MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/02/2010

UM PRESENTE INAPROPRIADO: HOWARDS END

Uma propriedade pode ser “presenteada” devido a uma intuição de afinidade espiritual? A história de um presente inapropriado, de um legado inusitado, é contada em Howards End. A editora Globo está fazendo um mais-que-bem-vindo relançamento das obras de E. M. Forster e o leitor brasileiro pode apreciar uma nova tradução, de Cassio de Arantes Leite, desse romance de 1910. A anterior (de Ruy Jungmann, lançada pela Ediouro) ocorrera por conta do sucesso, em 1992, da irretocável versão cinematográfica de James Ivory (que rendeu o Oscar a Emma Thompson)., o qual já fizera duas outras incursões no mundo do grande escritor inglês: o também inesquecível A room with a view-Uma janela para o amor; e o interminável (parece durar umas dez horas) périplo de um homossexual inglês descobrindo e revelando seu segredo de Brockeback Mountain que é Maurice.

Em Howards End, as irmãs Schlegel, Margaret e Helen, intelectuais e moderninhas, conhecem a caretíssima família Wilcox, a qual está em franca ascensão social, simplesmente pelo fato de possuir dinheiro. Num primeiro momento, Helen (a mais passional das irmãs)  envolve-se com Paul, o caçula. Não dá certo.

Depois, Margaret (mais ponderada que Helen, numa relação que não deixa de evocar a relação Elinor-Marianne de Razão e Sentimento, de Jane Auster)  aprofunda a amizade com mrs. Wilcox (no filme,  uma outonalmente majestosa Vanessa Redgrave), solitária na própria família, e que num arroubo a convida um dia a conhecer a casa onde nasceu e que dá título ao livro. Não dá certo.

Mrs. Wilcox morre e seu marido recebe um bilhete no qual ela pede que se dê Howards End a Margaret (que terá de sair da sua própria casa natal). A família queima o bilhete. Anos depois, mr. Wilcox casa-se com Margaret, que de nada sabia. Dá certo?

Não foi à toa que Forster escreveu um ensaio famoso sobre a arte do romance. Seu narrador é um mestre de cerimônias que nenhuma adaptação poderia transpor (e sabemos os estragos que uma tentativa de fazer isso literalmente pode acarretar, Martin Scorsese e seu  Época da Inocência que o digam). Ele conversa com o leitor, o provoca  e o guia com brilhantismo pelo complexo painel social do período eduardiano, que sucedeu a Era Vitoriana. E esta não foi só a era da repressão sexual, como é de praxe mostrar. Foi também o cenário de imensas e decisivas transformações sociais. Em Howards End, Foster discute suas conseqüências, principalmente o desenvolvimento da metrópole, que desaloja as irmãs Schlegel e aliena mrs. Wilcox, provinciana, apegada às suas raízes. É por isso que Howards End, a propriedade, acaba por ser o símbolo da tensão entre os valores mais antigos (associada como é  à terra e à natureza) e os valores conflitantes do capitalismo puro e selvagem e do idealismo não tão puro. E se achamos apaixonantes os dilemas de sensibilidade e éticos de Margaret e Helen, defrontadas com a crueza do materialismo da família Wilcox (tanto quanto a pobre Irene com relação ao marido no paradigmático O Proprietário, de John Galsworthy, contemporâneo de Forster e o único escritor da sua geração premiado com o Nobel), não podemos deixar de notar sua alienação e como todos, chamem-se Schlegel ou Wilcox, são parteiros do verdadeiro drama, cuja vítima é Leonard Bast, o representante dos desvalidos nesse casamento entre prosperidade e civilização (para quantos?).

Já se descartara antes a telúrica, quase visionária, mrs. Wilcox. Ela representa um tipo de mulher que Forster desenvolverá quase que até a santidade (leiga) na mrs. Moore do seu maior romance, Uma passagem para a Índia (filmado de forma tão cafona por David Lean). Mrs. Moore, que se encarnou com perfeição na genial atriz Peggy Ashcroft, outra vencedora de um merecido Oscar, é a minha personagem feminina preferida, como já contei aqui algumas vezes.

