MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/02/2018

O “VOCABULÁRIO INTIMISTA” DE TIAGO GERMANO

 

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 13 de fevereiro de 2018)

“Houve um tempo em que as pessoas iam a restaurantes pela simples razão de ter fome. Hoje se vai a restaurantes por qualquer outro motivo, todos comprovadamente legítimos, menos esse. Eu mesmo já estive em alguns com o mesmo apetite de um doente de hospital. Não pretendia comer nada, até que me caiu em mãos o cardápio e logo descobri o recôndito sentido da sua existência: longe de lhe dar liberdade de opção, o cardápio lhe impõe uma escolha”. É um trecho de “Cardápios”, uma das maravilhosas crônicas de “DEMÔNIOS DOMÉSTICOS”. Na linha dos cronópios de Julio Cortázar, dos textos curtos de Robert Walser e da insustentável leveza de boa parte da obra de Italo Calvino, Tiago Germano faz sutis rasgos no tecido da realidade, desde estabilizando o senso comum. Ele mesmo o diz em “A coleção de palavras”: “E como um escritor coleciona palavras? Respondo exibindo uma parte do acervo que venho coletando desde a infância, quando as palavras que ouvia pareciam estar divididas entre aquelas que expressavam com a exatidão a ideia que pretendiam expressar e aquelas cujo sentido parecia não bater, como se tivessem sido inventadas só para não ficarem anônimas… ‘Poverty’ é uma palavra nobre, tanto quanto ‘andrajo’, que não pode ser listada no Aurélio como sinônimo de ‘trapo, farrapo’, porque absolutamente não se associa à miséria no meu vocabulário intuitivo”.

“DEMÔNIOS DOMÉSTICOS” é dividido em blocos: “A infância, seus modos e seus medos”, “O amor, seus gestos e seus gostos”, “A rua, suas bocas e seus becos” e “O oficio, seus mitos e seus mundos”. Do primeiro destaco “Malamen e o Extrato”: “A primeira aparição do Extrato se deu numa noite de quarta-feira, quando faltou dinheiro em casa e minha mãe perguntou a meu pai: ‘Você viu o Extrato? ’”. Do segundo bloco “Comendo paçoca”: “De repente, daquelas duas bochechas cheias de amendoim, vi brotar o único sorriso que restava de inédito no mundo”. Do terceiro bloco “Slogans de funerárias”: “O dilema de uma propaganda de caixão, entretanto, é bem mais profundo, está na essência do ser humano, no que há de mais inerente: a certeza de uma morte duvidosa. Como promover um produto que o cidadão não vai usar quando vivo? ”. Do quarto bloco “A crônica que jamais escreverei”: “Ela não está em lugar algum. E não estando em lugar algum, não sei ao certo onde procurá-la. E não sabendo onde procurá-la, procuro-a em todos os lugares, e às vezes, quando a noite se faz maior que o silêncio, eis que me deparo com suas palavras, mas ao me deparar alguma coisa dela me escapa, e tanto mais me escapa quanto mais me deparo, e é inútil tentar retê-la, porque dela não me é dado saber nada, nada além do fato de que jamais a escreverei”.

Mas a verdade é que não há nenhuma crônica que não tenha uma passagem memorável. Um dos melhores livros dos últimos anos: “No carro, quando era minha família que voltava da praia, fingia muitas vezes dormir para ouvir a conversa dos meus pais. Falavam de Claudia. Claudinha. ‘Morte estúpida’, diziam. E eu tentando imaginar como se podia morrer de maneira inteligente”.

 

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06/02/2018

BIDET OU PESSACH: EIS A QUESTÃO

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 06 de fevereiro de 2018)

Às vésperas do fatídico AI 5 (completa 50 anos), que aumentou a repressão da ditadura militar, Carlos Heitor Cony publicou um belo romance, “PESSACH: A TRAVESSIA”. O narrador, Paulo Simões, sente vergonha de suas raízes judaicas (pessach é um evento do fim da escravidão dos hebreus no Egito). Escritor desprezado pela esquerda, no seu aniversário de quarenta anos, recebe (seu amigo Silvio o chama para participar da luta armada) e faz várias visitas. Numa delas, o pai revela o temor de que o Brasil siga a Alemanha Nazista e lhe dá uma capsula com veneno.

