MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

15/08/2017

Antonio Cícero, O Novo “Imortal”

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 15 de agosto de 2017)

O meu leitor sabe que desprezo a Academia Brasileira de Letras e as indicações geralmente confirmam esse sentimento, caso do mais novo imortal, Antonio Cícero, bom letrista, mas mau poeta e pífio filosofo.

Temos um misto de helenismo, hedonismo e homoerotismo, ou seja, referências à cultura greco-romana clássica (“Vai e diz ao rei/ cai a casa magnífica/ O santuário de apolo/ fenece o louro sagrado”) e uma procura do prazer, do corpo masculino bonito, do momento perfeito em que esse corpo se insere numa paisagem, num instante de beleza.

Antonio Cícero está para Konstantinos Kaváfis como o chup-chup para o sorvete. Temos de aguentar elegias para surfistas, hinos às furtivas caçadas gays em parques e aborrecidas alusões clássicas. Logo no início ele avisa: “Jamais regressarei à Esparta”. Esse tom solene logo é substituído pela necessidade estridente de exaltar o corpo masculino da forma mais ávida, óbvia, servil e constrangedora possível: “Hesitante entre o mar ou a mulher/ a natureza o fez rapaz bonito/rapaz/ pronto para armar e zarpar”; ou então: “Dormes/Belo/ Eu não, eu velo/Enquanto voas ou velejas/ E inocente exerces teu império/ Amo: o que é que tu desejas/ Pois sou a noite, somos/Eu poeta, tu proeza/ E de repente exclamo/Tanto mistério é/Tanta beleza”. E o leitor exclama: quanta abobrinha!

E o leitor exclama isso porque ainda está na página 53 e não viu o que tem pela frente. Ele ainda não chegou a um poema chamado “Onda”, onde se fala de um garoto conhecido no Arpoador, “garoto versátil, gostoso/ ladrão, desencaminhador/ de sonhos, ninfas e rapsodos”. E o que o nosso poeta/rapsodo faz? Segura o tchan? Não: “Comprei-lhe um picolé de manga”. Não é lindo, não é bucólico? Mas ele é recompensado: “…e deu-me um beijo de língua/ e mergulhei ali à flor/ da onda, bêbado de amor”. E ainda estamos apenas na página 57.

Há, é claro, poemas onde se fala do ser, da poesia, do tempo, não se fique com a impressão de que ele só pensa naquilo, porém por que será que sentimos que eles são só embromação para o tema principal?

Depois do picolé do garoto versátil, chegamos ao verdadeiro banana split que é o poema “Eco”: “A pele salgada daquele surfista/parece doce de leite condensado”. Não é lírica essa conjunção agridoce de pele salgada com doce de leite condensado?

Os cicerólogos do mundo da cabeça oca terão muitos símbolos fálicos a desvendar: picolés de manga, pranchas em riste, embora o poeta não perca tempo em sutilezas: “O amante/ Cabeça tronco membro/Eretos para o amado/ Não o decifra um só instante…/ Já o amado/Por mais ignorante e indiferente/Decifra o seu amante/De trás pra frente”. Ao leitor comum restará a saudade de uma letra tão bonita como o “Menino do Rio”, de Caetano Veloso.

Kaváfis também cultuava o fálico. Ele tem um conselho a si mesmo que poderia ser útil a Antonio Cícero: “Esforça-te, poeta, para retê-las todas/embora sejam poucas as que se detêm/ As fantasias do teu erotismo/ Põe-nas, semi-ocultas, em meio às tuas frases/ Esforça-te, poeta, por guardá-las todas/ quando surgirem no teu cérebro, de noite/ ou no fulgor do meio-dia se mostrarem”…

 

08/08/2017

O Dia do Pai

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 08 de agosto de 2017)

“Mas, pensei eu, onde estão as pessoas? Como resposta, avistei, repentinamente, como que surgida de lugar nenhum, uma mulher de certa idade, à frente da casinha.
Como todas as mulheres (até aí, às 3 da tarde, havíamos encontrado apenas duas em nosso caminho!), esta era magra e tostada pelo sol, mas, evidentemente, não tinha a pose e o viço das ‘garotas de Ipanema’; ao contrário, a compleição franzina e ressequida da mulher parecia decorrer de uma força inexorável e imaterial, não explicada por qualquer ciência – até porque a ‘ciência’, na busca de clientela mais rica, costuma se aboletar no conforto das grandes cidades e pouco se interessa pelas vidas largadas a esmo no coração da floresta”.

