MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/10/2016

Expectativas quanto ao Prêmio Nobel de 2016

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de outubro de 2016)

No próximo dia 13, é bem provável que Haruki Murakami seja anunciado como o vencedor do Nobel de Literatura 2016, o que era aguardado há alguns anos. Para mim, será uma grande injustiça, pois o escritor japonês, a cada obra torna-se mais bizantino e artificioso. Seu romance ambicioso em três volumes, 1Q84 revelou-se uma abobrinha, uma mixórdia quase ilegível. Em compensação os outros quatro autores mais cotados (Philip Roth, Ngugi wa Thiong’o e Joyce Carol Oates) são notáveis. Eu tenho um apreço todo especial pela obra de Oates, e torcerei por ela, mas não dá para negar a influência universal dá obra de Roth, e o queniano Thiong’o, escreveu um admirável livro de memórias (Sonhos em Tempos de Guerra); aliás, a academia sueca tem uma longa dívida com países africanos.

A morte de Umberto Eco, escancarou o desprezo por uma magnifica geração de intelectuais e escritores italianos. Favorito há tempos atrás, o grande Claudio Magris deveria ser finalmente reconhecido, são dele algumas das obras mais inclassificáveis e apaixonantes das últimas décadas (Danúbio; Microcosmo; Alfabetos).

No entanto, o descalabro mais evidente é com a nossa língua. Dá para acreditar que em 116 anos só um autor foi premiado (José Saramago)? Atualmente, Portugal apresenta a literatura mais interessante dá União Europeia. Além dá venerável decana Agustina Bessa-Luís (A Sibila), temos o gênio António Lobo Antunes, único autor que rivaliza com Joyce Carol Oates na produção incessante de romances ciclópicos. Outro gênio, com uma escritura que não parece com ninguém é António Vieira (Olhares de Orfeu). Dá mesma geração temos a maravilhosa obra de Lídia Jorge (Combateremos a Sombra), e Almeida Faria (A Paixão). É tão notável a ficção portuguesa, que até os mais jovens mereceriam o Nobel, caso de José Luís Peixoto (o maior escritor surgido nesse século), Gonçalo M. Tavares e Walter Hugo Mãe.

No caso do Brasil nossos maiores escritores são nonagenários, se isso for um empecilho: Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca. Contudo a escritores menos macróbios: Raduan Nassar, Maria Valéria Rezende, Francisco J. C. Dantas, além de poetas como Carlos Nejar e Adélia Prado. E o que disser da obra peculiaríssima de Elvira Vigna, um diamante nunca lapidado, porque ela se move num universo cheio de arestas? E já seria a hora de reconhecer a originalidade e contundência da obra de Ricardo Lísias, expoente de uma nova e explosiva geração literária.

E por falar em Ricardo, o Nobel que sempre ignorou a extraordinária literatura argentina, bem poderia premiar Ricardo Biglia, que passa pelo drama de ser portador da E.L.A (Esclerose Lateral Amiotrófica), não só pela tragédia de cunho pessoal, como pela sua desafiadora obra (Respiração Artificial; Nome Falso; O Último Leitor).

Mas isso são meros palpites. De minha parte, estarei fazendo figa para Joyce Carol Oates ser galardoada ao invés de Murakami.

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07/10/2015

NOBEL 2015

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«Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos atos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma perfeição
especialista em fracassos.

Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes»  
(Ana Hatherly)

«Sentados no Café, estamos viajando, como num trem, num hotel ou pela rua, temos conosco bem poucas coisas,não é possível apor a coisar alguma qualquer vaidosa marca pessoal, não somos ninguém. Naquele anonimato familiar podemos nos dissimular,  livrar-nos do eu como de uma casca. O mundo é uma cavidade incerta, na qual a escrita penetra perplexa e obstinada» (Claudio Magris)

Depois do impacto que teve para mim a leitura de Wislawa Szymborska e Ivo Ándritch, desejo de coração que o Nobel deste ano mais uma vez seja concedido a algum escritor de que nunca se ouviu falar, de uma língua minoritária, o que geralmente irrita os comentadores (pois como vão recorrer a informações e resenhas já mastigadas e prontas para a prensa?; como ficam os comentários-padrão?).

Afinal, não fosse o prêmio, quais as oportunidades, para o leitor comum de língua portuguesa, de ter acesso à obra da poeta polonesa ou do ficcionista iugoslavo[1], ambos admiráveis? Todo mundo mais ou menos bem-informado conhece (nem que seja de ouvir falar) Vargas Llosa, para citar um premiado recente, ou Philip Roth, para falar de um dos “eternos candidatos”. Há cinquenta anos, quantos conheciam a obra do soviético Mikhail Sholokhov (ainda mais com a tensão da Guerra Fria)[2]? Já o premiado anterior, Jean-Paul Sartre («pelo seu trabalho, rico em ideias e preenchido com o espírito da liberdade e em busca da verdade, exerceu uma influência profunda na nossa época»), era uma estrela mundial, um personagem central da cultura daquele período histórico. Em 1966, os vencedores (um raro caso de divisão do prêmio) seriam ainda mais “obscuros”, o israelense Shmuel Yosef Agnon e a alemã (judia) Nelly Sachs[3].

Isso me leva a uma segunda proposição (se dermos algum valor ao prêmio, questão que a minha primeira proposição torna irrelevante): como ainda somos remotos, minoritários, em termos de língua e literatura, no mundo, é urgente que se escolha um autor brasileiro (ou português, ou africano de expressão portuguesa).

As mortes recentes de Ariano Suassuna, Manoel de Barros e João Ubaldo Ribeiro chamam a atenção para o seguinte fato: nossos autores mais canônicos estão muito velhos, e começam a ir-se sem que vejamos uma premiação expressiva. Dalton Trevisan (para mim, seria o natural vencedor num páreo nacional) chegou aos provectos noventa anos. Macróbios, em maior ou menor medida, estão Lygia Fagundes Telles, Carlos Nejar, Adélia Prado, Raduan Nassar, Rubem Fonseca, os nomes que imediatamente vêm à memória como os clássicos que ainda estão entre nós. Até mesmo João Gilberto Noll e Chico Buarque já chegaram a uma idade “venerável”.

Só espero que, chegando a vez do Brasil, não escolham a Embaixadora dos Países Ibéricos, a Xerezade do Paraguai, a Instituição da “Literatura” em pessoa: Nélida Piñon. Ou então José Sarney, já que ele sempre teve seus admiradores estrangeiros (Lévi-Strauss, por exemplo), os quais não devem conhecer a vida severina a que ele e sua família condenou o povo do Maranhão por décadas e décadas.

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Em Portugal, António Lobo Antunes com justiça pode ser considerado um dos três ou quatro maiores romancistas do mundo. E sua companheira de geração, Lídia Jorge, pouco fica atrás (creio que, com seu imenso talento, nomes do naipe de José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares ainda não são “cogitáveis”). Não se pode esquecer, também, de um autor ímpar como António Vieira, cuja estatura intelectual é quase inencontrável nos dias que correm, ficando em certo sentido quase em posição de isolamento. E será que deixarão ir-se a matriarca da prosa lusitana de alta qualidade, Agustina Bessa-Luís, assim como deixaram os maiores representantes da poesia contemporânea, caso de Herberto Helder e Ana Hatherly, mortos ambos em 2015?

E por que não nos surpreender um nome africano? É lógico que todo mundo pensa primeiro em Mia Couto, e seria esplêndido. Mas que tal um autor absolutamente inesperado, que represente a língua portuguesa, mas também uma novidade, algo ainda não “domesticado”? Afinal, é um território quase inexplorado.

O que me leva à minha terceira proposição: se não fizesse justiça à língua portuguesa, que pelo menos o Nobel saísse um pouco do circuito europeu, sem precisar se render aos Estados Unidos, apesar de todos os nomes que apreciamos e admiramos (Don DeLillo, Joyce Carol Oates, o próprio Philip Roth)[4], embora seja lícito perguntar se, por exemplo, o albanês Ismail Kadaré pode ser considerado do “circuito europeu”, periférico como é seu país; ou então o estupendo escritor sérvio Milorad Pávitch? Ambos na confluência entre continentes e culturas até hostis entre si.

Será que a tragédia da Síria não inclinaria a balança para Adonis, que agora— e com grande tardança—está traduzido no Brasil), autor da belíssima Celebração abaixo?

«O tempo avança,

na mão um cajado de ossos de corpos.

A lâmina da insônia

marca o pescoço da noite.

Crânios – uns servem sangue

outros se embriagam e deliram.

O fogo de suja?

o vento se infla?

Fumaça é nuvens.

Nuvens tem forma de cabeças.

Letras caídas

são impressas dispersas no chão

– pedaços de corpos.

Hoje o horizonte recomendou a seu filho

o vento que não saísse.

Como não se cansam as pedras do caminho?

Nem mesmo o sol consegue

iluminar este corpo que sangra sombra.

Dias cobertos de pó

tem feições de velhos.

Mariposas queimam

Subindo a escada do sono.

A cinza, princesa,

toma assento e recebe as honras.

O míssil, rei,

arrasta a cauda

sobre os corpos dos súditos.

O sol está prestes a dizer

à luz: ofusca meus olhos.

Será a vida um erro

que a matança corrige?

Onde está a cova aberta para acolher as lágrimas?

E o buraco que acolherá a alma?

A coisa elimina a coisa.

Não terá outro seio

este céu?

Esta rosa, de onde lhe vem tanta obstinação?

Está sempre lendo seu amor.

O dia tem medo do dia

e a noite se esconde da noite.

Agradeço

ao pó que se mistura com a fumaça e a abranda,

ao intervalo entre uma bomba e outra,

ao piso que sempre aguenta meus passos,

agradeço às pedras que ensinam a paciência.

Apagou-se a luz.

Vou acender a estrela dos meus sonhos.

Leva-me, amor,

e me mantém trancado» (trad. Michel Sleiman)

O poema se refere ao ano de 1982, quando as tropas israelenses, contrariando resoluções da ONU, cercaram, bombardearam e massacraram Beirute.

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E será que nosso asco pelos dirigentes do estado de Israel serve como impedimento para a consagração com o Nobel de Amós Oz, um dos grandes romancistas das últimas décadas?

