MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/04/2018

TODO LÉU É UM MUNDO: SEGUNDA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 24 de abril de 2018)

Na semana passada, iniciei um comentário sobre “CONVERSA DE JARDIM”, afirmando que “Vasto mundo” era o nó central do livro, pois Maria Valéria Rezende fazia uma segunda versão à época das conversas com Roberto Menezes.

A primeira versão foi considerada uma coletânea de contos, a nova provaria que se tratava de um romance, desfazendo o equívoco. Este assunto suscita contradições interessantes: fiquei chateado porque Maria Valéria desdenhou autores que planejam de antemão seus livros (assim fazia o grande Autran Dourado, o qual até escreveu uma obra detalhando os seus processos de criação: “Matéria de carpintaria”), e afinal lá estava ela com questões de planejamento e carpintaria.

No capítulo “V – Sucatas e quebra-cabeças”, lemos: “’O pessoal fica perguntando de onde saem os livros. Acho que os livros saem de um imenso depósito que tem na cabeça, um depósito de peças de vários puzzles de um quebra-cabeça bem peculiar, essas peças todas misturas que foram nos entrando pelos cinco sentidos através da vida, com todos os tipos de sensações que você tem, que vem de fora do mundo, que vem de dentro de seu estômago, do rim, do enjoo que você sentiu, da tontura, de tudo que a gente já viu e já sentiu’, Um grande quebra-cabeça, uma sucata, que dá no mesmo, uma sucata que a gente vai jogando lá o que a gente encontra na beira da estrada, com você falou, o tempo todo catando, e jogando lá, catando e jogando lá, e é uma sucata diferente, aqui os pedaços não preservam sua solidez, eles interagem, se interferem, numa transmutação à revelia da gente”.

Há uma confissão comovente de Roberto Menezes no capítulo “XVII – Qualquer mundo ao léu”: “Valéria, invejo a tua vasta experiência de vida, e dentro dessa tua experiência, a bagagem que você tem em literatura é admirável, você leu tudo o que quis, teve incontáveis escritores na família, estudou em boas escolas, pôde conhecer o mundo de perto, aí, até sem querer, fico aqui comparando tudo isso coma vida que tive, minha família era bem pobre, eu, meus irmãos, a gente estudava em escola estadual que quando podiam, meu pai, vendedor ambulante, nem quarta série estudou, minha mãe parou na segunda série, pois, bem distante da minha realidade, na infância a minha relação com os livros era de caça ao tesouro, livro pra mim era coisa rara, acredite se quiser, quando eu tinha uns oito, nove anos, eu torcia pra chegar aos sábados, nos sábados vinhas as testemunhas de Jeová, nem precisava bater, eu já tava lá esperando, a nova edição da revista A Sentinela”.

Parabéns às testemunhas de Jeová, nos deram um físico teórico e um grande escritor. Como já disse, um fabricador de frases de tirar o fôlego.

17/04/2018

QUALQUER LÉU É UM MUNDO: PRIMEIRA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 17 de abril de 2018)

Confesso que sou imodesto, pois vou comentar um livro que me é dedicado e no qual sou citado várias vezes. Trata-se de “CONVERSA DE JARDIM”, todo mundo sabe que Maria Valéria Rezende é uma das nossas maiores escritoras, mas talvez não saibam que a casa onde mora, em João Pessoa, tem um maravilhoso jardim (eu sei, pois estive lá em diversas ocasiões) e ali manteve entre 2015 e 2017 conversas com Roberto Menezes, físico teórico “fabricador de frases de tirar o fôlego” (como diz Maria, narradora do seu admirável “Palavras que devoram lágrimas”, editado pela Patuá).

