MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

21/11/2013

Leituras em Espelho: DEAN KOONTZ e F.PAUL WILSON

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Nota- Todas as notas de rodapé são posteriores aos textos publicados.

No coração da Califórnia, vivem os maléficos Pollards. Frank, o mais velho, mata a mãe e é perseguido pelo irmão, Candy, vampiresco e edipiano. Por sete anos consegue despistá-lo; quando dorme, porém, seu dom de teletransportação leva-o invariavelmente de volta ao lar, o que permite a Candy seguir seu rastro —pois possui poderes ainda maiores.Frank procura, então, a ajuda de um casal de investigadores, os Dakota, para descobrir o que acontece enquanto “dorme”…

Em Nova York, uma entidade maligna, velha conhecida de quem leu O fortim e Renascido[1], quer vingar-se de Bill Ryan, jesuíta que trabalha num orfanato. E consegue, usando como instrumento um casal aparentemente confiável, adotar e torturar de forma horrível uma criança chegada a Ryan, que ainda leva a culpa pelo crime e tem de fugir. Cinco anos depois, tudo começa a se repetir com Lisl, a única amiga da nova identidade que construiu na Carolina do Norte, atraída por um sedutor que, sem dúvida, tem relação com os acontecimentos anteriores…

A Record colocou no mercado novas obras de dois especialistas em terror: A Casa do Mal (The Bad Place,1990), de Dean Koontz, e Represália (Reprisal,1991), de F. Paul Wilson, em traduções—respectivamente—de Geni Hirata & Bráulio Tavares. Ambas passam no teste supremo do gênero: fazer com que o leitor fique absorvido durante horas, e apavorado, caso falte luz em casa.

Koontz & Wilson demonstram qualidades similares no trabalho com os personagens (apesar dos clichês incômodos, por exemplo o policial obcecado por um crime do passado, em Represália). Pena que, como outros autores contemporâneos, tenham a mania de matar sem dó personagens que nos envolveram páginas e páginas e dos quais gostávamos. Por que será? Para não parecerem ingênuos ou maniqueístas demais? É um tipo de frustração que sentimos também, até em demasia, ao ler textos de Stephen King. Em compensação, Wilson se dá ao trabalho de justificar o motivo que faz o Mal, tão poderoso e onipresente, se preocupar apenas com um punhado de pessoas e ter uma ação tão doméstica, como é de praxe nesses enredos.

Koontz & Wilson compartilham igualmente o mesmo defeito: a prolixidade. Ambos se alongam um pouco demais, talvez porque tenham também a pretensão de comentar a sociedade norte-americana, seus valores e perigos potenciais (não à toa, Rafe, o sedutor de Lisl, em Represália, a doutrina para uma filosofia de vida neonazista). Koontz ainda vai mais longe, colorindo a trama de A Casa do Mal com o politicamente correto mais extremado, defendendo os direitos das minorias asiáticas (através dos funcionários do casal de detetives) e criando (e acompanhando seu ponto-de-vista) um personagem deficiente mental e ao mesmo tempo sensitivo e telepata.

Os dois livros mostram também como a palavra escrita ainda leva vantagem sobre a imagem (basta ver como o cinema de terror anda desgastado) no detalhamento de mutilações e sanguinolências (cada vez mais explorado; diga-se de passagem, nesse quesito, Wilson é até bem discreto). Não há ridículos aqui (o terrir) e nem aquela sensação irrisória de tudo ser mero efeito de maquiagem. As duas narrativas despertam a imaginação do leitor com uma sensação sombria, que corresponde a medos imemoriais e infantis do ser humano, e que Thomas, o especialíssimo deficiente mental criado por Koontz expressa tão bem: medo da dor física, da noite, do desaparecimento das pessoas queridas, medos decorrentes da própria existência da mortalidade.

Talvez, por isso, se é necessária uma comparação desse tipo, A Casa do Mal perdure mais na memória do leitor. Que, fechados os livros, esquecido do cotidiano, deita e espera a mão vir por debaixo da cama e pegá-lo…

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de julho de 1994)

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O mapa da literatura de terror nos EUA é dividido em dois domínios: no leste, Stephen King pontifica com suas fábulas sobre o empedernimento do coração humano; no oeste, Dean Koontz  se destaca na criação de histórias que ele amplifica para um comentário sobre a sociedade contemporânea[2].

O autor de The Bad Place-A Casa do Mal nos apresenta prósperos pais de família que sempre parecem achar não merecer tal bem-estar e o amor das esposas e dos filhos, e aí então se abre uma brecha para que o avesso ameace instalar-se. Isso já transparecia fortemente em Esconderijo[3], onde um pai de família, após morrer clinicamente e ser revivido, adquiria uma ligação mental com um psicopata dominado por um demônio, e agora é levado ao extremo em Sr. Assassino (Mr. Murder, 1993,traduzido por Reinaldo Guarany).

Dessa vez, a ligação mental do escritor Martin Stillwater é com um clone sociopata criado por conspiradores do goveno americano, os quais cometeram um engano e utilizaram amostra da medula óssea de Stillwater (maiores detalhes, só lendo o romance). Tal clone, Alfie, sósia do escritor, vivia indo “a lugares sem saber o objetivo de sua viagem até chegar a seu destino, e matou pessoas sem saber por que deveriam morrer ou para quem estava fazendo a matança”. Ele renega seu condicionamento e resolve tomar a vida de Stillwater, que conhecêramos no início de Sr. Assassino tendo uma premonição de desgraça.

Como em Stephen King nem sempre dá para levar a sério ou ficar sem rir. Koontz também acumulou uma avalanche de clichês considerável até mesmo para um gênero saturado como o terror. Não faltam as burrices proverbiais dos protagonistas, que são capazes de ficar um tempão arrumando malas para uma fuga (enquanto Alfie sequestra as filhas) ou aquela velha mania de se esconder num local o mais isolado possível—que, entretanto, não impede o acesso do vilão[4]. Qualquer leitor atento verá como é fácil prever boa parte das soluções da trama, até mesmo a identidade do salvador da família.

Mas, em igual porção, assim como sr. Terror do Maine, o sr. Terror da Califórnia sabe como prender a atenção e encantar com mil detalhes supostamente secundários. E Koontz ainda vai além, pois cria uma empatia com os personagens raramente alcançada pelo autor de O Cemitério. Os heróis de Koontz se sentem atraiçoados pelo sistema: “Se não podiam receber assistência e proteção oficial, então o governo falhara com eles no dever mais fundamental: proporcionar a ordem civil através da aplicação justa porém estrita do código criminal. Apesar da máquina complexa na qual viajavam, apesar da moderna autoestrada  na qual rodavam e da rede de luzes suburbanas que cobria a maior parte dos morros e vales do sul da Califórnia, essa falha significa que não estavam vivendo num mundo civilizado… Na verdade, viviam numa anarquia com alta tecnologia”. Se eles viessem para o Brasil, aí sim é que eles veriam o que é bom para a tosse.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de janeiro de 1996)

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A trama de Os Escolhidos (The Select, 1994, traduzido por Sylvio Gonçalves) dá a impressão de que F. Paul Wilson resolveu invadir a lucrativa seara de Robin Cook, o especialista em thrillers médicos. Os três personagens principais, Quinn, Tim e Matt, prestam exames para uma conceituada faculdade de medicina, a Ingraham, onde se estuda de graça e se vive em tempo integral no campus.

Como moça pobre, Quinn é a que mais deseja ingressar na Ingraham, mas fica na lista de espera, enquanto seus dois amigos passam. Matt desiste de fazer a matrícula e ela, graças a um artifício, consegue a sua vaga. E então, ela e Tim (que estão apaixonados) descobrem qual é a visão da medicina que se cultiva na cobiçada instituição.

Nesse ponto é que é o romance se torna um autêntico F. Paul Wilson, com seu soturno tom conspiratório e sua denúncia dos surtos fascistas que pipocam aqui e ali na sociedade (basta relembrar de Renascido & Represália).

Sem entrar em maiores detalhes, o tema central de Os Escolhidos é o uso de cobaias humanas em testes para novos medicamentos. No livro, pessoas consideradas inúteis socialmente (idosos, mendigos) são utilizadas ilegalmente para esse fim[5].

Wilson consegue um clima convincente e arrepiante justamente porque nós, no fundo, sabemos que coisas horríveis acontecem nos laboratórios da vida real. Aliás, como eu considero desprezível toda pessoa que utilize qualquer tipo de animal como cobaia, para torturá-lo e atormentá-lo (e sou um dos milhares de cidadãos que se chocam com a falta de controle e vigilância por parte das autoridades)[6], não acho nada surpreendente que, secretamente, se realizem experiências em seres humanos, num mundo como o nosso, em que se sequestram crianças para roubar órgãos sadios.

Portanto, não há nada de novo no cinismo e falta de escrúpulos que formam o pano de fundo a sustentar a teia da Ingraham, na qual ficam enredados Quinn e Tim e os outros “escolhidos” da faculdade, monitorados por microfones e bombardeados por mensagens subliminares. De fato, um dos quesitos que fazem parte da seleção em Ingraham é a receptividade a esse tipo de mensagem. E Quinn torna-se um problema: ela não é receptiva, e consegue ficar imune a elas.

Entretanto, não é só por esse motivo que ela é especial. O que torna Os Escolhidos interessante como leitura é o fato de Wilson conseguir nos envolver profundamente com a sorte de Quinn e Tim. O mundo é podre, a ética médica foi para o espaço, o grau de corrupção já chegou a um ponto sem volta, mas que pelo menos os dois escapem ilesos da conspiração, é isso que não nos deixa largar o livro.

Quando Tim é aprisionado na enfermaria onde fazem experiências com seres humanos (inclusive queimando-os para testar um novo tipo de enxerto), a leitura torna-se angustiante e Wilson obtém o triunfo que pode almejar o fabulador desse tipo de livro. Não dá para parar de ler, enquanto não se sabe o que vai acontecer com ele.

É bobo, é pueril, e absolutamente inócuo diante do quadro aterrador que o romance sugere, mas é por essa razão que Os Escolhidos é ótima diversão (uma das melhores dos últimos anos)  vale cada centavo investido nele:  seus heróis não são gente descartável. São os “nossos” eleitos.

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[1] O fortim ganhou em 1983 uma adaptação cinematográfica de Michael Mann (se bem me lembro, com o título nacional de Fortaleza Infernal, a qual se distingue pela impressionante breguice (proporcional à sua pretensão). O filme, aliás, é tão cafona que até atores do quilate de Ian McKellen e o admirável Scott Glenn flertam perigosamente com a canastrice e o ridículo.

[2] Atualmente, eu não ficaria tão certo da exatidão dessas afirmações, por dois motivos: um, cada vez mais a obra de King—que antes me parecia enveredar sobretudo mais pelos caminhos morais—deixa-se permear pela política (eu teria de voltar aos seus primeiros livros, para conferir se isso já estava lá); o outro, já não acho correto colocar os dois autores na mesma balança—certamente Koontz está longe da proeminência e penetração cultural do seu colega do leste. Diga-se de passagem, Koontz é originário da Pensilvânia, mas o cenário de seus livros geralmente é a Califórnia.

[3] Cuja versão cinematográfica (dirigida pelo indefectível Brett Leonard em 1995) tinha Alicia Silverstone, a um passo de se tornar uma estrelinha (o que já deixou de ser há muito). É um filme bem assistível, embora nada de especial.

[4] Hoje em dia, já acho que são propositais esses ganchos: os autores esperam que o leitor tenha essa reação de impaciência, faz parte do repertório do gênero

[5] Um filme de 1996 (de Michael Apted), Medidas Extremas com Hugh Grant e Gene Hackman aproveitou o mesmo mote.

