MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/06/2015

Cem páginas que valem por três imagens

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de junho de 2015)

   Três vezes ao amanhecer, como o título indica, divide-se em três episódios distintos (que poderiam ser momentos da vida de um mesmo indivíduo), todos eles iniciando-se num hotel.

No primeiro, um quarentão está sentado no hall. Chega uma mulher a qual, embora se dizendo hóspede, pede que ele a leve para o seu quarto. A todo instante, o homem reitera que precisa partir, pois tem um compromisso, no entanto fica, como se sua vontade “amolecesse” junto àquela estranha. Amanhece. Saberemos que seu o nome é Malcolm Webster quando a polícia bater à porta para levá-lo; no segundo, um velho porteiro noturno observa a chegada de um casal: deplora que a moça, adolescente de encanto irresistível, embruteça-se e se desperdice com um parceiro violento e barraqueiro. Consegue convencê-la a sair do hotel em sua companhia, após revelar que passou anos na prisão. O amanhecer os surpreende em fuga: «Seria uma trabalheira compreender a história deles, ao vê-los…Talvez um pai e uma filha, mas nem isso».  Acabam separando-se, e quem alcança o porteiro é o parceiro dela; no terceiro, uma policial cinquentona decide ser um pardieiro inaceitável o hotel para onde foi levado um garoto (chamado Malcolm) que perdeu os pais num incêndio criminoso; contrariando ordens superiores, coloca-o num carro e dirige noite afora para deixá-lo, ao amanhecer, junto a um homem que constrói barcos e com quem tem uma longa história de idas e vindas…

Três vezes ao amanhecer já seria notável pela intensidade dramática que todos os episódios alcançam. Que filme ou peça poderiam ser extraídos das situações, no deslocar da impessoalidade que o próprio espaço—os hotéis—sugerem para uma intimidade perturbadora e lancinante! Todavia, para mim o supremo encanto da leitura foi a “janelinha”, por assim dizer, que ela abre com relação ao romance anterior desse talentoso escritor da atualidade que é Alessandro Baricco: Mr. Gwyn (também lançado pela Alfaguara[1]), contra o qual a única queixa era de que ele nos deixa na mão num ponto crucial, o experimento dos “retratos em palavras” de seu protagonista. Eles permanecem mais um conceito do que uma experiência narrativa, apesar de tudo o que o relato tem a nos oferecer em matéria de fabulação e reflexão (e é pródigo em ambos).

Pois Jasper Gwyn, um cultuado escritor, anuncia o encerramento da sua carreira. Dedica-se, então, a um inusitado experimento: observando uma pessoa, como um “quadro vivo”, num cenário totalmente controlado, compromete-se a entregar a ela (e tão somente a ela, sem publicidade) o resultado verbal dessa longa contemplação Era como fazer-lhes uma mesa, ou lavar-lhes o carro. Um ofício. Escreveria o que eram, só isso»). Até que a discrição com que exerce essa arte de “copista” (como a denomina) é comprometida e transformada em escândalo. Ele desaparece. Sua colaboradora e modelo inicial, Rebecca, lê um livro chamado “Três vezes ao amanhecer”, de Akash Narayan, dando-se conta de que ali está reproduzido um dos quadros de Gwyn. Como eles nunca foram divulgados, suspeita que Narayan é o escritor trânsfuga, ainda assombrado pelas palavras.

A princípio, o leitor pode achar que, à moda de um Paul Auster, Baricco se compraz em jogos de espelhos ao escrever o romance que Rebecca leu. No prefácio, o italiano afirma que o fez «um pouco para dar uma leve e distante sequência a Mr. Gwyn e um pouco pelo simples prazer de perseguir certa ideia que eu tinha na cabeça».

Não sei qual ideia ele tinha na cabeça e perseguia. O que ele realizou, de maneira alguma leve e distante, foi justamente criar “quadros escritos”, concretizar, enfim, o projeto de seu peculiar herói. Afirmei que Três vezes ao amanhecer funcionaria no palco ou nas telas. Mas sua leitura é muito mais a experiência de ter quadros (como os de Edward Hopper, por exemplo, que se prestam muito a um olhar narrativo) metamorfoseados em palavras. Cem páginas que valem por três imagens.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2015/05/07/os-quadros-escritos-de-alessandro-baricco-mr-gwyn-e-tres-vezes-ao-amanhecer/

Daniel Pereira

NOTAS

[1] Ambos traduzidos por Joana Angélica D´Ávila Melo (o título original de Três vezes ao amanhecer é “Tre volte all´alba, 2012—Mr. Gwyn foi publicado no ano anterior).

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13/04/2015

VOO DE GRANDE ALTURA: A FICÇÃO DE SÉRGIO TAVARES

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«…e nada seria absurdo, pois não há absurdo na ilusão…» (trecho de Sono)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 14 de abril de 2015)

Em Quebranto, conto final de Queda da Própria Altura, o protagonista em estado de narcose num quarto de hospital, à espera de um transplante, mal consegue lembrar de sua própria identidade, até que um novo paciente o reconheça como o mágico Quebranto e resgate sua existência: «durante uma semana, ele foi o narrador de mim. reconstruindo minha memória, meu passado, minha vida… »

Esse esgarçamento do ser, espécie de esbatimento progressivo diante da fragilidade das decisões e escolhas, percorre todo o livro de Sérgio Tavares—não à toa, ele se divide em três partes, ou movimentos: Impulso, Voo, Queda. E pensar que quase desisti da leitura, apesar do título açulador[1] e da capa esplêndida, pois ao folheá-lo me deparei com aquele vezo—para o qual não consegui ainda reconheci a funcionalidade— recente, e já tão velho, de abolir as maiúsculas!

Sofreria uma perda enorme: é uma das melhores obras de ficção publicadas neste século até agora, arquitetada de forma brilhante e muitíssimo bem escrita, sem titubeios ou firulas gráfico-formais (por isso, cai tão mal o recurso do uso exclusivo de minúsculas, a não ser nos nomes próprios): «minha mãe plantou a muda de hera um dia depois de o meu pai desaparecer, um dia depois do aniversário dela. meu pai falou que iria sair para comprar as velas do bolo e nunca mais voltou. lembro de minha mãe me arrastar horas e horas pelas ruas procurando-o, para enfim perceber o que tinha acontecido. na volta, passamos por uma casa cujo muro da frente era todo tomado por uma maranha de hera. pediu que eu esperasse, arrancou uma muda e, logo na manhã seguinte, plantou ao pé do muro da nossa casa. minha mãe disse que a nossa vida, a partir daquele momento iria ser como a hera: um cruzamento de dias presentes e futuros, sem distinção de começo e fim, um eterno renascimento. desde então, passou a se dedicar ao crescimento da planta como um perfeccionista que mantém uma pintura viva[…] minha mãe só deixou de cuidar da hera quando foi diagnosticada com câncer. passei, desse modo, a zelar pelo viço , sob o comando e o patrulhamento dela. a hera era a segunda coisa de que minha mãe mais gostava.
a primeira coisa era o cigarro. minha mãe sempre estava fumando. a princípio, cheguei a acreditar que o vício se agravou depois de o meu pai fugir de casa. agora estou certo de ter sido o contrário: foi o cigarro que fez com que ele nos abandonasse. meu pai sempre se preocupou com a morte. eu diria que de uma maneira um tanto anormal[..]
oito meses após o exame, minha mãe não parou de fumar um minuto sequer. o câncer brotou na parede do pulmão direito, tomando, em dias, todo o sistema respiratório; como a hera, sem distinção de começo e fim..»

O trecho acima, de Hera, comprova a segurança, o ritmo da escrita, e também que estamos num universo em que o realismo pode às vezes nem valer (o narrador do conto assumirá um estado fantasmagórico, atraído pela beleza da vizinha, ser vampírico que se alimenta da juventude daqueles que seduz, reduzindo-os a trapos, literalmente), mas há sempre regras, e severas. E sempre um preço a pagar, ora por cumpri-las, ora por se rebelar contra elas, como vemos no narrador de Ofélia e sua irmã, que dá o título ao relato. O que acaba gerando esses  heróis (só há uma narradora feminina, em Cerimônia, e mesmo assim as regras e contratos, por mais frágeis e patéticos que se mostrem, entre as pessoas, também dão o tom a esse pungente conto) tão autodepreciativos: «me parecia um gigante diante do ser curvado e desprezível que me tornei»;  «o que sou: um sujeito patético, covarde, que tenta racionalizar o desastre»[2].

O que vale para a exploração do fantástico em Hera; para o abismo devorador de identidade em Quebranto; para o fascinante clima alegórico em que transcorrem as tensões afetivas de uma família, em Ofélia[3]; e também para o registro mais realista e nem por isso menos inventivo[4], do ponto-de-vista literário, de Sono, história de um casal que na luta pelo equilíbrio econômico (a tão sonhada e famigerada prosperidade) a “realidade morna”, sina de todos nós, é destruído pela morte do filho no momento do parto.

Apreciei praticamente todos os textos de Queda da Própria Altura (embora o conto de abertura, Evolam-se os Barcos seja o mais fosco entre eles), mas o meu predileto é justamente esse Sono porque Tavares consegue algo muito difícil, e que eu só tinha testemunhado na notável ficção de João Anzanello Carrascoza: ousar investir no lirismo dos laços afetivos elementares em nossa vida (pais, filhos, cônjuges), atravessando a corda bamba sob a qual aguardam, ansiosos, o sentimentalismo e a fraude. Ao fazê-lo, ele nos deu uma obra-prima.

