertou e veio de trás do biombo, Kovrin estava morto. Mas sua face se congelara num sorriso de felicidade”.  Quantos de narrativas que intitulei “margens derradeiras” não acabaram assim com uma morte em que dois lados do aparelho psíquico estão em confronto, dissociados, num desequilíbrio intenso: William Wilson, Jekyll e Hyde, Griffin, o Homem Invisível (também lembremos de Dorian Gray), o pobre Miles nos braços de sua preceptora; e Bartleby, deitado à beira de uma parede, e Simão Bacamarte trancafiado no seu sonho de ciência, Teodoro, insaciado de tão rico, e a civilização européia e o Império Britânico engolidos pelas trevas em pleno Tâmisa? E se não é no fim, a agonia de um Kurtz se espraia por todas as últimas páginas do relato de Marlow: “O horror! O Horror!” E Mr. Valdemar apodrecendo diante de nossos olhos, e o anfitrião do Horla concluindo que o suicídio é a única escapatória. E Natanael precipitando-se da torre para não encarar os o olhar do Homem da Areia. Nenhum deles, no entanto, perecendo com a face congelada num sorriso de felicidade, porque nenhum deles teve o alento da sua ilusão, o consolo narcísico, transfigurando o último momento como uma apoteose que faz da vida toda algo belo. Nesse sentido, Kovrin é o anti-Ivan Ilitch, que encontra na luz da morte a passagem que lhe permite fugir da existência mentirosa que é a vida “comme il faut”. A morte de Ivan Ilitch despoja a vida de seus enfeites e truques, deixa o palco vazio; a morte de Kovrin ressignifica a vida e mostra que só faltou um invólucro melhor.


[1] Harold Bloom afirma que a ficção curta moderna pode ser separada em duas vertentes distintas e opostas, a tchekhoviana e a borgiana: “os textos curtos de Tchekhov têm início repentino, final elíptico, e não denotam qualquer preocupação com o preenchimento de vazios [o que aconteceria no realismo oitocentista, por exemplo]… Ainda assim, Tchekhov espera que o leitor aceite realismo e a fidelidade com que seus contos retratam a vida. Borges, no encalço de Kafka, mergulha em fantasmagoria. Ele, assim como seu precursor, não nos oferece réquiens por uma vida não vivida  (Como e por que ler, Objetiva).

[2] Utilizo a tradução de Moacir Werneck de Castro, para a Rocco (naquela coleção que tem O clube dos suicidas, O Homem da Areia, A fera na selva, Um coração singelo, Sylvie).

[3] O pai de Tânia lhe diz, mais adiante: Não se pode saber tudo. Nem a maior das inteligências pode compreender tudo. Você continua afundado na filosofia?” Resposta: “Sim, estou lendo psicologia e estudando filosofia em geral” Pergunta: “E não o aborrece?” Resposta: “Ao contrário, é o que me faz viver”. De certa forma, Kovrin lembra os ideólogos que abundaram na ficção russa oitocentista, nas obras de Dostoiévski e Turgueniêv, e ao mesmo tempo os heróis de Henry James que já estudamos, homens que estão cegos para a realidade à sua volta, que vivem a existência como “cosa mentale”.

[4] Tchekhov deixa vagar na incerteza onde ou quando Kovrin “ouviu” ou “leu” a história, mas a reveste do clima de coisa que nos impressionou na infância e continuou na nossa mente (embora não com as características aterradoras do Homem da Areia, de Hoffmann) ou daquelas lendas de maldições ou  errâncias imemoriais e cíclicas, como a do Judeu Errante, o Holandês Voador, o Golem. Mas sempre há o elemento inquietante, ameaçador, nessa junção lenda + imemorialidade (e isso influencia o clima de O Horla, que trata de um ser que pode ter coexistido com o homem desde o início, sem ser percebido, e que se alimenta dele, o que será explorado também nas histórias de vampiros etc): “…o mais espantoso é que não posso lembrar como essa lenda me entrou na cabeça. Será que a li? Ou a escutei? Ou quem sabe sonhei com o Monge Negro? Não consigo me lembrar. Mas a lenda me fascina”. Na descrição da lenda, entra o aspecto do desdobramento (o monge se reduplica), que tem a ver com o fracionamento psíquico, o aspecto ilusório da identidade (da miragem surgiu outra miragem e dessa uma terceira) e a possibilidade de retorno (e Freud já nos ensinou o que geralmente retorna: o reprimido). O ego de Kovrin está dominado pelo superego. O esgotamento nervoso é uma fratura e um indício: seu inconsciente já esperou por demais (os mil anos) e as comportas se abrirão.

[5] O Monge lisonjeia aquela idéia de que o homem civilizado do século XIX é o “apogeu” da história da humanidade: “Sem vocês, servidores dos mais altos princípios, vivendo livre e conscientemente, a humanidade não seria nada; desenvolvendo-se na ordem natural, só lhe cabe esperar o fim de sua história terrena. Mas vocês, por cerca de mil anos, se empenham em chegar ao reino da verdade eterna, e este é o seu alto mérito. Vocês encarnam em si mesmos as bênçãos de Deus que ficaram entre os homens”. Vocês podem ver que Tchekhov parece parodiar esse discurso, principalmente porque o Monge cita o Evangelho de São João: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”.

[6] Mais tarde, na mesma noite, ele procura as sensações do verão anterior e fracassa: Kovrin recordou os arrebatamentos do verão passado, quando o ar, como agora, estava impregnado do cheiro de jalapa e o luar se filtrava através das vidraças. Para tentar voltar ao estado de espírito do ano anterior, foi até o quarto, acendeu um charuto forte e mandou que o criado trouxesse vinho. Mas agora o charuto lhe era amargo e desagradável, e ao vinho faltava o sabor de antes.”

[7] Kovrin sempre mantém uma percepção totalmente autocentrada e egoísta com relação à Tânia e ao casamento. Uma carta dela consegue penetrar um pouco essa couraça, e também permite que a narrativa faça um retrospecto de acontecimentos sobre os quais saltou, o que mostra a perícia técnica de Tchekhov: “sabia que o casamento com Tânia fora um erro. Estava contente de ter-se afinal separado dela, mas a lembrança daquela mulher, que nos últimos tempos parecia haver-se transformado numa múmia ambulante, na qual tudo morrera… só lhe despertava piedade e irritação contra si mesmo… Vingara-se em gente que nenhuma culpa tinha de seu vazio espiritual, de sua solidão, de seu desencanto com a vida”.  Lembra, então, da sua revolta com a vida, a ponto de rasgar em pedaços sua tese, seus ensaios e seus artigos: “quando o último caderno acabara de ser rasgado e jogado pela janela, experimentou amargura e raiva, e foi cruel ao falar com sua esposa. Deus, como a destruíra! Lembrou-se de que um dia, desejando fazê-la sofrer, lhe dissera que o pai tinha desempenhado no romance deles um papel inusitado, chegando a lhe pedir que se casasse com ela”. Na carta que escreve a ele, Tânia o informa da morte do pai e de que os jardins e pomares estão passando para estranhos, justamente o que ele mais temia.

18/08/2011

O coração das trevas à margem do Sena

(o texto abaixo foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: O médico e o monstro, Bartleby, Memórias do Subsolo, A morte de Ivan Ilitch, O alienista, O mandarim, O coração das trevas & A volta do parafuso; em torno de cada um, analisei outros: William Wilson, O homem invisível, O duplo, O capote, A tumba dos ancestrais, O horla, O homem da areia, A vida privada, etc)

“As ilusões caem, uma após outra, como cascas de um fruto…e o fruto é a experiência. Seu sabor é amargo e, no entanto, tem qualquer coisa de ácido que fortifica (perdoem-me este estilo antiquado). Rousseau diz que o espetáculo da natureza consola-nos de todo o Mal. Procuro, às vezes, encontrar de novo os meus bosquezinhos de Clarens perdidos ao norte de Paris, nas brumas…”

(Gérard de Nerval, Sylvie, 1855)

“…chegava quase a lamentar o fato de não jazer agora encostado a um tapume daquelas ruazinha perdida com uma faca entre as costelas. Só assim aquela noite absurda, com suas aventuras pueris e inconclusas, teria final adquirido uma espécie de sentido…O que lhe importava a vida de outra pessoa, o que lhe importava a sua própria? Tinha-se sempre de pôr a vida em jogo apenas por dever, por uma disposição para o sacrifício, e nunca por capricho, paixão ou apenas para medir-se com o destino? E, outra vez, ocorreu-lhe que possivelmente já trazia no corpo o germe de uma doença fatal. Não seria demasiado estúpido morrer porque uma criança diftérica tossira-lhe no rosto? Talvez ele já estivesse doente. Será que não tinha febre? Será que, na realidade, não estava deitado em sua cama, e tudo aquilo que acreditava ter vivido não fora mais que um delírio? (…) Não obstante, como quer que se sentisse naquele momento… o que se lhe impunha naquele instante com premência era, ao menos por algum tempo, refugiar-se no sono e no esquecimento…”

(Arthur Schnitzler, Traumnovelle-Breve Romance de Sonho, 1926)

Há uma subcorrente na obra maupassantiana que flerta explicitamente com o inconsciente, fazendo uso do umheimlich. Por essa razão, convém dar uma recapitulada no texto de O Horla (cuja versão definitiva é de 1887), que é da fase em que a loucura de Maupassant já estava em vias de aflorar (ela é conseqüência, assim como a de Nietzsche, da sífilis).

Maupassant nasceu justamente no meio do século (em 5 de agosto de 1850), embora não tenha chegado a vê-lo terminado (morreu em  6 de julho de 1893, um ano após ter tentado se matar cortando a garganta). Era o escritor mais estimado por Flaubert, na geração que se seguiu à dele.

O Horla é uma narrativa em forma de diário. Começa em oito de maio, com o narrador, que está vivendo na propriedade rural dos seus ancestrais, comentando seu “apego às raízes” (e nenhum início poderia ser mais irônico, essa profissão de fé num enraizamento, que o resto da narrativa irá desmascarar como falso e frágil). Em fins do século XIX, o narrador, como o Jacinto de Eça de Queiroz, proclama: “minhas raízes estão aqui, estas profundas e delicadezas raízes que ligam o homem à terra em que nasceram e morreram seus antepassados, que o ligam ao que se pensa e ao que se come, aos costumes e à linguagem local, às entonações dos camponeses, aos odores do solo, das aldeias e do próprio ar… Das minhas janelas, vejo o Sena que corre, ao longo do meu jardim, por trás da estrada, quase em minha casa, o grande e largo Sena que vai de Rouen ao Havre, coberto de barcos em movimento”  [1]. Ou seja, ele está à margem do rio que atravessa o “coração do país”, unificando campo e cidade, província e centros cosmopolitas.

Nesse dia em que começa o relato,  o narrador vê passar no rio um longo comboio de navios, puxados por um rebocador… Depois de duas escunas inglesas (de dois mastros)… vinha um soberbo três-mastros brasileiro, branco, admiravelmente limpo e brilhante. Saudei-o, não sei bem por que, tanto me deu prazer vê-lo”. Não percamos de vista esse soberbo navio brasileiro, que causa admiração por ser tão limpo e brilhante. Ele é peça- chave no texto.

Na anotação seguinte começam os sintomas estranhos: febre, um sentimento de estar “doente” ou “triste”, e a reflexão sobre influências invisíveis em nossas existências, que bem poderiam ser consideradas pré-freudianas: “De onde vêm estas influências misteriosas que transformam nossa felicidade em desânimo e nossa confiança em angústia? Parece que o ar, o ar invisível, está cheio de Forças desconhecidas de que sentimos a vizinhança misteriosa.  Em meio ao bem-estar material e a “vitalidade” burguesa, esse desconfortável desânimo. E o peso da diferenciação não-narcisista entre eu (portanto, ser limitado) e o mundo: “Ah! se tivéssemos outros órgãos que realizassem a nossa favor outros milagres, quantas coisas poderíamos descobrir ainda ao nosso redor!”

Quatro dias, a constatação desoladora: Decididamente estou doente!” Que tipo de doença? Nada identificável, mas um enervamento febril bem real: Sinto, sem cessar, a sensação horrível de um perigo ameaçador, a apreensão de desgraça que está por chegar, ou da morte que se aproxima, pressentimento que é sem dúvida a expectativa de um mal ainda desconhecido, germinando no sangue e na carne” [2] . O passo seguinte mostra como a sociedade oitocentista medicalizou a experiência humana, a aventura épica: médico consultado, um regime de duchas e de brometo de potássio. Nem por isso ele melhora: “À medida que a tarde avança, sou invadido por uma inquietação incompreensível, como se a noite reservasse para mim uma ameaça terrível”. O que acontece geralmente à noite? O ato do sono, quando nos “esquecemos de nós mesmos”, isto é, da nossa vigilância diurna e, portanto, o inconsciente, o que não foi organizado pelo ego nem censurado pelo superego aflora: Deito-me e espero o sono como se esperasse o carrasco”.

