MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/05/2017

Destaque do Blog: Insolitudes, de Tiago Feijó

   

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 23 de maio de 2017)

“Eu entendi que a vida tinha que continuar, mesmo preto e branca. A vida, para os que ficam vivos, tem sempre que continuar. A dor nunca passa, nunca passará”. Esse é um trecho de Aqui, dentro de mim, o mais humano (bem sei como esse termo é perigoso para julgar obras literárias) dos nove contos de INSOLITUDES (7Letras). É a narrativa de uma mãe que perde o filho, fulminado por um raio, a situação mais dolorosa que existe, e a qual sequer possui uma palavra para defini-la.

Curiosamente, não é a expectativa que Tiago Feijó cria para o leitor nos três contos iniciais, centrados na literatura: em “A insólita morte de Ernesto Nestor”, um escritor morre por se considerar medíocre, apesar do imenso sucesso (lembrando o protagonista de Um Homem Célebre, de Machado de Assis); em Josés, o fantasma de José Saramago dita seu último romance ao personagem de Feijó, também chamado José;  em Conto tirado de um poema, narra-se detalhadamente os acontecimentos de um curtíssimo poema de Manuel Bandeira. Parece que INSOLITUDES vai seguir o caminho da intertextualidade.

De repente, tudo muda e surgem histórias completamente cotidianas, “com a dor e a delícia de ser o que é”, portanto mais solitudes do que insolitudes, embora haja um conto, O olho, o qual nos remete às fábulas morais que utilizam um acontecimento fantástico (um olho nasce numa parede) para satirizar a rotina burocrática.

Gosto muito do já citado Aqui, dentro de mim, mas o ponto alto do livro é Uma noite na vida do sr. Lameque, que me lembrou Faulkner, com uma mãe atormentando o filho ao evocar diariamente uma tragédia ocorrida há quarenta e seis anos. Também muito forte é Há uma gota de orvalho em cada criança (título que alude a um poema de Mário de Andrade) abordando o racismo.

Porém, o conjunto dos nove contos impressiona. E impressiona ainda mais a qualidade da linguagem (uma amostra: “O bar está em polvorosa, com grande azáfama de gentes. O samba, no seu compasso cardíaco, perverte as pessoas, instala nelas um assanhamento de fogo, de labareda, bulindo com elas por dentro, afrouxando nervos e músculos, libertando dos corpos a malícia da carne”) o que, aliás, tem me causado espanto e entusiasmo não só com o autor cearense de que me ocupo nesta resenha, mas com diversos autores novos. Numa época em que as pessoas escrevem nas redes sociais eliminando as vogais, eu, velho dinossauro gramatical (só falo e escrevo palavras inteiras e detesto siglas), fico feliz de acompanhar essa revalorização da nossa língua. É para manter isso, viu?!

16/05/2017

A MORTE DE ANTÔNIO CÂNDIDO

Filed under: Homenagens — alfredomonte @ 9:19
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 16 de maio de 2017)

Admiro muito o crítico americano Harold Bloom, porém, me sinto afastado dele por causa do excessivo peso que ele dá à individualidade estética, como se cada gênio literário fosse um milagre independentemente da época a qual pertence. Com Antônio Cândido aprendi que o contexto (momento histórico, a recepção do público etc) faz parte da obra literária, interiorizando-se até em seus aspectos formais, e que a excelência artística não está solta no espaço como se tudo dependesse apenas do talento.

O nosso maior crítico literário, morto aos 98 anos, em seu monumental “Formação da Literatura Brasileira” (1959), prova cabalmente que a preocupação cada vez mais visível, desde a era colonial, é com a constituição de uma identidade nacional, e isso é a base (e permite compreendê-la) da obra de José de Alencar. Essa visão do fenômeno literário explica a razão de estudarmos livros às vezes muito fracos, mas que têm sua razão de ser na sequência histórica.

Cândido, além de ter renovado a crítica de jornal, foi um magistral ensaísta, em obras como “Literatura e Sociedade”; “Ficção e Confissão”; “A Educação pela Noite”; “O Discurso e a Cidade” (um dos meus livros favoritos). Em “Esquema de Machado de Assis”, em poucas páginas, sucintas e brilhantes, ele elenca todos os motivos e características que merecem a atenção do leitor da ficção machadiana, é uma verdadeira mina de ouro. O fascinante é que, além da qualidade da análise, o estilo (ao contrário de outros grandes críticos brasileiros, notadamente Luiz Costa Lima, uma leitura árdua e espinhosa) é límpido, cristalino.

