MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

28/06/2014

O triunfo inesperado do romance: “Submundo”, de Don DeLillo

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos  em 02 de outubro de 2001)

 I

     Amanhã, 03 de outubro, a vitória dos Giants sobre os Dodgers no campeonato de beisobol em Nova York, estará completando 50 anos. A bola que decidiu a partida desapareceu. Ela é um dos elementos que interligam a trama de SUBMUNDO[“Underworld”, 1997, aqui no Brasil traduzido pelo grande Paulo Henriques Britto], obra-prima de 700 páginas de Don DeLillo, cujo prólogo é a sensacional narração do histórico jogo de 1951 e é intitulada O triunfo da Morte, alusão ao quadro de Brueghel (fica-se sabendo, ao longo da partida, que os russos realizaram seu primeiro teste , patômico, ombreando-se aos EUA na capacidade de destruir o mundo).

O vizinho de bairro de DeLillo, Paul Auster publicou em 1992 Leviatã, no qual se aborda a questão do terrorismo; o livro, aliás, é dedicado ao autor de SUBMUNDO que, na mesma época lançara outro de seus romances geniais (Mao II), no qual se lia: “Quem poderá ser levado a sério? Apenas o crente letal, aquele que mata e morre pela fé. Tudo o mais é absorvido. O artista é absorvido, o maluco de rua é absorvido, tratado e incorporado. Somente o terrorista ficou de fora. A cultura ainda não conseguiu descobrir como assimilá-lo. É confuso quando o terrorista mata um inocente. Mas essa é exatamente a linguagem que chama a atenção, a única linguagem que o Ocidente entende”.

Um terceiro motivo para se falar de SUBMUNDO e mostrar por que ele é uma leitura obrigatório no momento, ao contrário das supostas e inúteis previsões do sr. Nostradamus (que parecem um terreno baldio, onde se pode achar tudo que se quer): a capa utiliza uma foto perturbadora de André Kertész, na qual vemos o World Trade Center (por sinal, várias vezes citado na quarta parte do romance, ambientada nos anos 70), através de um ângulo sinistro e ameaçador. Com os fatos recentes, a capa ganhou um significado ainda mais tétrico, bem como o livro.

E um escritor fantástico como DeLillo não deixa escapar nada, tudo volta no romance com um novo significado: uma reprodução do quadro de Brueghel (na revista Life) cai nas mãos de Edgar J. Hoover, o chefão da inteligência americana na Guerra Fria, homem reacionário, reprimido e com fobia de micróbios, em plena partida entre Giants & Dodgers. O significado do quadro volta à tona quando ele vai, em 1966, ao famoso Baile Preto e Branco, no Plaza de Nova York, e há protestos contra a Guerra do Vietnã, incluindo uma dança macabra na própria festa, repleta de chiques, ricos e famosos.

Já nos anos 80, conhecemos a velha freira, deliciosamente chamada Irmã Edgar, também reacionária e paranóica com a possibilidade de qualquer tipo de contaminação, assistir ao triunfo da morte nas ruas do Bronx: quarteirões devastados, assolados pela violência e pela AIDS (ela recebe dinheiro de um grafiteiro soropositivo para informar sobre carros abandonados nas ruas).

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II

É muito difícil fazer justiça a SUBMUNDO num artigo. O livro é grandioso demais, já pela estrutura complexa. De 1951 ele salta para os anos 90 e daí vai recuando novamente.

O curioso em Don DeLillo é como um escritor que trabalha com uma realidade em ruínas, com lixo cultural, com a ausência de totalidade, pode ter criado um romance total, numa linguagem tão elevada, se o termo não soar muito pomposo.

O próprio título, como o livro inteiro, é cheio de associações, remontando ao título de um suposto filme subversivo com relação ao regime soviético, feito por Eisenstein (o diretor de O encouraçado Potemkim & Ivan, o Terrível) e também ao título de um filme de gângster do cinema mudo. Por outro lado, também alude ao subterrâneo mundo do lixo, área de trabalho do protagonista, Nick Shay, que nos informa: “Minha firma trabalhava com rejeitos. Éramos manipuladores de rejeitos… fazíamos a cosmologia dos rejeitos… O lixo é uma coisa religiosa. Sepultamos os rejeitos contaminados com sentimentos de reverência e terror”.

Nick é um personagem enigmático, que assassinou um homem e foi parar num reformatório, sendo doutrinado por jesuítas (ele também possui, supostamente, a bola da partida de 03 de outubro). Seu irmão, Matt, pensando sobre ele, chega à seguinte conclusão: “Quando Nick morrer, uma equipe de metafísicos examinará a caixa preta dele… mas nada garante que  vão encontrar a menor pista que seja”.

Nick e Matrt são personagens fabulosos. Esse é outro mistério de Don DeLillo: como um autor que trabalha com um mundo fantasmagórico e insubstancial pode criar personagens tão incríveis? Já em Ruído Branco, o protagonista (contaminado por uma nuvem tóxica que infesta a região onde mora) e sua família eram inesquecíveis.

Em SUBMUNDO, além dos irmãos Shay, temos Klara Sax, a artista plástica conceitual, com a qual Nick teve um envolvimento aos 17 anos, quando ela ainda era uma dona de casa, esposa do professor de xadrez de Matt, o comovente sr. Bronzini, que termina a vida solitário no Bronx, com sua irmã meio esclerosada, enquanto Klara (aos 70 anos) e seguidores fiéis pintam um cemitério de aviões no deserto. Temos a esposa de  Nick, Marian, que tem um caso com o sócio dele e que considera o marido “demoníaco”, procurando desvendar seu estranho passado. Temor Cotter, o garoto negro que, na versão de DeLillo, ficou  inicialmente com a bola do jogo, mas temos principalmente seu pai, Max Martin, cuja história atravessa o romance como contraponto da inversão temporal realizada pelo maior  dos escritores norte-americanos.

Temos Ismael, o grafiteiro, que além de pichar vagões, também faz incursões homoeróticas no subterrâneo-submundo do metrô, temos a já citada irmã Edgar; temos até um psicopata, o qual assassina pessoas nas estradas do Texas…

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III

Paulo Francis, com a superficialidade que lhe era peculiar nos últimos anos, saudou em  1988 A fogueira das vaidades, de Tom Wolfe, com as seguintes palavras: “Nenhum filme ou jornal de tevê tem ou seguiu remotamente, o alcance desta obra, que estabeleceu a primazia da literatura sobre outros meios de comunicação”. A meu ver, Wolfe nem de longe conseguiu isso, mas talvez Francis já estivesse pressentindo que SUBMUNDO estava vindo por aí e encaixar-se-ia perfeitamente nas suas palavras.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2014/06/28/mao-ii-de-don-delillo-o-indizivel-o-impensavel-e-a-linguagem-que-o-ocidente-entende/

https://armonte.wordpress.com/2011/05/24/destaque-do-blog-ponto-omega-de-don-delillo/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/09/se-todas-as-direcoes-sao-a-mesma-cosmopolis-e-o-futuro-insistente/

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MAO II, de Don DeLillo: o indizível, o impensável e a linguagem que o Ocidente entende

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de março de 1998)

Em sociedades reduzidas à conspurcação e ansiedade, o terror é o único ato significante. Existem coisas demais, mais coisas e mensagens e significados do que poderíamos usar em dez mil vidas. Inércia-histeria. É possível a história? Existirá alguém sério? Quem poderá ser levado a sério? Apenas o crente letal, aquele que mata e morre pela fé. Tudo o mais é absorvido. O artista é absorvido, o maluco de rua é absorvido, tratado e incorporado. Somente o terrorista ficou de fora. A cultura ainda não conseguiu descobrir como assimilá-lo. É confuso quando o terrorista mata um inocente. Mas essa é exatamente a linguagem que chama a atenção, a única linguagem que o Ocidente entende”.

Eis um trecho de MAO II (na tradução de  Edson Rocha Braga), de Don DeLillo, a história de Bill Gray, famoso escritor recluso que vive escondido, enquanto tenta concluir um livro, reescrevendo-o interminavelmente. Scott, ex-junkie e fanático pela obra de Gray, e Karen, ex-discípula do reverendo Moon, vivem com ele. Um dia, Scott, a contragosto, traz Brita, obscura fotografa de Nova York, para fazer uma sessão com Gray.

Após essa incursão de Brita na esquiza vida doméstica dos três, Gray inesperadamente visita Nova York e foge de Scott, ao receber uma proposta do editor Charles Everson: fazer, em Londres, a leitura pública de poemas de um suíço mantido como refém por uma milícia maoísta de Beirute, capital mundial do terrorismo.

Gray termina não fazendo a leitura, contudo decide aproximar-se mais do Terror, tentando chegar a Beirute (via Atenas) para conhecer o líder da milícia, Abu Rashid…

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MAO II é um romance lindíssimo. Dá até para imaginar o filme que o genial David Cronenberg faria dele[1]. DeLillo é um autor perturbador,na linha de J.G.Ballard, Philip K. Dick  e de Thomas Pynchon, este último tão recluso e isolado na vida real quanto Bil Gray.Não é à toa que desde o premiado Ruído Branco (1985) ele se transformou num dos ficcionistas mais importantes e influentes dos EUA.

O leitor é apresentado a um mundo fantasmagórico (o que é bem representado pelo título, que alude a um trabalho de Andy Warhol, utilizando—como fez com relação a outras personalidades—o rosto do líder chinês), no qual arte, mídia, lixo, loucura e terrorismo se refletem mutuamente, no qual se pode fazer intermináveis elucubrações (e a elas se dedicam todos os personagens de MAO II), porém nunca se consegue criar qualquer significado estável.

Um mundo assim de escombros, de dissolução, de horror, não impede que o grande escritor norte-americano consiga (ao contrário de Ballard, Dick & Pynchon) criar personagens humanos e interessantes, que nos envolvem em seus desconcertantes (des)caminhos, como Karen, ao ir para Nova York atrás do volatilizado Gray, ingressando, com os restos da sua devoção (não ao Mao, mas ao Moon), no universo dos homeless e sua linguagem peculiar. Poucas vezes de leu algo tão bonito e desesperado na ficção atual que tangencia o apocalíptico. Talvez só na Doris Lessing de Memórias de um sobrevivente & Shikasta, ou no Paul Auster  de No país das últimas coisas., ou mesmo em Leviatã (dedicado, aliás, ao autor de MAO II).

Além da riqueza das questões que levanta, esse romance assombrado e assombrador merece ser consagrado como um dos romances da década de 90 pela sua perfeita estrutura circular. A história de Bill Gray é emoldurada por duas impressionantes cenas (num estádio e em Beirute)em que se mostra a adesão de uma massa a um líder carismático (Moon no começo; o terrorista Abu Rashid no final) e que têm como momento culminantes cerimônias de casamento que desafiam todo o poder da Razão.Assim como as palavras impressionantes de Don DeLillo desafiam o indizível e  o impensável.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2014/06/28/o-triunfo-inesperado-do-romance-submundo-de-don-delillo/

https://armonte.wordpress.com/2011/05/24/destaque-do-blog-ponto-omega-de-don-delillo/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/09/se-todas-as-direcoes-sao-a-mesma-cosmopolis-e-o-futuro-insistente/

____________________

[1] Nota de 2014: Cronemberg acabaria fazendo uma versão (para mim, um filme menor na sua produção, apesar de muito acima da média do que se faz hoje em dia) de outro DeLillo, Cosmópolis.

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26/06/2014

TRINCA DE ASES DOSTOIEVSKIANA: o “pesado”, o satírico e o polemista

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(uma versão dos dois textos abaixo foi publicada no “Letras in.verso e re.verso” em 25 de junho de 2014, VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/06/os-150-anos-de-diario-do-subsolo-e-um.html)

                                               I

Pode-se dividir a história da ficção em antes e depois de Memórias do subsolo (Zapiski iz podpolia, 1864, em tradução de Boris Schnaiderman; pode-se encontrar também nas livrarias a tradução de Moacir Wernecek de Castro com o título Notas do Subterrâneo, ed. Bertrand), de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), cuja bela reedição marca o início da publicação das obras do incomparável escritor russo pela  34.

É que antes nunca fora tão bem retratada a “natureza nervosa, atormentada e desequilibrada dos homens de agora”, como se afirma em Os demônios, de 1872. Nervoso, atormentado e desequilibrado, o narrador de Memórias do subsolo articula um discurso infindável, um texto-performance (e ele mesmo se acha um tagarela) em que uma tremenda autoconsciência (e consequente paralisia de ação) se defronta com o que mais tarde Freud descobriria ser o inconsciente, o nosso “subsolo” (mas não se deve ignorar o lado concreto e urbano do termo, sinalizando uma moradia apertada e condições materiais penosas). Um território onde a soma de dois e dois nunca é quatro.

A primeira e mais famosa parte (a mais “performática”), o presente do relato (com o narrador já quarentão e misantropo), O Subsolo, é toda construída na forma de um discurso a um só tempo egocêntrico e dilacerado, que simula dialogar com outra s pessoas, as quais defenderiam a Razão, a Lógica, a Ciência. Falando do ponto de vista do subsolo (ou subterrâneo, como também já foi traduzido), o narrador vai demolindo esse “Palácio de Cristal” (outra referência que pode ser tomada no sentido simbólico e no entanto bastante real): “Experimentai lançar um olhar sobre a história do gênero humano: o que vereis? É grandioso? Vá lá! É, de fato, grandioso. O que não valerá, por exemplo, o Colosso de Rodes!… É pitoresco? Vá lá, é pitoresco de fato. Basta examinar em todos os séculos os uniformes de gala… o que não valerá tudo isso!… É monótono? Vá lá, de fato é monótono: luta-se e luta-se. Luta-se atualmente, já se lutou outrora e tornar-se-á a lutar ainda mais (…) Numa palavra, pode-se dizer tudo da história universal, só não se pode dizer o seguinte: que é sensata”.

   Após esse discurso balbuciante e febril, entramos na narração propriamente dita, A propósito da neve molhada, às vezes publicada separadamente de O subsolo. Como se fossem textos estanques!

