MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/07/2018

FUTEBOL E LITERATURA NUM ROMANCE ENCICLOPÉDICO

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 10 de julho de 2018)

“O DRIBLE” entrecruza o universo do futebol com a reaproximação (que se revela irônica, no final) entre pai (cronista esportivo) e filho, afastados por décadas, desde o suicídio da mãe, estabelecendo um ritual de encontros. Desses elementos Sérgio Rodrigues renova avocação enciclopédica do romance mesmo de forma sucinta. Eis alguns tópicos:

— O modo como o rádio, com a narração hiperbólica dos locutores, consolidou a mitologia em torno do futebol e os jogadores, agigantando partidas sofríveis medíocres.

— O racismo arraigado no Brasil, como vemos na trajetória de um jogador “sarará”, quase um novo Pelé, que se torna pai de santo. O uso hipócrita de termos como “moreno” ou “mulato”. O pai nórdico que humilha o filho chamando-o de Tiziu.

— A primeira geração que cresceu assistindo televisão e guarda com nostalgia lembranças de seriados como “Túnel do Tempo”, “Perdidos no Espaço” ou “Agente 86”. Essa mesma geração sofreu o impacto do advento da internet, mas antes vivenciou a breve, mas inesquecível supremacia do rock nacional.

Enfim, com altos e baixos (há momentos aborrecidos no texto), um romance caleidoscópico e acima da média. “Só existe no presente. Alguns cadáveres do pop podem ser tirados da cova de vez em quando, vagar uns tempos por aí como zumbis, mas são zumbis. Mortos-vivos mantidos de pé pelo fetichismo. A verdade é que Maxwell Smart vive de lixo, meu amigo. A começar por esse nome ridículo que decidi adotar. É como disse o Kafka: sou feito de lixo, não sou nada além disso e não posso ambicionar ser nada além disso”.

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26/06/2018

OS CRAQUES DA SELEÇÃO RUSSA, PARTE DOIS

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 26 de junho de 2018)

Continuo meu passeio pela grandiosa literatura russa, iniciado na semana passada.

Maksim Gorki, 1868 –1936, outro versátil, exercitando em vários gêneros, mas brilhando mesmo nas suas memórias em obras como “Infância” e “Minhas Universidades”.

Ivan Alekseyevich Bunin, 1870 — 1953, grande contista, retratando fim do regime czarista de forma intimista e sutil. Ganhou o Nobel em 1933. Comentei aqui “Contos Escolhidos” (editora Amarilys).

Leonid Nicolaevitch Andreiev, 1871 – 1919, o mestre da ficção expressionista e mórbida, em obras como “A conversão do Diabo”, “Judas Iscariotes” e “Os sete Enforcados”.

Boris Leonidovitch Pasternak, 1890 — 1960, não conheço sua consagrada poesia, porém sofri impacto da poesia da sua prosa em “Doutor Jivago”, um dos mais belos romances do século passado. Ganhou o Nobel em 1959, contudo o regime soviético o obrigou a não aceitar o prêmio.

Mikhail Afanásievitch Bulgákov, 1891 –1940, perseguido por Stalin, sua obra-prima “O mestre e Margarita” foi publicada vinte anos após sua morte. Tão exuberante e original quanto esse romance, deixou suas “Memórias de um Jovem Médico”, adaptada pela HBO com Daniel Radcliffe, o Harry Potter.

Isaac Emmanuilovich Babel, 1894 – 1940, Doris Lessing o admirava, o que me levou a ler suas maravilhosas “Novelas e Cavalarias”.

Vladimir Vladimirovich Nabokov, 1899 — 1977, antes de se consagrar como autor de língua inglesa, o “Russo Branco” (exilado do regime soviético) publicou muitas obras em seu idioma natal, como “Desespero”, “A Defesa”, “Gargalhada na Escuridão”, sempre dispensando a “delegação vienense” (assim se referia a Freud e seus seguidores), mais um prato cheio para a psicanalise.

Mikhail Aleksandovitch Cholokhov, 1905 — 1984, há rumores de que roubou a obra-prima “O dom Silencioso” de um colega caído em desgraça no período stalinista. Verdade ou não, o livro é lindo e ele ganhou o Nobel em 1965.

