MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/04/2014

No labirinto, o temor do espelho: o Simón Bolívar de García Márquez

GabrielGarciaMarquez Bajageneral em seu labirinto

“O vigor da alma macerada pela dúvida, ou insuflada pelo arroubo da imagem pública, quase sempre arremata o fado desses protagonistas que pelejam consigo, fazendo do amor-próprio a companhia constante de um segundo eu, um que não raro é infiel e inimigo. O resultado é que todos eles temem o espelho; e os que encontram conforto nele, nos deixam intuir a ironia que se lhes impõe sob a máscara nem sempre confortadora de um auto-engano engenhosamente sutil.” (José Luiz Passos, Machado de Assis: o romance com pessoas, 2007)

“Terminó afeitándose a ciegas sin dejar de dar vueltas por el cuarto, pues procuraba verse en el espejo lo menos posible para no encontrarse con sus propios ojos…” (Gabriel García Márquez, El general en su laberinto, 1989)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de abril de 2014)

Há  25 anos o recém-falecido Gabriel García Márquez publicava seu, a meu ver, derradeiro grande romance, O general en su laberinto, no qual conseguiu conciliar com maestria o estilo enxuto de relatos mais curtos (Ninguém escreve ao coronel; Crônica de uma morte anunciada) com o sopro épico-elegíaco mais grandiloquente de Cem anos de solidão, O outono do patriarca ou O amor nos tempos do cólera[1].

Nele, acompanhamos os últimos meses (em 1830) da vida de Simón Bolívar. Aos 47 anos, sua saúde está completamente deteriorada (a certa altura, uma virgem passa uma noite com ele: “Entonces ella conoció palmo a palmo el cuerpo más estragado que se podia concebir: el vientre escuálido, las costillas a flor de piel, las piernas y los brazos en la osamenta pura, y todo él envuelto en un pellejo lampiño de una palidez de muerto, con una cabeza que parecia de outro por la curtimbre de la intempérie”[2])e ele anuncia a renúncia e o exílio.

Ninguém bota fé nessas resoluções, pode não passar de uma manobra insidiosa para permanecer no poder (mesmo por detrás dos bastidores). Não obstante, com uma numerosa comitiva o Libertador atravessa a Colômbia, saindo de Bogotá (que lhe é hostil) para atingir a litorânea Cartagena, onde supostamente embarcaria para o exterior. Um percurso acidentado, com a navegação do rio Magdalena e várias paradas e reviravoltas, tanto no estado físico quanto nas expectativas políticas (nada moribundas, apesar dos enfáticos pronunciamentos) do homem que sonhou criar uma nação continental unificada e que, por conta disso, participou de guerras intermináveis na região que compreende hoje a Colômbia, a Venezuela, a Bolívia, o Equador e o Peru (e até hoje temos a utopia bolivariana alimentando regimes controversos e incômodos).

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São oito capítulos de rara densidade. García Márquez adotou uma linguagem que mimetiza o sofrimento físico do general e também o fardo da sua memória. Quando se lê a certa altura: “Lorenzo Cárcamo lo vio levantarse, triste y desguarnecido, y se dio cuenta de que los recuerdos le pesaban más que los años”[3], o leitor já se deu conta de que isso não é apenas um modo de dizer. A carga de reminiscências que cada subordinado, amante, visita, inimigo, aliado, lugarejo, traz a Bolívar é palpável linha a linha e justifica plenamente o belo título do romance (diga-se de passagem, uma das virtudes supremas do Nobel de 1982 era a acurada escolha dos títulos de suas obras —alguns deles até se tornaram proverbiais, como Crônica de uma morte anunciada).

Não é à toa que o próprio escritor, tal como o personagem (cujo “espírito” ele parece ter incorporado nas 280 páginas do seu relato), se referiu explicitamente ao “horror de este libro”. Trabalhando a História, o mito pessoal, descendo ao detalhismo mais fisiológico (afora as mesquinharias pessoais), de parelha com as considerações mais poéticas e utópicas da condição humana, e, pairando sobre tudo, a questão da imaginação moral do seu protagonista[4], O general en su laberinto não faz concessões, nem mesmo ao lado “folclórico” da fama de García Márquez (o tal do realismo fantástico), para o qual ele retrocederá no romance seguinte, O amor e outros demônios (1994).

Chega um ponto em que ele narra Bolívar ainda vivo (o que ele foi e o que restou, “alma macerada”) e já falecido (com todas as consequências, práticas e simbólicas, dessa morte), quase que concomitantemente: En la berlina del señor de Mier, el general hizo el polvoriento camino que su cuerpo sin él había de haver diez dias después en sentido contrario…”[5]

Mas a atmosfera que se destaca do “horror deste livro”, talvez o mais profundo entre os que ele escreveu, com toda a azáfama política e movimentação geográfica que cercam a figura de Bolívar, é a mesma que permeia todo o seu universo ficcional: um tempo de estagnação, de espera infindável, empacada, amorfa e quase imemorial:      “En uno de esos escrutinios del pasado, perdido em la lluvia, triste de esperar sin saber qué ni a quién, ni para quê…”[6]

Não deixa de ser uma melancólica ironia que a importância de García Márquez tenha sido lembrada pelo atual presidente de seu pais natal, Juan Manuel Santos, praticamente com as mesmas palavras usadas para o seu herói de morte anunciada: “Digan lo que digan, Su Excelencia seguirá siendo el más grande de los colombianos hasta en los confines del planeta”[7] (com a ressalva, claro, que Bolívar era venezuelano).

E 25 anos depois (e quase dois séculos dos acontecimentos ali relatados) a pergunta-chave embutida no exclamativo “suspiro” do general: “Cómo voy a salir de este laberinto!” continua válida quanto aos impasses latino-americanos, para bolivarianos ou globalizados.

general en su laberinto

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Tradução da epígrafe: “Acabou de fazer a barba às cegas, sem deixar de dar voltas pelo quarto, porque procurava ver-se no espelho o menos possível para não topar com os próprios olhos” (Moacir Werneck de Castro, O general em seu labirinto. A Record, que o publica desde 1989, lançou recentemente nova edição, com novo tratamento gráfico e capa)

Citações do texto original extraídas de exemplar da Editorial Sudamericana, 1989.

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NOTAS

[1] Concordo com Perry Anderson, quando afirma (num dos ensaios de Espectro: da direita à esquerda no mundo das idéias): “Desde o início de sua carreira, Márquez vem praticando dois estilos de escrita relativamente distintos: a prosa figurativamente carregada, já visível de maneira brilhante em seu primeiro livro de ficção, A revoada (…) e a concisão objetiva de histórias como Ninguém escreve ao coronel ou reportagens como Notícia de um sequestro…”

[2] “Então ela conheceu palmo a palmo o corpo mais estragado que se podia imaginar: o ventre esquálido, as pernas e os braços em pele e osso, e todo ele envolvido numa pelanca glabra de palidez mortal, com uma cabeça que parecia de outro, tão curtida estava pela intempérie.” (aqui, como nos demais casos, cito a tradução de Moacir Werneck de Castro)

Ainda sobre o contexto dessa passagem, ficamos sabendo que o General e a moça dividem castamente uma rede. A questão da “imagem pública”, da “lenda convertendo-se em verdade”, que cerca a figura do Libertador, fica evidenciada de forma notavelmente sintética na despedida:

“__Te vas virgen, le dijo.

     Ella le contesto com una risa festiva:

__Nadie es virgen después de uma noche com Su Excelencia.”

(“__ Você vai embora virgem—disse.

   Ele respondeu com um riso festivo:

__Ninguém é virgem depois de uma noite com Sua Excelência.”)

Outro exemplo, desta vez de uma declaração que o general poderia ter soltado ou não a respeito de um de seus seguidores:

“No podía disimular su contrariedad. Wilson había llegado a creer que el general no lo amaba, y que solo lo mantenía en su séquito por consideración a su padre, a quien nunca acababa de agradecer la defensa que hizo de la emancipación en el parlamento inglês. Por infidencia de un antiguo edecán francês sabía que el general había dicho: A Wilson le falta pasar algún tiempo en la escuela de las dificultades, y aun de la adversidad y la miséria. El coronel Wilson no había podido comprobar si era cierto que lo había dicho, pero de todos modos consideraba que le hubiera bastado con una sola de sus batallas para sentirse laureado en las três escuelas…” (“Não podia disfarçar sua contrariedade. Chegara a acreditar que o general não gostava dele, e que só o mantinha no séquito em consideração a seu pai, a quem ficara para sempre agradecido pela defesa que fez da emancipação americana no parlamento britânico. Por indiscrição de um antigo ajudante-de-campo francês, soube que o general tinha dito: Falta a Wilson passar mais algum tempo na escola das dificuldades, ou mesmo da adversidade e da miséria. O coronel Wilson não pôde comprovar se era verdade que ele o houvesse dito, mas de qualquer modo achava que bastaria uma só de suas batalhas para se considerar laureado nas três escolas…”)

Numa de suas muitas lamentações, Sua Excelência declara: “Estoy condenado a un destino de teatro”.

[3] “ Quando Lorenzo Cárcamo o viu levantar-se, triste e desamparado, percebeu que as recordações lhe pesavam mais que os anos…”

[4] Sigo aqui a linha de reflexão evidenciada pela epígrafe de José Luiz Passos, da peleja do personagem consigo mesmo e também com sua imagem pública, ou seja, o espelho deformado que o hipertrofia e o espelho íntimo que ele tenta evitar. Como Passos diz dos romances machadianos, o de García Márquez (a utilização de um personagem histórico não altera em nada esse cerne) tem por objeto “o modo intrincado pelo qual alguém compõe, justifica e defende a noção, frequentemente equivocada, do seu próprio valor, um esforço que em muitos casos está fadado a falhar, trazendo à tona, pela conspurcação do humano, uma visão rica e atroz sobre a nossa relação com a imagem que pessoas podem ter de si mesmas.”

[5] “Na berlina do senhor de Mier, lá se foi o general pelo caminho empoeirado que dez dias depois seu corpo , sem ele, iria percorrer em sentido contrário…”

[6] “Num desses escrutínios do passado, perdido na chuva, triste de esperar não sabia o quê nem a quem, nem para quê…”.

[7] “Digam o que disserem, Sua Excelência continuará sendo o maior dos colombianos até os confins do planeta”

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11/03/2014

Os “sinais particulares” de Herberto Sales: CASCALHO, 70 anos

HerbertoSalescascalho

“Tudo que fará de ti um escritor estará no teu livro de estreia. Pelo resto da vida não farás outra coisa senão repetir o que disseste em teu livro de estreia, embora o dizendo de forma aprimorada.” (Jules Renard)

“__ Falando sério, a verdade é que a vida está é dura mesmo—ponderou Juvenal Bosta-Voa.

   Sinhá do Ouro abanou a cabeça ironicamente:

__ Vocês ainda não viram nada. Vida dura foi em 99. Vocês não são capazes de avaliar. Vi muito pai de família ganhando 400 réis por dia. Nesse tempo garimpeiro e cachorro eram a mesma coisa. Diamante foi vendido até a 2 tostões o grão. Basta eu dizer isto: vi muita menina virgem, de dezesseis anos, trocada por um quarto de rapadura. Era uma miséria horrível.

    Filó não pôde fugir a este raciocínio: Veja como são as coisas! Em 99, o camarada que tivesse um quarto de rapadura estava com uma virgem no papo. Hoje, eu com os meus 3 mil-réis, com os meus três centenários, ando atrás da negra Vitalina parecendo que estou pedindo esmola.

   Mas comentou em outros termos:

__ Andaraí é assim mesmo. Nunca passou disso. É uma terra rica de gente pobre.”

(Herberto Sales, Cascalho)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de março de 2014)

Na linha de obras reformuladas pelo autor de uma edição a outra, um caso digno de nota é o de Cascalho. Ao lançá-lo em 1944, Herberto Sales (nascido em 1917) nem chegara aos 30 anos. Não obstante seu livro de estreia ter sido bem recebido, o jovem escritor concentrou-se mais nas falhas apontadas por resenhistas de peso da época, entre eles Sérgio Milliet[1]. Como nos conta em Subsidiário I[2], só permitiu a 2ª.edição, após longo intervalo, quando conseguiu retrabalhá-lo radicalmente. E só lançou outro romance em 1961: o admirado Além dos Marimbus.

O autor baiano não parou por aí nas revisões. E mesmo com o tempo decorrido desde sua morte (em 1999), nem por isso a mais recente edição deixa de incorporar alterações —as quais deixara indicadas no seu referido volume de “confissões & memórias” (“Os textos que eu pessoalmente limpei serão os meus textos—com perdão da palavra—oficiais. Os das outras edições não me interessam), publicado em 1988[3].

Cascalho é fruto tardio da ficção nordestina levada a cabo pela chamada geração de 30, vinculando o enredo romanesco a uma atividade econômica regional. Se em Jorge Amado havia o universo do cacau, e em José Lins do Rego, o da cana-de-açúcar, em Sales temos a extração de pedras preciosas na Chapada Diamantífera (as Lavras), em especial em Andaraí e arredores.

O romance se inicia com uma enchente que destrói paióis de cascalho, causando a morte de um garimpeiro e atrapalhando os negócios do todo-poderoso coronel Germano (senhor da região), que além disso é afrontado por um de seus jagunços, o terrível (mete medo em todos, até nos “patrões”) Zé de Peixoto, num momento de embriaguez. Aparentemente perdoando-o, o coronel ordena, à socapa, sua execução. No entanto, o Dr. Marcolino[4], que junto com o irmão de Germano (este gosta mais de viver na sua fazenda), Quelezinho, defende os seus interesses na cidade, tem secreta participação numa empreitada garimpeira de Zé de Peixoto, e em razão desse acordo comercial procura mantê-lo vivo até que ele extraia algum diamante ou carbonatos.

A participação de dois forasteiros na trama ajuda o leitor a entender essa peculiar geografia física e humana: o retirante Silvério (cujo maior temor é cair no visgo do garimpo, espécie de vício, como todos à sua volta, e nunca sair dali) trabalhará para Zé de Peixoto, e, acusado de roubo, sofrerá uma pavorosa humilhação; o promotor Oscar de Soure terá de sair fugido da cidade[5].

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Mesmo que esses personagens ganhem relevo na narrativa, Cascalho é um romance de coletividade, um estudo do meio. Percorrendo vários dramas e cenas individuais, é a comunidade de Andaraí, principalmente a banda dos garimpeiros menos favorecidos, e todos aqueles que se agregam às suas trajetórias, o dínamo do romance, bem como a sua forte evocação do preço pago pela natureza em função da contínua ação predatória e gananciosa do homem[6]. Pois, como aconteceu em quase todos os nomes da época desse veio nordestino, Herberto Sales surpreende um ciclo econômico já em seu declínio.

Com sua mirada na ambiência física e social mais do que nos lances individuais (um garimpeiro, Filó, cuja vida acompanhávamos desde sua associação com Zé de Peixoto, morre numa gruna que se inunda e lemos: “Talvez que, no fim de contas, ele nada mais fosse que um estorvo à passagem da água), prossegue com honra o tipo de romance à Zola (como Germinal), aqui em nosso país pouco e mal praticado (apesar do paradigma representado por Aluísio Azevedo, aliás autor da admiração de Sales, e seu O cortiço), talvez por ser tão desprezado pelo mainstream da crítica, e não porque haja algum problema com esse modelo de ficção.

E até por conta da soda cáustica estilística a que submeteu seu texto para privá-lo de juvenilidades e rebarbas, realçou-se em Cascalho um aspecto  raro no naturalismo: assim como Rachel de Queiroz em seus melhores momentos, Sales tem uma visão muito pragmática dos eventos e das relações sociais, e não se permite (pelo menos nessa sua versão “oficial”) os proselitismos que enfraqueciam os romances de seu conterrâneo Jorge Amado, até mesmo nas suas melhores realizações (e esse defeito também se estende ao próprio Zola e ao seu discípulo Azevedo).

Ainda assim, mesmo considerando essas qualidades, a fixação de um léxico regional ímpar, e mesmo considerando todo o investimento de reescritura, não creio que Cascalho, todas as contas feitas, impressione como pedra preciosa de primeira grandeza em estilo e linguagem. Trata-se de um bom romance, e não mais que isso.

O obsessivo Sales faria extrações de melhor quilate em Dados biográficos do finado Marcelino e Os pareceres do tempo[7], por exemplo. Curiosamente, no final da vida, regrediria ao acabamento precário que imputava à versão original de Cascalho, em romances lamentáveis como A prostituta, de 1996.

Mas, 70 anos após o lançamento original, ainda é para o leitor do século XXI uma  vívida experiência de leitura (o que talvez explique por que alguém nascido em Andaraí se tornou um escritor tão maníaco) essa recriação naturalista de um pedaço do mundo, ou tranche de vie, como se queira, onde a expectativa do diamante perpassa toda uma sociedade, de forma que até os já aquinhoados de posses e riquezas são literalmente possuídos pela ideia de descoberta de alguma pedra de valor[8]. Uma forma de igualdade entre os homens patética e dolorosa. O naturalismo indo ao encontro do teatro do absurdo.

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TRECHO SELECIONADO

“__ Se alguém quer defender as Lavras, o que me parece uma bobagem, tem de começar forçosamente por atacar os trustistas de Londres e os lapidários de Amsterdam. Eles é que são os responsáveis diretos pela instabilidade econômica das Lavras. São os forjadores das baixas, os donos do mercado, os estipuladores dos preços. Lá é que é o centro de toda a bandalheira—na Europa.

   Dr. Oscar, para quem a discussão não tinha legitimamente maior interesse, acabou convindo:

__ Você em princípio tem razão… Mas… isso é tarefa que compete exclusivamente ao governo.

__ O governo não vale nada—interrompeu-o Nascimento.—O governo sabe mais do que ninguém que os diamantes das Lavras são os melhores que existem, como também não ignora que esta região é a única que produz carbonatos no mundo. Entretanto, cruza os braços e deixa os gringos agirem à vontade, abrirem seus escritores e açambarcarem tudo. De lá da Europa eles manobram com o mercado inteiro aqui dentro (…)

__ Você está hoje um nacionalista feroz… Lembre-se destes pobres homens que são explorados pelos capangueiros e donos de serras…

   O telegrafista respondeu distraidamente:

__ Que homens?

__ Os garimpeiros…

__ Ora, não confunda alhos com bugalhos!—e Nascimento deu de ombros.—Não vá atrás de conversa de jornal. Quando alguém escreve contra qualquer coisa, como é o caso deste sujeito, é porque tem alguma cavação em vista ou está despeitado.  A verdade é que se não existissem os ricos, tachados de ´nababos privilegiados´ aí  neste artigo, simplesmente porque eles e suas mulheres se enfeitam de diamantes dos pés à cabeça, a situação dos garimpeiros era muito pior, posso lhe garantir. O menos que acontecia era não haver garimpos… Ou você acha que eles iam comer os diamantes que pegassem?

