MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

09/02/2016

O GRANDE ROMANCE AMERICANO: “A Sangue Frio”, de Truman Capote

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em 9 de fevereiro de 2016)

Harper Lee foi, sem dúvida, a figura mais notória no mundo literário em 2015, com a publicação de Vá, Coloque Um Vigia, décadas após seu até então único romance, o premiadíssimo O Sol é Para Todos (1960). Curiosamente, há alguns anos, ela não passava de uma parceira coadjuvante na obsessão de seu amigo de infância Truman Capote (1924-1984). em relatar os acontecimentos de A Sangue Frio (In Cold Blood, 1966), em dois filmes de temática semelhante e resultados artísticos desiguais: o superestimado Capote e o ótimo InfamousConfidencial (interpretada por Catherine Keener e Sandra Bullock, respectivamente).

A maior ironia nisso tudo é que o empenho do genial, nem por isso menos venenoso e competitivo, Capote em criar um dos candidatos ao mítico título de “grande romance americano” estava relacionado ao ciúme corrosivo com o prestígio alcançado, àquela época. pela amiga, a quem desejava superar e ofuscar. E embaralhou a questão ao ponto de insistir que inventara um gênero, o romance de não-ficção, quando apenas seguia a lição do Flaubert de Madame Bovary: os fatos reais servem ao talento narrativo, não o contrário.

Ou alguém pode achar crível que ele “entre” na pele da dupla responsável pelos terríveis crimes acontecidos em novembro de 1959 numa cidadezinha do Kansas, em pleno “cinturão da Bíblia”, somente baseado em documentos e depoimentos? Ou na mente de cada pessoa da família? Na dos investigadores, vizinhos da região, parentes dos assassinos?

Veja-se um trecho em sequência a uma visita dos detetives do caso à irmã de Perry Smith, o sentenciado com o qual Capote desenvolverá uma doentia ligação:  «E então a tristeza, como a névoa marinha noturna que cobria as luzes da rua, fechou-se em torno dela. Ela dissera que tinha medo de Perry, e tinha, mas seria apenas de Perry que tinha medo, ou antes de uma configuração de que ele fazia parte, os destinos terríveis que pareciam reservados para os quatro filhos de Florence Buckskin e Tex John Smith? O mais velho, o irmão de que ela mais gostava, tinha-se matado com um tiro; Fern caíra, ou se jogara, de uma janela; e Perry era dado à violência, um criminoso. Assim, num certo sentido, ela era a única sobrevivente, e o que a atormentava era a ideia de que, com o tempo, ela também acabaria vencida…».

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     Norman Mailer escreveu em A Canção do Carrasco  (1979): «A gente era criado sabendo o que estava certo, e livre para fazer o que estava errado». Essa frase ajuda a entender por que Capote escreveu um livro tão poderoso e ainda fascinante (além de inaugurar a era dos assassinatos torpes por motivação banal no imaginário cultural, assim como Psicose, de Robert Bloch, inaugurou a dos serial killers). De um lado, aquelas pessoas vivendo sob a égide da religião, achando que Deus fez o mundo para se viver assim, mas que não têm problemas com armas, com a matança estúpida de animais, e com a exclusão social, “sabendo o que estava certo”. E que se surpreendem com a violência dos assassinatos. Do outro lado, os “perdedores”, aquelas vidas fraturadas e errantes, “livres para fazer o que estava errado”.

E é por isso que num dos trechos cruciais, alguém observa: «As pessoas não estariam tão alteradas se isso tivesse acontecido com outros, não os Clutter. Com uma família menos admirada, menos próspera. Mas eles representavam tudo que as pessoas daqui valorizam e respeitam, e o fato de uma coisa dessa ter acontecido com eles, é o mesmo que alguém dizer que Deus não existe. Dá a impressão de que a vida não tem sentido…». Então, não importam muito as mesquinharias biográficas que cercaram a produção de A Sangue Frio (e ele e Harper Lee pagaram um preço bem alto). O grande romance americano foi escrito. Cinquenta anos depois continua uma obra-prima.

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19/01/2016

“Rebentar”, de Rafael Gallo, e a fênix da narrativa em terceira pessoa

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«Ângela põe os joelhos ao chão e se inclina sobre o vaso, pronta a vomitar algo que a nauseia mas não existe. Não há nada para rebentar agora, a não ser a sombra de Felipe dentro de si».

«Testa as velhas chaves que tem nas mãos, em uma iniciativa inútil cujos resultados já poderia ter previsto. A maioria gira em falso dentro do buraco da fechadura. Ângela deixa a porta apenas encostada e assim ela permanecerá. Não há muito mais que possa fazer. Nunca teve a chave para fechar o quarto do filho».

«Refletindo sobre todos esses lados da história, Ângela vê o quanto a perda de seu filho não se tratara somente da perda de um filho, mas de tantas outras coisas».

«O envelhecimento digital servira, no caso, como o impulso definitivo que colocara em movimento o processo de sua renúncia. As luzes de suas esperanças já estavam bastante desbotadas, bem como as sombras de seu luto, mas o retrato de Felipe crescido e amargurado era o elemento que faltava para dar corpo aos sentimentos confusos que se erguiam dentro dela. Não precisava mais buscar por aquele cuja face era a de um homem alheio; seu filho estava perdido de qualquer maneira, ainda que pudesse ser encontrado».

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de janeiro de 2016)

Rebentar é um romance de 370 páginas que flui e reflui sobre a decisão de uma mãe cujo filho fora raptado quando criança, trinta anos antes:  encerrar o assunto, isto é, desistir de quaisquer buscas e expectativas, dentro de si mesma e perante os outros[1]. No fim, diz ela, «fiquei apenas preservando a integridade da ausência dele».

Mas não é a própria Ângela quem conta a história. Na contracorrente da tendência cada vez mais predominante de vozes narrativas em primeira pessoa, e apesar da adesão solidária ao foco de sua protagonista, Rafael Gallo fez a arriscada, temerária, aposta na terceira pessoa, numa época em que ela sofre descrédito por parte dos jovens escritores (e não apenas eles).  Isso não representaria problema algum na ficção dos EUA, onde se mantém uma vigorosa tradição de realismo psicológico e mineração dos inesgotáveis veios de dramas familiares, onde se aventuram mesmo autores do nível de Anne Tyler, Russell Banks ou Joyce Carol Oates, mas a qual, sabe-se lá por que, praticamente inexiste na nossa, com raras exceções, como foi o caso de Estranhos no Aquário (2012), de Adriana Armony[2].

É mais fácil encontrar um romance brasileiro atual com escritores e seus dilemas como personagens do que a tragédia de uma mãe que perde o filho interminavelmente, sem se sentir no direito de prosseguir com a sua existência:

«É a mesma escuridão antiga, abatendo‑se sobre ela como uma noite que sempre volta a cair. O que a impediria de acabar com tudo nesse momento, sozinha em casa? Se antes o único motivo para que não se suicidasse era a possibilidade de o filho voltar? De ele contornar todas as improbabilidades e reaparecer, batendo suavemente à porta da casa como se intocado por todos os perigos do tempo? Felipe regressaria e a vida estaria resolvida por completo, a promessa de um mundo reordenado se cumpriria.

    Mas agora não havia mais essa esperança. Não mesmo? O que restara então, o que se desenhava exatamente nessa sombra cujos contornos se alteravam no coração de Ângela? Já não sabe mais de si, perdeu‑se no caminho»[3].

E é uma história que a minha geração, impactada com o caso Carlinhos (cujo sumiço, em 1973, em plena ditadura militar, causou comoção, entrou para o imaginário nacional — e pessoal —, nunca foi solucionado), esperava há muito: «Escolher um lugar onde procurá‑lo era sempre escolher que em todos os outros ele poderia estar se perdendo naquele mesmo instante, longe de seus olhos. De dentro da ferida aberta o tempo jorrava. Nada sanava a iminência da morte, nada estancava essa hemorragia das horas entornadas à ausência do filho. Três décadas da família seriam ceifadas em um único golpe, ainda incompreendido a tal altura. Ângela não sabia o que fazer naquele dia, não soube mais dali em diante, perdida em um labirinto sem direção. A vida passava rapidamente a ser essa constante vigília falida, essa crença no vazio, como uma entidade a abrigar o filho até que a mãe o reencontrasse»[4].

O perigo da opção do romancista estreante pela 3ª. pessoa (afora o sentimentalismo, o edificante ou o clichê da “superação”) era resvalar num tom explicativo, didatizando o processo de Ângela para o leitor: «Passara a postar‑se ali todos os dias, restabelecendo a vocação do porto, que já não guardava mais nenhuma embarcação; apenas a mulher ancorava‑se ali com sua solitude, tentando não ser levada pelas correntes do tempo». Trechos como este mostram quão perto ele esteve de afundar sua prosa em água rasa.

O que aconteceu foi uma experiência similar à que tive com a minha primeira leitura[5] de um romance de José Saramago (guardadas as imensas diferenças, para não dizer proporções, entre os dois): um longo e denso fluxo narrativo que espraia até o limite um núcleo básico, num  movimento concêntrico ou irradiante a agregar imagens e formulações, incessantemente retomadas e enriquecidas, de forma que até afirmações óbvias, banais, ou expressões do mero senso comum [6]ganham peso e lastro (há um excesso de “adentrares” e “perpassares”, mas são somente pequenas afetações—e estamos diante de um gênero literário no qual não existe a impecabilidade): «Tem vontade de escapar dali, sair rua afora, talvez em direção ao antigo cais. Não pode fazer isso. Precisa ser mais forte do que esse impulso e evitar recaídas em seus antigos hábitos. O rebentar das ondas que presenciava no cais abandonado sempre lhe servira como modelo de constância, mas agora ela teria de reverter as marés e mirar‑se nesse exemplo de força como se através de um espelho: a resistência mantida no sentido oposto, o de não mais voltar a abrigar‑se na sombra do mar ou de qualquer lugar abandonado»; ou, ainda: «Ela pensa em Felipe, fazendo dele uma bússola a indicar o caminho de seus sentimentos. A passagem do ano não faz com que a memória do filho seja mais triste ou mais alegre: ele não “deveria estar aqui”, tampouco poderia ser iluminada qualquer esperança de renovação em sua história somente por conta dessa virada de página no calendário. Felipe é apenas o que foi; nenhum réveillon, ano ou qualquer outra pontuação do tempo mudaria algo disso. O novo ciclo a se celebrar não pertencia a ele, mas apenas àqueles que ainda estavam ali para dar o nome de “novo tempo” aos dias que tinham diante de si. Sim, poderia ser uma alegria para Ângela ter essa perspectiva nas mãos, essa vontade de encontrar‑se de novo com um tempo em branco. Era isso o réveillon»[7].

