MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/08/2015

Edson Amâncio e uma linhagem literária a salvo de modismos: “Diário de um médico louco”

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[uma versão do texto abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 26 de agosto de 2015, VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/08/uma-literatura-salvo-de-modismos-edson.html]

«… já na minha infância fui tomado por estranhos pressentimentos e muitas vezes chamado de habitante “do mundo da lua”. De tal forma era envolvido por êxtases e arrebatamento da alma que me perguntava se não estaria vivendo um sonho. Que tipo de sortilégio me dominava o espírito ainda na minha mais tenra infância! Meus pais, cujo equilíbrio mental está exageradamente distante de exemplar, levaram-me aos curandeiros da vizinhança e um deles me faz passar a mais terrível experiência que uma criança é capaz de suportar. Colocaram-me nu, sentado no chão, coberto de folhas de bananeira de uma cabana e despejaram sobre a minha cabeça o sangue ainda quente de uma galinha esgorjada…»

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Há uma vinculação óbvia que podemos fazer de Diário de um médico louco com certa linhagem na ficção cujo protótipo encontramos em Diário de um louco (1835), de Gógol: trata-se do discurso de alguém que já não distingue o que é realidade ou delírio, um discurso desassossegante porque deixa entrever que toda noção de realidade, no final das contas, não passa de uma ficção. É o reino de Poe, Dostoiévski, Hoffmann, Robert Walser, entre outros, além do já referido e paradigmático Gógol[1].

Como inserir, entretanto, o romance de Edson Amâncio na ficção brasileira atual, ainda mais quando ele utiliza o recurso consagrado, mas algo anacrônico (a não ser que seja retomado de forma paródica), tão século dezenove, de um primeiro narrador apresentar-se como depositário do diário do colega, que desaparecera?

Para agarrar o touro à unha (um ótimo livro de ficção, o qual parece um tanto desusado e deslocado na cena literária em voga), uso como arma a comparação: no caso, com  Tólia, um dos contos que Ricardo Lísias reuniu em Concentração e outros contos[2], e no qual o narrador (Ricardo Lísias) desiste de todos os seus investimentos existenciais (o xadrez, a literatura) e, na Rússia, se junta a uma comunidade mística,  dedicada ao silêncio radical e à reunião de Mestres dispersos pelo planeta, que possam levar a humanidade a outro estágio de evolução.

      Tólia faz parte de um recente ciclo na obra de Lísias (a que pertencem também romances como O céu dos suicidas e Divórcio), cujo tema recorrente são as experiências “malucas” e dissociativas de um protagonista homônimo (o qual se encontra um tanto quanto “surtado”) do autor.

Há uma etiqueta da moda para essa prática: “autoficção”. Experiências pessoais deformadas e reformatadas, criando um universo movediço, um terreno pouco firme (típico da pós-modernidade), onde o leitor perde a noção do que é fato e do que é forjado, “fingido” na vida do autor-personagem em questão.

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Na tentativa de derrubar o touro, pode-se enquadrar Diário de um médico louco também nessa linha, com a ressalva de que o narrador (chamado simplesmente Dr. B.) não tem, como nos exemplos mais notórios da autoficção, o nome do autor[3].

Faço tal alegação porque, sem dúvida, ali estão experiências vividas biograficamente (viagens a Paris e à Rússia, por exemplo; aliás, a pátria de Dostoiévski, como acontece em Tólia, ocupa largo espaço no romance:  « primeira vez eu viajava com quem chega a um lar durante muito tempo abandonado. Eu não era um turista, nem mesmo um simples viajante. Eu era um russo. Eu estava de volta à casa…»), com as quais ele joga de forma a desconstruí-las, ao contá-las sob o ângulo da consciência alterada e disfuncional: «… fui tomado de uma estranha sensação que já se apoderou de mim em outras ocasiões. É como seu eu estivesse vivendo outra vida, como se não fosse eu que estivesse presente ali naquele quarto, e um impostor tivesse se apoderado do meu espaço e do meu próprio ser. Naqueles poucos segundos transportei-me para os lugares mais recônditos de Petersburgo, aqueles lugarzinhos que eu já havia visitado de outras vezes, becos escuros onde se escondem os pequenos demônios russos, escadarias imundas e malcheirosas, por onde circulam bêbados e as mais disformes criaturas do submundo…».

A lógica que guia o percurso narrativo está contida na seguinte passagem: «eu não me esquecia de como utilizar meu endoscópio, mas era incapaz de encontrá-lo quando precisava»[4].

Médico em Santos (cidade no litoral de São Paulo), o Dr. B. narra como a pulsão do suicídio foi se inoculando em seu ser. Como tantos anti-heróis literários, ele também é visitado pelo diabo, e no ir-e-vir não muito cronológico e linear de seu diário, e em todas as anedotas biográficas[5], ele sente a presença zombeteira dessa entidade, instigando-o e espicaçando-o:  « Já lhes falei que o Mestre me visitou certo dia (os russos o chamam assim). Isso mesmo, o demo em pessoa (…) vejam a que ponto cheguei. Em poucos segundos vocês começam a imaginar que sinto falta dele. Explico melhor. Antes de tudo, é uma criatura sem travas na língua. Um conversador nato. Nada de monossílabos, como estamos hoje acostumados. A pessoa acomoda-se diante de você e não abre a boca. Ninguém mais sabe conversar…».    

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Portanto, Edson Amâncio poderia se gabar de ver seu romance associado a duas práticas recorrentes entre escritores jovens e “up to date”, e em vários deles (não Lísias decerto), tomadas como se fossem a reinvenção da roda: além da “autoficção”, a “intertextualidade”.

O que diferencia abissalmente Diário de um médico louco é que justamente a imersão na literatura (pois o Dr. B. é useiro e vezeiro na citação de autores) revela-se antípoda à usual complacência dos praticantes desse jogo metaficcional, pois ele nos reinsere no coração de uma linhagem criativa que propõe o mais doloroso e profundo diagnóstico das fraturas da condição humana, da situação aberrante de sermos criaturas tão racionais e ao mesmo tempo presas de instintos primitivos, de pulsões destrutivas e derrisórias. É o ato de escrever (sem se prender a modismos) conforme caracterizado com precisão por Pedro Meira Monteiro: «A escrita nunca é liberação. Quando escrevemos selamos acordos com uma corte de demônios que mal conhecemos».

E o uso de um alter ego negativo, o Dr. B, aponta justamente para o lado “saudável” da literatura: enquanto todo o universo da loucura, da fragmentação do ser, das dicotomias dilacerantes, aponta para o caos, para a ausência de sentido, o discurso literário—mesmo passando a pente fino toda essa realidade lancinante—é ainda a ordem, a coerência, a possibilidade de um “remate de males”, no mínimo.

Ricardo Lísias (enquanto personagem) e o Dr. B. perdem a partida contra a realidade, e mergulham no autoengano da loucura, procurando suavizar o estado de vexame existencial em que estavam mergulhados, como não-participantes funcionais do sistema social. Ricardo Lísias (enquanto autor) e Edson Amâncio nos proporcionam, paradoxalmente, a sensação de que a literatura ainda é um muro de contenção contra o caótico e o dissolvente[6].

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NOTAS

[1] A ligação mais gritante do autor de Diário de um médico louco, grande dostoievskiano, seria a princípio com narrativas febris e alucinatórias como O duplo (1846), não obstante esta não ser em primeira pessoa, ou Memórias do Subsolo (1864). Há episódios que evocam parodicamente cenas de obras dostoievskianas, como o pedido de perdão à prostituta, em nome da humanidade em geral, de Crime e Castigo (1866).

[2] Alfaguara, 2015 (o livro de Amâncio foi editado pela Letra Selvagem em 2012).

[3] Confesso-me um pouco avesso ao termo porque me soa a etiqueta nova de uma prática velha. Segundo Ana Maria Lisboa de Mello a tal da autoficção «reivindica para si a possibilidade de reconstrução livre, arbitrária e ficcional dos fragmentos da memória, sem compromisso com a transcrição literal dos acontecimentos». Ora, não é o que a literatura desde a quebra do classicismo sempre fez (a começar pelos autores arrolados no início do meu texto)?

André Bernardo, em matéria para a revista Metáfora (número 14), sumarizou as características recorrentes da “autoficção”;

-autor, narrador e protagonista têm o mesmo nome (coincidência onomástica);

– o tempo presente é predominante na narrativa;

– os limites entre memória, ficção e realidade se confundem;

-narrativa fragmentária, descentrada e não linear;

-sensação de work in progress, como se o leitor participasse da escrita do romance;

– postura de perplexidade e de questionamento do leitor.

[4]  Noutra passagem: «Termino-a (a vida, é claro!) muito melhor do que comecei. Hoje tenho meu endoscópio e uma profissão digna, nenhuma sinecura—rejeitei todas que se estenderam diante de mim. Vivo só, isso é verdade e lhes daria de presente mais um clichê, se não fosse abusivo e não quero parecer autoritário. Mas seja, vá lá: às vezes é melhor só. Agora, penso eu, devo voltar à análise do primeiro motivo verdadeiro que me levou inexoravelmente a essa estória do suicídio. É uma estoriazinha, não mais do que meia dúzia de linhas. Ei-la: eu vinha caminhando pela rua, o pensamento imerso nesse mar de questões que tenho levantado desde que completei 65 anos—curioso: faz exatamente 3 anos, 4 dias e 2 horas que os completei. Depois disso, não tive mais sossego. É como se aos 65 anos tivesse ocorrido na minha vida um divisor de águas. Algo assim: Pois bem, agora vai ser diferente. Vamos ao que verdadeiramente interessa: o suicídio! Dessa data em diante, não parei de pensar ´no assunto´. Sei que os aborreço com essas longas introduções e interrupções, mas me declaro incapaz de fazer de outra maneira. Vejamos. Eu, como já dizia, vinha caminhando. Ao passar por uma janela aberta, alguém, uma criatura da pior catadura possível, disparou uma cusparada. O míssil, se posso assim me expressar, por pouco não me atingiu em cheio, no rosto. Apenas um passo mais acelerado e isso fatalmente não teria acontecido. Mas, felizmente, aquilo me atingiu no ombro esquerdo. Eu havia olhado para o interior daquele cômodo miserável, onde pessoas trabalhavam, por mera curiosidade. Depois entendi que naquele quarto de subúrbio funcionava uma alfaiataria. O alfaiate, ao perceber que a cusparada havia me atingido, ficou paralisado, ainda com uma das mãos suspensas no ar para limpar os últimos resíduos de umidade nos lábios. Eu, de minha parte, também estaquei na calçada. Aquilo era demais. Vocês estarão loucos para saber como reagi, não é? Pois bem, imaginem-se, portanto, numa situação semelhante. Isso os possibilitará ter uma ideia do que aconteceu a seguir. Eis aí o cerne da questão…».

