MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

12/12/2017

Zonas de Conflito: “Simpatia pelo Demônio”, de Bernardo Carvalho

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 12 de dezembro de 2017)

Como todos sabem, os ratos (para vergonha da humanidade) são as cobaias por excelência. O protagonista de “SIMPATIA PELO DEMÔNIO” é chamado de Rato. Ele é demitido da agência que presta “serviços humanitários” em zonas de conflitos (na verdade, ele já estava “queimado”). Aceita uma missão absurda e quase suicida, pagar a terroristas o resgate de um refém desconhecido, indo para uma cidade em escombros, onde cada quarteirão é dominado por facções, embora a situação política e as coligações mudem a todo momento. Após um atentado, perguntamos: terá a cobaia caído numa armadilha?

O livro de Bernardo Carvalho muda então drasticamente. Misturando várias instâncias temporais, veremos Rato apaixonado pelo mexicano Chihuahua, que o manipula. Discípulo do grande pensador da violência e da inveja, René Girard, faz do Rato uma cobaia de experimentos afetivos, passionais e sexuais, um verdadeiro bode expiatório.

Mas estamos no universo de um mestre da insubstancialidade e das narrativas tortuosas (e repletas de digressões, como a transformação semântico-social de expressões como “perdeu, perdeu”). Mesmo em terceira pessoa, como acreditar que tudo é verdade?

“E ele chorou ainda mais forte, ouvindo aquele oratório de inspiração cristã, destruído pelo entendimento de que estivesse condenado à inveja e à luxúria, e que inveja e luxuria nada mais eram do que solidariedade e compaixão cósmicas reduzidas a pecado pela miséria do lugar onde agora ele se encontrava. Chorava de vergonha. Não tinha coragem de olhar para os lados. O que ele perdera não fora só o chihuahua, mas uma ideia de mundo e uma ilusão. Sem o chihuahua, agora ele sabia, não havia mais ligação cósmica possível, ele estava condenado a pecar”.

“SIMPATIA PELO DEMÔNIO” é o melhor romance de Bernardo Carvalho desde “Nove Noites”, sua obra prima.

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21/11/2017

UM AUTOR PARA SER DESCOBERTO (SEGUNDA PARTE)

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 21 de novembro de 2017)

“Fica um sabor de ausência – que tantas vezes eu senti na vida – resultado da atitude daquela tartaruguinha sonhadora, que só quer fazer o que não é possível”. Na semana passada, iniciei um comentário sobre “COMO SÃO CATIVANTES OS JARDINS DE BERLIM”, de Decio Zylbersztajn. O trecho citado é de “Não existe mulher como Giulietta”.

Eu o escolhi por representar o grande tema da maioria dos contos: a frustração. É o caso das vidas do microcosmo retratado em “Pletzale” (“A fechadura e a porta são as mesmas desde a minha infância. Só que hoje eu não vou ter tempo para fazer este reparo – pensou Julio, enquanto alcançava a grade de ferro antiga que separa a vila, formada por casas idênticas, da rua cheia de galpões comerciais. Ao sair, dobrou à esquerda, subiu a ladeira, atravessou a primeira esquina movimentada, e seguiu por três quarteirões até o Pletzale. Fez os mesmos movimentos que fazia todos os dias, previsíveis e lentos”), o qual me lembrou o universo de Naguib Mahfouz e Isaac Singer.

Em “Encruzilhada” há um jogo de gato e rato entre um empresário e uma velha senhora. O título é tanto topográfico quanto existencial. Em “O milagre do São Gonçalo”, acompanhamos a eterna expectativa da protagonista, com o curioso nome de Ultima, por um violeiro genérico (“A filha de seu Tião da Dô lançou um olhar para Juca, que continuou a receber os pratos, compartilhando a tarefa de ajeitar a mesa. Ultima sentiu o calor do corpo de Juca, os dois estavam espremidos pela multidão que se apertava no espaço do altar. O rapaz tinha cheiro de florada de café, misturado com suor de cavalo. Tudo muito familiar. Percebendo o sol sumindo no poente, Ultima levou as mãos à nuca para arrumar os cabelos e saiu para banhar-se, se preparar para a dança de São Gonçalo. Não faltava muito tempo par ao término da missa”).

