MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/06/2017

OS CINQUENTA ANOS DE ÓPERA DOS MORTOS

 

(Uma versão originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos em 20 de junho de 2017)

Autran Dourado é um dos meus autores do coração, por isso ele aparece tanto nesta coluna. Sua obra-prima, ÓPERA DOS MORTOS (Rocco), completa 50 anos em 2017.

O romance conta a história da principal família de Duas Pontes, no início da República. Rosalina, a última dos Honório Cota, mantém-se trancada no sobrado familiar, recusando-se a qualquer tipo de ligação com a cidade. Após longos anos de isolamento, Rosalina admite como empregado Juca Passarinho, um malandro boa-vida, “apenas porque não é da cidade”. Juca descobrirá o segredo de Rosalina: ela se embebeda todas as noites.

A dona do sobrado Honório Cota acaba enlouquecendo e apavora os habitantes, ao ficar entoando uma cantiga estranha no cemitério. Até que se descobre a identidade do “fantasma” e a cidadezinha tem a oportunidade de entrar novamente no sobrado, que lhe parecia definitivamente vetado: “Agora a gente estava de novo no sobrado, esperando. De uma certa maneira todo mundo ficava de dono da casa… A confusão, a promiscuidade era geral. Já mexiam nos armários, nas panelas, tinha gente que fazia café”.

Essa “profanação”, por assim dizer, do sobrado Honório Cota, mostra como Dourado absorveu bem o clima das tragédias gregas.  O nosso maior romancista soube transportar isso muito bem para um “tamanho mineiro”, para a atmosfera da “vida besta” de uma “cidadezinha qualquer” (essas imagens aparecem num célebre poema do ilustre conterrâneo de Autran, Carlos Drummond de Andrade). Em compensação, até os personagens parecem imbuídos do teor teatral da trama. Ao enfrentar a cidade nos momentos decisivos, Rosalina sempre parece agir como que diante de uma plateia. Aliás, com relação à Rosalina, um dos pontos mais fascinantes de ÓPERA DOS MORTOS é o fato de ela duplicar, em si, o amálgama do sobrado: este era uma construção térrea, feita inicialmente pelo brutal e misterioso fundador da família, Lucas Procópio; o segundo andar foi acrescentado pelo filho, João Capistrano, de personalidade oposta ao pai; e a casa ficou com os dois estilos de personalidade em seu traçado.

Ao se entregar a Juca Passarinho, Rosalina dicotomiza-se como o sobrado: de dia, ela se mantém senhorial e distante, como João Capistrano; à noite, ela perde todas as amarras, como o despótico e desregrado Lucas Procópio. Dessa forma, também a relação entre ela e o agregado assume um caráter “ritual”. E o desenvolvimento da obra de Autran Dourado tornou ainda mais complexa e instigante a história da família mais ilustre de Duas Pontes. Dois outros romances “completaram” (se possível) o quadro: Lucas Procópio (1985) e Um Cavalheiro de Antigamente (1992). O que prova que, como já sabiam os gregos, e volta-se a ver nos cafundós de Minas, o destino sempre acaba se cumprindo, de uma forma ou de outra.

 

13/06/2017

“EU QUERO SIM”: BLOOMSDAY 2017

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 13 de junho de 2017)

“Meu Deus, nós simplesmente temos que vestir o personagem. Eu quero luvas de pelica e botas verdes. Contradição. E eu me contradigo? Muito bem então, eu me contradigo”.

De todas as festividades literárias, a minha favorita é o Bloomsday (afinal na Irlanda 16 de junho, dia no qual transcorre o romance, virou feriado). Eu sempre releio ULISSES ou outra obra de James Joyce, em 2017 decidi dar nova chance a Bernadina da Silveira Pinheiro, e até gostando. Curiosamente, ao longo dessa leitura, me vinham trechos do Antônio Houaiss, cuja versão pioneira reinou absoluta, mas sempre tive antipatia por ela (então merece outra chance).

Da primeira vez identifiquei-me com o jovem Stephen. Na sucessão de leitura acabei me vendo em Leopold Bloom, considerado o ser mais complexo gerado pela ficção.

