MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/11/2017

Destaque do Blog: “Febre de Enxofre”, Bruno Ribeiro

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 28 de novembro de 2017)

Tinha jurado para mim mesmo nunca mais ler uma narrativa sobre um escritor em conflito com o mundo ou com bloqueio criativo, mas não contava com Bruno Ribeiro, o príncipe da prosa sulfúrica, pornográfica e ultrajante: “Decido ir ao lançamento, teria conhecidos e precisava de uma massagem de ego. Velhos broxas e velhas de buceta seca adoram elogiar meu livro, falar dos prêmios, do glamour, da minha roupa e voz de barítono, cabelo renascentista; risadas de dentadura, jovens virgens e amantes da alta literatura me cumprimentando, amigos – não tão amigos, pois são escritores”, eis um trecho quase inofensivo no jorro atropelador de “FEBRE DE ENXOFRE”.

Yuri Quirino é um poeta que se sente asfixiado pela rotina de Campina Grande. Tenta até um patético suicídio, pulando do terceiro andar e está “queimado” na cidade por dar aulas de poesia a travestis. Então aparece Manuel di Paula, o qual lhe faz uma proposta, ir a Buenos Aires escrever sua biografia.

Esse convite tem algo de pacto diabólico, aliás enseja uma das cenas mais bizarras do romance, quando Manuel tira a arcada dentária e coloca na mão de Yuri Quirino, que a partir daí começa a sentir em si um cheiro fétido.

“Vocês têm o que, mas não tem o como. Mas ter o que é mais importante do que o como. O que há de estudantes de literatura preenchidos pelo como não há como contabilizar, são bilhões, trilhões, e nenhum deles tem o que, o que, o que, o que vou contar? Nada”.

Para escapar desse círculo “infernal”, ele viaja para Buenos Aires, que mais parece um show de Alice Cooper, enquanto acompanhamos a alucinante e infame biografia de Manuel di Paula, um dos pontos altos da nossa ficção atual.

Em tempo: Bruno Ribeiro escreveu a brilhante coletânea “Arranhando Paredes”, onde há a mesma fusão de divertimento e perversidade corrosiva.

 

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21/11/2017

UM AUTOR PARA SER DESCOBERTO (SEGUNDA PARTE)

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 21 de novembro de 2017)

“Fica um sabor de ausência – que tantas vezes eu senti na vida – resultado da atitude daquela tartaruguinha sonhadora, que só quer fazer o que não é possível”. Na semana passada, iniciei um comentário sobre “COMO SÃO CATIVANTES OS JARDINS DE BERLIM”, de Decio Zylbersztajn. O trecho citado é de “Não existe mulher como Giulietta”.

Eu o escolhi por representar o grande tema da maioria dos contos: a frustração. É o caso das vidas do microcosmo retratado em “Pletzale” (“A fechadura e a porta são as mesmas desde a minha infância. Só que hoje eu não vou ter tempo para fazer este reparo – pensou Julio, enquanto alcançava a grade de ferro antiga que separa a vila, formada por casas idênticas, da rua cheia de galpões comerciais. Ao sair, dobrou à esquerda, subiu a ladeira, atravessou a primeira esquina movimentada, e seguiu por três quarteirões até o Pletzale. Fez os mesmos movimentos que fazia todos os dias, previsíveis e lentos”), o qual me lembrou o universo de Naguib Mahfouz e Isaac Singer.

Em “Encruzilhada” há um jogo de gato e rato entre um empresário e uma velha senhora. O título é tanto topográfico quanto existencial. Em “O milagre do São Gonçalo”, acompanhamos a eterna expectativa da protagonista, com o curioso nome de Ultima, por um violeiro genérico (“A filha de seu Tião da Dô lançou um olhar para Juca, que continuou a receber os pratos, compartilhando a tarefa de ajeitar a mesa. Ultima sentiu o calor do corpo de Juca, os dois estavam espremidos pela multidão que se apertava no espaço do altar. O rapaz tinha cheiro de florada de café, misturado com suor de cavalo. Tudo muito familiar. Percebendo o sol sumindo no poente, Ultima levou as mãos à nuca para arrumar os cabelos e saiu para banhar-se, se preparar para a dança de São Gonçalo. Não faltava muito tempo par ao término da missa”).