Não sei se Gallo criará uma obra como a de Saramago. Todavia, alguém que realiza a façanha de concretizar um texto como Rebentar, nos mínimos detalhes e em grandes cenas inesquecíveis (como, por exemplo, a tremenda narração da destruição do quarto de Felipe, o filho, mantido intocado, o que é fulcral na relação de Ângela com o tempo[8]), é um talento considerável.

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TRECHOS SELECIONADOS

Quatro passagens maravilhosas (creio não ser um exagero, dadas a extensão e a envergadura de REBENTAR):

1

«As luzes dos carros piscando: as luzes dos vagalumes piscando. Felipe corria atrás deles, as mãos no ar, tentando reter aqueles brilhos incapturáveis dentro da escuridão da noite. Ângela perde o fôlego por um segundo; até o instante imediatamente anterior, essa lembrança estava completamente perdida em sua memória. Conforme a cena é remontada em sua cabeça, a mulher chega a se perguntar se não perdeu a sanidade, se não está criando uma história apenas em sua imaginação e convencendo‑se de já tê‑la vivido. Porém fica cada vez mais claro: esse dia de fato existiu, ela havia tido aquela experiência com o filho e se esquecido completamente. Como pôde?

Aconteceu em um fim de semana no sítio de Sérgio, amigo de Otávio atualmente falecido. Felipe devia estar com uns quatro anos e, visitando o campo pela primeira vez, deslumbrava‑se a cada instante com as descobertas do lugar. Sérgio e sua esposa, vendo a alegria do garoto com aquelas maravilhas, levaram‑no de noite, junto com Ângela, a um recanto do sítio onde diziam ter algo especial para o menino ver. Ele ficou tomado de espanto ao ver os vagalumes, todas aquelas pequenas lamparinas aladas brilhando no ar do recanto de mato onde não havia nenhuma outra luz. Felipe nunca imaginara que poderia existir um bichinho que se acendesse; corria atrás deles, absolutamente encantado. O som de seu riso constante era o perfeito espelhamento daquelas pequenas cintilações riscando o ar. Na volta, durante o jantar, o menino não parava de falar naquilo, especialmente para o pai, que não fora ao passeio por ter preferido descansar na casa. “Os vagalumes furam o escuro com a luz deles”, dizia com sua voz graciosa.

Como você pôde se esquecer disso, Ângela? Ao invés da culpa ou da gravidade que poderiam — e costumavam — acometê‑la em tudo que se relacionava com Felipe, um sorriso brota em seu rosto, complacente e tocado pela alegria dessa recordação. Incrível uma lembrança reaparecer assim, intacta, depois de tantos anos apagada. A mulher chega a rir sozinha, pensando que agora os vagalumes haviam furado o escuro de seu esquecimento com as luzes deles. Tudo o que Ângela tem vontade nesse momento é de ser capaz de conseguir preservar o alumbramento dessa memória, a primeira surgida nova em meio a todas as outras, sempre tão impregnadas das sombras do pesar pela perda do filho que se sucederia. Incrível algo assim acontecer».

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                                              2

«A movimentação no piso de cima chama a sua atenção, não consegue evitar. Ela tenta decifrar os gestos por trás dos sons abafados pela alvenaria, como se ouvisse as sombras dos movimentos. São passos que parecem se ajuntar no ponto acima de si. Um ou outro estalo indica o manuseio de alguma ferramenta, bem como a colocação de objetos sobre o piso, que ela não consegue discernir por exato. De repente, um golpe desferido com muita força irrompe um estrondo assustador contra sua vigília. Ela se curva e fecha os olhos em um reflexo. É brutal o choque contra a superfície que é ao mesmo tempo o teto que a protege e o chão a ser destruído do lado avesso. Ângela tem a sensação de que a cobertura vai se abrir em um rasgo e desmoronar inteira sobre sua cabeça. Perde o fôlego com o susto. Outra pancada e mais outra, e logo uma série de colisões contra o teto, feito uma chuva férrea. Ângela sente seu corpo ficar trêmulo, o formigamento vibrando sob a pele em um agito de temor. Ela ainda tenta manter‑se sob controle, tomando um copo nas mãos para lavá‑lo. Abre a torneira e, sob a água e o sabão que esguicha freneticamente, o copo lhe escapa e se parte em cacos no fundo da bacia. Ângela vê as espirais vermelhas que escapam fugazes adentro da água a descer pelo ralo e, só então, sente o corte arder em sua mão. Estanca‑o com um pano. As marretas e clavas continuam a arrancar o chão sobre sua cabeça. Ela não aguenta mais.

Depois de se apressar e pegar as chaves do carro na sala, Ângela sobe as escadas chamando por seu Antônio. Logo as ferramentas param de golpear, como em um cessar‑fogo. Ela consegue avisar ao homem que precisa sair para resolver umas pendências na rua. O mestre de obras assente. Ela deixa a casa depressa, pensando, somente quando já está em seu carro, que talvez não fosse recomendável abandoná‑la assim, sem nenhuma supervisão. Os sons das marretas a alcançam na garagem e a fazem sentir que deve mesmo partir, sem pudor de deixar para trás aquilo que agora parecia só ruína».

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3

«Ela se detém um pouco antes de chegarem ao limiar de entrada, observando os cartazes feitos pelos alunos, que estavam fixados à parede do corredor. Nas cartolinas coloridas, fotos de revistas e jornais dividem espaço com lantejoulas e frases escritas com canetinhas. Todas trazem mensagens sobre cuidados com o meio ambiente e com o uso da água, em caligrafias e discursos carregados de inocência, como se salvar o mundo fosse algo muito simples.

— Esses trabalhos são da turma do ano passado. Preciso pedir pra tirarem daí depois.

— Eles ainda fazem trabalhos desse tipo, com cartolina, cola e tudo mais?

— Foi o que eu disse: algumas coisas nunca mudam.

Algumas coisas nunca mudam. A turma de Felipe havia feito cartazes iguais a esses, com a ajuda das outras professoras, para homenagear o coleguinha perdido e dar sua pequena contribuição às buscas. Ângela apreciou o gesto a princípio, já que era um chamado a mais por seu filho, outra forma de suas fotos e sua busca se espalharem. Porém depois se desgostou ao ver que os mesmos cartazes continuavam na escola, quando tentou voltar a dar aulas. Mais de seis meses depois, com o menino ainda desaparecido e sua turma já em outro ano, aquelas cartolinas fixadas à parede pareciam apenas um memorial precário, simbolizando a invalidez de uma procura que já deveria ter se resolvido, ou ao menos ainda estar ativa, urgente, não paralisada no mesmo ponto. Naqueles cartazes, esquecidos como esses de agora, Ângela vira a busca por seu filho se assemelhar a esses votos ingênuos para que o mundo parasse de desmatar ou que ninguém nunca mais jogasse lixo em nenhum rio. O fim do desaparecimento de seu filho era um sonho vão como esses? Os cartazes dos alunos daquela época já demarcavam que, infelizmente, algumas coisas nunca mudam».

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4

«A aceitação da perda irreversível de Felipe e a esperança por revê‑lo eram incompatíveis, nunca poderiam existir juntas. Ou ele estava apto a ser reencontrado ou a sua recuperação era impossível, não caberia um meio‑termo para Ângela. Ela se preparara o quanto pudera, caminhara uma longa distância adentro de seu desapego e da reorganização de sua vida, sentia‑se uma nova pessoa agora e parecia pronta para levar sua renúncia adiante, baseada na ideia de que o menino estava perdido de forma irrevogável. Já desfizera grande parte dos traços de sua própria casa e de sua resistência ao tempo e à ausência; estava prestes a encontrar um novo endereço para si, aonde o filho não saberia chegar; pedira a remoção dele dos registros de busca e anunciara a todos os conhecidos que não mais esperaria pelo seu retorno. Mais do que isso, empenhara‑se por resolver no interior de suas emoções a ausência de Felipe. Não poderia ter feito a mínima parte dessas coisas, desatado qualquer um desses laços, se ainda estivesse sujeita a acreditar que o filho poderia ser recuperado, surgido de volta em uma terça‑feira comum feito essa […]O fato de aquele homem não ser Felipe já não significava que um outro poderia sê-lo, somente confirmava que nenhum homem podia receber o nome pertencente a seu filho. Incomodava-lhe demais essa constatação, sem perceber o quanto o aparente desperdício de algumas horas fora importante para levar embora de si muitas das últimas nódoas do tempo. A mulher lastimava‑se pelo fracasso em relação a seu próprio encerramento pessoal, mas não deixava de ser um avanço a constatação dessa mudança em seu olhar: ela já não media o acerto ou erro em sua vida pela volta do filho ou não. Sua perda parecia um fato consumado agora, e Ângela sentia ter se desviado dessa aceitação em nome de uma quimera fugaz. Ir até o abrigo atrás de um morador de rua fora como tentar recolher uma sombra com as mãos. De novo sua vida se encaminhara para uma espécie de naufrágio: o desapego não tinha se mantido de pé até o fim. E dessa vez tudo dependera de uma escolha que ela própria havia feito. Não podia mais se permitir ter uma recaída na esperança de regresso do filho impossível, como alguém que se entrega a um vício antigo, sem perspectiva. Precisava encontrar novas maneiras de seguir adiante com sua vida, em um mundo no qual, como ela agora percebe claramente, as coisas nunca poderiam ser tão remansadas quanto ela sonhara».

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NOTAS

[1] Por exemplo:

«Como fazer isso? Como ser a mãe que comunica ao pai da mesma criança perdida a decisão de deixar de tentar tê‑la de volta? […]Ele é a pessoa que será mais afetada por sua decisão; na verdade, é o único que compartilha o mesmo laço que ela intenta romper, por isso o único que participa dessa renúncia e poderia fazê-la voltar atrás, caso não aceitasse esse encerramento da história que também é dele. Ela vislumbra desmoronarem todas as frases e gestos planejados, todos os caminhos que teria construído ao redor do centro de sua conversa. Os ponteiros do relógio na parede talham o tempo opaco de silêncio ».

Ou então:

«Ângela protelou bastante a conversa com Isa sobre sua renúncia; qualquer pequeno contratempo ou ocupação servia como desculpa para adiar um pouco mais o convite a um encontro. A tamanha perplexidade de Suzana diante do anúncio de sua decisão, semanas antes, e sua recusa inicial em aceitar a ideia tiraram de Ângela o pouco de segurança que poderia ter em abrir‑se para outras pessoas a respeito desse assunto».

