MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

02/11/2012

HISTÓRIA DA NOITE: O que a memória concede

“…A memória

Me concede esta estampa de um livro

Cuja cor e cujo idioma ignoro…

Às vezes sinto medo da memória.”

“…no tempo repetem uma trama

Eterna e frágil, misteriosa e clara”

“As coisas são seu porvir de pó.

É óxido o ferro. A voz, o eco”

Contrariando seu apego por prólogos,  HISTÓRIA DA NOITE (1977), essa obra-prima que expressa o “recato da melancolia” e reúne 31 poemas começa com uma “Inscrição” dedicada a María Kodama (a quem ele fizera um poema “A lua”). Em compensação, há um “Epílogo”:

“Um volume de versos não passa de uma sucessão de exercícios mágicos. O modesto feiticeiro faz o que pode com seus modestos meios… Trabalhamos às cegas. O universo é fluido e cambiante; a linguagem é rígida.

De todos os livros que publiquei, o mais íntimo é este. É pródigo em referências livrescas; também prodigalizou-as Montaigne, inventor da intimidade… Como certas cidades, como certas pessoas, uma parte muito grata de meu destino foram os livros. Poderei repetir que a biblioteca de meu pai foi o fato capital de minha vida? A verdade é que nunca sai dela, com nunca saiu da sua Alonso Quijano”.

“O algibe. Lá no fundo a tartaruga.

E sobre o pátio a vaga astronomia

Do menino. Essa herdada prataria

Que se espelha no ébano. A fuga

Do tempo, que no início nunca passa.

Um dos sabres que serviu no deserto.

Um grave rosto militar e morto.

O tímido saguão. A velha casa.

Naquele pátio que foi dos escravos

A sombra da parreira, encurvada.

Um tresnoitado assovia na calçada.

No mealheiro dormem os centavos.

Nada. É somente pobre mediania

Que procuram o olvido e a elegia.” (“Buenos Aires, 1899)

A palavra “noite” já aparece no primeiro verso do primeiro poema, “Alexandria 641 a.D.”: “Desde o primeiro Ada que viu a noite…” Também temos o tema da vida virtual, que segue existindo na não-existência:”Ordeno a meus soldados que destruam/ Pelo fogo essa vasta Biblioteca,/Que não perecerá…”. Nesse poema inaugural há um verso belíssimo: “o verso em que perdura a carícia”. E quem diz que o nosso poeta não era um lírico?

“Alguém” homenageia os narradores anônimos que transmitiram o nosso repertório de histórias: “Não sabe (nunca o saberá) que é nosso benfeitor”.

Em “Leões”:

“Nem o esplendor do cadencioso tigre

Nem do jaguar os signos prefixados

Nem do gato o sigilo. Dessa tribo

É o menos felino, e no entanto

Sempre os sonhos dos homens acendeu…”

Em “Endímion em Latmos”: “Inútil repetir-me que a lembrança/ de ontem e um sonho são iguais”, que nos prepara, talvez, para o lindo poema sobre Cervantos/Quijano/Quixote (“Eu nem mesmo sou pó”):

“Não quero ser quem sou. A avara sorte

Deparou-me o século XVII,

O pó e a rotina de Castela,

As coisas repetidas, a manhã

Que, prometendo o hoje, nos dá a véspera…

Sou um homem entrado em anos. Uma página

Casual me revelou não usadas vozes

Que me buscavam, Amadis e Urganda…

Cavaleiros cristãos iam e vinham

Pelos reinos da terra, vindicando

A honra ultrajada ou impondo

Justiça com os gumes da espada.

Queira Deus que um enviado restitua

A nosso tempo esse exercício nobre.

Meus sonhos o divisam. Já o senti

Em minha triste carne celibatária.

Não sei ainda seu nome. Eu, Quijano,

Serei esse paladino. E meu sonho.

Dentro da velha casa há uma adarga

Antiga e uma espada de Toledo

E uma lança e os livros verdadeiros

Que a meu braço prometem a vitória.

A meu braço?Meu rosto (que não vi)

Não projeta nenhum rosto no espelho.

Eu nem mesmo sou pó. Sou aquele sonho

Que entretece no sono e na vigília

O meu irmão e pai, capitão Cervantes,

Que militou nos mares de Lepanto

E soube algum latim e algo de árabe…

A fim de que eu possa sonhar o outro

Cuja verde memória será parte

Da existência dos homens, eu te suplico:

Meu Deus, meu sonhador, segue a sonhar-me.”

Nessa nostalgia do épico, do “rumor de hexãmetros”, que nos traz poemas sobre a Islândia ou Gunnar Thorgilson, temos também a memória do trágico, como no poema sobre “Macbeth” (“…a grande voz de Shakespeare (na qual estão as outras)…”.

