MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/01/2017

ZYGMUNT BAUMAN E A “EMANCIPAÇÃO” INDIVIDUAL

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(Uma versão da resenha abaixo, foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de janeiro de 2017)

E foi-se, na semana passada, o polonês Zygmunt Bauman (1925 – 2017). Apesar de se repetir em sua prolifica (alguns dirão, excessiva) obra, subestimado por muitos, eu o considero um pensador fundamental, principalmente por sua “Magnum opus” MODERNIDADE LÍQUIDA (ZAHAR) (2000), transcendendo em muito sua área de especialização, a sociologia, chegou à confusão do fracasso de organizar o mundo simetricamente ao conhecimento. Isso acontecia porque na modernidade a ética estava “no inverno”. Devido à sua preocupação com a eficácia, a administração da vida, a modernidade deixou recuar cada vez mais a consciência moral.

O momento em que foi publicado (na virada do milênio) também não podia ser mais oportuno. No prefácio ele afirma que “fluidez” e “liquidez” são as metáforas apropriadas para captar a natureza da presente fase da modernidade. Estamos na fase do depois do “tudo que é sólido se desmancha no ar”. A partir dessa constatação, ele analisa cinco grandes categorias afetadas por essa “liquidez”: emancipação, individualidade, tempo-espaço, trabalho comunidade.

Queremos a liberdade de fato? As pessoas podem estar satisfeitas com o que lhes cabe, mesmo que o que lhes cabe esteja longe de ser “objetivamente” satisfatório e o fracasso do socialismo não ajuda muito a aspirar um “objetivamente” satisfatório que seja alternativa válida para a sociedade de consumo. Fato: As pessoas gostam de padrões e rotinas. Eles nos poupam da agonia, do vácuo da escolha, no sentido mais radical da palavra: graças à monotonia e à regularidade de modos de conduta recomendados, para os quais fomos treinadas, sabemos como proceder na maior parte do tempo e raramente somos encontrados em (e por) situações sem sinalização. A ausência, ou a mera falta de clareza, das normas, é o pior que pode acontecer às pessoas em sua luta para dar conta dos afazeres da vida. Não seria esse o fardo, o fundo de angústia da nossa atual condição, “líquida”?

A vida líquida ainda não atingiu os extremos que a fariam sem sentido, mas a corrosão das crenças, instituições e valores já causou muito dano, e todas as futuras ferramentas da certeza, inclusive as novíssimas rotinas (que provavelmente não durarão o suficiente para se tornarem hábitos) não poderão ser mais que muletas.

Tudo agora é encontrado “dentro do indivíduo”, já que não há instituições críveis ou instâncias seguras. A liberdade concebível e possível de alcançar já foi alcançada: é o indivíduo que segue seu próprio norte (dentro do raio de ação do capitalismo global e da sociedade de consumo, bem entendido). Homens e mulheres dos países desenvolvidos são inteira e verdadeiramente livres, e assim, a agenda da libertação está praticamente esgotada. As instituições sociais estão mais que dispostas a deixar à iniciativa individual, o cuidado com as definições e identidades, e os princípios universais contra os quais se rebelar estão em falta. Aliás, vivemos um tipo de sociedade que não mais reconhece qualquer alternativa para si mesma.

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10/01/2017

OS “TIOZÕES” DE LUIZ ROBERTO GUEDES

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em 10 de janeiro de 2017 em A TRIBUNA de Santos)

Luiz Roberto Guedes (que acostuma utilizar o pseudônimo de Paulo Flexa, pois é um artista multimídia) reuniu em MISS TATTO – UMA QUASE NOVELA (Jovens escribas), quinze textos, nos quais faz uma “poética do tiozão”, uma taxonomia que abrange desde tipos “descolados” (que circulam pela noite e modismo) até tipos introspectivos, todos eles voltados nostalgicamente para os anos 1980; inclusive muitos trechos de canções da época são citados.