E o que dizer de Molly Bloom, adúltera apaixonada pelo marido maternal (sim, o senhor Bloom tem uma sensibilidade quase feminina, embora seja “um homem sem qualidades”), mãe-terra, mãe-cama, devaneante: “Ó e o mar o mar de carmesim às vezes como fogo e os gloriosos crepúsculos e as figuras nos jardins da Alameda sim e todas as ruazinhas estranhas e as casas rosa e azuis e Gibraltar quando eu era mocinha onde eu era uma Flor da montanha sim quando eu pus uma rosa no meu cabelo como as andaluzas usavam ou será que eu vou usar uma vermelha sim e como ele me beijou debaixo do muro mouresco e eu pensei bem tanto faz ele como um outro e então eu lhe pedi com meus olhos que pedisse novamente sim e então ele me pediu se eu queria sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus meus braços à sua volta sim e o arrastei para baixo sobre mim para que ele pudesse sentir meus seios todos perfume sim e seu coração disparou como louco e sim eu disse sim e quero Sim”. Esse sim quase cósmico lembra a sabedoria de Goethe: “O eterno feminino nos leva para o alto e além”.

06/06/2017

CINQUENTA ANOS DE TUTAMEIA

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 06 de junho de 2017)

Assim como Clarice Lispector, que no ano de sua morte publicou um dos seus mais relevantes romances, João Guimarães Rosa, ao morrer em 1967, deixou uma obra-prima, TUTAMEIA. Colaboravam para a sensação de estranheza despertada por TUTAMEIA: o título peculiar (um vocábulo com o significado de “coisa de pouco valor”), os quatro prefácios com títulos abusadamente esdrúxulos (“Hipotrélico”; Nós, os temulentos, por exemplo); e, sem contar os títulos de várias estórias (“Antiperipléia”; “Droenha”; “Rebimba”, “O Bom”; “Tapiiraiauara”), os textos herméticos e quase impenetráveis.

Hoje percebe-se melhor ter ele tão somente condensado ao extremo as características que se “espalhavam” nos amplos espaços épicos de “Grande Sertão: Veredas & Corpo de Baile”, fazendo de cada texto de TUTAMEIA a coisa mais similar à poesia que já se criou na ficção: impossível mexer numa palavra sequer. Além disso, investindo nas “anedotas” do sertão mineiro, ele tenta atingir uma realidade “mais verdadeira”. Para isso, é importante “contar” mais do que “viver”.

Quanto à acusação de hermetismo, mesmo se levando em conta a linguagem peculiaríssima de Rosa, nada mais delicioso do que as “anedotas” (tenho minhas dúvidas e ressalvas quanto aos prefácios) da coletânea. Nem por isso, nos “desenredos” tramados pelo autor de Sagarana, deixamos de entrever as linhas tortas pelas quais lemos a vida.

Por exemplo, temos o guia de cego que ajuda o patrão a se envolver num caso adúltero e que termina suspeito da morte dele, para a qual, como em “Rashomon”, há várias versões (“Antiperipléia”). Esse guia pode ser o anão que aparece na última estória do livro, “Zingaresca” (sim, as histórias são dispostas em ordem alfabética), aquele que “vigia o que não há”. Como Riobaldo, ele conta sua história para um interlocutor citadino.

Em Lá, nas campinas, Drijimiro não consegue lembrar o local da sua infância, só restou na memória as palavras que dão título à estória, “o que guardado sempre sem saber lhe ocupara o peito, rebentado: luz, o campo, pássaros, a casa entre bastas folhagens, amarelo o quintal da voçoroca, com miriquilhos borbulhando nos barrancos.

Esses são alguns pontos altos do livro. E sempre, em qualquer uma delas, as frases genialmente únicas: “as coisas começam deveras é por detrás, do que há, recurso; quando no remate acontecem, estão já desaparecidas”; “calava-se a ternura, infinito monossílabo”; “memória, que é o que sem arrumo há, das muitas partes da alma”; “a gente tem de existir—por corpo real, continuado—condenado”; “o mundo se repete mal é porque há um imperceptível avanço”; “de onde vem o medo? Ou este terráqueo mundo é de trevas, o que resta do sol tentando iludir-nos do contrário”… E assim, Guimarães Rosa iluminou a nossa literatura como a borboleta que (ele mesmo diz, raiando pela indescrição) “sai do bolso da paisagem”.