Ou será que, Haruki Murakami e Japão à parte, a Ásia nos dará um nome surpreendente, e que nos trará o sopro de beleza e renovação do prazer de leitura que aquela senhora polonesa já citada, de nome tão esquisito e impronunciável, trouxe aos brasileiros? Como comprovará o poema com o qual termino esta arenga nobeliana:

«Para mim, o mais importante na tragédia é o sexto ato:

o ressuscitar dos mortos das cenas de batalha,

o ajeitar das perucas e dos trajes,

a faca arrancada do peito,

a corda tirada do pescoço,

o perfilar-se entre os vivos

de frente para o público.

 

As reverências individuais e coletivas:

a mão pálida sobre o peito ferido,

as mesuras do suicida,

o acenar da cabeça cortada.

As reverências em pares:

a fúria dá o braço à brandura,

a vítima lança um olhar doce ao carrasco,

o rebelde caminha sem rancor ao lado do tirano.

 

O pisar na eternidade com a ponta da botina dourada.

A moral varrida com a aba do chapéu.

A incorrigível disposição de amanhã começar de novo.

 

A entrada em fileira dos que morreram muito antes,

nos atos três e quatro, ou nos entreatos.

A volta milagrosa dos que sumiram sem vestígios.

Pensar que, pacientes, esperavam nos bastidores

sem tirar os trajes,

sem remover a maquiagem,

me comove mais que as tiradas da tragédia.

Mas o mais sublime é o baixar da cortina

e o que ainda se avista pela fresta:

aqui uma mão se estende para pegar as flores,

acolá outra apanha a espada caída.

Por fim uma terceira mão, invisível,

cumpre o seu dever:

me aperta a garganta »  (trad. Regina Przybycien).

ADENDO

Nada mais natural do que o Nobel consagrar o italiano Umberto Eco, não só um prodigioso intelectual, como ainda autor de uma já considerável obra ficcional, iniciada com o clássico O Nome da Rosa. Nessa linha, aliás, a Itália é imbatível em candidatos, basta lembrar de Carlo Ginzburg (O Queijo e Os Vermes); Pietro Citati (autor de fascinantes biografias, entre elas as de Proust e Goethe);  Roberto Calasso (Ka e K.), os quais conciliam o talento narrativo com o rigor como pensadores; sem falar em outro “eterno favorito”, Claudio  Magris. autor de livros caleidoscópicos como Danúbio, Alfabetos, Microcosmo.

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NOTAS

[1] Anunciados como vencedores, respectivamente, em 1996 e 1961.

[2] «Pelo poder artístico e integridade com a qual, em seu épico O Don Silencioso, ele deu expressão a uma fase histórica na vida do povo russo», foi a justificativa.

[3] Justificativas:

«Por sua arte narrativa profundamente característica com motivos da vida do povo judeu» (Agnon);

«Pela sua excelente escrita lírica e dramática, que interpreta o destino de Israel com toque de força» (Sachs).

[4] E a língua inglesa já foi bastante contemplada no século 21: dos quatorze vencedores, cinco são autores anglófonos (Naipaul, Coetzee, Pinter, Lessing, Munro).

Ismael Kadaré author 2005

Ismael Kadaré author 2005

JEAN-CHRISTOPHE: best seller datado, obra-prima ou algo ali pelo meio?

«… quando observamos um escritor, a cada página, em cada situação em que se encontra sua personagem, nunca aprofundá-la, nunca repensá-la por ele mesmo, mas servir-se de expressões feitas, um escritor que não vê seu próprio pensamento, mas se contenta com a aparência grosseira que o mascara para cada um de nós, em todo momento de nossa vida, com o qual o vulgo se contenta numa perpétua ignorância, e que o escritor afasta, procurando ver aquilo que há no fundo… essa arte é a mais superficial, a mais insincera, a mais materialista (mesmo que seu assunto seja o espírito), e também a mais mundana».

As duras palavras acima são de Marcel Proust, o autor de Em busca do tempo perdido, visando seu contemporâneo Romain Rolland e sua principal obra, Jean-Christophe (publicada entre 1904 e 1912, em dez partes). No entanto, Rolland foi guru para muitos nas primeiras décadas do século, uma espécie de Hermann Hesse francês, e seu livro era O caçador de pipas da época. Na edição (1986) através da qual conheci  o seu famoso herói, podia-ser ler como introito: «Esta é a 5a. vez que oferecemos ao leitor brasileiro o texto completo de JeanChristopheJá era tempo de uma nova edição. Já há novas almas livres que precisam conhecer o mais profundo e humano romance deste século».

Agora, 20 anos depois, uma 6a. edição (em 3 volumes) oferece a oportunidade de conferir o acerto ou não das observações de Proust. No primeiro volume (que reúne O alvorecer, A manhã e O adolescente), acompanhamos a sofrida infância e a rebelde adolescência do músico alemão  que cedo tem de sustentar a família devido ao alcoolismo do pai.

Há detalhes fascinantes: acompanhamos as sensações do bebê («o homem que sofre pode diminuir seu mal quando sabe de onde vem; encerra-o pelo pensamento num segmento do corpo, que pode curar-se ou ser arrancado se for preciso; fixa-lhe os contornos, separa-o de si. A criança não tem esse recurso enganador. Como o seu próprio ser, a dor lhe parece sem limites»)e o terror da morte que o assombra e envenena sua infância («há muito ele sabe o que é a morte, que pensa nela e lhe tem medo. Mas nunca a tinha visto, e quem a vê pela primeira vez percebe que nada sabia, nem da morte nem da vida. Tudo é abalado de repente, e contra isto a razão de nada serve. Acreditava-se que se vivia, que se tinha alguma experiência de vida; fica-se sabendo que se ignorava tudo, que não se via nada, que se vivia envolvido numa teia de ilusões tecida pelo espírito, a qual velava aos olhos a imagem terrível da realidade, esses miseráveis seres de lodo e de sangue, cujo vão e total esforço se despende em fixar uma vida que apodrece de hora em hora»).

Porém, há um lado edificante, que realça certa cafonice que talvez seja a ação do tempo sobre o estilo, e principalmente o dramalhão de algumas cenas. Veja-se a detestável conclusão que o narrador tira das agruras de Christophe: «Quando a alma não é entravada, a alma tem muito menos razões para agir. Quanto mais se apertava em torno de Christophe o cerco das preocupações e das tarefas medíocres, tanto mais o coração revoltado sentia a sua independência.  É uma boa disciplina para a arte a contingência de condensar os esforços em limites implacáveis. Nesse sentido, pode-se dizer que a miséria é mestra não só do pensamento, mas também do estilo: ensina a sobriedade tanto ao espírito  como ao corpo. Quando o tempo é limitado e as palavras medidas, não se diz nada de inútil, e adquire-se o hábito de pensar somente o essencial».  Então, ao fim e ao cabo, a opressão faz bem! Pena que Rolland não aprendeu a lição da mestra miséria: estamos longe de ver somente o essencial nas numerosas páginas de Jean-Christophe.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de fevereiro de 2007)

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06/10/2015

As celebrações de Adonis, o poeta da permanência e do movimento

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[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de outubro de 2015]

«Caminho e atrás de mim caminham as estrelas/ até seu próximo amanhã/ o segredo, a morte, o que nasce, o cansaço/ amortecem meus passos, avivam meu sangue. // Não iniciei a trilha, ainda /não vejo nenhum jazigo/caminho até mim mesmo, até /meu próximo amanhã/ caminho e atrás de mim caminham as estrelas».

Chega outubro e com ele as costumeiras especulações sobre quem ganhará o Nobel. Se, como se diz, motivações extraliterárias fundamentaram tantas decisões na história do prêmio (há 50 anos, por exemplo, venceu um autor soviético, em plena Guerra Fria: Mikhail Sholokhov), a tragédia da Síria—especialmente, seus refugiados, os quais vêm causando comoção mundial—pode pesar no anúncio do mais prestigiado nome da poesia árabe contemporânea: Adonis (Ali Ahmad Said Esber), 85 anos, origem alauita, um dos eternos favoritos, ano após ano.

Pelo trecho citado na abertura desta resenha (que faz parte de uma antologia traduzida por Michel Sleiman), meu leitor percebe que, fiel às tradições do seu povo, o poeta sírio trabalha com os elementos primordiais, atemporais. Que isso não o engane! Essa sobrepairada do efêmero se conjuga a uma modulação moderna e inusitada, e nos territórios imemoriais, porém instáveis, varridos por ventos inclementes, edifica-se uma obra muito sofisticada e poeticamente durável: «Você já viu a mulher/ como carrega o corpo do outono? /Primeiro ela mistura o rosto e a calçada/depois tece um vestido com os fios/da chuva//as pessoas/na cinza da rua/são brasa apagada».

A poesia de Adonis, e não por acaso ele atribuiu a si um pseudônimo “pagão”, é regida por Eros: «Nasci e nasceu comigo o deus do amor/que fará o amor quando eu me for?»—este é o mote; por isso, é sempre tão presente o rosto da Mulher, por isso o sangue do lirismo navega «até os confins do delírio»[1].

O erotismo (no sentido pleno da palavra), esse amor pelas coisas e seres, é «eternidade que dura um instante», contrastado com o ódio, «instante que dura como se fosse eterno», como lemos na bela “Celebração do Claro-escuro” (sim, pois tudo se mistura, se interpenetra: «É pecado o desejo?/Talvez, às vezes/ Porém o prazer/é sempre casto»). No fundo, o ritmo do real é o pêndulo entre continuidade e movimento: «A praia usa o tempo/para permanecer sentada/as ondas usam o tempo/para permanecer em movimento».

Nem por isso, o poeta se alheia dos acontecimentos políticos à sua volta. Boa parte da sua vida esteve vinculada ao Líbano. E um de seus poemas mais marcantes é “Celebração de Beirute, 1982” (ano em que tropas israelenses, contrariando resolução da ONU, cercaram e bombardearam a capital libanesa):

«O tempo avança,

na mão um cajado de ossos de corpos.

A lâmina da insônia

marca o pescoço da noite.

Crânios – uns servem sangue

outros se embriagam e deliram.

O fogo de suja?

o vento se infla?

Fumaça é nuvens.

Nuvens tem forma de cabeças.

Letras caídas

são impressas dispersas no chão

– pedaços de corpos.

Hoje o horizonte recomendou a seu filho

o vento que não saísse.

Como não se cansam as pedras do caminho?

