MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/03/2017

UM COMENTÁRIO CURTO SOBRE UM LIVRO IMENSO: “TODO NAUFRÁGIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEDAGA”

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 14 de março de 2017)

Na semana passada, comentei o livro de o Naufrágio Entre Amigos, de Eduardo Sabino. Agora, a vez da coletânea de contos, TODO NAUFRÁFIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEGADA (Moinhos), de Marco Severo. Parece que a imagem mais pertinente da nossa civilização em colapso é estarmos naufragando, esse parece ser o Zeitgeist (o espírito de um determinado período histórico).

Mesmo para um leitor experiente, como é o meu caso, foi um assombro a leitura das primeiras páginas de Meio Amargo (não menos prezando o primeiro conto, Selvagem, do qual falarei mais adiante). Senti-me como um jurado do “The Voice”, girando a cadeira logo nas primeiras notas, descobrindo um autor para meu time de leituras prediletas.

Meio Amargo e Plantação abundante em terreno frágil, duas obras-primas, representam a maneira tortuosa e intrincada das narrativas de Marco Severo que lembra a força do primeiro Rubem Fonseca (o A Coleira do Cão) e as histórias da canadense Alice Munro, com os quais compartilha o vezo de transformar um texto curto num mundo em que você fica mergulhado, como se fosse uma série de romance encapsulados, e Plantação abundante em terreno frágil, lembra, com louvor o Nabokov de Fogo Pálido.

Os contos mais breves como o já citado Selvagem também são contundentes: trata-se da história de uma mulher que odeia tanto os elogios que a amiga faz do próprio filho que toma uma medida monstruosa.

Outra obra-prima, Na casa do cordeiro, o lobo anfitrião, lemos: “E se eu for pego? Se eu for, já era, me mato. Não se espante, porque eu sou você também. Você sou eu reprimido. Eu ganho a confiança pra montar minha armadilha. Eu faço os outros enxergarem o que eles gostariam de ver no mundo, naqueles poucos segundos entre o entrar no meu carro e o ficar do lado de fora. É um dom. O que nos difere é que eu desenvolvi, você não. Não pense que você é melhor do eu porque nunca matou ninguém. Você também é um predado. Nunca se esqueça, meu caro, que o cordeiro é também o caçador”. E em Plantação abundante em terreno frágil, vemos nitidamente o auto engano que justifica o comportamento dos protagonistas de Marco Severo: “Pouco me importa o que você vai pensar de mim. É a minha versão da verdade. E é com essa verdade que eu vou morrer, ainda que ninguém acredite”.

Os 20 contos de TODO NAUFRÁGIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEGADA, que compõem um dos livros fundamentais da nossa época.

07/03/2017

DOS LIVROS HÍBRIDOS E DAS GERAÇÕES EM TRANSIÇÃO: Naufrágio Entre Amigos, Eduardo Sabino

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 7 de março de 2017)

Como é bom constatar que os jovens escritores recuperaram o prazer da narrativa (não menosprezando a prosa experimental, também um rico filão). Sejam autores que captam a insubstancialidade da pós-modernidade, sejam autores mais comprometidos com o mundo concreto, todos poderiam ter como música de fundo os versos cantados por Maria Bethânia: “Ou feia ou bonita/Ninguém acredita na vida real”. Por isso, no frigir dos ovos, a ficção sempre triunfa.

É o caso do ótimo NAUFRÁGIO ENTRE AMIGOS (Patuá), de Eduardo Sabino. Ele resgata o romance de geração (na verdade, trata-se de um livro de contos, porém, eu o considero uma obra híbrida, uma espécie de romance-móbile), aquela que sofreu a transição (para a qual os games contribuíram de forma decisiva) até a supremacia do mundo virtual e digital.

Na primeira parte do livro, Sabino narra uma infância ainda à antiga, onde o universo da meninada ainda era o mundo fechado em si mesmo (no caso, a cidade mineira de Nova Lima), apesar dos vislumbres dos conflitos entre os adultos e do “pensamento mágico”, envolvendo assombrações e aparições sobrenaturais, muito comuns no imaginário provinciano.