“Ele soltou um suspiro, inconformado. Toda sua vida tinha sido pressionado por mulheres fortes, imperiosas, autoritárias. A mãe, as professoras, as diretoras de escola, a xerife Latorre. Será que Luísa teria se tornado assim tão rígida, se tivesse vivido o bastante?
O acordo tácito permanecia em vigência. Késia continuou frequentando sua cama e voltando para seu próprio quarto, logo que ele dormia. O marmanjo retardado não tinha batido mais em sua porta, sua mãe estava se recuperando bem, e ele desfrutava de um sossego entorpecente, mas que sabia temporário”. Essa passagem (de “Késia com K”, um dos meus favoritos do livro) faz parte da história de um professor sessentão que oferece carona e moradia para uma ninfeta, enfrentando a família, a empregada e a sindica; sua carência infelizmente não tem reciprocidade: a garota foge com um skatista (noutro registro, temos uma situação similar em “Primeiro esboço de Heloísa”, um conto simplesmente brilhante).

Não falta sequer um Mr. Kurtz chanchadesco e reichiano, em “Cibele, si belle”.

No conto-título, o narrador é chamado pelo pai milionário de uma patricinha, a qual deseja tornar-se uma nova Xuxa ou Angélica. O produtor musical veterano e a menina se envolve, mas surgem em cena Miss tatto, seduzindo o produtor, que depois terá uma surpresa com relação a suas estrelas.

É incrível a leveza da prosa de Luiz Roberto Guedes. Ele escreve como um autor policial norte-americano. Entretanto, é uma falsa leveza, ainda que o leitor ache tudo fluente, jocoso e mordaz. Deve-se prestar atenção ao uso variado do foco narrativo: além da primeira e terceira pessoa, há contos que usam a segunda: caso “A garota do Café Barão”: “Garota esperta. Trata por doutor a todo engravatado que circula neste quadrilátero do fórum. Caminhando para o escritório, você aprecia as mulheres da manhã ensolarada. Ó Deus, lá vem uma negra alta, atlética, numa calça-bailarina justíssima, azul-elétrico: o púbis glorioso ressalta das coxas exuberantes. Nigra et formosa. Rainha de Sabá coroada de trancinhas. Você volta rapidamente a cabeça para admirar a bunda suntuosa”.

É amargura no fundo do riso, é o ácido no suco da laranjeira.

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05/01/2017

Destaques Literários de 2016

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de janeiro de 2017)

Como sempre, alerto, não dá para ler tudo e gostar de tudo. Na minha opinião, esses foram os melhores de 2016. A ordem, após o livro do ano, não é de hierarquia, e sim por sobrenomes dos autores, e peço desculpas pelos comentários genéricos:

Livro do Ano: A DEFINIÇÃO DO AMOR, Jorge Reis-Sá (Tordsilhas): surpreendente romance português, no qual um fato real que parece ficção (uma mulher mantida viva por aparelhos por causa da gravidez) ganha uma dimensão literária, sem resvalar para o dramalhão ou para sensacionalismo. É um exemplo maravilhoso de “romance com temática”, que muitos desdenham, mas eu, da minha parte, adoro, como é o caso dos romances de Lional Shriver, e de REBENTAR, de Rafael Gallo.

Também se destacaram:

AS HORAS, Alex Andrade, Penalux: Personagem tentando enfrentar a solidão e o abandono, numa coletânea de contos que mostra a evolução do autor carioca;

LITURGIA DO FIM, Marilia Arnaud, Tordsilhas: Um confronto com o passado resulta num dos romances mais lindos dos últimos tempos, em linguagem e densidade;

PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO, Maria Carolina de Bonis, Patuá: A poesia atual em pleno vigor, como, de resto todos os gêneros;

O INSTANTE-QUASE, Juliana Diniz, 7Letras: O melhor livro de contos de 2016, simplesmente brilhante;

ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS, Iacyr Anderson Freitas, Escrituras: O leitor ri e chora com as mazelas do corpo em relação ao “espírito”;

ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA, Cristina Judar, Reformatório: Uma Alice pós-moderna nos levando para uma assustadora hiper-realidade;

O TRIBUNAL DA QUINTA-FEIRA, Michel Laub, Companhia das Letras: Excelente romance onde um dos melhores autores brasileiros da atualidade mostra o impacto de certos eventos na sua geração. A ele se aplicam as palavras de Joan Didion: “ninguém está isento do movimento geral”;

A VISTA PARTICULAR, Ricardo Lísias, Alfaguara: A exuberância criativa do autor, transforma um artista “distraído” num arauto da sociedade do espetáculo. Genial;

GALVEIAS, José Luís Peixoto, Companhia das Letras: O grande escritor português e seu romance mais intrigante, sempre mostrando o “atraso” na vida rural de seu país;

AMORA, Natalia Borges Polesso, Não Editora: Premiada coletânea de contos que giram em torno do lesbianismo, porém vão muito além da temática;

OUTROS CANTOS, Maria Valéria Rezende, Alfaguara: Talvez a obra-prima da autora sobrepondo vários estágios da sua vida e do sertão;

O SOL VINHA DESCALÇO, Eduardo Rosal, Reformatório: O melhor livro de poemas de 2016;

COMO SE ESTIVÉSSEMOS EM PALIMPSESTO DE PUTAS, Elvira Vigna, Companhia das Letras: Mais um acachapante livro dá mais genial autora da atualidade;

FALSO TRAJETO, Fabio Weintraub, Patuá: Uma poesia que parece opaca exigindo várias releituras, que a tornam fascinante;

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20/12/2016

SUGESTÕES DE LIVROS PARA O NATAL

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(Uma versão da resenha abaixo, foi publicado originalmente em A TRIBUNA de Santos em 20 de dezembro de 2016)

AS HORAS, Alex Andrade, Penalux: Personagem tentando enfrentar a solidão e o abandono, numa coletânea de contos que mostra a evolução do autor carioca;
LITURGIA DO FIM, Marilia Arnaud, Tordsilhas: Um confronto com o passado resulta num dos romances mais lindos dos últimos tempos, em linguagem e densidade;

PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO, Maria Carolina de Bonis, Patuá: A poesia atual em pleno vigor, como, de resto todos os gêneros;

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A UTÓPICA TERESEVILE, André Jorge Catalan Casagrande, Garimpo: Romance que revela um episódio histórico praticamente desconhecido;

O INSTANTE-QUASE, Juliana Diniz, 7Letras: O melhor livro de contos de 2016, simplesmente brilhante;

ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS, Iacyr Anderson Freitas, Escrituras: O leitor ri e chora com as mazelas do corpo em relação ao “espírito”;

ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA, Cristina Judar, Reformatório: Uma Alice pós-moderna nos levando para uma assustadora hiper-realidade;

A VISTA PARTICULAR, Ricardo Lísias, Alfaguara: A exuberância criativa do autor, transforma um artista “distraído” num arauto da sociedade do espetáculo. Genial;

GALVEIAS, José Luís Peixoto, Companhia de Letras: O grande escritor português e seu romance mais intrigante, sempre mostrando o “atraso” na vida rural de seu país;

AMORA, Natalia Borges Polesso, Não Editora: Premiada coletânea de contos que giram em torno do lesbianismo, porém vão muito além da temática;

OUTROS CANTOS, Maria Valéria Rezende, Alfaguara: Talvez a obra-prima da autora sobrepondo vários estágios da sua vida e do sertão;

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VÉSPERA DE LUA, Rosângela Vieira Rocha, Penalux: Romance de 1989, pioneiro de muitas práticas da atualidade;

O SOL VINHA DESCALÇO, Eduardo Rosal, Reformatório: O melhor livro de poemas de 2016;

