MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/07/2018

FUTEBOL E LITERATURA NUM ROMANCE ENCICLOPÉDICO

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 10 de julho de 2018)

“O DRIBLE” entrecruza o universo do futebol com a reaproximação (que se revela irônica, no final) entre pai (cronista esportivo) e filho, afastados por décadas, desde o suicídio da mãe, estabelecendo um ritual de encontros. Desses elementos Sérgio Rodrigues renova avocação enciclopédica do romance mesmo de forma sucinta. Eis alguns tópicos:

— O modo como o rádio, com a narração hiperbólica dos locutores, consolidou a mitologia em torno do futebol e os jogadores, agigantando partidas sofríveis medíocres.

— O racismo arraigado no Brasil, como vemos na trajetória de um jogador “sarará”, quase um novo Pelé, que se torna pai de santo. O uso hipócrita de termos como “moreno” ou “mulato”. O pai nórdico que humilha o filho chamando-o de Tiziu.

— A primeira geração que cresceu assistindo televisão e guarda com nostalgia lembranças de seriados como “Túnel do Tempo”, “Perdidos no Espaço” ou “Agente 86”. Essa mesma geração sofreu o impacto do advento da internet, mas antes vivenciou a breve, mas inesquecível supremacia do rock nacional.

Enfim, com altos e baixos (há momentos aborrecidos no texto), um romance caleidoscópico e acima da média. “Só existe no presente. Alguns cadáveres do pop podem ser tirados da cova de vez em quando, vagar uns tempos por aí como zumbis, mas são zumbis. Mortos-vivos mantidos de pé pelo fetichismo. A verdade é que Maxwell Smart vive de lixo, meu amigo. A começar por esse nome ridículo que decidi adotar. É como disse o Kafka: sou feito de lixo, não sou nada além disso e não posso ambicionar ser nada além disso”.

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03/07/2018

SOBRE UMA LEITURA INTERROMPIDA

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 03 de julho de 2018)

Durante muito tempo, mantive um compromisso comigo mesmo: ler um livro até o fim, por pior que fosse. Mas não consegui prosseguir com o horroroso “E SE DEUS FOR UM DE NÓS? ”, de Tadeu Sarmento. Parei na página 231 (cumprimento quem chegou até a página 384).

Há livros que comecei com pé atrás, temendo o besteirol, caso de “F” de Antônio Xerxenesky, e de “Digam a Satã que o recado foi entendido” de Daniel Pellizzari. Ambos se revelaram belos romances. Já no caso de “E SE DEUS FOR UM DE NÓS? ”, iniciei a leitura com a maior boa vontade. O título é lindo e Sarmento escreveu um relato intrigante, “Associação Robert Walser para sósias anônimos”, porém nada me preparou para o festival de abobrinhas de uma trama envolvendo o assassinato de ruivas virgens.

Uma ruiva virgem não assassinada foge da Irlanda para o Brasil o que seu pai fez um poema colocando-a como símbolo da restauração do IRA (Exército Republicano Irlandês, grupo terrorista que lutava pela independência com relação ao Reino Unido) mas a cada página surge novos personagens, cada um com um histórico bizarro e estapafúrdio. Pior ainda, sub tramas sem graça e irritantes.

A literatura brasileira atual vive um excelente momento, e não lembro de, nos últimos anos, de ter lido uma obra tão ruim, com a possível exceção de “Desde que o Samba é Samba”, de Paulo Lins.

Ruivo por ruivo prefiro reler “O Escaravelho do Diabo”, de Lucia Machado de Almeida, onde havia também assassinatos de ruivos, mas não virgens. Foi uma leitura fundamental da minha meninice.  Quanto a “E SE DEUS FOR UM DE NÓS?”, tenho uma doença grave e não tenho mais tempo e disposição para ler besteiras. Desfaço meu compromisso. Não sou caçamba de disque entulho.

05/06/2018

UM ROMANCE ANACRÔNICO

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 05 de junho de 2018)

A coletânea “Insolitudes” foi uma excelente estreia do cearense Tiago Feijó. Como de costume, em seu segundo livro “DIÁRIO DA CASA ARRUINADA”, passou do conto ao romance.