Nessa segunda parte, temos a medida da genialidade de Dostoiévski como ficcionista, que depois se espraiaria nos seus grandes romances (Crime e castigo, O jogador, O idiota, O eterno marido, Os demônios, O adolescente, Os irmãos Karamázov, numa sequência avassaladora). O narrador, voltando à época dos seus 24 anos, mostra como foi arrastado a situações degradantes e grotescas. Acompanhamos sua obsessão em esbarrar num oficial que ele odeia de forma gratuita no meio da rua, situação que rende páginas neurastênicas inesquecíveis.

   Quando se pensa, porém, que já se atingiu o ápice, há ainda a narração do jantar de despedida de um ex-colega de escola que vale por uma aula de psicologia: nosso homem do subsolo faz papel ridículo, mostra-se invejoso, ressentido, alterna complexo de inferioridade e megalomania, e entretanto revela um impressionante autocompreensão neurótica (se não houver uma contradição de termos aqui).

Um espetáculo atordoante e praticamente inédito na literatura de ficção (mas que faria praça a partir da penetração cada vez maior do gênio russo, principalmente após ser “descoberto” pelos franceses). E ainda não acabou: temos os relacionamentos exaltados com o criado, Apollon, e com Lisa, uma prostituta: nos dois, o Outro é como se fosse um instrumento autoinfligido de tortura e humilhação, e também uma espécie de sentimento “encenado”, demonstrado teatralmente. O narrador insinua que essa dramatização de sentimentos é uma maneira de inventar para si uma vida, quando não se vive de fato: “Meus olhos brilharam de paixão, e eu apertei-lhe fortemente as mãos. Como eu a odiava e como estava atraído por ela naquele instante! Um sentimento fortalecia o outro. Isso parecia quase uma vingança… Ela adivinhara que o arroubo da minha paixão fora justamente uma vingança, uma nova humilhação, e que ao meu ódio de antes, quase sem objeto, se acrescentara já um ódio pessoal, invejoso, um tédio por ela… eu não podia apaixonar-me, porque amor significa para mim tiranizar e dominar moralmente (…) cheguei a tal ponto que, agora, chego a pensar por vezes que o amor consiste justamente no direito que o objeto amado voluntariamente nos concede de exercer tirania sobre ele. Mesmo nos meus devaneios subterrâneos, nunca pode conceber o amor senão como uma luta: começava sempre pelo ódio e terminava pela subjugação moral; depois não podia sequer imaginar o que fazer com o objeto subjugado”.

   Como se pode ver, se há um livro que faz jus ao seu título é esse. E não parece haver nenhuma esperança de entrar ar, de arejamento, de um respirar mais livremente. É o que alguns chamam de angústia. O pior é que outros chamam de existência.

NOTA- A resenha acima foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de outubro de 2000; versões diferentes dela foram publicadas em 31 de maio de 2008 (comentando Notas do subsolo, a versão de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares, lançada pela L&PM) e em 24 de junho de 2014 (comentandoDiário do Subsolo, a versão de Oleg Almeida, lançada pela Martin Claret), esta última em função dos 150 anos do original russo.

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II

Quem não leu Dostoiévski talvez tenha da sua obra uma ideia sombria, imaginando um universo atormentado, sinistro, desprovido de humor. Isso não é totalmente verdade. Mesmo nos seus textos mais “pesados”, ele sempre se valeu do humor e da ironia.

Outro aspecto pouco realçado é a sua prodigiosa capacidade intelectual, que muitas vezes recorre justamente ao humor e a ironia. Por isso, considero emblemáticas tanto a inacabada O crocodilo (Krokodil, 1865) quanto sua crônica da viagem pela Europa, Notas de inverno sobre impressões de verão (Ziminie Zamietki o lietnikh vpyetchatleniiakh, 1863)—as quais comento aqui na tradução de Boris Schnaiderman– e uma complementação perfeita ao ferozmente “sombrio” e “pesado” Memórias do subsolo, textos onde prevalecem o lado satírico e o lado intelectual de um autor que representa para a ficção o que Shakespeare é para o teatro.

O narrador de O crocodilo conta como Ivan Matviétch, seu “culto amigo, colega e parente em grau afastado”, foi engolido por um crocodilo em exposição. Matviétch permanece vivo no interior do “mamífero” (sic) e se serve de sua insólita situação para tiranizar o amigo, que acaba deixando escapar seu ódio por ele, sentimento que não se estende, bem entendido, à esposa do “engolido”, muito pelo contrário.

Kafka poderia ter imaginado uma situação como essa, inclusive por causa do “acomodamento” no cotidiano que se faz a partir dela: Matviétch chega a planejar toda uma existência feliz dentro do crocodilo! Mas seria um Kafka tomado, talvez, pelo espírito do Machado de Assis que criou textos como O segredo do bonzo ou A sereníssima república, o qual assinaria sem reservas passagens tais como aquela em que o personagem explica como pode acomodar-se muito bem dentro do crocodilo (que é oco): “…semelhante disposição oca do crocodilo está plenamente de acordo com as ciências naturais… Qual a propriedade fundamental do crocodilo? A resposta é clara: engolir gente. Como conseguir, então, pela disposição do crocodilo, que ele engula gente? A resposta é mais clara ainda: fazendo-o oco. Já está muito resolvido pela física que a natureza não tolera o vazio. De acordo com isto, também as entranhas do crocodilo devem ser justamente vazias, para não tolerar o vazio; por conseguinte, devem incessantemente engolir e encher-se de tudo o que esteja à mão. E eis o único motivo plausível por que todos os crocodilos engolem a nossa espécie. Não foi o que sucedeu, porém, na disposição do homem: quanto mais oca é uma cabeça humana, tanto menos ela sente ânsia de se encher e esta é a única exceção à regra geral”.

Notas de inverno sobre impressões de verão, por sua vez, utiliza a viagem pelo continente como pretexto para falar da Rússia, mais precisamente do complexo de inferioridade e da dependência cultural de certos estratos da sociedade russa com relação ao resto da Europa.

Sempre criticado por suas teorias messiânicas sobre o povo russo, é espantoso ver a verve e a inteligência com que Dostoiévski defende seus pontos de vista. Mesmo para quem não tiver muito interesse pela reflexão sobre a problemática identidade nacional russa (embora nós tenhamos problemática similar e ainda mal resolvida) há uma cabal e fascinante demonstração de consciência do autor do ato da escrita, desmentindo mais um preconceito muito divulgado: de que ele era um escritor “tomado”, tumultuoso, irregular. O tempo todo ele está consciente da presença do leitor, de que o seu texto satisfaz/contraria expectativas e posturas ideológicas:

“É retrógrado!—há de gritar alguém, depois de ler isto.—Defender as vergastas! (Por Deus, alguém há de concluir do que escrevi que eu defendo as vergastas).

__Mas veja do que o senhor está falando—dirá um outro.—O senhor pretendia escrever sobre Paris e agora trata de vergastas. O que Paris tem a ver com isto?

__ Como assim?—acrescentará um terceiro.—O senhor escreve sobre o que ouviu recentemente, e a sua viagem deu-se no verão. Como podia pensar em tudo isto ainda no trem?”

Não se pense, com essas minhas observações, que se trate de um Dostoiévski light. O leitor encontrará observações mortíferas sobre a degradação que a Revolução Industrial trouxe para o ser humano e para a s cidades. Ou observações como a seguinte, a respeito da Igreja Anglicana: “É a religião dos ricos e já completamente sem máscara. Pelo menos é racional e sem embuste. Estes professores de religião, convictos até o embotamento, têm uma espécie de divertimento: ser missionários. Percorrem todo o globo terrestre, penetram nas profundezas da África, a fim de converter um selvagem, e esquecem os milhões de selvagens em Londres, porque estes não têm com que lhes pagar”.

(a resenha acima foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 7 de novembro de 2000)

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/03/18/autodiagnosticos-febris-o-medico-diante-do-monstro-loquaz/

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19/06/2014

EXISTE O ROMANCE BUARQUIANO?: sobre “Budapeste” e “Leite Derramado”

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                                                   I

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,em 22 de junho de 2004)

 “…depois de casado, nos dias em que estava seguro de haver escrito um texto de grande inspiração… meu desejo era o de que a Vanda o lesse. Então comprava vários exemplares do jornal e os deixava com meu artigo à mostra no caminho dela, na mesa de jantar, em cima do telefone, no berço do menino, junto ao espelho do banheiro. Ver a Vanda correr os olhos sobre as minhas letras, esboçar um sorriso, apreciar um texto meu sem saber que o era, seria quase como vê-la se despir sem saber que eu a estava olhando. Mas não, ela pegava o jornal e revirava as páginas, olhava umas fotografias, lia as legendas, a Vanda não tinha paciência para grandes leituras. Daí meu estupor ao saber de sua boca que ela lera meu livro, não uma, mas três vezes… tive pena e orgulho de mim, era  como se duas palavras dela reparassem sete anos de descaso”.

No trecho acima, José Costa, narrador e protagonista do festejado Budapeste, de Chico Buarque, esclarece, caso alguém ainda tivesse dúvidas, as suas prioridades. Acima de tudo, a palavra escrita, obsessivamente praticada por ele, como escritor fantasma, orgulhando-se –nesta época patética onde ser uma celebridade por 15 minutos conta tanto— do seu anonimato.

Escritor fantasma, Costa vai se apaixonar por uma cidade fantasma, a do título, por causa de uns fiapos de linguagem, de algumas palavras ouvidas numa escala forçada de viagem: “Tratava-se de um pão de abóbora, conforme o maître informou em inglês, mas eu não queria a receita da broa, queria saborear seu som em húngaro”.

Chega a participar de congressos de escritores anônimos, em várias partes do mundo, nestes tempos de globalização nos quais uma cidade equivale à outra, de tal forma que percorrer um mapa, trancado num quarto de hotel, pode substituir a experiência real, o que combina com um estilo de vida fundamentalmente fantasmático: Não me aborrecia caminhar assim num mapa, talvez porque sempre tive a vaga sensação de ser eu também o mapa de uma pessoa”.

Por isso, se pode entender que para José Costa é uma traição ao seu código de vida revelar à mulher que é o verdadeiro autor de um livro, num acesso de ciúme; também não causará espécie saber que ele abandona o outro polo amoroso (húngaro) da narrativa, Kriska, por não ver apreciada a obra assinada por outro, e principalmente por ela não perceber como seu antigo aluno passou a dominar o seu idioma natal. É um amor tão grande pela (s) língua (s) e seu uso, que, num outro momento de ruptura, ao perceber que ela está prestes a xingá-lo com uma palavrão desconhecido, lemos: “A palavra estava ali nos seus lábios vacilantes, devia ser uma palavra que ela nunca se atrevera a pronunciar. Devia ser uma palavra arcaica, uma palavra caída em desuso de tão atroz. Devia ser a única palavra que eu não conhecia em todo o vocabulário magiar, devia ser uma palavra estupenda. Então não me contive e supliquei: fala”.

Também se pode entender, por isso, que a grande ironia da história será quando publicarem um livro cujo autor é José Costa (ou mais precisamente, Zsose Kósta), mas que ele não escreveu, um livro que o torna uma celebridade…

     Budapeste é um romance danado de engenhoso. Tem um nível de elaboração de linguagem (o qual se reflete inclusive na sua paradoxal limpidez) quase desconhecido hoje em dia na ficção brasileira, a não ser em raríssimas obras. Como Chico Buarque escreve bem!,podemos exclamar admirados. Além disso, ele se livra de vez da aura fantasmática, da aura do “quase”, de obra-potencial, nebulosa e anticlimática, que marcou seu primeiro romance, Estorvo, cuja bruma já havia sido um pouco (mas só um pouco) dissipada com o romance seguinte, Benjamim.

Por que então sua leitura não satisfaz? Talvez porque, quando o livro se encaminha para uma maior densidade, uma verticalização do universo fantasmagórico do pós-moderno, o qual ele delineou tão lindamente, com suas cidades intercambiáveis, com seus hotéis impessoais, com um cosmopolitismo que se traduz em uniformização, em que todos os tipos de relação se deterioram (como na cena em que José Costa reencontra o filho crescido, que fica a um passo de agredi-lo gratuitamente, sem aparentemente reconhecê-lo: “…talvez soubesse desde o início que eu era seu pai, e por isso me olhava daquele jeito, por isso me encurralava no muro. E fechou o punho, armou o golpe, acho que ia me acertar o fígado…”), enfim, tudo que vai contra a complexidade da língua enquanto parte viva do nosso ser, Chico recua visivelmente e nos proporciona soluções decerto prazerosas de ler, porém aquém do rigor e do vigor de um João Gilberto Noll ou de um Bernardo Carvalho, entre os expoentes brasileiros da perplexidade, da inquietude e da insubstancialidade no cenário literário atual, para não falar do grande Paul Auster, que, aliás, leu trechos de Budapeste no congresso de escritores nada anônimos que é a FLIP, em 2004.

Outra sensação desagradável é que parece termos lido tudo isso, com maior contundência, outras vezes. A diluição é agradável, porém, ainda assim, diluição, placebo, simulacro…

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II

“Ouça um bom conselho

Que eu lhe dou de graça

Inútil dormir

Que a dor não passa”  (Chico Buarque)

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de abril de 2009)

 

Maior poeta da MPB (junto com Caetano Veloso), pelo menos para a minha geração, Chico Buarque, aos 65 anos, está em plena forma para reivindicar o posto de maior prosador brasileiro contemporâneo. Não que ele o seja, mas cada um dos seus romances representou um grande avanço com relação ao anterior e no quarto,Leite Derramado, praticamente chega à maestria absoluta.

      Leite Derramado é narrado por um centenário (“a memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que remove a papelada para espanar o escritório. Ou como a filha que pretende dispor minha memória na ordem dela, cronológica, alfabética, ou por assunto”), cuja existência foi uma interminável sobrevida com relação à riqueza e prestígio de sua família no Império e na Primeira República, antes da queda das fortunas do café em 1929.

O hipnótico encanto da narração reside na dosagem exata de registros: ao mesmo tempo em que é garganta, jactancioso, que exagera seus foros de nobreza (está num hospital e não pára de falar), Eulálio d`Assumpção nos revela seu desamparo ao cabo de uma trajetória que vai do empobrecimento paulatino até a pauperização completa ao lado da filha, esta última uma mala sem alça que só se mete com desclassificados e dançados de ambos os sexos, os dois morando num puxadinho ligado a uma igreja evangélica situada nuns ermos onde antigamente ficava a fazenda de propriedade da família: “Porque talvez tivesse a intuição de que em breve os tempos seriam outros, e meu pai jamais se prestaria a permanecer num tempo que não era o seu. Sua fortuna no estrangeiro estava para evaporar, e não consigo imaginá-lo sem suas viagens anuais à Europa, seus hotéis, restaurantes e mulheres de primeira classe”.

