MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/03/2015

A QUESTÃO É ESTA, NÃO HÁ OUTRA: GONÇALO M. TAVARES E A TRAGÉDIA DA SOBREVIVÊNCIA

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«Os acontecimentos que o céu nos proporciona manifestam-se sob as mais diversas formas; e muita coisa acontece, para além de nossos temores e suposições; muita vez o que se espera, nunca sucede; e o que nos assombra, realiza-se com a ajuda dos deuses» (Eurípides, Alceste)

«Não se trata já de intervir no destino,

esse sentido abstrato para onde antigamente

                  [caminhavam as coisas

(como se fosse um plano inclinadíssimo).

Trata-se, sim, de algo bem mais concreto

                  [e ofensivo:

uma tentativa de intromissão no normal

                  [funcionamento

dos órgãos humanos (…)

Que intervenham no vago destino mas não

                  [em vísceras vivas… »

(Gonçalo M. Tavares, Os velhos também querem viver)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de março de 2015)

Era de se esperar que um autor tão prolífico como Gonçalo M. Tavares mostrasse sinais de arrefecimento. No entanto, Os velhos também querem viver (Editora Foz) prova que sua inventividade continua afiada: trata-se de um poema narrativo, em cinco partes (além de prólogo e epílogo) que segue os acontecimentos de Alceste —a mais antiga (encenada pela primeira vez em 438 a.C.) entre as tragédias preservadas de Eurípides—, ambientando-os em Sarajevo durante o cerco pelo exército sérvio (1992-96), guerra recente que pulverizou a Iugoslávia[1].

O protagonista, Admeto, é atingido por uma bala, nos azares da refrega, e deve morrer[2]. O deus Apolo, não concordando com o «nobre noivado entre causa-efeito» exige da morte exceção para seu protegido. Seu desejo será atendido se alguém se oferecer a substituir o morto. Todos, inclusive os pais de Admeto, se recusam, mas sua esposa, Alceste, aceita o sacrifício. Moribunda, faz com que ele prometa nunca colocar outra mulher dentro de casa.

Por essa altura, Hércules chega a Sarajevo. Admeto é conhecido por sua hospitalidade e esconde o luto que há na casa por Alceste, o que escandaliza servos e cidadãos (há um Coro, composto de gente mutilada pela guerra), ainda mais que o famoso herói se revela um fanfarrão, bebendo e festejando à larga. Um dos servos, num momento de revolta, revela o ocorrido e ele, envergonhado, se propõe a resgatar Alceste da morte. Acontece que ele a traz de volta sob um véu, sem se dar a conhecer, e pede que Admeto a receba, em flagrante quebra da promessa solenemente feita. Hércules o admoesta: «Qual o sentido do sacrifício de Alceste?/Qual o sentido de ela te dar a sua vida se depois tu/vivo/ficas a lamentar-te de o estar?» Ou seja, mais que sobreviver, “viver” é trair os mortos.

É nessa linha, também, o embate—durante os funerais de Alceste—entre Admeto e o pai, Feres. O filho acusa o pai de covardia por não ter se oferecido em seu lugar, o pai não entende por que não deveria continuar a viver, mesmo velho, com poucos anos pela frente. Heroísmo, códigos de honra, afetos e laços entre as gerações ficam em xeque diante do apego à sobrevivência (ainda mais numa cidade em ruínas, onde a morte é presença diária): «Aos mortais Apolo, o deus, pergunta/um a um, como num mero interrogatório policial:/Queres viver?/Sim, todos respondem, Sim, queremos viver!//E a questão é esta, não há outra… » Diga-se, de passagem, que o final “feliz” a diferenciar Alceste de outras tragédias (tornando sua reputação canônica um tanto quanto problemática) ganha um cunho impiedosamente irônico em sua nova versão (para ser franco, nem o final da peça de Eurípides, «a volta feliz de Alceste»–estas as últimas palavras da peça[3]—, apesar do reencontro dos esposos proporcionado por Hércules, me parece tão auspicioso assim, ainda que se furte à mortandade habitual nas obras do gênero—não dá para apagar os acontecimentos anteriores, e principalmente a quebra da promessa em nome da hospitalidade, para não falar da própria situação inicial[4]).

O entrelaçamento de um poderoso mito grego (com importantes desdobramentos éticos), daqueles que fundamentaram a civilização europeia (e ocidental, por extensão), com um episódio histórico (Sarajevo, em plena consolidação da União Europeia) cuja maior consequência foi desvelar as fraturas (para não dizer a falência) desse projeto civilizatório, que não resolveu dilemas recorrentes, em particular a guerra e as distinções de classe e de gênero (no caso de Admeto, até o privilégio de ter alguém para morrer em seu lugar[5]), é um grande trunfo de Os velhos também querem viver.

Entretanto, o que impressiona fortemente é a exatidão milimétrica da linguagem, que recria Eurípides num compasso à João Cabral de Melo Neto, desde a «bala inequívoca» que atinge Admeto e se aloja «na casa mais casa que um homem tem/a sua cabeça, o seu cérebro»[6]: «Os velhos, note-se, sempre pareceram formas/humanas/de, em plena vida, se publicitar a morte;/formas experientes de anunciar algo que/se aproxima/por baixo, por cima, por todos os lados».

Deuses e semideuses estão presentes na Sarajevo do genial autor português (nascido em Angola). Nem eram necessários: a vida nua e o arbítrio do destino e dos homens são o que há de mais constante na existência.

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[o texto acima foi publicado no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, em 25 de março de 2015, VER:

http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/03/a-questao-e-esta-nao-ha-outra-goncalo-m.html]

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TRECHO SELECIONADO

«De fato, se existissem instrumentos técnicos

capazes de transformar a tensão do cortejo

                      [em energia explosiva,

toda a cidade de Sarajevo iria pelos ares,

e Sarajevo assim não precisaria de inimigos,

bombas ou cerco: bastaria um sacrifício,

e a insatisfeita perplexidade que nos outros

                     [daí resulta,

para a cidade colapsar e se render.

 

O tremor não vem, pois, do cansaço ou da carga

                     [física

de quem carrega o caixão;

um morto pesa, estranhamente, na direção oposta,

fenômeno que vai contra os preconceitos da  velha

                    [Física

e muitos outros.

Um morto pesa para cima, faz força no sentido

                    [do solo para o céu;

como se imóvel saltasse, ou quisesse saltar,

dali para o que está no topo do nada, esse nada

                    [que existe,

mas no lugar mais afastado.

A sensação, pois, de que o transporte de um morto

                    [tem limites simbólicos

e não apenas de linhas traçadas no chão:

é necessário descanso, mesmo para os que

                   [passaram para aquele lado

onde não há cansaço».

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ANEXO

Abaixo vão alguns trechos marcantes de Alceste: quando Admeto fala de sua situação ao coro; quando o seu pai, Feres, contesta suas recriminações; e, por fim, aquele belo recurso do teatro clássico, em que uma personagem secundária (e mais “comum”) narra para nós as ações de um protagonista.

«Amigos, a sorte de minha mulher é, em minha opinião, mais feliz do
que a minha, embora pareça o contrário. Nenhuma dor a atingirá jamais e
de muitos sofrimentos saiu gloriosa. Eu, porém, que já devia ter morrido,
escapei ao destino para arrastar uma vida miserável; compreendo-o agora.
Como poderei eu transpor a entrada desta casa? A quem dirigirei a palavra
ou quem me saudará, que possa alegrar a minha chegada? Para onde me
voltar? A solidão da minha expulsar-me-á, quando diante dos olhos eu
tiver o leito vazio da minha mulher e as cadeiras em que se sentava, e sob o
teto um solo coberto de pó. E os meus filhos, lançando-se sobre os meus
joelhos, hão de chorar a mãe, enquanto os servos lamentarão a boa senhora
que a casa perdeu. Eis o que se passará no interior da minha casa. Mas, no
exterior, os esponsais dos Tessálios e as reuniões de mulheres hão de
impelir-me de novo para o palácio; não suportarei ver as companheiras de
minha mulher. E qualquer inimigo meu poderá dizer estas palavras: “Vede
como ele vive na vergonha, ele que não ousou morrer, dando em troca
aquela que desposou para escapar cobardemente ao Hades. Julgará ele,
depois disto, que é um homem? E ainda odeia os pais, por não ter querido
morrer.” Esta a fama que há de somar-se à minha desgraça. Que vantagem
terei eu em viver, amigos, prejudicado na reputação e mergulhado na
infelicidade?»

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«Ó filho, quem julgas tu, na tua insolência, que estás a atacar com as
tuas injúrias? Um Lídio ou um Frígio comprados com o teu dinheiro? Não
sabes que sou tessálio, filho de pai tessálio e livre por nascimento?
Abandonas-te a muitos excessos, mas, depois de lançares contra mim os
teus juvenis sarcasmos, não vais partir assim. Gerei-te a criei-te para seres
senhor deste palácio, mas não tenho obrigação de morrer por ti. Não recebi
dos antepassados, nem é grega essa lei de que os pais devem morrer pelos
filhos. Feliz ou infeliz, é para ti que nasceste. O que devias receber de mim
já o possuis. És chefe de muitos homens e deixar-te-ei terras de muitas
jeiras que recebi de meu pai. Em quê, pois, te causei dano? De que te privo
eu? Não morras por mim, que eu não morrerei por ti. Regozijas-te de ver a
luz? E pensas que o teu pai não tem o mesmo direito? Imagino como será
longo o tempo debaixo da terra, e a vida é breve, mas agradável.
Entretanto, tu, sem pudor, lutaste para não morrer e estás vivo: escapaste à
sorte imposta pelo destino, matando-a a ela. E falas da minha cobardia, ó
celerado, quando afinal tu te deixaste vencer por uma mulher que morreu
por ti, por um jovem lindo como tu? Descobriste uma boa maneira de
nunca morrer, se persuadires sempre a mulher que tiveres na ocasião a
morrer por ti. E vens agora insultar os teus por não quererem fazer isso,
quando tu próprio não passas de um cobarde? Cala-te e pensa que, se tens
amor à vida, os outros também têm; e se continuas a dirigir-me palavras
desagradáveis, vais ouvir muitas do mesmo gênero, e merecidas.»

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«CORO
Então que ela saiba que, morrendo em glória, é de longe a mais
nobre mulher debaixo do sol.