Antônio Cândido foi um dos homens exemplares do século passado. Era lúcido, generoso, com um engajamento político que, em retrospecto, nos enche de orgulho e tristeza, uma preocupação pedagógica admirável (explicando, por exemplo, num famoso ensaio, o que é um personagem de ficção, ou como fazer a análise de um poema, em “Na Sala de Aula”). Tive a sorte de fazer a pós-graduação com alguns de seus discípulos, como Davi Arrigucci Junior, o falecido prematuramente João Luiz Lafetá.

O único senão (que, inclusive, me afastou da vida acadêmica) ao mestre e seus discípulos é a relutância em abrir o cânone para novos autores, o que eu considerava um conservadorismo deplorável, não sei se as coisas mudaram. Clarice Lispector conseguiu entrar, apesar da má vontade de quase todos eles. Mas eu ouvi, espantado, que Hilda Hilst, Carlos Nejar, Adélia Prado, nunca entrariam no departamento de Teoria Literária da USP, eram leituras adolescentes. Uma pena. Um time tão excepcional e tão restritivo, o que não tira a importância essencial de Antônio Cândido para a história do Brasil.

 

09/05/2017

Belchior, o poeta de uma geração e da eternidade

Filed under: Homenagens — alfredomonte @ 10:51
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Musico Belchior em 1977. FOTO DIVULGAÇÃO.

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 9 de maio de 2017)

Numa entrevista maravilhosa, Pedro Bial perguntou ao ex-presidente do Uruguai, José Mujica, o que era mais importante: O manifesto ou a poesia. Resposta: A poesia, a longo prazo.

Para a minha geração, a qual (e peço desculpas pela imodéstia de querer ser seu porta-voz), cresceu durante a ditadura militar, mas teve a sorte de se formar com um time inigualável de letristas da MPB (por exemplo, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Aldir Blanc, Fernando Brant; e, pairando sobre todos, Chico Buarque), o gênio do manifesto lírico foi Belchior. Migrou do Ceará para o Rio de Janeiro, “com lágrimas nos olhos de ver o verde da cana e de ler o Pessoa”, “um rapaz latino americano, sem dinheiro no banco, nem parentes importantes”, viveu a miséria, a exclusão social, junto ao “preto, o pobre, o estudante”, revoltado com o conformismo (“minha dor é perceber que apesar de sermos jovens ainda somos e vivemos como nossos pais”), alertando que “uma mudança em breve vai acontecer, o que era novo, hoje é antigo, e precisamos rejuvenescer”.

A sua alucinação “é viver o dia a dia, o meu delírio é com coisas reais”, “enquanto houver espaço, tempo e algum modo dizer não, eu canto”. Como o leitor pode perceber, fiz uma costura de trechos das canções de Belchior. A tentação é prosseguir, pois há muita coisa linda no seu repertório. Talvez a sua ambição poética seja melhor sintetizada pelos versos finais de “Paralelas”: “teu infinito sou eu, no Corcovado quem abre os braços sou eu, Copacabana esta semana o mar sou eu, como é perversa a juventude do meu coração, que só entende o que é cruel e o que é paixão”.

A partir dos anos 80 Belchior caiu na obscuridade, e recentemente ganhou uma fama folclórica, quase ridícula. Com sua morte, todo mundo se deu conta da sua grandeza. Como afirmou Mujica, a poesia ficou mais evidente com a passagem do tempo, sem perder o seu recorte histórico. Dois exemplos do que o “longo prazo” produziu: “eu não vou querer o amor somente, é tão banal, busco a paixão fundamental, edípica e vulgar, de inventar meu próprio ser”; “Contemplo o rio, que corre parado, e a dançarina de pedra que evolui. Completamente sem metas, sentado, não terei sido, não serei, nem fui”. Mesmo entendendo a mensagem, foi sim, senhor Belchior. Um dos maiores.

02/05/2017

QUARENTA ANOS DA MAIS POPULAR OBRA DE CLARICE LISPECTOR

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 02 de maio de 2017)

“Se tivesse a tolice de se perguntar ”quem sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão. É que “quem sou eu?” provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto”.