E nesse livro de timing sobra espaço para “Mão pesada”, que seria aterrador se a realidade não o fosse mais. “COMO SÃO CATIVANTES OS JARDINS DE BERLIM” é um dos livros mais importantes da década.

14/11/2017

UM AUTOR PARA SER DESCOBERTO (PRIMEIRA PARTE)

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 14 de novembro de 2017)

“Seu Mazinho se lembrava de tudo. Lembrava-se das histórias vividas e mais ainda das histórias vividas e mais ainda das histórias contadas. Parece que aqueles causos que ouvira dos velhos eram os mais reais. Tinham entrado fundo na sua lembrança. As histórias vividas não tinham as cores nem os sons e cheiros daqueles que seus ouvidos de bacuri ouviram. Com o passar do tempo, Mazinho já não sabia se sabia de ter ouvido ou se sabia de ter vivido. Era tudo igual em sabença”; “De vivo mesmo, só ficaram as histórias ouvidas que circulam pelas suas veias caboclas”.

Os trechos acima são de “Duelo com o Pescador”, onde Decio Zylbersztajn faz uma brilhante analogia entre histórias de pescaria e a chegada da “civilização branca”, destruindo a cultura e economia caboclas, herdadas dos índios e negros.

“Qual a graça de existir um parque vazio? ”, lemos no conto – título de “COMO SÃO CATIVANTES OS JARDINS DE BERLIM” (o qual curiosamente destoa dos outros 10 da coletânea, mas é uma obra-prima), uma intrigante trama sobre duas irmãs ucranianas, uma delas viciada em heroína, que se envolvem com um turista provinciano, que adora parques, e um velho jardineiro. Não deixe ninguém contar o desfecho, que vai mostrar a “graça” de um parque vazio.

Decio Zylbersztajn é bom tanto nos relatos mais curtos, além de ser afeito às frases lapidares. É o caso de “Puro sangue Árabe”, “A chuvarada”, ambos excelentes. E eu fico estupefato de ele não ter mais reconhecimento (continua na próxima semana).

07/11/2017

ENTRE A TERRA E O CÉU

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 07 de novembro de 2017)

Já se disse que a vida é sonho e também que somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos.

O que aproxima um velho jardineiro e um príncipe jovem: borboletas e sonhos. Marcos Bagno, autor de “MURMÚRIO”, diz: “Aproveitei uma antiga lenda sobre um sábio chinês que era uma borboleta e, ao acordar, não sabia mais se era um homem que tinha sonhado ser borboleta ou uma borboleta que estava sonhando ser homem. É a nossa eterna dúvida sobre até onde vai a imaginação e onde começa a realidade”. Na sua versão, o velho jardineiro salva um ovo de borboleta e cuida dele até a transformação final. Depois disso, passa a ter sonhos nos quais sobrevoa as mais diversas paisagens. Mas apegado à terra, percebe que os sonhos não são dele.

Há um príncipe que definha por não conseguir voar, após várias tentativas. É o desejo de ultrapassar os limites da condição humana. O velho jardineiro será a chave da sua salvação.

Bagno segue a tradição número lógica das fábulas. Tudo gira em torno do número 9. E não esquece da essência predatória da natureza: “Instantes depois, a borboletinha voltou a aparecer. O jardineiro novamente estendeu as mãos espalmadas para receber na pele a sensação quase ínfima do peso de sua visitante. A borboleta alçou voo, mas antes que pudesse atravessar a distância mínima que a separava daquelas mãos gentis, um passamos vermelho caiu sobre ela com a velocidade de um medo inesperado, vindo do alto da macieira, onde tinha se ocultado dos olhos do jardineiro e da borboleta. Com um único movimento do bico, apanhou o pequeno inseto em pleno ar e engoliu sem deixar nenhum vestígio.
Depois, bateu as asas e desapareceu por trás do casebre”.