Roberto organizou o livro de forma inteligente, não linear, com capítulos curtos celebrando o ato de escrever. Temos: “Disciplina sem rotina longe da ritalina”, “Sucatas e quebra-cabeças”, “A voz do chão”, “Regras próprias”, “Cemitério de planos cemitério de memórias”, “Vasto mundo” (que é a meada principal para a qual a conversa sempre volta), “Da mente pro papel”, “Escrita no gen”, “Qualquer mundo ao léu”, “Além do solipsismos”, “Apanhando o mundo com a mão”, “Da memória e seus ardis” e “Até já”, são alguns dos leitmotivs que conduzem fecundos diálogos desses dois geniais tagarelas (e quem conhece Maria Valéria sabe que ela é uma incansável Xerazade): “Tem um amigo que diz que sou uma escritora materialista. Nunca faço longas digressões sobre a subjetividade. Na verdade, o sentimento, o que pensam os meus personagens, passa através das ações, do movimento, das descrições das coisas. Ultimamente tenho usado sempre um narrador na primeira pessoa, uma narradora, aliás. É em primeira pessoa, mas não é por ser em primeira pessoa que vou cair na falácia de ficar dissecando os seus sentimentos, nem os meus, como já disse. Faço com que ela, do seu jeito, fale do mundo que está fora dela. E quando ela imprime sua visão do mundo, necessariamente revela o seu ponto de vista”.

No capítulo XVII: “não existe isso de não poder ser escritor pelo fato de nunca ter viajado. Faz assim, dá pra esse jovem ler o meu ‘Quarenta Dais’, que é a descoberta de mundo e mais mundos, você viaja, tem mil viagens a fazer. ‘Quarenta Dias’ é uma odisseia, ‘A pé, ao léu. Numa pequena parte de uma cidade. Qualquer léu é um mundo. Tem que absorver o mundo pelos cinco sentidos” (continua semana que vem).

03/04/2018

UMA CORROSIVA SÁTIRA À LEITURA ALIENADA

Filed under: Livros que eu indico — alfredomonte @ 16:27
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 03 de abril de 2018)

Quem, começar “O ÚLTIMO LEITOR” do mexicano David Toscana, com a expectativa elegíaca de homenagem ao ato de ler, ficará desapontado.

“Há um Deus que não diferencia as cores da pele, que ama igualmente negros e brancos… Lucio bufa e fecha abruptamente o livro. Duzentas páginas para que esse negro venha dar lição de moral feito uma freira”. Lucio, o último leitor, responsável pela biblioteca do miserável povoado de Icamole (onde não chove há anos), é mesquinho e tirânico. Os livros que não lhe agradam recebem o carimbo de censurado e são jogados num recinto infestado de baratas. Não suporta emprestar livros, embora seja sua função, lembrando o protagonista de “bibliomania”, de Gustave Flaubert, que assassinava os compradores de seus livros.

Uma menina é descoberta morta no poço de Remigio, o único com água na região. Lucio ajuda a esconder o corpo sob um abacateiro, o qual a partir daí passa a ter frutos melhores e mais doces (uma situação similar ao romance de Manoel Herzog, o ótimo “A Jaca do Cemitério é mais doce”).

Uma das manias mais irritantes de Lucio é aplicar acontecimentos reais situações lidas em romances (para ser justo, eu também faço isso: com o estado de coisas no Brasil me sinto num livro do genial Leonardo Sciascia, com sua Itália de corrupção e banditismo em todas as esferas). A menina morta se chama Anne, mas ele se refere a ela como Babette, heroína de um dos seus poucos romances preferidos. Esse jogo se torna insólito quando aparece na cidade a mãe da menina para investigar o paradeiro da filha, e ela se envolve com Lucio. Admiradora do mesmo romance, passa a se referir à filha como Babette.

Causou-me estranhamento a afirmação na orelha: “é, sobretudo, uma celebração dos romances que sabem embriagar e seduzir”. Pra mim, o livro de David Toscana é uma corrosiva sátira ao leitor alienado, incapaz de aprender com a experiência e adquirir sabedoria. Há uma cena em que o padre do povoado urina e o líquido logo desaparece na aridez do solo. É a mesma coisa que acontece com a mente do último leitor.

27/03/2018

A TRAGÉDIA DE JUDAS ISCARIOTES

Filed under: Livros que eu indico — alfredomonte @ 16:13
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 27 de março de 2018)

Taylor Caldwell foi um fenômeno. Boa romancista, menos prezada pela crítica, escreveu sobre todas as épocas: a antiguidade, os primórdios do cristianismo, a Mongólia de Gengis Khan, a França revolucionaria, até a Atlântida. “Médico de homens e almas”, “A terra de deus” e “Um pilar de ferro” são algumas das obras desse mapa mundi ficcional.

