MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/12/2015

UM MUNDO QUE DIZ NÃO: “O Contrário de B.”, de Bruno Liberal

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«O garoto está no quarto ouvindo os risos da mãe. Deita na cama e tapa os dois ouvidos com as mãos que ardem. Sente vergonha de tudo. Ainda não sabe qual foi seu erro. Não sabia que não podia desenhar na mão, não sabia que não podia desenhar caveira, não sabia que não podia desenhar pintos. Fica com raiva de todo mundo. Observa os brinquedos na estante branca. Todos estão virados para sua vergonha. Sorriem com suas caras escrotas de brinquedos».

«As crianças brincam na prainha da ilha e apontam para mim. Dão com a mão dizendo tchau. Fazem uma algazarra danada jogando água para cima. Também quero dizer tchau e sorrir como elas e ver que sorrindo eu posso desfazer esse sentimento ruim. Todos eles. Muitos».

«Ele guarda as fotografias dos mortos na sua imensa parede do quarto, bem em frente a sua cama. Gosta de dormir assim. Chama de “meus mortos”. Olhar suas caras azuladas, seus últimos registros. Eram tantas fotos coladas na parede que nem sabia mais quem eram seus pais, que foram os primeiros no painel e agora eram apenas a mesma massa de perdição».

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de dezembro de  2015)

Numa canção que marcou época (Brincar de Viver), Maria Bethânia nos fala da «arte de sorrir/cada vez que o mundo diz não». Um “não” contínuo e acachapante se infiltra, ao longo dos treze contos de O Contrário de B., nos interstícios de todas as relações humanas, corroendo casamentos, vínculos geracionais, laços com bichos de estimação[1], a ligação com a natureza («Procura um abraço na escuridão, uma segurança, um último refúgio. O vento cria um sussurro alongado na fração de tempo de uma respiração profunda. Ela treme acocorada, sentindo no chão as pedras machucarem os pés descalços. O que encontra é a feiura de tudo no mundo», lemos no aflitivo Dente de Cachorro); até mesmo nas noções de caráter e personalidade.[2]

São situações de abuso, opressão, miséria, violência, estupro, culpa, doença, indiferença, e mesmo o que nos é mais íntimo se reveste de repugnante e aversiva estranheza: «O velho lembra de ver a mulher deitada na cama, dormindo com a boca aberta. Não é uma imagem bonita. Lembra de ter achado ela velha. Lembra que foi o último dia que viu sua esposa dormindo. Depois disso a largou e foi aquela confusão toda» (Pater Familias[3]); ou então: «Ela me beija como se beijasse a testa de uma velha e desce do carro animada. Vê-se que muda instantaneamente o semblante: está sorrindo. No carro franzia a testa e olhava pela janela distante, evitando olhar para mim. Eu via apenas seu reflexo na janela de vidro. Era um fantasma ali presente. Parece que minha ausência faz sentido e esse distanciamento toda noite é importante para ela. Sinto isso, que ela gosta cada vez mais de ficar longe de mim» (Nós contra Eles).

E a arte de sorrir? Nesses inóspitos coágulos ficcionais, seja de momentos efêmeros, seja de longas convivências, explorados por Bruno Liberal, ela é exercitada na desfaçatez, no delírio ou no cinismo cafajeste. Como o dos pais sorridentes e odiosos, sob a ótica ressentida dos protagonistas, de dois pontos altos do livro, Reza de Gato Morto (que faz um arco entre o célebre gato preto obsedante de Poe com a obra radical de uma Hilda Hilst — por exemplo, A Obscena Senhora D: «Os vizinhos a chamam de velha dos gatos. Velha doida. Velha do amarelo. Velha da morte[…] exala um cheiro de excremento. As crianças mijam no seu muro por conta disso. Dizem que a velha é porca») e Esse Último Sorriso: «Eu lembro da cara de papai sorrindo no caixão. Com aquele bigodinho safado dele. Aquela cara de eterno piadista»[4].

Outro momento muito forte é Distante, com o quadro da mulher devastada pelo câncer e levando uma surra do marido truculento, entrevisto por mais um filho dilacerado entre o atavismo, a perplexidade e a revolta, «…sofrendo, sorrindo, sangrando, agarrada nele e fazendo carinho no cabelo do pai»[5].

O jovem contista (nasceu em 1981) consegue fazer uso tanto de uma prosa crua quanto de imagens e formulações de uma exatidão atordoante (quando B., adolescente sem-teto e faminto, surta, comete um crime, quase é linchado: «Gritavam várias coisas. Tudo que já ouviu. Tudo que eles queriam que B. fosse»[6]).

Essa fusão oferece grande dinamismo, mas também o virtuosismo pode trazer desequilíbrios, como no conto-título, onde a tessitura visceral do conjunto é prejudicada por frases excessivamente retóricas («Um redemoinho de esperanças. Anéis superficiais que se esvaem na incerteza das horas»); isso acontece inclusive num texto curto e cortante como Dente de Cachorro («E sente que os espinhos também choram. E que seus olhos são cristais em queda livre»); por vezes, a estrutura de um conto é que soa artificiosa demais, como em Não precisa gritar (o qual me parece mais a justaposição de dois textos, com nítida desvantagem do segundo, uma alternância de vozes de pais e mães, com relação ao acabamento do primeiro[7]).

Uma coisa é certa, porém: mesmo com alguns acordes estridentes, desafinados mesmos, não há tempos fracos ou desinteressantes, entre os parênteses obsessivos e focos ziguezagueantes, na música verbal de O Contrário de B.: a arte de narrar, cada vez que este mundo renitentemente patrimonialista, patriarcal e preconceituoso diz não: «No fundo do rio, com todo esse silêncio desesperado, a mãe pensa que fez tudo certo na vida, que ama demais o marido, a família, a farra, as brincadeiras dele. Eles dançavam juntos, bebiam juntos, se amavam o tempo todo. Olhando os vultos dos mortos sendo arrastados por essa correnteza espinhosa, lembrou que foi feliz. E caída no rio era um pontinho escuro vazio. Ela pensou também: “me solta, filho da puta!”».

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TRECHO SELECIONADO

«Mãe tá doente.

Fala assim com um desprezo palpável. A menina nem levanta a cabeça. Continua criando seus buracos, seus abismos. Depois ela pega um punhado de farinha na cozinha e vai tapando. São agora manchinhas brancas no chão.

Ela sorri um pouco e olha nos olhos de Ícaro.

Tá vendo? Tá vendo? É a cara de mainha…

Na verdade a doença da mãe é um câncer. Foi diagnosticado por uma médica em Juazeiro. A médica estava falando ao celular com o filho, fez assim com a mão para dizer aguarde um pouquinho.

Que legal filhão, olha, mamãe tem que ir trabalhar. Beijão. Pede para Francisca fazer a carne que tirei do congelador tá bom? Beijão.

 Desliga o telefone. O pai e a mãe esperando sentados na cadeira o atendimento que haviam marcado há quatro meses.

Dona Mariana, as notícias não são boas. A senhora está com câncer.

Oxe, quié isso?

