MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/12/2010

Destaque do blog: O CENTENÁRIO DE PAUL BOWLES

AS PERIGOSAS PAISAGENS EXÓTICAS DE PAUL BOWLES

Paul Bowles, cujo centenário é comemorado neste 30 de dezembro de 2010, notabilizou-se, quando começou a ficar conhecido, no após-guerra, em meados dos anos 40,  na ficção norte-americana por introduzir territórios “exóticos” (África, Ásia, América Latina), quando tais espaços ainda eram rotas de evasão, tanto que suas histórias marcaram época por mostrar o choque de personagens diante de paisagens e culturas nas quais os problemas individuais contam muito pouco. Aliás, em muitos textos de Bowles (por exemplo, o mais famoso deles, o romance O céu que nos protege), personagens “civilizadas” são expostas a experiências violentas, ultrajantes, degradantes e aniquiladoras (pelo menos do ponto de vista da nossa noção de subjetividade e dignidade humanas, o que sempre é muito relativo) à mercê de povos que não têm compromisso ou vínculo com os chamados valores ocidentais.

Essa é uma das características predominantes dos treze textos traduzidos por José Rubens Siqueira e reunidos no volume Um Episódio Distante: pela Alfaguara, que vem nos últimos tempos republicando Bowles no Brasil (nos anos 90, sua ficção foi muito traduzida pela Rocco, e a Martins Fontes lançou sua autobiografia cabotina, Tantos Caminhos[1]).

No conto-título de Um episódio distante, um lingüista é seqüestrado por uma tribo nômade que lhe corta a língua e o transforma num “bobo da corte”; em O pastor Dowe em Tacaté, o pároco protestante é obrigado a se adaptar aos costumes do povoado: até a maneira de pregar è determinada pelo chefe da comunidade, que lhe oferece a filha impúbere como esposa[2]; em No quarto vermelho, o narrador recebe a visita dos velhos pais, em Sri Lanka, e os três são meio que forçados a visitar o local de um assassinato passional, transformado numa espécie de ritual pelo assassino; na história mais recente (escrita nos anos 90, enquanto a maioria é dos anos 40), Muito longe de casa, a personagem principal, que teve um colapso após o divórcio, divide a casa com o irmão na África e se sente “obrigada” a ter determinados sonhos pela imposição de um negro que ocupa uma posição ambígua na criadagem que serve os americanos.

Mesmo quando os personagens pertencem, aparentemente, à mesma cultura, o estranhamento e o ódio estão presentes: no excepcional Em Paso Rojo, uma das irmãs do dono de um rancho tenta seduzir um índio e, ao ser repelida, arranja um modo de se vingar sub-repticiamente; no terrificante A presa delicada, uma caravana com três mercadores é atraiçoada por um viajante que se unira a eles, e que após assassinar os dois mais velhos, castra e violenta o mais novo. E em Parada em Corazón, que se passa numa barca gigantesca e infernal, que atravessa a selva sul-americana levando um casal norte-americano em lua-de-mel, o marido não hesita em abandonar a esposa ali naquele ermo, ao surpreendê-la, adormecida e embriagada, junto a um nativo, após uma noite de pesadelo, em que caracteristicamente, as fibras morais e éticas  a que nos condicionamos, parecem afrouxar uma a uma, em passo cadenciado.

Às vezes, são os “estrangeiros” que trazem inquietação e desagregação a um determinado lugar, como acontece no extraordinário Páginas de Cold Point, em que um pai (o narrador) se isola com o filho de 16 anos, num lugar paradisíaco no Caribe, e o adolescente assedia todos os homens do lugar, criando um clima de revolta. O pai, ao saber de tudo, acabará seduzido pelo filho, ou pelo menos, é o que tentará nos fazer crer, já que sua versão dos fatos é extremamente suspeita e tendenciosa, fazendo desse texto uma obra-prima no gênero narrador não-confiável.

Paul Bowles não acreditava muito na civilização ocidental, a qual acreditava encontrar-se decadente e moribunda. Mas ele, essa mistura estranha de André Gide com Graham Greene e Flannery O´Connor, com um toque hemingwayano, não mitifica ou romantiza os lugares de evasão de suas personagens, nem poupa a estes de pulsões, obsessões e angústias nas paisagens mais edênicas. A terrível impressão que fica da leitura de seus contos, mais ainda do que a proporcionada pelo angustiante O céu que nos protege, é de que nada realmente nos protege e que o mundo é uma vasta armadilha para incautos. No entanto, há um lado que me incomoda profundamente em Paul Bowles e que sempre me impediu de tê-lo como um dos meus autores favoritos, mesmo após ter ficado impactado com a leitura de O céu que nos protege (na esteira do filme de Bertolucci, é certo, que é admirável também): sempre tenho a impressão de que ele se compraz com seus episódios cruéis, de que eles representam uma fantasia masoquista (ou sadomasoquista), que ocuparam aliás a imaginação de escritores gays numa determinada fase da literatura (basta lembrar de Tennessee Williams e Carson McCullers). Isso não o enfraquece literariamente, decerto, mas sempre me faz pensar em auto-complacência (a mesma que sua autobiografia parece transpirar) e me causa certa antipatia. Não sei se, no fundo, no fundo mesmo,  ele está distante das reflexões do seu narrador de Páginas de Cold Point:

“Os criados são limpos e quietos, e o trabalho parece ser realizado quase automaticamente. Os bons criados negros são outra bênção das ilhas; os britânicos nascidos aqui neste paraíso não fazem idéia da sorte que têm. Na verdade, eles não fazem nada além de reclamar. É preciso ter vivido nos Estados Unidos para avaliar a maravilha deste lugar. Porém, mesmo aqui as idéias estão mudando todo dia. Logo as pessoas vão resolver que querem que sua terra faça parte do monstruoso mundo de hoje e, quando isso acontecer, estará tudo acabado. Assim que você tem esse desejo, você está contaminado pelo vírus mortal, e começa a mostrar sintomas da doença. Passa a viver em termos de tempo e dinheiro, e a pensar em termos de sociedade e progresso. Então tudo o que lhe resta é matar as outras pessoas que  pensam do mesmo jeito, junto com muitas que não pensam, uma vez que essa á a manifestação final da doença. Aqui, de momento, de qualquer modo, se tem uma sensação de estabilidade: a existência deixa de ser como aqueles últimos segundos da ampulhetas quando o que resta de areia de repente começa a correr para o fundo de uma vez. De momento, isso parece em suspenso… O desastre é certo, mas acontecerá de repente, só isso. Até então, o tempo fica parado.”

Parece um diagnóstico crítico do nosso tempo, mas a apologia e nostalgia de um estado senhorial, de aproveitar o paraíso com bons criados negros,, invisíveis (a não ser no plano sexual) já que o trabalho parece se realizar quase automaticamente, anula o que há de crítico e severo nesse julgamento da civilização para se transformar em auto-justificação de uma condição predatória. Não é um julgamento literário, Paul Bowles é um grande escritor, mas é um dado que não dá para ignorar e não sei se não levará sua obra a tornar-se datada…

(o texto acima foi publicado de forma mais condensada em 21 de dezembro de 2010, em A TRIBUNA de Santos)


[1] A Alfaguara lançou até agora, além de Um episódio distante, os romances O céu que nos protege e Que venha a tempestade; a Rocco já lançara traduções anteriores dos dois, feitas por Roberto Grey, e publicou os Contos Reunidos de Bowles, em dois volumes: Chá nas montanhas & Um amigo do mundo (tradução de Rubens Figueiredo). Quem traduziu a autobiografia Without Stopping para a Martins Fontes foi Hildegard Feist.

Dos treze textos reunidos em Um episódio distante, salvo engano só dois são inéditos, os mais recentes, No quarto vermelho e Muito longe de casa. Dez já tinham aparecido em Chá nas montanhas, justamente os mais famosos:  o conto intitulado Chá nas montanhas, O escorpião, À beira da água, Um episódio distante, Parada em Corazón, Páginas de Cold Point, Em Paso Rojo, O pastor Dowe em Tacaté, A presa delicada, Allal; o pior conto entre os escolhidos, na minha opinião, Ele da Assembléia, aparecera em Um amigo do mundo como Ele, o Congregado.

Nas duas edições há discrepâncias gritantes em relação à datação dos contos. O problema mais grave, todavia, está na discrepância de informações, como no caso de Um episódio distante. Veja-se o seguinte trecho na tradução mais antiga, a de Rubens Figueiredo:

“A Uled Nail viu o sangue, gritou, correu para fora de sua tenda, entrou na tenda seguinte de onde logo emergiram quatro jovens que correram juntas para o bar e contaram ao cauaji quem havia assassinado o Reguiba. Cerca de uma hora depois, a polícia militar francesa iria prendê-lo na casa de um amigo e arrastá-lo para as barracas.”

Na versão de José Rubens Siqueira, o trecho ficou assim:

“A uled nail viu o sangue, gritou, correu de sua tenda para a vizinha, e logo apareceu com quatro moças que correram juntas para o café e disseram que o quoauji tinha matado o Reguiba. Era questão de uma hora para a polícia militar francesa pegá-lo em casa de um amigo e arrastá-lo para o quartel.”