Quim escreve um diário a partir da decisão de largar o fumo. Seu casamento está em crise (Madalena, a esposa, diz que “não está mais feliz”) e há um estranho desencontro com o pai, que parece evitá-lo.

Tiago Feijó se alinha aos romances intimistas, muito comuns no século passado, como “Marcoré” de Antonio Olavo Pereira, ou “Jazigo dos Vivos”, de Geraldo França de Lima, em especial aqueles que, seguindo a tradição de “Dom Casmurro”, mantêm o narrador imantado pelo ciúme e ressentimento com relação à amada, caso de “São Bernardo”, de Graciliano Ramos.

O problema de “DIÁRIO DA CASA ARRUINADA” é que estamos no século 21 e Feijó não acrescenta nada a essa vertente. Pior ainda: ele poderia ter escrito nos anos 30 que não faria diferença, e isto não é um elogio. “DIÁRIO DA CASA ARRUINADA” é anacrônico e defasado. Uma pena, quando pensamos na qualidade da linguagem do autor: “A verdade, eu que tanto a exigi nestes dias, que tanto a escrevi nestas linhas, que a clamei como um cego, agora a tinha ali, à minha vista, despida inteira, e cego não podia continuar a ser. Olhei o homem ao meu lado, agora espojado no chão, dormia na paz dos que dormem sozinhos. ‘…Selene…’. Ao pensar em Selene saí correndo dali, aos tropeços e aos boléus, ganhando as ruas em desespero, a plenos pulmões, engasgando lágrimas no descompasso da respiração. ‘… há-há-há-há…’. Talvez eu buscasse um lugar no mundo que me recolocasse na paz. ‘…meu pai… meu pai…’. Corri, corri, ruas e ruas, até exaurir a força do meu fôlego. Exausto, cedendo a essa dor espessa, desabei de joelhos numa poça imunda e nela encontrei meu reflexo transtornado, os olhos gordos de desesperação, desfigurados de desprezo. ‘…até onde um homem é capaz de chegar?…’”.

Em tempo: Selene é filha de Quim e Madalena.

22/05/2018

FALTOU RELEVÂNCIA A UM RELATO CUIDADOSO

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 22 de maio de 2018)

Uma família quatrocentona falida cujo casarão foi revitalizado por um banco como fundação cultural (eles vivem nos antigos quartos dos criados), reúne-se para ouvir o relato, escrito em 1667, do fundador do clã.  Descobrem que surgiram de uma impostura: o antepassado roubou a identidade de outro homem.

“RELATO DAS VENTURAS, CONFISSÕES E ARREPENDIMENTOS DO SR. JOÃO DOS MATOS E SUAS NEFASTAS CONSEQUÊNCIAS”, de Rosangela Petta, divide-se em três planos: em 1617, Salvador Amaro desembarca como degredado em São Vicente e sofre mil desventuras até conhecer o homem cuja identidade usurpará. É uma narrativa em terceira pessoa; 50 anos depois, faz um exame de consciência em primeira pessoa; por fim, em 2017, em terceira pessoa, a família descobre a verdade.

Infelizmente apesar do cuidado com a linguagem de época e de ser gostoso de ler, “RELATO DAS VENTURAS, CONFISSÕES E ARREPENDIMENTOS DO SR. JOÃO DOS MATOS E SUAS NEFASTAS CONSEQUÊNCIAS” é um romance irrelevante. Não apresenta nenhum personagem ou cena marcantes, e desperdiça o material histórico que supostamente lhe daria sustentação.

Há até passagens piegas: “Higino, perto da janela, olhava a Rua Almirante Marques Leão. Na calçada oposta, em frente ao casarão-museu, um cubo de papelão cobria um colchão de espuma, de onde escapava um par de pés descalços e imundos: ali dormia um sobrevivente. Eram pés de quem não sabe o que vai ser amanhã. Podiam ser de João de Matos, dos gentios do século XVII. Ou os de Salvador Amaro, que desceram no batel, pisaram na restinga, entraram no rio gelado, fugiram das flechas… O homem debaixo do cubo de papelão não sabe que dorme em paz: ele não tem que se preocupar, não tem que decidir nada agora nem nunca apenas sobreviver”.