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TRECHO SELECIONADO

«pego algumas bermudas e empilho sobre a cama, acima do par de meias e do tênis já arrumados, a que foi ao cinema é uma das suas preferidas, se bem que eu acho que ele optaria pela branca com os bolsos vermelhos, ele gosta de combinar cores […] contudo, o instinto materno me diz que ele preferiria usar calças, neste caso, não tenho dúvida […]

   a calça da revista foi a primeira roupa que ele pediu que eu comprasse, até então suas vontades eram restritas a brinquedos, livros e cartuchos de vídeo game, ele também gosta de desenhos animados, fica horas em frente à televisão, rindo das estripulias do gato que quer pegar o rato e do coiote que inventa geringonças, coleciona álbuns de figurinhas e histórias em quadrinhos. foi numa dessas revistas que ele viu a calça que trazia decalques em velcro dos personagens da Vila Sésamo. eu estava na cozinha preparando o almoço, quando ele chegou excitado,  pedindo que eu comprasse para ele… » (trecho de Cerimônia)

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E este recado comercial poderia ser uma legenda da cena final de Hera:

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NOTAS

[1] Curiosamente, trata-se de um conceito da medicina: «deslocamento não intencional do corpo a um nível inferior à posição inicial, com incapacidade de correção em tempo hábil, determinado por circunstâncias multifatoriais, comprometendo a estabilidade» (pesquisei no Google).

[2] «… se por uma possibilidade mágica conseguíssemos, seria menos difícil aceitar que cada conquista está atrelada a uma perda e a entrega não é condição de recompensa…»

[3] Texto em que ele consegue o que Andréa Del Fuego almejou e não conseguiu em Os Malaquias. VER https://armonte.wordpress.com/2013/09/08/procurando-o-angulo-do-encontro-com-os-malaquias/

[4] «… não podemos nos meter em zonas fronteiriças e cavar um buraco na história para encontrar uma verdade diferente da realidade que quase nos partiu». Vindo após de uma história onde os homens de cada família têm de cavar buracos , esse trecho ganha uma camada a mais de ironia. Aliás, nada Ícaro (pois não vemos nenhuma queda), mais para Dédalo, Tavares deixa que alguns elementos “reapareçam” de forma inquietante, como um aparador (peça-chave tanto em Ofélia quanto em Hera).

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06/04/2015

FISIOLOGIA DO TALENTO: “Concentração e Outros Contos”, de Ricardo Lísias

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de abril de 2015)

«…senti uma sensação horrível de derrota. É um fracasso que se manifesta no corpo… Com a literatura, já sei que não vou conseguir dizer o que eu quero da maneira que acho a ideal. Então, terei que fazer repetições. Apesar de conseguir, com isso, uma espécie de alívio contínuo para o mal-estar que sinto, por outro lado a certeza da incompletude da escrita também me angustia».

O trecho acima, de Fisiologia da Dor, um dos 15 textos de Concentração e Outros Contos, no qual Ricardo Lísias, prestes a completar 40 anos, reuniu parte da sua produção no gênero desde 2001, espelha o dilema do resenhista que tenta, em sumários traços, delinear para o seu leitor o universo denso e único daquele que é o mais brilhante escritor da sua geração.

Curiosamente ele publicara até agora apenas outra coletânea, Anna O. e Outras Novelas (2007)[1]. Dela, temos quatro textos: o conto-título (onde um psiquiatra é encarregado do laudo sobre as condições mentais do General Pinochet), Capuz, Dos Nervos e Diário de Viagem, todos narrando situações em que mantras reiterativos da linguagem dos protagonistas, a fixação de “metas” e projetos, a criação de padrões, procuram represar a crescente desagregação, quando não o colapso total (inclusive da própria linguagem)[2].

Mais recentemente, Lísias enveredou pelo caminho da “autoficção”, modismo crítico pós-moderno (que ele parodia num conto com esse título—a meu ver, o texto mais discutível de Concentração) para experiências ficcionais que deformam e confundem os dados biográficos, mesmo que o personagem ostente o nome do autor. Nessa linha, Ricardo Lísias/personagem vivencia diferentes formas de dilaceração e tentativas de serenar o tumulto interno,  tanto no divertidíssimo Evo Morales quanto na mais radical de suas aventuras autoficcionais, Tólia (em que se une a uma seita para salvar o planeta), além da extraordinária seção das Fisiologias (da Memória, do Medo, da Dor, da Solidão, da Amizade, da Infância e da Família), registrando o Brasil pós-Abertura através dos laços familiares e afetivos, com um virtuosismo que só encontra paralelo no argentino Alan Pauls (História do Pranto) ou no chileno Alejandro Zambra (Formas de voltar para casa).

«É um fracasso que se manifesta no corpo». As linhas de força que percorrem Concentração podem ser verificadas no conto-título: Damião sente um excruciante mal-estar físico, só aliviado quando faz a barba (causando graves danos ao seu rosto) a todo instante. Como típico herói de seu autor, apega-se a padrões e rotinas que permitam suportar seu estado agônico; assim, viaja a Buenos Aires atrás de um clube de xadrez e de um casal de dançarino de tangos, a partir de três vagas fotografias, vã odisseia («no país inteiro ninguém sabe mais como dançar tango e jogar xadrez»—desse modo, ele constatará a penúria econômica da população portenha) que envolverá os miasmas dos regimes autoritários latino-americanos, a morbidez argentina em torno dos seus ícones políticos (Perón e Evita), numa corda bamba de racionalizações extremas em meio ao caos e à falta de sentido, que, no fundo, dizem respeito a todos nós, aprisionados pelos muros quase sem brechas da ideologia do mercado global.

Um dos pontos altos da coletânea, esse conto de 2008 tem um dos finais mais perfeitos já escritos, contrariando flagrantemente a afirmação seguinte: «Com a literatura, já sei que não vou conseguir dizer o que eu quero da maneira que acho a ideal». Pena que escrevendo a seu respeito, eu me sinta mais próximo desse sentimento de frustração do que dos seus resultados.

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VER NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/04/14/o-livro-dos-mandarins-satira-deliciosa-a-linguagem-da-globalizacao/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/11/destaque-do-blog-duas-vezes-o-ceu-dos-suicidas/

https://armonte.wordpress.com/2013/08/13/a-pele-que-habito-o-problematico-divorcio-de-ricardo-lisias/

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TRECHOS SELECIONADOS

«O avô mora naquela casona perto do museu e quando a gente tropeça, ele logo vai correndo dizer que não foi nada. Não foi nada, nada, apenas que o avô é aquele homem mais velho, careca e engraçado. Ele sabe o que é um astrolábio, consegue fazer um relógio com a sombra e gosta de ir com os netos à praia… E ele corre com a gente: corre em casa, no museu, corre na praia, na rua, corre hoje, corre no ano que vem, na festa da escola, mas cada vez ele corre mais devagar, e depois já não aguenta tanto e quando você vê é o avô que deixou para a sua mãe essa casa.

   Ele é o avô que morre e ensina o que é a morte: é quando o avô morre. »

(Fisiologia da Família)

« Os noventa minutos do jogo entre Brasil e Itália, no estádio espanhol do Sarriá em 1982, foram os únicos em que de fato tive um pai. Precisamos só de um empate, meu filho, mas acho que vai ser 4 a 1. Tentei encostar a mão esquerda naquele braço enorme, mas ele se afastou. Hoje ele não está querendo se deitar: vamos ver o jogo sentados um do lado do outro. Perguntei se Chulapa é o sobrenome do Serginho, que meu pai adorava. Ele não respondeu… Lembro-me da televisão enorme. Como tinha o nome sujo, meu pai não podia comprar nada à prestação. Quem  trouxe foi minha avó. Tem garantia até a próxima Copa, ele me disse quando elogiei a imagem. Meu pai gostava de assistir a todo tipo de programa, menos os telejornais. O comício pelas Diretas Já na Praça da Sé não passou direito, não perdi nada… Minha tia, irmã da minha mãe, quis nos levar para o comício, mas meu avô não achou a ideia boa. Você não viu como seu primo saiu da cadeia? Tudo pode mudar de uma hora para outra. »

(Fisiologia da Infância)

«Naquela época, a gente bebia muito na escola. Então Maria era a líder. Maria bebia muito, então ria muito também. Então. Eu só acompanhava, acho, não posso ter certeza, ela sim tinha muita certeza: então bebe mais um pouco, disse. Então, se sexo oral conta, perdi a virgindade com ela nesse dia então, com ela rindo e tudo rodando.

   Ontem, vi uma foto de Lindbergh Farias no Facebook. Então foi na internet. Ele sorria muito enquanto apertava a mão de Fernando Collor. Nada disso aconteceu. Apenas escritores muito ingênuos acreditam em ficção histórica. E na História, então? Fiquei com muito ódio desse ensaboadinho chamado Lindbergh Farias. »

(Fisiologia da Amizade)

«Sinto-me sozinho (descobri isso quando escrevi meu primeiro livro, sozinho durante um inverno desagradável em Campinas) porque nunca consigo expressar exatamente o que eu quero, e nem da forma que tenho certeza ser a mais adequada.

   Não se trata de humildade. Sou arrogante: algumas vezes, cheguei perto. Mas o cerne do que quero dizer e a forma mais adequada (digo, a ideal para o que eu queria dizer—não estou conseguindo me expressar direito), apenas sei que existem, tenho toda a certeza de que estão ao meu alcance, mas não consigo tocá-los inteiramente. É como se em um determinado momento a comunicação falhasse… Esse isolamento é um sentimento íntimo. Apenas tateio a melhor forma de expressá-lo. Sei que se trata de uma variante muito aguda e intensa de solidão. Só tenho uma possibilidade de me aproximar desse mistério: através da técnica literária. Por causa dela, meu sofrimento é suportável. »

(Fisiologia da Solidão)

« Para mim, as lágrimas e a raiva se complementam. Como sempre tive muita dificuldade para chorar, uso os acessos de ódio para me libertar. Mas não tive a menor chance dessa vez. Levantei agora e, enquanto tomava café, senti uma sensação horrível de derrota. É um fracasso que se manifesta no corpo… Com a literatura, já sei que não vou conseguir dizer o que eu quero da maneira que acho a ideal. Então, terei que fazer repetições. Apesar de conseguir, com isso, uma espécie de alívio contínuo para o mal-estar que sinto, por outro lado a certeza da incompletude da escrita também me angustia. Por isso, achei que as artes plásticas resolveriam o meu problema.