CRIADA
Como não há de ser a melhor? Quem o contradirá? Que terá de ser a
mulher capaz de exceder? E como pode alguém demonstrar mais amor por
um esposo do que oferecendo a vida por ele? A cidade inteira conhece
esses fatos; e as coisas que fez em casa, ouvi-las-ás com admiração.
Quando se apercebeu de que chegava o dia marcado, banhou o alvo corpo
em água do rio e, tirando de uma câmara de cedro um veste e adereço,
vestiu-se como lhe competia. Depois, colocando-se em frente ao altar de
Héstia, orou assim: “Senhora, visto que vou para debaixo da terra, tens-me
aqui a teus pés, pedindo-te pela última vez, que veles pelos meus filhos
órfãos: une um em casamento com uma esposa querida, a outra dá-a a um
nobre esposo. Que os meus filhos não morram novos como sua mãe que já
sucumbe, mas felizes, na terra de seus pais, terminem uma vida aprazível.”
Aproximou-se de todos os altares que estão na casa de Admeto,
coroou-se e fez preces, ao mesmo tempo que cortava folhagem de ramos de
mirto., sem chorar, sem gemer, sem que o mal próximo lhe alterasse a
beleza natural da face. E depois, lançando-se para o quarto nupcial e
caindo sobre o leito, aí chorou e disse: “Ó leito, onde desatei o meu cinto
virginal com aquele homem por quem morro, adeus! Não te odeio: só a
mim perdeste. Morro por não ter querido trair a meu esposo e a ti. Outra
mulher te possuirá, não mais leal, mas talvez mais feliz.”
Caindo de joelhos, beija o leito e inunda-o de lágrimas, afasta-se de
cabeça baixa, arrancando-se para fora da câmara nupcial, mas, depois,
retrocedendo muitas vezes, volta de novo para o leito. Os filhos, agarrados
às vestes da mãe, choravam; e ela, tomando-os nos braços, acariciava ora
um ora outro, como quem ia morrer. Em casa, todos os criados choravam,
lamentando a sua senhora. E ela estendia a mão direita cada um, e ninguém
era tão vil que não recebesse a sua palavra e que não lhe correspondesse.
São estes os males que há na casa de Admeto. Atingido pela morte, ele
teria perecido, mas foi salvo e, no entanto, suporta tal dor que jamais
esquecerá.»

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NOTAS

[1] Aliás, Sarajevo aparece em pontos nevrálgicos da história europeia contemporânea, basta lembrar de que um atentado ali ocorrido foi o estopim da Primeira Guerra.

[2] Em Alceste, Apolo toma a palavra logo no início para explicar o contexto da sentença de morte de Admeto:

«Ó casa de Admeto, na qual eu me resignei aceitar a mesa de mercenário, eu que sou um deus! De tudo foi Zeus o causador, ao destruir meu filho Asclépio, lançando-lhe o fogo ao peito. Por este motivo, enfurecendo-me, mato os Ciclopes, artífices do fogo de Zeus; e o meu pai impôs-me, como expiação, ficar a serviço de um homem mortal. Vindo para esta terra, apascentei os bois do meu hospedeiro e guardei a sua casa até este momento. Sendo eu justo, encontrava um homem justo no filho de Feres, que livrei da morte, enganando as Parcas; e as deusas prometeram-me que Admeto escaparia à morte iminente se entregasse em troca outro morto aos senhores dos Infernos. »

Mas é bom lembrar que o mito grego tem outras variantes: Admeto ganhou a mão de Alceste ao aparecer diante do pai dela num carro puxado por leões e javalis, façanha que realizou com a ajuda de Apolo. Porém, durante o sacrifício da festa de casamento, Admeto se esquece de honrar a deusa Ártemis, e encontra seu quarto cheio de cobras. E nesse momento que o deus que serve e protege negocia com as Parcas o acordo com que redundará no sacrifício da esposa.

[3] Pelo menos na tradução de J. B. de Mello e Souza, publicada nos Clássicos Jackson, volume XXII (e que pode ser lida em www.ebooksbrasil.org/eLibris/alceste.html). Na versão sem indicação de autoria, em http://arnobiorocha.com.br/wp-content/uploads/2011/04/alceste1.pdf, o Coro encerra a peça assim:

«Muitas são as formas do divino e muitas as ações imprevistas dos deuses. O que esperávamos não se realizou; para o inesperado o deus achou caminho. Assim terminou este drama».

[4] Admeto, na peça de Eurípides, despede-se de Hércules: «Sê feliz, Hércules! Possas tu retornar mui breve a nosso lar! Que os cidadãos de Feres e todos os habitantes da Tessália celebrem este ditoso acontecimento por festas e danças; que em todos os altares a chama do holocausto se erga, em meio de preces de gratidão! Porque uma vida melhor se vai seguir a dias tão funestos! »

Em outra tradução: «Boa sorte e oxalá tenhas certo o regresso! Aos cidadãos e a toda a tetrarquia ordeno que festejem com danças estes felizes acontecimentos e que os altares fumeguem com a carne propiciatória dos bois. Trocamos agora o passado por uma vida melhor; não negarei que sou feliz.».

Invertendo a frase de Albert Camus sobre Sísifo, para que nós, modernos, tenhamos um mínimo de empatia com o herói euripidiano, “é preciso imaginar Admeto infeliz”, o que talvez  Gonçalo M. Tavares indique na passagem derradeira de seu Os velhos também querem viver:

«Admeto espera, mas Hércules não se faz demorar:

com a mão direita tira o véu da frente do rosto

                        [daquela mulher.

Admeto estremece: é Alceste;

                         está viva. »

[5] «Em tempo de guerra quem faz mais falta:

o homem que fora de casa combate

ou a mulher que dentro de casa protege os filhos

que mais tarde sairão de casa para combater?

Não há resposta e nunca houve resposta,

dentro ou fora de Sarajevo».

[6] «E sim, agora, neste instante: Admeto, o esposo
da nossa heroína,
atingido por uma bala inequívoca, uma
bala de cima,
cai à porta de casa como se o corpo recebesse
encomenda maligna
deixado por carteiro de nome: morte certa,
morte exata,
morte de resto zero.
Uma bala má ali está, então, alojada
na casa mais casa que um homem tem
-a sua cabeça, o seu cérebro-
e Admeto, no centro de Sarajevo,
não tem outra opção senão deixar-se morrer (…)

Porém o Deus Apolo tem ideias distintas,
não concorda com esse sistema antigo-
o nobre noivado entre causa/efeito;
não apoia essa necessidade que um corpo
moribundo tem
de solo, descanso,e nada..»

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26/02/2015

NAVEGANDO POR MARES DE TRAMPA: “Combateremos a Sombra”, de Lídia Jorge

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de maio de 2010)

Na passagem dos anos 1970 para a década seguinte, dois poderosos nomes surgiram na ficção portuguesa: António Lobo Antunes e Lídia Jorge. O primeiro tem se dedicado nos últimos anos a um fluxo ininterrupto de romances “totais”. Já a segunda, que estreou há trinta anos, com o talentoso O dia dos prodígios, tem sido menos prolífica. Sua obra mais recente é Combateremos a Sombra[1].

Na noite da virada do milênio, o psicanalista Osvaldo Campos atrasa-se no seu consultório para a festa do réveillon, o que acarreta o fim do seu casamento. Após um curto período de desagregação psicológica (chega a agredir a ex-mulher), ele volta à pacata rotina de atendimento dos pacientes, vivendo no local de trabalho, e adotando como divisa, numa atitude de tabula rasa com relação à existência pregressa, a afirmação de um dos muitos clientes não-pagantes que aceita, para desespero da sua secretária, Ana Fausta (uma personagem secundária memorável): “Professor, navego por dia mares de trampa, para conseguir caçar um, dois peixes”. A vida, então: uma travessia minimalista por mares de excremento ou de armadilhas e logros, conforme se queira entender a metáfora.

O dr. Campos tem uma “paciente magnífica”, a sua “visita da noite”, Maria London, filha de um magnata. Um dia, descobre que as elaboradas fantasias dela a respeito de navios de cruzeiro que aportam em Lisboa e nos quais o pai a embarca regularmente, são bem reais e correspondem a um submundo pesado de tráfico, bem nas barbas (ou com a conivência) das autoridades. Por outro lado, na noite do réveillon que virou sua vida do avesso conhecera casualmente uma angolana no prédio onde fica seu consultório. Ao longo dos meses nos quais a narrativa se desenvolve, o incauto psicanalista (que a acreditava manteúda de um sujeito poderoso) descobre que ela é testemunha de vários crimes (trabalhava numa clínica onde iam se aliviar os cagões, aqueles que conhecemos como mulas de drogas, e um deles morreu por excesso de carga; além disso, ela fotografou trabalho escravo de imigrantes ilegais), e fora poupada pelos seus executores (um deles, colega de juventude), que a mantiveram escondida num apartamento.

Os dois iniciam uma ligação amorosa e, após enviá-la para um refúgio seguro em Roma, o dr. Campos resolve enfrentar o submundo que descortinou através das revelações de Maria London e de Rossiana, a sua amada, elaborando dossiês e entrando em contato com organizações internacionais, com a Interpol, a polícia, órgãos da imprensa e até a Presidência.

Como sempre, essa atitude quixotesca tem resultados desastrosos e o dr. Campos nunca reencontrará Rossiana em Roma. Em contrapartida, permite a uma das maiores autoras da atualidade encarar de frente o novo milênio e seu desafio à imaginação literária. Combateremos a Sombra é um senhor romance.

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TRECHO SELECIONADO

Abaixo temos um relato de Rossiana e de sua visão-de-mundo como fotógrafa:

“Emprestaram-me uma Yashica, e num papel exposto numa parede, inscreveram-se dez rapazes e cinco raparigas. Como dizer? O que eu sabia pouco mais era do que aquilo que eles sabiam, mas entendemo-nos. Não há nada como crianças a ensinarem crianças…Eu disse-lhes mais ou menos isto: Pois podemos chamar àquilo que vamos fazer, a forma como vamos trabalhar e aos objetos e ângulos que vamos escolher, tudo o que voa… Malta, disse eu, o pessoal vai andando pelo nosso bairro adiante, e lá onde encontra um objeto com interesse, uma situação entre gente que diga alguma coisa com jeito, um sapato bonito na lama, uma gaiola sem pássaro lá dentro, uma coisa assim esquisita por ser bela e dê vontade de levar para casa, e dê vontade de a gente se agarrar a ela, a malta fotografa para ver como é. Mas para que se perceba que voa, tem de ter à mostra o local de onde parte… Daqui de onde estamos, todos vemos como a vizinha tem um vaso com uma azalea à janela. Se só fotografarem a azalea, é uma merda de usar em todos os lugares, até numa estufa de flores, não vale a pena. Mas se a azalea tiver junto dela o cortinado puído da janela da vizinha, a azalea voa, a azalea diz: Porra, eu sou a harmonia no meio das coisas rotas e puídas, eu voo. Compreenderam o que diz a azalea? TUDO O QUE VOA será assim…. Uma rapariga fotografou a língua dum homem velho de olhos fechados a tomar a hóstia dominical e eu achei que isso era digno de TUDO O QUE VOA, mas alguém tomou o efeito pela causa e foi acusar-nos de provocação e a fotografia teve de ser retirada… Mas ficaram os gatos com guizo a olharem para pássaros sobre telhados de zinco. Ficaram duas pernas de miúdo sujas de lama, puxando um carrinho. Ficaram dois ovos a cavalo num bife pousados sobre metade dum prato. Ficaram duas raparigas a comporem a gravata do pai tetraplégico. Ficaram duas rosas vermelhas, uma delas ainda em botão, plantadas num velho penico de esmalte onde alguém num tempo remoto tinha pintado um nome: Senhora…”

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NOTA

[1] Nota de 2015- Quando escrevi a resenha acima, comentei o romance a partir de sua edição portuguesa, pela Dom Quixote (2007); recentemente saiu uma edição brasileira pela Leya.