De todo modo, seja mrs. Wilcox, seja Len Bast, sejam as Schlegel, seja o narrador entretecido na tentativa de descobrir, já que o dinheiro é a trama do mundo, qual seria a tessitura, todos expressam perplexidades que ainda continuam. E como ficção, em Howards End trama e tessitura se entrelaçam levando o realismo à sua melhor forma.

(resenha publicada originalmente  em  29 de abril de 2006, em A TRIBUNA de Santos, a partir de uma anterior, de 30 de maio de 1993)

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10/02/2010

O LIVRO-LINK E A LEITURA INFINITA: “PASSAGENS” de Walter Benjamin

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 16 de dezembro de 2006)

Pode-se afirmar que Passagens é a tradução mais importante de 2006.

Mas por que elevar a tal um livro incompleto e fragmentário (já se decretou a seu respeito: monumento que nasceu ruína), escrito durante mais de uma década (de 1927 até 1940, ano do suicídio de Walter Benjamin), que tem como assunto a Paris do século XIX, e cuja edição original alemã é alvo de críticas ? Se se acrescentar que a edição brasileira é um calhamaço, um monstrengão de 1167 difícil de manejar e de carregar, ( tem de desembolsar 210 reais, caso não se consiga um desconto) e que o autor deste artigo escreve sobre ele sem tê-lo lido na íntegra, e talvez nunca o faça, não é pedir demais do leitor que aceite a assertiva acima ?

Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que Benjamin é um dos maiores e mais influentes pensadores do século passado. Em Passagens ele se propôs um desafio original: criar uma obra do pensamento, organizar uma visão do mundo, através de citações alheias, a partir da “haussmannização” de Paris, a modernização compulsória da grande metrópole, a capital oitocentista por excelência. O centro literário da sua reflexão é Baudelaire (cuja “seção”, por assim dizer, é a que ocupa a maior parte do volume, quase 200 páginas). Portanto, uma reflexão-mosaico, a qual, da maneira que ficou, faz companhia a algumas obras-primas inacabadas: os grandes romances de Kafka; O homem sem qualidades, de Musil; O livro do desassossego, de Fernando Pessoa; até mesmo, de uma certa forma, Em busca do tempo perdido, de Proust. E também a alguns poderosos esforços reflexivos que ficaram sob forma de ruínas, para utilizar um termo tão caro a Benjamin, como é o caso de boa parte da produção de um Bakhtin e de um Vigotsky.

interior

Além disso, Benjamin inaugura –de uma forma angustiante, é preciso dizer—o dilema do leitor que se aventura na Internet. Materializada na forma de um livro gigantesco, quase um móvel, temos a biblioteca de Babel: milhares de informações, de análises, de momentos lindíssimos, de iluminações, de anedotas. Da mesma maneira que o internauta, ao acessar um determinado assunto, recebe uma sobrecarga impossível de ser assimilada, a monstruosidade implícita do projeto de Passagens intimida mesmo os mais esperançosos esforços cognitivos. Acaba sendo um projeto de leitura meio demanda do Santo Graal, um horizonte a ser perseguido por muitos anos, além de ser o livro aberto por excelência, uma vez que se pode ser remontado das mais diversas formas.

Ele nos impõe a necessária humildade: impossível dizer que se “leu” Passagens ou “julgá-lo” para um resenha. Nele, se utiliza como princípio o que Baudelaire expõe numa carta (e que depois materializaria num célebre soneto):

Há muito tempo digo que o poeta é soberanamente inteligente e que a imaginação é a mais científica das faculdades, porque só ela compreende a analogia universal, ou aquilo que uma religião mística denomina correspondência… tenho um espírito filosófico que me faz ver claramente o que é verdade, mesmo em zoologia, embora eu não seja caçador nem naturalista…”.

Benjamin era um pensador que se tornou poeta ao fazer da citação uma arte literária.

