MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

ÉDER FOGAÇA: o discreto charme do dizer mínimo (página atualizada em 26.03.13)

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http://www.ederfogaca.blogspot.com.br/

HAVIA : NO FINAL DA FRASE

havia : no final da frase : que no início não me diziam nada e se nada é o fim pode também ser parte do princípio como posso explicar tive a impressão que tudo partia dali daqueles : no final da frase puxei um panfleto antigo que guardara no bolso da calça puxei uma caneta para tentar esquecer mas quem disse quem disse que : a gente esquece assim andei cabisbaixo por um tempo medi os meus passos andei perto do que me foi destinado mas depois esqueci e quem disse que : a gente esquece assim quando bati em sua porta era uma noite chuvosa mil coisas passavam pela minha cabeça desde os desenhos que vira na livraria num livro de arte que me entorpeceu por uma tarde toda até os dias que se passaram e eu não vi quando toquei a campainha de sua casa eu já sabia o que viria ao meu encontro eu já sabia o que esperava por nós uma noite num bar qualquer entre tantas cervejas você me disse já deu meu bem não entendi no princípio como no princípio não havia entendido o significado daqueles : no final da frase depois me dei conta me dei conta que tudo não passava de um mal-entendido e você repetindo já deu pra nós dois meu bem era uma noite chuvosa e deixei aquele bar que também era tua casa sem sentir o chão que eu pisava tudo girava nada fazia sentido como para mim até então não fazia sentido aqueles : no final da frase insisti para que você me explicasse mas não tinha explicação alguma não havia mais nada que pudesse ser dito porque tudo que tivesse de ser dito ficou para trás então me dei conta me dei conta quando lembrei do bilhete sobre a mesa da sala que dizia uma frase você bem sabe nunca deve terminar com :

DOIS MICROQUONTOS:

http://microquontos.blogspot.com.br/

Fumava tabaco há anos. Todos os dias. Percebeu que se plantasse em casa sairia mais barato. Assim o fez. A moda pegou. A primeira safra foi boa, a segunda melhor. Na terceira foi preso. Investigação da Polícia Federal. Operação ‘A Cobra Vai Fumar’. Em sua ficha consta: crime contra o sistema financeiro nacional e sonegação de impostos.

****

Com tanta jogada para fazer, foi comer logo a rainha do oponente.

ALGUNS POEMAS:

Subo e desço
de um trem imaginário
que me leva do nada a
lugar nenhum.

Sempre precisei de lugares e objetos imaginários
para construir meus castelos. Esses de areia.

Hoje, falando nisso, perdi o trem.

*****

a chuva cai sem vontade
numa tarde quase incerta
entra pela janela
um ar solene de solidão

fica assim parado
sem dizer nada
como se os dias e as horas
nada quisessem de mim

o seu silêncio perturba
e faz parar o tempo

******

Éder Fogaça é natural de São Leopoldo (RS) desde 1977. Andou de ônibus gratuitamente durante um ano após ser finalista da 11ª Edição do Concurso Poemas no Ônibus, da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, no ano de 2003. Depois foi para Santos (SP) e integrou o Grêmio de Haicai Caminho das Águas, grupo destinado ao estudo, produção e disseminação dessa forma poética. Em 2005, ao lado de nomes como Teruko Oda, Regina Alonso, Mahelen Madureira, Roberto Graça Lopes, entre outros, participou da Mostra de Haicais Natureza em Fotopoemas, no SESC Santos, combinando trabalhos fotográficos de Du, Palê e Zé Zuppani com haicais dos membros do grupo. Atualmente edita o blog literário E!? 