   Ao contrário, agora tenho medo de que arte nenhuma aplaque o sentimento de que não vou conseguir dizer exatamente o que quero na forma que julgo a mais adequada. »

(Fisiologia da Dor)

« Exatamente nesse momento, trêmulo por causa do medo e do frio, caguei nas calças. Não tive tempo nem iniciativa de procurar um banheiro… Dá para ir a pé da avenida Pompeia ao meu apartamento. No caminho, senti um misto de vergonha e pavor. Eu olhava para trás e não conseguia entender se aquelas pessoas estavam me seguindo, rindo porque eu tinha cagado nas calças ou sequer haviam me notado… Eu estava inteiramente sonzinho e, agora escrevendo, lembro que pensei no André enforcado.

   Então, em uma sexta-feira à noite, subindo rapidamente a movimentada avenida Pompeia, morrendo de medo e cheio de merda nas calças, percebi o quanto o André estava se sentindo sozinho quando destruiu o meu apartamento e, uns dias depois, se enforcou… Depois, já perto de casa, senti de novo muita raiva do André: ele me tinha feito descobrir quem eu sou e acho que eu sou exatamente o que o dono (ou o administrador) do cassino clandestino falou, olha aí, você é só um cagão. »

(Fisiologia do Medo)

«… e chorava daquele jeito porque logo o meu amigo André iria se matar, e chorava sem nenhum controle, do jeito que mais me incomoda, sem nenhum controle, porque o André morreu sem conhecer os livros do Roberto Bolaño, não é justo, e eu também sabia que nunca mais iria esquecer: quando a polícia encontrou o corpo do meu amigo André, enforcado lá naquele lugar, havia uma sacola de uma livraria em cima da mesa, com o Noturno do Chile dentro, ele tinha acabado de comprar o Noturno do Chile, então voltou para onde estava morando e se enforcou sem abrir o livro… e eu chorava daquele jeito porque o André nunca mais iria aos meus lançamentos, eu chorava muito, na frente do avião da Japan Airlines, porque as pessoas dizem que eu sou cerebral e eu chorava daquele jeito, como nunca… »

(Fisiologia da Memória)

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NOTAS

[1] Em contrapartida, lançou vários romances, a partir de Cobertor de estrelas(1999): Duas Praças, O Livro dos Mandarins, O Céu do Suicidas; o mais recente dos quais, o polêmico Divórcio.

Convém, notar, entretanto, que vários dos textos de Concentração têm considerável extensão, e dois deles foram publicados separadamente, Capuz e Dos nervos.

[2] «Agora, consigo entender um pouco melhor: meu profundo gosto pela conversa civilizada e inteligente impediu-me de gritar quando vi aquele rapaz sentado no meu sofá. Não sei se já disse, mas posso repetir, que cheguei em casa, vindo da universidade, e encontrei a porta aberta e a luz da sala acesa. Como estava me tratando, o que para dizer a verdade sempre foi um dos sonhos da minha mãe, vivia muito calma naqueles dias e não gritei. Minha intenção era evitar, também, que as pessoas dissessem que eu estava tendo uma crise histérica. Sempre detestei falatórios e costumo ter apenas conversas civilizadas e inteligentes. O hábito de fofocar que minha mãe cultiva com as vizinhas sempre me deixou irritada. Às vezes eu batia a porta e fechava todas as janelas só para não ouvir aqueles murmúrios. Prefiro a conversa civilizada e inteligente. No tempo em que redigia a tese, inclusive, procurava sempre ir a algum café ou bar tranquilo para falar de livros, filmes e música. Claro, e sobre o Padre Vieira. Eu me interessava sobretudo pela questão do gênero: nos mecanismos que diferenciam a fofoca da conversa civilizada e inteligente. Por isso tentava ficar bem quieta para ouvir o que os outros estavam dizendo. Agora compreendo por que ele ficou mudo, deve ter me visto em algum lugar, em algum café civilizado e inteligente, e concluiu que adoro o silêncio», lemos em Dos nervos.

Mais adiante: «Minha mãe sempre me disse, e olha que, que eu precisava. Mas acho que vou ser bem clara com o médico, e dizer que posso perfeitamente criar sozinha o nosso filho. Tenho um bom emprego e, mais, com uma conversa civilizada e inteligente, minha mãe… Por outro lado minha mãe sempre repetia, e olha que ele, que meu pai. Quanto aos meus alunos, o médico… ».

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RICARDO

26/03/2015

A QUESTÃO É ESTA, NÃO HÁ OUTRA: GONÇALO M. TAVARES E A TRAGÉDIA DA SOBREVIVÊNCIA

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«Os acontecimentos que o céu nos proporciona manifestam-se sob as mais diversas formas; e muita coisa acontece, para além de nossos temores e suposições; muita vez o que se espera, nunca sucede; e o que nos assombra, realiza-se com a ajuda dos deuses» (Eurípides, Alceste)

«Não se trata já de intervir no destino,

esse sentido abstrato para onde antigamente

                  [caminhavam as coisas

(como se fosse um plano inclinadíssimo).

Trata-se, sim, de algo bem mais concreto

                  [e ofensivo:

uma tentativa de intromissão no normal

                  [funcionamento

dos órgãos humanos (…)

Que intervenham no vago destino mas não

                  [em vísceras vivas… »

(Gonçalo M. Tavares, Os velhos também querem viver)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de março de 2015)

Era de se esperar que um autor tão prolífico como Gonçalo M. Tavares mostrasse sinais de arrefecimento. No entanto, Os velhos também querem viver (Editora Foz) prova que sua inventividade continua afiada: trata-se de um poema narrativo, em cinco partes (além de prólogo e epílogo) que segue os acontecimentos de Alceste —a mais antiga (encenada pela primeira vez em 438 a.C.) entre as tragédias preservadas de Eurípides—, ambientando-os em Sarajevo durante o cerco pelo exército sérvio (1992-96), guerra recente que pulverizou a Iugoslávia[1].

O protagonista, Admeto, é atingido por uma bala, nos azares da refrega, e deve morrer[2]. O deus Apolo, não concordando com o «nobre noivado entre causa-efeito» exige da morte exceção para seu protegido. Seu desejo será atendido se alguém se oferecer a substituir o morto. Todos, inclusive os pais de Admeto, se recusam, mas sua esposa, Alceste, aceita o sacrifício. Moribunda, faz com que ele prometa nunca colocar outra mulher dentro de casa.

Por essa altura, Hércules chega a Sarajevo. Admeto é conhecido por sua hospitalidade e esconde o luto que há na casa por Alceste, o que escandaliza servos e cidadãos (há um Coro, composto de gente mutilada pela guerra), ainda mais que o famoso herói se revela um fanfarrão, bebendo e festejando à larga. Um dos servos, num momento de revolta, revela o ocorrido e ele, envergonhado, se propõe a resgatar Alceste da morte. Acontece que ele a traz de volta sob um véu, sem se dar a conhecer, e pede que Admeto a receba, em flagrante quebra da promessa solenemente feita. Hércules o admoesta: «Qual o sentido do sacrifício de Alceste?/Qual o sentido de ela te dar a sua vida se depois tu/vivo/ficas a lamentar-te de o estar?» Ou seja, mais que sobreviver, “viver” é trair os mortos.

É nessa linha, também, o embate—durante os funerais de Alceste—entre Admeto e o pai, Feres. O filho acusa o pai de covardia por não ter se oferecido em seu lugar, o pai não entende por que não deveria continuar a viver, mesmo velho, com poucos anos pela frente. Heroísmo, códigos de honra, afetos e laços entre as gerações ficam em xeque diante do apego à sobrevivência (ainda mais numa cidade em ruínas, onde a morte é presença diária): «Aos mortais Apolo, o deus, pergunta/um a um, como num mero interrogatório policial:/Queres viver?/Sim, todos respondem, Sim, queremos viver!//E a questão é esta, não há outra… » Diga-se, de passagem, que o final “feliz” a diferenciar Alceste de outras tragédias (tornando sua reputação canônica um tanto quanto problemática) ganha um cunho impiedosamente irônico em sua nova versão (para ser franco, nem o final da peça de Eurípides, «a volta feliz de Alceste»–estas as últimas palavras da peça[3]—, apesar do reencontro dos esposos proporcionado por Hércules, me parece tão auspicioso assim, ainda que se furte à mortandade habitual nas obras do gênero—não dá para apagar os acontecimentos anteriores, e principalmente a quebra da promessa em nome da hospitalidade, para não falar da própria situação inicial[4]).

O entrelaçamento de um poderoso mito grego (com importantes desdobramentos éticos), daqueles que fundamentaram a civilização europeia (e ocidental, por extensão), com um episódio histórico (Sarajevo, em plena consolidação da União Europeia) cuja maior consequência foi desvelar as fraturas (para não dizer a falência) desse projeto civilizatório, que não resolveu dilemas recorrentes, em particular a guerra e as distinções de classe e de gênero (no caso de Admeto, até o privilégio de ter alguém para morrer em seu lugar[5]), é um grande trunfo de Os velhos também querem viver.

Entretanto, o que impressiona fortemente é a exatidão milimétrica da linguagem, que recria Eurípides num compasso à João Cabral de Melo Neto, desde a «bala inequívoca» que atinge Admeto e se aloja «na casa mais casa que um homem tem/a sua cabeça, o seu cérebro»[6]: «Os velhos, note-se, sempre pareceram formas/humanas/de, em plena vida, se publicitar a morte;/formas experientes de anunciar algo que/se aproxima/por baixo, por cima, por todos os lados».

Deuses e semideuses estão presentes na Sarajevo do genial autor português (nascido em Angola). Nem eram necessários: a vida nua e o arbítrio do destino e dos homens são o que há de mais constante na existência.

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[o texto acima foi publicado no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, em 25 de março de 2015, VER:

http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/03/a-questao-e-esta-nao-ha-outra-goncalo-m.html]

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alceste

TRECHO SELECIONADO

«De fato, se existissem instrumentos técnicos

capazes de transformar a tensão do cortejo

                      [em energia explosiva,

toda a cidade de Sarajevo iria pelos ares,

e Sarajevo assim não precisaria de inimigos,

bombas ou cerco: bastaria um sacrifício,

e a insatisfeita perplexidade que nos outros

                     [daí resulta,

para a cidade colapsar e se render.