[2] Inserido bem no meio da seleção (não sei se de propósito, se o foi, parabéns para a estratégia inteligente), O pastor Dowe em Tacaté acaba por cumprir uma função simbólica, expondo de forma paradigmática o que desmorona nos protagonistas de Bowles: há um momento em que o pastor resolve dar uma caminhada e encontra dois nativos, os quais o levam para visitar a caverna do deus deles:

“Começaram uma jornada que quase imediatamente o pastor Dowe se arrependeu de ter iniciado. Seguiram rapidamente para a frente, mas já na primeira curva do rio ele desejou ter ficado para trás, onde podia estar nesse momento subindo a ravina. E, enquanto seguiam depressa pela água silenciosa, ele continuava a se censurar por ter vindo sem saber o porquê. A cada curva do rio que parecia um túnel,  ele se sentia mais distante do mundo. Viu-se fazendo uma força ridícula para deter a jangada,; ela deslizava com facilidade demais por cima por cima da água negra. Para mais longe do mundo, ou ele queria dizer mais longe de Deus? Uma região como essa parecia fora da jurisdição divina. Quando chegou a essa idéia, fechou os olhos. Era um absurdo,  evidentemente impossível, de qualquer modo inadmissível, no entanto tinha lhe ocorrido e continuava com ele em sua cabeça. Deus está sempre comigo, disse a si mesmo em silêncio, mas a fórmula não surtiu nenhum efeito. Ele abriu os olhos depressa e observou os dois homens. Estavam de frente para ele, mas tinha a impressão de ser invisível para os dois; ele viam apenas as ondas que logo se dissipavam  deixadas na água atrás da jangada e o teto em arco irregular da vegetação sob o qual tinham passado (…) Ele tentou a dizer a si mesmo que não havia razão para esse súbito colapso espiritual, mas ao mesmo tempo parecia-lhe sentir as fibras mais íntimas de sua consciência no processo de relaxar. A  jornada rio abaixo era um monstruoso abandono, e ele lutou contra isso com toda a sua força. Perdoe-me, ó Deus, por tê-Lo deixado para trás. Perdoe-me por tê-Lo deixado para trás. Suas unhas fincaram nas palmas das mãos enquanto rezava…”


26/12/2010

LA BARCA de los hombres

Calderon_de_la_Barca

Rei (espantado): Pois o Mundo o que fui tão cedo ignora?

Mundo: …volte a si, torne, saia tua pessoa

nua outra vez da farsa desta vida.

Rei: Tu não me deste adornos tão amados?

Como me tiras o que já me deste?

Mundo: Pois emprestados foram, mas não dados,

durante o tempo que o papel fizeste…

Rei: Que tenho de lucrar em meu proveito

de haver, no mundo, o rei representado?

(Calderón de La Barca, O Grande Teatro do Mundo)

Na grande alegoria, escrita por volta de 1633, da qual foram tiradas as falas acima, o Autor chama o Mundo para mandar diversas personagens (Rei, Formosura, Discrição, Lavrador, Rico, Pobre, Criança, Lei) entrar e sair de cena. Quando o papel “acaba”, todos se igualam, para espanto do Rei. Assim, na metáfora do “grande teatro do mundo” o que se depreende é a chamada “visão criatural” do ser humano, descrita por Auerbach, isto é, o rebaixamento da condição humana, onde todos se igualam pelo destino comum: a morte. É o velho tema do Eclesiastes: o caráter vão de todas as coisas.

a vida é sonho

O leitor brasileiro pode conhecer outra volta do parafuso no tema (talvez superior do ponto de vista da realização artística) escrita cerca de dois ou três anos mais tarde: saiu pela Hedra a tradução de Renata Pallotini de A vida é sonho, a qual, nos seus três atos (ou jornadas), se chegou a ser conhecida por Freud, certamente fez as delícias do criador da psicanálise como demonstração perfeita, quase matemática em sua poesia (alternada com a prosa), do “retorno do reprimido”.

Na primeira jornada, a moscovita Rosaura (acompanhada por Clarim, o alívio cômico, com sua visão chã e pícara dos acontecimentos) chega à Polônia disfarçada de homem (quer vingar sua honra) e conhece Segismundo, o qual vive numa masmorra desde o seu nascimento, vigiado por Clotaldo (que nomes deliciosos!). Duas inversões: uma, cara à tradição teatral, da moça disfarçada de homem; a outra, mais peculiar, a do moço guardado como uma donzela.

Qual o crime de Segismundo?

Mas eu nasci, e compreendo

que o crime foi cometido

pois delito maior

do homem é ter nascido.

Clotaldo, o verdadeiro pai de Rosaura, é obrigado a aprisioná-la e levá-la a Basílio, o Rei, que decidirá sua sorte, pois ninguém poderia saber da existência de Segismundo, a quem o Rei temia, mesmo sendo seu filho, pois lera nas estrelas que seu herdeiro lhe destruiria o reino; aprisionando-o, ele tenta suster os vaticínios celestes. Ao mesmo tempo, chega Astolfo, pretendente ao trono, fazendo a corte a Estrela, a outra herdeira (cuja mãe chamava Clorilene, irmã da “altaneira” Recisunda, mãe de Astolfo; e todos descendem de Eustórgio III). Acontece que foi Astolfo quem desonrou Rosaura…

Pois bem, Basílio decide libertar o filho e poupa Rosaura (que, instruída por Clotaldo, se disfarça em dama de companhia de Estrela). Como o Rei teme as ações de Segismundo, ele urde um plano: toda a sua estadia na Corte terá um “ar de sonho” e caso a experiência não se mostre bem sucedida, o herdeiro do trono será reconduzido à sua masmorra, acreditando que sonhara tudo.

A segunda jornada é talvez o ponto alto (altíssimo) de A vida é sonho. Clotaldo cumpre as determinações do Rei (“Deste modo poderemos verificar duas coisas: a primeira é a sua natureza, porque ele, acordado, pode fazer quanto pensa ou imagina; a segunda, é o consolo, pois ainda que agora seja obedecido e depois torne a sua prisão, poderá entender que sonhou, e isto lhe fará bem. De resto, Clotaldo, no mundo, todos os que vivem, sonham”) e Segismundo acorda príncipe após ter vivido como prisioneiro toda a vida. É um id que sempre esteve sob o jugo do superego (e nunca houve um ego formado, já que ele nunca viveu no mundo da experiência) e agora não há freios. Resultado: crueldade, desfaçatez, até um homicídio (um criado o admoesta e ele retruca: “Contra o meu gosto, nada me parece conveniente e justo”, mais tarde replica ao Rei: “Ainda que não te agrade/hei de prosseguir aqui/ Sei quem sou e o que já vi/ por mais que isso te enfade/…Se estive em prisão, primeiro/ morto de frio e de fome/ foi por não saber quem era/ mas como informado estou/ de quem sou, já que sou/misto de homem e de fera), além da infame tentativa de estupro da já desonrada Rosaura, que acaba sendo defendida por Astolfo.

Dessa forma, Segismundo é dominado e reconduzido ao cárcere. No seu solilóquio final é que está a passagem mais famosa da peça, justificando amplamente seu título; antes disso, ele se auto-diagnostica com precisão para seu guardião Clotaldo: “Eu era senhor de todos, e a todos pedia desforra.

Apesar da intensidade da 2ª jornada, a terceira mantém a qualidade e o brilho. Há uma revolta popular (o povo é visto como uma força negativa, é desabrido e cego) e parte do exército liberta Segismundo. Ele lidera então uma luta armada para derrubar seu pai do trono.

Ao sair da prisão, Segismundo tem uma fala maravilhosa (prenúncio de sua mudança, ao final), dessa vez em prosa: “…já que a vida ´tão curta, sonhemos, alma, sonhemos outra vez, mas com a precaução de despertar deste engano na melhor altura, e de ver que ele acaba. Assim, consciente, será menor a desilusão… Atrevamo-nos a tudo, pois todo poder é emprestado e há de tornar ao seu legítimo dono. Astolfo se une a Basílio, mas o exército de Segismundo os derrota (Clarim morre em combate: “De pouco vale tentar/da morte se defender/ sempre acaba por morrer/aquele que Deus mandar).  Segismundo, adotando o princípio da realidade, e não apenas guiando-se pelo princípio do prazer, restabelece o equilíbrio (“Porque espero obter outras grandes vitórias, vou alcançar a mais custosa hoje: vencer-me a mim próprio”): reconcilia-se com o pai, casa Astolfo com Rosaura (e Clotaldo revela ser o pai dela) e ele pede a mão de Estrela. Tudo está bem quando acaba bem. E quando funciona tão bem num texto ágil e jovem de quase 400 anos.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 7 de junho de 2008)

teatro

sueno

24/12/2010

“A cidade há de seguir-te(…) A esta cidade sempre chegarás”

Em Pontos de fuga, Graham Greene, ao falar sobre lugares que capturam o nosso coração, escreve: “Aos 31 anos, na Libéria, dei meu coração à África Ocidental… Meu amor pela África aprofundou-se ali, em particular pelo que é chamado, no mundo inteiro, a Costa, aquele mundo de tetos de zinco, de urubus pousando ruidosamente, de caminhos de laterita ganhando uma cor rosada à luz do entardecer.”