[2] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2013/01/02/o-agora-e-muitas-vezes-estranhos-no-aquario-e-o-percurso-ficcional-de-adriana-armony/

[3] «No fim de tudo, o tempo passaria e se esgotaria para ele e o filho, ela e Otávio. Para todos. O dia em que a existência teria seu termo chegaria de um jeito ou de outro; agora restava a Ângela apenas escolher entre chegar ao término de sua própria vida ainda ancorada à sua tragédia, ou ao menos tendo rumado para outros caminhos. A morte é o espelho derradeiro, e Ângela queria que seu reflexo nele pudesse ser visto não com resignação, mas com algum sentimento de realização maior. Ainda havia tempo para si».

[4] «O desaparecimento na galeria era o centro vertiginoso da espiral que apenas se abriria mais e mais, infindável. Em que momento exato o menino se perdera? De que forma? Nunca saberia nem mesmo isso. É aterrador pensar que seu filho pode sumir sem você nunca descobrir sequer como aconteceu. Enquanto perpassava os corredores da galeria, Ângela pensava em sair à rua; quando saía, pensava em voltar aos corredores. Felipe teria que atravessar alguma daquelas portas. Ou já teria partido? Por qual das mil portas a bater em vão atrás de si ele saíra? O menino se fora e a sombra em seu rastro se estendera invisível, ao longo dos anos. O labirinto se erguia em torno de Ângela, impossível de ser trespassado por ser feito apenas de saídas. Como reencontrar o filho no avesso de um caminho? A ampulheta do tempo rebentara e os grãos passaram a vibrar sob sua pele, carregados nas correntes do sangue».

[5] E depois ratificada pelas leituras posteriores.

[6] Duas amostras:

«Iria ao centro de sua ferida e tentaria curá‑la de dentro para fora»;

«“Feliz Ano‑Novo!”: o mar de vozes rebenta em gritos sobre a praia. Ondas de aplausos e comemorações se erguem por todos os lados. É um novo ano, um calendário com todas as páginas a serem preenchidas».

[7] Mais um exemplo:

«Diante de seus olhos, o mar: a imensidão que parecia não ter fim, cuja margem oposta não se vê, bem como o fundo inalcançável e escuro. Mas o mar também era isso que chegava até ela e a cercava: essas águas cujo vapor ela podia respirar, nas quais poderia molhar suas mãos e adentrar com poucos passos. O mar também era o que estava a seu alcance».

[8] «Ela abriu a porta com urgência, não mais se importando com aquela proteção leviana dos panos sob o vão da entrada. O quarto continuava exatamente igual. Isso, de forma inesperada, fez daquele espaço um estranhamento. Em meio à reforma, o cômodo permitia a sensação de um recanto familiar para onde a mãe regressara, mas algo já não estava mais no mesmo lugar. Ângela ainda não conseguia perceber com exatidão, mas o fato de o mundo ter se transformado até o limiar daquela porta, de as renovações do tempo alcançarem uma proximidade tão grande, demarcava mais claramente o quão defasado estava aquele quarto infantil sem ninguém: o dormitório vazio, um sonho em si mesmo […]Tentara proteger o quarto do filho de todas as maneiras possíveis — apartara‑o da reforma, vedara‑o com panos, removera o pó a invadi‑lo — para quê? Tudo o que fora realizado ao redor, tudo o que as reformas e o tempo estavam ainda por fazer, acabara por quebrar algo dentro daquele abrigo, talvez um de seus alicerces invisíveis».

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13/01/2016

TRADUÇÕES INÉDITAS QUE SE DESTACARAM EM 2015

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(uma versão do texto abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de janeiro de 2016)

Como sempre digo, não dá para ler tudo, nem gostar de tudo. Por isso, faço uma lista de destaques entre traduções de Iivros ainda inéditos (apesar das várias versões diretas de obras anteriormente traduzidas do francês ou do inglês, não as levei em conta) por aqui, dentro do meu recorte pessoal, limitado, de leituras:

Livro do Ano: submissão (Alfaguara- trad. Rosa Freire d’ Aguiar), de Michel Houellebecq: os impasses do Ocidente diante do islamismo assombram o romance moderno desde sua fundação, com Dom Quixote. Não é surpreendente, então, que embasem a mais perturbadora obra do gênero (inclusive devido aos acontecimentos na França) desta década.

Destacaram-se também (por ordem alfabética dos autores), e de antemão pedindo desculpas pelos comentários genéricos:

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O ROSTO DE UM OUTRO (CosacNaify- trad. Leiko Gotoda), de Kobo Abe – o rosto associado à noção de identidade dando ensejo a mais uma fábula-pesadelo do originalíssimo autor japonês (do clássico Mulher das Dunas) —indicado apenas para leitores fortes, rsrsrs;

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TRÊS VEZES AO AMANHECER (Alfaguara- trad. Joana Angélica d’Avila Melo), de Alessandro Baricco- desdobramento extraordinário do livro anterior (Mr.Gwyn) do grande escritor italiano, concretizando o conceito de “quadros escritos”;

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MAL-ENTENDIDO EM MOSCOU (Record- trad. Stella Maria da Silva Bertaux), de Simone de Beauvoir- o furor reacionário desencadeado pela inclusão da pensadora francesa no ENEM aumentou o interesse por esse texto “deixado na gaveta” e no qual se imiscuem as tensões e dissensões com Jean-Paul Sartre, companheiro de toda a vida;

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TEXTOS PARA NADA (CosacNaify- trad. Eloisa Araújo Ribeiro), de Samuel Beckett- na 13º. e última dessas experiências de derrisão com a prosa narrativa, lemos: «Enfraquece ainda, a velha e fraca voz, que não soube me fazer, sumindo para dizer que vai embora… »;

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A DIFICULDADE DE SER (Autêntica- trad. Wellington Júnio Costa), de Jean Cocteau- textos de cunho biográfico de uma força descomunal, produzidos durante uma grave enfermidade, por um dos maiores personagens da cultura do século 20;

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O VÉU ERGUIDO (Grua- trad. Lilian Jenkino), de George Eliot – a autora genial de romances imensos (Middlemarch), exercitando-se, em 1859, na arte da novela, roçando o sobrenatural numa alegoria sobre o medo do futuro e o autoengano;

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REMISSÃO DE PENA/ FLORES DA RUÍNA/PRIMAVERA DE CÃO (Record- trad. Maria de Fátima Oliva do Couto), de Patrick Modiano- a leitura conjunta desses romances do Nobel 2014 lança luz sobre o seu projeto obsessivo e reiterativo: narradores que tentam evocar algo de permanente, que remanesça (“flores da ruína”), em meio a uma memória fuliginosa e dissolvente;

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ROSA CANDIDA (Alfaguara- trad. André Telles), de Audur Ava Ólafsdóttir – romance sobre a imprevisibilidade que abre ao leitor brasileiro uma fresta para a ficção praticada na Islândia;

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QUANDO O IMPERADOR ERA DIVINO (Grua -trad. Lilian Jenkino), de Julie Otsuka-  já em seu primeiro romance, a autora de O Buda no sótão expunha cirurgicamente o apartheid vivido por famílias japonesas nos EUA;

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OS LARGADOS (Alfaguara- trad. Joana Angélica d’Avila Melo), de Michele Serra- brilhante reflexão ficcional sobre a arte de ser pai na pós-modernidade, diante dos nossos adolescentes hiperconscientes de si mesmos e seus aplicativos;

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SONHOS EM TEMPO DE GUERRA (Biblioteca Azul- trad. Fabio Bonillo), de Ngũgĩ Wa Thiong’o- belíssimo e ao mesmo tempo desolador volume de memórias do escritor queniano, sempre cotado como um dos favoritos para o Nobel, e cujo romance Um grão de trigo foi também traduzido este ano (pela Alfaguara, por Roberto Grey);

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ABSOLUTAMENTE NADA E OUTRAS HISTÓRIAS (34- trad. Sergio Tellaroli), de Robert Walser- excepcional seleção  (lançada no final de 2014)de inclassificáveis 41 textos curtos do admirável prosador suíço: «Ir à cidade, eu fui, e queria, sim, comprar algo de belo e de bom para mim e para você; boa vontade não me faltou, estudei, estudei, mas a escolha era difícil e a cabeça estava em outro lugar, por isso não consegui, por isso não comprei absolutamente nada.  Hoje, vamos ter de nos contentar com absolutamente nada, não é mesmo? Absolutamente nada é o que há de mais rápido para preparar e, de todo modo, não causa indigestão… »;

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O SOL E O PEIXE (Autêntica- trad. Tomaz Tadeu), de Virginia Woolf- a autora de algumas das maiores obras-primas da literatura, também era uma arguta ensaísta e cronista, como atestam as nove preciosas amostras aqui reunidas;

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AS RÃS (Companhia das Letras- trad. Amilton Reis), de Mo Yan –um pouco prolixo, mas importante romance do Nobel 2012 sobre a interferência da esfera pública numa ilusória “vida pessoal” (no caso, a política governamental chinesa do f ilho único).

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TRECHO DE UM GRÃO DE TRIGO

«Quanto mais fraca ficava, mais ela o detestava. Fosse o que fosse que ele fizesse ou arranjasse, lá vinha ela diminuir o seu esforço. Assim, Mugo vivia assombrado pela imagem da própria inadequação. Ela possuía um modo de acabar com ele, numa pergunta, talvez, sobre suas roupas, sua cara ou suas mãos, que fazia todo seu orgulho despencar. Ele fingia ignorar as opiniões dela, mas como podia fechar os olhos a suas expressões e sorrisos enviesados?

Seu único desejo era matar a tia.

Uma noite esse pensamento demente o possuiu. Ele fervia por dentro. Naquela noite Waitherero estava sóbria. Ele não usaria um machado ou panga. Iria pegá-la pelo pescoço e estrangulá-la com as próprias mãos. Dê-me forças; dê-me forças, meu Deus. Olhava-a se debater, como uma mosca entre as patas de uma aranha; seus gemidos e gritos abafados pedindo piedade chegavam a seus ouvidos. Ele apertava com mais força, obrigava-a a sentir a força de suas mãos de homem. O sangue acorria para a ponta de seus dedos. Ofegante, estava profundamente fascinado pela audácia e a coragem do próprio gesto.

“Por que você está me olhando assim?”, Waitherero perguntou, rindo guturalmente. “Eu sempre disse que você era esquisito, do tipo capaz de matar a própria mãe, hein?”

Ele se encolheu. A forma como ela o via por dentro era dolorosa.