[5] Por exemplo, em Paris, é acometido pela tentação de roubar um desconhecido que sacara alta quantia no banco, e repassa cada giro mental—até atingir a ideia de latrocínio—a partir do impulso original, naquela mistura tão típica de método e racionalidade com estado-limite da mente.

[6] Aqui no blog há uma versão ampliada do texto, VER: https://armonte.wordpress.com/2012/11/27/destaque-do-blog-diario-de-um-medico-louco-de-edson-amancio/

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25/08/2015

Antônio Mariano e seus Jailsons: as grades da existência social

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de agosto de 2015)

   «Teu nome é Jailson, deve ter sido a única frase que pronunciaram para me prender de vez a esse destino». A passagem do terceiro (Estas Imagens) entre os treze contos que integram O dia em que comemos Maria Dulce, representa bem o diapasão através do qual vibram as notas da prosa de Antônio Mariano: Jailson, nome tão “popularesco”, o filho (son) nascido no interior de uma prisão (jail) não só da condição humana como dos inelutáveis dados sociais[1], é um ser genérico que se multiplica pelos relatos, em diversas faixas etárias, profissões ou localidades, geralmente negro, excluído, no máximo “remediado”, como se costumava dizer. Em situações mais favorecidas, como em Chocolate Quente (onde um filho “fraco” adquire autoridade sobre o pai, devido à debilitação físico-mental deste), a dissonância vem por conta do patológico, das relações impostas por pulsões e interditos. Nada alivia o destino de ser Jailson, e todos somos ele.

Assim, através de um recurso simples e de tremenda eficácia, o escritor paraibano nos apresenta o expressivo painel de um Brasil de desigualdades e descalabros, do qual muitos, infelizmente, parecem ter nostalgia pelo que constatamos em numerosas manifestações e declarações recentes.

O social permeia tudo, mesmo o universo infantil, e não obstante a coesão da coletânea (com alguns momentos mais fracos, como Observação interrompida sobre as aranhas, que parece truncado, um arremedo de conto; ou o já citado Estas Imagens, forçada alegoria cinematográfica da existência, para a qual faltaram “carne” e “substância”), os textos nessa linha são pontos altos. Com muita felicidade, Mariano criou uma espécie de contos de fadas ao contrário, dosando perversidade e encantamento. É o caso da aparição meio etérea da Maria Dulce na narrativa-título, a qual surpreende secretos jogos eróticos estabelecidos entre os meninos de uma comunidade assolada pela miséria e pela fome, toda ela edível a partir do próprio nome, e que rompe um dique de resignação e letargia, submergindo na voragem da necessidade dos que ficaram à margem da prosperidade (dessa forma, a “magia” se rompe e o título se torna aterradoramente literal); é o caso das descobertas corporais (até as incestuosas), em Seguindo Alice, dialogando de modo cruel, em seu desenlace, com a célebre toca que leva a personagem de Lewis Carroll ao país das maravilhas; é o caso, ainda, do casal de irmãos, cada um despertando sentimentos atávicos (medo e submissão, desejo e obsessão)e formando códigos de conduta para o menino Jailson de Entre o nariz e o beiço. E o Jailson que, afinal cresce e se revolta contra o hipócrita abuso (inclusive sexual) da tia, em Veneno do arrependimento? Aliás, a  atmosfera desta narrativa nada fica a dever aos contos de Dalton Trevisan. Uma passagem mostra que mesmo entre os tormentos íntimos, os dados da condição social são decisivos: ele se arrepende de ter envenenado a comida e corre com a panela: «Derramar simplesmente não era aconselhado, conhecendo os hábitos  de economia desta senhora. Certamente não hesitaria em recuperar o máximo que pudesse da comida desperdiçada».

E entre os Jailsons adultos, nem aquele que obliterou sua origem (o do derradeiro relato, Imensa asa sobre o dia[2]), e está em plena ascensão social, consegue evitar um destino sórdido, tendo de se haver com uma atemorizante figura masculina, quase um bicho-papão. Os passos que o guiam para o fatal confronto adquirem grande beleza no uso da linguagem, ao aproveitar as fases do sol ao longo do dia. E esse fecho perfeito traz à lembrança o Antônio Mariano, poeta talentoso, num dos melhores momentos de seu Guarda-Chuvas Esquecidos (ed. Lamparina, 2005): «Enfim me libertei/daquele homem que me aguardava numa esquina/com uma faca//Trinchante de olhos/ferindo mais/que se metálico fosse//Aquele homem/me acompanhava/às mínimas as ilhas//Me estendia a mão/revolvendo uma ameaça/que presto me atingia//Me tirando mais/do que se fato/eu lhe tivesse dado».

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NOTAS

[1] Devo esse devaneio inglês do nome dos protagonistas da coletânea à Maria Valéria Rezende.

[2] O qual dava título a uma versão anterior do livro, publicada em edição não-comercial, em 2005. O atual formato foi publicado pela ed. Ficções.

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18/08/2015

ROBERTO MENEZES E O RELATO FEMININO COMO ALEGORIA POLÍTICA: “JULHO É UM BOM MÊS PARA MORRER”

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«Oh! Ninguém tente me compreender, ninguém procure me entender. É inútil, pois eu mesma não atino com os meus desacertos» (trecho de Os olhos da treva, de Gilvan Lemos)

«Estávamos acima de tudo. Livres. Não queremos um rosto. Não queremos vida, nem futuro. Só estamos fugindo.(…) este breve segundo, frame, eu posso chamar de vida. E é assim que se livra dos seus atos pecaminosos e da sua inquisição mental constante: sendo pior sempre». (trecho de “Zumbis”, do livro Arranhando paredes, de Bruno Ribeiro)

«Ela não me salvou. Ninguém salva ninguém. Esse negócio de salvação é mais uma balela de gente grande. O acaso, foi ele, o acaso fez com que Lara entrasse um ou dois minutos antes que realmente enfiasse o revólver aqui no peito e disparasse […] Lara não me salvou, só adiou, só bifurcou meu caminho pra outra morte. Mais alguns arrodeios. Morrer em dezembro não é morte boa. Julho, esse sim é o mês da boa morte… »

«…o que posso fazer, sempre fui assim, sempre procurei combustíveis para me impulsionar…» (trechos de Julho é um bom mês para morrer)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de agosto de 2015)

Um dos mais brilhantes talentos da nossa ficção atual, Roberto Menezes, esteve por anos restrito a edições regionais. Agora ele tem a chance de ampliar o círculo de leitores-admiradores: seu novo romance, Julho é um bom mês para morrer, ganhou edição pela pequena, porém prestigiada, Patuá e, pelo menos para mim, já desponta como o candidato a destaque de 2015 no gênero.

No início da leitura, temi que ele repetisse o tipo de relato que eu achara sensacional no livro anterior, Palavras que devoram lágrimas[1]: uma narradora que digita obsessivamente, com um sentido de urgência, desta vez não para o ex-marido de quem se vingará, e sim para a mãe que a abandonou, em 1984 (ela tinha 4 anos). Todavia, não só a voz de Laura é totalmente diferente (essas vozes femininas tão marcantes e diversas,  um dos aspectos do virtuosismo de Menezes), como também Lucy, a interlocutora, desta vez, é mais um pretexto (e uma busca desesperada por lastro). Ao contrário de uma protagonista que escavava as camadas do seu passado e de sua ascensão social, temos uma mulher que se mura (literalmente) contra um presente no qual sua existência se insubstancializou, perdidas todas as referências. Num apartamento-bunker, ela espera a chegada de julho e da demolição do edifício já anacrônico (mesmo sendo dos anos 1980) para as exigências da especulação imobiliária que muda rapidamente a face de João Pessoa, como das cidades em geral. Todas as eras têm suas torres.

A referência a 1984, ano da fuga da mãe, não é aleatória. De maneira altamente astuciosa, Menezes pinta e borda o retrato de uma geração, e sobrepõe sorrateiramente três momentos políticos distintos: o da abertura política (e inflação estratosférica); a era FHC e o tsunami da globalização (que coincide com a virada do milênio); a era pós-Lula. E, enrodilhado nessa espiral, um nordeste ainda sertão e de longa duração que permaneceu apesar de tudo, para o bem e para o mal, simbolizado pela figura fantástica de Noêmia, a voínha de Laura, mulher que perdeu três filhos afogados num açude, refez a vida e viveu até os 94 anos, chegando a 2002 (quando morre em plena vitória brasileira na Copa). Mesmo dura, avara de demonstrações afetivas, sua ausência acelera o mergulho fatal de Laura no fenômeno mais inquietante da nossa época: a ausência de futuro, o presente (mais ainda, o instantâneo, o fortuito, o descartável) como linha do horizonte, aonde você chega de quê? para quê?, e é tudo junto, misturado, indiscernível(«O que de fato foi importante veio quando eu não procurava: uma enxurrada. Não tem como elaborar plano de contingência ou prioridades, dizer, calma, a gente tem que ir por partes, por ordem cronológica. Essa lógica não funciona, tudo vem atropelando tudo»).