No dia seguinte devido a uma cadeia de acontecimentos inesperados, Paulo acaba se juntando a um grupo guerrilheiro e inicia uma nova travessia.

Paulo é o típico herói do Existencialismo, para o qual a existência é gratuita e o indivíduo é livre e “disponível”. Mas, como somos seres contingentes estamos sempre “em situação”. Esse herói pode se engajar politicamente, gerando o absurdo (Albert Camus lastimava que o revolucionário amava “uma humanidade que ainda não existia”).

Paulo me lembrou de um extraordinário romance de Paul Auster, “A Música do Acaso”. Ambos se deixam levar pelos acontecimentos aleatórios e o acaso transforma-se em destino (Paulo se queixa de ser um prisioneiro e um guerrilheiro retruca que ele teve diversas chances de fugir).

“Olho a máquina: não foi para escrever sobre bidês que amealhei sofrimentos e espantos, tréguas e esperanças. Vontade de mandar um bilhete ao editor comunicando simplesmente: não escrevo mais sobre bidês. Vou para a luta. Minha luta não é a mesma de Vera, de Sílvio, de Macedo. Meu pai tem medo, medo milenar e carnal que acompanha os homens de sua raça. Esperou o fim da vida para sentir esse medo e esse compromisso. Lembro dele tocando violino na churrascaria, não parecia sentir o estigma que sobre ele pesava. É melhor escrever sobre os judeus que sobre os bidês. Enquanto Macedo hesita, sem saber se adere ou não às guerrilhas, eu tenho outra hesitação, mais estúpida e amarga: bidê ou Pessach”.

Esta é uma das grandes passagens do livro, que faz um uso notável do diálogo, que o torna muito atual e jovem, e tem um final estupendo, quando o acaso vira realmente destino.

 

 

30/01/2018

DIÁLOGOS ENTRE UM PADRE E UM ATEU

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 30 de janeiro de 2018)

Apesar do título amplo, “CRER OU NÃO CRER”, sete colóquios entre o padre Fábio de Melo e o historiador Leandro Karnal (duas personalidades midiáticas sobre as quais sempre tive reservas), restringe-se à esfera católica, pois temos um padre e um ateu que foi fundo na formação católica: “KARNAL: Fiz curso ainda jovem na diocese de Novo Hamburgo. Depois, foi em um Cascavel, onde fiz o noviciado. Recém-saído de uma aula de mística, uma senhora pediu a Eucaristia. Ela ligou para o padre, mas ele não podia. Eu acabei indo… Era uma estrada deserta e no caminho havia pessoal mal-encaradas. Eu me lembrei da história de São Tarcísio, que foi morto levando a Eucaristia. Foi apedrejado por outras crianças; então, naquele momento, eu desejei o martírio. Eu tinha 18 anos. Das bobagens que se podem fazer na juventude, desejar martírio é a menos grave (risos). Não fui apedrejado”.

Eu sou descrente e achava o papado uma coisa bizarra (tinha horror aos papas João Paulo II e Bento XVI), mas Francisco I é uma figura admirável, um daqueles anciãos (como o ex-presidente do Uruguai, José Mojica), cujo bom senso destoa do cenário lúgubre da liderança nacional e internacional, repleto de personagens odiosos: “PADRE FÁBIO: Quando a fé em Deus não se desdobra em amor à vida, a religião pode se tornar um instrumento de alienação, gerando um desprezo pela história e uma supervalorização da vida pós-morte. O desafio é estabelecer um caminho pelo qual possamos experimentar o equilíbrio entre a transcendência e a imanência”.

Eu era cético quanto ao livro. Achei-o bem acima da média. Não esqueçamos, porém, que todos (o papa, o padre e o historiador) estão inseridos na civilização do espetáculo: “Deus é vítima da inteligência humana”.

 

23/01/2018

Destaque do Blog: “Machado”, de Silviano Santiago

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 23 de janeiro de 2018)

No século passado, dois projetos monumentais ficaram inacabados. Eu os chamo de livros-link, que abrem a todo momento janelas para o leitor. Em “Passagens”, de Walter Benjamin tentava-se reunir todos os dados que explicavam como Paris tornou-se a capital do século dezenove. Em “O Idiota da Família”, de Jean Paul Sartre tomava-se um indivíduo e pesquisava-se toda a sua época.