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10/02/2015

Carmine, o Curioso e a Senhora da Ficção: “Liga, Desliga”, de Colleen McCullough

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“Carmine havia acabado de completar seu primeiro ano na Universidade de Chubb quando Pearl Harbor foi atacado; então, ele postergou a faculdade e se alistou. Por puro acaso, foi transferido para a polícia militar e, depois que passou pela fase de tirar guarda e prender soldados bêbados, descobriu que amava o trabalho (…) Quando a guerra e o período de ocupação no Japão chegaram ao fim, ele era major, qualificado para completar sua formação na Chubb através de um programa de aceleração. Então, com um bom diploma embaixo do braço… ele decidiu que gostava mais do trabalho policial (…) Holloman não era grande o bastante para ter uma divisão de homicídios nem qualquer das subdivisões que as forças policiais das cidads grandes possuíam, então Carmine podia ser designado para todo tipo de crime. No entanto, assassinato era sua especialidade e ele contava com uma formidável taxa de sucesso: quase cem por cento; nem todos condenados, é claro.”

“Eu jamais teria me fixado nela se não houvesse desenvolvido tamanho fascínio por Carmine, o Curioso. Mas já que, apesar de toda a sua curiosidade, ele não é presciente… jamais me fez as perguntas que poderiam ter acionado a chave em seu cérebro teimoso.”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de fevereiro de 2015)

Falecida há alguns dias, aos 77 anos, Colleen McCullough era uma escritora que rompia fronteiras: muitos títulos de uma carreira prestes a completar quatro décadas tornaram-se best sellers (só Pássaros Feridos vendeu 30 milhões de exemplares), nem por isso menos apreciados por quem gosta de ficção que não seja mero entretenimento.

Se mesmo obras menores como A Paixão do Dr. Christian (1985)[1] ou A Canção de Troia (1998) podem ser lidas sem a sensação de desperdício de tempo, quando acertava em cheio, caso da já referida história do padre Ralph de Bricassart e Meggie Cleary (1977, seu segundo romance — a estreia se deu dois anos antes, com Tim), de Uma Obsessão Indecente (1981), do primeiro volume da notável heptalogia sobre o período pré-imperial da Roma Antiga (Primeiro Homem de Roma, 1990), ou ainda do delicioso e curto (para os padrões dela) As Moças de Missalonghi (1987) a australiana se mostrava digna da fidelidade de um leitor.

Após encerrar o ciclo Senhores de Roma, dedicou-se a desenvolver a série policial iniciada em 2006, com Liga, Desliga. A partir de Assassinatos Demais (2009), o protagonista, Carmine Delmonico, era alçado a capitão da polícia em Holloman (Connecticut); até 2013 já havia cinco de suas investigações — McCullough, lá no seu refúgio na Ilha de Norfolk, mesmo gravemente doente, continuou prolífica.

Quando um leitor mais experimentado se depara com a edição brasileira de Liga, Desliga[2], tudo parece contra o livro: embaixo do título, o apelativo “o jogo do assassino está apenas começando…”; na contracapa: “belas adolescentes estão sendo cruelmente assassinadas. Vale a pena mais um thriller de assassino em série?; ainda mais investigado por um detetive “dedicado e solitário como Carmine nos é (mal) apresentado na orelha? Mais um investigador disfuncional? Já não os há às pencas?

Ultrapassado esse estágio de má vontade, uma lida nas páginas iniciais proporcionará a primeira surpresa mcculloughiana: a identidade de Jimmy, acordando dentro de um congelador destinado aos cadáveres de animais que servem de cobaias para o Hug, renomado instituto de pesquisas neurológicas. Ali, partes do corpo de uma adolescente assassinada são casualmente encontradas. O ano é 1965 (Colleen utilizou suas experiências como neurofisiologista e o período em que viveu nos EUA) e os funcionários do Hug passam a ser os suspeitos do que se revelará uma sucessão (até então ignorada) de sequestros, estupros brutais e desmembramentos de moças de família, todas muito parecidas. Por causa da etnia (latinas, mulatas e negras), em plena época de distúrbios civis, os crimes (bem como o tipo de ciência praticado no Hug — aliás, focalizado com surpreendente ceticismo pela autora) despertam a fúria de grupos raciais militantes. Mas no centro do mistério está uma família tão marcada pela tragédia e certas taras quanto os Cleary de «Pássaros Feridos».

É gratificante acompanhar o (lento) desenvolvimento de Liga, Desliga, principalmente porque ela desilude quem procura um daqueles enredos em que os investigadores deslindam as ações e motivos dos criminosos, trocando-os em miúdo para os leitores (pelo contrário, aqui os agentes da Lei ficam “por fora” e fracassam, em larga medida). Entretanto, mesmo com todos os méritos da narrativa, caberá ao último capítulo (no qual o título se justifica), cujo único defeito é ser muito curto (poderia ser uma seção do romance), iluminar o conjunto, dando-lhe dimensão insuspeitada. Mesmo quem desconfiar da identidade do assassino levará um susto e tanto. É imperdoável revelá-la[3].

Portanto, se não tivesse escrito mais nada, a grande Colleen McCullough ainda ficaria como um dos melhores autores policiais contemporâneos. Contudo foi uma faceta a mais de uma legítima Senhora da Ficção.

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TRECHO SELECIONADO

“__ O problema é que você está neste caso há tanto tempo que já esgotou todas as probabilidades e não tem mais onde olhar, exceto para as improbabilidades.

__ Existe um viés religioso, e está ligado à raça!

__ Concordo, mas a religião não é o que interessa aos Fantasmas. O que interessa a eles é o fato de que são as famílias tementes a Deus que produzem o tipo de garota que eles querem.

__ Os Bewlee estão escondendo alguma coisa, têm de estar—Carmine resmungou.—Caso contrário, Margaretta não se encaixa.

__ Volte para o básico. Se você acha que os Fantasmas são estupradores, antes de assassinos, então você não está procurando por um fanático religioso de qualquer cor ou seita, cristã ou não. Está procurando por um homem ou dois que odeiam todas as mulheres, algumas mais do que outras. Os Fantasmas odeiam a virtude aliada à juventude aliada à cor aliada a u rosto aliado a outras coisas que não sabemos. Mas sabemos sobre a virtude, a juventude, a cor, o rosto. Nenhuma delas era totalmente branca, e nenhuma será, disso eu tenho certeza absoluta. Seu melhor grupo de amostragem é o das latinas católicas, só isso. As garotas são criadas um tanto imaturas para sua idade, estritamente supervisionadas e intensamente amadas. Você sabe disso, Carmine!… A resposta está nos elementos  básicos do caso.”

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NOTAS

[1] Cujo título original é A Creed for the Third Millennium.

[2] On, Off, que comento na tradução de Sibele Menegazzi (Bertrand Brasil).

[3] Desde O Assassinato de Roger Ackroyd creio que não há um final (e o foco narrativo) de romance do gênero que exija tanto discrição daqueles que já o leram.

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29/01/2015

MERLIN REVIVE: a Trilogia de Mary Stewart

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(o texto abaixo tem como base a resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de julho de 1994, com o título “Fôlego épico marca Trilogia de Merlin”)

Por terra e água voltará ao lar e ficará escondida numa pedra flutuante até ser erguida novamente pelo fogo. Assim tinham dito os antigos e teriam reconhecido aquele lugar como eu; ou como o pescador que voltara do Sobrenatural, admirado com os salões do rei das sombras. Ali a espada ficaria segura até a chegada do jovem que teria o direito de erguê-la (…) Larguei-a ainda enrolada no pano sobre a mesa de pedra e voltei pela lagoa. Os ecos encheram o ambiente e parei um pouco enquanto diminuíam, tornando-se um murmúrio. Naquele silêncio até minha respiração era ruidosa demais e parecia uma intrusão. Deixei a espada em sua longa espera silenciosa e voltei rapidamente à luz do dia…”

(trecho de As Colinas Ocas)

A inglesa Mary Stewart, nascida em 1916, chegou bem perto dos cem anos, mas foi um dos muitos nomes importantes da literatura a falecer em 2014. Sua obra de maior prestígio, a Trilogia de Merlin, está sendo reeditada pelo selo Hunter Books. Os três volumes fizeram muito sucesso quando lançados pela ed. Best Seller no início dos anos 1990[1], em traduções de Vera Maria Marques Martins, Marcília Britto e Evelyn Kay Massaro. São eles: A caverna de cristal (“The crystal cave”, 1970[2]), As colinas ocas (“The hollow hills”, 1973) e O último encantamento (“The last enchantment”, 1979).

Com relação ao resto de sua produção paira aquela reputação ambígua das autoras (Victoria Holt, por exemplo) que exploraram mistérios góticos anacrônicos, mas ao que parece ainda bem atrativos, unindo suspense e alto grau de romantismo, cuja forma mais popular é a daqueles livros vendidos em banca, “Júlia”, “Sabrina” e similares. É o caso de “Nine coaches waiting” (1958), “The moon-spinners” (1962) ou “Touch not the cat” (1976)[3].

Também não se deve esquecer que o êxito da Trilogia no Brasil veio no bojo de um daqueles periódicos recrudescimentos do interesse pelo ciclo arturiano; nesse caso, o maior responsável foi o ciclo As brumas de Avalon (1983), de Marion Zimmer Bradley— e também o filme Excalibur, de John Boorman, lançando em 1981—, cuja maior consequência, uma vez que se voltava para uma figura comumente secundária na trama geral, a fada Morgana, foi ter criado uma febre pela releitura do papel de outros personagens que orbitavam em torno de Arthur e dos cavaleiros da távola redonda; tanto é assim que, paralelamente ao trio de romances de Mary Stewart em torno do mago Merlin, a Best Seller publicava a Trilogia de Guinevere (1987-93) da norte-americana Persia Wooley[4]. De modo curioso, são as mulheres que capitaneiam as releituras da velha lenda patriarcal (talvez concretizando a farpa verbal lançada por Morgause a Merlin: “Tem mesmo certeza de que estais protegido da magia das mulheres?”)

A singularidade da série de Mary Stewart está em apresentar a juventude de Merlin, visto sempre como homem maduro ou mesmo um ancião. Os três volumes fazem uma impressionante reconstituição de uma época, o século V d.C., quando, na Bretanha (Inglaterra e parte da França) confluíam tradições romanas, celtas e bárbaras, iniciando assim a Idade Média.

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Merlin é o filho bastardo de Ambrosius, o homem que inicia o trabalho de unificação da Bretanha, continuado por seu irmão Uther e consumado pelo filho deste, Artur. Criado longe do pai, desde a infância Merlin tem visões que o diferenciam (e uma aparência “morena”, a qual, como acontece com a Morgana de Brumas de Avalon, o marginaliza de seu povo). A caverna de cristal gira em torno do reconhecimento de Merlin por Ambrosius e de como este utiliza os dons do filho para sua vitória. Após sua morte, Uther tem uma noite adúltera com Igrayne, que gerará Artur, o qual será escondido por Merlin e cuja educação é o centro de interesse (bem absorvente) de As colinas ocas; O último encantamento, por sua vez, fixa a decadência dos poderes de Merlin — após o triunfo de Artur — e seu amor por Nimuë (o ex-pupilo fica espantado: “Pensei que você fosse um sábio”, ao que ele retruca: “Porque sou um sábio, sei bem demais que o amor não pode ser contestado. Aconteça o que acontecer daqui por diante, é tarde demais...”), que ficará como sua sucessora.