No meio do livro, já longe da terra natal, Eduardo, o narrador, se perde nos equívocos relacionamentos através da internet, apaixonando-se por uma poetisa, a qual não passa de um avatar de um professor maluco, criador de vários perfis “fakes” assistimos o final da infância e o naufrágio do mundo adulto.

A partir daí NAUFRÁGIO ENTRE AMIGOS torna-se um arquipélago (um tanto irregular, a meu ver) a segunda fase da sua adolescência em Nova Lima, através das histórias de seus amigos (os quais naufragaram na rotina e no comodismo; a própria cidade naufraga com a aparição de misteriosos buracos); em contrapartida, a descoberta do mundo além da escola e da família, marcando bem o repertório de signos que representaram a mudança radical entre duas gerações. Sutilmente, ele também registra o autoritarismo remanescente da ditadura militar como vemos na cruel caracterização dos professores: “Talvez seja melhor escrever uma enciclopédia dos educadores ruins. Organizá-los por filos, famílias, nomenclaturas. Mas estre cheiro de giz, esta falação no corredor, as paredes de tijolinhos ao redor, tudo isto vai me dando receio de ficar aqui pra sempre. Melhor ir logo ao diabo”. Como não naufragar com uma formação dessas?

28/02/2017

Destaque do Blog: ASSINATURA, de Valberto Cardoso

valberto valberto_cardoso

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 28 de fevereiro de 2017)

O conjunto de poemas de ASSINATURA (Editora Ideia) tem uma aura fortemente evocativa, lampejos de uma vida familiar; e em alguns poemas, uma atmosfera de atemporalidade. Temos uma espécie de ritual cotidiano pleno de significados, dos quais restaram a nostalgia, amargura; enfim, pistas criptografadas e resíduos: “Esta manhã/tem parecer poética/(outras linhas trariam um café um/cigarro o bolo de laranja o outro)/Mais que isso/o coração retorce/(pouco se escreve)/cujas partes mais ternas/podem causar-lhe a morte”. Um tempo onde a perenidade é marcada pelos “papéis assinados para o contrato da/eternidade”.

Os versos de Valberto Cardoso são graves, mas embora ASSINATURA seja um livro muito bonito, é bastante irregular; por exemplo o poema “Sê-lo” (de onde extraí os dois versos que fecham o parágrafo acima): “E se quebram, de fato/Não é a mesma barba/A mesma cama/O mesmo medo…//Beleza da fotografia/Composição e modernidade//Sou eu que te construo/E me arrependo/Quando exato o tempo/Me exume/Restos selos te envolvem/Na matéria apresentada/Dito assim parece místico/Mas é fato, rítmico//O olhar maduro, enfurecido, já desiste/O mofo do corpo era previsto/Tanto tanto que silencia/E de fato quebra/A esperança do dia”. Apesar da força das imagens, elas parecem colidir umas com as outras, gerando uma desarmonia, a qual se espalha pelos poemas seguintes, ora com versos graves, realmente inspirados; ora com versos que aspiram à gravidade, mas soam postiços e pedantes.

Vejam a força sintética de “Pedido”: “Lillian gosta da segunda-feira/da fono/da fisio/e do feijão preto”. Não é preciso muito para delinear uma existência patética e pungente. Outro achado é “Adivinhação”: “Minhavó jogava no bicho./Da fortuna ela não contava, mas eu sabia./Pegava a xícara branca, punha café morno ou/frio,/acendia um fósforo, novo, sem pavio,/lançava no café, pra ver fumaça ou bicho./Tapava a xícara com pires branco, sujo,/esperava por segundos,/e, autorizado pois, de lá surgiam/cavalo, cobra, gato, leão,/jacaré, porco, galo, pavão.//Eu via roda-gigante, peixe, balão,/carrinho, meu avó e bicho-papão!”.