Vasily Semyonovich Grossman, 1905 – 1964, no seu grande épico “Vida e Destino” escancarou o antissemitismo russo. Foi um excelente correspondente de guerra.

Anatoly Naumovich Rybakov, 1911 – 1998, seu romance “Os filhos da Rua Arbat” foi emblemático no período da “Glasnost”, que marcou o fim da União Soviética.

Alexander Issaiévich Soljenítsin, 1918 — 2008, Milan Kundera disse que era um gigante entre os homens, mas não entre os escritores. Não concordo. Além de revelar os horrores do regime stalinista em “O arquipélago Gulag”, escreveu obras-primas como “Um dia na vida de Ivan Denisovich” e o monumental “Agosto 1914”. Ganhou o Nobel em 1970.

Leonid Borisovich Tsypkin, 1926 —1982, escreveu “Verão em Baden-Baden”, lindo romance sobre Dostoiévski e seu vício em jogos.

Andrei Georgiyevich Bitov, 1937, o único vivo da lista. Seu romance “A casa de Puchkin” não apenas uma alusão ao fundador da literatura russa, mas uma profunda reflexão existencialista.

Craques RUssos - Jornal

12/06/2018

UM RELATO PUERIL, MAS EMOCIONANTE

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 12 de junho de 2018)

Nana é um gato de rua. Após ser atropelado, é recolhido por Satoru Miyawaki. Cinco anos depois seu dono resolve atravessar o país numa van, pretendendo desfazer-se do gato. Este é o núcleo de “RELATOS DE UM GATO VIAJANTE”.

“—Você está me unhando! Nana, pare de arranhar minha testa! Não adiantou, este posto não me deu a segurança necessária. Iáááá! Pulei para o chão e desembestei na direção oposta às ondas, sem olhar para trás. – Ah! Nada! Galguei num piscar de olhos um barranco próximo e me encarapitei na raiz de um pinheiro que se projetava da superfície de pedra, na diagonal! Pronto! Verificação de segurança concluída com sucesso! ”. Esse é o momento em que Nana conhece o mar.

O charme do romance de Hiro Arikawa seria uma narrativa feita pelo ponto de vista de Nana. Quando acontece, o texto ganha muito. Infelizmente, a autora trapaceia com o leitor. Por exemplo, uma pousada para pets onde o dono de Nana pretende deixá-lo é descrita com detalhes, ficamos conhecendo seus proprietários, amigos de Satoru (aliás, a viagem é um reencontro com pessoas com nas quais tem laços afetivos).

Seria bem mais interessante e menos óbvio que conhecêssemos a pousada e o casal através do ponto de vista de Nana. Do jeito como está, tudo fica mastigadinho para o leitor. Os diálogos são tão pueris que me senti com 13 anos ao lê-los. Mas toda as restrições críticas caem por terra quando aparece Noriko, tia de Satoru, e o quebra-cabeça se completa. Aí o romance vira emoção pura. Devo ser um leitor piegas por que chorei em todas as páginas nas quais Nana volta a morar na rua, porém não há nenhuma apelação sentimental, por parte da autora japonesa.

Por que será que as histórias com bichos mexem tanto com a gente?

21/05/2018

UM AUTOR QUE PRECISA SER DESCOBERTO

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente na FOLHA DE SP em 21 de maio de 2018)

O paraibano Roberto Menezes, professor de física teórica é uma das grandes revelações literárias dos últimos anos, porém não logrou romper o muro do Rio de Janeiro – São Paulo para escritores “regionais”.

Agora a Patuá edita uma segunda versão de seu romance “PALAVRAS QUE DEVORAM LÁGRIMAS”, bastante alterada com relação à primeira (publicada na Paraíba), inclusive no aspecto gráfico, mas os dois pilares narrativos se mantêm. O primeiro é o sequestro de um vereador por sua ex-esposa, a protagonista, numa situação às Stephen King (é vasto o universo de referências no texto). Maria obriga seu prisioneiro a ficar com pálpebras abertas, costura sua boca e divide com ele um coquetel de remédios tarja preta, o objetivo é fazê-lo ler o que escreve no computador. “Palavras que devoram lágrimas” é o texto digitado por Maria. Como ela mesma afirma, é “uma fabricadora de frases de tirar o fôlego”.

