MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/09/2016

Destaque do Blog: “Roteiros para uma Vida Curta”, de Cristina Judar

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de setembro de 2016)

 

Há cem anos, no coração do Modernismo, Virginia Woolf revolucionava, em seus textos curtos (para não dizer, em romances como Senhora Dalloway), a percepção dos objetos, das ruas, das novidades tecnológicas. Seus protagonistas eram “eus” quase evanescentes, os quais envolvidos na introspecção, mesmo assim nos revelavam o mundo que as cercava.

Por incrível que pareça, guardadas as devidas proporções, é o que acontece nos contos de ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA (Editora Reformatório). Os personagens de Cristina Judar esbarram o tempo todo com as pessoas que passam pelas ruas, pelas noitadas, por objetos e fenômenos da natureza, pelos ritos cotidianos (“essa coisa de portas que abrem e fecham continuamente. que, por sua vez, dão para as ruas e projetam na sala a presença maciça do trânsito e traços de conversa vindos do cômodo ao lado até aqui, onde estou sentada, nesta casa – com mesa, cadeira, pés juntos em sapatos com fivelas, meus olhos contraídos pela luz”, lemos em Fotofobia), aparentemente alheias ao seu redor, mas nos trazendo uma poderosa sensação de realidade. Mesmo aqueles que se isolam do mundo, em seu autismo e alienação, são confrontados com as exigências de existir (“Para a fobia social, cloridrato de venlafaxina; ranitidina para o estômago fraco; para o desânimo, estrasse; gordura para o fêmur em evidência”, lemos em Ótimas em Humanas). Contudo o “eu” parece mais insubstancial, mais líquido (para seguir o pensamento de Bauman), do que os de Virginia Woolf (“Vitorino não se via refletido, confortável ou identificado, apenas paralelo de sua própria imagem em baixíssima definição. dele, não havia vapores condensados, que viriam, possivelmente, do exalar de suas narinas. na insistência, ele não parava de respirar, tomava goles imensos de ar”, lemos em Blue Train).

Insubstancialidade e hiper-realidade, uma alquimia paradoxal, e perigosa também. Todos os textos de ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA têm momentos brilhantes e, em geral, Cristina Judar consegue finais surpreendentes e admiráveis, quase como se fossem as “chaves de ouro” dos sonetos antigos. É preciso dizer, todavia, que às vezes a “literatice” artificiosa prepondera sobre a literatura contundente (dentro da linhagem de Julio Cortázar, aliás, homenageado num dos melhores momentos do livro Certa Diversão).

Mas como não tira o chapéu para a criadora de uma Alice pós-moderna que perambula alucinoriamente pela cidade (“O vento condensado em novelos de lã amarela. Essa era a moldura de mim que ali havia. Foi em um sopro quando caí em mim. Cair em si é um daqueles exercícios difíceis de engolir, embora necessários e suscetíveis aos bueiros destampados da cidade. Então, nesse pedaço de mundo em que tudo é variável e relativo tornaram-se gigantescos os homens das calçadas ao meu redor”), para terminar de forma deliciosamente cotidiana e irônica: “No embalo practpract dos sapatinhos de verniz, chego em casa, mamãe me aguarda. No ar, cheiro de coelho assado. O jantar está servido”?

ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA é mais uma prova de que a nossa prosa de ficção, especialmente a publicada por editoras independentes, atravessa uma grande e estimulante fase.

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20/09/2016

Um romance histórico necessário para os dias de hoje: “A Utópica Teresevile”

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de setembro de 2016)

Em pleno recrudescimento da intolerância, do preconceito, do retrocesso e da truculência, recomendo enfaticamente a leitura de A UTÓPICA TERESEVILE: baseado em fatos reais (não que isso seja uma virtude), o romance de André Jorge Catalan Casagrande narra uma experiência de socialismo utópico (sem as extravagancias de pensadores como Fourier) levada a cabo pelo médico francês Jean Maurice Fraive, com a anuência de Dom Pedro II e sua esposa, Tereza Cristina, num Paraná ainda não desbravado, quase despovoado. Teresevile seria uma comunidade onde vigoraria igualdade absolutas entre raças, sexos, com todo mundo trabalhando em prol de todos, usufruindo dos lucros.