Como se pode constatar, o poeta paraibano não precisa forçar a barra para alcançar o lirismo. É como o próprio Valberto Cardoso nos ensina em “Representação”: “Prefiro o amor em preto e branco/É mais simples/2 cores encarnadas, organizadas./Aliás, muitas cores têm levado o amor a/amostras/Curadorias, publicações,/Muitas em função da própria contradição”. É isso aí, “Adeus cores questionáveis!/A beleza não vem da experimentação”. Pena que ele não se norteie sempre por essa infalível bússola poética.

assinatura-jornal

21/02/2017

O GIGANTE DE PIMDORAMA: RADUAN NASSAR

raduan-nassar_divulgac%cc%a7a%cc%83o_eduardo-simo%cc%83es

raduan-nassar Obra Completa de Raduan Nassar

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em 21 de fevereiro de 2017 em A TRIBUNA de Santos)

Certa vez, num debate sobre a América Latina (assolada por ditaduras militares), Otavio Paz, Nobel de Literatura de 1990, (grande poeta e ensaísta, mas com posições ideológicas discutíveis), afirmou que existiam dois tipos de escritores, os indignados e os resignados. O também mexicano Juan Rulf, autor prodigioso replicou de forma definitiva: na verdade, existiam os indignados e os indignos.

O vencedor do prêmio Camões de 2017, o paulista, descendente de libaneses, Raduan Nassar, aos 81 anos, revelou-se, no discurso ao receber o galardão, um gigante ao atacar veementemente as forças obscuras que tomaram o poder em nosso país, utilizando o agourento lema “ordem e progresso” (a maior prova disso é a indicação de Alexandre de Moraes, para o STF). Ele já mostrara uma estatura gigantesca, logo no primeiro livro, LAVOURA ARCAICA, uma das obras primas de todos os tempos na prosa de língua portuguesa. Ali, ele reinventava a história do filho pródigo, com resultados perturbadores, abalando os alicerces da tradição patriarcal. Aqui cabe o clichê: se não tivesse publicado mais nada, Nassar, ainda assim, seria um dos maiores escritores do século 20.

Dois anos depois, ele publicou uma das mais mortíferas paródias do machismo, UM COPO DE CÓLERA, qual pertence o trecho seguinte: “E eu já vinha voltando daquele terreno baldio. Quando notei que ela e dona Mariana, nessa altura, estavam de conversinha… a claridade do dia lhe devolvendo com rapidez a desenvoltura de femeazinha emancipada…ela não só tinha forjado na caseira uma plateia, mas me aguardava também com um arzinho sensacional que era de esbofeteá-la assim de cara, e como se isso não bastasse, ela ainda foi me dizendo ‘não é para tanto, mocinho’”.

         O clichê acima mencionado acabou sendo ironicamente premonitório: Nassar desistiu da literatura, dizendo que era uma etapa ultrapassada.

E, uma coincidência curiosa, o outro “indignado”, Juan Rulf só publicou dois livros, o maior romance hispano-americano, PEDRO PÁRAMO e os contos de PLANALTO EM CHAMAS (os dois publicaram alguns textos e esparsos ao longo dos anos). Mas ambos continuaram a representar a luta contra os indignos, dentro ou fora do mundo literário. Além dos livros de Raduan Nassar, atualmente publicados pela Companhia das Letras, recomendo o volume dedicado a ele pelos “Cadernos de Literatura Brasileira”, organizado pelo Instituto Moreira Salles.

16864370_740373726126945_76020780225151820_n

14/02/2017

A LITERATURA LÍQUIDA DE VLADEMIR LAZO

vlademir-lazo gotas-no-asfalto-livro

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de fevereiro de 2017)

“Em repouso os próprios pensamentos. Indagava como encontrar minha amiga, entretanto, preferindo não tecer mais considerações, deixando apenas para quando chegar ao balneário colocar em prática o imprescindível para revê-la… Mas é a paisagem, imperecível, transformada ou não pelo homem, a única que permanece, não sai do lugar (ou será a gente que ocupa esse desígnio?), se atribui dona de um espaço no qual transitamos de passagem, igual turistas cruzando céleres ou passivos essa faixa de terra que pode ser a rua em que moramos ou o mundo inteiro”.

O trecho acima aparece no notável capítulo 8 de GOTAS NO ASFALTO (Penalux) (que comentei na semana passada, sob outra perspectiva), o qual é um representante da “literatura líquida” (para utilizar a metáfora de Bauman sobre a nossa época): no nosso tempo, as relações virtuais preponderam sobre o contato físico, as experiências são aleatórias e desconexas.

