MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/10/2016

A Perigosa Poesia Movediça de Maria Carolina de Bonis: “Passoa ao Redor do Teu Canto”

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de outubro de 2016)

Levei um susto quando li os primeiros versos de PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO (Editora Patuá): “Entrar no teatro pelas portas dos fundos/Esperar até que cortinas se fechem/Sentar-se numa cadeira detrás do palco/Baixar os olhos e soletrar um verso/Heroico com as formas de adeus”.  Pareceu-me algo decalcado do universo da grande Wisława Szymborska, Nobel de 1996, bastante em voga por aqui, pelo menos nas redes sociais (daqui a pouco, provavelmente surgirão os apócrifos).

Mas era um equívoco, pois Maria Carolina de Bonis apresenta uma voz poética muito própria, exercitando uma poesia “entre duas portas”; (“É cíclico o caminho”; o título já indica esse movimento). Ela parte de um estar-no-mundo, na casa, dos móveis, enfim nas coisas, regredindo a estágios minerais e vegetais, procurando “a origem ágrafa”: (“Chega a hora de nos tornarmos eternos/Como se fosse estranho envelhecermos”); são muitas as imagens de florestas, semeadora, colheita, algas, pedras, grutas, e às vezes temos uma impressão de imagens que se colidem desarmonicamente. Também é preocupante esse “olhar de exílio”, com que dispensa as camadas mais próximas da realidade: (“Vivo/onde as moscas contornam/minha ausência”).

Ao final de PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO, nos damos  conta de que ele foi pensado não como reunião de poemas, e sim como um livro, o que absorve todas as supostas desarmonias; além disso quanto ao exílio, um diálogo latente perpassa todos os poemas, e ela nos sugere que margens, contornos, estão para ser transbordados e extrapolados: “Sou o contorno do testamento das pátrias/O desterro gutural dos nômades/Gruta movediça que nem em pedra cristaliza/O opaco do chão de terra batida//E uma aldeia para que pudesse inaugurar/Os lugares onde não estou/Soa além do contorno do cão/A invenção da sinceridade”.

Portanto, temos um contra-dizer: “Dizer está sempre fora do que dizemos/o ato se reproduz em deslocamentos/volta antes e me encontro depois/a língua se desdobra fora do contorno ao redor/dos teus lábios lentamente ao redor da sala meus passos”; ou ainda: “Eu não sou o que digo/Mas é como se fosse”; mais um exemplo: “A ida será um regresso/Desse lado, avesso/Do traço em linhas do excesso//Os contornos da carne/Habitando os limites do corpo/O gozo da terra/Teu corpo, agora/Nos guizos do vento”.

Uma das viagens literárias mais interessantes dos últimos tempos é acompanhar Maria Carolina de Bonis, em suas aventuras “Dos fios que se perdem dos fios/Que se atam”.  Tomara que o fio que seguirmos não nos leve para as conclusões inquietantes de Teu retrato: “Hoje meu espelho está vazio//Apanha-me em relances/Conjuga-me em silêncio/E soletra as placentas recolhidas//Ao canto do deserto/Na mesma margem/Que caminha a/Semelhança secando/Meus contornos”.

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04/10/2016

“O Sol Vinha Descalço”: O óbvio e o raro na poesia de Eduardo Rosal

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente no jornal A TRIBUNA de Santos, em 04 de outubro de 2016)

Como conhecer Deus/e participar da vida? ”. Geralmente, tenho um pé atrás com poesias sobre uma genérica condição humana, desatrelada das contingências, da nossa “situação” especifica no mundo. Por isso, foi uma imensa surpresa a leitura de O SOL VINHA DESCALÇO (Editora Reformatório), de Eduardo Rosal, que recupera o teor meditativo e metafisico de uma Hilda Hilst ou de um Carlos Nejar (para mim, o maior poeta brasileiro vivo); não esquecendo Adélia Prado (só que ela trabalha mais explicitamente com signos do catolicismo ligados às contingências do cotidiano).

Rosal utiliza o verso interrogativo, perseguindo os rastros de Deus e o porquê do nosso existir. É a parte mais marcante da sua coletânea: “Somos solitários míopes/mendigando o mesmo espelho?/o mesmo espectro? ”. O ponto alto dessa interrogação incessante é o poema Deuses do qual tirei os versos que abrem esta resenha. Em todos, o mesmo objetivo obsessivo: “viajar de volta/ao fim/tão bem desconhecido”. Ou seja, uma viagem sem mapas pela galáxia da finitude do ser (para lembrar o saudoso Léo Gilson Ribeiro): “Nem onde/nem sina”.

Outra vertente muito cara ao modernismo em geral, e que poderia cair na banalidade epigonal, é a exploração da memória afetiva, especialmente da infância. Mesmo aí, O SOL VINHA DESCALÇO demonstra grande força imagética: “A memória é uma ilha/cercada de futuros”. Sol, sombra, fumaça, são invólucros para o exercício de rememoração, além do confronto com a divindade que nos marca com a morte: “A terra na mão/o menino brinca/gerações/e gerações/o silêncio/sabe de cor//Terra—/memória/que não esqueço/de apertar”. O menino tenta segurar os seus bens humanos diante do fato estrondoso de que somos irremediavelmente efêmeros: “Há um deus que/me persegue/com a morte no calcanhar/numa esquina qualquer/desiste/sem curvar a espinha/ao medo/me deixa passar/cede minha vez/a outro deus/(ou me ama?)”; ou ainda: “Para retornar ao pó/é preciso ser carne//O menino talvez tenha lido ou escutado//Guardou bem”.

Eduardo Rosal, apesar de jogos de palavras bastantes eficazes (“Amor—ternura política”, vejam que achado genial!), pratica uma poesia do “significado”, embora hoje em dia ainda se valoriza mais a poesia do “significante”, por conseguinte é maior ainda o seu feito: “Ser só/este rascunho/de fracasso?/um terraço/onde o sol não bate?”.