Um pouco Dom Casmurro (com a obsessão pela fugidia esposa, Matilde, e pelo desejo de atar as pontas da vida, que também movia Bentinho, além da desfaçatez de quem já foi da elite), um pouco O Coronel e o Lobisomem (com o relato de como uma fortuna é atacada por todos os lados enquanto seu possuidor se auto-mistifica), um pouco Malone Morre (com a tradicional saga familiar de decadência e conflito de gerações transformando-se numa espécie de pesadelo de moribundo e narração enovelada, na qual a vocação épica e totalizante da arte de contar histórias se despedaça), no entanto Chico se desprende de quaisquer vinculações com essas obras marcantes de Machado, José Cândido de Carvalho ou Samuel Beckett, ou outra que nos ocorra, devido às suas peculiares soluções criativas e, sobretudo, à sua inacreditável “leveza”.

O resultado é crudelíssimo, mas incrivelmente gostoso de ler, um estilo que só três ou quatro escritores da atualidade podem igualar: “A verdade é que sem sua mãe, o chalé outrora tão solar foi se deteriorando… Na época, eu frequentemente amanhecia inquieto, ia acordá-la para verificar o que restava de Matilde no seu rosto. Não era loucura minha, a Balbina também notava que cada dia você perdia mais um traço da mãe, e nesse passo já perdera todo o desenho original da boca, fora o negro dos olhos e a tez acastanhada. Era como se, na calada da noite, Matilde passe para buscar suas coisas no rosto da filha, em vez dos vestidos no armário ou dos brincos na gaveta”.

Além disso, dois poderosos panos de fundo avultam na narrativa de Eulálio: o Rio, que passa diante de nós, célere, em cem anos de transformações urbanas e sociais, ainda que identifiquemos o conservadorismo sempre latente por aqui; e o racismo onipresente na nossa sociedade, que a narrativa de Leite Derramado desmascara impiedosamente (basta ver a alegria da mãe de Eulálio com a perda dos traços inferiores e o embranquecimento da neta, e depois o progressivo e constrangedor escurecimento dos descendentes, que cada vez mais se identificam com a nossa população em geral).
Emocionante, crítico, de uma precisão assassina na linguagem, só se pode fazer um elogio que faça justiça a Leite Derramado: é tão bom quanto as melhores canções de Chico. E não é necessário dizer mais nada.

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17/06/2014

DICAS LITERÁRIAS DE PAÍSES PARTICIPANTES DA COPA 2014

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salimOctavio Paz enla biblioteca de su csa en 1989. Foto: Fabrizio Leon DiezIvo-Andrić-2Herman Kochalejandro_zambraipad-art-wide-3-mccullough-420x0Cercas Javier

(uma versão do texto abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 17 de junho de 2014)

(uma versão do texto abaixo foi publicada no “Letras in.verso e re.verso”,

VER  http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/06/copa-do-mundo-de-literatura.html)

Infelizmente, não é possível estabelecer uma relação de igualdade entre as produções literárias dos países participantes da Copa por uma razão muito simples: a lacuna nas traduções. Nenhum escritor de Camarões (Grupo A), da Costa do Marfim (C), sequer da Costa Rica (D), ou do Equador e Honduras (o que desfalca muito o grupo E), e olhe que são países do nosso continente, falantes de uma língua-irmã. E por que será que nunca pude ler nenhum autor contemporâneo do Irã [1] (F), em versão brasileira, fato inexplicável: países em ebulição social e política invariavelmente apresentam vigor literário (caso, também, da Bósnia). No G, estou em falta com Gana; no H, com a Coréia do Sul (no entanto, é bom lembrar que um dos favoritos ao Nobel nos últimos anos é o poeta Ko Un). Ao todo, nove países que entram em campo em total desvantagem. Chamando a atenção para esse grave e lastimável fato, abaixo vai uma dica literária (com o perdão dos comentários forçosamente genéricos) dos demais países:

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GRUPO A

Brasil– Um dos nossos grandes veteranos da ficção, Salim Miguel, comemora 90 anos em 2014. Ele voltou a produzir romances em 1984, as manifestações pelas “Diretas Já” parecem ter desentravado A voz submersa (Record), narrativa febril, que cresce como uma enchente, aproveitando um dos crimes da época da ditadura como gancho, e que acabou tornando-se o primeiro título de sua prolífica fase madura (a escolha de alguém nascido no Líbano também tem a ver com a vocação do nosso país de receber imigrantes, tão malbaratada às vezes);

México– Este é o ano do centenário do múltiplo Octavio Paz. O leitor brasileiro pode apreciar a nova edição (CosacNaify) de uma das obras principais do Nobel 1990: O labirinto da solidão (1950), reflexão fundamental que está para o seu país como  Casa grande e senzala para o nosso;

Croácia- Na complicada geopolítica da ex-Iugoslávia, o croata Ivo Andrić, Nobel 1961 (também escreveu em sérvio), se destaca. Uma boa amostra da sua arte de contar histórias (e que o coloca na linhagem de um Tolstói), oferecendo uma paisagem humana labiríntica, com o conflito étnico sempre aflorando, é a coletânea Café Titanic (Globo).

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GRUPO B:

Holanda– Um romance de grande transparência, nem por isso deixando de ser crítico e inteligente (é como se juntasse Deus da carnificina com Precisamos falar sobre Kevin), e que vem fazendo um inesperado sucesso, é O jantar (Intrínseca), de Herman Koch, cuja narrativa acompanha justamente as etapas de um encontro social entre irmãos (o aperitivo, a entrada, o prato principal, a sobremesa) num restaurante de reservas disputadíssimas para mostrar a melindrosa questão da responsabilidade ética sobre a próxima geração;

Chile– Um dos melhores livros do século até agora, Formas de voltar para casa(CosacNaify) mostra que Alejandro Zambra atingiu a maturidade na sua arte: se nos livros anteriores, ele descambava, apesar da qualidade do texto, para uma às vezes cansativa metalinguagem, aqui ele apresenta contrastes entre a geração dos seus pais e a sua de uma forma magistral, fazendo a discussão política penetrar nos meandros mais inesperados, até nos terremotos que comumente abalam a nação chilena;

Austrália– O país continental tem seu Nobel (Patrick White, em 1973, contudo esse genial romancista mal foi traduzido por aqui[2]). Em compensação, Colleen McCullough ficou famosa como best seller, boa parte da crítica torce o nariz para ela. Nem por isso é menos verdade que Pássaros feridos (1977) é poderoso (até nos aspectos folhetinescos) ou que sua série Senhores de Roma seja notável. O romance que a inicia (em 1990), Primeiro Homem de Roma (Bertrand), é um dos melhores romances históricos já escritos;

Espanha– Um dos escritores marcantes da atualidade é Javier Cercas, cujos livros são mesclas fascinantes de reconstituições histórico-jornalísticas e de reflexão sobre sua elaboração narrativa. São livros “fronteiriços”, e uma boa síntese desse movimento pendular é As leis da fronteira (Biblioteca Azul), que mistura a passagem da adolescência para o mundo adulto (adentrando o submundo e a a delinquência) com o período de transição do franquismo para a democracia;

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GRUPO C

Colômbia– país que perdeu em curto intervalo de tempo seus dois maiores escritores. Um já é sobejamente reconhecido (García Márquez); o outro, merecia mais notoriedade: Alvaro Mutis. Que tal começar com o maravilhoso A neve do almirante(Record), de 1986, no qual, como já se disse, o protagonista (um marinheiro) “viaja pela paisagem humana”?;

Japão- Uma autora atual talentosa, num país de riquíssima literatura, é Hiromi Kawakami. Um exemplo é Quinquilharias Nakano (Estação Liberdade), de 2005, onde vemos claramente que as relações de trabalho muitas vezes impõe a trajetória dos nossos afetos, criando ligações, lealdades e pequenas intrigas, pois formam o horizonte da maior parte das vidas humanas;

Grécia- O leitor brasileiro agora tem a sorte de ter as obras do fantástico Nikos Kazantzakis traduzidas diretamente do idioma original (pela editora Grua): assim, além da nova versão do livro que o tornou mundialmente conhecido (mais em função da sua fantástica versão cinematográfica), Vida e proezas de Alexis Zorba, posso recomendar enfaticamente o monumental Capitão Miháelis, com sua Creta sob a opressão turca.

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GRUPO D

Itália- Candidato eterno ao Nobel, Claudio Magris é outro caso de escritor plural e quase inclassificável. Um de seus títulos mais lindos é Alfabetos (traduzido pela editora da UFPR), de 2008, em que ele mistura crítica literária, ensaística e memorialismo, ressaltando sua formação de leitor. E que leitor! Vale por todos os cursos de letras que se possa pensar;

Inglaterra- A pátria em que melhor floresceu a ficção policial tem uma genial representante neste século XXI: Kate Atkinson, com sua série em que Jackson Brodie, relutante detetive particular enfrenta tramas intrincadas que brincam com o destino e a tragédia. A Fundamento lançou recentemente o perturbador Saí cedo, levei meu cachorro (2010), quarta aventura de Brodie[3];

Uruguai- Além de ser um gênio da literatura (é o Samuel Beckett latino-americano), Juan Carlos Onetti tem uma de suas obras-primas chegando ao meio-século este ano: Junta-Cadáveres (Planeta)—ótima, embora desassossegante introdução ao anti-universo recorrente de Santa María e seu principal personagem, Larsen (que aparece em vários outros textos);

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GRUPO E

Suíça- Que escritor pode melhor representar a estranha nação que junta a ideia de civilização com uma espécie de cinismo institucionalizado do que Friedrich Dürrenmatt, com suas peças (como A visita da velha senhora) e narrativas (como Justiça) cujo eixo sempre perfaz uma parábola jurídica implacável ? O juiz e seu carrasco (L&PM), de 1950, é um jogo de gato e rato entre policiais e um poderoso criminoso. No final saímos com a impressão de que todos são (todos somos) culpados;

França- Há 50 anos, Sartre ganhava (e recusava) o Nobel. Em 2014, a L&PM lança a derradeira, inacabada e avassaladora obra do último dos mestres franceses do pensamento, da literatura e da vida: O idiota da família (1972), estudo sobre Flaubert que, no fundo, é a tentativa monstruosa de compreender (e explicar) até o último limite do conhecimento a vida de um indivíduo, numa tentativa de síntese do existencialismo e da psicanálise, sob a égide totalizante do marxismo;

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GRUPO F

Argentina– Dois dos maiores escritores argentinos (e universais, e aqui não há como não se render aos hermanos) têm seu centenário comemorado em 2014: Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares. No ano passado, um dos títulos cortazarianos centrais, O jogo da amarelinha ganhou nova edição (Civilização Brasileira), comemorativa do seu cinquentenário, e a CosacNaify vem lançando títulos do parceiro de Borges, como suas requintadas e ambíguas histórias de amor e amizade conspiratórios (com toques sutis de fantástico): Histórias fantásticas. Ambos são autores para se levar para a proverbial ilha deserta;

Nigéria- Precisávamos de mais títulos traduzidos do Nobel (1986) Wole Soyinka (há O leão e a joia, bela peça teatral). Mas pelo menos agora já temos traduções dos geniais romances de Chinua Achebe, como O mundo se despedaça[4] (Companhia das Letras), de 1958, com sua caracterização estupenda do conflito de gerações, mentalidades, etnias, que descortinam os trágicos processos históricos que assolaram muitos dos países do continente africano;

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GRUPO G

Alemanha-Quando se lê Pontos de vista de um palhaço (Estação Liberdade), de 1963, a impressão é de que Heinrich Böll (Nobel 1972) é um escritor de agora, um jovem que poderia estar participando de manifestações, tal a garra, a verve, a raiva, a energia e a atualidade da narrativa. Poderia ser um texto do Ricardo Lísias, do Alexandre Dal Farra. O protagonista, palhaço de profissão, se desavém com todos à sua volta, mas não com o leitor. Uma obra-prima;

Estados Unidos– Este ano temos o centenário do grande escritor negro Ralph Ellison, e sua maior obra, um romance que mostra a condição da raça negra na sociedade norte-americana de forma definitiva, e ainda assim, é um livro fortemente experimental, livre de amarras, ganhou nova edição brasileira pela José Olympio: O homem invisível, de 1952.

Portugal- A atual safra de escritores portugueses talvez seja a mais pujante do cenário atual. Ainda assim, reservo este espaço para comemorar os 50 anos de um dos maiores livros da originalíssima Agustina Bessa-Luís, autora que não se parece com nenhum outro escritor, sempre criando mundos históricos muito particulares: Os quatro rios[5], primeiro volume da trilogia As relações humanas;

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GRUPO H

Argélia- Será impertinência destacar um autor que nasceu no país, mas oriundo dos povos colonizadores? Como, contudo, em 2013 tivemos o centenário de Albert Camus, não custa insistir que o Nobel 1957 escreveu alguns dos livros essenciais do século passado. A Hedra acaba de publicar seus preciosíssimos Cadernos em três volumes: “Esperança do Mundo” (1935-37), “A desmedida na medida” (1937-39), “A guerra começou, onde está a guerra?” (1939-42), que antecedem sua vida de celebridade;

Bélgica- Como deixar de destacar um dos escritores que melhor aclimataram tramas mitológicas numa prosa moderna (e muito marcada pela psicanálise, mas sem ser subserviente a ela): Henry Bauchau, autor de Édipo na estrada (Lacerda)? É um on the road no inconsciente;

Rússia- Quando será que vão esquecer de Alejander Soljenítsin (Nobel 1970) como dissidente, o homem que denunciou os gulags soviéticos, e começar a valorizar sua obra literária[6], seu fôlego como romancista (Agosto 1914 é um grande momento do gênero) e o fato de ter escrito uma das novelas mais perfeitas de todos os tempos, Um dia na vida de Ivan Denissovitch (Siciliano)?