[6] Escrevi isso em 1996. Em 2013, desalentadoramente, nada mudou.

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25/10/2013

Vários romances num só: CONVERSA NA CATEDRAL (Vargas Llosa – Apetite pela totalidade I)

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O MEIO SÉCULO DA CARREIRA DE VARGAS LLOSA E SEU PONTO ALTO

( resenha publicada originalmente em “A Tribuna” de Santos, em 11 de agosto de 2009)

Este ano, o peruano Mario Vargas Llosa (aos 73 anos) comemora meio século de carreira (iniciada com a publicação da coletânea Os Chefes; o primeiro romance apareceria em 1962: A cidade e os cachorros), ocupando o topo entre os romancistas hispano-americanos. Não há quem se lhe compare em virtuosismo, recursos técnicos e amplidão. Mesmo que seus últimos romances (A festa do bode; Travessuras da menina má) não estejam entre suas maiores realizações, são indiscutivelmente hábeis e envolventes e O paraíso na outra esquina ainda guarda o sopro do melhor Llosa.

A Alfaguara, felizmente, vem publicando novas traduções de seus livros, inclusive do formidável A guerra do fim do mundo (1981), e a ARX acaba de lançar nova edição da versão de Wladir Dupont (é a segunda no país, a primeira foi realizada por Olga Savary e publicada pela Francisco Alves e depois pelo Círculo do Livro) para sua obra máxima, Conversa na Catedral (1969). A capa é um espanto de feiúra e erro: apresenta dois jovens conversando numa mesa, como se o romance tratasse de um bate-papo entre mauricinhos. Mas ela não é tão esdrúxula quanto a orelha da lavra do próprio tradutor (o qual cometeu vários deslizes e erros de interpretação ao longo do texto; por exemplo, na pág. 268, Amália está admirando o dormitório da amante de Cayo Bermúdez, chefe de segurança da ditadura do General Odría nos anos 50, Hortênsia, e não de sua antiga patroa, Dona Zoila, como ali aparece; o erro é endossado poucas linhas depois): ele simplesmente resume de forma errônea a história do livro que traduziu! É difícil, certamente, verter um texto para outra língua e ao mesmo tempo prestar atenção no seu enredo.

Disparates à parte, Conversa na Catedral é muito complexo: Llosa usou e abusou dos seus recursos como narrador, fazendo com que o seu painel da corrupção e desmoralização geral do período odriísta seja acompanhado por meio de diálogos intercalados (misturando várias situações), solilóquios, discursos indiretos livres (quando se confundem o discurso do narrador e do personagem) diálogos estratégicos. O principal deles, que dá título ao livro, é na espelunca Catedral, após o reencontro inesperado entre o protagonista, Santiago Zavala e o antigo chofer da sua família (o pai dele, don Fermín, ocupava uma posição importante no regime de Odría, até cair em desgraça), Ambrósio (amante da já referida Amália e que compartilha com Fermín um segredo estrategicamente enovelado pela narrativa). Quando se reencontram, os dois estão “ferrados” na vida: Zavalita  afundou-se numa medíocre carreira de jornalista e Ambrósio, que chegou a ser chofer e capanga de Cayo Bermúdez, mata cachorros a pauladas no canil municipal. Seu bate-papo agiganta-se até se tornar um afresco do Peru (), envolvendo uma gama balzaquiana de personagens.

Entre eles, destaca-se Cayo Bermúdez, o homem forte do regime, com sua cara inexpressiva, sua figura apagada e miúda, e sua capacidade de corromper e vigiar a todos. Vargas Llosa já contou como surgiu essa figura fascinante, inspirada na impressão que teve numa audiência, quando estudante, de Alejandro Esparza Zañartu: “era o homem mais odiado do regime… conseguiu um eficiente sistema de delações e informantes que acabou permitindo que a ditadura durasse oito anos —provavelmente não duraria tanto sem ele. Eu me impressionou muito quando o vi: era um homem insignificante, que mal sabia se expressar e que transmitia a impressão de uma grande mediocridade. E pensar que esse homem concentrava semelhante poder!” A banalidade do Mal.

Quando Vargas Llosa ganhará o Nobel?

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nota- Ele ganhou no ano seguinte (2010)

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/06/09/dramalhao-e-vocacao-literaria-vargas-llosa-apetite-pela-totalidade-iii/

https://armonte.wordpress.com/2013/10/25/os-perus-de-lituma-vargas-llosa-apetite-pela-totalidade-iv/

https://armonte.wordpress.com/2013/10/25/o-peru-de-pantaleon-pantoja-vargas-llosa-apetite-pela-totalidade-ii/

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ANOTAÇÕES DE LEITURA- agosto, 2009

“Eu quisera que meus livros fossem lidos como eu li os romances de que gosto. Os romances que me fascinaram, mais do que entrar pela inteligência, através do puro intelecto, da pura razão, me enfeitiçaram literalmente, quer dizer, se converteram em histórias que de certa forma destruíram toda capacidade crítica em mim. E me faziam perguntar: O que vai acontecer? O que vai acontecer? Este é o tipo de romance que eu gosto de ler e este é o tipo de romance que eu gostaria de escrever. Então para mim é muito importante que todo elemento intelectual, que é inevitável que esteja presente em um romance, de alguma forma esteja dissolvido fundamentalmente em ações, em episódios que deveriam seduzir o leitor não por suas idéias, mas por sua cor, por seu sentimento, suas emoções, suas paixões, por sua novidade, por seu caráter insólito, pelo suspense e o mistério que possa emanar deles. Para mim, a técnica do romance é fundamentalmente conseguir isso, conseguir diminuir e, se possível, abolir a distância entre a história e o leitor. Nesse sentido eu creio que sou um escritor do século XIX. Para mim o romance continua sendo o romance de aventura, que se lê desse modo especial, tomado pela história”.

Essas palavras  podem ser encontradas no livro de Ricardo A. Setti, Conversas com Vargas Llosa (Brasiliense, 1986). Embora haja uma verdade profunda nelas, creio que também é possível declarar que Llosa é um típico representante do romance no sentido modernista: enciclopédico, labiríntico e total, no sentido joyceano, e no caso dele muito especificamente, no sentido faulkneriano.

Não foram poucas as vezes em que ele se declarou um admirador de Faulkner, tendo usado com muito proveito suas técnicas, inclusive a técnica de fazer a história surgir de conversas, de colóquios nos quais muitas vezes os fatos se refratam em diversas versões, que se opõem e se complementam. Três autores, aliás, sempre apareceram muito nas entrevistas e ensaios de Vargas Llosa: duas admirações constantes, Faulkner e Flaubert, e uma relação de amor e ódio: Sartre (aliás, ele publicou um livro inteiro para se purgar do fantasma sartreano, Contra vento e maré), com o qual acabou sendo injusto, tachando seus romances de muito ruins, o que está longe de ser a verdade.

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Um dos aspectos mais relevantes de CONVERSA NA CATEDRAL tem uma feição tipicamente sartreana: além das conversas (de Zavalita com Ambrosio, que é matriz do romance; com o jornalista desiludido, literato falhado, Carlitos; também tem um diálogo entre Ambrosio e Don Fermín, entre Ambrosio e Queta), dos diálogos interpostos, da discreta narrativa em 3ª. pessoa, dos discursos indiretos livres, enfim, de toda a pletora de recursos explorados no romance, um procedimento narrativo (que Llosa praticará com muito proveito inclusive no recente O paraíso na outra esquina) é o do solilóquio que Zavalita mantém consigo mesmo e que espelha sua perplexidade, sua frustração e sua má consciência (que origina situações em que ele age de má fé, no sentido sartreano do termo, de descompasso entre sua ação e sua consciência). Solilóquio + dúvidas= Hamlet.

Entre outras, a leitura de CONVERSA NA CATEDRAL me fez sonhar (um dos muitos projetos que já acalentei) em perseguir num estudo o arquétipo de Hamlet na ficção da modernidade, encarnado especialmente em intelectuais e artistas. O próprio Mathieu de Os caminhos da liberdade (a trilogia de Sartre formada por A idade da razão, Sursis & Com a morte na alma, que eu acho sensacional, malgré o que Llosa possa dizer contra seu antigo mestre),  e também os heróis e heroínas de Os mandarins (Simone de Beauvoir), Sem olhos em Gaza (Huxley), O jogo da amarelinha (Cortazar), O carnê dourado (Doris Lessing), O lobo da estepe (Hesse), só para ficar em alguns poucos exemplos notáveis.

Mas voltemos ao nosso amigo Zavalita, que começa a participar nem sabe bem por que nas reuniões clandestinas do Partido Comunista peruano (ainda que como “simpatizante”) quando se torna amigo de Aída e  Jacobo (o caso é que ambos são apaixonados por Aída e Jacobo utiliza as reuniões clandestinas para separar Aída e Zavalita e se aproximar dela).

Vejamos algumas passagens: “Tinha sido nesse segundo ano [na universidade San Marcos], Zavalita, ao ver que não bastava aprender marxismo, que também fazia falta acreditar? Provavelmente o tinha fodido a falta de fé, Zavalita. Falta de fé para crer em Deus, menino ? Para crer em qualquer coisa, Ambrosio… O pior era ter dúvidas, Ambrosio, e o maravilhoso poder fechar os olhos e dizer Deus existe, ou Deus não existe, e acreditar… Então a vida se organizaria sozinha e a gente já não se sentiria vazio, Ambrosio.” “… e isso o preocupava tanto, Zavalita? dizia Aída. E Jacobo, se de todas as maneiras ele tinha que começar acreditando em algo era preferível crer que Deus não existe a crer que existe. Santiago também o preferia, Aída, ele queria se convencer que Politzer tinha razão, Jacobo. O que o angustiava era ter dúvidas, Aída, não poder estar seguro, Jacobo… As dúvidas eram fatais, dizia Aída, paralisam-no e você não pode fazer nada, e Jacobo: passar a vida esmiuçando será verdade? torturando-se será mentira? em vez de agir… Para agir, era preciso acreditar em algo, dizia Aída…” “Sempre mentindo, a vida toda fingindo… No colégio, em casa, no bairro, no Círculo, na Facção, em La Crónica. Toda a vida fazendo coisas em que não acreditava, toda a vida dissimulando… E toda a vida querendo acreditar em algo. E toda a vida mentira, não acreditando.” “Tinha se dedicado furiosamente a ler, a trabalhar no Círculo, a acreditar no marxismo, a emagrecer.” “Eu já invejava as pessoas que acreditavam cegamente em alguma coisa, Carlitos” “E se você tivesse se inscrito naquele dia, Zavalita, pensa. A militância o teria arrastado, comprometido cada vez mais, teria dissipado as dúvidas e em alguns meses ou alguns anos teria se tornado um homem de fé, um otimista, um obscuro e puro herói a mais? Teria vivido mal, Zavalita, como Jacobino e Aída, pensa, entrado e saído da cadeia algumas vezes, sendo admitido e despedido de sórdidos empregos e, em vez de editoriais em La Crónica contra os cachorros raivosos, escreveria nas páginas mal impressas de Unidad, quando tivesse dinheiro e não fosse impedido pela polícia, pensa, sobre os avanços científicos da pátria do socialismo e a vitória no sindicato dos  panificadores de Lurín… ou teria sido mais generoso e entrado para um grupo insurrecional e sonhado e atuado e fracassado nas guerrilhas e estaria na prisão, como Héctor, pensa, ou morto e decomposto na selva, como o cholo Martinez, pensa, e feito viagens semiclandestinas a Congressos da Juventude, pensa, Moscou, levando saudações fraternais a Encontros de Jornalistas, pensa, Budapeste, ou recebido  treinamento militar, pensa, Havana ou Pequim. Você teria se formado em Direito, teria caso, teria sido assessor de um sindicato, deputado, mais desgraçado, a mesma coisa ou mais feliz? Pensa: ai, Zavalita.” (04-05 de agosto)

É incrível como nunca acertam nas capas: tenho uma edição da Francisco Alves, uma do Círculo do Livro e agora esta pela ARX, e todas são feíssimas e pouco inspiradas (é só ver a foto acima). A melhor ainda é a da edição anterior (de alguns anos atrás) da mesma tradução de Vladir Dupont.