A modernidade agora é líquida. E a água é um elemento opressivo em Julho é um bom mês para morrer[2]: inclusive, há um quadro na casa de voínha (ela nunca gostou dele, porém presenteia Laura com ele, na véspera do novo milênio) que representa o episódio bíblico da travessia do Mar Vermelho. Voínha diz à neta que, apesar da figura de Moisés, e do milagre ali retratado, nunca conseguiu encontrar Deus no quadro. Mas essa desilusão tornada atávica, essa descrença, não deixam de ser projetadas mesmo assim sobre uma resistente Grande Narrativa, que ainda tem força e espessura (religiosidade, família, valores estáveis). O quadro pendurado no apartamento de Laura, nada dessas tradições terá sentido ou consistência para ela («Mandou eu procurar Deus nesse quadro imprestável que encaro. Desde aquele dia ele vive pendurado do meu lado»[3]). Até sua nostalgia já vem envenenada pela ironia (e olhem que ela não se furtará a usar o termo “milagre”, num contexto cujo final será dolorosamente trágico, na virada): «Digo e repito, sou de uma geração que é dada a estragar finais»[4].

O que torna Julho é um bom mês para morrer mais fascinante ainda (afora sua constelação de motivos e imagens, trabalhada como uma túnica inconsútil, nada faltando, nada sobrando) é o alinhamento da voz de Laura a um fenômeno que vem rendendo pontos altos da nossa ficção recente (penso em Por escrito, de Elvira Vigna, sobretudo, mas também em Quarenta Dias, de Maria Valéria Rezende e, em certa medida, em F, de Antônio Xerxenesky): relatos cáusticos, desencantados e agônicos de mulheres que fogem inteiramente do estereótipo “intimista” e enveredam para alegorias políticas dos rumos do país. Antes, eram somente protagonistas masculinos (os de Machado são o paradigma supremo) que proporcionavam essa mirada alegórica. A emancipação da mulher até na ficção. Já era hora.

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TRECHO SELECIONADO

«Na festa, cada um pro seu lado. Brizola foi vender e eu pra frente do palco ouvir o som na massa, só curtindo a vibe. A suadeira no corpo, o trismo, a vontade de não beber nada, a excitação brotando da pele. A música tocava, e eu lá, no meio daquela galera, abestalhada com meus sentimentos misturados como a caipifruta fajuta que esquentava na minha mão. E eu nem queria saber, só dançar, dançar a nova de Magníficos como se fosse a última música que fosse dançar na vida; e sentir o barato—dançar é isso, porra! Anota aí no dicionário. Dançar só faz sentido com ódio no coração. Meu coração batia, batia, batia, como se quisesse arrombar alguma porta, a raiva era o meu par nessa valsa. Olhando agora de longe, Laura era só aquela hora, o instante, o não antes, o não depois; não havia nenhuma avó  pra colocar Laura na inércia de esperar o século passar, não havia nenhuma mãe para desestabilizar Laura e fazer ela quer fugir pelo mundo; nenhuma dessas duas coisas tem sentido quando não tem o tapete do tempo pra caminhar. Poderia o mundo acabar que eu já estava arrebatada, numa efervescência de mim comigo mesma; as pessoas ao meu redor não compartilhavam do que eu sentia, e pra mim, tanto fazia quem eram, meros forrozeiros de merda, só coadjuvantes do que se passava aqui dentro[…] E olhe que tudo isso se fazia no meu corpo e na minha mente por causa de duas cheiradas e meio papelzinho menor que um grão de arroz.

   Comemorar o prêmio da loteria?, balela, era desse estado que eu tinha saudade, de me deixar guiar por essa química, por essa química que dirigia meu carro sem direção. Poderia fechar os olhos e evaporar sozinha… »

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NOTAS

[1] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2015/08/16/roberto-menezes-e-seus-joguinhos-de-altissimo-baixo-calao-palavras-que-devoram-lagrimas/

[2] Há afogamentos e tentativas de afogamentos (num açude no sertão, no mar), e não podemos esquecer da ironia tremenda da expectativa de ver e ouvir o mar, quando menina, e o pai compra um apartamento que é o máximo da modernidade da sua época, e depois, já uma torrezinha em meio a verdadeiras torres-monstros (o complexo de Dubai que se apossou dos construtores), ela agradecer não poder nem ver nem ouvir o mar. Aqui, como em todo o romance, a percepção pessoal e o processo social se entrelaçam fortemente.

[3] Logo nas primeiras páginas: «Quis ser como voínha depois que saquei que o futuro que eu esperava não foi o que veio».

[4] Diga-se de passagem, que embora indo na jugular da chamada pós-modernidade, Roberto Menezes não cai nos vícios habituais do exercício literário pós-moderno. Até a erudição no campo da Física Teórica (sua área como professor e acadêmico), utilizada com sutileza e grande beleza (como as especulações cosmológicas) no romance, se cola à percepção e conhecimento da narradora.

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16/08/2015

Roberto Menezes e seus joguinhos de altíssimo baixo calão: “Palavras que devoram lágrimas”

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[uma versão do texto abaixo foi publicado originalmente no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 15 de julho de 2015, VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/07/as-devoradoras-palavras-de-roberto.html]

«.… é pegar pesado? Acho que não, sem sombra de dúvida, não…»

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Fiquei tentado a enganar meu leitor, enfatizando o lado “história de vingança”, com toques macabros à Stephen King, de Palavras que devoram lágrimas, romance que faz parte da coleção digital Latitudes (EGalaxia).

Não seria uma mentira nem algo descabido. Roberto Menezes não tem medo de incorporar o universo de King ou outras referências da indústria cultural  («ops, fiz de novo, como diria a britney»); no entanto, estaremos mais próximos da radicalidade e do efeito avassalador do texto do autor que, nascido em 1978, é professor de Física Teórica na Paraíba, se o pensarmos na linhagem de um Paixão segundo G. H. (1964), de Clarice Lispector, ou de alguns filmes bergmanianos (como Através de  um espelho, 1961), no sentido de que derruba as escoras, que escava as fundações, que põe a nu os tapumes que cercam nossa condição humana.

A própria narradora diz que é «paleontóloga de nascença», e esse exercício de escavação, de desnudamento, de despojar-se de todos disfarces e libertar-se de todas as amarras, no verdadeiro palimpsesto que é o relato, ironicamente é realizado através da digitação obsessiva; ou seja, no uso mesmo da tecnologia mais presente, vamos ao recôndito do ser-aí, ao “nada e nossa condição” (G.Rosa).

Assim como acontecia com G.H., o que nos incita a penetrar nessa região sempre inóspita (essa dos confins da nossa condição) é o incrível apelo da “voz” inconfundível do personagem, que vemos se configurar na página em branco, e que é a isca de Menezes para nos arremessar nos estratos da sua paleontologia narrativa trepidante e frenética[1]. Portanto, vamos ouvir um pouco da “voz” de Palavras que devoram lágrimas:

«…por essas horas eu já deveria ter falado de todas as camadas de tintas da parede do quarto que fui retirando, uma a uma, com lixas e raivas diversas. Por essas horas eu já deveria ter dito o dobro do que eu disse com essas palavras todas. Gastei meu verbo fazendo muitas interrupções. Necessárias e pertinentes. No mais, grande parte do que fiz antes de chegar aqui, hoje, no seu gabinete, foi de caso pensado, premeditado, como você bem gostaria de dizer agora. Foi tudo premeditado: desde as cordas de náilon que mandei trazer de campina até o notebook que comprei semana passada em dez mil parcelas! Nem sei quando vou pagar. Puxei pelo torrent a mais nova versão do Word, dizem que não dá tanto bug quanto o outro. E esse tem, acho eu, a opção de não salvar automático. Estas palavras todas só serão salvas se e quando eu quiser. Não posso ter pleno controle sobre elas, mas são todas minhas e até posso contar quantas escrevi até aqui no exato momento em que estou escrevendo. Agora que já passei de dez mil, olha aqui embaixo—dez mil e o escambau—já escrevi essas tantas páginas e nem parece tanto assim. Posso também agora passar pro próximo ato. Da maneira que eu planejei, a primeira parte englobaria toda a história das camadas de cores do nosso quarto. Olha, de agora em diante quando eu falar nosso é sobre as que pertencem a mim e a você, ok? O nosso nosso banal que todo casalzinho tem…»

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Antes de levar a cabo seu plano de vingança contra o ex-marido, um vereador, ela leva o leitor a uma «expedição aos motivos reais», por meio de «joguinhos de altíssimo baixo calão»[2]. E vai lixando aos poucos as camadas de tinta do quarto de casal no apartamento que sobrou da relação (e cuja posse será transferida mais tarde a um mendigo).

     O achado que envolve essas sete camadas de tinta («… lembre da parede e das sete camadas de tinta. Só arranquei a primeira, há seis níveis de solo neste aconcágua para escavar…»), uma para cada ano, não é tanto o recurso “paleontológico”, o efeito-palimpsesto (ou, para usar um termo do próprio relato, «inomogeneidade»), que ele permite como estruturador do discurso da narradora, mas as ressonâncias poéticas e imagéticas que ele proporciona ao talento transbordante de Menezes (mantido sob controle por conta das situações narrativas, bem entendido).

A cor de cada camada remete a toda uma gama de associações. Por exemplo, a primeira camada é bege, meio “leite condensado” meio “porra” (não esqueçamos, é a cor do estágio do final do casamento); tem uma camada de um genial “verde-anágua”; tem a camada de um “vermelho inespecificado”, que acaba sendo uma “cor natimorta”; tem ainda a camada amarelinha, “com cor de casca de ovinho de patinha”; lixando mais fundo, uma camada salmão: «… nosso terceiro ano, como eu vou esquecer? Como você vai esquecer? O ano que finalmente eu dei o meu cuzinho quadrado pra você! ».

E chega-se à camada “azul inferno”, momento de grande virtuosismo do romance, em que percebemos que a corda está esticadíssima, num ponto onde pode arrebentar, ou permitir que o leitor passe para estratos ainda mais perturbadores (por puro gosto de citar o texto, mais duas passagens: «… por mim, eu ficaria neste azul inferno, mas prefiro, assim, depois de muitas páginas, lixar de vez, outra vez…»; « … tenho dom de lixar paredes e de me lixar…»; ah, essa voz hipnotizante e perigosa dos personagens-narradores carismáticos!): chegamos então à última camada, “branco gelo mais para a neve”, e concomitantemente «já entramos no último ato do meu desabafo…».

