MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/02/2015

NAVEGANDO POR MARES DE TRAMPA: “Combateremos a Sombra”, de Lídia Jorge

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de maio de 2010)

Na passagem dos anos 1970 para a década seguinte, dois poderosos nomes surgiram na ficção portuguesa: António Lobo Antunes e Lídia Jorge. O primeiro tem se dedicado nos últimos anos a um fluxo ininterrupto de romances “totais”. Já a segunda, que estreou há trinta anos, com o talentoso O dia dos prodígios, tem sido menos prolífica. Sua obra mais recente é Combateremos a Sombra[1].

Na noite da virada do milênio, o psicanalista Osvaldo Campos atrasa-se no seu consultório para a festa do réveillon, o que acarreta o fim do seu casamento. Após um curto período de desagregação psicológica (chega a agredir a ex-mulher), ele volta à pacata rotina de atendimento dos pacientes, vivendo no local de trabalho, e adotando como divisa, numa atitude de tabula rasa com relação à existência pregressa, a afirmação de um dos muitos clientes não-pagantes que aceita, para desespero da sua secretária, Ana Fausta (uma personagem secundária memorável): “Professor, navego por dia mares de trampa, para conseguir caçar um, dois peixes”. A vida, então: uma travessia minimalista por mares de excremento ou de armadilhas e logros, conforme se queira entender a metáfora.

O dr. Campos tem uma “paciente magnífica”, a sua “visita da noite”, Maria London, filha de um magnata. Um dia, descobre que as elaboradas fantasias dela a respeito de navios de cruzeiro que aportam em Lisboa e nos quais o pai a embarca regularmente, são bem reais e correspondem a um submundo pesado de tráfico, bem nas barbas (ou com a conivência) das autoridades. Por outro lado, na noite do réveillon que virou sua vida do avesso conhecera casualmente uma angolana no prédio onde fica seu consultório. Ao longo dos meses nos quais a narrativa se desenvolve, o incauto psicanalista (que a acreditava manteúda de um sujeito poderoso) descobre que ela é testemunha de vários crimes (trabalhava numa clínica onde iam se aliviar os cagões, aqueles que conhecemos como mulas de drogas, e um deles morreu por excesso de carga; além disso, ela fotografou trabalho escravo de imigrantes ilegais), e fora poupada pelos seus executores (um deles, colega de juventude), que a mantiveram escondida num apartamento.

Os dois iniciam uma ligação amorosa e, após enviá-la para um refúgio seguro em Roma, o dr. Campos resolve enfrentar o submundo que descortinou através das revelações de Maria London e de Rossiana, a sua amada, elaborando dossiês e entrando em contato com organizações internacionais, com a Interpol, a polícia, órgãos da imprensa e até a Presidência.

Como sempre, essa atitude quixotesca tem resultados desastrosos e o dr. Campos nunca reencontrará Rossiana em Roma. Em contrapartida, permite a uma das maiores autoras da atualidade encarar de frente o novo milênio e seu desafio à imaginação literária. Combateremos a Sombra é um senhor romance.

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TRECHO SELECIONADO

Abaixo temos um relato de Rossiana e de sua visão-de-mundo como fotógrafa:

“Emprestaram-me uma Yashica, e num papel exposto numa parede, inscreveram-se dez rapazes e cinco raparigas. Como dizer? O que eu sabia pouco mais era do que aquilo que eles sabiam, mas entendemo-nos. Não há nada como crianças a ensinarem crianças…Eu disse-lhes mais ou menos isto: Pois podemos chamar àquilo que vamos fazer, a forma como vamos trabalhar e aos objetos e ângulos que vamos escolher, tudo o que voa… Malta, disse eu, o pessoal vai andando pelo nosso bairro adiante, e lá onde encontra um objeto com interesse, uma situação entre gente que diga alguma coisa com jeito, um sapato bonito na lama, uma gaiola sem pássaro lá dentro, uma coisa assim esquisita por ser bela e dê vontade de levar para casa, e dê vontade de a gente se agarrar a ela, a malta fotografa para ver como é. Mas para que se perceba que voa, tem de ter à mostra o local de onde parte… Daqui de onde estamos, todos vemos como a vizinha tem um vaso com uma azalea à janela. Se só fotografarem a azalea, é uma merda de usar em todos os lugares, até numa estufa de flores, não vale a pena. Mas se a azalea tiver junto dela o cortinado puído da janela da vizinha, a azalea voa, a azalea diz: Porra, eu sou a harmonia no meio das coisas rotas e puídas, eu voo. Compreenderam o que diz a azalea? TUDO O QUE VOA será assim…. Uma rapariga fotografou a língua dum homem velho de olhos fechados a tomar a hóstia dominical e eu achei que isso era digno de TUDO O QUE VOA, mas alguém tomou o efeito pela causa e foi acusar-nos de provocação e a fotografia teve de ser retirada… Mas ficaram os gatos com guizo a olharem para pássaros sobre telhados de zinco. Ficaram duas pernas de miúdo sujas de lama, puxando um carrinho. Ficaram dois ovos a cavalo num bife pousados sobre metade dum prato. Ficaram duas raparigas a comporem a gravata do pai tetraplégico. Ficaram duas rosas vermelhas, uma delas ainda em botão, plantadas num velho penico de esmalte onde alguém num tempo remoto tinha pintado um nome: Senhora…”

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NOTA

[1] Nota de 2015- Quando escrevi a resenha acima, comentei o romance a partir de sua edição portuguesa, pela Dom Quixote (2007); recentemente saiu uma edição brasileira pela Leya.

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24/02/2015

Destaque do Blog: UMA BREVE HISTÓRIA DO TEMPO, de Stephen Hawking

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«Pode-se dizer que o tempo teve início no Big Bang, no sentido de que tempos anteriores simplesmente não teriam definição…» (Stephen Hawking, Uma Breve História do Tempo)

«… toda a ciência desta Terra não me dirá nada que me assegure que este mundo me pertence. Vocês o descrevem e me ensinam a classificá-lo. Vocês enumeram suas leis e, na minha sede de saber, aceito que elas são verdadeiras. Vocês desmontam seu mecanismo e minha esperança aumenta. Por fim, vocês me ensinam que esse universo prodigioso e multicor se reduz ao átomo e que o próprio átomo se reduz ao elétron. Tudo isto é bom e espero que vocês continuem. Mas me falam de um sistema planetário invisível no qual os elétrons gravitam ao redor de um núcleo. Explicam-me este mundo com uma imagem. Então percebo que vocês chegaram à poesia: nunca poderei conhecer. Tenho tempo de me indignar?  Vocês já mudaram de teoria…» (Albert Camus, O Mito de Sísifo)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de fevereiro de 2015)

« O objetivo final da ciência é fornecer uma teoria única que descreva todo o universo (…) Sempre ansiamos por compreender a ordem subjacente do mundo… nossa meta não é nada menos do que uma descrição completa do universo onde vivemos. »

Eddie Redmayne levou todos os prêmios mais badalados (Golden Globe, SAG, Oscar) ao interpretar Stephen Hawking.  E o sucesso de A Teoria de Tudo[1] rendeu nova edição brasileira (atualizada e corrigida) do mais popular livro de divulgação científica do cosmólogo inglês, Uma Breve História do Tempo (1988)[2], bem no ano em que a Teoria da Relatividade Geral comemora seu centenário.

