MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

16/02/2016

CORES E FORMAS DOS LUGARES COMUNS DE NARA VIDAL

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«Escolhi cores e formas de casa. Que casa? Já não sei dizer. Já se misturou, já era. Mas tem um colorido de carnaval qualquer, pra dar pulso ao ar parado […] A vida serviu para dar parcimônia às alegrias. Tem uma estrada de terra aqui perto. Quando chove vejo gente com galochas, bem preparadas. Não enxergo nem um chinelo arrebentado afogado no lamaçal da rua que nunca ajeitam. Hoje também tem pedrinhas, feitas de menos sonhos, menos alegrias, não por nada, mas porque a gente cresce… » (Para a Calma, Nara Vidal)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 16 de fevereiro de 2016)

Livro no qual não colam classificações estritas e estreitas, Lugar Comum (ed. Pasavento) apresenta um título armadilhesco, inclusive por existir a expressão que sinaliza o banal, aquilo que jamais sacode e inquieta a imaginação. Lugar comum pode ser o rincão de globo terrestre compartilhado por familiares e vizinhos; também pode ser o conceito (tão malbaratado) de que habitamos uma mesma casa planetária, algo mais palpável ainda quando se vai viver fora do país natal.

O verdadeiro lugar comum revelado nos 80 pequenos textos é Nara Vidal, ou melhor seu aguçado olhar autoral alinhavando retalhos de uma rica tradição do imaginário mineiro vinculado às raízes afetivas, contrastadas ao “sentimento do mundo” (e seu apelo: «A viagem era dela, mas queria ver de perto os olhos saltitantes da mãe que demorou uma vida pra botar em prática sonhos de lugares e geografia», lemos em Estreito de Dover), o boitempo drummondiano, os baús de ossos de Pedro Nava; mais perto de nós, o brado de Milton Nascimento:  «Sou o mundo/sou Minas Gerais».

Afinal, com um oceano de permeio, essa moradora—nascida na Guarani mineira—da Inglaterra faz jus a um tipo de prosa curta, diáfana e ao mesmo tempo cheia de vigor, tecida por um dos maiores nomes de seu país de adoção, Virginia Woolf, com fios em cuja meada não se distinguem o cronístico, o memorialístico, o ensaístico, o confessional, o observado, o deduzido-inventado, aproveitando a fecunda lição de Proust:  «quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis, porém mais vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre as suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações».

Ou, nos termos da própria Nara Vidal:

«O perfume deveria ser esfregado e não pulverizado. Duas gotas no pulso esquerdo e no direito, como num abocanhar frenético, perfumava-se. Ao passar dos namorados, ela percebeu que a nuca também deveria ser esfregada vigorosamente com a mão. Ouviu falar que perfume na pele era como impressão digital. A mistura do seu corpo com o líquido dava aquele ar mágico, profundo e inesquecível. O cheiro, ela não queria só para ela. Queria, ao esfregar namorados, passar o seu encanto adiante e assim acontecia.

  Não demorou muito, depois da nuca, Marieta descobriu que, entre os seios, morava um ponto que acumulava seu perfume de forma impetuosa. Já estava bem mais experiente quando passou a perfumar-se com uma gota abaixo do umbigo. Ali não esfregava. Como se salpicasse água, deixava que o tempo desse conta de misturar a química do seu cheiro natural com o perfume já, então, sofisticado e francês.

   Ao longo da vida Marieta casou-se três vezes. Coincidia com o término de cada acordo de amor eterno, o cheiro enfraquecido do perfume caro. Como se não se fixasse mais nos seus pontos estratégicos, estudados com arte e precisão. Ainda o tempo, deu conta de fazer Marieta descuidar-se e não mais esfregar perfume no pulso, na nuca ou entre os seios. Há muito não deixava a gota cair embaixo do umbigo—era desperdício. O cheiro avassalador de Marieta acabou-se. Assim como cada amor, enfraqueceu. Assim como o amor com o qual se acostumou, perdeu a doçura, o propósito, o encanto. Viraram lugar comum: o perfume e o amor».