   E esboçando um sorriso, enquanto apertava com a mão esquerda a do promotor, concluiu:

__ Arranje uns vinte quilates de diamantes para a lapidação deste cabra, que você vai ver ele parar com estes artigos bestas. Garanto que nunca mais ele chama os garimpeiros de ´operários da vaidade alheia´.”

artigo sobre herberto


[1] Também foi determinante o parecer crítico de Adonias Filho.

[2] Ambos ganharam reedições recentes pela É Realizações, numa “Coleção Herberto Sales” que não sei se terá prosseguimento. Esperemos que sim. É a 8ª. de Cascalho e a 2ª. de Subsidiário I.

[3] Essa “luta” com Cascalho ocupa considerável parte de Subsidiário I. Eu poderia esnobar, deixando no ar que fui eu mesmo quem garimpou a citação em epígrafe de Jules Renard do seu Journal, todavia o eventual leitor do volume confessional de Sales descobriria meu logro na pág. 439, mesmo porque ali ele nos diz que cita de memória (portanto, talvez imprecisamente) o trecho, e de uma versão em espanhol.

Creio não ser ocioso transcrever parte dessa “entrada”: “… esse pensamento [de Renard] me parece muito profundo. No livro de estreia já estão mesmo, de uma ou de outra forma, os nossos sinais particulares. Esses sinais equivalem aos da carteira de identidade que tiramos aos 18 anos, e que aos 80 continuam a ser os mesmos (…) Os meus romances, conquanto muito diferentes entre si, guardam entre si os meus sinais particulares, que já estavam em Cascalho. E eu, em verdade, e ao contrário do que se possa pensar, não procurei tornar diferentes entre si os meus romances só para ilusoriamente não me repetir. Eles se distanciaram aparentemente uns dos outros por mera imposição dos assuntos que lhes deram origem (…) Mas em todos eles estão os sinais particulares da minha identidade literária.”

   Quanto às alterações e correções efetuadas na edição da É Realizações de Cascalho, elas aparecem nas páginas 643 a 645. Na página 642 lemos: “Enfim, chega o exemplar tão aguardado de Cascalho, na edição da Civilização Brasileira [na época da escrita de Subsidiário I, Sales era adido cultural da embaixada brasileira em Paris, no governo Sarney]. Abro o exemplar e lá está a dedicatória que em 1975 fiz para a minha filha Heloísa e para Sérgio, marido dela. Sérgio Waichenberg. Naquele tempo eu queria que eles fossem felizes. E hoje quero mais ainda, embora Sérgio tenha abandonado aos berros Heloísa com a filha. Felicidade a gente tem de escovar pelo menos uma vez e botar no sol. Compreendi que Heitor, não tendo encontrado  Cascalho em nenhuma livraria do Rio de Janeiro e adjacências, resolveu pegar na casa da irmã o exemplar dela. Está bem. Depois eu o substituirei por outro, também da Civilização, embora com o Sérgio de fora. De toda maneira fiquei com de coração tocado com aquele exemplar que dei à minha filha e que depois de  tantos anos voltou de novo para mim sem eu em nenhum momento ter esperado isso . Peguei e risquei a dedicatória. Tive de começar por ela a preparação do volume em sua limpeza revisora. A dedicatória perdera a sua razão de ser. E vamos em frente!”

[4] “…era a ´segunda pessoa do chefe`  e exercia sobre este a maior influência.”

[5] Bem antes da desmoralizante fuga, ele já é uma “autoridade” nula na cidade, como no diálogo abaixo entre o dr. Marcolino e Quelezinho:

“__Mas como é que vocês permitem um moleque da marca de Zé de Peixoto desrespeitar Germano, seu Marcolino? (…) Aquele negro devia ter tomado bala na mesma hora!

   O outro homem ajeitou lentamente os óculos, passou a mão pelos cabelos ralos, tossiu e respondeu:

__ A ocasião não era oportuna. (…)

__ Não me diga isso, seu Marcolino! Aquele negro é um cabra lambaceiro, que já devia ter tomado bala há muito tempo.

__ Mas compreenda, Quelezinho. A cidade estava indo em paz… Além disso, com uma autoridade nova, que a gente, de certo modo, precisa impressionar bem…

__Qual é a autoridade?

__O promotor…

    Quelezinho deu um berro tão alto que fez o médico precipitar-se para a porta e fechá-la, a fim de que ninguém o ouvisse na sala de visitas. Brandia o dedo no ar:

__ Qual promotor, qual cachorro de promotor coisa nenhuma! Afinal de contas, seu Marcolino, quem é que manda nesta joça?”

Ou pela perspectiva do resignado Juiz Canuto: “Um homem vale o que tem no bolso. Como nós não temos nada, não valemos nada. Vale aqui quem compra diamante, quem tem dinheiro, quem tem força na política”.

 [6] “À medida que iam avançando por cima da serra alta, que, a distância, tinha a aparência majestática de um mundo inexplorado, encontravam a cada passo os rastros da conquista centenária, lenta e difícil da terra rica—sinais da presença obstinada do homem, do seu trabalho, do seu tenaz esforço e da sua luta pela posse das minas, desde as primitivas explorações até as mais recentes. Ao longo dos emburrados, onde as escoras de âmago de quina-de-vara, os esbirros de gameleira, sapucaia e pau-terra, eram atravancamentos de velhos serviços engrunados, erguiam-se, como ossuários da serra trabalhada, as montoeiras pardas de antigos mocororôs encartuchados—detritos acumulados do solo revolvido e golpeado nos canalões, nos talhados, nas grunas, nos rebaixos, em toda espécie de serviço a seco ou com água, desde as grupiaras às grandes bocas descidas com pontaletes de cocão.

__ Isto aqui está muito trabalhado, Peba—observou Silvério.

   À passagem deles, fugiam precipitadamente grandes batixós, sobre os lajedos ou por entre as moitas de grão-de-galo.

__ É o que você pensa—respondeu o outro.—Parece que está mas não está. Ainda tem muito serviço…

__ Pode ser. Mas eu estou vendo tudo é esbagaçado. Em todo lugar eu vejo sinal de broca.

__ Você é um curau mesmo—disse Peba.—Não entende nada de garimpo. Então você acha que se tudo isso estivesse trabalhado eu vinha meter minha enxada aqui? Você me acha com cara de besta?

   E passou a explicar:

__ Na verdade, existe muito serviço trabalhado, mas é como se não existisse. Os antigos não sabiam garimpar. Metiam o cascalho bruto nas bateias, não ralavam nem rebaixavam ele, de maneira que perdiam muito diamante. Não está vendo estas montoeiras? Chegue o ralo nelas pra você ver! É diamante na certa.

__ Será que os antigos eram tão bestas?

__ Ninguém é besta porque quer.”

[7] O primeiro livro que li dele ainda em meados dos anos 1980  (quando saiu pela Nova Fronteira) e que me parece até hoje, se a distância temporal não me engana, uma grande realização. Na verdade,  essa leitura (e a de Dados biográficos do finado Marcelino)  me fizeram considerar Sales um dos nossos melhores escritores, por aquela época. Entretanto, acabei não me enfronhando em outros títulos dele, e quando o fiz, resenhando para “A Tribuna” A Prostituta, considerei o romance tão ruim que só agora, com atraso, e com pé atrás, devido ao perfil conservador  (digamos com todas as letras: reacionário) do autor, com suas loas à Academia Brasileira de Letras e com suas relações com gente como José Sarney e Josué Montello, retomo a leitura de seus livros.

[8] O que quer dizer, trocando em miúdos, que valorizo Cascalho muito mais por ser um bom representante do romance naturalista (Flora Süssekind que me perdoe, não obstante seu Tal Brasil, qual romance? ter sido muito importante e esclarecedor, para mim, em determinado passo da vida) do que por ser o fruto de um esforço estilístico flaubertiano.

capas de herberto

05/03/2014

A poesia exilada e o centenário de Octavio Paz: O ARCO E A LIRA

968.03 OCTAVIO PAZ (1914-1998).  Mexican poet.

arco lira

(versões da resenha abaixo foram publicadas originalmente na revista METÁFORA 16, em 2013, e em A TRIBUNA de Santos, em 04 de março de 2014)

A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. A primeira atitude do homem diante da linguagem foi de confiança.  O ritmo não apenas é o elemento mais antigo e permanente da linguagem como é bem possível que seja anterior à própria fala. O homem se derrama no ritmo, marca da sua temporalidade; o ritmo, por sua vez, se declara na imagem; e a imagem volta para o homem sempre que alguns lábios repetem o poema. Religião e poesia pretendem realizar de uma vez por todas essa possibilidade de Ser que somos. A revelação da nossa condição é, também, criação de nós mesmos. As palavras do poeta, justamente por serem palavras, são suas e são de outros. Por um lado, são históricas: pertencem a um povo e a um momento da fala desse povo: são datadas. Por outro, são anteriores a qualquer data: são um começo absoluto. A história da poesia moderna é a história de uma desmesura.

Pincei, no parágrafo anterior, afirmações definitivas, de sabor quase hipnótico, das aberturas dos capítulos que compõem o clássico O arco e a lira [El arco y la lira], recentemente relançado em nova tradução[1] (e assim como o livro que lhe é complementar, Os filhos do barro, ganhou uma bela coedição da CosacNaify com o Fondo de Cultura Económica), o que não poderia ser mais apropriado, uma vez que agora em março celebra-se o centenário de Octavio Paz[2], um dos maiores nomes da literatura latino-americana, apesar de controversas posturas políticas as quais cristalizaram para muitos a imagem de um homem de direita, ultraconservador. É célebre a farpa a ele dirigida por outro escritor mexicano exponencial, Juan Rulfo (autor de Pedro Páramo): Paz dizia que os intelectuais do continente dividiam-se entre “indignados” e “resignados”; Rulfo replicou: não, eles dividem-se entre “indignados” e “indignos”.

Divisões ideológicas à parte, tenho a convicção de que as declarações acima fornecem o espírito e a letra da Grande Narrativa (desconstrucionistas do pós-modernismo, atenção!) que o prêmio Nobel de 1990 nos conta: o dizer poético originalmente reproduzia a unidade do Real, ritmo e imagem permitindo a harmonização com a fala do mundo e a analogia entre coisas distintas e até contrárias, comungando de uma visão cíclica e não-linear do Tempo. Quem pensar em mito e sagrado, estará muito próximo do pensamento de Paz, apesar de ele enfatizar a diferença substancial do poético com relação à esfera religiosa.

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O homem ocidental alienou-se no processo histórico, perdido no tempo-sucessão, e cindiu-se em contrários (valorizando sobretudo a razão e a consciência). Não por acaso, a poesia começou a ceder espaço para a prosa, prática discursiva (e limitante, desse ponto de vista) da linguagem: “O mundo moderno perdeu sentido e o testemunho mais cru dessa falta de direção é o automatismo da associação de ideias, que não é governado por nenhum ritmo cósmico ou espiritual, mas pelo acaso”.

Por isso, a alta poesia moderna (que abrange o Romantismo, reflexão que ele desenvolverá de forma maravilhosa e esclarecedora em Os filhos do barro—diga-se de passagem que uma das seções mais brilhantes de O arco e a lira,  acrescentada posteriormente,  Signos em rotação é constantemente publicada em separado[3]) representa uma rebelião constante. Os maiores poemas são negação da própria época, degredo autodeclarado, nostalgia da linguagem “originária”: “O dilaceramento foi indizível e constante. As consequências desse exílio da poesia ficam a cada dia mais evidentes: o homem é um desterrado do fluir cósmico e de si mesmo” ; mesmo porque se encontram encalacrados nas malhas tipográficas, a forma-livro, forma passiva (e individualista), mutilando a poesia da sua vocação de fala e convocação comunitária, a exigir ouvintes atentos e troca de experiências.

Como outros memoráveis recortes abstratos (contudo poderosos) na história humana, O arco e a lira identifica e caracteriza muito bem a crise, proporcionando ao leitor um diagnóstico impecável, sem apontar claramente rumos. Paz oferece como contrapeso ao “exílio” ocidental a visão oriental, que permaneceu próxima das fontes da linguagem, e arrisca-se a alguns prognósticos. No entanto, talvez sua maior resposta às próprias questões foi o magnífico poema Blanco, escrito em 1966: “Sem dizer palavra/Escurece-me a fronte/Um pressentir de linguagem”.

Mas já no exercício do ensaio, como diz muito bem numa carta (escrita no ano da publicação original, 1956) outro grandíssimo autor centenário em 2014, Julio Cortázar, aparece a “tendência belíssima que você tem de sair disparando de repente e arrematar um parágrafo ou um capítulo com uma chuva de imagens imperiosamente necessárias.”

filhos do barronova fronteira barro


[1] Em tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. A versão anterior, de Olga Savary, foi publicada pela Nova Fronteira.

[2] Que morreu em 1998.

[3] Inclusive aqui no Brasil, pela Perspectiva. Foi o primeiro texto de Paz que li em livro. Antes, como era leitor do Estado de S.Paulo, apesar do pé atrás ideológico que sempre mantive com esse jornal, li muita coisa de (e sobre) Paz ali.

artigotexto da revista

08/02/2014

THE NICE AND THE GOOD: Iris Murdoch e o fascínio de suas «fábulas oblíquas»

NPG P436,Dame (Jean) Iris Murdoch,by GisËle Freundser bom não basta

“Se eu atento direito não terei escolhas, e essa é a condição definitiva a que se deve almejar (…) É algo de que falam os santos e que todo artista entende de imediato. A ideia de um olhar paciente e amoroso, dirigido a uma pessoa, uma coisa, uma situação, apresenta a vontade não como um movimento desimpedido, mas como algo que se parece muito mais a uma obediência.” (de  A soberania do Bem)

“A triste verdade é que Mary não o amava o suficiente para o ver com clareza.” (de The Nice and the Good)

(o texto abaixo foi escrito especialmente para o blog, em fevereiro de 2014)

1

Quinze anos após sua morte (em 8 de fevereiro de 1999[1]), Iris Murdoch continua uma escritora pouco traduzida entre nós: o único título seu que o leitor encontrará nas livrarias é A soberania do Bem (1971), reunião de três ensaios filosóficos. Dos 26 romances publicados por ela em vida, somente cinco foram editados no Brasil (a Artenova nos anos 1970 publicou Misha, o encantador—tradução de The flight of the enchanter[2]; A cabeça decepada—com tradução de Clarice Lispector; O unicórnio; A moça italiana—este completando meio-século agora em 2014[3]; no começo dos anos 1980 saiu pela Nova Fronteira o soberbo O mar,o mar, de 1978).

O que mais me causa pena é que justamente toda uma linha de romances murdochianos ilumina e enriquece as questões levantadas em A soberania do Bem. Ela nos diz, no ensaio, que a literatura é “uma educação sobre como imaginar e entender situações humanas” porque acima de tudo somos agentes morais. Retornando a Platão, discute o Bem como o valor moral central porque, embora seja uma tarefa incessante dentro da nossa consciência, é “a fonte de luz que nos revela todas as coisas como elas realmente são. Toda visão justa, mesmo nos problemas mais estritos do intelecto, e mais ainda quando o sofrimento e a perversidade têm que ser percebidos, é uma questão moral”.

Grosso modo, pode-se afirmar que ela modulou ficcionalmente essa concepção platônica do Bem desde o seu primeiro romance, Sob a rede- Under the net (1954), no qual um narrador basicamente preguiçoso, egocêntrico e cego para a realidade à sua volta, tem despertada sua imaginação moral, e portanto ganha a possibilidade de se tornar um ser humano melhor (sei que algum leitor deve estar arrancando os cabelos neste momento com uma afirmação dessas, que parece remeter minha análise ao catecismo, ao bom-mocismo e aos valores da tradição, família e propriedade—devo alertar, porém, que embora aqui coloque muito alto a noção de moral, pouco valor se dá a nefandas contrafações moralistas), no sentido de perceber como são de fato as outras pessoas que o cercam.

Mas talvez seja na série de romances dos anos 1960, cada qual  com seu peso qualitativo próprio, que a grande escritora irlandesa parece ter encontrado uma fórmula muito peculiar (a meu ver, fascinante) de dramatizar seus despertares da imaginação moral: romances como O unicórnio, A moça italiana e The Nice and the Good (1968) poderiam ser definidos como fábulas oblíquas, aproveitando certos ganchos dos contos populares e folclóricos, dos contos de fada, das histórias mitológicas, ou seja, todo um repertório pré-realismo (no sentido de que o «realismo» impôs certas características de verossimilhança e localização espaço-temporal muito definidas às ficções), para “imaginar e entender situações humanas”. Portanto, dramas (às vezes comédias) da imaginação moral. Por isso mesmo, são livros muito difíceis de definir, pois ao mesmo tempo em que se revelam intensamente detalhistas (Iris Murdoch se compraz na descrição da natureza, dos ambientes), sua atmosfera sempre projeta, mesmo as intrigas mais contemporâneas (como a de A cabeça decepada), numa espécie de tempo fabular: os protagonistas têm de enfrentar provas, há sempre armadilhas, conspirações nos bastidores (ela deve ter sido uma leitora atenta de James) e uma inequívoca aura dramática (no sentido teatral, da grande metáfora do “teatro do mundo”), quer dizer, cada caractere tem um papel a cumprir no aprendizado moral do protagonista, embora alguns romances murdochianos pareçam ter um grupo numeroso de personagens que poderiam reivindicar esse status (é o caso de The flight of the enchanter e The Nice and the Good), o que é enganoso: não há espaço num romance para acompanhar a evolução moral de vários personagens (daí a minha impressão de que ela não foi totalmente feliz em The flight of the enchanter, embora goste muito dele).[4]

Para tornar mais concretas minhas observações, vou me ater, ainda que brevemennte, a uma dessas fábulas morais oblíquas dos anos 1960, aquele que está mais próximo cronologicamente do lançamento em livro dos ensaios de A soberania do Bem, e aquele que me parece dramatizar de forma mais vívida as preocupações murdochianas: The Nice and the Good[5].

A soberania do bemAngelo_Bronzino_002

2

“A arte fura o véu e nos dá a noção de uma realidade que está além da aparência; ela exibe a virtude em seu verdadeiro disfarce no contexto da morte e do acaso.” (de A soberania do Bem)

“E se existe um bem indubitável ao nosso alcance, devemos estender a mão.”

“A fragilidade humana constitui um sistema e os erros passados têm a sua teia infinita de resultados.” (de The Nice and the Good)

Um rápido resumo da emaranhada história, a “teia infinita de resultados”, relatada no romance: John Ducane, como pretendente sentimental de Kate Gray, mulher de Octavian (chefe do departamento governamental onde trabalha),  fica enleado pela peculiar existência dos Gray. Octavian e Kate não têm segredos um para o outro, e na cama fazem relatórios detalhados das conquistas, flertes e transas. A casa deles é abrigo para vários agregados: o refugiado estrangeiro, Willy; tio Theodore, Théo (inválido mais emocionalmente do que de outra forma, e com alguma história “vergonhosa” no seu passado na Índia); Mary Clothier, que ficou viúva e ali foi acolhida, com seu filho agora adolescente, Pierce; Paula Biranne, que se separou do marido mulherengo e abusivo, Richard (também funcionário do mesmo departamento governamental), com seus filhos gêmeos, Henrietta e Edward, ainda bem crianças, 9 anos, mas já criaturas excepcionais, quase “encantadas” (suas descobertas com relação ao mundo natural, e uma certa mitologia peculiar que vão construindo, fornecem uma «sombra» com relação às intrigas dos mais velhos[6]). Octavian e Kate têm uma filha, Barbara, que estuda na Suíça, mas vem passar as férias na propriedade na costa de Dorset, onde todos vivem, e agora muito frequentada por Ducane.