Como relata Hawking, a partir de Einstein, fomos obrigados a mudar nossa concepção de espaço e de tempo: eles não são apenas um pano de fundo imutável para os eventos do universo, mas são “quantidades” dinâmicas; mais ainda, co-dependentes, de forma que é mais exato o conceito de espaço-tempo.

A grande revolução na física teórica foi a proposição de que o universo não é eterno: teve um início (o agora tão popular big bang) e muito provavelmente terá um fim (big crunch). O próprio Einstein não aceitava essas conclusões (propostas há apenas 50 anos, à época em que Hawking fazia seu doutorado em Cambridge e lutava com as manifestações iniciais da sua doença neurológica degenerativa) a partir de sua teoria; convencido de que o universo era estático, chegou a inserir em suas equações uma “constante cosmológica”[3].

De todo modo, não obstante sua importância fundamental, a Teoria da Relatividade só permite uma descrição (e, portanto, compreensão) parcial do universo, com sua mirada no extraordinariamente vasto. A descoberta de partículas e subpartículas e o impulso dado à mecânica quântica, com a adoção do Princípio da Incerteza de Heisenberg[4], fizeram com que o extraordinariamente minúsculo ganhasse o centro do palco.

A “Teoria de Tudo” é o esforço de uma vida, após anos dedicados ao estudo das “singularidades” (eventos cósmicos que desafiam noções da física clássica, um campo gravitacional onde “tudo está dentro de nada”), entre elas os buracos negros, na tentativa de encontrar as equações que permitam conciliar essas teorias parciais, a da relatividade e a da mecânica quântica, na direção para o qual a passagem tirada de Uma Breve História do Tempo que abre esta minha resenha indica. Uma teoria da gravitação quântica.

Uma busca linda, envolventemente sintetizada por Hawking[5] — só a parte em que ele enumera as numerosas partículas é um pouco árida, e sinceramente acho chocante no nível da física em que ele atua (mesmo que sejamos leigos), ilustrações tão chinfrins[6], dignas dos livros didáticos mais elementares. Ninguém conseguirá ver a grandeza das proposições nesses esqueminhas e gráficos hilários.

No final, porém, fica um travo de fracasso; de que, feitas as contas, só há teorias e de que elas estão muito longe, apesar das equações complicadíssimas, de explicarem de fato o universo, apesar da profusão de modelos cósmicos, nenhum inteiramente válido, não mais do que a Cabala ou outras concepções cosmológicas ancestrais. O grande cientista pode nos brandir frases como «não se pode discutir com um teorema matemático», contudo ele mesmo chega a temer por suas concepções («Já estudei muito os buracos negros e todo o meu trabalho iria por água abaixo se descobríssemos que eles não existem»).

Portanto, não deixa de ser temerária (mas sem a arrogância de um Richard Dawkins, decerto) a afirmação de que «…podemos estar próximos de encerrar a busca pelas leis definitivas da natureza». Entretanto, numa espécie cuja existência e sobrevivência se devem à desordem entrópica (como Hawking afirma, a certa altura), todos os voos da imaginação são possíveis, como indica a epígrafe de Camus. Ainda bem.

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TRECHO SELECIONADO

«… por que a desordem aumenta na mesma direção do tempo em que o universo se expande? Se acreditarmos que o universo se expandirá e depois voltará a se contrair, como a proposição sem-contorno parece sugerir, a questão passará a ser entender por que devemos estar na fase de expansão e não na de contração…

     As condições na fase de contração não seriam adequadas para a existência de seres inteligentes capazes de fazer a pergunta ´Por que a desordem aumenta na mesma direção do tempo em que o universo se expande?’. A inflação nos primeiros estágios do universo, que é prevista pela proposição sem-contorno, significa que o universo deve estar se expandindo a uma taxa muito próxima da taxa crítica na qual escaparia de entrar outra vez em colapso por uma margem mínima e, desse modo, não demorará muito a entrar em colapso. A essa altura, todas as estrelas já terão se extinguido e os prótons e nêutrons nelas provavelmente terão decaído em partículas de luz e radiação. O universo se encontraria em um estado de quase completa desordem… A desordem não poderia aumentar muito, pois o universo já estaria em um estado de quase completa desordem. Entretanto, precisa haver uma seta termodinâmica forte para que exista vida inteligente. A fim de sobreviver, os seres humanos têm de consumir alimento, uma forma ordenada de energia, e convertê-la em calor, uma forma desordenada de energia. Assim, a vida inteligente não poderia existir na fase de contração do universo. Isso explica por que observamos as setas do tempo termodinâmica e cosmológica apontando na mesma direção. Não é que a expansão do universo cause o aumento da desordem, mas sim que a condição de sem-contorno leva a desordem a aumentar e faz com que as condições sejam adequadas para a vida apenas na fase de expansão… »

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NOTAS

[1] Como se sabe, o filme de James Marsh (2014) é baseado no livro de Jane Hawking.  No entanto, há um roteiro muito superior (de Peter Moffat), que rendeu um telefilme da BBC, Hawking (2004), dirigido por Philip Martin, e com interpretação, essa sim brilhante (e não apenas correta), de Benedict Cumberbatch, luminoso como Hawking.

Quem quiser conferir:

https://www.youtube.com/watch?v=U_ytm34YVCU

[2] A Brief History of Time, que comento na tradução de Cássio de Arantes Leite (Intrínseca).

Não custa lembrar que a edição original do livro e a sua primeira tradução (lançada pela Rocco, e depois muito criticada devido a erros e imprecisões conceituais) foram, junto com o trabalho de Carl Sagan, um momento pioneiro na divulgação de uma área hoje razoavelmente conhecida e que conta com os seus best sellers (Brian Greene, Marcelo Gleiser). Assim se explica uma parte do charme e do sucesso do seriado The Big Bang Theory (em conexão com um certo triunfo da cultura geek, ou nerd).