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Creio que se trata da obra-prima de Vargas Llosa, apesar da quantidade de títulos impressionantes. Basta lembrar de A guerra do fim do mundo, Lituma nos Andes, A casa verde, Tia Júlia e o escrevinhador, A cidade e os cachorros, Cadernos de Don Rigoberto,  livros que ficam pouco atrás de CONVERSA NA CATEDRAL; tem também os deliciosos Pantaléon e as visitadoras, Elogio da Madrasta, O paraíso na outra esquina, Quem matou Palomino Molero? , e até A festa do bode e Travessuras da menina má têm seu interesse (apesar de mais fracos). E como esquecer dos surpreendentes e inusitados História de MaytaO falador?

     Tenho lido muito durante esses anos todos a ficção de Vargas Llosa (que também é admirável ensaísta) e creio que posso afirmar: CONVERSA NA CATEDRAL é um romance total, um daqueles livros absolutos,  uma visão caleidoscópica e assombrosa da ditadura do general Odría, que deu o golpe no Peru no finalzinho dos anos 1940 e impôs um regime ditatorial por boa parte da década de 50. E Vargas Llosa o publicou em 1969 (portanto, trata-se de uma obra quarentona), quando tinha apenas 33 anos.

É claro que já tinha dado uma ideia mais do que precisa da dimensão do seu talento porque os seus dois primeiros romances, A cidade e os cachorros (durante anos, conhecido no Brasil, e foi assim que eu o li, como Batismo de fogo), em 1962, e A casa verde, de 1965,  eram empreendimentos ciclópicos e singulares (A casa verde ainda se desdobraria em outros devido ao personagem Lituma). Mesmo assim, há algo de incomparável no fôlego e na impressão de totalidade que nos dá o romance que estou relendo, após muitos anos (ainda que na descuidada –em vários pontos–versão de Dupont). O único caso similar das últimas décadas que eu conheço é Fado Alexandrino (1983), um dos grandes romances de António Lobo Antunes.

O título vem do reencontro entre Santiago Zavala, o Zavalita, com o antigo chofer da família, Ambrosio. Santiago vai ao canil municipal  porque homens da carrocinha pegaram seu cão, Batuque (como eles ganham uma miséria e por número de apreensões, às vezes não se furtam de roubar animais, ou mesmo de tirá-los à força dos donos, como aconteceu com a mulher de Santiago). A ironia é que ele, editorialista, vem escrevendo uma série a respeito da raiva e pedindo medidas das autoridades para conter o número de cães na capital. No canil, ele testemunha uma espantosa e bárbara execução de um cachorro (mas consegue resgatar o seu): dois funcionários enfiam-no num saco e o matam a pauladas. Um deles é Ambrosio. No começo do capítulo, saindo do serviço, Santiago (que acabou de fazer 30 anos) se pergunta “em que ponto se fodeu”, “em que ponto o Peru se fodeu”. E verá em Ambrosio um espelho, mais velho, numa escala social diferente, um outro tipo de derrota, de embotamento, de sensação de ter sido vencido pela vida. Aquela sensação de logro existencial que se abate sobre os personagens de Educação Sentimental (do autor predileto de Vargas Llosa, Flaubert, a respeito do qual ele escreveu o magistral ensaio A orgia perpétua), no final de suas trajetórias pelas aventuras da sua geração. A má consciência de Santiago Zavala como homem de imprensa, como marido, como peruano (depois conheceremos os sonhos de sua geração) já aparece logo no princípio de CONVERSA NA CATEDRAL.

E “Catedral” é o nome do boteco, uma espelunca, em que ele e Ambrosio bebem durante horas, numa conversa que permeará as quase 800 páginas (na edição ARX) do romance. Um nome significativo, uma vez que o começo da revolta de Santiago contra sua classe social e sua família foi o anti-clericalismo, a repulsa pelos padres e pelo catolicismo.

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Como eu já disse, a conversa entre Santiago e Ambrosio (em torno da qual ronda um segredo bombástico sobre o pai de Santiago, que está no cerne da trama do romance), ambivalente e exasperante, permeia o romance inteiro. Mas, como é seu hábito, e uma das marcas do seu virtuosismo técnico, Llosa faz com que duas ou várias situações fiquem sobrepostas em cada passagem da narrativa. Um exemplo: no capítulo VII da primeira parte (são quatro ao todo), Ambrosio conta a Santiago como conheceu seu pai, Trifulcio; ao mesmo tempo, vemos Trifulcio no seu longo tempo de prisão (há uma cena em que ele e seus companheiros, atirando pedras, conseguem matar uma ave de rapina e toscamente assá-la, havendo uma disputa feroz pelos pedaços; também vemos como sua força é lendária, tanto que Dom Melquíades, possivelmente o diretor da prisão, traz um dos pilares do governo Odría , Emilio Arévalo, cujo filho, Popeye, será muito amigo de Santiago e casará com sua irmã, para uma demonstração), depois a libertação (ele trabalhará para Arévalo), em diálogos que se intercalam com as diligências do homem forte do governo Odría, Cayo Bermúdez para dominar os serviços de inteligência do regime e esmagar os “subversivos”; vemo-lo primeiro com militares, depois num diálogo com o homem que o chamou para fazer parte do governo (e o qual ele está visivelmente solapando e colocando em posição subalterna) e depois com civis poderosos (entre eles, Arévalo e Don Fermín, o pai de Santiago); também vemos torturadores em ação (e um dos torturados, ficamos sabendo, é Trinidad, o companheiro de Amália, a empregada da casa dos Zavala, a quem Santiago e Popeye, como autênticos playbozinhos,  tentaram seduzir numa noite em que a família estaria ausente, causando a demissão dela; ela será o grande amor da vida de Ambrosio; parte da trajetória de Amália, a mais ligada a Trinidad, tínhamos acompanhado num capítulo anterior, contudo parecia que era mitomania de Trinidad a perseguição política e sua morte misteriosa parecia indicar mais que ele era “ruim da cabeça” do que maus-tratos nos chamados “porões da ditadura”); vemos como é o encontro entre Ambrosio e Trifulcio (em que o pai tenta roubar dinheiro do filho, ameaçando-o com uma faca), vemos como Ambrosio saiu de sua cidade natal, e tendo ajudado o jovem Cayo Bermúdez a raptar sua futura esposa (que se tornou uma virago), ir à capital pedir um emprego ao poderoso Robespierre do regime Odría, como ele se transforma no chofer de Bermúdez e como se envolve com os profissionais de repressão e tortura.

Tudo isso sem grandes necessidades de explicações e de narrativas muito longas e descritivas. Não, tudo através do intercalamento magistral de diálogos… Tudo puxado (neste capítulo) pelas reminiscências de Ambrosio com relação à sua mãe… O romance como exercício de virtuosismo e como cosmovisão…

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07/06/2013

Uma irremediável lentidão existencial: “O homem que se atrasava”, de Louis Begley

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de julho de 1994)

Até agora, O homem que se atrasava (The man who was late, em tradução de Anna Olga de Barros Barreto para a Companhia das Letras) é o mais expressivo lançamento de ficção contemporânea em 1994. Em grande estilo, narra-se a trajetória de Ben, judeu que escapou da Europa destruída pela Segunda Guerra e transformou-se, após rápido processo de americanização, num homem de negócios cosmopolita, vítima porém de “irremediável lentidão existencial”, como confirma Jack, o narrador e seu maior amigo.

Por que Ben, tão bem sucedido nos negócios e com as mulheres, considerava-se “atrasado”? A resposta a essa questão e mais o desajeitado envolvimento dele com Véronique, prima de Jack, na França, formam o centro do romance de Louis Begley.

O próprio fato de Jack ser o narrador demonstra que o “atraso” de Ben é fruto de seu desenraizamento: ele vive as “boas coisas da vida” (no sentido capitalista da expressão, bem entendido), entretanto seu passado e sua condição pessoal fazem com que elas tenham gosto de cinzas, como se houvesse chegado tarde demais, quando o vazio já se instalou, de forma que o resto da existência é tomado pela ânsia de fugir da rotina e da aridez de sentimentos.

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O homem que se atrasava (publicado em 1993, nos EUA) lembra sutilmente, apesar das muitas diferenças, O grande Gatsby, o clássico de Fitzgerald (que, aliás, precisa ser reeditado; está há anos fora de circulação) sobre o materialismo e o vazio no imaginário americano após a Primeira Guerra, condensados na abrupta trajetória de Jay Gatsby, o qual também chega tarde demais a uma pretensa vida festiva, também observado ambiguamente por um narrador mais pobre e que no entanto, pelas suas origens, pode ser admitido naturalmente nas altas rodas.

No livro de Fitzgerald (publicado em 1925) ainda subsistia um fundo idealista e ecos românticos. A Segunda Guerra, a Guerra Fria e a consumação da “aldeia global” fazem do Gatsby de Begley (que ainda por cima é imperdoavelmente judeu) um personagem mais dramático, mais afrontado pelo absurdo da existência, e mais ansioso pelos simulacros do sucesso e bem-estar. A trajetória de Jay Gatsby, com todos os conflitos internos, só poderia ser detida de fora, através do assassinato. A interrupção da trajetória do homem que se atrasava, por sua vez, só poderia ser interna, advir do suicídio. Toda uma (melancólica) derrocada civilizatória insinua-se nessa diferença de finais trágicos.

Mas antes do final há ainda um intervalo no Rio de Janeiro e em Angra dos Reis, uma das melhores passagens da narrativa, mostrando a perspicácia e acuidade do estilo e visão do mundo de Begley. É no mar do Rio que Ben tem o vislumbre do seu destino: “Exceto pelo pensamento nos tubarões, que tentou afugentar da consciência, começou a sentir um grande medo e imenso regozijo. O que aconteceria se se cansasse e se afogasse: seria possível isso ocorrer num cenário mais paradisíaco do que este? Uma pequena ponta da cortina que esconde a vida futura pela qual não se espera estava sendo levantada. Sempre gostara de sair de festas em seu auge, quando a pista de dança está repleta, antes que o cansaço da madrugada descompusesse os rostos dos anfitriões…”

E assim, ao atributo de homem atrasado soma-se o de homem prematuro, que precipitou-se para a morte antes de se deixar transformar pelo sofrimento e pela solidão. E junto com Paul Auster, autor de A música do acaso & Leviatã, outro especialista em trajetórias desesperadas e desesperadoras, Louis Begley revela-se o grande talento da moderna prosa de ficção norte-americana.

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03/05/2013

DÖBLINENSES: Berlin Alexanderplatz (duas resenhas e anotações de leitura)

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DUAS VERSÕES DE UMA MESMA RESENHA

“E Franz começa a observar a cidade como um cão que perdeu o rastro. Que cidade é esta, que cidade gigantesca, e que vida, que vida já levou nesta cidade….”

