MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/03/2017

UM COMENTÁRIO CURTO SOBRE UM LIVRO IMENSO: “TODO NAUFRÁGIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEDAGA”

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 14 de março de 2017)

Na semana passada, comentei o livro de o Naufrágio Entre Amigos, de Eduardo Sabino. Agora, a vez da coletânea de contos, TODO NAUFRÁFIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEGADA (Moinhos), de Marco Severo. Parece que a imagem mais pertinente da nossa civilização em colapso é estarmos naufragando, esse parece ser o Zeitgeist (o espírito de um determinado período histórico).

Mesmo para um leitor experiente, como é o meu caso, foi um assombro a leitura das primeiras páginas de Meio Amargo (não menos prezando o primeiro conto, Selvagem, do qual falarei mais adiante). Senti-me como um jurado do “The Voice”, girando a cadeira logo nas primeiras notas, descobrindo um autor para meu time de leituras prediletas.

Meio Amargo e Plantação abundante em terreno frágil, duas obras-primas, representam a maneira tortuosa e intrincada das narrativas de Marco Severo que lembra a força do primeiro Rubem Fonseca (o A Coleira do Cão) e as histórias da canadense Alice Munro, com os quais compartilha o vezo de transformar um texto curto num mundo em que você fica mergulhado, como se fosse uma série de romance encapsulados, e Plantação abundante em terreno frágil, lembra, com louvor o Nabokov de Fogo Pálido.

Os contos mais breves como o já citado Selvagem também são contundentes: trata-se da história de uma mulher que odeia tanto os elogios que a amiga faz do próprio filho que toma uma medida monstruosa.

Outra obra-prima, Na casa do cordeiro, o lobo anfitrião, lemos: “E se eu for pego? Se eu for, já era, me mato. Não se espante, porque eu sou você também. Você sou eu reprimido. Eu ganho a confiança pra montar minha armadilha. Eu faço os outros enxergarem o que eles gostariam de ver no mundo, naqueles poucos segundos entre o entrar no meu carro e o ficar do lado de fora. É um dom. O que nos difere é que eu desenvolvi, você não. Não pense que você é melhor do eu porque nunca matou ninguém. Você também é um predado. Nunca se esqueça, meu caro, que o cordeiro é também o caçador”. E em Plantação abundante em terreno frágil, vemos nitidamente o auto engano que justifica o comportamento dos protagonistas de Marco Severo: “Pouco me importa o que você vai pensar de mim. É a minha versão da verdade. E é com essa verdade que eu vou morrer, ainda que ninguém acredite”.

Os 20 contos de TODO NAUFRÁGIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEGADA, que compõem um dos livros fundamentais da nossa época.

07/03/2017

DOS LIVROS HÍBRIDOS E DAS GERAÇÕES EM TRANSIÇÃO: Naufrágio Entre Amigos, Eduardo Sabino

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 7 de março de 2017)

Como é bom constatar que os jovens escritores recuperaram o prazer da narrativa (não menosprezando a prosa experimental, também um rico filão). Sejam autores que captam a insubstancialidade da pós-modernidade, sejam autores mais comprometidos com o mundo concreto, todos poderiam ter como música de fundo os versos cantados por Maria Bethânia: “Ou feia ou bonita/Ninguém acredita na vida real”. Por isso, no frigir dos ovos, a ficção sempre triunfa.

É o caso do ótimo NAUFRÁGIO ENTRE AMIGOS (Patuá), de Eduardo Sabino. Ele resgata o romance de geração (na verdade, trata-se de um livro de contos, porém, eu o considero uma obra híbrida, uma espécie de romance-móbile), aquela que sofreu a transição (para a qual os games contribuíram de forma decisiva) até a supremacia do mundo virtual e digital.

Na primeira parte do livro, Sabino narra uma infância ainda à antiga, onde o universo da meninada ainda era o mundo fechado em si mesmo (no caso, a cidade mineira de Nova Lima), apesar dos vislumbres dos conflitos entre os adultos e do “pensamento mágico”, envolvendo assombrações e aparições sobrenaturais, muito comuns no imaginário provinciano.