 Waitherero morreu de repente de velhice e de tanto beber. Pela primeira vez desde o casamento, suas filhas vieram até a cabana, fingiram não ver Mugo, e a enterraram sem fazer perguntas nem derramar lágrimas. Voltaram para casa. E então, estranhamente, Mugo sentiu falta da tia. Quem mais poderia agora chamar de parente? Queria alguém, qualquer um, que representasse uma família para ele, não importava se fosse bom ou mau. Tanto fazia, desde que ele não ficasse abandonado, excluído».

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05/01/2016

DESTAQUES NACIONAIS – LISTA DE 2015

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(uma versão do texto abaixo foi publicada originalmente em A TRUBUNA de Santos, em 05 de janeiro de 2016)

Como sempre digo, não dá para ler tudo, nem gostar de tudo. Por isso, faço uma lista de destaques dentro do meu recorte pessoal, limitado, de leituras, ressaltando apenas que editoras ‘pequenas’ como a Patuá, a Reformatório ou a Confraria do Vento, por exemplo, obtiveram larga vantagem, em quantidade e qualidade, em lançamentos de autores nacionais de valor. Incluí alguns (seis entre dezenove) títulos lançados em 2014 também orientado por essa conclusão; afinal, muitas vezes é lentamente um livro vai abrindo seu caminho, demorando para cair em nossas mãos, e isso deveria ser levado mais em conta. Felizmente, Homero que o diga, não há prazo de validade para textos

Livro do Ano: Como conversar com um fascista (Record), de Marcia Tiburi. Além da precisa reflexão sobre a intolerância política, esses ensaios representam um verdadeiro manual de sobrevivência para a selva de ranços ideológicos destes dias que correm:

«Fechado em si mesmo, o fascista não pode perceber o ‘comum’ que há entre ele e o outro, entre ‘eu e tu’. Ele não forma mental e emocionalmente a noção do comum, por que, para que esta noção se estabeleça, dependemos de algo que se estabelece com uma abertura ao outro. Fascista é aquela pessoa que luta contra laços sociais reais enquanto sustenta relações autoritárias, relações de dominação. Às vezes por trás de uma aparência esteticamente correta de justiça e bondade. Mesmo em circunstâncias esteticamente as mais corretas, e politicamente as mais decentes, o ódio é uma força que tende a falar bem alto. O fascista usa o afeto destrutivo do ódio para cortar laços potenciais, ao mesmo tempo que sustenta, pelo ódio, a submissão do outro. Como personalidade autoritária, ele luta contra o amor e as formas de prazer em geral. Um fascista não abraça. Ele não recebe. É um sacerdote que pratica o autoritarismo como religião e usa falas prontas e apressadas que sempre convergem para o extermínio do outro, seja o outro quem for».

Destacaram-se também (por ordem alfabética dos autores), e de antemão pedindo desculpas pelos comentários genéricos:

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O livro dos cachorros (Patuá), de Luís Roberto Amabile- São poucos os cachorros, porém muitas as surpresas e perplexidades para o leitor dessa brilhante coletânea de contos , ao mesmo tempo divertida e inquietante;

Amores, truques e outras versões (Confraria do Vento), de Alex Andrade- a imersão da eterna insatisfação de Don Juan (num contexto homoerótico) na modernidade líquida de redes sociais e aplicativos;

Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio (Patuá), de Marcelo Ariel- Um atordoante repertório de referências como invólucro para um lirismo incomum: «Nesse fogo/Que queima somente/aqueles que/com a intensidade/ do mundo formam/uma só tessitura»;

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Esse tal de amor e outros sentimentos cruéis (Reformatório), de Mário Bortolotto- Textos confessionais e crônicas sobre a condição de outsider de uma personalidade marcante da cena cultural e boêmia de São Paulo;

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Um dia toparei comigo (Foz), de Paula Fábrio- Uma narradora autocentrada torna-se o símbolo literário mais representativo de uma geração «que aprendeu tudo na sessão da tarde», num dos melhores romances dos últimos anos;

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Rebentar (Record), de Rafael Gallo- Para quem já não acreditava mais na possibilidade de se explorar a densidade psicológica de personagens em 3ª. pessoa, o impacto que o jovem e fantástico romancista imprime à história da mãe que “desiste do filho”, há 30 anos desaparecido, é imenso;

Ofícios do Tempo (Positivo), de Donizete Galvão- Antologia que permite a introdução ao universo de um grande poeta falecido repentinamente: «No curral da insônia, /rumino palavras pastadas/na ribanceira dos dias»;

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O contrário de B. (Confraria do Vento), de Bruno Liberal- Multifacetada reunião de 13 relatos, explorando relações atávicas e opressivas, a manter um edifício social patriarcal, patrimonialista e preconceituoso;

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Concentração e Outros contos (Alfaguara), de Ricardo Lísias – mosaico excepcional da produção de um autor que, aos 40 anos, já é uma referência fundamental da ficção, desde textos iniciais até suas recentes e geniais ‘Fisiologias’;

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A imensidão íntima dos carneiros (Reformatório), de Marcelo Maluf- O medo inoculado através do destino familiar, dando azo a uma notável fabulação, sem contar a qualidade da prosa, em torno da imigração libanesa e da ressonância da mansidão bíblica;

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A bela Helena (7Letras), de Miriam Mambrini- Através da criação de um alter ego, a protagonista delineia uma faixa social de um lugar e época (o Rio, anos dourados) muito mitificados, e mostra a tarefa árdua que é dar forma à experiência realmente vivida;

Fôlego (Confraria do Vento), de Rafael Mendes -o universo familiar nos oprime e, mesmo assim, nunca é uma história unívoca; o que é deixado à sombra é o eixo  dessa bela novela de estreia;

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Julho é um bom mês para morrer (Patuá), de Roberto Menezes- uma legítima obra-prima do romance, na qual o relato feminino e o destino das mulheres de uma família compõem uma poderosa alegoria do país;

29 (Modelo de Nuvem), de Marcos Messerschmidt- O haicai contemplativo da tradição modula-se a uma dicção moderna e urbana: «a flor ensaia o absurdo/ descola do galho /espalhando multidões»;

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Esculturas fluidas (CEPE), de João Paulo Parisio-  travessia solerte e apaixonante pela corda bamba entre o banal e um moto contínuo de lirismos lapidares («Nunca concluí um pensamento/Minha contribuição definitiva/serão meus pressentimentos»);

Arranhando paredes (Bartlebee), de Bruno Ribeiro- textos cujo exuberante hiper-realismo parece até documentário perante a ressurreição de ameaças de golpe, da onda reacionária e do sensacionalismo autoritário de certos programas jornalísticos;

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A casa das marionetes (Reformatório), de José Santana Filho- uma revisitação do passado familiar em tom operístico e prosa de alto refinamento, captando tanto a «uniformidade do sangue» coletivo quanto o sopro forte dos «ventos internos» individuais;

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O princípio de ver histórias em todo lugar (Oito e Meio), de Leonardo Villa-Forte- Excelente romance de estreia, equacionando a incapacidade de recomeçar a vida com a dificuldade de não dá para aprender com manuais e oficinas, e nem sob o domínio da incerteza e da suspeita.

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TRECHO SELECIONADO ( de REBENTAR)

«No fundo, entendia como algo terrível a possibilidade de que lhe entregassem um homem qualquer e dissessem: “este é o seu filho”. Todos esperariam, então, que ela levasse o estranho para dentro de sua casa, compartilhasse das horas e do alimento com ele e, finalmente, o colocasse para dormir naquele quarto que reservara para Felipe, em cuja cama o homem jamais caberia. Ainda mais perturbador do que essas pequenas questões práticas seria conviver com esse indivíduo sob a obrigação de tecer nele, ponto a ponto, o amor maternal que o abrigaria. Ângela percebia que nunca seria capaz disso, não poderia ser essa mãe. Essa forma de amor estava por demais ligada a Felipe, pertencia completa e unicamente ao menino que criara junto a si por cinco anos, quase seis. Ainda que impressões digitais, testes sanguíneos e outros recursos atestassem a identidade daquele homem, a formação íntima que faria dele seu filho de verdade não podia ser recuperada. Era esse contato, essa longa fiação do amor, que poderia realmente fazer de um homem alguém digno de receber o nome de Felipe.

A única alternativa ao vazio da ausência de Felipe, então, passara a ser o vazio da estranheza de um adulto desvinculado dela. Ângela finalmente soube e sentiu que não podia mais possuir o que tanto sonhara para si. Restava, na prática, pouco mais do que aceitar que sua história como mãe daquele menino buscado estava terminada. O envelhecimento digital servira, no caso, como o impulso definitivo que colocara em movimento o processo de sua renúncia. As luzes de suas esperanças já estavam bastante desbotadas, bem como as sombras de seu luto, mas o retrato de Felipe crescido e amargurado era o elemento que faltava para dar corpo aos sentimentos confusos que se erguiam dentro dela. Não precisava mais buscar por aquele cuja face era a de um homem alheio; seu filho estava perdido de qualquer maneira, ainda que pudesse ser encontrado».

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29/12/2015

UM MUNDO QUE DIZ NÃO: “O Contrário de B.”, de Bruno Liberal

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«O garoto está no quarto ouvindo os risos da mãe. Deita na cama e tapa os dois ouvidos com as mãos que ardem. Sente vergonha de tudo. Ainda não sabe qual foi seu erro. Não sabia que não podia desenhar na mão, não sabia que não podia desenhar caveira, não sabia que não podia desenhar pintos. Fica com raiva de todo mundo. Observa os brinquedos na estante branca. Todos estão virados para sua vergonha. Sorriem com suas caras escrotas de brinquedos».

«As crianças brincam na prainha da ilha e apontam para mim. Dão com a mão dizendo tchau. Fazem uma algazarra danada jogando água para cima. Também quero dizer tchau e sorrir como elas e ver que sorrindo eu posso desfazer esse sentimento ruim. Todos eles. Muitos».

«Ele guarda as fotografias dos mortos na sua imensa parede do quarto, bem em frente a sua cama. Gosta de dormir assim. Chama de “meus mortos”. Olhar suas caras azuladas, seus últimos registros. Eram tantas fotos coladas na parede que nem sabia mais quem eram seus pais, que foram os primeiros no painel e agora eram apenas a mesma massa de perdição».