“Apenas uma coisa entre as coisas

Mas também uma arma. Foi forjada

Na Inglaterra, em 1604,

E carregada com um sonho. Encerra

Som e fúria e noites e escarlate.

Minha palma a sopesa. Quem diria

Que contém o inferno: as barbadas

Bruxas que são as parcas, os punhais

Que executam as leis da sombra…

Esse tumulto silencioso dorme

No espaço de um daqueles livros

Da sossegada estante. Dorme e espera.” (“Um livro”)

E voltamos também aos compadritos, aos duelos de punhais dos arrabaldes, ao passional que movimenta o tango, o compadrito Ezequiel Tabares que quer se vingar, em 1890, do homem que lhe roubou a mulher: “Faz tempo que não se lembra da mulher; só pensa no outro… Sem que ele saia, Buenos Aires cresceu a seu redor como uma planta que faz barulho… As pessoas o atravessam e ele não sabe… Hoje,13 de junho de 1977, os dedos da mão direita do compadrito morto Ezequiel Tabares, condenado a certos minutos em 1890, roçam em um eterno entardecer um punhal impossível”.

No poema “O suicida” o eu lírico afirmava terrificamente: “Lego o nada a ninguém”. Veja-se a contrapartida, ainda que com o recato da melancolia, em “Things that might have been”:

“Penso nas coisas que poderiam ter sido e não foram…

A história sem a tarde da Cruz e sem a tarde da cicuta.

A história sem o rosto de Helena…

O orbe sem a roda ou sem a rosa.

O juízo de John Donne sobre Shakespeare…

O filho que não tive.”

Temos um poema “À França”: “Desviaram-me outros amores/ e a erudição vagabunda, / mas não deixei nunca de estar na França/ e estarei na França quando a grata morte me chamar/ em algum lugar de Bueno Aires./Não direi a tarde e a lua; direi Verlaine. / Não direi o mar e a cosmogonia; direi o nome de Hugo./ Não a amizade, e sim Montaigne…”

Temos “Um sábado” do poeta: “Um homem cego em uma casa oca/ Fatiga certos limitados rumos/ E toca as paredes que se alongam/ E o cristal das portas interiores/ E as lombadas ásperas dos livros/ Proibidos a seu amor …/ E sente que os atos que executa/ Interminavelmente em seu crepúsculo/ Obedecem a um jogo que não entende/ E que dirige um deus indecifrável…”

Para terminar, o poema-título (“Ao longo de diversas gerações/ os homens erigiram a noite./ Em seu começo era cegueira e sonho…/ Nunca saberemos quem forjou a palavra/ para o intervalo de sombra/ que cinde os dois crepúsculos) e dois dos melhores poemas, os quais, creio eu, fornecem as senhas e cifras para o recato da melancolia:

“Quando menino, eu temia que o espelho

Me mostrasse outro rosto ou uma cega

Máscara impessoal que ocultaria

Algo na certa atroz. Temi também

Que o silencioso tempo do espelho

Se desviasse do curso cotidiano

Dos horários do homem e hospedasse

Em seu vago extremo imaginário

Seres e formas e matizes novos.

(Não disse isso a ninguém, menino tímido.)

Agora temo que o espelho encerre

O verdadeiro rosto de minha alma,

Lastimada de sombras e de culpas,

O que Deus vê e talvez vejam os homens.” (“O espelho”)

“…Sou apenas a sombra que projetam

Essas íntimas sombras intrincadas.

Sou sua memória, e sou também o outro

Que, como Dante e os homens todos,

Já esteve no raro Paraíso

E nos muitos Infernos necessários.

Sou a carne e o rosto que não vejo.

Sou no final do dia o resignado

Que dispõe de modo algo diverso

As palavras da língua castelhana

Para narrar as fábulas que esgotam

O que se chama de literatura.

Sou o que folheava enciclopédias,

O tardio escolar de fontes brancas

Ou cinza, prisioneiro de uma casa

Cheia de livros que não possuem letras,

Que na penumbra escande um temeroso

Hexâmetro aprendido junto ao Ródano…

O passado me acossa com imagens…

Sou o que não conhece outro consolo

Que recordar o tempo da ventura.

Às vezes sou a ventura imerecida.

SOU O QUE SABE NÃO PASSAR DE UM ECO,

O que anseia morrer inteiramente.

Sou talvez o que tu és no sonho.

Sou a coisa que sou. Já disse Shakespeare… “ (“The thing I am”)

(julho de 2009; todas as passagens foram traduzidas por Josely Vianna Baptista)

Acesse também, na mesma linha de anotações de leitura da poesia tardia de Borges:

https://armonte.wordpress.com/2012/11/01/as-perpetuas-aguas-de-heraclito-a-moeda-de-ferro-de-borges/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/26/borges-e-o-nome-da-rosa/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/25/o-ontem-fatal-e-inevitavel-borges-e-o-ouro-dos-tigres/

Blog no WordPress.com.