São 1.300 páginas de um fôlego épico (malgrado o narrador não ser um guerreiro) que inexiste, por exemplo, nos quatro volumes de Marion Zimmer Bradley, cujo maior defeito é banalizar a grandiosa (e ao que parece inesgotável) lenda através de cenas domésticas que parecem recortadas do cotidiano norte-americano contemporâneo. Na trajetória de seu Merlin, Stewart compõe um mapa ficcional da Bretanha, explorando cada parte dela com uma riqueza de detalhes geográficos e topográficos e um emaranhado de personagens, e isso incrivelmente não atrapalha em nenhum momento a leitura. E assumindo a voz de Merlin (o relato é em primeira pessoa), cria um personagem fantástico, e não só ele. Há uma grande vilã, Morgause, meia-irmã de Artur, que tem um filho com ele e envenena o seu tutor, cumprindo um papel que geralmente é atribuído a Morgana (como no belo filme de John Boorman), e o próprio único e eterno rei aparece mais aprofundado e interessante que em outras versões, nas quais parece mais uma marionete do destino.

Difícil dizer qual o melhor volume. Cada qual apresenta sua voltagem de emoção e ritmo próprio, e portanto todos são memoráveis, embora o leitor saia meio desconcertado da leitura do terceiro (por causa do final)[5], que ainda assim apresenta a passagem mais extraordinária de toda a massa narrativa, quando Merlin é enterrado vivo e acorda na sua tumba (a caverna onde foi instruído na magia), sem poderes:

    “…e eu continuava deitado no estranho limbo criado por um corpo inerte e uma mente ativa (…) Não havia a menor esperança de mover as pedras que selavam minha tumba, mas eu talvez conseguisse atrair a atenção de alguém que passasse por ali. Esse local era um santuário desde tempos imemoriais e pessoas do vale subiam regularmente o monte levando oferendas para o deus que guardava a fonte sagrada ao lado da caverna. Era bem possível que agora esse ponto tivesse se tornado ainda mais santo, porque Merlin, o profeta do Grande Rei, mas que primeiro fora o médico dessa gente humilde, estava enterrado ali…”

Bela e apurada como entretenimento e narrativa, rica como alegoria místico-política de um momento-chave da história ocidental (em “As colinas ocas”, Merlin nos diz: “… fui obrigado a continuar cuidando da capela. Imagino que qualquer outro, como o Velho, manteria o lugar para seu próprio deus, mas esperei apenas que qualquer um o ocupasse…”), a Trilogia de Merlin deixa a sensação (quiçá injusta) de que as brumas exploradas posteriormente não passam de fumaça diante dessa construção romanesca de primeira.

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(uma versão do texto acima foi publicada no Letras in.verso e re.verso, em 28 de janeiro de 2015, VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/01/merlin-revive-nova-edicao-da-trilogia.html)

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[1] A autora acrescentou posteriormente dois livros à série, The Wicked Day (1983) e The prince and the pilgrim (1995)

[2] Traduzido no Brasil também como “A gruta de cristal” (ed. Record)

[3] Mas há vários outros de sua autoria traduzidos no Brasil. Considero “Não toque no gato” (que li numa edição do Círculo do Livro)  muito bom, dentro do seu gênero.

[4] De resto, todos esses ciclos têm sua origem na mais prestigiada de todas as retomadas das lendas arturianas, uma das obras literárias mais amadas do século passado: a tetralogia “O único e eterno rei” (1938-1958 — há ainda um volume póstumo, publicado apenas em 1977), de T.H. White, cujo falecimento em janeiro de 1964, aos 57 anos.

[5] “Agora chegamos à parte de minha crônica que é a mais difícil de contar. Se é ou não verdade que o cometa com cauda de dragão veio anunciar o fim dos poderes mais elevados do mago Merlin, como afirma a crença popular, o fato é que não tenho certeza se o que lembro foi real ou um sonho.”

Lady Mary Stewart

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27/01/2015

O atulhamento e o vácuo do universo familiar: “Fôlego”, de Rafael Mendes

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“Em que parte da memória estão armazenadas as palavras exatas que ele falava depois de umas cervejas no sangue, quando decidia reunir a família na cama de casal e, através de promessas sem sentido, nos fazia chorar?” (trecho de Fôlego)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de janeiro de 2015)

“Você há de concordar comigo quando afirmo que as nossas lembranças mais significativas, as minhas, as suas e as de Mateus, estão sempre atreladas ao pai, ele estivesse presente ou não…”

Assim Manuela se dirige a Pedro, filho do pai com outra mulher (ele manteve duas famílias paralelas), incitando-o a colaborar na reconstrução do passado, que até então parecia ser a tarefa de Mateus, narrador da maior parte de Fôlego, estreia num texto mais longo do paulista Rafael Mendes, 31 anos, após um livro de contos, “A Melhor Maneira de Comprar Sapato”.

O relato de Mateus (entremeado com curtas intervenções da irmã, a partir do enterro do pai — que cometera suicídio) pontua a “derrota” desse estranho pater familias, incapaz de sair do círculo sufocante da dependência dos sogros, vivendo num puxadinho ligado à casa deles, encanador mais por bico do que por competência — segundo o filho, “E além de tudo era um mau encanador”[1]; na visão da rebelde Manuela, “Pai, o senhor tá fedendo a merda; se fosse pela sogra, como ela confidencia, já viúva, à filha, casada com ele (e evangélica fervorosa), tudo seria diferente, contudo a decisão do marido de “ajudar o genro” amarrou o destino de todos: “Se o Paulo não fizesse isso, contra a minha vontade, talvez você estivesse em Curitiba uma hora dessas, e a história seria outra…”, instaurando uma onipresente sensação de falta de espaço, de corpos e fados se entrechocando, tendo como cristalização a asfixiante asma do narrador.

A história não pode ser outra, o vivido é um só. Fôlego mostra que a história, todavia, é sempre outra, mesmo com esse sufoco todo, daí a outra família, a existência paralela levada em outra cidade, e sobretudo o suicídio desconcertante, que coloca a todos em xeque. E enquanto Manuela escolhe o caminho do confronto, a partir da orientação sexual, Mateus tentará dilatar esse mundo de confinamento e aperto com uma trajetória “proativa”, como se costuma dizer, ascendente. Malgrado esse projeto, otimista e frágil, a história sempre é outra, e sua narrativa terá de ser completada pelos irmãos, tarefa em aberto, ligada ao futuro enraizado a esse passado, a esse pai fugidio e esquivo, presença-ausência, eterno retorno…

O ponto fraco da novela de Rafael Mendes reside numa certa falta de confiança no leitor: Mateus e Manuela às vezes atropelam a nossa leitura e já querem nos impor, com um discurso quase didático, a “moral da fábula”, as conclusões que nós mesmos poderíamos tirar desse universo de afetos no ambiente da periferia da Grande São Paulo. Um exemplo: “Alguém precisava contrabalançar a minha postura egoísta, a minha intempestividade, e esse alguém só podia ser ele. Talvez seja por isso que nesses dias nos mantivemos distantes um do outro. Só mesmo Mateus para aguentar tudo calado, pacientemente, ainda que lhe sufocasse. Agora, no entanto, eu entendo que aquela postura era um embuste, um disfarce, e que na verdade quem mais sofreu com a situação que vivenciamos foi o Mano.”!!??

O vigor do texto está justamente em que, assim como os personagens se recusam a ser apenas os partícipes de uma “só história”, unívoca e coesa, as palavras ajudam a compor um quadro no qual o que é deixado à sombra se impõe — as vidas dos avós, da mãe (diga-se, de passagem, que um dos méritos de Fôlego é se furtar totalmente ao vezo redutor, para não dizer caricatural, com que o fervor evangélico é comumente retratado), da outra mulher do pai e, claro, deste, que por si só valeria a leitura. E um dos momentos mais bonitos da nossa ficção mais recente é justamente a apreensão, num pequeno haicai narrativo sobre a aparência desse pai, no último encontro com o filho, que conjuga seu “fracasso” e o seu “mistério”: “Na lanchonete, meu pai tomava cerveja no balcão. Pediu um x-salada para mim e mais uma garrafa para ele. O lugar estava cheio de gente (…) Um cheiro de fritura, uma faladeira, um abafamento que sobrevinha da chapa quente. Eu não queria dizer nada e também não queria ouvir. Meu pai tomou um gole. Disse que se sentia cansado, que trabalhou o sábado inteiro, que no dia seguinte começaria um novo serviço. Vi suas têmporas inchadas, sua barba por fazer, as olheiras, os fios de cabelo branco. Não estava feio, mas nas já não era bonito.”

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TRECHO SELECIONADO

“Ela nunca me disse nada a respeito disso, mas para mim não é absurdo que minha mãe tenha se apaixonado pelo meu pai à primeira vista (…) Frequentando os botecos, meu pai já conhecia as mulheres solteiras do bairro. Mesmo sem querer, ele as cativava, atraía para si os olhares. Até mesmo as mocinhas de família e algumas donas de casa reparavam nele. Meu pai falava pouco, apenas o necessário. Embora modesto, de gestos contidos, ele conservava um charme natural; era diferente, misterioso, convidativo. Esse jeito dele chamou a atenção também de minha mãe. Não foi com dificuldade que ela ouviu os elogios dele, nos dias seguintes ao serviço feito na casa de meu avô. Meu pai a acompanhou ao colégio algumas vezes; fazia o favor de carregar as sacolas de frutas se topasse com minha mãe na feira. E em cada oportunidade ele articulou um  gracejo, um comentário breve, aludindo à beleza dela: a pele branca, os traços finos, os olhos claros. Minha mãe não demorou a gostar daqueles elogios, a esperar por eles, a andar devagar pelas ruas do bairro, na expectativa de encontrar meu pai…”

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NOTA

[1] Ser um “mau encanador” de certa forma contraria o atavismo sufocante das frases imediatamente anteriores à passagem: “Para mim, meu pai já nasceu encanador. Já nasceu com as mãos sujas, com o macacão fedorento, carregando aquela caixa de ferramentas pesada.”

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08/01/2015

O LIVRO DE HENRIQUE: um grande romance de Heinrich Mann (1871-1950)

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“Ele avança imperceptivelmente. Tudo lhe serve, seus esforços e os dos outros que o querem expulsar ou matar. Certo dia perceberão que ele é famoso, e marcado pela sorte. Mas sua verdadeira sorte é sua determinação natural. Ele sabe o que quer, por isso distingue-se dos indecisos. Especialmente, ele sabe o que é bom, e o que a consciência dos seus iguais considera certo. Isso lhe dá, claramente, uma posição singular. Nenhum daqueles que fazem seu jogo nesse ambiente denso está tão seguro das leis morais quanto ele. Não se deve buscar em outra parte a origem de sua fama, que jamais empalidecerá…”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de dezembro de 1993)

Thomas Mann é o maior escritor do século. Seu irmão Heinrich, embora mais conhecido por causa de O anjo azul (Der Blaue Engel, 1930), a clássica adaptação de Josef von Sternberg de seu Professor Unrat (1905), também era grande, como prova A juventude do rei Henrique IV (“Die Jugend des Königs Henri Quatre”, 1935 — que comento em versão de Lya Luft). O lançamento da Editora Ensaio certamente é uma das traduções mais importantes deste ano.