No meio do livro, já longe da terra natal, Eduardo, o narrador, se perde nos equívocos relacionamentos através da internet, apaixonando-se por uma poetisa, a qual não passa de um avatar de um professor maluco, criador de vários perfis “fakes” assistimos o final da infância e o naufrágio do mundo adulto.

A partir daí NAUFRÁGIO ENTRE AMIGOS torna-se um arquipélago (um tanto irregular, a meu ver) a segunda fase da sua adolescência em Nova Lima, através das histórias de seus amigos (os quais naufragaram na rotina e no comodismo; a própria cidade naufraga com a aparição de misteriosos buracos); em contrapartida, a descoberta do mundo além da escola e da família, marcando bem o repertório de signos que representaram a mudança radical entre duas gerações. Sutilmente, ele também registra o autoritarismo remanescente da ditadura militar como vemos na cruel caracterização dos professores: “Talvez seja melhor escrever uma enciclopédia dos educadores ruins. Organizá-los por filos, famílias, nomenclaturas. Mas estre cheiro de giz, esta falação no corredor, as paredes de tijolinhos ao redor, tudo isto vai me dando receio de ficar aqui pra sempre. Melhor ir logo ao diabo”. Como não naufragar com uma formação dessas?

14/02/2017

A LITERATURA LÍQUIDA DE VLADEMIR LAZO

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de fevereiro de 2017)

“Em repouso os próprios pensamentos. Indagava como encontrar minha amiga, entretanto, preferindo não tecer mais considerações, deixando apenas para quando chegar ao balneário colocar em prática o imprescindível para revê-la… Mas é a paisagem, imperecível, transformada ou não pelo homem, a única que permanece, não sai do lugar (ou será a gente que ocupa esse desígnio?), se atribui dona de um espaço no qual transitamos de passagem, igual turistas cruzando céleres ou passivos essa faixa de terra que pode ser a rua em que moramos ou o mundo inteiro”.

O trecho acima aparece no notável capítulo 8 de GOTAS NO ASFALTO (Penalux) (que comentei na semana passada, sob outra perspectiva), o qual é um representante da “literatura líquida” (para utilizar a metáfora de Bauman sobre a nossa época): no nosso tempo, as relações virtuais preponderam sobre o contato físico, as experiências são aleatórias e desconexas.

Nesse capítulo, o narrador se propõe a sair do quarto do hotel para viver um dia “ensolarado”, esperando o encontro com Alice, com quem mantivera uma intensa ligação pelas redes sociais, mas ao fazer questão de conhecê-la, passou dias e noites frustrantes. Ao esperá-la no capítulo 8 na verdade é uma finalidade ilusória. Ele se perde na multidão que frequenta a praia e seus arredores, andando durante horas, numa espécie de “plenitude do vazio”, tendo em mente pequenos irrisórios objetivos, como comprar objetos e utensílios que nunca chagará a adquiri (e mesmo que o fizesse, nunca faria proveito deles).

Temos o epítome da literatura líquida: o mundo (com sua paisagem natural e sua paisagem humana) está à nossa frente, mas revela-se insubstancial, uma sucessão de horas a serem preenchidas. Vejam como ele relata a chegada de Alice: “Alice reparou que a observo, toda vez que se vira enquanto prosseguia recuando ou avançando mar a dentro, e hoje eu sei que no fundo meu encantamento era tanto uma contemplação carnal quanto um raro momento em que desfrutava daquela paz terrena que compartilhava com ela”. Enfim, uma errância (só ou acompanhado) desprovida de sentido.

O curioso é que no Alto Modernismo, autores como Samuel Becaett, chegaram a destruir todos os alicerces narrativos, desde o enredo até a identidade dos personagens, de maneira radical, tornando a leitura árdua e árida para o leitor comum. Bem ao contrário dessa radicalidade, os autores da literatura líquida, voltaram a exercitar a narrativa de feitio tradicional, de fácil leitura (não confundir com leitura fácil). Portanto, Vlademir Lazo nos conta um relato. Só não sabemos para que. O que não deixa dúvida é o sólido talento do autor gaúcho.