Apesar das qualidades da pioneira tradução de Lya Luft (lançada em 1995), a nova versão de Berlin Alexanderplatz, feita por Irene Aron, é realmente admirável, vibrante, colocando o leitor brasileiro atual no coração do projeto literário que norteou essa obra-prima de Alfred Döblin publicada em 1929: “escrevei como sempre, sem plano, às cegas, sem diretrizes, construí uma fabula, a linha era: o destino, a movimentação de um homem até então fracassado. Podia confiar na linguagem; a linguagem falada de Berlin, podia criar a partir dela… Dizem que imitei o irlandês Joyce. Não tenho necessidade de imitar quem quer que seja. A linguagem viva que me rodeia é suficiente para mim… O simples operário dos transportes, Franz Biberkopf, falava como berlinense e era um ser humano…”

Biberkopf nos é apresentado como um indivíduo que pode ser repulsivo ou cativante, é questão de gosto: grandalhão (“forte como uma cobra naja”), glutão e beberrão, espancou até a morte a amante a quem cafetinava. Depois de cumprir sua pena, tenta levar uma vida “decente” na Berlim dos anos 20, assolada pela inflação e ainda amargando a derrota na Primeira Guerra, vendendo jornais. Sempre traído, envolve-se com os membros de uma quadrilha, e após um assalto (do qual participou incautamente) é atirado de um carro em movimento, perdendo um braço.  Nem por isso desiste. Acolhido por antigos amigos, arranja nova amante, Mieze, a qual é assassinada pelo mesmo homem (Reinhold) que fizera dele um aleijado.  Uma vida de lúmpem (aquela camada da sociedade abaixo dos proletários), misturando o naturalismo, na sua panorâmica urbana, e o expressionismo tipicamente alemã, na sua deformação dos dados da realidade, hipertrofiada ao ponto do pesadelo, de uma forma ironicamente “épica” (como será também o teatro poderoso do amigo de Döblin, Bertolt Brecht). Veja-se a narração “épica” de uma refeição:

“…tem diante de si um prato fumegante de bife rolê, molho e batatas e está prestes a engolir tudo aos bocados… corta, amassa sua porção e empurra-a na boca, rápido, uma garfada, mais uma, mais uma, mais uma e, enquanto trabalha, para dentro, para fora, para dentro, para fora, enquanto corta, amassa e devora, fareja, saboreia e engole, seus olhos observam, seus olhos examinam a sobra sempre menor no prato, vigiando-o por todos os lados como dois cães raivosos… Pronto, agora terminou, agora se levanta, molenga e gordo, o sujeito limpou o prato, agora só falta pagar… Então o sujeito gordo sai, resfolega, afrouxa o cós da calça para dar mais lugar à barriga. Carrega no estômago um bom quilo e meio só de comida. Agora começa a função em sua barriga, o trabalho, agora a barriga tem o que fazer com tudo o que o sujeito mandou para dentro. Os intestinos se mexem e remexem, giram e rodam como minhocas, as glândulas fazem o que podem, expelem seu suco naquela coisa, esguicham como os bombeiros, de cima escorre a saliva, o sujeito engole, o líquido flui para os intestinos, ocorre a investida sobre os rins, como na semana de liquidações das lojas de departamentos… É assim que caminha o mundo”.

Mas não é à toa que se fez o paralelo com o autor de Dublinenses e Ulisses (“Quando eu escrevia a primeira parte do livro não conhecia Joyce. Mais tarde, sua obra encantou-me… Uma mesma época pode dar ensejo a coisas parecidas e até mesmo iguais em lugares diferentes, independentemente umas das outras. Não é difícil de compreender”). Afinal, aqui encontramos os mais diversos e criativos recursos estilísticos, não apenas a oralidade, a linguagem das ruas, o desbocamento. Há a inclusão de noticiários, reclames, de montagens cinematográficas, formando um “mosaico” urbano fabuloso, no qual também abunda a paródia, inclusive a de muitos trechos bíblicos, caso do “Eclesiastes”: Cada coisa qualquer coisa tem seu tempo e todo propósito sob o céu tem sua hora… Cada coisa tem seu tempo. Por isso percebo que não há nada melhor do que ser alegre...”

O Biberkopf de Döblin pode ser tomado, com sua boçalidade, sua truculência, como  um ainda brando precursor de Moosbrugger, o sociopata que fascinava o protagonista do admirável Homem sem qualidades, de Robert Musil. Só que Biberkopf parece incapaz, na sua mediocridade, de chegar aos extremos, de liberar totalmente sua monstruosidade latente. Ainda chafurda num sentimentalismo tosco que o leva a ficar sob a ambígua influência de traiçoeiro Reinhold, responsável pela perda do seu braço e pela morte brutal de Miese, na intriga que domina a parte final do romance e que levará o anti-herói ao hospício, como acontecerá também com o protagonista de O tambor, a obra-prima profundamente döbleniana de Günter Grass.

 Será preciso a chegada do nazismo para liberar o que está reprimido na massa de lúmpens que povoam o livro, essas pessoas despolitizadas, subempregadas ou francamente excluídas, quando não imersas na criminalidade, que se tornarão uma terrível massa de manobra,aquelas multidões que compõem o espetáculo do fascismo.

(versão completa da resenha publicada  originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 29 de setembro de 2009)

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O ANTI-HERÓI DE UM AUTOR DEMOLIDOR

   Péssima e inadequada, a capa escolhida para a tradução de Berlim Alexanderplatz, de Alfred Döblin, nos mostra um homem colocado diante de um céu carregado. Temos, então, o estereótipo do ser humano angustiado, como se fôssemos aqueles heróis gregos, prometéicos, lutando contra a fatalidade.

Nada disso tem a ver com Franz Biberkopf, o anti-herói do livro de Döblin, publicado em 1929. Biberkopf nos é apresentado como um indivíduo quase repulsivo, grandalhão (“forte como uma jibóia”), glutão e beberrão, e que espancou até a morte a amante de quem era quase um cafetão (“pode acontecer com qualquer um dar uns tapas quando está de porre”). Ao sair da prisão, tenta levar uma vida “decente” vendendo jornais. Envolve-se num assalto, é atirado de um carro em movimento, perde um braço e acaba nos mostrando, apesar de “não aprender nada nem discernir nada”, como afirma o narrador, através de sua trajetória, a vida numa grande metrópole no final dos anos 20. Uma vida sem grandeza, valores (a não ser aqueles proclamados de forma sentimental, oca ou hipócrita), nada que nos inspire simpatia, transcorrendo em ambientes sórdidos (“lá pelas nove liberaram seus cotovelos, meteram charutos nas bocas gordurosas e começaram a soltar, com arrotos, o cálido vapor da comida”), entre gente de mentalidade mesquinha, e sempre com um pé na miséria.

Na quarta parte do romance, em meio a uma panorâmica dos moradores das ruas em volta da Alexanderplatz, há um trecho revelador, no qual o narrador fala diretamente ao leitor: ‘Finalmente, ao lado, um oficial de padeiro com sua mulher, que trabalha numa tipografia e tem inflamação nos ovários. Desejaria saber o que esses dois têm na vida? Bem, primeiro um tem o outro, depois, no domingo passado, tiveram teatro e cinema, uma ou outra reunião da Associação, e visita aos pais dele. Mais nada?  Ora, não exagere, senhor. Ainda há o bom tempo, o mau tempo e assim por diante. E o que mais vocês têm?, você, quem quer que seja? Não se iludam.

De vez em quando faz bem à literatura de um país aparecer um autor demolidor, que sacuda o bom-gosto literário, que faça uso da linguagem das ruas, que atole o leitor no desagradável. É o caso de Döblin (e também do seu amigo Brecht, no teatro; ambos, herdeiros do expressionismo e do naturalismo, fazendo cruzamentos inesperados entre essas duas formas de apreender o real) na literatura alemã e, alguns anos depois, de Céline, na francesa.

É possível que, num certo sentido, o autor de Berlim Alexanderplatz vá ainda mais longe do que o raivoso autor de Viagem ao fim da noite & Morte a crédito porque apresenta maiores e mais criativos recursos estilísticos, não apenas a oralidade, o desbocamento e as pequenas histórias paralelas. Há a inclusão de noticiários, reclames, de pastiches e paródias, de montagens cinematográficas.

O Biberkopf de Döblin parece, com sua boçalidade, sua truculência, e um certo fundo sociopata, um precursor de Moosbrugger, o assassino que fascinava o protagonista do admirável Homem sem qualidades, de Robert Musil. Só que Biberkopf parece incapaz, na sua mediocridade, de chegar aos extremos, de liberar totalmente sua monstruosidade latente. Ainda chafurda num sentimentalismo tosco que o leva a ficar à mercê do traiçoeiro Reinhold, responsável pela perda do seu braço e que assassinará Miese, uma das amantes de Biberkopf, na intriga que domina a parte final do romance e que levará o anti-herói ao hospício, como acontecerá também com o protagonista de O tambor, a obra-prima profundamente döbleniana de Günter Grass.

Será preciso a chegada do nazismo para liberar o que está reprimido na massa de lúmpens que compõem Berlim Alexanderplatz, essas pessoas despolitizadas, subempregadas ou francamente excluídas, quando não imersas na criminalidade, que se tornarão uma terrível massa de manobra. Assim como no Brasil de hoje. Quem tiver olhos para ver que fique atento para o que um neofascista pode conseguir com todos os excluídos que estão literalmente nos sitiando. Olhos para ver e ler a terrível advertência que nos chega bem atrasada, mas em hora oportuna.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 27 de fevereiro de 1996)

 

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ANOTAÇÕES DA  RELEITURA DE 2009

INTRODUÇÃO

“O ex-presidiário de casaco amarelo de verão, o sujeito grandalhão, andou para trás do sofá, pegou seu chapéu, espanou-o, colocou-o sobre a mesa, tirou seu casaco, tudo em silêncio, desabatoou o coleto: Aqui, olhem, minha calça. Eu era gordo assim e ela ficou larga desse jeito, cabem dois punhos grandes juntos, de tanto passar fome. Foi-se tudo. A pança toda para o diabo. É assim que vem a ruína, porque nem sempre a gente é como deveria ser. NÃO ACREDITO QUE OS OUTROS SEJAM MUITO MELHORES. Nada, não acredito não. Querem é enlouquecer a gente.

      O castanho cochichou para o ruivo: Pronto, aí está. Está o quê? Ora, um presidiário. E daí? O egresso: Aí dizem: a gente está livre e vai preso de novo  no meio da sujeira e ainda a mesma sujeira de antes. Não há razão alguma para rir. Voltou a abotoar o colete: Estão vendo o que fizeram. .. É, será que não somos nada só porque fizemos algo errado? Todos podem se erguer de novo, todos que cumpriram pena e podem ter feito o que for (Arrepender-se o quê! É preciso desafogar-se! Sair batendo! Depois tudo fica para trás, depois tudo pasa, o medo e o resto)… Meu ome é Biberkopf, Franz. Bonito de sua parte ter me acolhido.Meu passarinho já cantou no pátio. Ora, viva, tudo vai passar. Os dois judeus lhe apertaram a mão, sorriam. O ruivo reteve sua mão por um tempo, radiante: Ora,o cavalheiro está mesmo melhor ? E será um prazer, se o cavalheiro tiver tempo, passe por aqui. Obrigado, farei isso, tempo é fácil de achar, só dinheiro é que não…. Acompanharamo homem até a porta… O ex-presidiário, caminhando ereto, sacudiu a cabeça, balançou os braços no ar (a gente precisa de ar, ar, muito ar, e mais nada)~: Não se preocupem. Podem me deixar seguir adiante, fiquem tranquilos. O senhor falou sobre os pés e os olhos. Esses ainda tenho. Ainda não foram arrancados por ninguém… E lá se foi caminhando sobre o pátio estreito, atulhado, os dois ficaram olhando para ele do alto da escada. Tinha o chapéu-coco enterrado sobre o rosto, resmungou quando meteu o pé numa poça de óleo: Droga de veneno. É hora dum conhaque. Quem se aproximar vai levar um soco na cara. Vamos ver onde se consegue um conhaque…”

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   Como saiu há pouco tempo a versão em DVD do magnífico filme seriado que Rainer Werner Fassbinder extraiu de BERLIN ALEXANDERPLATZ, é bem-vinda uma nova tradução da obra-prima de Alfred Döblin (1878-1957), publicada originalmente em 1929, e que pertence àquele grupo de romances do alto modernismo (dos anos 20 e 30) que redefiniram a ficção (é o caso de Ulisses, de Joyce, 1922; Mrs. Dalloway, de 1925, e os demais romances de Virginia Woolf dessa fase; O processo & O  Castelo, de Kafka, publicados postumamente nos anos 20, assim como a publicação dos últimos volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust; O som e a fúria, de Faulkner, é de 1929; temos também A montanha mágica, de Mann, em 1924; O lobo da estepe, de Hesse, é de 1927; fora esses, o autor maior do Modernismo que mais tem a ver com Döblin, o francês Louis-Ferdinand Céline, publicaria suas duas obras-primas, Viagem ao Fim da NoiteMorte a crédito, respectivamente em 1932 e 1934… A diferença entre os dois é que, enquanto Döblin se mantém ironicamente afastado do seu “herói”, Franz Biberkopf, Céline, de uma forma visceral e ainda praticamente insuperada, quase que anula a distância entre ele, autor, e seu narrador em primeira pessoa, inaugurando uma elaboradíssima forma de “função expressiva ou emotiva” da linguagem).