 

O tremor não vem, pois, do cansaço ou da carga

                     [física

de quem carrega o caixão;

um morto pesa, estranhamente, na direção oposta,

fenômeno que vai contra os preconceitos da  velha

                    [Física

e muitos outros.

Um morto pesa para cima, faz força no sentido

                    [do solo para o céu;

como se imóvel saltasse, ou quisesse saltar,

dali para o que está no topo do nada, esse nada

                    [que existe,

mas no lugar mais afastado.

A sensação, pois, de que o transporte de um morto

                    [tem limites simbólicos

e não apenas de linhas traçadas no chão:

é necessário descanso, mesmo para os que

                   [passaram para aquele lado

onde não há cansaço».

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ANEXO

Abaixo vão alguns trechos marcantes de Alceste: quando Admeto fala de sua situação ao coro; quando o seu pai, Feres, contesta suas recriminações; e, por fim, aquele belo recurso do teatro clássico, em que uma personagem secundária (e mais “comum”) narra para nós as ações de um protagonista.

«Amigos, a sorte de minha mulher é, em minha opinião, mais feliz do
que a minha, embora pareça o contrário. Nenhuma dor a atingirá jamais e
de muitos sofrimentos saiu gloriosa. Eu, porém, que já devia ter morrido,
escapei ao destino para arrastar uma vida miserável; compreendo-o agora.
Como poderei eu transpor a entrada desta casa? A quem dirigirei a palavra
ou quem me saudará, que possa alegrar a minha chegada? Para onde me
voltar? A solidão da minha expulsar-me-á, quando diante dos olhos eu
tiver o leito vazio da minha mulher e as cadeiras em que se sentava, e sob o
teto um solo coberto de pó. E os meus filhos, lançando-se sobre os meus
joelhos, hão de chorar a mãe, enquanto os servos lamentarão a boa senhora
que a casa perdeu. Eis o que se passará no interior da minha casa. Mas, no
exterior, os esponsais dos Tessálios e as reuniões de mulheres hão de
impelir-me de novo para o palácio; não suportarei ver as companheiras de
minha mulher. E qualquer inimigo meu poderá dizer estas palavras: “Vede
como ele vive na vergonha, ele que não ousou morrer, dando em troca
aquela que desposou para escapar cobardemente ao Hades. Julgará ele,
depois disto, que é um homem? E ainda odeia os pais, por não ter querido
morrer.” Esta a fama que há de somar-se à minha desgraça. Que vantagem
terei eu em viver, amigos, prejudicado na reputação e mergulhado na
infelicidade?»

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«Ó filho, quem julgas tu, na tua insolência, que estás a atacar com as
tuas injúrias? Um Lídio ou um Frígio comprados com o teu dinheiro? Não
sabes que sou tessálio, filho de pai tessálio e livre por nascimento?
Abandonas-te a muitos excessos, mas, depois de lançares contra mim os
teus juvenis sarcasmos, não vais partir assim. Gerei-te a criei-te para seres
senhor deste palácio, mas não tenho obrigação de morrer por ti. Não recebi
dos antepassados, nem é grega essa lei de que os pais devem morrer pelos
filhos. Feliz ou infeliz, é para ti que nasceste. O que devias receber de mim
já o possuis. És chefe de muitos homens e deixar-te-ei terras de muitas
jeiras que recebi de meu pai. Em quê, pois, te causei dano? De que te privo
eu? Não morras por mim, que eu não morrerei por ti. Regozijas-te de ver a
luz? E pensas que o teu pai não tem o mesmo direito? Imagino como será
longo o tempo debaixo da terra, e a vida é breve, mas agradável.
Entretanto, tu, sem pudor, lutaste para não morrer e estás vivo: escapaste à
sorte imposta pelo destino, matando-a a ela. E falas da minha cobardia, ó
celerado, quando afinal tu te deixaste vencer por uma mulher que morreu
por ti, por um jovem lindo como tu? Descobriste uma boa maneira de
nunca morrer, se persuadires sempre a mulher que tiveres na ocasião a
morrer por ti. E vens agora insultar os teus por não quererem fazer isso,
quando tu próprio não passas de um cobarde? Cala-te e pensa que, se tens
amor à vida, os outros também têm; e se continuas a dirigir-me palavras
desagradáveis, vais ouvir muitas do mesmo gênero, e merecidas.»

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«CORO
Então que ela saiba que, morrendo em glória, é de longe a mais
nobre mulher debaixo do sol.

CRIADA
Como não há de ser a melhor? Quem o contradirá? Que terá de ser a
mulher capaz de exceder? E como pode alguém demonstrar mais amor por
um esposo do que oferecendo a vida por ele? A cidade inteira conhece
esses fatos; e as coisas que fez em casa, ouvi-las-ás com admiração.
Quando se apercebeu de que chegava o dia marcado, banhou o alvo corpo
em água do rio e, tirando de uma câmara de cedro um veste e adereço,
vestiu-se como lhe competia. Depois, colocando-se em frente ao altar de
Héstia, orou assim: “Senhora, visto que vou para debaixo da terra, tens-me
aqui a teus pés, pedindo-te pela última vez, que veles pelos meus filhos
órfãos: une um em casamento com uma esposa querida, a outra dá-a a um
nobre esposo. Que os meus filhos não morram novos como sua mãe que já
sucumbe, mas felizes, na terra de seus pais, terminem uma vida aprazível.”
Aproximou-se de todos os altares que estão na casa de Admeto,
coroou-se e fez preces, ao mesmo tempo que cortava folhagem de ramos de
mirto., sem chorar, sem gemer, sem que o mal próximo lhe alterasse a
beleza natural da face. E depois, lançando-se para o quarto nupcial e
caindo sobre o leito, aí chorou e disse: “Ó leito, onde desatei o meu cinto
virginal com aquele homem por quem morro, adeus! Não te odeio: só a
mim perdeste. Morro por não ter querido trair a meu esposo e a ti. Outra
mulher te possuirá, não mais leal, mas talvez mais feliz.”
Caindo de joelhos, beija o leito e inunda-o de lágrimas, afasta-se de
cabeça baixa, arrancando-se para fora da câmara nupcial, mas, depois,
retrocedendo muitas vezes, volta de novo para o leito. Os filhos, agarrados
às vestes da mãe, choravam; e ela, tomando-os nos braços, acariciava ora
um ora outro, como quem ia morrer. Em casa, todos os criados choravam,
lamentando a sua senhora. E ela estendia a mão direita cada um, e ninguém
era tão vil que não recebesse a sua palavra e que não lhe correspondesse.
São estes os males que há na casa de Admeto. Atingido pela morte, ele
teria perecido, mas foi salvo e, no entanto, suporta tal dor que jamais
esquecerá.»

Goncalo-M.-Tavaresimages

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NOTAS

[1] Aliás, Sarajevo aparece em pontos nevrálgicos da história europeia contemporânea, basta lembrar de que um atentado ali ocorrido foi o estopim da Primeira Guerra.

[2] Em Alceste, Apolo toma a palavra logo no início para explicar o contexto da sentença de morte de Admeto:

«Ó casa de Admeto, na qual eu me resignei aceitar a mesa de mercenário, eu que sou um deus! De tudo foi Zeus o causador, ao destruir meu filho Asclépio, lançando-lhe o fogo ao peito. Por este motivo, enfurecendo-me, mato os Ciclopes, artífices do fogo de Zeus; e o meu pai impôs-me, como expiação, ficar a serviço de um homem mortal. Vindo para esta terra, apascentei os bois do meu hospedeiro e guardei a sua casa até este momento. Sendo eu justo, encontrava um homem justo no filho de Feres, que livrei da morte, enganando as Parcas; e as deusas prometeram-me que Admeto escaparia à morte iminente se entregasse em troca outro morto aos senhores dos Infernos. »

Mas é bom lembrar que o mito grego tem outras variantes: Admeto ganhou a mão de Alceste ao aparecer diante do pai dela num carro puxado por leões e javalis, façanha que realizou com a ajuda de Apolo. Porém, durante o sacrifício da festa de casamento, Admeto se esquece de honrar a deusa Ártemis, e encontra seu quarto cheio de cobras. E nesse momento que o deus que serve e protege negocia com as Parcas o acordo com que redundará no sacrifício da esposa.

[3] Pelo menos na tradução de J. B. de Mello e Souza, publicada nos Clássicos Jackson, volume XXII (e que pode ser lida em www.ebooksbrasil.org/eLibris/alceste.html). Na versão sem indicação de autoria, em http://arnobiorocha.com.br/wp-content/uploads/2011/04/alceste1.pdf, o Coro encerra a peça assim:

«Muitas são as formas do divino e muitas as ações imprevistas dos deuses. O que esperávamos não se realizou; para o inesperado o deus achou caminho. Assim terminou este drama».

[4] Admeto, na peça de Eurípides, despede-se de Hércules: «Sê feliz, Hércules! Possas tu retornar mui breve a nosso lar! Que os cidadãos de Feres e todos os habitantes da Tessália celebrem este ditoso acontecimento por festas e danças; que em todos os altares a chama do holocausto se erga, em meio de preces de gratidão! Porque uma vida melhor se vai seguir a dias tão funestos! »

Em outra tradução: «Boa sorte e oxalá tenhas certo o regresso! Aos cidadãos e a toda a tetrarquia ordeno que festejem com danças estes felizes acontecimentos e que os altares fumeguem com a carne propiciatória dos bois. Trocamos agora o passado por uma vida melhor; não negarei que sou feliz.».

Invertendo a frase de Albert Camus sobre Sísifo, para que nós, modernos, tenhamos um mínimo de empatia com o herói euripidiano, “é preciso imaginar Admeto infeliz”, o que talvez  Gonçalo M. Tavares indique na passagem derradeira de seu Os velhos também querem viver:

«Admeto espera, mas Hércules não se faz demorar:

com a mão direita tira o véu da frente do rosto

                        [daquela mulher.