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de dezembro de  2015)

Numa canção que marcou época (Brincar de Viver), Maria Bethânia nos fala da «arte de sorrir/cada vez que o mundo diz não». Um “não” contínuo e acachapante se infiltra, ao longo dos treze contos de O Contrário de B., nos interstícios de todas as relações humanas, corroendo casamentos, vínculos geracionais, laços com bichos de estimação[1], a ligação com a natureza («Procura um abraço na escuridão, uma segurança, um último refúgio. O vento cria um sussurro alongado na fração de tempo de uma respiração profunda. Ela treme acocorada, sentindo no chão as pedras machucarem os pés descalços. O que encontra é a feiura de tudo no mundo», lemos no aflitivo Dente de Cachorro); até mesmo nas noções de caráter e personalidade.[2]

São situações de abuso, opressão, miséria, violência, estupro, culpa, doença, indiferença, e mesmo o que nos é mais íntimo se reveste de repugnante e aversiva estranheza: «O velho lembra de ver a mulher deitada na cama, dormindo com a boca aberta. Não é uma imagem bonita. Lembra de ter achado ela velha. Lembra que foi o último dia que viu sua esposa dormindo. Depois disso a largou e foi aquela confusão toda» (Pater Familias[3]); ou então: «Ela me beija como se beijasse a testa de uma velha e desce do carro animada. Vê-se que muda instantaneamente o semblante: está sorrindo. No carro franzia a testa e olhava pela janela distante, evitando olhar para mim. Eu via apenas seu reflexo na janela de vidro. Era um fantasma ali presente. Parece que minha ausência faz sentido e esse distanciamento toda noite é importante para ela. Sinto isso, que ela gosta cada vez mais de ficar longe de mim» (Nós contra Eles).

E a arte de sorrir? Nesses inóspitos coágulos ficcionais, seja de momentos efêmeros, seja de longas convivências, explorados por Bruno Liberal, ela é exercitada na desfaçatez, no delírio ou no cinismo cafajeste. Como o dos pais sorridentes e odiosos, sob a ótica ressentida dos protagonistas, de dois pontos altos do livro, Reza de Gato Morto (que faz um arco entre o célebre gato preto obsedante de Poe com a obra radical de uma Hilda Hilst — por exemplo, A Obscena Senhora D: «Os vizinhos a chamam de velha dos gatos. Velha doida. Velha do amarelo. Velha da morte[…] exala um cheiro de excremento. As crianças mijam no seu muro por conta disso. Dizem que a velha é porca») e Esse Último Sorriso: «Eu lembro da cara de papai sorrindo no caixão. Com aquele bigodinho safado dele. Aquela cara de eterno piadista»[4].

Outro momento muito forte é Distante, com o quadro da mulher devastada pelo câncer e levando uma surra do marido truculento, entrevisto por mais um filho dilacerado entre o atavismo, a perplexidade e a revolta, «…sofrendo, sorrindo, sangrando, agarrada nele e fazendo carinho no cabelo do pai»[5].

O jovem contista (nasceu em 1981) consegue fazer uso tanto de uma prosa crua quanto de imagens e formulações de uma exatidão atordoante (quando B., adolescente sem-teto e faminto, surta, comete um crime, quase é linchado: «Gritavam várias coisas. Tudo que já ouviu. Tudo que eles queriam que B. fosse»[6]).

Essa fusão oferece grande dinamismo, mas também o virtuosismo pode trazer desequilíbrios, como no conto-título, onde a tessitura visceral do conjunto é prejudicada por frases excessivamente retóricas («Um redemoinho de esperanças. Anéis superficiais que se esvaem na incerteza das horas»); isso acontece inclusive num texto curto e cortante como Dente de Cachorro («E sente que os espinhos também choram. E que seus olhos são cristais em queda livre»); por vezes, a estrutura de um conto é que soa artificiosa demais, como em Não precisa gritar (o qual me parece mais a justaposição de dois textos, com nítida desvantagem do segundo, uma alternância de vozes de pais e mães, com relação ao acabamento do primeiro[7]).

Uma coisa é certa, porém: mesmo com alguns acordes estridentes, desafinados mesmos, não há tempos fracos ou desinteressantes, entre os parênteses obsessivos e focos ziguezagueantes, na música verbal de O Contrário de B.: a arte de narrar, cada vez que este mundo renitentemente patrimonialista, patriarcal e preconceituoso diz não: «No fundo do rio, com todo esse silêncio desesperado, a mãe pensa que fez tudo certo na vida, que ama demais o marido, a família, a farra, as brincadeiras dele. Eles dançavam juntos, bebiam juntos, se amavam o tempo todo. Olhando os vultos dos mortos sendo arrastados por essa correnteza espinhosa, lembrou que foi feliz. E caída no rio era um pontinho escuro vazio. Ela pensou também: “me solta, filho da puta!”».

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TRECHO SELECIONADO

«Mãe tá doente.

Fala assim com um desprezo palpável. A menina nem levanta a cabeça. Continua criando seus buracos, seus abismos. Depois ela pega um punhado de farinha na cozinha e vai tapando. São agora manchinhas brancas no chão.

Ela sorri um pouco e olha nos olhos de Ícaro.

Tá vendo? Tá vendo? É a cara de mainha…

Na verdade a doença da mãe é um câncer. Foi diagnosticado por uma médica em Juazeiro. A médica estava falando ao celular com o filho, fez assim com a mão para dizer aguarde um pouquinho.

Que legal filhão, olha, mamãe tem que ir trabalhar. Beijão. Pede para Francisca fazer a carne que tirei do congelador tá bom? Beijão.

 Desliga o telefone. O pai e a mãe esperando sentados na cadeira o atendimento que haviam marcado há quatro meses.

Dona Mariana, as notícias não são boas. A senhora está com câncer.

Oxe, quié isso?

 E a doutora explicou de uma forma que dona Mariana entendesse apenas o principal: seu estado era terminal. Não havia tratamento. Despachou-a e chamou o próximo paciente pensando que Francisca nunca faz o almoço direito, sempre coloca óleo demais na carne».

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 NOTAS

[1] Como constatamos no cruel Hoje Não:

«Imagine se levo o dourado e chego para ele no meio do shopping, na frente de todo mundo e estendo um filhote tão lindo.

Ele ficaria maluco!

Imagine todo mundo me olhando e dizendo que puta pai que eu sou. E as crianças todas dizendo que também querem um daquele e os outros pais todos putos comigo. Rá. Eles iam ficar putos com o melhor pai do mundo».

[2] Há um conto chamado Possibilidade de Estar Incompleto.

[3] Os dois primeiros contos têm esse título, ambos muito bons (embora eu tenha ficado confuso com o uso dos nomes dos personagens no segundo deles, do qual retirei a citação acima). Segundo o próprio autor, respondendo-me gentilmente, “os dois contos são como um universo paralelo, algo que poderia ter acontecido se alguma variável fosse alterada…”.

[4] Nesse conto, o meu predileto, há um diálogo explícito com a obra de Raduan Nassar.

Em Reza de Gato Morto, lemos:

«Achei a senhora feia no enterro, até comentei com sua irmã. Disse que a maquiagem estava horrível. Papai escolheu o caixão mais barato, o serviço mais porco. Sempre foi assim conosco, tudo do mais barato. Senti pena da senhora. Ave Maria, me perdoe. Não sei rezar. Fico com esses lamentos o tempo todo. Lembro do papai rindo com os amigos no enterro» .

[5] Outra visão dos pais juntos é uma das passagens mais intensas do lado “cru” de Liberal, no ótimo Obedeça Seu Pai (cujo início é justamente a repreensão e punição a um menino que desenhou um pênis):

«Está em cima da esposa agora, os dois nus, suados. Seu filho ouve um barulho estranho e abre a porta. Vê os dois se mexendo com um ritmo muito específico. Não entende aquilo, acha que você está matando sua mãe.

Papai?

 Você dá um salto de cima da mulher com um reflexo fantástico. Grita: sai daqui desgraça!

Sua esposa ainda está com as pernas abertas. Apenas estica o pescoço para ver a cena. Você vai em direção à porta com o pênis ainda duro balançando e batendo nos lados das pernas. Seu filho fica estático. É uma escultura de concreto. Você o empurra e fecha a porta com chave. Ele fica caído no corredor sem entender. Chora. Você retorna e sua esposa está de quatro, esperando continuar aquilo…».

[6] Outro exemplo: «Não dá para ser algo que não existe dentro».

[7]  Onde encontramos algumas das melhores páginas da coletânea:

«Nas redes sociais isso é tão lindo que você parece a mãe mais cuidadosa do mundo, mais atenciosa, mais carinhosa. Mas você nem o escuta. Fica assim no celular o tempo todo rindo e mexendo os dedos nessa tela de vidro e rindo e mandando mensagens e tirando foto o tempo todo.

(Você nem vê que ele está com 39 graus de febre)

 E no aniversário dele você parecia uma mãezona. Gritava o tempo todo “filhinho, filhinho”. E na hora dos parabéns você foi abraçá-lo e ele se esquivou. Correu para a avó.

(Não adianta chorar agora)

 Ele correu para outra pessoa.

Isso abre uma ferida imensa. Um abismo entre seu filho e você. Cada um de um lado, se olhando mutuamente, tecendo suas armas um contra o outro. Ambos se protegendo. E essa dança nunca acabará, pode ter certeza».

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15/12/2015

O QUE O ESQUECIMENTO AINDA NÃO CONDENSOU: “Um Dia Toparei Comigo”, o livro do desassossego de Paula Fábrio

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«Só o esquecimento é que condensa…»

(Mário de Andrade)

«Meu pensamento fixo, inventando cenas, passeios prosaicos pelas ruas, de mãos dadas com Luis. Criava diálogos de mim para mim, como se eu namorasse a mim mesma. Imperdoável esse outro inventado e suspirado, que por acaso tem corpo e, com certeza, a alma diversa da sonhada. A despeito de todas defesas que a razão erigia, soberba, a fim de desfazer atalhos, enganos e futuros martírios, havia momentos breves, muito breves, em que a alma sonhada colava perfeita sobre a alma real, e a isso podemos chamar felicidade».

«Tudo tende a ficar nebuloso, incerto e verdadeiro. Há pouco eu disse que as lembranças se transformam, com o passar do tempo, em suposições e mentiras. Pensando bem, enganei-me. Com o correr dos anos, as histórias tornam-se cada vez mais fiéis aos sentimentos»

(Paula Fábrio)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de dezembro de 2015)

A certa altura de Um Dia Toparei Comigo, Isabel, a narradora, evoca um personagem do escritor italiano Elio Vittorini, mesclando-o ao avô: «Embarcou para fugir. Fugir dele próprio. E sobretudo da pobreza, mas já não podia ser outro. A ruína de buscar um ponto de fuga dentro de si […] Furores que acompanharam meu avô, que pôde ser ele próprio. Embora tivesse um baralho no bolso. Na verdade, mais parecia um baralho quando disposto em forma de leque sobre a cama. Identidades falsas, com nomes que não se repetiam, mas se multiplicavam em cadência quase lírica, todos italianos ou aparentados do grego. Sentia-se livre, assim, para viajar o mundo».