Em CHORO POR TI, BELTERRA!, de Nicodemos Sena, narra-se um dia em que o autor acompanha o pai até a região de Belterra, onde este vivera os anos mais felizes da sua mocidade, uma época na qual os norte-americanos exploraram a extração das seringueiras, trazendo uma efêmera prosperidade a esse rincão do Pará.

Sessenta anos depois encontram um lugar arrasado, onde os poucos seres viventes parecem fantasmas e as estradas não levam a lugar nenhum, típico descaso das autoridades brasileiras.

Gostei de CHORO POR TI, BELTERRA!, mas o autor irrita com explicações didáticas completamente dispensáveis. Em compensação poucas vezes vi materializada a ternura entre pai e filho, sem pieguice embora um tanto repetitiva: “ ‘Onde essa estrada vai dar? Será que em algum ponto se encontra a Estrada Um, onde tudo começa? Sei que Belterra está lá, mas onde? Será mesmo que ainda existe? ’, falou baixinho meu pai, talvez para que eu não lhe ouvisse; talvez temendo seguir em frente e descobrir que a sua Belterra existia já apenas em sua mente. Ou talvez a encontrasse tal qual era, perdida e solitária, habitada por uma gente inconsciente de seu destino, disposta a servir e ao mesmo tempo sabotar a quem se impusesse como senhor de suas vidas”.

Mais adiante: “Eu procurava acompanhar todos os movimentos do meu pai, que ia daqui para lá e de lá para cá, como um menino que de repente se vê andando no mítico espaço de um sonho. Ao deixarmos o nosso hotel, pela manhã, em Santarém, falei para mim mesmo que naquele dia dedicar-me-ia inteiramente ao meu pai. De uns tempos para cá, esforço-me em conhece-lo, compensar o ‘tempo perdido’, pois, quando eu tinha oito meses de idade, a minha avó Guida, mãe de papai, adotou-me como seu ‘xerimbabo’ (bichinho de estimação) e nunca mais deixou que meus pais me levassem de volta para casa, de sorte que um vazio de afeto se instalou no meu coração de menino, e esse vazio só aumentou com o passar do tempo, e é por isso que meu pai, nessa decisiva altura da vida, tornou-se muito importante para mim”.

 

01/08/2017

Suelen Carvalho e os vultos do passado

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 01 de agosto de 2017)

Só existe o presente, afirma a madre superiora de um convento de carmelitas à protagonista de O PASSADO É LUGAR ESTRANGEIRO, o passado não existe mais. Mas é a presença maciça do passado que aflige Diana, desde o suicídio do marido, de quem descobriu um horrível segredo.

No seu romance de estreia, Suelen Carvalho correu o risco de cair na imitação de Clarice Lispector. Há vestígios disso. Felizmente, ela escapou da armadilha, escrevendo um relato ambientado em Belém do Pará, assim como Débora Ferraz em “Enquanto Deus não está olhando” com João Pessoa, vigorosamente moderno, urbano sem nenhum folclorismo.

O PASSADO É LUGAR ESTRANGEIRO se divide entre uma narrativa em terceira pessoa e um soliloquio que não respeita as margens da página. Acompanhamos a desagregação e isolamento de Diana, que passa a não suportar cores e lembranças, as quais se personificam em vultos. Por isso a compulsão de uma vida monástica que a aparte do passado, o qual ela sente fisicamente: “Ela calçava sandálias, que ficaram completamente sujas. O barro molhado em seus pés lhe causou asco, o que gerou uma grande pressa de voltar para casa e tomar um banho. Lama é uma coisa muito real para ser tocada”.

Suelen Carvalho é uma autora muito inteligente: ela alterna a encomenda de um hábito de freira com a recordação do vestido de noiva de Diana. E sua voz agônica vem se juntar à poderosa ficção feminina atual. A voz feminina está tão presente que se apropria da voz de autores masculinos. A heroína de O PASSADO É LUGAR ESTRANGEIRO podia ser irmã das personagens de Roberto Menezes, as de “Julho é um bom mês para morrer” e “Palavras que devoram lágrimas”.