Mas há o murmúrio que sustenta esse belo texto: “Saborear a leveza da pétala, dedilhar as folhas, dispersar o pólen oculto no âmago das coisas, semear a delicadeza no coração das horas, salpicar estrelas no ar mais claro do dia, traduzir a voz da brisa frágil, colorir o olhar sincero, recitar a canção sem palavras da vida eterna, recordar a cada espírito a inutilidade do afã – são as tarefas azuis da nossa existência breve. Que ocupação melancólica é esta, irmão, que nos tem impedido de iniciar nosso trabalho? ”.

24/10/2017

AUTOR ENCANTA MAS DORME NO PONTO

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 24 de outubro de 2017)

Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, MODOS INACABADOS DE MORRER, de André Timm, narra a história de seu protagonista, Santiago, em duas fases, aos 13 e aos 33 anos.

Aos 13, ele ingressa no conturbado e muitas vezes cruel mundo da adolescência com uma desvantagem radical: sofre de narcolepsia, a qual o faz dormir a toda hora e em qualquer lugar, geralmente com alucinações. Quase morre afogado, flerta com o suicídio com um revólver, é abusado sexualmente e acaba provocando uma tragédia. Sua constelação afetiva se divide entre Agnes, que o ama, e Valerie, a quem ama: “De cima, você avista dois pontos que antes não havia percebido. Se dirige ao primeiro deles. É Agnes. Ela o abraça, diz que precisa ir, que não tem o direito de estar ali, pois aquele é um mundo só seu, e some. Você corre para o outro ponto. É Valerie. Ela segura suas mãos, o olha por um tempo e diz que precisa partir, que não há lugar para ela no lugar aonde você está indo. Então, você diz que não está indo a lugar algum, e ela rebate afirmando que você já está indo para lá, apenas ainda não percebeu. Então, Valerie também desaparece. Você olha ao redor, de cima: está completamente sozinho. Abre os braços, fecha os olhos e se joga de costas. Sente que a textura que deveria ser macia e fresca, é seca e rígida. Você olha ao redor e percebe estar deitado no chão de seu quarto”.

Aos 33, Santiago vive recluso, sob os cuidados de Agnes, usando um capacete para eventuais quedas narcolépticas. Então Valerie reaparece com revelações.

André Timm acertou em cheio ao utilizar como foco narrativo a segunda pessoa, “você”, perfeita para um personagem dissociado de si mesmo, além de funcionar como um tempero saboroso até para os leitores mais calejados. Enfim, é um livro com encanto próprio.

Em contrapartida, enfraquece muito MODOS INACABADOS DE MORRER a falta de um lastro contingente mais definido (não é uma alegoria) que, para mim, é o que me faz interessar pelos personagens. Timm parece ter decalcado sua cidadezinha e seus tipos (o herói disfuncional, a amiga dedicada, o garoto esperto, o valentão) da ficção, do cinema e dos seriados norte-americanos. Nesse sentido, ele dormiu no ponto.

03/10/2017

O Chamado do Pai: “Rosa”, de Odilon Moraes

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 03 de outubro de 2017)

Nos cinquenta anos de sua morte, um dos textos mais fascinantes de Guimarães Rosa, “A Terceira Margem do Rio”, ganha uma versão ilustrada, recontando a história do pai que abandona a família, mas permanece em sua vida, morando numa implausível margem do rio.

Na sua dedicatória, ao pai e ao filho, Odilon Moraes deixa claro o que está em jogo: o mistério da paternidade, ao mesmo tempo presença e a ausência. Na sua versão a insolitude é afiada com a escolha de um nome feminino para o filho: “Logo que o filho nasceu, o homem endoidou. ‘Vai se chamar Rosa’, disse. ‘Rosa, só Rosa, mais nada. Rosa, igual nome de flor’”.

O relato é parco de palavras, explorando a força das ilustrações que ficam a cada página mais despojadas.

“Um dia, na madrugada, pegou a canoa e partiu. Rio abaixo, rio afora, rio adentro fez morada. Nem de um lado, nem de outro. De meio a meio, no rio. Do pai nada mais se soube. E o filho a quem dera o nome cresceu, encorpou, virou homem. Certo é que nem um dia deixara de acreditar no pai que ainda estaria chamando de algum lugar”.

O pai sempre chama de algum lugar, seja no estilo enigmático de Guimarães Rosa, seja num extrato muito pessoal desse estilo.