Em 1977, poucos meses antes de sua morte, Clarice Lispector publicou um livro que seria sua obra mais famosa e amada, A HORA DA ESTRELA. Curiosamente, uma autora que era considerada hermética e difícil, conseguiu uma popularidade imensa, desde a época (começo dos anos 70) em que começou a publicar textos no Jornal do Brasil. Também ajudaram as edições de “A Legião Estrangeira” (contos) e “Para Não Esquecer” (crônicas) pela Ática, as quais a fizeram popular entre os jovens. Ao mesmo tempo, sua figura era mitificada, pelas suas excentricidades, o que fez com que muitos críticos não reconhecessem sua qualidade literária, até hoje.

A HORA DA ESTRELA conta o desamparo da singela nordestina Macabéa, tentando encontrar a felicidade no Rio de Janeiro, “uma cidade feita toda contra ela”. Macabéa é um “fiapo de ser”, mas sempre otimista e esperançosa: “Macabéa, ao contrário de Olímpico, era fruto do cruzamento de “o quê” com “o quê”. Na verdade ela parecia ter nascido de uma ideia vaga qualquer dos pais famintos”.

Quem nos relata as aventuras (ou desventuras), da mais frágil heroína da nossa literatura é o escritor Rodrigo S. M.; apesar de adorar o livro, acho que ele é o ponto fraco do texto, pois Clarice não consegue criar uma voz narrativa masculina. Rodrigo S. M. tem o mesmo tom das narradoras femininas dos outros livros da genial escritora (“A Paixão Segundo G. H.”; “Água Viva”). Isso não impede que haja passagens belíssimas, contudo, as primeiras páginas pareçam trôpegas (aliás, eu particularmente prefiro sua fase “hermética”, onde estão seus livros supremos: “A Maça no Escuro”; “Laços de Família”; “A Paixão Segundo G. H.”).

No entanto, o livro é de Macabéa. O fiapo de gente confirma as palavras do narrador: “Sim, estou apaixonado por Macabéa a minha querida Maca, apaixonado pela sua feiura e anonimato total pois ela não é para ninguém”. Ledo engano, Rodrigo S. M., ela é para todos nós.  Todos somos apaixonados por Macabéa.

25/04/2017

Destaque do Blog: DEC(AD)ÊNCIA, de Manoel Herzog

Primeira Parte

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 11 de abril de 2017)

Quem acompanha a produção prolífica e versátil do escritor santista Manoel Herzog, sempre fica espantado com a sua exuberância narrativa, mas ele se superou em DEC(AD)ÊNCIA. Nesse romance há tantas passagens impagáveis e tão afrontosas que dá vontade de citar várias. Infelizmente, falta espaço e tenho que me limitar aos aspectos “sérios”.
Sergio, o protagonista, nos relata tortuosamente sua trajetória desde os anos oitenta até os dias de hoje. Ele sofre de prisão de ventre, entrelaçada à relação edipiana com a mãe (que tentará reproduzir com Beatriz, vinte anos mais velha). O grande pensador Ernest Becker caracterizou o homem moderno como prisioneiro do que Freud chamou de fase anal. Ela seria o momento no qual diante da consciência da morte, forjaríamos nosso caráter enquanto couraça (neurótico, limitado, cheio de estratégias para enfrentar a realidade e os outros).
A analidade e a escatologia dominam DEC(AD)ÊNCIA. Um paralelo óbvio é com os narradores machadianos, como os de “Memorias póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro”, os quais simbolizavam, num discurso jocoso, repleto de exibicionismo de referências, para se mostrarem mais inteligentes do que sua classe social, embora acabem, com sua arrogância e desfaçatez, representando a burguesia nacional.
O achado formidável de Manoel Herzog não foi apenas parodiar o estilo do “Mestre da periferia do capitalismo”. O que Herzog conseguiu foi transportar a temática burguesa, provando que, após a abertura política, a elite encolheu o rabinho entre as pernas (sem contar as panelas). Depois dos governos de esquerda, todos os ranços, todas as mazelas, todo o armário de preconceitos, ódio classista veio à tona, de formas cada vez mais truculentas. Expressões como “decência” e “gente de bem” viraram escudos para a hipocrisia e a canalhice.
Sergio, um psicólogo renomado, mantém sua aura de decência enquanto divide falcatruas e orgias com um pastor evangélico, até a “a casa cair”; ele passa a escrever livros de autoajuda e fazer palestras motivacionais. Repentinamente, o intestino que tanto o atormentou, física e simbolicamente, obriga esse burguês tão empedernido a se defrontar com a finitude e o terror da morte. E, nós leitores, ganhamos um mestre na periferia do pós-tudo.