 

25/07/2017

Destaque do Blog: “Naufragar Jamais” de Pedro Alberto Ribeiro (Poeta em Queda)

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicado originalmente em A TRIBUNA de Santos em 25 de julho de 2017)

“Ela planejava o impossível/ com o dedo no vidro embaçado/ esperando ele voltar// hoje, divide a cela com outras oito/ e impossível é não usar a alma inteira// o peso da grade é como água/ abafando a música de pássaros imersos/ num aquário em cima da geladeira//”. Estes versos fazem parte do poema “Pássaros Imersos em Aquário”, um dos cadernos de NAUFRAGAR JAMAIS.

A 11Editora investiu num projeto ousado, publicar os poemas de Pedro Alberto Ribeiro (Poeta em Queda) em cadernos soltos, deixando livre ao leitor a ordem da leitura, embora mantendo uma unidade incrível até na ocupação da página em branco, pois são todos muito parecidos (e isto não é uma crítica).

“Tenho vestido minha pele/ como quem lança dados/ sem saber as chances de perder// descobri que viver tem gosto de domingo/ passeio com cachorro/ receitar mal seguida//”. Sempre uma impressão de confinamento, de limite. “Quem não carregue/ nos olhos toda a expressão/ e possa mantê-los abertos/ mesmo em poeira seca// Pode-se que levantem a mão/ os seres perecíveis, de carne/ frágeis ao fogo/ e com uma estranha tendência à insônia// Procura-se/ quem ainda queira/ encontrar//”.

“Eu te visto como um rio/ acampo como onda// indo/ e/ vindo/ sem fazer da saudade/ motivo para dramas// Tudo é chão// Silêncio// (teu abraço/ quando vai/ sempre acaba/ por ficar//)”. Ainda se fazem poemas de amor.

“Estes versos já não falam nada// Sem cadência/ nenhuma estrela/ ilumina a parede branca do banheiro// Se tivessem de falar/ estes versos seriam uma selfie/ tirada um segundo antes do blecaute// Talvez habitassem a foto/ algumas cores misturadas/ brincando de encontrar nas diferenças/ outra coisa que não uma palidez// Talvez caleidoscópios manuscritos/ aquarelas ainda por usar// Coisa qualquer/ para preencher a vida// Mas estes versos já não falam nada/ e nenhuma cor habita/ a hora inconfidente/ da água jorrar pelos ombros//”. Estes versos que já não falam nada talvez sejam os mais contundentes do livro.

“Os restos no prato dizem o que a boca não comeu// Escorre sangue no fio dental/ mais violento que a lâmina// Tóxicos, os agros fazem seus negócios/ num paladar para o qual a vida é/ indigesta// (é preciso café para trabalhar para/ comprar café para trabalhar)//”. Não poderia terminar esta resenha de modo mais brilhante.

 

 

 

18/07/2017

A MORTE DE ELVIRA VIGNA, UM GÊNIO LITERÁRIO

Filed under: Homenagens — alfredomonte @ 14:03
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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 18 de julho de 2017)

No café, em João Pessoa, depois da apresentação do seu novo livro, POR ESCRITO, e de um sanduíche, Elvira Vigna espera os chuviscos passarem e espia para ver o que vai acontecer ainda… Chega uma senhora e pergunta:

__ Então, está satisfeita?

__ Satisfeita, eu, não! Nunca!

__ Mas por quê?

__ Acho que é porque eu quero demais da vida.

__ E o que é que você quer agora?

__ Tempo, acho que a gente sempre precisa de mais tempo.

A senhora foi embora… depois informaram à Elvira: era a dona do Café! Queria saber se ela gostara do sanduíche.

No dia seguinte, nem abriu o jornal para não ver a manchete inevitável: “Proprietária de café se suicida em João Pessoa”.

Rigorosamente verídico, o diálogo acima é um típico-Elvira (para usar uma expressão cunhada por ela mesma) ao vivo!  Poderia estar em qualquer um de seus romances.