Admeto estremece: é Alceste;

                         está viva. »

[5] «Em tempo de guerra quem faz mais falta:

o homem que fora de casa combate

ou a mulher que dentro de casa protege os filhos

que mais tarde sairão de casa para combater?

Não há resposta e nunca houve resposta,

dentro ou fora de Sarajevo».

[6] «E sim, agora, neste instante: Admeto, o esposo
da nossa heroína,
atingido por uma bala inequívoca, uma
bala de cima,
cai à porta de casa como se o corpo recebesse
encomenda maligna
deixado por carteiro de nome: morte certa,
morte exata,
morte de resto zero.
Uma bala má ali está, então, alojada
na casa mais casa que um homem tem
-a sua cabeça, o seu cérebro-
e Admeto, no centro de Sarajevo,
não tem outra opção senão deixar-se morrer (…)

Porém o Deus Apolo tem ideias distintas,
não concorda com esse sistema antigo-
o nobre noivado entre causa/efeito;
não apoia essa necessidade que um corpo
moribundo tem
de solo, descanso,e nada..»

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26/02/2015

NAVEGANDO POR MARES DE TRAMPA: “Combateremos a Sombra”, de Lídia Jorge

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de maio de 2010)

Na passagem dos anos 1970 para a década seguinte, dois poderosos nomes surgiram na ficção portuguesa: António Lobo Antunes e Lídia Jorge. O primeiro tem se dedicado nos últimos anos a um fluxo ininterrupto de romances “totais”. Já a segunda, que estreou há trinta anos, com o talentoso O dia dos prodígios, tem sido menos prolífica. Sua obra mais recente é Combateremos a Sombra[1].

Na noite da virada do milênio, o psicanalista Osvaldo Campos atrasa-se no seu consultório para a festa do réveillon, o que acarreta o fim do seu casamento. Após um curto período de desagregação psicológica (chega a agredir a ex-mulher), ele volta à pacata rotina de atendimento dos pacientes, vivendo no local de trabalho, e adotando como divisa, numa atitude de tabula rasa com relação à existência pregressa, a afirmação de um dos muitos clientes não-pagantes que aceita, para desespero da sua secretária, Ana Fausta (uma personagem secundária memorável): “Professor, navego por dia mares de trampa, para conseguir caçar um, dois peixes”. A vida, então: uma travessia minimalista por mares de excremento ou de armadilhas e logros, conforme se queira entender a metáfora.

O dr. Campos tem uma “paciente magnífica”, a sua “visita da noite”, Maria London, filha de um magnata. Um dia, descobre que as elaboradas fantasias dela a respeito de navios de cruzeiro que aportam em Lisboa e nos quais o pai a embarca regularmente, são bem reais e correspondem a um submundo pesado de tráfico, bem nas barbas (ou com a conivência) das autoridades. Por outro lado, na noite do réveillon que virou sua vida do avesso conhecera casualmente uma angolana no prédio onde fica seu consultório. Ao longo dos meses nos quais a narrativa se desenvolve, o incauto psicanalista (que a acreditava manteúda de um sujeito poderoso) descobre que ela é testemunha de vários crimes (trabalhava numa clínica onde iam se aliviar os cagões, aqueles que conhecemos como mulas de drogas, e um deles morreu por excesso de carga; além disso, ela fotografou trabalho escravo de imigrantes ilegais), e fora poupada pelos seus executores (um deles, colega de juventude), que a mantiveram escondida num apartamento.

Os dois iniciam uma ligação amorosa e, após enviá-la para um refúgio seguro em Roma, o dr. Campos resolve enfrentar o submundo que descortinou através das revelações de Maria London e de Rossiana, a sua amada, elaborando dossiês e entrando em contato com organizações internacionais, com a Interpol, a polícia, órgãos da imprensa e até a Presidência.

Como sempre, essa atitude quixotesca tem resultados desastrosos e o dr. Campos nunca reencontrará Rossiana em Roma. Em contrapartida, permite a uma das maiores autoras da atualidade encarar de frente o novo milênio e seu desafio à imaginação literária. Combateremos a Sombra é um senhor romance.

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TRECHO SELECIONADO

Abaixo temos um relato de Rossiana e de sua visão-de-mundo como fotógrafa:

“Emprestaram-me uma Yashica, e num papel exposto numa parede, inscreveram-se dez rapazes e cinco raparigas. Como dizer? O que eu sabia pouco mais era do que aquilo que eles sabiam, mas entendemo-nos. Não há nada como crianças a ensinarem crianças…Eu disse-lhes mais ou menos isto: Pois podemos chamar àquilo que vamos fazer, a forma como vamos trabalhar e aos objetos e ângulos que vamos escolher, tudo o que voa… Malta, disse eu, o pessoal vai andando pelo nosso bairro adiante, e lá onde encontra um objeto com interesse, uma situação entre gente que diga alguma coisa com jeito, um sapato bonito na lama, uma gaiola sem pássaro lá dentro, uma coisa assim esquisita por ser bela e dê vontade de levar para casa, e dê vontade de a gente se agarrar a ela, a malta fotografa para ver como é. Mas para que se perceba que voa, tem de ter à mostra o local de onde parte… Daqui de onde estamos, todos vemos como a vizinha tem um vaso com uma azalea à janela. Se só fotografarem a azalea, é uma merda de usar em todos os lugares, até numa estufa de flores, não vale a pena. Mas se a azalea tiver junto dela o cortinado puído da janela da vizinha, a azalea voa, a azalea diz: Porra, eu sou a harmonia no meio das coisas rotas e puídas, eu voo. Compreenderam o que diz a azalea? TUDO O QUE VOA será assim…. Uma rapariga fotografou a língua dum homem velho de olhos fechados a tomar a hóstia dominical e eu achei que isso era digno de TUDO O QUE VOA, mas alguém tomou o efeito pela causa e foi acusar-nos de provocação e a fotografia teve de ser retirada… Mas ficaram os gatos com guizo a olharem para pássaros sobre telhados de zinco. Ficaram duas pernas de miúdo sujas de lama, puxando um carrinho. Ficaram dois ovos a cavalo num bife pousados sobre metade dum prato. Ficaram duas raparigas a comporem a gravata do pai tetraplégico. Ficaram duas rosas vermelhas, uma delas ainda em botão, plantadas num velho penico de esmalte onde alguém num tempo remoto tinha pintado um nome: Senhora…”

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NOTA

[1] Nota de 2015- Quando escrevi a resenha acima, comentei o romance a partir de sua edição portuguesa, pela Dom Quixote (2007); recentemente saiu uma edição brasileira pela Leya.

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10/02/2015

Carmine, o Curioso e a Senhora da Ficção: “Liga, Desliga”, de Colleen McCullough

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“Carmine havia acabado de completar seu primeiro ano na Universidade de Chubb quando Pearl Harbor foi atacado; então, ele postergou a faculdade e se alistou. Por puro acaso, foi transferido para a polícia militar e, depois que passou pela fase de tirar guarda e prender soldados bêbados, descobriu que amava o trabalho (…) Quando a guerra e o período de ocupação no Japão chegaram ao fim, ele era major, qualificado para completar sua formação na Chubb através de um programa de aceleração. Então, com um bom diploma embaixo do braço… ele decidiu que gostava mais do trabalho policial (…) Holloman não era grande o bastante para ter uma divisão de homicídios nem qualquer das subdivisões que as forças policiais das cidads grandes possuíam, então Carmine podia ser designado para todo tipo de crime. No entanto, assassinato era sua especialidade e ele contava com uma formidável taxa de sucesso: quase cem por cento; nem todos condenados, é claro.”

“Eu jamais teria me fixado nela se não houvesse desenvolvido tamanho fascínio por Carmine, o Curioso. Mas já que, apesar de toda a sua curiosidade, ele não é presciente… jamais me fez as perguntas que poderiam ter acionado a chave em seu cérebro teimoso.”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de fevereiro de 2015)

Falecida há alguns dias, aos 77 anos, Colleen McCullough era uma escritora que rompia fronteiras: muitos títulos de uma carreira prestes a completar quatro décadas tornaram-se best sellers (só Pássaros Feridos vendeu 30 milhões de exemplares), nem por isso menos apreciados por quem gosta de ficção que não seja mero entretenimento.

Se mesmo obras menores como A Paixão do Dr. Christian (1985)[1] ou A Canção de Troia (1998) podem ser lidas sem a sensação de desperdício de tempo, quando acertava em cheio, caso da já referida história do padre Ralph de Bricassart e Meggie Cleary (1977, seu segundo romance — a estreia se deu dois anos antes, com Tim), de Uma Obsessão Indecente (1981), do primeiro volume da notável heptalogia sobre o período pré-imperial da Roma Antiga (Primeiro Homem de Roma, 1990), ou ainda do delicioso e curto (para os padrões dela) As Moças de Missalonghi (1987) a australiana se mostrava digna da fidelidade de um leitor.

Após encerrar o ciclo Senhores de Roma, dedicou-se a desenvolver a série policial iniciada em 2006, com Liga, Desliga. A partir de Assassinatos Demais (2009), o protagonista, Carmine Delmonico, era alçado a capitão da polícia em Holloman (Connecticut); até 2013 já havia cinco de suas investigações — McCullough, lá no seu refúgio na Ilha de Norfolk, mesmo gravemente doente, continuou prolífica.

Quando um leitor mais experimentado se depara com a edição brasileira de Liga, Desliga[2], tudo parece contra o livro: embaixo do título, o apelativo “o jogo do assassino está apenas começando…”; na contracapa: “belas adolescentes estão sendo cruelmente assassinadas. Vale a pena mais um thriller de assassino em série?; ainda mais investigado por um detetive “dedicado e solitário como Carmine nos é (mal) apresentado na orelha? Mais um investigador disfuncional? Já não os há às pencas?