SEGUNDA PARTE

(Uma versão da resenha abaixo foi publicado originalmente em A TRIBUNA de Santos em 25 de abril de 2017)

Na minha última coluna, comentando DEC(AD)ÊNCIA (Patuá) do santista Manoel Herzog, ressaltei a narrativa em primeira pessoa (como em certos romances machadianos), o personagem principal (Sérgio), simbolizando a desfaçatez da burguesia brasileira, a qual ao longo da última década conseguiu destruir a nossa incipiente democracia.

Agora gostaria de mostrar DEC(AD)ÊNCIA como um romance enciclopédico, composto de várias camadas e referências, quase sempre paródicas, como que mostrando a “superioridade” do narrador. As brincadeiras com a linguagem, os inúmeros trocadilhos e cacófatos, o eterno debate com o seu suposto ghost writer, lembram os melhores textos de Vladimir Nabokov, o russo que, em “Lolita”, “Fogo Pálido” e “A Verdadeira Vida de Sebastian Knight”, fez coisas que até Deus duvidasse, com narradores sempre exibicionistas, justificando suas taras e perversões, ridicularizando os costumes americanos, a partir de uma origem aristocrática (por exemplo, o narrador de “Fogo Pálido” rouba o poema de um autor, pois acredita que a obra contém, criptograficamente episódios de sua vida como rei de um país chamado Zembla do qual teve de se exilar  e assumir a modesta existência como professor).

Assim como o nosso Machado de Assis e Nabokov, Manoel Herzog mostra a discrepância entre o que o narrador imagina ser e o que de fato é, num tom humorístico que quase faz o leitor rolar de rir, sem deixar (caso esteja atento) de saborear a fina ironia. Um dos momentos mais geniais de DEC(AD)ÊNCIA acontece quando Sérgio começa a dar palestras, assumindo a aparência  daquele professor pedante e pretensioso, o qual se apresenta como “filósofo” Luiz Felipe Pondé. O leitor agora sabe em que águas turvas e traiçoeiras ele se meteu.

Além dessas referências (e outras tantas, como trechos de canções populares) temos uma extraordinária paródia, no capítulo onde Sérgio descreve seu tumor no intestino, mostrando o aparelho digestório como se fosse as três etapas da “Divina Comédia” dantesca, inferno, purgatório e paraíso, correspondendo às metástases do seu câncer.

É o proverbial riso a caminho do patíbulo. Na ficção brasileira dos anos recentes só encontramos paralelo de DEC(AD)ÊNCIA em “O Livro dos Mandarins”, de Ricardo Lísias.

28/03/2017

UM CLÁSSICO DO MODERNISMO E DA CONTRACULTURA

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 28 de março de 2017)

Na semana passada, comentei Ao Farol, de Virginia Woolf, por conta dos 90 anos de sua publicação original. Outro clássico do modernismo, também surgido em 1927, ainda mais influente (marcou profundamente a época da contracultura, nos anos 60), é O LOBO DA ESTEPE, a mais conhecida obra do grande Herman Hesse.

Harry Haller, o protagonista, está chegando aos 50 anos obcecado pela ideia de degolar-se com uma navalha, para fugir da angustiante divisão do seu ser em duas personalidades: uma burguesa, que deseja calor, companhia (ele, um errante, sempre se hospeda em casas que lembram sua infância); outra, que ele denomina de “lobo da estepe”, misantropa e desadaptada, destinada à solidão e orgulhosa dessa condição.

Doris Lessing, a respeito de O Carnê Dourado (1962), romance que tem muitas afinidades com O LOBO DA ESTEPE, inclusive por causa da estrutura ousada e complexa, afirmou que às vezes pirar é uma forma de autocura, uma maneira de nosso eu interior eliminar falsas dicotomias e divisões. É o que acontece com Harry Haller: ele é convidado a participar de um Teatro Mágico, “só para raros e loucos”.

Esse teatro é sua própria personalidade. Hesse investe contra a pretensa unidade do eu. Na verdade, somos um feixe de eus: “Não há nenhum eu, nem mesmo o mais simples, mas um mundo plural, um pequeno firmamento, um caos de formas”.