Cada vez mais, tenho a certeza de que Elvira Vigna era um gênio literário, como Juan Carlos Onetti e Samuel Beckett. Seu primeiro livro, “Sete Anos e Um Dia”, era uma crua e áspera alegoria dos anos de “abertura”. Mas seu primeiro sucesso, marcando uma intensa parceria com a Companhia das Letras, foi “O Assassinato de bebê Martê”, o qual começa a desvendar o universo dos emergentes, principalmente mulheres que se reinventavam, carregando o peso do passado, como o Brasil. Aí veio a sequência “Às Seis em Ponto”, “Coisas que os Homens não Entendem”, “Deixei ele lá e vim”, “Nada a dizer”, “O que deu para fazer em matéria de história de amor”.

Aí veio sua obra-prima, POR ESCRITO, onde o agônico superava o cáustico: “De antemão, decido. Vou tentar botar isso aqui no passado, com os verbos no passado. Não sei se vou conseguir.  Já tentei antes, mas não consigo deixar essas coisas no passado, aliás nem sei se existe isso, o passado. Acho mesmo que é como se eu estivesse num espaço assim, meio sem contorno marcado, em que as coisas entram e saem, em que os tempos convivem, Molly dança com um cara grande e quando ela dança, ela também, ao sentir a pressão do pau dele contra seu corpo, haverá de lembrar de outro pau, mais fino, mais ardido, ela também presa, dessa vez não pelas mãos grandes que a enlaçam, mas pela trama de uma colcha de rendão nas suas costas e aquele outro cara também vai estar lá, no espaço que também é meu e não só dela, todos juntos, os tempos todos juntos”.

E quem imaginaria que ela radicalizaria mais ainda em seu último livro, “Como se estivéssemos em palimpsesto de putas”. Coisas de gênio.

 

 

11/07/2017

UM LIVRO COM MOMENTOS MEMORÁVEIS

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 11 de julho de 2017)

Inicio esta resenha reiterando dois clichês: um, de ordem geral, a qualidade dos novos autores (quando se pensava que a língua estava em declínio, eis um rol de virtuoses) outro, especificamente, exaltando a fluência narrativa, apesar da densidade da prosa de “A ORAÇÃO DO CARRASCO”, de Itamar Vieira Junior.

Ele gosta de nos levar para o recôndito, quase alegórico em “A floresta do adeus”, uma cerca imensa de arame farpado surge do nada, separando gerações até perder sua aura: “As cercas entortam a cada dia, as pessoas se escoram sem medo, urdindo a queda lenta do que lhes separa, cada ferida aberta no metal vai se tornando parte de cada corpo, então não há importância se todos se ferem, os filetes de sangue deixam os corpos como minúsculas pétalas, petúnias encarnadas florescem na aridez da estrada, na luz morta da Floresta do Adeus”. Infelizmente, após um começo inspirado, Itamar enxerta páginas gratuitas que parecem esboço de um romance.

Também há problemas no conto-título, no qual os primogênitos herdam o oficio de carrascos. Há uma bela litania e depois uma cena brutal de iniciação marcada pelas sombras no solo. A seguir lemos uma mixórdia de proselitismos e filosofismos.

Em compensação “Alma” é um texto irretocável. Conta a fuga de uma escrava, embrenhada no sertão. A cruel ironia é que, malgrado seu nome, acompanhamos seu martírio físico, cada ferida. Em contraste: “Essas coisas boas, essas coisas tristes, nada sai de minha cabeça, vou lembrando as coisas, de cada filho que me levaram, aquele homem era como Inácio velho, Inácio que nunca será velho, ele podia se deitar aqui na tina, para ver se a imagem desse homem que pareceu na crueldade de meus senhores, cheios de rancores quando jogavam pragas ao vento por toda a riqueza que perderam”.

 

04/07/2017

SUGESTÕES DE LEITURAS NAS FÉRIAS

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 04 de julho de 2017)

Este ano marca o cinquentenário de vários clássicos modernos. Aliás, em 1967, o prêmio Nobel descobriu a existência da Guatemala, com a vitória de Miguel Angel Asturias, autor de “O Senhor Presidente”.