Nem mesmo o sol consegue

iluminar este corpo que sangra sombra.

Dias cobertos de pó

tem feições de velhos.

Mariposas queimam

Subindo a escada do sono.

A cinza, princesa,

toma assento e recebe as honras.

O míssil, rei,

arrasta a cauda

sobre os corpos dos súditos.

O sol está prestes a dizer

à luz: ofusca meus olhos.

Será a vida um erro

que a matança corrige?

Onde está a cova aberta para acolher as lágrimas?

E o buraco que acolherá a alma?

A coisa elimina a coisa.

Não terá outro seio

este céu?

Esta rosa, de onde lhe vem tanta obstinação?

Está sempre lendo seu amor.

O dia tem medo do dia

e a noite se esconde da noite.

Agradeço

ao pó que se mistura com a fumaça e a abranda,

ao intervalo entre uma bomba e outra,

ao piso que sempre aguenta meus passos,

agradeço às pedras que ensinam a paciência.

Apagou-se a luz.

Vou acender a estrela dos meus sonhos.

Leva-me, amor,

e me mantém trancado».

O poeta agradece às pedras. E o leitor agradece ao poeta essa disciplina de paciência, de escuta atenta às vozes, eventos e fenômenos. E ao enorme silêncio por detrás.

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TRECHO SELECIONADO

«E rezei…
sussurrei rente às pedras
e li as estrelas: tomei seus pontos
e apaguei-os.
Meu desejo é um mapa
e nele o meu sangue e as entranhas.

Se soubesse, como o poeta, mudar as estações,
se soubesse conversar com as coisas,
enfeitiçava a tumba do pequeno cavaleiro no Eufrates,
a tumba do meu irmão na margem do Eufrates
(morreu, não teve bálsamos, nem enterro, nem orações).

Eu diria às coisas e estações
“Juntai-vos como se junta o ar,
estendei-me o Eufrates;
verta a água verde
como a oliva verte em meu sangue enamorado,
no meu tempo ancião”.
Se soubesse, como o poeta, tomar as núpcias das plantas,
cobriria estas árvores com crianças.

Se soubesse, como o poeta, domar o insólito
faria nuvem de cada pedra
para fazer chover sobre a Síria e sobre o Eufrates.

Se soubesse, como o poeta, mudar a hora da morte
se soubesse ser profecia, que adverte ou dá sinal,
eu gritaria
“Ó, nuvens, condensai-vos, chovei
em meu nome sobre a Síria e sobre o Eufrates.
Por Deus, nuvens…”

[…]

O Sacre escreve ao espaço, esse desconhecido generoso,
a pedir-lhe um lugar… limpo, como o espaço nas veias.
O Sacre acena a outros sacres —
cansado, levam-no os dédalos, levam-no as rochas.

E ele se inclina, alimentando as rochas, alimentando os dédalos,
o rosto avante, o sol por encalço.

O espaço é fornalha
e os ventos, velha a tecer contos,
e os sacres, cortejo a abrir o céu.

Como um amante, audacioso,
juvenil, de paixão audaz,
ergue o Alandalus profundo
ergue-o para o Mundo — esse novo santuário.

Todo espaço em seu nome é livro.

Todo vento em seu nome é hino.»

Trechos de “O sacre”

[sacre- espécie primitiva de falcão]

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NOTA

[1] Ver, por exemplo, este outro poema emblemático, traduzido por Luís Costa:

«HOMEM E MULHER

Mulher: quem és tu?

Homem: um bobo expatriado
da rocha dos meteoros,
da raça do demónio.
E tu, quem és?
Viajaste pelo meu corpo?

Mulher: sempre e repetidamente.

Homem: o que viste?

Mulher: vi a minha morte.

Homem: Trazias o meu rosto?
E olhaste a minha sombra como um sol?
E olhaste o meu sol como uma sombra?
E desceste às minhas profundezas e descobriste-me?

Mulher: e tu, descobriste-me?

Homem: se me descobriste, foste capaz
de me convencer?

Mulher: Não

.Homem: fiz-te bem e tiveste receio?

Mulher: sim, sem dúvida.

Homem : e reconheceste-me?

Mulher: e tu, reconheceste-me?»

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10/09/2015

O MEU TIPO DE ROMANCE: “Conversa no Catedral”, de Vargas Llosa

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[uma versão do texto abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, em 9 de setembro de 2015, VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/09/o-meu-tipo-de-romance-conversa-no.html]

«Eu quisera que meus livros fossem lidos como eu li os romances de que gosto. Os romances que me fascinaram, mais do que entrar pela inteligência, através do puro intelecto, da pura razão, me enfeitiçaram literalmente, quer dizer, se converteram em histórias que de certa forma destruíram toda capacidade crítica em mim. E me faziam perguntar: O que vai acontecer? O que vai acontecer? Este é o tipo de romance que eu gosto de ler e este é o tipo de romance que eu gostaria de escrever. Então para mim é muito importante que todo elemento intelectual, que é inevitável que esteja presente em um romance, de alguma forma esteja dissolvido fundamentalmente em ações, em episódios que deveriam seduzir o leitor não por suas ideias, mas por sua cor, por seu sentimento, suas emoções, suas paixões, por sua novidade, por seu caráter insólito, pelo suspense e o mistério que possa emanar deles. Para mim, a técnica do romance é fundamentalmente conseguir isso, conseguir diminuir e, se possível, abolir a distância entre a história e o leitor. Nesse sentido eu creio que sou um escritor do século XIX. Para mim o romance continua sendo o romance de aventura, que se lê desse modo especial, tomado pela história».

Essas afirmações podem ser encontradas no livro de Ricardo A. Setti, Conversas com Vargas Llosa[1]. Embora haja uma verdade profunda nelas, creio que também é possível declarar que o escritor peruano (Nobel 2010) é um típico representante do romance no formato modernista: enciclopédico, labiríntico e total, no sentido joyceano; e no caso dele muito especificamente, no sentido faulkneriano.

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Não foram poucas as vezes em que Llosa se declarou um admirador de Faulkner, tendo usado com muito proveito suas técnicas, inclusive a de fazer a história surgir de conversas, de colóquios nos quais muitas vezes os fatos se refratam em diversas versões, que se opõem e se complementam. Três autores, aliás, sempre apareceram muito nas entrevistas e ensaios de Vargas Llosa: duas admirações constantes, Faulkner e Flaubert, e uma relação de amor e ódio: Sartre (para se purgar do fantasma sartreano, publicou um livro inteiro e alentado: Contra vento e maré[2]), com quem acabou sendo injusto, tachando seus romances de muito ruins, o que está longe de ser a verdade.

Um dos aspectos mais relevantes de  CONVERSA NO CATEDRAL[3] tem uma feição tipicamente sartreana: além das conversas (de Zavalita com Ambrosio, matriz do romance; com o jornalista desiludido, literato falhado, Carlitos; também tem os diálogo entre Ambrosio e Don Fermín, entre Ambrosio e Queta), das cenas justapostas, da discreta narrativa em 3ª. pessoa, dos discursos indiretos livres, enfim, de toda a pletora de recursos explorados no romance, um procedimento narrativo relevante (que Llosa praticará com muito proveito até no recente O paraíso na outra esquina, embora de forma mais discreta e atenuada) é o do solilóquio que Zavalita, o protagonista, mantém consigo mesmo e que espelha sua perplexidade, sua frustração e sua má consciência (que origina situações em que ele age de má fé, no sentido sartreano do termo, de descompasso entre sua ação e sua consciência). Solilóquio + dúvidas= Hamlet.

Entre outras, a leitura de CONVERSA NO CATEDRAL me fez sonhar (um dos muitos projetos que já acalentei) em perseguir num estudo o arquétipo de Hamlet na ficção da modernidade, encarnado especialmente em intelectuais e artistas. O próprio Mathieu de Os caminhos da liberdade (a trilogia de Sartre formada por A idade da razão, Sursis Com a morte na alma, que eu acho sensacional, malgré o que Llosa possa dizer contra seu antigo mestre); também os heróis e heroínas de Os mandarins (Simone de Beauvoir);  Sem olhos em Gaza (Huxley); O jogo da amarelinha (Cortazar); O carnê dourado (Doris Lessing); O lobo da estepe (Hesse), só para ficar em alguns poucos exemplos notáveis.

Mas voltemos ao nosso amigo Zavalita, que começa a participar nem sabe bem por que das reuniões clandestinas do Partido Comunista peruano  quando se torna amigo de Aída e  Jacobo (o caso é que ambos são apaixonados por Aída e Jacobo utiliza as reuniões clandestinas para separá-la de Zavalita e se aproximar dela).

Vejamos algumas passagens:

«Tinha sido nesse segundo ano [na universidade San Marcos], Zavalita, ao ver que não bastava aprender marxismo, que também fazia falta acreditar? Provavelmente o tinha fodido a falta de fé, Zavalita. Falta de fé para crer em Deus, menino ? Para crer em qualquer coisa, Ambrosio… O pior era ter dúvidas, Ambrosio, e o maravilhoso poder fechar os olhos e dizer Deus existe, ou Deus não existe, e acreditar… Então a vida se organizaria sozinha e a gente já não se sentiria vazio, Ambrosio»

« e isso o preocupava tanto, Zavalita? dizia Aída. E Jacobo, se de todas as maneiras ele tinha que começar acreditando em algo era preferível crer que Deus não existe a crer que existe. Santiago também o preferia, Aída, ele queria se convencer que Politzer tinha razão, Jacobo. O que o angustiava era ter dúvidas, Aída, não poder estar seguro, Jacobo… As dúvidas eram fatais, dizia Aída, paralisam-no e você não pode fazer nada, e Jacobo: passar a vida esmiuçando será verdade? torturando-se será mentira? em vez de agir… Para agir, era preciso acreditar em algo, dizia Aída»

 «Sempre mentindo, a vida toda fingindo… No colégio, em casa, no bairro, no Círculo, na Facção, em La Crónica. Toda a vida fazendo coisas em que não acreditava, toda a vida dissimulando… E toda a vida querendo acreditar em algo. E toda a vida mentira, não acreditando»

 «Tinha se dedicado furiosamente a ler, a trabalhar no Círculo, a acreditar no marxismo, a emagrecer»

«Eu já invejava as pessoas que acreditavam cegamente em alguma coisa, Carlitos»