Em “MACHADO”, guardadas as devidas proporções, Silviano Santiago escreveu um livro-link e conseguiu terminá-lo. Focando os anos de viuvez de Machado de Assis e a celeuma em torno da eleição para a Academia Brasileira de Letras de seu protegido e amigo, Mário de Alencar, filho de José de Alencar e escritor medíocre. A epilepsia é o fio condutor dos temas e personagens:

— Arte com o produto da doença;
— Miguel Couto, médico de Machado de Assis e Mário de Alencar, o qual se beneficiou com a encilhada, especulação financeira e imobiliária que mudou a paisagem social na transição da monarquia para a república;
— A radical reforma urbana que transformou o Rio de Janeiro levada a diante por Pereira Passos;
— A relação do pai de Gustave Flaubert com seu filho;
— O papel de Flora no romance “Esaú e Jaco”;
— A escrita de “Memorial de Aires”;
— A importância de José de Alencar e Joaquim Nabuco na vida intelectual de Machado de Assis;
— O simbolismo do quadro “A Transfiguração” de Rafael.

Eu sei, leitor, é preciso paciência e paixão, pois é um romance saturado, na linhagem de Thomas Mann, meu autor predileto. Eu já disse e repito: é o livro que eu gostaria de ter escrito.

16/01/2018

A MORTE DE CARLOS HEITOR CONY

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 16 de janeiro de 2018)

Sempre digo que não dá para ler tudo nem gostar de tudo. Mesmo assim, com a morte de Carlos Heitor Cony, fiquei perplexo ao constatar quão pouco li de sua obra, apenas dois livros: “ROMANCE SEM PALAVRAS” e “Matéria de memória”.

Acho genial o título “ROMANCE SEM PALAVRAS”. Queria saber como ele solucionou o paradoxo. O narrador relata a estória aparente, ligada à ditadura: ele dividiu a cela com um padre, Jorge Marcos, barbaramente torturado. Com a ajuda de Iracema, sua grande paixão consegue libertá-lo. Jorge Marcos desiste de seus votos religiosos e casa com a Iracema. Beto, o narrador, acompanha ao longo dos anos o aburguesamento do casal.

Mas há sempre a sombra do triângulo amoroso, pois Iracema é sempre esquiva, além de ambiciosa, Jorge Marcos se aproxima novamente da religião: “Iracema foi promovida. Diziam que fora rebaixada para cima, perdera fatias de poder na empresa mas fora compensada com um cargo mais alto e de melhor remuneração. Quando soube disso, desconfiei que ela própria manobrara no sentido de obter essa queda para cima”. Mais adiante: “—E o seu romance? Falta muito para terminar? – Não vou terminar nunca. Falta muita coisa para acontecer na minha vida… coisas sem palavras…”.

ROMANCE SEM PALAVRAS” se torna digno de Machado de Assis e Nabokov: “Foi uma visita apressada, nem tive tempo de avisá-la. Bati em seu apartamento, em Higienópolis, um prédio dos mais antigos do bairro. Ela veio abrir, ficou espantada quando me viu. Falou meu nome nem alto: — Beto! Que surpresa! Ouvi um barulho na sala ao lado, de alguém que se retirava às pressas. Enquanto beijava Iracema no rosto, vi o vulto desaparecer”.

De quem é o vulto? Aqui permanece o mistério tanto quanto o de eu ter lido tão pouco Carlos Heitor Cony.

02/01/2018

LEITURAS QUE MARCARAM 2017: PRIMEIRA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 02 de janeiro de 2018)

A minha lista de livros marcantes de 2017 segue o rastro do vácuo da ausência de Elvira Vigna.

Livro do ano: “As três mortes de Che Guevara”, Flávio Tavares, editora L&PM. Cinquenta anos após a morte do “ser mais completo da nossa época”, segundo Sartre, o fascínio de sua figura não esgota.