30/05/2017

O EMPODERAMENTO DA ESCRITORA: ANDRÉA CATRÓPA

 

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 30 de maio de 2017)

De que universo paralelo e sulfúrico, Andréa Catrópa, trouxe suas histórias curtas, muitas vezes cores e tintas berrantes. Muitas vezes nem sabemos os antessentes que levam os personagens a chegar naquela situação, mas o processo narrativo nos leva de roldão. Essa pane pode ser verificada em contos como “Balcão”, que assim começa: “Não pense que vim aqui confessar perversões ou chorar mágoas. Só vou lhe dizer uma coisa, este é o meu segredo: não vou contar nada. Você deve estar acostumado a ouvir coisas, hein, que até o diabo duvida, não é? Já lhe disseram alguma coisa que de tão suja chegava a ser criminosa? Mas não diga, porque vim aqui para calar”, e termina assim: “No banco giratório de madeira, ajoelhou-se para alcançar o balcão com o pé direito. Quando se deu conta, o barman correu para perto dela, pediu que descesse. Ela deu dois passos para ficar logo abaixo de uma luminária. Parte da louça que aguardava para ser recolhida foi para o chão. Ficar ali no alto, entre cacos de porcelana e cristal, seria perigoso para ela, disse o rapaz. Mas o barulho criou uma interrogação que calou as conversas. Conseguiu a atenção que queria. Limpou a garganta com uma tosse fingida, inspirou o ar tentando alojá-lo o mais fundo possível. Quando todos a olharam, projetou a voz cênica e começou a dizer sua confissão”.

A coletânea SEM SISTEMA (Editora Patuá) apresenta vários contos de textos com essa sensação de curto circuito em duas ou três páginas (destaco “Fobia”, “Trabalha com Cultura” e “Moto Escola”). Mas a poderosa versatilidade de Andréa Catrópa ainda se permite cores mais matizadas, em relatos mais longos, criando microcosmos paranoicos. A obra-prima é “Ouvido Absoluto”, centrado num condomínio: “Não estava doido: é claro que o edifício todo não estaria lhe pregando uma peça. Só algumas pessoas: Dona Neide, Seu Klaus, o Zé, o Victor do 62, a Raquel e a Juliana do 71, o Marcos do 41… Nome assim, aparentemente tão comuns e, por isso mesmo, cobertos com a capa da inocência. Nenhum Judas, Nero ou Salomé. Todos cidadãos com um endereço e com uma profissão. Aparentemente também, idôneos, com uma reputação a zelar. Atraíram Juvenal como aranhas trabalhando juntas para tecer uma teia gigante, invisível… ‘Mas por quê? Querem me matar?’”, (mas também tem o condomínio macabro em “Condomínio Phoenix”)

Contudo, o meu favorito, um soco no estômago, é “Depósito”, no qual uma menina vive dentro de um shopping e, de repente descobre que para manter esse mundo “iluminado” e completamente falso, há todo um subterrâneo de lixo material e humano.

23/05/2017

Destaque do Blog: Insolitudes, de Tiago Feijó

   

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 23 de maio de 2017)

“Eu entendi que a vida tinha que continuar, mesmo preto e branca. A vida, para os que ficam vivos, tem sempre que continuar. A dor nunca passa, nunca passará”. Esse é um trecho de Aqui, dentro de mim, o mais humano (bem sei como esse termo é perigoso para julgar obras literárias) dos nove contos de INSOLITUDES (7Letras). É a narrativa de uma mãe que perde o filho, fulminado por um raio, a situação mais dolorosa que existe, e a qual sequer possui uma palavra para defini-la.

Curiosamente, não é a expectativa que Tiago Feijó cria para o leitor nos três contos iniciais, centrados na literatura: em “A insólita morte de Ernesto Nestor”, um escritor morre por se considerar medíocre, apesar do imenso sucesso (lembrando o protagonista de Um Homem Célebre, de Machado de Assis); em Josés, o fantasma de José Saramago dita seu último romance ao personagem de Feijó, também chamado José;  em Conto tirado de um poema, narra-se detalhadamente os acontecimentos de um curtíssimo poema de Manuel Bandeira. Parece que INSOLITUDES vai seguir o caminho da intertextualidade.