À MARGEM DO RIO

eu estive assoberbado nos últimos dias

e tropecei no meu próprio verbo

corri sem destino

falei sem pensar

sentei à margem do rio

e o deixei passar

não

eu quis que o rio parasse

veja só que audácia a minha

eu quis que o rio parasse

nada faz um rio parar

nada faz um rio deixar de ser o que ele é

um rio

queira você ou não

um rio

vai ser sempre

um rio

e nada

mais

eu estive assoberbado nos últimos dias

mas porque

eu ainda não compreendi

o que eu estou fazendo

aqui

O FIM DO DIÁLOGO

Quando no meio da mais singela palavra

acabam

os teus créditos

ACASO

E se com todos os meus erros

no final

der tudo certo

eder

flertando com o microconto  e cultivando seu raro talento de exímio haicaista, como no belo exemplo (em inglês) logo abaixo:

in the garden
the bird picks up the seed
and flies

 

(no mais, aqui vai uma pequena antologia dos textos fogaçarianos):

 

ABRIGO

tem algo
que não digo
que me serve
como palco
que me serve
como abrigo

CADEIRA VAZIA

Num tempo distante
a cadeira vazia na varanda
era convite para
o viajante

Hoje a cadeira
segue vazia
numa varanda cercada
por barras de ferro

CONTRACULTURA

o máximo de rebeldia
que atingiu nos últimos tempos
foi a opção por permanecer
fumando.

TEMPO DE DESPERTAR

06H20
o celular atenta
para o início do dia
a partir de então
mantém-se num silêncio
monástico.

DIA DA PARTIDA

não temos mais tempo
ouço o trem
que se aproxima
dê-me a mala
um beijo
e não olhe para trás.

A DECISÃO

trancou a porta do banheiro por dentro
um barulho de metal tocando a louça fria da pia
depois o silêncio
e uma gota de sangue escorrendo no espelho.

SURDEZ

Meu ouvido amanheceu fechado. O som alto, o cigarro, a chuva no fim da noite. Numa de olhar para o lado, deixei de lado o que mais importava para mim. O que fazer quando algo dá errado? Observe a imagem no espelho. Há tanta coisa entre o céu e a Terra… Me perdi no centro. No centro de tudo, no centro de nada. Me perdi porque o centro não era meu, era teu, era nosso. Nada faz sentido, nada. E se você se vê incomodado, procure um sentido onde não há. É o primeiro passo para se ficar surdo.

HAICAIS

flores no mato
borboletas voando
pra todo lado.

vento do mar
a gaivota parada
no ar.

chuva fina
até a onze-horas
perdeu a hora

as ondas vêm
e vão para ninguém –
maré outonal

nuvem parada
virou lágrima
do nada

luzes de natal
a árvore decorada
passa a noite em claro

tarde chuvosa
escorrendo na vidraça
pingos de saudade
lá de casa
(esse o próprio autor não considera  um haicai ortodoxo, mas achei interessante incluir aqui também)