«E se você tivesse se inscrito naquele dia, Zavalita, pensa. A militância o teria arrastado, comprometido cada vez mais, teria dissipado as dúvidas e em alguns meses ou alguns anos teria se tornado um homem de fé, um otimista, um obscuro e puro herói a mais? Teria vivido mal, Zavalita, como Jacobino e Aída, pensa, entrado e saído da cadeia algumas vezes, sendo admitido e despedido de sórdidos empregos e, em vez de editoriais em La Crónica contra os cachorros raivosos, escreveria nas páginas mal impressas de Unidad, quando tivesse dinheiro e não fosse impedido pela polícia, pensa, sobre os avanços científicos da pátria do socialismo e a vitória no sindicato dos  panificadores de Lurín… ou teria sido mais generoso e entrado para um grupo insurrecional e sonhado e atuado e fracassado nas guerrilhas e estaria na prisão, como Héctor, pensa, ou morto e decomposto na selva, como o cholo Martinez, pensa, e feito viagens semiclandestinas a Congressos da Juventude, pensa, Moscou, levando saudações fraternais a Encontros de Jornalistas, pensa, Budapeste, ou recebido  treinamento militar, pensa, Havana ou Pequim. Você teria se formado em Direito, teria caso, teria sido assessor de um sindicato, deputado, mais desgraçado, a mesma coisa ou mais feliz? Pensa: ai, Zavalita»

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Creio que se trata da obra-prima de Vargas Llosa, apesar da quantidade de títulos impressionantes[4].   Tenho lido intensamente durante estes últimos trinta anos a sua ficção (e também a sua ensaística[5]) e creio que posso afirmar com segurança: CONVERSA NO CATEDRAL é um romance total, um daqueles livros absolutos,  uma visão caleidoscópica e assombrosa da ditadura do general Odría, que deu o golpe no Peru no finalzinho dos anos 1940 e impôs um regime ditatorial por boa parte da década de 50. E Vargas Llosa o publicou em 1969, quando tinha apenas 33 anos!

É claro que já tinha dado uma medida da dimensão do seu talento porque os seus dois primeiros romances, A cidade e os cachorros(durante anos, conhecido no Brasil, e foi assim que eu o li, como Batismo de fogo), em 1962, e A casa verde, de 1965,  eram empreendimentos ciclópicos e singulares (A casa verde ainda se desdobraria em outros, devido ao personagem Lituma). Mesmo assim, há algo de incomparável no fôlego e no apetite de totalidade que nos dá o seu terceiro romance. O único caso similar das últimas décadas que eu conheço é Fado Alexandrino (1983), um dos grandes romances de António Lobo Antunes.

O título vem do reencontro entre Santiago Zavala, o Zavalita, com o antigo chofer da família, Ambrosio. Santiago vai ao canil municipal porque homens da carrocinha pegaram seu cão, Batuque (como eles ganham uma miséria e por número de apreensões, às vezes não se furtam de roubar animais, ou mesmo de tirá-los à força dos donos, como aconteceu com a mulher de Santiago). A ironia é que ele, editorialista, vem escrevendo uma série a respeito da raiva e pedindo medidas das autoridades para conter o número de cães na capital. No canil, ele testemunha uma espantosa e bárbara execução de um cachorro (mas consegue resgatar o seu): dois funcionários enfiam-no num saco e o matam a pauladas. Um deles é Ambrosio. No começo do capítulo, saindo do serviço, Santiago (que acabou de fazer 30 anos) se pergunta “em que ponto se fodeu”, “em que ponto o Peru se fodeu”. E verá em Ambrosio um espelho, mais velho, numa escala social diferente, um outro tipo de derrota, de embotamento, de sensação de ter sido vencido pela vida. Aquela sensação de logro existencial que se abate sobre os personagens de Educação Sentimental (do autor predileto de Vargas Llosa, Flaubert, a respeito do qual ele escreveu o magistral ensaio A orgia perpétua), no final de suas trajetórias pelas aventuras da sua geração. A má consciência de Santiago Zavala como homem de imprensa, como marido, como peruano (depois conheceremos os sonhos de sua geração) já aparece logo no princípio de CONVERSA NO CATEDRAL.

“Catedral” é o nome do boteco, uma espelunca[6], em que ele e Ambrosio bebem durante horas, numa conversa que permeará as centenas de páginas do romance. Um nome significativo, uma vez que o começo da revolta de Santiago contra sua classe social e sua família foi o anti-clericalismo, a repulsa pelos padres e pelo catolicismo.

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Como eu já disse, a conversa entre Santiago e Ambrosio (em torno da qual ronda um segredo bombástico sobre o pai de Santiago, que está no cerne da trama do romance), ambivalente e exasperante, permeia o romance inteiro. Mas, como é seu hábito, e uma das marcas do seu virtuosismo técnico, Llosa faz com que duas ou várias situações fiquem sobrepostas em cada passagem da narrativa. Um exemplo: no capítulo VII da primeira parte (são quatro ao todo), Ambrosio conta a Santiago como conheceu seu pai, Trifulcio; ao mesmo tempo, vemos Trifulcio no seu longo tempo de prisão (há uma cena em que ele e seus companheiros, atirando pedras, conseguem matar uma ave de rapina e toscamente assá-la, havendo uma disputa feroz pelos pedaços; também vemos como sua força é lendária, tanto que Dom Melquíades, possivelmente o diretor da prisão, traz um dos pilares do governo Odría , Emilio Arévalo, cujo filho, Popeye, será muito amigo de Santiago e casará com sua irmã, para uma demonstração), depois a libertação (ele trabalhará para Arévalo), em diálogos que se intercalam com as diligências do homem forte do governo Odría, Cayo Bermúdez para dominar os serviços de inteligência do regime e esmagar os “subversivos”; vemo-lo primeiro com militares, depois num diálogo com o homem que o chamou para fazer parte do governo (e o qual ele está visivelmente solapando e colocando em posição subalterna) e depois com civis poderosos (entre eles, Arévalo e Don Fermín, o pai de Santiago); também vemos torturadores em ação (e um dos torturados, ficamos sabendo, é Trinidad, o companheiro de Amália, a empregada da casa dos Zavala, a quem Santiago e Popeye, como autênticos playbozinhos,  tentaram seduzir numa noite em que a família estaria ausente, causando a demissão dela; ela será o grande amor da vida de Ambrosio; parte da trajetória de Amália, a mais ligada a Trinidad, tínhamos acompanhado num capítulo anterior, contudo parecia que era mitomania de Trinidad a perseguição política e sua morte misteriosa parecia indicar mais que ele era “ruim da cabeça” do que maus-tratos nos chamados “porões da ditadura”); vemos como é o encontro entre Ambrosio e Trifulcio (em que o pai tenta roubar dinheiro do filho, ameaçando-o com uma faca), vemos como Ambrosio saiu de sua cidade natal, e tendo ajudado o jovem Cayo Bermúdez a raptar sua futura esposa (que se tornou uma virago), ir à capital pedir um emprego ao poderoso Robespierre do regime Odría, como ele se transforma no chofer de Bermúdez e como se envolve com os profissionais de repressão e tortura.

Tudo isso sem grandes necessidades de explicações e de narrativas muito longas e descritivas. Não, tudo através do intercalamento magistral de diálogos; tudo puxado (no referido capítulo) pelas reminiscências de Ambrosio com relação à sua mãe…

O romance como exercício de virtuosismo e como cosmovisão. Como afirmou Simone de Beauvoir a respeito de suas leituras favoritas,  «a recriação de um mundo que envolve o meu e que lhe pertence, que me desambienta e me ilumina, que se impõe a mim para sempre com a evidência de uma experiência que eu teria vivido ».

VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2013/10/25/varios-romances-num-so-conversa-na-catedral-vargas-llosa-apetite-pela-totalidade-i/

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NOTAS

[1] O qual eu cito na edição da Brasiliense, e não na mais recente, da Panda Books.

[2] Na verdade, o título do formato final da compilação de uma miscelânea de textos.

[3] No original, Conversación en La Catedral (1969). Temos três traduções brasileiras: a de Olga Savary (ed. Francisco Alves & Círculo do Livro); a de Wladir Dupont (ARX) e a de Ari Roitman & Paulina Wacht (Alfaguara).

[4] Basta lembrar de A guerra do fim do mundo, Lituma nos Andes, Os filhotes, A casa verde, Tia Júlia e o escrevinhador, A cidade e os cachorros,  livros que ficam pouco atrás de CONVERSA NO CATEDRAL; tem também os deliciosos (no mais pleno sentido do termo) Pantaléon e as visitadoras, Elogio da Madrasta. E como esquecer dos surpreendentes e inusitados História de Mayta e O falador?

[5] Embora tenha muitas reticências com relação aos seus posicionamentos políticos (e é preciso dizer que seus três últimos romances deixaram muito a desejar: Travessuras da menina má; O sonho do celta; O herói discreto).

[6] A edição da Alfaguara é a única a indicar isso, embora a meu ver, a tradução literal (Conversa NA catedral), adotada pelas anteriores, acentue o teor irônico e dessacralizante.

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16/10/2014

POÉTICA DA PENUMBRA: Patrick Modiano, o Nobel dos territórios obscuros

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de outubro de 2014)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO, em 15 de outubro de 2014, VER http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/10/patrick-modiano-o-nobel-dos-territorios.html)

Aos 69 anos, Patrick Modiano foi anunciado como vencedor do Nobel, exatamente meio-século após outro francês, bem mais célebre, Jean-Paul Sartre, ter recusado com veemência a premiação. Será mera coincidência?[1]

Ao contrário, no entanto, da suposição generalizada por aqui, Modiano não é um desconhecido. Seus livros geralmente são sucesso de vendas e, para muitos, trata-se do maior escritor vivo da França. Aos 33 anos, Uma rua de Roma (Rue de boutiques obscures, 1978) ganhou o badalado prêmio Goncourt. Nessa obra-prima, ele fixou definitivamente um inconfundível universo de territórios e tempos obscuros, ao criar o detetive desmemoriado que investigava indícios, quase todos fugidios e evanescentes, do próprio passado, ao mesmo tempo uma incógnita e carregado de marcas opressivas: a Ocupação nazista, o colaboracionismo.