19/09/2017

A Galhofa e a Melancolia: Sobre o Humor de Manoel Herzog

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 19 de setembro de 2017)

“Uma composteira é geralmente feita de duas caixas superpostas, na de cima descartando-se toda a produção de lixo orgânico de uma residência, à qual se agrega terra ou serragem de forma a permitir uma decomposição inodora. A formação de fases se esvai, por não compensar a compressão e armazenamento em escala doméstica, e o líquido (chorume) precipita-se à caixa de baixo, de onde pode ser descartado a cada tanto, abrindo-se uma válvula de purga”. Este trecho aparentemente inofensivo e ecologicamente correto esconde uma trama de traição, assassinato, obsessão, chantagem, e muita crueldade em A JACA DO CEMITÉRIO É MAIS DOCE.

Costuma-se afirmar que o humor de Manoel Herzog é escrachado. Não sei se concordo com isso. Penso que ele segue a linha de Machado de Assis, do sarcasmo (não por acaso o nome do protagonista é Santiago), compondo uma crônica de costumes, tendo como cenário a Baixada Santista (especialmente Cubatão). O amor de Santiago por Natércia envolve o proletariado cubatense, o universo das gafieiras, a proximidade com o mundo marginal, num estilo muito divertido, para o leitor que curte o bizarro e o extravagante, porém no fundo sombrio e desiludido.

A JACA DO CEMITÉRIO É MAIS DOCE se alinha na vertente dos relatos de ciumentos que atravessa a nossa ficção desde “Dom Casmurro”, uma vertente que mescla sofrimento e desfaçatez. Jorge Luis Borges dizia que Henry James era um resignado habitante do inferno. É o caso aqui.

05/09/2017

A EMOÇÃO LÚCIDA DE “O SENTIDO INDIZÍVEL DO AMOR”

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 05 de setembro de 2017)

Emoção. Esse é o ar que o leitor aspira durante toda a leitura de “O SENTIDODO INDIZÍVEL DO AMOR”, onde Rosângela Vieira Rocha narra a morte do marido, José, depois de trinta e cinco anos de casados.

Como não se emocionar com os vinte e três dias de horror e impotência na UTI, com José definhando, vítima de espondilite anquilosante, doença degenerativa?

Como não se emocionar com status social forçado de viúva, a qual mesmo assim se aventura a investigar a única “zona de sombras” de seu casamento: o passado de José como prisioneiro político da ditadura militar e as indizíveis torturas a que foi submetido. Rosângela chega a viajar para Lisboa para saber mais sobre a militância de José numa visita a um ilustre companheiro de prisão e martírio. “Eu o queria de qualquer maneira, desejava um resquício de sua presença, uma mínima prova de sua existência, nem que fosse ver algum médico da equipe que cuidara dele. Tinha necessidade de saber como acontecera. Como era possível que alguém antes vivo e essencial na minha vida desparecido assim?”.

A emoção de O SENTIDO INDIZÍVEL DO AMOR, que nunca resvala para a pieguice, é lúcida. Usando seu talento de contadora de histórias, a autora embaralha o tempo cronológico, proporcionando uma visão total de seu casamento e de sua viuvez. E deixa uma advertência para nossas perigosas perspectivas atuais: “Seria importante que José tivesse contado às sobrinhas pelo menos parte de sua experiência. Legados espirituais são relevantes, sobretudo quando possuem conteúdo histórico”.

 

08/08/2017

O Dia do Pai

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 08 de agosto de 2017)

“Mas, pensei eu, onde estão as pessoas? Como resposta, avistei, repentinamente, como que surgida de lugar nenhum, uma mulher de certa idade, à frente da casinha.
Como todas as mulheres (até aí, às 3 da tarde, havíamos encontrado apenas duas em nosso caminho!), esta era magra e tostada pelo sol, mas, evidentemente, não tinha a pose e o viço das ‘garotas de Ipanema’; ao contrário, a compleição franzina e ressequida da mulher parecia decorrer de uma força inexorável e imaterial, não explicada por qualquer ciência – até porque a ‘ciência’, na busca de clientela mais rica, costuma se aboletar no conforto das grandes cidades e pouco se interessa pelas vidas largadas a esmo no coração da floresta”.