O narrador entra no seu quarto, tranca bem a porta (como se estivesse se protegendo de uma ameaça externa): “Durmo duas ou três ora, depois um sonho, não, um pesadelo se apodera de mim. Sinto perfeitamente que estou deitado e durmo… sinto e sei… e sinto também que alguém se aproxima de mim, olha-me, me apalpa, sobe em minha cama, ajoelha-se sobre meu peito, toma-me o pescoço entre as mãos e aperta…aperta… com toda a força, para me estrangular”. É uma descrição acurada da angústia, que se corporifica na sensação física de impotência: “Quero gritar, não posso. Quero me mexer, não posso. Com terrível esforço, arquejando, tento me virar, libertar-me daquele ser que me esmaga e me sufoca, e não posso!” Como muitas das situações desse tipo de ficção oitocentista advinda de Hoffmann & Poe, sentimos uma espécie de desdobramento, da consciência partida em duas, uma estranha à outra [3].

A partir de dois de junho, à sensação de ameaça, acrescenta-se a de estar sendo observado, de que “alguém” está tão próximo que poderia tocá-lo se quisesse. Após a medicina ter falhado, tenta-se uma viagem, durante a qual, ele tem um colóquio significativo com o monge de um lugar ermo, que lhe conta várias lendas locais. O diálogo se encaminha para a possibilidade ou não da existência de seres na terra que não conhecêssemos. O monge diz: “Será que vemos a centésima milésima parte do que existe? [e isso numa época positivista, em que até um autor “fantástico” como Júlio Verne crê ser possível descrever, pesar e medir tudo na face da terra, em que o homem ocidental “civilizado” criava uma aldeia global à sua imagem e semelhança]. O monge dá como exemplo o vento: “aí está o vento, que é a maior força da natureza, que derruba os homens, abate edifícios, desenraiza as árvores, suspende montanhas de água no mar, destrói falésias e arremessa grandes navios contra os rochedos, o vento que mata, que sopra, que geme, que ruge… o senhor o viu, pode vê-lo? No entanto, ele existe”.

Em três de julho, já de volta, tanto ele quanto o cocheiro padecem do mesmo “mal” (irônica irmanação de classes). As descrições parecem como a do nosso moderno estresse. As imagens de vampirização começam a aparecer: “Esta noite senti alguém agachado no meu corpo e que, com sua boca sobre a minha, bebia minha vida por meus lábios. Sim, chupava-a da minha garganta, como sanguessuga”.  Não importa (e isso irmana o texto de Maupassant ao Henry James de A volta do parafuso) se o ser que sorve a vida dos lábios do narrador seja real, como numa história de horror, ou imaginário, como numa história de loucura; o duplo registro, e a suspensão entre ambos, é que faz o charme e eficácia da narrativa.

A crença na convivência com um ser sobrenatural ganha mais convicção na noite em que o narrador acorda  com sede, pega a jarra com água a seu lado, e a descobre vazia, e aí vemos como o duplo registro é eficiente: “Alguém bebera aquela água. Quem? Eu, sem dúvida? Poderia ser outro que não eu? Então eu era um sonâmbulo e vivia, sem saber, esta vida dupla e misteriosa que faz duvidar se há dois seres dentro da gente, ou se existe um ser estranho, desconhecido e invisível, que anima, por momentos, quando a alma está entorpecida, o corpo prisioneiro que obedece ao outro, como a nós mesmos, mais até do que a nós mesmos”. Aqui, bota-se o dedo na ferida do fantástico: esse tipo de relato só é possível porque existe o inconsciente, existe esse território estranho dentro de nós, que nos controla e sobre o qual pouco controle temos, quando nosso aparelho censor relaxa. É ainda o Hyde [o escondido] dentro de Jekyll.

Durante algum tempo as anotações giram em torno de experiências com líquidos e víveres deixados à cabeceira. O “ser” que convive com o narrador é frugal: bebe água ou leite, mas não toca em vinho, pão ou morangos.

A solução é partir para Paris. Ao contrário de Londres, Paris não dá espaço ao sobrenatural, ao bizarro (mesmo sendo o palco dos crimes da rua Morgue, isso no entanto foi antes do prefeito Hausmann colocar a cidade velha abaixo). No centro civilizatório mundano por excelência, e o palco ideal para o realismo e o naturalismo, que espaço terá o umheimlich? “Vinte e quatro horas de Paris bastaram para me colocar na linha… Ontem, depois de passeios e visitas, que me insuflaram na alma ar novo e vivificante [vejam como ele utiliza a mesma analogia ao contrário: na sua propriedade rural há um ser obscuro que lhe suga o ar, esvazia sua alma; em Paris, os contatos mundanos lhe insuflam esse mesmo ar e vivificam sua alma], acabei minha noite na Comédie Française. Representava-se uma peça de Alexandre Dumas Filho, cujo espírito alegre e poderoso acabou por me curar. De fato, a solidão é perigosa para as inteligências que se agitam. Necessitamos, ao redor de nós, de homens que pensam e que falam. Quando se fica solitário por muito tempo, a tendência é povoar o vazio com fantasmas”. Que ser gregário e frágil se tornou o homem do século XIX! A solidão, que era um elemento filosófico positivo, se torna um ônus, um fardo [4] . É na solidão que a selva sussurra coisas que enlouquecem a alma de Kurtz, é na solidão que a nossa amiga preceptora luta com fantasmas e se torna mais opressiva do que eles, é na solidão que o Dr. Jekyll deixa aflorar em si Mr. Hyde. E a solidão de Bartleby e do homem do subterrâneo?  E o que falar da solidão de Ivan Ilitch? Só Simão Bacamarte se sente à vontade, solitário no trono da ciência, pois nessa concepção do que é ciência não há sombras.

Um incidente em Paris é muito importante na narrativa, e aliás marca o grau de repercussão que o hipnotismo vinha obtendo naquele momento (aliás, no ano anterior, Freud recém-chegara de Paris com essa novidade terapêutica que aplicará por algum tempo na sua clínica vienense).  O hipnotismo, como a ciência de Simão Bacamarte, também é utilizado no sentido de eliminar as sombras, de explicar todas as ambigüidades, de explicar os atos da vontade. É a domesticação do insólito, do bizarro, através de relações de poder psicológico.

O narrador janta na casa de madame de Sablé, sua prima, esposa de um comandante militar. Ali, ele encontra um médico, Dr. Parent, o qual se interessa “por doenças nervosas e manifestações extraordinárias atualmente em foco por experiências com hipnotismo e sugestão”. Segundo o ilustre Parent, os cientistas estão a ponto de descobrir um dos mais importantes segredos da natureza e, portanto, da vida, descoberta que vai varrer da face da terra as crendices populares no sobrenatural, lendas de espíritos, fadas, gnomos, fantasmas, “até mesmo a própria lenda de Deus”  [já que a ciência é a nova religião da Humanidade]. A prima sorri incrédula e Parent a hipnotiza, dando-lhe uma ordem: ir no dia seguinte ao encontro do primo e lhe suplicar um empréstimo de cinco mil francos ao marido.

No dia seguinte, a prima aparece no hotel e lhe faz o pedido. O primo lhe diz que foi a sugestão hipnótica do Dr. Parent que a levou a essa atitude, e ela não acredita. Ele procura o ilustre cientista, que lhe diz: “E agora, acredita?” ,“Sim, que remédio”. Ambos vão à casa de madame de Sablé e o médico lhe retira a sugestão anterior e lhe passa outra instrução: quando o primo mencionar o assunto do pedido de empréstimo ela nada compreenderá. É o que acontece e a experiência perturba muito nosso herói.

Então, até agora tivemos duas vertentes: por um lado, os acontecimentos inquietantes, que parecem ter, mais do que uma realidade psíquica, uma existência real; por outro, uma visão científica dos eventos psíquicos, do controle da vontade, que racionaliza qualquer experiência e coloca o poder nas mãos do detentor do saber racional. E mais ainda, ciência & Paris se aliam nessa perspectiva de banir o que é inexplicável e deslocado. É no meio da mundana Paris que o Dr. Parent anuncia seus veredictos racionalistas.

Em 30 de julho, o narrador volta para casa. Em seis de agosto ele afirma que viu um ser invisível colher uma flor na sua frente: “Estou certo agora, certo como a alternância dos dias e das noites, que existe perto de mim um ser invisível, que se alimenta de leite e água, que pode tocar nas coisas, fazê-las trocar de lugar, dotado, em conseqüência, de uma natureza material, ainda que imperceptível para nossos sentidos, e que habita como eu, debaixo do meu teto”. Ele se autodiagnostica: “Eu me julgaria louco, absolutamente louco, se não estivesse consciente, se não conhecesse perfeitamente meu estado, se não o sondasse, analisando-o em completa lucidez. Quando muito seria um alucinado raciocinante. Uma perturbação  desconhecida se teria produzido em meu cérebro, uma dessas perturbações que os fisiologistas tentam hoje anotar e analisar.Essa perturbação teria produzido em meu espírito, na ordem e na lógica das minhas idéias, uma fenda profunda. Fenômenos semelhantes ocorrem no sonho que nos conduz às fantasmagorias mais inverossímeis, sem nos surpreender, porque o aparelho verificador, o sentido de controle, está adormecido, ao passo que a faculdade imaginativa vela e trabalha.

Ele pensa em partir novamente, mas não consegue. Sua vontade está tolhida, ele está imantado àquele círculo vicioso angustiante (“Durante todo o dia quis ir embora, mas não pude. Tentei realizar este ato de liberdade tão fácil, tão simples, sair, entrar no carro para ir a Rouen, e não pude. Por quê?” ). Ele compara a sua situação à da sua prima hipnotizada, cativa da vontade imperiosa de outrem. Curiosamente, ele é irreverente com o “ser” que o domina, “aquele vagabundo de uma raça sobrenatural (talvez por se alojar indevidamente em sua casa, o que escandaliza seus “direitos de proprietário”).

Ele consegue uma pequena fuga de casa, indo a Rouen, e pegando na biblioteca um tratado erudito sobre “habitantes desconhecidos do Mundo Antigo e Moderno”. Ele não consegue, entretanto, encontrar no livro nada que se assemelhe ao seu súcubo. Mesmo assim, se permite uma anotação instigante (em 17 de agosto): “Dir-se-ia que o homem, desde que começou a pensar, pressentiu e temeu a existência de um ser novo, mais forte do que ele, seu sucessor neste mundo, e que, sentindo-o por perto, sem decifrar a natureza daquele senhor, criou, em seu terror, todo um povo fantástico de seres ocultos, fantasmas vagos inspirados pelo medo”. Na verdade, temos aqui veladamente a discussão do evolucionismo. Levado à sua conseqüência lógica, nos permite pensar que o homem não é a última estação para o trem da evolução. E isso atingia diretamente a pretensão e a ilusão do homem ocidental oitocentista, que se cria o cume da escala. Todavia (e Freud, após Darwin, assestará o golpe final), “somos franzinos, desarmados, ignorantes, pequenos, neste fragmento de lama diluído numa gota d´água.

No mesmo dia das duas citações anteriores, ele testemunha o ser que habita sua casa e se alimenta do seu sopro vital virando as páginas do tratado erudito: “Minha poltrona estava vazia, parecia vazia. Mas compreendi que ele estava lá, sentado no meu lugar, e que lia. Com um salto furioso, um salto de fera revoltada que vai estraçalhar o domador, atravessei o quarto para apanhá-lo, apertá-lo, matá-lo. Mas a minha poltrona, antes que eu a atingisse, virou, como se fugisse de mim… a mesa oscilou, o lampião caiu e se apagou, e a janela se fechou como se um malfeitor surpreendido se lançasse na escuridão, segurando os batentes com as mãos”. Um novo dado se agrega à trama: “Então ele fugiu, teve medo, medo de mim, ele”. Há então a possibilidade de inversão de papéis: “Pois os cães às vezes mordem seus donos”. Parece-me, porém, que o escândalo que ele sente, a indignação, é ver suas posses, seus domínios, seus direitos, sendo usados pelo Outro. Que ele permaneça no domínio do invisível, é opressivo, mas não causa raiva; que ele se manifeste no nível do que lhe pertence (colhendo a flor no seu jardim, folheando seu tratado, quebrando sua louça) já é intolerável. É uma disputa de território, seleção natural, enfim. Como não sabe com quem se mede, a cautela é necessária, eivada de dissimulação: “vou obedecer-lhe, seguir seus impulsos, cumprir suas vontades, fazer-me humilde, submisso, covarde”.

Em 19 de agosto, ficamos sabendo de onde veio o Outro, o “ser”. Do Brasil. O narrador lê numa revista científica que na província de São Paulo, os habitantes fugiram desvairados de suas idéias, dizendo-se perseguidos, possuídos, “governados como gado por seres invisíveis e vampirescos, que além de se alimentarem do alento humano, bebem água e leite. Um êmulo de Simão Bacamarte é convocado para colocar ordem no caos: “O professor Pedro Henrique, acompanhado de médicos ilustres, viajou para a província, a fim de estudar in loco as origens e as manifestações daquela surpreendente loucura e de propor ao imperador medidas apropriadas para restituir o juízo às populações em delírio”. E o narrador se lembra então do bel navio brasileiro que passara defronte sua propriedade, e que com certeza trouxera o ser, que o vira, que vira sua casa e saltara do navio para margem: “Agora sei, adivinho. O reinado do homem acabou”.