E Harry, ao longo do romance, irá experimentar algumas das suas outras almas, numa saudável esquizofrenia, por assim dizer, tendo como guias Hermione e Pablo. Hermione é seu duplo feminino, a cortesã que o obriga imperativamente a usufruir da vida, a dançar, a praticar intensamente o sexo, a se dissolver “na festa”.

Pablo, por sua vez, é o belo músico aparentemente burro e tolo, mas que se revela o guia para os mais recônditos cenários do Teatro Mágico, aqueles onde Harry terá que se deparar com suas almas mais sombrias. Pois uma das “lições” da história de Harry Haller é que se precisa do humor, acima de tudo; para se encarar a vida a sério é necessário não se levar a sério. Como o Mozart do Teatro Mágico diz a Haller: “Aprenda a levar a sério o que merece ser levado a sério, e a rir de tudo o mais!”.

Contudo, o melhor de O LOBO DA ESTEPE é que não há soluções ou verdades definitivas, nem o personagem acaba bem, apaziguado, conciliado. Esse livro, na terceira leitura, como na primeira (e provavelmente numa quinta ou décima) é um duro e perturbador reaprendizado da sensibilidade e da percepção do mundo. E sempre restará ao leitor a esperança de, na próxima leitura, ter aprendido a jogar melhor o jogo da existência, desejo formulado por Harry nas frases finais.

21/03/2017

90 ANOS DE UMA OBRA-PRIMA DE VIRGINIA WOOLF

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de março de 2017)

AO FAROL, completa 90 anos de sua publicação original, mantendo seu status de um dos mais belos romances já escritos; muitos o consideram a obra-prima de Virginia Woolf (eu ainda prefiro As Ondas, mas é questão de gosto). Recentemente, teve a sorte de ser traduzido pela ótima Denise Bottmann, publicada pela Editora L&PM.

O livro conta, se é possível dizer isso, a história da família Ramsay, que passa o verão nas Ilhas Hébridas (costa da Escócia), com seus muitos agregados e “protegidos”. Todos ora admiram ora invejam ora se incomodam com a sra. Ramsay, que não só cuida para que tudo corra bem com seus oito filhos e o marido, um conceituado pensador, como também influi na vida alheia. A sua presença, a força da sua maternidade, são o centro das atenções: sua casa de verão está gasta e empobrecida, há expectativas frustradas (como um planejado passeio ao farol local, que não acontece) e problemas afetivo-românticos, mas aparentemente ela consegue manter tudo coeso.  Ela, em si mesma, é um farol, um centro fixo.

A sra. Ramsay domina a própria narrativa: seguindo o seu ritmo interior, Virginia Woolf (que se inspirou na própria mãe) suspende o tempo, por assim dizer, pois tudo que está integrado ao mundo, à existência pura, não o sente. É por esse motivo que a sra. Ramsay, aos 50 anos, desperta “algo” em homens e mulheres, e é por esse motivo que, no vai-e-vem cronológico, o leitor fica sabendo dos “fatos” muito mais pela ótica das personagens masculinas, intelectuais que não conseguem a suprema integração da sra. Ramsay ao espetáculo do mundo.

O poder da sra. Ramsay tem muito de ilusionismo: transmite a sensação de permanência e segurança.

Pois, como todos nós sabemos, o “tempo passa”. Na segunda parte, vem a Primeira Guerra Mundial, a sra. Ramsay e outros membros da família morrem e o círculo de amigos fragmenta-se.

Os sobreviventes reencontram-se na 3ª parte, anos depois, e finalmente realiza-se o tão almejado passeio ao farol. E é justamente na reconstituição desse projeto que todos constatam o efeito do tempo e a falta da mãe, e, ao mesmo tempo, se dão conta da ilusão que ela conseguiu manter enquanto viva, e como essa ilusão teve um poder mágico sobre suas vidas.

A “salvação” possível está na obra de arte, a única forma de se realizar no tempo, uma vez desfeita a integração com a natureza, com a mãe ausente. É o que faz Lily Briscoe, terminando seu quadro na praia: “A grande revelação nunca chegou. Ao invés disso, houve pequenos milagres diários, iluminações, fósforos inesperadamente acesos na escuridão e aquele era um deles… a onda estourando, a sra. Ramsay dizendo: Para aqui, vida! a sra. Ramsay tentando transformar o momento em alguma coisa permanente –isso seria da mesma natureza que uma revelação. No meio do caos havia uma forma”.