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NOTA

Passagens (baseado na edição alemã de Rolf Tiedemann de 1982, Das Passagen-Werk), de Walter Benjamin (1892-1940). Organização da edição brasileira: Willi Bolle (com a colaboração de Olgária Chain Feres Matos. Tradução de Irene Aron e Cleonice Paes Barreto Mourão.

 

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08/02/2010

O (PE)DANTE DE GIULIO LEONI

Pois bem, temos crimes ligados a concepções heréticas e blasfemas do mundo, conspirações cuja origem é o poder da igreja Católica, símbolos esotéricos, uma mulher que pode abalar os alicerces da civilização cristã, com um apelo ao mesmo tempo erótico e místico, igrejas sinistras, catacumbas, passagens secretas e, é claro, os templários, que parecem ser responsáveis por quase tudo o que aconteceu nos últimos dois milênios, ataques do PCC incluídos…

Parece familiar? E é. E será enquanto os tolos formarem legião, conforme nos advertiu Umberto Eco, e encamparem as baboseiras dos códigos da Vinci e das operações cavalo de Tróia. Só que o livro em questão é Os Crimes do Mosaico (I Delitti Del Mosaico, Itália 2004). Nele, o italiano Giulio Leoni pega outro gênio da humanidade, Dante Alighieri, e o torna o investigador de sua trama: em junho de 1300, Dante é prior, uma autoridade mais de prestígio (o qual não funciona muito quando se está afogado em dívidas e perseguido por agiotas) do que de fato, em Florença, pertencente ao partido dos Brancos, que logo serão vencidos, o que acarretará seu exílio da cidade, “no meio da sua vida” (como colocará no início da Divina Comédia).  O Papa Bonifácio está de olho na cidade e não hesita em utilizar meios radicais para apressar seu domínio, como mandar envenenar o vinho dos priores, não para que eles morram, mas que sejam desmoralizados devido a alucinações.

Um mosaicista, pertencente a um círculo de intelectuais, o Terceiro Céu, cuja missão é restaurar uma velha igreja para que se possa ali instalar uma universidade, é assassinado e, ao procurar seus confrades, os quais se reúnem numa taberna, Dante conhece Antilia (preste atenção no nome dela, é uma pista, se é que isso importa, leitor), uma dançarina que pode ser a herdeira do imperador Frederico, e, portanto, uma ameaça às pretensões hegemônicas de Bonifácio.

No peito do morto fora traçado um pentágono, seu mosaico evoca o número 5 e este começa a avultar em todas as inquirições feitas por Dante. Investigando o enigma, ele se confronta com os inquisidores papais, com um exército de ladrões que pratica a mendicância e se refugia em inesperadas catacumbas deixadas pelo urbanismo romano, e acaba descobrindo que a identidade do assassino, de Antilia, e a solução do mistério encontram-se no que será chamado quase 200 anos depois de Novo Mundo, isto é, o continente além-oceano, a única parte da terra ainda isenta das maquinações e mazelas do cristianismo.

Mais uma vez, apesar de ser perceptível a fluência narrativa de Giulio Leoni (ou seja, não é um desprazer ler Os Crimes do Mosaico), permanecemos mais na cenografia e no decorativo do que na ambientação autêntica, por mais que Dante perambule por toda Florença.  Não há um momento em que o romance convença enquanto discussão filosófica, especulação esotérica, crítica social ou confronto entre personagens, todas mal caracterizadas, difusas, truncadas. O único que merece realce se conduz de uma forma curiosa, pois o autor sistematicamente parece querer que antipatizemos com seu herói, um sujeito careta, reacionário (odeia o povo e é favorável à tortura e á repressão policial), puritano, vaidoso, hipócrita e auto-iludido.

Como se trata de uma trama de mistério, isso prejudica em muito a empatia que poderíamos ter com o processo de investigação, já que o detetive não passa de um pe(dante). Por isso, não temos nem Agatha Christie nem Umberto Eco nem Dante. Talvez só um candidato à superprodução hollywoodiana.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 3 de junho de 2006)

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Regra ou Enigma? Donna Tartt ou Dan Brown?