Em “EU, JUDAS” ela teve a colaboração de Jess Stearn e nos mostra um Judas filisteu abastado, revoltado com o domínio romano sobre a Judeia. Ele se entusiasma pela figura de Jesus Cristo, vencendo seus preconceitos aristocráticos contra os galileus, tidos como a ralé dos judeus (aliás, o livro revela as picuinhas e as diferenças entre os apóstolos). O que desaponta Judas e que o leva a cair na armadilha da traição é que Jesus não se apresenta como rei dos judeus, enfrentando os romanos, mas prega a respeito de um vago reino onde judeus e pagãos encontrarão a salvação, por isso perdendo prestigio, mesmo fazendo milagres espantosos.

Dando voz e vida a Judas, utilizando os eventos bíblicos com expressividade, o livro ganha força ao colocar em cena (praticamente em todos os capítulos) a cisão entre as diversas facções de Israel. Publicado em 1977, não dá para negar sua eficácia como exercício de imaginação e atualidade (há um belo epílogo protagonizado por Maria Madalena): “Não compreendendo o meu patriotismo, a maioria dos discípulos me considerara descrente. Mas o próprio Jesus desviava os ditos deles e me mostrava que me achava tão bom quanto os outros. – Tu, Judas, tens a tua missão, como os outros, e serás lembrado depois que muitos tiverem sido esquecidos. – Minha missão – disse eu – é libertar o meu povo. Ele levantou as sobrancelhas, delicadamente. – O teu povo, Judas? E posso saber quem é? – Os judeus em todo Israel e na Diáspora que desejem livrar-se de Roma. – E os outros povos? O povo de Roma, que desprezas, também não é vítima dessa tirania? Ele estava sempre a complicar as coisas. – Não foi dito claramente pelos profetas que o Messias libertará Israel, de modo que triunfará sobre as setenta nações? – Tu então queres substituir a tirania romana por outra? ”.

13/02/2018

O “VOCABULÁRIO INTIMISTA” DE TIAGO GERMANO

 

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 13 de fevereiro de 2018)

“Houve um tempo em que as pessoas iam a restaurantes pela simples razão de ter fome. Hoje se vai a restaurantes por qualquer outro motivo, todos comprovadamente legítimos, menos esse. Eu mesmo já estive em alguns com o mesmo apetite de um doente de hospital. Não pretendia comer nada, até que me caiu em mãos o cardápio e logo descobri o recôndito sentido da sua existência: longe de lhe dar liberdade de opção, o cardápio lhe impõe uma escolha”. É um trecho de “Cardápios”, uma das maravilhosas crônicas de “DEMÔNIOS DOMÉSTICOS”. Na linha dos cronópios de Julio Cortázar, dos textos curtos de Robert Walser e da insustentável leveza de boa parte da obra de Italo Calvino, Tiago Germano faz sutis rasgos no tecido da realidade, desde estabilizando o senso comum. Ele mesmo o diz em “A coleção de palavras”: “E como um escritor coleciona palavras? Respondo exibindo uma parte do acervo que venho coletando desde a infância, quando as palavras que ouvia pareciam estar divididas entre aquelas que expressavam com a exatidão a ideia que pretendiam expressar e aquelas cujo sentido parecia não bater, como se tivessem sido inventadas só para não ficarem anônimas… ‘Poverty’ é uma palavra nobre, tanto quanto ‘andrajo’, que não pode ser listada no Aurélio como sinônimo de ‘trapo, farrapo’, porque absolutamente não se associa à miséria no meu vocabulário intuitivo”.