 

 

21/05/2018

UM AUTOR QUE PRECISA SER DESCOBERTO

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente na FOLHA DE SP em 21 de maio de 2018)

O paraibano Roberto Menezes, professor de física teórica é uma das grandes revelações literárias dos últimos anos, porém não logrou romper o muro do Rio de Janeiro – São Paulo para escritores “regionais”.

Agora a Patuá edita uma segunda versão de seu romance “PALAVRAS QUE DEVORAM LÁGRIMAS”, bastante alterada com relação à primeira (publicada na Paraíba), inclusive no aspecto gráfico, mas os dois pilares narrativos se mantêm. O primeiro é o sequestro de um vereador por sua ex-esposa, a protagonista, numa situação às Stephen King (é vasto o universo de referências no texto). Maria obriga seu prisioneiro a ficar com pálpebras abertas, costura sua boca e divide com ele um coquetel de remédios tarja preta, o objetivo é fazê-lo ler o que escreve no computador. “Palavras que devoram lágrimas” é o texto digitado por Maria. Como ela mesma afirma, é “uma fabricadora de frases de tirar o fôlego”.

O segundo pilar narrativo é o relato de como Maria vai lixando as camadas da parede do quarto dos sete anos de casamento. Cada camada traz associações, ganhando até apelidos: temos bege-leite condensado, verde anágua, azul inferno (que domina o relato) e por aí vai…

A parte final mostra o efeito dos remédios e adquire um tom alucinatório.

Será que Roberto Menezes desta vez sossegou ou no futuro leremos novas palavras da voz agônica de Maria?

 

Livro: “Palavras que devoram lágrimas”
Autor: Roberto Menezes
Editora: Patuá
Páginas: 120
Quanto: R$ 38,00

15/05/2018

O LIVRO DAS SINGULARIDADES

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 15 de maio de 2018)

“Aconteceu de forma tão lenta que nós não percebemos de imediato, nem eu, nem ela. Quando vimos havia esse passa intransponível entre nós. E foi justamente quando notamos que ele media o tamanho exato de um passo humano normal, 37 cm, que entendemos que além de tudo ele era intransponível. É, absolutamente intransponível. Toda vez que um de nós dois tentava se aproximar do outro, a fim de entrelaçar os nossos pés, como fazíamos antigamente, ou então tentando colar nariz com nariz, dar-nos um simples beijo, éramos interceptados por esse passo habitando o espaço entre nós dois” (trecho de “Passo entre nós”).

Na física quântica, uma singularidade é a concentração de energia e massa num ponto do universo, sugando tudo ao seu redor.

O conto de “TODO MUNDO QUER VER O MORTO”, de Natália Zuccala, em sua maioria, têm esse efeito de singularidade. Tem uma menina que se descasca o tempo todo e só se alivia na água salgada (uma possível sereia?), temos outra personagem que se desgruda do chão, outra que sente maresia e bichos marinhos em plena São Paulo, outra que descobre os perigos das esquinas…

Mas ela também é singular em textos mais “tradicionais”, como no extraordinário “Sperare”, onde as ausências da mãe pontuam o desenvolvimento da narradora como mulher: “Levantava eu então sabendo que a sua ausência seria a primeira existência com a qual me encontraria. Iniciava a senda diária na tarefa de esperar bem. Nada além disso, todo dia, aprendendo a espera-la bem”.

O estilo de Natália Zuccala é reiterativo e suas frases ficam martelando nas nossas cabeças: “Da primeira vez que eu andei de metrô em São Paulo… não, na verdade não foi exatamente da primeira vez. Na verdade não muita coisa acontece na primeira vez, eu sei disso agora que já não sou mais criança, não muita coisa acontece da primeira vez de nada, nem de ninguém. As pessoas dizem ‘da primeira vez’ por dois motivos: um – as pessoas não tem uma memória muito boa (eu tenho); dois – as pessoas acham bonito que as coisas aconteça, assim logo de cara, que muitas coisas incríveis aconteçam assim logo de cara, que muitas coisas incríveis aconteçam na primeira vez você sempre fica meio perdido e não muita coisa acontece”.

Contrariando a autora, é incrível a primeira vez em que a lemos.