Que não se enganem: sou todos//Nenhuma mudança me alcança/mas sou sempre outro//”, versos que lembram Fernando Pessoa. Mas com Eduardo Rosal é assim: mesmo lembrando outros poetas, ele se mantêm inteiramente pessoal, equilibrando apaixonadamente o óbvio e o raro: “Talhar o que escapa/inscreve o risco?/É óbvio e raro?//Ao passo que emerge/foge? E pressente/o passado?//Natimortos, vingamos/nas imagens – voláteis?/Depois da morte?//A fumaça se escreve/à nossa imagem/e semelhança?”.

O SOL VINHA DESCALÇO é um dos melhores livros deste início de século.

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20/09/2016

Um romance histórico necessário para os dias de hoje: “A Utópica Teresevile”

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de setembro de 2016)

Em pleno recrudescimento da intolerância, do preconceito, do retrocesso e da truculência, recomendo enfaticamente a leitura de A UTÓPICA TERESEVILE: baseado em fatos reais (não que isso seja uma virtude), o romance de André Jorge Catalan Casagrande narra uma experiência de socialismo utópico (sem as extravagancias de pensadores como Fourier) levada a cabo pelo médico francês Jean Maurice Fraive, com a anuência de Dom Pedro II e sua esposa, Tereza Cristina, num Paraná ainda não desbravado, quase despovoado. Teresevile seria uma comunidade onde vigoraria igualdade absolutas entre raças, sexos, com todo mundo trabalhando em prol de todos, usufruindo dos lucros.

O autor insere na história da colônia a trajetória de Raimundo, escravo que ganha a liberdade, graças ao doutor Faivre. Mas, aí percebemos que nessa sociedade igualitária, nem todos são tradados igualmente, Raimundo não é aceito pelos membros de Teresevile, quase todos franceses e preconceituosos quanto à cor de pele. Ele acaba se unindo a um quilombo que se instalou na região. Pior ainda, ele tem a experiência dolorosa de constatar a intolerância de sua própria gente, a qual rejeita sua esposa, Alice, por ser branca, acarretando uma tragédia.

Apesar do estilo ser bem claro, há uma sutil polifonia narrativa que Casagrande poderia até explorar com mais ousadia e riqueza, pois o resultado é tímido, o que é perfeitamente aceitável num primeiro romance. O que me incomoda em A UTÓPICA TERESEVILE é o esquematismo dos personagens que empobrece as relações e os conflitos pessoais e ideológicos, tornando previsível o desenrolar da trama, mesmo assim enriquecida por lendas de origem africana e indígena.

Ao fim e ao cabo, é um livro – se não totalmente realizado – fecundo em ideias, temas ainda presentes, ao resgatar um fato histórico que coloca em discussão o que é realmente civilização: “Minha única exigência às dezenas de famílias que assentei em Tereza Cristina era de que usassem da mesma misericórdia que tive para com eles, com outros miseráveis quando houvesse possibilidade e recursos. A esperança de que a benevolência se alastrasse pela face da terra é que me motivava – a despeito de tudo – a lutar por uma civilização mais igualitária, onde todos pudessem ser felizes desfrutando dos frutos oriundos de seu próprio labor”.

Em tempo: o historiador Josué Corrêa Fernandes pesquisou a colônia Tereza Cristina, resultando na obra Saga da Esperança: Uma Utopia Socialista à Beira do Ivaí, publicada pela Imprensa Oficial do Estado, em 2006.

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13/09/2016

Juliana Diniz e a permanência de um instante na ausência da palavra: “O Instante-Quase”

 

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de setembro de 2016)

 

A expressão que dá título à coletânea (doze relatos com nomes de mulheres) O INSTANTE-QUASE (Editora 7Letras) já aparece no texto de abertura “Lúcia”, mas é emblematizada em “Lindalva”: uma noiva abandonada que percebe que a vida não passa, apesar da sua complexidade, de um “uni duni tê” de afetos e de escolhas (“O pai começa a recolher os restos de tecido em silêncio, sem perturbar o transe religioso da filha, atento ao olhar vidrado de Lindalva que destrói, ponto a ponto, sem dó ou indecisão, com golpes metálicos de tesoura, a lembrança tátil de um vislumbre de vida”). Por tanto, o admirável livro de estreia da cearense Juliana Diniz nos oferece um painel em que a sombra do que poderia ter sido paira sobre o que é.

Até nos estratos mais miseráveis da sociedade, ela vasculha as alternativas da existência. Um dos pontos altos de O INSTANTE-QUASE, “Perpétua”, é a história de uma mulher oriunda do sertão mais castigado pela seca que vai morar com o marido nas palafitas de Manaus, cercada pelo rio imenso e a mata (“Deu-se conta que a morte poderia acontecer de um susto, sem que aquele mundo farto de tanta vida notasse que ela deixou de existir”).

Juliana Diniz trabalha tanto com o realismo direto, quanto com o alusivo, o onírico (há um imaginário písceo explorado em “Perpétua” e em “Natália”, o qual se passa em outra classe social), o alegórico. Ou seja, ela sabe urdir “estórias” e também encontrar a linguagem lapidar para cada uma delas (só duas me passaram a sensação de fracas, mal desenvolvidas: “Gabriela” e “Marina”; em compensação temos momentos excepcionais como “Maria”, “Hilda” e “Olívia”: “Observo a janela aberta para o vazio e percebo que restamos apenas nós neste quarto estranho e sem lembranças, encastelados, quase desistentes, quase amantes, construindo a permanência de um instante na ausência da palavra”). Suas ficções curtas são tão caleidoscópicas que parecem romances encapsulados, na mesma linha de um mestre no gênero, a canadense Alice Munro (Nobel de literatura de 2013).