[3] “Na teoria da relatividade, não existe tempo absoluto único; em vez disso, cada indivíduo tem sua própria medida de tempo, que depende de onde ele se encontra e de como está se movendo.

    Antes de 1915, o espaço e o tempo eram vistos como um palco fixo onde os eventos ocorriam, mas que não era afetado pelo que acontecia nele… Era natural  pensar que o espaço e o tempo prosseguissem eternamente.

    A situação, no entanto, é bastante diferente na teoria da relatividade geral. Espaço e tempo passaram a ser quantidades dinâmicas… Espaço e tempo não apenas afetam como também são afetados pelo que acontece no universo (…) Roger Penrose e eu demonstramos que a teoria da relatividade geral de Einstein sugeria que o universo deve ter um início e, possivelmente, um fim.”

[4] Segundo o qual, nunca podemos ter certeza exata ao mesmo tempo sobre a posição e a velocidade de uma partícula; quanto maior a precisão com que sabemos um valor, menos preciso será o outro.

[5] Infelizmente, devido às limitações características de uma resenha não poderei abordar alguns aspectos especialmente fascinantes do livro de Hawking, por exemplo o fato de que as suas teorias implicam uma noção do universo “sem bordas nem contornos” e todas as suas consequências:

“…ao combinarmos a relatividade geral com o princípio da incerteza da mecânica quântica, é possível que tanto o espaço quanto o tempo sejam finitos sem bordas nem contornos…”

[6] De autoria de Ron Miller.

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17/02/2015

Ervas daninhas no jardim: VIOLETA VELHA E OUTRAS FLORES, de Matheus Arcaro

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  17 de fevereiro de 2015)

Matheus Arcaro organizou cuidadosamente seu livro de estreia, Violeta velha e outras flores: vinte e dois contos dispostos em seis seções, e sentimos fortemente a afinidade temática que rege esses agrupamentos; por exemplo, o conto-título, no qual o protagonista, já idoso, rememora a relação permeada de violência com o filho (em que um sempre é o elo mais fraco) está em companhia de outros cinco onde situações-limites de desamparo afloram: a estudante destruída pelo vício até chegar à indigência total (“Alice”); a mulher com câncer, com um diagnóstico-sentença de poucos meses de vida, que procura cura espiritual (ou mero conforto?) num centro espírita (“A cura); o residente  de uma casa de repouso que, no dia do aniversário de noventa anos, espera ansiosamente os familiares (“Visita); a moça atropelada («O farol do carro apagou as luzes do meu porvir»), em estado vegetativo (“Festa”).

Em outros blocos temos o despertar de uma sensibilidade infantil para o selvagem coração da vida (“Casulo Rompido”); situações que desnudam a hipocrisia e as máscaras das relações instituídas, como o casamento (“Até que a morte os separe”); temos até relatos que transitam entre o filosófico e o paródico, como a visitação ao inferno, ao paraíso e ao purgatório, com a oferta de se decidir por um deles concedida ao protagonista (“Está tudo escrito”); sem contar experiências como  “A fúria sem som”, onde o relato de um deficiente mental, abusado por uma cuidadora (com resultados trágicos) e misturando instâncias temporais de toda uma vida, remete à parte mais famosa e intrincada de O som e a fúria (1929), de William Faulkner.

Portanto, temos um escritor jovem (30 anos), mas que leva muito a sério seu ofício, com uma intuição estrutural acurada[1]. Não obstante essas qualidades ponderáveis, que mostram um jardineiro dedicado, o que realmente importa em Violeta velha e outras flores, os relatos, revela a intrusão de ervas daninhas que comprometem tais cuidados com o jardim.

Grosso modo, o que a meu ver (pois é preciso dizer que o livro vem colhendo fartos elogios) incomoda na coletânea como uma falha grave é a falta de uma voz pessoal, de uma personalidade de autor que ilumine de forma peculiar, única, todo o cultivado buquê de temáticas e técnicas narrativas. Não sentimos em nenhum momento um universo ficcional com a marca inconfundível de Matheus Arcaro. Um ou outro conto ameaça timidamente um desabrochar nesse sentido, caso de “Festa” ou “Maquinando”, todavia sempre sentimos que falta algo essencial[2].

Por outro lado, em sua prosa, ele se deixou levar pela sereia do “escrever bonito”, caindo inúmeras vezes no pior beletrismo, aquele que transformou em escritores irremediavelmente anacrônicos Coelho Neto ou Afrânio Peixoto, e que faz dos contemporâneos Nélida Piñon (Vozes do Deserto) e Evandro Affonso Ferreira (O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam) exemplos de afetação e tom postiço (no fundo, subliterário).

Deparamo-nos, com trechos como «As papilas salivares censuram aos lábios o direito da separação»!?; «O ar árido e o hálito do sol, entrelaçados feito jovens amantes, salgam seus olhos»!?; «Como a viúva que levanta o véu do caixão para o beijo derradeiro na boca frígida, as cortinas se abrem»!?;«suas reflexões diluíam-se no reflexo que arrombava sua retina»!?; «a lua lambeu seus pés»!?[3]

Claro que há também trechos bons («Com o vestido florido, Clarice parece costurada ao ambiente»;«O esforço ineficaz daquele homem em escombros trouxe um espelho à sua frente; viu-se pelada numa cadeira de rodas, com o tempo ancorado nos ombros»;«Eram seis da tarde, mas o crepúsculo habitava-o há horas») infelizmente estrangulados entre a floração malsã de imagens de gosto duvidoso[4], piñonescas.

Ao fim e ao cabo, seria aconselhável ao jardineiro a poda implacável: melhor concentrar-se menos nos contornos do jardim e mais com a qualidade de cada flor[5]. Como lemos (aliás, uma passagem ruim) em “Reencontro”: «Como germinariam flores na boca se seco está o espírito?»

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TRECHO SELECIONADO

«será que vou pro céu não estou no mesmo degrau que o padre Ambrósio ou que as senhoras que puxam o terço de terça à noite porém não posso ir pro mesmo lugar que um matador de aluguel ou um político decerto foi pra evitar esse tipo de confusão que Deus inventou o purgatório o padre disse que não se fica lá por muito tempo só até pagar os pecados mais graves eu me esforço pra seguir os ensinamentos dele amar o próximo e tal mas é difícil sem crédito celular da porra»

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NOTAS

[1] Que encontrou na edição da Patuá o excepcional talento de Leonardo Mathias, que realizou um de seus melhores trabalhos.

[2] “A fúria sem som” talvez seja o conto mais impecável da coletânea do ponto de vista da tessitura textual, e mesmo assim tem um ar de exercício estilístico de oficinas criativas.