Em CHORO POR TI, BELTERRA!, de Nicodemos Sena, narra-se um dia em que o autor acompanha o pai até a região de Belterra, onde este vivera os anos mais felizes da sua mocidade, uma época na qual os norte-americanos exploraram a extração das seringueiras, trazendo uma efêmera prosperidade a esse rincão do Pará.

Sessenta anos depois encontram um lugar arrasado, onde os poucos seres viventes parecem fantasmas e as estradas não levam a lugar nenhum, típico descaso das autoridades brasileiras.

Gostei de CHORO POR TI, BELTERRA!, mas o autor irrita com explicações didáticas completamente dispensáveis. Em compensação poucas vezes vi materializada a ternura entre pai e filho, sem pieguice embora um tanto repetitiva: “ ‘Onde essa estrada vai dar? Será que em algum ponto se encontra a Estrada Um, onde tudo começa? Sei que Belterra está lá, mas onde? Será mesmo que ainda existe? ’, falou baixinho meu pai, talvez para que eu não lhe ouvisse; talvez temendo seguir em frente e descobrir que a sua Belterra existia já apenas em sua mente. Ou talvez a encontrasse tal qual era, perdida e solitária, habitada por uma gente inconsciente de seu destino, disposta a servir e ao mesmo tempo sabotar a quem se impusesse como senhor de suas vidas”.

Mais adiante: “Eu procurava acompanhar todos os movimentos do meu pai, que ia daqui para lá e de lá para cá, como um menino que de repente se vê andando no mítico espaço de um sonho. Ao deixarmos o nosso hotel, pela manhã, em Santarém, falei para mim mesmo que naquele dia dedicar-me-ia inteiramente ao meu pai. De uns tempos para cá, esforço-me em conhece-lo, compensar o ‘tempo perdido’, pois, quando eu tinha oito meses de idade, a minha avó Guida, mãe de papai, adotou-me como seu ‘xerimbabo’ (bichinho de estimação) e nunca mais deixou que meus pais me levassem de volta para casa, de sorte que um vazio de afeto se instalou no meu coração de menino, e esse vazio só aumentou com o passar do tempo, e é por isso que meu pai, nessa decisiva altura da vida, tornou-se muito importante para mim”.

 

01/08/2017

Suelen Carvalho e os vultos do passado

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 01 de agosto de 2017)

Só existe o presente, afirma a madre superiora de um convento de carmelitas à protagonista de O PASSADO É LUGAR ESTRANGEIRO, o passado não existe mais. Mas é a presença maciça do passado que aflige Diana, desde o suicídio do marido, de quem descobriu um horrível segredo.

No seu romance de estreia, Suelen Carvalho correu o risco de cair na imitação de Clarice Lispector. Há vestígios disso. Felizmente, ela escapou da armadilha, escrevendo um relato ambientado em Belém do Pará, assim como Débora Ferraz em “Enquanto Deus não está olhando” com João Pessoa, vigorosamente moderno, urbano sem nenhum folclorismo.

O PASSADO É LUGAR ESTRANGEIRO se divide entre uma narrativa em terceira pessoa e um soliloquio que não respeita as margens da página. Acompanhamos a desagregação e isolamento de Diana, que passa a não suportar cores e lembranças, as quais se personificam em vultos. Por isso a compulsão de uma vida monástica que a aparte do passado, o qual ela sente fisicamente: “Ela calçava sandálias, que ficaram completamente sujas. O barro molhado em seus pés lhe causou asco, o que gerou uma grande pressa de voltar para casa e tomar um banho. Lama é uma coisa muito real para ser tocada”.

Suelen Carvalho é uma autora muito inteligente: ela alterna a encomenda de um hábito de freira com a recordação do vestido de noiva de Diana. E sua voz agônica vem se juntar à poderosa ficção feminina atual. A voz feminina está tão presente que se apropria da voz de autores masculinos. A heroína de O PASSADO É LUGAR ESTRANGEIRO podia ser irmã das personagens de Roberto Menezes, as de “Julho é um bom mês para morrer” e “Palavras que devoram lágrimas”.

 

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