Um dos aspectos mais impressionantes dessa sabedoria textual numa autora tão jovem é a mistura que faz do arcaico, do recôndito, com os signos da modernidade: por exemplo, em “Lúcia” – conto no qual uma filha descobre a vida alternativa que a mãe poderia ter tido com o dono de um casarão antigo e aristocrático –; ou então em “Auxiliadora”, cuja protagonista é uma beata que se escandaliza ao descobrir que o juiz a quem serve fielmente durante décadas utiliza chats eróticos durante o expediente e encomenda viagra para seus encontros com uma fogosa amante (Auxiliadora planejará uma terrível vingança, trocando as pílulas de viagra por pílulas para pressão).

O Ceará já conta com contistas de peso, como Pedro Salgueiro, Tércia Montenegro e Raymundo Netto. Agora Juliana Diniz com sua prosa avassaladora vem mostrar aos pessimistas de plantão, sempre anunciando a morte da literatura, que a ficção está mais viva do que nunca. Nosso panorama literário encontra-se em ótimo momento e provavelmente ela será uma das suas principais figuras.

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06/09/2016

Matheus Arcaro e “o nada sem caroço”: O LADO IMÓVEL DO TEMPO

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 (A resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de setembro de 2016)

Em seu romance de estreia, o jovem Matheus Arcaro (cujo livro de contos, Violeta Velha e Outras Flores, critiquei duramente nesta coluna pela falta de uma personalidade autoral com contornos definidos), ousa um formatado filosófico – usando sua formação na área – muito pouco praticado por aqui. Não que isso seja problema. Basta lembrar da junção entre filosofia e fabulação em A Náusea (1938), de Sartre, e de O Agressor (1943), de Rosário Fusco. Isso sem contar a ficção de tendência cristã que formou um verdadeiro subgênero da prosa, de Dostoievski a Gustavo Corção (autor de Lições do Abismo), com sua temática de culpa e expiação.

O LADO IMÓVEL DO TEMPO (publicado pela Patuá) provavelmente ficará como um romance de exceção como os de Fusco e de Corção. Ele trata da eternidade e da angustia da finitude sem significado: Salvador dos Santos aos 70 anos resolve tornar-se um assassino em série a fim de ficar para a posteridade, após uma vida caracterizada pela esposa que o abandonou (após o fracasso de suas tentativas como poeta) por uma “aura insossa”. Infelizmente, mesmo com a breve celebridade por causa de cinco assassinatos, Salvador da eternidade só sente “o nada sem caroço”, “poderia muito bem dizer que fiz o que fiz porque fui um títere nas mãos do fracasso”.

Livro singular, O LADO IMÓVEL DO TEMPO é uma ótima narrativa, chegando a momentos extraordinários como a cena em que Salvador, ainda criança, contempla-se no espelho do guarda-roupa tomando consciência da própria identidade e do seu corpo. Também é um despertar erótico, apesar do clima repressivo de sua casa (o pai é pastor religioso e despreza o filho).

Malgrado sua qualidade como narrativa e linguagem (muito trabalhada), não acho totalmente convincentes considerações filosóficas coladas à percepção de Salvador porque o personagem não tem estatura para absorvê-las e, como o autor confunde o foco narrativo (aliás, com admirável habilidade) dá uma sensação forçada várias vezes.

Esse não é, para mim, o aspecto mais problemático do romance. Minhas restrições quanto a Violeta Velha e Outras Flores residiam na linguagem afetada e decorativa, com imagens e metáforas gratuitas e sem substancia literária. O talentoso autor incide no mesmo erro, principalmente nas primeiras páginas (“Salvador ergueu o jornal a um palmo das pupilas”, por exemplo). Tenho consciência de que essa minha implicância com uma linguagem “abonitada” representa uma idiossincrasia, e que outros leitores podem se apaixonar pela obra de Arcaro justamente por esse uso da prosa. Questão de gosto.

O inegável, porém, é que o autor de O LADO IMÓVEL DO TEMPO deu um salto impressionante do primeiro para o segundo livro, obrigando-nos definitivamente a ficar de olho nele, apesar de um certo “quê” de anacrônico e obsoleto nas suas escolhas, o que faz dele o parente mais próximo do grande e esquecido Rosário Fusco em nossa literatura do século 21.

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23/08/2016

PÁSSAROS DE PERDIÇÃO: “Liturgia do Fim”, de Marilia Arnaud

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de agosto de 2016)

 

Se eu pudesse te levar a reconhecê-lo, então seria possí- vel, não uma nova vida – que para isso estamos ambos velhos demais –, mas uma espécie de paz, não a cessação, mas pelo menos um abrandamento das tuas intermináveis acusações…

…que se alguém por acaso quisesse calcular por antecipação como eu, o filho que se desenvolvia devagar, e tu, o homem feito, se comportariam um em relação ao outro, poderia supor que tu simplesmente me esmagarias sob os pés, a ponto de não sobrar nada de mim.

(Franz Kafka, Carta ao Pai)

 

Há um detalhe emblemático em LITURGIA DO FIM: em sua volta à fazenda natal, após trinta anos de afastamento (fora expulso), o protagonista Inácio rememora um presente do casamento dos pais, um conjunto de louça com motivo de pássaros, que o pai, homem brutal e tirânico, quebrará em mil cacos, guardados cuidadosamente pela mãe. É uma analogia com o íntimo do próprio Inácio, no reencontro com o pai, o outro único sobrevivente na numerosa família Boaventura: “Meu estômago escoiceava numa náusea de mil cacos de vidro”.

Nem construindo uma vida urbana, Inácio escapou de Perdição, o seu lugar de origem, e das estruturas elementares do parentesco: “Não compreenderei se lhe dissesse que durante todos os anos em que estive ao lado de Ieda e Isabel experimentei com frequência a sensação de que a vida, a vida real, a minha vida estava em outro lugar, como se ali, ao lado delas, eu fosse apenas um personagem investido de determinado papel, de certo modo conveniente, que me tinha sido oferecido sei lá por quem, porque eu não me lembrava de tê-lo escolhido, eu simplesmente aprendera as falas com relativa facilidade e, ao longo das temporadas, fora se tornando cada vez mais sofrível, até as falas e os atos restarem impraticáveis, até eu ter de me tirar de cena”.