Modiano obsessivamente nomeia logradouros e fixa datas[2]. Nem por isso deixamos de ter a sensação de mergulhar numa atmosfera insubstancial, na falta de evidências concretas, a realidade tomada pelo fuliginoso, uma verdadeira poética da penumbra: Janeiro de 1965. Às seis horas já estava escuro no cruzamento do bulevar Ornano com a rua Championnet. Eu não era nada, eu me confundia com esse crepúsculo, com essas ruas…”, lemos em outro belo livro, Dora Bruder (1997), onde o narrador persegue — com clara percepção do fiasco da empreitada— os vestígios mínimos (“Levei quatro anos para descobrir a data exata de seu nascimento, 25 de fevereiro de 1926. E levei mais dois anos para conhecer o lugar onde nascera: Paris, décimo segundo arrondissiment. Mas, sou paciente. Posso esperar horas sob a chuva”) remanescentes da passagem por este mundo de uma adolescente judia dos tempos da Segunda Guerra: “Os pais perdem a pista da filha, e um deles vai desaparecer também, nesse 19 de março, como se o inverno daquele ano separasse as pessoas, destruísse e queimasse as pistas, ao ponto de lançar uma dúvida sobre a sua existência. E não há nada que possa ser feito. Os mesmos que são encarregados de o procurar e encontrar fazem fichas para que seja mais fácil fazer com que você desapareça depois, definitivamente”. Modiano continua a seu modo — com uma espécie de olhar de esguelha — uma das Grandes Narrativas da modernidade, cujo grande pai fundador é Kafka: a irrealização do humano (e especialmente da singularidade individual) pela burocracia.

Alguém ficará surpreso de lhe atribuírem o Nobel por conta “da arte da memória com a qual evocou os destinos humanos mais inapreensíveis e jogou luz sobre a vida durante a Ocupação”?

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Apesar de tema recorrente, é injusto dizer que sua obra se limita a esse período histórico. Tome-se, por exemplo, um romance excelente como Do mais longe do esquecimento (Du plus loin de l´oubli, 1996) [3], cuja trama transcorre vinte anos depois da guerra. O narrador, ainda menor de idade, rompeu com os pais e mora num hotel (sem domicílio fixo, os personagens modianescos transitam por alojamentos provisórios, muitas vezes precários e sórdidos, nas bordas do escuso[4]), vendendo livros de arte para sobreviver.

Ele se envolve com Jacqueline, viciada em éter, que vive com Van Bever, jogador inveterado, e tem um caso com o suspeitíssimo dentista Cartaud. A certa altura, Jacqueline propõe ao protagonista que roube uma mala no consultório do amante e ele o faz sem pestanejar. As páginas em que narra o intervalo de tempo, após o roubo, até entrar em contato com Jacqueline, estão entre as melhores que Modiano escreveu. O jovem narrador, inclusive, se visualiza fugindo sozinho com a mala, arrastado pelo imaginário das estações e trens que pululam no universo do Nobel 2014[5], tanto quanto os hotéis e pensões.

Enfim, os dois vão para Londres e conviverão com a nascente fauna da Swinging London anos 1960, em disponibilidade total (e sempre com um pé no submundo[6]), e também com um sentimento de irrealidade (que pode ter elementos de sonho ou pesadelo), de que “a vida ainda não começou”. E nem começará: tão gratuitamente como se aproximou dele, Jacqueline desaparecerá; só irão se reencontrar dali a quinze anos; e depois de outros tantos, ele perambulará por Paris, recordando e ruminando esses incidentes e ligações (“Quinze anos se passaram ainda, numa tal bruma, que se confundem uns com os outros”), possivelmente os únicos um pouco mais nítidos na nebulosa, no lusco-fusco da sua existência: “…teria sido uma pena acabar naquele banco, numa espécie de amnésia e perda progressiva de identidade…”, ele nos diz, manuseando a certidão de nascimento, como se tentando comprovar via documentação sua presença no mundo[7], tal como o narrador de Dora Bruder tentará fazer com a desaparecida Dora, ou Guy, o detetive de Uma rua de Roma, com seu passado, antes de adotar esse avatar[8].

A desconcertante, fragmentária educação sentimental narrada em Do mais longe do esquecimento pode frustrar leitores que queiram uma trama unívoca, coesa e dirigida a um fim. Em contrapartida, se o pensador polonês Zygmunt Bauman estiver correto em sua hipótese de que vivemos em plena “modernidade líquida”, com o afrouxamento de laços com o real e até da noção de identidade, poucos a registraram tão poderosamente quanto Patrick Modiano em seus romances curtos, de linguagem sóbria, quase seca, e perigosamente movediços: podemos afundar neles[9].

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NOTAS

[1] E aqui devo lembrar que somente  21 anos depois da “desfeita” do autor de A náusea a França, outrora muito constante nos anúncios de vencedores, ganharia novamente um Nobel, com Claude Simon, em 1985.

Numa resenha em que fazia “apostas para o Nobel”, escrevi na minha coluna em A TRIBUNA de Santos, em 4 de outubro de 2008:

Na França, o maior dos candidatos é um expatriado, o tcheco Milan Kundera, que passou a escrever na língua do seu país de adoção (A Identidade, A Ignorância), mas já era mais conhecido pelas traduções francesas das sua extraordinária obra anterior (A Brincadeira, A Valsa dos Adeuses, O Livro do Riso e do Esquecimento, Risíveis Amores, A Insustentável Leveza do Ser). É um dos que eu ficaria particularmente feliz se ganhasse. Entre os ‘nativos’ (palavra cada vez mais problemática), por que não Patrick Modiano (Rue de Boutiques Obscures, Ronda da Noite) ou o intrigante J. M. G. Le Clézio (Deserto, À Procura do Ouro, A Quarentena), ambos sobreviventes honrosos do apocalipse de insignificância e irrelevância daquela que foi a pátria oficial da literatura?”

Le Clézio foi o vencedor daquele ano. Agora, só falta Kundera.

VER aqui no blog:

https://armonte.wordpress.com/2011/10/03/o-nobel-do-nomade/

https://armonte.wordpress.com/2012/07/28/quando-a-identidade-e-a-memoria-sao-liquidas-uma-rua-de-roma-de-patrick-modiano/

[2] Na abertura de Uma rua de Roma o leitor já pode ter um vislumbre dessa recorrência obsessiva:

“Atrás de Hutte, prateleiras de madeira escura cobriam a metade da parede: aí se encontravam catálogos telefônicos e anuários de todos os tipos, e desses últimos cinquenta anos. Hutte dissera-me várias vezes que eram instrumentos de trabalho insubstituíveis, dos quais jamais se separaria. E que tais catálogos e anuários constituíam a mais preciosa e comovente biblioteca que alguém pudesse ter, pois em suas páginas estavam registrados muitos seres, coisas e mundos desaparecidos, sobre os quais só aqueles volumes prestavam testemunho”.

[3] Título tirado de uma citação do poeta alemão Stefan George (1868-1933), o qual foi de certa forma espuriamente encampado pela propaganda nazista, devido aos elementos “arianos” da sua obra.

[4] Como acontece com o pai, figura recorrente, metido em negociatas no mercado negro, e um judeu de ambíguas estratégias de sobrevivência durante o período mais sombrio (pelo menos no século XX) da França, país em que o antissemitismo possivelmente aflorou de forma violenta muito antes da Ocupação, a qual de certa representou apenas o ápice de um longo processo.

[5] Inclusive nos sonhos e pesadelos:

“Mas comecei a sentir uma espécie de pânico, uma vertigem, como ocorre nos pesadelos, ou quando não conseguimos chegar numa estação, e as horas passam, e vamos perder o trem.

    Há vinte anos, experimentei uma aventura parecida. Soube que meu pai fora hospitalizado no Pitié-Salpêtrière. Eu não o tinha visto mais desde o final da minha adolescência. Decidi que lhe faria uma visita improvisada.

    Lembro que vaguei durante horas pelo enorme hospital, à sua postura. Entrava em prédios antigos, nas salas de enfermaria, repletas de camas, e as perguntas que fazia às enfermeiras recebiam sempre respostas contraditórias. Acabei duvidando da existência de meu pai (…) Percorri os pátios de cimento até a noite. Não consegui encontrar meu pai. Nunca mais o revi.”

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[6]Gente engraçadaDo tipo que deixa apenas, após sua passagem, um nevoeiro que rapidamente se dissipa. Hutte e eu lidávamos freqüentemente com esses seres cujas pegadas se perdem. Um belo dia, surgem do nada e ao nada retornam, depois de ter brilhado com algumas fagulhas. Rainhas de beleza. Gigolôs. A maioria deles, mesmo no instante da vida, não possuía maior consistência do que uma onda de vapor que não se condensará jamais” (Uma rua de Roma)

[7] Talvez seja interessante uma amostra maior, situando melhor a passagem citada acima:

“Por mais que juntasse outras lembranças mais recentes, estas pertenciam a uma vida anterior que eu não estava inteiramente certo de ter vivido.

    Tirara do bolso minha certidão de nascimento. Nascera durante o verão de 1945, e uma tarde, às cinco horas mais ou menos, meu pai fora assinar o registro da prefeitura. Eu via sua assinatura na fotocópia que me haviam dado—uma assinatura ilegível. Depois ele voltara para casa a pé, pelas ruas desertas daquele verão, em que se ouviam as campainhas cristalinas das bicicletas, no silêncio. E era a mesma estação de hoje, o mesmo fim de tarde ensolarado.

     Tornara a guardar a certidão de nascimento no bolso. Estava num sonho, do qual precisava mesmo acordar. Os laços que me ligavam ao presente estiravam-se cada vez mais. Realmente, teria sido uma pena acabar naquele banco, numa espécie de amnésia e de perda progressiva de identidade, e já não poder indicar aos passantes meu domicílio… Ainda bem que tinha no bolso aquela certidão de nascimento, como os cães que se perderam em Paris, mas trazem na coleira o endereço e o telefone do dono… E tentava explicar para mim mesmo a hesitação que sentia. Fazia muitas semanas que não via ninguém. As pessoas a quem telefonara não tinham voltado das férias. Além disso, errara ao escolher um hotel afastado do centro. No início do verão, pretendia passar ali apenas uma temperada muito breve, e alugar um pequeno apartamento ou um conjugado. A dúvida insinuava-se em mim: teria eu realmente vontade de ficar em Paris? Enquanto durasse o verão, teria a ilusão de ser apenas um turista, mas no início do outono as ruas, as pessoas e as coisas retomariam sua cor cotidiana: cinza. E eu não sabia se ainda tinha coragem de me fundir de novo naquela cor.”