Nesse capítulo, o narrador se propõe a sair do quarto do hotel para viver um dia “ensolarado”, esperando o encontro com Alice, com quem mantivera uma intensa ligação pelas redes sociais, mas ao fazer questão de conhecê-la, passou dias e noites frustrantes. Ao esperá-la no capítulo 8 na verdade é uma finalidade ilusória. Ele se perde na multidão que frequenta a praia e seus arredores, andando durante horas, numa espécie de “plenitude do vazio”, tendo em mente pequenos irrisórios objetivos, como comprar objetos e utensílios que nunca chagará a adquiri (e mesmo que o fizesse, nunca faria proveito deles).

Temos o epítome da literatura líquida: o mundo (com sua paisagem natural e sua paisagem humana) está à nossa frente, mas revela-se insubstancial, uma sucessão de horas a serem preenchidas. Vejam como ele relata a chegada de Alice: “Alice reparou que a observo, toda vez que se vira enquanto prosseguia recuando ou avançando mar a dentro, e hoje eu sei que no fundo meu encantamento era tanto uma contemplação carnal quanto um raro momento em que desfrutava daquela paz terrena que compartilhava com ela”. Enfim, uma errância (só ou acompanhado) desprovida de sentido.

O curioso é que no Alto Modernismo, autores como Samuel Becaett, chegaram a destruir todos os alicerces narrativos, desde o enredo até a identidade dos personagens, de maneira radical, tornando a leitura árdua e árida para o leitor comum. Bem ao contrário dessa radicalidade, os autores da literatura líquida, voltaram a exercitar a narrativa de feitio tradicional, de fácil leitura (não confundir com leitura fácil). Portanto, Vlademir Lazo nos conta um relato. Só não sabemos para que. O que não deixa dúvida é o sólido talento do autor gaúcho.

gotas-no-asfalto-jornal

07/02/2017

UM OLHAR SUSPEITOSO SOBRE O MUNDO: Gotas no Asfalto de Vlademir Lazo

gotas-no-asfalto-livro vlademir-lazo

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 07 de fevereiro de 2017)

A Alice de Lewis Carroll, aquela que visitou o país das maravilhas e atravessou o espelho, adquirindo tamanhos diversos que muitas vezes não cabiam com o ambiente ao seu redor, e questionando as regras arbitrárias e/ou ilógicas do mundo adulto, tornou-se um arquétipo e várias narrativas contemporâneas.

É o caso do romance de estreia de Vlademir Lazo, GOTAS NO ASFALTO (Penalux). Começamos a acompanhar a história do “casal” Júlio e Alice perambulando pelos dois lados da fronteira entre o Brasil e o Uruguai, com o objetivo de comprar remédios que funcionam como drogas, sem receita médica (sai como personagem de Bukowski, um autor que todos adoram, menos eu). Júlio, o narrador, passa a contar intensa pré-história desse “encontro”, durante anos nas redes sociais, quando Júlio alimenta a ideia fixa de conhecer pessoalmente Alice, a qual flerta com ele, faz sexo virtual, foge, desaparecendo dos seus contatos, até finalmente ceder, marcando um encontro na fronteira com o Uruguai.

Mesmo dividindo o mesmo quarto de hotel, a intimidade das relações virtuais nunca é alcançada. Alice arrasta Júlio em noitadas frustrantes e sempre em lugares límbicos, impessoais: rodoviárias, hotéis, bares, praças, numa perambulação errática, onde as confidências são rançosas. É como se “O Lado Bom da Vida”, livro e filme, fosse contado por um João Gilberto Noll ou um Juan Calos Onetti.

“Ando de um lado ao outro da minúscula estação, a mochila nas costas e a tiracolo a bolsa, com minhas roupas, que me servia de bagagem. Ignorei as fileiras de cadeiras velhas de plástico. Comprara roupas novas para me proporcionar um aspecto apresentável. Você compra dez peças diferentes de roupa, mas sente vontade de continuar usando as mesmas velhas de sempre. Uma segunda pele que, ao invés de cobrir, mantém desnudo como a não ocultar quem somos, sem trajes ou fantasias”.