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07/02/2017

UM OLHAR SUSPEITOSO SOBRE O MUNDO: Gotas no Asfalto de Vlademir Lazo

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 07 de fevereiro de 2017)

A Alice de Lewis Carroll, aquela que visitou o país das maravilhas e atravessou o espelho, adquirindo tamanhos diversos que muitas vezes não cabiam com o ambiente ao seu redor, e questionando as regras arbitrárias e/ou ilógicas do mundo adulto, tornou-se um arquétipo e várias narrativas contemporâneas.

É o caso do romance de estreia de Vlademir Lazo, GOTAS NO ASFALTO (Penalux). Começamos a acompanhar a história do “casal” Júlio e Alice perambulando pelos dois lados da fronteira entre o Brasil e o Uruguai, com o objetivo de comprar remédios que funcionam como drogas, sem receita médica (sai como personagem de Bukowski, um autor que todos adoram, menos eu). Júlio, o narrador, passa a contar intensa pré-história desse “encontro”, durante anos nas redes sociais, quando Júlio alimenta a ideia fixa de conhecer pessoalmente Alice, a qual flerta com ele, faz sexo virtual, foge, desaparecendo dos seus contatos, até finalmente ceder, marcando um encontro na fronteira com o Uruguai.

Mesmo dividindo o mesmo quarto de hotel, a intimidade das relações virtuais nunca é alcançada. Alice arrasta Júlio em noitadas frustrantes e sempre em lugares límbicos, impessoais: rodoviárias, hotéis, bares, praças, numa perambulação errática, onde as confidências são rançosas. É como se “O Lado Bom da Vida”, livro e filme, fosse contado por um João Gilberto Noll ou um Juan Calos Onetti.

“Ando de um lado ao outro da minúscula estação, a mochila nas costas e a tiracolo a bolsa, com minhas roupas, que me servia de bagagem. Ignorei as fileiras de cadeiras velhas de plástico. Comprara roupas novas para me proporcionar um aspecto apresentável. Você compra dez peças diferentes de roupa, mas sente vontade de continuar usando as mesmas velhas de sempre. Uma segunda pele que, ao invés de cobrir, mantém desnudo como a não ocultar quem somos, sem trajes ou fantasias”.

Disfuncionalidade (com relação às regras da sociedade), autoimagem dilacerada (quando não se cabe no mundo), um olhar suspeitoso sobre tudo e todos, eis os ingredientes amargos, mas transformados por Vlademir Lazo num poderoso e denso romance.

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17/01/2017

ZYGMUNT BAUMAN E A “EMANCIPAÇÃO” INDIVIDUAL

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(Uma versão da resenha abaixo, foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de janeiro de 2017)

E foi-se, na semana passada, o polonês Zygmunt Bauman (1925 – 2017). Apesar de se repetir em sua prolifica (alguns dirão, excessiva) obra, subestimado por muitos, eu o considero um pensador fundamental, principalmente por sua “Magnum opus” MODERNIDADE LÍQUIDA (ZAHAR) (2000), transcendendo em muito sua área de especialização, a sociologia, chegou à confusão do fracasso de organizar o mundo simetricamente ao conhecimento. Isso acontecia porque na modernidade a ética estava “no inverno”. Devido à sua preocupação com a eficácia, a administração da vida, a modernidade deixou recuar cada vez mais a consciência moral.

O momento em que foi publicado (na virada do milênio) também não podia ser mais oportuno. No prefácio ele afirma que “fluidez” e “liquidez” são as metáforas apropriadas para captar a natureza da presente fase da modernidade. Estamos na fase do depois do “tudo que é sólido se desmancha no ar”. A partir dessa constatação, ele analisa cinco grandes categorias afetadas por essa “liquidez”: emancipação, individualidade, tempo-espaço, trabalho comunidade.