Há exatamente 50 anos, Lawrence Durrell (1912-1990) lançou o primeiro volume (Justine) do mais inesquecível registro ficcional do feitiço de um lugar: “Em essência, o que é essa nossa cidade? O que resume o nome Alexandria? Num relance, minha mente exibe incontáveis ruas tomadas de poeira..o doce odor da poeira dos tijolos e das calçadas quentes saciadas com água”.

É desconcertante que só agora apareça uma tradução brasileira de O quarteto de Alexandria (durante anos circulou por aqui a ótima versão portuguesa, de Daniel Gonçalves), que seria completado em 1960. Trata-se de um dos romances mais belos a destrinçar o paradoxo de se existir mais na memória do que no próprio ato de viver.

Então, temos a cidade e a memória, o labirinto e o fio de Ariadne que nos permite percorrê-lo. A cidade, em sua dimensão mitológica, onde Justine, amante do narrador “errava em busca (no meio de uma terrível solidão do espírito) do lampejo que lhe revelaria uma nova perspectiva do seu ser” (é preciso dizer que a, em geral correta, tradução brasileira, às vezes carece de graça. Veja-se como ele traduz o mesmo trecho: “buscando com uma dedicação assustadora a centelha definitiva que a elevaria até uma nova perspectiva de si mesma”). Essa busca é a tentativa de quebrar as imagens fixadas nos espelhos cuja reiterada aparição no livro acabam proporcionando-nos uma imprevisível mistura de Proust e Borges, o mundo da memória perseguindo o Ser e o mundo fantasmagórico em que o ser é apenas um reflexo e igualmente pode Não-ser: “Na hora de ir  para a cama, Justine olhava-se no espelho do primeiro patamar da escadaria e ralhava com seu reflexo: Estou cansada de você, sua judia presunçosa e histérica!”

O narrador do livro é um professor irlandês, envolvido com uma dançarina de cabaré que se prostitui, Cléa. Ele conhece Justine, esposa do milionário Nessim, discípula do místico Balthazar, descendente espiritual da sua homônima criada pelo Marquês de Sade, envolta em sensualidade, mas com um “ar de perpétuo esgotamento” (“uma verdadeira filha de Alexandria; nem grega, nem síria, nem egípcia, mas um híbrido, um complexo”). Enfim, uma mulher “que arrancava as pessoas dos seus velhos invólucros”. A cidade, a memória, a mulher, os grandes pólos enfeitiçantes, imantadores e galvanizantes da literatura, que propiciarão ao narrador o “primeiro grande desastre da idade madura”, numa ciranda amorosa alexandrina que oferecerá “uma existência que esperava de nós o impossível: que existíssemos” na “zona de atração que  Alexandria criava para aqueles que escolhera como seus símbolos”.

Cidade, memória, mulher, espelhos. E um fantasma literário vindo admoestar constantemente o Hamlet de Durrell: o poeta de Alexandria, Konstantinos Kaváfis (1863-1933), com sua poesia de momentos irrisórios impiedosamente reconstruídos:

Dizes: “Eu vou para outras terras, eu vou para outro mar.

Hão de existir outras cidades melhores do que esta.

De todo o esforço feito –estava escrito—nada resta

E sepultado qual um morto tenho o coração.

Até quando vai minha alma ficar nesta inação?(…)

Não acharás novas terras, tampouco novo mar.

A cidade há de seguir-te. As ruas por onde andares

Serão as mesmas… A esta cidade sempre chegarás…

A vida, pois, que dissipaste aqui, neste cantinho

Do mundo, no mundo inteiro é que a foste dissipar”. ( (tradução de José Paulo Paes)

(resenha publicada em três de março de 2007)

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19/12/2010

O homem sem qualidades quando jovem

“Agora vocês têm um pensamento ou uma sensação, e quase ao mesmo tempo aparece um outro diferente, como se espocasse do nada. Se prestarem atenção podem até sentir, entre dois pensamentos, um instante em que tudo é absoluta escuridão”.

Quando Clarice Lispector estreou na literatura (em fins de 1943), muita gente viu nela uma espécie de Virginia Woolf brasileira ou aproximou-a do James Joyce de Retrato do artista quando jovem. Eu  sempre a achei mais próxima de outro grande autor, o austríaco Robert Musil, cujo primeiro livro (do qual foi tirado o trecho acima), o agora centenário O jovem Törless se parece bastante com os romances iniciais de Clarice, ao fingir utilizar um veículo narrativo tradicional apenas para que a estranheza não fosse absoluta (e também há o fato de os dois artistas ainda serem muito jovens).

Esses dois criadores geniais fingiam que eram narradores quando, na verdade, eram educadores de uma nova percepção e sensibilidade do leitor. Quanto à afinidade, basta citar um trecho de O Lustre (que Clarice publicou aos 26 anos, mesma idade de Musil ao lançar a história das perplexidades do aluno Törless), de 1946:

“E também sabia vagamente, quase como se inventasse, que dentro daquele intervalo havia ainda outro instante, pequeno, pálido e plácido, sem ter no seu interior nenhuma das coisas que ela estava vendo…” Ou então: “enquanto durava este segundo, de olhos fechados, rosto cauteloso e móvel, ela perscrutou-o longamente, mais longamente que o próprio segundo, sentindo-o então vazio, grande como um mundo não-povoado… Mas a visão da manhã apenas quisera faiscar dentro dela e seria inútil tentar enxergar o vazio de outro mundo.”

Musil: “Via por trás das pálpebras cerradas uma confusão de coisas acontecendo…via pessoas de um modo como nunca as vira, nunca as sentira. Mas via sem ver, sem imaginar, sem formar imagens, como se apenas sua alma as visse, eram tão nítidas que sua presença insistente atravessou-o milhares de vezes; no entanto, como se parassem no limiar de um umbral intransponível, recuaram assim que ele procurou palavras para dominá-las.”

É o mundo que subjaz sob as palavras e o pensamento que importa em O jovem Törless, ainda mais do que a história do adolescente que, num internato, envolve-se numa teia de crueldade, sadomasoquismo e perversão com outros dois colegas (Reiting e Beineberg) para atormentar um colega fraco e submisso, Basini (muitos viram nessas relações juvenis um prenúncio da mentalidade nazista, calcada na aniquilação do outro).

Musil propõe de forma poderosa o internato como microcosmo social, com suas grandes opressões e pequenas crueldades, mas é preciso reconhecer que esse importante aspecto foi o que mais ficou datado, de tanto que essa ambientação foi explorada, antes e depois. Basta lembrar que em 1888, Raul Pompéia já traçava um quadro definitivo do microcosmo que um internato pode ser da sociedade, em O Ateneu.

Na sua maior realização, um dos livros supremos do século XX, O homem sem qualidades (para ser mais exato, “O homem indefinido”), Musil abdicará de todas as amarras tradicionais, incluindo o sentido de “acabamento” (o texto ficou inconcluso). Mas é obrigatório para o apaixonado por literatura o convívio com o homem sem qualidades, que se sente possuidor de “um sentido a mais do que as outras pessoas, só que ainda incompleto), em sua versão juvenil, a qual embaraça professores e educadores com suas perguntas. Pois, como diz seu colega Beineberg, “depois delas ninguém encontra o caminho de volta”.

(resenha publicada em 29 de julho de 2006, devido ao centenário do livro de Musil, e baseada numa versão anterior, publicada em 17 de setembro de 1996)

12/12/2010

A meticulosidade de Caleb Carr: apaixonando o leitor sem pressa

(resenha publicada em 30 de setembro de 1997)

Malgrado sua qualidade inegável, O silêncio dos inocentes marcou um patamar que se revelou mais um mal do que um bem ao longo dos últimos anos. É muito difícil encontrar agora qualquer thriller envolvendo um assassino em série que apresente um mínimo de inteligência e verossimilhança, já que é pedir demais originalidade. E aqui temos o primeiro ponto contra O ALIENISTA (The Alienist, traduzido por Pinheiro de Lemos), publicado há dois anos pela Record e que ganhou edição pelo Círculo do Livro: o déjà vu, a impressão de história gasta.

Outro ponto contra é o seu título. Para o leitor brasileiro, ele está definitivamente associado à obra-prima de Machado de Assis.

Contra o livro de Caleb Carr ainda está o fato de E.L. Doctorow, um dos maiores escritores norte-americanos, ter publicado seu ótimo The waterwork-A mecânica das águas nos EUA no mesmo ano, 1994. E daí? Daí que Doctorow utiliza a mesma época, o mesmo espaço-clímax (o reservatório de água, um ponto vital na arquitetura novaiorquina do século XIX) e um narrador em primeira pessoa na mesma condição (jornalista).

Mesmo assim, com tudo contra, O ALIENISTA é um belo romance. Nele, há um serial killer matando e mutilando garotos imigrantes extremamente jovens (abaixo dos quinze anos) que se prostituem na Nova Iorque de 1896. O comissário Teddy Roosevelt (o qual mais tarde será presidente), responsável por um polêmico e combatido programa de moralização da polícia, monta uma equipe inortodoxa para tentar capturar o psicopata.