A narrativa começa justamente com a volta de Barbara e quando um dos funcionários subalternos do departamento, Radeechy, se suicida em pleno expediente, com um tiro[7]. Octavian encarrega Ducane de investigar o caso. Será um verão e tanto.

Quando Ducane (que, por causa de Kate, tenta se desembaraçar de uma amante masoquista e dramática, Jessica Bird) se enfronha no assunto Radeechy, descobre que o suicida utilizava dependências (os subterrâneos do prédio) do departamento para práticas sexuais eivadas de toques de magia negra e misticismo; descobre também que um subalterno ali do departamento, McGrath, pratica a arte da chantagem com desenvoltura (tentará exercitá-la inclusive com ele, ao descobrir sua ligação dupla, com Jessica e Kate, roubando sua correspondência); e que a sra. McGrath, que muito o atrai, se prostitui (inclusive com Richard Biranne). Em outro pólo, há a propriedade dos Gray em Dorset, e a magia da estação, além do caso de amor com Kate, “uma façanha civilizada da meia-idade”.

Ducane nos é apresentado como um homem correto, escrupuloso (além de facilmente manipulável, como sua relação com Kate deixa evidente), um tanto desprovido da imaginação moral que Iris Murdoch tão veementemente defende em A soberania do Bem.

Ele não havia dado certo como advogado porque era “incapaz de conceber qualquer ato de vilania”. Sua concepção de experiência é muito eivada pela perspectiva sadomasoquista: “Sentia uma pena infinita de si próprio por lhe ser negado o poder que advém do sofrimento e da dor. Gostaria de ter rezado então por si mesmo, chamando a si o sofrimento de todo o mundo” (em A soberania do Bem lemos que um dos principais inimigos da clareza de visão é o sadomasoquismo, a ênfase colocada no sofrimento no processo interno, pois “o sofrimento em si pode ter um papel demoníaco… e as ideias de culpa e punição podem ser a ferramenta mais sutil do eu engenhoso…”, um eu que fabrica ilusões e consolos e obstrui a realidade com véus[8]).

Um dos aspectos mais interessantes da leitura de The Nice and the Good é justamente a dinâmica que se estabelece entre Ducane e McGrath, o fato de que este último se torna (primeiro era uma testemunha, depois um participante das façanhas de Radeechy, depois uma ameaça) uma figura assaz “presente” na vida do escrupuloso Ducane, como se fosse um elemento desagregador, e sobretudo desmoralizador[9].

Talvez possamos ter uma boa noção da “correção” de Ducane, enquanto penetra o (sub)mundo um tanto quanto sórdido das conspirações do baixo escalão governamental (enquanto explora também o mundo aparentemente benigno e “encantado” do alto escalão, através da sua relação com os Gray[10]), por meio de uma pequena passagem: “Suportava a ideia de se separar de Jessica, mas não conseguia suportar a ideia de que ela pudesse pensar tão mal dele”.

De qualquer forma, Ducane, entre outras qualidades, é o homem que ajuda, é o ombro amigo. Não vou me estender em todas as proliferantes sub-intrigas de The Nice and the Good (a violenta obsessão de Pierce com Barbara, o temor de Paula com o retorno de um antigo amante que vive no estrangeiro, a atração de Théo por Pierce, por exemplo), mas—uma vez que ela terá uma presença definitiva na reta final da história—devo mencionar que Mary Clothier vive uma relação desesperada e eternamente inconclusa com Willy, o refugiado. No fundo, ambos sabem que essa expectativa (ou exasperação) sentimental não vai dar em nada, mesmo assim se iludem com a possibilidade de um futuro casamento. O detalhe importante, aqui, é que geralmente o confidente para os momentos de maior desamparo de Mary é justamente nosso amigo Ducane.

Como já disse, as narrativas murdochianas são coalhadas de elementos pré-realistas. Então, ninguém estranhará alusões a elementos simbólicos, tirados da natureza, como o canto do cuco, subterrâneos para a prática de magia negra, uma caverna do tesouro, objetos mágicos, ou aos quais o pensamento mágico fornece um teor encantatório (seixos), contrapostos a elementos estéticos (um quadro de Bronzino, em torno do qual está entretecido o casamento de Richard e Paula Biranne[11]).

Pierce, desesperado em seu desejo por Barbara (que o trata friamente, e ele se mostra então a encarnação do aborrecente nesse período de verão), tenta um ato extremo: a afamada gruta de um suposto tesouro, ali na costa de Dorset, é invadida, e mesmo coberta totalmente, pela maré em determinadas horas do dia, e ele decide se aventurar pelo seu interior, correndo grave perigo.

Se, nas suas investigações urbanas, Ducane se deixou levar num crescente descenso a subterrâneos, físicos e morais, que o deixaram desmoralizado e pejado de “incorreção” (por causa da chantagem, das cartas roubadas, do imbróglio vaudevillesco envolvendo suas relações com Jessica e Kate pois esta, apesar da sua desenvoltura—o que não implica na mínima deslealdade com o marido, como já observei—exige dele, Ducane, que seja o “melhor homem”, como aqueles personagens jamesianos que sempre são imbuídos dos mais altos valores e nem por isso deixam de incorrer em práticas duvidosas), isto é, uma experiência de fracasso (se tomarmos essa soma de experiências como “provas” que o herói tem de cumprir), agora ele—que já era uma figura meio paterna para Pierce, tendo uma ascendência sobre ele que nenhum outro adulto lograra—também mergulhará na caverna, espaço físico e iniciático, para salvar o filho de Mary.

É um longo capítulo em que acompanhamos exaustivamente quase que cada movimento dos dois, primeiro em separado, e depois, momento de maior risco de morte, quando estão juntos, totalmente perdidos no escuro, feridos e desamparados. A caverna acaba sendo a “prova” verdadeira, a quebra da teia de resultados dos erros, e permite a transformação da reta final da história: o desencantamento (no sentido das histórias populares) do casal central (o verdadeiro casal da fábula), Ducane e Mary, de seus auto-enganos, de forma que, antes confidentes (mas cada um mergulhado nas próprias preocupações), possam ver um ao outro (para além, claro, do heroísmo de Ducane em salvar o filho de Mary), e descobrir que, no fundo, se amavam.

A partir daí, Ducane—mesmo sem a segurança de ficar com Mary, pois afinal estamos numa intriga romanesca[12]–pode realmente ser um praticante do Bem, não apenas um homem correto (e, assim, ele ajudará a corrigir vários imbróglios semeados pelo relato, embora a solução nunca fique totalmente perfeita): “… faz parte da natureza do amor discernir o bem, e o melhor amor é em certa medida um amor do que é bom. Ducane estava muito consciente, e tinha estado sempre consciente, de que ele e Mary comunicavam com o que era bom em ambos”[13].

nice and good

3

Meu receio é de que, por chamar a atenção muito claramente dos liames entre as reflexões filosóficas de Iris Murdoch e a fábula de The Nice and the Good, eu tenha de certa forma diminuído o escopo do romance enquanto realização ficcional, obra de imaginação e construção narrativa.

Por essa razão, gostaria de voltar à caracterização de alguns de seus romances como “fábulas oblíquas”. O fato de vários personagens aludirem explicitamente, como mostram de sobejo as citações, às noções de Bem, Mal, Virtude, Correção etc, não quer dizer que a fábula seja unívoca. Há decerto um grande elemento catalisador: o fato de que as trevas convivem com a luz (subterrâneos X verão), e vemos que o livro contrasta esquemas dúbios e escorregadios de corrupção e auto-engano com processos, muitas vezes sutis, mas outras vezes  calcados em provas físicas (que simbolizam provas psicológicas) em que o protagonista tem de enxergar o mundo, os outros e principalmente o amor de sua vida.

Mas todo esse jogo adere de tal forma à variação dos pontos de vista na narrativa,  à matizada intriga, à mistura de mistério policial com vaudeville romântico, que se torna impossível separar a “moral” da fábula que a contém. E não posso deixar de frisar esse ponto, nem precisamos concordar até o fim com ela, com a “moral”, pois o que importa é que vemos seus agentes em cena, e são eles que nos interessam.

O que importa é que a lição é sempre a mesma, óbvia e inesgotável, enquanto não formos melhores do que somos: a literatura nos educa a imaginar e entender situações humanas. Eu acrescentaria que, nos maiores ficcionistas, essa peculiar forma de educação transporta-nos para um mundo fabular que parece uma parcela autônoma do universo.

Nota- Para nós, leitores brasileiros, e especialmente os admiradores de Osman Lins (e de seu Avalovara, 1973), há um charme extra em The Nice and The Good. Ao investigar as atividades místico-sexuais de Radeechy, Ducane se depara com um criptograma:

“Algo na parte central começava a parecer curiosamente familiar. Subitamente, Ducane viu o que era. A parte central do quadrado era formada pelas palavras latinas do antigo criptograma cristão.

R O T A S

O P E R A

T E N E T

A R E P O

S A T O R

   Esta elaborada amálgama pode ser lida para frente, para trás, ou na vertical, e consiste, com a adição de A e O (Alfa e Ômega), nas letras das duas primeiras palavras da Oração ao Senhor, alinhadas sob a forma de uma cruz:

A

P

A

T

E

R

APATERNOSTERO

O

S

T

E

R

O”

Em Avalovara são outras as consequências resultantes do palíndromo, sem essa extrapolação cristã. Na verdade, dele resulta a estrutura da obra inteira.

nice good


[1] Ela nasceu em 15 de julho 1919. Calhou ao destino fazer com que nascessem no mesmo ano as duas maiores autoras da língua inglesa da 2ª. metade do século XX, ela e Doris Lessing (cujo nascimento foi em 22 de outubro; faleceu em 2013).

[2] Que, em Portugal, ganhou o título de Os olhos da aranha, aproveitando um episódio absolutamente secundário do relato.

[3] Os outros são, respectivamente, de 1956, 1961 e 1963.

[4] Por isso, estamos longe do chamado romance «polifônico». O que torna o adjeto oblíquo adequado para esse tipo de fábula, é que muitas vezes o cerne do conflito é dissimulado em uma multiplicidade episódica.

[5] Para facilitar a vida de todo mundo, utilizarei nas citações o texto da tradução portuguesa (adaptando-o para o leitor brasileiro, quando me parecer necessário) de Cristina Correia, pela Publicações Europa-América (1998- que tem uma capa horrorosa), cujo título, Ser bom não basta, apesar de um certo torneio shakesperiano como frase, me parece inexato e induz a erro. Pelo contrário, é uma falsa ideia de ser bom, alimentada por John Ducane e confundida, num auto-engano lamentável, com  o aprazível, o agradável, o que não demanda muito esforço, que precisa ser desconstruída, para que ele possa de fato praticar o Bem, até contra seus próprios interesses

Quanto às citações de A soberania do Bem, utilizo a tradução de Julián Fuks (Editora Unesp, 2013).

[6] Quer dizer, temos aqui as «canções de inocência» contrapostas às «canções de experiência». Dos gêmeos, Ducane diz: «São os únicos seres humanos veradeiramente satisfatórios da nossa casa.»

[7] O primeiro parágrafo: “Um chefe de departamento, trabalhando sossegadamente na sua sala em Whitehall numa tarde de verão, não está habituado a ser incomodado pelo som próximo e indubitável do tiro de um revólver.”

[8] E há os fetiches sadomasoquistas também, como o chicote da  “depravada” sra. McGrath (e entre as duplicações ambíguas da narrativa, a inocente Barbara Gray também usa um chicote).

[9] Há outra figura ambígua na sua existência (e que, nos bastidores, justamente completará o trabalho de desmoralização e dissolução efetuado em primeiro plano por McGrath): Fivey, ex-presidiário que lhe serve de criado, um misto de mordomo, motorista, alcoviteiro, e cuja nacionalidade jamais conheceremos exatamente (ele é escocês para Ducane, mas irlandês para Kate Gray, gaulês-australiano com a sra. McGrath). Diga-se de passagem, é uma versão mais radical de um tipo de personagem que já aparece no primeiro romance de Iris Murdoch, Under the net: ali encontramos Finn, que mora com o narrador, Jake, e que tem talentos como abrir qualquer porta utilizando ganchos etc, e o qual, como Fivey, “desaparece” ao longo da narrativa.

Uma cena extraordinária entre Kate e Fivey também ajuda a nossa compreensão da irredutível volubilidade do comportamento dela.

[10] Mas quando pensamos nas atitudes da sra. McGrath com relação a Ducane e na de Kate Gray com relação a Fivey não vemos tanta diferença assim, no âmbito moral.

[11] “As figuras do topo do quadro são o Tempo e a Verdade, que afastam um véu negro para revelar o beijo que o Cupido dá na Mãe. A figura ondulante atrás do Cupido é o Ciúme. Atrás da ampla figura do Prazer, a sinistra jovem de rosto esmaltado com a cauda escamosa representa a Traição. Pela primeira vez, Paula reparou na estranheza das mãos da jovem, e depois percebeu que estavam invertidas, a mão direita no braço esquerda, a mão esquerda no braço direito. A Verdade contempla, o Tempo move-se…”

[12] E vemos como ecos de Jane Austen são muito fortes ainda na arte do romance inglês. Afinal, boa parte da arte austeniana é a de juntar, ao final, o casal “certo”, que não tinha consciência disso em boa parte da narrativa.

[13] Temos também essa reflexão do patético, mas de alguma forma lúcido, tio Theodore: “O importante é que nada interessa a não ser amar o que é bom. Não olhar para o mal e olhar para o bem. Apenas esta contemplação quebra a tirania do passado, quebra a aderência do demônio à personalidade, quebra, no fim, a própria personalidade. À luz do bem, o mal pode ser visto no seu lugar, não possuído, apenas existindo no seu lugar.”

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18/11/2013

A FILHA DA PRIMEIRA GUERRA: “Alfred e Emily”, de Doris Lessing

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Acho que a ira que meu pai sentiu nas trincheiras passou para mim quando eu ainda era muito jovem e desde então nunca mais me deixou. Será que os filhos sentem as emoções dos pais? Sentem, sim, e esse é um legado que não teria feito falta na minha vida. Para que ele serve? É como se aquela velha guerra estivesse na minha memória, na minha consciência. (Doris Lessing, 1919-2013)

     Quem leu os cinco volumes de Os filhos da violência (1952-1969), da recém-falecida Doris Lessing terá indelevelmente na memória a cena terrível em que, fugindo ansiosamente do marido, que pode até lhe dar uma surra, Martha Quest procura abrigo na casa da mãe e esta não permite sua entrada (mais tarde, quando Martha estiver em Londres, no último volume do ciclo, já longe da sufocante vida que levava na África, ainda haverá um capítulo extraordinário dedicado à indomável e desequilibrada sra. Quest).

Por que a mãe de Martha era uma pessoa assim? Pois da maneira como foi retratada (apesar das nuances introduzidas no quinto volume) dá para entender que a protagonista a odiasse, assim como a própria autora declara que odiava a mãe, em Alfred e Emily (Inglaterra, 2008; comentado aqui na tradução de Beth Vieira e Heloisa Jahn).

Num já tardio esforço em tentar entendê-la (o livro foi empreendido à beira dos 90 anos), ela nos mostra uma mulher que, tanto quanto o marido (inválido, tendo de se valer de uma perna de pau, embora esta seja apenas a ponta do iceberg dos estragos), foi destruída pela Primeira Guerra:

Mais tarde, bem mais tarde, percebi que os traumas de guerra da minha mãe a estavam roendo por dentro, assim como as trincheiras do meu pai o estavam comendo por fora.

Esses traumas nunca revelados explicitamente, já que pertenciam a um território obscuro, causaram o colapso que transformou Emily Tayler, nascida McVeagh, na megera dos primeiros volumes de Os filhos da violência e que tanto atormentou a vida da filha na vida real. Pois ao chegar na Rodésia (Doris tinha cinco anos, à época) era uma mulher cheia de energia, de savoir faire social e mundano, e tivera uma profissão difícil (enfermeira), enfrentando valentemente a família, que achava o trabalho indigno; estava vindo da Pérsia, onde passara cinco anos de pós-guerra mais ou menos de acordo com suas expectativas de vida. Alfred Tayler não era exatamente o homem dos seus sonhos (seu grande amor fora um médico, já morto), todavia era um bom sujeito, além de bonitão, e a noção de dever, pedra fundamental da sociedade vitoriana, ainda exercia seu poder disciplinador (ele, por sua vez, com o corpo e o espírito danificados pela experiência da guerra aspirava a uma vida tranquila como fazendeiro na Inglaterra), e por que não seria assim, se o Império Britânico resistira aos anos de conflito? Tanto assim que, numa Exposição Colonial, a promessa de enriquecer com fazendas de milho na África, empolgou o casal, o qual embarcou alegremente na aventura.

Mas a fazenda revelou-se uma empreitada estressante e inglória, acossada pela pobreza, pelas condições materiais precárias e pelo isolamento; para a mãe de Doris Lessing, representou a pá de cal na “antiga” Emily e a eclosão da neurose incubada pela guerra (quando, na sua condição de enfermeira, presenciou coisas indescritíveis). Tornou-se uma mulher prostrada, sempre à volta com doenças próprias e alheias (a saúde do marido começou a deteriorar seriamente), investindo no futuro dos filhos (Harry, como homem, logo se mandou; restou Doris) suas ambições e exigências:

Meu pai, porém, não estava interessado em ficar rico. Ele queria apenas ganhar o suficiente para voltar à Inglaterra e concretizar o sonho de comprar uma fazenda em Essex, Suffolk ou Norfolk e virar um fazendeiro inglês. Minha mãe, no entanto, sonhava com algo diferente. Uma fazenda na Rodésia seria a continuação da vida agitada que levava na Pérsia, só de festas e diversão. E aqui, como em nenhum outro lugar, tenho dificuldade ao tentar comparar a mãe que conheci, sempre doente, sempre sofrendo, mãe prestimosa cuidando das necessidades alheias, como uma verdadeira lady eduardiana, como a figurinha fácil da sociedade.