a lua aparece
entre nuvem e outra
o brilho é igual

chuva constante
o guarda-roupa mudou
agora é varal

eu em demasia
não fosse
a poesia

quase verão
no silêncio da noite
grilam estrelas

chuva gelada
o vento com pressa
por dentro de casa

tarde de festa
o flamboyant como palco
pro canto da cigarra

trilha na mata
o vôo da borboleta
mostrando o caminho

no meio da rua
um punhado de sol
molhado de chuva

café da manhã
o canto do bem-te-vi
passado no pão

sala vazia
o silêncio dos livros
na livraria

no cair da noite
vai sumindo lentamente
a pipa no céu

lua ao meio
metade dela
não veio

nuvem de verão
a fumaça do cigarro
suspensa no ar

a brisa da tarde
numa doce melodia –
sino-dos-ventos

trazendo o dia
o canto do quero-quero
na minha janela

farelos sobre a mesa
as formigas vieram
para a ceia

hora do jantar
me fazendo companhia
um grilo à mesa

folha em branco
o caderno inicia
primeira aula do ano

noite pacata
de repente estrelas
nas águas do lago

nas entrelinhas
o sol é um monte
de estrelinhas

céu nublado
o girassol olhando
para os lados

fim do carnaval
fantasias desfilam
no varal

o vento passou
da ponta do galho
a folha acenou

para cada escolha
tanto dias de sol
quanto noites de insônia

tardinha outonal
o pescador solitário
lança a linha na água

noite de outono
na companhia da chuva
eu volto pra casa

em cada trovão
um pedaço do dia
que a noite escondeu

surpresa no céu
primeira lua de outono
entre as nuvens

nuvem movente
água que abre caminho
água corrente

arrebol de outono
na superfície do lago
o barco se deita

a rua desperta
atravessam a noite
sapatos de festa

súbito venta
folha seca não agüenta
o próprio peso

tarde tranqüila
a borboleta de outono
entra na livraria

fim de tarde
o sol se pondo
sem alarde

noite outonal
o leve balanço das
roupas no varal

formigas em desespero
a marca do tênis
no formigueiro

vindo a noite
nos pêlos do braço
friozinho de outono

rajada de vento
a árvore balança
chuva de folhas secas

noite de inverno
na companhia da lua
a solidão é menor

noite de inverno
o cheiro do caldo verde
por toda a casa

doce jardim
diz a placa escondida
entre o capim

noite de inverno
o murmurinho das ondas
por dentro do quarto

tardinha de outono
depois de muito trabalho
a escuna ancorada

madrugada fria
um instante de silêncio
por toda a cidade

garoa insistente
pela avenida passo
a passo em frente

noite de inverno
a solidão no toque
do sino-dos-ventos

dono da cena
o tico-tico no galho
põe fim na conversa

mar de inverno
o som das ondas quebrando
o silêncio da noite

corpo seminu
primeira flor amarela
no galho do ipê

lua vermelha
a tarde vai saindo
de cena

manhã chuvosa
nenhum pássaro cantando
na galho do ipê

em boa companhia
a mariposa
passeia sozinha

tarde de inverno
na chuva empoçada
um pedaço do céu

sob estrelas
o vento gelado
varre folhas secas

café da manhã
as gaivotas sobrevoam
o barco pesqueiro

almoço campeiro
o carreteiro aquecido
no fogo de chão

manhã de sol
o branco das ondas
ainda mais branco

dança solitária
a areia em círculos
na orla da praia

chove tanto
parece até
que chove em prantos

um tanto faceira
entre dois prédios
brilha uma estrela

a pipa vai subiiindo
lá em cima sente saudade
do menino

céu nublado
um único pássaro
no gramado

chuva criadeira
o pequeno sabiá
sob a soleira

tarde nublada
a menina rodeada
de bolhas de sabão

tarde silenciosa
entre um parágrafo e outro
o canto da cigarra

manhã de outono
sobre a mesa da cozinha
as frutas de cera

noite na estrada
a lua surge
corada

madrugada fria
entre a fresta da janela
o som do mar

tarde fria
a velhinha passeia
encolhida

meia lua
a noite cheia
de estrelas

MINICONTOS:

DESATENÇÃO

Atravessava a rua quando ouviu o buzina. Treze dias depois acordou de um susto. Sonhara que havia sido atropelada.

FESTA LITERÁRIA

Antes de sair, foi ao dicionário retocar o verbo

BALA PERDIDA

Passou a chave na porta. Largou sobre a mesa o celular, a carteira; dos bolsos tirou moedas, comprovantes do Credicard e papéis com números telefônicos anotados. Sentou-se no sofá para tirar os sapatos. Ligou a tevê. Marília não devia ter dito aquilo. Não com aquelas palav…

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6 Comentários »

  1. sensível, prazeroso.

    Comentário por mariana fernandes — 10/08/2009 @ 19:52 | Responder

  2. Reverência a você, caro Alfredo.
    E minha gratidão também.
    Um abraço do amigo
    Éder.

    Comentário por Éder Fogaça — 28/04/2010 @ 16:00 | Responder

    • Eu que agradeço, meu amigo, pelos seus belos textos. Gostaria de ter uma linguagem assim tão precisa e econômica. Mas me inclino mais para o oposto. Octavio Paz diz: “A idéia fixa embebeda-se do oposto”. Acho que é isso mesmo.
      Um grande abraço.

      Comentário por alfredomonte — 28/04/2010 @ 16:38 | Responder

  3. Um deleite para a alma.

    Comentário por Thais Hameister — 18/06/2010 @ 22:04 | Responder

  4. …e eu não sabia que o tempo era preenchido de forma tão sábia…. (comentário de sogra)

    Comentário por Silvia — 06/04/2013 @ 12:53 | Responder

    • …são as prendas do genro…

      Comentário por alfredomonte — 06/04/2013 @ 13:41 | Responder


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