“DEMÔNIOS DOMÉSTICOS” é dividido em blocos: “A infância, seus modos e seus medos”, “O amor, seus gestos e seus gostos”, “A rua, suas bocas e seus becos” e “O oficio, seus mitos e seus mundos”. Do primeiro destaco “Malamen e o Extrato”: “A primeira aparição do Extrato se deu numa noite de quarta-feira, quando faltou dinheiro em casa e minha mãe perguntou a meu pai: ‘Você viu o Extrato? ’”. Do segundo bloco “Comendo paçoca”: “De repente, daquelas duas bochechas cheias de amendoim, vi brotar o único sorriso que restava de inédito no mundo”. Do terceiro bloco “Slogans de funerárias”: “O dilema de uma propaganda de caixão, entretanto, é bem mais profundo, está na essência do ser humano, no que há de mais inerente: a certeza de uma morte duvidosa. Como promover um produto que o cidadão não vai usar quando vivo? ”. Do quarto bloco “A crônica que jamais escreverei”: “Ela não está em lugar algum. E não estando em lugar algum, não sei ao certo onde procurá-la. E não sabendo onde procurá-la, procuro-a em todos os lugares, e às vezes, quando a noite se faz maior que o silêncio, eis que me deparo com suas palavras, mas ao me deparar alguma coisa dela me escapa, e tanto mais me escapa quanto mais me deparo, e é inútil tentar retê-la, porque dela não me é dado saber nada, nada além do fato de que jamais a escreverei”.

Mas a verdade é que não há nenhuma crônica que não tenha uma passagem memorável. Um dos melhores livros dos últimos anos: “No carro, quando era minha família que voltava da praia, fingia muitas vezes dormir para ouvir a conversa dos meus pais. Falavam de Claudia. Claudinha. ‘Morte estúpida’, diziam. E eu tentando imaginar como se podia morrer de maneira inteligente”.

 

06/02/2018

BIDET OU PESSACH: EIS A QUESTÃO

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 06 de fevereiro de 2018)

Às vésperas do fatídico AI 5 (completa 50 anos), que aumentou a repressão da ditadura militar, Carlos Heitor Cony publicou um belo romance, “PESSACH: A TRAVESSIA”. O narrador, Paulo Simões, sente vergonha de suas raízes judaicas (pessach é um evento do fim da escravidão dos hebreus no Egito). Escritor desprezado pela esquerda, no seu aniversário de quarenta anos, recebe (seu amigo Silvio o chama para participar da luta armada) e faz várias visitas. Numa delas, o pai revela o temor de que o Brasil siga a Alemanha Nazista e lhe dá uma capsula com veneno.

No dia seguinte devido a uma cadeia de acontecimentos inesperados, Paulo acaba se juntando a um grupo guerrilheiro e inicia uma nova travessia.

Paulo é o típico herói do Existencialismo, para o qual a existência é gratuita e o indivíduo é livre e “disponível”. Mas, como somos seres contingentes estamos sempre “em situação”. Esse herói pode se engajar politicamente, gerando o absurdo (Albert Camus lastimava que o revolucionário amava “uma humanidade que ainda não existia”).

Paulo me lembrou de um extraordinário romance de Paul Auster, “A Música do Acaso”. Ambos se deixam levar pelos acontecimentos aleatórios e o acaso transforma-se em destino (Paulo se queixa de ser um prisioneiro e um guerrilheiro retruca que ele teve diversas chances de fugir).

“Olho a máquina: não foi para escrever sobre bidês que amealhei sofrimentos e espantos, tréguas e esperanças. Vontade de mandar um bilhete ao editor comunicando simplesmente: não escrevo mais sobre bidês. Vou para a luta. Minha luta não é a mesma de Vera, de Sílvio, de Macedo. Meu pai tem medo, medo milenar e carnal que acompanha os homens de sua raça. Esperou o fim da vida para sentir esse medo e esse compromisso. Lembro dele tocando violino na churrascaria, não parecia sentir o estigma que sobre ele pesava. É melhor escrever sobre os judeus que sobre os bidês. Enquanto Macedo hesita, sem saber se adere ou não às guerrilhas, eu tenho outra hesitação, mais estúpida e amarga: bidê ou Pessach”.

Esta é uma das grandes passagens do livro, que faz um uso notável do diálogo, que o torna muito atual e jovem, e tem um final estupendo, quando o acaso vira realmente destino.