08/05/2018

QUARENTA ANOS SEM OSMAN LINS

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 08 de maio de 2018)

Há 40 anos perdíamos um de nossos maiores escritores, Osman Lins. Morte precoce, mas pouco antes ele publicara sua obra-prima, “A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA”.

Num país bloqueado (estamos nos anos “barra pesada” da ditadura militar), o narrador refugia-se num diário no qual procura analisar o romance inédito “A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA”, deixado pela sua falecida amante, Julia Enone, a respeito de uma “irmã em destino” da Macabéa de “A hora da Estrela” (1977), de Clarice Lispector, também nordestina e miserável, chamada Maria de França, a qual passa anos da sua vida pleiteando um benefício do antigo INPS, em vão, não conseguindo romper a temível malha burocrática, mesmo porque não tem instrução ou equilíbrio psicológico (passa por períodos de loucura e internação): “Fazem-lhe, ainda na Riachuelo, nova sugestão: recorrer à Assistência Judiciária, antes obtendo atestado de pobreza. Ela ouve o conselho, desce as escadas, as escadas sujas, repetindo-o. Ao chegar embaixo, já se esqueceu de tudo. ”

Tanto quanto o jogo metalinguístico fascinante, “A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA” impressiona por sua dimensão política, apesar da sombria constatação do seu protagonista: “Assim, coincide melhor com as linhas gerais do romance outra visão –mais chã—do isolamento do escritor, não voltada para ele, e sim para a sociedade, que o recusa. ”

Inseto cavando sem alarme, perfurando a terra, escavando na obra de Julia Enone, sua orquídea antieuclidiana para desatar o labirinto (mito arquitetônico que foi um dos vários legados da civilização grega), o narrador comenta e transcreve notícias de jornal, nunca se referindo diretamente ao regime militar. Nenhuma obra dos anos 70, entretanto, captou tão poderosamente o clima opressivo da época e a degradação da informação enquanto valor na nossa sociedade, pois a maioria dos ficcionistas optou pela simplificação do “romance-reportagem” (“Infância dos Mortos”, “O crime antes da Festa”, “Lúcio Flávio”, “Acusado de Homicídio”, alguém lembra desses títulos?), onde, na tentativa de driblar a censura e oferecer um “retrato” da realidade nacional, o supostamente factual e referencial sufocava a narração e acabava-se reconfortando o leitor, mais do que o levando a uma atitude crítica, ao perseguir uma impressão de veracidade absoluta.

Flora Süssekind radiografou muito bem essa perspectiva naturalista e redutora no seu memorável estudo “Tal Brasil, qual romance? ” Ora, ao eleger a distorção dos fatos, até do espaço narrativo (Julia Enone funde Recife e Olinda como se fossem uma cidade só), o narrador de “A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA” dinamita essa mentira referencial, do que é “baseado na vida real”, e firma com o leitor um pacto ficcional, em que se finge a dor que deveras se sente. Ao descascar camadas e camadas de artifícios narrativos, ele nos transmite muito mais realidade (transbordante, simbólica, delirante que seja) do que qualquer medíocre relato de casos da época. É o triunfo do romance, mundo imerso no mundo, e, em última instância, da verdadeira literatura, sobre a reportagem que se disfarça (mal) de ficção.

24/04/2018

TODO LÉU É UM MUNDO: SEGUNDA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 24 de abril de 2018)

Na semana passada, iniciei um comentário sobre “CONVERSA DE JARDIM”, afirmando que “Vasto mundo” era o nó central do livro, pois Maria Valéria Rezende fazia uma segunda versão à época das conversas com Roberto Menezes.

A primeira versão foi considerada uma coletânea de contos, a nova provaria que se tratava de um romance, desfazendo o equívoco. Este assunto suscita contradições interessantes: fiquei chateado porque Maria Valéria desdenhou autores que planejam de antemão seus livros (assim fazia o grande Autran Dourado, o qual até escreveu uma obra detalhando os seus processos de criação: “Matéria de carpintaria”), e afinal lá estava ela com questões de planejamento e carpintaria.