Ultrapassado esse estágio de má vontade, uma lida nas páginas iniciais proporcionará a primeira surpresa mcculloughiana: a identidade de Jimmy, acordando dentro de um congelador destinado aos cadáveres de animais que servem de cobaias para o Hug, renomado instituto de pesquisas neurológicas. Ali, partes do corpo de uma adolescente assassinada são casualmente encontradas. O ano é 1965 (Colleen utilizou suas experiências como neurofisiologista e o período em que viveu nos EUA) e os funcionários do Hug passam a ser os suspeitos do que se revelará uma sucessão (até então ignorada) de sequestros, estupros brutais e desmembramentos de moças de família, todas muito parecidas. Por causa da etnia (latinas, mulatas e negras), em plena época de distúrbios civis, os crimes (bem como o tipo de ciência praticado no Hug — aliás, focalizado com surpreendente ceticismo pela autora) despertam a fúria de grupos raciais militantes. Mas no centro do mistério está uma família tão marcada pela tragédia e certas taras quanto os Cleary de «Pássaros Feridos».

É gratificante acompanhar o (lento) desenvolvimento de Liga, Desliga, principalmente porque ela desilude quem procura um daqueles enredos em que os investigadores deslindam as ações e motivos dos criminosos, trocando-os em miúdo para os leitores (pelo contrário, aqui os agentes da Lei ficam “por fora” e fracassam, em larga medida). Entretanto, mesmo com todos os méritos da narrativa, caberá ao último capítulo (no qual o título se justifica), cujo único defeito é ser muito curto (poderia ser uma seção do romance), iluminar o conjunto, dando-lhe dimensão insuspeitada. Mesmo quem desconfiar da identidade do assassino levará um susto e tanto. É imperdoável revelá-la[3].

Portanto, se não tivesse escrito mais nada, a grande Colleen McCullough ainda ficaria como um dos melhores autores policiais contemporâneos. Contudo foi uma faceta a mais de uma legítima Senhora da Ficção.

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TRECHO SELECIONADO

“__ O problema é que você está neste caso há tanto tempo que já esgotou todas as probabilidades e não tem mais onde olhar, exceto para as improbabilidades.

__ Existe um viés religioso, e está ligado à raça!

__ Concordo, mas a religião não é o que interessa aos Fantasmas. O que interessa a eles é o fato de que são as famílias tementes a Deus que produzem o tipo de garota que eles querem.

__ Os Bewlee estão escondendo alguma coisa, têm de estar—Carmine resmungou.—Caso contrário, Margaretta não se encaixa.

__ Volte para o básico. Se você acha que os Fantasmas são estupradores, antes de assassinos, então você não está procurando por um fanático religioso de qualquer cor ou seita, cristã ou não. Está procurando por um homem ou dois que odeiam todas as mulheres, algumas mais do que outras. Os Fantasmas odeiam a virtude aliada à juventude aliada à cor aliada a u rosto aliado a outras coisas que não sabemos. Mas sabemos sobre a virtude, a juventude, a cor, o rosto. Nenhuma delas era totalmente branca, e nenhuma será, disso eu tenho certeza absoluta. Seu melhor grupo de amostragem é o das latinas católicas, só isso. As garotas são criadas um tanto imaturas para sua idade, estritamente supervisionadas e intensamente amadas. Você sabe disso, Carmine!… A resposta está nos elementos  básicos do caso.”

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NOTAS

[1] Cujo título original é A Creed for the Third Millennium.

[2] On, Off, que comento na tradução de Sibele Menegazzi (Bertrand Brasil).

[3] Desde O Assassinato de Roger Ackroyd creio que não há um final (e o foco narrativo) de romance do gênero que exija tanto discrição daqueles que já o leram.

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29/01/2015

MERLIN REVIVE: a Trilogia de Mary Stewart

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(o texto abaixo tem como base a resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de julho de 1994, com o título “Fôlego épico marca Trilogia de Merlin”)

Por terra e água voltará ao lar e ficará escondida numa pedra flutuante até ser erguida novamente pelo fogo. Assim tinham dito os antigos e teriam reconhecido aquele lugar como eu; ou como o pescador que voltara do Sobrenatural, admirado com os salões do rei das sombras. Ali a espada ficaria segura até a chegada do jovem que teria o direito de erguê-la (…) Larguei-a ainda enrolada no pano sobre a mesa de pedra e voltei pela lagoa. Os ecos encheram o ambiente e parei um pouco enquanto diminuíam, tornando-se um murmúrio. Naquele silêncio até minha respiração era ruidosa demais e parecia uma intrusão. Deixei a espada em sua longa espera silenciosa e voltei rapidamente à luz do dia…”

(trecho de As Colinas Ocas)

A inglesa Mary Stewart, nascida em 1916, chegou bem perto dos cem anos, mas foi um dos muitos nomes importantes da literatura a falecer em 2014. Sua obra de maior prestígio, a Trilogia de Merlin, está sendo reeditada pelo selo Hunter Books. Os três volumes fizeram muito sucesso quando lançados pela ed. Best Seller no início dos anos 1990[1], em traduções de Vera Maria Marques Martins, Marcília Britto e Evelyn Kay Massaro. São eles: A caverna de cristal (“The crystal cave”, 1970[2]), As colinas ocas (“The hollow hills”, 1973) e O último encantamento (“The last enchantment”, 1979).

Com relação ao resto de sua produção paira aquela reputação ambígua das autoras (Victoria Holt, por exemplo) que exploraram mistérios góticos anacrônicos, mas ao que parece ainda bem atrativos, unindo suspense e alto grau de romantismo, cuja forma mais popular é a daqueles livros vendidos em banca, “Júlia”, “Sabrina” e similares. É o caso de “Nine coaches waiting” (1958), “The moon-spinners” (1962) ou “Touch not the cat” (1976)[3].

Também não se deve esquecer que o êxito da Trilogia no Brasil veio no bojo de um daqueles periódicos recrudescimentos do interesse pelo ciclo arturiano; nesse caso, o maior responsável foi o ciclo As brumas de Avalon (1983), de Marion Zimmer Bradley— e também o filme Excalibur, de John Boorman, lançando em 1981—, cuja maior consequência, uma vez que se voltava para uma figura comumente secundária na trama geral, a fada Morgana, foi ter criado uma febre pela releitura do papel de outros personagens que orbitavam em torno de Arthur e dos cavaleiros da távola redonda; tanto é assim que, paralelamente ao trio de romances de Mary Stewart em torno do mago Merlin, a Best Seller publicava a Trilogia de Guinevere (1987-93) da norte-americana Persia Wooley[4]. De modo curioso, são as mulheres que capitaneiam as releituras da velha lenda patriarcal (talvez concretizando a farpa verbal lançada por Morgause a Merlin: “Tem mesmo certeza de que estais protegido da magia das mulheres?”)

A singularidade da série de Mary Stewart está em apresentar a juventude de Merlin, visto sempre como homem maduro ou mesmo um ancião. Os três volumes fazem uma impressionante reconstituição de uma época, o século V d.C., quando, na Bretanha (Inglaterra e parte da França) confluíam tradições romanas, celtas e bárbaras, iniciando assim a Idade Média.

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Merlin é o filho bastardo de Ambrosius, o homem que inicia o trabalho de unificação da Bretanha, continuado por seu irmão Uther e consumado pelo filho deste, Artur. Criado longe do pai, desde a infância Merlin tem visões que o diferenciam (e uma aparência “morena”, a qual, como acontece com a Morgana de Brumas de Avalon, o marginaliza de seu povo). A caverna de cristal gira em torno do reconhecimento de Merlin por Ambrosius e de como este utiliza os dons do filho para sua vitória. Após sua morte, Uther tem uma noite adúltera com Igrayne, que gerará Artur, o qual será escondido por Merlin e cuja educação é o centro de interesse (bem absorvente) de As colinas ocas; O último encantamento, por sua vez, fixa a decadência dos poderes de Merlin — após o triunfo de Artur — e seu amor por Nimuë (o ex-pupilo fica espantado: “Pensei que você fosse um sábio”, ao que ele retruca: “Porque sou um sábio, sei bem demais que o amor não pode ser contestado. Aconteça o que acontecer daqui por diante, é tarde demais...”), que ficará como sua sucessora.

São 1.300 páginas de um fôlego épico (malgrado o narrador não ser um guerreiro) que inexiste, por exemplo, nos quatro volumes de Marion Zimmer Bradley, cujo maior defeito é banalizar a grandiosa (e ao que parece inesgotável) lenda através de cenas domésticas que parecem recortadas do cotidiano norte-americano contemporâneo. Na trajetória de seu Merlin, Stewart compõe um mapa ficcional da Bretanha, explorando cada parte dela com uma riqueza de detalhes geográficos e topográficos e um emaranhado de personagens, e isso incrivelmente não atrapalha em nenhum momento a leitura. E assumindo a voz de Merlin (o relato é em primeira pessoa), cria um personagem fantástico, e não só ele. Há uma grande vilã, Morgause, meia-irmã de Artur, que tem um filho com ele e envenena o seu tutor, cumprindo um papel que geralmente é atribuído a Morgana (como no belo filme de John Boorman), e o próprio único e eterno rei aparece mais aprofundado e interessante que em outras versões, nas quais parece mais uma marionete do destino.

Difícil dizer qual o melhor volume. Cada qual apresenta sua voltagem de emoção e ritmo próprio, e portanto todos são memoráveis, embora o leitor saia meio desconcertado da leitura do terceiro (por causa do final)[5], que ainda assim apresenta a passagem mais extraordinária de toda a massa narrativa, quando Merlin é enterrado vivo e acorda na sua tumba (a caverna onde foi instruído na magia), sem poderes:

    “…e eu continuava deitado no estranho limbo criado por um corpo inerte e uma mente ativa (…) Não havia a menor esperança de mover as pedras que selavam minha tumba, mas eu talvez conseguisse atrair a atenção de alguém que passasse por ali. Esse local era um santuário desde tempos imemoriais e pessoas do vale subiam regularmente o monte levando oferendas para o deus que guardava a fonte sagrada ao lado da caverna. Era bem possível que agora esse ponto tivesse se tornado ainda mais santo, porque Merlin, o profeta do Grande Rei, mas que primeiro fora o médico dessa gente humilde, estava enterrado ali…”

Bela e apurada como entretenimento e narrativa, rica como alegoria místico-política de um momento-chave da história ocidental (em “As colinas ocas”, Merlin nos diz: “… fui obrigado a continuar cuidando da capela. Imagino que qualquer outro, como o Velho, manteria o lugar para seu próprio deus, mas esperei apenas que qualquer um o ocupasse…”), a Trilogia de Merlin deixa a sensação (quiçá injusta) de que as brumas exploradas posteriormente não passam de fumaça diante dessa construção romanesca de primeira.