Como uma ginasta que não comete erros, Marilia Arnaud, arma suas piruetas e saltos mortais em torno de uma coreografia de metáforas que vão se espiralando sem vacilo; muito pelo contrário, o leitor fica com a respiração suspensa entre a densidade do narrado e a linguagem grave e austera, contudo lindíssima, a qual só em conta paralelo em Francisco J. C. Dantas, autor da obra-prima, “Coivara da Memória”.

Já ouvi muitas vezes – e sempre achei uma bobagem – que é mais fácil um escritor masculino usar uma voz narrativa feminina, do que uma mulher fazer o contrário. Poderia citar diversos exemplos que contestariam esse preconceito.            Mas a leitura de LITURGIA DO FIM, basta.

Seu romance anterior, “Suíte de silêncios”, já revelava um enorme talento para a ginástica com as palavras e sua estreita relação com a dor de existir; porém, às vezes se deixava levar pelos estereótipos da famígerada “escrita feminina”.

Com LITURGIA DO FIM, na contracorrente de Inácio Boaventura, ela se libertou de todas as gaiolas. No panorama literário de 2016, merece incontestavelmente a medalha de ouro.

 

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TRECHO SELECIONADO:

“A camisa colocava-se ao meu corpo. Detive-me sob jabuticabeira para me secar um pouco, beber água e fumar um cigarro. As bolinhas pretas que recobriam o tronco e os galhos assemelhavam-se a um monstruoso enxame. Na trama negra do solo, insetos apascentavam-se de frutos maduros. A fumaça do cigarro não tornava menos fulgurantes as coisas ao meu redor. Um sabiá, de minhoca de bico, esvoaçava de um galho a outro, inquieto com a minha presença, os filhotes num pipilar aflito, resguardados no ninho algum lugar acima da minha cabeça. Metido entre a vegetação rasteira, um camaleão de pele verde mantinha um olho em minha direção, outro fixo na presa, um besouro de casco luzidio. Por toda parte abriam-se os cálices das onze-horas, e, num pedaço de chão, as delicadas nuvens desenhavam um céu de pétalas.

Fora de mim, vibrava em toda a plenitude um universo sólido, claro, reconhecível, do céu à terra a vastidão de um reino de beleza a resplandecer contra minha dor, mais insuficiente para remediá-la.

Num dos trechos mais íngremes da subida, em que a picada serpenteia entre um córrego e uma pedreira abandonada, a fachada da casa branquejou e um gavião enterrou-me o bico do peito, a mesma estocada de quando me virei para olhá-la naquela manhã que julguei ser a última em Perdição.

Depois de haver sido escorraçado por papai, estivera alguns dias escondido no grupo escolar abandonado, ideia de mamãe, que me levava comida e me pedia paciência e serenidade, pois logo, logo tudo iria se resolver da melhor forma. Eu não percebia como as coisas poderiam se arrumar com Joaquim Boaventura ofendido em sua honra de pai, desbancado em sua imagem de homem intocável e, além do mais, já me fazendo distante de Perdição.

Trancafiado dia e noite no quadrado de paredes emboloradas, ouvindo a suindara rasgar com seu grito a mortalha da noite, tão assustado quanto os ratos que cruzavam o chão de esteira onde eu dormia, debatia-me, como o autor de um crime indefensável, entre o desejo de morrer e o de me entregar. Qual a atitude menos indigna? De qualquer forma, estaria morto, porque se um pai, de quem um filho herda a vida, diz-lhe estás morto, não há por que duvidar, nem de quem se valer, sentença de condenação irrecorrível”.

Liturgia do Fim - Jornal

09/06/2016

ENTRE SHAKESPEARE E O NOTICÍARIO POLICIAL

 

Nikolai

Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk

(A resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em sete de junho de 2016)

Desde a sua morte, há 400 anos, Shakespeare e suas personagens geraram inumeráveis versões e releituras. Uma das mais interessantes completou um século e meio: em 1865, o ainda jovem Nikolai Leskov com Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk.

No primeiro parágrafo o narrador explicita sua “aclimatação”: “De quando em quando aparecem em nossas paragens uns tipos que nos fazem sentir um tremor na alma sempre que nos lembramos deles, por mais que o tempo tenha passado desde o nosso último encontro. E um desses tipos é Catierina Lvovna Izmáiolova, mulher de um comerciante, outrora protagonista de um terrível drama, após o qual nossa nobreza, usando uma expressão bem apropriada, passou a chamá-la “Lady Macbeth do distrito de Mtzensk”.

A analogia com Lady Macbeth não é estritamente exata: como todos sabem, a personagem da peça instiga, espicaça o marido a fim de que ele cometa os crimes necessários para chegar ao poder. Veja-se um exemplo, a seguinte fala da personagem de Shakespeare num colóquio exasperado entre o casal Macbeth: “(…). Desde já me ponho/A duvidar de teu amor. Tens medo/De ser na ação e no valor o mesmo/Que és no desejo? Queres ter aquilo/Que estimas como o ornato da existência/E te mostras em tua mesma estima/Um covarde, dizendo “Não me atrevo”/Depois de “Quero”, como o pobre gato/Do provérbio, que quer comer o peixe/Mas sem sujar as patas? ”

Moça pobre, de temperamento impetuoso, Catierina Lvovna conformou-se em casar com um comerciante bem mais velho, e vive por cinco anos na grande propriedade do sogro um cotidiano de isolamento e tédio, até que numa ausência prolongada do marido, ela se envolve com um dos empregados, o mulherengo sedutor Serguiêi, e o torna seu amante. A paixão por Serguiêi desperta Catierina em todos os sentidos: “… deu plena expansão a seu gênio. Agora se mostrava uma mulher de pulso… enchia-se de altivez, determinando tudo pela casa afora, e sem deixar Serguiêi arredar pé de perto de si”. Para isso, ela tem de primeiramente liquidar o sogro, e o faz, envenenando-o. Mais tarde, eliminará o marido (uma cena impressionante e brutal), que volta de inopino.