“Cem anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez, um dos mais influentes e amados livros de todos os tempos, mistura uma saga familiar com o avanço das multinacionais, o próprio autor colombiano ganhou o Nobel em 1982;

“As Confissões de Nat Turner”, de William Styron, que narra uma violenta revolta de escravos e onde o autor de “A Escolha de Sofia” mostra uma formação religiosa ambígua do negro americano, aliás o romance foi rejeitado pelo movimento negro;

“Ópera dos Mortos”, de Autran Dourado, que traça uma tragédia familiar como alegoria da republica velha nesse país, “Onde Política é ter a Mão na Bosta”, ele forma uma trilogia com “Lucas Procópio” e “Um Cavalheiro de Antigamente”;

“A Brincadeira”, de Milan Kundera, no qual uma brincadeira irreverente em plena ditadura soviética arruína o protagonista, e uma obra-prima;

“Quarup”, de Antônio Calado, um padre cheio de dúvidas se envolve com o problema indígena, eu não gosto do livro mas sou minoria.

 

 

27/06/2017

O QUE TEMER DE CUNHA

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 27 de junho de 2017)

Parece que já temos o livro do ano, infelizmente, a batalha judicial para liberar DIÁRIO DA CADEIA COM TRECHOS NA OBRE INÉDITA IMPEACHNENT: EDUARDO CUNHA (PSEUDÔNIMO), acabou revelando a verdadeira autoria, Ricardo Lísias.

No romance, Cunha está escrevendo “impeachment” onde revela que seu mentor político foi Paulo César Farias, que lhe ensinou a receita da propina: “É verdade, mas eu sempre fui assim, respondi. Sempre gostei muito de trabalhar e fazer arquivos com informações é uma das partes que mais me dão prazer no meu trabalho. Se eu parar de fazer isso aqui, aí é que perco o meu equilíbrio mesmo. Já não tenho a igreja para ir, com exceção das redes sociais, ninguém está respondendo as minhas comunicações.
Nem meus trusts estão ao meu alcance”. Ou seja, o Cunha que conhecemos: chantagista, cabotino, jactancioso.

Há momentos impagáveis (citações bíblicas, uma surra no jornalista Mário Sérgio Conti, palavrões, situações que o leitor de Lísias conhece bem, tiração de sarro do nosso presidente poeta: “Agora, boa noite aos leitores/Nessa vida a gente se afeta/E as coisas nos trazem dores/E então o político vira poeta//Eu pelo menos vou à luta/Já você, Temer, o presidente/É um bom filho da puta/E agora sempre desmente//Mas fizemos muitas reuniões/Para conseguir bastante verba/E você sabia bem as condições/Por fim: sua poesia é uma merda”).

Em contrapartida há uma dimensão patética: o todo poderoso, o ardiloso, começa a sentir o progressivo ostracismo, “nenhum bilhete respondido”, o que Cunha fará? Pois ele vai se tornando um personagem lisianico, perdido entre a linguagem e o caos.

“Michel Temer – Seus limites

  1. Conhecimento de política brasileira – notável
  2. Conhecimento de economia e finanças – notável
  3. Conhecimento de relações interpessoais na política – péssimo
  4. Conhecimento de alma humano – catastrófico
  5. Humildade – inexistente
  6. Conhecimento da palavra de Deus – inexistente
  7. Bondade de capacidade de perdoar – inexistente
  8. Respeito aos valores cristãos – nulo”.

 

20/06/2017

OS CINQUENTA ANOS DE ÓPERA DOS MORTOS

 

(Uma versão originalmente publicada em A TRIBUNA de Santos em 20 de junho de 2017)

Autran Dourado é um dos meus autores do coração, por isso ele aparece tanto nesta coluna. Sua obra-prima, ÓPERA DOS MORTOS (Rocco), completa 50 anos em 2017.

O romance conta a história da principal família de Duas Pontes, no início da República. Rosalina, a última dos Honório Cota, mantém-se trancada no sobrado familiar, recusando-se a qualquer tipo de ligação com a cidade. Após longos anos de isolamento, Rosalina admite como empregado Juca Passarinho, um malandro boa-vida, “apenas porque não é da cidade”. Juca descobrirá o segredo de Rosalina: ela se embebeda todas as noites.

A dona do sobrado Honório Cota acaba enlouquecendo e apavora os habitantes, ao ficar entoando uma cantiga estranha no cemitério. Até que se descobre a identidade do “fantasma” e a cidadezinha tem a oportunidade de entrar novamente no sobrado, que lhe parecia definitivamente vetado: “Agora a gente estava de novo no sobrado, esperando. De uma certa maneira todo mundo ficava de dono da casa… A confusão, a promiscuidade era geral. Já mexiam nos armários, nas panelas, tinha gente que fazia café”.