O autor insere na história da colônia a trajetória de Raimundo, escravo que ganha a liberdade, graças ao doutor Faivre. Mas, aí percebemos que nessa sociedade igualitária, nem todos são tradados igualmente, Raimundo não é aceito pelos membros de Teresevile, quase todos franceses e preconceituosos quanto à cor de pele. Ele acaba se unindo a um quilombo que se instalou na região. Pior ainda, ele tem a experiência dolorosa de constatar a intolerância de sua própria gente, a qual rejeita sua esposa, Alice, por ser branca, acarretando uma tragédia.

Apesar do estilo ser bem claro, há uma sutil polifonia narrativa que Casagrande poderia até explorar com mais ousadia e riqueza, pois o resultado é tímido, o que é perfeitamente aceitável num primeiro romance. O que me incomoda em A UTÓPICA TERESEVILE é o esquematismo dos personagens que empobrece as relações e os conflitos pessoais e ideológicos, tornando previsível o desenrolar da trama, mesmo assim enriquecida por lendas de origem africana e indígena.

Ao fim e ao cabo, é um livro – se não totalmente realizado – fecundo em ideias, temas ainda presentes, ao resgatar um fato histórico que coloca em discussão o que é realmente civilização: “Minha única exigência às dezenas de famílias que assentei em Tereza Cristina era de que usassem da mesma misericórdia que tive para com eles, com outros miseráveis quando houvesse possibilidade e recursos. A esperança de que a benevolência se alastrasse pela face da terra é que me motivava – a despeito de tudo – a lutar por uma civilização mais igualitária, onde todos pudessem ser felizes desfrutando dos frutos oriundos de seu próprio labor”.

Em tempo: o historiador Josué Corrêa Fernandes pesquisou a colônia Tereza Cristina, resultando na obra Saga da Esperança: Uma Utopia Socialista à Beira do Ivaí, publicada pela Imprensa Oficial do Estado, em 2006.

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13/09/2016

Juliana Diniz e a permanência de um instante na ausência da palavra: “O Instante-Quase”

 

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de setembro de 2016)

 

A expressão que dá título à coletânea (doze relatos com nomes de mulheres) O INSTANTE-QUASE (Editora 7Letras) já aparece no texto de abertura “Lúcia”, mas é emblematizada em “Lindalva”: uma noiva abandonada que percebe que a vida não passa, apesar da sua complexidade, de um “uni duni tê” de afetos e de escolhas (“O pai começa a recolher os restos de tecido em silêncio, sem perturbar o transe religioso da filha, atento ao olhar vidrado de Lindalva que destrói, ponto a ponto, sem dó ou indecisão, com golpes metálicos de tesoura, a lembrança tátil de um vislumbre de vida”). Por tanto, o admirável livro de estreia da cearense Juliana Diniz nos oferece um painel em que a sombra do que poderia ter sido paira sobre o que é.

Até nos estratos mais miseráveis da sociedade, ela vasculha as alternativas da existência. Um dos pontos altos de O INSTANTE-QUASE, “Perpétua”, é a história de uma mulher oriunda do sertão mais castigado pela seca que vai morar com o marido nas palafitas de Manaus, cercada pelo rio imenso e a mata (“Deu-se conta que a morte poderia acontecer de um susto, sem que aquele mundo farto de tanta vida notasse que ela deixou de existir”).

Juliana Diniz trabalha tanto com o realismo direto, quanto com o alusivo, o onírico (há um imaginário písceo explorado em “Perpétua” e em “Natália”, o qual se passa em outra classe social), o alegórico. Ou seja, ela sabe urdir “estórias” e também encontrar a linguagem lapidar para cada uma delas (só duas me passaram a sensação de fracas, mal desenvolvidas: “Gabriela” e “Marina”; em compensação temos momentos excepcionais como “Maria”, “Hilda” e “Olívia”: “Observo a janela aberta para o vazio e percebo que restamos apenas nós neste quarto estranho e sem lembranças, encastelados, quase desistentes, quase amantes, construindo a permanência de um instante na ausência da palavra”). Suas ficções curtas são tão caleidoscópicas que parecem romances encapsulados, na mesma linha de um mestre no gênero, a canadense Alice Munro (Nobel de literatura de 2013).