Dessa equipe participam John Schuyler Moore, o narrador, jornalista do Times; Sara, que pretende tornar-se a primeira mulher investigadora; Marcus e Lucius, irmãos que se dedicam ao lado “científico” da criminologia, introduzindo noções “modernas” como o recolhimento de digitais; Cyrus e Mary Palmer, indivíduos que já cometeram violentos homicídios; e o líder, dr. Laszlo Kreizler, o “alienista” do título, que tenta aplicar os princípios da incipiente psicanálise para descobrir o assassino e renovar a ciência criminal (e, quem sabe, melhorar a sociedade). Para alcançar esse fim, ele treina sua “equipe” a montar o “perfil psicológico” do matador de prostitutos:

“…devíamos envidar todos os esforços possíveis para nos livrarmos de preconceitos sobre o comportamento humano. Não devíamos tentar ver o mundo através de nossos próprios olhos nem julgá-lo por nossos próprios valores, mas sim, com a mente de nosso assassino. A experiência dele, o contexto de sua vida, era tudo que importava. Qualquer aspecto de seu comportamento que nos desconcertasse, do mais trivial ao mais horrendo, devia ser explicado por eventos em sua infância que poderiam levar a tais eventualidades. Esse processo de causa e efeito—que aprenderíamos em breve ser chamado de determinismo psicológico—talvez nem sempre nos parecesse lógico, mas seria coerente. Kreizler realçou que nada  de positivo resultaria de conceber aquela criatura como um monstro, porque era com certeza um homem (ou uma mulher), e esse homem ou mulher fora outrora uma criança”.

Ao contrário dos toscos filmes e livros que utilizam psicologia de araque para embasar suas tramas de psicóticos, O ALIENISTA encanta o leitor pela sua meticulosidade, pela capacidade de ir realmente construindo  a personalidade do assassino, ao mesmo tempo que envereda pelas relações entre os membros da equipe e pela metrópole que Nova Iorque já era em 1896.

Aliás, o “perfil” que monta da Nova Iorque fin-de-siècle é outro aspecto muito bem sucedido do thriller de Caleb Carr, principalmente por lançar sombra sobre o presente (as notícias aterradoras que estão vindo à tona sobre redes de pedofilia, por exemplo). O ALIENISTA executa uma arqueologia do presente, mergulhando nas raízes das contradições da cidade paradigmática dos EUA. Não da forma simbólica e enviesada que caracteriza A mecânica das águas, porém de uma forma tão convincente que o leitor se sente tentado a pensar que Nova Iorque só poderia ser assim na década de noventa do século passado.

E fazendo o presente se inscrever no passado (assim como o assassino adulto que comete crimes em Nova Iorque está inscrito no garoto da cidadezinha de New Paltz). Carr evita habilmente o grande risco dos anacronismos, dos detalhes que ficariam  inverossímeis demais colocados numa época passada e numa mentalidade distante. Lemos a Nova Iorque de 1896 pensando na Nova Iorque dos nossos dias, e a sobreposição das duas qualifica O ALIENISTA como o mais expressivo romance de mistério e suspense da década:

“Sabe, estive pensando que ainda podia sentir compaixão pelo homem, apesar de tudo que ele fez, por causa do contexto de sua vida. Cheguei a pensar que finalmente o conhecia.

Kreizler sacudiu a cabeça.

Não pode, John. Não tão bem assim. Talvez possa se aproximar o suficiente para se antecipar, mas no final, nem você nem eu nem qualquer outra pessoa poderá ver o que ele vê quando olha para as crianças, ou sentir exatamente as emoções que o levam a empunhar a faca. A única maneira de aprender tais coisas seria…—Kreizler virou-se para a janela, com uma expressão distante—…seria perguntar a ele”.

Recusando o ritmo de história em quadrinhos ou mesmo do cinema na condução da sua trama, nem por isso Carr deixa de tornar empolgante a tentativa do dr. Kreizler de ficar cara a cara com o assassino de forma a lhe fazer perguntas vitais. Deixo para o leitor descobrir, lendo um livro primoroso em seu gênero, se ele consegue ou não.

Quanto à edição do Círculo do Livro, nada contra, a não ser não terem conseguido encontrar uma capa tão expressiva quanto a da Record (uma foto inquietante de Alfred Stieglitz), que por si só já chamava a atenção para o romance de Carr nas livrarias.

NOVAS AVENTURAS DO DOUTOR KREIZLER E CIA.

(resenha publicada em 23 de maio de 2000)

Em O ANJO DAS TREVAS (The angel of darkness, 1997, traduzido por Raquel Zampil), um dos grandes lançamentos deste ano, Caleb Carr coloca em ação o mesmo grupo de personagens de  O alienista (1994):  o dr. Lazslo Kreizler, que tenta aplicar princípios da psicanálise para renovar a criminologia; os irmãos judeus Marcus e Lucius, sargentos-detetives, que se dedicam ao lado “científico” da investigação policial (preocupam-se com “modernidades” como recolhimento de impressões digitais e provas balísticas); Sara Howard, que se tornou  a primeira mulher detetive particular; John Schuyler Moore, jornalista do Time e inveterado boêmio; Cyrus,  negro que já cometeu um crime horrível e que trabalha para Kreizler, assim como Stevie, um moleque que era marginalzinho das ruas. Este último é o narrador do livro, substituindo Moore, que preenchia essa função na história anterior. Portanto, um grupo de pessoas nada ortodoxo na cultura norte-americana (como ela mesma gosta de se ver e proclamar ao mundo) e cuja visão em conjunto deixa as pessoas intrigadas e cheias de suspeitas (e a eles reunir-se-á, em O ANJO DAS TREVAS, um pigmeu filipino).

Se é o mesmo grupo em cena e a mesma época (final do século passado), há uma diferença fundamental entre as duas tramas: em O alienista, essa equipe procurava reconstruir, por assim dizer, a personalidade de um assassino que matava e mutilava michês novinhos, e cuja identidade só era descoberta no final; já em O ANJO DAS TREVAS, logo se sabe quem é a raptora da filha de um funcionário da embaixada espanhola na Nova Iorque de 1897, com os EUA vivendo um clima de preparação de guerra contra a Espanha.

E o fato de os investigadores do rapto chegarem não só à identidade da criminosa, Libby Hacht, como também ao local onde ela mantém o bebê escondido, transforma-se num dos encantos da leitura do livro de Carr. Isso acontece no 16º capítulo (são 59 ao todo), na página 189. E o leitor se pergunta: como serão recheadas aos outras 530 páginas? Afinal,  90% de O alienista acontecia sem que houvesse um confronto direto com o psicopata, que era um fantasma que ganhava corpo e vida aos poucos, com as deduções e descobertas meticulosas dos membros da equipe kreizleriana.

Pois o leitor não precisa duvidar: Caleb Carr realiza a mágica de preencher as 530 páginas com uma das tramas mais brilhantes da literatura policial. Nossos heróis, impedidos de resgatar a filhinha do diplomata espanhol no primeiro confronto com Libby Hacht, se dedicam a montar uma engenhosa armadilha que a apanhará. Para isso, começam a investigar o seu passado, o que os levará para fora de Nova Iorque, para as cidadezinhas ao norte do estado, especialmente Ballston Spa, onde descobrirão que, entre outras coisas (é bom não revelar muito), essa espantosa assassina matou dois filhos e quase conseguiu dar cabo da filha mais velha. A sobrevivente nunca mais falou com ninguém e o dr. Kreizler tenta fazer com que ela se comunique novamente, pois Rupert Picton, promotor amigo de Schuyler Moore, resolve levar Libby a julgamento por esse crime (embora tenham acontecido muitos, muitos outros e, ao longo da narrativa, acontecerão muitos, muitos outros mais).

É lógico que a reconstituição da época (e principalmente da sua mentalidade) é uma das preocupações obsessivas de Carr. Em O ANJO DAS TREVAS, um de seus objetivos básicos é discutir a incapacidade do senso comum em aceitar a violência praticada pela mulher. Ou seja, que uma mulher possa ter uma mente criminosa como o homem e, mais ainda, que uma mãe possa querer destruir fisicamente  seus filhos. Esse senso comum é que atrapalha e embaraça as investigações de Kreizler & Cia, as quais são feitas com o mesmo vagar e com o mesmo apuro nos detalhes que já impressionavam na obra anterior. Que fique claro: quem gostar de ritmo frenético, de uma narrativa “cinematográfica” (como se costuma atribuir como qualidade de certos autores policiais e mesmo fora do gênero), não tolerará a leitura de O ANJO DAS TREVAS. Carr é um escritor que pede todo o tempo do mundo do leitor, mas a morosidade com que sua narrativa se constrói não a enfraquece de forma alguma. Muito pelo contrário, estamos diante de um autor que acredita na solidez de um enredo impecavelmente arquitetado e apresentado de uma forma que parece, ao leitor, estar experimentando o que o personagem experimenta. A impressão que temos é que dormimos, acordamos, trabalhamos, comemos, bebemos e corremos perigo junto com esses personagens de 1897.

Assim, o leitor se torna uma engenhosa armadilha para o leitor também, que fica com má vontade de retornar à sua vida de todo dia e se afastar do universo da trama, algo que só parecia possível nos romances oitocentistas. E as explicações psicológicas para o comportamento de Libby Hacth, a Medéia de Ballston Spa, conseguem o milagre, raríssimo em histórias desse tipo, de ganhar a dimensão de descobertas sobre a mente humana, cuja discussão nunca amesquinha os fatos como mera moldura para teoriazinhas.