Uma imagem muito pertinente ao modo-de-ser do romance de Paula Fábrio: a do baralho único (opressivamente único), em desdobramento múltiplo (o leque). Isabel parte em viagem para a Espanha com a companheira, Virginia (ambas se desforrando de passados economicamente penosos—seja pela extrema pobreza, seja pela decadência), que a sustenta, e acaba apaixonada por um emigrante brasileiro, Luís.

Cada ponto do itinerário é detalhado, porém como a excursão é também incursão, as sobreposições de topografias, eventos e seres são incessantes, além das leituras —  até uma lista de títulos ao final (se bem que esse seja um ponto vulnerável de um livro memorável, o que menos me convenceu); por exemplo, nos Pireneus encaixa-se a Serra dos Órgãos, como antes, em Sevilha, a Natal nordestina;  Ramires, o tio de Luís tomado por tumores e cuja piora dita o das viajantes, entremeia-se à culpa com as disposições tomadas antigamente com relação a um  pai arruinado e devorado pelo câncer, quase uma estratégia de fuga para iniciar, enfim, a própria vida (aliás, a morte de um velhinho no edifício onde ela mora propicia os motes embaralhados de evasão e culpa-frustração: «Hoje o primeiro velhinho morreu. E eu começo a envelhecer. Não eram coisas boas para se pensar. Mas não havia escape. Seu Odair morrera. Uma pneumonia sem cura, sem velório. Meu voo para Madri e o enterro do lado de cá do Atlântico. Ninguém sai ileso. Malas arrastadas no corredor, um cartão de pêsames escrito às pressas e, depois, depois a fuga»).

Mas a vida se inicia realmente? O que transborda nesse atordoante narrar-se (e aos outros[1]) é a ausência, um desencontro consigo mesma, cuja filiação (malgrado seu título aluda explicitamente ao poema de Mário de Andrade ao qual pertencem os versos seguintes: «Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta/Mas um dia afinal eu toparei comigo»[2] ) mais pertinente talvez seja com a prosa desenvolvida por Fernando Pessoa no Livro do Desassossego, com esse «eu, pessoa desinteressante, menina parva, tolinha» que revela, de repente: «Enquanto sou minha melhor máscara»[3], lembrando também o “eu” que é um “ela” em tantos relatos de Marguerite Duras. Um debruçar-se egocentrado a um ponto incômodo; no entanto pelas contraditórias vias do talento, desvelando o mundo à sua volta e delineando, inclusive, os contornos de uma geração que viu tudo na sessão da tarde:  «… convidei Virginia para provar o pão catalão e a água vichy catalã. Nosso primeiro restaurante estrelado e a tal toalha de linho, e o tal tiramisú, o confit de pato. Começava a me apaixonar pela Espanha. Alguns diriam, mas você não está mais na Espanha. E eu não saberia dizer o que sinto numa ocasião dessas. Eu vi tudo na sessão da tarde, o toureiro, a castanhola, o flamenco, não eram todos espanhóis? Mas antes de enveredar por esse nó na cabeça, melhor assentar as malas no hotel aveludado».

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TRECHO SELECIONADO

«Naquela idade a gente se misturava. Uma mistura do tipo eu faço o favor de ter gente como você aqui dentro de casa. Uma mistura óleo e água que não resistiu à adolescência. Mistura repulsiva agora. Hoje madames se encontram no café, os olhos correm a desviar para o lado, para baixo, amedrontados, quase gritam, como se as sujeiras debaixo do tapete ficassem disponíveis à sociedade com o mero contato dos olhos.

 De uma hora para outra, deixaram de atender ao telefone. Com o tempo, nem o cumprimento na mercearia onde todos do quarteirão compravam do mesmo cesto de pães. Meus pés passavam pela calçada, e rápido alguém puxava a cortina para esconder o interior, os segredos da sala de estar, os móveis refinados; seu sucesso constituía obstruir minha curiosidade.

Naqueles tempos, em casa, havia apenas moléstia. E minha mãe dizia, eles têm medo de pegar minha doença. Não sei se era realmente a enfermidade dela, mas algo em mim parecia fantasmagórico para aquelas pessoas, algo contagioso, capaz de sujar suas mãos, comer seus ventres.

Deveria ter superado, caso contrário não estaria aqui a mastigar a cortina da sala fechada. Não há ninguém em casa. Paloma está estudando para o vestibular. Pois sim, desde já, desde os quatorze anos. Paloma não pode dar uma volta até a esquina. Paloma não está. Para você. Fique bem claro. Para você não há o doce mais caro, nem o passeio no veleiro. Para você não há, não há, não há. Eu olhava para mim com tamanha curiosidade, checava as axilas, não, não estavam fedidas. Seria meu cabelo? Será que na última visita comi um pedaço a mais de bolo? Minha irmã já havia me repreendido, não, não faça cocô na casa dos outros, não coma todo o lanche que servem à mesa, não coma, caso contrário vão pensar que não temos comida em casa. Os outros. Eles não podem pensar que a gente é pobre. Podemos dizer a todos que temos um apartamento no Guarujá, nosso pai ainda é diretor da empresa aérea e aquela mulher que varre a porta de casa não é nossa mãe, é a empregada. Claro, tudo isso minha irmã disse antes da doença e do desemprego. Depois, a vergonha foi bem maior. Como se a mãe houvesse morrido. Teria sido melhor se estivesse morta, ela dizia. Nesses tempos de moléstia, quando as vizinhas, as moças de boa família estudavam desde os quatorze anos para o vestibular, quando eu já não fazia cocô na casa dos outros, nesse tempo, os vizinhos sabiam algo sobre mim. Algo que eu pretendo descobrir. Algo podre. Invisivelmente podre».

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NOTAS 

[1]« No Caminito, no bairro de La Boca, seu Ramires e a esposa esboçaram os passos do tango – voltei por um instante a Luis, que vibrava com aquela espécie de diário de viagem saída de seus lábios, vibrava como se somente o tio e a tia houvessem conhecido a cidade e fossem os únicos a dançar a convite dos bailarinos. Em pensamento, eu criticava sua narrativa mediana, ao mesmo tempo me via de pé na rua-museu, contemplando as paredes das casas de zinco e madeira com suas cores berrantes e diversas. Questionava se seu Ramires notara a tentativa de reconstrução do passado. O passado fabricado, quase igualzinho. Vermelhos, azuis e amarelos novos em folha nas paredes das casas que antes recebiam restos de tinta do porto e pigmentos de esperança dos estivadores genoveses. Mas não importam as conclusões de seu Ramires, tampouco meu ar sabe-tudo, a realidade é indelével. Basta olhar ao redor».

[2] A esse poema de 1929 (publicado em Remate der Males) pertence também o belíssimo verso que usei como epígrafe e que me diz muito sobre o romance.

[3] «Sete anos antes, eu e Virginia descobrimos Natal e redescobrimos o verão. Vinte e oito graus nos acompanhavam das dunas até o Morro do Careca, na Ponta Negra. À noitinha, no restaurante vazio, em formato de arquibancada, nossos encontros clandestinos com os gatos. Ali, realizávamos a filosofia boba dos desocupados. Interessava-me o verão, o sotaque nordestino, o ventilador que nunca desliga entre as aroeiras. Contava para Virginia: o realejo noticiou, você ganhará a rifa. Como tenho sorte! Ganhei uma caixa de bonecos no primeiro ano na escola. Mal formulo cenas agradáveis e ouço meu pai, menina ingenuazinha. Os professores arranjaram para você ganhar. Refuto sua voz. Insisto no verão. Insisto em escutar uma canção que fale do mar. Insisto, insisto, insisto. No bumerangue riscando o céu no descampado; a cabeça cheia de planos e o tempo em aberto para ser escrito desde a primeira letra. Era o que eu buscava em Natal, a vida no seu início. A garantia solar de que ainda havia estrada pela frente, para os planos dourados, pelo menos parte deles. Não seria assim que nascem as excursões, e se transformam em incursões? ».

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10/11/2015

OS MANSOS HERDARÃO A TERRA?: Marcelo Maluf e a imensidão íntima dos carneiros

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«A alma em carne viva

 é o fardo obscuro da casa,

 sem peso, sem medida,

 sem sombra nem luz.

 Geometria sem saída

 no ventre ou no túmulo,

 onde moram

 os fetos e os afetos

não nascidos.

Dançam de mãos dadas

 a minha covardia e a minha coragem»

(trecho de um poema de Adib, irmão de Assaad)

[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de novembro de 2015]

«Pois o inverno é a vigília do tempo, é o segredo do que virá. É o gesto de compaixão da terra para com os seres que nela habitam. O inverno é a medida de nossa permanência e logo concluímos que sem o cuidado mútuo somos mais frágeis que as asas de uma borboleta. Aprendo a ter gratidão pelo Criador que me deu esses pelos e o inverno me traz mansidão. Um carneiro quando sabe disso está pronto para viver a sua vida, para compreender a imensidão que carrega em seu íntimo».

A mansidão, até pela acepção bíblica de que se beneficiou («Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra», lemos em Mateus 5:5), pode ser uma virtude (rimando com a “íntima imensidão”, vida interior fecunda) ou uma falta, vinculada a um histórico de vitimização, a uma longa sina familiar de bodes expiatórios, como acontece em A Imensidão Íntima dos Carneiros (Ed. Reformatório), de Marcelo Maluf. E pode ser também rompida por um ato de violência (que se torna um segredo pessoal), nem por isso libertador.

Libanês das montanhas de Zahle, Assaad—cuja família é cristã, embora ele se aproxime dos ensinamentos do Alcorão— foge para o Brasil, após seus irmãos serem massacrados por turcos e de seu sorrateiro ato de revolta contra a mansidão[1]. Fixa-se em Santa Bárbara D’Oeste. Será nos últimos meses de sua existência, como comerciante próspero, porém interiormente conturbado[2], em meados dos anos 1960, que o espírito de narração, por assim dizer, do neto—o qual não chegou a conhecê-lo—se aproximará dele, espreitando-o, tentando decifrar os rumos e o entrançado do sangue (família é destino?), justamente a partir da figura geracional que se reinventou em outro mundo: «agora ao seu lado, assistindo-o escrever suas memórias, dou início a sua e a minha absolvição, porque também eu carrego essa culpa. A culpa por não ter impedido os soldados turcos de matarem os seus irmãos. Mas como eu poderia? Mesmo assim, ainda sinto essa culpa correndo em meu sangue, esse colesterol genético. Essa gordura»[3].