(resenha publicada  originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de junho de 2006)

É inequívoco o objetivo da editora Planeta de vender O Enigma do Quatrocomo um suspense na linha de O Código Da Vinci, inclusive ao trocar o “rule” (regra) do título original por um já desgastado “enigma”.

Na verdade, ele se alinha com maior propriedade a um romance de certo sucesso da década passada, A História Secreta, de Donna Tartt, também uma história de impasses éticos e diferenças sociais em um grupo de amigos universitários, o qual participava de crimes associados a pesquisas e interesses eruditos.

Há, é claro, na raiz da ficção norte-americana, desde os clássicos de Mark Twain (Tom Sawyer & Huckleberry Finn), uma obsessão em investigar a natureza da amizade e é por isso que a “regra” do quatro do romance de estréia de Ian Caldwell & Dustin Thomason é tanto uma chave para decifração de um texto antigo como igualmente e sobretudo uma focalização do enredo nos quatro colegas de dormitório de Princeton: Tom (o narrador), Paul, Charlie e Gil.

Outro estereótipo querido e assaz usado marca presença: a sombra do pai. Tom rejeitou o seu, que no entanto inspirou Paul, que vai resgatá-lo para o verdadeiro filho, principalmente depois do confronto de ambos com os “pais” substitutos, no fundo perversos e perigosos: Richard Curry e o professor Taft, não por acaso antigos amigos do pai de Tom.

Decidir se esses temas já deram o que tinham que dar é que será a medida para o leitor apreciar ou não O Enigma do Quatro.

O que ocupa seus personagens é uma enigmática (e nunca satisfatoriamente estudada) obra do século XV, o Hypnerotomachia Poliphili, assunto da monografia de conclusão de curso de Paul, cujo orientador –Taft—planeja roubar, dedicado a ela como é há 30 anos, monomania que lhe custou o prestígio e o fez desentender-se com seus amigos (Curry e o pai de Tom), igualmente obcecados.

Embora Tom tenha outro assunto para sua própria monografia (o Frankenstein de Mary Shelley) e uma namorada que não gosta muito de sua participação na decodificação do Hypnerotomachia Poliphili, ele ajuda Paul –até que se sente compelido a afastar-se. Na véspera do prazo final de entrega (coincidente ao fim-de-semana da Páscoa de 1999, quinhentos anos após a impressão original do texto; aliás, a ação se concentra nesses dias), ele é obrigado, assim como os leigos Charlie e Gil, a envolver-se novamente, já que Paul recebe das mãos de outro colega, logo a seguir assassinado, um diário que pertencia a Curry e fora roubado décadas antes e que o aproximará do segredo escondido no texto, possibilitando-lhe concluir a monografia…

O que dá para apreciar de imediato em O Enigma do Quatro é a ambição da jovem dupla de autores, sua realização de uma fantasia cara a apaixonados por livros: transformar leitura em mistério (ainda que utilizando recursos já batidos). Ambição, mas sem poder de fogo. O texto escolhido, o tal Hypnerotomachia Poliphili jamais adquire vida para o leitor. Quando se chega à parte do confronto entre o suposto autor (Francesco Colonna) e Savanarola, sente-se falta de um sopro épico, de um pulso narrativo firme que lhe dê amplitude e relevo. Além do mais, há uma inconsistência básica na dinâmica narrativa: Paul chegou a esse confronto, que seria o grande achado do livro, através do diário roubado. Ele conseguiu, numa única noite, e com todo o corre-corre que acompanhamos, ler e decifrar um texto dificílimo, aplicando uma complicadíssima regra? Em que hora ele executou tal proeza?

Por outro lado, se lembramos de A História Secreta durante a leitura não é porque sua melhor qualidade (o registro do cotidiano universitário) reapareça em O Enigma do Quatro; pelo contrário, ficamos incomodados com a irrealidade dessas conversas e atividades de estudantes. Todos estudam compenetradamente, não há drogas, sexo escasso, pouco rock’n roll, não há internet, só há um bêbado, convenientemente rejeitado e escorraçado. Em 1999?!! Por favor! Universidade e estudantes assim, nem em 1499.