    Lemos a passagem acima na segunda parte de Alfred e Emily. Na primeira parte, a filha dos dois imagina uma biografia alternativa para os pais. Eles não se casarão. Alfred não será proprietário de uma fazenda na Inglaterra, mas é tão benquisto pelos donos (quase como se fosse um filho) que ali viverá plenamente como sempre quis (para desgosto da mãe, que o queria trabalhando num banco, e não como um “”peão” –note-se: não é uma visão muito diferente daquela que não concebia para uma moça de boa extração uma carreira inferior como a enfermagem), casando com uma moça pé no chão, cheia de vitalidade e discernimento, a qual lhe dará dois filhos.  Nesse cantão, chegará à velhice e morrerá realizado; Emily, por sua vez, deixará a enfermagem para casar com um médico e terá um matrimônio frio e convencional por dez anos, no fim dos quais ficará viúva, figurinha fácil na sociedade, uma lady eduardiana. A vida dela, tal como reinventada pela filha, não é nada harmônica, pois sua inquietude não coaduna com a existência mundana.

alfred_and_emilyalfred e emily

Através da ligação com pessoas mais jovens (tal qual acontecerá com Martha Quest e tantas personagens lessinguianas), ela manterá um precário, mas estimulante equilíbrio entre os estreitos caminhos reservados para as mulheres e uma ação de reforma social (criando uma rede de escolas que seguem o método montessoriano). Avanço e retrocesso, grades de referências e esfacelamentos internos. Nem numa reinvenção, Doris Lessing consegue deixar de levar em conta esses calibradores da experiência humana. A respeito de sua protagonista, lemos: Sua vida dava a impressão  de ter sido uma série de ajustes a pressões arbitrárias.

O elemento da equação mais importante que foi subtraído, no entanto, das biografias reais, e que dá um curioso, embora leve,  toque de Louisa May Alcott à primeira parte do livro (se a autora de Little Women tivesse obliterado a guerra de Secessão também) é a experiência 1914-1918. São mencionados conflitos no resto do mundo, e a vontade dos jovens ingleses de engajamento (como bem mostra a autora na segunda parte, Quando os pacifistas, ou os que tentam limitar a guerra, resolvem esquecer que alguns homens sentem prazer com cada momento dela, cometem um erro grosseiro…), contudo a Inglaterra permanece incólume.

O que podemos pensar dessas vidas reinventadas? Creio que essa parte se valoriza pelo que leremos a seguir, o lote de experiências realmente vividas. Em última instância, sempre é válida a especulação de como seriam as vidas sem um fator coercitivo extremo (como o foi a guerra), e se os protagonistas tivessem seguido seus pendores (há também o aspecto psicanaliticamente iluminatório com relação a uma mulher chegando aos 90 anos,  de imaginar como seriam essas pessoas se não fossem seus pais—Alfred só terá filhos homens, e Emily não terá nenhum, ainda que a certa altura esteja cercada de crianças—quem conhece a obra de Doris Lessing sabe como é uma situação comum em suas histórias).

Em contrapartida, nota-se um gritante desequilíbrio entre o espaço concedido a Alfred e aquele em que Emily ocupa o palco, com desvantagem para o primeiro, o que ocorrerá igualmente na segunda parte, e aí temos o cerne da questão: não será, no fundo, o velho ajuste de contas com a figura materna?

No geral, contudo, o que mais me perturbou é ela não ir até as últimas consequências do seu intento, ou conduzi-lo de forma um tanto quanto desajeitada: toda essa primeira parte, ou deveria ser um exercício de imaginação sobre as possíveis existências que Alfred Tayler e Emily McVeagh poderiam ter vivido, sem o casamento; ou ela deveria (e talvez fosse a solução mais arrojada, literariamente) fazer uma mescla do que foi e do que poderia ter sido no mesmo movimento textual.

a proper marriagefamília

No meio do relato, após mostrar a intensa vida profissional e social dos dois jovens, lemos:

Como é que a gente conseguia, meu pai perguntava às vezes para minha mãe, lembrando os tempos de jovem. Santo Deus, quando eu lembro…

Só Deus sabe, dizia minha mãe, suspirando. Eu nunca ficava cansada naquele tempo.

Só que ela não volta a usar esse artificio e o trecho fica como que sobrando, abrindo apenas uma janela insuficiente e tímida.

O que me leva aos problemas da segunda parte: ela é mais contundente, não há dúvida, e enriquece inegavelmente o conjunto, mas também tem o ar de coisa mal ajambrada. O pai fica como figura de fundo, os problemas e a formação da filha acabam atropelando a mãe, que volta à condição de coadjuvante, e o método que deveria reger o livro (percepção tardia, interposição de épocas e portanto momento ideológicos distintos) não se revela tão eficaz porque são as experiências de Doris Lessing, e não as experiências de Emily Tayler.

O texto se revela fragmentário em excesso, como se ela não fosse capaz realmente de enfrentar a empreitada e dar-lhe a devida coesão. Momentos fantásticos convivem com capítulos quase circunstanciais, que borboleteiam em torno do projeto central[1].

Mas assim como a sra. Quest permanece na mente muitos anos depois de lidos os volumes da história da formação da sua filha, Emily Tayler avulta e impede que a sua existência, reinventada ou recontada pelos olhos de outrem, resulte em algo sem fibra. Assim como na sua vida, os elementos debilitantes revelam o desperdício de um núcleo brilhante, mas ele está ali.

Por esse motivo, sem ser exatamente um dos melhores livros de Doris Lessing, Alfred e Emily acaba demonstrando, como poucos, o que representa a presença das figuras paternas numa vida. Tateando entre fragmentos, seguindo um projeto a que não conseguiu dar formato justo e equilibrado, no final de uma carreira gloriosa, a grandíssima escritora inglesa, veterana da vida[2],mas sem que os recursos narrativos viessem lhe socorrer com as devidas artes e manhas, procurava os pais verdadeiros por detrás dos fantasmas que a guerra legou-lhe, tornando-a uma legítima filha da violência.

(escrito especialmente para o blog, novembro de 2013)

VER TAMBÉM NO BLOG:

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https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/a-rede-social/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/a-maravilhosa-vida-longa-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/leitura-em-espelho-andando-na-sombra-de-doris-lessing-e-a-forca-das-coisas-de-simone-de-beauvoir/

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[1] Um dos momentos fantásticos é o colóquio tardio com o irmão, Harry, com quem nunca se deu bem, e que lhe conta um choque que sofreu com uma colisão de caminhão. Ora, Harry tinha sobrevivido, décadas antes, na Segunda Guerra, ao afundamento de seu navio (ficou flutuando por horas no mar entre cadáveres antes de ser resgatado). Depois do acidente, conta ele à irmã: Achei que devia estar louco: tudo estava tão luminoso, tão claro! Só fui enender depois de alguns dias. Mas de repente entendi. Era assim que eu era antes do Repulse [o navio afundado]. Aquela pancada na cabeça tinha feito eu ficar normal de novo. De repente eu voltara a ser como era realmente, entende? Virei eu mesmo. Tive de encarar o fato de que passara anos da minha vida—quase quarenta diferente do que era…

[2] Às vezes os veteranos da vida olham para trás, para os anos que se passaram, e se perguntam qual teria sido sua pior experiência.

Doris Lessing

14/08/2013

Notas sobre um jovem contista: O ESTOURO DA ARTÉRIA DE UM CAVALO HÚNGARO, de Thiago Roney

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“Minha literatura será o estouro da artéria de um cavalo húngaro jorrando sangue com vodca na cara dos meus contemporâneos”.

Este é o trecho que justifica porque O estouro da artéria de um cavalo húngaro é o texto-título da coletânea de estreia de Thiago Roney.

Antes de abordar o referido conto, comentarei outros (são 12 ao todo), mas quero chamar a atenção para a presença da violência estilizada (o sangue com vodca), a referência “exótica” (o cavalo húngaro) e a preocupação de tematizar a própria literatura, típicas (é quase uma obsessão, quando não se trata de simples modismo) nos escritores das últimas safras.

O projeto literário de Roney se mostra bem mais interessante do que essa vinculação geracional, ainda que a realização textual muitas vezes deixe a desejar. Para delineá-lo minimamente, efetuarei uma operação arbitrária,  dividindo o livro em três blocos de quatro.

O jovem autor de Manaus (nascido em 1985) deve ter percebido, claro, que os quatro primeiros representavam uma boa introdução à sua produção até aqui (o livro foi editado no finalzinho do ano passado), e a leitura em conjunto reforça um vínculo mais imediato entre três deles (o vínculo com o conto de abertura, cujo título já é um achado, A doença do mundo não é tão óbvio, mas é forte), apesar da disparidade dos resultados: Afetuosos teoremas de Martín, O caçador de made in´s, O dia que comi como o faz um rico. Neles, Roney se mostra um dos representantes promissores de um novo vigor do veio mais expressionista e focado no social em nossa jovem ficção, para além daquela tematização da literatura e da vida literária, e todos seus subprodutos já desgastados (a metalinguagem, o experimentalismo gráfico, a morte do Sujeito, a suspeição quanto à legitimidade do Narrador, etc etc etc), e coloca em foco um dos temas mais candentes da contemporaneidade: a submissão das relações familiares à lógica do mercado, os ritos de passagem entre gerações recodificados como a “inserção do jovem no mercado de trabalho”.

Assim, o caçador de made in´s se enforca, desgostoso com a possibilidade de que viver tenha como epitáfio (como vira num cemitério) “laborum meta”; assim, o conflito  com o pai, calcado na (nunca ultrapassada, infelizmente) questão sexual  do narrador (gay) de O dia que comi como o faz um rico, não se resolve pelo descompasso profissional entre as gerações (o pai, peixeiro; o filho, médico com doutorado nos EUA, embora se apaixone e tenha um relacionamento com um…peixeiro); assim, em Afetuosos teoremas de Martín (o leitor deve ter notado o capricho de Roney com os títulos), as figuras familiares se tornam presenças fantasmáticas, sombras, axiomas miasmáticos.

Pena que o resultado textual nem sempre siga esse vigor de ideias, de percepção do mundo atual. Afetuosos teoremas de Martín, principalmente, precisaria de uma revisão radical.[1]

Quanto ao conto A doença do mundo, ele me parece corresponder ao Zeitgeist convocado pelos outros três, essa interpenetração tão contemporânea de obrigação de produtividade (e até a alegria e a diversão se tornam uma espécie de produtividade neste nosso mundo) e de um desânimo corrosivo. Gostei do fato de que neste conto as referências culturais (no caso, especificamente Laranja Mecânica) se resolvem não como referência apenas, mas dentro do imaginário e movimento do próprio texto (ainda mais sabendo que Roney pode se valer de outros recursos, não apenas dessas referências, como acontece com tantos outros autores jovens). É a história de uma deprimida que começa a tomar uma substância misteriosa e volta a ser uma pessoa “animada”, “produtiva”, para espanto do seu companheiro. Deixo ao leitor descobrir o componente principal desse preparado tão eficiente.

O segundo bloco de quatro, a meu ver, deveria encerrar a coletânea e assim ela ficaria como um registro sólido de um momento da vida de escritor de Thiago Roney. É a ele que pertence o conto-título, cujo contraste do tipo de atividade profissional (pipoqueiro) e de aspiração (escritor) renderia mais, sem frases de efeito (“O amor é um desintegrador da substância coletiva”). De qualquer forma, o relato evolui para uma situação bastante  engraçada, bizarra e interessante, aproveitando como “amada” um ser bastante presente no imaginário da leitura e destino dos livros. Só achei imperdoável e rebarbativa (e, em última instância, mostrando pouca confiança na inteligência e atenção do leitor) a última frase do texto, que destrói todo o efeito construído pelo autor.

O gozo sem vida de Joana é, a meu ver, um dos três melhores momentos do livro (junto com A doença do mundo  e O dia que comi como o faz um rico)—e  até poderia encerrá-lo; e prova de que um realismo mágico que não seja apenas “saramandaico” (ou seja, personagens esquisitos, sem nada por trás que justifique essa “esquisitice”) ainda é possível. Temos uma mulher que o marido não satisfaz, um amante tosco, borboletas,  orgasmos… e um belo final, como sempre se diz que um conto deve ter quando constrói passo a passo seu “efeito”. Aqui, vemos que Thiago Roney pode ainda ser imaturo em vários aspectos, mas tem o temperamento e a volúpia do escritor verdadeiro.

Também nesse compasso, O tabelião dela, onde ele procurou ajustar o tom narrativo a um personagem alienado do mundo, e que no entanto filtra para nós a realidade à sua revelia, é quase um personagem de Francisco J. C. Dantas em miniatura (só não convence muito, para um personagem autoproclamado antimoderno, que ele assista a filmes de Lynch ou Tarantino, esses são filmes a que o escritor Thiago Roney assiste, e ele precisa estar atento para esse tipo de interferência das próprias referências).

Óculos do vô Tico é uma experiência (inclusive na disposição tipográfica), que pode ser louvável para os rascunhos, esboços, projetos e tentativas, mas que devia ter ficado na gaveta.

O mesmo se pode dizer com narrativas do terceiro bloco, o qual enfraquece muito o conjunto, por conter os textos mais imaturos, mais mal-acabados, e que só estão fazendo número em O estouro da artéria de um cavalo húngaro.

Assim, eu também cortaria sem dó nem piedade 439 (nem tudo o que se escreve deve ser publicado, é uma lição preciosa e sempre desconsiderada), assim como O pintor. Nem vou me deter neles. Já  Vitamina C , no qual voltam os miasmas familiares, a presença dos “entes queridos” meio fantasmática e tênue, apesar de me parecer mais uma primeira versão, ainda tentativa, de conto, um esqueleto de texto, uma coisa meio esboçada, em termos de atmosfera é um dos mais interessantes do livro, com várias tensões aflorando, apontadas aqui e ali, de uma forma que se entremeia ao cotidiano familiar (e que o coloca ao lado daqueles do primeiro bloco).  Da maneira como está, dá para gostar do texto, mas creio que poderia ser um baita conto, se fosse mais trabalhado. E a vitamina C do título,que poderia representar um elemento de ironia dissolvente, acaba caindo de paraquedas no final da narrativa.

O último conto,  O Jogo ou Como cortar uma faca com outra faca é muito problemático, principalmente porque para marcar a diferença da “sedução” do escritor, em contraponto à sua figura real insatisfatória e “broxante” (“Mas como pode existir um gênio nas letras, do tipo que  escreve isto (…) E mesmo assim na vida ser um bundão?”), ele coloca trechos do sujeito, e eles são lamentáveis, quase insuportáveis. O texto me lembra as experiências de André de Leones, antes de Terra de Casas vazias, discursos narrativos meio curto-circuitados que não se resolvem muito bem e, ao contrário de A doença do mundo, aqui as referências (no caso, O jogo da amarelinha, de Cortázar) não funcionam muito bem.

Achei genial a frase “Porra, gosto de literatura pra caralho, mas gosto de pica também” (tem outra ótima,  “Deixou meu espírito molhadinho de novo”, lembrando que é o jogo de sedução entre autor e leitor) . E ficou  bacana a girada autorreferencial que “quase” termina o relato e o livro: Quem sabe não conheço o carinha que escreveu O estouro da artéria de um cavalo húngaro”.  Pena que é “quase”, não sei se é necessária a sequência (aliás, uma frase meio desajeitada): “Ah, e lógico que o filhadaputa não me broxe”. O problema central talvez seja a oscilação entre uma possível sátira aos próprios personagens e um possível erotismo de negaças e aproximações.

Contudo, como se pode constatar, temos de ficar de olho em Thiago Roney. Não acho que ele vá nos broxar no futuro.

(escrito especialmente para o blog, em agosto de 2013)

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[1] Mesmo nos outros, há problemas em certas frases mal ajambradas (“a dúvida arfava em minha cabeça”), em adjetivos mal escolhidos (“saltei insólita”), mesmo que se pense na “liberdade criativa”. Mas já apontei para o autor os problemas vocabulares e gramaticais, e eles não vêm ao caso aqui, onde o objetivo é dar uma ideia do livro ao meu leitor.

 

26/05/2013

Chaya Pinkhasovna: desvarios em torno da judia Clarice Lispector


   “Afiado como a extremidade de uma navalha é

o caminho, dizem os sábios, difícil de atravessar.”

“…que ilusão ou tristeza existe para aquele que vê unidade?…”   (Upanixade)

(uma versão um pouco mais condensada do texto abaixo foi publicada como resenha em 20 de julho de 2010, em A TRIBUNA de Santos)

Fiquei muito irritado com a biografia escrita por Benjamin Moser que originalmente se chama Why this world e, que traduzida por José Geraldo Couto, vem fazendo sucesso com o título brasileiro de Clarice,.

Em primeiro lugar, nada contra o projeto de realçar as origens étnicas da autora, destacando sua identidade como judia.  A questão toda é como isso afeta a sua identidade como escritora na visão que emerge do trabalho de Moser e a qualidade da biografia em si mesma.

Na minha opinião, todo o lado estritamente biográfico já fora feito de forma muito melhor (inclusive o realce à sua condição judaica) por Teresa Cristina Montero Ferreira em Eu sou uma pergunta, e sobretudo por Nádia Battella Gotlib (especialmente do ponto de vista literário) em Uma vida que se conta. Não acho que Moser acrescenta muito ao leitor brasileiro, embora tenha que se levar em conta de que ele está biografando Clarice basicamente para o leitor estrangeiro . Só acho impressionante sua biografia fazer tanto sucesso por aqui, em detrimento das outras duas, e convenhamos que ele foi supemamente deselegante, nos agradecimentos, ao se referir à Nádia como “a maior autoridade no Brasil em Clarice Lispector”; o tom é de quem está dizendo o seguinte: “ela é a maior autoridade num país de segunda”, e nós, do primeiro mundo assumimos de agora em diante, muito obrigado, e adeus.

Por outro lado, há uma hipertrofia da “questão judaica” no livro. Há momentos em que ela literalmente atropela Clarice, e nós sentimos que estamos lendo uma vida vivida na Berlim nazista, ou que o anti-semitismo, que aparece em surtos episódicos no desenrolar temporal do livro, fosse uma questão essencial do nosso país. Há momentos até em que parece que o que ele gostaria mesmo era de biografar Elisa Lispector,  a irmã de Clarice que mais peremptoriamente manteve a identidade judaica, e cujas obras, tão superestimadas ao longo de Clarice,, a julgar pelos trechos selecionados pelo biógrafo, parecem muito fracas (tirando o aspecto catártico), cafonas, especialmente o texto sobre a irmã, Corpo a corpo, que é de uma ruindade constrangedora.

O que me irritou no livro de Moser pode ser esclarecido com uma espiada nas páginas  156 e 157, nas quais se fala do grupo de escritores homossexuais e católicos com os quais Clarice conviveu (Octávio de Faria, Cornélio Penna, Lúcio Cardoso, pelo qual ela foi apaixonada). Nelas, Moser aproxima homossexualidade e judaísmo:

“…buscavam ser salvos por meio da arte. Escrever era para eles um exercício mais espiritual do que intelectual.

     Era isso que Clarice Lispector, ´culpada nata, aquela que nascera com o pecado mortal´, tinha em comum com Lúcio Cardoso: A beleza era uma qualidade, não uma forma; um conteúdo, não uma organização, disse um escritor acerca da visão de mundo dos judeus pobres do Leste Europeu. Ao escrever que os judeus ficariam profundamente perplexos diante da idéia de que a estética e a moral são reinos distintos, ele também poderia muito bem estar falando da obra de Lúcio Cardoso e outros católicos homossexuais, cuja exaltada literatura era em grande parte uma missão urgente para salvar almas que eles temiam estar irrevogavelmente condenadas.