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NOTAS

[1] Pensei em indicar Azar Nafisi e seu Lendo Lolita em Teerã, o que me fez chegar à seguinte (e desalentadora) conclusão: sem tirar os méritos inegáveis da autora, e o cerceamento de sua liberdade de professora, ela pelo menos tem as obras ocidentais e não-muçulmanas à sua disposição para ler e discutir; do nosso lado, não temos nem essa oportunidade.

[2] Leiam, por favor, Á arvore do homem e Voss.

[3] É bom ressaltar que, além de seus títulos no gênero, Atkinson tem outros romances, como por exemplo sua brilhante estreia com Por trás das imagens do museu, para mim a melhor história de gerações familiares (essa linha tão batida) junto com Cemitério de pianos, de José Luís Peixoto, dos últimos 25 anos.

[4] Things fall apart, no original.

[5] Este é o único título das minhas dicas não publicado por editora brasileira.

[6] Milan Kundera (a quem não deixo de admirar muitíssimo, apesar dessa blague) sintetizou bem o enterro simbólico de Soljenítsin no campo literário ao enunciar que ele “era mais um gigante entre os homens do que entre os escritores”.

A isso eu prefiro responder com uma citação de Camus, dos seus Cadernos justamente: “As obras de arte nunca bastarão. A arte não é tudo para mim. Que ao menos ela seja um meio”.

copa e literaturaliteratura e copa

16/06/2014

A SUPERVALORIZAÇÃO DE TRECHINHOS E O DESCASO PELAS GRANDES OBRAS: EM LOUVOR DO CENTENÁRIO DE “DUBLINENSES” NO BLOOMSAY 2014

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Não é que eu esteja desprezando o lançamento de  Finn´s Hotel, mas essa fissura de tradutores, especialistas e aficionados por fragmentinhos joyceanos é muito cansativa. Volta e meia, uau!, acham um (e nem vou falar das táticas escusas dos familiares de Joyce para esticar o prazo dos direitos autorais, como publicar um “novo” texto de Ulysses ), e vamos lá com os giacomos joyces da vida, com os trocadilhos, os trocadalhos, o “erotismo” (nossa, o erotismo!), que fazem as delícias nérdicas de “iniciados”.

Aí, a recepção da obra de Joyce, já que ficam endeusando esses fragmentinhos, acaba lembrando as inaugurações de “trechos” (geralmente, pouquíssimos quilômetros) de metrô, de VLT (inauguraram um em frente à minha casa, só que todo o restante está longe, longe, longe de ficar pronto—nem por isso deixou de ter fanfarra e reportagem) ou quejandos.

Por que não dar destaque, já que estamos na altura do Bloomsday (16 de junho), às obras que realmente contam do genial irlandês? Por exemplo, Finn´s Hotel ganha em 2014 espaço na imprensa, mas não o centenário de uma obra do quilate de Dublinenses.

E Dublinenses não é um fragmentinho, e menos ainda uma obra menor, um mero passo para as obras “maiores”, ou de maior fôlego como Ulysses. Não, senhor, essa coletânea de 15 contos é um dos pontos mais altos do gênero em toda a literatura, e garantia uma altíssima reputação de Joyce se ele tivesse ficado nos contos.

Com um ou outro momento mais fraco (não tenho particular interesse nem por Após a corrida[1] nem Dia de hera na lapela[2], ainda que entenda o apelo romântico da figura de Parnell no segundo), é inacreditavelmente coeso em seu crescendo de todos os temas, tanto que o mais famoso (merecidamente), Os Mortos, é uma verdadeiro síntese: a ciranda de gerações, os mais jovens esbarrando nos mais velhos, com muita frustração de permeio, os vivos nos mortos, a necessidade de liberdade e o medo da estreiteza com o medo da liberdade e a necessidade da estreiteza, afora os vinténs coados e contados, a violência esgueirando-se pelas paredes ou bem explícita—veja-se o final terrível de Cópias (na tradução de José Roberto O´Shea) ou Contrapartida (na de Hamilton Trevisan), com o espancamento do menino pelo pai.

Já comentei extensamente “Os mortos” (cf. https://armonte.wordpress.com/2013/06/16/os-mortos-the-dead-um-texto-chave-na-obra-de-james-joyce/).

Finn’s Hotel, de James Joycedubliners

E os outros destaques de Dublinenses?

Por ordem de preferência pessoal:

Uma pequena nuvem, o encontro após 8 anos daquele que ficou com aquele que partiu (e os ressentimentos, inveja, as pequenas alfinetadas) e depois a vida doméstica, descrita de forma indelével;

Arábia[3], um milagre de elementos concentrados na paixonite do menino pela irmã do amigo e sua promessa de trazer uma lembrança da feira que dá título ao conto;

Mãe, uma pequena joia de comédia humana focalizando um meio que Joyce conheceu muito bem e que será o mundo de Molly Bloom (o das salas de concertos);

Cópias ou Contrapartida– funcionário maduro e frustrado, com um pé no alcoolismo, no trabalho e no lar.

A pensão– delicioso conto em que uma teia de aranha matrimonial é tecida em torno de um pensionista. O sexo como armadilha, tema tão caro ao realismo-naturalismo, e ainda rendendo muito no universo joyceano.

Além desses, Eveline (tentativa de fuga da prisão doméstica e da pobreza), Um encontro (aproximação furtiva de homossexual em escapada de adolescentes), Um caso doloroso[4] (relação frustrada pelo egoísmo do homem, tal como nos textos de H. James), Graça (uma visão dos rumos fracassados de uma geração), As irmãs (o primeiro, que já aborda os temas centrais- a presença da morte, a opressão, a frustração), Dois galantes[5](sobre os jovens vagabundos e estroinas de Dublin, já se despedindo da juventude) Argila (os pequenos detalhes desse conto, o galanteador cavalheiresco que na verdade é um pilantra, que furta o bolo), todos equilibradamente do mesmo (e alto) nível, mostrando que Joyce aprendeu muito com Flaubert/Maupassant e também com Ibsen. São pequenas joias narrativas e ao mesmo tempo pequenas joias dramáticas.

Por favor, nesse Bloomsday vamos esquecer os trechos inacabados e inoperantes de metrô ou VLT, e vamos admirar as grandes e verdadeiras construções joyceanas.

(junho 2014)

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NOTAS

[1] Em O´Shea, Depois da corrida.

A tradução de Hamilton Trevisan vem sendo publicada há décadas pela Civilização Brasileira (seria interessante fazer um levantamento das capas), e agora editada pelo selo Bestbolso; a de José Roberto O´Shea teve uma edição em 1993 pela Siciliano, e em 2012 foi revista e reeditada pela Hedra. Há também uma tradução de Guilherme da Silva Braga para a L&PM (2012).

[2] Em O´Shea, Dia de hera na sede do comitê

[3] Em O´Shea, Araby.

[4] Em O´Shea, Um caso trágico (já pensei numa resenha comparativa com O altar dos mortos)

[5] Em O´Shea, Dois galãs

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14/06/2014

Destaque do Blog: ZAZIE NO METRÔ, de Raymond Queneau

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2014/06/14/jovialidade-e-irreverencia-na-literatura-francesa-zazie-aos-50/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de julho de 2009)

Ainda hoje, em nossos tempos impregnados pela cultura teen, dá para sentir um gostinho do impacto causado em 1959 por Zazie dans le métro [Zazie no metrô, em inspirada tradução de Paulo Werneck], que trazia não só uma adolescente como heroína (despida de quaisquer atributos convencionais da ficção até então) como também incorporava a linguagem das ruas, as gírias e desbocamentos do coloquialismo, sabotando com isso a tão cultuada “literatura francesa”, com sua elegância marmórea, suas frases polidas (em todos os sentidos da palavra), seu classicismo aparentemente inato (como se não tivesse existido Rabelais).

Zazie chega a Paris e quer andar de metrô. Não andará, e essa será uma das muitas expectativas, dela, de outros personagens e do leitor, contrariadas pelo irreverente e molecão autor de 56 anos: Raymond Queneau (1903-1976), um dos mais criativos membros do OuLiPo (Oficina de Literatura Potencial), grupo vanguardista, celebrizado devido às diversas experiências com a linguagem, e ao qual pertenceu também Italo Calvino, talvez o único a escrever obras-primas tão joviais quanto Zazie (é o caso, por exemplo, de Se um viajante numa noite de inverno).

Zazie chega a Paris e fica sob a guarda do “tio” Gabriel. Logo some, aventurando-se pelas ruas, envolvendo-se com um suposto pedófilo, a quem rouba uma calça jeans (ortograficamente deformada para “djins”, já que uma das subversões do texto é a transliteração fonética do que dizem e pensam os personagens). E assim acaba descobrindo que Gabriel, que dizia ser vigia noturno, na verdade se apresenta numa boate gay como Gabrielle. O pedófilo, que podia ser um ator característico e também um policial (e nessa função assedia a mulher de Gabriel, Marceline), reaparece na narrativa como guarda de trânsito (há uma confusão em Paris devido à greve do metrô), depois como chefe das forças da lei que tentam impor ordem (daquela forma que conhecemos bem) ao caos instaurado por uma noitada que arrasta turistas incautos, uma senhora de bem, Gabriel, seus vizinhos (incluindo o papagaio Laverdure que repete ao longo de todo o romance: “Falar, falar, você só sabe fazer isso”) e, claro, Zazie.

Zazie cai na noite, para espanto do politicamente correto. Temos essa duvidosa capacidade protéica dos agentes da lei de se transformarem em seu contrário, e temos uma cena em que uma passante (a senhora de bem) admoesta a menina por maltratar um adulto. Temos esse tio que faz show numa boate de “tias” (é o termo utilizado no livro, não me culpem) e essa tia (que nunca é mencionada dessa forma) Marceline, a qual, no final, aparece transformada em Marcel, para “salvar” Zazie do mafuá armado durante a noitada e entregá-la para a mais que duvidosa segurança dos braços da legítima mãe, que ouve da filha como súmula da sua experiência em Paris: “Envelheci”.

    Zazie no metrô flerta o tempo todo com o desenho animado, com o cinema pastelão, com o nonsense e a anarquia inerentes a esses gêneros, e esbanja alegria e vitalidade, ao desautomatizar os papéis tradicionais (adolescente, adulto, homem, mulher, polícia, bandido, mãe, filha) e a lógica rotineira que guia nossos dias. Paris, aqui, realmente, é uma festa.

 

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Jovialidade e irreverência na literatura francesa: ZAZIE aos 50

 

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2014/06/14/destaque-do-blog-zazie-no-metro-de-raymond-queneau-2/

Li uma tradução (saiu pela Rocco) de Zazie no metrô, de Raymond Queneau (1903-1976) em meados dos anos 1980. Gostei, gostei bastante, mas meu gosto então era mais pelo “sério” e logo etiquetei o livro como mais “ameno” e meio que o esqueci.

Agora sai uma edição pela CosacNaify e o livro, publicado em 1959, chega ao cinquentenário. E se me dissessem que é um livro recém-publicado, escrito neste ano de 2009, eu acreditaria piamente. É um impacto, meu caro leitor,  a vitalidade, a irreverência, o tom absolutamente moderno dessa obra-prima de Queneau. É o livro em que a adolescência realmente ganha foros de cidadania na literatura. Pois até então não existia o adolescente, tal como o entendemos: tínhamos aqueles personagens “sensíveis” e inadaptados, quase projeções do adulto angustiado (não que isso diminua o mérito de um texto como O apanhador no campo de centeio).

Na literatura francesa, então, dominada ainda pelo estilo elegante e clássico, tínhamos a revolta e a sordidez da adolescência e juventude do narrador de Morte a crédito, de Céline, tínhamos os adolescentes “malditos”, enfant terribles, e ainda a pós-adolescência imediata e anemicamente existencialista e lânguida (Bom dia, tristeza). Não, o texto de Queneau é de uma imperiosa novidade, é o que a vanguarda pode ter de mais alegre e debochado. E só para arremetar este intróito (nem falei do livro ainda), é preciso lembrar que quando o publicou Queneau já estava com 55 ou 56 anos!

Zazie é uma pirralha (como é chamada, na narrativa) que, enquanto a mãe passa duas noites com um amante em Paris, vai ficar aos cuidados do tio, Gabriel. Ela já chega contrariada: não vai poder conhecer o metrô parisiense, que está em greve. Portanto, o título já é uma brincadeira do autor com o leitor: nunca veremos Zazie no metrô. E tantas outras certezas serão dinamitadas ao longo das aventuras parisienses de Zazie: o tio Gabriel faz show numa boate gay como “Gabrielle”, mas é um baita homão, bate em todo mundo, é casado com Marceline… será que ele é gay? Será que é uma tia (o epíteto que os personagens dão aos gays  no livro?) e, sendo como é, o tio  (tia?) de Zazie, não teremos aí outra brincadeira? Mesmo porque quem entrega a pirralha à nada maternal mãe não é o tio (tia?) Gabriel(le) e sim a que nunca foi chamada de tia na narrativa inteira, Marceline, no entanto transformada em Marcel, que está fugindo de casa porque um policial (que provavelmente não é um policial), mas que foi um guarda de trânsito e um tarado pedófilo ao longo da narrativa, a assedia sexualmente enquanto o marido está entretendo turistas que ficaram encantados com ele ao longo do dia com seu show na boate (no qual é incluída, improvavelmente para os padrões da censura e da proteção a menor, a pirralha). O falso (ou não?) policial assediou quem: Marceline ou Marcel? E  não foi só ele: a garçonete do restaurantezinho sobre o qual se localiza o apartamento de Gabriel(le)/Marcel(ine), Mado Ptits-Pieds (durante a semana falarei do que Queneu faz com a ortografia das palavras, utilizando a fonética de forma maravilhosa, que deveria ter ensinado muita coisa a Antônio Houaiss quando traduziu Ulisses, e que foi magicamente preservada pelo tradutor Paulo Werneck), que aceita casar-se com um amigo de Gabriel(le), Charles, ao subir ao apartamento para dar um recado e comunicar sua decisão, também aproveita para “dar uma cantada” na companheira do tio que nunca é chamada de tia. E nem de fato sabemos, apesar do uso da palavra “tio” que parentesco liga Gabriel à mãe de Zazie ou a ela.