Na história do pé-rapado Franz Biberkopf, a partir do momento em que sai do presídio (por homicídio culposo resultante de agressão física) e adentra por uma fervilhante Berlim, Döblin juntou o romance naturalista, esmiuçados dos avessos burgueses, de Zola; a linguagem do expressionismo, uma das grandes contribuições da arte alemã do início do século XX, e que foi um dos fundamentos do que se fez de melhor no cinema mudo, além de influir em toda a estética posterior, por exemplo, nos filmes noir e na obra de Orson Welles, até no tardio A marca da maldade; a poesia da paisagem urbana, que Walter Benjamin identificou como uma das mais duradouras contribuições de Baudelaire ao imaginário ocidental, e que foi incorporada nos maiores romances modernistas, que tem a cidade-labirinto como personagem tão importante quanto o herói da trama; o romance-mosaico, exercitado pelo norte-americano John dos Passos (1919; Manhattan Transfer), que atropela a voz do narrador “culto” com a linguagem das ruas, os anúncios publicitários, o cinema e a linguagem das manchetes de jornal; além de um exercício de solilóquio narrativo, em que uma voz entre parênteses faz o papel de “sombra” de Franz Biberkopf, desfazendo e corroedo seu projeto de levar uma vida decente e acomodada, a partir do momento em que recupera a liberdade.

O livro também recupera um recurso tanto do folhetim quanto do romance picaresco ao apresentar em cada uma de suas nove partes um resumo das peripécias de Biberkopf  “em liberdade”. E se vale da técnica altamente livre e flexível desse gênero, fazendo os encontros de Biberkopf com outros personagens prescindirem de uma verossimilhança ou causalidade estritas (como os dois judeus do trecho citado).

Temos, também, um romance arrepiante na sua maneira profética de mostrar que razões e que mentalidade levaram o zé-povinho alemão dos tempos de derrota da 2a. guerra e da inflação monstruosa a aderir ao ideário nacional-socialista e permitir a ascensão de Hitler, como um “salvador da pátria” (o adjetivo “arrepiante” vem das similaridades com certos aspectos da mentalidade brasileira).

Enfim, um dos grandes romances do século XX. Eu já o li na versão anterior, de Lya Luft, publicada em 1995 pela Rocco. Me parece que essa versão nova, de Irene Aron, é mais arrojada, menos formal… Vamos ver…

ANÁLISE DE UMA DAS PARTES DO LIVRO

“Caminha de braço dado com Lina, olha em volta da rua escura. Bem que poderiam acender mais lâmpadas. O que as pessoas querem da gente, primeiro as bichas com quem não temos nada a ver, agora os vermelhos. Que me importa tudo isso, que limpem a própria porcaria. Deviam deixar a gente ficar sentado onde está;nem deixam a gente beber uma cerveja sossegado. Queria mesmo é voltar e deixar em pedaços o boteco de Henschke. De novo, os olhos de Franz lampejam e pulsa, incham-lhe a testa e o nariz.(…) Franz matou a noiva a pancadas, Ida,o sobrenome dela não vem ao caso, na flor de sua juventude. Isso aconteceu numa discussão entre Franz e Ida, na casa da irmã dela, Minna, durante a qual, em princípio, os seguintes órgãos da mulher sofreram lesões leves: a pele sob o nariz, na ponta e no meio, o osso subjacente com a cartilagem, o que, porém, só foi percebido no hospital, e, mais tarde, teve papel importante nos autos do processo; além disso os ombros direito e esquerdo sofreram leves contusões, com sangramento. Mas depois o palavreado se torna mais vívido… Na mão, nada além de um pequeno batedor de creme chantilly… E foi esse batedor de creme com a espiral de arame que ele, num imulso duplo, arremessou contra o tórax de Ida… o tórax da delicada moça não estava adaptado ao contato com o batedor de creme (…) Franz, como um leão aos urros, teria matado a pancadas a pessoa lesada se a irmã não viesse aos saltos do  quarto ao lado. Diante dos clamores desta mulhere, ele saiu em retirada e à noite foi apanhado por uma patrulha da polícia perto da casa dele.”

Para quem deseja ter uma boa idéia do que foi a alta ficção do Modernismo,  o que ela trouxe de novo à ficção urbana consagrada por Balzac & Dickens, eu sugiro a leitura da Segunda Parte de BERLIN ALEXANDERPLATZ. cujo resuminho folhetinesco é o seguinte: “Franz Biberkopf entra em Berlim/ sai à procura, é preciso ganhar dinheiro, sem dinheiro o homem não vive/ Sobre a feira de louças de Frankfurt/ Lina dá o recado aos boiolas/ O Hasenheide, Novo Mundo, se não é isto, é aquilo, não se deve tornar a vida mais difícil do que é/  Franz é um homem de envergadura, sabe o que deve a si mesmo/ Dimensões deste Franz Biberkopf. Ele pode competir com antigos heróis” (isso no índice,no intróto já temos as inquietantes afirmações seguintes: “Mas não é um homem qualquer este Franz Biberkopf. Não o chamei aqui para um jogo e sim para viver uma dura, verdadeira e esclarecedora existência… Vocês verão como se manteve decente durante semanas. Mas isso de certa maneira é apenas um adiamento”).

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Essa Segunda Parte começa no Paraíso com Adão e Eva,  depois vemos graficamente caracterizados os diversos setores econômicos e de serviços de uma cidade como Berlim. Na página seguinte, citam-se  decisões legislativas e judiciárias. Depois se fala da meteorologia (antecipando o uso que Robert Musil fará desse recurso em O homem sem qualidades), da tarifa dos bondes elétricos, de logradouros segundo a lista telefônica de 1928,  dos trens que chegam do Mar Báltico e dos turistas (“Onde as pessoas arranjam tanto dinheiro para viajar“); depois, temos vinhetas sobre alguns passageiros que embarcam numa determinada parada na linha 4 do elétrico, e  um deles é um rapazola de quatorze anos, cujo futuro inteiro nos é narrado em  poucas linhas (de uma forma sensacional); depois, temos o diálogo entre um ex-professor viciado em morfina e um rapaz que enfrentou o chefe “em bom alemão” e talvez tenha perdido o emprego (e agora está no boteco com medo de enfrentar a mulher): “Nunca se deve falar em bom alemão em certas situações. Se o senhor tivesse falado francês com o homem, ele não teria compreendido e o senhor ainda estaria dentro”.

Ainda vemos uma mocinha que se encontra com um senhor mais velho, com os qual tem relações das mais suspeitas. Todo esse caleidoscópico movimento ocupa umas dez páginas e aí então Biberkopf  reaparece na narrativa, tentando se tornar vendedor de qualquer coisa, sendo aconselhado por seu amigo Gottlieb e sempre com o seu mote, a decência, a necessidade de uma existência estável.  Sem nem ao menos ter uma colocação garantida no mercado, ele se encanta com a oratória de um sujeito que faz uma diatribe contra a feira de Frankfurt (uma passagem que me lembrou aquele momento antológico dos comícios agrícolas de Madame Bovary, onde há uma retórica vazia e ao fundo o que realmente interessa na narrativa, no caso, a disposição simplória e franca, sem má fé, do perdedor nato) e se inscreve como membro da associação comercial, embora nem tenha dinheiro para pagar a inscrição.

Biberkopf arranjou uma namorada, a polonesa Lina. Vemos os dois num passeio, num quiosque onde se vende jornais, onde de passagem ouvimos o seguinte comentário de algum cidadão: “Veja como as pessoas estão embrutecidas: um cara desses ataca uma moça no bonde e quase  a mata de tanto bater por causa de 50 marcos” e a réplica de um outro: “Por esse dinheiro faço a mesma coisa… É um monte de dinheiro para gente como nós, um montão, meu senhor. Pois então, quando souber  o que são 50 marcos, continuamos a nossa conversa“.

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Franz vira homem-propaganda na frente de uma loja anunciando presilhas de gravatas (o seu discurso, ele que é apaixonado pela oratória dos outros, é uma delícia). “Mas isto não basta a Franz Biberkopf”. E ele  conversa com um vendedor de panfletos com histórias eróticas, de “educação sexual”, algumas delas fazendo a apologia do homossexualismo tanto masculino quanto feminino.Para se ter uma idéia do teor desses panfletos: “Um careca sai para passear uma noite e encontra…um jovem bonito que logo lhe dá o braço… e então o careca sente a vontade… de, naquele instante, ser muito meigo com o rapaz. É casado,já percebera algo várias vezes, mas tem de ser agora… Você é meu raio de sol, meu torrão de ouro… Venha, vamos a um hotelzinho. Você me presenteia com cinco marcos ou dez, estou totalmente liso. O que você quiser, meu sol…

   Mas no quarto há orifícios na porta. O senhorio vê algo e chama a patroa, que também vê algo. E mais tarde dizem que não admitem tal coisa em seu hotel, viram aquilo, e ele não pode negar… e ele deveria envergonhar-se de seduzir rapazes, iriam denunciá-lo. O criado e uma arrumadeira aparecem também e sorriem ironicamente…

 … E certo dia… sua esposa tem de assinar uma intimação por ele.Ela abre o envelope e lá está escrito tudo sobre os orifícios e a carteira e o rapaz simpático.E quando o careca retorna… todos estão chorando por causa dele, a patroa, as duas filhas crescidas. Ele lê a intimação, isso não pode ser verdade,é a burocracia atrasada inventada por Carlos Magno, e que chegou até ele agora… SenhorJuiz, o que foi que eu fiz?… Fui para um quarto e lá me fechei. Que culpa tenho eu se lá puseram furos. E não aconteceu nada de condenável. O jovem confirma. Portanto, o que fiz eu? O careca de casaco de pele chora: Será que roubei? Cometi algum assalto? Apenas assaltei o coração de uma pessoa querida.Disse a ele: meu raio de sol. E isso ele era.

É absolvido. Em casa, era um choro só.”

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Apesar de algumas diferenças de idéias com o vendedor (um diálogo particularmente delicioso), ele simpatiza com a causa e é convidado para um “meeting”  onde se depara com vários casais de mulheres e de boiolas (o termo utilizado com grande felicidade pela tradutora Irene Aron): “Por uma hora, Franz não disse uma palavra, por trás de seu chapéu, soltava risadinhas. Após as dez horas, não pôde mais se conter, teve de sair, as pessoas, a coisa toda, eram engraçadas demais, vários homossexuais num monte só, e ele no meio deles, saiu às pressas e gargalhou até chegar à Alexanderplatz”.