Disfuncionalidade (com relação às regras da sociedade), autoimagem dilacerada (quando não se cabe no mundo), um olhar suspeitoso sobre tudo e todos, eis os ingredientes amargos, mas transformados por Vlademir Lazo num poderoso e denso romance.

gotas-no-asfalto-jonrla

31/01/2017

MARIA VALÉRIA REZENDE CONQUISTA O VASTO MUNDO

maria-valeria-rezende

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de janeiro de 2017)

O lendário prêmio Casa de Las Américas acaba de ser atribuído ao livro OUTROS CANTOS (Alfaguara, 2016) de Maria Valéria Rezende, poucos meses depois de seu romance Quarenta Dias ganha o Jabuti, não apenas como melhor romance de 2015, como também o de livro do ano. Estas premiações prestigiosas tiraram a grande escritora santista (embora radicada na Paraíba), de um limbo em que ela era mais conhecida e premiada por sua obra infanto-juvenil – não que isso fosse demérito (eu, por exemplo, adoro O Arqueólogo do Futuro e O problema do Pato) –, contudo a força do seu universo ficcional está nos romances e contos adultos.

Assim como José Saramago, ela começou a publicar tardiamente, o que se revelou uma dádiva, pois sua obra é uma poética da experiência, marcada pela materialidade do mundo e das relações humanas, desde o seu primeiro livro publicado, Vasto Mundo (Editora Beca, 2001). Ali conhecíamos as histórias do povoado de Farinhada, um ermo sertanejo invadido pelo “vasto mundo” numa incrível sucessão de estórias. Já era maravilhoso nesta primeira versão. Em 2016, ganhou fôlego ainda maior transformado definitivamente em romance.

Mas sua primeira obra no gênero foi o extraordinário O Voo da Guará Vermelha (Objetiva, 2005), o qual contava o amor entre uma prostituta com AIDS e um peão cujas peripécias eram a base de uma relação “pedagógica”. No ano seguinte apareceu Modo de Apanhar Pássaros à Mão, coletânea onde ela (e o leitor também) se comprazia em demonstrar sua versatilidade formidável, na abordagem tanto do meio rural quanto do urbano (com predominância do espaço urbano).

Depois veio interregno de quase uma década, em que ela esteve mais engajada na área infanto-juvenil, a explosão representada por Quarenta Dias, a segunda versão de Vasto Mundo e Outros Cantos. Agora aguardo ansiosamente não só um novo romance, como também a reunião de vários contos maravilhosos, dispersos aqui e ali, numa só coletânea, principalmente “O Muro”, genial texto alegórico, que sintetiza suas escolhas de vida, e muito pertinente num momento histórico nomeado por uma figura grotesca como Donald Trump. O conto narra o descenso social da narradora, que, é uma ascensão na escala solidária e humanitária: “Nem pensei em voltar para a passagem no muro. Deus atirou-me para dentro de seu samburá de estreita boca, já não me debato. Soube logo que subiria, mas não por qual caminho, até que vi, pouco mais adiante, numa parede suja daquele mesmo beco, a marca do menino magro, fresca e brilhante, um fio de vermelho líquido ainda escorrendo. O único sinal que eu, vagamente, podia interpretar, neste mundo estranho onde nunca antes sequer imaginei penetrar. Meti-me pela viela que, alguns metros adiante, ao topar com uma parede de zinco e madeira carcomida, quebrava-se para a esquerda. Ninguém. Tive a impressão de que já não havia mais ninguém nesse labirinto, só eu e o menino pichador, porque pouco antes de que o caminho se bifurcasse, mais acima, vi outra vez a rubra assinatura. Sem outro fio senão aquele para guiar-me, eu o segui. Hesitei na bifurcação, mas ela estava lá outra vez, a marca, dizendo-me que lado escolher, direção que tomei sem mais duvidar, entranhando-me na armadilha das ruelas intrincadas”.

maria-valeria-rezende-jornal

24/01/2017

Crônica de uma ruína anunciada: “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum

dois-irmaos-livro milton-hatoum

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente, em A TRIBUNA de Santos, em 24 de janeiro de 2017)

A certa altura de DOIS IRMÃOS (2000) (a narrativa não é linear), ficamos sabendo da relutância de Halim um dos personagens principais, em ter filhos:

“Não queria três filhos; aliás, se dependesse da vontade dele, não teria nenhum. Repetiu isso várias vezes, irritado, mordendo o bico do narguilé. Podiam viver sem chateação, sem preocupação, porque um casal enamorado, sem filhos, pode resistir à penúria e a todas as adversidades. No entanto, teve de ceder ao silêncio da esposa e ao tom imperativo da frase posterior ao silêncio. Ela sabia insistir, sem estardalhaço: ‘Quer dizer que vamos passar a vida sozinhos neste casarão? Nós dois e essa indiazinha no quintal? Quanto egoísmo, Halim! ’ ”
‘Um filho é um desmancha-prazer’, dizia ele, sério.
‘Três, querido. Três filhos, nem mais nem menos’ ”.

Já pelos capítulos anteriores, o leitor descobria o “acerto” nas palavras de Halim, pois conhecera os resultados da teimosia de sua esposa Zana: a rivalidade quase fratricida entre os gêmeos, Yacobi e Omar, e a existência da sombra da única filha, Rânia. Mas a passagem citada também revela os ingredientes que fomentaram toda a tragédia posterior: a inércia quase letárgica do pai e as fantasias exacerbadas da mãe (as duas posturas equivocadas e egoístas), as quais acarretam a ruína da família.

Eu nunca fui muito fã do trabalho de Luiz Fernando Carvalho, contudo o que ele fez com o romance de Milton Hatoum é imperdoável: movido pelo seu esteticismo incontrolável, que não deixa nenhuma sendo fluir naturalmente, fazendo os intérpretes caírem na caricatura, numa gritaria há muito não vista em produções nacionais (lembram como era irritante a impostação dos atores? No cinema brasileiro, mesmo nos melhores filmes), parece que ele sonha em ser uma mistura de Glauber Rocha e Visconti. Tenho que confessar que dei várias gargalhadas no decorrer desse dramalhão.

Voltando ao sóbrio romance de Milton Hatoum, seu mistério continua sendo a figura de Yacobi: por que ele, que sofre tantas vicissitudes injustas, não conquista a empatia do leitor? O único personagem parecido com ele que me vem à mente é Michael Corleone de “O Poderoso Chefão”, mais no livro de Mario Puzo do que nos filmes; ambos começam a vida com as melhores intenções, e posteriormente se transformam em máquinas calculistas e gélidas, num desperdício de afetos realmente trágico.

 

dois-irmaos-jornal

05/01/2017

Destaques Literários de 2016

jorge-reis-sa a-definicao-do-amor-jorge-reis-sa

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de janeiro de 2017)

Como sempre, alerto, não dá para ler tudo e gostar de tudo. Na minha opinião, esses foram os melhores de 2016. A ordem, após o livro do ano, não é de hierarquia, e sim por sobrenomes dos autores, e peço desculpas pelos comentários genéricos:

Livro do Ano: A DEFINIÇÃO DO AMOR, Jorge Reis-Sá (Tordsilhas): surpreendente romance português, no qual um fato real que parece ficção (uma mulher mantida viva por aparelhos por causa da gravidez) ganha uma dimensão literária, sem resvalar para o dramalhão ou para sensacionalismo. É um exemplo maravilhoso de “romance com temática”, que muitos desdenham, mas eu, da minha parte, adoro, como é o caso dos romances de Lional Shriver, e de REBENTAR, de Rafael Gallo.

Também se destacaram:

AS HORAS, Alex Andrade, Penalux: Personagem tentando enfrentar a solidão e o abandono, numa coletânea de contos que mostra a evolução do autor carioca;

LITURGIA DO FIM, Marilia Arnaud, Tordsilhas: Um confronto com o passado resulta num dos romances mais lindos dos últimos tempos, em linguagem e densidade;

PASSOS AO REDOR DO TEU CANTO, Maria Carolina de Bonis, Patuá: A poesia atual em pleno vigor, como, de resto todos os gêneros;

O INSTANTE-QUASE, Juliana Diniz, 7Letras: O melhor livro de contos de 2016, simplesmente brilhante;

ESTAÇÃO DAS CLÍNICAS, Iacyr Anderson Freitas, Escrituras: O leitor ri e chora com as mazelas do corpo em relação ao “espírito”;