    Essa também era a meta de Clarice Lispector e de muitos outros escritores judeus, confrontados com o silêncio de um Deus que, a despeito de suas fervorosas orações, insistia em afastar-se deles. Ambos era rejeitados e ambos tinham sede da redenção que haviam perdido a esperança de encontrar.”

Que embrulhada, que mixórdia!  Infelizmente, Moser vem acrescentar mais um tijolo à construção de uma identidade de martirização que os gays vêm construindo (e nisso se associando aos judeus) como bodes expiatórios da humanidade e cuja face mais deletéria do ponto de vista artístico, é  valorização de determinados autores por serem gays, e, ao fim e ao cabo, sob o pretexto de libertação de preconceitos e estereótipos, amarrar os autores a suas identidades étnicas e orientações sexuais, reduzindo-os e domesticando-os. É o que se tenta fazer, por exemplo, com Thomas Mann: não que alguém possa negar o seu homo-erotismo, mas extirpar toda a sua vida familiar, seu casamento por toda a vida, seus muitos filhos, é não considerar que independentemente dos atavismos, há uma liberdade humana de se inventar, de fazer da sexualidade o que se quiser, e como negar que Mann construiu para si uma vida heterossexual e que, como muitos, ele era fascinado mais pela beleza pessoal do que pela determinação do sexo?

E como negar que a vida de Clarice é um afastamento das suas origens judaicas, e que transformá-la numa escritora representante da mística judaica é um delírio, uma forçação de barra? Assim como Moser apresenta leituras da obra (muito fracas) tentando aproximá-la da mística judaica (e diminuindo bastante Clarice como escritora como efeito de suas análises), eu, por exemplo, usei com bastante proveito as reflexões sobre o sagrado de Octavio Paz na minha análise de A paixão segundo G.H., Benedito Nunes fez uma maciça aproximação da obra dela com a filosofia existencialista, de forma ainda hoje instigante, e, muito recentemente,  Dany Al-Behy Kanaan, em À escuta de Clarice Lispector, mostrou fontes tanto do Antigo Testamento, mais fortemente judaicas, quanto do Novo Testamento, mais especificamente cristãs, em sua obra, com exemplos convincentes.

Moser vincula a trama de A maçã no escuro à lenda judaica do Golem, esquecendo-se da epígrafe da própria autora, citando a fonte de sabedoria do hinduísmo, o Upanixade, que abre um escopo mais amplo (e, para mim, muito mais próximo ao pensamento clariceano): “Criando todas as coisas, ele entrou em tudo. Entrando em todas as coisas, tornou-se o que tem forma e o que é informe; tornou-se o que pode ser definido e o que não pode ser definido; tornou-se o que tem apoio e o que não tem apoio; tornou-se o que é grosseiro e o que é sutil. Tornou-se toda espécie de coisas: por isso os sábios chamam-no o real.”

      No post

https://armonte.wordpress.com/2010/07/26/chaya-pinkhasovna-desvarios-em-torno-da-judia-clarice-lispector-primeira-parte/

eu cito e comento os disparates de Flávio R. Kothe a respeito da obra de Clarice.

Em suas leituras da obra, Moser não fica atrás. Além de comentar, sobre A paixão segundo G.H.,  que “não é, pelo menos no primeiro plano, literatura”, diz que podemos ver em Uma galinha, uma das obras-primas do conto clariceano, uma figuração do sofrimento da mãe dela, judia estuprada nos terríveis pogroms do Leste Europeu, e que provisoriamente foi salva, como a galinha da história, de perecer como milhões da sua espécie!!!!!

Guimarães Rosa, o outro grande escritor brasileiro do século XX, é citado apenas de passagem (talvez seja “normal” demais, sem nenhum distintivo indicativo de uma perseguição, sem poder aspirar a ser bode expiatório), quando, se Moser se interessasse genuinamente pela literatura brasileira , e numa obra destinada ao leitor estrangeiro, seria obrigatório, para dizer o mínimo um pequeno paralelo entre as duas carreiras, que começaram praticamente ao mesmo tempo.Ele só indica a admiração de Clarice por Rosa, mas nada fala do impacto de Grande Sertão: Veredas, e como isso definiu o período em que ela lançou suas obras. No entanto, afirma que Crônica de uma casa assassinada, de Lúcio Cardoso, é uma obra-prima. Ora,ora. Será que se Lúcio Cardoso não fosse um homossexual católico atormentado e amigo da judia atormentada Clarice Lispector, ele consideraria esse livro realmente uma obra-prima?

E, quando faz um dos seus infelizes panoramas históricos, e comenta a visita de Jean-Paul Sartre ao Brasil (e seu livro de circunstância, Furacão sobre Cuba), sua caracterização é digna de Flávio R. Kothe: “O  livro trai uma tamanha ignorância de conceitos básicos de economia, história e política que é difícil imaginar que seu autor fosse mundialmente visto como um intelectual peso-pesado, ou mesmo que apenas fosse levado a sério. Mas era o livro do momento, do homem do momento, sobre o assunto do momento…” É difícil de imaginar que ele não considere um minuto que Sartre não era apenas o “homem do momento” , autor do livro do momento, como se fosse um sucesso fortuito  e passageiro, mas que também acabara de lançar Crítica da Razão Dialética,que não pode ser o mais consensual dos seus livros, mas é um marco histórico, e, de qualquer forma, era o autor de A náusea, Huis Clos, O ser e o nada. A idade da razão, As moscas, entre tantos títulos que podem ser lembrados. A explicação para tamanho desprezo está numa passagem anterior: “Os textos que ele publicava no France-Soir são o que se poderia esperar de alguém que nunca deixou de aderir a uma má idéia esquerdista, emitindo justificativas para tudo, das ações mais extremistas na Argélia ao assassinato de atletas israelenses na Olimpíada de Munique”. Ah, tudo se baseia nessa última informação. O pecado de Sartre: seus comentários ao assassinato dos atletas israelenses (de fato, uma monstruosidade). Isso já o desqualifica de vez. Assim como a ditadura brasileira ficará satanizada nessa biografia tão tendenciosa mais pela sua aproximação com os países árabes, durante a crise do petróleo dos anos 70, do que por qualquer outro detalhe.

Enfim, o que emerge é uma Clarice recortada às tesouradas, feita para os moldes moserianos.Compre o peixe quem quiser.

27/03/2013

GLOBALIZAÇÃO LITERÁRIA: A OBRA DE GRAHAM GREENE

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/o-abismo-das-impossiveis-reconstituicoes-e-os-resignados-habitantes-do-inferno/

https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/os-esgotos-do-pos-guerra-e-os-escombros-da-camaradagem-masculina/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/20/personagem-a-procura-de-um-autor/

(aqui estão reproduzidas algumas das resenhas escritas por mim sobre obras de Graham Greene ao longo dos anos e publicadas em “A Tribuna” de Santos)

 

 Resenha publicada em  A TRIBUNA de Santos, em 18 de janeiro de 1994:

Reflexões é um daqueles constrangedores produtos da decrepitude ou pós-morte de um autor importante, quando se fuça seus rabiscos e publica-se até a caderneta da padaria e a cartilha do beabá? Sabemos o quanto de lixo isso nos trouxe de Pessoa e Drummond, por exemplo, esse culto necrófilo e/ou mercenário das sobras…

Muitos textos dessa coletânea de textos circunstanciais escritos ao longo de décadas por Graham Greene (1904-1991) ou são curtos, abruptos e vagos demais ou são francamente ruins e juvenis no pior sentido. Há lugares comuns indefensáveis, como no tributo a Jorge Luis Borges, “espantou-me a expressão daqueles olhos cegos. Não pareciam cegos. Era como se estivessem olhando para dentro de si mesmos”!!!!

O leitor deve dar preferência mesmo ao ficcionista extraordinário, que nos deixou contos memoráveis, um trio de romances geniais (Brighton Rock- O condenado, de 1938; O Poder e a Glória, de 1940; The heart of the matter- O cerne da questão, de 1948), além de obras como Fim de Caso, O Cônsul Honorário, Viagens com minha tia, O fator humano ou Monsenhor Quixote, para citar algumas, que aguardam uma reavaliação para se conferir se não estão no mesmo patamar. Sem falar nos dois fundamentais depoimentos autobiográficos, Quase uma vida e Pontos de fuga.

Mesmo assim, há algo de instigante em Reflexões, pela revelação que faz da ética pessoal de Greene. Escrevendo sobre a Alemanha e a França pós-Primeira Guerra (e prevendo, com acerto, aos vinte anos, a segunda), sobre a Indochina, o Haiti, Cuba, Paraguai, Chile, Conan Doyle, sebos, cinema (artigos marcantes sobre este assunto, afinal ele foi crítico cinematográfico por anos), acaba nos esclarecendo um pouco porque foi o romancista que ampliou a consciência mundial da literatura, que deu sentido à frase lapidar de Joan Didion (no seu belíssimo romance Democracia): “ninguém está isento do movimento geral”; e, ao mesmo tempo, mostrou dilemas psicológicos tão intimistas e intrincados. No seu entender, o que acontece em Phat Diem ou o que ocorreu em 1597 com católicos ingleses coloca a todos nós em questão.

Por isso, o mais perturbador de todos os textos de Reflexões é “A virtude da deslealdade”: “Sempre foi conveniente aos interesses do Estado envenenar os poços psicológicos, estimular vais, limitar a solidariedade humana. Não será tarefa do contador de histórias agir como advogado do diabo, provocar simpatia e uma certa compreensão para com aqueles que estão fora dos limites da aprovação do Estado? (…) Ele representa as vítimas, e as vítimas mudam. A lealdade nos confina às opiniões aceitas, a fidelidade nos proíbe de compreender, de maneira solidária, os nossos companheiros dissidentes; a deslealdade, porém, nos estimula a penetrar qualquer mente humana”.

    Realmente, esse é o espírito que sopra sobre as águas da obra de Greene. Não foi por acaso que ele pôde escrever Monsenhor Quixote, romance definitivo sobre a equação ideologia e individualidade (não confundir com individualismo).

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Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 9 de janeiro de 1996:

Em A última palavra, coletânea de 12 contos, há duas histórias da Segunda Guerra: “As notícias em inglês” e “O tenente morreu por último”. Em ambas, dois solitários são o pivô dos acontecimento: uma mulher cujo marido é considerado por todos (a mãe, inclusive) um traidor, e que carrega consigo o peso de saber a “verdade”; um caçador ilegal que salva um daqueles típicos povoados ingleses (eles se tornaram quase míticos, após tantos filmes e livros, está aí Mrs. Minniver-A rosa da esperança, de William Wyler, que não me deixa mentir) de uma invasão alemã.

Como são dois textos de alto nível, possuem outros aspectos que poderiam ser explorados, mas esta resenha insistirá na impressionante maneira como a solidão ecoa de uma ponta a outra, dando notável unidade e coerência a essa reunião de “filhos pródigos” do autor de The heart of the matter- O cerne da questão. São contos que ele deixou de lado e dos quais, salvo engano, apenas “O bilhete de loteria”, um dos melhores, já fora publicado no Brasil, em outra tradução, pela editora Agir (em 1959, na coletânea Contos, cujos 18 integrantes foram meu primeiro contato com o Greene contista).

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A própria história-título, que abre o livro, com um tom que parece ter saído dos versos de T.S. Eliot, aqueles do final de A terra arruinada, que nos falam do fim do mundo como evento mais melancólico que apocalíptico, mostra um solitário: o último papa, desmemoriado após um atentado e o qual, já não possuindo seguidores e não representando mais uma ameaça (ou seja, não podendo tornar-se mártir), é executado por um compadecido inimigo.

Em “O momento da verdade”, um garçom descobre-se condenado pelo câncer e deposita toda esperança de solidariedade e simpatia num casal de fregueses americanos, freqüentadores por alguns dias do restaurante.

Restaurantes também são os lugares onde passa a vida o espião de “Uma divisão do serviço”, uma das inúmeras brincadeiras de Greene com o serviço secreto britânico, para o qual trabalhou e que adorava espicaçar. Já nesse conto a solidão se reveste de um ridículo atroz, explorado também em “Assassinato pelo motivo errado”, no qual aparece um personagem freqüente na ficção greeniana, o assassino recalcado e inseguro. Basta lembrar A gun for sale- Assassino de aluguel e do inesquecível Pinkie da obra-prima Brighton Rock- O condenado.

Outros que não escapam da ironia do grande autor inglês são os turistas, basta ler “O homem que roubou a Torre Eiffel”. Na verdade, só existem dois textos realmente fracos em A última palavra: “A casa nova” e “Uma obra inacabada”.

O que sobressai do conjunto é uma visão da sociedade em que todos estão abandonados à própria sorte, uma sociedade que torna cada verdade pessoal paródia de si mesma, uma sociedade em que as pessoas dedicam-se por anos a atividades miseráveis e incompreensíveis (os espiões durante a Guerra Fria, por exemplo). Enfim, um mundo que os críticos costumam chamar de greeneland (ele brinca com isso em Ways of escape- Pontos de Fuga, depoimento sobre a feitura das suas obras) e que nada mais é do que o mundo globalizado, um mundo que ele soube intuir e retratar de maneira magistral.

Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 17 de junho de 2003

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Com relação ao centenário do nascimento de Marguerite Yourcenar comentei que seu livro Golpe de Misericórdia (1939) era apreciado até mesmo por quem não gostava muito da obra da escritora belga. Isso acontece também com Brighton Rock- O Condenado, que geralmente sai ileso das críticas mais pesadas feitas a Graham Greene (de ser um autor convencional, comercial, para consumo da classe média, etc).

Ele está sendo apresentado numa edição que se apresenta como “revista”, embora ainda utilize como base uma velha tradução de Leonel Vallandro, igualmente utilizada em Portugal (como A inocência e o pecado), e que é muito boa, só ficou anacrônica no quesito gíria, já que o romance se passa no submundo e nos meios populares. E também há o problema do aportuguesamento dos nomes próprios. Eu costumava me irritar com a aportuguesada Rosa (a personagem-chave do enredo) e fiquei feliz ao vê-la se tornar uma legítima e inglesa Rose. Mas parece a dose foi demasiada e o remédio só piorou a doença: uma sucessão de palavras incorporou o Rose reconquistado. O leitor conhece uma polícia vagaRose? Pois aparece na página 152. E há um vagaRosemente tanto na 205 quanto na 296. Temos doloRosemente (155,283,336), doloRose (190,279, 317), rancoRose (200), tenebRosemente (218), tenebRose (283, 295), indecoRosemente (291), prazeRosemente (239), temo “Roses, roses, roses, por todo o caminho” (234), ficamos sabendo que a vida não é cor-de-Rose (220), que “nem tudo são Roses” (270)!!???!!

Será que estamos diante da versão Finnegans Wake de O condenado? A revisão é tão malfeita que fica faltando uma frase num diálogo entre Pinkie, o protagonista (vivido de forma memorável no cinema pelo então ótimo ator e agora soporífero cineasta Richard Attembourough), e Spicer, o comparsa que ele acabará por assassinar (“Para ? Que está querendo insinuar?”, o leitor NÃO encontrará na página 136), além de metade da frase “Que não foi vocês sabem quem, na página 159; além disso, dividiram em dois parágrafos uma fala importantíssima de Pinkie (numa conversa com Rose, quando tenta incitá-la ao suicídio), na página 311, truncando-a e quase a tornando incompreensível. Haveria muito mais a dizer. Paremos por aqui. Edição “revista” !!! é esse o respeito que as editoras brasileiras têm pelos seus leitores (ou vítimas).

É uma pena que a obra-prima de Greene chegue aos brasileiros tão desfigurada: quando a publicou, em 1938, ele estava apenas com 34 anos e já escrevera alguns romances talentosos: o geralmente subestimado, até pelo próprio autor, Expresso do Oriente, Um campo de batalha, Bela e querida Inglaterra, Assassino de aluguel. Chegara, entretanto, a hora da genialidade na história do gangsterzinho de 17 anos, Pinkie, o Garoto, cuja quadrilha disputa com mr. Coleoni o faturamento do submundo das apostas em corridas de cavalo na cidade balneária de Brighton. Eles assassinam um jornalista, Hale, o qual (para azar deles), antes de ser apanhado, procurou refúgio nos braços de Ida Arnold, mulher de “implacável vitalidade” e que partirá para uma insólita retaliação. Dela se diz não havia lugar no mundo onde se sentisse forasteira”, “não havia nada a que se sentisse alheia”, “somente aquelas trevas em que se movia o Garoto lhe eram estranhas. Não tinha piedade com aquilo que não compreendia”.

    Para escapar da forca, o Garoto resolve se casar com a única testemunha que sobrou do caso Hale, a garçonete Rose. Tanto ele quanto ela são católicos. Como também são menores, casam-se por meio de uma artimanha legal apenas no civil, caindo no mundo do pecado mortal segundo as leis da igreja (e é bom levar a sério esse conceito de pecado mortal, leitor, pois é essencial ao romance). Começa, então, a disputa entre Pinkie e Ida (essa mulher nem sabe o que é um pecado mortal”) pela alma de Rose, que revolucionará a trama noir e transformará Brighton no palco temporário do Inferno.

ADENDO DE 2010-André de Oliveira Lima editor atual de literatura da Globo, entrou em contato comigo e gentilmente me enviou um exemplar da reimpressão de O condenado (de 2006) onde esses erros todos foram corrigidos.

Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, 24 de junho de 2003

greene

Depois de comentar os imperdoáveis erros da nova edição de O condenado, de Graham Greene,, é preciso falar mais a respeito do livro, obra-prima de um autor cuja popularidade não parece dar sinais de arrefecer, como mostram as contínuas adaptações cinematográficas: tivemos, há pouco tempo, uma surpreendente e brilhante versão de Neil Jordan para Fim de Caso (a qual deu ensejo para a alta inspiração de Julianne Moore e Stephen Rea como intérpretes de Sarah e seu marido Henry); no ano passado, Philip Noyce refilmou O americano tranqüilo, com o grande Michael Caine (que já havia sido um fantástico personagem-título na adaptação de O cônsul honorário).

Como já se comentou aqui, o protagonista de O condenado, Pinkie, vulgo o Garoto, é um gangsterzinho de 17 anos, um “pequeno ditador”, que carrega sua “cruel virgindade”, assumindo a liderança de uma quadrilha no submundo das corridas de cavalo em Brighton, especialmente após a eliminação do jornalista Hale. Para não correr riscos, Pinkie resolve casar-se com a única testemunha que pode ligá-lo a Hale, a garçonete Rose, católica e menor de idade como ele.

Casam-no civil, porém o sentimento de pecado mortal (por não se sacramentar o matrimônio na igreja) assombra o casal, “na sombria teologia em que os dois estavam absortos”.