[8] “…tive a desagradável impressão de sonhar. Já vivera minha vida e não era senão uma alma penada que flutuava no ar morno de uma noite de sábado. Por que desejar de novo atar laços rompidos e procurar passagens muradas há tanto tempo? E esse pequeno homem gorducho e bigodudo que andava a meu lado, eu tinha dificuldade em acreditar que fosse real”, lemos em Uma rua de Roma.

[9] Os romances de Modiano acima citados, Uma rua de Roma, Do mais longe do esquecimento e Dora Bruder foram lançados no Brasil pela Rocco e traduzidos respectivamente por Herbert Daniel-Cláudio Mesquita (1986), Maria Helena Franco Martins (2000) e Márcia Cavalcanti Ribas Vieira (1998).

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30/07/2014

“Verão de 1914” (“Os Thibault”): o estupendo retrato ficcional do mergulho da Europa na Primeira Guerra Mundial

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Recuso-me por instinto às ilusões metafísicas. Jamais o nada teve para mim tanta evidência. Dele me aproximo com horror, com uma revolta do instinto, mas nenhuma tentação de negá-lo, de procurar refúgio em absurdas esperanças.”    

                                   (Antoine Thibault)

Os Thibault (Les Thibault), iniciado em 1922 e dividido em oito partes, foi um dos mais influentes do século passado, embora hoje esteja um tanto esquecido[1].

Em 1936 (um ano depois, ganharia o Nobel), Roger Martin du Gard deu maior fôlego e amplitude à sua obra-prima, com Verão de 1914 [ “L´ÉTÉ 1914], a sétima parte (há ainda um longo Epílogo, publicado em 1940), onde narra  a transição entre o mundo tradicional e sufocante da  “Velha França”, que parecia tão sólido e duradouro[2], e a convulsão efetivada pela Primeira Guerra Mundial.

Jacques Thibault vive em Genebra, após abrir mão da herança paterna. Atua como jornalista e principalmente como agitador socialista, no meio de um grupo de expatriados, cujas discussões e prognósticos conspiratórios a respeito do que as grandes potências farão a partir do atentado em Sarajevo (enquanto estão na expectativa do congresso da Internacional Socialista, marcado para agosto de 1914, em Bruxelas) preenchem um vasto espectro ideológico,  que vai dos anarquistas aos socialistas e militantes comunistas mais radicais.

Uma coisa fica clara: o imperialismo capitalista precisa da guerra e fomenta a sua aparente necessidade e inevitabilidade.

Para alguns leitores, os imensos diálogos podem parecer áridos e as idéias velhas. Com seu poder narrativo, porém, du Gard consegue fazer com que mergulhemos de cabeça na “mentalidade” que precede a guerra, de um modo mais palpável e palpitante do que qualquer livro de história, mesmo um do nível de A era dos extremos, de Hobsbawn.

Numa das suas “missões”, Jacques volta a Paris, onde reencontra o irmão, Antoine, o qual  ao contrário de Jacques, tomou posse de sua parte na herança, utilizando-a numa guinada ambiciosa de sua carreira. Na verdade,  transformou-se num grande burguês, em muitos aspectos parecido com o pai (há um momento em que dá uma risada e se assusta ao constatar que ela é igualzinha á do pai, a quem tanto ridicularizara). Jacques fica chocado com sua alienação com relação à ameaça de guerra. Essa opção por uma existência “monadista”, indiferente aos destinos gerais, como se estivesse isento do que acontece no resto do mundo, já distanciava Antoine da libertária Rachel, seu primeiro grande envolvimento amoroso (agora tem uma ligação com a mulher de um amigo, Anne).

Antoine já percebia as “cadeias” que o ligavam ao mundo burguês, da “honesta França”: “mas não desejava nem por um momento rompê-las; e experimentava, contra tudo o que Rachel amava e lhe era tão estranho, a aversão de um animal doméstico contra tudo o que ronda e ameaça a segurança da casa”.

Apesar de Os Thibault ser a história dos dois irmãos, Jacques é quem domina a cena de Verão de 1914. Ele vê pouco a pouco a opinião pública sendo compelida a resignar-se (e até a rejubilar-se) com a perspectiva da guerra iminente e percebe que nem os círculos socialistas são capazes de resistir á sedução dos apelos patrioteiros e chauvinistas. Mesmo o seu irmão, Antoine, e o seu amigo de infância, Daniel de Fontanin, engajam-se na mobilização geral. Poucos romances mostraram tão bem o que é um país preparar-se para entrar em guerra.

Jacques está decidido a tentar de tudo para evitá-la e a não lutar nela. Nessa roda-viva, ainda encontra tempo de efetivar sua ligação com Jenny, irmã de Daniel (dessa ligação nascerá um menino que mais tarde simbolizará para Antoine, o tio, a “humanidade futura”). Quando finalmente o conflito começa, Jacques resolve abandonar Jenny e realiza um ato de sacrifício, tentando sobrevoar as trincheiras num aeroplano para espalhar panfletos pacifistas. O avião cai e ele fica gravemente ferido. É tido como espião pelos soldados franceses, que o arrastam numa padiola durante uma retirada, até que ele se torna um tal estorvo, que se é obrigado a abatê-lo. Esse terrível final de Verão de 1914 é um momento antológico da ficção.

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Por algum tempo, pensou-se que era também o desfecho de Os Thibault. Jacques aparecia como o grande personagem da obra, uma vez que a figura do  outro irmão não sofrera maior evolução . Para o grande crítico húngaro Georg Lukács, por exemplo, o centro de irradiação do ciclo é “o encontro decisivo de Jacques Thibault com o socialismo”. Será mesmo?

Lançado já em plena Segunda Grande Guerra, Epílogo muda tudo. Em 1918, Antoine está condenado à morte devido aos gases utilizados na guerra que está por terminar. Ele enfrenta a realidade de sua extinção pessoal próxima num sanatório (após uma rápida visita a Paris, quando ficamos sabendo mais ou menos do destino das outras personagens importantes de Os Thibault).

Muita gente considera esse epílogo um mero prolongamento de uma obra que já dissera o que tinha a dizer. Não concordo: tanto a figura de Antoine quanto essa seção final são marcantes demais para serem consideradas “mero prolongamento”[3]. Pelo contrário, levam o livro a dimensões insuspeitadas. Um traço da alta ficção do século XX é o enciclopedismo, o passeio por discussões e áreas que ampliam sobremaneira o enredo e a linguagem. No diário que Antoine escreve antes de sua morte, o leitor vai sendo alçado a esse clima enciclopédico (que domina também A montanha mágica, de Thomas Mann, ou Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, certamente os monumentos do romance europeu do século XX). É o destino de um personagem, mas também é o destino da civilização que está em pauta, além de toda uma gama de conhecimentos (filosofia, política, história, medicina, biologia, etc).

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[1] No Brasil, ele foi publicado em 5 volumes. A edição mais recente é de 2002 (ainda usando uma já antiquada tradução de Casemiro Fernandes, ed. Globo). Há alguns anos assisti a uma  competentíssima adaptação em forma de minissérie (de 2003, escrita, entre outros, por Jean-Claude Carrière), com direção de Jean-Daniel Verhaegue. Jean Yanne fazia maravilhosamente Pére Thibault, Malik Zidi interpretava Jacques, e gostei muito do Antoine de Jean-Pierre Lorit.

[2] Retratado de forma indelével nas seis partes anteriores.

VER AQUI NO BLOG: https://armonte.wordpress.com/2010/10/24/da-velha-franca-a-guerra-mundial-numa-obra-prima-do-romance/

[3] Talvez esse meu ponto de vista tenha a ver com a minha identificação maior com a figura de Antoine mais do que com a de Jacques.

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10/07/2014

O FILHO INCORRIGÍVEL DAS DITADURAS: Imre Kertész e “História Policial”

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-uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de julho de 2014;

-uma versão da resenha abaixo foi publicada em LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 09 de julho de 2014- VER:

http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/07/imre-kertesz-o-filho-incorrigivel-das.html

Em Eu, um outro (1997), Imre Kertész deu a si mesmo uma veredito irrevogável: “Sou filho incorrigível de ditaduras, ser estigmatizado é minha particularidade”.

Vinte anos antes, em História policial [Detektívtörténe], curto romance lançado agora no Brasil pela Tordesilhas, o Nobel de literatura de 2002 examinava de forma implacável a lógica das ditaduras (infelizmente, Direita e Esquerda, em suas contrafações, equivalendo-se no tocante aos resultados históricos): mesmo que calcadas, a princípio, em lutas pela justiça social, não passam de projetos de poder, tudo o mais se subordina à sua manutenção; para isso, tornam-se “estados policiais”, mantendo os cidadãos sob vigilância, apelando para o arbítrio, a tortura, a supressão de qualquer oposição.

Numa passagem arrepiante, um torturador afirma: “O mundo seria diferente se nós, policiais, fôssemos unidos… Não apenas aqui em casa, mas no mundo todo”. O narrador, “novato” no ramo, replica: “Você quer dizer também os policiais dos países inimigos?”, obtendo a seguinte resposta: “Os policiais nunca são inimigos, em lugar algum[1].

Kertész tinha um background nada invejável (se não levarmos em consideração o rendimento literário) para seu esmiuçar cirúrgico dos fundamentos dos regimes totalitários: aos 14 anos, foi enviado para Auschwitz, Buchenwald e Zeitz, campos de concentração nazistas, experiência-limite que propiciou a base de seu romance de estreia (ainda seu livro mais famoso), Sem Destino (1975), certamente um dos relatos mais desconcertantes e perturbadores sobre o tema[2]; depois da guerra, viu seu país, a Hungria, transformar-se num dos satélites da União Soviética: uma tentativa de revolução, em 1956, foi esmagada virulentamente, transformando-se no evento cristalizador da desilusão de toda uma geração com o comunismo.

Transpondo a ação para um país imaginário da América Latina, para cavar a publicação (as editoras, como de praxe no universo soviético e adjacências, eram estatais e submetidas à censura), Kertész conseguiu criar não só uma alegoria da opressão em seu país natal, como também (sem que esse fosse seu objetivo) uma síntese acurada dos processos truculentos então levados a cabo na nossa realidade latino-americana, com sua cota trágica de regimes autoritários de direita, ou seja, o outro lado do espelho.