E vários fatos nunca serão explicados, como já afirmava o advogado de Libby Hacht, o ilustre Clarence Darrow (que existiu realmente), durante o seu julgamento, nem com toda a meticulosidade de Kreizler/Carr. Um deles, por exemplo, é o motivo que levou a Record, que tinha melhorado de forma visível , a regredir tão lamentavelmente e colocou no mercado um resultado tão rampeiro quanto a sua edição de O ANJO DAS TREVAS, a qual sequer tem orelhas nas capas e vem com , digamos, ilustrações que parecem ter sido encomendadas a crianças do jardim da infância e que deveriam ter sido liquidadas pela psicopata do livro. E qual terá sido a Libby Hacht do mundo editorial que sugeriu o preço assassino de sessenta reais?! Que leitores poderão apreciar o talento de Caleb Carr e seu ótimo thriller com tal preço psicótico?

10/12/2010

DESTAQUE DO BLOG: o cinquentenário de O MÁGICO DE LUBLIN


O DON JUAN JUDAICO

É possível que Isaac Bashevis Singer (1904-1991) seja o maior contista (no sentido estrito do termo) da segunda metade do século passado. Desde que li Breve sexta-feira,  é essa a minha opinião.

Mas é curioso ter essa imagem fixada de Singer como um contista supremo, quando ele escreveu também vários romances, e (pelo menos os que li) com a mesma qualidade excepcional: Satã em Gorai, de A família Moskat (infelizmente, ainda não li sua continuação, O solar) e O MÁGICO DE LUBLIN, que está completando seu cinquentenário de publicação, e aqui no Brasil foi traduzido pelas irmãs Maria Luiza & Rachel de Queiroz para a Edinova, em 1967 (parece que e a única edição brasileira).

Relendo-o agora, procurei aclarar para mim mesmo porque a imagem de Singer contista se impõe sobre a de Singer romancista. Confesso que não consegui decifrar a charada. Deve ser porque nesse gênero mais extenso ele tem muitos rivais, e só consigo pensar, no gênero curto, em Jorge Luis Borges, que no entanto é mestre de outra vertente… Enfim, são questões acadêmicas, adorei o livro novamente e Yasha Mazur, o protagonista, certamente é um dos grandes personagens da ficção pós-guerra.

Ele é um mágico que percorre com sucesso a Polônia, morando em Lublin, mas centrando-se artisticamente em Varsóvia, e sempre com a esperança de se tornar um “artista internacional”, o que por enquanto não aconteceu. Boa parte da história acontece às vésperas de uma nova temporada de espetáculos, quando ele promete à plateia (nos cartazes espalhados pela cidade) um novo e espetacular número de “salto mortal”.


O busílis é que Yasha, mais do que um Houdini, é um Don Juan judeu: casado com Ester, mantém um caso com pelo menos mais três mulheres (sua ajudante nos números mágicos, a camponesa Magda, a mulher de um ladrão, Zeftel; e esta apaixonado por—e quer fugir para a Itália com—a viúva Emilia; ainda por cima, tem uma atração imprópria pela filha desta, Halina).

Como, apesar do seu entusiasmo por uma nova vida com Emilia, não consegue se desvencilhar de nenhuma das outras relações (e ainda se complica porque quando está com cada mulher fica empolgado com o quotidiano e as possibilidades “daquela” situação específica: em suma, é um homem que vive para a disponibilidade, para o momento, o que não é exequível a longo prazo), ele precisa de mais dinheiro de que dispõe e que conseguirá com seu número, para “ajeitar” tudo. Uma das suas habilidades (além de hipnotizar as pessoas) é conseguir abrir qualquer fechadura, o que sempre lhe valeu propostas da roda de ladrões que cerca Zeftel (a qual, diga-se passagem, se envolve com um sujeito que trafica mulheres para a América do Sul).

Emilia lhe fala de um velho usurário que mantém no seu cofre todas as economias e uma noite Yasha invade o apartamento dele e tenta roubá-lo. Não consegue, atrapalha-se todo e ainda machuca gravemente o pé, o que é fatal para o seu novo número. No meio de tudo, algumas cenas em que ele se refugia em sinagogas, mostram a situação de exílio de Yasha de sua própria herança judaica, embora ele não seja um “assimilado” (estamos na 2a. metade do século XIX, quando a Polônia fazia parte do império russo, após uma malograda tentativa de independência).


A partir do assalto frustrado, da queda, e da dissolução de todos os seus relacionamentos (após confessar-se com Emilia, eles percebem a impossibilidade de continuar o relacionamento; Magda, eternamente humilhada e preterida, enforca-se; Zeftel se torna amante do traficante de mulheres), a narrativa adota um tom febril e alucinatório à Dostoievski…

Da primeira vez que eu li o romance, eu não tinha gostado muito do capítulo final, quando Yasha, após seu momento de herói dostoievskiano, volta para a esposa, mas resolve se tornar um “penitente”, emparedando-se vivo no quintal da sua casa em Lublin. Ainda gosto mais do resto da narrativa do que dessa parte final, porém a verdade é que Yasha apenas encapsulou seu problema em termos de espaço: os tormentos continuam os mesmos, só que o Don Juan assume o destino mais estritamente judaico, por assim dizer.

É curioso como, apesar de ficar evidente em Singer aquela característica do povo judeu como “povo do Livro”, fundamentado na erudição e na exegese metafísica, sempre que leio esse autor maravilhoso, me vem à cabeça o nosso Dalton Trevisan, que não poderia lidar com uma gente menos “povo do Livro”; no entanto, as pulsões e a atmosfera sexual são muito parecidas: é um mundo de apetites, de cobranças mesquinhas entre os gêneros, de guerra mesmo, da vontade primordial do macho sobre a capitulação ritual da fêmea, e ao mesmo tempo de uma fraqueza do macho diante da ancoragem da fêmea (culturalmente adestrada) no cotidiano, que tornam as cidades polonesas e Curitiba bem próximas…

Já era hora de reeditarem O MÁGICO DE LUBLIN por aqui, não?

“Ele,  Yasha, segundo todas as aparências era um igual[1], fazia parte do grupo; entretanto, uma barreira os separava. Nunca o conseguira explicar. Sua ambição e sua sede de viver alternavam-se com uma tristeza vaga, a consciência da inutilidade de tudo e o sentimento de uma culpa que não podia ser expiada nem esquecida. Afinal, para que viver se não sabemos por que nascemos ou por que morremos? Qual o sentido das belas palavras sobre positivismo, sobre a reforma industrial e sobre o progresso, se tudo ficava encerrado com a laje da sepultura? Apesar de toda a sua vitalidade, Yasha estava sempre à beira da melancolia. Quando não o dominava  o apaixonado interesse por novos truques ou por novos amores, as dúvidas o assaltavam como um bando de gafanhotos. Fora apenas para dar saltos mortais e iludir algumas mulheres que viera ao mundo?”

 

“Estranho ter esquecido que ele mesmo dera dinheiro a Zeftel para que ela viesse a Varsóvia. Esquecera-se completamente da existência dela. O emaranhado da sua vida, embora muitas vezes o deixasse tonto, dava-lhe também um certo prazer maligno, como se a sua história fosse um romance onde as situações ficassem cada vez mais tensas, a ponto de não se poder esperar para virar a página…  Vou livrar-me dela e depois irei ver Emilia, decidiu. Emilia não saberia o que pensar, era a primeira vez que ele faltava a um compromisso. Sua preocupação era que ela estivesse realmente magoada. As coisas estavam por um fio. Também já se arrependera de ter abandonado Magda naquele estado. Nesse instante, Yasha deu-se conta de que já não era o mesmo. Dantes, havia épocas em que mantinha meia dúzia de casos com mulheres ao mesmo tempo, sem que isso lhe trouxesse qualquer preocupação. Enganava a todas, livrava-se delas quando queria e tudo sem qualquer sentimento de culpa. Agora, atormentava-se com insignificâncias e estava sempre procurando agir com correção. Será que estou virando santo? —murmurava para si mesmo. Não valia a pena discutir com Emilia por causa de Magda e Zeftel. Mas aquele aguilhão na mente, que dera agora para lhe ditar a última palavra em todos os seus atos, o impelia a ficar do lado de Zeftel.”

“Ele bem sabia que o seu pior inimigo era o tédio. Para fugir do tédio cometera todas as suas loucuras. O tédio o flagelava como um chicote de muitas pontas. Por causa dele, sobrecarregava-se de encargos.”