COMO SE ESTIVÉSSEMOS em Palimpsesto de Putas, Elvira Vigna, Companhia de Letra: Simplesmente, o livro do ano, sem nenhuma chance para qualquer outro;

FALSO TRAJETO, Fabio Weintraub, Patuá: Uma poesia que parece opaca exigindo várias releituras, que a tornam fascinante;

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13/12/2016

OS NOVOS TRUQUES DA CARTOLA DE ALEX ANDRADE

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente no jornal A TRIBUNA de Santos em 13 de dezembro de 2016)

Em Amores, Truques e outras versões, Alex Andrade contava aventuras e uma procura incessante de amores baseado na quantidade e multiplicidade, ressaltando a mesma insatisfação. Gostei muito da coletânea, mas fiquei preocupado de que ele ficasse restrito ao universo homoafetivo.

AS HORAS (Penalux), então, aparece para dissipar qualquer dúvida sobre o seu talento, pois é um livro que vai em diversas direções. Lendo com atenção percebe-se uma linha contínua entre os contos: dessa vez, são casais nos quais um elemento é mais fraco e vulnerável que o outro; são homens e mulheres à espera do amado (a) chegando às raias da insanidade, da necrofilia mesmo uma velhinha quase octogenária ainda sonha em viver um grande amor: “A velha abriu a boca em xingamento e começou a chorar. E era um choro bobo, manso e inútil. Chorava feito criança. E fazia algum tempo que não chorava assim, e lembrou-se de que há muito tempo não fazia quase nada, não tinha sequer vontade de fazer alguma coisa. E percebeu que o tempo passara depressa. Mas ocorre que precisava urgentemente acreditar que poderia fazer tudo o que não pôde. E que mesmo com a idade que tinha necessitava perigosamente amar”. (“Tá vendo o dia lá fora?”).

Emblemático na coletânea é o seu texto mais longo e ambicioso “Eu não amava Rolling Stones à toa”, onde o abandono por parti da esposa espelha o da mãe do protagonista num fluxo incessante de nostalgia, alucinação, mal-estar físico e solicitações da realidade (a síndica do prédio). No momento brilhante!

Outro ponto alto é Poema, no qual a protagonista que dá o título é uma descendente legítima dá Macabea de Clarice Lispector (mas também me lembrou o mundo de José Luiz Peixoto, onde o personagem-título se chamava Livro) sem que o autor perca sua marca pessoal, e talvez tenha escrito um texto mais bonito de sua carreira até agora.

O único senão a pontar em AS HORAS são escorregadas vez em quando num tom de autoajuda ou de filosofia de botequim: por exemplo: “A velha trave testemunha de tantos gols, o grito dos meninos, Ruth cantando e arrastando a barra da saía ou do vestido, o que fosse, o menino que jamais conheceu, todas essas memórias, a solidão de ser quem jamais sonhou, o tempo, a incerteza de saber se seria infeliz ou se ainda poderia sonhar. E não há nada que se possa fazer. Eis a vida que escorre como se as comportas estivessem abertas para a água escapar. Transbordando tudo” (“Tempo”). Estivesse na primeira pessoa, seria perdoável e coerente, jamais na terceira pessoa.

Ainda assim, considero Alex Andrade um autor já plenamente maduro. Espero novos truques de sua cartola.

 

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25/10/2016

A Perigosa Poesia Movediça de Maria Carolina de Bonis: “Passoa ao Redor do Teu Canto”

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de outubro de 2016)

Levei um susto quando li os primeiros versos de PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO (Editora Patuá): “Entrar no teatro pelas portas dos fundos/Esperar até que cortinas se fechem/Sentar-se numa cadeira detrás do palco/Baixar os olhos e soletrar um verso/Heroico com as formas de adeus”.  Pareceu-me algo decalcado do universo da grande Wisława Szymborska, Nobel de 1996, bastante em voga por aqui, pelo menos nas redes sociais (daqui a pouco, provavelmente surgirão os apócrifos).

