MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/08/2017

O Dia do Pai

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 08 de agosto de 2017)

“Mas, pensei eu, onde estão as pessoas? Como resposta, avistei, repentinamente, como que surgida de lugar nenhum, uma mulher de certa idade, à frente da casinha.
Como todas as mulheres (até aí, às 3 da tarde, havíamos encontrado apenas duas em nosso caminho!), esta era magra e tostada pelo sol, mas, evidentemente, não tinha a pose e o viço das ‘garotas de Ipanema’; ao contrário, a compleição franzina e ressequida da mulher parecia decorrer de uma força inexorável e imaterial, não explicada por qualquer ciência – até porque a ‘ciência’, na busca de clientela mais rica, costuma se aboletar no conforto das grandes cidades e pouco se interessa pelas vidas largadas a esmo no coração da floresta”.

Em CHORO POR TI, BELTERRA!, de Nicodemos Sena, narra-se um dia em que o autor acompanha o pai até a região de Belterra, onde este vivera os anos mais felizes da sua mocidade, uma época na qual os norte-americanos exploraram a extração das seringueiras, trazendo uma efêmera prosperidade a esse rincão do Pará.

Sessenta anos depois encontram um lugar arrasado, onde os poucos seres viventes parecem fantasmas e as estradas não levam a lugar nenhum, típico descaso das autoridades brasileiras.

Gostei de CHORO POR TI, BELTERRA!, mas o autor irrita com explicações didáticas completamente dispensáveis. Em compensação poucas vezes vi materializada a ternura entre pai e filho, sem pieguice embora um tanto repetitiva: “ ‘Onde essa estrada vai dar? Será que em algum ponto se encontra a Estrada Um, onde tudo começa? Sei que Belterra está lá, mas onde? Será mesmo que ainda existe? ’, falou baixinho meu pai, talvez para que eu não lhe ouvisse; talvez temendo seguir em frente e descobrir que a sua Belterra existia já apenas em sua mente. Ou talvez a encontrasse tal qual era, perdida e solitária, habitada por uma gente inconsciente de seu destino, disposta a servir e ao mesmo tempo sabotar a quem se impusesse como senhor de suas vidas”.

Mais adiante: “Eu procurava acompanhar todos os movimentos do meu pai, que ia daqui para lá e de lá para cá, como um menino que de repente se vê andando no mítico espaço de um sonho. Ao deixarmos o nosso hotel, pela manhã, em Santarém, falei para mim mesmo que naquele dia dedicar-me-ia inteiramente ao meu pai. De uns tempos para cá, esforço-me em conhece-lo, compensar o ‘tempo perdido’, pois, quando eu tinha oito meses de idade, a minha avó Guida, mãe de papai, adotou-me como seu ‘xerimbabo’ (bichinho de estimação) e nunca mais deixou que meus pais me levassem de volta para casa, de sorte que um vazio de afeto se instalou no meu coração de menino, e esse vazio só aumentou com o passar do tempo, e é por isso que meu pai, nessa decisiva altura da vida, tornou-se muito importante para mim”.

 

01/08/2017

Suelen Carvalho e os vultos do passado

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 01 de agosto de 2017)

Só existe o presente, afirma a madre superiora de um convento de carmelitas à protagonista de O PASSADO É LUGAR ESTRANGEIRO, o passado não existe mais. Mas é a presença maciça do passado que aflige Diana, desde o suicídio do marido, de quem descobriu um horrível segredo.

No seu romance de estreia, Suelen Carvalho correu o risco de cair na imitação de Clarice Lispector. Há vestígios disso. Felizmente, ela escapou da armadilha, escrevendo um relato ambientado em Belém do Pará, assim como Débora Ferraz em “Enquanto Deus não está olhando” com João Pessoa, vigorosamente moderno, urbano sem nenhum folclorismo.