A essa altura do texto, não há um elemento que não permita associações inauditas, e por essa razão prefiro terminar com mais uma citação do próprio livro (e acho que o ror de citações demonstra bem o quilate dessas camadas e camadas de texto lixado), que nos remete novamente ao seu toque stephenkinguiano:

«… remorso é uma palavra úmida, não combino com palavras úmidas, combino com lixa, pó, galho, ponta de faca, navalha, estilete…»

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palavras são à vera

NOTAS

[1] Desde que li pela primeira vez, aos 18 anos, O apanhador no campo de centeio, de J. D. Salinger, permaneceu comigo a convicção de que se a voz do personagem me hipnotizar, serei levado para qualquer lugar que o autor pretenda. Depois recolherei os cacos, contabilizarei os danos, entesourarei os ganhos

[2] Não falta aqui sequer o discurso ressentido nu e cru, no sentido do alpinismo social: «não sou como você, que deve culpar sua mãe, que lhe ensinou a escravizar cada nervo do seu rosto e só sobrou a sobrancelha esquerda…»; a mesma mãe que «queria domar a menina candanga sem classe nem caligrafia aceitável pra cortar um lombo parisiense com a faca de sete gerações».

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11/08/2015

Uma personagem inesquecível, um grande romance e um escritor para ser descoberto: Mila, “Os olhos da treva” e Gilvan Lemos (1928-2015)

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«__ Não, não esqueço nada, meu rapaz. Entende o que quero dizer?

__ Acho que sim. E só agora sei: também eu»

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de agosto de 2015)

   «Foi não existe, apenas é. Se foi existisse, não haveria dor ou tristeza». O célebre dito de William Faulkner ajuda a entender a tensão que percorre a narrativa de Os Olhos da Treva. Quarenta anos após a sua publicação original[1], continua sendo um dos mais vigorosos e bem urdidos romances da nossa ficção, e é incompreensível o quase absoluto silêncio em torno de seu autor, o pernambucano Gilvan Lemos (falecido no início do mês, aos 86 anos). Ele mesmo reconhecia não ter “grandes sucessos” em sua carreira, mas que vivia «exclusivamente para ler e escrever. O que eu sempre quis de fato foi ser escritor, escritor e escritor».

    Vou imitar Harold Bloom, crítico que costuma extravasar sua admiração por determinadas personagens, e dizer de saída: que mulher incrível Mila, a protagonista de Os Olhos da Treva, que inteligência afiada, alternando cálculo e desatino passional[2]!  Ela aparece em Santa Cruz (povoado que cresce em função de Paraúna, latifúndio de Leonardo Velho, dono daquele mundo e emprenhador de quase todas as mulheres) nos braços do capataz Jacinto (figura trágica e inesquecível), recém-nascida, única sobrevivente de uma área de isolamento forçado para atingidos pela epidemia de varíola[3]. Por causa das marcas bexiguentas no rosto, ela e sua família de adoção (o pai, descendente de índios) são obrigados a viver num ermo:  «Vê donde venho, donde me origino? Ah! como gosto que tenha sido assim,  Jomo. Isto me deu todo o direito de ser ruim». Mais tarde, trazida para a casa-grande, alça aos poucos o posto de principal amante de Leonardo, ganhando autoridade na região. Mesmo assim, sempre se sentirá estigmatizada, e resumirá sua tragédia pessoal da seguinte forma: «Meu querido Jomo, desencontrei-me dos homens que verdadeiramente amei na vida. Um velho demais para mim; o outro, jovem demais».

    Mesmo se dando a outros homens (manipuladora consumada), Mila é louca por Leonardo, do qual décadas a separam (o relato da sedução do fazendeiro é antológico, e o carinho e intimidade para além do sexo entre uma mulher mais jovem e um idoso também aparecem no belo texto que dá título à coletânea A Era dos Besouros, de 2006)[4], e quer ter um filho dele, antes que mergulhe na senilidade. Descobrindo-se estéril, concebe o plano de fazê-lo engravidar uma retirante, apossando-se da criança, Jomo.  A desgraça é que ele se vai se tornar a paixão obsessiva da sua existência: «Amei-o deveras como um filho, Jomo. Durante certo tempo, sim. Depois, Leonardo se acabando, revivendo em você. Com que firmeza, com que afirmação isso se verificava! Não tanto no físico, mas no temperamento, no modo de falar, nos silêncios, no jeito de agradar a todo mundo. Porque você, Jomo, é como Leonardo: as coisas boas ou más vêm para você sem que você faça nenhum esforço para ganhá-las ou evitá-las».

   Jomo é, de certa forma, um herói passivo[5]. O eixo do romance é a sua volta, após vários anos como foragido (por causa do assassinato da amante, esposa de um dos herdeiros de Leonardo—ele era motorista da família), sobrevivendo em subempregos em Recife, participando de incidentes sórdidos e patéticos, para enfim confrontar sua “protetora”, Mila, a qual, já entrada em anos, vive sozinha, tendo perdido a visão. Ela é um dos quatro de quem Jomo suspeita como verdadeiro autor do crime.

   Numa longa jornada noite adentro, realmente é com um olhar de trevas (oriundas da cegueira, da casa sem luz elétrica[6], dos tormentos da alma e das culpas) que ambos constatarão as dores e tristezas do passado, do foi sobre o é, o elo que os liga e separa. E o leitor terá o prazer de um romance de mistério (quem matou?) aliado à densidade da mais alta ficção, aquela que desdobra perspectivas e versões (usando muito o discurso indireto livre, no qual o narrador se cola à visão dos personagens, e parênteses em que eles comentam, retificam, debatem, acrescentam,  enfatizam, exageram, deformam—VER TRECHO SELECIONADO) ao longo de um colóquio entre personagens, a um só tempo equívoco e esclarecedor [7]. É a linhagem de um Absalão, Absalão!, de Faulkner, ou de um Conversa no Catedral, de Vargas Llosa, junto dos quais Os Olhos da Treva certamente não faz feio. Só falta o leitor descobri-lo.

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TRECHO SELECIONADO

«__Lá vem você, Jõberto! Não pode deixar a vida daquele homem em paz? Que importa o passado? Ele está velho, no fim da vida…

__ No fim da vida? Aquele vai passar dos cem. Ainda tem ruindade pra muito tempo.

__ Só você é quem conhece essas ruindades. Nunca ouvi ninguém mais falar mal de Leonardo Velho.

­­__ É minha mentira, então? Olha, Morena, falo mal dele porque eu é que fui o prejudicado. Eu e meu pai, nós. O Velho sempre foi um homem dissimulado, estradeiro.  Suas andanças com Jacinto pelo mato, sua amizade com meu avô… Já estava tudo de caso pensado. Leonardo começou a ficar rico na seca de 77, e só prosperou de tudo depois que meu avô morreu. Na seca de 77 só havia água na Fazenda Pará. Leonardo aproveitou-se disso, explorou os necessitados ao máximo. De cinco reses que bebiam lá, uma ficava como pagamento.

__ Era um direito que lhe assistia. Quem teve a ideia de construir o açude?

__ Não me fale nisso por Nossa Senhora! Construiu o açude com dinheiro do governo, e a nascente da água com a qual encheu o açude não ficava em terras da Pará. Conhecedor como era de toda a região, para isso tinha furado mundo, fingindo que caçava. Leonardo, depois de ter comprado a conivência do tabelião, falsificou a escritura da Pará e a da fazenda vizinha, pertencente ao meu avô. Nessa manobra a nascente do rio ficou situada na Fazenda Pará.

­­__ Tinha alcance.

__ Com essa honestidade toda… Também pouco adiantava que a nascente estivesse na fazenda do meu avô ou na Pará; quando morreu, meu avô deixou suas terras, de mão beijada, para Leonardo I, o Procriador […]

__ Ouvi dizer que eram muito amigos.

__ Eram! Falavam até dos dois. Não sei se meu avô era fresco ou se Leonardo era gilete, não sei. Mas o certo é que Leonardo, não sei como mas ele sabe, pois tinha prática nesses assuntos, falsificou o testamento do meu avô. Quando meu avô morreu, leu-se o testamento e todo mundo ficou de boca aberta: Leonardo I, o Herdador, era herdeiro universal de Jerônimo, o Besta… »

RESENHA

NOTAS

[1] Pela Civilização Brasileira. A edição mais recente foi pela CEPE (2012). Li-o pela primeira vez numa edição do Círculo do Livro (1983).

[2] Há outras figuras femininas marcantes (e com dizeres marcantes) nas ramificações da trama, como Alzira, dona de uma modesta hospedaria: «A gente vive mesmo é esperando o que é da gente. Às vezes nem sabe que está esperando, chega a passar pela vida sem que o que é da gente apareça. E nem sabe, nem nota. Só quando aparece é que sabe…».

[3] Uma estória dentro da estória digna de nota é a tragédia do casal Salvino e Ana. Ele, mesmo são, é mandado para o isolamento devido à obsessão sexual da cunhada, Minerva (já contaminada pela varíola). Parece episódio do Velho Testamento, Minerva  jurando em falso ter deitado com ele.

[4] «Eu, de minha parte, tirava-o por completo. Tirava-o de seu corpo decrépito, de sua marca de homem, de seu passado de macho».

[5] E bem faulkneriano: «Sou um homem preso ao passado, Mila»; numa passagem anterior: «Mesmo agora, se ela calasse, ele não dormiria. Dormir? Nunca mais. Dormir significava apagar tudo da memória, limpar a mente com uma esponja umedecida, recomeçar do começo, do nada. E ele podia?».

Não sei se Gilvan Lemos foi leitor de Nikos Kazantzákis, todavia há também um quê de kazantzakiano na atmosfera do livro, nas especulações de Mila sobre Deus, o Inimigo Secreto, além do campo simbólico envolvido por luz e trevas: «…o mal existe, inegavelmente o mal existe. Foi Deus quem o inventou?»

[6] «Ali, naquela casa tão pequena, em companhia apenas de uma pessoa, e um mundo tão grande       se reabrindo…».

[7] Sem falar da força da linguagem. Veja-se esta descrição de anatomia masculina, tão expressiva: «Suas nádegas se destacavam, bipartidas, altas e claras, como um pássaro que ensaiasse as asas para voar».