Henrique foi um dos protagonistas da guerra religiosa que dividiu e empobreceu a França nos séculos XVI e XVII, envolvendo os grandes clãs nobres da Europa. Morta Jeanne, sua mãe, fanática huguenote (como eram chamados os protestantes franceses), ele é atraído para a Corte parisiense pela rainha-mãe, Catarina de Médicis (que envenenou Jeanne), com cuja filha — Margarida de Valois — se casa. Dias depois ocorre a famosa Noite de de São Bartolomeu, na qual os protestantes são massacrados. Henrique é mantido prisioneiro na Corte. Os filhos de Catarina vão se sucedendo no trono, e o reinado de Henrique III transforma o Louvre num palácio gay, com orgias e disputas de favoritos…

A teia de acontecimentos é contada com vivacidade ímpar, com discretas participações de Nostradamus e de ninguém menos do que Montaigne, que se torna amigo do futuro rei e influencia seu modo de pensar, baseado na tolerância e no conhecimento empírico das motivações humanas.

Tal resumo asséptico e praticamente insípido não dá conta do romance riquíssimo que é Henrique IV. Heinrich Mann surpreende um momento histórico em que as massas eram manipuladas via fanatismo religioso, como acontece em épocas de insegurança e miséria (a nossa, por exemplo). Por detrás dessas disputas intolerantes há sempre o espectro do poderio econômico e político (as outras potências europeias, Espanha e Inglaterra, fomentam a maldade de Catarina porque lhes é útil e conveniente). Cada seção do livro se encerra com uma moral dos acontecimentos e da evolução pessoal de Henrique, a quem conhecemos desde a infância. Sua maturidade e morte são narradas em outro volume, publicado em 1938.[1]

Sem o impacto que causou nos anos 1930, ainda assim é enorme a impressão que causa no leitor de hoje (malgrado o espinhoso e desajeitado texto em português, que parece aspirar a que concordemos com a opinião de Nigel Hamilton de se tratar de um empreendimento linguístico intraduzível), pela irreverência paródica de certos trechos, mas em especial pelo seu lado bem-humorado, cheio de vida. Elíptico, Mann realiza um fabuloso tour-de-force com a narração em terceira pessoa, que desliza para a própria fala ou pensamento dos personagens, quer individualizados, como Henrique ou Margarida, por exemplo, quer em momentos coletivos (como o pensamento do povo em momentos culminantes da narrativa: as núpcias, o massacre).

Um empreendimento cada vez mais difícil, só tentado vez em quando por alguém da estatura de uma Susan Sontag (em seu O amante do vulcão, outra grande tradução de 1993): o casamento entre o prazer de contar fatos passados e o prazer de ser significativo. Um raro prazer.

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TRECHO SELECIONADO

Henrique virou-se bruscamente. Não ouvira nada, mas entrementes Catarina de Médici entrara bamboleando, e fora até o centro do quarto. Ele reconheceu apenas seu contorno, pois estava ofuscado pela luz, mas ela avistara o rapaz e o examinava. As mãos dela estariam escondidas nas pregas do vestido? Vestia preto, e começou a falar com ele, na sua voz gasta.  “Mas ela está viva!” pensou o amargurado filho da morta. Com ódio ouvia-a protestar sua grande dor pela perda de sua boa amiga Jeanne, e que estava feliz por finalmente tê-lo ali consigo. Ele acreditou, mas decidiu: sua chegada não seria um bem para ela. Seus olhos tinham-se acostumado à claridade mais débil. Realmente, ela ocultava as mãos! Então ainda meteu a mão de Deus na sua fala. O filha da morta segurava a língua com os dentes, do contrário teria exigido: madame, deixe-me ver suas mãos! Mas ela fez isso! Tirou de seu vestido as mãozinhas gordas que ele queria ver, e depositou-as sobre a mesa diante da qual se sentou.

    Henrique deu uns passos irados, rápidos e impensados. A velha rainha tinha à sua frente a imensa mesa larga, atrás dela quatro fortes suíços com longas lanças. Era fácil ficar calma, a voz bonachona:

__ Como tenho pena de você, meu rapaz! Dezoito anos, não é, e já duplamente órfão! Pois encontrará em mim sua segunda mãe, que orientará seus passos, os passos dos jovens muitas vezes são apressados demais. Eu sei que vai me agradecer, meu jovem, sua natureza é viva e natural. Nós dois merecemos nos darmos bem.

     Era cruel. Sobre a mesa adivinhava-se um invisível copo de veneno, os dedinhos da velha esgueirando-se até ele, enquanto o abismo falava através dela. Era um feitiço, era preciso rompê-lo! Certas palavras e sinais teriam talvez feito aquele rosto cor de chumbo com as bochechas caídas rebentar e desmanchar-se no ar. Mas Henrique naquele instante tenso fez coisa diferente: descobriu que a assassina de sua mãe era digna de comiseração- como no fundo do poço do Louvre, o resto da torre que sobrava sobre os séculos soterrados. Mas em breve será removida. Talvez afinal ela faça a mesma coisa. Ela ou sua linhagem construíram a fachada bonita do palácio ao sol do meio-dia. E ela pessoalmente ainda está aí, como o passado louco e mau. O que é ruim mas muito velho acaba sendo ridículo, ainda que deseje matar. Apesar de seus tardios crimes, desperta misericórdia pela sua impotência, e decadência!

     O jovem Henrique exclamou em voz clara e confiante:

__ Como são verdadeiras suas palavras, madame! Um dia lhe agradecerei, certamente.  Que meus atos sejam sempre da mesma naturalidade que os seus! Farei esforços para agradar a uma tão grande senhora…”

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NOTA

[1] “Die Vollendung des Königs Henri Quatre”, ainda inédito em português.

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06/01/2015

EM DIREÇÃO AO QUE IMPORTA: os belos haicais de “29”, de Marcos Messerschmidt

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“trinta e quatro dias numa clínica,

quarenta dias nos bosques do Japão,

onze meses sem beber.  

vinte e nove anos

enterrados em mim.”  

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de janeiro de 2015)

Na minha lista de destaques de 2014, publicada na semana passada, alguns autores (como Thiago Roney, Leonardo Villa-Forte, Rafael Sperling, todos com 29) beiravam os 30 anos[1]. O gaúcho Marcos Messerschmidt já alcançou a marca, mas antes, como um rito de passagem, escreveu os 70 haicais — emoldurados por dois poemas mais longos — que compõem 29. “Dia de chuva /bom começo/bom fim para um haicai.

Em seis seções, a forma japonesa consagrada, essencialista, muito focada na contemplação da natureza, e que teve um mestre como Bashô (1644-94: “Calou-se o sino/ O que chega a mim agora/ é o eco das flores),  é inteligentemente mesclada a notações urbanas, a clínicas de reabilitação, a autores-fetiche, cuja marca seria uma antípoda prolixidade, caso de Roberto Bolaño, os beatniks (como Kerouac ou Ginsberg), Bukowski, para não falar em Baudelaire e do santo padroeiro da abertura, o mais expansivo e derramado, Walt  Whitman (“poeta da relva/obrigado/ por me ensinar /a abraçar /a humanidade”; mais adiante: “em três linhas/ sou todo[s] /sou invencível”).

Já há tempos vem me enfadando o constante (e já estereotipado)  apelo à “literatura” como matéria do próprio fazer literário. E, Bolaño (malgrado sua culpa no cartório com relação à famigerada metaficção)[2], Whitman e especialmente Baudelaire à parte, nunca fui muito fã dos autores caros a Messerschmidt (“embriagado/ entre Bukowski/ e Baudelaire, lemos na seção Trêmula Cicuta, e eu me pergunto se não é misturar vinho fuleiro com o melhor champanhe — todavia, parece que o autor de Cartas na rua é irresistível para jovens escritores). Mesmo assim, o talento do poeta estreante logrou alguma alquimia secreta e imponderável, talvez o uso de uma cicuta nada trêmula no seu conciso discurso lírico,  conseguindo driblar miraculosamente, na maior parte de 29, os déjà vu, cacoetes geracionais e até mesmo a geralmente insuportável infestação de referências literárias e metalinguísticas (que, no livro, por causa da destreza de toque, se reduz a um suave veneno). haicaicesarea tinajero

Na primeira seção, Flores do Dilúvio, “a flor ensaia o absurdo/ descola do galho /espalhando multidões, e é onde a natureza parece mais presente, junto com os  “chamados irresistíveis da rua; na segunda, A Caminho da Barbearia, a ênfase nas referências começa a ser mais evidente, em meio a versos fantásticos, mesmo com quebra da forma usual (“o belo amigo coça sua melhor barba ), entretanto, como se afirmará na seção seguinte, Trêmula Cicuta, e creio que acabará tornando-se um dos haicais mais citados do livro, “encontro a forma/ nem redonda/ tampouco enquadrada”, espelhando uma rebelião vandalírica mais agônica: “maldigo o pai/ amaldiçoo o filho/ espírito não me contém; o quarto conjunto, Há Pouco, também tem como abertura um haicai que nasceu com vocação para citação: “pensei/ que fosse morrer/ era só a vida, e entre alusões até mesmo a personagens de Detetives Selvagens (para ser mais preciso, a mais-que-procurada poeta das garatujas,Cesárea Tinajero), temos momentos lindos: “o vaso quebra/ estilhaços/ de haicais, ou ainda: “em casa/ espera o mar/ fio solto da rede”, e eu penso que o admirador de Whitman tem uma dicção elíptica mais afinada com a nada garatujal Emily Dickinson, de todo modo a seção tem um fecho de ouro, um dos grandes momentos do lirismo brasileiro mais recente: “estávamos lá/ há pouco/ eis aí o símbolo”. Talvez por esse motivo, considero Disseca-se a seção mais inexpressiva de 29 — ainda bem que há o poema final, Still Beating, o qual começa assim: “nesta cidade baixa/ ensaio o voo torto/ em direção ao que me importa”. O encanto de fazer o percurso nas asas do voo torto do agora trintão Marcos Messerschmidt é que aquilo importa a ele passa a valer para nós também.

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TRECHO SELECIONADO

Um haicai com um quê à Manoel de Barros:

“perto de ti, rio

sou menino

- deságuo maturidades”

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NOTAS

[1] VER https://armonte.wordpress.com/2014/12/30/livros-de-2014/

Lembrando que, na mesma lista, Antônio Xerxenesky, que aniversariou em dezembro, lançou seu F ainda com 29 anos, e que Débora Ferraz está com 27.