Eu penso uma porção de coisas sobre esses trechos, e não sei se elas fazem um todo coeso, contudo faço uma tentativa de amarrá-las. Nós estamos vendo, em O Horla, as angústias do homem próspero que vive na mais consumada civilização no século XIX, embora com aquele romantismo da “volta à terra”. Toda essa angústia tem a feição do retorno do reprimido, daquelas pulsões primitivas, muitas delas destrutivas. Mas se estamos no século do colonialismo imperialista, também estamos no século em que os primeiros países colonizados se revoltaram e proclamaram sua independência (entre eles, o Brasil). Ora, não seria de se ver nesse “ser” que veio da América também uma forma de retorno do reprimido, um troco, uma espécie de colonização às avessas, de negação da supremacia do homem branco, ocidental, que se via como a última bolacha do pacote, a última flor da criação? Drácula, Horla, Ebola, Gripe Aviária, Aids, tudo se volta contra os centros cosmopolitas, oriundos dos lugares de ocupação. Além do mais, é o retorno de algo irracional, de algo que o hipnotizador em Paris afirmava ter sido vencido pela ciência: o desconhecido, que convive em condições de igualdade, ou até superioridade, com o costumeiro, o racionalizado, o domesticado. Além disso, na imaginação de Maupassant talvez tenha sido retrabalhada febrilmente a informação (como pessoa culta ele devia ter certo conhecimento disso) sobre as inúmeras revoltas que eclodiram no Segundo Reinado. Populações revoltadas e exaltadas numa ex-Colônia, o mundo virado do avesso, a ordem social imposta pelos padrões europeus em vias de ser liquidada por populações insatisfeitas em serem tratadas “como gado”. O fardo do homem branco: lidar com a má consciência do colonialismo, transformada em terror… dos monstros ali engendrados.

Como bom francês racionalista, apesar do seu pavor, nosso herói acaba nomeando o  seu inimigo, embora essa atividade racional seja colocada em xeque pelo tom balbuciante que o texto adquire: “Ele veio, o… o… como se chama ele? Parece gritar seu nome, e não entendo… o … sim… ele grita… Escuto… não posso… ele repete… o … Horla… ouvi… o Horla… é ele… o Horla… ele veio!”  E de repente o texto envereda por um pesadelo evolucionista, em que um novo ser nos utilizará como nós fizemos com o cavalo e o boi, e o homem passa a ser mais um elo na cadeia da seleção natural: “Por que nós seríamos os últimos?”  O Horla está mais apto a sobreviver do que o homem: “Sua natureza é mais perfeita, seu corpo mais fino e mais bem acabado do que o nosso, tão fraco, tão desajeitadamente concebido, atulhado de órgãos cansados… máquina animal sujeita às doenças, às deformações, às putrefações, respirando mal, mal regulada, ingênua e estranha, obra grosseira e delicada, esboço de um ser que poderia se tornar inteligente e soberbo”. Além de ser um lamento quase nietzschiniano, uma aspiração a uma superação do próprio homem, esse trecho me parece resvalar para a recusa do princípio da realidade, recuperando operações narcisistas (aquelas da onipotência infantil, que Freud descobriu). A onipotência do desejo narcisista (e sua decepção e contrariedade com a realidade) aparece bem no seguinte trecho: “Por que não outros elementos além do fogo, do ar, da terra e da água? São quatro, apenas quatro, estes pais de que se nutrem os seres! Que miséria! Por que não quarenta, quatrocentos, quatro mil? Como tudo é pobre, mesquinho, miserável! Avaramente distribuído, secamente inventado, pesadamente feito”  [5].

Com os “órgãos superexcitados” (reação tipicamente decadentista), o narrador resolve medir forças com o Horla e matá-lo. Um dia, finge escrever e ao mesmo tempo tem a sensação de que o monstro está “lendo sobre seus ombros”. E quem lembra de O Espelho, de Machado de Assis, escrito vários anos antes, terá um arrepio ao ler a seguinte passagem: “Ergui-me, mãos estendidas, voltando-me com tanta rapidez que caí. E então?… enxergava-me como em pleno dia, mas não me vi no espelho! Ele estava vazio, claro, profundo, cheio de luz! Minha imagem não se refletia nele… e eu estava bem de frente. Via de alto a baixo o grande vidro límpido. O machadiano Jacobina, sozinho no sítio, precisou de sua farda para recuperar seu sentimento de identidade e existência. Nosso amigo está em plena solidão, sem as conversas e lazeres reanimadores de Paris, que, como vimos, tinham efeito de revivificar seu alento. Nada mais natural do que se sentir “não-existente”. Para ele, é o Horla quem interdita a apreensão de sua própria imagem: “ele, cujo corpo imperceptível devorara meu reflexo.  E tem uma vertigem de medo. Poucos segundos depois: “comecei a me avistar num nevoeiro, no fundo do espelho, como através de uma camada d´água… Era como o fim de um eclipse… Pude enfim me distinguir completamente, como faço todos os dias quando me olho no espelho. O inconsciente, o reprimido, anuvia nossos contornos (o que vemos todos os dias no espelho), nosso reflexo, fragmentando-o (Jekyll ou Hyde, William Wilson) ou até suprimindo-o por alguns momentos.

No dia dez de setembro, no Hotel Continental em Rouen, o narrador relato como tudo acabou. Ele consegue trancafiar o Horla dentro do seu quarto e inicia um incêndio (o detalhe mais impressionante, é que aprisionado no seu pesadelo narcisista ou neurótico, ele esquece os criados dentro da casa (“um grito, um grito horrível, superagudo, lancinante, um grito de mulher, atravessou a noite, e duas mansardas se abriram! Esquecera-me dos criados! Vi seus rostos desesperados e os braços que se agitavam!”). O sinhozinho se salvando, o resto que se dane, “casualties of war”; entre elas, o enraizamento ilusório, numa terra, numa casa, já que o destino do homem branco é tudo consumir, “the waste land”: “A casa, agora, era uma fogueira horrível e magnífica, uma fogueira monstruosa, iluminando a terra inteira, uma fogueira que queimava seres humanos, e ele também, Ele, Ele, meu prisioneiro, o novo Ser, o novo senhor, o Horla!” A convivência e harmonia parecem ser impossíveis, sempre será um destruindo o outro, e destruindo-se no processo.

Nos últimos parágrafos do texto, após se atormentar com a dúvida (o Horla morreu ou não morreu, ele pode morrer ou não, é indestrutível ou não?), ele conclui sua narração da seguinte forma: “Não… Não… não há dúvida, absolutamente nenhuma dúvida… ele não morreu… Mas então… então… será preciso que eu me mate!”


[1] Utilizo a tradução de Léo Schlafman, da coletânea por ele selecionada, As grandes paixões (Record), preferindo-a à mais tradicional, de Mário Quintana (Globo).

Já na década de 50, à época do nascimento de Maupassant, Gérard de Nerval mostra (em Sylvie)  um narrador que tenta fazer a ponte de uma vida mergulhada no cosmopolitismo de Paris (representado pelo meio teatral) e suas “raízes” componesas, que lhe aparecem sob a forma de uma longa viagem onírica. O campo vira então um “ideal do ego”, o superego que vigia e censura o desregramento na metrópole: “despertaram em mim toda uma nova série de impressões: era uma recordação da província há longo tempo esquecida, um eco longínquo das festas ingênuas da juventude. A trompa e o tambor ressoavam ao longe nos lugarejos e nos bosques; as moças trançavam grinaldas e formavam, cantando, buquês ornados de fitas. Um pesado carro puxado por bois recebia estas dádivas à sua passagem, e nós, filhos das redondezas, formávamos o cortejo com os nossos arcos e as nossas flechas, condecorando a nós mesmos com o título de cavaleiros, sem saber que não fazíamos mais do que repetir, através dos tempos, uma festa druídica, que sobrevivia às monarquias e às religiões trazidas do Oriente” (o grande tradutor Luís de Lima fez uma versão do texto de Nerval abrasileirando o nome da protagonista: Sílvia, editora Rocco).

Nerval também não viveu muito: suicidou-se aos 47 anos (nasceu em dois de maio de 1808, e morreu em 25 de janeiro de 1855).

Quanto ao outro autor que coloquei em epígrafe, Arthur Schnitzler, ele é considerado o Freud da ficção, e, vienense, foi contemporâneo do criador da Psicanálise (era médico também). Nasceu seis anos depois dele, em 1862, e morreu oito anos antes, em 1931.

[2] Numa outra passagem, bem mais adiante no relato: “Quando se é atingido por certas doenças, todas as molas do ser físico parecem quebradas, todas as energias aniquiladas, todos os músculos relaxados. Os ossos se tornam moles como a carne e a carne líquida como água. Sinto isso em meu ser moral de maneira estranha e desoladora. Perdi a força, a coragem, o domínio sobre mim e o próprio poder de colocar em movimento a minha vontade. Não posso mais querer, mas alguém quer por mim. E obedeço” (anotação de 12 de agosto).

[3] “Não sou mais nada para mim, nada além de espectador escravo e aterrorizado por todas as coisas que faço” (anotação de 14 de agosto).

[4] Curiosamente, como típico personagem decadentista, ele despreza o povo e a multidão. Comentando a festa da República (14 de julho): “O povo é um rebanho imbecil, ora estupidamente paciente, ora ferozmente revoltado”. Maupassant não podia estar alheio ao conceito do seu mestre Flaubert de bêtise, da estupidez intrínseca à sociedade mercantilista.

[5] Nesse trecho, Maupassant cria quase que um hai-kai:

“a borboleta!

Uma flor que voa!”

13/08/2011

O fardo do homem branco: “A Tumba dos Ancestrais”, de Rudyard Kipling

(o texto abaixo foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: O médico e o monstro, Bartleby, Memórias do Subsolo, A morte de Ivan Ilitch, O alienista, O mandarim, O coração das trevas & A volta do parafuso; em torno de cada um, analisei outros: William Wilson, O homem invisível, O duplo, O capote, A tumba dos ancestrais, O horla, O homem da areia, A vida privada, etc)

 

 

“Deus de nossos pais…

Morre o tumulto, morrem os clamores,

Partem os capitães, partem os reis,

Teu sacrifício antigo prevalece ainda,

Um humilde e contrito coração,

Senhor Deus dos Exércitos, sê conosco ainda,

Para que não esqueçamos, não esqueçamos! (…)

Em missões longínquas nossas armadas

Dissolvem-se. Morre o fogo em promontório ou duna.

Eis que toda a nossa pompa de outrora

Tem a mesma sorte de Tiro e Nínive!

Juiz das nações, poupa-nos ainda,

Para que não esqueçamos, não esqueçamos! (…)

Se ébrios de poderio, nós falamos

Com língua irresponsável sem temor de Ti,

Em jactâncias como fazem os gentios

Ou raças inferiores que não possuem a Lei,

Senhor Deus dos Exércitos, sê conosco ainda,

Para que não esqueçamos, não esqueçamos!

(Rudyard Kipling, Poema para o Jubileu da Rainha Vitória, 1897)

Como arauto do império., Rudyard Kipling sempre foi um tanto estigmatizado pela modernidade. O único que sempre lhe rendeu culto explícito, que eu me lembre, foi Borges, para quem o autor de Kim (uma das histórias que eu mais gostava quando era garoto) fazia parte do seu panteão pessoal.

Kipling nasceu no “império”, no sentido forte da palavra: em Bombaim, na Índia, em 30 de dezembro de 1865 (seu pai era professor na Escola de Belas-Artes locais, e, lógico, tanto ele quanto a esposa eram britânicos). Só aos cinco anos e meio é que ele vai para a Inglaterra onde fica até os dezessete, quando volta à Índia. Com vinte anos, foi aceito na Maçonaria e passou a viver da literatura e do jornalismo. No final do século, ele estava morando na Inglaterra novamente, e foi ali que escreveu o poema de que tirei alguns trechos acima, em homenagem ao jubileu da Rainha Vitória, e que o tornou uma espécie de poeta nacional, com suas referências aos “gentios e raças inferiores que não possuem a Lei”. (apesar de que, num cômputo geral, o clima do poema é mais melancólico do que triunfalista, pois parece indicar que o império também passará, como Tiro e Nínive, devido ao orgulho e jactância, mas seu apelo é puramente imperialista e mesmo militarista com o “Senhor Deus dos Exércitos” guiando a nação). Viajou muito ainda, ganhou o Nobel em 1907 (foi o primeiro britânico, exatamente 100 anos da autora mais contrária a tudo o que ele representou ganhar o prêmio: Doris Lessing); diga-se de passagem, foi o premiado mais jovem da história, pois chegava aos quarenta e dois naquele ano. Ele morreu poucos dias depois de fazer setenta, em 18 de janeiro de 1936.

Confesso que gosto de muitas histórias de Kipling, que atualmente podem ser encontradas em duas boas coletâneas: Histórias sobrenaturais (traduzidas por José J. Veiga e que saíram pela Bertrand), com 33 contos e novelas; O homem que queria ser rei e outros contos selecionados (traduzidos, se é que se pode usar esse termo, por Luciana Salgado e que saíram em edição bilíngüe pela Landmark), com 14.  Eu escolhi A tumba dos ancestrais,embora prefira outras (aqui, só recomendarei a leitura das obras-primas: O riquixá fantasma; O signo da besta; A legião perdida; O homem que queria ser rei; e a minha favorita, A estranha viagem de Morrowbie Jukes). Por que justamente esta? Por motivos cronológicos: ela foi publicada em 1897, ano do poema e bem próxima de dois textos-chaves da “era imperial”: , A volta do parafuso (1898) & O coração das trevas (1899). Kipling, portanto, tinha 32 anos.