No capítulo “V – Sucatas e quebra-cabeças”, lemos: “’O pessoal fica perguntando de onde saem os livros. Acho que os livros saem de um imenso depósito que tem na cabeça, um depósito de peças de vários puzzles de um quebra-cabeça bem peculiar, essas peças todas misturas que foram nos entrando pelos cinco sentidos através da vida, com todos os tipos de sensações que você tem, que vem de fora do mundo, que vem de dentro de seu estômago, do rim, do enjoo que você sentiu, da tontura, de tudo que a gente já viu e já sentiu’, Um grande quebra-cabeça, uma sucata, que dá no mesmo, uma sucata que a gente vai jogando lá o que a gente encontra na beira da estrada, com você falou, o tempo todo catando, e jogando lá, catando e jogando lá, e é uma sucata diferente, aqui os pedaços não preservam sua solidez, eles interagem, se interferem, numa transmutação à revelia da gente”.

Há uma confissão comovente de Roberto Menezes no capítulo “XVII – Qualquer mundo ao léu”: “Valéria, invejo a tua vasta experiência de vida, e dentro dessa tua experiência, a bagagem que você tem em literatura é admirável, você leu tudo o que quis, teve incontáveis escritores na família, estudou em boas escolas, pôde conhecer o mundo de perto, aí, até sem querer, fico aqui comparando tudo isso coma vida que tive, minha família era bem pobre, eu, meus irmãos, a gente estudava em escola estadual que quando podiam, meu pai, vendedor ambulante, nem quarta série estudou, minha mãe parou na segunda série, pois, bem distante da minha realidade, na infância a minha relação com os livros era de caça ao tesouro, livro pra mim era coisa rara, acredite se quiser, quando eu tinha uns oito, nove anos, eu torcia pra chegar aos sábados, nos sábados vinhas as testemunhas de Jeová, nem precisava bater, eu já tava lá esperando, a nova edição da revista A Sentinela”.

Parabéns às testemunhas de Jeová, nos deram um físico teórico e um grande escritor. Como já disse, um fabricador de frases de tirar o fôlego.

17/04/2018

QUALQUER LÉU É UM MUNDO: PRIMEIRA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 17 de abril de 2018)

Confesso que sou imodesto, pois vou comentar um livro que me é dedicado e no qual sou citado várias vezes. Trata-se de “CONVERSA DE JARDIM”, todo mundo sabe que Maria Valéria Rezende é uma das nossas maiores escritoras, mas talvez não saibam que a casa onde mora, em João Pessoa, tem um maravilhoso jardim (eu sei, pois estive lá em diversas ocasiões) e ali manteve entre 2015 e 2017 conversas com Roberto Menezes, físico teórico “fabricador de frases de tirar o fôlego” (como diz Maria, narradora do seu admirável “Palavras que devoram lágrimas”, editado pela Patuá).

Roberto organizou o livro de forma inteligente, não linear, com capítulos curtos celebrando o ato de escrever. Temos: “Disciplina sem rotina longe da ritalina”, “Sucatas e quebra-cabeças”, “A voz do chão”, “Regras próprias”, “Cemitério de planos cemitério de memórias”, “Vasto mundo” (que é a meada principal para a qual a conversa sempre volta), “Da mente pro papel”, “Escrita no gen”, “Qualquer mundo ao léu”, “Além do solipsismos”, “Apanhando o mundo com a mão”, “Da memória e seus ardis” e “Até já”, são alguns dos leitmotivs que conduzem fecundos diálogos desses dois geniais tagarelas (e quem conhece Maria Valéria sabe que ela é uma incansável Xerazade): “Tem um amigo que diz que sou uma escritora materialista. Nunca faço longas digressões sobre a subjetividade. Na verdade, o sentimento, o que pensam os meus personagens, passa através das ações, do movimento, das descrições das coisas. Ultimamente tenho usado sempre um narrador na primeira pessoa, uma narradora, aliás. É em primeira pessoa, mas não é por ser em primeira pessoa que vou cair na falácia de ficar dissecando os seus sentimentos, nem os meus, como já disse. Faço com que ela, do seu jeito, fale do mundo que está fora dela. E quando ela imprime sua visão do mundo, necessariamente revela o seu ponto de vista”.

No capítulo XVII: “não existe isso de não poder ser escritor pelo fato de nunca ter viajado. Faz assim, dá pra esse jovem ler o meu ‘Quarenta Dais’, que é a descoberta de mundo e mais mundos, você viaja, tem mil viagens a fazer. ‘Quarenta Dias’ é uma odisseia, ‘A pé, ao léu. Numa pequena parte de uma cidade. Qualquer léu é um mundo. Tem que absorver o mundo pelos cinco sentidos” (continua semana que vem).