[3] O conto de abertura, “Casulo rompido”, já é comprometido por passagens e expressões infelizes, como “o menino moldado por seus genes”, “como se algo de dentro da flora o sugasse suavemente”, “líquido salso”, além de uma certa falta de rigor, como em “Ele era um títere encantado; um ser no qual o êxtase espreguiçava seus tentáculos” (afina, títere ou ser?, os dois não dá para ser, não?).  O que  nos leva também às frases sem qualquer sentido, como esta, de “Teclado”: “Júlio parecia com o que devia parecer. Um livro erótico de capa sóbria”!?  Ou às afirmações banais e estereotipadas: “ele tinha que lavar o ranço do passado não vivido” (“Noite nua”)!?

[4] O já citado “Visita” fornece um bom exemplo desse estrangulamento: veja-se o primeiro parágrafo, marcado pelo excesso de imagens: “Inspirou como se erguesse a existência com os pulmões. Elas virão! A bofetadas, o tempo lhe ensinara que a vida não é uma equação  pitagórica: uma delas pode ter passado mal; nesta época do ano, a gripe costuma atacar  os que estão com o escudo em repouso. Ou, quem sabe, o carro pode ter enguiçado no caminho; estes carros modernos são mais frágeis que um coração empoeirado. Sentindo a menção do pensamento, o órgão  debateu-se no calabouço torácico, mas logo foi domado pelo marca-passo e, resignando-se como um escravo recém-açoitado, voltou à sua função de tesoureiro da esperança.” (de “Maquinando”)

   Ao longo do conto o leitor se depara com a felicidade que “fora concubina” do protagonista; uma mulher que carregava no peito “sublimes paradoxos” e uma filha com “hálito hialino”!?

[5] E mesmo no quesito “seleção”, há reparos a se fazer: ter escrito vinte e dois contos não é razão para publicá-los todos. O que justificaria a inclusão de “Guerra” e “À beira do abismo”?

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10/02/2015

Carmine, o Curioso e a Senhora da Ficção: “Liga, Desliga”, de Colleen McCullough

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“Carmine havia acabado de completar seu primeiro ano na Universidade de Chubb quando Pearl Harbor foi atacado; então, ele postergou a faculdade e se alistou. Por puro acaso, foi transferido para a polícia militar e, depois que passou pela fase de tirar guarda e prender soldados bêbados, descobriu que amava o trabalho (…) Quando a guerra e o período de ocupação no Japão chegaram ao fim, ele era major, qualificado para completar sua formação na Chubb através de um programa de aceleração. Então, com um bom diploma embaixo do braço… ele decidiu que gostava mais do trabalho policial (…) Holloman não era grande o bastante para ter uma divisão de homicídios nem qualquer das subdivisões que as forças policiais das cidads grandes possuíam, então Carmine podia ser designado para todo tipo de crime. No entanto, assassinato era sua especialidade e ele contava com uma formidável taxa de sucesso: quase cem por cento; nem todos condenados, é claro.”

“Eu jamais teria me fixado nela se não houvesse desenvolvido tamanho fascínio por Carmine, o Curioso. Mas já que, apesar de toda a sua curiosidade, ele não é presciente… jamais me fez as perguntas que poderiam ter acionado a chave em seu cérebro teimoso.”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de fevereiro de 2015)

Falecida há alguns dias, aos 77 anos, Colleen McCullough era uma escritora que rompia fronteiras: muitos títulos de uma carreira prestes a completar quatro décadas tornaram-se best sellers (só Pássaros Feridos vendeu 30 milhões de exemplares), nem por isso menos apreciados por quem gosta de ficção que não seja mero entretenimento.

Se mesmo obras menores como A Paixão do Dr. Christian (1985)[1] ou A Canção de Troia (1998) podem ser lidas sem a sensação de desperdício de tempo, quando acertava em cheio, caso da já referida história do padre Ralph de Bricassart e Meggie Cleary (1977, seu segundo romance — a estreia se deu dois anos antes, com Tim), de Uma Obsessão Indecente (1981), do primeiro volume da notável heptalogia sobre o período pré-imperial da Roma Antiga (Primeiro Homem de Roma, 1990), ou ainda do delicioso e curto (para os padrões dela) As Moças de Missalonghi (1987) a australiana se mostrava digna da fidelidade de um leitor.

Após encerrar o ciclo Senhores de Roma, dedicou-se a desenvolver a série policial iniciada em 2006, com Liga, Desliga. A partir de Assassinatos Demais (2009), o protagonista, Carmine Delmonico, era alçado a capitão da polícia em Holloman (Connecticut); até 2013 já havia cinco de suas investigações — McCullough, lá no seu refúgio na Ilha de Norfolk, mesmo gravemente doente, continuou prolífica.

Quando um leitor mais experimentado se depara com a edição brasileira de Liga, Desliga[2], tudo parece contra o livro: embaixo do título, o apelativo “o jogo do assassino está apenas começando…”; na contracapa: “belas adolescentes estão sendo cruelmente assassinadas. Vale a pena mais um thriller de assassino em série?; ainda mais investigado por um detetive “dedicado e solitário como Carmine nos é (mal) apresentado na orelha? Mais um investigador disfuncional? Já não os há às pencas?

Ultrapassado esse estágio de má vontade, uma lida nas páginas iniciais proporcionará a primeira surpresa mcculloughiana: a identidade de Jimmy, acordando dentro de um congelador destinado aos cadáveres de animais que servem de cobaias para o Hug, renomado instituto de pesquisas neurológicas. Ali, partes do corpo de uma adolescente assassinada são casualmente encontradas. O ano é 1965 (Colleen utilizou suas experiências como neurofisiologista e o período em que viveu nos EUA) e os funcionários do Hug passam a ser os suspeitos do que se revelará uma sucessão (até então ignorada) de sequestros, estupros brutais e desmembramentos de moças de família, todas muito parecidas. Por causa da etnia (latinas, mulatas e negras), em plena época de distúrbios civis, os crimes (bem como o tipo de ciência praticado no Hug — aliás, focalizado com surpreendente ceticismo pela autora) despertam a fúria de grupos raciais militantes. Mas no centro do mistério está uma família tão marcada pela tragédia e certas taras quanto os Cleary de «Pássaros Feridos».

É gratificante acompanhar o (lento) desenvolvimento de Liga, Desliga, principalmente porque ela desilude quem procura um daqueles enredos em que os investigadores deslindam as ações e motivos dos criminosos, trocando-os em miúdo para os leitores (pelo contrário, aqui os agentes da Lei ficam “por fora” e fracassam, em larga medida). Entretanto, mesmo com todos os méritos da narrativa, caberá ao último capítulo (no qual o título se justifica), cujo único defeito é ser muito curto (poderia ser uma seção do romance), iluminar o conjunto, dando-lhe dimensão insuspeitada. Mesmo quem desconfiar da identidade do assassino levará um susto e tanto. É imperdoável revelá-la[3].