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21/07/2015

«Mas não me exijam a lucidez constante, a sabedoria assertiva, a impossibilidade do erro»: a segunda vida de Mário Bortolotto

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de julho de 2015)

«Simples assim. As pessoas vão indo embora.  Eu fico. Eu sempre fico. Acordo com aquela sensação de um fantasma piscando cúmplice sentado no canto do quarto. E por enquanto ainda há outro dia. E outro». A sensação que se tem, ao ler os textos confessionais de Esse tal de amor e outros sentimentos cruéis (editora Reformatório), é a de um mapeamento (ou balanço) dos afetos de um homem que, ao tornar-se um cinquentão “derrotado”, ironicamente ganhou a oportunidade de uma “segunda vida”.

Pois Mário Bortolotto, figura bastante conhecida no meio teatral, foi vítima de um incidente trágico-folclórico (utilizo tal expressão devido à sua ligação com a boemia e ao seu “personagem”: «até me considero um pouquinho especial por conta dessa minha natureza avessa»): em 2009, tomou três tiros ao reagir à agressão de assaltantes, num bar da praça Roosevelt («Em vez dos caras me agredirem, deviam ter me dado logo mais uma dose de Jack. Eu teria capotado na mesa e nada disso teria acontecido»).

Para dizer a verdade, mesmo pertencendo à mesma geração, tudo me distanciaria desse londrinense radicado em São Paulo, já a partir do gosto literário. Nunca tive admiração pelos beatniks, por Jack Kerouac ou por Charles Bukowski, antes o contrário. Tampouco sou fã do som de Tom Waits ou Emmy Rossum, por exemplo. E, não dá para negar, as referências — antigas ou recentes — têm um peso inequívoco num universo como o de Bortolotto[1]. O leitor de Esse tal de amor também nunca consegue se convencer do encanto (para não dizer, integridade e autenticidade) de bebuns over que ficam alugativos, sempre relembrando eventos passados, quando não agressivos e grosseiros. Há toda uma evocação complacente («O que eu percebo é que existe uma solidariedade estranha no meio dos loucos») de tipos assim, inclusive um guardador de carros chamado Flávio: «Ele provocava. Ele importunava. Ele excedia. Ele passava da conta».

A continuação da última citação, «Mas qual é mesmo a medida? Alguém sabe? », sinaliza de certa forma o caminho para que meu leitor entenda o curioso poder que essas crônicas tiveram sobre mim, mesmo com todas as ressalvas: nem sei dizer se são “bem escritas” (um infame “houveram” na pág.141 deve ter escapado à atenção geral), contudo elas sustentam um diapasão de ternura (às vezes resvalando para o sentimentalismo) pelos seres e pela realidade cotidiana— com toda sua feiura, desencanto e prosaísmo («Gosto muito de tomar café da manhã. Eu não acordo pra tomar café da manhã. Eu tomo café da manhã pra ir dormir. É diferente») —, um lirismo crispado e renitente, de tal modo que não dá para ficar indiferente à visão de mundo desse redivivo de tiros, noitadas, bebedeiras rituais e confraternizatórias (apesar da melancolia e da solidão essenciais e inexoráveis[2]), fazendo a apologia da lealdade e da amizade («…o amor é um ônibus lotado e quebrado numa segunda-feira de sol no meio da estrada. Já a amizade é como uma ambulância que simplesmente liga a sirene e os carros abrem caminho pra que ela passe»), mesmo que, olhando para trás, para a sua primeira vida, por assim dizer, a paisagem seja de «destruição, casas arrombadas e árvores caídas na estrada».

Aos 50 anos, considerando um insulto o termo feliz («ninguém é feliz aos 20 anos, mas você ainda pode acreditar—ninguém é feliz aos 50 e não falemos mais sobre isso»), por paradoxal que seja, com os sentimentos cruéis (porque sempre presentes e cheio de arestas) destilados em Esse tal de amor, Mário Bortolotto apresenta aos leitores um dos lançamentos mais  prazerosos de 2015, dando carne e espessura às palavras de outra outsider que amava os avessos e as desmesuras:  «A loucura da recusa, de um dizer tudo bem, estamos aqui e isto nos basta, recusamo-nos a compreender» (Hilda Hilst). Ou então em bom bortolottiano, «É que na verdade eu sou o tipo de cara que nunca pensou em atravessar a rua. E tenho certeza de que vai ser sempre assim. Aos do outro lado, apenas aceno sem muito entusiasmo… ».

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TRECHO SELECIONADO

«Mas pra variar, eu divergi do tema que havia decidido escrever. Eu tava falando de livros e comecei a falar de inclusão (minha cabeça funciona assim). É que eu dizia que não suporto competição. Na Copa do Mundo eu gosto de assistir aos jogos, mas não sou do tipo que fica torcendo […] Porra, agora tô falando de futebol, sacaram? Deixa pra lá, eu queria mesmo falar de livros e sobre a minha dificuldade em eleger o melhor livro da minha vida, por não gostar dessa expressão: “melhor”[….] Talvez tenha a ver com tudo o que escrevi sobre o lance de ser um garoto solitário na infância e de carregar esse sentimento comigo ainda hoje, do processo de inclusão, etc. Uma coisa sempre tem a ver com a outra, por mais que a gente tente evitar. Eu já nem tento mais». 

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NOTAS

[1] Como tudo é relativo, outras referências nos aproximam, e muito, por exemplo:

«Tava conversando com um amigo que me perguntava ironicamente como é que eu consegui ser tão “looser” assim. Expliquei pra ele que aos 16 anos li “O apanhador no campo de centeio” do Salinger e “O lobo da estepe” do Hermann Hesse. Quem lê esses livros nessa idade e se deixa socar por eles, está fadado a ter uma vida errada e sem possibilidade de negociação. Terminei dizendo pra ele que todos os dias agradeço a Deus por ter lido esses livros nessa idade».

   E, sim, também acho que «não há quase nada mais sexy do que a Linda Fiorentino  em qualquer filme que ela tenha feito».

[2] Mas com algumas anedotas impagáveis, como esta aqui:

«___Você não acha que o Pereio está pegando pesado demais? Você que é amigo dele, devia falar com ele. Se você é mesmo amigo dele, então tem que se preocupar pra que ele não morra precocemente.
__Como assim precocemente? Ele tem 78 anos.
__73. Ele tem 73»
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07/07/2015

Manhãs de névoa, névoa de palavras, teatro de sombras: o inventário de ausências de Krishna Monteiro

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«Peço a vocês que deixem de lado, ao menos durante este curto espaço de tempo em que conversamos, qualquer traço de ceticismo. Proponho, em lugar disso, que se lembrem dessas vozes inesperadas que de quando em quando nos chamam pelo nome…» (Krishna Monteiro)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de julho de 2015)

Uma entidade (o Demo?[1]), expulsa por «um mundo povoado por criaturas racionais», é convocada para palmilhar encruzilhadas no coração arcaico do país, junto a um tal doutor Rosa, estabelecendo um pacto, após o qual, tendo junto a si as laudas de Grande Sertão: Veredas (cujo protagonista, como se sabe, procurava decretar cabalmente a inexistência do Tinhoso), dá-se conta de que «já não mais morava em meus aposentos, e sim no interior, nas entrelinhas do texto que ele, o médico, me confiara no topo da montanha. Percebi que, revestido, aninhado, envolto pelo cobertor daquelas páginas, eu habitava o ser, o cerne delas, as palavras».

Eis uma das linhas de força de O Que Não Existe Mais, reunião de sete relatos (entre eles, As Encruzilhadas do Doutor Rosa). Os personagens do paranaense Krishna Monteiro padecem de um quebranto, um encantamento (no sentido mesmo dos contos de fada): a certa altura, o curso da vida estanca, enrodilha-se, e eles são habitados por coágulos do tempo, instantes, seres e vozes obsedantes: «…ainda não poderei terminar este relato, dizendo: Encerrado, ponto final, tu não existes mais. Não… tu e eu estamos  encerrados aqui, nesta história, e o curso destas linhas deve prosseguir»[2], lemos no conto-título, confronto de um filho com a presença fantasmática do  pai morto (o livro até poderia se chamar “inventário de ausências”) na casa ancestral; em Quando Dormires, Cantarei, um galo de briga, em plena rinha, rememora vislumbres de sua existência doméstica; em Monte Castelo, a experiência na Segunda Guerra do avô do narrador—com o qual ele tinha forte ligação—imbrica-se e confunde com uma disputa que cindirá a família; em Alma em corpo atravessada, vem à tona uma infância pontuada pelo ritmo de certas histórias.

Figuras tutelares representam a descoberta enciclopédica do mundo (aliás, um evento literal em Monte Castelo), um alargamento da imaginação e da sensibilidade[3]; em contrapartida, essas mesmas figuras encontram-se no olho do furacão de mudanças abruptas, e metamorfoseiam-se em nêmeses de estagnação, ou “âmbitos cerrados como um sonho” (há um conto narrado pelo gato de uma suicida que tem esse título—extraído de um verso de Borges), manhãs de névoa, névoas de palavras, teatro de sombras, um universo primordial marcado por atavismos, que vão do galo cantando ao amanhecer («puxava para fora dele algo que sempre existira: um querer, uma força ancestral, um estremecimento adormecido») à rinha de mulheres em rixa («A violência que desde sempre engolfou a ambas parecia ser mais poderosa do que seu desejo de tranquilidade e paz. Parecia derivar de correntes profundas, leis imutáveis, arcanos mais fortes do que a vontade»). A existência como narrador, num presente embaciado, cercado pelo silêncio ou pelo alarido, sempre começará numa ruptura da linguagem até então compartilhada: «E foi a partir daí que outro léxico, que uma língua desconhecida se revelou».

Nesse agônico continuum entre viver e narrar[4], esgueira-se uma solução de continuidade: a necessidade de purificação, de limpeza (um exemplo, entre muitos:  «Livrando-me de tudo de impuro que resta em mim»[5]). Talvez por isso, apesar do esmero da sua prosa, muito acima da média (e daí a abundância de citações[6]), Krishna Monteiro em alguns momentos, e nos contos mais fracos (a meu ver, Um âmbito cerrado como um sonho e O Sudário) passa ao leitor a sensação de um virtuosismo um tanto gélido, um texto “bonito” em excesso, para o qual um quê de “impureza” não faria mal.