[2] VER https://armonte.wordpress.com/2013/07/13/estrela-cadente-roberto-bolano-o-visgo-da-literatura-e-o-desgaste-da-aura-de-um-autor/ Charles-BaudelairewaltwhitmanCharlesBukowski

30/12/2014

LIVROS DE 2014

por escrito

ESCLARECIMENTOS PRELIMINARES:

  1. Algumas das melhores páginas que li este ano estão em AS FANTASIAS ELETIVAS (Record), de Carlos Henrique Schroeder. Lamentavelmente, a partir do momento em que ele dá a palavra a um travesti, em um discurso-cabeça bolañesco, não mais me acertei com o seu romance, não o entendi mais, e não sei se por culpa minha, dele, de Bolaño, de Sebald, ou da entidade “Literatura”;
  2. Gostei muito de FAZENDA DE CACOS, de Marcelo Benini (Intermeios), e de fato ele já fazia alta poesia nas crônicas muito acima da média do gênero em O homem interdito, entretanto me pareceu estranho que ele figurasse solitário no meio de um mar de prosa, tal como é a lista —  fica a indicação;
  3. Fico devendo a indicação de qualquer título lançado em e-book ou similares (só leio publicações impressas), o que deverá certamente tornar-se um problema cada vez maior no futuro;
  4. Há dois títulos (o de Thiago Roney e o de Ana Miranda), na verdade lançados no final de 2013, cuja divulgação, porém — e para isso contribuem as circunstâncias editoriais, fora dos eixos “centrais” (O PESO DA LUZ não saiu pela poderosa e midiática Companhia das Letras) — ocorreu ao longo do ano corrente, pelo menos no que me concerne, por isso me façam um desconto.
  5. Não dá para ler tudo e gostar de tudo.

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de dezembro de 2014)

Livro do ano- POR ESCRITO (Companhia das Letras). A veterana Elvira Vigna traça uma agônica alegoria do Brasil “moderno”, com uma protagonista que se reinventou ao longo da existência (como tantas heroínas da notável autora carioca), não conseguindo, porém, espalhar as pedras do passado, e só repousando em lugares límbicos e antissépticos (hotéis, aeroportos), sempre a caminho. Obra-prima.

Além dele, destaco (por ordem alfabética do sobrenome do autor):

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-A CASA CAI (Companhia das Letras)- Retomando um dos heróis de O último minuto, seu livro anterior, Marcelo Backes chega ao quadro mais amplo dentro de sua ambiciosa produção romanesca, tornando-se o Lima Barreto das mudanças no perfil urbano do Rio no século XXI;

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-O IRMÃO ALEMÃO (Companhia das Letras)- Naquele que talvez seja o mais pessoal e afiado de seus romances, Chico Buarque mostra como uma biblioteca labiríntica (monstruosa?) pode sequestrar a participação no mundo de uma família, enquanto a História dá voltas em torno de regimes autoritários;

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-CADERNO DE UM AUSENTE (Cosacnaify)- Um dos nossos grandes prosadores, com delicadeza cirúrgica, nos dá uma aula sobre a mortalidade, numa narrativa dirigida a uma filha recém-nascida, com o poder de “inventar metáforas em cores a partir de clichês cinzentos”. Como sempre, em João Anzanello Carrascoza, há carne nas palavras;

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-SAFÁRI (Rocco)- Na história de um advogado assassino, Luís Dill contraria o figurino do romance policial brasileiro, geralmente siderado por erudições fajutas, e retrata a desfaçatez de certa “elite” nacional valendo-se de referências caras ao imaginário dos nascidos na minha geração (anos 1960). Não obstante deploráveis e reacionárias declarações durante a época das eleições, o escritor gaúcho é um dos melhores ficcionistas da atualidade[1];

ENQUANTO_DEUS_NAO_ESTA_OLHANDODeboraFerraz Premio Sesc 2014 Foto Bruno Vinelli

-ENQUANTO DEUS NÃO ESTÁ OLHANDO (Record)- Débora Ferraz (27 anos) mostra o desnorteio da narradora, no limiar da idade adulta, tendo de lidar com um “universo de emergências”, revitalizando o importante veio do  “retrato do artista quando jovem”. Bela e vigorosa estreia;

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-O PESO DA LUZ (Armazém da Cultura)- Lindo romance (com um  sutil toque quase infanto-juvenil) no qual Ana Miranda mostra um inventor e astrônomo amador paraibano que, em 1919, se envolve com a missão científica que, no Ceará, durante um eclipse, tenta provar a validade da teoria da relatividade;

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-A LEGIÃO ANÔNIMA (Cepe)- Com a prosa elaborada (às vezes ligeiramente afetada) de seus contos, João Paulo Parisio nos leva a uma Recife quase bíblica em sua infestação de pecados, anjos decaídos e santas associadas à rataria. Até ao relatar uma formação escolar, ele nos mostra, em suas analogias certeiras, como toda civilização é mesmo um registro de barbárie;

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-DENTRO DO SEGREDO (Companhia das Letras)-A Coreia do Norte de Kim Jong-il  volta e meia está no noticiário, mas jamais da forma como aparece nesse inusitado relato do português José Luís Peixoto, que narra sua viagem pelo fechadíssimo país asiático em 2012;

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-QUARENTA DIAS (Alfaguara)- Outra personagem paraibana, dessa vez uma Alice perdida na Porto Alegre dos dias de hoje, descobrindo, como usualmente acontece na obra de Maria Valéria Rezende, o Brasil profundo que resiste aos padrões globalizados.  Romance que poderia dividir o posto acima com POR ESCRITO, com o qual, aliás, tem muitos e surpreendentes pontos de contato;

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-O ESTOURO DA ARTÉRIA DE UM CAVALO HÚNGARO (Multifoco/Redondezas)- A inclusão dessa 2ª. edição de uma coletânea de contos publicada em 2012 se deve ao fato de que Thiago Roney (29 anos) reformulou-a drasticamente, tornando-a praticamente um novo livro,  mostrando seu afinco como escritor não só talentoso, mas disposto a se aperfeiçoar;

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-UM HOMEM BURRO MORREU (OitoeMeio)-Rafael Sperling (29 anos) explora afetos e a vida urbana através de uma linguagem marcada pelo hiperbólico e pela deformação de perspectivas, e sobretudo por um tom afrontoso, que nada poupa. Resultado: o melhor livro de contos deste ano;

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-NOSSA TERESA (Patuá)- Após alguns livros de poemas, aos 42 anos Micheliny Verunschk estreia no romance com um relato multifacetado a respeito de uma cidade pródiga em suicídios, inclusive o de uma menina em vias de ser canonizada. A força do texto supera problemas graves de edição e revisão;

CAPA_FRONT---O-explicador---Oito-e-meio---Leonardo-Villa-Forte_905Leonardo Villa-Forte - photo by Iafa Cac_905

-O EXPLICADOR (OitoeMeio)- Leonardo Villa-Forte (outro com 29 anos)  aproveita uma das lições mais preciosas de Kafka: os personagens dos seus contos acreditam candidamente que o mundo veio com um manual de regras, que estão sempre sendo desconstruídas diante de seus olhos. Esse é o segredo do encanto peculiar de um livro onde o polimento da prosa deixa às vezes um pouco a desejar;

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-F (Rocco)- Chegando em 2014 aos 30 anos, Antônio Xerxenesky realiza, através de uma assassina encarregada de eliminar Orson Welles na década de 1980, uma brilhante reflexão romanesca sobre o fracionamento imaginativo das últimas gerações. Junto a POR ESCRITO e QUARENTA DIAS, forma a trinca de ases desta lista.

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TRECHO SELECIONADO

“Parecia que seguiria assim para sempre. Victor precisaria se acostumar a perder jogos que não seriam perdidos se o anão não fosse um anão e tivesse pernas normais.
Victor chegou a falar sobre o caso com seu terapeuta. O terapeuta perguntou se Victor não poderia conversar com o anão, a sós, e dizer que gostaria de parar de jogar no time do anão, pois seu espírito para aquele futebol era mais competitivo do que fraternal. Victor pensou que seria uma abordagem direta demais, que talvez provocasse ressentimentos, não só no anão como em todos os integrantes do grupo do futebol, caso ficassem sabendo. No entanto, saiu do consultório com a ideia na cabeça, sentindo-se até um pouco covarde por saber que dificilmente tomaria tal atitude.
Contra todas as expectativas, a sorte um dia chegou para Victor. No jogo seguinte, ele caiu no time adversário ao do anão. Finalmente Victor poderia ganhar um jogo. Sentiu-se entusiasmado desde o início, um entusiasmo4, que há tempos não ligava ao universo do futebol.
A certa altura do jogo, faltando pouco tempo para acabar, e com o placar ainda em zero a zero, a bola respingou e apareceu na frente de Victor, quicando. Como único defensor a ser superado, na sua reta em direção ao gol adversário, estava o anão. Foi instintivo…” 
(de O EXPLICADOR)

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NOTA

[1] A tensão que se estabeleceu entre vários amigos e conhecidos ao longo das últimas eleições (em especial, o segundo turno para presidente) fez com que eu deixasse de lado alguns autores, os quais se manifestaram de um forma reacionária e para mim inaceitável. Mas já era tarde demais para excluir Luís Dill, cujo “Safári” (sem contar sua excelente produção na área da ficção juvenil) já tinha me conquistado e sempre esteve virtualmente “presente” na lista, antes de eu ler suas declarações rançosas. A admiração literária prevaleceu aqui, não sei se acontecerá o mesmo no futuro.

VER  NO BLOG

https://armonte.wordpress.com/2014/09/16/a-maior-travessura-da-menina-ma-elvira-vigna-do-caustico-ao-agonico-em-por-escrito/

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artigo final

27/12/2014

SUSAN SONTAG (1933-2004), SEU ROMANCE VULCÂNICO E SUA REPUTAÇÃO INCANDESCENTE

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(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de janeiro de 2005)

Em minha resenha de 25 de julho de 1993 (VER ABAIXO), sobre O AMANTE DO VULCÃO[1], incorri num grave erro de avaliação. A morte recente de Susan Sontag (28 de dezembro, aos 71 anos) proporciona a chance de corrigi-lo, já que apareceu na imprensa muita bobagem mesquinha e vingativa a seu respeito. Chegou-se até a falar de um suposto “insucesso literário”, que “não a amargurou a ponto de desinteressá-la pelas qualidades alheias (vaticina num tom “simpático” Nelson Ascher, na Folha de São Paulo). Quem, entretanto, leu O amante do vulcão  sabe que se trata de um dos mais belos romances do final do século passado.

O meu erro consistia em afirmar que era preciso esquecer a Sontag pensadora para apreciar a emoção e o impacto do livro, centrado no triângulo amoroso formado pelo casal Hamilton e o Almirante Nelson no final do século XVIII.

Na verdade, o veio ensaístico percorre toda a estrutura narrativa e a alimenta. Amalgamam-se reflexão, biografia e colagem romanesca, ou seja, vemos em ação o gosto enciclopédico que marcou o romance modernista. Mais ainda, Sontag parece ter aglutinado preocupações e inquietações de toda uma vida (e que vida!), dadas a vivacidade e fluência com que instila habilmente ideias  no transcorrer da longa existência de Lord Hamilton, embaixador inglês em Nápoles, desde seu primeiro casamento, quando se destaca como cortesão, como colecionador (as reflexões sobre o ato de colecionar são um capítulo à parte) e como estudioso do Vesúvio.