E nesse livro de timing sobra espaço para “Mão pesada”, que seria aterrador se a realidade não o fosse mais. “COMO SÃO CATIVANTES OS JARDINS DE BERLIM” é um dos livros mais importantes da década.

14/11/2017

UM AUTOR PARA SER DESCOBERTO (PRIMEIRA PARTE)

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 14 de novembro de 2017)

“Seu Mazinho se lembrava de tudo. Lembrava-se das histórias vividas e mais ainda das histórias vividas e mais ainda das histórias contadas. Parece que aqueles causos que ouvira dos velhos eram os mais reais. Tinham entrado fundo na sua lembrança. As histórias vividas não tinham as cores nem os sons e cheiros daqueles que seus ouvidos de bacuri ouviram. Com o passar do tempo, Mazinho já não sabia se sabia de ter ouvido ou se sabia de ter vivido. Era tudo igual em sabença”; “De vivo mesmo, só ficaram as histórias ouvidas que circulam pelas suas veias caboclas”.

Os trechos acima são de “Duelo com o Pescador”, onde Decio Zylbersztajn faz uma brilhante analogia entre histórias de pescaria e a chegada da “civilização branca”, destruindo a cultura e economia caboclas, herdadas dos índios e negros.

“Qual a graça de existir um parque vazio? ”, lemos no conto – título de “COMO SÃO CATIVANTES OS JARDINS DE BERLIM” (o qual curiosamente destoa dos outros 10 da coletânea, mas é uma obra-prima), uma intrigante trama sobre duas irmãs ucranianas, uma delas viciada em heroína, que se envolvem com um turista provinciano, que adora parques, e um velho jardineiro. Não deixe ninguém contar o desfecho, que vai mostrar a “graça” de um parque vazio.

Decio Zylbersztajn é bom tanto nos relatos mais curtos, além de ser afeito às frases lapidares. É o caso de “Puro sangue Árabe”, “A chuvarada”, ambos excelentes. E eu fico estupefato de ele não ter mais reconhecimento (continua na próxima semana).

07/11/2017

ENTRE A TERRA E O CÉU

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 07 de novembro de 2017)

Já se disse que a vida é sonho e também que somos feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos.

O que aproxima um velho jardineiro e um príncipe jovem: borboletas e sonhos. Marcos Bagno, autor de “MURMÚRIO”, diz: “Aproveitei uma antiga lenda sobre um sábio chinês que era uma borboleta e, ao acordar, não sabia mais se era um homem que tinha sonhado ser borboleta ou uma borboleta que estava sonhando ser homem. É a nossa eterna dúvida sobre até onde vai a imaginação e onde começa a realidade”. Na sua versão, o velho jardineiro salva um ovo de borboleta e cuida dele até a transformação final. Depois disso, passa a ter sonhos nos quais sobrevoa as mais diversas paisagens. Mas apegado à terra, percebe que os sonhos não são dele.

Há um príncipe que definha por não conseguir voar, após várias tentativas. É o desejo de ultrapassar os limites da condição humana. O velho jardineiro será a chave da sua salvação.

Bagno segue a tradição número lógica das fábulas. Tudo gira em torno do número 9. E não esquece da essência predatória da natureza: “Instantes depois, a borboletinha voltou a aparecer. O jardineiro novamente estendeu as mãos espalmadas para receber na pele a sensação quase ínfima do peso de sua visitante. A borboleta alçou voo, mas antes que pudesse atravessar a distância mínima que a separava daquelas mãos gentis, um passamos vermelho caiu sobre ela com a velocidade de um medo inesperado, vindo do alto da macieira, onde tinha se ocultado dos olhos do jardineiro e da borboleta. Com um único movimento do bico, apanhou o pequeno inseto em pleno ar e engoliu sem deixar nenhum vestígio.
Depois, bateu as asas e desapareceu por trás do casebre”.

Mas há o murmúrio que sustenta esse belo texto: “Saborear a leveza da pétala, dedilhar as folhas, dispersar o pólen oculto no âmago das coisas, semear a delicadeza no coração das horas, salpicar estrelas no ar mais claro do dia, traduzir a voz da brisa frágil, colorir o olhar sincero, recitar a canção sem palavras da vida eterna, recordar a cada espírito a inutilidade do afã – são as tarefas azuis da nossa existência breve. Que ocupação melancólica é esta, irmão, que nos tem impedido de iniciar nosso trabalho? ”.

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