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História policial narra a investigação que leva à prisão de Enrique, filho do importante empresário Federico Salinas, que almeja participar da luta clandestina contra o governo, sempre esbarrando na hostilidade e desconfiança contra a sua classe social. Após um episódio emblemático (fora alvo de uma diligência policial ao, provocativamente, ficar abaixo do limite de velocidade permitido numa faixa de rodovia próxima a um dos sinistros locais de reclusão de presos políticos; contudo, sua condição de membro de uma família importante o salvaguardara de represálias maiores), ao desabafar com o pai, descobre que este pertencia a um grupo de resistência.  Vigiado de perto, e num momento em que há a ameaça de um atentado (verdadeiro ou fabricado pelos agentes do regime, pouco importa), Enrique é levado para o “Departamento”. Seu pai, iludido quanto à própria imunidade pessoal, ali adentra para se informar do seu paradeiro, e o destino de ambos ali é selado.

Além da dinâmica da relação entre Federico e Enrique (há uma revelação surpreendente quanto a isso), o grande achado de História policial é que a narrativa é feita por um dos torturadores, justamente o “novato”, aquele que ainda está aprendendo os códigos da ação repressiva. Após a queda do governo, preso, confessa que está em sua posse o diário pessoal de Enrique, pelo qual tem um peculiar apego, verdadeira fascinação (eu, um outro?).

Através desse diário, ficamos sabendo que a insatisfação do mauricinho vai além da situação política, escancarando um mal estar que os frequentadores da obra de Imre Kertész (além das já citadas, o ambicioso romance O Fiasco, por exemplo, onde podemos ler a seguinte passagem: “se bem que ocorreu a Köves: será que o homem já não vive de um jeito impossível de viver, e ao final acaba descobrindo que apesar de tudo sua vida teria que ser essa?”[3]) reconhecerão de imediato: “Parece que após a filosofia do existencialismo só poderia vir a filosofia do não existencialismo. Ou seja: a filosofia do existir sem existir”[4]. E então o leitor começa a se perguntar que tipo de pessoa pode ser, de fato, o novato: “Fiz o curso, passei por uma lavagem cerebral. Não foi o suficiente, longe disso”.

Outro trunfo do texto é a sua sugestão dos horrores praticados no “Departamento”, sem ser preciso nenhum detalhe explícito. De explícito, apenas o horror da lógica totalitária, como na cena em que um tabelião colaborador do regime é submetido à tortura por sua associação meramente comercial com Federico Salinas:

“__ Não entendo os senhores, não os entendo. O que querem de mim? Pois se o Estado confia em mim…

__ Bem, sim.—Díaz balançava a cabeça como um professor primário.—O problema é que nós não confiamos no Estado…

__ Não entendo, não entendo… Então acreditam em quê?

__ No destino. Mas no momento nós é que assumimos o papel do destino: portanto, em nós mesmo—disse Díaz com seu sorriso inigualável…”

È a esse destino que o filho incorrigível e pródigo sempre retorna.

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NOTAS

[1] Utilizo a tradução de Gabor Aranyi. Nessa versão lançada pela Tordesilhas há uma passagem que ficou estranhíssima em português, logo no Prefácio do autor, escrito em 2004 para a edição alemã. Nele, Kertész relata como História policial surgiu a partir da recusa de um romance anterior (seu segundo), O rastejador (ainda não lançado em português, mas conhecido em inglês como The pathseeker); lemos então que o diretor da editora (que aprovara a publicação do primeiro romance do autor húngaro, Sem destino) “leu O rastejador e também o editaria de bom grado—declarou-me—se fosse um texto maior. Um livro precisava ao menos de dez páginas (sic) inteiras para que tivesse corpo, e o meu texto não passava de seis páginas (sic), se tanto. Sugeriu-me que acrescentasse algo. Então me veio à mente o enredo de História policial”.

Bem, ou na Hungria o conceito de página é diferente do nosso, ou aí há um grosseiro erro de interpretação,e um ainda mais grosseiro de revisão.

Devo dizer, embora lamentando (por causa da louvável iniciativa editorial) que esse desleixo de revisão é constante nas edições que a Planeta fez das obras de Kertész (foram lançados quatro importantes títulos: Sem destino; O fiasco; Eu, um outro; A bandeira inglesa). Na tradução de Sandra Nagy para Eu, um outro, lemos: “Pois é: no final das contas, fora os meus dois livros, o Sem destino e o Fiasco, que acabavam de ser publicados naquele mesmo ano, nada mais constava da lista dos meus crimes”. Ora, a Planeta editou tanto Sem destino, que é de 1975, quanto O fiasco, que é de 1988, ninguém ali se deu conta do absurdo da passagem?!

Os outros títulos kertészianos lançados até agora no nosso país são Kadish, por uma criança não nascida (Imago), que compõe uma trilogia com Sem destino e O fiasco; a coletânea de ensaios A língua exilada e o primeiro romance pós-Nobel, Liquidação (ambos pela Companhia das Letras).

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[2] Como amostra, transcrevo a extraordinária passagem do anúncio da libertação dos prisioneiros do campo (utilizando a tradução de Paulo Schiller):

“Talvez já fosse quatro da tarde quando, por fim, o alto-falante emitiu alguns estalidos e, depois de um breve chiado e de sons sibilantes, deu a entender a nós todos que era o LagerältesterKamaraden, disse, lutando audivelmente contra um sentimento que o asfixiava e ora o fazia engasgar, ora a voz fica mais aguda, gemente, wit sind frei!, ou seja, estamos livres (…) e para minha grande surpresa, de repente: Atenção, atenção! O comitê húngaro do campo…—e pensei: nem suspeitava que isso existisse! Porém, não valeu a pena prestar atenção, pois também ele, como todos antes dele, só falou sobre a libertação e não fez nenhuma referência à sopa que não tinha vindo. Eu também fiquei muito feliz, sim, naturalmente, por estarmos livres, mas não tenho culpa de ter sido obrigado a pensar em outra coisa… A noite de abril estava escura, Pjetyka também havia voltado, vermelho, excitado, cheio de milhares de palavras incompreensíveis, quando o Lagerältester se apresentou de novo pelo alto-falante. Dessa vez, dirigiu-se aos membros do antigo destacamento dos Kartoffelschäler pedindo-lhes que fizessem a gentileza de reassumir os postos na cozinha, e aos demais moradores do campo solicitou que ficassem acordados ao menos até o meio da noite, pois começaram a cozinhar uma grossa sopa de gulash; só então me deitei, aliviado, no travesseiro; só então alguma coisa se desprendeu lentamente de mim, e só então pensei—talvez pela primeira vez com seriedade—na liberdade”.

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[3] Cujas primeiras 100 páginas são uma experiência formal desafiadora, com seus parênteses incessantes e frases que vão e volta para depois mergulhar numa fábula kafkiana, cuja atmosfera pode ser exemplificado pelo seguinte diálogo entre Köves (o protagonista) e a mulher que o aloja em casa:

““ __ Sim, Köves disse, só que não estou trabalhando para nenhum jornal—depois, pouco se incomodando com a decepção que poderia causar à mulher (quem sabe ela até já se tenha vangloriado de ter um inquilino jornalista)—acrescentou rapidamente: Fui despedido…

__ Então foi despedido—a locadora falou de novo, agora com certa familiaridade, como se não tivessem mais nada a esconder um do outro, ao mesmo tempo com a voz baixa, como se não quisesse que outros a ouvissem (apesar de ninguém mais estar no quarto além deles)—Por quê?…

__E pode-se saber?

__ Não—respondeu a mulher, deixando-se pender lentamente sobre a cadeira, momentos antes oferecida porém logo recusada, enquanto toda e qualquer expressão abandonava seu rosto, como se de repente se tivesse dado conta de sua incomensurável fadiga—não se pode… O senhor sabe… às vezes sinto que já não entendo mais nada…” (utilizo, fazendo algumas adaptações, a tradução de Ildikó Sütö).

[4] Não concordo nem um pouco com Luís S. Krausz, no posfácio à edição da Tordesilhas, intitulado Nos subterrâneos do século XX, quando diz que o “não existencialismo” é uma “cultura de resignação”, “única postura viável diante das arbitrariedades”. Fosse uma ética de resignação, a obra de Kertész perderia boa parte da sua força. Eu diria que é uma tortuosa ética de teimosia e obstinação, o que é muito, muito diferente.

Resignação, ou conformismo, é o que Enrique Salinas observa (revoltado) à sua volta, ou seja,  a acomodação ao regime, ao ponto de seus aspectos mais gritantes tornarem-se “invisíveis”, parte da paisagem social: “Estava andando pela cidade. Fazia um calor infernal. À minha volta, a algazarra noturna de sempre. Casais de namorados nas calçadas e gente se acotovelando rumo aos cinemas e às casas noturnas. Como se nada tivesse acontecido, nada. Vivendo sua vida inexistente. Ou será que eles existem e eu não? Na rua, um ou outro parecia ter perdido alguma coisa. Por toda parte se via gente com cara de policial, farejando, ouvindo as conversas e pensando que ninguém se incomoda com eles. E estão certos: as pessoas não se incomodam com eles. Bastaram esses poucos meses para se acostumarem com eles”.

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26/10/2013

O HERÓI DISCRETO: um Vargas Llosa “eficiente, tímido e funcional”. Ou seja, muito pouco.

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“Você não sabe em que país vivemos, compadre?”

“Desde que fui readmitido  na corporação, já estive na serra,na selva, em Lima. Rodando pelo Peru inteiro, pode-se dizer…”

(trechos de O herói discreto)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada no Caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo, em 26 de outubro de 2013: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/10/1362157-critica-vargas-llosa-reaviva-personagens-em-narrativa-com-tempero-dramalhonico.shtml)

A decepção com o fraco O sonho do celta (2010), seu romance anterior, fez crescer a expectativa do retorno ficcional de Mario Vargas Llosa ao país natal. Afinal, excetuando-se A guerra do fim do mundo (1981), o Peru foi o cenário das suas maiores realizações no gênero, cujos derradeiros lampejos foram Lituma nos Andes (1993) e Cadernos de Don Rigoberto (1997), cujos protagonistas, aliás, marcam presença em O herói discreto [ “El héroe discreto”, que comento na tradução de Paulina Wacht & Ari Roitman].