Ainda assim, com pelo menos três narrativas dignas de nota (As Encruzilhadas do Doutor Rosa, Quando Dormires, Cantarei e Monte Castelo[7]), sem falar na qualidade geral da coletânea, O Que Não Existe Mais representa a estreia de um escritor em quem devemos ficar de olho.

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NOTAS

[1] Embora possamos tomá-la também pelo Leitor—se pensarmos neste último como figura simbólica, igualmente pactária com a narrativa.

[2] «… se eu fosse, hoje, tecer o fio do relato do período que passamos juntos…[…] as histórias  narradas não pela boca, pelo corpo, pelas mãos e pelo rosto dela, mas sim por sua herança e por seus artefatos, tudo o que compunha sua casa… pois objetos narram…a narrativa vedada, inconclusa; o verbo que à mulher faltou, o fluxo que tanto perseguiu…», lemos em Alma em corpo atravessada.

[3] «…E Conceição mostrando, falando e ensinando nomes, descerrando e catalogando o mundo…»

[4] Fiz um “apanhado” de trechos de Monte Castelo que enfatizam esse aspecto:

«…hoje lembro claramente[…] Hoje recordo, hoje sei[…]à medida que preencho com palavras esta folha em branco, fazendo de alguma forma as pazes com aquela velha seca e dura, concluo que ela, por vias tortuosas, estaca certa: pois algumas coisas que seu marido e eu presenciamos tocaram a fímbria do sagrado[…] Entro na casa com meu avô e as encontro na lembrança[…] Sua visão — penso hoje — me lembra talvez a de uma única mulher cindida[…] E hoje, ao relembrar uma das últimas épocas da minha vida em que vi meu avô, sinto-me a escavar meu passado como um arqueólogo que remove camadas e camadas de cinza vulcânica,  e descobre, fascinado, a cada metro que se aprofunda, ruas, palácios, mercados e praças de uma imponente cidade romana; mas que, no interior de suas construções, também tropeça em corpos rígidos, retorcidos, duros como pedra[…] Há limites para a coragem. A minha não é tão grande a ponto de eu reproduzir, aqui, o teor de tudo o que foi dito, quando finalmente se falo[…]Começara. As armas, os instrumentos, os mecanismos de execução daquela guerra foram elas, as palavras.  Até hoje, por vezes, algumas daquele tempo ainda emergem em mim: ocupam espaços que descuido em deixar desabitados[…] nada é muito claro para mim mesmo hoje[…] Um dia destes, velho, escrevi como tu fizeste uma pausa em teu relato neste ponto, tomando fôlego[…] este mesmo nome que escrevo—ou relembro—agora[…] Hoje, à beira de meus quarenta anos, lidando com meus próprios medos[…] E agora, velho, quando tudo terminou, e eu trabalho até tarde, lutando  contra as frases, recordando que naquele dia, após o enterro de minha mãe e à sombra das árvores que velavam as alamedas, eu lhe perguntei detalhes sobre o desfecho do ataque[…] E hoje, quando  transformei a escrita numa fuga, ou num esboço de ofício[…] pois recordar não é lembrar o que, tantas vezes, nunca existiu?[…] Hoje, quando escrevo, e penso, e recrio…»

[5]  Talvez a formulação mais explícita seja o clímax do seguinte trecho, de Alma em corpo atravessada:

«Porém, na cena  que a tudo poria termo, percebemos algo errado: outra fala parecia insinuar-se na fala dela, impedindo-a de concluir a história em que tanto se empenhara, conduzindo-a por outras trilhas, desvios, rumos, fazendo com que aquela dicção tão forte e clara que admirávamos se tornasse quase nula; e, logo depois,  que crescesse em volume e amplitude, a ponto de se assemelhar a gritos; ela falava de outro jeito; era outra a que falava; ela falava, declamava como um leito desviado de seu curso e cuja água se encorpa e revolve e rebela e torna turva, falava alheia a nós, às paredes, às panelas,  às prateleiras e à luz, aos fachos desviados por suas mãos que folheavam o ar à semelhança de quem manuseia um livro, mãos que pareciam tentar tocar a superfície de uma língua estranha que mais uma vez se ouvia; eram claros seus esforços, era nítido seu empenho; e a tal ponto com eles nos comovíamos que junto e aos pés dela nos embrenhamos confins da noite adentro, testemunhando sua insistência, suas negativas em calar-se, até que o cansaço pareceu falar mais alto, e ela despertou como de uma queda brusca e tomou um lápis, escreveu duas ou três linhas, preparou um bule de café, sorvendo-o em longos goles. Exaustos, dormimos sobre a mesa, sem poder vê-la olhar-sorrir para nós.

    Era outra história. Com o tempo nos demos conta. Estava entesourada nos limites daquela linguagem nova. Com esmero, como quem garimpa, a mulher buscava livrá-la de areia e impurezas… Era uma história aos poucos revelada para nós…»

[6] Contribuem para isso as belas formulações, como a das hóstias em As Encruzilhadas do Doutor Rosa, «um a um os discos de trigo deslizam do cálice para a mão, da mão para as mãos, e delas para a saliva e a memória, nas quais se dissolvem», ou a do momento em que o galo de Quando Dormires, Cantarei alça voo pela primeira vez, «Um dia, para sua surpresa, viu-se erguido ao ar: era seu próprio bater de asas».

[7] Gosto menos do conto-título sobretudo porque, apesar do vezo estilístico apurado do uso da segunda pessoa, são raros os casos (como nos textos de Marguerite Duras), tirante a prosa mais clássica, em que ele não me incomode; considero-o cafona, mas trata-se de uma idiossincrasia minha, a qual pouco tem a ver com o estatuto de qualidade retórica (e ela é tal, no conto de Monteiro, que nem desisti da leitura, como normalmente faria—felizmente); com relação ao último, Alma em corpo atravessada, acho que fica evidenciado o problema do relato compenetrado em ser “bonito”, uma faca de dois gumes, que às vezes pode gerar um Raduan Nassar, contudo sói gerar mais comumente as Nélidas Piñons, os Evandros  Affonsos Ferreiras, o Bartolomeu Campos de Queirós de Vermelho Amargo.

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Krishna-Monteiro

24/06/2015

Cem páginas que valem por três imagens

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de junho de 2015)

   Três vezes ao amanhecer, como o título indica, divide-se em três episódios distintos (que poderiam ser momentos da vida de um mesmo indivíduo), todos eles iniciando-se num hotel.

No primeiro, um quarentão está sentado no hall. Chega uma mulher a qual, embora se dizendo hóspede, pede que ele a leve para o seu quarto. A todo instante, o homem reitera que precisa partir, pois tem um compromisso, no entanto fica, como se sua vontade “amolecesse” junto àquela estranha. Amanhece. Saberemos que seu o nome é Malcolm Webster quando a polícia bater à porta para levá-lo; no segundo, um velho porteiro noturno observa a chegada de um casal: deplora que a moça, adolescente de encanto irresistível, embruteça-se e se desperdice com um parceiro violento e barraqueiro. Consegue convencê-la a sair do hotel em sua companhia, após revelar que passou anos na prisão. O amanhecer os surpreende em fuga: «Seria uma trabalheira compreender a história deles, ao vê-los…Talvez um pai e uma filha, mas nem isso».  Acabam separando-se, e quem alcança o porteiro é o parceiro dela; no terceiro, uma policial cinquentona decide ser um pardieiro inaceitável o hotel para onde foi levado um garoto (chamado Malcolm) que perdeu os pais num incêndio criminoso; contrariando ordens superiores, coloca-o num carro e dirige noite afora para deixá-lo, ao amanhecer, junto a um homem que constrói barcos e com quem tem uma longa história de idas e vindas…

Três vezes ao amanhecer já seria notável pela intensidade dramática que todos os episódios alcançam. Que filme ou peça poderiam ser extraídos das situações, no deslocar da impessoalidade que o próprio espaço—os hotéis—sugerem para uma intimidade perturbadora e lancinante! Todavia, para mim o supremo encanto da leitura foi a “janelinha”, por assim dizer, que ela abre com relação ao romance anterior desse talentoso escritor da atualidade que é Alessandro Baricco: Mr. Gwyn (também lançado pela Alfaguara[1]), contra o qual a única queixa era de que ele nos deixa na mão num ponto crucial, o experimento dos “retratos em palavras” de seu protagonista. Eles permanecem mais um conceito do que uma experiência narrativa, apesar de tudo o que o relato tem a nos oferecer em matéria de fabulação e reflexão (e é pródigo em ambos).

Pois Jasper Gwyn, um cultuado escritor, anuncia o encerramento da sua carreira. Dedica-se, então, a um inusitado experimento: observando uma pessoa, como um “quadro vivo”, num cenário totalmente controlado, compromete-se a entregar a ela (e tão somente a ela, sem publicidade) o resultado verbal dessa longa contemplação Era como fazer-lhes uma mesa, ou lavar-lhes o carro. Um ofício. Escreveria o que eram, só isso»). Até que a discrição com que exerce essa arte de “copista” (como a denomina) é comprometida e transformada em escândalo. Ele desaparece. Sua colaboradora e modelo inicial, Rebecca, lê um livro chamado “Três vezes ao amanhecer”, de Akash Narayan, dando-se conta de que ali está reproduzido um dos quadros de Gwyn. Como eles nunca foram divulgados, suspeita que Narayan é o escritor trânsfuga, ainda assombrado pelas palavras.

A princípio, o leitor pode achar que, à moda de um Paul Auster, Baricco se compraz em jogos de espelhos ao escrever o romance que Rebecca leu. No prefácio, o italiano afirma que o fez «um pouco para dar uma leve e distante sequência a Mr. Gwyn e um pouco pelo simples prazer de perseguir certa ideia que eu tinha na cabeça».

Não sei qual ideia ele tinha na cabeça e perseguia. O que ele realizou, de maneira alguma leve e distante, foi justamente criar “quadros escritos”, concretizar, enfim, o projeto de seu peculiar herói. Afirmei que Três vezes ao amanhecer funcionaria no palco ou nas telas. Mas sua leitura é muito mais a experiência de ter quadros (como os de Edward Hopper, por exemplo, que se prestam muito a um olhar narrativo) metamorfoseados em palavras. Cem páginas que valem por três imagens.