Portanto, se não tivesse escrito mais nada, a grande Colleen McCullough ainda ficaria como um dos melhores autores policiais contemporâneos. Contudo foi uma faceta a mais de uma legítima Senhora da Ficção.

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TRECHO SELECIONADO

“__ O problema é que você está neste caso há tanto tempo que já esgotou todas as probabilidades e não tem mais onde olhar, exceto para as improbabilidades.

__ Existe um viés religioso, e está ligado à raça!

__ Concordo, mas a religião não é o que interessa aos Fantasmas. O que interessa a eles é o fato de que são as famílias tementes a Deus que produzem o tipo de garota que eles querem.

__ Os Bewlee estão escondendo alguma coisa, têm de estar—Carmine resmungou.—Caso contrário, Margaretta não se encaixa.

__ Volte para o básico. Se você acha que os Fantasmas são estupradores, antes de assassinos, então você não está procurando por um fanático religioso de qualquer cor ou seita, cristã ou não. Está procurando por um homem ou dois que odeiam todas as mulheres, algumas mais do que outras. Os Fantasmas odeiam a virtude aliada à juventude aliada à cor aliada a u rosto aliado a outras coisas que não sabemos. Mas sabemos sobre a virtude, a juventude, a cor, o rosto. Nenhuma delas era totalmente branca, e nenhuma será, disso eu tenho certeza absoluta. Seu melhor grupo de amostragem é o das latinas católicas, só isso. As garotas são criadas um tanto imaturas para sua idade, estritamente supervisionadas e intensamente amadas. Você sabe disso, Carmine!… A resposta está nos elementos  básicos do caso.”

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NOTAS

[1] Cujo título original é A Creed for the Third Millennium.

[2] On, Off, que comento na tradução de Sibele Menegazzi (Bertrand Brasil).

[3] Desde O Assassinato de Roger Ackroyd creio que não há um final (e o foco narrativo) de romance do gênero que exija tanto discrição daqueles que já o leram.

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03/02/2015

ENTRE A OPRESSÃO E A UTOPIA: “Os pecados da tribo”, de José J. Veiga

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“__Tenha paciência, seu Oldívio. Está ruim para todos. Isso é fase.

__ É. Fase permanente..”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 03 de fevereiro de 2015)

Com o benefício da passagem do tempo constatamos que Os Pecados da Tribo (1976), quinto livro de José J. Veiga, marcou o auge de uma carreira até então composta por clássicos, desde a estreia com Os Cavalinhos de Platiplanto (59): A Hora dos Ruminantes (66), A Estranha Máquina Extraviada (68) e Sombras de Reis Barbudos (72), numa fluida oscilação entre conto e romance.

Em seguida, o grande autor goiano, cujo centenário estamos celebrando (nasceu em 2 de fevereiro de 1915), continuou a publicar com regularidade, nunca mais, todavia, com a mesma ressonância, ainda que sempre fiel ao seu universo, no qual o atraso e as estruturas arcaicas da nossa sociedade transpareciam através de parábolas e alegorias etiquetadas como “realismo fantástico”: tivemos, por exemplo Aquele Mundo de Vasabarros (82), A Casca da Serpente (89), até o derradeiro Objetos Turbulentos (97), antes de sua morte em 1999, aos 84 anos.

Como o prestígio de Veiga esteve estreitamente ligado ao que a sua “grande fase” tinha de alusivo ao período da ditadura, seria o caso de uma obra datada, envelhecida de forma irremediável?

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Não é o caso. Ainda que possamos ler, nas entrelinhas de Os Pecados da Tribo, alusões ao sombrio regime pós-64, o romance vai fundo num diagnóstico mais amplo e complexo de certa mentalidade que preside o exercício (quando não a tomada à força) do governo no Brasil e como essa recorrência autoritária se entranha no imaginário popular, fazendo com que a consciência histórica vá se esgarçando e o que é fruto do arbítrio se “naturalize”[1]. Um episódio memorável é o da lei que obriga toda a população a soltar fogos de artifício: “O estrangeiro que chega aqui de noite fica penando que somos o povo mais alegre e festivo do mundo… Mas de dia o quadro é bem outro: um povo de cara fechada, testa franzida, cabeça baixa, pensando na quantidade de foguetes que vai ter de soltar de noite…”[2]. Alegria e comemoração por decreto, e com severas penalidades.

Com o colapso de uma civilização antiga (como a História é obliterada, ela só é conhecida através do diz-que-diz e dos seus vestígios, muitos dos quais apagados pelos líderes que chegam ao poder, os Umahla), o “território” tornou-se um agrupamento de clãs, evocando os costumes africanos ou indígenas[3]. Tudo parece improvisado e provisório, porém tal desorganização apenas mascara a cerrada teia que envolve a todos. O narrador é um homem que só quer viver tranquilo, no seu canto (sua atividade predileta é a pescaria), mas que tem de manter uma atitude de suspeita e reserva num ambiente onde não se sabe o que é proibido e perigoso[4] (inimigos e delituosos são “evaporados”—não pode haver termo mais incisivo quanto à supressão de indesejáveis[5]); Rudêncio, seu irmão, ao contrário, participa ativamente das mudanças de governo, ascendendo nas instáveis hierarquias, e torna-se cada vez menos confiável e fraterno:

“__ Você ainda vai ouvir falar dele. Todo o território vai ouvir falar dele.

    Perguntei de que natureza seria essa função, Rudêncio se trancou. Não podia adiantar mais nada.

__ Vamos ouvir falar bem ou mal?

__Depende do lado em que a pessoa estiver. De que lado você está?

    Era o outro Rudêncio falando, o genro do Umahla, o pai dos netos do Umahla, o Rudêncio que às vezes me amedrontava…”

Mesmo pacato, até mesmo passivo, o obscuro irmão de Rudêncio fará parte de uma vaga conspiração: a construção de um navio na floresta, “completo em todas as suas partes e instrumentos, como se destinasse mesmo a enfrentar o mar e seus perigos, apesar de vivermos longe do mar?”. Com esse projeto absurdo e temerário, temos uma das mais tocantes imagens da utopia já apresentadas pela ficção. Quanto à provável represália dos agentes do regime: “E não tem muita importância que descubram o nosso plano. Se por acaso descobrirem, o que é que encontrarão? Um sonho dentro de cada um de nós”[6]. Passagens como essa e o agudo e incessante fervor fabulatório provam que Os Pecados da Tribo e o melhor da obra de José J. Veiga são uma leitura ainda necessária. Pelo menos enquanto a interrogação “Que país é este?” se fizer presente.