De repente, tudo muda e surgem histórias completamente cotidianas, “com a dor e a delícia de ser o que é”, portanto mais solitudes do que insolitudes, embora haja um conto, O olho, o qual nos remete às fábulas morais que utilizam um acontecimento fantástico (um olho nasce numa parede) para satirizar a rotina burocrática.

Gosto muito do já citado Aqui, dentro de mim, mas o ponto alto do livro é Uma noite na vida do sr. Lameque, que me lembrou Faulkner, com uma mãe atormentando o filho ao evocar diariamente uma tragédia ocorrida há quarenta e seis anos. Também muito forte é Há uma gota de orvalho em cada criança (título que alude a um poema de Mário de Andrade) abordando o racismo.

Porém, o conjunto dos nove contos impressiona. E impressiona ainda mais a qualidade da linguagem (uma amostra: “O bar está em polvorosa, com grande azáfama de gentes. O samba, no seu compasso cardíaco, perverte as pessoas, instala nelas um assanhamento de fogo, de labareda, bulindo com elas por dentro, afrouxando nervos e músculos, libertando dos corpos a malícia da carne”) o que, aliás, tem me causado espanto e entusiasmo não só com o autor cearense de que me ocupo nesta resenha, mas com diversos autores novos. Numa época em que as pessoas escrevem nas redes sociais eliminando as vogais, eu, velho dinossauro gramatical (só falo e escrevo palavras inteiras e detesto siglas), fico feliz de acompanhar essa revalorização da nossa língua. É para manter isso, viu?!

16/05/2017

A MORTE DE ANTÔNIO CÂNDIDO

Filed under: Homenagens — alfredomonte @ 9:19
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 16 de maio de 2017)

Admiro muito o crítico americano Harold Bloom, porém, me sinto afastado dele por causa do excessivo peso que ele dá à individualidade estética, como se cada gênio literário fosse um milagre independentemente da época a qual pertence. Com Antônio Cândido aprendi que o contexto (momento histórico, a recepção do público etc) faz parte da obra literária, interiorizando-se até em seus aspectos formais, e que a excelência artística não está solta no espaço como se tudo dependesse apenas do talento.

O nosso maior crítico literário, morto aos 98 anos, em seu monumental “Formação da Literatura Brasileira” (1959), prova cabalmente que a preocupação cada vez mais visível, desde a era colonial, é com a constituição de uma identidade nacional, e isso é a base (e permite compreendê-la) da obra de José de Alencar. Essa visão do fenômeno literário explica a razão de estudarmos livros às vezes muito fracos, mas que têm sua razão de ser na sequência histórica.

Cândido, além de ter renovado a crítica de jornal, foi um magistral ensaísta, em obras como “Literatura e Sociedade”; “Ficção e Confissão”; “A Educação pela Noite”; “O Discurso e a Cidade” (um dos meus livros favoritos). Em “Esquema de Machado de Assis”, em poucas páginas, sucintas e brilhantes, ele elenca todos os motivos e características que merecem a atenção do leitor da ficção machadiana, é uma verdadeira mina de ouro. O fascinante é que, além da qualidade da análise, o estilo (ao contrário de outros grandes críticos brasileiros, notadamente Luiz Costa Lima, uma leitura árdua e espinhosa) é límpido, cristalino.

Antônio Cândido foi um dos homens exemplares do século passado. Era lúcido, generoso, com um engajamento político que, em retrospecto, nos enche de orgulho e tristeza, uma preocupação pedagógica admirável (explicando, por exemplo, num famoso ensaio, o que é um personagem de ficção, ou como fazer a análise de um poema, em “Na Sala de Aula”). Tive a sorte de fazer a pós-graduação com alguns de seus discípulos, como Davi Arrigucci Junior, o falecido prematuramente João Luiz Lafetá.

O único senão (que, inclusive, me afastou da vida acadêmica) ao mestre e seus discípulos é a relutância em abrir o cânone para novos autores, o que eu considerava um conservadorismo deplorável, não sei se as coisas mudaram. Clarice Lispector conseguiu entrar, apesar da má vontade de quase todos eles. Mas eu ouvi, espantado, que Hilda Hilst, Carlos Nejar, Adélia Prado, nunca entrariam no departamento de Teoria Literária da USP, eram leituras adolescentes. Uma pena. Um time tão excepcional e tão restritivo, o que não tira a importância essencial de Antônio Cândido para a história do Brasil.