    Uma das raras coisas boas da edição da Globo é o prefácio de Marcelo Pen, onde se fala do livro como “thriller metafísico”. De fato, é como se fosse um enredo policial ao estilo de um Borges ou de uma Clarice Lispector. Por um curioso erro de percepção, Greene achava que a base policialesca da intriga (a Primeira Parte, com a perseguição de Hale) deveria ter sido cortada quando o romance tomou sua feição final.  É o que se lê em Pontos de fuga: “As primeiras 50 páginas são tudo o que resta da história policial. Iriam irritar-me, se eu ousasse examiná-las agora, pois deveria ter tido a força de vontade suficiente para retirá-las, e começar a história outra vez, por mais difíceis que se tornassem as revisões, com a agora chamada Segunda Parte.

O problema é que a desprezada Primeira Parte é incrível: tudo está lá, todas as linhas de força do romance, a partir da inesquecível frase inicial (“Ainda não fazia três horas que Hale estava em Brighton quando compreendeu que pretendiam assassiná-lo); aliás, poucos livros podem se gabar de começar de forma tão inspirada, e terminar com uma frase mais perfeita ainda, se possível (Rose caminhava rapidamente, no leve sol de junho, ao encontro do maior de todos os horrores).

Outro inacreditável erro de avaliação de Greene é justamente com relação a Rose. Para ele, era uma de suas personagens que não conseguiram adquirir vida, que só estão ali por causa da trama. Pois bem, Rose é a grande personagem, a alma de O condenado, bem mais do que o próprio Pinkie ou sua oponente, Ida Arnold. Rose está para Graham Greene como Macabéa para Clarice Lispector: a mesma nulidade social, o mesmo desamparo existencial, a mesma qualidade patética de “ser” com tão pouco, de tirar tanto de nada. Nos momentos em que Rose está no centro do palco, o estilo de Greene chega ao auge.

E por falar em estilo, há determinadas imagens insólitas que parecem Faulkner (é só pegar Santuário). É o caso de uma caracterização do advogado, mr. Prewitt, responsável pelos arranjos para o casamento (e que tem perfeita consciência da situação de todos, ao citar Fausto: “O inferno é aqui e nós estamos dentro dele”; de passagem, há até um detalhe bobo e dispensável para indicar isso: o número do telefone da pensão de Pinkie é 666): “A expressão de simpatia não lhe assentava; tinha-se a impressão de que era possível despegá-la dos seus olhos, como etiqueta colada pelo leiloeiro num antigo instrumento de sílex. Parece Faulkner (que justamente publicava suas grandes obras por essa época), mas a semelhança é devida a uma influência comum a ambos: Joseph Conrad. Pois o coração das trevas tanto fica em Brighton quanto no Mississipi.

Resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 16 de março de 2004

os farsantes

Há algum tempo, Caetano Veloso cantava que o Haiti era aqui. Em 1966, Graham Greene mostrou-se mais profético ainda ao escrever em Os farsantes o seguinte trecho: “O Haiti não era uma exceção num mundo sadio: era uma pequena fatia do dia a dia tomada ao acaso.

Quase quatro décadas depois, com o estado das coisas no Brasil e no mundo, e depois da intervenção totalitarista dos EUA exilando de forma sumária um chefe de estado, o lançamento do romance pela Globo torna-se mais relevante, embora não seja uma das obras mais citadas do grande escritor inglês, cujo centenário de nascimento se comemora este ano.

Felizmente, não temos uma edição “revisada” ao modo desastroso de O condenado. Mesmo assim, alguns problemas persistem. O título, por exemplo. Talvez fosse melhor manter a solução da antiga versão de Brenno Silveira, um literal Os comediantes (para The comedians), uma vez que as ligações entre os personagens são metaforizadas sob a forma da atuação (o que deixa indignada a protagonista feminina, que se recusa a ser vista como alguém que está “representando um papel”, como admitem cinicamente –ou seria resignadamente?—seus companheiros). O único problema no caso é que o termo comediante está associada em nossa língua aos papéis cômicos, e aqui teria de ser estendido à comédia humana que nos envolve a todos. “Farsantes” ou seu correlato “impostores” diminuem muito o alcance da metáfora.

Há lapsos na revisão: na página 37, o sr. Smith diz que nem ele nem a esposa (ambos, personagens antológicos) são pessoas “que tenham prazeres moderados” (e é justamente o oposto); na página 79, a frase “quando penso em todo aquele desperdício na Broadway é atribuída a Martha, amante do narrador e protagonista, Brown, e é a mulher que se recusa a ser uma “comedian”, comediante ou farsante (na burocrático e sonífera versão de Peter Glenville eles serviram de veículo para mais uma reunião do casal Elizabeth Taylor e Richard Burton), quando na verdade é dita pela sra. Smith (que, no filme, era a lendária Lílian Gish); na página 112, Brown afirma que tinha razão para se preocupar e deveria ser o contrário (naquele momento, ele não tinha razão nenhuma para ficar preocupado, o que será ironicamente desmentido pelos acontecimentos); enfim, volta e meia esbarramos nalgum enguiço. No geral, entretanto, a tradução é boa.

Depois de Fim de caso (1951), Greene afeiçoou-se às narrativas em primeira pessoa. Em The comedians, Brown é o cidadão de nacionalidade inglesa (embora de origem duvidosa) que mantém um hotel de luxo em Porto Príncipe, abandonado pelos turistas quando a violência da ditadura de Papa Doc e dos tontons macoutes se torna mais virulenta. Ele é mais dos estrangeiros envolvidos em situações locais no mapa da Greenelândia (no México, em O poder e a glória; na África, em O coração da matéria; bi Vietnã, em O americano tranqüilo; em Cuba, em Nosso homem em Havana; no Paraguai, em O cônsul honorário), embora talvez seja o menos ilustre, talvez porque aqui o autor se mostre um tanto cansado. Além disso, ele persiste numa certa sátira aos americanos tranqüilos, ou “inocentes”: o casal Smith chega ao Haiti no mesmo navio de Brown e Jones (este, o mais enigmático e ambíguo dos “comedians” da trama) e hospedam-se no hotel do primeiro. Sua meta: convencer o governo haitiano das vantagens do vegetarianismo, o qual consumiria as paixões humanas.

Humanitário, progressista, otimista, o casal comove Brown e o leitor, escapando do ridículo por causa da sua integridade e bravura quixotesca, ainda que ineficazes e até inconvenientes, quando se opõem às situações de arbítrio e opressão que por acaso testemunham, como o seqüestro, a caminho do velório, do corpo de um ministro que se matou (à beira da piscina do hotel de Brown) ao figurar como persona non grata do regime: “numa ditadura, as pessoas não são donas de nada, nem de um marido morto”.

    Parece que hoje em dia as coisas ficaram piores. As pessoas não são donas nem de um presidente em exercício. Ele pode ser levado a qualquer momento.


22/03/2013

FOREVER JUNG: o cinqüentenário da sua morte e O LIVRO VERMELHO

“Todo tipo de coisas me desviam para longe de minha ciência à qual eu acreditava estar dedicado firmemente. Através dela, queria servir à humanidade, e agora, minha alma, tu me levas para essas coisas novas. Sim, o mundo do meio, intransitável, multiplamente cintilante. Esqueci que cheguei a um mundo novo, que antes me era estranho. Não vejo caminho nem trilha. Aqui deverá tornar-se verdade o que acreditei sobre a alma, que ela sabia melhor seu próprio caminho e que nenhum desígnio lhe poderia prescrever um caminho melhor. Sinto que é tirado um grande pedaço da ciência. Deve estar certo, por amor à alma e por amor à sua vida. Dolorosa é apenas a idéia de que isto só aconteceu para mim e que talvez ninguém  consiga tirar alguma luz daquilo que eu produzo. Mas minha alma exige esta produção. Devo poder dizê-lo também só para mim sem esperança—por amor a Deus. Deveras um caminho duro. Contudo, aqueles eremitas dos primeiros séculos cristãos—o que faziam de diferente? E eram, por acaso,as piores e mais imprestáveis pessoas que viviam naqueles tempos? De modo nenhum, pois eram aqueles que tiravam a mais inexorável conseqüência da necessidade psicológica de seu tempo. Eles deixavam mulher e filhos, riqueza, fama, ciência—e se dirigiam ao deserto—por amor a Deus. Assim seja.” (Carl Gustav Jung, Livro Negro 3)

(uma versão condensada do texto abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 07 de junho de 2011)

INTRODUÇÃO

Em O terceiro homem, de Carol Reed, o personagem de Orson Welles diz ao herói (Joseph Cotten) que as intrigas turbulentas e sanguinárias dos Bórgias e dos Médicis foram o pano-de-fundo  da Renascença, enquanto séculos de paz  na Suíça  criaram o quê? O relógio-cuco.

Em 6 de junho de 1961, às vésperas dos seus 86 anos (nasceu em 26 de julho de 1875) morreu Carl Gustav Jung, a maior refutação da pitoresca (embora divertida) hipótese ético-civilizatória do “terceiro homem”. O mais eminente suíço certamente não veio à Terra nem a passeio nem para espanar a poeira do relógio-cuco: foi o pioneiro que aproximou o tratamento psicanalítico das concepções orientais e abriu caminho no Ocidente para a proliferação das terapias alternativas e práticas meditativas como a ioga.

Eu, que sou um freudiano convicto, nunca tive prevenção contra Jung porque, depois de alguns livros que hoje sei serem “duvidosos” (porque na verdade não são de sua autoria), O homem e seus símbolos e Memórias, Sonhos, Reflexões[1], ainda muito novo “descobri” um precioso volume que, se formos rigorosos, também é uma contrafação, mas que conquista qualquer um para o universo das idéias junguianas. Para mim, durante um bom tempo, Jung foi O homem à descoberta de sua alma (com o subtítulo Estrutura e Funcionamento do Inconsciente). Por que se pode dizer que é uma contrafação como os outros dois? Trata-se de uma tradução portuguesa (da Tavares Martins, Porto, 1975)  de uma edição francesa organizada por Roland Cahen. Portanto, é café coado duas vezes. Mesmo assim, desafio qualquer um a dizer que não se trata de um livro fundamental para se descobrir por que Jung não se limitou a aperfeiçoar o relógio-cuco e a “paz” suíça. A leitura de James Hillman (que anda fora de moda ultimamente) também ajudou a estabelecer uma certa cristalização das idéias de Jung (hoje sei que Hillman representa apenas uma das inúmeras vertentes que foram adotadas a partir dessas idéias, mas quem tem noção dessas coisas quando se é um leitor onívoro de 20 anos?).

Também tive sorte no rol de obras de fato escritas por Jung. Comecei com o maravilhoso e apaixonante Tipos Psicológicos [2]. Eu não sou a pessoa mais sistemática do mundo e decerto o modo junguiano de expor suas idéias é uma loucura, mas acho que o leitor ganha muito com isso e o livro não é menos sólido por causa desse enviesamento teórico: por exemplo, ao invés de definir de vez não só os tipos psicológicos, como as funções a ele relacionadas (o pensar, o sentir, o intuir e o perceber), ele analisa vários personagens históricos e obras filosóficas e literárias (Jung seria um esplêndido teórico literário). Perde-se a clareza didática, mas é um ganho ao fim e ao cabo. E dali saiu um dos motes da minha vida:”…o que tende para fora tem de viver o seu mito, o que tende para dentro sonhará o seu meio ambiente, a chamada vida real”[3]

O LIVRO VERMELHO

Neste ano do cinqüentenário da morte de Jung, a editora Vozes lançou nova edição da sua Obra Completa (18 volumes subdivididos em 35[4]) Mas o evento memorável, de fato, é a publicação de O Livro Vermelho, o inclassificável e original texto que surgiu do confronto-mergulho de Jung com seu próprio inconsciente[5].

Pena que a Vozes apostou mais no instinto de aquisição do que no instinto de leitura. Teria sido mais sábio lançar todo o luxuoso aparato fac-similar (maravilhoso), com  o texto manuscrito, os desenhos, as mandalas, no formato gigantesco que foi adotado, e o texto traduzido num volume à parte, mais manipulável. Da maneira como ficou, torna-se quase impossível ler O Livro Vermelho sem sérios riscos musculares. Eu me sentia como que saído do Monte Sinai, um Moisés carregando as (pesadíssimas) Tábuas da Lei. Tudo bem que é um mergulho iniciático nos mais recônditos arquétipos, mas exagerou-se na dose!

Em 1913, aos 38 anos, apesar do prestígio e da estabilidade financeira (casara-se com uma mulher rica), o grande pensador suíço estava em crise: rompera com Freud, do qual era o principal discípulo, e apesar de já ter publicado muito, ainda não dera corpo às concepções psíquico-místicas (arquétipos, inconsciente coletivo, princípio de individuação, animus e anima, o si-mesmo, a sombra, os tipos psicológicos, a função transcendente, a sincronicidade), que serão o fundamento da Psicologia Analítica junguiana e representarão na prática clínica o mesmo que a Reforma significou para o cristianismo (todo mundo conhece a cisão entre psicanálise freudiana e psicanálise junguiana)[6].

Jung sempre tivera obsessão por fenômenos ocultistas e por manifestações do sobrenatural, e por essa época passou a ter uma série de visões, sonhos acordados, que para ele, posteriormente, se revelariam antevisões da Primeira Guerra. Isso significaria que havia uma conexão entre os símbolos da psique individual e os da coletividade.

Desenvolveu, então, um método chamado imaginação ativa (embora tenha chamado essa fase de sua vida de “doença criativa”), no qual deixava “falar” a sua “alma”, o seu eu interior, aceitando todos os seus conteúdos. Registrou o resultado em cadernos denominados Livros Negros e depois fez uma destilação, incluindo sua interpretação pessoal do que vivera, num caprichado volume, o Liber Novus,  cujo formato lembra muito os manuscritos medievais (na reprodução fac-similar é uma festa para os olhos), que foi muito trabalhado durante os anos seguintes, até que o interesse pela alquimia  o levou para outras direções. Esse livro pessoal se tornou mítico (tido como o manancial de onde brotaram os principais conceitos junguianos), com a alcunha de O Livro Vermelho, e só recentemente os herdeiros permitiram sua publicação.

Muitos consideram Jung um mistificador. Que imagem sai desse exercício de “imaginação ativa”?  Jung produziu uma mistura de Assim falou Zaratustra, Imitação de Cristo (no final, porém, ele condena a imitação porque ela anula a idéia de renovação, e o texto é basicamente anti-cristão), A Divina Comédia e A Interpretação dos Sonhos  e ópera wagneriana, rompendo as fronteiras do místico, do literário, do filosófico e do alegórico-simbólico, e também do bom e do mau gosto[7].

Nesse processo de introversão, deixando de lado os compromissos da personalidade “exterior”, a alma de Jung vivencia um descenso (que também é uma ascensão, já que nesse ponto da psique os contrários se anulam), encontrando personagens enigmáticas, que representam partes cindidas do Eu (o profeta Elias e Salomé, por exemplo, “Logos” e “Eros” num mesmo contexto). O cadáver de um herói (Siegfried) aparece boiando já que ele implica um modelo a ser imitado, um ideal de perfeição e acabamento, e é preciso desatravancar o caminho e abolir as divisões: “Devo dizer que o Deus não podia vir a ser antes que o herói tivesse sido assassinado. O herói, como nós o entendemos, tornou-se o inimigo de Deus, pois o herói é perfeição… não haverá mais nenhum herói e ninguém que o possa imitar. .. O novo Deus ri da imitação e do seguimento de exemplo. Ele força a pessoa através dele mesmo…O heróico em  ti é que és comandado pelo pensamento de que isso ou aquilo seja o bem, que esta ou aquela obra seja indispensável, que esta ou aquela coisa seja rejeitável, que este ou aquele objetivo deve ser alcançado pelo trabalho ambicionado lá adiante, que este ou aquele prazer deva ser reprimido por todos os meios e inexoravelmente.  Com isso pecas contra o não-poder…”

E assim vai nascendo a “função transcendente”, aquela que permite a colaboração dos conteúdos conscientes e inconscientes. E também vai se aclarando o “processo de individuação”, tão caro à psicologia junguiana. Devo dizer, contudo, que os embates da alma de Jung e o imaginário que daí emerge em O Livro Vermelho fornecem munição à visão crítica de Richard Noll, cujo O Culto de Jung é uma abordagem negativa do mestre suíço como liderança carismática e representante da mentalidade völkisch (culto aos antepassados teutônicos, insistência na supremacia germânica, fornecida pelas noções de geografia e raça)[8], que foi um componente psíquico que estimulou o desenvolvimento de uma mentalidade nazista.

Ao contrário da interpretação dos sonhos freudiana, onde eles—por  meio dos deslocamentos e disfarces—revelam de forma latente  o trabalho do inconsciente que seria preciso tornar manifesto e que remontaria a causas pretéritas, escondidas na infância individual, a escavação do onírico feita por Jung se volta mais para a revelação do futuro que se oculta nas dobras do imaginário. Não é á toa que anunciou o trabalho de toda uma vida.

Contudo, para encerrar esse meu breve passeio pelos bosques junguianos, escolho citar—até para provocar o escândalo do eu freudiano—uma reveladora passagem de O homem à descoberta de sua alma:

“Seria lastimável considerar como ilusório esse sistema imenso de experiências da psique inconsciente. O nosso corpo visível e tangível é também um sistema de experiências inteiramente comparável, que encerra ainda os traços dos desenvolvimentos das primeiras idades e forma, incontestavelmente, um conjunto sujeito a um fim: a vida, que, de outro modo, seria impossível.

   A ninguém ocorreria negar o grande valor da anatomia comparada ou da fisiologia. O estudo do inconsciente coletivo e a sua utilização como fonte de conhecimento não pode ser visto como ilusão. Sob um ponto de vista superficial, a alma parece-nos ser essencialmente o reflexo de processos exteriores, que dela seriam não somente as causas ocasionais, como sua origem primária. Do mesmo modo, o inconsciente, de início, não parece explicável senão do exterior, a partir do consciente. Sabemos que Freud, na sua psicologia, fez essa tentativa. Mas ela só poderia ter triunfado se o inconsciente fosse, de fato, um produto da existência individual e do consciente.  Todavia, o inconsciente preexiste sempre, sendo a disposição funcional herdada de idade em idade. A consciência é um rebento tardio da alma inconsciente… A velha psicologia, presciente do inestimável tesouro de experiências obscuras ocultas sob o limiar da consciência individual e efêmera, não considerou a alma do indivíduo senão na dependência de um sistema cósmico espiritual. Para ela, não era apenas uma hipótese, mas uma evidência manifesta que esse sistema representava uma entidade dotada de vontade e de consciência, até mesmo um ser, um ser a que chamou Deus e que se tornou a quintessência de toda a realidade. Deus era o ser mais real, a prima causa, graças à qual somente a alma podia ser explicada. Essa hipótese tem a sua razão de ser psicológica: qualificar de divino, em relação ao homem, um ser imortal, dotado de uma experiência eterna, não é totalmente injustificado. Assim se esboça a problemática de uma psicologia fundada não sobre a ordem física, como princípio explicativo, mas sobre um sistema espiritual, cujo primus movens não é nem ma matéria e as suas qualidades, nem um estado energético, mas Deus…

  …O estudo desse dilema e o desejo de o resolver conduziram-me à seguinte conclusão: o conflito entre a natureza e o espírito nada mais é do que a tradução da essência paradoxal da alma, a qual possui um aspecto físico e um aspecto espiritual que não parecem contradizer-se porque, em última análise, não lhe apreendemos a essência. Sempre que o entendimento humano quer apreender qualquer coisa que no fim das contas não compreende e não pode compreender, para captar alguns aspectos, submete-a a uma contradição e cinde-a em suas aparências opostas.