Quem não gosta nada da históra é Lina, que joga todo o material gay em cima do vendedor num acesso de fúria, para admiração e embasbacamento do seu amante: “No botequim, na ponta dos pés, ela se apoia nele, junto a região do corpo que ela supunha ser coração, mas que, sob a camisa de lã, era na verdade o seu esterno e o lóbulo superior do pulmão esquerdo”.

E aí então vem uma narração magnífica de alguns boêmios.E encontramos depois Franz vendendo jornais nacional-socialistas: “Não tem nada contra os judeus, mas é a favor da ordem. Pois é preciso haver ordem no paraíso, isto qualquer um tem de reconhecer” e depois seu confronto com um grupo de comunistas num boteco, cena que nada fica a dever a James Joyce, principalmente pela alusãoirônica às “dimensões deste Franz Biberkopf.Ele pode competir com antigos heróis” (embora um dos rapazes que o provocam o chame de “suástica ambulante”),quando na verdade ele está tomado por um acesso de fúria homicida, berrando e prestes a uma ação desastrosa aos seus planos de decência, ordem, paz e harmonia, um escuro estado de horror que se apossa dele: “algo explodira dentro dele e começa de fato a borbulhar, soltando-lhe as rédeas, uma torrente de sangue perpassa seus olhos… Ele fervilha, cumpriu pena em Tegel, a vida é terrível, que vida é essa… Raiva, paralisia, isso é Franz Biberkopf”.

 

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19/04/2013

Uma prosa toda feita de delicadezas perigosas: Lygia Fagundes Telles

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antes do baile verde

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/04/19/historias-de-desencontro-entre-lygia-fagundes-telles-e-seus-contos/

(as anotações abaixo foram escritas em maio de 2009)

A POÉTICA DO SORRATEIRO

“Assim que comecei a usar a lupa… levei um susto, então era a cara de um inseto debaixo da lente? Fiquei apavorada, aumentados eles eram horríveis! Fui me acostumando quando fui achando que todos esses insetos eram parecidos com a gente nas suas festas. Nas suas brigas. Trabalhavam sem parar e também vadiavam como naqueles ajuntamentos de domingo no largo do Jardim, gostavam de se divertir. E gostavam de brigar e algumas brigas ficavam tão feias que eu fugia com vontade de vomitar. Debaixo da lente era medonho demais”.

(trecho de “A rosa verde”, de A noite escura e mais eu)

Lygia Fagundes Telles está em nova casa editorial. Após a José Olympio, a Nova Fronteira e a Rocco, migrações que fui acompanhando desde os meus 16 ou 17 anos, agora ela está no rol da Companhia das Letras. De saída, foram lançados três dos seus melhores livros: Antes do baile verde, seleção de contos (1970), e que será o assunto desta seção; As meninas, seu romance mais prestigiado (1973);  Invenção e Memória, seu melhor livro recente.

Por uma questão cronológica  começo com Antes do baile verde.  Lygia nunca foi uma escritora prolífica em obra, sempre o foi mais em títulos. Excelente estrategista, exercitou-se como antologista de si mesma, recambiando contos daqui e dali e reconfigurando sua carreira. Que fique claro, isso não é uma crítica.

Por exemplo, Antes do baile verde, em 1970, era uma espécie de antologia que fazia de seus livros anteriores (há uma seleção chamada Histórias escolhidas, anos antes, mas parece que foi feita pelos editores e não por ela), a primeira de muitas vezes em que fez isso. Hoje a Companhia das Letras publica uma obra com 18 contos (vários deles dos melhores que ela escreveu). A princípio eram 15: de 1949, da sua coletânea O cacto vermelho, ela escolhera três (“O menino”, “Os mortos” e “Olho de vidro”), de 1958, de Histórias do Desencontro foram cinco (“Natal na barca”, “A ceia”, “Venha ver o pôr do sol”, “Eu era mudo e só”, “As pérolas”), de 1965, de  O jardim selvagem foram outros cinco (“Antes do baile verde”, “A caçada”, “A chave”, “Meia-noite em ponto em Xangai”, “A janela”) e havia contos de antologias (“Os objetos” e “O moço do saxofone”).

Com a repercussão, numa 2a. edição, ela incluiu mais cinco: “Verde lagarto amarelo”, “Apenas um saxofone”, “Helga”, “Um chá bem forte e três xícaras”, “O jardim selvagem”, excelentes escolhas.  Assim, durante anos, ele foi republicado com vinte contos (pelo menos, é assim nas edições que tenho, uma do Círculo do Livro; outra –a oitava–  da José Olympio).

Na reedição da Companhia das Letras saíram “Os mortos” e “Olho de Vidro”. Da safra mais antiga, só permaneceu o belissimo “O menino”. Mesmo assim, o livro abrange uma produção entre 1949-1970.

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Bem, após essas considerações de gente minuciosa demais, podemos passar aos textos da seleção (depois haveria muitas outras, Filhos pródigos, que virou A estrutura da bolha de sabão; Mistérios, seleção de contos “fantásticos” e outras tantas, que não podem ser confundidas com as –poucas– coletâneas de textos novos).

Resolvi tomar o seguinte caminho, já que adoro o livro e sou profundo admirador dos contos de Lygia  (dos seus romances também, mas com certeza ele é fundamentalmente uma contista): vou tentar sintetizar a atmosfera e o charme de Antes do baile verde como um todo através dos comentários sobre um conto típico, no caso, “Um chá bem forte  e três xícaras” (da safra de 1965).

A primeira coisa que chama a atenção num leitor de 2009 (principalmente os mais jovens e/ou que não conhecem a obra de Lygia) é a atmosfera recôndita, que tem agora um quê de nostalgia, por tratar-se de um tempo já passado, que se revestiu de uma aura quase proustiana: imaginem casas com jardins espaçosos, vizinhos que ficam treinando piano, chás, empregadas zelosas… Parece a atmosfera de textos de Somerset Maugham, ou, mais contemporaneamente, Tennessee Williams (embora o paralelo mais pertinente, a meu ver, na evolução de Lygia seja com a obra de Truman Capote, aspecto que terei oportunidade de desenvolver durante esta semana; a essa altura, ela se identifica com o primeiro Capote, aquele de Outras terras, outras gentes e A harpa de ervas).

O conto começa com uma borboleta pousando numa roseira e sugando o âmago de uma flor. Maria Camila está no jardim da sua casa, conversando com a empregada, que está debruçada na janela. As duas falam da borboleta, das rosas (a empregada nota que a rosa “abriu ontem cedo” e já está murchando, e nada deve ser desconsiderado nesse texto, inclusive que parece estar dizendo respeito à patroa). A atmosfera é aparentemente bucólica e idílica: “Havia uma  poeira de ouro em suspensão no ar”. A empregada, Matilde, está tentando pregar uma alça, mas falta um botão, a patroa lhe diz que pegue outro na sua caixa, mas na verdade impede-a de ir, comentando coisas e mais coisas, aparentemente triviais.

Depois de esgotarem o assunto da borboleta e da rosa, Matilde pergunta se a patroa não quer que traga o chá. Maria Camila diz que está esperando “a menina”, que ficou de aparecer às cinco (que coisa mais inglesa, mais civilizada, evocando a cerimônia do chá das cinco, algo que lembra decoro, boa educação, berço). No silêncio da tarde o zumbido de uma abelha avulta e um riso de criança ouvido ao longe (não há criança na casa). A empregada pergunta se conhece a tal menina.  Maria Camila diz que não e perguntada sobre a idade da convidada, diz: “Uns dezoito“. Resposta de Matilde: “Mas então não é menina“, destruindo a idéia inofensiva e pueril (no sentido literal) que o termo escolhido, “a menina”, poderia evocar nessa tarde de jardins, chás, borboletas e rosas (mas sem crianças e com a maldita abelha zumbindo, e a rosa fanando…aliás, Maria Camila comenta desgostosamente que chega a ser obsceno ver aquela borboleta sugando aquela flor).

Com barulhos vindo da rua, a borboleta alça voo e Maria Camila faz o gesto de tocar a corola da flor: “Não chegou a tocá-la. Recolheu as mãos e ficou olhando para as veias intumescidas com a mesma expressão com que olhara para a rosa”. Matilde pergunta se a visitante é “conhecida do doutor” (primeira referência ao marido). “Trabalham juntos” e o conto vai tomando nova feição. A moça é estagiária no laboratório em que o dono da casa trabalha. E a senhora conhece ela, pergunta Matilde. “Já vi de longe“. Matilde: “Então é essa que às vezes telefona para ele“.  “Deve ser, sussurrou Maria Camila apanhando a pétala que caíra na relva. Levou-a aos lábios que estavam  lívidos: Deve ser”. Os lábios que estavam lívidos já nos transmitem, sorrateiramente, toda informação que precisávamos sobre a reação de Maria Camila aos telefonemas da estagiária. E os termos da empregada: “essa”, por exemplo.

Matilde insiste no assunto dos telefonemas. Maria Camila: “Os velhos, os mais velhos gostam da companhia dos jovens, acrescentou… dilacerando a pétala entre os dedos”. Aí ela passa para o assunto do menino treinando piano no vizinho, antes era violino. Nisso passa uma adolescente na rua: [Maria Camila] ficou seguindo com o olhar congelado uma adolescente que passava na calçada. Franziu a cara como se enfrentasse o sol”. E Matilde volta à carga: “Como e que ela se chama? Essa do chá…” Maria Camila lembra do botão que ela tem de pegar na caixa para  pregar a alça. Maria Camila conversa com a rosa, pergunta o que deve fazer agora, passando a pensar logo em seguida: “Augusto, Augusto, o que eu faço agora?” A empregada volta com um botão, conversam sobre o avançar da tarde, Maria Camila ri de repente: “Acho a vida tão maravilhosa!”, surpreendendo a empregada.  O menino pára de tocar. Maria Camila fica alerta.  Olha o relógio, ordena a Matilde: “Assim que a moça chegar, sirva o chá aqui mesmo, faça um chá bem forte. E traga três xícaras”. “Mas se é só a senhora e ela…” 

Na verdade, a patroa também espera o patrão, “o doutor”, ele deve aparecer. Nesse assomo de energia: “Quero os guardanapos novos, não vá esquecer, hein? Os novos.” Passos ressoam na calçada, deve ser a menina, “essa” que telefona, a estagiária, aquela contra o qual os exércitos de Maria Camila devem estar alinhados (o chá bem forte, a sua bonita e arrumada casa, os guardanapos novos), a amante do marido: “Maria Camila levantou a cabeça. E caminhou decidida em direção ao portão“.

Não é preciso uma revelação bombástica, uma cena de dramalhão, um elemento a mais, para indicar essa cumplicidade meio hipócrita da empregada com a patroa, a distância social jamais sendo preenchida, porém a convivência obrigando a “aludir” a uma situação intolerável. Acho esse conto sensacional.

O esquema de “Um chá bem forte e três xícaras” se repete no bem mais (e merecidamente) famoso “Antes do baile verde”, o conto-título,  ainda que com modulações diferentes: ainda é a surda cumplicidade hipócrita com a empregada, da moça com o pai moribundo e que não quer se sentir culpada por ir pular o carnaval. (acho que não é ocioso anotar aqui que Clarice Lispector também tem um pequeno grande texto que aproxima carnaval e morte, “Restos do carnaval”, de Felicidade clandestina, uma seleção que ocupa na obra clariceana de certa forma a mesma posição de Antes do baile verde; ressalte-se que no conto de Lygia é o pai, no de Clarice, a mãe).