 

09/05/2017

Belchior, o poeta de uma geração e da eternidade

Filed under: Homenagens — alfredomonte @ 10:51
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Musico Belchior em 1977. FOTO DIVULGAÇÃO.

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 9 de maio de 2017)

Numa entrevista maravilhosa, Pedro Bial perguntou ao ex-presidente do Uruguai, José Mujica, o que era mais importante: O manifesto ou a poesia. Resposta: A poesia, a longo prazo.

Para a minha geração, a qual (e peço desculpas pela imodéstia de querer ser seu porta-voz), cresceu durante a ditadura militar, mas teve a sorte de se formar com um time inigualável de letristas da MPB (por exemplo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Aldir Blanc, Fernando Brant; e, pairando sobre todos, Chico Buarque), o gênio do manifesto lírico foi Belchior. Migrou do Ceará para o Rio de Janeiro, “com lágrimas nos olhos de ver o verde da cana e de ler o Pessoa”, “um rapaz latino americano, sem dinheiro no banco, nem parentes importantes”, viveu a miséria, a exclusão social, junto ao “preto, o pobre, o estudante”, revoltado com o conformismo (“minha dor é perceber que apesar de sermos jovens ainda somos e vivemos como nossos pais”), alertando que “uma mudança em breve vai acontecer, o que era novo, hoje é antigo, e precisamos rejuvenescer”.

A sua alucinação “é viver o dia a dia, o meu delírio é com coisas reais”, “enquanto houver espaço, tempo e algum modo dizer não, eu canto”. Como o leitor pode perceber, fiz uma costura de trechos das canções de Belchior. A tentação é prosseguir, pois há muita coisa linda no seu repertório. Talvez a sua ambição poética seja melhor sintetizada pelos versos finais de “Paralelas”: “teu infinito sou eu, no Corcovado quem abre os braços sou eu, Copacabana esta semana o mar sou eu, como é perversa a juventude do meu coração, que só entende o que é cruel e o que é paixão”.

A partir dos anos 80 Belchior caiu na obscuridade, e recentemente ganhou uma fama folclórica, quase ridícula. Com sua morte, todo mundo se deu conta da sua grandeza. Como afirmou Mujica, a poesia ficou mais evidente com a passagem do tempo, sem perder o seu recorte histórico. Dois exemplos do que o “longo prazo” produziu: “eu não vou querer o amor somente, é tão banal, busco a paixão fundamental, edípica e vulgar, de inventar meu próprio ser”; “Contemplo o rio, que corre parado, e a dançarina de pedra que evolui. Completamente sem metas, sentado, não terei sido, não serei, nem fui”. Mesmo entendendo a mensagem, foi sim, senhor Belchior. Um dos maiores.

02/05/2017

QUARENTA ANOS DA MAIS POPULAR OBRA DE CLARICE LISPECTOR

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 02 de maio de 2017)

“Se tivesse a tolice de se perguntar ”quem sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão. É que “quem sou eu?” provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto”.

Em 1977, poucos meses antes de sua morte, Clarice Lispector publicou um livro que seria sua obra mais famosa e amada, A HORA DA ESTRELA. Curiosamente, uma autora que era considerada hermética e difícil, conseguiu uma popularidade imensa, desde a época (começo dos anos 70) em que começou a publicar textos no Jornal do Brasil. Também ajudaram as edições de “A Legião Estrangeira” (contos) e “Para Não Esquecer” (crônicas) pela Ática, as quais a fizeram popular entre os jovens. Ao mesmo tempo, sua figura era mitificada, pelas suas excentricidades, o que fez com que muitos críticos não reconhecessem sua qualidade literária, até hoje.

A HORA DA ESTRELA conta o desamparo da singela nordestina Macabéa, tentando encontrar a felicidade no Rio de Janeiro, “uma cidade feita toda contra ela”. Macabéa é um “fiapo de ser”, mas sempre otimista e esperançosa: “Macabéa, ao contrário de Olímpico, era fruto do cruzamento de “o quê” com “o quê”. Na verdade ela parecia ter nascido de uma ideia vaga qualquer dos pais famintos”.