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TRECHO SELECIONADO

“Dizemos que aqui não acontece nada, mas às vezes acontecem coisas incompreensíveis. Como ontem, por exemplo. Ainda não tínhamos acabado de comer a papa da manhã, chegaram uns homens no descampado aí em frente, tocaram o berrante e todo mundo atendeu correndo. Os homens nos puseram em forma na beira da estrada e explicaram o motivo da convocação. Era para abrirmos um buraco circular na dimensão já arcada com umas estacas (…) Comparada com o que dizem do tempo antigo, a vida aqui não é ruim, mas tem os seus momentos bem duros, principalmente depois que evaporaram o velho Umahla. Antes a gente ainda tinha certas pequenas regalias, quando havia abusos dos de cima uma queixa na Casa do Couro, às vezes, dava resultado; agora não há a quem se queixar (…) Vendo que o meu setor não estava progredindo, um dos homens se agachou na beira do buraco para fiscalizar o meu trabalho. Fiz de conta que não estava sendo observado e continuei a luta com o terreno duro. Depois de algum tempo ele me tocou com o chicote dobrado e perguntou por que eu estava atrasado. Expliquei que o terreno ali era muito duro e ainda grudava na picareta, como ele podia ver.

__ Duro, é? Pois vai ficar mole num instante. Vou fumar um cigarro na sombra daquela árvore. Se quando eu voltar você não tiver igualado com os outros, vai levar umas lambadas disto aqui—disse ele, e esfregou o chicote dobrado no meu nariz.

   Não encontro explicação para o que aconteceu. Eu não estava fazendo corpo mole, o terreno era duro mesmo; mas quando o homem voltou para verificar o resultado da ameaça, a minha parte já estava rente com a dos outros, se é que não estava um pouquinho mais funda. Mesmo assim o homem boleou o chicote e mandou uma lambada que só não me pegou em cheio no ombro porque recuei em tempo, já adivinhando a maldade. Mas a ponta do chicote me acertou o braço esquerdo de raspão, e o lugar ainda está inchado e dolorido. Marquei bem a cara do homem; se eu resolver entrar para a brigada de Rudêncio, vou ajustar essa conta (…)

    Depois eles nos mandaram recolher as ferramentas nas carroças, acomodaram-se em cima como puderam e foram embora cantando uma música marcial. Nós ficamos ali com as mãos inchadas e cheias de bolhas, o corpo doendo, e aquele buraco enorme quase na nossa porta.

    Hoje muitos aqui acham que tudo não passou de um divertimento de segundos escalões desocupados, e que se tivéssemos resistido eles teriam ido embora desapontados. Mas quem ia resistir? Mandaram, cavamos…”

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NOTAS 

[1] Nesse sentido, Veiga me lembra a obra de Manuel Scorza (1928-1983) como  Redoble por Rancas (no Brasil, Bom dia para os defuntos) no uso do “fantástico” e do “insólito” em estreita união com a notação realista. Embora, a meu ver, os recursos estilísticos do autor peruano  sejam mais apurados, ambos se beneficiam da oscilação ambígua, ou seja, os personagens às vezes tomam as coisas como elas são (a Cerca da  multinacional que corta o ir-e-vir dos habitantes de Rancas e arredores é um exemplo cabal) e às vezes confundem com fenômenos da natureza, como a chuva, ou com intempéries, como a seca (além de um forte componente “lendário”). Mas, por questão de brevidade, faço um paralelo “grosso modo”, bem esquemático.

No romance de José J. Veiga lemos:

: “O hábito de fumar charuto de folha de nanica foi herdado dos zuumbas, antigos habitantes do território, e esteve proibido durante muito tempo, por motivos nunca explicados. Alguém que não gostava do cheiro, ou da cor da fumaça, ou do tamanho dos charutos, e podia proibir, proibiu… Muitas vezes na história o pecado de hoje acaba sendo a virtude de amanhã. Ontem prendiam gente por beber água de chuva; hoje se compra água de chuva nos armazéns do Estado em bonitas botijinhas que são depois aproveitada para guardar mel.”

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[2] Vale ressaltar que a estrutura de Os pecados da tribo é basicamente episódica, uma característica da obra de Veiga, mais contista nesse sentido do que romancista propriamente dito.

[3] E há um “estilo de vida”, um sentimento de superioridade com relação a outras organizações sociais:

“Nós até estaríamos relativamente felizes se não fosse essa nuvem. Antes de sermos apanhados pelos últimos acontecimentos nossa vida era bem melhor, por exemplo, do que a dos Aruguas, povo tão perto de nós em distância e tão longe em civilização. Exteriormente eles têm quase tudo o que temos porque imitam o nosso estilo de vida; mas sendo tão atrasados, imitam mal”.

[4] “__ É melhor não dizer nada. Quanto mais falar, mais encalacrado fica—disse o turunxa.

__ Por que vou me encalacrar?

__ Tão inocente! O que foi que eu fiz para me encalacrar!

__ Pegar caira não é proibido.

    O turunxa titubeou, pensei que ia desistir. Eles não conhecem leis, e para se garantir inventam proibições. Geralmente acertam porque quase tudo é proibido hoje. Abaixei-me para apanhar o cesto e os embornais enquanto a vantagem estava do meu lado. O turunxa se refez da hesitação e me atalhou:

__ Peraí. Está resolvido não. Você sabe de cor tudo o que é proibido?

__ Isso não. Ninguém sabe…”

[5] Outro belo episódio do livro é o da promessa à mãe, que não quer ser “evaporada” (pois é o destino dos mortos, também, como se fosse necessário apagar-lhes a existência da lembrança dos vivos);  assim, o narrador e a irmã, Zulta (Rudêncio jamais poderia participar disso), a colocam num balão (uma ação totalmente ilegal):

“Ficamos olhando calados até que ela desapareceu na imensidão do céu e da noite. Calados apagamos a fogueira, eliminamos os sinais e fomos tomar uns goles de canilha para festejar o cumprimento da promessa e também para acalmar os nervos.

     Sabíamos que mamãe estava contente, e isso nos deixou eufóricos pelo resto da noite.”

[6] Por isso, considero o último capítulo, “O recado do lago”, um dos mais bonitos da nossa prosa (uma passagem: “…ninguém falava, só cantávamos, quem não sabia ou não queria cantar ficava olhando como encantado, numa alegria tão rara que me deu tristeza de pensar que quando os pavios se queimassem todos e as luminárias se apagassem, como já ia acontecendo com algumas, toda aquela beleza de acabaria, e dentro de mais algumas horas, com o nascer do sol, aquela noite seria apenas uma lembrança, e dias depois um sonho talvez até inacreditável”).