E essa menina desbocada, interesseira (é capaz de acompanhar um pedófilo pelas ruas de Paris, para onde escapuliu da casa do tio, só porque há a possibilidade de ele comprar-lhe uma calça jeans, djins). E sua resposta contumaz: é o caralho? E a maneira como trata o tio, de uma forma que uma transeunte (que se tornará uma das personagens mais deliciosas do texto) a repreende, invertendo tudo o que esperamos de uma situação dessas, por “maltratar um adulto”?

Paris é uma festa nesse dia de greve de metrô. A festa da linguagem de Queneau.

Ele pertenceu ao famoso grupo experimental OuLiPo, na época em que as vanguardas ainda tinham peso (lembrem-se que foi também a época do “noveau roman” e da “nouvelle vague”). OuLiPo- oficina de literatura potencial  (não, não, não se trata de um desses grupelhos chatos, não que não os houvesse, claro, mas dessa turma participaram grandes autores como Italo Calvino, do qual certas obras têm algum parentesco com Zazie, como o delicioso Se um viajante numa noite de inverno, e também Georges Perec, do sensacional A vida: modo de usar).

Em 1960, Zazie foi filmado por Louis Malle, cuja carreira tem mais altos do que baixos (desses, eu só lembro de três filmes de que eu não gostei: Lua negra; A baía do ódio; Perdas & Danos, este  apreciado por muita gente): filmes ótimos como Ascensor para o cadafalso, Trinta anos esta noite, Lacombe Lucien, Pretty baby, o particularmente esplêndido Atlantic City, Au revoir les enfants, Milou en mai (tem dois que eu nem gosto nem desgosto, não me dizem nada: A vida privada & Viva Maria). Nessa carreira gloriosa nada foi tão inspirado quanto O sopro no coração, justamente sobre um menino que chega à adolescência e um dos melhores filmes da história do cinema na minha opinião, ou sua versão para as travessuras da pirralha criada por Queneau.

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   Zazie tem 19 capítulos. O primeiro capítulo já é divertidíssimo, pois começa com o tio Gabriel, ao ir de encontro a Jeanne Lalochère e sua filha Zazie, queixando-se do fedor da multidão parisiense:”Disseram no jornal que nem onze por certo dos apartamentos de Paris têm banheiro, grande novidade, mas mesmo assim dá pra tomar banho. Esse pessoal aqui em volta não deve se esforçar muito. E esses aí nem são os mais fedorentos de país.” Numa inversão típica da narrativa, é no entanto o cheiro dele que vai incomodar os outros e dar origem a uma confusão que caracteriza completamente o seu tipo físico (o narigão, a corpulência). É que Gabriel usa um perfume (que se fará presente o romance inteiro) chamado “Barbouze”, “um perfume da Fior”. E quase todos garantem que é uma fragrância horrível: “Devia ser proibido empestear o mundo desse jeito, continuou a dondoca, convencida de que tinha razão”.. A única que gosta do cheiro é Zazie, a quem ele não conhecia e que surge da multidão.

Eles combinam de se encontrar “depois de amanhã para o trem das seis e sessenta” para Gabriel devolver a menina: “Natürlich, disse Jeanne Lalochère, que tinha sido ocupada”. Esse é um exemplo do virtuosismo do estilo de Queneau. Note-se as implicações desse “tinha sido ocupada”, que remonta à guerra e a uma aura de promiscuidade sexual.

Ao saber que não vai poder andar de metrô, devido à greve, Zazie grita:

“—Mas que canalhas! Safados. Fazer isso comigo.

–Não foi só com você que eles fizeram isso, disse Gabriel, perfeitamente objetivo.

–Não to nem aí. Mesmo assim, é comigo que isso tá acontecendo, eu, que tava tão feliz, tão contente e tudo de ir vagãobundear no metrô. Com mil diabos, puta merda!”

Um pouco adiante, Gabriel diz:

“–E depois temos que chispar: o Charles tão…

–Oh!Essa dança aí eu conheço, exclama Zazie, furiosa…”

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     No táxi de Charles, amigo de Gabriel, começa outro dos jogos favoritos do texto: inexatizar os lugares célebres de Paris. Um diz que é o Panthéon, o outro nega, o outro replica, e assim por diante… E Zazie sempre espicaçando. Aliás, na relação entre ela e os adultos do texto, constatei um tipo de duelozinho, de espicaçamento contínuo, que conheço bem, por causa dos meus alunos dessa faixa de idade: por mais que gostem de você, estão sempre espicaçando-o e tentando deixá-lo na defensiva. E haja presença de espírito e jogos de linguagem para deter a ofensiva (e ao mesmo tempo isso é muito estimulante e energético).

No restaurante embaixo do apartamento de Gabriel e de propriedade do seu locador, Turandot, Zazie insiste em tomar uma “cacocalo” (mas não tem no estabelecimento), enquanto Charles vai de bojolé. E assistimos a uma cena de teatro do absurdo (como também há toques do futuro besteirol, de desenho animado, de cinema, enfim de tudo que há de aproveitável na cultura verbal):

“—E você?, ele pergunta a Zazie.

–Já falei: uma cacocalo.

–Ela disse que não tem.

–É uma cacocalo o que eu quero.

–Você pode até querer, você ta vendo que não tem.

–O que eu quero é uma cacocalo e não outra coisa.”

      Gabriel mostra sua moradia. É aqui, diz ele, que pergunta a ela o que acha: “Zazie fez um gesto que parecia indicar que ela preferia não declarar sua opinião”. Nesse momento, conhecemos boa parte da fauna que irá povoar o resto do livro: Turandot, o dono, Mado Ptits-Pieds, que vai aceitar o pedido de casamento de Charles e o maravilhoso papagaio Laverdure, que repetirá o mesmo refrão (com uma exceção) até o fim da história: “Falar, falar, você só sabe fazer isso”.

“Seu Charles, é o que Mado Ptits-Pieds diz, você é um melancólico.

–Melancólico o caralho, responde Charles.

–Isso lá é verdade, hoje o senhor não está nada educado.

–É engraçado, é assim que ela fala, a fedelha.

–Não entendi, disse Turandot, nem um pouco à vontade.

–É fácil, disse Charles, essa criança não consegue dizer uma palavra sem acrescentar  um o caralho logo depois.

–E ela acrescenta o gesto às palavras, perguntou Turandot.

–Ainda não, respondeu gravemente Charles, mas não vai demorar para isso acontecer…

–Pultaquilparil, gemeu Turandot, não quero na minha casa uma vadiazinha que diz essas porcarias. Já consigo até ver, ela vai perverter a vizinhança inteira. Daqui uns oito dias…

–Ela só vai ficar dois ou três dias, disse Charles.

–Já é demais, em dois ou três dias ela vai ter tempo de enfiar a mão na braguilha de todos os velhos gagás que me dão a honra de fazer parte da minha clientela.

–Falar, falar, disse Laverdure, você só sabe fazer isso.”

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E então aparece a suave, sutil e enigmática Marceline e um problema logo surge: Gabriel trabalha à noite (diz para Zazie que é vigia) e não quer que a menina barulhenta atrapalhe seu sono matinal.

“—A gente, disse Gabriel, podia dar um sonífero para ela dormir pelo menos até meio-dia, ou milhor, até as quatro. Parece que tem uns supositórios que permitem atingir exatamente esse resultado”.

Na manhã seguinte (estamos no terceiro capítulo), Zazie acorda e se entedia no apartamento do tio e sai para a rua: “É  uma rua tranqüila. Os carros passam tão raramente que daria para brincar de amarelinha. Tem algumas lojas de bairro e cara provinciana. Pessoas vão e vêm a um passo razoável. Quando atravessam, olham primeiro para a esquerda, depois à direita, unindo o civismo ao essesso de prudência. Zazie não está totalmente decepcionada, ela sabe que está em Paris mesmo, que Paris é uma grande aldeia e que Paris inteira não parece com aquela rua. Só para se dar conta e ter total certeza, é preciso ir mais longe. É o que ela começa a fazer, com ar despreocupado”. É Tom Sawyer reaparecendo na ficção após um século de gente adulta e séria, e adolescentes como pano de fundo e coadjuvantes.

Turandot tenta impedi-la, mas ela faz com que uma multidão se junte à volta deles, chamando-o de tarado.

“Diante desse público seleto, Zazie passa das considerações gerais às acusações particulares, precisas e circunstanciadas… A senhora insiste; ela se inclina para Zazie.

–Vamos, menina, não tenha medo, me diz o que esse homem ruim te falou?

–É sujo demais.

–Ele te pediu para fazer alguma coisa?

–Isso mesmo, dona.

    Zazie deixa escapar em voz baixa alguns detalhes na orelha da boa senhora… Um tipo indaga:

–Quê que ele pediu pra ela fazer?

     A boa senhora deixa escapar os detalhes zazílicos na orelha do tipo:

–Oh, nunca tinha pensado nisso.

     E reformula assim, mais para pensativo:

–Não, nunca.

     Ele se volta para outro cidadão:

–Pois então, ouve só isso aqui (detalhes). Inacreditável.

–Tem gente que é safado mesmo, disse o outro cidadão.

    Enquanto isso, os detalhes se espalham pela multidão.

    Uma mulher diz:

–Não entendi.

    Um homem esplica pra ela. Puxa do bolso um pedaço de papel e faz um desenho com caneta bique.

–Muito bem, diz a mulher, sonhadora.

    Ela acrescenta:

— E é prático?

    Está falando da caneta…”

     Turandot consegue escapulir dali e no seu estabelecimento:

“–Deusdossel, deusdossel, gaguejou ele.

— Falar, falar, diz Laverdure, você só sabe fazer isso.”

Marceline é obrigada então a acordar Gabriel e lhe dizer que a guria “deu no pé” e que não pode sair atrás dela porque está “com roupa fervendo no fogo”. Turandot  (que foi levar a notícia) recomenda uma lavanderia automática e Gabriel: “Por quê que você tem que se meter? Falar, falar, você só sabe fazer isso”.

Quando Gabriel sai para procurar a sobrinha, passa por uma sapataria e conhecemos então outro personagem importante, o sapateiro Gridoux.

ZAZie o filme

E então Zazie perambula por Paris. Lógico que vai até o metrô, que está fechado.  Um sujeito a aborda: “Ela não conseguia acreditar no que os olhos viam. Ele estava emperiquitado com uma bigodeira negra, chapéu-coco, guarda-chuva e uns sapatos enormes. Não é possível, Zazie dizia para si mesma com sua vozinha interna, não é possível, é um ator perdido, dos velhos tempos.”

     Dissimulada, ela permite que o tipo (que ela crê ser um pedófilo) a leve a um mercado de pulgas:

“—Ah, o mercado de pulgas, disse Zazie, com ar de quem não quer se deixar surpreender, é aqui que dá pra encontrar uns rambrãs baratinhos, depois é só vender prum ianquense e a viagem está ganha… Tem calça djins, nos uniformes americanos?

–Mas sem a menor dúvida. E bússolas que funcionam no escuro.

–Tô cagando pras bússolas…

–Podemos ir lá ver, disse o sujeito.

–E depois?, disse Zazie, não tenho nem um tostão pra poder comprar, só afanando mesmo.”

E no mercado de pulgas o sujeito compra o djins: “Djins. Assim. No primeiro passeio em Paris. Bacanérrimo.” Mais adiante: “Tá pensando o kê? Keke ele ker/ Com certeza é um timo imundo, não um nojento indefeso, mas um tipo imundo de verdade. Dizconfia, dizconfia, dizconfia. Mas e aí se, a calça djins…”

Não vou revelar tudo o que acontece no livro. Só quero dar uma idéia da sua graça. Por isso, pulo um pouco e mostro Zazie no apartamento do tio, acompanhada pelo sujeito que se apresenta como Pedro-Surplus, “um comerciante”, embora Zazie desconfie de que ele possa ser um tira. Pedro Sur-plus acusa Gabriel de prostituir garotinhas:

“– Essa menina estava rodando bolsinha no mercado das pulgas. Espero que pelo menos o senhor não vá vender ela para os árabes.

–Isso nunca, senhor.

–Nem aos poloneses?

–Também não.

–Somente aos franceses e turistas abonados?

–Somente coisa nenhuma.

–Então o senhor nega?

–E como.

–E me diga, meu rapaz, qual é o seu ofício ou sua profissão atrás do qual ou da qual o senhor esconde as suas atividades delituosas?

–Artista.

–O senhor? Um artista? A menina me disse que o senhor era vigia noturno.

–Ela não sabe de nada…

–Então, artista de que tipo?

–Dançarina de cabaré.”

E assim Zazie ouve uma palavra sobre a qual fará várias inquirições mao longo do texto: “hormossecsual”:

“—Pois não está vendo tudo o que está bem no seu nariz? Disse o sujeito, com um ar cada vez mais sacanamente mefistofélico: proxenetismo, rapinagem, hormossecsualidade, eonismo, hipospadia balânica, com tudo isso você vai puxar uns dez anos de trabalhos forçados.

     Depois ele se vira para Marceline:

–E a senhora? Gostaríamos de ter algumas informações sobre a senhora também.

–Quais?, perguntou Marceline suavemente.

–Você só deve falar na presença do seu advogado, disse Zazie…

–Dá pra calar a boca?, disse o sujeito para Zazie. Pois então, a senhora poderia dizer que profissão exerce?

–Dona-de-casa, responde Gabriel, com ferocidade.

–Em que consiste?, pergunta ironicamente o sujeito.

      Gabriel se vira para Zazie e pisca o olho, para a menina se preparar para saborear o que vem por aí.

–No que consiste?, diz ele, anaforicamente. Por exemplo, pôr o lixo para fora.

     Ele pega o sujeito pela gola do paletó, arrasta pelo assoalho e o projeta rumo a direções inferiores.

     Faz barulho: um barulho abafado.

     O chapéu segue o mesmo caminho. Faz menos barulho, embora seja coco.”

O sujeito (Pedro-Surplus, será?, comerciante?, polícia? ator? tarado?) puxa prosa com o sapateiro Gridoux (eu saltei vários episódios,esse diálogo está no capítulo 7):

“—O titio é uma titia.

–Não é verdade, berrou Gridoux… O Gabriel ele é um cidadão honesto, honesto e honrado. Além do mais, todo mundo gosta dele aqui no bairro.