Queremos a liberdade de fato? As pessoas podem estar satisfeitas com o que lhes cabe, mesmo que o que lhes cabe esteja longe de ser “objetivamente” satisfatório e o fracasso do socialismo não ajuda muito a aspirar um “objetivamente” satisfatório que seja alternativa válida para a sociedade de consumo. Fato: As pessoas gostam de padrões e rotinas. Eles nos poupam da agonia, do vácuo da escolha, no sentido mais radical da palavra: graças à monotonia e à regularidade de modos de conduta recomendados, para os quais fomos treinadas, sabemos como proceder na maior parte do tempo e raramente somos encontrados em (e por) situações sem sinalização. A ausência, ou a mera falta de clareza, das normas, é o pior que pode acontecer às pessoas em sua luta para dar conta dos afazeres da vida. Não seria esse o fardo, o fundo de angústia da nossa atual condição, “líquida”?

A vida líquida ainda não atingiu os extremos que a fariam sem sentido, mas a corrosão das crenças, instituições e valores já causou muito dano, e todas as futuras ferramentas da certeza, inclusive as novíssimas rotinas (que provavelmente não durarão o suficiente para se tornarem hábitos) não poderão ser mais que muletas.

Tudo agora é encontrado “dentro do indivíduo”, já que não há instituições críveis ou instâncias seguras. A liberdade concebível e possível de alcançar já foi alcançada: é o indivíduo que segue seu próprio norte (dentro do raio de ação do capitalismo global e da sociedade de consumo, bem entendido). Homens e mulheres dos países desenvolvidos são inteira e verdadeiramente livres, e assim, a agenda da libertação está praticamente esgotada. As instituições sociais estão mais que dispostas a deixar à iniciativa individual, o cuidado com as definições e identidades, e os princípios universais contra os quais se rebelar estão em falta. Aliás, vivemos um tipo de sociedade que não mais reconhece qualquer alternativa para si mesma.

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10/01/2017

OS “TIOZÕES” DE LUIZ ROBERTO GUEDES

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em 10 de janeiro de 2017 em A TRIBUNA de Santos)

Luiz Roberto Guedes (que acostuma utilizar o pseudônimo de Paulo Flexa, pois é um artista multimídia) reuniu em MISS TATTO – UMA QUASE NOVELA (Jovens escribas), quinze textos, nos quais faz uma “poética do tiozão”, uma taxonomia que abrange desde tipos “descolados” (que circulam pela noite e modismo) até tipos introspectivos, todos eles voltados nostalgicamente para os anos 1980; inclusive muitos trechos de canções da época são citados.

“Ele soltou um suspiro, inconformado. Toda sua vida tinha sido pressionado por mulheres fortes, imperiosas, autoritárias. A mãe, as professoras, as diretoras de escola, a xerife Latorre. Será que Luísa teria se tornado assim tão rígida, se tivesse vivido o bastante?
O acordo tácito permanecia em vigência. Késia continuou frequentando sua cama e voltando para seu próprio quarto, logo que ele dormia. O marmanjo retardado não tinha batido mais em sua porta, sua mãe estava se recuperando bem, e ele desfrutava de um sossego entorpecente, mas que sabia temporário”. Essa passagem (de “Késia com K”, um dos meus favoritos do livro) faz parte da história de um professor sessentão que oferece carona e moradia para uma ninfeta, enfrentando a família, a empregada e a sindica; sua carência infelizmente não tem reciprocidade: a garota foge com um skatista (noutro registro, temos uma situação similar em “Primeiro esboço de Heloísa”, um conto simplesmente brilhante).

Não falta sequer um Mr. Kurtz chanchadesco e reichiano, em “Cibele, si belle”.

No conto-título, o narrador é chamado pelo pai milionário de uma patricinha, a qual deseja tornar-se uma nova Xuxa ou Angélica. O produtor musical veterano e a menina se envolve, mas surgem em cena Miss tatto, seduzindo o produtor, que depois terá uma surpresa com relação a suas estrelas.

É incrível a leveza da prosa de Luiz Roberto Guedes. Ele escreve como um autor policial norte-americano. Entretanto, é uma falsa leveza, ainda que o leitor ache tudo fluente, jocoso e mordaz. Deve-se prestar atenção ao uso variado do foco narrativo: além da primeira e terceira pessoa, há contos que usam a segunda: caso “A garota do Café Barão”: “Garota esperta. Trata por doutor a todo engravatado que circula neste quadrilátero do fórum. Caminhando para o escritório, você aprecia as mulheres da manhã ensolarada. Ó Deus, lá vem uma negra alta, atlética, numa calça-bailarina justíssima, azul-elétrico: o púbis glorioso ressalta das coxas exuberantes. Nigra et formosa. Rainha de Sabá coroada de trancinhas. Você volta rapidamente a cabeça para admirar a bunda suntuosa”.