Além dele, destaco: “Sem Sistema”, de Andrea Catrópa, editora Patuá: de que universo paralelo e sulfúrico, Andréa Catrópa, trouxe suas histórias curtas, muitas vezes cores e tintas berrantes.

As Perguntas”, de Antônio Xerxenesky, editora Companhia das Letras: mistura com inteligência a incursão mística com uma rave, ou seja, o horizonte dos jovens urbanos, cínicos, que não acreditam em nada transcendente a não ser superficialmente.

Febre de Enxofre”, de Bruno Ribeiro, editora Penalux: príncipe da prosa sulfúrica, pornográfica e ultrajante, em seu primeiro romance.

Simpatia pelo Demônio”, de Bernardo Carvalho, editora Companhia das Letras: usando um personagem cobaia, um grande romance.

Como são cativantes os jardins de Berlim”, de Decio Zylbersztjan, editora Reformatório: textos brilhantes. O conto-título é uma obra-prima.

Naufrágio entre amigos”, de Eduardo Sabino, editora Patuá: primorosa coletânea mostrando o ressurgimento do amor à linguagem.

O mergulho”, de Juliana Diniz, editora Megamíni: como a escritora cearense consegue criar uma linguagem diáfana e tão robusta?

Em Conflito com a Lei”, de Lucas Verzola, editora Reformatório: o livro surpresa do ano, contundente e magnífico.

Fragmentos de um exílio voluntário”, de Lucio Autran, editora Bookess: Poesia.

Uma fuga perfeita é quase sem volta”, de Marcia Tiburi, editora Record: finalmente, a autora gaúcha acertou plenamente no romance, mostrando o retrocesso da ordem mundial.

Todo naufrágio é também um lugar de chegada”, de Marco Severo, editora Moinhos: Senti-me como um jurado do “The Voice”, girando a cadeira logo nas primeiras notas, descobrindo um autor para meu time de leituras prediletas.

O Indizível sentido do amor”, de Rosângela Vieira Rocha, editora Patuá: um dizível abalo no coração, um mergulho na dor.

(Continua na próxima semana).

 

26/12/2017

LEITURAS QUE MARCARAM 2017: PRIMEIRA PARTE

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 26 de dezembro de 2017)

A minha lista de livros marcantes de 2017 segue o rastro do vácuo da ausência de Elvira Vigna.

Livro do ano: “AS TRÊS MORTES DE CHE GUEVARA”, Flávio Tavares, editora L&PM. Cinquenta anos após a morte do “ser mais completo da nossa época”, segundo Sartre, o fascínio de sua figura não esgota.

Além dele, destaco: “Sem Sistema”, de Andrea Catrópa, editora Patuá: de que universo paralelo e sulfúrico, Andréa Catrópa, trouxe suas histórias curtas, muitas vezes cores e tintas berrantes.

As Perguntas”, de Antônio Xerxenesky, editora Companhia das Letras: mistura com inteligência a incursão mística com uma rave, ou seja, o horizonte dos jovens urbanos, cínicos, que não acreditam em nada transcendente a não ser superficialmente.

Simpatia pelo Demônio”, de Bernardo Carvalho, editora Companhia das Letras: usando um personagem cobaia, um grande romance.

Febre de Enxofre”, de Bruno Ribeiro, editora Penalux: príncipe da prosa sulfúrica, pornográfica e ultrajante, em seu primeiro romance.

Como são cativantes os jardins de Berlim”, de Decio Zylbersztjan, editora Reformatório: textos brilhantes. O conto-título é uma obra-prima.

Naufrágio entre amigos”, de Eduardo Sabino, editora Patuá: primorosa coletânea mostrando o ressurgimento do amor à linguagem.

O mergulho”, de Juliana Diniz, editora Megamíni: como a escritora cearense consegue criar uma linguagem diáfana e tão robusta?

Em Conflito com a Lei”, de Lucas Verzola, editora Reformatório: o livro surpresa do ano, contundente e magnífico.

Fragmentos de um exílio voluntário”, de Lucio Autran, editora Bookess: Poesia.

Todo naufrágio é também um lugar de chegada”, de Marco Severo, editora Moinhos: Senti-me como um jurado do “The Voice”, girando a cadeira logo nas primeiras notas, descobrindo um autor para meu time de leituras prediletas.