Em tudo e por tudo, parece ser ela a ditar as regras, a derrubar os limites. Não é bem assim: do mesmo modo como se larga à modorra do clima e à languidez, ao bochorno do seu idílio adúltero, ela deixa que o aparentemente bonachão (embora cúmplice dos seus crimes) Serguiêi a induza, é um processo totalmente inverso ao que observamos no casal Macbeth e muito mais afim aos processos psicológicos observáveis em “Madame Bovary”, em que a fantasia pessoal tem sua parte nas transgressões de Emma, mas pesa muito mais o cálculo dos seus amantes e “cúmplices”, que se valem dessa mesma fantasia para manipulá-la e usufruir do que tem a oferecer. Serguiêi é que se revela o calculista-mor do enredo (sua amante sendo movida pela passionalidade). Isso fica claro quando, após o assassinato do marido (e o sumiço de seu corpo), aparece outro postulante à herança.

Por tais vias insidiosas, ele a instiga, espicaça a eliminar o pequeno Fiódor (numa outra cena extraordinária). Vai ser a desgraça do casal criminoso. Serão pegos em flagrante, julgados e condenados à Sibéria, aos trabalhos forçados, o que levará Lady Macbeth do distrito de Mtzensk a outro patamar, narrativo e psicológico. Poucas páginas finais são tão intensas e cruéis (e tão econômicas em seus efeitos): inverte-se a dinâmica do casal (ou melhor, ela se explicita tal como é, de fato) e vemos toda a impetuosidade de Catierina Lvovna (o Ilvovna que lhe dirige Serguiêi é marca do inculto, como nos esclarece o tradutor) degradar-se (em paralelo à sua degradação social) numa sofrida paixão de sujeição e humilhação. Haverá ainda um último ato em que ela reencontrará o seu “gênio” e tomará mais uma atitude extrema e irresignada: um lado Medeia bem mais forte do que o lado Lady Macbeth inscrito nesse temperamento. Assim, a tragédia elizabetana, a vida em ramerrão e a dimensão em que suas monstruosidades podem ser filtradas — como “exemplo”— no mundo pós-Revolução Industrial e da página policial, que galvaniza as atenções da sociedade, capitaneando a deterioração da narrativa no mundo da informação triunfante.

Lady Macbeth - Jornal

01/03/2016

AS VEREDAS DO MÍNIMO SERTÃO: “Outros Cantos”, de Maria Valéria Rezende

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“Nem pensei em voltar para a passagem no muro. Deus atirou-me para dentro de seu samburá de estreita boca, já não me debato. Soube logo que subiria, mas não por qual caminho, até que vi, pouco mais adiante, numa parede suja daquele mesmo beco, a marca do menino magro, fresca e brilhante, um fio de vermelho líquido ainda escorrendo. O único sinal que eu, vagamente, podia interpretar, neste mundo estranho onde nunca antes sequer imaginei penetrar. Meti-me pela viela que, alguns metros adiante, ao topar com uma parede de zinco e madeira carcomida, quebrava-se para a esquerda. Ninguém. Tive a impressão de que já não havia mais ninguém nesse labirinto, só eu e o menino pichador, porque pouco antes de que o caminho se bifurcasse, mais acima, vi outra vez a rubra assinatura. Sem outro fio senão aquele para guiar-me, eu o segui. Hesitei na bifurcação, mas ela estava lá outra vez, a marca, dizendo-me que lado escolher, direção que tomei sem mais duvidar, entranhando-me na armadilha das ruelas intrincadas”. (Trecho de O Muro, de Maria Valéria Rezende)

“… por estar mais familiarizado com o procedimento que consiste em negar tudo—para depois ver se em seguida se pode reafirmar alguma coisa—e, em desfazer tudo—para ver depois tudo se refazer em outro plano ou de outra forma…” (Trecho de A Obra em Negro, de Marguerite Yourcenar)

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 1° de março de 2016)

Havia que aprender tudo para poder ensinar. Não havia fórmula já testada nem material a seguir. Inventar fazendo, era o jeito”. Depois de ganhar o Jabuti de livro do ano, com    Quarenta Dias, Maria Valéria Rezende lança um novo romance em meio à nostalgia do período autoritário que assola o país: Outros Cantos, onde registra as transformações sofridas pela sociedade brasileira nas últimas décadas.

Trata-se de uma narrativa-palimpsesto: Maria, a narradora, empreende uma viagem de ônibus pelo sertão pós-2002, impactada pelo seu desenvolvimento, inclusive nos piores aspectos (consumismo, uniformização, diluição da cultura popular autentica), e numa longa noite entre vigília e sonolência, raspa camadas da memória de sua primeira experiência sertaneja em plena ditadura, quando se esconde num finalzinho de mundo chamado Olho d’Água, como militante subversiva ao regime militar, com a missão de preparar a futura—mas incerta—vinda de outros revolucionários. O tempo passa, sem notícias do exterior; sem orientação e objetivos a longo prazo, ela descobre “um mundo ao rés do chão”, “o território das coisas mínimas”, a opressão da materialidade do existir, da necessidade de não desperdiçar nada, que rege o cotidiano de um lugar onde a miséria é soberana. Contrariando estereótipos consagrados pela literatura e pela indústria cultural, também descobre a vitalidade, o humor e a alegria desse povo, apesar do fatalismo de suas crenças e relações e da meta (ainda utópica, infelizmente) de emancipá-lo: “Pareciam todos ter nascido já sabendo o que fazer, o que cantar, dançar, recitar, eles, a face festiva, o contraponto da natureza hostil ao seu redor”.