O segundo pilar narrativo é o relato de como Maria vai lixando as camadas da parede do quarto dos sete anos de casamento. Cada camada traz associações, ganhando até apelidos: temos bege-leite condensado, verde anágua, azul inferno (que domina o relato) e por aí vai…

A parte final mostra o efeito dos remédios e adquire um tom alucinatório.

Será que Roberto Menezes desta vez sossegou ou no futuro leremos novas palavras da voz agônica de Maria?

 

Livro: “Palavras que devoram lágrimas”
Autor: Roberto Menezes
Editora: Patuá
Páginas: 120
Quanto: R$ 38,00

15/05/2018

O LIVRO DAS SINGULARIDADES

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 15 de maio de 2018)

“Aconteceu de forma tão lenta que nós não percebemos de imediato, nem eu, nem ela. Quando vimos havia esse passa intransponível entre nós. E foi justamente quando notamos que ele media o tamanho exato de um passo humano normal, 37 cm, que entendemos que além de tudo ele era intransponível. É, absolutamente intransponível. Toda vez que um de nós dois tentava se aproximar do outro, a fim de entrelaçar os nossos pés, como fazíamos antigamente, ou então tentando colar nariz com nariz, dar-nos um simples beijo, éramos interceptados por esse passo habitando o espaço entre nós dois” (trecho de “Passo entre nós”).

Na física quântica, uma singularidade é a concentração de energia e massa num ponto do universo, sugando tudo ao seu redor.

O conto de “TODO MUNDO QUER VER O MORTO”, de Natália Zuccala, em sua maioria, têm esse efeito de singularidade. Tem uma menina que se descasca o tempo todo e só se alivia na água salgada (uma possível sereia?), temos outra personagem que se desgruda do chão, outra que sente maresia e bichos marinhos em plena São Paulo, outra que descobre os perigos das esquinas…

Mas ela também é singular em textos mais “tradicionais”, como no extraordinário “Sperare”, onde as ausências da mãe pontuam o desenvolvimento da narradora como mulher: “Levantava eu então sabendo que a sua ausência seria a primeira existência com a qual me encontraria. Iniciava a senda diária na tarefa de esperar bem. Nada além disso, todo dia, aprendendo a espera-la bem”.

O estilo de Natália Zuccala é reiterativo e suas frases ficam martelando nas nossas cabeças: “Da primeira vez que eu andei de metrô em São Paulo… não, na verdade não foi exatamente da primeira vez. Na verdade não muita coisa acontece na primeira vez, eu sei disso agora que já não sou mais criança, não muita coisa acontece da primeira vez de nada, nem de ninguém. As pessoas dizem ‘da primeira vez’ por dois motivos: um – as pessoas não tem uma memória muito boa (eu tenho); dois – as pessoas acham bonito que as coisas aconteça, assim logo de cara, que muitas coisas incríveis aconteçam assim logo de cara, que muitas coisas incríveis aconteçam na primeira vez você sempre fica meio perdido e não muita coisa acontece”.

Contrariando a autora, é incrível a primeira vez em que a lemos.

24/04/2018

TODO LÉU É UM MUNDO: SEGUNDA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 24 de abril de 2018)

Na semana passada, iniciei um comentário sobre “CONVERSA DE JARDIM”, afirmando que “Vasto mundo” era o nó central do livro, pois Maria Valéria Rezende fazia uma segunda versão à época das conversas com Roberto Menezes.

A primeira versão foi considerada uma coletânea de contos, a nova provaria que se tratava de um romance, desfazendo o equívoco. Este assunto suscita contradições interessantes: fiquei chateado porque Maria Valéria desdenhou autores que planejam de antemão seus livros (assim fazia o grande Autran Dourado, o qual até escreveu uma obra detalhando os seus processos de criação: “Matéria de carpintaria”), e afinal lá estava ela com questões de planejamento e carpintaria.