27/02/2018

Destaque do Blog: “Sonhos Tropicais”, de Moacyr Scliar: segunda parte

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 27 de fevereiro de 2018)

Comecei na semana passada um comentário sobre “SONHOS TROPICAIS”, de Moacyr Scliar, ressaltando o contraste entre o comportamento da população de agora e da 1904 com relação à vacina da febre amarela. Naquela época, eram maioria os analfabetos, os quais não faziam ideia do que era vírus, micróbios, bactérias e sentiam profunda desconfiança da ação governamental (eu, que tenho certo grau de instrução, alimento desconfiança similar, por mais irracional que pareça). Estaremos mais esclarecidos ou mais submissos?

É preciso dizer que, embora um grande médico, Oswaldo Cruz não possuía sensibilidade social e isso abriu caminho para medidas draconianas: suas brigadas sanitárias podiam invadir casas e vacinar à força. Ele era tão impopular que o romance relata que, na hora de sua morte, em 1917, houve manifestações comemorativas.

Afirmei na semana passada que a narrativa custa a engrenar, mas assim que aparece em cena o presidente Rodrigues Alves, ela cresce muito. Aliás, boa parte da “revolta da vacina” foi para certos grupos políticos uma oportunidade de depor o presidente apelidado de Soneca: “ – E se houver distúrbios? – Insiste Leocadio. Vicente suspira. – Bem, aí começamos a caminhar sobre areia movediça. Um pouco de distúrbio, uma ou outra cabeça quebrada, nada disto fará mal; ao contrário, nos dará o apoio da imprensa. O que temos de evitar é cutucar a fera com a vara curta. Enquanto a questão for a polícia, tudo bem. Mas, se entrar o Exército, se for decretado o estado de sítio, estaremos numa situação muito difícil: não sei se conseguiremos manter a resistência. Provavelmente perderemos a iniciativa para os elementos mais extremados, os bandos, as quadrilhas. Portanto, vamos nos restringir às reivindicações mais óbvias: melhor moradia, melhor transporte, melhores salários. Além, claro, do fim da vacinação obrigatória, que afinal motivou tudo”.

Mais adiante: “—Não sou eu, doutor. É o meu menino, de sete anos. É que ele… foi vacinado. Ontem. Eu não sabia, a mulher agarrou ele e levou lá onde estão vacinando. Quando eu soube, fiquei furioso – mas já era tarde. Agora me diga, doutor – o que é que eu posso fazer? Tem perigo? Vicente baixa a cabeça, reflete um instante. – Não – diz por fim. – Não tem perigo. Não se preocupe, não vai acontecer nada. O homem franze a testa. – Desculpe, doutor, mas estava assistindo à reunião aqui da porta, e entendi que os senhores vão fazer uma campanha contra a vacinação… – É verdade. Mas por razões políticas, não médicas. Entende? Não, ele não está entendendo. – Olhe aqui – diz Vicente –, no fundo não temos nada contra a vacina. Daqui a alguns anos, todo mundo será vacinado, e ninguém falará disso. Mas agora nós temos de atacar a vacinação – porque partindo da revolta do povo podemos mudar a sociedade, entendeu? ”.

É assombroso como há 25 anos, “SONHOS TROPICAIS” mostrava as falcatruas cariocas e nacionais. Vejam está fala de Rodrigues Alves: “—Espero que o senhor não me interprete mal, doutor Oswaldo. Há quem acuse os empreiteiros de favorecerem a corrupção, por causa de suas tradicionais colaborações às caixinhas dos políticos. Devo lhe dizer que, naturalmente, eu não aprovo tal políticos… Não se progride, doutor Oswaldo, sem demolir e sem construir – e como fazê-lo, sem empreiteiros? Às vezes, as propinas que dão têm como exclusivo objetivo azeitar um pouco a emperrada máquina estatal”.

Em tempo: uma personagem secundária, a judia polonesa Ester, vítima do tráfico sexual, ganhou realce na versão cinematográfica dirigida por André Sturm.

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