O PASSADO É LUGAR ESTRANGEIRO se divide entre uma narrativa em terceira pessoa e um soliloquio que não respeita as margens da página. Acompanhamos a desagregação e isolamento de Diana, que passa a não suportar cores e lembranças, as quais se personificam em vultos. Por isso a compulsão de uma vida monástica que a aparte do passado, o qual ela sente fisicamente: “Ela calçava sandálias, que ficaram completamente sujas. O barro molhado em seus pés lhe causou asco, o que gerou uma grande pressa de voltar para casa e tomar um banho. Lama é uma coisa muito real para ser tocada”.

Suelen Carvalho é uma autora muito inteligente: ela alterna a encomenda de um hábito de freira com a recordação do vestido de noiva de Diana. E sua voz agônica vem se juntar à poderosa ficção feminina atual. A voz feminina está tão presente que se apropria da voz de autores masculinos. A heroína de O PASSADO É LUGAR ESTRANGEIRO podia ser irmã das personagens de Roberto Menezes, as de “Julho é um bom mês para morrer” e “Palavras que devoram lágrimas”.

 

11/07/2017

UM LIVRO COM MOMENTOS MEMORÁVEIS

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 11 de julho de 2017)

Inicio esta resenha reiterando dois clichês: um, de ordem geral, a qualidade dos novos autores (quando se pensava que a língua estava em declínio, eis um rol de virtuoses) outro, especificamente, exaltando a fluência narrativa, apesar da densidade da prosa de “A ORAÇÃO DO CARRASCO”, de Itamar Vieira Junior.

Ele gosta de nos levar para o recôndito, quase alegórico em “A floresta do adeus”, uma cerca imensa de arame farpado surge do nada, separando gerações até perder sua aura: “As cercas entortam a cada dia, as pessoas se escoram sem medo, urdindo a queda lenta do que lhes separa, cada ferida aberta no metal vai se tornando parte de cada corpo, então não há importância se todos se ferem, os filetes de sangue deixam os corpos como minúsculas pétalas, petúnias encarnadas florescem na aridez da estrada, na luz morta da Floresta do Adeus”. Infelizmente, após um começo inspirado, Itamar enxerta páginas gratuitas que parecem esboço de um romance.

Também há problemas no conto-título, no qual os primogênitos herdam o oficio de carrascos. Há uma bela litania e depois uma cena brutal de iniciação marcada pelas sombras no solo. A seguir lemos uma mixórdia de proselitismos e filosofismos.

Em compensação “Alma” é um texto irretocável. Conta a fuga de uma escrava, embrenhada no sertão. A cruel ironia é que, malgrado seu nome, acompanhamos seu martírio físico, cada ferida. Em contraste: “Essas coisas boas, essas coisas tristes, nada sai de minha cabeça, vou lembrando as coisas, de cada filho que me levaram, aquele homem era como Inácio velho, Inácio que nunca será velho, ele podia se deitar aqui na tina, para ver se a imagem desse homem que pareceu na crueldade de meus senhores, cheios de rancores quando jogavam pragas ao vento por toda a riqueza que perderam”.

 

04/07/2017

SUGESTÕES DE LEITURAS NAS FÉRIAS

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 04 de julho de 2017)

Este ano marca o cinquentenário de vários clássicos modernos. Aliás, em 1967, o prêmio Nobel descobriu a existência da Guatemala, com a vitória de Miguel Angel Asturias, autor de “O Senhor Presidente”.

“Cem anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez, um dos mais influentes e amados livros de todos os tempos, mistura uma saga familiar com o avanço das multinacionais, o próprio autor colombiano ganhou o Nobel em 1982;

“As Confissões de Nat Turner”, de William Styron, que narra uma violenta revolta de escravos e onde o autor de “A Escolha de Sofia” mostra uma formação religiosa ambígua do negro americano, aliás o romance foi rejeitado pelo movimento negro;

“Ópera dos Mortos”, de Autran Dourado, que traça uma tragédia familiar como alegoria da republica velha nesse país, “Onde Política é ter a Mão na Bosta”, ele forma uma trilogia com “Lucas Procópio” e “Um Cavalheiro de Antigamente”;

“A Brincadeira”, de Milan Kundera, no qual uma brincadeira irreverente em plena ditadura soviética arruína o protagonista, e uma obra-prima;

“Quarup”, de Antônio Calado, um padre cheio de dúvidas se envolve com o problema indígena, eu não gosto do livro mas sou minoria.