–Uma sedutora.

–O senhor está me enchendo o saco, afinal de contas, com esses seus ares superiores. Estou repetindo que o Gabriel não é uma tia, está claro, sim ou não?… O Gabriel dança numa boate de bichas-loucas disfarçado de sevilhana, oquei. Mas quê que isso prova, hein?… Isso não prova nada, só diverte os trouxas. Um colosso vestido de toureiro faz sorrir, mas um colosso vestido de sevilhana é bem o tipo da coisa que as pessoas acham engraçado. Sem falar que além disso ele dança A Morte do Cisme que nem na Ópera. Com saiote e tudo… afinal de contas é um trabalho como qualquer outro, né não?

— E que trabalho, o sujeito contentou-se em dizer.

–Que trabalho, que trabalho, replicou Gridoux, macaqueando o outro. E do seu trabalho, o senhor tem orgulho?

     O sujeito não respondeu.”

No capítulo 8, novamente passeiam por Paris Gabriel e Zazie no táxi de Charles. Zazie pergunta ao taxista o que quer dizer hormossecsual:

“—Mas o quê que isso quer dizer? Que ele usa perfume?

–Isso aí. Você entendeu.

— Não é motivo pra ir pra cadeira.

–Claro que não.

–E o senhor? O senhor é? Hormossecsual?

— Por acaso eu tenho cara de quem queima a rosca?

–Não, porque o senhor é motorista.

— Então. Ta vendo.

–Tô vendo nada.

–Eu também não vou fazer um desenho pra você.”

(escrito especialmente para o blog, junho-julho de 2009)

 

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12/06/2014

LEITURAS EM ESPELHO: “Romeu e Julieta na aldeia” (Gottfried Keller) e “Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk” (Nikolai Leskov)

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(uma versão do texto abaixo foi publicada no “Letras in.verso e re.verso”, em 11 de junho de 2014.

VER:  http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/06/entre-shakespeare-e-pagina-policial.html)

A editora 34 tem apresentado um catálogo notável de traduções de clássicos, incluindo nomes escassamente conhecidos pelos brasileiros, caso de Gottfried Keller (1819-1890) e Nikolai Leskov (1831-1895). No entanto, quando se estuda a história do “romance de formação”, o suíço invariavelmente é citado como aquele que escreveu a mais importante obra nessa vertente tão fundamental do gênero: O verde Heinrich (“verde” no sentido de imaturo, isto é, em formação); por seu lado, o responsável por uma maior divulgação, no Ocidente, do russo foi Walter Benjamin, por meio do seu citadíssimo O narrador, em que ele o toma como paradigma da atividade (para ele, em extinção[1]) que dá título ao ensaio:

“Se a arte da narrativa é hoje rara, a difusão da informação é decisivamente responsável por esse declínio.

    Cada manhã recebemos notícias do mundo todo. E, no entanto, somos pobres em histórias surpreendentes. A razão é que os fatos já nos chegam acompanhados de explicações. Em outras palavras: quase nada do que acontece está a serviço da narrativa, e quase tudo está a serviço da informação. Metade da arte narrativa está em evitar explicações. Nisso Leskov é magistral… O extraordinário e o miraculoso são narrados com a maior exatidão, mas o contexto psicológico da ação não é imposto ao leitor. Ele é livre para interpretar a história como quiser, e com isso o episódio narrado atinge uma amplitude que não existe na informação.”

Keller e Leskov têm algo em comum (além da publicação pela 34): ambos “aclimataram” tragédias shakespearianas (ou melhor dizendo, personagens e situações que se tornaram definitivos nas tragédias do bardo inglês) para a realidade cotidiana de seus países. Se Shakespeare inventou o humano, como quer Harold Bloom, vejamos o que faz a sua invenção solta pelo vasto mundo no século em que Balzac reinventou-o, ou pelo menos fez diminuir em muito seus horizontes, colocando a comédia do humano nos trilhos do capitalismo burguês (de onde até agora ele não conseguiu descarrilhar).

Romeu e Julieta na AldeiaGRD_22_lady macbeth

I

Publicada em 1856, com outras quatro (compondo o primeiro volume do ciclo A gente de Seldvila), a novela Romeu e Julieta na aldeia sustenta com vigor o peso da comparação com aquela que é a mais popular tragédia (mais até do que Hamlet, creio eu) de Shakespeare. Além do título, no primeiro parágrafo o narrador traz à baila a intertextualidade de forma explícita: “Narrar esta história seria uma imitação ociosa se ela não se baseasse num acontecimento verídico, demonstrando quão profundamente se enraíza na vida humana cada uma daquelas fábulas sobre as quais as grandes obras do passado estão construídas. O número de tais fábulas é limitado, mas elas sempre afloram em nova roupagem e, então, obrigam a mão a fixá-las”.[2]

O “gancho” sai, por conseguinte, tanto do “teatro” (na sua acepção mais nobre) — aliás, de uma espécie de mundo platônico-arquetípico das fábulas —quanto das corriqueiras páginas policiais (o mundo da informação): o suicídio de um jovem casal, cujo romance era contrariado pela inimizade entre suas famílias. E Keller dá efetivamente uma coloração à Balzac para a situação, desvelando certas leis sociais e psicológicas de seu país, através da criação da fictícia região de Seldvila. Fará bem àqueles que afirmam que nossa época é pior do que as anteriores, e que a criminalidade, a violência e o esgarçamento dos valores morais e familiares imperam de maneira nunca vista, ler a história de Sali e Vrenchen, para aclarar (e ter menos falseada) sua noção do passado.

O narrador já nos adverte quanto aos falsos bucolismos, ao começar o relato com um aparente quadro idílico, de trabalho sadio, de relações humanas cordiais e civilizadas, em meio a uma paisagem rural inspiradora: temos dois proprietários de terras, Manz (pai de Sali) e Marti (pai de Vrenchen) arando seus terrenos (há outro de permeio, em estado de abandono, por falta de herdeiros oficiais), fazendo uma pausa para usufruir do lanche trazido pelos filhos, ainda pequenos (estes, por sua vez, gostam de se embrenhar pelo terreno sem dono e ali brincar).

Num leilão pelo arremate daquele lote toda essa harmonia azeda: começa uma disputa infindável (com litígios mil que arruinarão a ambos) entre Manz e Marti, de tal forma que, quando os dois se encontram, chegam às vias de fato. Vem à tona o pior não só deles, como também da comunidade à volta (que acompanha com interesse de ave de rapina o saldo da quizila). Anos mais tarde, à família de Manz restará (após a perda de suas terras) a administração de uma taberna sórdida de Seldvila (que significa “vila dos bem-aventurados”!); e ao viúvo Marti sobrará uma parcela ínfima e descurada da sua propriedade (um incidente violento o levará à demência e à internação numa instituição para alienados, deixando a filha à própria sorte). Separados por alguns anos (já que um dos lados adversários fora viver no espaço urbano), quando Sali e Vrenchen se reencontram, percebem a paixão mútua. Uma relação sem futuro.

E se, na primeira parte, Keller mostrava a rigorosa engrenagem da ganância, do rancor e da depauperação, na segunda ele apresentará um dos retratos mais marcantes da mentalidade jovem (mesmo que atada a um destino fatalístico) já levados a cabo na ficção. A caracterização dos detalhes da intimidade entre os dois é maravilhosa. Tem o seu quê de irresponsabilidade, de imprevidência; o seu quê de romantismo invencível;[3] e também o seu quê de conformismo revoltante: o Romeu e a Julieta dos cantões suíços preferem a morte (após o idílio durante uma quermesse) do que se libertar dos laços que os prendem à sua comunidade, por medo de se tornarem “apátridas” ou “andarilhos” (o pior dos destinos, dentro da lógica daquele meio), pois é preciso ter uma “certidão de cidadania”, sem a qual não podem deitar raízes em nenhuma localidade.

Foi assim que a boa gente de Seldvila (incluindo Manz e Marti, em causa própria) manteve afastado e espoliou aquele cuja alcunha é “violinista escuro” (de provável etnia cigana), legítimo herdeiro (todos sabem) do pedacinho-de-chão-causa-da-discórdia entre as famílias, nunca fornecendo a ele esse documento que lhe permitiria reivindicar seus direitos.

É por isso que, apesar de Romeu e Julieta na aldeia nos fazer penetrar, de um modo lindo e comovente, no cerne e na plenitude da juventude do casal condenado, tragédia mesmo é a dos apátridas (como o violinista escuro), a manutenção tácita da exclusão, através de táticas burocráticas e mesquinhas. O desperdício das vidas de Sali e Vrenchen, afora a loucura dos pais, é a falta de coragem de romperem com tal estrutura, tornando-se párias conscientes: descendem na escala social, mas são sempre “da aldeia”, aceitando os valores da tribo.

A tradução de Marcus Vinicius Mazzari é exemplar, porém ele incorreu em grave erro ao inserir determinadas notas de rodapé onde “esclarece”, invasiva e inapropriadamente, elementos simbólicos e significados da história. Veja-se, por exemplo, a nota 6, na pág. 17, na qual acompanhamos brincadeiras e rituais infantis de Sali e Vrenchen: “A narração dessas brincadeiras infantis no campo central compreende detalhes (como o motivo da papoula vermelha sobre a cabeça da boneca) que apontam simbolicamente para desdobramentos posteriores da história”!!!???

Teria sido melhor deixar o leitor acompanhá-la com mais liberdade, sem a camisa-de-força acadêmica[4]. O que ele informa caberia melhor no seu (este sim, indispensável) posfácio. Nele encontramos a bela justificativa de Keller para seu projeto, reivindicando seu direito (e o de todo criador) “de em qualquer época, mesmo na era do fraque e das estradas de ferro, estabelecer um elo direto com o elemento da parábola, da fábula—um direito que, no meu modo de ver, não devemos permitir que nos seja subtraído por nenhuma transformação cultural”.

(uma versão da seção acima—dedicada ao texto de G. Keller—foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de junho de 2014)

 

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II

Em 1865, quem se valeu desse direito, estabelecendo seu elo direto com o elemento da parábola e da fábula na era do fraque e das estradas de ferro (que não eram novidade mesmo num império marcado pelo atraso com relação às demais potências da época) foi o ainda jovem Leskov (ainda assinando com pseudônimos seus trabalhos literários) com Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk.

Também é visível a vinculação ao noticiário policial (e os detalhes violentos e sórdidos nada ficam a dever aos veiculados nos programas televisivos contemporâneos muito assistidos como “Cidade Alerta” ou “Brasil Urgente”— tidos, inclusive, como fortes formadores de opinião).  Igualmente no primeiro parágrafo o narrador explicita sua “aclimatação” (o detalhe curioso é que como que a divide com outros — pertencentes a uma casta mais letrada, bem entendido, para ter a referência no seu horizonte cultural): “De quando em quando aparecem em nossas paragens uns tipos que nos fazem sentir um tremor na alma sempre que nos lembramos deles, por mais que o tempo tenha passado desde o nosso último encontro. E um desses tipos é Catierina Lvovna Izmáiolova, mulher de um comerciante, outrora protagonista de um terrível drama, após o qual nossa nobreza, usando uma expressão bem apropriada, passou a chamá-la Lady Macbeth do distrito de Mtzensk”[5].

Catierina é uma personagem flaubertiana (explico-me adiante) que chega a extremos de tragédia, e malgrado a sonora e expressiva alcunha, inclusive por parte da parcela mais letrada da população do distrito, a analogia com Lady Macbeth não é estritamente exata: como todos sabem, a personagem da peça instiga, espicaça o marido a fim de que ele cometa os crimes necessários para chegar ao poder.Veja-se um exemplo, a seguinte fala da personagem de Shakespeare num colóquio exasperado entre o casal Macbeth:

LADY MACBETH: (…) Desde já me ponho

                                 A duvidar de teu amor. Tens medo

                                  De ser na ação e no valor o mesmo

                                  Que és no desejo? Queres ter aquilo

                                  Que estimas como o ornato da existência,

                                   E te mostras em tua mesma estima

                                   Um covarde, dizendo “Não me atrevo”

                                   Depois de “Quero”, como o pobre gato

                                   Do provérbio, que quer comer o peixe

                                   Mas sem sujar as patas?[6]

Moça pobre, de temperamento impetuoso, Catierina Lvovna conformou-se em casar com um comerciante bem mais velho (não havia outra possibilidade para o seu futuro), e vive por cinco anos na grande propriedade do sogro um cotidiano de isolamento e tédio (tal como Emma Bovary—e aqui Benjamin pode ser novamente evocado, padroeiro que é de todos os comentadores leskovianos: “O tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência”), até que numa ausência prolongada do marido, ela se envolve com um dos empregados, o mulherengo sedutor Serguiêi, e o torna seu amante.

A paixão por Serguiêi desperta Catierina em todos os sentidos: “… deu plena expansão a seu gênio. Agora se mostrava uma mulher de pulso… enchia-se de altivez, determinando tudo pela casa afora, e sem deixar Serguiêi arredar pé de perto de si”. Para isso, ela tem de primeiramente liquidar o sogro, e o faz, envenenando-o. Mais tarde, eliminará o marido (uma cena impressionante e brutal), que volta de inopino.

Em tudo e por tudo, parece ser ela a ditar as regras, a derrubar os limites, como fosse uma ancestral da femme fatale do cinema noir. Não é bem assim: do mesmo modo como se larga à modorra do clima e à languidez[7], ao bochorno do seu idílio adúltero, ela deixa que o aparentemente bonachão (embora cúmplice dos seus crimes) Serguiêi a induza, é um processo totalmente inverso ao que observamos no casal Macbeth e muito mais afim aos processos psicológicos observáveis em Madame Bovary, em que a fantasia pessoal tem sua parte nas transgressões de Emma, mas pesa muito mais o cálculo dos seus amantes e “cúmplices”, que se valem dessa mesma fantasia para manipulá-la e usufruir do que tem a oferecer.

Serguiêi é que se revela o calculista-mor do enredo (sua amante sendo movida pela passionalidade). Isso fica claro quando, após o assassinato do marido (e o sumiço de seu corpo), aparece outro postulante à herança: “Boris Timofiêitch negociava com um dinheiro que não era todo seu… ele tinha em circulação mais dinheiro do seu sobrinho Fiódor Zakhárov Liámim, menor de idade, do que propriamente seu”.O menino vem visitar a “tia” e lemos o seguinte diálogo entre os amantes:

“__ Agora, Catierina Ilvovna, todo o nosso negócio vai virar pó.