É amargura no fundo do riso, é o ácido no suco da laranjeira.

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05/01/2017

Destaques Literários de 2016

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de janeiro de 2017)

Como sempre, alerto, não dá para ler tudo e gostar de tudo. Na minha opinião, esses foram os melhores de 2016. A ordem, após o livro do ano, não é de hierarquia, e sim por sobrenomes dos autores, e peço desculpas pelos comentários genéricos:

Livro do Ano: A DEFINIÇÃO DO AMOR, Jorge Reis-Sá (Tordsilhas): surpreendente romance português, no qual um fato real que parece ficção (uma mulher mantida viva por aparelhos por causa da gravidez) ganha uma dimensão literária, sem resvalar para o dramalhão ou para sensacionalismo. É um exemplo maravilhoso de “romance com temática”, que muitos desdenham, mas eu, da minha parte, adoro, como é o caso dos romances de Lional Shriver, e de REBENTAR, de Rafael Gallo.

Também se destacaram:

AS HORAS, Alex Andrade, Penalux: Personagem tentando enfrentar a solidão e o abandono, numa coletânea de contos que mostra a evolução do autor carioca;

LITURGIA DO FIM, Marilia Arnaud, Tordsilhas: Um confronto com o passado resulta num dos romances mais lindos dos últimos tempos, em linguagem e densidade;

PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO, Maria Carolina de Bonis, Patuá: A poesia atual em pleno vigor, como, de resto todos os gêneros;

O INSTANTE-QUASE, Juliana Diniz, 7Letras: O melhor livro de contos de 2016, simplesmente brilhante;

ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS, Iacyr Anderson Freitas, Escrituras: O leitor ri e chora com as mazelas do corpo em relação ao “espírito”;

ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA, Cristina Judar, Reformatório: Uma Alice pós-moderna nos levando para uma assustadora hiper-realidade;

O TRIBUNAL DA QUINTA-FEIRA, Michel Laub, Companhia das Letras: Excelente romance onde um dos melhores autores brasileiros da atualidade mostra o impacto de certos eventos na sua geração. A ele se aplicam as palavras de Joan Didion: “ninguém está isento do movimento geral”;

A VISTA PARTICULAR, Ricardo Lísias, Alfaguara: A exuberância criativa do autor, transforma um artista “distraído” num arauto da sociedade do espetáculo. Genial;

GALVEIAS, José Luís Peixoto, Companhia das Letras: O grande escritor português e seu romance mais intrigante, sempre mostrando o “atraso” na vida rural de seu país;

AMORA, Natalia Borges Polesso, Não Editora: Premiada coletânea de contos que giram em torno do lesbianismo, porém vão muito além da temática;

OUTROS CANTOS, Maria Valéria Rezende, Alfaguara: Talvez a obra-prima da autora sobrepondo vários estágios da sua vida e do sertão;

O SOL VINHA DESCALÇO, Eduardo Rosal, Reformatório: O melhor livro de poemas de 2016;

COMO SE ESTIVÉSSEMOS EM PALIMPSESTO DE PUTAS, Elvira Vigna, Companhia das Letras: Mais um acachapante livro dá mais genial autora da atualidade;

FALSO TRAJETO, Fabio Weintraub, Patuá: Uma poesia que parece opaca exigindo várias releituras, que a tornam fascinante;

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20/12/2016

SUGESTÕES DE LIVROS PARA O NATAL

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(Uma versão da resenha abaixo, foi publicado originalmente em A TRIBUNA de Santos em 20 de dezembro de 2016)

AS HORAS, Alex Andrade, Penalux: Personagem tentando enfrentar a solidão e o abandono, numa coletânea de contos que mostra a evolução do autor carioca;
LITURGIA DO FIM, Marilia Arnaud, Tordsilhas: Um confronto com o passado resulta num dos romances mais lindos dos últimos tempos, em linguagem e densidade;

PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO, Maria Carolina de Bonis, Patuá: A poesia atual em pleno vigor, como, de resto todos os gêneros;

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A UTÓPICA TERESEVILE, André Jorge Catalan Casagrande, Garimpo: Romance que revela um episódio histórico praticamente desconhecido;

O INSTANTE-QUASE, Juliana Diniz, 7Letras: O melhor livro de contos de 2016, simplesmente brilhante;

ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS, Iacyr Anderson Freitas, Escrituras: O leitor ri e chora com as mazelas do corpo em relação ao “espírito”;

ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA, Cristina Judar, Reformatório: Uma Alice pós-moderna nos levando para uma assustadora hiper-realidade;

A VISTA PARTICULAR, Ricardo Lísias, Alfaguara: A exuberância criativa do autor, transforma um artista “distraído” num arauto da sociedade do espetáculo. Genial;

GALVEIAS, José Luís Peixoto, Companhia de Letras: O grande escritor português e seu romance mais intrigante, sempre mostrando o “atraso” na vida rural de seu país;

AMORA, Natalia Borges Polesso, Não Editora: Premiada coletânea de contos que giram em torno do lesbianismo, porém vão muito além da temática;

OUTROS CANTOS, Maria Valéria Rezende, Alfaguara: Talvez a obra-prima da autora sobrepondo vários estágios da sua vida e do sertão;

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VÉSPERA DE LUA, Rosângela Vieira Rocha, Penalux: Romance de 1989, pioneiro de muitas práticas da atualidade;

O SOL VINHA DESCALÇO, Eduardo Rosal, Reformatório: O melhor livro de poemas de 2016;

COMO SE ESTIVÉSSEMOS em Palimpsesto de Putas, Elvira Vigna, Companhia de Letra: Simplesmente, o livro do ano, sem nenhuma chance para qualquer outro;

FALSO TRAJETO, Fabio Weintraub, Patuá: Uma poesia que parece opaca exigindo várias releituras, que a tornam fascinante;

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13/12/2016

OS NOVOS TRUQUES DA CARTOLA DE ALEX ANDRADE

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente no jornal A TRIBUNA de Santos em 13 de dezembro de 2016)

Em Amores, Truques e outras versões, Alex Andrade contava aventuras e uma procura incessante de amores baseado na quantidade e multiplicidade, ressaltando a mesma insatisfação. Gostei muito da coletânea, mas fiquei preocupado de que ele ficasse restrito ao universo homoafetivo.

AS HORAS (Penalux), então, aparece para dissipar qualquer dúvida sobre o seu talento, pois é um livro que vai em diversas direções. Lendo com atenção percebe-se uma linha contínua entre os contos: dessa vez, são casais nos quais um elemento é mais fraco e vulnerável que o outro; são homens e mulheres à espera do amado (a) chegando às raias da insanidade, da necrofilia mesmo uma velhinha quase octogenária ainda sonha em viver um grande amor: “A velha abriu a boca em xingamento e começou a chorar. E era um choro bobo, manso e inútil. Chorava feito criança. E fazia algum tempo que não chorava assim, e lembrou-se de que há muito tempo não fazia quase nada, não tinha sequer vontade de fazer alguma coisa. E percebeu que o tempo passara depressa. Mas ocorre que precisava urgentemente acreditar que poderia fazer tudo o que não pôde. E que mesmo com a idade que tinha necessitava perigosamente amar”. (“Tá vendo o dia lá fora?”).

Emblemático na coletânea é o seu texto mais longo e ambicioso “Eu não amava Rolling Stones à toa”, onde o abandono por parti da esposa espelha o da mãe do protagonista num fluxo incessante de nostalgia, alucinação, mal-estar físico e solicitações da realidade (a síndica do prédio). No momento brilhante!

Outro ponto alto é Poema, no qual a protagonista que dá o título é uma descendente legítima dá Macabea de Clarice Lispector (mas também me lembrou o mundo de José Luiz Peixoto, onde o personagem-título se chamava Livro) sem que o autor perca sua marca pessoal, e talvez tenha escrito um texto mais bonito de sua carreira até agora.