 

 

30/01/2018

DIÁLOGOS ENTRE UM PADRE E UM ATEU

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 30 de janeiro de 2018)

Apesar do título amplo, “CRER OU NÃO CRER”, sete colóquios entre o padre Fábio de Melo e o historiador Leandro Karnal (duas personalidades midiáticas sobre as quais sempre tive reservas), restringe-se à esfera católica, pois temos um padre e um ateu que foi fundo na formação católica: “KARNAL: Fiz curso ainda jovem na diocese de Novo Hamburgo. Depois, foi em um Cascavel, onde fiz o noviciado. Recém-saído de uma aula de mística, uma senhora pediu a Eucaristia. Ela ligou para o padre, mas ele não podia. Eu acabei indo… Era uma estrada deserta e no caminho havia pessoal mal-encaradas. Eu me lembrei da história de São Tarcísio, que foi morto levando a Eucaristia. Foi apedrejado por outras crianças; então, naquele momento, eu desejei o martírio. Eu tinha 18 anos. Das bobagens que se podem fazer na juventude, desejar martírio é a menos grave (risos). Não fui apedrejado”.

Eu sou descrente e achava o papado uma coisa bizarra (tinha horror aos papas João Paulo II e Bento XVI), mas Francisco I é uma figura admirável, um daqueles anciãos (como o ex-presidente do Uruguai, José Mojica), cujo bom senso destoa do cenário lúgubre da liderança nacional e internacional, repleto de personagens odiosos: “PADRE FÁBIO: Quando a fé em Deus não se desdobra em amor à vida, a religião pode se tornar um instrumento de alienação, gerando um desprezo pela história e uma supervalorização da vida pós-morte. O desafio é estabelecer um caminho pelo qual possamos experimentar o equilíbrio entre a transcendência e a imanência”.

Eu era cético quanto ao livro. Achei-o bem acima da média. Não esqueçamos, porém, que todos (o papa, o padre e o historiador) estão inseridos na civilização do espetáculo: “Deus é vítima da inteligência humana”.

 

09/01/2018

LEITURAS MARCANTES DE 2017: PARTE DOIS

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 09 de janeiro de 2017)

A literatura brasileira atual vai muito bem, obrigado. Veja por que:

Modos inacabados de morrer”, André Timm, Editora Oito e Meio: apesar de algumas ressalvas, um romance talentoso. Sobre um protagonista que sofre de narcolepsia.

A oração do carrasco”, Itamar Vieira Junior, Editora Mondrongo: contos cheios de momentos impactantes.

Miss Tatto”, Luiz Roberto Guedes, Editora Jovens Escribas: as aventuras e desventuras dos “tiozões”.

A Jaca do cemitério é mais doce”, Manoel Herzog, Editora Alfaguara: ainda são poderosas a pena da galhofa e a tinta da melancolia, como nos ensinava Machado de Assis.

Outros Cantos”, Maria Valéria Rezende, Editora Alfaguara: a obra-prima da grande escritora (prêmio Casa de Las Américas, prêmio São Paulo de Literatura e Jabuti).

Naufragar jamais”, Pedro Alberto Ribeiro (poeta em queda), Editora 11Editora: em cadernos soltos poemas de grande força.

Diário da Cadeia com trechos da obra inédita impeachment”: Eduardo Cunha (pseudônimo), Ricardo Lísias, Editora Record: o poder absoluto da ficção.

Machado”, Silvano Santiago, Editora Companhia das Letras: um romance que eu gostaria de ter escrito, um mosaico em torno dos anos de viuvez de Machado de Assis (prêmio Jabuti e prêmio Oceanos).

O passado é lugar estrangeiro”, Suelen Carvalho, Editora Patuá: uma estreante com voz própria.

Insolitudes”, Tiago Feijó. Editora 7Letras: contos humanos e irretocáveis.

Gotas no Asfalto”, Vlademir Lazo, Editora Penalux: expectativas frustrantes gerando boa literatura.

 

02/01/2018

LEITURAS QUE MARCARAM 2017: PRIMEIRA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 02 de janeiro de 2018)

A minha lista de livros marcantes de 2017 segue o rastro do vácuo da ausência de Elvira Vigna.

Livro do ano: “As três mortes de Che Guevara”, Flávio Tavares, editora L&PM. Cinquenta anos após a morte do “ser mais completo da nossa época”, segundo Sartre, o fascínio de sua figura não esgota.

Além dele, destaco: “Sem Sistema”, de Andrea Catrópa, editora Patuá: de que universo paralelo e sulfúrico, Andréa Catrópa, trouxe suas histórias curtas, muitas vezes cores e tintas berrantes.