 

 

27/06/2017

O QUE TEMER DE CUNHA

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 27 de junho de 2017)

Parece que já temos o livro do ano, infelizmente, a batalha judicial para liberar DIÁRIO DA CADEIA COM TRECHOS NA OBRE INÉDITA IMPEACHNENT: EDUARDO CUNHA (PSEUDÔNIMO), acabou revelando a verdadeira autoria, Ricardo Lísias.

No romance, Cunha está escrevendo “impeachment” onde revela que seu mentor político foi Paulo César Farias, que lhe ensinou a receita da propina: “É verdade, mas eu sempre fui assim, respondi. Sempre gostei muito de trabalhar e fazer arquivos com informações é uma das partes que mais me dão prazer no meu trabalho. Se eu parar de fazer isso aqui, aí é que perco o meu equilíbrio mesmo. Já não tenho a igreja para ir, com exceção das redes sociais, ninguém está respondendo as minhas comunicações.
Nem meus trusts estão ao meu alcance”. Ou seja, o Cunha que conhecemos: chantagista, cabotino, jactancioso.

Há momentos impagáveis (citações bíblicas, uma surra no jornalista Mário Sérgio Conti, palavrões, situações que o leitor de Lísias conhece bem, tiração de sarro do nosso presidente poeta: “Agora, boa noite aos leitores/Nessa vida a gente se afeta/E as coisas nos trazem dores/E então o político vira poeta//Eu pelo menos vou à luta/Já você, Temer, o presidente/É um bom filho da puta/E agora sempre desmente//Mas fizemos muitas reuniões/Para conseguir bastante verba/E você sabia bem as condições/Por fim: sua poesia é uma merda”).

Em contrapartida há uma dimensão patética: o todo poderoso, o ardiloso, começa a sentir o progressivo ostracismo, “nenhum bilhete respondido”, o que Cunha fará? Pois ele vai se tornando um personagem lisianico, perdido entre a linguagem e o caos.

“Michel Temer – Seus limites

  1. Conhecimento de política brasileira – notável
  2. Conhecimento de economia e finanças – notável
  3. Conhecimento de relações interpessoais na política – péssimo
  4. Conhecimento de alma humano – catastrófico
  5. Humildade – inexistente
  6. Conhecimento da palavra de Deus – inexistente
  7. Bondade de capacidade de perdoar – inexistente
  8. Respeito aos valores cristãos – nulo”.

 

30/05/2017

O EMPODERAMENTO DA ESCRITORA: ANDRÉA CATRÓPA

 

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 30 de maio de 2017)

De que universo paralelo e sulfúrico, Andréa Catrópa, trouxe suas histórias curtas, muitas vezes cores e tintas berrantes. Muitas vezes nem sabemos os antessentes que levam os personagens a chegar naquela situação, mas o processo narrativo nos leva de roldão. Essa pane pode ser verificada em contos como “Balcão”, que assim começa: “Não pense que vim aqui confessar perversões ou chorar mágoas. Só vou lhe dizer uma coisa, este é o meu segredo: não vou contar nada. Você deve estar acostumado a ouvir coisas, hein, que até o diabo duvida, não é? Já lhe disseram alguma coisa que de tão suja chegava a ser criminosa? Mas não diga, porque vim aqui para calar”, e termina assim: “No banco giratório de madeira, ajoelhou-se para alcançar o balcão com o pé direito. Quando se deu conta, o barman correu para perto dela, pediu que descesse. Ela deu dois passos para ficar logo abaixo de uma luminária. Parte da louça que aguardava para ser recolhida foi para o chão. Ficar ali no alto, entre cacos de porcelana e cristal, seria perigoso para ela, disse o rapaz. Mas o barulho criou uma interrogação que calou as conversas. Conseguiu a atenção que queria. Limpou a garganta com uma tosse fingida, inspirou o ar tentando alojá-lo o mais fundo possível. Quando todos a olharam, projetou a voz cênica e começou a dizer sua confissão”.