 E a doutora explicou de uma forma que dona Mariana entendesse apenas o principal: seu estado era terminal. Não havia tratamento. Despachou-a e chamou o próximo paciente pensando que Francisca nunca faz o almoço direito, sempre coloca óleo demais na carne».

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 NOTAS

[1] Como constatamos no cruel Hoje Não:

«Imagine se levo o dourado e chego para ele no meio do shopping, na frente de todo mundo e estendo um filhote tão lindo.

Ele ficaria maluco!

Imagine todo mundo me olhando e dizendo que puta pai que eu sou. E as crianças todas dizendo que também querem um daquele e os outros pais todos putos comigo. Rá. Eles iam ficar putos com o melhor pai do mundo».

[2] Há um conto chamado Possibilidade de Estar Incompleto.

[3] Os dois primeiros contos têm esse título, ambos muito bons (embora eu tenha ficado confuso com o uso dos nomes dos personagens no segundo deles, do qual retirei a citação acima). Segundo o próprio autor, respondendo-me gentilmente, “os dois contos são como um universo paralelo, algo que poderia ter acontecido se alguma variável fosse alterada…”.

[4] Nesse conto, o meu predileto, há um diálogo explícito com a obra de Raduan Nassar.

Em Reza de Gato Morto, lemos:

«Achei a senhora feia no enterro, até comentei com sua irmã. Disse que a maquiagem estava horrível. Papai escolheu o caixão mais barato, o serviço mais porco. Sempre foi assim conosco, tudo do mais barato. Senti pena da senhora. Ave Maria, me perdoe. Não sei rezar. Fico com esses lamentos o tempo todo. Lembro do papai rindo com os amigos no enterro» .

[5] Outra visão dos pais juntos é uma das passagens mais intensas do lado “cru” de Liberal, no ótimo Obedeça Seu Pai (cujo início é justamente a repreensão e punição a um menino que desenhou um pênis):

«Está em cima da esposa agora, os dois nus, suados. Seu filho ouve um barulho estranho e abre a porta. Vê os dois se mexendo com um ritmo muito específico. Não entende aquilo, acha que você está matando sua mãe.

Papai?

 Você dá um salto de cima da mulher com um reflexo fantástico. Grita: sai daqui desgraça!

Sua esposa ainda está com as pernas abertas. Apenas estica o pescoço para ver a cena. Você vai em direção à porta com o pênis ainda duro balançando e batendo nos lados das pernas. Seu filho fica estático. É uma escultura de concreto. Você o empurra e fecha a porta com chave. Ele fica caído no corredor sem entender. Chora. Você retorna e sua esposa está de quatro, esperando continuar aquilo…».

[6] Outro exemplo: «Não dá para ser algo que não existe dentro».

[7]  Onde encontramos algumas das melhores páginas da coletânea:

«Nas redes sociais isso é tão lindo que você parece a mãe mais cuidadosa do mundo, mais atenciosa, mais carinhosa. Mas você nem o escuta. Fica assim no celular o tempo todo rindo e mexendo os dedos nessa tela de vidro e rindo e mandando mensagens e tirando foto o tempo todo.

(Você nem vê que ele está com 39 graus de febre)

 E no aniversário dele você parecia uma mãezona. Gritava o tempo todo “filhinho, filhinho”. E na hora dos parabéns você foi abraçá-lo e ele se esquivou. Correu para a avó.

(Não adianta chorar agora)

 Ele correu para outra pessoa.

Isso abre uma ferida imensa. Um abismo entre seu filho e você. Cada um de um lado, se olhando mutuamente, tecendo suas armas um contra o outro. Ambos se protegendo. E essa dança nunca acabará, pode ter certeza».

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22/12/2015

Destaque do Blog: O PRINCÍPIO DE VER HISTÓRIAS EM TODO LUGAR, de Leonardo Villa-Forte

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«Como ignorar as pistas? Um sinal destrói tudo. Basta que se esbarre numa faceta suspeita da pessoa, que se leia seu caderno, que se ouçam seus assobios, e tudo se corrói. Resta esperar o abalo final, o sopro que leva ao desabamento»

«– Não, não – ele disse espantado, antes de levantar a franja da testa e segurá-la por sobre a cabeça –, você entendeu errado, não sou eu quem pula da janela. Nunca quis pular de uma janela. Você acha que tudo que escrevo tem a ver comigo e com a minha realidade?»

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de dezembro de 2015)

De Dom Casmurro, passando por São Bernardo, para citar pontos altos, há toda uma linhagem de narradores abraçados ao seu rancor, em razão de  terem sido hipoteticamente traídos, investigando de forma obsessiva os indícios  deixados pela amada, e que se solidarizariam com o protagonista de O princípio de ver histórias em todo lugar, quando afirma: «Se Cecília iria ou não me trair, bom, isso estava fora do meu alcance. O que havia de perverso era a sua capacidade de deixar pistas. E, no entanto, o que eu podia fazer? As pistas já existiam, não havia retorno».

Essa suspeita (Cecília está viajando a trabalho por alguns meses[1]) se une a uma vocação literária interrompida ou frustrada, tanto faz, e também a uma neurótica inquietude diante da fachada das coisas e dos seres, como o nome de uma lanchonete, Copa 74: «Lembrei que a seleção brasileira não havia ganho a Copa do Mundo de 1974, fato que torna o nome do Copa 74 um mistério. O destaque daquele ano foi a Holanda, com seu esquema tático no qual os jogadores variavam o posicionamento confundindo os adversários. Mesmo assim, a campeã foi a Alemanha Ocidental. Talvez o nome da lanchonete tivesse sua origem numa admiração do dono pelo futebol alemão ou holandês, mas nesse caso seria mais coerente que o letreiro do local não fosse colorido de verde e amarelo. Um dia eu desvendaria esse mistério»[2].

Quando visita a casa de Luiz Cláudio, um dos cinco alunos da oficina literária que resolve ministrar para enfrentar a ausência de Cecília e provável rompimento: «Havia algo realmente esquisito naquela família. O que Luiz escondia? Era preocupante a maneira como tratavam Rebeca, exibindo-a aos seus convidados. Além disso, a garota era nova demais para um casal da idade deles. Cogitei ser adotada. Que destino teria aquela criança trancada no quarto? Quantas perguntas».

O romance mescla o envolvimento do improvisado professor com seus alunos a oito (há também um e-mail atribuído a Cecília) dos textos supostamente escritos por eles (não custa lembrar que Leonardo Villa-Forte já se revelou um contista peculiaríssimo com seu livro anterior, O explicador, presente na lista de destaques de 2014 desta coluna[3]) e os quais exploram (sempre com certo clima de violência física, iminente ou praticada) o território do abandono, da mutilação, da falta de comunicação, do comportamento obsessivo, com laivos sedutores de novos começos e de escapadas inesperadas, tabulas rasas. Todos são bons; um deles em especial: Desonra contagiosa, onde há um desafio perverso entre avô e neta, é uma das leituras que mais me impressionaram em tempos recentes.