Há o seu quê de desarmônico em Lugar Comum, a triagem poderia ter sido mais rigorosa, entretanto a presença de alguns fios tênues e incolores não desbotam o colorido predominante, em especial nas lindas passagens (como a que cito abaixo, de A Vista da Torre) nas quais se mostra que um lugar comum de todos em sua formação são os ritos de passagem:

    «Era verão pelo Hemisfério Norte. Intenso. Tinha chegado com tudo. Desde a madrugada anterior, Londres e região viam tempestades de deixar os trópicos amuados de ciúmes. Trovões e relâmpagos de altos sons e todos os tons de rosa. Meu menino dormia. Minha menina desceu as escadas para nos encontrar na sala. Dizia que o barulho estava alto, ao ponto de meter na valentia dela certo medo.

   Fomos então par a torre da princesa, no topo da casa. A janela dava para o telhado. Feito gatos, nós três com metade da gente pra fora. E de lá ficamos vendo os relâmpagos, ouvindo os trovões […] Olhei pra minha menina, feliz, de mãos dadas com o pai […] Testemunhei ali, na minha frente, a construção de uma lembrança. Guardei a impressão de que bem assim, vamos fazendo a vida».

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TRECHO SELECIONADO

«03 h 45 min da tarde. Os olhos tentavam, no meio de buzinas, risos, xingamentos, bancas de jornal, achar uma ilha deserta. Precisava saber antes das quatro. Todo mundo passava por ela e ninguém sabia o medo que carregava na bolsa.

     O couro marrom já desbotado tinha nas alças fiapos de linhas se soltando. Precisava de uma bolsa nova. De uma bolsa nova seria bom precisar. Daria tudo para precisar mesmo de uma bolsa nova. Bolsa ordinária, barata. Lá dentro dela, outro caminho: algo extraordinário dobrado quatro vezes em papel A4, no envelope lacrado. Andava com a impressão de ter ali dentro um bicho vivo. E não deixava de ser. Titubeou por mais alguns passos. Os olhos já vidrados desesperavam-se por um canto quieto. Tentou a praia. Era janeiro. Não ia dar certo. No parque, talvez. O cheiro de xixi lhe embrulhou o estômago. Mal sabia ela o que estava embrulhado no envelope.

    Em volta dela, um homem sem as pernas. Uma criança suja chorando. Cheiro de sangue. Um parque sem passarinho algum. Sentou-se num banco, com nojo e desespero. Precisava abrir aquela bolsa. Faltavam dois minutos pras quatro. Traçou pra si mesma o plano de coragem: até antes das quatro saberia a notícia, qualquer que fosse.

    Um homem passou pedindo dinheiro. Insistiu. Precisou sair dali. O relógio da Siqueira Campos ria dela. Perdera a vez. 04h02min. Aquilo só poderia ser má notícia.

    Tentou um café. Cheio. Garçom que não deixava ninguém em paz. Se fosse pra casa talvez nunca mais saísse de lá. Pensou no pai da amiga que recebeu no ponto de ônibus a notícia da morte da mulher. O pobre rodopiou zonzo e ninguém viu o que era só dele, lá dentro da cabeça daquele homem sem sorte.

    Ela queria o mesmo. O que quer que fosse, no envelope, ela precisava se passar por nada, anônima. Tinha que saber que o mundo não ligava. O que estivesse escrito naquela folha era só dela.

    Amou tanto durante a vida. Poderia até amar mais. Sabe-se lá!

   Desistiu do café. Caminhou até o forte no fim de Copacabana. Pelo menos tinha vento lá. Em coração de tambor, a bolsa aberta. As mãos passam desinteressadas pelo resultado do exame que trouxe boas notícias. Abraça com os dedos apertados e trêmulos o envelope branco. Gira os dedos pelo tamanho do papel e abre, rasgando as pontas. No canto do olho já salgado de ansiedade, confere: 04h48min. Suspira e abre os olhos. Não sabe se foi o sol ou o que estava escrito. Ficou cega».