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02/02/2015

Colleen McCullough no pêndulo entre a inspiração e a mornidão: “Pássaros Feridos” e “A canção de Troia”

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(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de novembro de 2002)

A CANÇÃO DE TROIA[1] era um dos lançamentos mais aguardados do ano. Afinal, na última década, Colleen McCullough destacou-se por sua avassaladora reconstituição ficcional da Roma Antiga, na série iniciada com Primeiro Homem de Roma e, como uma das mais brilhantes contadoras de histórias da atualidade, ela era perfeita para recriar em forma de romance a “Ilíada”.

Em Canção de Troia reencontramos todos os episódios famosos: a fuga de Helena, mulher de Menelau, com Páris, príncipe troiano; a união dos líderes gregos em torno de Agamêmnon, irmão do traído, no cerco à Troia, que dura dez anos; a desavença entre Agamêmnon e o maior guerreiro entre os gregos, Aquiles; o ardil do cavalo de madeira inventado pelo astuto Ulisses, que permite a invasão e saque da cidade protegida por invencíveis muralhas. Todavia, a autora de Pássaros feridos trata o evento como uma guerra entre potências, envolvendo rotas comerciais: de um lado, o conglomerado de reinos que forma a Grécia; de outro, a Ásia Menor, justamente liderada por Troia. E para o leitor de hoje são perfeitamente plausíveis as pretensões imperialistas de Agamêmnon.

O livro é todo em primeira pessoa, utilizando 16 narradores: Príamo, Páris, Heitor, Enéias (da parte de Troia); Peleu, Quíron, Agamêmnon, Aquiles, Ulisses, Diomedes, Pátroclo, Nestor, Automedonte, Neoptolemo (entre os gregos), e só duas mulheres, Helena e Briseis (esta última, concubina de Aquiles, o qual é o personagem que toma mais vezes a palavra: seis capítulos entre os trinta e três que compõem Canção de Troia).

A intenção da autora era enriquecer o foco narrativo, mas foi uma péssima estratégia: o recurso não convence. Volta e meia, os personagens resvalam para um tom didático e explanativo que fica muito parecido com o de um narrador em terceira pessoa. E há momentos verdadeiramente horríveis, como aquele em que Ulisses diz a Agamêmnon: “Menelau deveria exigir uma indenização adequada para os danos psicológicos que sofreu em consequência do rapto de Helena”!!!??? Ora, ora.

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Além disso, é constrangedor para quem há anos vem defendendo os livros de Colleen McCullough, desde Pássaros feridos (1977), da pecha de “meros best sellers” , deparar-se com passagens bregas do tipo “Definhara-se o amor que nos unira… o fogo transformara-se agora em cinza” (trata-se de Helena queixando-se das infidelidades de Páris)!!??

Porém, nem o uso capenga da primeira pessoa nem os trechos estereotipados (para não dizer, esfarrapados) pesam muito na decepção que é a leitura de Canção de Troia. As suas 600 páginas, tomadas objetivamente, são competentes e dão conta do recado de contar de forma linear a história do cerco. Não há o que reclamar quanto a isso, e o romance não apresenta quedas, mantendo-se equilibrado do início ao fim.

O que falta para o fã de Colleen, e isso tira toda a alma do projeto, é a sua verve, é a magia do seu fôlego ficcional, capaz de transfigurar qualquer evento e qualquer personagem. Esse toque, que fez de Pássaros feridos, Uma obsessão indecente e A Paixão do dr. Christian muito mais do que histórias melodramáticas, que fez de Primeiro Homem de Roma, A coroa de ervas e Os favoritos de Fortuna, mesmo com altos e baixos, estupendos mergulhos na história antiga, esse toque falta a Canção de Troia.

A mais desalentadora e melancólica derrota do longo cerco, após dez anos e seiscentas páginas, não é tanto a da estirpe de Príamo, nem a da reputação imaculada de Aquiles enquanto guerreiro: é o fato de que, se todos aqueles livros, com sua personalidade gritante, só poderiam ter sido escritos por Colleen McCullough, este—a não ser num ou noutro momento—poderia ter sido escrito por qualquer um.

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(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de março de 2003)

A Bertrand está reeditando boa parte do seu catálogo com novas capas e paginação. Um desses relançamentos é o de PÁSSAROS FERIDOS que, desde sua publicação original, em 1977, já vendeu mais de dez milhões de cópias, embora seja um livro especial não exatamente por esse triunfo quantitativo.

Se não é tão bom quanto os livros da série romana de Colleen McCullough, é, entretanto, bem melhor do que seu último romance publicado no Brasil, A canção de Troia, pálida releitura da “Ilíada” de Homero.

Pena que a antiga e breguinha capa, sobrevivente de tantas reimpressões, e na qual aparecia um desenho chinfrim de árvore, foi substituída por uma capa igualmente brega, com uma paisagem rústica em que um céu de improvável azul é cortado pelo arco-íris (na contracapa, um raio fende um firmamento tempestuoso), que está em falta de sintonia com os recentes projetos editoriais da Bertrand. O pior é que colocaram umas letrinhas “estraga-vista” que se arrastam feito formiguinhas por 545 páginas! Já não bastam as vicissitudes do clã Leary em sua propriedade na Austrália, a fazenda Drogheda.

Agora sabemos que Colleen estava pronta para mergulhar na mentalidade greco-romana: ela consegue fazer uma bela transposição do clima da tragédia grega, onde a maldição dos deuses cai como um raio (não o da contracapa) no seio de clãs dominados por uma espécie de “demônio familiar”. Na contracapa do raio pode-se ler: “as vastas extensões dos campos australianos, povoados de carneiros e rarefeitos de homens, que forçam seus minguados habitantes a uma existência isolada, pioneira, quase primitiva…”, o que nos remete à obra-prima de um grande escritor compatriota da autora de Pássaros feridos, Patrick White: A árvore do homem (1955).

Ao contrário dos dramalhões familiares convencionais, não existe conciliação no final da história, não há desenlace feliz ou arrumadinha, onde o sofrimento é, enfim, redimido. Estamos longe de Danielle Steel, de Nora Roberts ou de Barbara Delinski, campeãs da hora na lista dos mais vendidos, e mesmo de Rosamunde Pilcher ou Isabel Allende, que são mais pretensiosas.