Sem perder sua já inequívoca personalidade como autor (não fosse a boa safra de 2015[4]O Princípio de ver  histórias em todo lugar bem podia ser o romance do ano), é curioso verificar como essa ficção de (auto)enganos consegue associar elementos de dois dos universos literários mais relevantes da atualidade: o descontrole emocional que afeta percepção do mundo e linguagem dos personagens de Ricardo Lísias[5]; e a exploração lúdica da circularidade irracional dos métodos lógicos aplicados ao cotidiano, tão presente na obra de Gonçalo M. Tavares[6].

Assim, cuidem-se. Tudo aqui é movediço e instável. E o leitor desse carioca de trinta anos, portador de pacatos olhos azuis (estava na hora de Chico Buarque passar essa tocha)[7], tem de ser, antes de tudo, um forte:

«–Tem certeza? – ela perguntou com um ar grave e desconfiado –.

_Como assim tem certeza? Certeza do quê exatamente? ».

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TRECHO SELECIONADO

«A garota encostou o banquinho na cama e o escalou. Rapidamente passou para o meu colchão. A cama era alta e eu tive que me conter para não impedir a pirralha e acabar fazendo com que ela caísse dali. Falei para descer, mas a máscara do nebulizador dificultava ainda mais a audição da minha voz frágil. Ela passou a me tocar, testando a espessura da minha pele, apertando alguns pontos e me olhando para ver a reação. Virei cobaia, pensei furioso. Mas não a interrompi. Meu coração batia mais rápido. Será que a danada tinha preparado errado a minha nebulização? Os toques da garota não eram de todo desagradáveis. Há tempos não sentia uma pele tão lisa e fresca. Ela tocava meus pés, minhas mãos, a barriga, o corpo todo. Checava minha reação em cada ponto e, se minha expressão fosse de prazer, repetia o toque no local, rindo por ter descoberto um botão certo. Deixei que me explorasse até o momento em que quis tocá-la também. Minha mão escorreu fácil pelo seu rosto suave. Ela me olhou com carinho. Brinquei com seus cabelos, tão livres, espalhando-os para um lado e para o outro como se fosse o vento. Desci para a cintura, bem fina, e apertei seus ossos fortes. Com os olhos fechados, senti a maciez delicada de sua pele ao passar minha mão por debaixo de sua saia. Afastei a calcinha com o dedo e lembrei como era me sentir um homem potente.

Tive a sensação de que a garota parou de me tocar, mas mesmo assim continuei por algum tempo.

Quando abri os olhos, a garota sustentava uma expressão congelada, sem emoção alguma. Peguei na sua mão, querendo que ela falasse, mas tudo que fez foi abaixar a cabeça[…]

Ronei disse andando em direção ao corredor, carregando sua filha nos braços. Quando ele ficou de costas para mim, pude ver de novo a expressão distante da garota, o olhar inerte no rosto mais sem vida que já vi».

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 NOTAS

[1] «Nesses três meses, além do sexo, eu sentiria falta do seu ouvido. Ele não estaria lá para receber minhas ligações quando regularmente ao meio-dia eu era tomado pela frustração e pelo desânimo na agência. Seu ouvido não estaria lá quando eu precisasse de alguém para fingir interesse nas ideias estapafúrdias que tenho em noites de insônia. Quem mais escutaria com paciência minhas soluções para problemas que não existem? A quem eu contaria os detalhes dos projetos que quero realizar? Durante um trimestre viveríamos em contraste: ela cercada de pessoas e novidades; eu sozinho, na mesma. Imersa em trabalho, encontros, reuniões, passeios, Cecília sentiria a vertigem dos que são apresentados a uma quantidade alta de estímulos num período curto de tempo. Já a mim faltariam assuntos, acontecimentos, pessoas, novidades. Restariam, sempre comigo, as minhas suspeitas» .

[2] Sem que possamos deixar de lado a sua notável capacidade de fantasiar:

«Peguei uma latinha de água tônica na geladeira e fui até a janela. Abri a latinha e, ao ouvir o estampido do alumínio, pude me ver vestindo um robe lilás, acendendo um charuto cubano e ostentando, na mão cheia de anéis, uma dose de uísque trinta anos. Meus cabelos estavam molhados, brilhosos, penteados simetricamente para trás. Mulheres em trajes de verão circulavam pela minha casa, que se tratava de um imóvel suspenso no meio do mato, de frente para a praia, quase todo feito em madeira, com a assinatura de um arquiteto de grife. O que não era madeira era pintado da cor madeira. Eu me referia a esse elegante, rústico e caríssimo conjunto arquitetônico como “bangalô”. A ducha ficava na varanda, do lado de fora, num box natural feito com bambus. Tomava-se banho observando o mar e a chuva. Eu oferecia bebidas, reunia pessoas, contava piadas…Poucas tinham graça, mas algumas moças riam delas mesmo assim. Depois eu pedia licença e ia chorar no banheiro.

Longe dessa história da qual despertei, e cujo final me parecia uma traição a mim mesmo, eu olhava a rua e a chuva que começara a cair forte».

[3] Apesar de uma certa falta de polimento na prosa, em vários momentos. Tais descuidos já não estão presentes no romance, mas o aprimoramento da linguagem por vezes resvala para trechos gratuitos, os quais, se não chegam a comprometer o conjunto, pouco acrescentam, por exemplo:

« Talvez ela fosse bipolar – disse Carina.

– Bipolar – repeti, e levei um pé frente ao outro. – Bi. Polar – fui em frente, coçando o queixo e olhando pro chão. – Bipolaridade. Dois polos. – Sim – Carina me alcançou – dois extremos. Humores extremos. A pessoa vai do entusiasmo ao abatimento, da expansão ao recolhimento. Fala, fala, fala, e depois cai num mutismo miserável. Tudo num intervalo bem curto de tempo. Já estudei isso para uma matéria. Dizem que fica difícil reconhecer qual das partes é o próprio eu. Isso se você acredita que há um eu unificado, sabe, uma identidade estável. – Entendi. Bipolar. Bipolaridade – repeti comigo, seguindo adiante. – Bipolo. Aqui e ali. Em um e no outro. Bi. Dois. Bipersonalidade. Biamor. Bigamia. Multi. Sim, multi. Multiamor. Multipolar. Multi… ».

[4] Lembro aqui, por exemplo, títulos como Julho é um bom mês para morrer, de Roberto Menezes; A imensidão íntima dos carneiros, de Marcelo Maluf; Um dia toparei comigo, de Paula Fábrio.

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[5] Uma amostra:

«Desenvolvi estratégias de fuga e obtenção de alívio. Uma delas se tratava de telefonar para alguém assim que pusesse os pés em casa no final do dia. Fiz isso na própria quarta-feira, no dia seguinte à partida de Cecília. Era preciso telefonar preparado para alongar a conversa o máximo que pudesse. Um dos meus primeiros alvos foi o restaurante árabe.

– Alô, Denílson – falei ao reconhecer a voz do garçom do outro lado.

– Opa, boa noite, patrão. O que vai ser hoje?