A narrativa pode aproximar “em espírito” os dois porque Maluf resgata a milenar maneira árabe de contar histórias, rompendo limites estritos entre espécies e seres (a tradição ocidental não tinha esses diques, o realismo e a necessidade de verossimilhança acabaram contaminando a literatura que levamos “a sério”), usando uma técnica de encaixes (de historietas e provérbios); assim, os animais falam e os humanos metamorfoseiam-se.

Os carneiros do título estão presentes em todos os níveis (ligados aos quatro elementos)[4], do realista—pois são o ganha-pão ancestral— ao onírico (aparecem nos sonhos do neto). Têm papel-chave em termos de fábula, e da boca de um deles saem as “morais da história”, os motes de sabedoria imemorial (como a de que os mansos herdarão a terra) equacionando-os problematicamente com o fundo alegórico desse papel cíclico de “carneiro”, de pharmakos: o medo inoculado na sucessão das gerações.

Quer dizer, um problema para a vida dos que assumem a tarefa de contar a história. No plano da realização literária, principalmente no trato da prosa, eles herdam a terra, pois é muito difícil imaginar os prêmios referentes a 2015 sem este belo romance de estreia estar entre os indicados. Só uma maldição familiar explicaria sua ausência.

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TRECHO SELECIONADO

«Na noite em que se casou, Assaad viu uma estrela cadente e se lembrou do que dizia sua tia Zakiya: “Uma estrela cadente é um segredo que se guarda para sempre nos olhos, pois eles contemplaram o último sopro de uma luz”. Essa frase esteve presente na família como uma máxima que repetíamos todas as vezes que víamos uma estrela cadente. “Quem foi mesmo que disso isso?”, perguntávamos uns aos outros. Esquecíamo-nos da autoria. Essas palavras tinham o mistério necessário para que se transformassem em uma citação recorrente.

Assaad não fez nenhum pedido naquela noite. Apenas ficou durante toda a celebração do casamento com as palavras de tia Zakiya dançando em sua mente. E vagavam: olhos que contemplaram, sopro de luz, segredo que se guarda, para sempre, o último segredo, sopro de segredo, luz nos olhos, luz que se guarda. Quando as palavras pararam de brincar, Assaad já estava casado com Karima.

O cheiro da berinjela queimando desvia a minha atenção de Assaad e me volto para a minha avó na cozinha. Ela prepara o tabule e lava as folhas de alface. Aproximo-me do seu rosto e vejo que os seus olhos são da cor caramelo. Creio que nunca havia antes olhado de tão perto para os olhos de Karima. Vejo as primeiras rugas se formando. Karima tem medo que Assaad não a deseje mais como mulher, que esteja ficando velha para ele. Ela aperta a faca em suas mãos e por um instante fica em suspensão, a admirar um ponto de luz que invadiu a cozinha. Eu gostava de visitá-la para comer as balas de goma que sempre ficavam dentro de um pote de vidro, em cima da mesa da sala. Lembro-me de quando menino ouvir Karima gritar: “Michel, vê se dá um jeito nessas crianças!”. Corríamos em volta de sua cadeira e escapávamos pelos vãos.

 Quando Karima morreu, em 1985, eu tinha 11 anos de idade e foi a primeira vez que conheci alguém cuja vida expirou. Chorei em seu velório ao imaginar que um dia também os meus pais morreriam. O rosto velho de minha avó no caixão me trazia alívio, eu pensava que só quando a pele murchasse de vez é que a morte poderia dizer: aqui estou. O que mais tarde eu descobri se tratar de uma deslavada mentira da existência.

Mas aqui, no ano de 1966, Karima é outra e o cheiro de sua comida invade toda a casa. Sua voz não é frágil como me lembrava, nem suas mãos tão rugosas. Karima parece mais alta. Grita alguma coisa em árabe para Assaad. Vejo que ele responde, também em árabe, e permanece imóvel. Ela torna a gritar e Assaad coça a cabeça e pega o caderno. Mas não responde. Prefere abafar a voz de Karima rabiscando círculos nas folhas em branco. A voz de Karima se perde de vez e Assaad se vê agora na aldeia em que nasceu, em Zahle, no Líbano. Os círculos vão cedendo lugar às palavras ».

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NOTAS

[1]« Exaltados, alguns gritavam: “Morte aos turcos!”. Outros diziam que o problema era o profeta Maomé. Eu me lembrei de Abdul-Bassit, que havia dito que vivia em paz e em oração, em nome do profeta. Assim como ele, o pai também orava. Abdul-Bassit jamais mataria os meus irmãos. Não, ele não seria capaz. Abdul-Bassit havia me salvado de congelar na neve. Abdul-Bassit havia me contado histórias.

“A culpa não é do profeta!”, eu gritei.

 O silêncio se propagou pelo quintal e penetrou o ventre de minha mãe. Com um punhado de terra nas mãos, cavoucadas na hora com brutalidade, ela encheu a minha boca e pressionou os meus lábios contra as suas mãos até que eu engolisse todo o conteúdo.

 “Coma a terra, meu filho. Coma!” Ela ordenava. “Essas palavras devem voltar de onde vieram.” ».

[2] «Assaad não tem intimidade com as palavras, prefere as cambraias, as sedas, o algodão e o tule. É mascate. As folhas em branco esperam o momento em que suas lembranças possam descansar no papel e, quem sabe, curá-lo de tanto sofrimento».

[3] Em outro trecho: «Eu terei de Assaad apenas vestígios. Relâmpagos de histórias. Abaixo dos meus músculos habita um sentimento de ausência, a falta de um lugar para apoiar os meus pés, um modo de viver sempre em suspensão, entre o céu e a terra, sem reconhecer um território que seja meu. Talvez por isso eu esteja aqui, para tentar compreender por que Assaad guardava tantos segredos. Não. Não é nada disso. Não estou aqui por Assaad. Estou aqui por mim mesmo.».

[4] O romance é dividido em quatro partes: “O vento”, “A montanha”, “O fogo”, “O oceano”.

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24/10/2015

FOLHETIM E CONSPIRAÇÃO: “O cemitério de Praga”, de Umberto Eco

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(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 15 de novembro de 2011)

Em Seis passeios pelos bosques da ficção (1994), Umberto Eco fez uma brilhante demonstração de como os “Protocolos dos Sábios do Sião”, que denunciavam um suposto complô judeu para dominar o mundo (e que se tornaram peça-chave do antissemitismo, inclusive na ideologia hitlerista), se originavam das várias versões deturpadas de cenas de romances rocambolescos como Os mistérios de Paris, de Eugene Sue, e Joseph Balsamo, de Alexandre Dumas[1].

A paixão de Eco por folhetins, por imposturas e pela tolice humana (ou seja, o hábito de acreditar em qualquer coisa) fez com que ele desenvolvesse tal esquema num romance, O cemitério de Praga [“Il cimitero di Praga”, 2010, que comento na tradução de Joana Angélica D´Ávila Melo]. O título se refere a uma espécie de cena primordial, bebida nos romances, e urdida e reaproveitada pelo personagem principal, Simone Simonini: um encontro de rabinos representando as doze tribos de \Israel no referido cemitério, onde eles expõem a teia judaica para controlar as finanças mundiais, a ruína do cristianismo e dos valores ocidentais e a subsequente dominação global.

Criado por um avô fortemente conservador e antissemita, Simonini devora os livros de Sue e Dumas. Após a morte do velho, roubado por um tabelião, que o priva da sua herança, ele revela-se hábil na falsificação de documentos, em forjar papéis supostamente “autênticos” e, numa Itália ainda não unificada e assolada por conflitos armados, nos quais avulta a figura de Garibaldi,  inicia uma carreira como informante e agente duplo que o levará a se instalar na Paris de Napoleão III, da Comuna e da guerra (perdida) contra a Alemanha, períodos em que os serviços secretos precisam sempre de “provas” contras os oponentes.

Temos, então, toda a atmosfera do folhetim: disfarces, conspirações, fomentação da opinião pública contra um determinado inimigo (jesuítas, maçons, comunistas, mas em especial judeus). Ficamos sabendo da trajetória de Simonini por meio de um diário que ele escreve (em 1897), ao perceber estranhos lapsos de memória, desconfiando de que pode sofrer de dupla personalidade (a “outra” seria a identidade de um abade que ele assassinara e jogara nos esgotos embaixo da sua morada parisiense décadas antes). Portanto, ao longo da reconstituição, as duas personalidades dividem o diário, gerando informações e fontes tipográficas diferentes (há uma terceira, que mostra a interferência do Narrador, que “edita” esse material para torná-lo palatável ao gosto contemporâneo).

Aqui no Brasil, o romance de Eco foi duramente criticado pelo excesso de referências eruditas, pelo seu estilo bricabraque (colagem, paródia de estilos). Uma besteira, como sabe quem leu e curtiu O nome da rosa e O pêndulo de Foucault. Esse conhecimento está entranhado no grande escritor italiano, não é uma erudição borra-botas à la Dan Brown e congêneres.

O que incomoda em O cemitério de Praga, apesar de ser um bom romance (mas podia ser bem melhor) é a combinação de três fatores. Em primeiro lugar, a dupla personalidade desagradável e odiosa que protagoniza a narrativa. Isso não seria tão problemático (em O perfume, por exemplo, o herói também era horrível) se a estrutura do romance não contradissesse a sua tese principal: Eco nos diz que as teorias conspiratórias são uma prova da credulidade geral, porém toda a sua trama é calcada em conspirações e jogos de poder bastante reais e documentados, e mesmo que a paranoia e o racismo ditem certas concepções populares, ele nos oferece indícios suficientes de que há um controle subterrâneo do mundo e das informações.