   O conflito entre o aspecto físico e o aspecto espiritual apenas prova que o psíquico é, na essência, qualquer coisa de inapreensível, e essa é a única experiência imediata. Tudo aquilo de faço experiência é psíquico, até a dor física, de que apenas experimento o reflexo psíquico. Todas as percepções dos meus sentidos, que me impõem um mundo de objetos espaciais e impenetráveis, são imagens psíquicas que representam a minha única experiência imediata, sendo essas imagens os únicos dados imediatos da minha consciência. A minha psique transforma e falsifica a realidade em proporções tais que é preciso recorrer a expedientes para verificar o que as coisas são fora de mim… Achamo-nos de tal modo envolvidos nas nossas imagens psíquicas que não podemos penetrar a natureza das coisas exteriores. Tudo aquilo de que adquirimos conhecimento é feito de materiais psíquicos. A psique é a entidade real no supremo grau…”



[1] O homem e seus símbolos apresenta uma série de ensaios e apenas o introdutório é de autoria de Jung, que o escreveu pouco antes de morrer; é hoje indiscutível que Jung está por trás do projeto mi(s)tificatório de Memórias, Sonhos, Reflexões, porém o texto final, afora a colher que editores e herdeiros meteram, é de responsabilidade da discípula Aniela Jaffé.

Ainda assim, os dois livros provavelmente vendem mais do que a obra junguiana propriamente dita.

Estabelecido esse ponto,  não dá para descartar nenhum dos dois. O ensaio de Jung em O homem e seus símbolos é uma ótima introdução às suas idéias, e quem negará o fascínio de Memórias, Sonhos, Reflexões, apesar dos seus aspectos irritantes e da sua dubiedade autoral?

[2]  Não na tradução publicada nas Obras Completas: eu trabalhei durante um ano, de 1984 a 1985, numa contabilidade, e ali, por sorte, havia uma biblioteca excelente, onde encontrei a tradução de Álvaro Cabral, editada pela Zahar. Li há pouco tempo a tradução das Obras Completas e a de Cabral ganha longe em expressividade e ao mesmo tempo clareza, apesar dos inúmeros erros de impressão. Mas isso é assunto para outro post.

[3] O leitor encontrará essa citação na pág. 207 da edição da Zahar, de 1974, e está no extraordinário capítulo em que ele analisa o Prometeu e Epimeteu  do nobelizado Carl Spitteler, comparando-o com os fragmentos do Prometeu goethiano. Antes, ele estudara as Cartas de Schiller onde este propugnava uma educação estética do homem, e também A Origem da Tragédia e os tipos apolíneo e dionisíaco de Nietzsche, sem contar as inúmeras referências às doutrinas e textos sagrados hindus e chineses.

[4] Na verdade, o correto seria Obras Reunidas, pois apesar de sua pretensão elas estão longe de ser “completas”.

[5] A edição original é de 2009. Os textos do volume foram traduzidos por Edgar Orth, Gentil A. Titton e Gustavo Barcellos. A revisão da tradução é de Walter Boechat.

O editor de O livro vermelho, Sonu Shamdasani, escreveu uma ótima, objetiva e nada partidária introdução.

O preço é salgado: o valor pode chegar a mais de quinhentos reais, é preciso pesquisar em vários lugares, pois há muitas ofertas.

[6] Meu texto simplifica muito as coisas, evidentemente: esses conceitos tenham sido elaborados em épocas diversas e sofrido ajustes. Além  desse fato cronológico básico, vertentes diversas privilegiaram certos aspectos e deixaram à parte outros. E para ser franco eu nem sei como seria a prática clínica de um analista ou psiquiatra junguiano, uma vez que jamais escolheria essa linha para ser analisado ou diagnosticado. Se fizesse análise, teria o maior cuidado de escolher um analista da linha freudiana. O que não invalida Jung como pensador da cultura.

Para entender as vertentes pós-junguianas, uma boa opção, apesar de já meio antiga (é de 1985, e a edição brasileira é de 1989) é Jung e os pós-junguianos, de Andrew Samuels. Foi nele que descobri que James Hillman era representante da “escola arquetípica”.

[7] Há até elementos metalingüísticos auto-críticos e bem-humorados. Jung, numa dessas visões, chega a um castelo onde há um velho com seus livros, que não lhe dá pelota. Passando a noite ali, ele sofre de insônia. Veja-se o divertido relato:

“Parece que não havia mais ninguém casa, a não ser o servo, que morava acolá na torre. Um modo de vida ideal, mas solitário o desse velho com seus livros, pensei eu.  E nisso se demoraram por longo tempo meus pensamentos, até que percebi que um outro pensamento não me abandonava, isto é, que o velho mantinha escondida aqui sua bela filha—idéia romântica absurda—um tema sem graça e já explorado—mas o romântico está em todas as juntas de cada pessoa. Uma idéia genuinamente romântica: um castelo  na floresta—solitário, crepuscular—um velho mumificado em seus livros, que guarda um tesouro valioso e o esconde ciosamente de todo o mundo—que idéias ridículas me chegam! É inferno ou purgatório que preciso conceber em minha viagem errada à semelhança dos sonhos infantis? Mas sinto-me incapaz  de elevar meus pensamentos a algo mais forte ou mais bonito. Devo consentir nesses pensamentos. O que adiantaria repeli-los? Eles voltam… Como será que ela se parece, essa heroína aborrecida? Certamente loura, pálida—olhos azuis—ansiosamente esperando de cada caminhante extraviado o salvador de sua prisão paterna. Ah, eu  conheço este absurdo trivial—prefiro dormir—por que, diabos, deixo atormentar-me com essas fantasias ocas?

    O sono não quer nada. Viro-de de um lado para outro, o sono não vem, devo eu ter em mim mesmo afinal esta alma não resgatada? Será que é ela que não me deixa dormir? Terei eu uma alma tão romântica? Só faltava isto—seria dolorosamente ridículoÉ simplesmente macabro para onde a insônia pode levar uma pessoa, inclusive para as teorias mais disparatadas e mais supersticiosas. Parece fazer frio, eu estou com frio, talvez não durma por causa disso, aqui é realmente sinistro. Deus sabe o que acontece aqui, não escutei passos há pouco? … A porta está se abrindo? Meu Deus, alguém está aí? Estou vendo bem? Uma moça esguia, pálida como a morte, está à porta? Céus, o que é isto? Ela se aproxima!

   Chegaste finalmente, perguntou baixinho. Impossível, é um engano pavoroso, o  romance quer tornar-se real, quer transformar-se em história estúpida de fantasmas? A que disparate estou condenado?  È minha alma que alberga tais glórias românticas? Isto também deve acontecer comigo? Estou realmente no inferno—o pior despertar do leitor de romances de biblioteca pública! Desprezei as pessoas de minha época e seu gosto, tanto assim que devo viver e escrever no inferno os romances sobre os quais cuspi há muito tempo? Será que a metade inferior do gosto médio da humanidade também tem direito à santidade e inviolabilidade, de modo que não possamos dizer nenhuma palavra desairosa sobre isso sem termos de pagar o pecado no inferno?

   Ela fala: Ah, tu também pensas o trivial de mim? Também tu te deixas seduzir pela malfadada ilusão de que eu pertenço a um romance? Também tu, de quem esperava que tivesse abandonado as aparências e se esforçasse para atingir a essência das coisas?

   Eu: Perdão, mas existes realmente? É uma semelhança por demais infeliz com aquelas cenas de romances, desgastadas até a parvoíce, que eu pudesse aceitar que não fosses apenas um produto de meu cérebro insone. Minha dúvida não está realmente justificada, quando uma situação coincide de tal forma com o tipo de romance sentimental?

  Ela: Infeliz, como podes duvidar da minha realidade? (…)

  Eu: Mas, dize-me, por amor de Deus, tu és real? Devo levar-te a sério como realidade?

    Ela chorava e nada respondia.

    Eu: Quem és então?

    Ela: Eu sou a filha do velho. Ele me mantém aqui numa prisão insuportável, não por ciúme ou ódio, pois sou sua única filha e o retrato vivo de minha mãe, falecida muito jovem.

  Recorri à minha razão: isto não é uma estupidez infernal? Palavra por palavra, o romance de uma biblioteca pública! Ó Deuses, para onde me levastes? É para rir, para chorar, é duro ser um belo sofredor, um destroçado tragicamente, mas tornar-se um macaco, vós belos e grandes? O banal e eternamente ridículo, o indizivelmente gasto e usado nunca vos foi depositado nas mãos

   Ela continuava sentada ali chorando—e se fosse real?… Se for uma moça decente, o que não lhe deve ter custado  entrar no quarto de dormir de um homem desconhecido!”

(os grifos na cena são todos meus).    

[8] Mais uma vez, sou obrigado a simplificar em demasia, no caso, o rico, complexo e ambíguo panorama traçado por Noll em seu livro. Mas acompanhemos alguns trechos: “Muitos grupos völkisch transformaram as noções de pureza racial em ideais quase de ciência e religião… O historiador Ekkehard Hieronimus fez um levantamento do fascínio pela religião germânica… No século XIX, grupos neopagãos dedicados a reviver os mistérios germânicos  assumiram a pesquisa sobre o passado alemão. E, de fato, o retorno à Idade de Ouro e à vida ´natural´ dos teutos foi freqüentemente invocado por grupos alemães em busca de renovação ou renascimento… À secularização de conceitos burgueses/protestantes como a família, a comunidade e a idéia de morte sacrificial, correspondia nesses grupos um patriotismo cada vez maior, que traçava paralelos entre o martírio de Cristo e o martírio de heróis nacionais como Siegfried… A morte sacrificial e a identificação do deus cristão com o deus teutônico eram temas que em 1912 reapareceriam com destaque numa obra extraordinária, Metamorfoses e símbolos da libido, de Jung”  [esse é provavelmente o primeiro livro importante do ex-discípulo de Freud, e atualmente é editado com o titulo da sua ampla revisão posterior, Símbolos da Transformação, volume 5 das Obras Completas). Noll fala de um importante editor de obras de tendência völkisch, Eugen Diederichs: várias de suas edições foram encontradas na biblioteca de Jung, o qual “citava essas obras, sobretudo em Metamorfoses e símbolos da libido, um livro que repudiava a ortodoxia cristã e promovia o misticismo völkisch do culto ao sol. Na década de 1890, muitos indivíduos völkisch acreditavam que o sol era  o único Deus dos verdadeiros alemães… A suástica, um antigo símbolo indiano para a contínua regeneração da vida foi colocada  num círculo que representava o sol… A suástica nesse disco branco  simbolizava as energias ressurgentes da vida… Graças à influência de figuras destacas como Diederichs e os autores que publicava, o interesse no simbolismo das mandalas dos antigos arianos começou a se espalhar pela Europa germânica. Jung, por exemplo, traçou sua primeira mandala em 1916 e mais tarde comentou sua importância como símbolo do ´self´ou do ´deus-imagem interior´   (todo esse imaginário pode ser encontrado nas páginas de O livro vermelho e a edição reproduz as mandalas criadas por Jung).

O livro de Noll (que é de 1994) foi traduzido no Brasil (por Mário Vilela) e lançado pela Ática em 1996.

08/03/2013

Réquiem para um sonho: “A Obscena Senhora D”, de Hilda Hilst

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/02/06/o-alto-os-pes-o-cu-e-o-espelho-com-os-meus-olhos-de-cao-25-anos

“risquei um rosto no reboco

o homem ficou bem brabo

gritou e cuspiu

era depois do almoço

 

meses depois, a parede ria

boca cheia de tijolos com farofa.”

(Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, poética)

“Também não compreendo o corpo, essa armadilha, nem a sangrenta lógica dos dias, nem os rostos que me olham nesta vila onde moro…”

“Convém lavarmo-nos, pelos e sombras, solidão e desgraça, também lavei Ehud no fim algumas vezes, sovacos, coxas, o escuro buraco, sexo, bolotas. Ai Senhor, tu tens igual a nós o fétido buraco? Escondido atrás, mas quantas vezes pensado, escondido atrás, todo espremido, humilde, mas demolidor de vaidades, impossível ao homem se pensar espirro do divino tendo esse luxo atrás…”

“Tudo entra dentro de mim, tudo sai. Não tem nada que só entra? Não. E Deus? Deus entra e sai, Ehud?” (Hilda Hilst, A Obscena Senhora D)

edição original

I

“Lego-te os dentes.

Em ouro, esmalte e marfim.

 

Entre sarrafos e palha.

O baço dos meus ossos.

 

Procura na tua balança

Minha couraça. Meu bandolim.

Escrita e torso.

 

Pesa-me a mim. Minhas funduras

E o gume do meu desgosto.

 

Procura, na minha hora,

Entre sarrafos e palha

 

O que restou de mim

À tua procura.”  (Hilda Hilst, Da Morte. Odes Mínimas)

Costumava, quando mais jovem, datar meus livros conforme os adquiria. Não faço isso há muitos anos, mesmo porque me dei conta de que esse hábito tinha as características fundamentais do pensamento mágico: cada exemplar era único, e aquela edição específica que estava comprando ficava sendo “a” edição do livro.  Passados trinta anos, essa aura dada a um fator meramente contingencial (com as exceções de praxe)  é, para mim, um sintoma do compasso neurótico que orienta muitas  vezes o chamado “gosto” (literário, cinematográfico, musical etc). Ao historiar minhas leituras e minhas aquisições de livros, consigo perceber a “neurose da literatura” (na definição de Sartre) perfeitamente.

Portanto, nada mais de “aura” para determinadas edições? Quem dera. Ainda persiste um ressaibo dessa disposição, só que nem de longe qualquer lançamento agora (no sentido editorial, bem entendido) me causa a comoção experimentada ao comprar em São Paulo, em 8 de março de 1983 (lá se vão três décadas!), dois exemplares (um deles, para presentear outra apaixonada por literatura: Irene Gilberto Simões) da primeira edição de A Obscena Senhora D, de Hilda Hilst (1930-2004), que saíra em fins de 1982[1].

Desde que lera a enorme matéria (página inteira) no Jornal da Tarde, assinada por Léo Gilson Ribeiro (não lembro mais se em novembro ou dezembro[2]), e visto que a autora era uma das minhas leituras mais frequentes na época (os livros Ficções e Tu não te moves de ti [3]), e como o livro nunca chegava a nenhuma livraria santista (eu não entendia nada de nada de distribuição nem imaginava que a Massao Ohno/Roswitha Kempf só imprimira mil exemplares),  estava num siricutico danado para tê-lo em mãos.

Por esse motivo, minha homenagem aos 30 anos de publicação de uma das obras-primas da nossa literatura vem atrelada não à data de seu lançamento original propriamente dito mas à da compra do exemplar. É um aceno que eu dou também à mocidade, “tarefa para mais tarde se desmentir”, como dizia Riobaldo.

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II

Ter sido. E não poder esquecer. Ter sido. E não mais lembrar. Ser. E perder-se…”

Hilda dedica A Obscena Senhora D à memória de Ernest Becker, “por quem sinto incontida veemente apaixonada admiração”.

Em A  Negação da Morte,  Becker mostra que o caráter individual é uma construção mentirosa destinada a fazer esquecer um terror (o terror da nossa mortalidade, que poderia nos enlouquecer). É uma perspectiva kierkegardiana, na qual se opõem possibilidade (ou seja, a aceitação de um universo basicamente apavorante e esmagador) e necessidade (a edificação de um mundo à nossa volta como um tapume, mentiroso e trivial). A vida “normal” seria o filistinismo, a acomodação. Becker: “Kierkegaard teve um vislumbre da liberdade para o homem. Não tinha uma idéia fácil do que a ‘saúde’ é. Mas sabia o que ela não era: não era um ajustamento normal. Ser um indivíduo normal é, para Kierkegaard, ser doente. A saúde mental é algo muito além do homem, algo a ser atingido e pelo qual se deve lutar, algo que leva o homem para além de si mesmo.”

O homem é o animal paradoxal, consciente de si mesmo, ridiculamente emparedado na condição de criatura mesmo possuindo uma vida simbólica: “Este é o horror: ter surgido do nada, ter um nome, consciência de si mesmo, profundos sentimentos íntimos e apesar de tudo isso, morrer. Parece uma mistificação. Que tipo de divindade iria criar um alimento para vermes tão complexo e caprichoso?”

   Após as rápidas pinceladas acima, que mal arranham as questões do realmente admirável A Negação da Morte  (ver, no blog, https://armonte.wordpress.com/2011/01/23/a-escola-da-possibilidade/), vejamos como Hilda enfrentou todos esses problemas, equilibrando-os com sua reiterada predileção pelos estratos escatológicos da linguagem.

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   O texto começa assim:

“Vi-me afastada do centro de alguma coisa que não sei dar nome, nem porisso [sic] irei à sacristia, teófaga incestuosa, isso não, eu Hillé também chamada por Ehud A Senhora D, eu Nada, eu Nome de Ninguém, eu à procura da luz numa cegueira silenciosa, sessenta anos à procura do sentido das coisas, Derrelição Ehud me dizia, Derrelição—pela última vê Hillé, Derrelição quer dizer desamparo, abandono, e porque me perguntas a cada dia e não reténs, daqui por diante te chama A Senhora D. D de Derrelição, ouviu? Desamparo, Abandono, desde sempre a alma em vaziez, busca nomes, tateava cantos, vincos, acariciava dobras, quem sabe se nos frisos, nos fios, nas torçuras, no fundo das calças, nos nós, nos visíveis cotidianos, no ínfimo absurdo, nos mínimos, um dia a luz, o entender de nós todos o destino, um dia vou compreender, Ehud…”

   Como se pode perceber de imediato, trata-se de um dos inícios mais avassaladoramente concentrados e intensos já escritos. O incrível é como ela consegue manter essa tensão de linguagem até o fim; irregularmente, sim, mas sempre em alta tensão, em riste (em Hilst).

Os nomes dos dois personagens centrais, Hillé e Ehud, como amiúde acontecia no universo hilsteano, evocam Beckett.

Ehud, desde a mocidade, tentou manter Hillé fincada na terra, sempre tentando evitar que ela se deixasse levar por suas inquietações metafísicas (incorrendo assim na loucura do pai). Inutilmente. Chega um momento em que ela decide viver no vão da escada, uma espécie de canto-aleph no universo. Com Ehud de guarda, por assim dizer, ela ainda permanece protegida na sua fragilidade de ser em carne viva. No entanto, ele morre, e o vão da escada é apenas o ingrediente folclórico de uma situação-limite.