“Olhou pela janela do balcão. Um fracasso completo. Pela primeira vez na vida. A noite fora terrível. Agora sim, sentia medo. No íntimo sabia que a sua má sorte não se limitaria apenas àquela noite. Agora, afinal, ganhava a parada o inimigo que vinha há anos ocultando-se dentro dele e que a cada investida tinha de ser repelido com energia e habilidade á custa dos sortilégios e exorcismos que cada um tinha de aprender por si mesmo. Yasha sentia a sua presença—um ser satânico, um duende, o adversário implacável que o procurava confundir, ora a atrapalhar-lhe os malabarismos, ora a tentar empurrá-lo do arame, ora a querer torná-lo impotente…”

“Quando a mulher lhe trouxe o fígado com pão, ele sabia que precisava, antes de comer, fazer suas abluções. Mas não viu por perto nenhum local apropriado para isso. Mordeu um pedaço do pão e o homem da veste franjada perguntou:

__ Não vai fazer suas abluções?

__Ele já as fez antes—disse com sarcasmo o homem de barba preta.

Yasha ficou em silêncio, pensando, admirado, em como pudera a sua precedente sensação de afinidade com eles transformar-se agora em zanga, orgulho e desejo de se ver longe dali. Evitou-os com o olhar e eles logo o esqueceram, empenhados nas suas prontas conversas. Falavam sobre tudo: comércio, hassidismo, milagres. Yasha refletia: tantos milagres e assim mesmo tantas doenças, tanta miséria, tantas epidemias…

O que devia fazer agora? Chamar um médico? Mas o que podia fazer o médico? Eles só tinham um remédio: engessar. Tintura de iodo, ele mesmo poderia passar. E se não houvesse melhora? Ninguém era capaz de dar cambalhotas na corda esticada com o pé naquelas condições. Quanto mais Yasha considerava a sua situação, mais grave ela lhe parecia. Quase sem dinheiro, e ainda por cima machucado, como poderia ganhar a vida? E o que diria a Emilia? Devia estar aborrecida porque ele não aparecera na véspera. E como iria explicar tudo a Magda quando voltasse para casa? Teria também que contar onde passara a noite? Era triste considerar que toda a sua vida e mesmo seus amores dependiam exclusivamente de um pé…”

 

“Fechou os olhos e escutou os cânticos da Torá. Gritos de vozes adolescentes misturavam-se com os sons roucos e os guinchos dos velhos. As vozes gritavam, murmuravam, cantavam diziam palavras soltas. Yasha lembrou-se do que Wolsky dissera uma vez, depois de um copo de vodca, que ele, Wolsky, não era antissemita, mas que os judeus da Polônia tinham criado uma pequena Bagdá no meio da Europa. Mesmo os chineses e os árabes, de acordo com Wolsky, eram civilizados em relação aos judeus. Por outro lado, os judeus que usavam casaco curto e raspavam as barbas, ou eram revolucionários ou desejavam ardentemente tornar a Polônia russa. Em muitos casos, eram as duas coisas, explorando e revolucionando, ao mesmo tempo, as classes trabalhadoras. Eram radicais, maçons, ateus, internacionalistas, querendo apoderar-se, dominar e macular tudo.

Um silêncio desceu sobre Yasha. Ele poderia ser considerado um dos tais judeus barbeados, mas descobriu que esses lhe eram ainda mais estranhos que os ortodoxos. Desde a infância viva cercado de gente religiosa. Mesmo Ester conservou um lar judeu com uma cozinha kosher. Talvez esse tipo fosse muito asiático, como diziam os judeus intelectualizados, mas pelo menos tinham fé numa pátria espiritual, uma história, uma esperança. Além das próprias leis que governavam o comércio, tinham toda a literatura hassídica: estudavam a cabala e os livros de ética.

Mas que haviam assimilado os judeus? Nada pessoal. Num país falavam polonês, noutro russo, em outro ainda, alemão e francês. Sentavam-se no Café Lurs, no Café Semodeni ou no Café Strassburger, tomando café, fumando cigarros, lendo vários jornais e revistas e contando piadas que provocavam risadas que Yasha sempre considerava desagradáveis. Continuavam suas próprias políticas, sempre planejando greves e revoluções, embora as vítimas dessas atividades fossem sempre os pobres judeus, seus irmãos…

Era estranho, mas assim que Yasha se encontrou na casa de orações, começou a fazer um balanço da própria alma. Era verdade, ele havia se alienado dos piedosos, mas não tinha ido para o campo dos assimilados. Perdera tudo: Emilia, a carreira, a saúde, o lar…”

 

“Yasha ficou parado, olhando fixamente para um ponto na maçaneta da porta, sentindo-se preso de todos os lados por forças misteriosas. Em volta o silêncio era opressivo. Tinha medo de virar a cabeça. Alguma forma estranha emboscava-se por perto, prestes a atacá-lo—alguma coisa monstruosa e inominável. Desde a infância que se familiarizara com aquela presença. Revelava-se a ele em pesadelos. Era, procurava se convencer, fruto da sua própria imaginação, mas mesmo assim não lhe podia negar a existência…”

“Devo tolerar tudo, refletia Yasha… Ficou ali de pé, envergonhado, humilhado, pronto para abrir mão do resto de orgulho que ainda possuía. Sirva isto de expiação aos meus pecados, murmurou a voz dentro dele…

Virou a maçaneta e a porta abriu-se. A lâmpada estava acesa na cozinha. Zeftel dormia na cama de ferro e ao lado dela estava Hermann. Ambos dormiam. Hermann roncava, profundamente, sonoramente. As vozes dentro de Yasha haviam silenciado. Ficou parado, num pasmo, e depois se voltou para um canto, com medo de que um dos dois abrisse os olhos. Uma vergonha como nunca sentira antes apoderou-se dele—vergonha não pelo caso, mas por si mesmo; a humilhação daquele que compreende que apesar de toda a sua sabedoria e experiência, continua a ser um tolo.”

 

 

 


[1] Esse trecho faz parte de uma cena em que Yasha está num café em Varsóvia.


 

09/12/2010

O LAR DE ULISSES: o difícil retorno

 

(resenha publicada em 14 de novembro de 2000 em A TRIBUNA, de Santos)

Um dos resultados mais interessantes da leitura de BREVE ROMANCE DE SONHO (Traumnovelle), de Arthur Schnitzler (1862-1931), grande lançamento de 2000 (embora a Companhia das Letras tenha demonstrado uma incrível falta de timing, colocando-o no mercado um ano depois), é constatar a fidelidade que Stanley Kubrick conseguiu manter ao enredo do escritor austríaco, mesmo ambientando-o na nossa época (o livro é de 1926), quando o adaptou em De olhos bem fechados. Tirando um ou outro detalhe e apenas uma cena importante (o extraordinário diálogo entre Tom Cruise e Sidney Pollack, pouco antes do final), o que se vê na tela é o que está no pequeno romance.

No texto de Schnitzler (traduzido por SérgioTellarolli), o jovem doutor Fridolin sai de casa (em Viena) por causa de um chamado médico, após ouvir da esposa, Albertine, numa conversa amena sobre um baile de máscaras no dia anterior, que ela pensara traí-lo (e até abandoná-lo) com um desconhecido durante férias na Dinamarca. Por esse motivo, ele reluta em voltar e inicia uma longa jornada noite adentro, que começa quando aceita o convite de uma prostituta de rua, depois se complica quando encontra um antigo colega, Nachtigall, agora pianista, que deverá tocar num lugar misterioso onde só se entra fantasiado, mascarado e com uma senha. Conseguindo a fantasia numa loja onde o dono explora sexualmente a filha, Fridolin penetra na festa, uma orgia que mistura sagrado e profano, num lugar bem afastado. Lá, uma mulher misteriosa o alerta do perigo que está correndo. Fridolin acaba encurralado como intruso e a mulher misterioso se oferece em sacrifício para que seja liberado incólume. No dia seguinte, começa a desconfiar que a bela mulher que foi encontrada agonizante num hotel, notícia lida num jornal, é a mulher da orgia que o salvara. Ao tentar ir mais fundo no caso, recebe várias advertências e começa a viver um clima ameaçador. No final, decide contar tudo a Albertine.

Como se vê, começa-se e termina-se com confissões em que um membro do casal revela toda uma “outra” vida para o cônjuge.

BREVE ROMANCE DE SONHO começa com a leitura de um conto-de-fada. Nesse clima “era uma vez”, que vai se desligando dos acontecimentos cotidianos, temos o baile de máscaras, a orgia, as fantasias eróticas, os sonhos, os encontros fortuitos. Eles todos têm uma função—assim como no filme: desrealizar o real, fazer com que ele perca consistência, solidez e força, mostrando-o como uma construção frágil determinada por nossa razão e nossas limitações.

Há um momento em que, referindo-se às experiências de Fridolin, o narrador diz: “estava ao mesmo tempo embriagado e sedento em razão dos acontecimentos daquela noite, nenhum dos quais tivera um fecho”. E nem poderiam ter. BREVE ROMANCE DE SONHO é uma profunda e inquietante investigação sobre as possibilidades perdidas ou latentes que constituem o avesso da nossa existência.

Ao mesmo tempo, é também a constatação de que em muitas dessas possibilidades perdidas ou latentes está embutida a pulsão da morte: é por isso que há a reiterada atmosfera de perigo rondando Fridolin e que Kubrick aproveitou magistralmente para criar um clima de suspense notável na parte final de De olhos bem fechados (inclusive porque utiliza um tema musical extraordinário). O grande diretor só pecou ao querer passar uma idéia de monumentalidade na cena de orgia que destoa do tom simples (e eficaz) do texto de Schnitzler e torna-se o calcanhar de Aquiles do filme: difícil não ter um ataque de riso no momento em que se forma um círculo de mulheres em torno de um tipo mascarado, balançando um turíbulo ou coisa que o valha, batendo um bastão sonoro no chão, marcando o ritmo de uma espécie de canto sacro. São minutos de constrangedora cafonice num filme requintado e magnífico.