No capítulo “V – Sucatas e quebra-cabeças”, lemos: “’O pessoal fica perguntando de onde saem os livros. Acho que os livros saem de um imenso depósito que tem na cabeça, um depósito de peças de vários puzzles de um quebra-cabeça bem peculiar, essas peças todas misturas que foram nos entrando pelos cinco sentidos através da vida, com todos os tipos de sensações que você tem, que vem de fora do mundo, que vem de dentro de seu estômago, do rim, do enjoo que você sentiu, da tontura, de tudo que a gente já viu e já sentiu’, Um grande quebra-cabeça, uma sucata, que dá no mesmo, uma sucata que a gente vai jogando lá o que a gente encontra na beira da estrada, com você falou, o tempo todo catando, e jogando lá, catando e jogando lá, e é uma sucata diferente, aqui os pedaços não preservam sua solidez, eles interagem, se interferem, numa transmutação à revelia da gente”.

Há uma confissão comovente de Roberto Menezes no capítulo “XVII – Qualquer mundo ao léu”: “Valéria, invejo a tua vasta experiência de vida, e dentro dessa tua experiência, a bagagem que você tem em literatura é admirável, você leu tudo o que quis, teve incontáveis escritores na família, estudou em boas escolas, pôde conhecer o mundo de perto, aí, até sem querer, fico aqui comparando tudo isso coma vida que tive, minha família era bem pobre, eu, meus irmãos, a gente estudava em escola estadual que quando podiam, meu pai, vendedor ambulante, nem quarta série estudou, minha mãe parou na segunda série, pois, bem distante da minha realidade, na infância a minha relação com os livros era de caça ao tesouro, livro pra mim era coisa rara, acredite se quiser, quando eu tinha uns oito, nove anos, eu torcia pra chegar aos sábados, nos sábados vinhas as testemunhas de Jeová, nem precisava bater, eu já tava lá esperando, a nova edição da revista A Sentinela”.

Parabéns às testemunhas de Jeová, nos deram um físico teórico e um grande escritor. Como já disse, um fabricador de frases de tirar o fôlego.

17/04/2018

QUALQUER LÉU É UM MUNDO: PRIMEIRA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 17 de abril de 2018)

Confesso que sou imodesto, pois vou comentar um livro que me é dedicado e no qual sou citado várias vezes. Trata-se de “CONVERSA DE JARDIM”, todo mundo sabe que Maria Valéria Rezende é uma das nossas maiores escritoras, mas talvez não saibam que a casa onde mora, em João Pessoa, tem um maravilhoso jardim (eu sei, pois estive lá em diversas ocasiões) e ali manteve entre 2015 e 2017 conversas com Roberto Menezes, físico teórico “fabricador de frases de tirar o fôlego” (como diz Maria, narradora do seu admirável “Palavras que devoram lágrimas”, editado pela Patuá).

Roberto organizou o livro de forma inteligente, não linear, com capítulos curtos celebrando o ato de escrever. Temos: “Disciplina sem rotina longe da ritalina”, “Sucatas e quebra-cabeças”, “A voz do chão”, “Regras próprias”, “Cemitério de planos cemitério de memórias”, “Vasto mundo” (que é a meada principal para a qual a conversa sempre volta), “Da mente pro papel”, “Escrita no gen”, “Qualquer mundo ao léu”, “Além do solipsismos”, “Apanhando o mundo com a mão”, “Da memória e seus ardis” e “Até já”, são alguns dos leitmotivs que conduzem fecundos diálogos desses dois geniais tagarelas (e quem conhece Maria Valéria sabe que ela é uma incansável Xerazade): “Tem um amigo que diz que sou uma escritora materialista. Nunca faço longas digressões sobre a subjetividade. Na verdade, o sentimento, o que pensam os meus personagens, passa através das ações, do movimento, das descrições das coisas. Ultimamente tenho usado sempre um narrador na primeira pessoa, uma narradora, aliás. É em primeira pessoa, mas não é por ser em primeira pessoa que vou cair na falácia de ficar dissecando os seus sentimentos, nem os meus, como já disse. Faço com que ela, do seu jeito, fale do mundo que está fora dela. E quando ela imprime sua visão do mundo, necessariamente revela o seu ponto de vista”.

No capítulo XVII: “não existe isso de não poder ser escritor pelo fato de nunca ter viajado. Faz assim, dá pra esse jovem ler o meu ‘Quarenta Dais’, que é a descoberta de mundo e mais mundos, você viaja, tem mil viagens a fazer. ‘Quarenta Dias’ é uma odisseia, ‘A pé, ao léu. Numa pequena parte de uma cidade. Qualquer léu é um mundo. Tem que absorver o mundo pelos cinco sentidos” (continua semana que vem).