14/03/2017

UM COMENTÁRIO CURTO SOBRE UM LIVRO IMENSO: “TODO NAUFRÁGIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEDAGA”

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 14 de março de 2017)

Na semana passada, comentei o livro de o Naufrágio Entre Amigos, de Eduardo Sabino. Agora, a vez da coletânea de contos, TODO NAUFRÁFIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEGADA (Moinhos), de Marco Severo. Parece que a imagem mais pertinente da nossa civilização em colapso é estarmos naufragando, esse parece ser o Zeitgeist (o espírito de um determinado período histórico).

Mesmo para um leitor experiente, como é o meu caso, foi um assombro a leitura das primeiras páginas de Meio Amargo (não menos prezando o primeiro conto, Selvagem, do qual falarei mais adiante). Senti-me como um jurado do “The Voice”, girando a cadeira logo nas primeiras notas, descobrindo um autor para meu time de leituras prediletas.

Meio Amargo e Plantação abundante em terreno frágil, duas obras-primas, representam a maneira tortuosa e intrincada das narrativas de Marco Severo que lembra a força do primeiro Rubem Fonseca (o A Coleira do Cão) e as histórias da canadense Alice Munro, com os quais compartilha o vezo de transformar um texto curto num mundo em que você fica mergulhado, como se fosse uma série de romance encapsulados, e Plantação abundante em terreno frágil, lembra, com louvor o Nabokov de Fogo Pálido.

Os contos mais breves como o já citado Selvagem também são contundentes: trata-se da história de uma mulher que odeia tanto os elogios que a amiga faz do próprio filho que toma uma medida monstruosa.

Outra obra-prima, Na casa do cordeiro, o lobo anfitrião, lemos: “E se eu for pego? Se eu for, já era, me mato. Não se espante, porque eu sou você também. Você sou eu reprimido. Eu ganho a confiança pra montar minha armadilha. Eu faço os outros enxergarem o que eles gostariam de ver no mundo, naqueles poucos segundos entre o entrar no meu carro e o ficar do lado de fora. É um dom. O que nos difere é que eu desenvolvi, você não. Não pense que você é melhor do eu porque nunca matou ninguém. Você também é um predado. Nunca se esqueça, meu caro, que o cordeiro é também o caçador”. E em Plantação abundante em terreno frágil, vemos nitidamente o auto engano que justifica o comportamento dos protagonistas de Marco Severo: “Pouco me importa o que você vai pensar de mim. É a minha versão da verdade. E é com essa verdade que eu vou morrer, ainda que ninguém acredite”.

Os 20 contos de TODO NAUFRÁGIO É TAMBÉM UM LUGAR DE CHEGADA, que compõem um dos livros fundamentais da nossa época.

07/03/2017

DOS LIVROS HÍBRIDOS E DAS GERAÇÕES EM TRANSIÇÃO: Naufrágio Entre Amigos, Eduardo Sabino

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 7 de março de 2017)

Como é bom constatar que os jovens escritores recuperaram o prazer da narrativa (não menosprezando a prosa experimental, também um rico filão). Sejam autores que captam a insubstancialidade da pós-modernidade, sejam autores mais comprometidos com o mundo concreto, todos poderiam ter como música de fundo os versos cantados por Maria Bethânia: “Ou feia ou bonita/Ninguém acredita na vida real”. Por isso, no frigir dos ovos, a ficção sempre triunfa.

É o caso do ótimo NAUFRÁGIO ENTRE AMIGOS (Patuá), de Eduardo Sabino. Ele resgata o romance de geração (na verdade, trata-se de um livro de contos, porém, eu o considero uma obra híbrida, uma espécie de romance-móbile), aquela que sofreu a transição (para a qual os games contribuíram de forma decisiva) até a supremacia do mundo virtual e digital.

Na primeira parte do livro, Sabino narra uma infância ainda à antiga, onde o universo da meninada ainda era o mundo fechado em si mesmo (no caso, a cidade mineira de Nova Lima), apesar dos vislumbres dos conflitos entre os adultos e do “pensamento mágico”, envolvendo assombrações e aparições sobrenaturais, muito comuns no imaginário provinciano.