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https://armonte.wordpress.com/2015/05/07/os-quadros-escritos-de-alessandro-baricco-mr-gwyn-e-tres-vezes-ao-amanhecer/

Daniel Pereira

NOTAS

[1] Ambos traduzidos por Joana Angélica D´Ávila Melo (o título original de Três vezes ao amanhecer é “Tre volte all´alba, 2012—Mr. Gwyn foi publicado no ano anterior).

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13/04/2015

VOO DE GRANDE ALTURA: A FICÇÃO DE SÉRGIO TAVARES

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«…e nada seria absurdo, pois não há absurdo na ilusão…» (trecho de Sono)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 14 de abril de 2015)

Em Quebranto, conto final de Queda da Própria Altura, o protagonista em estado de narcose num quarto de hospital, à espera de um transplante, mal consegue lembrar de sua própria identidade, até que um novo paciente o reconheça como o mágico Quebranto e resgate sua existência: «durante uma semana, ele foi o narrador de mim. reconstruindo minha memória, meu passado, minha vida… »

Esse esgarçamento do ser, espécie de esbatimento progressivo diante da fragilidade das decisões e escolhas, percorre todo o livro de Sérgio Tavares—não à toa, ele se divide em três partes, ou movimentos: Impulso, Voo, Queda. E pensar que quase desisti da leitura, apesar do título açulador[1] e da capa esplêndida, pois ao folheá-lo me deparei com aquele vezo—para o qual não consegui ainda reconheci a funcionalidade— recente, e já tão velho, de abolir as maiúsculas!

Sofreria uma perda enorme: é uma das melhores obras de ficção publicadas neste século até agora, arquitetada de forma brilhante e muitíssimo bem escrita, sem titubeios ou firulas gráfico-formais (por isso, cai tão mal o recurso do uso exclusivo de minúsculas, a não ser nos nomes próprios): «minha mãe plantou a muda de hera um dia depois de o meu pai desaparecer, um dia depois do aniversário dela. meu pai falou que iria sair para comprar as velas do bolo e nunca mais voltou. lembro de minha mãe me arrastar horas e horas pelas ruas procurando-o, para enfim perceber o que tinha acontecido. na volta, passamos por uma casa cujo muro da frente era todo tomado por uma maranha de hera. pediu que eu esperasse, arrancou uma muda e, logo na manhã seguinte, plantou ao pé do muro da nossa casa. minha mãe disse que a nossa vida, a partir daquele momento iria ser como a hera: um cruzamento de dias presentes e futuros, sem distinção de começo e fim, um eterno renascimento. desde então, passou a se dedicar ao crescimento da planta como um perfeccionista que mantém uma pintura viva[…] minha mãe só deixou de cuidar da hera quando foi diagnosticada com câncer. passei, desse modo, a zelar pelo viço , sob o comando e o patrulhamento dela. a hera era a segunda coisa de que minha mãe mais gostava.
a primeira coisa era o cigarro. minha mãe sempre estava fumando. a princípio, cheguei a acreditar que o vício se agravou depois de o meu pai fugir de casa. agora estou certo de ter sido o contrário: foi o cigarro que fez com que ele nos abandonasse. meu pai sempre se preocupou com a morte. eu diria que de uma maneira um tanto anormal[..]
oito meses após o exame, minha mãe não parou de fumar um minuto sequer. o câncer brotou na parede do pulmão direito, tomando, em dias, todo o sistema respiratório; como a hera, sem distinção de começo e fim..»

O trecho acima, de Hera, comprova a segurança, o ritmo da escrita, e também que estamos num universo em que o realismo pode às vezes nem valer (o narrador do conto assumirá um estado fantasmagórico, atraído pela beleza da vizinha, ser vampírico que se alimenta da juventude daqueles que seduz, reduzindo-os a trapos, literalmente), mas há sempre regras, e severas. E sempre um preço a pagar, ora por cumpri-las, ora por se rebelar contra elas, como vemos no narrador de Ofélia e sua irmã, que dá o título ao relato. O que acaba gerando esses  heróis (só há uma narradora feminina, em Cerimônia, e mesmo assim as regras e contratos, por mais frágeis e patéticos que se mostrem, entre as pessoas, também dão o tom a esse pungente conto) tão autodepreciativos: «me parecia um gigante diante do ser curvado e desprezível que me tornei»;  «o que sou: um sujeito patético, covarde, que tenta racionalizar o desastre»[2].

O que vale para a exploração do fantástico em Hera; para o abismo devorador de identidade em Quebranto; para o fascinante clima alegórico em que transcorrem as tensões afetivas de uma família, em Ofélia[3]; e também para o registro mais realista e nem por isso menos inventivo[4], do ponto-de-vista literário, de Sono, história de um casal que na luta pelo equilíbrio econômico (a tão sonhada e famigerada prosperidade) a “realidade morna”, sina de todos nós, é destruído pela morte do filho no momento do parto.

Apreciei praticamente todos os textos de Queda da Própria Altura (embora o conto de abertura, Evolam-se os Barcos seja o mais fosco entre eles), mas o meu predileto é justamente esse Sono porque Tavares consegue algo muito difícil, e que eu só tinha testemunhado na notável ficção de João Anzanello Carrascoza: ousar investir no lirismo dos laços afetivos elementares em nossa vida (pais, filhos, cônjuges), atravessando a corda bamba sob a qual aguardam, ansiosos, o sentimentalismo e a fraude. Ao fazê-lo, ele nos deu uma obra-prima.

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TRECHO SELECIONADO

«pego algumas bermudas e empilho sobre a cama, acima do par de meias e do tênis já arrumados, a que foi ao cinema é uma das suas preferidas, se bem que eu acho que ele optaria pela branca com os bolsos vermelhos, ele gosta de combinar cores […] contudo, o instinto materno me diz que ele preferiria usar calças, neste caso, não tenho dúvida […]

   a calça da revista foi a primeira roupa que ele pediu que eu comprasse, até então suas vontades eram restritas a brinquedos, livros e cartuchos de vídeo game, ele também gosta de desenhos animados, fica horas em frente à televisão, rindo das estripulias do gato que quer pegar o rato e do coiote que inventa geringonças, coleciona álbuns de figurinhas e histórias em quadrinhos. foi numa dessas revistas que ele viu a calça que trazia decalques em velcro dos personagens da Vila Sésamo. eu estava na cozinha preparando o almoço, quando ele chegou excitado,  pedindo que eu comprasse para ele… » (trecho de Cerimônia)

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E este recado comercial poderia ser uma legenda da cena final de Hera:

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NOTAS

[1] Curiosamente, trata-se de um conceito da medicina: «deslocamento não intencional do corpo a um nível inferior à posição inicial, com incapacidade de correção em tempo hábil, determinado por circunstâncias multifatoriais, comprometendo a estabilidade» (pesquisei no Google).

[2] «… se por uma possibilidade mágica conseguíssemos, seria menos difícil aceitar que cada conquista está atrelada a uma perda e a entrega não é condição de recompensa…»

[3] Texto em que ele consegue o que Andréa Del Fuego almejou e não conseguiu em Os Malaquias. VER https://armonte.wordpress.com/2013/09/08/procurando-o-angulo-do-encontro-com-os-malaquias/

[4] «… não podemos nos meter em zonas fronteiriças e cavar um buraco na história para encontrar uma verdade diferente da realidade que quase nos partiu». Vindo após de uma história onde os homens de cada família têm de cavar buracos , esse trecho ganha uma camada a mais de ironia. Aliás, nada Ícaro (pois não vemos nenhuma queda), mais para Dédalo, Tavares deixa que alguns elementos “reapareçam” de forma inquietante, como um aparador (peça-chave tanto em Ofélia quanto em Hera).

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06/04/2015

FISIOLOGIA DO TALENTO: “Concentração e Outros Contos”, de Ricardo Lísias

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de abril de 2015)

«…senti uma sensação horrível de derrota. É um fracasso que se manifesta no corpo… Com a literatura, já sei que não vou conseguir dizer o que eu quero da maneira que acho a ideal. Então, terei que fazer repetições. Apesar de conseguir, com isso, uma espécie de alívio contínuo para o mal-estar que sinto, por outro lado a certeza da incompletude da escrita também me angustia».

O trecho acima, de Fisiologia da Dor, um dos 15 textos de Concentração e Outros Contos, no qual Ricardo Lísias, prestes a completar 40 anos, reuniu parte da sua produção no gênero desde 2001, espelha o dilema do resenhista que tenta, em sumários traços, delinear para o seu leitor o universo denso e único daquele que é o mais brilhante escritor da sua geração.

Curiosamente ele publicara até agora apenas outra coletânea, Anna O. e Outras Novelas (2007)[1]. Dela, temos quatro textos: o conto-título (onde um psiquiatra é encarregado do laudo sobre as condições mentais do General Pinochet), Capuz, Dos Nervos e Diário de Viagem, todos narrando situações em que mantras reiterativos da linguagem dos protagonistas, a fixação de “metas” e projetos, a criação de padrões, procuram represar a crescente desagregação, quando não o colapso total (inclusive da própria linguagem)[2].

Mais recentemente, Lísias enveredou pelo caminho da “autoficção”, modismo crítico pós-moderno (que ele parodia num conto com esse título—a meu ver, o texto mais discutível de Concentração) para experiências ficcionais que deformam e confundem os dados biográficos, mesmo que o personagem ostente o nome do autor. Nessa linha, Ricardo Lísias/personagem vivencia diferentes formas de dilaceração e tentativas de serenar o tumulto interno,  tanto no divertidíssimo Evo Morales quanto na mais radical de suas aventuras autoficcionais, Tólia (em que se une a uma seita para salvar o planeta), além da extraordinária seção das Fisiologias (da Memória, do Medo, da Dor, da Solidão, da Amizade, da Infância e da Família), registrando o Brasil pós-Abertura através dos laços familiares e afetivos, com um virtuosismo que só encontra paralelo no argentino Alan Pauls (História do Pranto) ou no chileno Alejandro Zambra (Formas de voltar para casa).