Viúvo, toma como esposa a antiga amante de seu sobrinho favorito, e passará para a História como um famoso corno, em razão do romance dela com o maior dos heróis britânicos no período napoleônico. Aliás, Sontag, que nos faz gostar muito dos seus personagens, não os poupa no tocante às infâmias que cometem por defender os privilégios do Ancien Régime: instigado por sua paixão por Emma Hamilton, Nelson concordará em participar da terrível perseguição, em Nápoles, àqueles que presumivelmente aderiram ao “espírito revolucionário”, o qual acarretou a deposição da monarquia francesa.

Passado esse momento de erupção passional (da História, do amor entre os dois, do esgarçamento do espírito clássico rumo ao temperamento romântico), o julgamento dos compatriotas do trio (e da posteridade) não é nada generoso. Nelson é ainda poupado (a culpa recai sobre a mulher, a tentadora) por ser um herói popular, uma “lenda viva”: “Ele é um guerreiro, o melhor já produzido por seu belicoso país, prestes a tornar-se a maior potência imperial que o mundo já viu. Todos os admiram. A criação da sua reputação já foi longe demais. Não se pode permitir que seja destruída. Mas quem se importa com uma mulher gorda e vulgar ou esse velho emaciado e exausto? Eles podem ser destruídos. A sociedade não terá nada a perder. Nada de importante foi investido neles.”

   Ascher vaticinava em seu horroroso necrológio uma purificação póstuma de Susan Sontag das “polêmicas circunstanciais” em que se meteu devido às convicções políticas (equivocadas, para ele). Nisso, compartilhará o destino da sua maravilhosa heroína de O amante do vulcão:  ambas nunca vão dar paz a seus detratores incomodados, sempre serão maiores do que o destino que querem impor a elas.

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(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  25 de julho de 1993)

É preciso esquecer um pouco a Susan Sontag ensaísta para aproveitar a emoção e o impacto do romance O amante do vulcão, no qual o talento literário da autora explode como o Vesúvio, centro das atenções do protagonista, Lord Hamilton.

Uma figura histórica: é o embaixador inglês da Nápoles do século XVIII. Após a morte da esposa, recebe “de presente” do sobrinho a cortesã Emma, com quem acaba casando. Estouram as perturbações revolucionárias e surge o Almirante Nelson, com sua irresistível aura de herói. Uma existência que era a observação impessoal da fúria e do terror da natureza (o vulcão) passa a testemunhar a erupção dessa mesma fúria e terror nas convulsões sociais e também dos debates passionais de um triângulo amoroso.

Já se disse (Kundera) que há três possíveis modos de narrar: ou se conta ou se descreve ou se pensa uma história. O último caso, que é o de O amante do vulcão, implica uma colaboração explícita do narrador, de uma persona de que ele se serve para comentar o que está narrando. Sontag acompanha Hamilton com carinho, muito próxima, quase como que sussurrando no seu ouvido. Pode não mudar em nada o destino dele, porém nos envolve apaixonadamente em suas cogitações, até na relutância e reticência de sua vida interior, esse vulcão inativo.

Hamilton é um colecionador, e Sontag faz inesquecíveis reflexões sobre o ato de colecionar, o que já seria digno de nota dada a qualidade da prosa. Mas ela ainda demonstra um fôlego vulcânico ao nos mergulhar na época em que o romantismo e toda a ideologia burguesa dos valores individuais, dos “abismos” pessoais, começam a se delinear.

Há um ritmo à Vivaldi,  ora num andamento ligeiro, milagrosamente leve, ora com uma melancolia que representava uma portentosa sensação crepuscular, bem apropriada a uma época agonizante, mas sem necessidade de grandiloquência. Passamos da grotesquerie operística da corte de Nápoles (muito antes da unificação italiana), com seu rei que detesta ficar sozinho (até para defecar precisa de companhia) à torrente irracional e alucinante da turba massacrando a família de um duque sem saber exatamente por quê.

Pois a sociedade e o indivíduo, como o vulcão amado por Hamilton, têm seus períodos adormecidos. E de repente tudo pode ficar incandescente. O que seria um bom adjetivo para esse grande e afortunado romance.

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_______________________________________________________

NOTA

[1] The Volcano Lover (1992), que comento na tradução de Isa Mara Lando.

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23/12/2014

TRADUÇÕES DE 2014-ALGUNS DESTAQUES

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Minha lista de destaques entre as traduções de 2014 será possivelmente de uma graça finita para muitos. Como meu espaço no jornal A TRIBUNA diminuiu, ative-me a 16 títulos (aquele que considero “o” livro do ano e + 15), incluindo apenas (salvo engano) aqueles ainda não traduzidos no Brasil, o que me fez excluir as novas versões de clássicos da ficção científica lançadas pela Aleph, novas versões de clássicos (A Besta Humana, por exemplo, ou Paradiso), e também Michael Kohlhaas, obra-prima que apareceu em duas versões este ano (mas já tinha sido traduzido antes) até mesmo o importantíssimo As aventuras do bom soldado Svejk, o qual já tivera versão brasileira em 1967, pela Civilização Brasileira, como Aventuras do bravo soldado Schweik. De resto, não custa reafirmar, como sempre faço, que não dá para ler tudo nem gostar de tudo. Sempre se pode dizer que mais vale um Buda no sótão do que um pintassilgo que não alça voo.

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de dezembro de 2014)

Tradução do ano- O Idiota da Família (1971), de Jean-Paul Sartre (cujo primeiro volume foi traduzido por Julia Rosa Simões), tentativa talvez quimérica de investigar até os últimos limites a vida de um indivíduo (Gustave Flaubert), num estilo inigualável em sua vivacidade e ousadia, apesar do cipoal informativo-interpretativo, que visa a fusão do que é privado e coletivo (L&PM).

Entre o que pude ler, em ordem alfabética (por sobrenome de autor) as seguintes obras, até então inéditas em nosso país, destaco:

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-Hóspede por uma noite (1939)- Sch.I.Agnon (Nobel 1966) faz o protagonista retornar à terra natal, num feriado religioso, para constatar as marcas deixadas pela guerra nas tradições da comunidade judaica—e apesar do horror que hoje representa o estado de Israel, como ignorar um autor desses? (Perspectiva; tradução de Zipora Rubenstein);

brochbroch

-Espírito e Espírito de Época: Hermann Broch (1886-1951) foi um dos maiores romancistas do século passado (“A Morte de Virgilio”, “Os Sonâmbulos”). Também era um notável ensaísta, meditando sobre os rumos da arte nos impasses da modernidade—são essenciais suas formulações sobre o mal, o kitsch e o des-estilo (Benvirá; tradução de Marcelo Backes);

búninbunin

- Contos Escolhidos- 16 textos do Nobel de 1933, Ivan Búnin, mostrando com precisão sutil o outono do mundo czarista na Rússia, no melhor que a ficção de atmosfera e de costumes pode oferecer (Amarilys, tradução de Márcia Pileggi Vinhas);

desmedida

-Esperança do Mundo/A Desmedida na Medida/A Guerra Começou, Onde Está a Guerra?(1935-42)- Em três volumes, os Cadernos do início da carreira de  Albert Camus, preciosos laboratórios (ou forjas) de sua obra (Hedra; tradução de Raphael Araujo & Geske Samara);

os-luminares

Os Luminares (2013)- A jovem Eleanor Catton reinstaura para o gênero romanesco os grandes desafios formais: no caso, uma estrutura toda governada pelas interações astrológicas (Biblioteca Azul; tradução de Fábio Bonillo)[1];

tempo presente

-O Melhor Tempo é o Presente (2012)- Falecida este ano, Nadine Gordimer deixou esse extraordinário romance final, em que a trajetória de um casal compõe incisivo (e desconfortável) panorama da primeira geração pós-apartheid (Companhia das Letras; tradução de Paulo Henriques Britto);

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-Vida e Destino- romance confiscado em 1961 pelo estado soviético e que só apareceu em sua plenitude há um quarto de século.  O ucraniano Vassili Grossman se vale da proverbial grandiosidade russa para pintar um afresco multifacetado sobre a guerra e o antissemitismo (Alfaguara; tradução de Irineu Franco Perpetuo);

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-Em Uma Só Pessoa (2012)- No universo de John Irving, maior fabulista do nosso tempo, a fluidez da identidade sexual já esteve presente, mas nunca no grau desse seu mais recente romance, como sempre caudaloso e extravagante (Rocco; tradução de Léa Viveiros de Castro);

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Colares de Xangô e Sapatos Bicolores (2012)- A histórica reaproximação dos EUA com Cuba aumenta o interesse desse belo romance de William Kennedy, caleidoscópio de lugares e experiências (que multiplicam uma cena infantil), entre os quais a ilha de Fidel às vésperas da Revolução (Biblioteca Azul; tradução de Elton Mesquita);

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-História Policial (1977)-Imre Kertész (Nobel 2002) demonstra a implacável lógica das ditaduras e seus projetos de poder, que exigem a supressão de indivíduos (Tordesilhas; tradução de Gabor Aranyi)[2];

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-O Súdito (1918)- Como pode ter demorado tanto uma tradução brasileira de um romance satírico desse quilate, no qual Heinrich Mann expõe a mentalidade reacionária do Império Prussiano, sob a dinastia Hohenzollern, que levou a Alemanha para o caminho das guerras mundiais? (Mundaréu; tradução de Sibele Paulino) — merecia até dividir com O IDIOTA DA FAMÍLIA a primazia nessa lista;

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-Paraíso Reconquistado- Finalmente, uma versão brasileira (realizada por uma equipe coordenada por Guilherme Gontijo Flores) do clássico poema de 1671, onde John Milton dramatiza — com um teor poético que nada fica a dever aos melhores momentos da Bíblia — as tentações de Jesus no deserto (Cultura);

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-O Buda no Sótão (2011)- Julie Otsuka forjou uma voz coletiva inesquecível para narrar a imigração japonesa para os EUA, numa obra-prima contemporânea (Grua; tradução de Lilian Jenkino)[3];

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-O país dos cegos- 18 histórias de H.G. Wells (1866-1946), selecionadas e traduzidas por Bráulio Tavares,  num definitivo mostruário da sua fabulação, que incorporava elementos da luta de classes, da exploração do trabalho e da desfaçatez colonial (Alfaguara);

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-Formas de voltar para casa: um dos melhores livros do século até agora, este do chileno Alejandro Zambra, em que os contrastes entre a geração dos seus pais e a dele, fazem a discussão política penetrar nos meandros mais inesperados (Cosacnaify; tradução de José Geraldo Couto).

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ALGUNS TRECHOS SELECIONADOS

“__ Lauderback assim o disse, exatamente—disse Moody. Ele balançou a cabeça.—Fico pensando se devo acreditar nas intenções do senhor Lauderback ao citar o nome desta jazida tão casualmente ao senhor Balfour esta manhã.