Mas era um equívoco, pois Maria Carolina de Bonis apresenta uma voz poética muito própria, exercitando uma poesia “entre duas portas”; (“É cíclico o caminho”; o título já indica esse movimento). Ela parte de um estar-no-mundo, na casa, dos móveis, enfim nas coisas, regredindo a estágios minerais e vegetais, procurando “a origem ágrafa”: (“Chega a hora de nos tornarmos eternos/Como se fosse estranho envelhecermos”); são muitas as imagens de florestas, semeadora, colheita, algas, pedras, grutas, e às vezes temos uma impressão de imagens que se colidem desarmonicamente. Também é preocupante esse “olhar de exílio”, com que dispensa as camadas mais próximas da realidade: (“Vivo/onde as moscas contornam/minha ausência”).

Ao final de PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO, nos damos  conta de que ele foi pensado não como reunião de poemas, e sim como um livro, o que absorve todas as supostas desarmonias; além disso quanto ao exílio, um diálogo latente perpassa todos os poemas, e ela nos sugere que margens, contornos, estão para ser transbordados e extrapolados: “Sou o contorno do testamento das pátrias/O desterro gutural dos nômades/Gruta movediça que nem em pedra cristaliza/O opaco do chão de terra batida//E uma aldeia para que pudesse inaugurar/Os lugares onde não estou/Soa além do contorno do cão/A invenção da sinceridade”.

Portanto, temos um contra-dizer: “Dizer está sempre fora do que dizemos/o ato se reproduz em deslocamentos/volta antes e me encontro depois/a língua se desdobra fora do contorno ao redor/dos teus lábios lentamente ao redor da sala meus passos”; ou ainda: “Eu não sou o que digo/Mas é como se fosse”; mais um exemplo: “A ida será um regresso/Desse lado, avesso/Do traço em linhas do excesso//Os contornos da carne/Habitando os limites do corpo/O gozo da terra/Teu corpo, agora/Nos guizos do vento”.

Uma das viagens literárias mais interessantes dos últimos tempos é acompanhar Maria Carolina de Bonis, em suas aventuras “Dos fios que se perdem dos fios/Que se atam”.  Tomara que o fio que seguirmos não nos leve para as conclusões inquietantes de Teu retrato: “Hoje meu espelho está vazio//Apanha-me em relances/Conjuga-me em silêncio/E soletra as placentas recolhidas//Ao canto do deserto/Na mesma margem/Que caminha a/Semelhança secando/Meus contornos”.

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04/10/2016

“O Sol Vinha Descalço”: O óbvio e o raro na poesia de Eduardo Rosal

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente no jornal A TRIBUNA de Santos, em 04 de outubro de 2016)

Como conhecer Deus/e participar da vida? ”. Geralmente, tenho um pé atrás com poesias sobre uma genérica condição humana, desatrelada das contingências, da nossa “situação” especifica no mundo. Por isso, foi uma imensa surpresa a leitura de O SOL VINHA DESCALÇO (Editora Reformatório), de Eduardo Rosal, que recupera o teor meditativo e metafisico de uma Hilda Hilst ou de um Carlos Nejar (para mim, o maior poeta brasileiro vivo); não esquecendo Adélia Prado (só que ela trabalha mais explicitamente com signos do catolicismo ligados às contingências do cotidiano).

Rosal utiliza o verso interrogativo, perseguindo os rastros de Deus e o porquê do nosso existir. É a parte mais marcante da sua coletânea: “Somos solitários míopes/mendigando o mesmo espelho?/o mesmo espectro? ”. O ponto alto dessa interrogação incessante é o poema Deuses do qual tirei os versos que abrem esta resenha. Em todos, o mesmo objetivo obsessivo: “viajar de volta/ao fim/tão bem desconhecido”. Ou seja, uma viagem sem mapas pela galáxia da finitude do ser (para lembrar o saudoso Léo Gilson Ribeiro): “Nem onde/nem sina”.