 

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07/02/2010

O ESGAR DO LEITOR

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   O sorriso da sociedade, de Anna Lee, utiliza um crime entre intelectuais para compor um painel da nossa belle époque (que coincidiu com as primeiras décadas da República): em 1915, o sergipano Gilberto Amado, jornalista e deputado, assassinou um desafeto, o poeta de Mato Grosso, Annibal Theophilo, no Rio de Janeiro, onde ambos viviam.

A partir desse fato, ela mostra um Rio colocado abaixo por reformas urbanas radicais, que expulsaram a população pobre do centro, iniciando-se o processo de favelização cujos resultados vemos hoje; os cafés e confeitarias, os grupos de intelectuais, as querelas entre eles, as figuras de proa (por exemplo, Euclides da Cunha, João do Rio, Bilac, Coelho Neto, Afrânio Peixoto, este último responsável pela célebre frase que fornece título ao livro). Nessa época consolidam-se, além das oligarquias republicanas, instituições como a ridícula (com a devida licença do seu genial e tão equivocado fundador, Machado de Assis) Academia Brasileira de Letras, que barrou Gilberto Amado naquela altura, mas o acolherá (e à sua nada imortal obra) na década de 60, quando ele mal lembrava do crime que cometera e do qual foi absolvido duas vezes, com uma defesa bizarra, envolvendo crises endocrinológicas que lhe alterariam o humor.

Com material tão farto e tão rico, o primeiro susto que gela o sorriso do leitor e o transforma em esgar é verificar que o livro de Anna Lee é estarrecedoramente péssimo. Mais: é uma bomba radioativa de ruindade literária cujos efeitos perdurarão talvez muito tempo após a malfadada leitura. E mais uma vez seu padrinho editorial, Carlos Heitor Cony, o mais superestimado dos nossos escritores, errou feio, como no caso da também desprovida de talento Heloísa Seixas.

Confesso, de saída, que nunca gostei do termo “jornalismo literário”. Ou há literatura, e portanto um talento único e pessoal, ou há jornalismo bem-escrito. A sangue frio é literatura, ponto. A canção do carrasco é literatura, ponto. Picture (Filme), de Lillian Ross, é jornalismo bem escrito, ponto. Anna Lee, porém, vive no pior dos mundos possíveis, uma vez que não conseguiu nem um nem outro. Sequer podemos considerar O sorriso da sociedade uma introdução ao tema, de tão mal alinhavado, confuso e rebarbativo. A pesquisa aparece de forma óbvia e rasa. O texto parece de livro escolar. Não há nenhum fato ou episódio que já não tenha sido explorado de forma melhor, e não dá para esquecer um livro esplêndido e merecidamente clássico (que Anna Lee não teve a dignidade de incluir na bibliografia, embora seja impossível que ela não tenha ouvido falar dele): Literatura como missão, de Nicolau Sevcenko, o qual aborda o mesmo período histórico, as mesmas figuras histórico-literárias.

Para se ter uma idéia do (será que é possível utilizar tal palavra sem um sorriso de mofa, mas vá lá, que a pena da galhofa é a única solução possível) “estilo” de Anna Lee, basta ler a hilariante caracterização da roda que cercava o grande (e até hoje injustiçado como poeta) Olavo Bilac: “Faziam da ficção, da poesia e das brincadeiras, sem diferença, formas de expressão da imaginação, que era bastante fértil”. Existe algum grupo literário digno desse nome que não tenha utilizado a ficção, a poesia (e as brincadeiras) como formas de expressão da fértil imaginação? Será que estamos diante de um fenômeno único? Único e ainda por cima passível de culpa: como eles poderiam utilizar, “sem diferença” coisas solenes como a poesia e a ficção e algo fútil como brincadeiras?

A certa altura, Anna Lee afirma que está tratando de um tempo “em que se matava pela letra, pela palavra. Tadinha dela, se se levasse esse preceito a sério.

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos,  em 4 de novembro de  2006)

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