É uma história repleta de traços antipáticos e repelentes (elogio à caça, a certeza da inferioridade dos indianos), contudo é muito bem narrada e nos permite conhecer o âmago do imperialismo sob o seu prisma autocongratulatório, pois tudo resvala para o burlesco, para o magnânimo e para o condescendente. De uma forma curiosa, também é o relato de um branco que se torna deus para os nativos.

O personagem principal pertence à família Chinn, de Devonshire, que sempre enviou alguém para a Índia desde pelo menos 1799: “em 1834, John Chinn, da mesma família (vamos chamá-lo de John Chinn, o Primeiro), surgiu como administrador equilibrado em tempo de crise em um lugar chamado Mondesur. Morreu jovem, todavia deixou marca no novo país e a Muito Nobre Junta de Diretores da Muito Nobre Companhia da Índia Oriental proclamou suas virtudes num documento oficial e assumiu as despesas da construção de sua tumba entre as montanhas Satpura. O herói da história é o neto também chamado John, que passa a infância na Índia, num raio de 250 km do túmulo do avô, mas é enviado à Inglaterra. Como todos os filhos mais velhos, ele ingressa no exército e volta ao país onde nascera num navio-transporte que, no canal da Mancha, cruza com o vapor que está trazendo seu pai, Lionel, reformado após 30 anos de serviço colonial. Portanto, ele é o “continuador do serviço da família no Oriente”: Sua missão era ficar no regimento do pai a vida inteira, apesar de ser essa uma unidade na qual a maioria da classe seria capaz de pagar alto para não servir. Pois a maior parte do regimento é de “irregulares” (uso a tradução de José J. Veiga), “gente trigueira, mais para pretos”, ou seja, de nativos, chamados de “Wuddars”, “gente de casta inferior que caça ratos para comer, na opinião gera, “que não ofendia os Wuddars”, pelo contrário. Nenhum outro regimento indiano tinha tão poucos oficiais ingleses: Os oficiais [nativos] falavam com os seus soldados em uma língua que menos de duzentos brancos em toda a Índia conheciam; e os seus recrutas eram Bhils, talvez a mais estranha das muitas raças estranhas da Índia, gente rude, furtiva, acanhada, muito supersticiosa. Os Bhils são mais nativos, porque mais arcaicos, do que as raças que os ingleses chamam de nativas. São os catrumanos (lembram-se de Grande Sertão: veredas ?) da Índia, por assim dizer. Séculos de opressão e massacre do Bhil típico um ladrão de gado cruel e meio enlouquecido. Quando os ingleses chegaram, os Bhils pareciam tão preparados para a civilização como os tigres de suas matas [como se vê, ele isenta os ingleses de qualquer responsabilidade, opressão e massacre são anteriores, e são eles que tornaram os Bhils despreparados para a civilização; a analogia com os tigres é muito importante no imaginário da narrativa, como veremos]. John Chinn, o Primeiro, avô do nosso John, entrou nas terras dos Bhils, viveu em companhia deles, aprendeu a sua língua e conquistou-lhes a confiança ao matar os veados que comiam as parcas plantações; alguns aprenderam a arar e semear, enquanto outros eram atraídos ao serviço da companhia para policiar seus semelhantes. Quando entenderam que entrar em forma não significava se preparar para ser fuzilado, aceitaram a vida de soldado como um esporte exigente, mas divertido, e se empenharam em manter com freio curto a sua parte selvagem. É difícil ler A tumba dos ancestrais com isenção.

Bem, “John Chinn, o Primeiro, fez-lhes promessas por escrito de que, se se mostrassem bons dentro de certo prazo, o governo esqueceria delitos passados, e como era conhecido como homem cumpridor da palavra, os Bhils se empenharam… Foi um trabalho lento, não notado, daqueles que são feitos diariamente em toda a Índia; e se a única recompensa de John Chinn foi, como eu disse, um túmulo pago pelo governo, aquele povo humilde das montanhas nunca o esqueceu. É preciso já deixar claro que há uma certa divisão entre a gente do Norte e do Sul na região,para explicar certas diferenças, uma vez que o túmulo fica no Sul, onde o povo é mais rústico e ainda muito agarrado às cordilheiras Satpura. São os Bhils do sul que cultivam uma lenda “segundo a qual um dia Jan Chinn, como o chamavam, ia voltar para o meio deles. Enquanto isso, continuavam desconfiando do branco e do seu estilo de vida. O menor pretexto os levava a uma explosão de pilhagens desenfreadas e de matanças ocasionais; mas se tratados adequadamente, choravam como crianças e prometiam não fazer mais aquilo”.

Quando o neto de “Jan Chinn” retorna e assume seu posto, ele é homenageado pelos Wuddars e todos ficam admirados da sua semelhança com o resto da família. E de resto, ele é o “esperado”. Um dos oficiais nativos, Bukta, revela que o carregou nos braços: “Sou seu criado, como fui de seu pai. Somos todos seus criados”. Aqui há uma situação interessante: Chinn é subalterno, mas tem uma ascendência e um poder sobre a tropa que ultrapassa o do major do seu regimento, pois este detém uma patente abstrata, enquanto Chinn é neto de um deus, de uma lenda: “O alojamento do major ficava em frente ao de Chinn… o major se sentou na cama e soltou um assobio. Porque ver o oficial comissionado nativo mais antigo, um Bhil puro-sangue, detentor de um posto entre o seu próprio povo, servindo de criado de um oficial subalterno, era demais para os seus nervos”.[1]

Esse mesmo major vai informar (desnecessariamente) para Chinn a existência do túmulo do seu ancestral “lá por Satpura”: “Chinn sabia de cor a crônica da família. Está toda num livro surrado que repousa na mesa de laca chinesa atrás do piano na casa de Devonshire; aos domingos, as crianças tinham licença de folheá-lo”. O major conta que circula a história de que o fantasma do avô, quando lhe dá na telha, sai do túmulo montado num tigre selado: “Não acho isso adequado ao fantasma de um ex-coletor, mas isso é o que afirmam os Bhils do Sul. Nem os nossos nativos, que podem ser considerados moderadamente sensatos, gostam de bater aquela região quando ouvem dizer que Jan Chinn anda por lá montado no seu tigre. Dizem que é um animal nublado, não listrado, mas manchado, como gato malhado, uma verdadeira fera, e sinal certo de guerra ou pestilência… ou sei lá o quê”.

Bukta se encarrega de propiciar uma experiência iniciatória para o jovem Chinn: matar seu primeiro tigre. Durante a caçada, como faz um calor escaldante, o rapaz se despe e entra na água e Bukta fica impressionado vendo duas marcas vermelhas nele: uma de nascença, no ombro, na forma de um crescente estilizado; a outra, a marca da vacina contra varíola.

Chinn mata seu tigre, num “bom tiro”, o pobre animal é esfolado e Bukta diz ao sahib: “Ah, se eles não esfolarem direito nós os esfolaremos. São minha gente. Na tropa sou um; aqui sou outro… Era verdade. Quanto Bukta tirava o uniforme e voltava à vestimenta do seu povo, deixava para trás sua civilização de regulamentos. Aquela noite, depois de rápida conversa, ele se entregou a uma orgia, e uma orgia Bhil não é assunto para escrita”. Quanto a Chinn, presentes e empréstimos, nem todos mencionáveis, eram despejados no colo dele, e uma música infernal rugia e troava em volta de fogueiras… As bebidas aborígines são muito fortes, e Chinn era forçado a prová-las a todo instante” até desmaiar e acordar já a meia marcha da aldeia. Bukta lhe diz: “Meu povo ficou muito contente de ver o Sahib”.

Com o passar do tempo, Chinn se torna para essa gente uma mescla de juiz e conselheiro. Bukta lhe explica que ele é a Lei: Dê-lhes ordens, Sahib: duas, três, quatro palavras que eles possam levar na cabeça. Isso basta… Então Chinn dava ordens, sem perceber que uma palavra dita apressadamente no regimento ficava sendo a lei inapelável e dura em aldeias além das serras enevoadas, ficava sendo nada menos do que a Lei de Jan Chinn que, assim diziam os murmúrios, tinha voltado para vigiar na pessoa do neto”.

E a coisa toda é resumida pelo seguinte trecho: Não podia haver a mais leve dúvida quanto a isso. Todos os Bhils sabiam que o Jan Chinn reencarnado distinguira a aldeia de Bukta com sua presença após matar o seu primeiro tigre, nesta vida; que comera e bebera com o povo, como era seu costume, e (Bukta devia ter posto muito narcótico na bebida) em cima de seus ombros todos tinham visto a mesma Nuvem Voadora irada que os deus lá do alto puseram no corpo de Jan Chinn, o Primeiro, quando ele chegara aos Bhils. Para o tolo mundo branco que não tem olhos ele era um franzino oficial jovem, mas o seu povo verdadeiro sabia que ele era Jan Chinn; e assim acreditando, se apressavam em divulgar Sua palavra, cuidando para não adulterá-la pelo caminho. Como o selvagem e a criança que se entrega a brinquedos solitários [infelizmente, Freud também fazia freqüente associação entre selvagens ou primitivos e crianças; para ele compartilhavam do mesmo status psíquico] têm horror de ser ridicularizados ou questionados, aquele pequeno povo guardou suas convicções para ele mesmo e o oficial superior do regimento jamais suspeitou que cada um dos seiscentos soldados de pés ligeiros e olhinhos de conta, em posição de sentido ao lado de seus fuzis, acreditava serena e inabalavelmente que o subalterno postado no flanco esquerdo da formação era um semideus duas vezes nascido, divindade tutelar da terra e do povo”. O único traço quase sobrenatural do jovem Chinn, e uma característica de família, é a saúde: ao contrário dos outros brancos, jamais adoece ou contrai febre, mesmo que durma ao relento. Como diziam, antes de nascer ele já tinha “sal na moleira”.

Mas no seu segundo ano de serviço, um boato atravessa a região e está relacionado a seu ancestral. “O que é que o velho anda aprontando agora?”, pergunta o já impaciente com todas essas histórias jovem oficial. Fica sabendo que o fantasma do avô montado no seu tigre “nublado” anda circulando pelos picos de Satpura, aterrorizando os montanheses, que fazem romaria, como fiéis, ao seu túmulo, para apaziguá-lo. O oficial superior alerta: “isso é sempre pretexto para tumultos, e os Bhils de Satpura são tão trogloditas como eram quando o seu avô os deixou. Isso tem conseqüências”. O oficial superior põe o dedo na ferida: não importa as condições materiais ou os costumes das populações. O que preocupa é o levante social, a desordem, a ameaça mesmo que insignificante ao império.

Chinn conversa com Bukta, tentando arrancar dele uma visão mais clara da situação em Satpura e este revela os receios apocalípticos do povo com relação à aparição: Sabemos que ele acordou, mas não sabemos o que ele quer. Ele está fazendo um sinal a todos os Bhils ou só para os de Satpura? Diga uma palavra, Sahib, que eu possa levar ao regimento e depois a nossas aldeias. Por que Jan Chinn voltou a montar o seu tigre? Quem errou? Qual foi o erro? Será prenúncio de peste? Nossas crianças vão morrer?” Chinn adota o expediente de se envolver na pele do tigre que matara para dar uma forte impressão oracular: O recado é só para os Bhils de Satpura, e não alcança os nossos; só os de Satpura que, como sabemos, são brutos e ignorantes… As noites naquelas bandas são quentes, é incômodo  ficar muito tempo no leito sem se virar, e Jan Chinn precisa ver como está seu povo. Então, levanta, assobia chamando seu Tigre Nublado e saiu um pouco para respirar ar fresco. Ele só quer é ver a lua novamente em sua terra. Mande dizer isso no Sul, e diga que é Minha Palavra”. Como se vê, ele se vale tranqüilamente do logro e da artimanha e realmente trata os nativos como crianças. O fardo do homem branco: babá de primitivos, nessa visão “civilizatória”, “de cima”.

Também é notável como a narrativa é toda externa, nunca temos uma mínima visão introspectiva do protagonista, um indício de algum impacto psicológico dessa deificação de sua família. Em nenhum instante, Kipling pensa em problematizar a situação que criou, a não ser em termos de fatos anedóticos e pitorescos, malgrado uma pitada de ironiazinha aqui ou ali. Chinn retoca sua fala oracular: “Se os Bhils de Satpura perguntarem o significado do sinal, diga que Jan Chinn veio ver se eles estão cumprindo a promessa de viver corretamente. Quem sabe andaram saqueando? Quem sabe estejam pensando em desobedecer às ordens do governo?Jan Chinn veio ver. Bukta pergunta se o espírito está zangado e a resposta é a seguinte: Ora, você já me viu zangado com meus Bhils?” Confesso que momentos como esse quase me fizeram largar a leitura da primeira vez, de tão irritado que fiquei.