__ O que quer dizer com isto, senhor Moody?

__Não confia nele, em Lauderback?

__Seria muito pouco lógico desconfiar do senhor Lauderback—disse Moody—, visto que nunca na vida encontrei o homem. Estou muito ciente do fato de que os acontecimentos pertinentes dessa história estão sendo transmitidos de segunda mão, até, em alguns casos, de terceira mão. Tomo como exemplo a menção à jazida Dunstan. Francis Carver aparentemente mencionou o nome dessa jazida ao senhor Lauderback, que por sua vez narrou ao senhor Balfour, que por sua vez retransmitiu sua conversa a mim, hoje à noite! Todos vocês hão de convir que eu seria um tolo em tomar como verdadeiras as palavras do senhor Balfour.

     Mas Moody subestimara sua plateia ao questionar tópico tão delicado quanto a ´verdade´. Houve uma explosão de indignação ao redor da sala.

__ Quê? Não confia em um homem que lhe contou a própria história?

__ Posso asseverar que isso é verdade, senhor Moody!

__ Que mais ele poderia lhe dizer, salvo aquilo que contaram a ele?

    Moody foi tomado de surpresa.

__ Não creio que qualquer parte de sua história tenha sido adulterada ou omitida—ele replicou, dessa vez com mais cuidado. Olhou de rosto em rosto.—Queria apenas observar que não de pode nunca assumir como própria a verdade de outro homem.

__ Por que não?—Essa pergunta imediatamente ecoou de toda parte.

    Moody fez uma pausa por um instante, refletindo.

__ Em um tribunal—disse ele finalmente—, uma testemunha jura dizer a verdade, ou seja, sua própria verdade. Ela concorda com dois parâmetros. Seu depoimento deve conter toda a verdade, e esse depoimento não deve conter nada além da verdade. Apenas o segundo desses parâmetros é um limite real. O primeiro, é claro, é grandemente uma questão de discrição. Quando dizemos ´toda a verdade´, dizemos, mais especificamente, todos os fatos e impressões que são pertinentes ao assunto em questão. Tudo que não é pertinente não é apenas irrelevante, é também, em muitos casos, intencionalmente enganador. Senhores—disse ele, embora senha abordagem coletiva lhe houvesse saído esquisita, considerando a companhia diversificada  que ele tinha na sala—, eu defendo que não há verdades totais, e sim apenas verdades pertinentes, e a pertinência, hão de convir,  é sempre uma questão de perspectiva. Não creio que nenhum de vocês haja perjurado de alguma maneira esta noite. Eu acredito que me deram a verdade, e nada além da verdade. Mas suas perspectivas são muitas, e hão de me perdoar se eu não tomar por integral a sua narrativa”   (de Os Luminares)vie et destin

grossman

 

“…os alemães tinham chegado aos tanques de petróleo, e o óleo ardente jorrava sobre o Volga (…) O petróleo jorrava negro, lustroso,  vindo dos depósitos que haviam sido crivados de balas incendiárias; parecia que as cisternas armazenavam rolos enormes de fogo e fumaça, agora liberados.

    A vida que dominara a Terra havia centenas de milhões de anos, a vida rude e assustadora dos monstros primitivos, elevara-se das profundezas, voltava a bramir, batia os pés, urrava, devorando avidamente tudo ao seu redor… As chamas eram tão volumosas que o turbilhão de ar não conseguia fornecer oxigênio às moléculas ardentes de gás carbônico, e uma abóbada negra e oscilante separara o céu estrelado de outono da terra em chamas. Visto de baixo, o firmamento fluido, gorduroso e negro era um horror.

    As colunas de fogo e fumaça, ao se precipitarem para o alto, ora assumiam o aspecto de seres vivos tomados pelo desespero e pela fúria, ora se assemelhavam a choupos e álamos chacoalhantes. O negro e o vermelho giravam nas nesgas do fogo como cabeleiras negras e ruivas de mulheres dançando desgrenhadas…” (de Vida e Destino)

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“__ Não entendo os senhores, não os entendo. O que querem de mim? Pois se o Estado confia em mim…

__ Bem, sim.—Díaz balançava a cabeça como um professor primário.—O problema é que nós não confiamos no Estado…

__ Não entendo, não entendo… Então acreditam em quê?

__ No destino. Mas no momento nós é que assumimos o papel do destino: portanto, em nós mesmo—disse Díaz com seu sorriso inigualável…”  (de História  Policial)

“ Diederich andava muito na rua nestes dias frios e

úmidos de fevereiro de 1892, na expectativa de grandes

acontecimentos. Na avenida Unter den Linden algo havia

mudado, mas ainda não se sabia o quê. Nas esquinas estava

postada a polícia montada também na expectativa.

Os transeuntes chamavam a atenção, uns aos outros, sobre

esta demonstração de força. — Os desempregados! — Todos

paravam para vê-los chegar. Vinham da direção norte

em pequenos grupos, marchando lentamente. Ao chegarem

à avenida Unter den Linden, hesitaram como que perplexos.

Entenderam-se através de olhares e dirigiram-se

para o palácio imperial. Lá permaneceram mudos, com as

mãos nos bolsos, deixaram-se respingar pela lama lançada

pelas rodas dos carros, encolheram os ombros sob a chuva

que caía sobre os seus surrados casacões. [… ]

Um policial a cavalo gritava para que eles fossem

adiante, que se afastassem mais para o lado ou até para

a próxima esquina — mas já estavam parados novamente;

o mundo parecia estar submerso entre suas largas e encovadas

faces, iluminadas pela noite, e o muro que se erguia

ali adiante, sobre o qual escurecia.

— Eu não entendo — disse Diederich — por que a

polícia não toma medidas mais severas. Isto é uma turma

de rebeldes.

— O senhor não se preocupe — respondeu Wiebel.

A polícia tem suas instruções. Os senhores lá em cima

têm as suas intenções bem calculadas, disso o senhor pode

estar certo. — [… ]

O trânsito de carruagens ficou paralisado; os pedestres

aglomeravam-se e eram arrastados pela torrente lenta

em que submergia a praça e por este mar turvo e sujo

de miseráveis que avançava viscoso, com sons abafados, e

do qual se erguiam, como mastros de navios afundados,

varas com os cartazes: PÃO! TRABALHO! Um murmúrio

irrompia da massa, ora aqui, ora acolá:

— Pão! Trabalho! — Crescia, revoando sobre a massa

como um trovão:

— Pão! Trabalho! — […]

A polícia os vai empurrando. […] Então alguém diz:

— Aquele lá não é Guilherme?

Ninguém sabia como era possível marchar em massa

compacta por toda a extensão da rua e até os flancos do

cavalo que o imperador montava: ele em pessoa. Viam-no

e o acompanhavam. Grupos de manifestantes eram dissolvidos

e arrastados pela massa. Todos olhavam para o

imperador. Era um ondular confuso, desordenado, ilimitado,

e acima deste ondular um jovem senhor de capacete:

o imperador. […]

Dos lados, onde as fileiras eram menos cerradas, pessoas

melhor vestidas diziam umas às outras:

— Graças a Deus, ele sabe o que quer!

— Mas o que é que ele quer?

— Mostrar a essa turba quem está com o poder! [.. . ]

Não se pode dizer que ele seja covarde. Gente, este é um

momento histórico![… ]

Um jovem com um chapéu de artista que caminhava

ao lado de Diederich disse:

— Isto é velho! Em Moscou, Napoleão fez o mesmo:

somente, sem proteção, misturou-se com o povo.

Diederich respondeu: — Mas isto é maravilhoso… —

e a voz lhe falhou. O outro encolheu os ombros: — Tudo

encenação, e não das melhores.

Diederich fitou-o, tentando imitar o olhar faiscante

do imperador, e disse:

— O senhor também é um destes. — Mas não estaria

cm condições de explicar o que queria dizer com ‘destes’.

Sentiu apenas, pela primeira vez em sua vida, que lhe cabia

defender uma causa justa contra as críticas de seus

inimigos. Apesar de seu nervosismo, olhou ainda para os

ombros do jovem: não eram largos. Ademais, todos ao

seu redor mostravam-se indignados. Com isso, Diederich

tomou uma atitude. Com a sua barriga, empurrou o inimigo

de encontro ao muro e começou a bater nele. Outros

o ajudaram. O chapéu já caíra ao chão, e pouco depois

o homem caíra também. Diederich. já seguindo os

outros, comentou com os que lhe haviam ajudado:

— Aposto que esse não serviu no exército! — [.. . ]

Um senhor idoso, com suíças grisalhas e a cruz de

ferro, também estava lá e apertou a mão de Diederich:

— Bravo, jovem, bravo!

— Não é de se perder a calma? — perguntou Diederich

ainda ofegante. — Quando um sujeito como aquele

quer estragar um momento tão solene. [.. . ]

— Permita-me, prezado senhor — alguém gritou, agitando

seu bloco dc anotações. — Temos de noticiar isso.

Como pano de fundo, sabe? O senhor surrou um companheiro?

 

— Ninharia — Diederich ainda ofegava. — De minha

parte poderíamos iniciar logo o combate ao inimigo interno.

O nosso imperador já está conosco.

— Ótimo — disse o repórter, e escreveu: ‘Na agitada

multidão, ouviam-se de pessoas de todas as classes sociais

manifestações da maior lealdade e de inabalável confiança

no imperador’.

— Viva! — gritava Diederich com todos. E em meio a essa avalancha de pessoas ele alcançou o Portão de Brandenburgo. Dois passos à sua frente cavalgava o imperador.

Diederich podia ver-lhe o rosto, a sua fisionomia seria,

o seu olhar faiscante; mas esta imagem se turvou a

seus olhos de tanto que gritava.” (de O Súdito)

“Uma de nós os culpava por tudo e desejava que eles morressem. Outra os culpava por tudo e desejava que ela estivesse morta. Outras aprendiam a viver sem pensar neles em absoluto. Nós nos lançávamos ao trabalho e ficávamos obcecadas pela ideia de arrancar mais uma erva daninha. Deixávamos os espelhos de lado. Parávamos de pentear o cabelo. Esquecíamos a maquiagem…Esquecíamos de Buda. Esquecíamos de Deus. Desenvolvíamos uma frieza interna que ainda não derreteu. Temo que minha alma tenha morrido…” (de O Buda no sótão)

…sou contra a nostalgia.
Não, não é verdade. Eu gostaria de ser contra a nostalgia. Para onde quer que eu olhe há alguém renovando votos com o passado. Recordamos canções que na verdade nunca nos agradaram, voltamos a ver as primeiras namoradas, colegas de curso por quem não tínhamos simpatia, saudamos de braços abertos gente que repudiávamos.
Me assombra a facilidade com que esquecemos o que sentíamos, o que queríamos. A rapidez com que assumimos que agora iremos rir das mesmas piadas. Queremos, julgamos ser de novo os meninos abençoados pela penumbra.
Estou nessa armadilha…” (de FORMAS DE VOLTAR PARA CASA)

destaques resenha

REFERÊNCIAS NO BLOG

[1] https://armonte.wordpress.com/2014/09/30/destaque-do-blog-os-luminares-de-eleanor-catton/

[2] https://armonte.wordpress.com/2014/07/10/o-filho-incorrigivel-das-ditaduras-imre-kertesz-e-historia-policial/

[3] https://armonte.wordpress.com/2014/11/04/o-buda-no-sotao-de-julie-otsuka-destaque-entre-as-traducoes-de-2014/

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