__ Por que virar pó?

__ Porque agora tudo isso vai ser dividido. O que é vamos administrar, um negócio vazio?

__ Ora essa, Seriója, será que estás achando pouco?

__ Mas o problema não é comigo; eu só duvido que agora a gente vá ter aquela felicidade.

__ Como assim? Por que nós não vamos ter aquela felicidade, Seriója?

__ Porque, pelo amor que tenho pela senhora, Catierina Ilvovna, eu desejaria vê-la uma verdadeira dama e não vivendo do jeito que a senhora tem vivido até agora. Ao contrário, com a diminuição do capital nós ainda vamos acabar vivendo pior do que antes.

__ E por que eu iria precisar disso, Seriójotchka?

__ É verdade, Catierina Ilvovna, pode ser que a senhora não tenha nenhum interesse nisso, só que para mim, que a estimo — e mais uma vez contrariando o olhar das pessoas, que são infames e invejosas — isso será terrivelmente doloroso. A senhora faça como achar conveniente, é claro, mas eu tenho pra mim que essas circunstâncias nunca vão me fazer feliz.”

Por tais vias insidiosas, ele a instiga, espicaça a eliminar o pequeno Fiódor (numa outra cena extraordinária). Vai ser a desgraça do casal criminoso. Serão pegos em flagrante, julgados e condenados à Sibéria, aos trabalhos forçados, o que levará Lady Macbeth do distrito de Mtzensk a outro patamar, narrativo e psicológico. Poucas páginas finais são tão intensas e cruéis (e tão econômicas em seus efeitos): inverte-se a dinâmica do casal (ou melhor, ela se explicita tal como é, de fato) e vemos toda a impetuosidade e bovarismo de Catierina Lvovna (o Ilvovna que lhe dirige Serguiêi é marca do inculto, como nos esclarece o tradutor) degradar-se (em paralelo à sua degradação social) numa sofrida paixão de sujeição e humilhação. Haverá ainda um último ato em que ela reencontrará o seu “gênio” (lembram?, aquele que despertara graças à ligação com o empregado e a decisão de eliminar o sogro) e tomará mais uma atitude extrema e irresignada: um lado Medeia bem mais forte do que o lado Lady Macbeth inscrito nesse temperamento. Uma Medeia que teve de se confinar a um meio flaubertiano, onde o corriqueiro é atroz.

Assim, a tragédia elizabetana, a vida em ramerrão (seja nos moldes balzaquianos ou nos moldes flaubertianos) e a dimensão em que suas monstruosidades podem ser filtradas — como “exemplo”— num mundo pós-Revolução Industrial (a página policial, que galvaniza as atenções da sociedade, e que capitaneia a deterioração da narrativa no mundo da informação triufante) se unem em dois textos perfeitos que têm de constar em qualquer lista sensata das maiores obras de ficção do século XIX.

 

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NOTAS

[1] “São cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente… É como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências” (utilizo a tradução de Sérgio Paulo Rouanet publicada pela Brasiliense, no volume 1 das Obras Escolhidas de Walter Benjamin, Magia e Técnica, Arte e Política, 1985).

É nesse texto que Benjamin faz o famoso uso dos arquétipos de narradores: o camponês sedentário e o marinheiro comerciante;

[2] Todas as citações de Keller se referem à versão de MarcusVinicius Mazzari (ed. 34, 2013; edição que inclui as ilustrações feitas por Karl Walser, irmão do genial Robert Walser, autor de Jacob von Gunten; há também um pequeno texto deste último, antes do posfácio do tradutor) para Romeo und Julia auf dem Dorfe.

Não foi a primeira vez que o texto foi traduzido: ele pode ser encontrada também em Três Novelas Alemãs, em versão de Otto Schneider & Germano Thomsen (Ediouro, 1988; antes, pela Boa Leitura, 1964).

[3] Como exemplo, este trecho:

“Foram até a porta da cozinha, que fixara aberta e dava diretamente  para o quintal, e tiveram de rir quando se olharam no rosto. Pois a face direita de Vrenchen e a esquerda de Sali, que durante o sono estiveram encostadas uma na outra, exibiam agora, por causa da pressão, um vermelho carregado, enquanto a palidez das outras faces se acentuava ainda mais com a aragem fria da madrugada. Esfregaram carinhosamente o lado frio e pálido de seus rostos para dar-lhes também a coloração vermelha. O frescor da manhã, a paz calma e orvalhada que se estendia por toda a região, o recente alvorecer, tudo isso os deixava felizes e esquecidos de si mesmos, e sobretudo Vrenchen parecia dominada por um espírito ameno de despreocupação

__ Amanhã à noite, portanto, eu preciso sair desta casa—disse ela—e procurar um outro teto. Antes disso, porém, gostaria de me divertir bastante com você, uma única vez, apenas uma vez; gostaria de dançar com você em algum lugar, apaixonada e intensamente, pois a dança com que sonhei se apossou de todo o meu ser!

__ De todo modo quero ficar ao seu lado e ver onde você vai se abrigar—falou Sali—; e também adoraria dançar com você, menina adorável, mas onde?

__ Amanhã haverá quermesse em dois lugarejos não muito distantes daqui—replicou Vrenchen.—Nesses lugares as pessoas nos conhecem pouco e mal irão reparar em nós…”

[4] Também causa espécie ele não fazer referência em nenhum momento (nem sequer na bibliografia) à tradução anterior.

[5] Uso em todas as citações de Leskov a tradução de Paulo Bezerra, publicada pela 34 em 2009.

Um Lady Macbeth do Distrito de Mzensk, vertido por Ana Weinberg e Ary de Andrade, consta da coleção Antologia do Conto Russo, Vol. III, da Editora Lux Ltda,1961).

O título original é Ledi Makbet Mtzenskogo uezda.

[6] Utilizo a tradução de Manuel Bandeira para Macbeth, ATO I, cena VII (ed. José Olympio, Coleção Rubáiyát, 1961)

[7] Atmosfera fixada com grande eficácia por Leskov:

“O luar penetrava pelas folhas e flores da macieira, desfazendo-se em réstias minúsculas, claras e as mais caprichosas, pelo rosto e por toda a figura de Catierina Lvovna, deitada de costas; o silêncio imperava no ar; só uma brisinha leve e morna mexia um pouquinho as folhas sonolentas e espalhava o perfume delicado das relvas e árvores floridas. Respirava-se algo languescente, que dispunha para a indolência, a volúpia, os desejos obscuros”.

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05/06/2014

O ITINERÁRIO DE FÁBULAS INCONCLUSAS: “Os intrépidos andarilhos e outras margens”, de Adriano Lobão Aragão

adriano 1   intrépidos

publicado na revista  dEsEnrEdoS número 21-agosto 2014

VER  http://desenredos.dominiotemporario.com/doc/21-resenha-AlfredoMonte-Andarilhos.pdf

I

Se eu começar este comentário citando o seguinte trecho de Os intrépidos andarilhos e outras margens[1], “… seria então possível desvendar sua origem, o ponto do qual deságua toda a narrativa, que não é mais que o interminável poema de uma mesma fabulação? Recompor o grande, imenso poema que registra o itinerário de tudo, ou pelo menos o breve fragmento que preserva os intrépidos andarilhos, motivo de sua jornada por campos tão longe de casa?”, o meu leitor mais experiente e safo poderá abanar a cabeça e dizer com seus botões, ai meu Deus!, mais outra narrativa de metalinguagem, de fabulação narrativa voltada para a própria práxis da fabulação narrativa (e suas conexões intertextuais) como tema, ai, não aguento mais!

E se eu acrescentasse outra citação, “…com os mais diversos exemplos de histórias e temas, como um entrelaçar de dias e noites que não revelava seu fim. Mas agora tinha diante de si o enredar de fios que talvez tecesse o paradeiro do objeto de sua busca (…) à espera de quem chegasse para ouvir de-que-se-trata em cada livreto, e seguia um a um desvendando se estaria ali enredada a história que procurava, se entre todos aqueles breves e inúmeros volumes encontraria os andarilhos…”, talvez venha à mesma cabeça abanada desse leitor aquele trecho paradigmático do conto de abertura (“Os desastres de Sofia”) de uma coletânea que em 2014 chega, vejam só, aos 50 anos (A legião estrangeira): “Meu enleio vem de que um tapete é feito de tantos fios que não posso me resignar a seguir um fio só; meu enredamento vem de que uma história é feita de muitas histórias…”; Clarice Lispector, há meio-século, parecia já esgotar o assunto.

Mas não esgotou. E o lindo romance de Adriano Lobão Aragão está aí para desafiar os arautos e augúrios do esgotamento. Sim, ele trilha os caminhos da metalinguagem e da intertextualidade[2], e as peripécias do seu herói (o caminhante) deságuam no mundo de histórias contadas em verso e prosa no mundo de cantadores e cordelistas; ao fim e ao cabo da sua perambulação temos um livro que tanto era sua bagagem inicial quanto foi objeto de busca, e dentro do qual ele, seu leitor (que se formou, arduamente, como leitor, vindo do analfabetismo total), está contido como personagem, naquela coisa circular da cobra-mordendo-o-próprio-rabo. E não afirmarei que, nesse ponto, encontramos exatamente o encanto peculiar de Os intrépidos andarilhos e outras margens (infelizmente, esse título não foi dos mais felizes[3]), ainda que possa afirmar que o autor piauiense seja um dos que se saíram melhor, na ficção contemporânea, ao enveredar por essas espinhosas e traiçoeiras sendas.

Antes de tentar, todavia, definir tal “peculiar encanto” e esclarecer por que achei tão lindo o texto, seria bom fazer um percurso (sumário) pelos mil e um percursos da narrativa, a qual, seguindo a mais pura matriz homérica, mostra um protagonista que erra pelo mundo.

andarilhos

II

O território delineado em Os intrépidos andarilhos e outras margens é um sertão simbólico (eu quase que diria conceitual, se esse termo não fosse tão escorregadio; então usemos: poético), mas que se apresenta muito verossímil. Até os detalhes mais “fantásticos” (outro termo escorregadio) são apresentados de uma forma que me lembra García Márquez ou Juan Rulfo: há um deslocamento das leis físicas, sem que tal “liberdade poética”, por assim dizer, afete o substancial prosaísmo do real.

Instigado pela passagem dos “andarilhos intrépidos”, “caravana mambembe que perambulava ininterruptamente, mas não se sabe desde quando”, o rapaz de 20 anos deixa sua isolada terra natal. São percursos dolorosos, marcados pela quase-morte e uma ressurreição (“à beira da morte, que à beira da morte sempre esteve”).

A primeira passagem de relevo é por uma região arcaica e erma, esquecida do mundo (como a dele próprio) e orientada por uma férrea tradição pré-cristã, nem por isso deixando de contar com seus próprios totens e tabus. Uma história exemplar demonstra isso de forma inequívoca: o forasteiro que fora bem recebido pelos nativos, comera e bebera, contara maravilhas e lorotas de lugares distantes, e que por roubar uma cabra à sua partida, era morto e desmembrado por todos:  “…todos queriam fazer valer a lei dos antigos, que era essa ainda a sua lei e o que poderiam nomear justiça (…) Onde tantas mãos se erguem bradando a necessária justiça, que nenhum nomearia vendeta, e a todos abarca o ofício de testemunha, acusador, juiz e carrasco, e que o culpado seja executado junto a seus defensores, se estes houvessem, claro, estes mesmos que não há…”

Nesse povoado há uma moça que vaga à noite (sonâmbula) até que um dia é violentada pelo filho do magarefe local. O avô mata o abusador (seguindo a Lei), mas a partir daí ela se sente vigiada pelo pai dele. Já não mais vaga inconsciente pela noite, e sim bem desperta. E em locais a que ninguém vai, quase interditos, ela descobre o caminhante, o rapaz que saíra de casa por conta dos “intrépidos andarilhos”, e que praticamente morreu de exaustão e escassez (uma de suas muitas mortes na narrativa). Como num conto-de-fadas, é o beijo da moça que o faz reviver, que o traz de volta ao seu corpo, num momento aliás de grande voltagem poética:

“E ela o beijou. Ela o beijou como as primeiras gotas de chuva chegam a tocar as pétalas das flores de seu perfumado campo (…) E ela o beijou como o odor da terra úmida se mistura ao odor do mato após a chuva e ofusca o perfume das flores (…) E ela o beijou como diversas vezes juntou várias flores e pétala a pétala as desmanchava  em seu corpo e fingia a si mesma estar adormecida, esperando que acreditasse em sua própria ilusão (…) E ela o beijou profundamente, e entregue ao fascínio daquele instante, o caminhante não pôde mais continuar distante de seu corpo, entregue aos enleios de uma moça que lhe devolvia sua própria vida.”

A meu ver, no entrelaçamento da trajetória do caminhante e da sua salvadora é que está o ponto alto dos 61 capítulos do romance. Apesar dos ricos veios explorados mais adiante, nada se iguala em beleza, concentração e apreensão de um mundo rústico, parado, atávico, e no entanto fremente, no qual por mais que se evoque uma tradição (violenta, por sinal) e interditos, todos os gestos parecem recém-inaugurados. Adriano Lobão Aragão parecia particularmente inspirado ao escrevê-los.

Tanto que quando o caminhante dali se afasta sentimos pelo resto do romance saudade da moça que lia os seres e as paisagens no céu, como se este fosse um espelho do mundo (haverá outra mulher, porém sem a sua força). E que se encaixa na macro-narrativa ao ser ao mesmo tempo uma individualidade e uma estória em estado virtual, nesse universo que exige exemplaridades (no sentido de histórias exemplares, que alertam e reprimem): Transformava-se assim em mais um enredo para a história de uma jovem que caminhava dormindo pelas trevas, pronunciando palavras terríveis, enquanto era seguida por um avô ensandecido, como um personagem acrescido a uma fábula inconclusa”; ou ainda: “… até ser esquecida por todos e transformar-se de vez em apenas mais uma das histórias que mantêm firmes as tradições morais de seu povo.”