Quem nos relata as aventuras (ou desventuras), da mais frágil heroína da nossa literatura é o escritor Rodrigo S. M.; apesar de adorar o livro, acho que ele é o ponto fraco do texto, pois Clarice não consegue criar uma voz narrativa masculina. Rodrigo S. M. tem o mesmo tom das narradoras femininas dos outros livros da genial escritora (“A Paixão Segundo G. H.”; “Água Viva”). Isso não impede que haja passagens belíssimas, contudo, as primeiras páginas pareçam trôpegas (aliás, eu particularmente prefiro sua fase “hermética”, onde estão seus livros supremos: “A Maça no Escuro”; “Laços de Família”; “A Paixão Segundo G. H.”).

No entanto, o livro é de Macabéa. O fiapo de gente confirma as palavras do narrador: “Sim, estou apaixonado por Macabéa a minha querida Maca, apaixonado pela sua feiura e anonimato total pois ela não é para ninguém”. Ledo engano, Rodrigo S. M., ela é para todos nós.  Todos somos apaixonados por Macabéa.

25/04/2017

Destaque do Blog: DEC(AD)ÊNCIA, de Manoel Herzog

Primeira Parte

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 11 de abril de 2017)

Quem acompanha a produção prolífica e versátil do escritor santista Manoel Herzog, sempre fica espantado com a sua exuberância narrativa, mas ele se superou em DEC(AD)ÊNCIA. Nesse romance há tantas passagens impagáveis e tão afrontosas que dá vontade de citar várias. Infelizmente, falta espaço e tenho que me limitar aos aspectos “sérios”.
Sergio, o protagonista, nos relata tortuosamente sua trajetória desde os anos oitenta até os dias de hoje. Ele sofre de prisão de ventre, entrelaçada à relação edipiana com a mãe (que tentará reproduzir com Beatriz, vinte anos mais velha). O grande pensador Ernest Becker caracterizou o homem moderno como prisioneiro do que Freud chamou de fase anal. Ela seria o momento no qual diante da consciência da morte, forjaríamos nosso caráter enquanto couraça (neurótico, limitado, cheio de estratégias para enfrentar a realidade e os outros).
A analidade e a escatologia dominam DEC(AD)ÊNCIA. Um paralelo óbvio é com os narradores machadianos, como os de “Memorias póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro”, os quais simbolizavam, num discurso jocoso, repleto de exibicionismo de referências, para se mostrarem mais inteligentes do que sua classe social, embora acabem, com sua arrogância e desfaçatez, representando a burguesia nacional.
O achado formidável de Manoel Herzog não foi apenas parodiar o estilo do “Mestre da periferia do capitalismo”. O que Herzog conseguiu foi transportar a temática burguesa, provando que, após a abertura política, a elite encolheu o rabinho entre as pernas (sem contar as panelas). Depois dos governos de esquerda, todos os ranços, todas as mazelas, todo o armário de preconceitos, ódio classista veio à tona, de formas cada vez mais truculentas. Expressões como “decência” e “gente de bem” viraram escudos para a hipocrisia e a canalhice.
Sergio, um psicólogo renomado, mantém sua aura de decência enquanto divide falcatruas e orgias com um pastor evangélico, até a “a casa cair”; ele passa a escrever livros de autoajuda e fazer palestras motivacionais. Repentinamente, o intestino que tanto o atormentou, física e simbolicamente, obriga esse burguês tão empedernido a se defrontar com a finitude e o terror da morte. E, nós leitores, ganhamos um mestre na periferia do pós-tudo.

SEGUNDA PARTE

(Uma versão da resenha abaixo foi publicado originalmente em A TRIBUNA de Santos em 25 de abril de 2017)

Na minha última coluna, comentando DEC(AD)ÊNCIA (Patuá) do santista Manoel Herzog, ressaltei a narrativa em primeira pessoa (como em certos romances machadianos), o personagem principal (Sérgio), simbolizando a desfaçatez da burguesia brasileira, a qual ao longo da última década conseguiu destruir a nossa incipiente democracia.