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09/02/2016

O GRANDE ROMANCE AMERICANO: “A Sangue Frio”, de Truman Capote

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA  de Santos, em 9 de fevereiro de 2016)

Harper Lee foi, sem dúvida, a figura mais notória no mundo literário em 2015, com a publicação de Vá, Coloque Um Vigia, décadas após seu até então único romance, o premiadíssimo O Sol é Para Todos (1960). Curiosamente, há alguns anos, ela não passava de uma parceira coadjuvante na obsessão de seu amigo de infância Truman Capote (1924-1984). em relatar os acontecimentos de A Sangue Frio (In Cold Blood, 1966), em dois filmes de temática semelhante e resultados artísticos desiguais: o superestimado Capote e o ótimo InfamousConfidencial (interpretada por Catherine Keener e Sandra Bullock, respectivamente).

A maior ironia nisso tudo é que o empenho do genial, nem por isso menos venenoso e competitivo, Capote em criar um dos candidatos ao mítico título de “grande romance americano” estava relacionado ao ciúme corrosivo com o prestígio alcançado, àquela época. pela amiga, a quem desejava superar e ofuscar. E embaralhou a questão ao ponto de insistir que inventara um gênero, o romance de não-ficção, quando apenas seguia a lição do Flaubert de Madame Bovary: os fatos reais servem ao talento narrativo, não o contrário.

Ou alguém pode achar crível que ele “entre” na pele da dupla responsável pelos terríveis crimes acontecidos em novembro de 1959 numa cidadezinha do Kansas, em pleno “cinturão da Bíblia”, somente baseado em documentos e depoimentos? Ou na mente de cada pessoa da família? Na dos investigadores, vizinhos da região, parentes dos assassinos?

Veja-se um trecho em sequência a uma visita dos detetives do caso à irmã de Perry Smith, o sentenciado com o qual Capote desenvolverá uma doentia ligação:  «E então a tristeza, como a névoa marinha noturna que cobria as luzes da rua, fechou-se em torno dela. Ela dissera que tinha medo de Perry, e tinha, mas seria apenas de Perry que tinha medo, ou antes de uma configuração de que ele fazia parte, os destinos terríveis que pareciam reservados para os quatro filhos de Florence Buckskin e Tex John Smith? O mais velho, o irmão de que ela mais gostava, tinha-se matado com um tiro; Fern caíra, ou se jogara, de uma janela; e Perry era dado à violência, um criminoso. Assim, num certo sentido, ela era a única sobrevivente, e o que a atormentava era a ideia de que, com o tempo, ela também acabaria vencida…».

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     Norman Mailer escreveu em A Canção do Carrasco  (1979): «A gente era criado sabendo o que estava certo, e livre para fazer o que estava errado». Essa frase ajuda a entender por que Capote escreveu um livro tão poderoso e ainda fascinante (além de inaugurar a era dos assassinatos torpes por motivação banal no imaginário cultural, assim como Psicose, de Robert Bloch, inaugurou a dos serial killers). De um lado, aquelas pessoas vivendo sob a égide da religião, achando que Deus fez o mundo para se viver assim, mas que não têm problemas com armas, com a matança estúpida de animais, e com a exclusão social, “sabendo o que estava certo”. E que se surpreendem com a violência dos assassinatos. Do outro lado, os “perdedores”, aquelas vidas fraturadas e errantes, “livres para fazer o que estava errado”.

E é por isso que num dos trechos cruciais, alguém observa: «As pessoas não estariam tão alteradas se isso tivesse acontecido com outros, não os Clutter. Com uma família menos admirada, menos próspera. Mas eles representavam tudo que as pessoas daqui valorizam e respeitam, e o fato de uma coisa dessa ter acontecido com eles, é o mesmo que alguém dizer que Deus não existe. Dá a impressão de que a vida não tem sentido…». Então, não importam muito as mesquinharias biográficas que cercaram a produção de A Sangue Frio (e ele e Harper Lee pagaram um preço bem alto). O grande romance americano foi escrito. Cinquenta anos depois continua uma obra-prima.