Além da sobreposição de tempos diversos do sertão, Outros Cantos, também aproxima instancias espaciais diversas: temos cidades “desenvolvidas” do vasto mundo, como Paris e Rio de Janeiro, até outros rincões de penúria e populações explorada por onde a viajada Maria teve experiências que colorem ainda mais os fios do tear de sua permanência em Olho d’Água – o deserto argelino, o México. Não falta sequer uma misteriosa e multiforme figura masculina a desassossegá-la em todos os momentos, originando uma coleção de objetos-talismãs.

Portanto, são muitas as viagens que o leitor poderá percorrer nas páginas – porventura as mais belas que a grande escritora santista já produziu, em especial as 50 primeiras. Em sua memória, contudo, será impossível de raspar alguns trechos extraordinários do sertão-palimpsesto: a tortura e a beleza do trabalho com o tear e suas tinturas, a projeção cinematográfica em Olho d’Água, as festas que marcam o final de ano e da lida (cujo material é escondido do Dono – pois há um latifundiário – e seus jagunços). A precisão do texto e as formulações definitivas sobre as “lições de coisas” (para usar um título de Drummond) e seres fazem com que essa veterana de muitas veredas da luta ao lado do povo se aproxime de uma antípoda (no espectro político, não no talento), também apaixonada por viagens e obrigada a uma vida imóvel e vertiginosa em suas descobertas: a conservadora Marguerite Yourcenar (1903-1986), em obras como Memórias de Adriano e A Obra em Negro. Findo o livro, temos a forte impressão que as aventuras de Maria jamais terão um desfecho.

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TRECHO SELECIONADO:

Trabalhava-se ali tanto quanto nunca pensei que se pudesse trabalhar. O caminhão chegava aos sábados, carregado de fio de algodão cru. Aos domingos, todos, menos os poucos vaqueiros, permaneciam escondidos em suas casas, por respeito estrito à lei divina do repouso semanal ou pela exaustão feita lei, e a rua se despovoava como as cidades sagradas do M’Zab às sextas-feiras. Mas na madrugada do dia seguinte, neste outro vale, de areia entre paredes brancas, recomeçava-se um ciclo eterno: velhas banheiras de ágate rachado e salpicado de ferrugem, sobre suas patas de animais estrangeiros, resgatadas de algum ferro-velho de antiga vida urbana, serviam como cubas para tingir o fio que devia ferver por horas, em água salobra e anilinas corrosivas, sobre fogueiras alimentadas sem cessar pela lenha pobre, rapidamente consumida, exigindo um constante vaivém de meninos, fileira de formigas bípedes.

Mexer, sem parar, o fio e a tinta borbulhante, retirar com longas varas as meadas coloridas, fumegantes, e pô-las a secar sobre uma sucessão de cavaletes rústicos, desenlear o fio, já seco, e enrolá-lo em grandes bolas para depois urdir os liços, entremeando as cores em longas listras, transformar o povoado naquele espantoso arco-íris desencontrado, era trabalho de macho. Começava ao primeiro anúncio de luz do dia, no meio da única rua, e prosseguia até que eles já não pudessem mais ver as próprias mãos e o som do aboio viesse rendê-los, interrompendo-se apenas com o sol a pino, quando desapareciam todos por cerca de duas horas, prostrados pela fome e pelo calor. Em uma semana estava pronta a urdidura para transformar o fio bruto nas redes que me haviam embalado a infância e cuja doçura em nada denunciava o esforço sobre-humano e a dor que custavam.

Às mulheres cabia a estranha dança para mover os enormes teares, prodígios de marcenaria, encaixes perfeitos, sem uma única peça de metal, apenas suportes, traves, cunhas, pentes e liços, chavetas e cavilhas de jacarandá, madeira tanto mais preciosa quanto de mais longe vinha, os pés saltando de um para outro dos quatro pedais que levantavam alternadamente os liços, os braços a lançar as navetas e a puxar o fio, estendendo faixas de cor, a fazer surgir o xadrez das redes que eu tão bem conhecia, feitas berços no alpendre de meu avô, feitas mercadoria nas estreitas ilhas de verdura no meio das avenidas da metrópole, braços tão rápidos que pareciam ser muito mais de dois, transfigurando aquelas sertanejas em deusas indianas.

A cadência para seu trabalho e para o trabalho dos outros vinha do baque ritmado dos liços e dos pés, do assobio das lançadeiras e do rascar dos pentes, que escapava pelas portas e janelas dos quartos de tear que constituíam quase toda a casa de cada família. A melodia, quando havia, era a da cantilena das velhas e das meninas, assentadas em tocos de troncos tortos, à pobre sombra das algarobas, a trançar varandas e punhos para as redes.

Era das mulheres também a tarefa infindável de buscar água potável na única fonte a escorrer, preguiçosa, em oásis com coqueiral, mancha verde à meia encosta da colina que se elevava sozinha na paisagem, assim como a obrigação de controlar o movimento do burro a mover a nora para fazer subirem os alcatruzes de barro do fundo de um poço estreito, trazendo a água salobra, único bem que lhes dava fielmente aquele fundo de mar há milênios esvaziado. O canto sob as algarobas era sinal de que já estavam os potes cheios, as cabras amarradas a algum esqueleto de arbusto, o fogo aceso sob os telheiros entre as casas e os currais, moído o milho e consumido o cuscuz da madrugada, o feijão a ferver nos caldeirões de barro enegrecido, ou sinal de que já se haviam esvaziado os pratos de sua parca mistura de feijão com farinha, talvez enriquecida por laivos de sabor da carne de um preá ou de uma rolinha, saídos do bisaco de algum vaqueiro. Aquelas tarefas também eu tinha de aprender a cumprir”.