Um dos aspectos mais impressionantes dessa sabedoria textual numa autora tão jovem é a mistura que faz do arcaico, do recôndito, com os signos da modernidade: por exemplo, em “Lúcia” – conto no qual uma filha descobre a vida alternativa que a mãe poderia ter tido com o dono de um casarão antigo e aristocrático –; ou então em “Auxiliadora”, cuja protagonista é uma beata que se escandaliza ao descobrir que o juiz a quem serve fielmente durante décadas utiliza chats eróticos durante o expediente e encomenda viagra para seus encontros com uma fogosa amante (Auxiliadora planejará uma terrível vingança, trocando as pílulas de viagra por pílulas para pressão).

O Ceará já conta com contistas de peso, como Pedro Salgueiro, Tércia Montenegro e Raymundo Netto. Agora Juliana Diniz com sua prosa avassaladora vem mostrar aos pessimistas de plantão, sempre anunciando a morte da literatura, que a ficção está mais viva do que nunca. Nosso panorama literário encontra-se em ótimo momento e provavelmente ela será uma das suas principais figuras.

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06/09/2016

Matheus Arcaro e “o nada sem caroço”: O LADO IMÓVEL DO TEMPO

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 (A resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 06 de setembro de 2016)

Em seu romance de estreia, o jovem Matheus Arcaro (cujo livro de contos, Violeta Velha e Outras Flores, critiquei duramente nesta coluna pela falta de uma personalidade autoral com contornos definidos), ousa um formatado filosófico – usando sua formação na área – muito pouco praticado por aqui. Não que isso seja problema. Basta lembrar da junção entre filosofia e fabulação em A Náusea (1938), de Sartre, e de O Agressor (1943), de Rosário Fusco. Isso sem contar a ficção de tendência cristã que formou um verdadeiro subgênero da prosa, de Dostoievski a Gustavo Corção (autor de Lições do Abismo), com sua temática de culpa e expiação.

O LADO IMÓVEL DO TEMPO (publicado pela Patuá) provavelmente ficará como um romance de exceção como os de Fusco e de Corção. Ele trata da eternidade e da angustia da finitude sem significado: Salvador dos Santos aos 70 anos resolve tornar-se um assassino em série a fim de ficar para a posteridade, após uma vida caracterizada pela esposa que o abandonou (após o fracasso de suas tentativas como poeta) por uma “aura insossa”. Infelizmente, mesmo com a breve celebridade por causa de cinco assassinatos, Salvador da eternidade só sente “o nada sem caroço”, “poderia muito bem dizer que fiz o que fiz porque fui um títere nas mãos do fracasso”.

Livro singular, O LADO IMÓVEL DO TEMPO é uma ótima narrativa, chegando a momentos extraordinários como a cena em que Salvador, ainda criança, contempla-se no espelho do guarda-roupa tomando consciência da própria identidade e do seu corpo. Também é um despertar erótico, apesar do clima repressivo de sua casa (o pai é pastor religioso e despreza o filho).

Malgrado sua qualidade como narrativa e linguagem (muito trabalhada), não acho totalmente convincentes considerações filosóficas coladas à percepção de Salvador porque o personagem não tem estatura para absorvê-las e, como o autor confunde o foco narrativo (aliás, com admirável habilidade) dá uma sensação forçada várias vezes.

Esse não é, para mim, o aspecto mais problemático do romance. Minhas restrições quanto a Violeta Velha e Outras Flores residiam na linguagem afetada e decorativa, com imagens e metáforas gratuitas e sem substancia literária. O talentoso autor incide no mesmo erro, principalmente nas primeiras páginas (“Salvador ergueu o jornal a um palmo das pupilas”, por exemplo). Tenho consciência de que essa minha implicância com uma linguagem “abonitada” representa uma idiossincrasia, e que outros leitores podem se apaixonar pela obra de Arcaro justamente por esse uso da prosa. Questão de gosto.

O inegável, porém, é que o autor de O LADO IMÓVEL DO TEMPO deu um salto impressionante do primeiro para o segundo livro, obrigando-nos definitivamente a ficar de olho nele, apesar de um certo “quê” de anacrônico e obsoleto nas suas escolhas, o que faz dele o parente mais próximo do grande e esquecido Rosário Fusco em nossa literatura do século 21.

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