Essa “profanação”, por assim dizer, do sobrado Honório Cota, mostra como Dourado absorveu bem o clima das tragédias gregas.  O nosso maior romancista soube transportar isso muito bem para um “tamanho mineiro”, para a atmosfera da “vida besta” de uma “cidadezinha qualquer” (essas imagens aparecem num célebre poema do ilustre conterrâneo de Autran, Carlos Drummond de Andrade). Em compensação, até os personagens parecem imbuídos do teor teatral da trama. Ao enfrentar a cidade nos momentos decisivos, Rosalina sempre parece agir como que diante de uma plateia. Aliás, com relação à Rosalina, um dos pontos mais fascinantes de ÓPERA DOS MORTOS é o fato de ela duplicar, em si, o amálgama do sobrado: este era uma construção térrea, feita inicialmente pelo brutal e misterioso fundador da família, Lucas Procópio; o segundo andar foi acrescentado pelo filho, João Capistrano, de personalidade oposta ao pai; e a casa ficou com os dois estilos de personalidade em seu traçado.

Ao se entregar a Juca Passarinho, Rosalina dicotomiza-se como o sobrado: de dia, ela se mantém senhorial e distante, como João Capistrano; à noite, ela perde todas as amarras, como o despótico e desregrado Lucas Procópio. Dessa forma, também a relação entre ela e o agregado assume um caráter “ritual”. E o desenvolvimento da obra de Autran Dourado tornou ainda mais complexa e instigante a história da família mais ilustre de Duas Pontes. Dois outros romances “completaram” (se possível) o quadro: Lucas Procópio (1985) e Um Cavalheiro de Antigamente (1992). O que prova que, como já sabiam os gregos, e volta-se a ver nos cafundós de Minas, o destino sempre acaba se cumprindo, de uma forma ou de outra.

 

13/06/2017

“EU QUERO SIM”: BLOOMSDAY 2017

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 13 de junho de 2017)

“Meu Deus, nós simplesmente temos que vestir o personagem. Eu quero luvas de pelica e botas verdes. Contradição. E eu me contradigo? Muito bem então, eu me contradigo”.

De todas as festividades literárias, a minha favorita é o Bloomsday (afinal na Irlanda 16 de junho, dia no qual transcorre o romance, virou feriado). Eu sempre releio ULISSES ou outra obra de James Joyce, em 2017 decidi dar nova chance a Bernadina da Silveira Pinheiro, e até gostando. Curiosamente, ao longo dessa leitura, me vinham trechos do Antônio Houaiss, cuja versão pioneira reinou absoluta, mas sempre tive antipatia por ela (então merece outra chance).

Da primeira vez identifiquei-me com o jovem Stephen. Na sucessão de leitura acabei me vendo em Leopold Bloom, considerado o ser mais complexo gerado pela ficção.

E o que dizer de Molly Bloom, adúltera apaixonada pelo marido maternal (sim, o senhor Bloom tem uma sensibilidade quase feminina, embora seja “um homem sem qualidades”), mãe-terra, mãe-cama, devaneante: “Ó e o mar o mar de carmesim às vezes como fogo e os gloriosos crepúsculos e as figuras nos jardins da Alameda sim e todas as ruazinhas estranhas e as casas rosa e azuis e Gibraltar quando eu era mocinha onde eu era uma Flor da montanha sim quando eu pus uma rosa no meu cabelo como as andaluzas usavam ou será que eu vou usar uma vermelha sim e como ele me beijou debaixo do muro mouresco e eu pensei bem tanto faz ele como um outro e então eu lhe pedi com meus olhos que pedisse novamente sim e então ele me pediu se eu queria sim dizer sim minha flor da montanha e primeiro eu pus meus braços à sua volta sim e o arrastei para baixo sobre mim para que ele pudesse sentir meus seios todos perfume sim e seu coração disparou como louco e sim eu disse sim e quero Sim”. Esse sim quase cósmico lembra a sabedoria de Goethe: “O eterno feminino nos leva para o alto e além”.

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