A coletânea SEM SISTEMA (Editora Patuá) apresenta vários contos de textos com essa sensação de curto circuito em duas ou três páginas (destaco “Fobia”, “Trabalha com Cultura” e “Moto Escola”). Mas a poderosa versatilidade de Andréa Catrópa ainda se permite cores mais matizadas, em relatos mais longos, criando microcosmos paranoicos. A obra-prima é “Ouvido Absoluto”, centrado num condomínio: “Não estava doido: é claro que o edifício todo não estaria lhe pregando uma peça. Só algumas pessoas: Dona Neide, Seu Klaus, o Zé, o Victor do 62, a Raquel e a Juliana do 71, o Marcos do 41… Nome assim, aparentemente tão comuns e, por isso mesmo, cobertos com a capa da inocência. Nenhum Judas, Nero ou Salomé. Todos cidadãos com um endereço e com uma profissão. Aparentemente também, idôneos, com uma reputação a zelar. Atraíram Juvenal como aranhas trabalhando juntas para tecer uma teia gigante, invisível… ‘Mas por quê? Querem me matar?’”, (mas também tem o condomínio macabro em “Condomínio Phoenix”)

Contudo, o meu favorito, um soco no estômago, é “Depósito”, no qual uma menina vive dentro de um shopping e, de repente descobre que para manter esse mundo “iluminado” e completamente falso, há todo um subterrâneo de lixo material e humano.

14/03/2017

UM COMENTÁRIO CURTO SOBRE UM LIVRO IMENSO: “TODO NAUFRÁGIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEDAGA”

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 14 de março de 2017)

Na semana passada, comentei o livro de o Naufrágio Entre Amigos, de Eduardo Sabino. Agora, a vez da coletânea de contos, TODO NAUFRÁFIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEGADA (Moinhos), de Marco Severo. Parece que a imagem mais pertinente da nossa civilização em colapso é estarmos naufragando, esse parece ser o Zeitgeist (o espírito de um determinado período histórico).

Mesmo para um leitor experiente, como é o meu caso, foi um assombro a leitura das primeiras páginas de Meio Amargo (não menos prezando o primeiro conto, Selvagem, do qual falarei mais adiante). Senti-me como um jurado do “The Voice”, girando a cadeira logo nas primeiras notas, descobrindo um autor para meu time de leituras prediletas.

Meio Amargo e Plantação abundante em terreno frágil, duas obras-primas, representam a maneira tortuosa e intrincada das narrativas de Marco Severo que lembra a força do primeiro Rubem Fonseca (o A Coleira do Cão) e as histórias da canadense Alice Munro, com os quais compartilha o vezo de transformar um texto curto num mundo em que você fica mergulhado, como se fosse uma série de romance encapsulados, e Plantação abundante em terreno frágil, lembra, com louvor o Nabokov de Fogo Pálido.

Os contos mais breves como o já citado Selvagem também são contundentes: trata-se da história de uma mulher que odeia tanto os elogios que a amiga faz do próprio filho que toma uma medida monstruosa.

Outra obra-prima, Na casa do cordeiro, o lobo anfitrião, lemos: “E se eu for pego? Se eu for, já era, me mato. Não se espante, porque eu sou você também. Você sou eu reprimido. Eu ganho a confiança pra montar minha armadilha. Eu faço os outros enxergarem o que eles gostariam de ver no mundo, naqueles poucos segundos entre o entrar no meu carro e o ficar do lado de fora. É um dom. O que nos difere é que eu desenvolvi, você não. Não pense que você é melhor do eu porque nunca matou ninguém. Você também é um predado. Nunca se esqueça, meu caro, que o cordeiro é também o caçador”. E em Plantação abundante em terreno frágil, vemos nitidamente o auto engano que justifica o comportamento dos protagonistas de Marco Severo: “Pouco me importa o que você vai pensar de mim. É a minha versão da verdade. E é com essa verdade que eu vou morrer, ainda que ninguém acredite”.