Outra vertente muito cara ao modernismo em geral, e que poderia cair na banalidade epigonal, é a exploração da memória afetiva, especialmente da infância. Mesmo aí, O SOL VINHA DESCALÇO demonstra grande força imagética: “A memória é uma ilha/cercada de futuros”. Sol, sombra, fumaça, são invólucros para o exercício de rememoração, além do confronto com a divindade que nos marca com a morte: “A terra na mão/o menino brinca/gerações/e gerações/o silêncio/sabe de cor//Terra—/memória/que não esqueço/de apertar”. O menino tenta segurar os seus bens humanos diante do fato estrondoso de que somos irremediavelmente efêmeros: “Há um deus que/me persegue/com a morte no calcanhar/numa esquina qualquer/desiste/sem curvar a espinha/ao medo/me deixa passar/cede minha vez/a outro deus/(ou me ama?)”; ou ainda: “Para retornar ao pó/é preciso ser carne//O menino talvez tenha lido ou escutado//Guardou bem”.

Eduardo Rosal, apesar de jogos de palavras bastantes eficazes (“Amor—ternura política”, vejam que achado genial!), pratica uma poesia do “significado”, embora hoje em dia ainda se valoriza mais a poesia do “significante”, por conseguinte é maior ainda o seu feito: “Ser só/este rascunho/de fracasso?/um terraço/onde o sol não bate?”.

Que não se enganem: sou todos//Nenhuma mudança me alcança/mas sou sempre outro//”, versos que lembram Fernando Pessoa. Mas com Eduardo Rosal é assim: mesmo lembrando outros poetas, ele se mantêm inteiramente pessoal, equilibrando apaixonadamente o óbvio e o raro: “Talhar o que escapa/inscreve o risco?/É óbvio e raro?//Ao passo que emerge/foge? E pressente/o passado?//Natimortos, vingamos/nas imagens – voláteis?/Depois da morte?//A fumaça se escreve/à nossa imagem/e semelhança?”.

O SOL VINHA DESCALÇO é um dos melhores livros deste início de século.

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20/09/2016

Um romance histórico necessário para os dias de hoje: “A Utópica Teresevile”

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de setembro de 2016)

Em pleno recrudescimento da intolerância, do preconceito, do retrocesso e da truculência, recomendo enfaticamente a leitura de A UTÓPICA TERESEVILE: baseado em fatos reais (não que isso seja uma virtude), o romance de André Jorge Catalan Casagrande narra uma experiência de socialismo utópico (sem as extravagancias de pensadores como Fourier) levada a cabo pelo médico francês Jean Maurice Fraive, com a anuência de Dom Pedro II e sua esposa, Tereza Cristina, num Paraná ainda não desbravado, quase despovoado. Teresevile seria uma comunidade onde vigoraria igualdade absolutas entre raças, sexos, com todo mundo trabalhando em prol de todos, usufruindo dos lucros.

O autor insere na história da colônia a trajetória de Raimundo, escravo que ganha a liberdade, graças ao doutor Faivre. Mas, aí percebemos que nessa sociedade igualitária, nem todos são tradados igualmente, Raimundo não é aceito pelos membros de Teresevile, quase todos franceses e preconceituosos quanto à cor de pele. Ele acaba se unindo a um quilombo que se instalou na região. Pior ainda, ele tem a experiência dolorosa de constatar a intolerância de sua própria gente, a qual rejeita sua esposa, Alice, por ser branca, acarretando uma tragédia.