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02/02/2016

O Shakespeare da hora: MACBETH

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uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de fevereiro de 2016)

Nos últimos meses estrearam dois filmes baseados em Macbeth: uma versão da peça, Ambição e Guerra, do australiano Justin Kurzel, a qual — apesar de estrelada pelos grandes Michael Fassbender e Marion Cottilard — não entusiasmou ninguém; e A floresta que se move (título sugerido por um dos elementos cruciais para o desenlace), transposição brasileira de Vinícius Coimbra do enredo para os dias atuais, na esfera empresarial, com Gabriel Braga Nunes, Ana Paula Arósio e repercussão igualmente pífia.

E olhe, leitor, que entre as obras-primas trágicas de Shakespeare foi a de melhor sorte nas telas, gerando pelo menos três filmes de primeira: o de Orson Welles (1948), o de Kurosawa (Trono manchado de sangue, 1957) e o de Polanski (1971). Talvez por ser a mais dinâmica e sucinta, sem o emaranhamento de Hamlet ou Rei Lear, embora também sem um personagem carismático como o príncipe da Dinamarca ou as proporções cosmogônicas da queda do rei que ficou velho antes de ficar sábio.

«  Por vezes, para nos perdermos, contam-nos os agentes das trevas alguns fatos verídicos, seduzem-nos com coisas inocentes, porém de pouca monta, para nos arrastar a consequências incalculáveis», adverte Banquo, companheiro do até então valoroso Macbeth, quando este é saudado, num ermo, após uma batalha, como futuro rei, por três bruxas. Não adianta. De forma traiçoeira, ele e a esposa assassinarão o soberano, Duncan, seu hóspede. Nunca mais o sangue sairá de suas mentes e de sua visão («A tal ponto atolado estou no sangue que, esteja onde estiver, tão imprudente será recuar como seguir à frente»). E a Escócia será assolada pela guerra.

   A princípio titubeante, assombrado por sua imaginação[1] o protagonista age espicaçado pela esposa, a feroz Lady Macbeth, mais audaz: «Então, marido, por que ficardes só, tendo por companhia as fantasias mais desconsoladoras e ocupando-vos com pensamentos que já deveriam ter morrido com quem se relacionam? O que não tem remédio, não deveria ser pensado sequer. O que está feito, não está por fazer».

   Após consolidar-se no poder, o espaço à sua volta rarefaz-se, e aí percebemos a dimensão da tragédia, e como ela permanece atual. Se encaramos a corrupção maciça e endêmica como um horror, o aspecto mais sombrio do poder, no entanto, é o totalitarismo, a sede de dominação permanente (a qual encampa também uma avassaladora corrupção), a necessidade de eliminar os mais próximos (lembram de Banquo, além de tudo uma testemunha?:  «Oh! tenho o espírito cheio de escorpiões, querida esposa! Sabeis que vivem Banquo e seu Fleance[2]»), até os colaboradores, porque todos são suspeitos ou inimigos, na lógica paranoica do Terror: «Quase esqueci que gosto tem o medo/ Outrora meus sentidos gelariam/ Com um guincho à noite; e a minha cabeleira / Com um relato de horror ficava em pé/ Como se viva; estou farto de horrores/O pavor, íntimo do meu pensar/ Já nem me assusta».

 Não por acaso, uma das cenas inesquecíveis do teatro é o banquete “amigável” onde alguns dos convivas são fantasmas de vítimas do projeto de poder do hospitaleiro casal Macbeth.

Em tempo: em 2016, a morte de Shakespeare completa 400 anos.