edição de alfredo monte

16/02/2016

CORES E FORMAS DOS LUGARES COMUNS DE NARA VIDAL

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«Escolhi cores e formas de casa. Que casa? Já não sei dizer. Já se misturou, já era. Mas tem um colorido de carnaval qualquer, pra dar pulso ao ar parado […] A vida serviu para dar parcimônia às alegrias. Tem uma estrada de terra aqui perto. Quando chove vejo gente com galochas, bem preparadas. Não enxergo nem um chinelo arrebentado afogado no lamaçal da rua que nunca ajeitam. Hoje também tem pedrinhas, feitas de menos sonhos, menos alegrias, não por nada, mas porque a gente cresce… » (Para a Calma, Nara Vidal)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 16 de fevereiro de 2016)

Livro no qual não colam classificações estritas e estreitas, Lugar Comum (ed. Pasavento) apresenta um título armadilhesco, inclusive por existir a expressão que sinaliza o banal, aquilo que jamais sacode e inquieta a imaginação. Lugar comum pode ser o rincão de globo terrestre compartilhado por familiares e vizinhos; também pode ser o conceito (tão malbaratado) de que habitamos uma mesma casa planetária, algo mais palpável ainda quando se vai viver fora do país natal.

O verdadeiro lugar comum revelado nos 80 pequenos textos é Nara Vidal, ou melhor seu aguçado olhar autoral alinhavando retalhos de uma rica tradição do imaginário mineiro vinculado às raízes afetivas, contrastadas ao “sentimento do mundo” (e seu apelo: «A viagem era dela, mas queria ver de perto os olhos saltitantes da mãe que demorou uma vida pra botar em prática sonhos de lugares e geografia», lemos em Estreito de Dover), o boitempo drummondiano, os baús de ossos de Pedro Nava; mais perto de nós, o brado de Milton Nascimento:  «Sou o mundo/sou Minas Gerais».

Afinal, com um oceano de permeio, essa moradora—nascida na Guarani mineira—da Inglaterra faz jus a um tipo de prosa curta, diáfana e ao mesmo tempo cheia de vigor, tecida por um dos maiores nomes de seu país de adoção, Virginia Woolf, com fios em cuja meada não se distinguem o cronístico, o memorialístico, o ensaístico, o confessional, o observado, o deduzido-inventado, aproveitando a fecunda lição de Proust:  «quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis, porém mais vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre as suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações».

Ou, nos termos da própria Nara Vidal:

«O perfume deveria ser esfregado e não pulverizado. Duas gotas no pulso esquerdo e no direito, como num abocanhar frenético, perfumava-se. Ao passar dos namorados, ela percebeu que a nuca também deveria ser esfregada vigorosamente com a mão. Ouviu falar que perfume na pele era como impressão digital. A mistura do seu corpo com o líquido dava aquele ar mágico, profundo e inesquecível. O cheiro, ela não queria só para ela. Queria, ao esfregar namorados, passar o seu encanto adiante e assim acontecia.

  Não demorou muito, depois da nuca, Marieta descobriu que, entre os seios, morava um ponto que acumulava seu perfume de forma impetuosa. Já estava bem mais experiente quando passou a perfumar-se com uma gota abaixo do umbigo. Ali não esfregava. Como se salpicasse água, deixava que o tempo desse conta de misturar a química do seu cheiro natural com o perfume já, então, sofisticado e francês.

   Ao longo da vida Marieta casou-se três vezes. Coincidia com o término de cada acordo de amor eterno, o cheiro enfraquecido do perfume caro. Como se não se fixasse mais nos seus pontos estratégicos, estudados com arte e precisão. Ainda o tempo, deu conta de fazer Marieta descuidar-se e não mais esfregar perfume no pulso, na nuca ou entre os seios. Há muito não deixava a gota cair embaixo do umbigo—era desperdício. O cheiro avassalador de Marieta acabou-se. Assim como cada amor, enfraqueceu. Assim como o amor com o qual se acostumou, perdeu a doçura, o propósito, o encanto. Viraram lugar comum: o perfume e o amor».

Há o seu quê de desarmônico em Lugar Comum, a triagem poderia ter sido mais rigorosa, entretanto a presença de alguns fios tênues e incolores não desbotam o colorido predominante, em especial nas lindas passagens (como a que cito abaixo, de A Vista da Torre) nas quais se mostra que um lugar comum de todos em sua formação são os ritos de passagem:

    «Era verão pelo Hemisfério Norte. Intenso. Tinha chegado com tudo. Desde a madrugada anterior, Londres e região viam tempestades de deixar os trópicos amuados de ciúmes. Trovões e relâmpagos de altos sons e todos os tons de rosa. Meu menino dormia. Minha menina desceu as escadas para nos encontrar na sala. Dizia que o barulho estava alto, ao ponto de meter na valentia dela certo medo.

   Fomos então par a torre da princesa, no topo da casa. A janela dava para o telhado. Feito gatos, nós três com metade da gente pra fora. E de lá ficamos vendo os relâmpagos, ouvindo os trovões […] Olhei pra minha menina, feliz, de mãos dadas com o pai […] Testemunhei ali, na minha frente, a construção de uma lembrança. Guardei a impressão de que bem assim, vamos fazendo a vida».

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TRECHO SELECIONADO

«03 h 45 min da tarde. Os olhos tentavam, no meio de buzinas, risos, xingamentos, bancas de jornal, achar uma ilha deserta. Precisava saber antes das quatro. Todo mundo passava por ela e ninguém sabia o medo que carregava na bolsa.

     O couro marrom já desbotado tinha nas alças fiapos de linhas se soltando. Precisava de uma bolsa nova. De uma bolsa nova seria bom precisar. Daria tudo para precisar mesmo de uma bolsa nova. Bolsa ordinária, barata. Lá dentro dela, outro caminho: algo extraordinário dobrado quatro vezes em papel A4, no envelope lacrado. Andava com a impressão de ter ali dentro um bicho vivo. E não deixava de ser. Titubeou por mais alguns passos. Os olhos já vidrados desesperavam-se por um canto quieto. Tentou a praia. Era janeiro. Não ia dar certo. No parque, talvez. O cheiro de xixi lhe embrulhou o estômago. Mal sabia ela o que estava embrulhado no envelope.