Só que há defeitos graves em Pássaros feridos: os diálogos são muito irregulares, não obstante haja alguns soberbos (particularmente entre Meggie e Fee), vez em quando nos deparamos com escorregões feios (frases do tipo “Não dispenso uma sarda do seu rosto nem uma célula do seu cérebro”) no mau-gosto, sem contar os resmungos infindos contra o sexo masculino e, claro, o título horrível e enganador. No geral, porém, passados pouco mais de 25 anos, ele ainda desconcerta completamente quem o procura por motivos “românticos” e escapistas. Ao cabo da saga dos Cleary, sobra a resignação diante da velhice e da violência bruta, e a sensação (digna do Eclesiastes) de que nada é novo sob o sol, que tudo é vaidade e que é imperativo que o círculo se feche e o ciclo recomece.

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Nota de 2015– Uma parte do texto acima foi omitida. Ela pode ser encontrada em outra resenha a respeito do livro, VER https://armonte.wordpress.com/2015/02/01/passaros-feridos-ou-a-que-clube-pertencia-colleen-mccullough/)

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[1] The song of Troy (1998), que comento na tradução de Maria D. Alexandre.

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01/02/2015

“Pássaros feridos” ou A que clube pertencia Colleen McCullough?

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de março de 2000, com o título “Verve aguçada de Colleen vem de longe”)

Desde o início dos anos 1990, Colleen McCullough vem publicando romances sobre a Roma Antiga: Primeiro Homem de Roma, A coroa de Ervas, Os favoritos de Fortuna. Neles, a autora australiana aparentemente alcançou novo patamar em sua carreira, com um ambicioso olhar sobre a vida privada dos romanos, os debates públicos, as apaixonantes questões políticas, o mundo da guerra. No entanto, o que mais impressiona nesses livros é a verve aguçada e exuberante na revelação de aspectos da natureza humana, os quais já existiam em Roma e que provavelmente nunca deixarão de existir.

Agora que o SBT reprisa a minissérie PÁSSAROS FERIDOS (aliás, uma pièce de résistance na sua programação), baseada no romance que tornou McCullough internacionalmente conhecida (foi publicado em 1977[1]), nada mais conveniente do que fazer uma releitura de uma obra da qual tinha uma lembrança muito boa (e Uma obsessão indecente, o livro seguinte, é melhor ainda), injustamente caracterizada como best seller. A minissérie ajudou a consolidar essa ideia falsa. Ali, a história virou um dramalhão inepto, destruído por um casal central inacreditável. Quem leu Pássaros feridos jamais poderá se conformar com a insossa Rachel Ward vivendo Meggie e o deplorável Richard Chamberlain na pele do extraordinário personagem que é o padre Ralph de Bricassart, precursor do memorável Sila, da série romana). E quem o relê agora constata que o tal “novo patamar” na carreira de McCullough também é uma ideia falsa: já estava tudo nele, o olhar ambicioso sobre a intimidade das pessoas e a vida pública e, o que é mais importante, a verve aguçada.

Um ou outro detalhe, um apelativo título extraído de uma lenda meio cafona (que estraga o parágrafo final), uma certa insistência exagerada nas reclamações femininas contra os homens, nada disso consegue enfraquecer o vigor das 650 páginas da história dos membros da família Cleary e de Drogheda, a propriedade que eles, oriundos da Nova Zelândia, administram na Austrália.

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O fio condutor é o amor entre o padre (chega a cardeal) Ralph e a única menina dos Cleary, Meggie. Eles se conhecem quando a família chega a Drogheda. Ele tem 28 anos, ela 10. Nunca deixam de pensar um no outro, apesar de ficarem separados durante longos períodos, várias vezes (uma delas, por 13 anos!). Meggie chega a ter um filho dele, Dane, mas manobra as coisas de modo que todos pensem ser filho do marido, Luke. Ralph só chega a saber da verdade aos 71 anos, quando ajuda Meggie a recuperar o corpo de Dane, que se afoga em Creta, após ordenar-se padre (e ele tem mais vocação do que o pai). Após os serviços fúnebres em Drogheda, o próprio Ralph morre diante de Meggie, já cinquentona.

Acontecem várias outros episódios trágicos na vida dos Cleary, sem contar uma seca que dura uma década inteira, e ad duas guerras mundiais: Paddy, o patriarca, morre incinerado durante uma tempestade terrível; Stu, um de seus filhos, morre esmagado por um javali, ao encontrar o cadáver do pai. É pouco? Ainda há Frank, o irmão mais velho de Meggie (que não é filho de Paddy), o qual tem uma inclinação incestuosa pela mãe, Fee (provavelmente a maior personagem de Pássaros feridos), e que, após comete um homicídio, é condenado à prisão perpétua.

O genial dramaturgo norte-americano Eugene O´Neill (1888-1953) procurou, em algumas de suas peças (por exemplo, na magnífica e difícil Electra enlutada, 1931), transportar a atmosfera das tragédias gregas para o cotidiano da era burguesa, com as maldições dos deuses caindo como um raio no seio de famílias que transgrediram leis. Tais clãs tinham uma espécie de “demônio familiar” (dáimon), provocador dessas transgressões e comportamentos desmesurados, passíveis de serem punidos pelos deuses (hybris).

O fato é que McCullough consegue fazer essa transposição da influência do dáimon e das consequências da hybris com muito mais naturalidade e sem a grandiloquência de O´Neill, em Pássaros feridos[2]. Tanto que, ao contrário do dramalhão convencional, que rege os caminhos dos best sellers, não há conciliação no final da história, não há um final feliz ou arrumadinho que redima o sofrimento. Temos uma visão final de resignação com a velhice e a brutalidade, de desolação, de fim de uma época.

Além disso, embora os diálogos do romance sejam irregulares, com altos e baixos, alguns estão entre os mais soberbos da ficção recente (penso especialmente nos diálogos entre Meggie e Fee na 5ª. Parte do livro). A narração dos sórdidos detalhes sexuais do casamento entre Meggie e Luke também é notável e certamente desconcertará quem procurar o livro para um entretenimento “romântico”. Portanto, desistam, leitores de Danielle Steel ou Rosamunde Pilcher. Colleen McCullough pertence a outro clube, que não é o da felicidade e da sorte.

VER TAMBÉM

https://armonte.wordpress.com/2015/02/02/colleen-mccullough-no-pendulo-entre-a-inspiracao-e-a-mornidao-passaros-feridos-e-a-cancao-de-troia/

 

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NOTAS

[1] THE THORN BIRDS, que comento na tradução de Octavio Mendes Cajado.

[2] Nota de 2015– Relendo hoje a resenha acima, penso que o paralelo entre O´Neill e McCullough é um pouco forçado e, sobretudo, vago, sem fazer contextualização de toda uma linhagem de autores que, no século XX, trilhou esse caminho. Mas meu objetivo naquele momento era valorizar a autora de Pássaros feridos.

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