Chega de Satpura a notícia de que um vacinador (nativo) enviado pelo governo causou revolta entre os montanheses. Chinn então se oferece “extra-oficialmente” para tirar uma “licença de caça”, na verdade pretexto para ir à região, que agrada a seu superior: Acho o plano muito bom. Você tem influência hereditária com os pequeninos [o termo se refere à estatura dos Bhils de Satpura, mas não deixa de nos trazer à mente a associação entre eles e criancinhas] e eles podem lhe dar ouvidos quando a visão dos nossos uniformes os deixar enlouquecidos. Você ainda não esteve naquela parte do mundo, esteve? Tenha cuidado para que não o mandem para a cripta da família em tão tenra idade. Acho que se conseguir ser fazer ouvido por eles, vai se sair muito bem”. Ou seja, é um texto em que as tensão coloniais se resolvem com bonomia, com medidas macunaímicas. Ainda assim não me desperta a menor simpatia, apesar de não poder deixar de admirar a originalidade e perícia da narração.

Chinn e Bukta viajam para a região. Mensageiros de Bukta avisam a população de que Jan Chinn virá explicar o horror (a vacinação) que os ameaça. Para Bukta, o presságio do Tigre Nublado estava totalmente esclarecido. Afinal, chegam à plataforma onde está a tumba do ancestral do sahib: “A Índia está toda cheia de túmulos esquecidos erigidos desde o início do século XVIII, túmulos de coronéis esquecidos, de unidades que não mais existem; funcionários da Companhia das Índias Orientais que saíram em expedições de caçadas e nunca voltaram, viajantes, agentes, escriturários, porta-estandartes da mesma companhia, às centenas, milhares e dezenas de milhares. Inglês esquece depressa, mas indiano tem memória duradoura, e quem faz o bem na vida é lembrado depois de morto. O túmulo quadrado de mármore maltratado pelo tempo que abriga Jan Chinn estava coberto de flores silvestres e nozes, embrulhos de cera e mel, garrafas de bebidas e charutos infames, chifres de búfalo e penachos de capim seco. Numa extremidade, uma tosca imagem de barro representando um homem branco de cartola à antiga montado num tigre malhado. Ou seja, o bom povo indiano pratica o bom e velho sincretismo que nós já conhecemos muito bem (enquanto esse aspecto sincrético e popular dá um ar vivo ao túmulo, os dizeres formais estão semi-apagados).

Chinn ordena a Bukta que diga aos camponeses que o esperem ali (nessa altura, eles estão com medo de ir ao túmulo a não ser em pleno sol, por causa do Tigre Nublado): “Sou senhor dos Bhils, diz. Mas já anoitece e o próprio Bukta se acovarda de voltar ao túmulo nessas horas perigosas, “apesar de ter carregado o sahib nos braços quando ele era criança”; aliás, ele tem uma frase maravilhosa, “Com a luz do sol acredito, mas ao luar tenho dúvida”. Dá quase para perdoar Kipling pelo seu racismo e prepotência eurocêntrica devido a pequenos momentos como esse. O povaréu local explica a ele que o vacinador chegou “em nome do governo”, com umas “faquinhas de fantasmas” querendo cortar os braços das pessoas. Amarraram-no, então, “mas não mataram”. Bukta pergunta se morreu alguém nessas escaramuças todas. “Ainda não.  Bukta afirma que Jan Chinn vai dar uma ordem “e vocês vão obedecer. O resto fica com o governo. Eu mesmo sei alguma coisa das faquinhas encantadas e dos arranhões. É um feitiço contra varíola. Mas como é que age eu não sei. E vocês também não precisam se preocupar com isso”.

Apesar de irritado com a não-aparição de Bukta, no dia seguinte Chinn não dá mostras disso. Ele exige que lhe tragam o vacinador e que o desamarrem “em sua presença”. Começa a perorar chamando os Bhils locais de “Bobos”: Vim a pé da minha casa (a assembléia estremeceu) para esclarecer um assunto que qualquer pessoa que não seja um Bhil de Satpura percebe de longe. Vocês sabem o que é varíola… É ordem do governo que quem for arranhado no braço com estas faquinhas que estou mostrando fica com o corpo fechado para a doença. Todos os sahibs têm o corpo fechado, e muitos indianos também. É uma mágica.Olhem a marca” e ele mostra a sua, embora só alguns espíritos corajosos se aproximem e se certifiquem, imaginando ainda outras marcas assustadoras escondidas sob a roupa: Jan Chinn teve a grandeza de não proclamar ali mesmo a sua divindade. Enfim, ele diz ao povo: Por isso, vim salvar vocês: primeiro da varíola; depois da grande bobagem de terem medo; depois, talvez, da corda e da prisão”. Por causa dessa peroração de Chinn, um membro mais idoso dos montanheses, admite que alguns roubaram cavalos e novilhos. Chinn promete resolver o assunto com um kwol (documento de proteção): Mas primeiro vamos pôr a marca do governo naqueles que não foram visitados pela varíola [e aqui a associação não é mais com a infância e sim com o gado mesmo, explicitamente].

E assim se procede à vacinação do povo, temperada com as exortações de Chinn. Depois ele se declara não mais “junta médica” e sim “tribunal” e faz o inquérito dos roubos confessados: “Dez líderes foram mandados à planície com um bonito documento escrito em folha de caderno… Esse documento ia trazer-lhes alguma calamidade, explicou, mas era melhor do que prisão”. Os saqueadores arrependidos descem a montanha e antes de procuraram o agente policial, Mr. Dundas Fawnee, procuram o pároco, que inicia as sanções, após ler o documento de Chinn. Ele chama policiais que tomam deles os cavalos e novilhos e depois espanca com um rebenque três deles: Foi horrível, mas Jan Chinn previra isso. Submeteram-se, mas não abriram mão do kwol, que os livrava da prisão”. Após o castigo ministrado pela justiça “de cima”, eles afinal encontram Fawnee, a justiça aqui  de baixo”, que espanca a todos: “É certo que a proteção de Jan Chinn garantiu nossa liberdade, disse o mais idoso do bando, mas é como se tivesse muitas surras num pedaço de papel. Vamos nos livrar disso [e esse é outro trecho humorístico que alivia um pouco o lado desagradável do texto]. Um deles subiu numa árvore e enfiou o papel numa forquilha a dez metros de altura, onde não poderia causar nenhum mal… doloridos, mas felizes, os dez homens voltaram a Jan Chinn no dia seguinte”. Eles contam os fatos, dizem que ganharam de agente policial, após as surras, uma garrafa de uísque e uma caixa de charutos, e que o kwol ficou numa árvore, “porque toda vez que o mostrávamos a um sahib éramos surrados”.

Chinn determina que eles serão seus batedores numa caçada, para alimentar o povo, que ele vigia para que não se coce e nem se assuste com a inchação dos braços, após a vacinação. Murmura-se que “era correto e bom ser arranhado com faquinhas mágicas, que Jan Chinn era mesmo a reencarnação de um deus que dava comida e bebida de graça, e que entre todas as nações a dos Bhils de Satpura era a preferida dele, contanto que evitassem se coçar. Desde então o bondoso semideus era associado por eles a grandes comilanças e à vacina e às lancetas de um governo paternalista”.[2]

O povo pede como último favor que ele lhes permita ver sua montaria, o Tigre Nublado. Chinn então sai à procura de rastros e encontra perto do túmulo do avô uma caverna onde se esconde realmente um tigre. Perturbado em seu repouso, o animal, “como uma serpente saciada”, se arrasta para a entrada da caverna, bocejando e piscando por causa do sol que faz faiscar o capacete branco de Chinn: O sol iluminava o seu flanco direito. Nunca tinha visto um tigre com tais malhas.” Muita gente está à volta, expectante, para ver o que Chinn fará com seu “cavalo”. Ele dispara entre os olhos do tigre, que foge, mas não tem a menor chance de sobreviver com o balaço direto que levou: a trilha vermelha levava em linha reto ao túmulo do avô e lá, entre cacos de garrafas e pedaços da imagem de barro, a vida a deixou com um esperneio e um ronco”. Chinn, orgulhoso de si mesmo, usa uma fita métrica para medir o tigre (3,63m) e ordena o esfolamento imediato. Todos comentam que o Tigre Nublado morreu mesmo: “todo aquele lado do morro ficou coalhado de homenzinhos que gritavam, cantavam e pulavam”.

A pele e o vacinador resgatado são os seus troféus da aventura, na volta para casa, acompanhado por um “exército” que desaparece subitamente: ele percebeu que estava se aproximando da civilização, isto é, do seu regimento. Seu relatório, em poucas palavras: “Vacinei todos, e gostaram”.  Seu superior é que tem dificuldades: Agora me diga: como é que eu vou pôr isso tudo no meu relatório”. No final, a versão oficial da resistência à vacina omite qualquer menção ao tenente John Chinn “e muito menos sobre a sua divindade. Mas Bukta sabia, o regimento sabia, e cada Bhil de Satpura sabia. Bukta só tem uma preocupação: que Chinn se case logo e tenha um filho, para o qual transferir seus poderes, para a sucessão não se interromper e os Bhil, ficando entregues “à sua imaginação, “novos distúrbios” poderão eclodir em Satpura [ou seja, a família Chinn e sua pretensa divindade, é a instância doravante reguladora da ordem social da região].

Como se vê, o relato postula a necessidade da continuidade e da permanência do domínio inglês (benéfico) na Índia, é o melhor para esse povo cujos selvagens devem ser tratados como crianças. Nem se permite uma fresta nele que permita ao leitor vislumbrar uma civilização milenar e complexa, com uma religião riquíssima de símbolos ou uma estratificação social ainda mais excludente que a da própria Grã-Bretanha. Não, a Índia que vemos aí está quase perto dos primórdios da humanidade. Decerto haverá traços bem fiéis à realidade (a uma realidade determinada), mas foram selecionados e montados com um olhar parcial e tendencioso.


[1] Mais adiante, lemos: “não escapou a ninguém que da primeira vez que o novo oficial ergueu a voz para dar uma ordem a tropa inteira tremeu. Bukta  desenvolve uma “teoria estranha”, aceita como artigo de fé entre os nativos, “e cada gesto do jovem Chinn era um confirmação. A “teoria estranha” é a homologia divina entre avô e neto.

[2] Há um momento curiosamente irreverente. O povo está meio farto de Jan Chinn: É difícil para crianças e selvagens manter reverência o tempo todo a ídolos por eles inventados, e eles já tinham farreado demais com Jan Chinn. Ele então anuncia:  “Amanhã volto para minha casa, o que deixa o povão entristecido.

07/08/2011

“O Clube dos Suicidas”: um texto central para o imaginário da leitura

(o texto abaixo foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: O médico e o monstro, Bartleby, Memórias do Subsolo, A morte de Ivan Ilitch, O alienista, O mandarim, O coração das trevas & A volta do parafuso; em torno de cada um, analisei outros: William Wilson, O homem invisível, O duplo, O capote, A tumba dos ancestrais, O horla, O homem da areia, A vida privada, etc.

Publico esta parte do material em função do recente lançamento da CosacNaify, O clube do suicídio, que reúne vários textos de Robert Louis Stevenson, para mim um dos gênios da literatura).

Temos o fio vermelho do crime entremeando-se no novelo descolorido da vida e nossa obrigação é desentranhá-lo, isolá-lo, expondo-o em toa a sua extensão.”

(Arthur Conan Doyle, Um estudo em vermelho, 1887)

 “Seguiu-se uma batida forte e autoritária. Entre, disse Holmes. Entrou um homem que dificilmente teria menos de 1,97 m, com o peito e os braços de um Hércules. Suas roupas eram luxuosas, de um luxo que, na Inglaterra, seria visto como beirando o mau gosto… Segurava um chapéu de abas largas e trazia na parte superior do rosto, descendo até abaixo das maçãs, uma máscara negra; parecia ter acabado de ajustá-la, pois a mão ainda estava erguida quando entrou. A julgar pela parte inferior do rosto, era um homem de forte caráter (…) Antes que Vossa Majestade abrisse a boca eu já sabia que estava falando com Wilhelm Gottsreich Sigismond von Orstein, grão-duque de Cassel=Felstein e rei hereditário da Boêmia”.

(Arthur Conan Doyle, Um escândalo na Boêmia, 1891)

 “Labirinto, pura racionalidade destinada a conter o perigo. Sem o perigo (Minotauro, monstro andrógino, duplo e ambíguo), o labirinto seria o sublime ideal, construção sem destino.”

IAutran Dourado,Proposições sobre Labirinto, 1976)

. Antes de Conan Doyle criar seu Sherlock Holmes e fazê-lo percorrer os subúrbios e submundos londrinos, às vezes disfarçado, em 1882 Robert Louis Stevenson lançou The New Arabian Nights, As novas mil e uma noites. Desse grupo (infelizmente pequeno) de histórias, uma parte ficou mais famosa, O clube dos suicidas.

As novas mil e uma noites supostamente são narradas, umas encadeadas às outras, por um “erudito árabe, em dois blocos principais, o já referido O clube dos suicidas (dividido em três histórias, a do rapaz com as tortinhas de creme; a do médico e do baú de Saratoga; e a aventura do cabriolé) e O diamante do rajá (com quatro histórias, a da caixa da modista; a do jovem clérigo; a da casa das persianas verdes; e a aventura do príncipe Florizel e um detetive).