Agora gostaria de mostrar DEC(AD)ÊNCIA como um romance enciclopédico, composto de várias camadas e referências, quase sempre paródicas, como que mostrando a “superioridade” do narrador. As brincadeiras com a linguagem, os inúmeros trocadilhos e cacófatos, o eterno debate com o seu suposto ghost writer, lembram os melhores textos de Vladimir Nabokov, o russo que, em “Lolita”, “Fogo Pálido” e “A Verdadeira Vida de Sebastian Knight”, fez coisas que até Deus duvidasse, com narradores sempre exibicionistas, justificando suas taras e perversões, ridicularizando os costumes americanos, a partir de uma origem aristocrática (por exemplo, o narrador de “Fogo Pálido” rouba o poema de um autor, pois acredita que a obra contém, criptograficamente episódios de sua vida como rei de um país chamado Zembla do qual teve de se exilar  e assumir a modesta existência como professor).

Assim como o nosso Machado de Assis e Nabokov, Manoel Herzog mostra a discrepância entre o que o narrador imagina ser e o que de fato é, num tom humorístico que quase faz o leitor rolar de rir, sem deixar (caso esteja atento) de saborear a fina ironia. Um dos momentos mais geniais de DEC(AD)ÊNCIA acontece quando Sérgio começa a dar palestras, assumindo a aparência  daquele professor pedante e pretensioso, o qual se apresenta como “filósofo” Luiz Felipe Pondé. O leitor agora sabe em que águas turvas e traiçoeiras ele se meteu.

Além dessas referências (e outras tantas, como trechos de canções populares) temos uma extraordinária paródia, no capítulo onde Sérgio descreve seu tumor no intestino, mostrando o aparelho digestório como se fosse as três etapas da “Divina Comédia” dantesca, inferno, purgatório e paraíso, correspondendo às metástases do seu câncer.

É o proverbial riso a caminho do patíbulo. Na ficção brasileira dos anos recentes só encontramos paralelo de DEC(AD)ÊNCIA em “O Livro dos Mandarins”, de Ricardo Lísias.

14/03/2017

UM COMENTÁRIO CURTO SOBRE UM LIVRO IMENSO: “TODO NAUFRÁGIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEDAGA”

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 14 de março de 2017)

Na semana passada, comentei o livro de o Naufrágio Entre Amigos, de Eduardo Sabino. Agora, a vez da coletânea de contos, TODO NAUFRÁFIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEGADA (Moinhos), de Marco Severo. Parece que a imagem mais pertinente da nossa civilização em colapso é estarmos naufragando, esse parece ser o Zeitgeist (o espírito de um determinado período histórico).

Mesmo para um leitor experiente, como é o meu caso, foi um assombro a leitura das primeiras páginas de Meio Amargo (não menos prezando o primeiro conto, Selvagem, do qual falarei mais adiante). Senti-me como um jurado do “The Voice”, girando a cadeira logo nas primeiras notas, descobrindo um autor para meu time de leituras prediletas.

Meio Amargo e Plantação abundante em terreno frágil, duas obras-primas, representam a maneira tortuosa e intrincada das narrativas de Marco Severo que lembra a força do primeiro Rubem Fonseca (o A Coleira do Cão) e as histórias da canadense Alice Munro, com os quais compartilha o vezo de transformar um texto curto num mundo em que você fica mergulhado, como se fosse uma série de romance encapsulados, e Plantação abundante em terreno frágil, lembra, com louvor o Nabokov de Fogo Pálido.

Os contos mais breves como o já citado Selvagem também são contundentes: trata-se da história de uma mulher que odeia tanto os elogios que a amiga faz do próprio filho que toma uma medida monstruosa.

Outra obra-prima, Na casa do cordeiro, o lobo anfitrião, lemos: “E se eu for pego? Se eu for, já era, me mato. Não se espante, porque eu sou você também. Você sou eu reprimido. Eu ganho a confiança pra montar minha armadilha. Eu faço os outros enxergarem o que eles gostariam de ver no mundo, naqueles poucos segundos entre o entrar no meu carro e o ficar do lado de fora. É um dom. O que nos difere é que eu desenvolvi, você não. Não pense que você é melhor do eu porque nunca matou ninguém. Você também é um predado. Nunca se esqueça, meu caro, que o cordeiro é também o caçador”. E em Plantação abundante em terreno frágil, vemos nitidamente o auto engano que justifica o comportamento dos protagonistas de Marco Severo: “Pouco me importa o que você vai pensar de mim. É a minha versão da verdade. E é com essa verdade que eu vou morrer, ainda que ninguém acredite”.

Os 20 contos de TODO NAUFRÁGIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEGADA, que compõem um dos livros fundamentais da nossa época.

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