Isso não acontece com o texto de Schnitzler, em primeiro lugar porque, como máquina de gerar imagens através de palavras, a literatura não sofre os inconvenientes do cinema; em segundo, porque o grande escritor austríaco tem um estilo muito despojado e descarnado, que torna verossímil qualquer acontecimento. Mas tanto BREVE ROMANCE DE SONHO quanto De olhos bem fechados conseguem impor ao leitor/espectador uma causalidade narrativa determinada pela abolição do limite entre o vivido e o desejado. Após sua longa noite, Fridolin fica sabendo que a esposa tivera um sonho onde ele aparecia crucificado e ela zombava dele. No dia seguinte, a experiência real e a experiência onírica confundem-se na sua mente: “Havia anos que não possuía de fato com ninguém a intimidade que desfrutava com a esposa, e com ela não podia se aconselhar nesse caso—nem nesse, nem em qualquer outro. Afinal, a verdade era uma só: ela o mandara crucificar na noite anterior”.

Há uns 2.800 anos, no poema de Homero, Ulisses perdia-se na volta ao lar. Parece que pouca coisa mudou: “Fridolin sabia agora por que, em vez de conduzi-lo para casa, seus passos seguiam levando-o sempre e involuntariamente na direção contrária”. O mundo do desejo não reconhece nem lar nem estabilidade. Ele quer se instaurar nem que seja preciso destruir. Foi, é, sempre será assim.

08/12/2010

AUGUSTO DOS ANJOS: os magníficos versos do coveiro

Todo leitor conhece a dedicatória de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, e o final do romance de Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”.

Uma visão niilista similar norteia a produção poética de Augusto dos Anjos (1884-1914), que a Bertrand possibilita revisitar na esplêndida 43ª edição de EU E OUTRAS POESIAS:

Porque a morte, resfriando-nos o rosto/Consome a minha concepção vesânica/ E a alfândega onde toda a vida orgânica/ Há de pagar um dia o último imposto”.

É quando percorremos o conjunto da obra de Augusto dos Anjos que nos livramos daquela imagem-chavão de um poeta esquisito, useiro e vezeiro de uma linguagem esdrúxula, meio kitsch, tomada do vocabulário científico. A imagem que surge é outra: um poeta extremamente consciente (a perfeição do verso em Augusto dos Anjos e, em especial, a sua aplicação no soneto, são impressionantes) e um volume que está para o Brasil como As flores do mal para a França (em ambos, a mesma influência-matriz: Edgar Allan Poe). E estamos falando de um poeta que morreu aos 30 anos (Baudelaire morreu aos 46).

Outro grande sonetista, Antero de Quental (1842-1891), escreveu O palácio da Ventura:

Sonho que sou um cavaleiro andante/Por deserto, por sóis, por noite escura/Paladino do amor, busco anelante/ O palácio encantado da Ventura//

Mas já desmaio, exausto e vacilante/ Quebrada a espada já, rota a armadura…/E eis que, súbito, o avisto, fulgurante/ Na sua pompa e aérea formosura//

Com grandes golpes bato à porta e brado:/Eu sou o Vagabundo, o Deserdado…/Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!//

Abrem-se as portas d´ouro, com fragor…/Mas dentro encontro só, cheio de dor/ Silêncio e escuridão—e nada mais!”


Pessimista, cético, Antero ainda assim contraditoriamente procura fora de si a plenitude, simbolizada por uma metáfora arquitetônica, embora derrotado pela desilusão final. Igualmente arquitetônica é a maneira utilizada por Augusto dos Anjos, no extraordinário soneto Vandalismo, para mostrar que está em nos mesmos o obstáculo à plenitude que Antero perseguia:

Meu coração tem catedrais imensas/Templos de priscas e longínquas datas/ Onde um nume de amor em serenatas/Canta a alegria virginal das crenças.//

Na ogiva fúlgida e nas colunatas/ Vertem lustrais irradiações intensas/ Cintilações de lâmpadas suspensas/E as ametistas e os florões e as pratas.//

Como os velhos Templários medievais/ Entrei um dia nessas catedrais/ E nesses templos caros e risonhos…//

E erguendo os gládios e brandindo as hastas/ No desespero dos iconoclastas/Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos.”

Com sua desesperada iconoclastia, o genial poeta paraibano destila sua visão da vida cujo parâmetro não é a transcendência e sim a putrefação, o pó que nos é destinado, após o festim dos vermes: “O coração do Poeta é um hospital/ Onde morreram todos os doentes”.

A fisiologia é o ponto de partida para o diagnóstico metafísico:

E o cuspo que essa hereditária tosse/ Golfava, à guisa de ácido resíduo/ Não era o cuspo só de um indivíduo/ Minado pela tísica precoce.//

Não! Não era o meu cuspo,com certeza/ Era a expectoração pútrida e crassa/ Dos brônquios pulmonares de uma raça/ Que violou as leis da natureza”.

Para materializar essa visão, na qual “Há mais filosofia neste escarro/ Do que em toda a moral do Cristianismo”, o “filho do carbono e do amoníaco”, o “coveiro do verso” convoca o repertório das ciências e pseudo-ciências que dominaram as positivistas décadas finais do século XIX e começo do século seguinte. Estaríamos, então, diante de um poeta naturalista, de um Aluísio Azevedo (O cortiço) do verso?

Nada disso. O cientista, para os naturalistas, era uma autoridade absoluta, dava a última palavra sobre a vida, uma palavra otimista que entrevia progresso e desenvolvimento para nossa espécie. Ao utilizar um background científico-filosófico,o autor de EU E OUTRAS POESIAS parece apenas reafirmar o nada da nossa condição, o que lhe tira qualquer resquício de cafonice e mau gosto e o lança no reino da ironia. Além disso, por um efeito alquímico que só os gênios conhecem, os termos caem como uma luva na cadência do verso: “Que eu vejo enfim, com a alma vencida/ Na abjeção embriológica da vida/ O futuro de cinza que me aguarda”.


No mundo schopenhauriano da “negatividade universal”, o homem só pode se horrorizar diante de si mesmo:

Quando eu pego nas carnes de meu rosto/ Pressinto o fim da orgânica batalha/ Olhos que o húmus necrófago estraçalha/Diafragmas, decompondo-se, ao sol posto…//

E o homem—negro e heteróclito composto/ Onde a alva flama psíquica trabalha/Desagrega-se e deixa na mortalha/O tato, a vista, o ouvido, o olfato e o gosto!//

Carne, feixe de mônadas bastardas/Conquanto em flãmeo fogo efêmero ardas/ A dardejar relampejantes brilhos//

Dói-me ver, muito embora a alma te acenda/ Em tua podridão e herança horrenda/ Que eu tenho de deixar para os meus filhos!”

A partir daí, ele se debate num dualismo que rende imagens magníficas em sonetos inigualáveis: “Minha alma é um misto/ De anomalias lúgubres. Existo/ Como o cancro, a exigir que os sãos enfermem…

…minha alma, enfim, dada às bravas/Cóleras dos dualismos implacáveis/E a gula negra das antinomias!//

Psiquê biforme, o Céu e o Inferno absorvo…”

É a visão de William James sobre a morte: podemos fazer o que quisermos para ignorá-la e escondê-la de nós mesmos, mas no final, “a caveira arreganhará os dentes no banquete”. O notável em Augusto dos Anjos é como ele, tal como Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, modelou uma linguagem única e irresistível para nos manter cientes disso. Por isso, EU E OUTRAS POESIAS, , livro da singularíssima pessoa, em cuja sorte um urubu pousou, é simplesmente indispensável em qualquer biblioteca que se preze, e 89 anos após sua edição original, é ainda um dos grandes, singularíssimos lançamentos de qualquer ano.

Resenha publicada em 10 de julho de 2001

05/12/2010

O CONTEXTO DE SHAKESPEARE: SOB O SIGNO DA PESTE

 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de outubro de 2001)

Já em 1956,  F. E. Halliday protestava contra a “ilusão de que pouco ou nada se sabe a respeito da vida de Shakespeare”. Nada poderia endossar mais o argumento de Halliday, de que se trata mesmo de uma “ilusão” (e uma indústria cultural muito lucrativa) do que as mais de 500 páginas de SHAKESPEARE (1998), do norte-americano Park  Honan. Como se poderia escrever mais de 500 páginas sobre o que pouco ou nada se sabe?

No entanto, como se trata de uma vida muito distanciada no tempo (Shakespeare viveu de 1564 a 1616) e sobre um autor que se revelou pouco em suas obras, a biografia de Park Honan (traduzida por Sônia Moreira) ganha interesse maior como um retrato detalhado e acurado da mentalidade elizabetana e jacobina, isto é, os dois reinados (o de Elizabeth I e o de Jaime I) sob os quais viveu o homem de Stratford on Avon, principalmente no contraste entre a província e a metrópole londrina, os dois pólos de sua existência:

“Shakespeare conheceu ordens sociais contrastantes: vindo da paróquia bem ordenada e quase medieval da sua juventude, foi parar no mundo anárquico e estilhaçado dos subúrbios, onde o sucesso no teatro dependia da sorte, do acaso, da agilidade e de empenho e rapidez de raciocínio. Stratford  tinha a sua cota de competitividade comercial, mas era também um lugar de valores comunitários e religiosos mais antigos, de tradições de comportamento e sentimentos opostos aos hábitos pragmáticos e oportunistas do meio teatral. Formado essencialmente pelo temperamento e pela mentalidade devota dos seus pais, é bem possível que Shakespeare se empenhasse sem nunca se sentir inteiramente satisfeito com nada que fizesse”.