Começa assim: “Enquanto morou em Londres, o fabuloso príncipe Florizel, com seu jeito simpático e sua generosa sabedoria, conquistou o afeto de todas as classes sociais” 1. Exotismo: o príncipe de um país distante (a Boêmia); qualidades de herói: fabuloso, generoso e sábio; liberdade de movimentos: é rico. Estamos numa atmosfera de inverossimilhança e liberdade ficcional, também. E temos de aceitá-las para usufruir as tramas que começam com A história do rapaz com as tortas de creme.

O príncipe Florizel fica entediado quando não há nenhum peça engraçada nos teatros londrinos ou quando a estação do ano não lhe permite um dos esportes em que ele sempre vencia seus competidores, e então ele convoca seu homem de confiança, o coronel Geraldine para experiências na metrópole, convenientemente disfarçados, é evidente): ‘Longa experiência e variado conhecimento da vida deram a Geraldine uma habilidade única em matéria de disfarces; ele conseguia adaptar não apenas o rosto e a postura, mas a voz e quase que os pensamentos, aos de qualquer classe, caráter ou nacionalidade… e às vezes conseguia que os dois fossem admitidos em estranhas sociedades”. Como se vê, é um prenúncio do mundo de Holmes & Watson, e aliás, segue o padrão da dupla díspare: um, com alguma superioridade sobre o outro, seu seguidor e contraste. E não podemos esquecer a mobilidade social permitida por esses expedientes, como se fossem os Hydes de uma dupla de Jekylls.

Dessa forma os encontramos numa noite de março no Bar da Ostra ,nas proximidades de Leicester Square, bebericando conhaque com soda: “o príncipe já começara a bocejar e a cansar-se da excursão, quando a porta foi empurrada com força e um rapaz entrou no bar, seguido pó dois criados. Cada um carregava uma grande bandeja de tortinhas de creme. O rapaz oferece as tortinhas aos presentes. Quando alguém recusa, o rapaz mesmo engole o doce. Ele diz a Florizel que desde as 5 da tarde já comera 27 tortinhas. Florizal pergunta qual é o espírito que rege o oferecimento das tortas: O espírito, caro senhor, é de zombaria”. Como condição de aceitar o oferecimento, o príncipe o convida para jantar. Acompanhando o rapaz, eles visitam outros estabelecimentos. Quando faltam algumas ainda, o rapaz diz: “Cavalheiros, não terão de esperar mais. Embora minha saúde esteja abalada por antigos excessos, arriscando minha vida porei término à circunstância que nos serve de obstáculo” e engole as nove tortinhas restantes (e ele ainda pretende jantar!!??). Chama os criados e lhes dá algumas moedas de ouro: “E dispensou-os, com uma reverência a cada um[notem como Stevenson dá um ar de exotismo aos gestos e cerimoniais em plena Londres oitocentista]. Durante alguns segundos manteve os olhos fixos na bolsa de onde tirara o dinheiro… então, com uma risada, jogou-a no meio da rua e declarou estar pronto para o jantar”.

Num restaurante do Soho, Florizel e Geraldine captam a ansiedade sob a capa de alegria ruidosa. O príncipe se apresenta como Godall e Geraldine como o major Hammersmith: “Passamos a vida à procura de aventuras extravagantes, e não há extravagância com a qual não possamos nos sentir solidários”.

O rapaz conta sua história: dissipou sua fortuna 2 e chegou ao ponto de possuir menos de 400 libras: “Sinceramente, eu pergunto aos senhores: um homem que se respeita pode se apaixonar ou viver com quatrocentas libras?… acelerando o ritmo dos meus gastos, cheguei hoje de manhã às últimas oitenta libras. Essa quantia dividi em duas partes iguais: quarenta libras reservei para um propósito particular[esse propósito particular é que constituirá o centro da história]; as quarenta restantes eu devia gastar até a noite… e quando os senhores me viram jogar a bolsa na rua, as quarenta libras haviam terminado. Agora me conhecem tão bem quanto eu mesmo: um tolo, porém coerente em sua tolice”.

Para os seus interlocutores, a farsa burlesca das tortinhas começa a ter a aparência de uma tragédia disfarçada. E Geraldine lança uma isca: “Ora, não é estranho que nós três tenhamos nos encontrado por mero acaso, em uma cidade tão grande quanto Londres, estando os três na mesma situação”. Ou seja, apresentam-se como arruinados. Para provar sua situação e sua disposição às loucuras, Florizel joga um rolo de notas no fogo. O rapaz tenta impedir e lhe diz que deveria ter guardado quarenta libras: Sem elas, não se pode entrar. O regulamento é rígido… Vida amaldiçoada, onde um homem sem dinheiro não pode sequer morrer!” Ele ainda testa a “situação” do príncipe: “Terá o senhor chegado, depois de uma vida de prazeres, ao ponto em que só pode se permitir mais uma coisa?” Como ele ainda parece desconfiado, Geraldine insiste mais: Nós também, como o senhor, já nos cansamos da vida, e estamos decididos a morrer… Um trio sem vintém deveria entrar de braços dados no reino de Plutão e dar uns aos outros algum apoio entre as sombras!” O rapaz acaba dizendo: “Mal imaginam quão afortunado foi para os senhores o momento em que aceitaram minhas tortinhas de creme! Sou apenas uma unidade, mas uma unidade dentro de um exército. Conheço a porta da Morte; sou um dos íntimos, e posso introduzi-los sem cerimônia e sem escândalos. E explica que as quarenta libras são o preço da entrada para o Clube dos Suicidas: “sabemos que a vida é apenas um palco onde representamos o papel de bufões enquanto isso nos divertir. Faltava ao conforto moderno uma facilidade: uma maneira decente e fácil de sairmos do palco, a escada dos fundos para a liberdade. Vejam a futilidade e desfaçatez de classe embutido nesse discurso. É a frivolidade decadentista com a morte, ainda uma maneira de ser esnobe: “Para pessoas como eu, e para todos os que desejam fugir do laço sem escândalos póstumos, foi criado o Clube dos Suicidas… se estão realmente cansados da vida, posso levá-los a uma reunião esta noite”.

Apesar das reservas de Geraldine (De todas as nossas loucuras, esta é a mais desvairada e a mais perigosa”) quanto a essa aventura, o príncipe aceita o convite. Num beco escuro, após aguardarem um momento o rapaz entrar e conseguir a admissão deles, eles entram numa porta. Num pequeno aposento, eles esperam o presidente do Clube: “Uma janela alta dava para o rio; pela disposição das luzes da margem eles calcularam não estar muito longe da estação de Charing Cross. A mobília era parca, o estofamento gasto, não havia qualquer enfeite a não ser uma sineta no centro de uma mesa redonda e, pendurados em ganchos ao longo das paredes, chapéus e sobretudos de um número considerável de cavalheiros. Que espécie de espelunca é esta, perguntou Geraldine” [e aqui temos o gosto pelo submundo, que caracteriza parte da ficção vitoriana, esses lugares escusos escondidos nas vielas e becos da grande cidade, e que ficariam consagradas particularmente pelas histórias de Sherlock Holmes].

A princípio, o presidente do suposto Clube nega a sua existência e pedem que se retirem do local. O príncipe resolve bancar o durão: “Deixe-me lembrar-lhe que uma pessoa em minhas circunstâncias tem muito pouco a perder e não vou tolerar grosserias”. E assim abre o caminho para a admissão. Eles são entrevistados separadamente então. O presidente pergunta a Florizel qual a sua razão para estar “cansado da vida”: “Pura e simples preguiça [antes do decadentismo imperar, antes de Dorian Gray, que aparecerá só na outra década, antes mesmo de Às avessas, de J.K. Huysmans, Stevenson dá uma cacetada no espírito decadentista] e acrescenta: Não tenho mais dinheiro…isso também é um problema. Eleva minha tendência à preguiça a um ponto sem volta O presidente do Clube: “conheço o mundo o suficiente para saber que as mais frívolas razões para um suicídio são com freqüência as mais difíceis de suportar”.

Após as entrevistas, dando-se por satisfeito, o presidente apresenta-lhes um juramento a ser assinado: “ao homem que aceitava uma promessa tão horrível não devia restar sequer um farrapo de honra ou qualquer dos consolos da religião. São levados para um salão, onde há quinze outros membros, a maioria bebendo champanhe e fumando, num clima de “hilaridade febril”: “enquanto ia de uma pessoa a outra, Florizel mantinha os olhos e os ouvidos atentos, e logo começou a ter uma idéia geral do ambiente em que se encontrava. Como em todos os lugares de convívio social, um tipo predominava: rapazes na flor da juventude, com todos os sinais de inteligência e sensibilidade em sua aparência, porém com poucos indícios de força ou daquela qualidade que leva ao sucesso. Poucos tinham mais de 30 anos, e não poucos não tinham chegado aos 20… A cada nova garrafa de champanhe aberta, a jovialidade crescia visivelmente… Havia pouca decência entre os sócios do Clube. Alguns se vangloriavam de atos indignos, cujas conseqüências os tinham levado a procurar refúgio na morte; outros escutavam sem desaprovação”. É o típico agrupamento de classe alta inglês, meio homo, meio vago. E Stevenson usa o truque do olhar estrangeiro para uma crítica social precisa. A opinião mais engraçada é do rapaz que declara que “nunca teria entrado para o Clube se não tivesse sido induzido a acreditar no Sr. Darwin. Não consigo suportar a idéia de descender de um macaco, explicou esse notável suicida”. Há um homem que se destaca no grupo: um quarentão (mas parecendo ter dez anos a mais), uma verdadeira ruína: “nunca tinha visto um homem mais naturalmente hediondo, mais estragado por doenças e por emoções perniciosas. Imaginem-se as “emoções perniciosas”.

Os sentimentos de honra cavalheiresco do príncipe se revoltam com esse mundanismo dos que já pensam gozar das “imunidades do túmulo”: “Se um homem resolve matar-se, que o faça, em nome de Deus, como um cavalheiro. Este alvoroço e toda esta conversa são impróprios”. De sua parte, Geraldine está apreensivo com relação aos rituais do Clube. Por isso, o falso Hammersmith puxa conversa com o quase inválido quarentão, Sr. Malthus, que afirma freqüentar há dois anos “este Clube maravilhoso”. Geraldine fica aliviado. Se alguém freqüenta tanto tempo tal lugar, “pouco perigo haveria para o príncipe em uma única noite (se ele tivesse lido Breve história de Sonho, de Schnitzler, ele nunca pensaria assim: uma noite pode ser equivalente à odisséia de Ulisses). O Sr. Malthus se vangloria de ser uma espécie de “sócio honorário”. E elogia o presidente, que a Geraldine não impressionara nem um pouco: “Que histórias! Que cinismo! Tem uma enorme experiência da vida e, cá entre nós, é com certeza o bandido mais corrupto de toda a Cristandade!… Esse homem, meu caro Sr. Hammersmith, é de uma engenhosidade sem par. Há três anos vem desempenhando em Londres esse ofício tão útil e, acho que posso acrescentar, artístico[outra característica de época: o lado esteta do criminoso; aliás, sempre tive para mim, desde a primeira vez que li esse texto, que o presidente do Clube dos Suicidas inspirou os arquiinimigos sherloquianos, do tipo professor Moriarty, com sua rede subterrânea de crimes, à sombra da sociedade cumpridora do Dever do universo vitoriano]; jamais surgiu sequer uma sugestão de suspeito. Eu, por mim, acho que ele é inspirado. O senhor sem dúvida se recorda daquele famoso caso, há seis meses, do cavalheiro que foi envenenado acidentalmente dentro de uma farmácia? Que simplicidade, que segurança!”. O Sr. Malthus diz que experimentou “todas as libertinagens, sem exceção”,”colocando a mão no braço de Geraldine…e declaro que não há uma só que não tenha sido grosseira e mentirosamente superestimada… eu me recuso a dizer que o amor é uma paixão forte.O medo é a única paixão forte; é com o medo que deve brincar quem deseja experimentar a intensa alegria de viver”. E ele explica as regras do Clube: cada noite é sorteada uma vítima e um outro sócio, que será o instrumento, o “sumo-sacerdote da morte”: “Meu Deus, exclamou Geraldine, então eles se matam uns aos outros (note-se que, excluindo-se, com o termo “eles”, já que teria ingressado como membro, ele meio que se denuncia, mas Malthus está tão absorto no seu discurso que nem percebe), “Dessa maneira resolve-se o problema do suicídio.

Abrem-se as portas e todos se dirigem a outro aposento, Malthus pedindo o braço de Geraldine para ampará-lo até lá: Mesmo com a bengala e o braço de Geraldine, o Sr. Malthus caminhava com tanta dificuldade que todos já estavam sentados quando os dois, mais o príncipe, que esperara por eles, entraram no salão; em conseqüência, os três tomaram lugares juntos, no fim da mesa”. Nesse recinto, o presidente embaralha cartas e explica que o ás de espadas é o signo da morte e o ás de paus designa o agente da morte: “Geraldine pôs rapidamente o amigo a par de tudo que aprendera com o sócio honorário, e da horrível alternativa diante deles. O príncipe sentiu um frio mortal e uma contração no peito; engoliu com dificuldade e olhou de um lado para outro como um homem preso em um labirinto”.