E analisando a frio, trata-se de uma arcabouço paradigmático:  boa parte dos textos de Antes do baile verde são estruturados em torno de um diálogo entre duas pessoas, uma das quais é marcadamente frágil se flagrada num confronto direto, por isso os confrontos lygeanos são sinuosos e mediados. Temos os irmãos,o introspectivo e inadaptado Rodolfo e o bem sucedido Eduardo de “Verde lagarto amarelo” (confesso que acho esse título meio forçado), o casal (?) de “Os objetos” (um conto onde  o personagem mais frágil se agarra a objetos “arredondados” e hospitaleiros porém sua atenção, sabemos depois, está no focada no objeto com arestas, que não convida, que não conforta: uma adaga), temos os casais de “A chave” (na verdade, é um confronto desdobrado, entre o personagem masculino e a mulher mais velha que ele abandonou e a mulher mais jovem que ele não consegue acompanhar em sua vida social), de “A ceia” (conto belíssimo, em que uma mulher abandonada dá vexame num restaurante que está quase fechando), “As pérolas” (o homem que foi  “apoltronado” pelo casamento que debate com sua esposa se deve ou não participar de sua vida social) e assim por diante.

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A coisa fica mais dramática e menos sorrateira nos confrontos de “Venha ver o pôr do sol”, onde o amante abandonado, à Poe, tranca a ex-amada num sepulcro, após atraí-la com a  lorota da “despedida civilizada” (esse conto foi um dos primeiros que li de Lygia e me impressionou fortemente e até hoje resiste a qualquer revisão); de “Natal na barca” (onde o narrador tem de passar por uma experiência de fé e espiritualidade, para o qual não está preparado); do excepcional “O moço do saxofone” (onde o caminhoneiro quer transar também com a “fácil” mulher do saxofonista, mas acha intolerável que ela infrinja tal sofrimento ao companheiro); do clássico “O menino”, em que sorrateira é a mãe que leva o filho ao cinema onde vai encontrar o amante, e que desperta violentas emoções edipianas e vingativas no rebento, que nunca mais vai ver o filme da vida da mesma maneira. E talvez o mais violento confronto de todos seja o da diva da ópera com o seu “invisível” e por isso perfeito criado chinês no estupendo “Meia-noite em ponto em Xangai”, que para mim seria o ponto alto da seleção se ela não estivesse coalhada de pontos altos (eu não consigo me decidir  quais os melhores, só identifico os de voltagem mais fraca).

Há os contos-monólogos que, no fundo, são diálogos truncados com seres ausentes: é o caso dos maravilhosos “Apenas um saxofone” (a ricaça que subiu na vida explorando os homens e que, tendo sugado o poético e viril saxofonista, com o suicídio dele, pode decorar e redecorar com todo o mau gosto do mundo a sua mansão que não vai recuperar os “dias de saxofone”) e o brasileiro, descendente de alemã, que se incorporou à juventude nazista e que, após a guerra, para dar um grande golpe envolvendo tráfico de penicilina, rouba a perna ortopédica da mulher que ele depois descobre amar intensamente, isso nas convulsões de consciência de homem muito rico (em “Helga”). Pode-se perceber que a perversidade à Nélson Rodrigues não é estranha à Lygia F. Telles. Só é mais elegante.

Dois contos escapam do paradigma confronto seja pela presença ou pela ausência, e são ambos famosos: “A caçada” me impressionou muito há duas décadas, hoje já li coisas mais misteriosas e instigantes, mas ainda acho a atmosfera e construção do texto dignas de figurarem numa aula sobre os princípios básicos do gênero, particularmente o efeito. Hoje em dia, portanto, tenho mais uma admiração técnica pela história do freguês que fica fascinado com uma tapeçaria toda puída representando uma caçada e que é engolfado por ela contemplação após contemplação. Se Lygia tivesse a repercussão de um Cortazar hoje esse seria um conto universalmente estudado. O outro conto se manteve mais forte, para mim: “O jardim selvagem”, a definição que o tio (tão mimado pela tia da narradora) dá à sua esposa, Daniela, que anda sempre com uma luva numa das mãos, que toma banho pelada na cascata, que monta em pêlo, e que pratica eutanásia num cão velho e doente, com um tiro de misericórdia. O tio descobre que está com uma doença terminal e no final a narradora fica sabendo (há muita conversa de comadre no texto, conversa de cozinha, diz-que-diz) que ele se matou com um tiro. Será que se matou mesmo (o que é possível, com um homem casado com um “jardim selvagem”, portanto vivo e implacável, incapaz de dar espaço à fraqueza e à tibieza) ou foi misericordiosa e decididamente morto pela esposa? Isso importa? O que importa é que na vida da narradora adolescente, envolvida pelo adocicamento (doces, doces, doces) e pelo decoro, insinua-se, sorrateira, a peçonha do incivilizado, do indecoroso, do imprevisível. E são sempre famílias que já tiveram tostão e que agora se mantêm dignamente. Os muito ricos em Lygia são as putas que venceram na vida, os traficantes de penicilina que roubaram a perna da amada…

 

A poética do sorrateiro: “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/04/19/historias-de-desencontro-entre-lygia-fagundes-telles-e-seus-contos/

(as anotações abaixo foram escritas em maio de 2009)

“As Meninas” e o desenho do tapete (imutável?)

Lendo as situações retratadas nos contos de Antes do baile verde (e em boa parte da obra de Lygia), vemos que basicamente se trata de personagens “enredadas” presas na proverbial ciranda petrificada, no aquário (não por acaso os títulos dos seus romances iniciais, Ciranda de pedra; Verão no aquário). Apesar dos acordes dissonantes, é um mundo em que a estagnação e a decadência permeiam as relações de forma quase patológica, sinistra. Paradigmático, nesse sentido, é o destino do cliente de “A caçada”, sugado para dentro da tapeçaria que retrata uma cena que reconditamente, a princípio, depois com mais força, até chegar a um ponto premente, convoca a sua participação, a sua “reentrada” fatalística no palco, do qual ele era peça integrante sem nem o saber.

Em As meninas, no capítulo em que Lião, uma das meninas do título (baiana revolucionária, que justamente está se mandando para a Argélia com o objetivo de se encontrar com o amante, também militante, que fugiu às garras da ditadura), visita (a fim de pegar algumas roupas) a mãe de Lorena Vaz Leme (de família rica, porém decadente, riqueza rural que vai sendo desgastada por empreendimentos infelizes e tresloucados), há a seguinte descrição de desenhos no tapete:

Os olhos acostumados à penumbra viam melhor o desenho enrodilhado mas nítido: o tigre perseguia a gazela até montá-la nos dois lances seguintes, cravando garras e dentes em seu flanco de onde escorria um filete de sangue aguadamente azul. Outras gazelas perseguidas e abocanhadas se multiplicavam na lã e seda da miniatura oriental. Por mais que corressem, como corriam!, estavam todas condenadas. Alisou a cabeça espavorida da que saltava na moita. Procurou no intrincado dos arabescos de folhas um caminho diferente que a gazela pudesse fazer para escapar do tigre iminente: mas teria que sair do tapete. A volúpia com que os homens criam e descriam a fatalidade em tudo quanto tocam. E depois atribuem a responsabilidade aos deuses. Você é livre, soprou no ouvido em pânico da gazela. Agora era livre. Ainda era livre…”

A mãe de Lorena (que tenta enganar o tempo com plásticas, amantes mais jovens, baladas) representa a quintessência desse fatalismo representado nos desenhos do tapete. No diálogo com Lião, ela diz: “o terrível da vida é que as coisas acabam”. É automistificação, pois é justamente o contrário. O terrível da vida, em Lygia Fagundes Telles, é que certas coisas nunca acabam. Ficam mofando como a tapeçaria do conto para depois nos pegar desprevenidos e nos sugar para o seu mundo gasto, petrificado, fatalístico. E é nesse perigo que vivem Lorena e Ana Clara, as outras meninas da história, embora com origens sociais quase que antípodas. Lião é a única que pode subverter esse perigo do desenho fatalístico do tapete, das coisas que parece que acabaram, mas nunca acabam. É difícil dizer isso, sem parecer edificante ou parecer estar procurando uma “mensagem” num romance tão complexo, mas ela é o pólo positivo do romance, o fiel da balança, é a novidade no mundo da ciranda petrificada. Ela é o que As meninas traz de novo à ficção de Lygia, e o que torna mais bonito esse novo elemento é a sua ligação com os outros fios da trama que ecoam as recorrências da autora com sua prosa toda feita de “delicadezas perigosas” (é assim que Lorena caracteriza seu gato sumido, Astronauta).

O romance é constituído por doze capítulos. Há a presença da terceira pessoa, da primeira (em geral, tão intercaladas que é preciso um esforço didático para destrinçá-las), mas no geral predomina uma terceira pessoa em “discurso indireto livre”, ou seja, uma 3ª. pessoa que parece contaminada pelo foco da primeira, de tal forma narrador e personagem se misturam (parece difícil e muito técnico, porém As meninas, que é um romance altamente literário e sofisticado, parece fluir “naturalmente”).

No primeiro capítulo, o foco está em Lorena, no seu mundo-concha, na presença dos seus “mortos” e “fantasmas” (mesmo que estejam vivos, como o tal amante misterioso, M.N.), Lião é a amiga folclórica (mas que aparece em cena e com a qual ela conversa), que tem tudo para desagradar em termos de impacto físico (como sua tendência a desleixar a higiene), assim como também é escorregadia a visão que temos da outra moradora do pensionato de freiras, Ana Clara, que domina o foco no segundo capítulo, no qual justamente Lião aparece bem distanciada, apenas como uma referência, enquanto Lorena entra sempre no campo das ruminações turvas da nada clara Ana:

“Resolvo tudo. Então fico verdadeira.´Só peço a Deus pra ser sempre verdadeira´, ela disse não sei quantas vezes naturalmente com intenção de. Verdadeira. Com dinheiro também fico, pomba. Fico a própria boca da fonte jorrando a verdade. É fácil dizer a verdade na riqueza…”

O trecho acima é importante porque é Ana Clara, a drogada, mentirosa, enrolada, malaca, quem está com a palavra, confrontando o seu ser e a sua consciência com Lorena, a quatrocentona, refinada, sutil, neurótica . Como nós cohecemos o “lado” de Lorena igualmente, é fácil reconhecer a má fé e a implicância, o ângulo tendencioso da visão turva de Ana Clara sobre a amiga/desafeto. Nenhuma afirmação, em cada um dos lados, é completa porque só há determinados dados.

Concha e tabula rasa. A concha querendo a “vida impecável”, limpa, arrumada, ordeira,quase diáfana, como se não houvesse caos dentro e fora; a tabula rasa desejada pela “dançada”, que tenta se fazer acreditar que há um ponto em que a vida possa ser reformada/reformulada, o passado anulado, que se possa começar do zero, toda a fragmentação interior, a miséria psíquica, reordenadas numa estrutura unívoca e harmônica. Duas faces da mesma automistificação, embora a lucidez ronde avisando que são tão somente automistificações (pois elas não são nada bobas, e Ana Clara, querendo ficar chapada, admoesta o namorado traficante que continua “podre de lúcida”). O roque-roque do pensamento-realejo roendo o (e rodando pelo) cérebro, os recalques e obsessões indo e vindo. Lião, nesse ponto, é como a realidade (caótica e opressora): vem de fora, exige o posicionamento, o comprometimento que ambas tentam recusar de modos diferentes e igualmente irrisórios (Joan Didion: “ninguém está isento do movimento geral):

“Bom é ficar olhando a sala iluminada de um apartamento lá adiante, as pessoas tão inofensivas a rotina. Comem e não vejo o que comem. Falam e não ouço o que dizem, harmonia total sem barulho e sem braveza. Um pouco que alguém se aproxime e já sente odores. Vozes. Um pouco mais e já nem é espectador, vira testemunha. Se abre o bico para dizer Boa noite! passa de testemunha para participante. E não adianta fazer aquela cara de nuvem se diluindo ao largo porque nessa altura já puxaram a nuvem para dentro e a janela-guilhotina fechou rápida. Eram laços frouxos? Viraram tentáculos”.