Nesse aspecto, Honan pode ser lido como um bom historiador. De documentos cartoriais, de atas de conselhos, de testamentos, surge toda a paróquia de Stratford diante de nossos olhos, bem como a Londres marcada pela superpopulação, expandindo-se para além dos marcos medievais, em subúrbios miseráveis e cheios de imigrantes e provincianos, de vez em quando assolada pela peste.

Shakespeare, aliás, parece ter nascido sob o signo da peste, já que sobreviveu, após o parto, a uma epidemia em seu cantão natal, e depois teve sua carreira nos palcos várias vezes interrompida em Londres, por causa dos surtos (e uma das medidas das autoridades era fechar os teatros).

Assistimos à grande transformação operada pela Era Tudor na Inglaterra, como ela se torna a maior potência e vai forjando, ao mesmo tempo, a consciência da própria língua (nas escolas, o latim era mais importante do que o inglês) e da identidade nacional. E as disputas religiosas que interferiam diretamente no meio dramático, através da perseguição, da censura e das ameaças de supressão dos espaços teatrais. O próprio mundo do teatro é exemplarmente caracterizado, de uma forma até excessiva.

O que escorre pelas mãos do biógrafo é o seu objeto biográfico. Não porque pouco ou nada se sabe sobre ele, pois Honan prova justamente o contrário. Quando, porém, enfoca diretamente o que se passa na mente de Shakespeare (e a mente de Shakespeare já ocupou um sem-número de indivíduos), quando abandona os “é bem possível” ou “é mais ou menos evidente”, o escrupuloso biógrafo e talentoso historiador mostra a fragilidade básica das biografias: nas poucas vezes que tanta nos passar uma idéia do que é ser um Shakespeare diante da vida e dos fatos, ora ele cai na mais completa vacuidade, ora parece encaminhar-se para a ficção, inventando a introspecção de um personagem. É o caso da continuação da passagem citada mais atrás: “…tinha motivos de sobra nos degradados subúrbios para se arrepender de ter optado pelo teatro”!!!???

Várias vezes, Honan sublinha que talvez tenha sido uma infeliz opção de Shakespeare, devido à sua necessidade de respeitabilidade e estabilidade econômica, de modo a viabilizar a continuidade de herança de sua família. Mas por que então ele escolheu o teatro, uma profissão de tão baixo status? Por que não admitir simplesmente que ele tinha o teatro no sangue, como se diz, e estava simplesmente seguindo o amor fati de Nietzsche, isto é, cumprindo seu destino?

Só isso explicaria, também, porque num ritmo de produção alucinante e mercenário, precisando prover de repertório os grupos com os quais trabalhava, e sempre plagiando e imitando fontes anteriores, ele escreveu os maiores textos teatrais e poéticos de que se tem notícia, e cuja validez e impacto são ratificados a cada ano que passa.

Da maneira como Honan caracteriza a psique de Shakespeare, a impressão que se tem é que ele, por falta de melhores opções, ingressou no teatro e foi frustrando uma inclinação natural à carreira poética, por força das circunstâncias e da necessidade de sobrevivência, até que se resignou e redefiniu seu talento em função do meio e da carreira adotada. Se as coisas ocorreram assim, foi a melhor resignação que a história já pôde registrar: tudo está bem quando acaba bem.

Comentando Macbeth, Honan afirma: “Apesar de toda a sua originalidade, o dramaturgo tinha uma idiossincrasia que talvez possa ser atribuída à modéstia, à cautela ou, ainda, ao fato de ser um ator assalariado e mais tarde um ator importante. Shakespeare muitas vzes procurava um grão de areia, uma frase, um comentário simples e autêntico, ou uma situação conhecida, inventada por outra pessoa, a partir da qual sua imaginação pudesse pôr-se a trabalhar. Nada que Shakespeare tenha pego ao acaso, no entanto, é bastante para explicar a atmosfera de Macbeth, seu enorme poder evocativo, sua impressionante tensão e economia de recursos, e sua complexa coleção de imagens”. Ao fim e ao cabo, mesmo as mais exaustivas pesquisas têm de se render ao imponderável, à força do inapreensível.

Portanto, mais que uma biografia, SHAKESPEARE é um bom livro sobre o contexto que o envolveu. E como já disse Harold Bloom (em A invenção do humano), “o contexto de Shakespeare  explica tudo… exceto  o que o torna de tal modo diferente  de seus companheiros que, em última análise, chega a parecer uma espécie distinta”.

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04/12/2010

HAMLET GENÉRICO

Filed under: traduções — alfredomonte @ 0:00
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O tradutor Fernando Nuno e a editora Objetiva começaram, a partir da publicação de Hamlet, a Coleção Shakespeare, norteada por uma excelente idéia: verter integralmente os textos, entretanto adaptando-os ao formato da prosa. A narração substitui as deixas teatrais. As falas permanecem relativamente intactas.

É uma solução média bastante pertinente para atrair o leitor de hoje (principalmente o público jovem), sem que se recorra a condensações ou mutilações excessivas através de adaptações simplificadoras. No fundo, não é muito diferente de outra versão média, a tradução de Millôr Fernandes editada pela L&PM (que também tem outras versões muito ágeis e qualificadas de peças shakesperianas na sua coleção pocket).

E também média, no bom sentido, é a versão em prosa de F. Carlos de Almeida Cunha Medeiros & Oscar Mendes, publicada pela Nova Aguilar—possivelmente ainda o melhor meio de entrar em contato com Shakespeare em língua portuguesa—que, como as outras, é uma boa preparação para enfrentar traduções mais eruditas e complexas, como a de Péricles Eugênio da Silva Ramos, um tour-de-force do tradutor e também para o leitor.

Aqui nem vou falar da peça (todo mundo sabe que o espectro do pai de Hamlet conta a ele que fora assassinado pelo irmão, agora rei da Dinamarca, e a vingança que ele deve efetivar é procrastinada até o último ato, no qual morrem todos os personagens principais), embora—como tantos outros—eu tenha dedicado boas horas da minha vida a pensar sobre ela (todo mundo sabe também que é um dos quatro ou cinco textos fundamentais da história do Ocidente).

Recentemente foi lançado no Brasil o importante livro de L. S. Vygotski, A tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca, onde ele mostra como é infrutífera a tentativa de entender a peça a partir da falta de decisão de Hamlet. Ele é o homem que teve acesso à vida após a morte (no contato com o espectro); a partir daí torna-se uma figura no limiar, na passagem entre os dois mundos, nunca mais estará inteiramente “cá”, já está com um pé no lado de “lá”. A peça, com sua filosofia à Montaigne, é uma aula de preparação para a morte (já se disse dela que é `o Eclesiastes em ação”).

“The readiness is all”, diz o príncipe a Horácio no último ato, logo antes do clímax, quando deve duelar com Laertes (cuja tragédia espelha a sua).

Causa espanto que Fernando Nuno (que é apresentado como um apaixonado por Shakespeare) tenha vertido de forma tão chocha a fala “Desafiamos os presságios. Se vai ser agora, também pode ser em outra hora, e se não for para acontecer, também não vai ser agora, também pode acontecer mesmo assim. E se é para deixar de lado alguma coisa, qual é a hora certa para deixá-la de lado? O mais importante de tudo é estar sempre prevenido”.

Compare-se com a versão (muito mais bela) de Péricles Eugênio da Silva Ramos: “…desdenhemos o augúrio. Há uma iniludível providência na queda de um pardal. Se for este o momento, não está para vir; se não está para vir, é este o momento; se não é este o momento, há de vir todavia—estar pronto é tudo. Já que ninguém sabe, por coisa alguma do mundo, qual o momento exato de morrer, por que nos preocuparmos?”.

Para o leitor que aprecia justamente a linguagem é o mesmo choque experimentado com o que aconteceu ao já referido Eclesiastes na “nova versão internacional”. Na Bíblia de Jerusalém, lemos: “Vaidade das vaidades—diz Coélet—vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol?” É lindo, é a suprema beleza da linguagem.

Na “nova versão internacional”, lemos: “Que grande inutilidade, diz o mestre, que grande inutilidade. Nada faz sentido! O que o homem ganha com todo o seu trabalho em que tanto se esforça debaixo do sol?” É preciso dizer alguma coisa? Mesmo louvando a iniciativa de um novo Hamlet, é preciso dizer que muita coisa se perdeu na canhestrice. Por exemplo, é possível uma frase como “A little more than kin, and less than kind” (pouco mais que um parente, menos que um filho) virar “filho desse aí é que eu não sou mesmo”!!!!???? Ou ainda, onde está o soberbo e indispensável grito de Hamlet ao saber que o tio realmente assassinara o pai: “Ó minh´alma profética”?

E assim por diante. O Hamlet que inaugura a coleção Shakespeare não é suficiente,mas é um bom primeiro passo para quem não se contentar apena com ele. Mais que uma adaptação ou condensação, menos que um Hamlet genuíno.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de julho de 2003)

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