Começa a distribuição das cartas: “À medida que se aproximava a vez do príncipe, ele se via tomado por uma excitação crescente, quase sufocante; mas tinha algo da natureza de um jogador, e reconheceu, com espanto, que havia certo prazer em suas sensações [Thânatos atrai tanto quanto Eros]. Recebeu o nove de paus, o três de espadas caiu para Geraldine, e a rainha de copas para Malthus, que não conseguiu reprimir um soluço de alívio. O rapaz das tortinhas de creme logo virou o ás de paus. Ficou paralisado de horror, a carta presa entre os dedos; não viera para matar, mas para ser morto[curiosamente, é o papel de agente da morte que configura a perversidade do Clube, como se a própria idéia de um Clube de suicídio, assim como devem existir sites e comunidades no Orkut desse tipo, não fosse perversa a priori].

O presidente inicia a segunda rodada, e a carta da Morte ainda não apareceu. Quando dá o ar da graça, o sorteado é Malthus: um ruído horrível, como de algo que se quebra, escapou-lhe da boca; pôs-se de pé e tornou a sentar-se, sem qualquer sinal de paralisia. Era o ás de espadas: o sócio honorário tinha brincado demais com seus terrores”. Mais tarde, ele permanecerá sentado ali, bêbado e imóvel, “como um objeto quebrado.

Retirando-se nossos heróis dali, Florizel comenta a maçada que é estar preso a um juramento (que fez ao entrar no Clube): Ter que permitir que esse comércio de assassinos continue a dar lucro impunemente! Se ao menos eu ousasse quebrar minha promessa” [note-se que o sentido de aventura amesquinha-se muito sob essa perspectiva; presos nas convenções, por uma ética que não deveria se aplicar à situação, nossos aventureiros padecem de uma impotência aviltante; são vítimas de uma armadilha, e caiu bem a imagem do homem “preso num labirinto”; o labirinto é a racionalização humana: sempre nos perdemos nos seus corredores, porque temos a tendência de pensarmos contra nós mesmos]. Geraldine replica que se é impossível ao príncipe, cuja honra é a honra da Boêmia, quebrar a hedionda promessa, ele ousa, e deve, quebrar a dele: “Geraldine, se sua honra for atingida em qualquer das aventuras a que eu o levo, não apenas nunca o perdoarei, mas também, e acho que isso vai sensibilizá-lo mais, nunca perdoarei a mim mesmo. Geraldine acata sua decisão. Antes de partir, Florizel anota bem o endereço do Clube.

No dia seguinte, lêem no jornal o “trágico acidente” que vitimou Bartholomew Malthus, que teve morte instantânea ao cair do parapeito superior de Trafalgar Square: Quase fico feliz em saber que ele está morto, disse Geraldine, mas confesso que meu coração chora pelo rapaz das tortinhas de creme”. O príncipe fica resolvido a acabar com o presidente, embora não saiba como isso deve ser feito. E recorda a “experiência” que foi o jogo de cartas. Geraldine pressente que ele pretende voltar ao Clube: Os deveres de sua alta posição proíbem a repetição de um risco como esse. E o príncipe faz uma curiosa confissão, que é do superego afrouxando em favor dos impulsos do id: “Não estou inteiramente satisfeito com minha decisão. Sob as roupagens do maior dos potentados, o que existe, senão apenas um homem? Nunca senti minha fraqueza tão agudamente quanto agora, Geraldine,mas ela é mais forte que eu[vejam que genial: a fraqueza é mais forte que ele]… Posso deixar que o presidente siga sem empecilhos sua carreira funesta? Posso começar um aventura tão fascinante e não segui-la até o fim [aqui se entremeiam a exigência ética, deter o presidente, e o capricho, seguir até o fim a fascinante aventura; superego e id tentando um balanceamento]? Não, Geraldine, você está pedindo ao príncipe mais do que o homem é capaz de fazer”.

E pela segunda noite consecutiva eles freqüentam o Clube dos Suicidas, desta vez com menos gente, só meia dúzia de rapazes (entre os presentes, um deprimido rapaz das tortinhas de creme, ou de crime, do qual ele se arrependeu ao que parece, pelo que conta à nossa dupla amiga). O presidente comenta a morte de Malthus com o príncipe, que o cumprimentara pelo sucesso: “O Clube vai ficar irreconhecível sem ele. A maior parte dos sócios é de jovens, senhor; jovens poetas, ainda por cima, que não são grande companhia para mim. Não que Malthy não tivesse sua poesia também, mas do tipo que eu conseguia entender. Posso muito bem imaginar que o senhor simpatizasse com o Sr. Malthus, replicou o príncipe, ele me pareceu um homem muito original”.

Dali a pouco começa nova distribuição de cartas: “Quando o príncipe Florizel viu seu destino sobre a mesa à sua frente, o coração imobilizou-se. Era um homem corajoso, mas o suor começou a pingar de seu rosto: havia exatamente cinqüenta chances em cem de que estivesse condenado. Virou a carta: era o ás de espadas. Um tumulto tomou conta de seu cérebro, e a mesa dançou ante seus olhos… Reconheceu que seu comportamento tinha sido tolo, criminoso: em perfeita saúde, na flor dos anos, herdeiro de um trono, ele arriscara seu futuro e o de um país corajoso e leal”(é interessante ele lembrar-se de seu país “corajoso e leal” quando vive e se aventura em Londres, bem longe dele). Preso à honra, ao superego, ele, que se deixou embaraçar pelo id, sente-se condenado, sem saída. O rapaz das tortinhas de creme cumprimenta-o (ele é o único, além do presidente, e do “agente” da morte que restou no salão; Geraldine escafedeu-se): “Eu daria um milhão, se o tivesse, pela sua sorte. Enquanto o rapaz se afastava, Sua Alteza não pôde deixar de refletir que teria vendido a oportunidade por uma quantia menor”. Ele pergunta quais são as instruções ao presidente: O senhor seguirá pelo Strand na direção do centro da cidade, pela calçada do lado esquerdo, até encontrar o cavalheiro que acabou de sair daqui. Ele dará prosseguimento às instruções, e faça o favor de obedecer; por esta noite ele está investido da autoridade do Clube”.

Florizel se despede e sai, tentando se encorajar. Numa esquina próxima, três homens caem sobre ele e jogam-no dentro de uma carruagem, onde está Geraldine: “Embora estivesse disposto a enfrentar a morte, ficou felicíssimo em ceder à amistosa violência e voltar mais uma vez à vida e à esperança” (mas eu me pergunto: essa ação de Geraldine resolve o problema da honra, da maneira como os personagens o colocam para si? Não é uma fuga, uma quebra do juramento?).

Geraldine explica: “Esta tarde procurei um detetive, a quem pedi e paguei sigilo absoluto. A Vasa estava cercada desde o anoitecer…”. O “agente” da morte foi capturado na saída também e está esperando a sentença do príncipe no palácio, assim como os cúmplices. Quer dizer, então, que se exerce um poder paralelo na grande metrópole? O príncipe pode executar sua justiça pessoal, tem todos os meios à disposição (como os Treze de Balzac); mas não vemos sempre no universo da aventura essa “justiça paralela”?: Vossa Alteza tem no momento um grupo considerável de prisioneiros. Há entre eles pelo menos um criminoso a quem deveria ser feita justiça. Nosso juramento nos proíbe de recorrer à lei; e a discrição nos imporia a mesma proibição, se o juramento fosse anulado. Florizel decide que o presidente deve morrer em duelo e Geraldine sugere seu próprio irmão como adversário.

O clímax da história é a reunião de Florizel, já em roupagem oficial e ostentando as insígnias da Boêmia, com os sócios do Clube dos Suicidas capturados, aos quais passa um sermão (a cena me parece um daqueles finais das comédias de Shakespeare), e depois diz: “Amanhã ouvirei suas histórias; quanto mais franqueza usarem, melhor poderei remediar sua infelicidade. Quanto ao presidente, ele propõe o seguinte, colocando a mão no ombro do irmão do coronel Geraldine: “Eis aqui um jovem oficial que deseja fazer uma viagem pela Europa; peço ao senhor o favor de acompanhá-lo nessa excursão. O senhor atira bem com a pistola? Porque pode precisar disso; quando dois homens viajam juntos, é melhor estar preparado para tudo. Deixe-me acrescentar que se por acaso o Sr. Geraldine perder-se no caminho, terei sempre outro oficial para colocar à sua disposição; e sou conhecido, senhor presidente, como uma pessoa de visão longa e braço igualmente longo” (não sei se isso é muito tranqüilizador, essas conexões do poder absoluto).

O texto termina assim: “Aqui (diz meu escritor árabe) termina A história do rapaz com as tortinhas de creme, que agora é um feliz morador de Wigmore Street, na Cavendish Square. Por motivos óbvios o número da casa não será revelado aqui. Aquele que desejarem acompanhar as aventuras do príncipe Florizel e do presidente do Clube dos Suicidas podem ler A história do médico e do baú de Saratoga…”

Esse flerte com a morte: uma pessoa que tem tudo, todos os privilégios da sociedade ocidental, todo o bem-estar e consideração do mundo, arriscando-se a perder tudo. Por quê? Porque, como nos ensinou nosso bom amigo do subterrâneo dostoievskiano, ‘”derramai sobre ele todos os bens do mundo, mergulhai-o de cabeça na felicidade… satisfazei suas necessidades econômicas a tal ponto que ele nada mais tenha que fazer senão dormir, comer pão-de-ló e cuidar da continuidade da história universal, pois bem, mesmo nesse caso o homem por pura ingratidão, pela necessidade de se sujar, cometerá à guisa de agradecimento, uma torpeza qualquer. Correrá até o risco de perder seu pão-de-ló e procurará deliberadamente as bobagens mais arriscadas, os absurdos mais desvantajosos, apenas para misturar a esse bom senso tão positivo seu pernicioso elemento fantástico” 3.Há uns 2.800 anos, no épico de Homero, Ulisses perdia-se na volta ao lar. Em Breve romance de sonho (1926), o protagonista (não por acaso um médico) tem algumas inesperadas e perigosas aventuras noturnas. Ao cabo da noite, Fridolin sabia agora por que, em vez de conduzi-lo para casa, seus passos seguiam levando-o sempre e involuntariamente na direção contrária”. O mundo do Desejo não conhece lar nem estabilidade.

 

1 Há uma tradução completa das Novas mil e uma noites pela editora Três (só que de 1974); a Rocco publicou em 1985-86 uma série de textos maravilhosos na Coleção Novelas Imortais: um deles foi O clube dos suicidas (outros títulos da série: Sylvie, de Gérard de Nerval; O Homem da Areia, de E.T.A.Hoffmann; Bartleby,de Melville; A fera na selva, de Henry James; O monge negro, de Tchekhov; Um coração singelo, de Flaubert), traduzido por Eliana Sabino.

2 Ele fala do seu “temperamento estouvado”, clássico exemplo de falta de controle do superego: “meu maior divertimento tem sido satisfazê-lo”. Sua educação: “Toco violino quase suficientemente bem para ganhar dinheiro na orquestra de um teatro barato… Aprendi o suficiente de uíste para perder umas cem libras por ano nesse jogo científico. Meu conhecimento do francês foi suficiente para me permitir gastar dinheiro em Paris com quase a mesma facilidade com que gasto em Londres etc.

3 No final das Novas mil e uma noites, após a Aventura do príncipe Florizel e o detetive, lê-se: “Quanto ao príncipe, essa sublime pessoa, uma vez cumprida agora a sua missão, possa ele ir, juntamente com o autor dos mil e uma noites, torvelinhar pelo espaço afora. Mas, se o leitor insiste em obter dados mais específicos, apraz-me informar que uma recente revolução derrubou-o do trono da Boêmia, em conseqüência de suas contínuas ausências e edificante incúria dos negócios públicos e que Sua Alteza atualmente é proprietário de uma tabacaria na Rupert Street, muito freqüentada por refugiados estrangeiros. Vez por outra lá compareço, para fumar e conversar, e vejo que ainda é tão esplêndida criatura como nos seu dias de prosperidade, com o seu ar olímpico por trás do balcão. E embora a vida sedentária comece a evidenciar-se na projeção do colete, sem dúvida ele é, considerando-o em conjunto, o mais belo cigarreiro de Londres”. Ou seja, o avatar do príncipe dos disfarces é o comerciante próspero, burguês, com uma barriguinha começando a ficar saliente. Sinal dos tempos.

O MESTRE DE EDIMBURGO

SOBRE ALGUMAS RELEITURAS E TRADUÇÕES DE STEVENSON

O belo (apesar de alguns pecadilhos) O segredo de Mary Reilly, de Stephen Frears, realizado quase que com a mesma equipe (o roteirista Christopher Hampton, o fotógrafo Philippe Rousselot, o músico George Fenton, John Malkovitch e Glenn Close no elenco) de Ligações perigosas, revisita um dos maiores clássicos do século XIX, conhecido no Brasil como O médico e o monstro.

O livro de Robert Louis Stevenson tem pelo menos três traduções recentes e acessíveis (a melhor edição foi há alguns anos, pela Nova Fronteira, com tradução de Rodrigo Lacerda, que não comentarei aqui): a de Lígia Cademartori (pela FTD), a de Helóisa Jahn (pela Ática) e a de Edla van Steen (pela Scipione).