Por último, e o defeito principal, a meu ver, é que—ao utilizar a moldura folhetinesca—ele contrariou as regras do jogo, e ao invés de injetar emoção e aventura, parece fazer um resumo acadêmico das situações e dos caracteres. Nunca sentimos uma convicção narrativa profunda (mesmo num nível paródico) de todas aquelas peripécias coloridas e extravagantes. É como um banho de água fria na fervura da intriga. Ao “editar” os excessos dos folhetins, Eco não conseguiu compensar em graça e verve aquilo de que nos privou. Parece que ele esticou—de forma inteligente e engenhosa—o tom da sua conferência de Seis passeios pelos bosques da ficção por 400 e tantas páginas. Uma pena.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/11/16/agua-fria-na-fervura-de-uma-velha-trama-o-cemiterio-de-praga-de-umberto-eco/

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NOTA

[1] «Como os estudiosos observaram é fácil perceber que os Protocolos foram um produto da França oitocentista, pois estão repletos de referências a questões do fin-de-siècle francês (como o escândalo do Panamá e os rumores sobre a presença de acionistas judeus na Companhia do Metrô de Paris). Também é claro que foram baseados em vários romances famosos. Infelizmente, a história, mais uma vez, era tão convincente como narrativa que muita gente não teve dificuldade em levá-la a sério.  O resto é História: um monge itinerante chamado Sergei Nilus, que vivia entre a comunidade russa da França—uma figura bizarra, meio profeta e meio canalha, desde muito obcecado com a idéia do Anticristo—a fim de favorecer sua ambição de tornar-se conselheiro espiritual do czar, prefaciou e publicou o texto dos Protocolos. Depois, esse texto percorreu a Europa e foi cair nas mãos de Hitler. Vocês conhecem o resultado…» (Trad. Hildegard Feist)

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13/10/2015

As magias contingenciais de João Paulo Parisio: “Esculturas fluidas”

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«…e desses panos dependurados das janelas,

   pendendo dos vãos das áreas de serviço,

      esses tapetes voadores inválidos,

          catalépticos, memoribundos,

    saudosos das arábicas peripécias,

     esses lençóis voláteis como véus

     que sobreviveram às dançarinas,

          odaliscas de remotas épocas,

            impregnados de sua arte,

[…]

         e dessas janelas indiscretas,

      mesmas dos panos pendurados,

que à noite se acenderão manteigosas

       e quem sabe nos presenteiem

      com alguma silhueta sinuosa

    da qual se possa dizer pelo peso

   e  liberdade de movimento dos seios

  que pertence a uma mulher nua em pelo,

ou quem sabe ao fantasma de uma daquelas

  memoráveis odaliscas de remotas épocas

     às quais os lençóis sobreviveram»

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de outubro de 2015)

O eu lírico de Esculturas Fluidas enxerga-se, geométrica e existencialmente, “obtuso” («É tão estranho ser alguém»): «onde/todos veem fronteiras físicas/montanhas, rios e abismos/ eu enxergo apenas meridianos/ linhas imaginárias determinadas/por nossas bússolas semânticas… ».

Perdido na megalópole, labirinto moderno, arena incongruente, espetáculo de contrastes com arquibancadas vazias, ele escreve (e será lido com mais proveito) de soslaio, recorrendo a enumerações caóticas, encasulando versos-esporos, com vocação de aforismos; criando, enfim, um bricabraque, um conjunto poético cuja força maior (às vezes, fraqueza, certas páginas e partes de poemas parecem francamente dispensáveis[1]) é esse diálogo entre o óbvio e o inusitado («Nunca concluí um pensamento/Minha contribuição definitiva/serão meus pressentimentos»), entre a formulação banal e um moto contínuo de lapidaridades[2]. Aliás, João Paulo Parisio não se faz de rogado no uso de palavras e expressões sonorosas, retumbantes: memoribundos, belengodengos, manteigosas, arcaicófilo, intelectotegumento, labirintado, harênico, humonetárias, meta-aranha, pundonor, insabíveis, pessoilhas, descomposturou, lispectroscópica, maceteamento, pamnésia, parnasioide, bricabraque, platelmintos, Belle Épocalipse, invagina, coconsomem, homeostase…

A isso se agrega também o recurso à quebra irônica de lugares-comuns: «mansão de inumeráveis incômodos»; «frases-defeito»; «a pressa é inimiga da refeição». Não por acaso, no ato sexual, homem e mulher «ocupam o mesmo não-lugar». Pois o usual se torna incomum, quando vivenciado.

No centro do livro, fênix e mariposa se opõem-complementam («Renasceu das cinzas como uma fênix/e como uma mariposa desnorteada/se deixou atrair por um novo amor/que acendia ao longe»). A segunda nunca deixa de cair na armadilha das «magias contingenciais», o sorvedouro cotidiano («São quatro e dezessete da tarde/e que sei eu da vida?»); a segunda, ao renascer incessantemente, nos coloca no rastro de um halo («Os fatos não comportam a felicidade/Eles precisam de ajuda»[3]), talvez daquilo que chamamos alma: «Qual é o tamanho da minha alma?/Alma, alma, alma/ressoa  o eco/no interior do deserto/sem o menor sinal de paredes»; ou, no mínimo, do sonho (tendo em vista que «Todo dia a realidade se imola»): «Fecho os olhos/à espreita do rumor crescente/ do petróleo que mina dos sonhos».

Já na sua expressiva estreia, a coletânea de contos Legião Anônima (2014)[4], eram evidentes os dotes de Parisio como escritor e seus recursos de linguagem, nada imaturos ou modestos[5]. Ainda assim, como ato de fé na poesia, Esculturas Fluidas é uma surpresa emocionante. Como afirmei, há algumas quedas nesse alto voo no território do verso, mas no geral o quadro é tão luminoso quanto este verso: «Atear é tecer o fogo»[6].

Contra o «orgasmo da comiseração», o maravilhosamente obtuso gume lírico parisiano golpeia o declínio da perplexidade com o mesmo punhal do espanto com o qual mata a familiaridade e os tentáculos da autoajuda; daí as crianças serem as guardiãs do encanto-fênix: «levam os pais para passear/e devolver-lhes os animais e as plantas/ que já tinham se transformado em nomes». Mesmo que, ser-mariposa enredado na teia mágico-perversa urdida pela meta-aranha: «Todas as manhãs acordo/com a igual esperança/de vislumbrar a eternidade/Sei que é como a um peixe/tentar enxergar a água/em que vive mergulhado/através dela é que enxerga a realidade».

Difícil é imaginar qualquer lista de destaques nacionais de 2015 sem a presença de Esculturas Fluidas.

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NOTAS

[1] Por exemplo, são inexpressivos os poemas das págs. 32-33-34-35 e 76; e nem sempre o acúmulo aforismático se equilibra na corda bamba. Dito isto, é preciso ressaltar que os momentos inspirados superam em larga medida os menos felizes.

[2]  «Fantástico é o real que não aconteceu»

«As ideias nunca são filhos planejados»

«A felicidade não se reconhece no espelho/só no escuro se rememora»

«Para quem olha de dentro/a hora do parto/deve parecer a da morte»

 [3] Um dos vários momentos “lispectroscópicos”, indicando a forte presença de Clarice Lispector.

[4] VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2014/12/30/livros-de-2014/

[5] O movimento pendular entre prosa e verso, narrativa e lirismo, é explicitado num belo momento de Esculturas Fluidas:

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«Se a prosa é minha consorte,

   a poesia é a minha amante,

mas elas amiúde se comutam

ou dividem com liberalidade

   o mesmo leito desconjunto;

direi que são dos meus olhos

        as duas meninas,

     minhas concubinas,

   embora saiba muito bem

quanto esse matrimônio é ilusório:

   eu é que sou mais um escravo

     de seu harém compulsório,

        e essas duas inimigas,

            embora ubíqua,

            uma mulher só »

[6] Em contrapartida, «e tudo que meu coração arde/erguido no alto como uma lamparina/meus pés mal ilumina».

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29/09/2015

UM PAÍS DE PAREDES ARRANHADAS: os relatos de Bruno Ribeiro

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de setembro de 2015)

«Com a crise econômica tudo voltou a ter cheiro, fica mais fácil comparar o valor de cada um», afirma o narrador de A.S.G.I.M.P.-Alojamento de surra gratuita e intensiva para adeptos da moda punk 2012, penúltimo dos quinze textos de Arranhando paredes. Não foi só o cheiro, o valor de cada um. Muitas coisas voltaram nos últimos tempos, e talvez nem tenham ido embora, permanecendo nos vãos, nas fendas dessas paredes arranhadas por Bruno Ribeiro. O próprio relato do qual pincei a frase tem situações que poderiam muito bem fazer parte da ficção do período mais repressivo do regime militar (embora negros e periféricos não estejam convictos de que aquela era realmente chegou ao fim): ao invés do DOI-CODI, alguma milícia dando uma “lição” a manifestantes: «Você não é polícia não…E essa roupa? …isso né delegacia não? » .

Um dos vencedores do disputado concurso Brasil em Prosa, o jovem autor mineiro de 26 anos apresenta um país de cores aberrantes, o que fica evidente no relato que abre o livro, também o mais alentado: Zumbis. A história da irmã que se sacrifica para dar um tratamento adequado à gêmea, deformada por queimaduras após um acidente, é uma delícia. Tinha tudo para se tornar um besteirol, com uma gótica psicopata; patrões, idosos e médicos tarados; um freak show explorando a aparência terrível da moça; mutilações; violência com forte teor erótico (depois de um espancamento: «As duas se beijaram. Beijo de novela. Se George Romero fizesse novela»); a destruição pelo fogo do campus onde ambas as irmãs estudavam. Ao fim e ao cabo, o que bate forte no leitor nessa paródia das histórias de sofrimento e superação é a noção de que o futuro morreu, sendo substituído por uma incessante embora precária presentificação: «Estávamos acima de tudo. Livres. Não queremos um rosto. Não queremos vida, nem futuro. Só estamos fugindo. (…) este breve segundo, frame, eu posso chamar de vida».

Além de Zumbis, eu destacaria O favorito, onde um estupro coletivo (e fortemente vinculado ao social, a vítima é a filha de um agricultor que tem «dinheiro pra limpar a bunda») e a voz que o narra se entrelaçam para garantir o impacto do relato; Lembrança do café das três, prova de que um escritor talentoso pode tirar leite de pedra, pois Bruno Ribeiro consegue fazer uma inusitada e original história de vampiro; Cindy Crawford, que poderia cair no clichê do pai de família sendo passivo para um travesti, mas que é valorizado pela segunda parte, as consequências afirmativas da relação, justamente no seio familiar («A família parou de fazer sons, todos estavam inertes onde deveriam estar»); Música pop, o qual até poderia ser mais desenvolvido, uma ideia fantástica de misturar fantasia sexual e canções que ficam na mente; Fluxo capital infinito de amores invisíveis, com a eterna tentativa de ter mais do que uma satisfação sexual transitória já frustrada pela própria condição do protagonista; O bom selvagem, com outro pai de família que precisa relaxar (abusando de um pivete, «negro, magro, feio e cheio de perebas pelo corpo»), para não incomodar ninguém e ser um cidadão exemplar.

Mencionei a semelhança com a atmosfera da ditadura num dos contos. Arranhando paredes ganha relevância maior, além das suas inegáveis qualidades literárias, num momento em que o Brasil é sacudido por uma tremenda e despudorada onda reacionária, em que programas de televisão policialescos e sensacionalistas tentam ditar a moralidade vigente enquanto exploram avidamente os detalhes mais sórdidos e vis dos crimes. Diante de um quadro desses, o hiper-realismo exuberante de Bruno Ribeiro ganha foros de documentário.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2015/08/30/destaque-do-blog-arranhando-paredes-de-bruno-ribeiro/

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