ROTEIROS PARA UMA VIDA CURTA, Cristina Judar, Reformatório: Uma Alice pós-moderna nos levando para uma assustadora hiper-realidade;

O TRIBUNAL DA QUINTA-FEIRA, Michel Laub, Companhia das Letras: Excelente romance onde um dos melhores autores brasileiros da atualidade mostra o impacto de certos eventos na sua geração. A ele se aplicam as palavras de Joan Didion: “ninguém está isento do movimento geral”;

A VISTA PARTICULAR, Ricardo Lísias, Alfaguara: A exuberância criativa do autor, transforma um artista “distraído” num arauto da sociedade do espetáculo. Genial;

GALVEIAS, José Luís Peixoto, Companhia das Letras: O grande escritor português e seu romance mais intrigante, sempre mostrando o “atraso” na vida rural de seu país;

AMORA, Natalia Borges Polesso, Não Editora: Premiada coletânea de contos que giram em torno do lesbianismo, porém vão muito além da temática;

OUTROS CANTOS, Maria Valéria Rezende, Alfaguara: Talvez a obra-prima da autora sobrepondo vários estágios da sua vida e do sertão;

O SOL VINHA DESCALÇO, Eduardo Rosal, Reformatório: O melhor livro de poemas de 2016;

COMO SE ESTIVÉSSEMOS EM PALIMPSESTO DE PUTAS, Elvira Vigna, Companhia das Letras: Mais um acachapante livro dá mais genial autora da atualidade;

FALSO TRAJETO, Fabio Weintraub, Patuá: Uma poesia que parece opaca exigindo várias releituras, que a tornam fascinante;

lista-dos-melhores-de-2016

27/12/2016

Destaque do Blog: “Falso Trajeto”, de Fabio Weintraub

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente, em A TRIBUNA de Santos em 27 de dezembro de 2016)

falso fabio

“Contraditório, e daí?/as pessoas mudam/os tempos mudam//não sou neurótico de guerra/pra ficar defendendo/territórios já anexados//o ostracismo cansa: se voltei ao mainstream/é porque estou vivo//tenho cinquenta anos/não vou posar de herói/quero que se foda/a coerência do criador/é a obra que importa//não vou bancar o mártir//o Brasil está desse jeito/por ser católico, culpado e de esquerda/vamos ser ricos, não coitados//não se se tem jabá: cala a boca/ouça a música (pessoas jurídicas não odeiam).

Há um mistério na poesia de Fabio Weintraub, que fica evidente na antologia FALSO TRAJETO (Editora Patuá): Ela parece opaca (muitos diriam: sem atrativos), misturando temas triviais, especulações metafisicas, poemas sobre partes do corpo (mãos, mão e perna), poemas sobre quedas e muitos poemas onde o “eu lírico” é quase um narrador. Há uma profusão de títulos já carregados de simbolismos, os quais parecem não ter muita relação com os versos do autor. E mais: são poemas sem imagens fortes, boas para citações, quase destituídos de figuras de linguagem.

No entanto, o leitor fica hipnotizado com cada poema, relendo e relendo, constatando o brilho profundo desse poeta ímpar.

Northrop Frye (um crítico genial) utilizava o termo sparagmós para descrever situações de despedaçamento, de fragmentação do indivíduo e sua busca de sentido e unidade. Veja-se o poema mão e perna: “tua perna adormeceu/o que ela sonha? //que salta a corda lançada/ao chão perto do patíbulo/que é cruzada sem calcinha/sobre o joelho macio/que molha a canela no sangue/antes de entrar no gesso/que despede o cachorro/atracado à panturrilha/que ajoelhada no milho/é deixada atrás da porta/que se arruína em trombose/e avacalha dois cortejos://de núpcias/de exéquias”.

Enfim, o trajeto existencial pode ser falso, errático e sujeito a acidentes, mesmo numa condição letárgica (Aliás, Fábio Weintraub é o grande lírico da letargia). Porém, o grande poeta paulista escreve certo por linhas tortas, onde o chão é o limite: “qual britadeira/bate a bengala/contra o chão/como se quisesse/vingar-se da infirmeza/dando ao pavimento/a irregularidade/em que/os demais/também/tropeçarão”.

 

falso-trajeto-jornal

Próxima Página »

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.