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(uma versão do texto acima foi publicada no Letras in.verso e re.verso, em 28 de janeiro de 2015, VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/01/merlin-revive-nova-edicao-da-trilogia.html)

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[1] A autora acrescentou posteriormente dois livros à série, The Wicked Day (1983) e The prince and the pilgrim (1995)

[2] Traduzido no Brasil também como “A gruta de cristal” (ed. Record)

[3] Mas há vários outros de sua autoria traduzidos no Brasil. Considero “Não toque no gato” (que li numa edição do Círculo do Livro)  muito bom, dentro do seu gênero.

[4] De resto, todos esses ciclos têm sua origem na mais prestigiada de todas as retomadas das lendas arturianas, uma das obras literárias mais amadas do século passado: a tetralogia “O único e eterno rei” (1938-1958 — há ainda um volume póstumo, publicado apenas em 1977), de T.H. White, cujo falecimento em janeiro de 1964, aos 57 anos.

[5] “Agora chegamos à parte de minha crônica que é a mais difícil de contar. Se é ou não verdade que o cometa com cauda de dragão veio anunciar o fim dos poderes mais elevados do mago Merlin, como afirma a crença popular, o fato é que não tenho certeza se o que lembro foi real ou um sonho.”

Lady Mary Stewart

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27/01/2015

O atulhamento e o vácuo do universo familiar: “Fôlego”, de Rafael Mendes

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“Em que parte da memória estão armazenadas as palavras exatas que ele falava depois de umas cervejas no sangue, quando decidia reunir a família na cama de casal e, através de promessas sem sentido, nos fazia chorar?” (trecho de Fôlego)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de janeiro de 2015)

“Você há de concordar comigo quando afirmo que as nossas lembranças mais significativas, as minhas, as suas e as de Mateus, estão sempre atreladas ao pai, ele estivesse presente ou não…”

Assim Manuela se dirige a Pedro, filho do pai com outra mulher (ele manteve duas famílias paralelas), incitando-o a colaborar na reconstrução do passado, que até então parecia ser a tarefa de Mateus, narrador da maior parte de Fôlego, estreia num texto mais longo do paulista Rafael Mendes, 31 anos, após um livro de contos, “A Melhor Maneira de Comprar Sapato”.

O relato de Mateus (entremeado com curtas intervenções da irmã, a partir do enterro do pai — que cometera suicídio) pontua a “derrota” desse estranho pater familias, incapaz de sair do círculo sufocante da dependência dos sogros, vivendo num puxadinho ligado à casa deles, encanador mais por bico do que por competência — segundo o filho, “E além de tudo era um mau encanador”[1]; na visão da rebelde Manuela, “Pai, o senhor tá fedendo a merda; se fosse pela sogra, como ela confidencia, já viúva, à filha, casada com ele (e evangélica fervorosa), tudo seria diferente, contudo a decisão do marido de “ajudar o genro” amarrou o destino de todos: “Se o Paulo não fizesse isso, contra a minha vontade, talvez você estivesse em Curitiba uma hora dessas, e a história seria outra…”, instaurando uma onipresente sensação de falta de espaço, de corpos e fados se entrechocando, tendo como cristalização a asfixiante asma do narrador.

A história não pode ser outra, o vivido é um só. Fôlego mostra que a história, todavia, é sempre outra, mesmo com esse sufoco todo, daí a outra família, a existência paralela levada em outra cidade, e sobretudo o suicídio desconcertante, que coloca a todos em xeque. E enquanto Manuela escolhe o caminho do confronto, a partir da orientação sexual, Mateus tentará dilatar esse mundo de confinamento e aperto com uma trajetória “proativa”, como se costuma dizer, ascendente. Malgrado esse projeto, otimista e frágil, a história sempre é outra, e sua narrativa terá de ser completada pelos irmãos, tarefa em aberto, ligada ao futuro enraizado a esse passado, a esse pai fugidio e esquivo, presença-ausência, eterno retorno…

O ponto fraco da novela de Rafael Mendes reside numa certa falta de confiança no leitor: Mateus e Manuela às vezes atropelam a nossa leitura e já querem nos impor, com um discurso quase didático, a “moral da fábula”, as conclusões que nós mesmos poderíamos tirar desse universo de afetos no ambiente da periferia da Grande São Paulo. Um exemplo: “Alguém precisava contrabalançar a minha postura egoísta, a minha intempestividade, e esse alguém só podia ser ele. Talvez seja por isso que nesses dias nos mantivemos distantes um do outro. Só mesmo Mateus para aguentar tudo calado, pacientemente, ainda que lhe sufocasse. Agora, no entanto, eu entendo que aquela postura era um embuste, um disfarce, e que na verdade quem mais sofreu com a situação que vivenciamos foi o Mano.”!!??

O vigor do texto está justamente em que, assim como os personagens se recusam a ser apenas os partícipes de uma “só história”, unívoca e coesa, as palavras ajudam a compor um quadro no qual o que é deixado à sombra se impõe — as vidas dos avós, da mãe (diga-se, de passagem, que um dos méritos de Fôlego é se furtar totalmente ao vezo redutor, para não dizer caricatural, com que o fervor evangélico é comumente retratado), da outra mulher do pai e, claro, deste, que por si só valeria a leitura. E um dos momentos mais bonitos da nossa ficção mais recente é justamente a apreensão, num pequeno haicai narrativo sobre a aparência desse pai, no último encontro com o filho, que conjuga seu “fracasso” e o seu “mistério”: “Na lanchonete, meu pai tomava cerveja no balcão. Pediu um x-salada para mim e mais uma garrafa para ele. O lugar estava cheio de gente (…) Um cheiro de fritura, uma faladeira, um abafamento que sobrevinha da chapa quente. Eu não queria dizer nada e também não queria ouvir. Meu pai tomou um gole. Disse que se sentia cansado, que trabalhou o sábado inteiro, que no dia seguinte começaria um novo serviço. Vi suas têmporas inchadas, sua barba por fazer, as olheiras, os fios de cabelo branco. Não estava feio, mas nas já não era bonito.”

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TRECHO SELECIONADO

“Ela nunca me disse nada a respeito disso, mas para mim não é absurdo que minha mãe tenha se apaixonado pelo meu pai à primeira vista (…) Frequentando os botecos, meu pai já conhecia as mulheres solteiras do bairro. Mesmo sem querer, ele as cativava, atraía para si os olhares. Até mesmo as mocinhas de família e algumas donas de casa reparavam nele. Meu pai falava pouco, apenas o necessário. Embora modesto, de gestos contidos, ele conservava um charme natural; era diferente, misterioso, convidativo. Esse jeito dele chamou a atenção também de minha mãe. Não foi com dificuldade que ela ouviu os elogios dele, nos dias seguintes ao serviço feito na casa de meu avô. Meu pai a acompanhou ao colégio algumas vezes; fazia o favor de carregar as sacolas de frutas se topasse com minha mãe na feira. E em cada oportunidade ele articulou um  gracejo, um comentário breve, aludindo à beleza dela: a pele branca, os traços finos, os olhos claros. Minha mãe não demorou a gostar daqueles elogios, a esperar por eles, a andar devagar pelas ruas do bairro, na expectativa de encontrar meu pai…”

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NOTA

[1] Ser um “mau encanador” de certa forma contraria o atavismo sufocante das frases imediatamente anteriores à passagem: “Para mim, meu pai já nasceu encanador. Já nasceu com as mãos sujas, com o macacão fedorento, carregando aquela caixa de ferramentas pesada.”

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08/01/2015

O LIVRO DE HENRIQUE: um grande romance de Heinrich Mann (1871-1950)

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“Ele avança imperceptivelmente. Tudo lhe serve, seus esforços e os dos outros que o querem expulsar ou matar. Certo dia perceberão que ele é famoso, e marcado pela sorte. Mas sua verdadeira sorte é sua determinação natural. Ele sabe o que quer, por isso distingue-se dos indecisos. Especialmente, ele sabe o que é bom, e o que a consciência dos seus iguais considera certo. Isso lhe dá, claramente, uma posição singular. Nenhum daqueles que fazem seu jogo nesse ambiente denso está tão seguro das leis morais quanto ele. Não se deve buscar em outra parte a origem de sua fama, que jamais empalidecerá…”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de dezembro de 1993)

Thomas Mann é o maior escritor do século. Seu irmão Heinrich, embora mais conhecido por causa de O anjo azul (Der Blaue Engel, 1930), a clássica adaptação de Josef von Sternberg de seu Professor Unrat (1905), também era grande, como prova A juventude do rei Henrique IV (“Die Jugend des Königs Henri Quatre”, 1935 — que comento em versão de Lya Luft). O lançamento da Editora Ensaio certamente é uma das traduções mais importantes deste ano.

Henrique foi um dos protagonistas da guerra religiosa que dividiu e empobreceu a França nos séculos XVI e XVII, envolvendo os grandes clãs nobres da Europa. Morta Jeanne, sua mãe, fanática huguenote (como eram chamados os protestantes franceses), ele é atraído para a Corte parisiense pela rainha-mãe, Catarina de Médicis (que envenenou Jeanne), com cuja filha — Margarida de Valois — se casa. Dias depois ocorre a famosa Noite de de São Bartolomeu, na qual os protestantes são massacrados. Henrique é mantido prisioneiro na Corte. Os filhos de Catarina vão se sucedendo no trono, e o reinado de Henrique III transforma o Louvre num palácio gay, com orgias e disputas de favoritos…

A teia de acontecimentos é contada com vivacidade ímpar, com discretas participações de Nostradamus e de ninguém menos do que Montaigne, que se torna amigo do futuro rei e influencia seu modo de pensar, baseado na tolerância e no conhecimento empírico das motivações humanas.