   O próximo estágio civilizatório já é cristão, embora um mundo cristão agônico, pejado de superstição e violência, e onde o caminhante encontrará duas novas figuras iniciáticas: o padre local, que está ali como uma espécie de esteio contra a barbárie, e que se apresenta muito menos fanático do que os seus fiéis[4], e um membro desgarrado da trupe dos “intrépidos andarilhos”, o ilusionista, que abdicou do destino mambembe por conta de um amor.

Ao contrário do mundo iletrado e telúrico da moça que o beijara (e o salvara), aqui temos o mundo regido, teoricamente, pela Palavra, e palavra escrita, embora poucos tenham o aprendizado da leitura. Nota-se, porém, correndo sob a tensão dessa Palavra, um mesmo rio de brutalidade latente ou explícita (daí a terrível solidão do padre e também a ambiguidade do talento lúdico do ilusionista, que sempre pode ser tomado como demonismo, como um avatar da “mão esquerda”, a sinistra, a malsinada),[5] baseada no famigerado costume.

Como figura típica de história iniciática, o padre diz ao caminhante (quando supõe que ele já está de partida): “A pergunta, a verdadeira pergunta, seria: o que sabes sobre si mesmo? Procuras respostas sobre essa tua jornada, caminhas por estas ruas para descobrir quem é aquele homem, mas nunca paraste para perguntar nada a si mesmo. O que esperas saber dos outros?” E é ele quem dá as “pistas” para o prosseguimento da jornada: um caminho que segue o leito seco de um rio (tendo em mente que se palmilha o dorso de uma baleia, como em certos mitos e estórias romanescas havia o dorso do dragão), e do qual ele não deve se afastar para poder encontrar a fugidia trupe intrépida.

Antes de passar para a próxima etapa, não me furto a citar um dos trechos mais bonitos do romance: “Guiara o caminhante até aqui apenas os seus instintos, sem nenhuma outra indicação. Não poderia ter receio algum em continuar, até que seja inevitável que encontre o seu destino. Sabendo que o destino de todo vivente é sempre a morte? Justamente por isso, não haveria motivo algum para temer seguir adiante.”[6]

Há um interregno que evoca justamente as jornadas iniciáticas: o leito por onde se caminha, “vereda de águas ausentes”, o sono de exaustão, as cascavéis, os sete dias de “esmorecimento”, sendo tratado por um casal misterioso, que fornece a próxima “pista” (o que os cantadores cantam, como repositório de sabedoria)[7].

Após o território do arcaico e do território da sanção cristã, o caminhante se embrenha por uma espécie de mundo-feira, labiríntico mundo onde a cultura popular e mundana (“…detinha-se agora  no mergulho dos intrincados caminhos da memória dispersa de um povo…”) é destilada nos livrinhos de cordel, nas histórias mirabolantes que se imbricam com as lorotas dos vendedores de mazelas e de remédios, das malas onde pode sair uma cobra (da qual foram retirados elixires)[8].

Ao se tornar ajudante e acólito de um vendedor desses folhetos de histórias, ao tentar penetrar no seu âmago (e, por isso, aprender a ler), e assim conseguir a pista final para configurar sua jornada em demanda dos “intrépidos andarilhos” e seu paradeiro, o caminhante (e a narrativa) penetra num estágio que poderíamos chamar de “borgiano”. Malgrado haja ainda muitas peripécias (o caminhante servirá como tropeiro por muitas estradas, por exemplo), a respeito das quais não convém entrar em maiores detalhes, tudo vai se armando para equacionar esse leitor em formação, o Livro (além dos livros) e espelhá-los, sendo ele o que o livro que está lendo contém.

Nesse sentido, um dos momentos mais importantes (e verdadeiramente borgianos) é quando se evoca a vida do patrão do caminhante, e descobrimos que ela pode ser uma das vidas virtuais do jovem caminhante (“E se agora reaparecia restituído à juventude, outra vida era preciso viver, e novamente jogar-se ao interminável caminho, o mesmo”). O outro é o mesmo (e, assim, elementos anteriores da narrativa vão sendo recolhidos e transmudados, como a história do justiçamento do forasteiro, que toma outro vulto na boca do tropeiro-contador).

E aqui eu mesmo posso fazer a cobra morder o rabo, remontando ao começo deste meu comentário: “… seria então possível desvendar sua origem, o ponto do qual deságua toda a narrativa, que não é mais que o interminável poema de uma mesma fabulação? Recompor o grande, imenso poema que registra o itinerário de tudo, ou pelo menos o breve fragmento que preserva os intrépidos andarilhos, motivo de sua jornada por campos tão longe de casa?”.

cinzas palavras

III

Espero que aquele que me seguiu até este ponto tenha se dado conta (não fora por mais nada, pela insistência nas citações) do trabalho de linguagem que faz o deleite do leitor de Os intrépidos andarilhos e outras margens. Esse sertão que parece saído fresquinho do antigo testamento (quando Javé ainda era um deus primitivo, pouco tomístico), manhã recém-inaugurada do mundo, e seus contrapontos de feira e ruído, de palimpsestos de textos e referências (rios heraclitianos, vendedores de folhetins e tropeiros borgianos), só são críveis e só fascinam porque há um senhor poeta mapeando os percursos.

Ah, o perigo: fala-se em poeta, e imaginamos uma “prosa poética”, a narrativa apenas pretexto para um lirismo mal contido. Nada disso! Poeta, e dos bons[9], Adriano Lobão Aragão também é um ficcionista, só que daqueles que plasmam uma linguagem peculiar para a sua ficção (que, no entanto, tem um impulso épico, mesmo que com suas “fábulas inconclusas”).

Li em algum lugar que ele levou cinco anos para estruturar a forma final do romance e que, por isso mesmo, ela se ressente de conter em si vários estágios diferentes. Há, de fato, alguns pontos frouxos na tessitura geral, insisto, na impressionante coesão alcançada, o ponto de tensão mantido na maior parte das páginas. Se destaquei em especial a parte arcaica é talvez porque, localizada no início, ela já nos deslumbra de saída, o restante, portanto, pegando-nos prevenidos e já afeiçoados aos meios e recursos do escritor.

O que ele criou foi uma narrativa-fluxo incessante, que tem uma dicção muito ampla, correndo o risco de esfacelar-se. Para evitar isso, seu talento de estrategista poético encontrou a solução perfeita: pequenos capítulos concentrados e plásticos, verdadeiramente rapsódicos. Sem falar nas pequenas joias lapidares, ocultas no “enredar de fios”: “…continuou falando silêncios…”; “…porque aquela manhã foram muitas manhãs…”; “…o empoeirado chão lhe abrigou sereno, com seus modos amenos de abrigar tanto a semente quanto o cadáver…”; “…como o tempo que depois de desfalecer precisa o corpo reencontrar para o seu estar…”; “perfume é coisa rara em terra em que bala se alastra…”

   Agora só me resta convidar o leitor a tentar decifrar (e torná-lo mais conhecido, porque ele o merece) esse “livro escrito em osso, pecado e purgatório”. Osso, pecado, purgatório, signos de paisagens físicas e morais calcinadas e agônicas.

(escrito especialmente para o blog em junho de 2014)

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NOTAS

[1] Ed. Nova Aliança, 2012.

[2] Entre outros, o leitor identificará referências, veladas ou mais óbvias, a Guimarães Rosa, a João Cabral de Melo Neto, a José Saramago, a Borges, a Graciliano, a García Márquez.

E mais Milton, Sheherazade, Homero e tantos outros, como se pode verificar no longo trecho abaixo:

“Conta o cantador de versos que ao fim da praça com diversos livretos à venda, e que muitos dos versos que agora proclama aprendeu ali, como a história de um príncipe que voava com uma ave misteriosa, e de outro que matava suas esposas todas as manhãs, e de uma princesa que, raptada, enganava seu raptor com todos os homens que encontrava, e de uma outra princesa que contava histórias que não acabavam nunca, e de um poeta cego que escrevia um livro enorme sobre o céu e o inferno com a ajuda das filhas, e de um outro poeta cego que escrevia livros e mais livros com a ajuda do tempo e da eternidade, como se estivesse perdido no labirinto da imensa biblioteca da torre que deveria ligar o mundo dos homens aos céus, e de ainda outro poeta cego que mendigava e cantava a ira de um guerreiro temido que se afasta das batalhas e depois, para vingar o amigo, retorna a matar e morrer na mesma intensidade, e bem pareceria até que todos os poetas fossem cegos, mas havia ainda as aventuras de homens vestidos em metal, montados em cavalos, enfrentando dragões, vilões e bruxos que se organizavam rumo a uma terra distante que buscavam recuperar e por ela morreriam, e de jovens apaixonados que preferiam morrer a não vivenciar seus amores, e outras muitas outras histórias de toda feição e feitio que a voz de um cantador pudesse pôr em verso e enredo…”

[3] Ele é insatisfatório porque não dá conta do essencial da história, e também não combina com a gravidade da linguagem (mesmo com seus elementos picarescos e paródicos, decerto). É certo que os tais “intrépidos andarilhos” são uma espécie de elemento desassossegante no imobilismo sertanejo, e fazem com que o protagonista queira abandonar seu lugarejo, e é certo que eles são inúmeras vezes citados, entretanto não creio que funcionem para o título, o que é piorado pelo “outras margens”, vago e insosso.

[4] Conheceremos sua história pregressa.

[5] Devo dizer que li o romance duas vezes e ainda considero os capítulos referentes ao ilusionista bem menos convincentes do que os do padre.

[6] E como confirmação do que coloquei nos parágrafos anteriores, a próxima frase: “Mas ainda existe muita selvageria habitando este mundo”.

A esta passagem podemos ligar outra, mais próxima do final: “… a sua única coragem talvez fosse apenas a estranha necessidade de continuar, como um rio que não sabe onde ou quando irá desaguar, ou se irá algum dia desaguar.”

[7] Há um travejamento meio à Guimarães Rosa/ Manoel de Barros na linguagem: “De tanto repetir, a gente aprende ou esquece, que é sempre a mesma coisa”. No entanto, há momentos que considero menos felizes, rebarbativos, por exemplo; “O que canta a musa antiga já acabou. Agora é só se alevantar e pegar rumo. No pé adiante é que se vai. Se é tua a parte feita, o por fazer é o por fazer. E quando se lascar todo, tá chegado então. Não tem graça nem simpatia, nem arte nem engenho. O único mistério é não ter mistério nenhum.” Felizmente, a tessitura narrativo-poética que Adriano Lobão Aragão imprime ao seu livro sustenta até essas quedas retóricas.

Mas a parte mais fraca do romance, felizmente poucas páginas, e por isso nem a incluo na minha síntese acima é a do barqueiro que nunca sai do rio e não pesca nada, apenas existe ali indefinidamente (meio  A terceira margem do rio), uma não-existência consentida. Há todo um trabalho de paródia (no sentido de apropriação a sério das leituras do autor) admirável em Os intrépidos andarilhos; nesse entrecho, porém, fica-se mais próximo do pastiche.

[8] “(…) inúmeros versejadores, inúmeros declamadores, inúmeros vendedores de alívio para tudo, em formas mil, seja em pomada, em garrafa, em raiz ou raspa de pau, e sempre acompanhado de inúmeras histórias que entretinham o povo ante a ânsia de uma mala prestes a ser aberta, tendo, diziam, uma cobra por conteúdo, e do veneno da cobra extraía-se muitos produtos ora anunciados, e na fala o espetáculo da paciência animada e novos resquícios do interminável poema. E repetiu esse escutar diversos vezes, atento a todos os detalhes e variações, pois diante de uma nova fonte, a esperança de realinhar a voz da história pulsava forte em suas veias, mas, após inúmeras audiências, era evidente que todas as narrações de todos aqueles famigerados divulgadores dos milagres da ciência e das misturas eram sempre as mesmas e, inevitavelmente, a mala com a cobra, origem de todos os lenitivos que anunciavam, jamais seria aberta, como caixa de alívio e de males que herdaríamos do princípio da narrativa.”

[9] Exemplos de boa fatura poética do autor de Os intrépidos andarilhos:

dois rios (de as cinzas as palavras)

há em minha terra dois rios

silenciosos

um

estendido em verde tapete de aguapé

onde não mais trafegam canoas

apenas diminutas criaturas buscando seu pasto

outro

árido tapete árabe

onde todos caminham acima de sua face

então (de as cinzas as palavras)

em perene forma permanece em idade e fortuna

tudo que no tempo não muda nem tempos nem vontades

nem mentira nem verdade penetra a forma profunda

somente em mim depositou-se irrelevante mudança

talvez desnecessária dança que o cair das folhas trouxe

talvez inseto da noite que de seu brilho descansa

quem sabe silêncio de outrora agora outra hora propaga

antes de ilusão inata à matéria apurar sua volta

em perene forma precisa mas dispersa inexata

somente em mim depositou-se irrelevante reverso

de não mais crer nos versos dessa inútil lira agridoce

EMENDATIO  (de “A Coluna de São Simeão”)

corrigir um ato
refazer a coluna
reanotar cada indicação do caminho
onde não há horizonte
restam nuvens por solução

reelaborar o caminho
para continuar o mesmo
toda obra de um homem
se refaz no tempo

como tudo que é sólido
se desmancha no sangue
um homem busca corrigir seu tempo
que sozinho se esvai

não saber teu nome liberta (de “Yone de Safo”)

não saber teu nome liberta
a tarefa de nomear-te
não mais um substantivo, mesmo próprio
mas a ordem absoluta do caos

então chamo-te poesia
quando recolhes o mais tênue lirismo
na dimensão infinita de um sorriso

e quando passas breve e leve
entre silêncios justapostos
teu nome é brisa
e rompendo o silêncio te chamo lira

nomeio teu ser presságio
onde outros chamariam acaso

e não por acaso, em tua aparição repentina
juntar queria a teu nome todas as sensações
na mais profunda sinestesia

e se acaso perguntasse
que reposta me daria?
que adianta um nome
se nada mais estaria
nesse nome sua dona
que nunca mais veria?

então juntaria teu nome
a todos os nomes da vida
e em cada coisa querida
ali teu nome estaria

quando desejar não é ter
mas querer mais além ainda
mesmo apenas guardar um nome
entre as lacunas da vida

adriano

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