Fiz um pedido. Mudei de ideia. Fiz um novo pedido. Mudei de ideia. Fiz um terceiro pedido. Perguntei como estava o movimento. Sugeri que abrissem aos domingos. Perguntei por que ainda não haviam montado filiais em outros bairros. Daí fiquei sem assunto e quis mudar o pedido outra vez. Infelizmente o cardápio do árabe é escasso.

Falar com um estabelecimento comercial é um caso raro de interação onde se pode ter a certeza do que se pede, do que será oferecido e do preço a ser pago. Não se encontra isso em toda relação.

– E pra beber? – perguntou Denílson.

– Vou beber água, mas tenho água em casa. Obrigado, Denílson, estou esperando – respondi e desliguei satisfeito, sentindo a glória da objetividade.

Cecília era fã do árabe. Foi estranho fazer o pedido só para um. Era a primeira vez que isso acontecia. Cecília me apresentou o restaurante anos atrás. Rapidamente sua comida se tornou a minha preferida. Além de pedir só para um, notei outro elemento esquisito na minha fala: “Tenho água em casa”, repeti para mim mesmo, “Tenho água em casa”, buscando a maneira conforme a pronunciei da primeira vez: “Tenho água em casa”. A entonação havia subido em “tenho” e em “água”, à maneira de um destaque, um sublinhado. Tenho: eu queria ter algo, e se não tinha mais uma mulher pelo menos eu tinha água. Não é uma substituição equilibrada.».

  O restante do episódio, que deixo em aberto, para a descoberta de outros leitores, aprofunda esse desassossego maníaco.

[6] Não resisto, para exemplificar, a citar um dos contos, O e :

«O – Não sou pacato, só não vejo problema onde não há.

 – E onde não há problema? No mundo de hoje, onde é que não se pode mexer?

O – Mexer? Mas quem aqui está querendo mexer?

 – Não sei, por um momento me passou pela cabeça essa ideia de mexer em algo. Mas talvez você não entenda isso. Você é muito pacato.

O – Não sou pacato!

 – Sim, você já disse, mas talvez tenha que dizer três vezes até eu acreditar. Para que mexa em alguma coisa. E, mesmo assim, eu nunca acreditaria tão bem quanto como se você me demonstrasse isso com uma ação.

(O dá um soco em  )

 – É, acho que agora você demonstrou com uma ação.

O– Sim, mas…

  – Dar um soco. Essa deve ser realmente uma maneira inédita de expressar a necessidade de se expressar.

O – Desculpe, .

 – Talvez vivêssemos num mundo melhor se todo mundo que precisasse demonstrar algo fosse lá e desse um soco em alguém, não acha?

O – Já pedi desculpas. Não sei o que passou pela minha cabeça.

  – Eu sei. Você sentiu que a ideia de ser “pacato” poderia ser uma ideia que se vinculasse à sua pessoa. Você sentiu essa pressão. A distância entre a ideia de quem é “O” e a ideia do que é ser “pacato” estava perigosamente diminuindo. Ameaçadoramente diminuindo, eu diria. Então você me bateu.

O – Pare com isso, vamos.

 – Mas agora você aproximou mais ainda as duas ideias, porque percebi: quem dá soco é gente pacata.

O–  , foi só um soquinho.

 –O soco é dado desde o nascimento da humanidade. Se você ainda dá socos, é porque foi tão pacato que não teve a audácia de ousar novos modos de expressão. Você, O, é tão rígido e engessado quanto um guarda-chuva. Ou melhor, muito mais! Fico surpreso por habitarmos o mesmo século».

[7] Aproveitando a alusão  aos olhos do autor para citar uma passagem reveladora (e há muitas focadas na questão dos olhares e nas qualificações a eles associadas):

« De frente para o espelho do elevador, lembrei de uma frase de um livro. O narrador dizia que certo personagem estava com os olhos duros. Sim, olhos duros. Era interessante a imagem, mas seria aplicável à realidade? Como avaliar os olhos e detectar que estão duros? Meus olhos podem estar atentos, concentrados, talvez até secos, mas duros? Não seria um exagero da ficção? Ou talvez o personagem tivesse olhos tão geneticamente diferentes dos meus que os dele pudessem ficar duros, enquanto os meus só ficam atentos».

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15/12/2015

O QUE O ESQUECIMENTO AINDA NÃO CONDENSOU: “Um Dia Toparei Comigo”, o livro do desassossego de Paula Fábrio

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«Só o esquecimento é que condensa…»

(Mário de Andrade)

«Meu pensamento fixo, inventando cenas, passeios prosaicos pelas ruas, de mãos dadas com Luis. Criava diálogos de mim para mim, como se eu namorasse a mim mesma. Imperdoável esse outro inventado e suspirado, que por acaso tem corpo e, com certeza, a alma diversa da sonhada. A despeito de todas defesas que a razão erigia, soberba, a fim de desfazer atalhos, enganos e futuros martírios, havia momentos breves, muito breves, em que a alma sonhada colava perfeita sobre a alma real, e a isso podemos chamar felicidade».

«Tudo tende a ficar nebuloso, incerto e verdadeiro. Há pouco eu disse que as lembranças se transformam, com o passar do tempo, em suposições e mentiras. Pensando bem, enganei-me. Com o correr dos anos, as histórias tornam-se cada vez mais fiéis aos sentimentos»

(Paula Fábrio)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de dezembro de 2015)

A certa altura de Um Dia Toparei Comigo, Isabel, a narradora, evoca um personagem do escritor italiano Elio Vittorini, mesclando-o ao avô: «Embarcou para fugir. Fugir dele próprio. E sobretudo da pobreza, mas já não podia ser outro. A ruína de buscar um ponto de fuga dentro de si […] Furores que acompanharam meu avô, que pôde ser ele próprio. Embora tivesse um baralho no bolso. Na verdade, mais parecia um baralho quando disposto em forma de leque sobre a cama. Identidades falsas, com nomes que não se repetiam, mas se multiplicavam em cadência quase lírica, todos italianos ou aparentados do grego. Sentia-se livre, assim, para viajar o mundo».

Uma imagem muito pertinente ao modo-de-ser do romance de Paula Fábrio: a do baralho único (opressivamente único), em desdobramento múltiplo (o leque). Isabel parte em viagem para a Espanha com a companheira, Virginia (ambas se desforrando de passados economicamente penosos—seja pela extrema pobreza, seja pela decadência), que a sustenta, e acaba apaixonada por um emigrante brasileiro, Luís.

Cada ponto do itinerário é detalhado, porém como a excursão é também incursão, as sobreposições de topografias, eventos e seres são incessantes, além das leituras —  até uma lista de títulos ao final (se bem que esse seja um ponto vulnerável de um livro memorável, o que menos me convenceu); por exemplo, nos Pireneus encaixa-se a Serra dos Órgãos, como antes, em Sevilha, a Natal nordestina;  Ramires, o tio de Luís tomado por tumores e cuja piora dita o das viajantes, entremeia-se à culpa com as disposições tomadas antigamente com relação a um  pai arruinado e devorado pelo câncer, quase uma estratégia de fuga para iniciar, enfim, a própria vida (aliás, a morte de um velhinho no edifício onde ela mora propicia os motes embaralhados de evasão e culpa-frustração: «Hoje o primeiro velhinho morreu. E eu começo a envelhecer. Não eram coisas boas para se pensar. Mas não havia escape. Seu Odair morrera. Uma pneumonia sem cura, sem velório. Meu voo para Madri e o enterro do lado de cá do Atlântico. Ninguém sai ileso. Malas arrastadas no corredor, um cartão de pêsames escrito às pressas e, depois, depois a fuga»).