Tal resumo asséptico e praticamente insípido não dá conta do romance riquíssimo que é Henrique IV. Heinrich Mann surpreende um momento histórico em que as massas eram manipuladas via fanatismo religioso, como acontece em épocas de insegurança e miséria (a nossa, por exemplo). Por detrás dessas disputas intolerantes há sempre o espectro do poderio econômico e político (as outras potências europeias, Espanha e Inglaterra, fomentam a maldade de Catarina porque lhes é útil e conveniente). Cada seção do livro se encerra com uma moral dos acontecimentos e da evolução pessoal de Henrique, a quem conhecemos desde a infância. Sua maturidade e morte são narradas em outro volume, publicado em 1938.[1]

Sem o impacto que causou nos anos 1930, ainda assim é enorme a impressão que causa no leitor de hoje (malgrado o espinhoso e desajeitado texto em português, que parece aspirar a que concordemos com a opinião de Nigel Hamilton de se tratar de um empreendimento linguístico intraduzível), pela irreverência paródica de certos trechos, mas em especial pelo seu lado bem-humorado, cheio de vida. Elíptico, Mann realiza um fabuloso tour-de-force com a narração em terceira pessoa, que desliza para a própria fala ou pensamento dos personagens, quer individualizados, como Henrique ou Margarida, por exemplo, quer em momentos coletivos (como o pensamento do povo em momentos culminantes da narrativa: as núpcias, o massacre).

Um empreendimento cada vez mais difícil, só tentado vez em quando por alguém da estatura de uma Susan Sontag (em seu O amante do vulcão, outra grande tradução de 1993): o casamento entre o prazer de contar fatos passados e o prazer de ser significativo. Um raro prazer.

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TRECHO SELECIONADO

Henrique virou-se bruscamente. Não ouvira nada, mas entrementes Catarina de Médici entrara bamboleando, e fora até o centro do quarto. Ele reconheceu apenas seu contorno, pois estava ofuscado pela luz, mas ela avistara o rapaz e o examinava. As mãos dela estariam escondidas nas pregas do vestido? Vestia preto, e começou a falar com ele, na sua voz gasta.  “Mas ela está viva!” pensou o amargurado filho da morta. Com ódio ouvia-a protestar sua grande dor pela perda de sua boa amiga Jeanne, e que estava feliz por finalmente tê-lo ali consigo. Ele acreditou, mas decidiu: sua chegada não seria um bem para ela. Seus olhos tinham-se acostumado à claridade mais débil. Realmente, ela ocultava as mãos! Então ainda meteu a mão de Deus na sua fala. O filha da morta segurava a língua com os dentes, do contrário teria exigido: madame, deixe-me ver suas mãos! Mas ela fez isso! Tirou de seu vestido as mãozinhas gordas que ele queria ver, e depositou-as sobre a mesa diante da qual se sentou.

    Henrique deu uns passos irados, rápidos e impensados. A velha rainha tinha à sua frente a imensa mesa larga, atrás dela quatro fortes suíços com longas lanças. Era fácil ficar calma, a voz bonachona:

__ Como tenho pena de você, meu rapaz! Dezoito anos, não é, e já duplamente órfão! Pois encontrará em mim sua segunda mãe, que orientará seus passos, os passos dos jovens muitas vezes são apressados demais. Eu sei que vai me agradecer, meu jovem, sua natureza é viva e natural. Nós dois merecemos nos darmos bem.

     Era cruel. Sobre a mesa adivinhava-se um invisível copo de veneno, os dedinhos da velha esgueirando-se até ele, enquanto o abismo falava através dela. Era um feitiço, era preciso rompê-lo! Certas palavras e sinais teriam talvez feito aquele rosto cor de chumbo com as bochechas caídas rebentar e desmanchar-se no ar. Mas Henrique naquele instante tenso fez coisa diferente: descobriu que a assassina de sua mãe era digna de comiseração- como no fundo do poço do Louvre, o resto da torre que sobrava sobre os séculos soterrados. Mas em breve será removida. Talvez afinal ela faça a mesma coisa. Ela ou sua linhagem construíram a fachada bonita do palácio ao sol do meio-dia. E ela pessoalmente ainda está aí, como o passado louco e mau. O que é ruim mas muito velho acaba sendo ridículo, ainda que deseje matar. Apesar de seus tardios crimes, desperta misericórdia pela sua impotência, e decadência!

     O jovem Henrique exclamou em voz clara e confiante:

__ Como são verdadeiras suas palavras, madame! Um dia lhe agradecerei, certamente.  Que meus atos sejam sempre da mesma naturalidade que os seus! Farei esforços para agradar a uma tão grande senhora…”

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NOTA

[1] “Die Vollendung des Königs Henri Quatre”, ainda inédito em português.

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06/01/2015

EM DIREÇÃO AO QUE IMPORTA: os belos haicais de “29”, de Marcos Messerschmidt

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“trinta e quatro dias numa clínica,

quarenta dias nos bosques do Japão,

onze meses sem beber.  

vinte e nove anos

enterrados em mim.”  

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de janeiro de 2015)

Na minha lista de destaques de 2014, publicada na semana passada, alguns autores (como Thiago Roney, Leonardo Villa-Forte, Rafael Sperling, todos com 29) beiravam os 30 anos[1]. O gaúcho Marcos Messerschmidt já alcançou a marca, mas antes, como um rito de passagem, escreveu os 70 haicais — emoldurados por dois poemas mais longos — que compõem 29. “Dia de chuva /bom começo/bom fim para um haicai.

Em seis seções, a forma japonesa consagrada, essencialista, muito focada na contemplação da natureza, e que teve um mestre como Bashô (1644-94: “Calou-se o sino/ O que chega a mim agora/ é o eco das flores),  é inteligentemente mesclada a notações urbanas, a clínicas de reabilitação, a autores-fetiche, cuja marca seria uma antípoda prolixidade, caso de Roberto Bolaño, os beatniks (como Kerouac ou Ginsberg), Bukowski, para não falar em Baudelaire e do santo padroeiro da abertura, o mais expansivo e derramado, Walt  Whitman (“poeta da relva/obrigado/ por me ensinar /a abraçar /a humanidade”; mais adiante: “em três linhas/ sou todo[s] /sou invencível”).

Já há tempos vem me enfadando o constante (e já estereotipado)  apelo à “literatura” como matéria do próprio fazer literário. E, Bolaño (malgrado sua culpa no cartório com relação à famigerada metaficção)[2], Whitman e especialmente Baudelaire à parte, nunca fui muito fã dos autores caros a Messerschmidt (“embriagado/ entre Bukowski/ e Baudelaire, lemos na seção Trêmula Cicuta, e eu me pergunto se não é misturar vinho fuleiro com o melhor champanhe — todavia, parece que o autor de Cartas na rua é irresistível para jovens escritores). Mesmo assim, o talento do poeta estreante logrou alguma alquimia secreta e imponderável, talvez o uso de uma cicuta nada trêmula no seu conciso discurso lírico,  conseguindo driblar miraculosamente, na maior parte de 29, os déjà vu, cacoetes geracionais e até mesmo a geralmente insuportável infestação de referências literárias e metalinguísticas (que, no livro, por causa da destreza de toque, se reduz a um suave veneno). haicaicesarea tinajero

Na primeira seção, Flores do Dilúvio, “a flor ensaia o absurdo/ descola do galho /espalhando multidões, e é onde a natureza parece mais presente, junto com os  “chamados irresistíveis da rua; na segunda, A Caminho da Barbearia, a ênfase nas referências começa a ser mais evidente, em meio a versos fantásticos, mesmo com quebra da forma usual (“o belo amigo coça sua melhor barba ), entretanto, como se afirmará na seção seguinte, Trêmula Cicuta, e creio que acabará tornando-se um dos haicais mais citados do livro, “encontro a forma/ nem redonda/ tampouco enquadrada”, espelhando uma rebelião vandalírica mais agônica: “maldigo o pai/ amaldiçoo o filho/ espírito não me contém; o quarto conjunto, Há Pouco, também tem como abertura um haicai que nasceu com vocação para citação: “pensei/ que fosse morrer/ era só a vida, e entre alusões até mesmo a personagens de Detetives Selvagens (para ser mais preciso, a mais-que-procurada poeta das garatujas,Cesárea Tinajero), temos momentos lindos: “o vaso quebra/ estilhaços/ de haicais, ou ainda: “em casa/ espera o mar/ fio solto da rede”, e eu penso que o admirador de Whitman tem uma dicção elíptica mais afinada com a nada garatujal Emily Dickinson, de todo modo a seção tem um fecho de ouro, um dos grandes momentos do lirismo brasileiro mais recente: “estávamos lá/ há pouco/ eis aí o símbolo”. Talvez por esse motivo, considero Disseca-se a seção mais inexpressiva de 29 — ainda bem que há o poema final, Still Beating, o qual começa assim: “nesta cidade baixa/ ensaio o voo torto/ em direção ao que me importa”. O encanto de fazer o percurso nas asas do voo torto do agora trintão Marcos Messerschmidt é que aquilo importa a ele passa a valer para nós também.

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TRECHO SELECIONADO

Um haicai com um quê à Manoel de Barros:

“perto de ti, rio

sou menino

deságuo maturidades”

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NOTAS

[1] VER https://armonte.wordpress.com/2014/12/30/livros-de-2014/

Lembrando que, na mesma lista, Antônio Xerxenesky, que aniversariou em dezembro, lançou seu F ainda com 29 anos, e que Débora Ferraz está com 27.

[2] VER https://armonte.wordpress.com/2013/07/13/estrela-cadente-roberto-bolano-o-visgo-da-literatura-e-o-desgaste-da-aura-de-um-autor/ Charles-BaudelairewaltwhitmanCharlesBukowski

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