Duas histórias se alternam (e depois se entrelaçam): em Piura—para onde volta o veterano Lituma em suas errâncias na função policial (e suas aventuras, ao longo de vários livros, nos proporcionaram uma das mais notáveis Macronarrativas contemporâneas, uma comédia humana peruana)—a tentativa de extorsão de um modesto comerciante, dono de uma frota de veículos, Felícito Yanaqué; em Lima, o casamento entre um empresário de peso, Ismael Carrera, e uma empregada doméstica, com a conivência de seu gerente e amigo, Don Rigoberto, o qual, prestes a se aposentar, é ameaçado pelos herdeiros “legítimos” e lesados (além disso, ele tem que lidar com as aparições de um misterioso e mefistofélico senhor na vida do filho adolescente, Fonchito: “E agora acontece que aquele tal que não existe se meteu com a nossa família, o que me diz disso?”)).

O título do livro poderia ser aplicado aos dois, Rigoberto ou Felícito: cada um a seu modo “discreto” enfrenta forças obscuras e ameaças; porém, é o comerciante de Piura que se torna famoso em seu modesto heroísmo de cidadão comum e decente, ao não compactuar com a exigência de pagamento de uma quantia mensal aos que lhe oferecem “proteção”. A amante, por exemplo, descobre que “sob aquele aspecto de homezinho insignificante, tão magrinho, tão pequeno, um caráter robusto e uma vontade à prova de balas”.

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O lado mais interessante das duas narrativas, afora os confrontos íntimos entre os personagens recorrentes de outras obras e as mudanças na fisionomia dos espaços sociais em que os conhecemos, é a incorporação de uma das modalidades mais insidiosas da criminalidade contemporânea: aquela que envolve os membros da própria família, sinalizando a ruptura de valores e gerações.

O tempero “dramalhônico”, decalcado da paixão hispânica pelas telenovelas exageradas, assim como acontecia no maravilhoso Tia Júlia e o escrevinhador (1977) faz com que um bom naco do livro seja bastante divertido.

Contudo, a diluição implacável que vem corroendo a obra llosiana aqui se faz aguda e seu retorno à pátria não consegue revitalizá-la. O terço final, continuando a analogia anterior, lembra o ritmo amorfo das nossas telenovelas atuais. Pior ainda, a outrora multifacetada e polifônica visão do autor de Conversa no Catedral (1969) se resolve agora num elogio tão raso do que outrora chamávamos valores pequeno-burgueses (com os seus desagradáveis componentes de conformismo e tacanhice) que chega a ser chocante. De fato, o simpático sargento Lituma (tão subaproveitado na história) acaba apontando o lado mais deprimente desses valores, ao ficar estupefato com o tratamento dado pelo tão correto don Felícito ao filho (que ele sempre desconfiou não ser realmente dele): “Nunca imaginei que alguém pudesse dizer essas barbaridades que o senhor disse ao seu filho lá na prisão. Fiquei com o sangue gelado, juro.” Recebendo a seguinte resposta (como se o fato de Miguel não ser do seu sangue justificasse tudo): Não é meu filho. Se o autor peruano queria fazer o elogio do “cidadão comum decente” não podia ter escolhido pior personagem. Ademais, a trama que envolve Fonchito (e as histórias que ele e sua família trocam entre si), sobre a qual eu depositava tanta expectativa, é frustrante (estamos longe das delícias de Elogio da Madrasta & e dos Cadernos de don Rigoberto).

Num ensaio de A verdade das mentiras (1990), LLosa criticou acerbamente Graham Greene por se resignar a ser um “escritor eficiente, tímido e funcional”. Se avaliado pelos seus últimos cinco romances– A festa do bode, O paraíso na outra esquina, Travessuras da menina má, O sonho do celta e este O herói discreto (com a ressalva de que O paraíso na outra esquina, de 2003, ainda é o mais vigoroso entre eles), a caracterização cairia como uma luva para o nobel 2010.

TRECHOS SELECIONADOS

“E então o transportista, com lágrimas nos olhos, começou a falar do pai para uma Mabel assustada. Nunca, em todos os anos em que estavam juntos, ela o tinha ouvido se referir ao pai dessa maneira tão emotiva (…)  Não era um homem que manifestasse afeto dando abraços e beijos no filho, nem dizendo essas coisas carinhosas que os pais dizem aos filhos. Era severo, duro, e até agia com mão de ferro quando se enfurecia. Mas demonstrou que o amava dando-lhe estudos, roupa, alimentação, por mais que ele mesmo não tivesse o que vestir ou o que botar na boca (…) Era graças a esse arrendatário analfabeto que a Transportadora Narihualá existia. Seu pai era pobre mas era grande pela retidão da sua alma, porque nunca fez mal a ninguém, não transgrediu as leis, nem guardou rancor à mulher que o abandonou deixando um garotinho recém-nascido para criar…”

“Quando o dr. Arnillas saiu, Lucrecia começou a chorar , desconsolada. Rigoberto  tentava em vão acalmá-la. Ela tremia com os soluços e escorriam lágrimas por suas bochechas. Coitadinha, coitadinha, sussurrava, quase se sufocando. Eles a mataram, foram esses canalhas, quem mais poderia ser. Ou mandaram sequestrá-la para roubar tudo o que Ismael deixou.  Justiniana foi buscar um copo d´água com umas gotinhas de elixir paregórico que, finalmente, a tranquilizaram. Permaneceu na sala, quieta e triste. Rigoberto ficou abalado ao ver a sua mulher tão abatida. Lucrecia tinha razão. Era bem possível que os gêmeos estivessem por trás dessa história; eles eram os mais prejudicados e deviam estar furiosos com a ideia de que toda a herança podia escapar das suas mãos. Meus Deus, que histórias surgiam na vida cotidiana; não eram obras-primas, estavam mais perto das novelonas venezuelanas, brasileiras, colombianas e mexicanas que de Cervantes e Tolstoi, sem dúvida. Mas não tão distantes de Alexandre Dumas, Émile Zola, Dickens ou Pérez Galdós.”

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25/10/2013

O(s) Peru(s) de Lituma (Vargas Llosa- Apetite pela totalidade IV)

 

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A literatura não é uma ciência lógica, por isso a figura de Mario Vargas Llosa propõe essa estranha e desconfortável equação: uma personalidade pública que jamais conseguiria meu voto, quanto mais minha admiração, a julgar pela sua plataforma política, afeita à untuosidade do neoliberalismo, e um escritor absolutamente admirável.

O  mais recente romance desse dr. Jekyll & mr. Hyde da América Latina, Lituma nos Andes, reaproveita um dos inconquistáveis, o grupo de amigos cujas conversas eram um dos múltiplos planos narrativos do maravilhoso A Casa Verde (1965), ambientado no litoral e na selva. Agora, o cabo Lituma (também presente em Quem matou Palomino Molero?, de 1986) está em Naccos, lugarejo que continua a existir devido à difícil construção de uma estrada. Esses ermos, essas alturas andinas, já haviam derrotado o protagonista de História de Mayta (1984), o último projeto ambicioso de Llosa antes de Lituma, e que aliás causou polêmica e reações negativas, mas mantém intacta sua força dez anos depois.

Lituma e Tomasito, seu auxiliar, averiguam o sumiço de três sujeitos que poderiam ter sido executados por guerrilheiros do Sendero Luminoso (os “terrucos”) ou, como vai ficando mais provável (ainda que implausível), sacrificados aos “apus”, antigos espíritos dos cerros, numa conspiração orquestrada pelo depravado e sinistro casal de cantineiros, Dionísio e Adriana.

Aprofundando ainda mais o painel romanesco que vem compondo do Peru (com dimensão universal) desde Batismo de fogo(1962), Llosa mostra ironicamente como Lituma, “autoridade oficial” em Naccos, é um arremedo da lei e da ordem em meio ao caos, andino e cósmico: uma paisagem avassaladora, que pode desmoronar a todo instante (o que de fato ocorre, numa das melhores passagens do romance); uma luta política que vitima até incautos turistas franceses; uma ritualização da violência e da animalidade, que remonta aos mais primevos costumes humanos. Não à toa, Dionísio tem o nome do deus grego da embriaguez e do desregramento cujas festas e carnavais foram a origem da tragédia.

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Em Lituma nos Andes tudo é degradado, há uma paródia do mítico e do aventuresco: até o relato (um dos muitos que compõem o romance) da ação heróica do primeiro marido de Adriana, Timóteo, que liberou o povoado dela de um “pishtaco” (uma modalidade andina de vampiro) e que poderia lembrar as façanhas de um Teseu ou Perseu, fica deformado pela escatalogia, pois ele marca seu caminho no antro do monstrengo não com um fio de ariadne ou qualquer outro dos nobres recursos mitológicos, mas com seus próprios excrementos.

Está em discussão, na verdade, utilizando o avassalador isolamento andino, é a derrocada da frágil razão ocidental diante do irracionalismo e de uma crescente barbárie, concomitantemente à falência das grandes ideologias universais. Tudo é equacionado pela violência, tão opressiva e atordoante no livro quanto a paisagem. Llosa não nos poupa nem do canibalismo, passando por um terrificante massacre, efetuado pelos “terrucos” de vicunhas, os adoráveis e espertos (e muito malfadados) bichinhos que servem para alguns imbecis espécimes da raça humana ostentarem uma sanguinolenta elegância, e por uma frenética dança na qual o momento triunfal consiste em arrancar cabeças de patos vivos.

As conversas constituem boa parte da narrativa e evidenciam, claro, a marcante influência de Faulkner, mestre no recurso. Pode-se até argumentar que o grande escritor peruano está repisando esse e outros artifícios narrativos que fizeram de Conversa na Catedral (1969) um dos grandes romances do século. Não importa: Lituma nos Andes vai crescendo na leitura e na memória  deixando no ar a dúvida se é a porção Jekyll ou a porção Hyde que engendra esses romances perturbadores e poderosos.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em treze de setembro de 1994)

 VER NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/25/o-peru-de-pantaleon-pantoja-vargas-llosa-apetite-pela-totalidade-ii/

https://armonte.wordpress.com/2013/10/25/varios-romances-num-so-conversa-na-catedral-vargas-llosa-apetite-pela-totalidade-i/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/09/dramalhao-e-vocacao-literaria-vargas-llosa-apetite-pela-totalidade-iii/

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