Os 20 contos de TODO NAUFRÁGIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEGADA, que compõem um dos livros fundamentais da nossa época.

07/03/2017

DOS LIVROS HÍBRIDOS E DAS GERAÇÕES EM TRANSIÇÃO: Naufrágio Entre Amigos, Eduardo Sabino

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 7 de março de 2017)

Como é bom constatar que os jovens escritores recuperaram o prazer da narrativa (não menosprezando a prosa experimental, também um rico filão). Sejam autores que captam a insubstancialidade da pós-modernidade, sejam autores mais comprometidos com o mundo concreto, todos poderiam ter como música de fundo os versos cantados por Maria Bethânia: “Ou feia ou bonita/Ninguém acredita na vida real”. Por isso, no frigir dos ovos, a ficção sempre triunfa.

É o caso do ótimo NAUFRÁGIO ENTRE AMIGOS (Patuá), de Eduardo Sabino. Ele resgata o romance de geração (na verdade, trata-se de um livro de contos, porém, eu o considero uma obra híbrida, uma espécie de romance-móbile), aquela que sofreu a transição (para a qual os games contribuíram de forma decisiva) até a supremacia do mundo virtual e digital.

Na primeira parte do livro, Sabino narra uma infância ainda à antiga, onde o universo da meninada ainda era o mundo fechado em si mesmo (no caso, a cidade mineira de Nova Lima), apesar dos vislumbres dos conflitos entre os adultos e do “pensamento mágico”, envolvendo assombrações e aparições sobrenaturais, muito comuns no imaginário provinciano.

No meio do livro, já longe da terra natal, Eduardo, o narrador, se perde nos equívocos relacionamentos através da internet, apaixonando-se por uma poetisa, a qual não passa de um avatar de um professor maluco, criador de vários perfis “fakes” assistimos o final da infância e o naufrágio do mundo adulto.

A partir daí NAUFRÁGIO ENTRE AMIGOS torna-se um arquipélago (um tanto irregular, a meu ver) a segunda fase da sua adolescência em Nova Lima, através das histórias de seus amigos (os quais naufragaram na rotina e no comodismo; a própria cidade naufraga com a aparição de misteriosos buracos); em contrapartida, a descoberta do mundo além da escola e da família, marcando bem o repertório de signos que representaram a mudança radical entre duas gerações. Sutilmente, ele também registra o autoritarismo remanescente da ditadura militar como vemos na cruel caracterização dos professores: “Talvez seja melhor escrever uma enciclopédia dos educadores ruins. Organizá-los por filos, famílias, nomenclaturas. Mas estre cheiro de giz, esta falação no corredor, as paredes de tijolinhos ao redor, tudo isto vai me dando receio de ficar aqui pra sempre. Melhor ir logo ao diabo”. Como não naufragar com uma formação dessas?

14/02/2017

A LITERATURA LÍQUIDA DE VLADEMIR LAZO

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de fevereiro de 2017)

“Em repouso os próprios pensamentos. Indagava como encontrar minha amiga, entretanto, preferindo não tecer mais considerações, deixando apenas para quando chegar ao balneário colocar em prática o imprescindível para revê-la… Mas é a paisagem, imperecível, transformada ou não pelo homem, a única que permanece, não sai do lugar (ou será a gente que ocupa esse desígnio?), se atribui dona de um espaço no qual transitamos de passagem, igual turistas cruzando céleres ou passivos essa faixa de terra que pode ser a rua em que moramos ou o mundo inteiro”.

O trecho acima aparece no notável capítulo 8 de GOTAS NO ASFALTO (Penalux) (que comentei na semana passada, sob outra perspectiva), o qual é um representante da “literatura líquida” (para utilizar a metáfora de Bauman sobre a nossa época): no nosso tempo, as relações virtuais preponderam sobre o contato físico, as experiências são aleatórias e desconexas.