Apesar do estilo ser bem claro, há uma sutil polifonia narrativa que Casagrande poderia até explorar com mais ousadia e riqueza, pois o resultado é tímido, o que é perfeitamente aceitável num primeiro romance. O que me incomoda em A UTÓPICA TERESEVILE é o esquematismo dos personagens que empobrece as relações e os conflitos pessoais e ideológicos, tornando previsível o desenrolar da trama, mesmo assim enriquecida por lendas de origem africana e indígena.

Ao fim e ao cabo, é um livro – se não totalmente realizado – fecundo em ideias, temas ainda presentes, ao resgatar um fato histórico que coloca em discussão o que é realmente civilização: “Minha única exigência às dezenas de famílias que assentei em Tereza Cristina era de que usassem da mesma misericórdia que tive para com eles, com outros miseráveis quando houvesse possibilidade e recursos. A esperança de que a benevolência se alastrasse pela face da terra é que me motivava – a despeito de tudo – a lutar por uma civilização mais igualitária, onde todos pudessem ser felizes desfrutando dos frutos oriundos de seu próprio labor”.

Em tempo: o historiador Josué Corrêa Fernandes pesquisou a colônia Tereza Cristina, resultando na obra Saga da Esperança: Uma Utopia Socialista à Beira do Ivaí, publicada pela Imprensa Oficial do Estado, em 2006.

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13/09/2016

Juliana Diniz e a permanência de um instante na ausência da palavra: “O Instante-Quase”

 

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de setembro de 2016)

 

A expressão que dá título à coletânea (doze relatos com nomes de mulheres) O INSTANTE-QUASE (Editora 7Letras) já aparece no texto de abertura “Lúcia”, mas é emblematizada em “Lindalva”: uma noiva abandonada que percebe que a vida não passa, apesar da sua complexidade, de um “uni duni tê” de afetos e de escolhas (“O pai começa a recolher os restos de tecido em silêncio, sem perturbar o transe religioso da filha, atento ao olhar vidrado de Lindalva que destrói, ponto a ponto, sem dó ou indecisão, com golpes metálicos de tesoura, a lembrança tátil de um vislumbre de vida”). Por tanto, o admirável livro de estreia da cearense Juliana Diniz nos oferece um painel em que a sombra do que poderia ter sido paira sobre o que é.

Até nos estratos mais miseráveis da sociedade, ela vasculha as alternativas da existência. Um dos pontos altos de O INSTANTE-QUASE, “Perpétua”, é a história de uma mulher oriunda do sertão mais castigado pela seca que vai morar com o marido nas palafitas de Manaus, cercada pelo rio imenso e a mata (“Deu-se conta que a morte poderia acontecer de um susto, sem que aquele mundo farto de tanta vida notasse que ela deixou de existir”).

Juliana Diniz trabalha tanto com o realismo direto, quanto com o alusivo, o onírico (há um imaginário písceo explorado em “Perpétua” e em “Natália”, o qual se passa em outra classe social), o alegórico. Ou seja, ela sabe urdir “estórias” e também encontrar a linguagem lapidar para cada uma delas (só duas me passaram a sensação de fracas, mal desenvolvidas: “Gabriela” e “Marina”; em compensação temos momentos excepcionais como “Maria”, “Hilda” e “Olívia”: “Observo a janela aberta para o vazio e percebo que restamos apenas nós neste quarto estranho e sem lembranças, encastelados, quase desistentes, quase amantes, construindo a permanência de um instante na ausência da palavra”). Suas ficções curtas são tão caleidoscópicas que parecem romances encapsulados, na mesma linha de um mestre no gênero, a canadense Alice Munro (Nobel de literatura de 2013).

Um dos aspectos mais impressionantes dessa sabedoria textual numa autora tão jovem é a mistura que faz do arcaico, do recôndito, com os signos da modernidade: por exemplo, em “Lúcia” – conto no qual uma filha descobre a vida alternativa que a mãe poderia ter tido com o dono de um casarão antigo e aristocrático –; ou então em “Auxiliadora”, cuja protagonista é uma beata que se escandaliza ao descobrir que o juiz a quem serve fielmente durante décadas utiliza chats eróticos durante o expediente e encomenda viagra para seus encontros com uma fogosa amante (Auxiliadora planejará uma terrível vingança, trocando as pílulas de viagra por pílulas para pressão).