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TRECHO SELECIONADO

«A CAMAREIRA – Ouvi coisas, senhor, que não me atrevo a repetir.
O MÉDICO – A mim podereis dizer o que ouvistes, sendo mesmo de vantagem que o façais.
A CAMAREIRA – Nem a vós nem a ninguém, uma vez que não tenha testemunha para confirmar o que disser. (Entra Lady Macbeth, com uma vela.) Vede! Aí vem ela! É assim mesmo que sempre faz, e, por minha vida, a dormir profundamente. Observai-a; aproximai-vos dela um pouco.
O MÉDICO – Como conseguiu essa luz?
A CAMAREIRA – Ora, estava perto dela. Tem sempre luz ao pé de si; são ordens expressas.
O MÉDICO – Como vedes, está com os olhos bem abertos.
A CAMAREIRA – É certo; mas os sentidos estão fechados.
O MÉDICO – Que faz ela agora? Vede como esfrega as mãos.
A CAMAREIRA – É um gesto habitual nela, fazer como quem lava as mãos. Já a vi continuar desse jeito durante um quarto de hora.
LADY MACBETH – Aqui ainda há uma mancha.
O MEDICO – Atenção! Está falando. Vou tomar nota do que ela disser, para reforçar a memória.
LADY MACBETH – Sai, mancha amaldiçoada! Sai! Estou mandando. Um dois… Sim, já é tempo de fazê-lo. O inferno é sombrio… Ora, marido! Ora! Um soldado ter modo? Por que termos medo de que alguém o venha a saber, se ninguém poderá pedir contas a nosso poder? Mas quem poderia imaginar que o velho tivesse tanto sangue no corpo?
O MÉDICO – Ouvistes o que ela disse?
LADY MACBETH – O thane de Fife tinha uma mulher. Onde se encontra ela agora? Como! Estas mãos nunca ficarão limpas? Basta, senhor; não falemos mais nisso. Estragais tudo com essa vacilação.
O MÉDICO – Ide, ide! Ficastes sabendo mais do que seria conveniente.
A CAMAREIRA – Ela falou o que não devia, tenho certeza. Só Deus sabe o que ela sabe.
LADY MACBETH – Aqui ainda há odor de sangue. Todo o perfume da Arábia não conseguiria deixar cheirosa esta mãozinha. Oh! Oh! Oh!
O MÉDICO – Que suspiro! Tem o coração por demais opresso.
A CAMAREIRA – Eu não quisera ter no peito um coração assim, nem pelas dignidades de todo o corpo.
O MÉDICO – Bem, bem, bem.
A CAMAREIRA – Rogai a Deus, senhor, para que seja assim.
O MÉDICO – Esta doença ultrapassa minha arte. No entanto, conheci sonâmbulos que morreram santamente em suas camas.
LADY MACBETH – Ide lavar as mãos; vesti vosso roupão de dormir. Não fiqueis assim tão pálido. Torno a dizer-vos que Banquo está enterrado; não poderá sair da sepultura.
O MÉDICO – Também isso?
LADY MACBETH – Para o leito! Para o leito! Estão batendo no por tão. Vinde, vinde! Dai-me a mão. O que está feito não está por fazer. Para o leito, para o leito, para o leito! (Sai.)
OMÉDICO – E agora, ela vai para o leito?
A CAMAREIRA – Diretamente.
O MÉDICO – Circulam por aí terríveis boatos. feitos contra a natura sempre engendram conseqüências doentias. As consciências manchadas descarregam seus segredos nos surdos travesseiros. Mais de padre tem ela precisão do que de médico. Deus, Deus que nos perdoe! Acompanhai-a. Deixai bem longe dela quanto possa causar-lhe qualquer dano. E ora, boa noite. Ela deixou-me o espírito confuso e a vista absorta com tamanho abuso. Penso, mas não me atrevo a dizer nada.
A CAMAREIRA – Boa noite, bom doutor».

NOTAS

[1]  «Essa solicitação tão sobrenatural pode ser boa, como pode ser má… Se não for boa, por que me deu as arras de bom êxito, relatando a verdade? Sou o thane de Cawdor. Sendo boa, por que causa ceder à sugestão, cuja figura pavorosa os cabelos me arrepia, fazendo que me bata nas costelas o coração tão firme, contra as normas da natureza? O medo que sentimos é menos de temer que as mais terríveis mas fictícias criações. Meu pensamento no qual o crime por enquanto é apenas um fantasma, a tal ponto o pobre reino de minha alma sacode, que esmagada se torna a vida pela fantasia, sem que haja nada além do que não é».

[2] Fleance é filho de Banquo. Lembremos de que as bruxas vaticinam que Macbeth será rei, mas que Banquo gerará reis, mesmo não o sendo

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