No meio do livro, já longe da terra natal, Eduardo, o narrador, se perde nos equívocos relacionamentos através da internet, apaixonando-se por uma poetisa, a qual não passa de um avatar de um professor maluco, criador de vários perfis “fakes” assistimos o final da infância e o naufrágio do mundo adulto.

A partir daí NAUFRÁGIO ENTRE AMIGOS torna-se um arquipélago (um tanto irregular, a meu ver) a segunda fase da sua adolescência em Nova Lima, através das histórias de seus amigos (os quais naufragaram na rotina e no comodismo; a própria cidade naufraga com a aparição de misteriosos buracos); em contrapartida, a descoberta do mundo além da escola e da família, marcando bem o repertório de signos que representaram a mudança radical entre duas gerações. Sutilmente, ele também registra o autoritarismo remanescente da ditadura militar como vemos na cruel caracterização dos professores: “Talvez seja melhor escrever uma enciclopédia dos educadores ruins. Organizá-los por filos, famílias, nomenclaturas. Mas estre cheiro de giz, esta falação no corredor, as paredes de tijolinhos ao redor, tudo isto vai me dando receio de ficar aqui pra sempre. Melhor ir logo ao diabo”. Como não naufragar com uma formação dessas?

28/02/2017

Destaque do Blog: ASSINATURA, de Valberto Cardoso

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 28 de fevereiro de 2017)

O conjunto de poemas de ASSINATURA (Editora Ideia) tem uma aura fortemente evocativa, lampejos de uma vida familiar; e em alguns poemas, uma atmosfera de atemporalidade. Temos uma espécie de ritual cotidiano pleno de significados, dos quais restaram a nostalgia, amargura; enfim, pistas criptografadas e resíduos: “Esta manhã/tem parecer poética/(outras linhas trariam um café um/cigarro o bolo de laranja o outro)/Mais que isso/o coração retorce/(pouco se escreve)/cujas partes mais ternas/podem causar-lhe a morte”. Um tempo onde a perenidade é marcada pelos “papéis assinados para o contrato da/eternidade”.

Os versos de Valberto Cardoso são graves, mas embora ASSINATURA seja um livro muito bonito, é bastante irregular; por exemplo o poema “Sê-lo” (de onde extraí os dois versos que fecham o parágrafo acima): “E se quebram, de fato/Não é a mesma barba/A mesma cama/O mesmo medo…//Beleza da fotografia/Composição e modernidade//Sou eu que te construo/E me arrependo/Quando exato o tempo/Me exume/Restos selos te envolvem/Na matéria apresentada/Dito assim parece místico/Mas é fato, rítmico//O olhar maduro, enfurecido, já desiste/O mofo do corpo era previsto/Tanto tanto que silencia/E de fato quebra/A esperança do dia”. Apesar da força das imagens, elas parecem colidir umas com as outras, gerando uma desarmonia, a qual se espalha pelos poemas seguintes, ora com versos graves, realmente inspirados; ora com versos que aspiram à gravidade, mas soam postiços e pedantes.

Vejam a força sintética de “Pedido”: “Lillian gosta da segunda-feira/da fono/da fisio/e do feijão preto”. Não é preciso muito para delinear uma existência patética e pungente. Outro achado é “Adivinhação”: “Minhavó jogava no bicho./Da fortuna ela não contava, mas eu sabia./Pegava a xícara branca, punha café morno ou/frio,/acendia um fósforo, novo, sem pavio,/lançava no café, pra ver fumaça ou bicho./Tapava a xícara com pires branco, sujo,/esperava por segundos,/e, autorizado pois, de lá surgiam/cavalo, cobra, gato, leão,/jacaré, porco, galo, pavão.//Eu via roda-gigante, peixe, balão,/carrinho, meu avó e bicho-papão!”.

Como se pode constatar, o poeta paraibano não precisa forçar a barra para alcançar o lirismo. É como o próprio Valberto Cardoso nos ensina em “Representação”: “Prefiro o amor em preto e branco/É mais simples/2 cores encarnadas, organizadas./Aliás, muitas cores têm levado o amor a/amostras/Curadorias, publicações,/Muitas em função da própria contradição”. É isso aí, “Adeus cores questionáveis!/A beleza não vem da experimentação”. Pena que ele não se norteie sempre por essa infalível bússola poética.

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