Nesse capítulo, o narrador se propõe a sair do quarto do hotel para viver um dia “ensolarado”, esperando o encontro com Alice, com quem mantivera uma intensa ligação pelas redes sociais, mas ao fazer questão de conhecê-la, passou dias e noites frustrantes. Ao esperá-la no capítulo 8 na verdade é uma finalidade ilusória. Ele se perde na multidão que frequenta a praia e seus arredores, andando durante horas, numa espécie de “plenitude do vazio”, tendo em mente pequenos irrisórios objetivos, como comprar objetos e utensílios que nunca chagará a adquiri (e mesmo que o fizesse, nunca faria proveito deles).

Temos o epítome da literatura líquida: o mundo (com sua paisagem natural e sua paisagem humana) está à nossa frente, mas revela-se insubstancial, uma sucessão de horas a serem preenchidas. Vejam como ele relata a chegada de Alice: “Alice reparou que a observo, toda vez que se vira enquanto prosseguia recuando ou avançando mar a dentro, e hoje eu sei que no fundo meu encantamento era tanto uma contemplação carnal quanto um raro momento em que desfrutava daquela paz terrena que compartilhava com ela”. Enfim, uma errância (só ou acompanhado) desprovida de sentido.

O curioso é que no Alto Modernismo, autores como Samuel Becaett, chegaram a destruir todos os alicerces narrativos, desde o enredo até a identidade dos personagens, de maneira radical, tornando a leitura árdua e árida para o leitor comum. Bem ao contrário dessa radicalidade, os autores da literatura líquida, voltaram a exercitar a narrativa de feitio tradicional, de fácil leitura (não confundir com leitura fácil). Portanto, Vlademir Lazo nos conta um relato. Só não sabemos para que. O que não deixa dúvida é o sólido talento do autor gaúcho.

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07/02/2017

UM OLHAR SUSPEITOSO SOBRE O MUNDO: Gotas no Asfalto de Vlademir Lazo

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 07 de fevereiro de 2017)

A Alice de Lewis Carroll, aquela que visitou o país das maravilhas e atravessou o espelho, adquirindo tamanhos diversos que muitas vezes não cabiam com o ambiente ao seu redor, e questionando as regras arbitrárias e/ou ilógicas do mundo adulto, tornou-se um arquétipo e várias narrativas contemporâneas.

É o caso do romance de estreia de Vlademir Lazo, GOTAS NO ASFALTO (Penalux). Começamos a acompanhar a história do “casal” Júlio e Alice perambulando pelos dois lados da fronteira entre o Brasil e o Uruguai, com o objetivo de comprar remédios que funcionam como drogas, sem receita médica (sai como personagem de Bukowski, um autor que todos adoram, menos eu). Júlio, o narrador, passa a contar intensa pré-história desse “encontro”, durante anos nas redes sociais, quando Júlio alimenta a ideia fixa de conhecer pessoalmente Alice, a qual flerta com ele, faz sexo virtual, foge, desaparecendo dos seus contatos, até finalmente ceder, marcando um encontro na fronteira com o Uruguai.

Mesmo dividindo o mesmo quarto de hotel, a intimidade das relações virtuais nunca é alcançada. Alice arrasta Júlio em noitadas frustrantes e sempre em lugares límbicos, impessoais: rodoviárias, hotéis, bares, praças, numa perambulação errática, onde as confidências são rançosas. É como se “O Lado Bom da Vida”, livro e filme, fosse contado por um João Gilberto Noll ou um Juan Calos Onetti.

“Ando de um lado ao outro da minúscula estação, a mochila nas costas e a tiracolo a bolsa, com minhas roupas, que me servia de bagagem. Ignorei as fileiras de cadeiras velhas de plástico. Comprara roupas novas para me proporcionar um aspecto apresentável. Você compra dez peças diferentes de roupa, mas sente vontade de continuar usando as mesmas velhas de sempre. Uma segunda pele que, ao invés de cobrir, mantém desnudo como a não ocultar quem somos, sem trajes ou fantasias”.

Disfuncionalidade (com relação às regras da sociedade), autoimagem dilacerada (quando não se cabe no mundo), um olhar suspeitoso sobre tudo e todos, eis os ingredientes amargos, mas transformados por Vlademir Lazo num poderoso e denso romance.

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