O Ceará já conta com contistas de peso, como Pedro Salgueiro, Tércia Montenegro e Raymundo Netto. Agora Juliana Diniz com sua prosa avassaladora vem mostrar aos pessimistas de plantão, sempre anunciando a morte da literatura, que a ficção está mais viva do que nunca. Nosso panorama literário encontra-se em ótimo momento e provavelmente ela será uma das suas principais figuras.

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06/09/2016

Matheus Arcaro e “o nada sem caroço”: O LADO IMÓVEL DO TEMPO

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 (A resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de setembro de 2016)

Em seu romance de estreia, o jovem Matheus Arcaro (cujo livro de contos, Violeta Velha e Outras Flores, critiquei duramente nesta coluna pela falta de uma personalidade autoral com contornos definidos), ousa um formatado filosófico – usando sua formação na área – muito pouco praticado por aqui. Não que isso seja problema. Basta lembrar da junção entre filosofia e fabulação em A Náusea (1938), de Sartre, e de O Agressor (1943), de Rosário Fusco. Isso sem contar a ficção de tendência cristã que formou um verdadeiro subgênero da prosa, de Dostoievski a Gustavo Corção (autor de Lições do Abismo), com sua temática de culpa e expiação.

O LADO IMÓVEL DO TEMPO (publicado pela Patuá) provavelmente ficará como um romance de exceção como os de Fusco e de Corção. Ele trata da eternidade e da angustia da finitude sem significado: Salvador dos Santos aos 70 anos resolve tornar-se um assassino em série a fim de ficar para a posteridade, após uma vida caracterizada pela esposa que o abandonou (após o fracasso de suas tentativas como poeta) por uma “aura insossa”. Infelizmente, mesmo com a breve celebridade por causa de cinco assassinatos, Salvador da eternidade só sente “o nada sem caroço”, “poderia muito bem dizer que fiz o que fiz porque fui um títere nas mãos do fracasso”.

Livro singular, O LADO IMÓVEL DO TEMPO é uma ótima narrativa, chegando a momentos extraordinários como a cena em que Salvador, ainda criança, contempla-se no espelho do guarda-roupa tomando consciência da própria identidade e do seu corpo. Também é um despertar erótico, apesar do clima repressivo de sua casa (o pai é pastor religioso e despreza o filho).

Malgrado sua qualidade como narrativa e linguagem (muito trabalhada), não acho totalmente convincentes considerações filosóficas coladas à percepção de Salvador porque o personagem não tem estatura para absorvê-las e, como o autor confunde o foco narrativo (aliás, com admirável habilidade) dá uma sensação forçada várias vezes.

Esse não é, para mim, o aspecto mais problemático do romance. Minhas restrições quanto a Violeta Velha e Outras Flores residiam na linguagem afetada e decorativa, com imagens e metáforas gratuitas e sem substancia literária. O talentoso autor incide no mesmo erro, principalmente nas primeiras páginas (“Salvador ergueu o jornal a um palmo das pupilas”, por exemplo). Tenho consciência de que essa minha implicância com uma linguagem “abonitada” representa uma idiossincrasia, e que outros leitores podem se apaixonar pela obra de Arcaro justamente por esse uso da prosa. Questão de gosto.

O inegável, porém, é que o autor de O LADO IMÓVEL DO TEMPO deu um salto impressionante do primeiro para o segundo livro, obrigando-nos definitivamente a ficar de olho nele, apesar de um certo “quê” de anacrônico e obsoleto nas suas escolhas, o que faz dele o parente mais próximo do grande e esquecido Rosário Fusco em nossa literatura do século 21.

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