O Indizível sentido do amor”, de Rosângela Vieira Rocha, editora Patuá: um dizível abalo no coração, um mergulho na dor.

(Continua na próxima semana).

19/12/2017

Destaque do Blog: “Em Conflito com a Lei”, de Lucas Verzola

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 19 de dezembro de 2017)

Esta resenha vai desagradar quem defende a diminuição da maioridade penal e costuma dizer “e aí vem os direitos humanos”. Os protagonistas e narradores de “EM CONFLITO COM A LEI”, de Lucas Verzola, são menores infratores que roubam, traficam, estupram, assassinam, internos da Fundação Casa ou estão em liberdade assistida ou cumprem medidas socioeducativas.

Esse amplo leque é arrasador, pois como exigir civilidade de quem nunca foi tratado como um cidadão e não tem ferramentas mentais para entender a barbárie na qual estão mergulhados: “O menino sem pai sem mãe sem tio sem tia sem irmão sem irmã. Só tem conselheira tutelas. As meninas sem pai sem mãe sem tio sem tia. Pelo menos uma tem a outra de irmã. As meninas no computador da sala mexendo na internet facebook globo yahoo. O menino olha e grita minha vez minha vez. As meninas falam gordo fedido sem mãe retardado. O menino pega a antena e cutuca as meninas. As meninas falam baixinho filha da puta preto vou contar pra tia que você passou a mão em mim. O menino é mentira é mentira. E bate com a antena. E elas choram. E ele chora. E a tia chega. Ele é tarado falou que ia colocar o pau na minha xoxota. É mentira é mentira eu só quero o computador não sou fedido não sou gordo. Menino, isso é coisa de polícia, isso é coisa de promotor, isso é coisa de juiz. O menino sem pai sem mãe sem tio sem tia sem irmão sem irmã com polícia com promotor com juiz. O menino sem”.

O grande feito de Lucas Verzola é mostrar como, acuados entre a aversão da população, a linguagem jurídica incompreensível e as medidas hipócritas, eles, com um vocabulário mínimo elaboram um raciocínio repetitivo curto circuitado, mas sempre expressivo: “Tanto que eu estava tomando conta de um vasinho e pensando no mundão quando os policiais chegaram gritando perdeu perdeu, me obrigando a assumir B.O. de tráfico e a confessar que meu barraco era biqueira, se não apanhava mais e mais, apesar de dor física alguma ser maior que a ilusão de ver tua casa estraçalhada. E, daqui da Fundação, o que eu mais tenho curiosidade é de saber se a minha ausência já se fez tão grande quanto a do Gerson e se ainda chamam meu cantinho de barrado do Wesley, ou se não terei lugar algum pra retornar quando eu sair daqui”.

“EM CONFLITO COM A LEI” deveria ser leitura obrigatória para “coxinhas” e defensores da meritocracia.

12/12/2017

Zonas de Conflito: “Simpatia pelo Demônio”, de Bernardo Carvalho

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 12 de dezembro de 2017)

Como todos sabem, os ratos (para vergonha da humanidade) são as cobaias por excelência. O protagonista de “SIMPATIA PELO DEMÔNIO” é chamado de Rato. Ele é demitido da agência que presta “serviços humanitários” em zonas de conflitos (na verdade, ele já estava “queimado”). Aceita uma missão absurda e quase suicida, pagar a terroristas o resgate de um refém desconhecido, indo para uma cidade em escombros, onde cada quarteirão é dominado por facções, embora a situação política e as coligações mudem a todo momento. Após um atentado, perguntamos: terá a cobaia caído numa armadilha?

O livro de Bernardo Carvalho muda então drasticamente. Misturando várias instâncias temporais, veremos Rato apaixonado pelo mexicano Chihuahua, que o manipula. Discípulo do grande pensador da violência e da inveja, René Girard, faz do Rato uma cobaia de experimentos afetivos, passionais e sexuais, um verdadeiro bode expiatório.

Mas estamos no universo de um mestre da insubstancialidade e das narrativas tortuosas (e repletas de digressões, como a transformação semântico-social de expressões como “perdeu, perdeu”). Mesmo em terceira pessoa, como acreditar que tudo é verdade?