Mas a vida se inicia realmente? O que transborda nesse atordoante narrar-se (e aos outros[1]) é a ausência, um desencontro consigo mesma, cuja filiação (malgrado seu título aluda explicitamente ao poema de Mário de Andrade ao qual pertencem os versos seguintes: «Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta/Mas um dia afinal eu toparei comigo»[2] ) mais pertinente talvez seja com a prosa desenvolvida por Fernando Pessoa no Livro do Desassossego, com esse «eu, pessoa desinteressante, menina parva, tolinha» que revela, de repente: «Enquanto sou minha melhor máscara»[3], lembrando também o “eu” que é um “ela” em tantos relatos de Marguerite Duras. Um debruçar-se egocentrado a um ponto incômodo; no entanto pelas contraditórias vias do talento, desvelando o mundo à sua volta e delineando, inclusive, os contornos de uma geração que viu tudo na sessão da tarde:  «… convidei Virginia para provar o pão catalão e a água vichy catalã. Nosso primeiro restaurante estrelado e a tal toalha de linho, e o tal tiramisú, o confit de pato. Começava a me apaixonar pela Espanha. Alguns diriam, mas você não está mais na Espanha. E eu não saberia dizer o que sinto numa ocasião dessas. Eu vi tudo na sessão da tarde, o toureiro, a castanhola, o flamenco, não eram todos espanhóis? Mas antes de enveredar por esse nó na cabeça, melhor assentar as malas no hotel aveludado».

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TRECHO SELECIONADO

«Naquela idade a gente se misturava. Uma mistura do tipo eu faço o favor de ter gente como você aqui dentro de casa. Uma mistura óleo e água que não resistiu à adolescência. Mistura repulsiva agora. Hoje madames se encontram no café, os olhos correm a desviar para o lado, para baixo, amedrontados, quase gritam, como se as sujeiras debaixo do tapete ficassem disponíveis à sociedade com o mero contato dos olhos.

 De uma hora para outra, deixaram de atender ao telefone. Com o tempo, nem o cumprimento na mercearia onde todos do quarteirão compravam do mesmo cesto de pães. Meus pés passavam pela calçada, e rápido alguém puxava a cortina para esconder o interior, os segredos da sala de estar, os móveis refinados; seu sucesso constituía obstruir minha curiosidade.

Naqueles tempos, em casa, havia apenas moléstia. E minha mãe dizia, eles têm medo de pegar minha doença. Não sei se era realmente a enfermidade dela, mas algo em mim parecia fantasmagórico para aquelas pessoas, algo contagioso, capaz de sujar suas mãos, comer seus ventres.

Deveria ter superado, caso contrário não estaria aqui a mastigar a cortina da sala fechada. Não há ninguém em casa. Paloma está estudando para o vestibular. Pois sim, desde já, desde os quatorze anos. Paloma não pode dar uma volta até a esquina. Paloma não está. Para você. Fique bem claro. Para você não há o doce mais caro, nem o passeio no veleiro. Para você não há, não há, não há. Eu olhava para mim com tamanha curiosidade, checava as axilas, não, não estavam fedidas. Seria meu cabelo? Será que na última visita comi um pedaço a mais de bolo? Minha irmã já havia me repreendido, não, não faça cocô na casa dos outros, não coma todo o lanche que servem à mesa, não coma, caso contrário vão pensar que não temos comida em casa. Os outros. Eles não podem pensar que a gente é pobre. Podemos dizer a todos que temos um apartamento no Guarujá, nosso pai ainda é diretor da empresa aérea e aquela mulher que varre a porta de casa não é nossa mãe, é a empregada. Claro, tudo isso minha irmã disse antes da doença e do desemprego. Depois, a vergonha foi bem maior. Como se a mãe houvesse morrido. Teria sido melhor se estivesse morta, ela dizia. Nesses tempos de moléstia, quando as vizinhas, as moças de boa família estudavam desde os quatorze anos para o vestibular, quando eu já não fazia cocô na casa dos outros, nesse tempo, os vizinhos sabiam algo sobre mim. Algo que eu pretendo descobrir. Algo podre. Invisivelmente podre».

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NOTAS 

[1]« No Caminito, no bairro de La Boca, seu Ramires e a esposa esboçaram os passos do tango – voltei por um instante a Luis, que vibrava com aquela espécie de diário de viagem saída de seus lábios, vibrava como se somente o tio e a tia houvessem conhecido a cidade e fossem os únicos a dançar a convite dos bailarinos. Em pensamento, eu criticava sua narrativa mediana, ao mesmo tempo me via de pé na rua-museu, contemplando as paredes das casas de zinco e madeira com suas cores berrantes e diversas. Questionava se seu Ramires notara a tentativa de reconstrução do passado. O passado fabricado, quase igualzinho. Vermelhos, azuis e amarelos novos em folha nas paredes das casas que antes recebiam restos de tinta do porto e pigmentos de esperança dos estivadores genoveses. Mas não importam as conclusões de seu Ramires, tampouco meu ar sabe-tudo, a realidade é indelével. Basta olhar ao redor».

[2] A esse poema de 1929 (publicado em Remate der Males) pertence também o belíssimo verso que usei como epígrafe e que me diz muito sobre o romance.

[3] «Sete anos antes, eu e Virginia descobrimos Natal e redescobrimos o verão. Vinte e oito graus nos acompanhavam das dunas até o Morro do Careca, na Ponta Negra. À noitinha, no restaurante vazio, em formato de arquibancada, nossos encontros clandestinos com os gatos. Ali, realizávamos a filosofia boba dos desocupados. Interessava-me o verão, o sotaque nordestino, o ventilador que nunca desliga entre as aroeiras. Contava para Virginia: o realejo noticiou, você ganhará a rifa. Como tenho sorte! Ganhei uma caixa de bonecos no primeiro ano na escola. Mal formulo cenas agradáveis e ouço meu pai, menina ingenuazinha. Os professores arranjaram para você ganhar. Refuto sua voz. Insisto no verão. Insisto em escutar uma canção que fale do mar. Insisto, insisto, insisto. No bumerangue riscando o céu no descampado; a cabeça cheia de planos e o tempo em aberto para ser escrito desde a primeira letra. Era o que eu buscava em Natal, a vida no seu início. A garantia solar de que ainda havia estrada pela frente, para os planos dourados, pelo menos parte deles. Não seria assim que nascem as excursões, e se transformam em incursões? ».