Mary Reilly não aparece no livro original (o filme de Frears tem como base um romance de Valerie Martin). Quem assistiu ao filme (no qual ela é interpretada por uma Julia Roberts com cara e fragilidade da Mia Farrow de O bebê de Rosemary) sabe como é uma personagem impressionante. Na narrativa de Stevenson (publicada em 1886), quem vai desvendando a história para o leitor, aos pedaços, é outro personagem admirável, o severo Mr. Utterson, advogado do doutor Jekyll. Ele fica intrigado e constrito com a ascendência do rude e marginal Hyde sobre seu cliente e amigo, o qual vai se tornando cada vez mais arisco e misantropo, trancafiado em seu laboratório.

Através de informações diversas, de cartas, de testamentos e confissões (pois a breve narrativa é bem complexa), Utterson descobre que Jekyll e Hyde na verdade são a mesma pessoa e que Hyde aos poucos vai preponderando sobre a personalidade de Jekyll, além de cometer crimes mais e mais perversos.

O romance de Stevenson é genial. Em primeiro lugar, por ter antecipado Freud e a psicanálise ao demonstrar que todos nós temos uma porção irracional que só quer satisfazer seus desejos, não conhecendo nenhuma amarra moral (a não ser o medo da autoridade= prisão, punição), e que essa porção convive com o nosso verniz civilizado. Em segundo lugar, pela maneira como vai oferecendo os fatos ao leitor, de uma forma tão fragmentada quanto a própria personalidade de Jekyll. Esse, aliás, sempre foi o problema das adaptações cinematográficas (e nem a versão de Frears escapou nesse quesito), as quais sempre pecaram por estragar esse requinte de construção narrativa, preocupadas em mostrar a transformação de Jekyll em Hyde.

O mérito de Mary Reilly é fazer o leitor conhecer a história por dentro, através do olhos da seduzida Mary Reilly, num grande exercício de sutileza. Vista pelos olhos de Utterson, a história da dissociação de Jekyll em Hyde podia chocar a época vitoriana, como se fosse uma monstruosidade que surgisse numa sociedade sadia e estável, bem representada por um advogado cheio de valores éticos e apegado às formalidades legais. Vista pelos olhos de Mary, que desde criança conhece o mal que sustenta a própria sociedade, por sua condição servil, não é à toa que a monstruosidade latente em Jekyll e encarnada por Hyde hipnotize a melancólica criada: ela já conhece o avesso de uma sociedade tão obcecada pela moral aparente, pelo senso de dever, mas completamente carcomida pela miséria e pela hipocrisia.

Quanto às traduções, a de Liga Cademartori, embora premiada, peca por detalhes (colocar colégio em lugar de universidade; farol, absurdamente, no lugar de lampião de postigo) e por trechos incompreensíveis. Na cena em que Hyde pisoteia uma menina, as outras duas tradutoras consultadas para esta resenha, colocaram o seguinte: “Segundo o doutor não havia nada de grave com a criança, era principalmente susto” (Heloisa Jahn); [a menina] que tinha ficado mais assustada do que machucada—assegurou o médico” (Edla van Steen). Cademartori coloca: “A criança não era a mais assustada, de acordo com o médico”. Erro de revisão ou de interpretação do trecho?

Também insólito, por outras razões, é o trabalho de Edla Van Steen, que faz parte da bem sucedida série “Reencontro”, que apresenta para o leitor escolar condensações de obras clássicas. Acontece que, a não ser por pequenos trechos, van Steen praticamente mantém intacto o texto de Stevenson. Por que colocar, então, como condensação e por que esses cortes tão insignificantes, mas imperdoáveis, já que desnecessários? e já que ela apresenta um resultado tão bom?

Talvez, feitas as contas, a mais correta seja a de Heloísa Jahn, apesar da horrível edição da Árica (por que eles acham que seu público-alvo gosta de feiúra, de ilustrações chinfrins?).

De todo modo, seja pelo olhar de Mr. Utterson, seja pelo olhar dilacerado e dilacerante de Mary Reilly, o estranho caso do dr. Jekyll e do sr. Hyde é um clássico obrigatório.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 20 de agosto de 1996)

FREUD EXPLICA

    Com seu gosto pelo umheimlich (o sinistro, o estranho), que estudou no grande escritor alemão E.T.A. Hoffmann (O Homem da Areia), Freud com certeza apreciaria O médico e o monstro, enfim reconduzido no Brasil ao seu titulo correto, O estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde, em sua nova versão (na verdade, uma tradução fraca de Fábio Cyrino para a discutível editora LandMark

Esta novela (publicada em 1886) é um dos meus textos prediletos. Eu o colocaria em qualquer lista dos dez melhores do século XIX. Aliás, é preciso enfatizar o gênio de Robert Louis Stevenson (1850-1894), autor de obras-primas como O clube dos suicidas e O morgado de Ballantrae (e por que não A ilha do tesouro?).

Todo mundo sabe atualmente que o Sr. Hyde é o Dr. Jekyll. Quem vai desvendando a história para o leitor, aos pedaços, é o severo e admirável Mr. Utterson, advogado do cientista, o qual fica intrigado e escandalizado com a ascendência do rude e marginal Hyde sobre seu cliente e amigo, agora recluso e insociável. Através de informações diversas, de cartas, de testamentos e confissões, Utterson acompanha um processo em que a porção Hyde prepondera cada vez mais e comete crimes mais e mais perversos, embora acabe revelando um ser desamparado, infantil e patético no final, acuado no laboratório do Jekyll.

Hyde representa o que Freud caracterizou como “retorno do reprimido”, a manifestação dos impulsos inconscientes na consciência que até o século retrasado parecia soberana de nossa mente e da nossa personalidade, tida como unívoca. Stevenson intuiu essa ilusão tão precisamente que até a maneira como os fatos vão se oferecendo ao leitor refletem a fragmentação da identidade do protagonista, abalando os alicerces morais e éticos do vitoriano Utterson: “agora sua imaginação também estava envolvida, ou melhor, escravizada… a figura nessas fantasias assombrou o advogado a noite toda; e se chegava a adormecer, ela surgia rapidamente, movendo-se de um modo furtivo… ou rapidamente, muito rápido, a ponto de rodopiar, através dos vastos labirintos da cidade, a cada esquina pisoteando uma criança e deixando-a a gritar. E ainda que a figura não tivesse rosto pelo qual pudesse ser reconhecido, pois mesmo em seus sonhos ele não adquirira um fisionomia, ou quando o possuía era embaçado e se evaporava diante de seus olhos; e assim era que se espalhava e crescia na mente do advogado, com uma força singular, uma curiosidade quase exagerada de contemplar as feições do verdadeiro Senhor Hyde”.

Esse desejo de Utterson de confrontar o “vilão” que oprime seu amigo é muito natural. Utterson representa as forças da ordem, da razão, da repressão (o princípio da realidade). Hyde representa o irracional, o princípio do prazer assumido sem amarras morais ou considerações éticas, e deveria ficar mesmo “hyde” (escondido), não aflorar pelas ruas da maior metrópole do mundo, o coração da civilização.

(resenha publicada em 6 de dezembro de 2008)

06/08/2011

Três entrevistas sobre Deus e o monoteísmo

Este post é dedicado ao meu leitor Thiagojmj

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de outubro de 2001)

    O selo Difel vem se destacando com alguns dos melhores lançamentos dos últimos anos. Um dos mais recentes: A mais bela história de Deus (La plus belle histoire de Dieu, França-1997, tradução de Luciana Veit), raro caso de um livro de entrevistas cujos entrevistadores (Hélène Monsacré & Jean-Louis Schlegel) fazem perguntas inteligentes e precisas aos seus interlocutores. Na entrevista com o historiador Jean Bottéro, às vezes a formulação das perguntas é mais interessante do que a própria resposta, por mais escrupulosa e elucidativa que ela seja.

    Em O Deus da Bíblia, Bottéro destaca a importância de Moisés na invenção do monoteísmo: “Moisés transformou radicalmente os termos da troca entre Deus e o homem… Toda a história do Decálogo está, no meu entender, contida neste imperativo: só se pode servir e honrar a Deus respeitando uma certa moral, desejada e sancionada por Ele (…) se um Deus é necessário, só pode ser um Deus que não se parece conosco, tanto quanto possível, em nada. Que não seja, simplesmente, um homem. Basta-nos saber que Ele existe.  Ele está presente. Ele está lá, sem outras explicações ilusórias…um Deus verdadeiramente transcendente, absoluto e ininteligível. Um Deus do coração e não um conceito filosófico”.

 

     Talvez Bottéro não seja muito brilhante na sua exposição, mas ele toca em assuntos da maior relevância, ajudando o leitor comum a compreender por que o monoteísmo moldou nossa visão do mundo. Afinal, é um dos pontos em comum entre cristianismo, judaísmo e islamismo.

     Já na segunda entrevista, O Deus dos Judeus, o que não falta é brilho. Dificilmente poderia se encontrar  alguém mais incisivo e sagaz do que o rabino e filósofo Marc-Alain Quaknin (até nos faz esquecer um pouco como o Estado de Israel  é intolerante e opressor), ao desvelar a riqueza do pensamento judaico, principalmente quando explica a ininterrupta interpretação que o talmudismo propõe da Torá, que poderia servir aos críticos e professores que lidam com a literatura: “No Talmude, não se trata de entender cada vez melhor o sentido único que o texto deve conter, pois isso seria um modo de se adequar Deus, de aprisionar o infinito. Não se trata de interpretar o texto de maneira que a palavra nele contida—que é única—seja compreendida em todos os sentidos possíveis. A definição do Talmude consiste precisamente  nessa palavra plural devido à pluralidade das interpretações…a interpretação não se esgota… O Talmude não traz o sentido da Torá; ao contrário, ele expõe a Torá a novos sentidos”.

    Se Deus é um texto (a Torá), apresentar o texto numa única interpretação é diminuir Deus, por isso é preciso que o trabalho da interpretação nunca cesse.  Esse é um dos pontos mais fascinantes da intervenção de Quaknin, mas há muitos outros, como a oposição entre história e memória: “A história se ocupa dos eventos do passado, dos quais podemos ou não tirar lições para hoje. Mas esses eventos são efetivamente passados. Para a memória, ao contrário, eles são atuais, presentes.  Não é a narrativa do verdadeiro evento que é essencial, mas a verdadeira narrativa do evento que nos propõe o texto da Revelação”.

    E há ainda a explicação da Cabala, o exílio como vocação judaica, “condição de nossa identidade”, a questão da pureza e da santidade, a distinção entre o Bem e a bondade, a questão do Messias… enfim, são 50 e poucas páginas que dificilmente poderão ser esquecidas. Inclusive se deixarmos de lado o aspecto religioso, para quem meramente gosta de literatura, elas são admiráveis. Parece que estamos ouvindo um rabino que fosse um pouco Jorge Luis Borges.

     Quando  se pensa que o livro não pode ter outro ponto alto como esse, há ainda a terceira entrevista (O Deus dos Cristãos), com o magnífico teólogo Joseph Moingt.

    Graças a ele, pela primeira vez na vida eu vislumbrei sentido na história da crucificação de Jesus. Moingt se estende bastante a respeito da ressurreição e do seu efeito sobre os apóstolos: “Por outro lado, há o silêncio de Deus, a impotência de Deus durante a morte de Jesus. Ele não intervém. Nós O injuriamos por intermédio de seu Enviado, mas Ele não responde. Esse silêncio de Deus tornou-se uma nova revelação: a de um rosto de Deus que não nos salva nos vergando sob sua potência, mas nos atraindo por seu amor incondicional por nós. Eis a novidade: o cristianismo não recebe a revelação de Deus no triunfo de Deus,  em sua manifestação gloriosa e majestosa, mas na fraqueza da morte de Jesus. Eis o Deus que nos salva…(…) Para mim, a cruz é o início da liberdade do homem frente a Deus. Abdicando da sua potência, Deus revela que ele é apenas amor e é o amor que nos salva da morte”.

     Contra a grotesca e anacrônica petrificação representada pela figura do Papa, um sopro renascentista areja o pensamento de Moingt: “Seria preciso que a Igreja se persuadisse que está sempre descobrindo Deus. É normal evoluir. Ora, eis sem dúvida uma palavra da qual a Igreja não gosta nada: evolução (…) pensamos Deus em função de nossa inserção em um mundo e numa história. A História, nós a fazemos; o mundo, nele vivemos.  Um e outro não permanecem idênticos e nós somos envolvidos nessa mudança. Nosso pensamento e nosso ser são marcados pelo tempo”.

     Se este artigo foi pródigo em citações, o objetivo  era fazer com que se sentisse a indispensabilidade da leitura de A mais bela história de Deus. Ainda assim, não seria justo terminá-lo sem citar a emocionante resposta de Moingt à pergunta fundamental: “Para que serve Deus?”:

    “Seria preciso começar por se desfazer dessa idéia de que Ele é útil… Ele é o ser gratuito por excelência, aquele que não nos impõe nem mesmo sua presença.  Mas,quando sentimos em nós essa presença, podemos viver a experiência da gratuidade, da alegria, da bondade… Para os que entenderam que a existência é gratuita, Deus se torna soberanamente indispensável…”

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