03/04/2018

UMA CORROSIVA SÁTIRA À LEITURA ALIENADA

Filed under: Livros que eu indico — alfredomonte @ 16:27
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 03 de abril de 2018)

Quem, começar “O ÚLTIMO LEITOR” do mexicano David Toscana, com a expectativa elegíaca de homenagem ao ato de ler, ficará desapontado.

“Há um Deus que não diferencia as cores da pele, que ama igualmente negros e brancos… Lucio bufa e fecha abruptamente o livro. Duzentas páginas para que esse negro venha dar lição de moral feito uma freira”. Lucio, o último leitor, responsável pela biblioteca do miserável povoado de Icamole (onde não chove há anos), é mesquinho e tirânico. Os livros que não lhe agradam recebem o carimbo de censurado e são jogados num recinto infestado de baratas. Não suporta emprestar livros, embora seja sua função, lembrando o protagonista de “bibliomania”, de Gustave Flaubert, que assassinava os compradores de seus livros.

Uma menina é descoberta morta no poço de Remigio, o único com água na região. Lucio ajuda a esconder o corpo sob um abacateiro, o qual a partir daí passa a ter frutos melhores e mais doces (uma situação similar ao romance de Manoel Herzog, o ótimo “A Jaca do Cemitério é mais doce”).

Uma das manias mais irritantes de Lucio é aplicar acontecimentos reais situações lidas em romances (para ser justo, eu também faço isso: com o estado de coisas no Brasil me sinto num livro do genial Leonardo Sciascia, com sua Itália de corrupção e banditismo em todas as esferas). A menina morta se chama Anne, mas ele se refere a ela como Babette, heroína de um dos seus poucos romances preferidos. Esse jogo se torna insólito quando aparece na cidade a mãe da menina para investigar o paradeiro da filha, e ela se envolve com Lucio. Admiradora do mesmo romance, passa a se referir à filha como Babette.

Causou-me estranhamento a afirmação na orelha: “é, sobretudo, uma celebração dos romances que sabem embriagar e seduzir”. Pra mim, o livro de David Toscana é uma corrosiva sátira ao leitor alienado, incapaz de aprender com a experiência e adquirir sabedoria. Há uma cena em que o padre do povoado urina e o líquido logo desaparece na aridez do solo. É a mesma coisa que acontece com a mente do último leitor.

27/03/2018

A TRAGÉDIA DE JUDAS ISCARIOTES

Filed under: Livros que eu indico — alfredomonte @ 16:13
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 27 de março de 2018)

Taylor Caldwell foi um fenômeno. Boa romancista, menos prezada pela crítica, escreveu sobre todas as épocas: a antiguidade, os primórdios do cristianismo, a Mongólia de Gengis Khan, a França revolucionaria, até a Atlântida. “Médico de homens e almas”, “A terra de deus” e “Um pilar de ferro” são algumas das obras desse mapa mundi ficcional.

Em “EU, JUDAS” ela teve a colaboração de Jess Stearn e nos mostra um Judas filisteu abastado, revoltado com o domínio romano sobre a Judeia. Ele se entusiasma pela figura de Jesus Cristo, vencendo seus preconceitos aristocráticos contra os galileus, tidos como a ralé dos judeus (aliás, o livro revela as picuinhas e as diferenças entre os apóstolos). O que desaponta Judas e que o leva a cair na armadilha da traição é que Jesus não se apresenta como rei dos judeus, enfrentando os romanos, mas prega a respeito de um vago reino onde judeus e pagãos encontrarão a salvação, por isso perdendo prestigio, mesmo fazendo milagres espantosos.