“E ele chorou ainda mais forte, ouvindo aquele oratório de inspiração cristã, destruído pelo entendimento de que estivesse condenado à inveja e à luxúria, e que inveja e luxuria nada mais eram do que solidariedade e compaixão cósmicas reduzidas a pecado pela miséria do lugar onde agora ele se encontrava. Chorava de vergonha. Não tinha coragem de olhar para os lados. O que ele perdera não fora só o chihuahua, mas uma ideia de mundo e uma ilusão. Sem o chihuahua, agora ele sabia, não havia mais ligação cósmica possível, ele estava condenado a pecar”.

“SIMPATIA PELO DEMÔNIO” é o melhor romance de Bernardo Carvalho desde “Nove Noites”, sua obra prima.

05/12/2017

OS SETENTA E CINCO ANOS DE MARIA VALÉRIA REZENDE

Filed under: Homenagens — alfredomonte @ 19:19
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originamente em A TRIBUNA de Santos em 05 de dezembro de 2017)

Prestes a completar 75 anos (em oito de dezembro), a santista, paraibana, vastomundense Maria Valéria Rezende, recebeu o mais polpudo prêmio brasileiro, o São Paulo de Literatura. Talvez agora as pessoas se apercebam que ela é o nosso José Saramago. Ambos começaram tardiamente, contudo na plenitude de seus recursos de linguagem.

Já no seu primeiro e emblemático livro, “Vasto Mundo”, ela apresentava um universo completo, o mundo rural de Farinhada. Recentemente, ela unificou esse mar de estórias num romance na linhagem de “O Povoado”, de William Faulkner.

Seu segundo livro “O Voou da Guara Vermelha”, reafirma a necessidade de narrar o vivido para lhe dar um sentido e traz o tema atualíssimo do trabalho escravo. “Um corpo de homem aguenta mais do que a gente imagina, por vontade de viver, mas a alma é outras coisas, vai morrendo mais depressa quando perde a esperança”. Um decreto indecente tornou mais verdadeira e contundente esta frase.

Logo a seguir veio a coletânea “Modos de Apanhar Pássaros a Mão”, com temática mais urbana e técnicas diversas. Tinha até um vampiro que se apaixonava por nossas churrascarias.

Porém, durante uma década ela mergulhou na literatura infanto-juvenil, fora as traduções. Sua produção nessa área é excelente, mas eu temia que sua obra adulta caísse no esquecimento então apareceu o avassalador “Quarenta Dias”, tratando das pessoas “invisíveis” das grandes cidades. Ganhou o Prêmio Jabuti de romance e livro do ano. E com sua obra-prima “Outros Cantos”, sua produção adulta firmou-se de vez.

Um ponto que une Maria Valéria e Saramago é que eles nos reconectam à humanidade, ao que deveríamos ser. Por essa razão considero o conto “O Muro” (premonitório se pensarmos em Donald Trump) a chave de sua obra, uma mulher que escolhe o descenso social e a ascensão espiritual, isto é, fraternal: “Nem pensei em voltar para a passagem no muro. Deus atirou-me para dentro de seu samburá de estreita boca, já não me debato. Soube logo que subiria, mas não por qual caminho, até que vi, pouco mais adiante, numa parede suja daquele mesmo beco, a marca do menino magro, fresca e brilhante, um fio de vermelho líquido ainda escorrendo. O único sinal que eu, vagamente, podia interpretar, neste mundo estranho onde nunca antes sequer imaginei penetrar. Meti-me pela viela que, alguns metros adiante, ao topar com uma parede de zinco e madeira carcomida, quebrava-se para a esquerda. Ninguém. Tive a impressão de que já não havia mais ninguém nesse labirinto, só eu e o menino pichador, porque pouco antes de que o caminho se bifurcasse, mais acima, vi outra vez a rubra assinatura. Sem outro fio senão aquele para guiar-me, eu o segui. Hesitei na bifurcação, mas ela estava lá outra vez, a marca, dizendo-me que lado escolher, direção que tomei sem mais duvidar, entranhando-me na armadilha das ruelas intrincadas”.

 

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