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12/12/2015

“A vida que às vezes nem parece ter sido a sua”: os rumos da ficção de Michel Laub

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[uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de dezembro de 2015]

A Maçã Envenenada é a segunda parte de uma trilogia (iniciada com o excelente Diário da Queda, 2011[1]) sobre “os efeitos individuais de catástrofes históricas”, nas palavras do próprio Michel Laub, um autor fiel aos seus temas: no novo romance, assim como no anterior, ou em Longe da Água (2004), a narração evolui em volutas retomando  um ponto fortuito da juventude, que se revestiu, na dinâmica da trajetória de vida, como signo de desvio, de “queda”, cristalizando a irrevogabilidade do acaso e prefigurando um destino: são as passagens que «em quarenta anos de vida analisada» permanecem numa zona de sombras. Agregam-se a esse instante inflexivo as amizades e lealdades escorregadias e a reflexão geracional.

A Maçã Envenenada evoca, já pelo título (refere-se a um verso da canção Drain You), o lendário Nirvana, e aquela concepção romântica que a morte precoce de um artista carrega, de não conseguir lidar com a realidade corrompida[2]. Ao rememorar o suicídio de Kurt Cobain, revive também o namoro tumultuado com a intensa e destrutiva Valéria, à época do show do cantor e sua banda aqui no Brasil (a ida ao show é um elemento narrativo da maior importância, muito bem trabalhado). O gancho para esse recuo aos anos 1990 é a entrevista com uma sobrevivente daquele memorável genocídio em Ruanda, cuja vontade de viver mesmo tendo passado por horrores funciona como a sombra desse drama afinal tão burguês.

Equacionando Cobain, o primeiro amor, a sobrevivência, o talentoso autor gaúcho nos oferece suas “canções de inocência e experiência” contra um pano de fundo basicamente irônico, quando não cínico como foi o da geração sobre a qual se debruça. Quando canta a inocência, ou algo muito parecido com ela, apesar da contenção e parcimônia do narrador, o relato é incisivo. Faz falta um aprofundamento da “experiência” e a questão no seu bojo: «Uma pergunta que também era: por que eu não consigo agir de outro modo? ».

De fato, sempre elogiada por inserir na narrativa um veio ensaístico, esse é o ponto onde, conforme amadurece e requinta sua fabulação, a prosa laubiana se mostra mais frágil. Raramente sai da zona de conforto, da moldura que adotou como base, eximindo-se de aprofundar os temas perturbadores e dramáticos que suas histórias nos oferecem, contentando-se com afirmações genéricas e alusivas, o que me parece estranho numa obra onde as questões morais são importantes. Por exemplo, ao falar da sobrevivente de Ruanda: «Adianta esta mulher ter passado por uma experiência tão radical, Valéria, se ao término tudo o que ela faz é dar uma lição aguada de breguice…»[3]. Como ele não vai muito adiante na reflexão, fica parecendo a opinião fútil de alguém comodamente refestelado na sua melancolia pós-moderna. O que é injusto, claro, pois duvido que Laub seja tão superficial. O que ele, como autor, não pode, ou não deveria, é continuar mantendo a mesma parcimônia de seus personagens e suas meias-vidas («essa sensação quase absoluta, que às vezes me assustava porque é só estender a liberdade e de um instante para outro você não tem mais passado, nem sente falta de nada porque é como se nada tivesse acontecido, ou só as coisas que você escolheu, as lembranças boas e inofensivas, e nada do que você disse ou fez a uma pessoa tem consequências porque nunca mais precisará encontrá-la, nem pensar nela, nem imaginar e confrontar o que foi feito dela em outro tempo e outro continente numa vida que às vezes nem parece ter sido a sua»).

Quarenta anos de vida analisada já dão matéria para cantar também a pós-inocência. Tomara que a sua ficção se arroje nessa direção.

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/08/24/as-cancoes-da-inocencia-e-da-experiencia-de-michel-laub-a-maca-envenenada/

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NOTAS

[1] VER: https://armonte.wordpress.com/2012/11/08/auschwitz-alzheimer-alcoolismo-amizade-e-quebrando-o-circulo-natalidade-diario-da-queda-de-michel-laub/

[2] «como ele incorporou o espírito de uma época esmagada pelo fim das utopias».

[3] Por exemplo, parar para pensar que, depois de uma experiência tão radical, talvez não tenha muita importância para Immaculée Ilibagiza expressar-se através de um discurso mais “refinado” e afinado com padrões estéticos “exigentes”. Talvez esses padrões sejam muito pequenos, acanhados, para ela, e tanto faz que os cultuadores dos padrões não bregas, a ouçam e lidem com ela com um respeito condescendente e envergonhado.

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01/12/2015

O MÁGICO E O UMBRAL: AS BIOGRAFIAS CONJETURAIS DE HERMANN HESSE

SWITZERLAND-LITERATURE-HERMANN-HESSECapa Demian V3 MF

[uma versão do texto abaixo foi publicada no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 18 de novembro de 2015, ver: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/11/o-magico-e-umbral-as-biografias.html]

1

Não deixa de ser um fato inusitado, apesar de auspicioso, a Record publicar uma edição comemorativa dos cinquenta anos da tradução de Ivo Barroso para Demian História da juventude de Emil Sinclair[1].  Texto-ícone do século vinte, fez a cabeça de muitos. Nele encontramos a famosa e nietzschiana frase: «Quem quiser nascer tem que destruir um mundo».

Hermann Hesse (1877-1962) publicou-o em 1919 sob pseudônimo e houve muita especulação na época sobre a verdadeira identidade do autor. Quando foi descoberta, o livro passou a ser considerado uma espécie de divisor de águas na sua trajetória artística. E um grande salto, constata-se hoje, embora na memória de quem aqui escreve e tenham permanecido, durante anos, após a primeira leitura, muitos aspectos irritantes e literariamente derrisórios, a saber:

1) essas pessoas (guias, como são denominadas) que aparecem do nada e que dão ao leitor a ideia de que o universo inteiro está voltado para o destino do protagonista, Emil Sinclair;

2) os símbolos (o pássaro heráldico meio gavião meio fênix, o sinal de Caim, a mãe que se chama Eva), que são exaustivamente explicados para o leitor, como se este fosse retardado;

3) a ausência absoluta de um pano de fundo mínimo para as reviravoltas íntimas do personagem, já que todos à sua volta parecem fantasmas;

4) os diálogos irreais e inverossímeis, e, se pensarmos na faixa etária dos personagens (se é que se pode chamar de personagens seres tão esquemáticos, pedantes e pomposos).

Recapitulemos o fio de enredo: Emil Sinclair, aos 10 anos, oriundo de uma família extremamente religiosa, fica à mercê de outro menino, Kromer, que faz chantagem com ele. Um terceiro garoto, Max Demian, forasteiro que começou a estudar no mesmo colégio de Sinclair, aproxima-se dele e consegue afastar Kromer.

A experiência com Kromer faz Sinclair entrar em contato com o que ele chama de mundo sombrio, subjacente ao mundo luminoso representado pela família. Demian revela, através de uma reinterpretação da história de Caim, que não existe tal dicotomia: o mundo é ao mesmo tempo luminoso e sombrio. Mas Sinclair ainda não está preparado para aceitar tal verdade (e «the readness is all», como diria Hamlet), e através de suas experiências como adolescente mantém uma visão dualista: ora cai na esbórnia, na dissipação, ora cultua a pureza e a santidade[2].