Dando voz e vida a Judas, utilizando os eventos bíblicos com expressividade, o livro ganha força ao colocar em cena (praticamente em todos os capítulos) a cisão entre as diversas facções de Israel. Publicado em 1977, não dá para negar sua eficácia como exercício de imaginação e atualidade (há um belo epílogo protagonizado por Maria Madalena): “Não compreendendo o meu patriotismo, a maioria dos discípulos me considerara descrente. Mas o próprio Jesus desviava os ditos deles e me mostrava que me achava tão bom quanto os outros. – Tu, Judas, tens a tua missão, como os outros, e serás lembrado depois que muitos tiverem sido esquecidos. – Minha missão – disse eu – é libertar o meu povo. Ele levantou as sobrancelhas, delicadamente. – O teu povo, Judas? E posso saber quem é? – Os judeus em todo Israel e na Diáspora que desejem livrar-se de Roma. – E os outros povos? O povo de Roma, que desprezas, também não é vítima dessa tirania? Ele estava sempre a complicar as coisas. – Não foi dito claramente pelos profetas que o Messias libertará Israel, de modo que triunfará sobre as setenta nações? – Tu então queres substituir a tirania romana por outra? ”.

13/02/2018

O “VOCABULÁRIO INTIMISTA” DE TIAGO GERMANO

 

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 13 de fevereiro de 2018)

“Houve um tempo em que as pessoas iam a restaurantes pela simples razão de ter fome. Hoje se vai a restaurantes por qualquer outro motivo, todos comprovadamente legítimos, menos esse. Eu mesmo já estive em alguns com o mesmo apetite de um doente de hospital. Não pretendia comer nada, até que me caiu em mãos o cardápio e logo descobri o recôndito sentido da sua existência: longe de lhe dar liberdade de opção, o cardápio lhe impõe uma escolha”. É um trecho de “Cardápios”, uma das maravilhosas crônicas de “DEMÔNIOS DOMÉSTICOS”. Na linha dos cronópios de Julio Cortázar, dos textos curtos de Robert Walser e da insustentável leveza de boa parte da obra de Italo Calvino, Tiago Germano faz sutis rasgos no tecido da realidade, desde estabilizando o senso comum. Ele mesmo o diz em “A coleção de palavras”: “E como um escritor coleciona palavras? Respondo exibindo uma parte do acervo que venho coletando desde a infância, quando as palavras que ouvia pareciam estar divididas entre aquelas que expressavam com a exatidão a ideia que pretendiam expressar e aquelas cujo sentido parecia não bater, como se tivessem sido inventadas só para não ficarem anônimas… ‘Poverty’ é uma palavra nobre, tanto quanto ‘andrajo’, que não pode ser listada no Aurélio como sinônimo de ‘trapo, farrapo’, porque absolutamente não se associa à miséria no meu vocabulário intuitivo”.

“DEMÔNIOS DOMÉSTICOS” é dividido em blocos: “A infância, seus modos e seus medos”, “O amor, seus gestos e seus gostos”, “A rua, suas bocas e seus becos” e “O oficio, seus mitos e seus mundos”. Do primeiro destaco “Malamen e o Extrato”: “A primeira aparição do Extrato se deu numa noite de quarta-feira, quando faltou dinheiro em casa e minha mãe perguntou a meu pai: ‘Você viu o Extrato? ’”. Do segundo bloco “Comendo paçoca”: “De repente, daquelas duas bochechas cheias de amendoim, vi brotar o único sorriso que restava de inédito no mundo”. Do terceiro bloco “Slogans de funerárias”: “O dilema de uma propaganda de caixão, entretanto, é bem mais profundo, está na essência do ser humano, no que há de mais inerente: a certeza de uma morte duvidosa. Como promover um produto que o cidadão não vai usar quando vivo? ”. Do quarto bloco “A crônica que jamais escreverei”: “Ela não está em lugar algum. E não estando em lugar algum, não sei ao certo onde procurá-la. E não sabendo onde procurá-la, procuro-a em todos os lugares, e às vezes, quando a noite se faz maior que o silêncio, eis que me deparo com suas palavras, mas ao me deparar alguma coisa dela me escapa, e tanto mais me escapa quanto mais me deparo, e é inútil tentar retê-la, porque dela não me é dado saber nada, nada além do fato de que jamais a escreverei”.

Mas a verdade é que não há nenhuma crônica que não tenha uma passagem memorável. Um dos melhores livros dos últimos anos: “No carro, quando era minha família que voltava da praia, fingia muitas vezes dormir para ouvir a conversa dos meus pais. Falavam de Claudia. Claudinha. ‘Morte estúpida’, diziam. E eu tentando imaginar como se podia morrer de maneira inteligente”.

 

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