    Ela assusta a vizinhança usando máscaras horríveis, grita obscenidades, impreca, desvaria, recebe mal as tentativas de aproximação (caridosas, condescendentes, tudo em nome da decência, da moral, da civilidade, da religião, dos bons costumes: “Casa da Porca, assim chamam agora a minha casa”). Como espaço-aleph que é, o vão da escada congrega prismaticamente tempos diversos, várias Hillés e seus colóquios com o Divino, que muitas vezes é representado como um Porco-Menino (Jesus?), que se espoja em meio à humanidade. E a humanidade em volta de Hillé (que muitas vezes evoca um ambiente quase de favela, ou de vila bem pobre) também solta o verbo, numa série de flashes de falas populares, chulas, truculentas ou meramente cotidianas,onde pessoas “simples” não conseguem entender o “luxo” de uma atitude entre mística e agônica, misturada à viuvez e ao envelhecimento, ou seja, à consciência aguda da mortalidade.

E, neste passo, aproveito para justificar o título deste meu texto. A Obscena Senhora D é o réquiem para o sonho de Hillé. Sim, não deixa de ser uma referência brincalhona ao belo e doloroso filme de Darren Aronofsky, mas também é uma alusão a toda a gama de significados da palavra sonho. Pois o sonho pode ser uma aspiração, e toda a vida de Hillé é esse anelo pelo divino, pelo transcendente, pelo que ultrapassa esses “nadas do dia a dia que vão consumindo a melhor parte de nós”; o sonho pode ser uma ilusão, individual e coletiva, e nessa toada todos os envolvidos no relato (Hillé e os Outros; e também este aqui escreve, em sua renitente “neurose da literatura”), são sonhadores, afinal “a vida é sonho”; e o sonho é uma reelaboração onírica dos “vestígios do dia”, do material da realidade, e o vão da escada de Hillé é o umbral dessa operação alquímica:

“Antes havia ilusões não havia? Morávamos nas ilusões. Ehud, e se eu costurasse máscaras de seda, ajustadas, elegantes, por exemplo, se eu estivesse serena sairia com a máscara da serenidade, leve, pequenas pinceladas, um meio sorriso, todos os que estivessem serenos usariam a mesma máscara, máscaras de ódio, de não disponibilidade, máscaras de luto, máscaras do não pacto, não seria preciso perguntar vai bem como vai etc, tudo estaria na cara…”

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III

“nomeias as ilusões, afasta-te da vertigem”

No conjunto da obra de Hilda Hilst, A Obscena Senhora D ocupa um papel estratégico. Não dá para falar de limpidez, palavra estranha ao seu universo em tumulto,     em esgar (“os ganidos da infância… o que é pensar, o que é nítido, sonoro, o que é som trinado, urro, grito, o que é asa hen? Lixo as unhas no escuro, escuto, estou encostada à parede no vão da escada, escuto-me a mim mesma, há uns vivos lá dentro além da palavra, expressam-se mas não compreendo, pulsam, respiram…”).

Ainda assim, podemos notar uma marcante diferença com relação à sua “ficção” anterior, o radicalismo—hermético para alguns—dos textos de Fluxofloema (1970) e ainda mais de Qadós (1973).  Penso que nesses dois livros está o lado mais genial e assombroso de Hilda, e o texto-título de Qadós é, a meu ver, sua grande realização na prosa; contudo, sutilmente, a partir de Pequenos discursos. E um grande, que era a parte inédita de Ficções (1977), e depois nas três narrativas de Tu não te noves de ti (1980),  aconteceu um lento fenômeno similar (embora elas sejam tão diferentes!) ao registrado na obra de Clarice Lispector: esta também tem sua fase mais “difícil” e esfíngica (A maçã no escuro é seu Qadós) e depois uma maior legibilidade (exemplo enganoso: A hora da estrela).

Concessão? Não acredito. O fato é que a autora ficou mais conhecida (era uma figura carismática), mais cultuada, e seus textos começaram a acusar um certo traquejo de performance, enfatizando o que as situações tinham de potencialmente dramático (por isso, acho que Senhora D foi tão bem no palco). Tanto Hillé quanto Amós Keres, de Com os meus olhos de cão, outro texto maravilhoso desta fase (que também inclui os lindos poemas de Odes mínimas & Cantares de perda e predileção) fazem com que o leitor descortine algo de pedagógico em suas experiências-limite. Ou seja, no fundo Hilda quer ilustrar as lições de Becker. Becker com Beckett, num belo jogo literário, pois nada ficou explicativo, fechado, “coeso”. Tudo ainda permanece em riste, só que a comunicação com o leitor parece mais fluida e harmônica. Mais tarde, ela exercitará a “grossura”, a falta de sutileza, ficará mais “clara” e mais rupestre, por assim dizer. Aí a consciência de estar no palco e fazendo um jogo de máscaras, teatral, atinge seu auge. A Senhora D vira Lory Lamby, os contos do grotesco e do arabesco viram de escárnio mesmo. O nevoeiro do “folclórico”.

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IV

“…iremos juntos num todo lacunoso se o teu silêncio se fizer o meu, porisso falo falo, para te exorcizar, porisso trabalho com as palavras, também para me exorcizar a mim, quebram-se os duros dos abismos, um nascível irrompe nessa molhadura de fnemas, sílabas, um nascível de luz, ausente de angústia…”

Mas em 1982, Hilda é uma escritora considerada “obscura”, com seus “happy few”, publicada por editoras pequenas, e Becker e Beckett equacionados no vão da escada. Lá está a viúva Senhora D, o terror da vizinhança: “… abro a janela nuns urros compassados, espalho roucos palavrões, giro as órbitas atrás da máscara, não lhes falei que recorto uns ovais feito de estopa, ajusto-os na cara e desenho sobrancelhas negras, olhos, bocas brancas abertas? Há máscaras de focinhez e espinhos amarelos (canudos de papelão, pintados pregos), há uma máscara de ferrugem e esterco, a boca cheia de dentes, há uma desastrada lembrança de mim mesma, alguém-mulher querendo compreender a penumbra, a crueldade—quadrados negros pontilhados de negro—alguém-mulher caminhando levíssima entre as gentes, olhando fixamente as caras, detendo-se no aquoso das córneas, no maldito brilho…”

Siderada pela mortalidade, pelo nada, Hillé coloca no aquário peixes de papel pardo para substituir os que morreram junto com Ehud, o que dá azo a uma das passagens mais pungentes: “não quero mais ver coisa muito viva, peixes lustrosos não, nem gerânios maçãs romãs, nem sumos, suculências, nem laranjas…”

   Uma vizinha “simpática” traz pãezinhos para a reclusa, exortando-a a não viver trancada e a não assustar as pessoas, especialmente as crianças: “ai, ai, senhora D não faz assim agora, isso é coisa de mulher desavergonhada, ai que é isso madona, ta mostrando as vergonhas pra mim… credo nossa senhora, é caso de polícia essa mulher…”[4]

    Depois é a vez de um padre, a quem ela confunde com perguntas sobre o Mal e a alma até que ele é obrigado a se defender:

“sou um homem como outro qualquer, Senhora D

então rua rua, fora, despacha-te homem como outro qualquer”

Depois, uma vizinha traz um benzedor: “…o homem ta dizendo umas coisas, presta atenção senhora D, quem? ah sim, o homem tá dizendo que Asmodeu, Asmodeu a senhora conhece né? ele diz que sim que a senhora conhece… quem mais, moço? tem mais um aí senhora D, péra um pouco que o nome desse é mais difícil, ah sim, Astaroth, é isso, credo Astaroth, é isso, esses dois tão aí, é o homem que diz, ele também ta dizendo que esses é que fazem a senhora assim, viu senhora D? senhora D?…”

   Perto do final, já não há mais tentativas de “comunicação”.  A não ser um gesto de Hillé, totalmente incompreendido:

“sabe que o mocinho verdureiro passou hoje pela janela dela e a porca quis tocar a cabeça do boneco? porque ele é bem bonitinho o boneco verdureiro

quem que cê disse?

o Zico, tô te dizendo, a bruxa quis afagar a cabecinha dele, hoje ela tava sem máscara, com a cara dela mesma, toda amarfanhada, e aquela blusa cor de bosta toda trançada, o mocinho olhou com o zóio assim ó, parou, e cuspiu na mão dela

credo, que gente ruim também

tu defende a porca?

é caridade, né gente, a mulher ta sozinha, escurecendo

ela ficou olhando o cuspe, fechô a mão, fechô a janela bem devagar

pro cuspe não cair…”

Até que chega o momento da agonia de Hillé, com a vizinhança em expectativa:

“… ela resiste até quando?

até amanhã, disseram

estranho, os cães ficam todos ao redor, eles sabem…”

E em meio ao zé-povinho, o Porco-Menino.

Esse é, em suma, o estrato do texto que nos mostra por que a Senhora D é “obscena”. Porque é obsceno ver a condição humana posta a nu. De permeio aos episódios burlescos citados, acompanhamos o enovelamento da longa relação de Hillé com Ehud, uma relação, aliás, que sempre me emociona, em todas as leituras que fiz ao longo destes 30 anos, principalmente porque Ehud, mesmo espicaçando, provocando Hillé (“Senhora D, é definitivo isso de morar no vão da escada? você está me ouvindo Hillé? olhe, não quero te aborrecer, mas a resposta não está aí, ouviu? nem no vão da escada, nem no primeiro degrau aqui de cima, será que você não entende que não há resposta?”)  e seus “luxos de pensamento”, também é um ser faminto de significado, como se pode inferir do trecho a seguir: falando sozinha senhora D? sabe, Hillé, você deve ver as pessoas, você deve foder comigo, deve se arrumar comigo, outro dia vi uma saia longa dessas que você usa mas tão linda, uns frisos escarlates, o tecido amanteigado púrpura, entrei na loja e pensei comprá-la, a mocinha disse ficará lindo na sua senhora, ela é alta? magra? eu disse bem, nem muito alta nem muito magra, é loira, tem sardas, não podia falar dos teus peitos duros, mas falei tem um lindo busto, ah isso falei, aliás observação inútil em relação à saia, mas falei, então se é loira, senhor, vai ficar adorável nesses tons, ia comprar mas aí vi pequenos esgarçados, tocando tecido dava a impressão de que estava tostado do sol das vitrines, parecia velho de perto, coisa usada, então não quis, mas deve haver outras, hen, não gostarias?” Morrendo, ele a aconselha, de forma comovente, a arranjar um amante, um jovem, para suportar a existência.

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                                              V

    Hillé diz para nós: “Revisito, repasseio, passeio novamente em nova visita paisagens e corpos” porque em nossas mãos também temos uma espécie de “livro das metamorfoses”, onde há uma relação empática muito forte com os animais (recorrência nos textos de Hilda).

Um episódio que ela rememora e que me parece crucial (porque tem a ver com o seu próprio fim, e a “mistura das coisas” no mundo, essa escatologia que é interface da transcendência) é a da mulher agonizando, enquanto o marido fornica com uma criada. A mulher ouve ruídos e Hillé faz as vezes do marido:

“Agonizava essa e eu encostava o ouvido à sua boca, ouvia: querido, perdoa incompreensão, recusa, indiferença de muitos dias, perdoa solidões, os contatos com o nada, a palha colada à alma, perdoa se não te dei claridade, emoção, se quanto tu me querias os olhos se banhavam de umas águas do passado

Eu Hillé respondia esquece esquece, está tudo bem agora. Mentia.

é preciso que eu fale, é a hora da morte, não é? avançam os guardados da alma, alguns toscos pesados, brilhos, me escuta por favor, tudo se esvai, escuta

Eu Hillé respondia sim estou perto escuto

sabe, às vezes queremos tanto cristalizar na palavra o instante, traduzir em lúcidos parâmetros centelha e nojo, não queremos?

sim

então, eu queria também, queria sim tocar teu medo teu amor tua vaidade de homem, existir no teu sonho, me ouves?

sim

espera, que gritos são esses agora?

hen?

Como se alguém estivesse morrendo antes de mim, se muere alguién?

não, eu não escuto nada. Mentia.

ouve, sim, sim, alguém agoniza antes de mim…”

Esse tema do indivíduo moribundo, em agonia, se mistura ao tema do pai (uma sombra pesada na vida de Hilda Hilst, a forte figura paterna e sua insanidade), cuja Presença (e por isso utilizo a maiúscula melodramática) como que se confunde com aquele deus, pai do Porco-Menino, tão esquivo, “La Oscura Cara” (e que às vezes se funde com a figura de Ehud); ademais, essa evocação do pai (e de Hillé e Ehud mais jovens) projeta a narrativa “urbana” para uma moldura mais rural, mais arcaica e recôndita (um fenômeno que também acontecerá em Com os meus olhos de cão):

“e então, pai?

então fui cortado em delicadíssimos pedaços

como cortamos a salada de acelga

sim, Hillé, é isso, um montículo de palha e terra, minúcias, salada de acelga, é bem isso, e o que foi a vida? uma aventura obscena, de tão lúcida.

Me deitei ao teu lado na tua agonia, escutei verdades e vazios…”

(…)

teu pé é bonito, Hillé, caminhou pouco mas sabe quase tudo

Os pés do pai, magros, brancos, algumas veias explodindo em azul. Alguns loucos ficam de pé, parados, horas e horas.

não ta cansado não?

A resposta não vem, o olhar um cinza esticado, longo, de repente um metal de ponta, seco, furante, um raivoso de garra, um nojo, duas aves se batendo, sangue no peito, nas unhas

é que os teus pés estão roxos, pai

puta, Hillé, igualzinha à mãe, esses tons afáveis escondem a bola negra da mentira, ah como parece delicada a avezinha, que pios, que penugem, que redondinho claro  esse olho dourado, mas lá dentro o fundo garreia o teu coração, exige o teu coração

por que ele diz isso, Ehud?

quem é que sabe o que vê

em mim?

nele, Hillé, nele

em mim, Ehud, na minha cara um estupor, um nunca compreender, um enrugado mole, olha como é a minha cara sem o teatro para o outro…”

   Bem, caro leitor, acho que já lancei alguma luz sobre o sombrio vão de escada onde Hillé vive sua Derrelição. Agora é a sua vez de explorá-lo. Certamente encontrará uma parte de mim vivendo ali há 30 anos.

(escrito especialmente para o blog)

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ANEXO

Em 1983, Hilda Hilst publicou Cantares de perda e predileção (Massao Ohno- M. Lydia Pires e Albuquerque Editores), uma de suas melhores obras.

Transcrevo  o primeiro poema:

“Vida da minha alma

Recaminhei casas e paisagens

Buscando a mim, minha tua cara.

Recaminhei os escombros da tarde

Folhas enegrecidas, gomos, cascas

Papéis de terra e tinta sob as árvores

Nichos onde nos confessamos, praças.

 

Revi os cães. Não os mesmos. Outros

De igual destino, loucos, tristes.

Nós dois, meu amor-ódio, atravessando

Cinzas e paredões, o percurso da vida.

 

Busquei a luz e o amor. Humana, atenta

Como quem busca a boca nos confins da sede.

Recaminhei as nossas construções, tijolos

Pás, a areia dos dias.

 

E tudo o que encontrei te digo agora:

Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.

O arquiteto dessas armadilhas.”

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E este outro:

“Faremos deste modo

Para que as mãos não cometam

Os atos derradeiros:

 

Envolveremos as facas e os espelhos

Nas lãs dobradas, grossas.

E de alongadas nódoas, o ressentimento.

 

Pintadas as caras num matiz de gesso

Recobriremos corpo, carne

Na tentativa cálida, multiforme

Na rubra pastosidade

 

De um toque sem sofrimento.

 

E afinal

Cara a cara (espelho e faca)

De nossa duplas fomes

Não diremos.”

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[1] A história editorial de A Obscena Senhora D é a seguinte: em 1982, saiu na aurática edição da Massao Ohno/Roswitha Kempf, com a capa vermelho-dourada de  Mora Fuentes (autor do texto na 4ª. capa) e com uma orelha de Caio Fernando Abreu. Uma das curiosidades dessa edição é que não há paginação.

Em 1986, ao lançar Com os meus olhos de cão pela Brasiliense (sua primeira editora mais “comercial”, por assim dizer),  para fazer um volume alentado, Hilda o juntou a outras “novelas” (que era o termo que resolveu utilizar então, após “ficções’, que eu acho mais acertado), entre elas Senhora D (e mais as três que compõem Tu não te moves de ti; Qadós; Floema).

Em 1993, ao publicar Rútilo nada pela editora Pontes, ela o juntou à Senhora D e Qadós (cheguei a comentar este lançamento em A TRIBUNA de Santos).

Em 2001, a Globo, ao assumir a publicação da obra de Hilda, publicou Senhora D tal como originalmente, em volume único.

[2] De todo modo, um dos textos mais bonitos escritos por Ribeiro (que faleceu em 2007). Quando será que organizarão uma antologia de suas matérias, pelo menos as da fase JT, as quais considero de grande valor?

[3]  Tu não te moves de ti  (Livraria Cultura Editora, 1980) foi o primeiro livro que comprei de Hilda Hilst, em 05 de junho de 1982. Depois que comecei a ler, corri para a mesma livraria e comprei Ficções (Quíron, 1977; até hoje minha edição  favorita dela) no dia seguinte, 06 de junho. Em1983, eu já teria uma primeira (mas não suficiente) lição sobre a falta de aura das edições, uma vez que descobri em São Paulo um lugar onde livros eram vendidos a quilo, e onde comprei vários exemplares de Ficções, do volume reunindo a Poesia de Hilda, e outras edições da Quíron, além de A Negação da Morte, de Ernest Becker, livro inspirador de A Obscena Senhora D, exemplares esses que foram desaparecendo ao longo dos anos: dados, emprestados e não devolvidos, e até surrupiados. Ainda bem que fiquei com um de cada (só não sobrou nenhum da edição da Nova Fronteira do livro de Becker).

[4] Essa visita se amplifica numa visão da vizinhança de Hillé e do falatório, que geralmente enfatiza o lado bufo da condição humana (ainda que, no discurso, todos exaltem “valores humanos”):

“… e as caretonas que exibe na janela, alguém tem o direito de assustar osotro assim?

he he Luzia, teu traseiro também assusta muita gente

teu cu também, tua faccia

tua boca repelente sem dente também

credo a vizinhança endoidou

olha a freira passando

olha o doutor com a madama dele

olha o cuzaço da madama do doutor…”

   Em outro trecho:

“É uma sapa velha. Viu a pele pintada? É sarda. Ainda tem umas boas tetas. Credo, teta de sapa. Podemos botar fogo na casa durante a lua nova. Com as casas quase coladas? Dá-se um jeito, fogaréu que vai dar gosto. O Nonô metido a demo, a polícia, tu sabe que vive enfiando prego no cu do gato, pois é, pois o Nonô se mijô quando viu a caretona dela na janela. Casa da porca…”

   Mais adiante, há um trecho em que a vizinhança comenta “pirações” alheias, e cuja conclusão vale como um dito popular definitivo: “passarinho que come pedra sabe o cú [sic] que tem”.

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