O único senão a pontar em AS HORAS são escorregadas vez em quando num tom de autoajuda ou de filosofia de botequim: por exemplo: “A velha trave testemunha de tantos gols, o grito dos meninos, Ruth cantando e arrastando a barra da saía ou do vestido, o que fosse, o menino que jamais conheceu, todas essas memórias, a solidão de ser quem jamais sonhou, o tempo, a incerteza de saber se seria infeliz ou se ainda poderia sonhar. E não há nada que se possa fazer. Eis a vida que escorre como se as comportas estivessem abertas para a água escapar. Transbordando tudo” (“Tempo”). Estivesse na primeira pessoa, seria perdoável e coerente, jamais na terceira pessoa.

Ainda assim, considero Alex Andrade um autor já plenamente maduro. Espero novos truques de sua cartola.

 

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25/10/2016

A Perigosa Poesia Movediça de Maria Carolina de Bonis: “Passoa ao Redor do Teu Canto”

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de outubro de 2016)

Levei um susto quando li os primeiros versos de PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO (Editora Patuá): “Entrar no teatro pelas portas dos fundos/Esperar até que cortinas se fechem/Sentar-se numa cadeira detrás do palco/Baixar os olhos e soletrar um verso/Heroico com as formas de adeus”.  Pareceu-me algo decalcado do universo da grande Wisława Szymborska, Nobel de 1996, bastante em voga por aqui, pelo menos nas redes sociais (daqui a pouco, provavelmente surgirão os apócrifos).

Mas era um equívoco, pois Maria Carolina de Bonis apresenta uma voz poética muito própria, exercitando uma poesia “entre duas portas”; (“É cíclico o caminho”; o título já indica esse movimento). Ela parte de um estar-no-mundo, na casa, dos móveis, enfim nas coisas, regredindo a estágios minerais e vegetais, procurando “a origem ágrafa”: (“Chega a hora de nos tornarmos eternos/Como se fosse estranho envelhecermos”); são muitas as imagens de florestas, semeadora, colheita, algas, pedras, grutas, e às vezes temos uma impressão de imagens que se colidem desarmonicamente. Também é preocupante esse “olhar de exílio”, com que dispensa as camadas mais próximas da realidade: (“Vivo/onde as moscas contornam/minha ausência”).

Ao final de PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO, nos damos  conta de que ele foi pensado não como reunião de poemas, e sim como um livro, o que absorve todas as supostas desarmonias; além disso quanto ao exílio, um diálogo latente perpassa todos os poemas, e ela nos sugere que margens, contornos, estão para ser transbordados e extrapolados: “Sou o contorno do testamento das pátrias/O desterro gutural dos nômades/Gruta movediça que nem em pedra cristaliza/O opaco do chão de terra batida//E uma aldeia para que pudesse inaugurar/Os lugares onde não estou/Soa além do contorno do cão/A invenção da sinceridade”.

Portanto, temos um contra-dizer: “Dizer está sempre fora do que dizemos/o ato se reproduz em deslocamentos/volta antes e me encontro depois/a língua se desdobra fora do contorno ao redor/dos teus lábios lentamente ao redor da sala meus passos”; ou ainda: “Eu não sou o que digo/Mas é como se fosse”; mais um exemplo: “A ida será um regresso/Desse lado, avesso/Do traço em linhas do excesso//Os contornos da carne/Habitando os limites do corpo/O gozo da terra/Teu corpo, agora/Nos guizos do vento”.

Uma das viagens literárias mais interessantes dos últimos tempos é acompanhar Maria Carolina de Bonis, em suas aventuras “Dos fios que se perdem dos fios/Que se atam”.  Tomara que o fio que seguirmos não nos leve para as conclusões inquietantes de Teu retrato: “Hoje meu espelho está vazio//Apanha-me em relances/Conjuga-me em silêncio/E soletra as placentas recolhidas//Ao canto do deserto/Na mesma margem/Que caminha a/Semelhança secando/Meus contornos”.

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