Durante essa trajetória, Demian manteve-se afastado da vida de Sinclair e este teve como único amigo o organista (e sacerdote frustrado) Pistórius, que lhe ensina tudo sobre Abraxas, divindade da Antiguidade a um só tempo Deus e Demônio, congregando em si o luminoso e o sombrio.

A aproximação da guerra é o paralelo coletivo da busca de Sinclair: ele tem de sair da casca, isto é, destruir um mundo, para nascer um novo homem; e o mundo carcomido da Europa talvez tenha de passar pela destruição para renascer como a ave fênix: «A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir o mundo».

As quatro objeções mencionadas só funcionam se forçarmos a barra para enquadrar convencionalmente Demian como romance ou novela. Sem essa muleta classificatória, o texto revela suas qualidades e o seu alcance. E nos damos conta de que foi escrito por um poeta que se exprime num relato lírico, projeção poética de experiências pessoais, que não demanda qualquer verossimilhança, pois se fundamenta numa simbologia particular. Que se aceita ou não.

Só mais tarde é que Hesse conseguiu se reequilibrar como narrador, conservando as conquistas de Demian. Surgiram, assim, seus autênticos romances: O lobo da estepe, Narciso e Goldmund e O jogo das contas de vidro.

Vencidos (parcialmente, é preciso confessar) certos preconceitos literários, é fascinante observar, numa releitura, como Hesse trabalha com vários elementos do imaginário cristão (a história de Caim, a figura de Eva, os dois ladrões crucificados com Jesus, a luta de Jacó com o anjo) para lançá-los de encontro a conceitos do pensamento religioso oriental, principalmente aqueles que são o que talvez de mais coerente e pertinente se tenha pensado sobre o mundo e a existência, isto é, aqueles que se baseiam na impermanência de todas as coisas, mesmo as que amamos; e, além do orientalismo (que daria origem ao seu belíssimo livro seguinte, Sidarta, de 1922[3]), a presença da psicanálise de feição junguiana, com o uso insistente dos sonhos e do inconsciente coletivo, sem contar uma inequívoca tendência edipiana.

Aliás, tudo isso está representado no texto pela mudança de significado de outro símbolo importante: o umbral (ou soleira) que a princípio servia para delimitar o mundo luminoso e o mundo sombrio, e depois é retomado como símbolo de passagem, mas uma passagem que faz tudo convergir e que congrega tudo, inclusive as contradições.

E se o livro parecia antes egocentrado em demasia, agora parece simplesmente individualista[4]. No melhor sentido da palavra. Num mundo uniformizado, onde todos querem se nivelar pelo denominador comum do consumo e da facilidade, ler o processo de constituição de uma individualidade verdadeira e poderosa é algo eletrizante. O próprio texto encarrega-se, por sua vez, de investir contra o rebanho, a submissão à massa:

«Os filhos de Caim, marcados com o “sinal”, atemorizavam os demais, e aquele sinal passou a ser explicado não como a distinção que realmente era, mas exatamente como o contrário. Passaram a dizer que os homens assim marcados eram pessoas suspeitas e ímpias, o que, na verdade, ocorria. Pois os homens corajosos, as pessoas de caráter, sempre inquietaram os demais. Tornava-se, portanto, francamente incômoda a existência de uma raça especial de homens sem medo e capazes de infundir medo aos demais, e então lhes atribuíram um apodo e uma lenda amarga para se vingarem daquela raça e justificarem de certo modo os temores sofridos…. Entendes?

 — Acho que sim… Mas… nesse caso, Caim não era mau e toda a narração da Bíblia está errada.

 — Está e não está…. Essas histórias da remota antiguidade são sempre em essência verdadeiras, mas nem sempre foram recolhidas e explicadas com toda a garantia de exatidão. Para resumir, minha opinião é que Caim era um verdadeiro homem, e lhe arranjaram essa história porque o temiam. A origem do assunto não passou de um murmúrio, como tantas dessas coisas que se contam por aí; mas a fábula tinha cunho de verdade no que diz respeito a Caim e seus filhos trazerem um sinal e se diferençarem dos demais homens… ».

 

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                                                   2

Em Autobiographical writings, traduzido no Brasil como Minha vida, Theodore Ziolkowski reuniu doze textos autobiográficos de diversas épocas, feições e níveis de qualidade. Nenhum deles é desperdício de tempo, três são especialmente lindos.

O meu favorito, de longe, é Hóspede do Balneário (1924); como esquecer, contudo, A infância do mágico (1923) ou Autobiografia resumida (1925)? Este último é muito curioso e instigante: até certo ponto, Hesse parece estar nos contando de uma forma poética e concentrada os caminhos da sua vida, mas em determinado ponto, assim como fez com seus personagens nos romances, ele inventa um destino biográfico para si, fazendo um exercício de biografia conjetural. Assim, por exemplo, a persona, ou eu lírico, que nos narra sua autobiografia mostra como anelou por ser poeta desde a adolescência («A questão era a seguinte: a partir do meu décimo terceiro ano de idade tornou-se claro que eu queria ser poeta ou nada»). Vocação assumida e até bem-sucedida enquanto carreira profissional, por incrível que pareça, de repente uma terrível cisão interna, que a Primeira Guerra acarretou, fez com que abraçasse um pacifismo revoltante para seus concidadãos e amigos, amargando um terrível isolamento («vi-me denunciado como traidor»).

O sofrimento e os conflitos, tanto externos quanto interiores (faz um severo exame de consciência, «obrigado a procurar a causa de meus sofrimentos não externamente, mas dentro de mim») desemboca numa radical transformação pessoal. Nós sabemos, por Demian, que isso aconteceu de fato com Hermann Hesse.  Mas ele transforma seu poeta num pintor, envolvido também com magia, que acaba sendo preso («Com mais de setenta anos de idade, logo após ter sido escolhido por duas universidades para receber graus honorários, fui levado a julgamento por ter seduzido uma jovem usando mágica»). Na prisão, ele pinta uma paisagem (atravessada por um trem) na parede da cela e a fantasia biográfica vai se encaminhando para um fim digno de Borges:

«Foi diante desse quadro em minha cela que eu me achava um dia, quando os guardas chegaram mais uma vez, com seu chamamento tedioso e tentaram arrancar-me de minha atividade feliz. Nesse momento senti cansaço e algo como uma revolta contra toda aquela azáfama, aquela realidade brutal e sem espírito. Se não me permitiam ficar com meu inocente jogo de artista, sem ser perturbado, nesse caso devia recorrer àquelas artes mais severas a que havia dedicado tantos anos da vida. Sem a mágica, aquele mundo era intolerável.

   Chamei ao espírito a fórmula chinesa, mantive-me por um minuto com a respiração suspensa e me libertei da ilusão da realidade. Depois solicitei afavelmente aos guardas que fossem pacientes por mais um momento, já que tinha de entrar em meu quadro e procurar alguma coisa no trem. Eles riram como costumavam fazer, pois me consideravam mentalmente desequilibrado.