As Perguntas”, de Antônio Xerxenesky, editora Companhia das Letras: mistura com inteligência a incursão mística com uma rave, ou seja, o horizonte dos jovens urbanos, cínicos, que não acreditam em nada transcendente a não ser superficialmente.

Febre de Enxofre”, de Bruno Ribeiro, editora Penalux: príncipe da prosa sulfúrica, pornográfica e ultrajante, em seu primeiro romance.

Simpatia pelo Demônio”, de Bernardo Carvalho, editora Companhia das Letras: usando um personagem cobaia, um grande romance.

Como são cativantes os jardins de Berlim”, de Decio Zylbersztjan, editora Reformatório: textos brilhantes. O conto-título é uma obra-prima.

Naufrágio entre amigos”, de Eduardo Sabino, editora Patuá: primorosa coletânea mostrando o ressurgimento do amor à linguagem.

O mergulho”, de Juliana Diniz, editora Megamíni: como a escritora cearense consegue criar uma linguagem diáfana e tão robusta?

Em Conflito com a Lei”, de Lucas Verzola, editora Reformatório: o livro surpresa do ano, contundente e magnífico.

Fragmentos de um exílio voluntário”, de Lucio Autran, editora Bookess: Poesia.

Uma fuga perfeita é quase sem volta”, de Marcia Tiburi, editora Record: finalmente, a autora gaúcha acertou plenamente no romance, mostrando o retrocesso da ordem mundial.

Todo naufrágio é também um lugar de chegada”, de Marco Severo, editora Moinhos: Senti-me como um jurado do “The Voice”, girando a cadeira logo nas primeiras notas, descobrindo um autor para meu time de leituras prediletas.

O Indizível sentido do amor”, de Rosângela Vieira Rocha, editora Patuá: um dizível abalo no coração, um mergulho na dor.

(Continua na próxima semana).

 

26/12/2017

LEITURAS QUE MARCARAM 2017: PRIMEIRA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 26 de dezembro de 2017)

A minha lista de livros marcantes de 2017 segue o rastro do vácuo da ausência de Elvira Vigna.

Livro do ano: “AS TRÊS MORTES DE CHE GUEVARA”, Flávio Tavares, editora L&PM. Cinquenta anos após a morte do “ser mais completo da nossa época”, segundo Sartre, o fascínio de sua figura não esgota.

Além dele, destaco: “Sem Sistema”, de Andrea Catrópa, editora Patuá: de que universo paralelo e sulfúrico, Andréa Catrópa, trouxe suas histórias curtas, muitas vezes cores e tintas berrantes.

As Perguntas”, de Antônio Xerxenesky, editora Companhia das Letras: mistura com inteligência a incursão mística com uma rave, ou seja, o horizonte dos jovens urbanos, cínicos, que não acreditam em nada transcendente a não ser superficialmente.

Simpatia pelo Demônio”, de Bernardo Carvalho, editora Companhia das Letras: usando um personagem cobaia, um grande romance.

Febre de Enxofre”, de Bruno Ribeiro, editora Penalux: príncipe da prosa sulfúrica, pornográfica e ultrajante, em seu primeiro romance.

Como são cativantes os jardins de Berlim”, de Decio Zylbersztjan, editora Reformatório: textos brilhantes. O conto-título é uma obra-prima.

Naufrágio entre amigos”, de Eduardo Sabino, editora Patuá: primorosa coletânea mostrando o ressurgimento do amor à linguagem.

O mergulho”, de Juliana Diniz, editora Megamíni: como a escritora cearense consegue criar uma linguagem diáfana e tão robusta?

Em Conflito com a Lei”, de Lucas Verzola, editora Reformatório: o livro surpresa do ano, contundente e magnífico.

Fragmentos de um exílio voluntário”, de Lucio Autran, editora Bookess: Poesia.

Todo naufrágio é também um lugar de chegada”, de Marco Severo, editora Moinhos: Senti-me como um jurado do “The Voice”, girando a cadeira logo nas primeiras notas, descobrindo um autor para meu time de leituras prediletas.

O Indizível sentido do amor”, de Rosângela Vieira Rocha, editora Patuá: um dizível abalo no coração, um mergulho na dor.

(Continua na próxima semana).

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