«É um fracasso que se manifesta no corpo». As linhas de força que percorrem Concentração podem ser verificadas no conto-título: Damião sente um excruciante mal-estar físico, só aliviado quando faz a barba (causando graves danos ao seu rosto) a todo instante. Como típico herói de seu autor, apega-se a padrões e rotinas que permitam suportar seu estado agônico; assim, viaja a Buenos Aires atrás de um clube de xadrez e de um casal de dançarino de tangos, a partir de três vagas fotografias, vã odisseia («no país inteiro ninguém sabe mais como dançar tango e jogar xadrez»—desse modo, ele constatará a penúria econômica da população portenha) que envolverá os miasmas dos regimes autoritários latino-americanos, a morbidez argentina em torno dos seus ícones políticos (Perón e Evita), numa corda bamba de racionalizações extremas em meio ao caos e à falta de sentido, que, no fundo, dizem respeito a todos nós, aprisionados pelos muros quase sem brechas da ideologia do mercado global.

Um dos pontos altos da coletânea, esse conto de 2008 tem um dos finais mais perfeitos já escritos, contrariando flagrantemente a afirmação seguinte: «Com a literatura, já sei que não vou conseguir dizer o que eu quero da maneira que acho a ideal». Pena que escrevendo a seu respeito, eu me sinta mais próximo desse sentimento de frustração do que dos seus resultados.

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VER NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/04/14/o-livro-dos-mandarins-satira-deliciosa-a-linguagem-da-globalizacao/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/11/destaque-do-blog-duas-vezes-o-ceu-dos-suicidas/

https://armonte.wordpress.com/2013/08/13/a-pele-que-habito-o-problematico-divorcio-de-ricardo-lisias/

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TRECHOS SELECIONADOS

«O avô mora naquela casona perto do museu e quando a gente tropeça, ele logo vai correndo dizer que não foi nada. Não foi nada, nada, apenas que o avô é aquele homem mais velho, careca e engraçado. Ele sabe o que é um astrolábio, consegue fazer um relógio com a sombra e gosta de ir com os netos à praia… E ele corre com a gente: corre em casa, no museu, corre na praia, na rua, corre hoje, corre no ano que vem, na festa da escola, mas cada vez ele corre mais devagar, e depois já não aguenta tanto e quando você vê é o avô que deixou para a sua mãe essa casa.

   Ele é o avô que morre e ensina o que é a morte: é quando o avô morre. »

(Fisiologia da Família)

« Os noventa minutos do jogo entre Brasil e Itália, no estádio espanhol do Sarriá em 1982, foram os únicos em que de fato tive um pai. Precisamos só de um empate, meu filho, mas acho que vai ser 4 a 1. Tentei encostar a mão esquerda naquele braço enorme, mas ele se afastou. Hoje ele não está querendo se deitar: vamos ver o jogo sentados um do lado do outro. Perguntei se Chulapa é o sobrenome do Serginho, que meu pai adorava. Ele não respondeu… Lembro-me da televisão enorme. Como tinha o nome sujo, meu pai não podia comprar nada à prestação. Quem  trouxe foi minha avó. Tem garantia até a próxima Copa, ele me disse quando elogiei a imagem. Meu pai gostava de assistir a todo tipo de programa, menos os telejornais. O comício pelas Diretas Já na Praça da Sé não passou direito, não perdi nada… Minha tia, irmã da minha mãe, quis nos levar para o comício, mas meu avô não achou a ideia boa. Você não viu como seu primo saiu da cadeia? Tudo pode mudar de uma hora para outra. »

(Fisiologia da Infância)

«Naquela época, a gente bebia muito na escola. Então Maria era a líder. Maria bebia muito, então ria muito também. Então. Eu só acompanhava, acho, não posso ter certeza, ela sim tinha muita certeza: então bebe mais um pouco, disse. Então, se sexo oral conta, perdi a virgindade com ela nesse dia então, com ela rindo e tudo rodando.

   Ontem, vi uma foto de Lindbergh Farias no Facebook. Então foi na internet. Ele sorria muito enquanto apertava a mão de Fernando Collor. Nada disso aconteceu. Apenas escritores muito ingênuos acreditam em ficção histórica. E na História, então? Fiquei com muito ódio desse ensaboadinho chamado Lindbergh Farias. »

(Fisiologia da Amizade)

«Sinto-me sozinho (descobri isso quando escrevi meu primeiro livro, sozinho durante um inverno desagradável em Campinas) porque nunca consigo expressar exatamente o que eu quero, e nem da forma que tenho certeza ser a mais adequada.

   Não se trata de humildade. Sou arrogante: algumas vezes, cheguei perto. Mas o cerne do que quero dizer e a forma mais adequada (digo, a ideal para o que eu queria dizer—não estou conseguindo me expressar direito), apenas sei que existem, tenho toda a certeza de que estão ao meu alcance, mas não consigo tocá-los inteiramente. É como se em um determinado momento a comunicação falhasse… Esse isolamento é um sentimento íntimo. Apenas tateio a melhor forma de expressá-lo. Sei que se trata de uma variante muito aguda e intensa de solidão. Só tenho uma possibilidade de me aproximar desse mistério: através da técnica literária. Por causa dela, meu sofrimento é suportável. »

(Fisiologia da Solidão)

« Para mim, as lágrimas e a raiva se complementam. Como sempre tive muita dificuldade para chorar, uso os acessos de ódio para me libertar. Mas não tive a menor chance dessa vez. Levantei agora e, enquanto tomava café, senti uma sensação horrível de derrota. É um fracasso que se manifesta no corpo… Com a literatura, já sei que não vou conseguir dizer o que eu quero da maneira que acho a ideal. Então, terei que fazer repetições. Apesar de conseguir, com isso, uma espécie de alívio contínuo para o mal-estar que sinto, por outro lado a certeza da incompletude da escrita também me angustia. Por isso, achei que as artes plásticas resolveriam o meu problema.

   Ao contrário, agora tenho medo de que arte nenhuma aplaque o sentimento de que não vou conseguir dizer exatamente o que quero na forma que julgo a mais adequada. »

(Fisiologia da Dor)

« Exatamente nesse momento, trêmulo por causa do medo e do frio, caguei nas calças. Não tive tempo nem iniciativa de procurar um banheiro… Dá para ir a pé da avenida Pompeia ao meu apartamento. No caminho, senti um misto de vergonha e pavor. Eu olhava para trás e não conseguia entender se aquelas pessoas estavam me seguindo, rindo porque eu tinha cagado nas calças ou sequer haviam me notado… Eu estava inteiramente sonzinho e, agora escrevendo, lembro que pensei no André enforcado.

   Então, em uma sexta-feira à noite, subindo rapidamente a movimentada avenida Pompeia, morrendo de medo e cheio de merda nas calças, percebi o quanto o André estava se sentindo sozinho quando destruiu o meu apartamento e, uns dias depois, se enforcou… Depois, já perto de casa, senti de novo muita raiva do André: ele me tinha feito descobrir quem eu sou e acho que eu sou exatamente o que o dono (ou o administrador) do cassino clandestino falou, olha aí, você é só um cagão. »

(Fisiologia do Medo)

«… e chorava daquele jeito porque logo o meu amigo André iria se matar, e chorava sem nenhum controle, do jeito que mais me incomoda, sem nenhum controle, porque o André morreu sem conhecer os livros do Roberto Bolaño, não é justo, e eu também sabia que nunca mais iria esquecer: quando a polícia encontrou o corpo do meu amigo André, enforcado lá naquele lugar, havia uma sacola de uma livraria em cima da mesa, com o Noturno do Chile dentro, ele tinha acabado de comprar o Noturno do Chile, então voltou para onde estava morando e se enforcou sem abrir o livro… e eu chorava daquele jeito porque o André nunca mais iria aos meus lançamentos, eu chorava muito, na frente do avião da Japan Airlines, porque as pessoas dizem que eu sou cerebral e eu chorava daquele jeito, como nunca… »

(Fisiologia da Memória)

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NOTAS

[1] Em contrapartida, lançou vários romances, a partir de Cobertor de estrelas(1999): Duas Praças, O Livro dos Mandarins, O Céu do Suicidas; o mais recente dos quais, o polêmico Divórcio.

Convém, notar, entretanto, que vários dos textos de Concentração têm considerável extensão, e dois deles foram publicados separadamente, Capuz e Dos nervos.

[2] «Agora, consigo entender um pouco melhor: meu profundo gosto pela conversa civilizada e inteligente impediu-me de gritar quando vi aquele rapaz sentado no meu sofá. Não sei se já disse, mas posso repetir, que cheguei em casa, vindo da universidade, e encontrei a porta aberta e a luz da sala acesa. Como estava me tratando, o que para dizer a verdade sempre foi um dos sonhos da minha mãe, vivia muito calma naqueles dias e não gritei. Minha intenção era evitar, também, que as pessoas dissessem que eu estava tendo uma crise histérica. Sempre detestei falatórios e costumo ter apenas conversas civilizadas e inteligentes. O hábito de fofocar que minha mãe cultiva com as vizinhas sempre me deixou irritada. Às vezes eu batia a porta e fechava todas as janelas só para não ouvir aqueles murmúrios. Prefiro a conversa civilizada e inteligente. No tempo em que redigia a tese, inclusive, procurava sempre ir a algum café ou bar tranquilo para falar de livros, filmes e música. Claro, e sobre o Padre Vieira. Eu me interessava sobretudo pela questão do gênero: nos mecanismos que diferenciam a fofoca da conversa civilizada e inteligente. Por isso tentava ficar bem quieta para ouvir o que os outros estavam dizendo. Agora compreendo por que ele ficou mudo, deve ter me visto em algum lugar, em algum café civilizado e inteligente, e concluiu que adoro o silêncio», lemos em Dos nervos.

Mais adiante: «Minha mãe sempre me disse, e olha que, que eu precisava. Mas acho que vou ser bem clara com o médico, e dizer que posso perfeitamente criar sozinha o nosso filho. Tenho um bom emprego e, mais, com uma conversa civilizada e inteligente, minha mãe… Por outro lado minha mãe sempre repetia, e olha que ele, que meu pai. Quanto aos meus alunos, o médico… ».

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RICARDO

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