   Foi quando me tornei pequeno e entrei em meu quadro, embarquei no trenzinho e segui nele para o túnel pequenino e negro. Por algum tempo a fumaça de fuligem continuou a ser visível, saindo do buraco redondo, depois se dispersou e desapareceu, e com ela todo o quadro e eu com ele.

   Os guardas ficaram para trás, tomados de grande embaraço».

Esse texto fantasioso e notável prolonga a vivência descrita em Infância do Mágico, onde são acrescentados aos detalhes reais (ele evoca os pais, o avô de uma forma extraordinária) elementos “fantásticos” que, na verdade, reproduzem as percepções de qualquer criança imaginativa: «Duradouro foi o meu sonho infantil de que o mundo me pertencia, que somente o presente existia, que tudo se achava arrumado em volta de mim para tornar-se um belo brinquedo… Tudo era prenhe de realidade e tudo era prenhe de mágica, os dois cresciam conscientemente lado a lado, ambos me pertenciam… Como era diferente o aspecto da nossa porta dianteira, o barracão do jardim e da rua em uma noite de domingo, confrontado com a manhã de segunda-feira! Que semblante inteiramente diverso o relógio da parede e a imagem de Cristo na sala de visitas apresentavam no dia em que o espírito do vovô dominava, em confronto com aqueles dias quando dominava o espírito de meu pai, e como tudo isto mudava outra vez e por completo naquelas horas quando não havia mais o espírito de pessoa alguma, senão o meu próprio, dando às coisas sua assinatura, quando minha alma brincava com as coisas e lhes conferia nomes e significados novos… Como era pouco o que se mostrava fixo, estável, duradouro…».

Em 1924, o futuro amigo íntimo (a essa altura, longe disso; apesar de se conhecerem há muitos e muitos anos) Thomas Mann lançava A montanha mágica. Hesse, por sua vez, sofrendo com a ciática, passou algumas semanas na estação de águas de Baden. Escreveu então uma longa e apaixonante crônica da sua estadia, que parece ser a contrapartida miniatural do enciclopédico e ciclópico livro do colega. Uma joia rara, desde o momento em que ele desce na estação, reconhecendo seus “companheiros” e “concidadãos” no universo da ciática, ao mesmo tempo sentindo-se superior por poder andar um pouco mais desembaraçadamente, sem tantos indícios de invalidez: «Via-me cercado de longe e de perto por colegas sofredores, competidores junto aos quais eu era vastamente sofredor. Que sorte a minha ter vindo a tempo, ainda na primeira etapa de uma ciática camarada, ainda com os primeiros sintomas débeis de artritismo inicial! Fazendo a volta e apoiado na bengala fiquei olhando o leão-marinho por algum tempo, com aquela sensação conhecida de satisfação, provando que a língua não pode ainda exprimir os processos psicológicos, pois os opostos linguísticos, maldade e solidariedade, aqui se encontram unidos com a maior profundeza».

A partir daí não há uma página em que o leitor não tenha um trecho deslumbrante em sua percepção da natureza humana, dos próprios processos íntimos neuróticos (a insônia e seus tormentos, e a premente, mas quimérica necessidade de encontrar um quarto de hotel “tranquilo”). Enfim, uma obra-prima de um mágico que tirava existências da cartola.

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ANEXO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de dezembro de 2015)

Não deixa de ser um fato inusitado, apesar de auspicioso, a Record publicar uma edição comemorativa dos cinquenta anos da clássica tradução de Ivo Barroso para Demian. Mas se trata de uma obra que fez a cabeça de gente sem conta. Hermann Hesse publicou-o em 1919, sob pseudônimo, e houve muita especulação na época sobre a verdadeira identidade do autor. Quando foi descoberta, o livro passou a ser considerado uma espécie de divisor de águas, e um grande salto mortal, na sua trajetória artística.

Recapitulemos o fio do enredo: Emil Sinclair, aos dez anos, oriundo de uma família extremamente religiosa, fica à mercê de Kromer, que faz chantagem com ele. Um terceiro garoto, Max Demian, forasteiro, aproxima-se dele e consegue repelir o colega assediador.

A experiência com Kromer faz Sinclair entrar em contato com o que ele chama de mundo sombrio, subjacente ao mundo luminoso representado pela família. Demian revela, através da reinterpretação da história de Caim, que tal dicotomia não se sustenta: o mundo é luz e sombra. Sinclair, contudo, ainda não está preparado para aceitar essa verdade, e através de suas experiências como adolescente mantém uma visão dualista: ora cai na esbórnia, na dissipação; ora cultua a pureza e a santidade.

Durante essa trajetória, Demian manteve-se afastado da vida de Sinclair e este teve como único amigo o organista (e sacerdote frustrado) Pistórius, que lhe ensina tudo sobre Abraxas, divindade da Antiguidade, a um só tempo Deus e Demônio.

A aproximação da guerra é o paralelo coletivo da busca de Sinclair: ele tem de sair da casca, isto é, destruir um mundo, para nascer um novo homem; e o mundo carcomido da Europa talvez tenha de passar pela destruição para renascer como fênix: «A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir o mundo». Aliás, tudo isso está representado no texto pela mudança de significado de outro símbolo importante: o umbral (soleira) que a princípio servia para delimitar o mundo luminoso e o mundo sombrio, e depois é retomado como símbolo de passagem, que faz tudo convergir e congrega todos os dados do existir, inclusive as contradições e dilaceramentos.

Demian foi escrito por um poeta que se exprime num relato lírico, projeção cifrada de experiências pessoais, que não demanda qualquer verossimilhança, pois se fundamenta numa simbologia muito particular. Que se aceita ou não. Vencido certo pé-atrás literário, é fascinante observar, numa releitura, como Hesse trabalha com vários elementos do imaginário cristão (Caim, Eva, os dois ladrões crucificados com Jesus, a luta de Jacó com o anjo) para lançá-los de encontro a conceitos do pensamento místico oriental  que se baseiam na impermanência de todas as coisas, mesmo as que amamos; e, além do orientalismo (que daria origem ao seu belíssimo livro seguinte, Sidarta, de 1922), a presença da psicanálise de feição junguiana, com o uso insistente dos sonhos e do inconsciente coletivo.

Um livro individualista. No melhor sentido da palavra. Num mundo uniformizado, onde todos querem se nivelar pelo denominador comum do consumo e da facilidade, ler o processo de constituição de uma individualidade verdadeira e poderosa é algo eletrizante. Enfim, uma obra-prima de um mágico (figura artística muito prezada pelo Nobel de 1946) que tirava existências da cartola, em inesquecíveis biografias imaginárias

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NOTAS

[1] Publicada primeiramente pela Civilização Brasileira.

[2] Essa polarização reaparecerá nas trajetórias dos protagonistas de um grande romance da maturidade de Hesse, Narciso e Goldmund (1930).

[3] Traduzido no Brasil por Herbert Caro, também em 1965.

[4] Bom lembrar que a “individuação” é o objetivo da psicanálise junguiana.

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