    Em volta dela, um homem sem as pernas. Uma criança suja chorando. Cheiro de sangue. Um parque sem passarinho algum. Sentou-se num banco, com nojo e desespero. Precisava abrir aquela bolsa. Faltavam dois minutos pras quatro. Traçou pra si mesma o plano de coragem: até antes das quatro saberia a notícia, qualquer que fosse.

    Um homem passou pedindo dinheiro. Insistiu. Precisou sair dali. O relógio da Siqueira Campos ria dela. Perdera a vez. 04h02min. Aquilo só poderia ser má notícia.

    Tentou um café. Cheio. Garçom que não deixava ninguém em paz. Se fosse pra casa talvez nunca mais saísse de lá. Pensou no pai da amiga que recebeu no ponto de ônibus a notícia da morte da mulher. O pobre rodopiou zonzo e ninguém viu o que era só dele, lá dentro da cabeça daquele homem sem sorte.

    Ela queria o mesmo. O que quer que fosse, no envelope, ela precisava se passar por nada, anônima. Tinha que saber que o mundo não ligava. O que estivesse escrito naquela folha era só dela.

    Amou tanto durante a vida. Poderia até amar mais. Sabe-se lá!

   Desistiu do café. Caminhou até o forte no fim de Copacabana. Pelo menos tinha vento lá. Em coração de tambor, a bolsa aberta. As mãos passam desinteressadas pelo resultado do exame que trouxe boas notícias. Abraça com os dedos apertados e trêmulos o envelope branco. Gira os dedos pelo tamanho do papel e abre, rasgando as pontas. No canto do olho já salgado de ansiedade, confere: 04h48min. Suspira e abre os olhos. Não sabe se foi o sol ou o que estava escrito. Ficou cega».

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09/02/2016

O GRANDE ROMANCE AMERICANO: “A Sangue Frio”, de Truman Capote

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em 9 de fevereiro de 2016)

Harper Lee foi, sem dúvida, a figura mais notória no mundo literário em 2015, com a publicação de Vá, Coloque Um Vigia, décadas após seu até então único romance, o premiadíssimo O Sol é Para Todos (1960). Curiosamente, há alguns anos, ela não passava de uma parceira coadjuvante na obsessão de seu amigo de infância Truman Capote (1924-1984). em relatar os acontecimentos de A Sangue Frio (In Cold Blood, 1966), em dois filmes de temática semelhante e resultados artísticos desiguais: o superestimado Capote e o ótimo InfamousConfidencial (interpretada por Catherine Keener e Sandra Bullock, respectivamente).

A maior ironia nisso tudo é que o empenho do genial, nem por isso menos venenoso e competitivo, Capote em criar um dos candidatos ao mítico título de “grande romance americano” estava relacionado ao ciúme corrosivo com o prestígio alcançado, àquela época. pela amiga, a quem desejava superar e ofuscar. E embaralhou a questão ao ponto de insistir que inventara um gênero, o romance de não-ficção, quando apenas seguia a lição do Flaubert de Madame Bovary: os fatos reais servem ao talento narrativo, não o contrário.

Ou alguém pode achar crível que ele “entre” na pele da dupla responsável pelos terríveis crimes acontecidos em novembro de 1959 numa cidadezinha do Kansas, em pleno “cinturão da Bíblia”, somente baseado em documentos e depoimentos? Ou na mente de cada pessoa da família? Na dos investigadores, vizinhos da região, parentes dos assassinos?

Veja-se um trecho em sequência a uma visita dos detetives do caso à irmã de Perry Smith, o sentenciado com o qual Capote desenvolverá uma doentia ligação:  «E então a tristeza, como a névoa marinha noturna que cobria as luzes da rua, fechou-se em torno dela. Ela dissera que tinha medo de Perry, e tinha, mas seria apenas de Perry que tinha medo, ou antes de uma configuração de que ele fazia parte, os destinos terríveis que pareciam reservados para os quatro filhos de Florence Buckskin e Tex John Smith? O mais velho, o irmão de que ela mais gostava, tinha-se matado com um tiro; Fern caíra, ou se jogara, de uma janela; e Perry era dado à violência, um criminoso. Assim, num certo sentido, ela era a única sobrevivente, e o que a atormentava era a ideia de que, com o tempo, ela também acabaria vencida…».

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     Norman Mailer escreveu em A Canção do Carrasco  (1979): «A gente era criado sabendo o que estava certo, e livre para fazer o que estava errado». Essa frase ajuda a entender por que Capote escreveu um livro tão poderoso e ainda fascinante (além de inaugurar a era dos assassinatos torpes por motivação banal no imaginário cultural, assim como Psicose, de Robert Bloch, inaugurou a dos serial killers). De um lado, aquelas pessoas vivendo sob a égide da religião, achando que Deus fez o mundo para se viver assim, mas que não têm problemas com armas, com a matança estúpida de animais, e com a exclusão social, “sabendo o que estava certo”. E que se surpreendem com a violência dos assassinatos. Do outro lado, os “perdedores”, aquelas vidas fraturadas e errantes, “livres para fazer o que estava errado”.

E é por isso que num dos trechos cruciais, alguém observa: «As pessoas não estariam tão alteradas se isso tivesse acontecido com outros, não os Clutter. Com uma família menos admirada, menos próspera. Mas eles representavam tudo que as pessoas daqui valorizam e respeitam, e o fato de uma coisa dessa ter acontecido com eles, é o mesmo que alguém dizer que Deus não existe. Dá a impressão de que a vida não tem sentido…». Então, não importam muito as mesquinharias biográficas que cercaram a produção de A Sangue Frio (e ele e Harper Lee pagaram um preço bem alto). O grande romance americano foi escrito. Cinquenta anos depois continua uma obra-prima.

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