Como variações musicais, o esquema se repete no terceiro capítulo (Lorena), no quarto (Ana Clara) e no quinto (Lorena, novamente), enquanto a ação, sem que pareça acontecer nada, vai avançando, Lorena na direção da imponderabilidade, Ana Clara da impossibilidade, ambas na insustentabilidade.

O sexto capítulo rompe com o quadro de diversas maneiras: Lião ocupa a cena, ao mesmo tempo tudo é mais objetivo, sem as ruminações, sem o roque-roque do pensamento recorrente e obsessivo. São ações, são projetos, estamos a princípio num escritório de militância política, depois há a notícia da libertação de Miguel, o amante e a necessária partida para a Argélia (gozado: o que pareceria a princípio datado, essa história da ação revolucionária, é o que mais dá sangue e vida a esse romance, apesar do charme dos outros lados do triângulo, e foi essa justamente a maior surpresa da minha releitura, quando na minha memória afetiva a personagem de Lião era a que menos contava, e para mim, agora, ela é que dá o significado mais pleno ao texto). Nesse sexto capítulo, há também uma conversa-chave entre Lião e a madre responsável pelo pensionato.

No sétimo capítulo, pela primeira vez há uma divisão do foco narrativo, entre Lorena e Lião. O oitavo, que é o mais dramático e um ponto alto da prosa de Lygia, temos o clímax da participação de Ana Clara, perdida na cidade, na noite e na vida (os perigos sobre os quais a madre acautelava Lião, as ciladas que gazelas sofrem no desenho do tapete da casa da mãe de Lorena?). A impossibilidade encenada não mais na modorra de uma sesta/morgação, mas na própria ação. O nono capítulo volta a Lorena, e a sua imponderabilidade é colocada em xeque, não mais em fantasias e devaneios, mas no concreto (a cena com o rapaz que é a fim dela, Guga) e é quando Lião lhe dá a notícia da sua viagem (o mundo em torno da concha vai rachando-a).

No décimo capítulo ocorre a já citada visita de Lião à casa da mãe de Lorena (simétrica de certa forma ao seu diálogo com a madre no sexto capítulo). No décimo-primeiro, Ana Clara chega destroçada no quarto de Lorena, que lhe dá um banho (o mundo concha tentando lavar os pecados do mundo real, também uma aspiração à tabula rasa por vias mais subreptícias) e depois vai ao quarto de Lião, que está preparando sua partida. Ao voltar para seu quarto, Lorena descobre que Ana Clara está morta e chama a amiga. É curioso que nesse capítulo que “reúne” as três não há (como no romance inteiro) encontro real entre Ana Clara e Lião.

E no último capítulo, eis as três pela noite paulista: Lião e Lorena “desovando” o corpo de Ana Clara, de forma a que não haja complicações no pensionato. O cuidado de Lorena com a morta, salvando as aparências, deixando-a linda. Os caminhos que se bifurcam: Lião indo para a Argélia, o futuro em aberto, Lorena voltando para a casa da mãe, para a concha-mor, para o desenho do tapete. Embora haja alguma esperança. Porque senão, pelo que vimos no posterior As horas nuas (1989) sabemos no que dá essas mulheres em apartamentos-conchas, o enlouquecimento e desvario progressivo, essa preocupação em salvar as aparências, e nada acabando, nunca…

Houve portanto uma troca de posições entre Ana Clara e Lião, em termos de estratégia narrativa e Lorena continuou sendo, grosso modo, a representante do mundo asfixiante e estagnado, mundo ao qual Ana Clara aspira e o qual Lião rejeita, por isso a mais frágil das três meninas é de certa maneira o fio condutor de toda a trama.

25/01/2013

“O triste hábito de ser alguém”: a poesia do último (ou penúltimo) Borges

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INTRÓITO (30.06.09)

Num dos poemas do espólio de Joseph Knecht (knecht= servo, em contraposição ao Wilhelm Meister, de Goethe; meister= patrão), protagonista de O jogo das contas de vidro (1943), “Um sonho”, vemos um visitante de um convento nas montanhas, o qual, enquanto todos estão rezando, vai à biblioteca, que possui “livros aos milhares”, pergaminhos “com inscrições maravilhosas”:

“Tomei de um livro e li:

Último passo para se encontar

A quadratura do círculo.

Este livro, pensei. levo comigo!

num outro livro, um in-quarto de couro dourado,

Em letras minúsculas se lia:

De como Adão também comeu da outra árvore…

Da outra árvore? De qual: da vida?

Nesse caso, imortal seria Adão?

Não era em vão, eu percebi, que eu me encontava ali…”

     E assim ele vai de maravilha em maravilha:

“… E comecei a pressentir,

O que cada livro que eu pegava

Vinha comprovar:

Nessa sala se achava a biblioteca

Do Paraíso; todas as perguntas

Que jamais me atormentaram,

Toda a sede de conhecimento

Que me havia queimado,

Encontrava ali sua resposta,

E toda a fome o pão do espírito.

Porque por onde quer que eu lançasse

Um rápido olhar a um volume,

Encontrava nele um título

Cheio de promessas; havia ali resposta

Para todas as necessidades, e podia-se

Partir toda a espécie de frutos

Que um discípulo jamais imaginou e desejou a medo,

A que jamais um mestre estendeu ousado a mão.

O sentido mais oculto e mais puro das coisas,

Toda espécie de sabedoria,

Poesia, ciência, a força mágica

De toda espécie de investigação,

Com sua chave e seu vocabulário,

A mais fina essência do espírito,

Conservavam-se ali em obras magistrais,

Misteriosas, inauditas,

Havia ali respostas a todas as questões

E todos os mistérios, cuja posse era o dom

Que o favores da hora de magia ofereciam…

 

Nas revelações sonhadas pelos povos,

Heranças de milênios de experiência cósmica,

Unia-se em novos laços, harmoniosamente,

Em que jogo mútuo de correlações;

Surgia em revoada toda espécie

De conhecimento de outras eras,

De símbolos, e descobertas sempre novas

De questões sublimes.

E assim, ao ler, em minutos ou horas,

Eu percorri de novo

O caminho de toda humanidade.

Apreendendeo o sentido comum interior

Das mais antigas e modernas descobertas;

Eu lia e via os vultos simbólicos da escrita

Se aparelharem, se afastarem,

Circularem, separarem-se a fluir,

Derramando-se em novas formações,

Simbólicas figuras de um caleidoscópio,

Que recebiam um sentido novo, inesgotável

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Ele percebe que não é o único visitante desse espetáculo deslumbrante. Ou não será um outro visitante, mas o arquivista: trata-se de um ancião, fervorosamente dedicado a uma ocupação. É preciso chegar mais próximo a ele para ver do que se trata:

“E vi o ancião, com engelhada e branda mão,

Tomou de um livro leu

O que estava escrito na lombada,

Sussurrou com lábios pálidos o título

–Um título de entusiasmar, prometedor

De horas preciosas de leitura!–

Borrou-o com os dedos, levemente,

Escreveu sorrindo um novo título,

Completamente diferente, e em seguida

Continuou a andar, tomando aqui um livro,

E um outro acolá, o título apagando,

E escrevendo outro em seu lugar.

 

Confuso, observei-o longamente,

E então , já que minha razão

Negava-se a entender, voltei ao livro

Onde há pouco havia lido algumas linhas;

Mas a seqüência de imagens

Que me encantara não mais encontrei,

E o mundo simbólico

Apagou-se e se afastou,

Esse mundo em que eu mal penetrara

E cujo conteúdo era tão rico de sentidos cósmicos;

Vacilou, correu em círculo,

Pareceu nublar-se,

E ao se esvair, nada mais deixou de si

do que o vislumbre pardacento

De pergaminhos vazios.

 

Sobre meu ombro eu senti u´a mão,

Ergui aos olhos e vi ao meu lado

O aplicado macróbio; ergui-me. A sorrir,

Ele  pegou meu livro, enquanto um calafrio

Percorria-me, e qual esponja, seu dedo

Foi borrando o título; sobre o couro limpo

Escreveu novo título, questões e promessas,

E desenhando cuidadosamente as letras

Uma a uma, sua pena deu

A velhas questões as mais modernas refrações.

Em seguida levou em silêncio livro e pena.”

      Num poema intitulado “Junho, 1968”, Jorge Luis Borges escreveu:

“…Ordenar bibliotecas é exercer,

de modo silencioso e modesto,

a arte da crítica…”

        Em outro poema do mesmo livro (Elogio da sombra), chamado “O guardião dos livros”, no qual  lemos:

“Ali estão os jardins, os templos e a justificação dos templos,

A música precisa, as precisas palavras,

Os sessenta e quatro hexagramas,

Os ritos que são a única sabedoria

Que o Firmamento concede aos homens…

As secrretas leis eternas,

O concerto do orbe;

Essas coisas ou sua memória estão nos livros

Que eu guardo na torre.

 

Os tártaros vieram do Norte

em crinudos potros pequenos;

Aniquilaram os exércitos…

Mataram o perverso e o justo,

Mataram o escravo acorrentado que vigia a porta,

Usaram e esqueceram as mulheres…

O pai de meu pai salvou os livros.

Aqui estão na torre em que, jazendo,

Recordo os dias que foram de outros,

Os alheios e os antigos.

 

Em meus olhos não há dias. As prateleiras

são muito altas e meus anos não podem alcançá-las.

Léguas de pó e sono circundam a torre.

Para que me enganar?

A verdade é que eu nunca soube ler,

mas me consolo pensando

que o imaginado e o passado já são o mesmo

para um home que foi

e que contempla o que foi a cidade

e agora volta a ser o deserto.

O que me impede de sonhar que um dia

eu decifrei a sabedoria

e desenhei com aplicada mãos os símbolos?

Meu nome é Hsiang.  Sou o que guarda os livros,

que talvez sejam os últimos

porque nada sabemos do Império…

Ali estão nas altas prateleiras,

ao mesmo tempo perto e distantes,

secretos e visíveis como os astros.

Ali estão os jardins, os templos.”

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ANOTAÇÕES DE LEITURA (30.06.09)

      A Companhia das Letras reuniu num único volume (singelamente intitulado Poesia)  os sete livros da maturidade poética de Borges, num período que vai de 69 a 85 (ele morreu em 86): Elogio da sombra, O ouro dos tigres, A rosa profunda,  A moeda de ferro,  História da noite, A cifra, Os conjurados.

O volume começa em esplendor, já que Elogio da sombra (69) é um dos melhores livros de Borges. Foi um dos primeiros que li (numa edição do Círculo do Livro, que o reunia a três coletâneas de ficções, no sentido borgeano da palavra), quando adolescente: uma colega de colegial, Lúcia,  me emprestou dois livros do irmão mais velho (o outro era O eu profundo e outros eus, a conhecida seleção de poemas de Fernando Pessoa editada pela Nova Fronteira; devido a esse contato precoce, ambos, Borges e Pessoa, me ficaram desde essa época, embora não tenha entendido muita coisa, quase como “pessoas da família”, e por isso logo me acostumei com as estranhezas muitas vezes irritantes das suas obras.  Aliás, só aquilo ou aquele de que se gosta muito consegue irritar).

Reli-o há alguns anos quando a Globo lançou uma nova edição (ver resenha acima), e agora mais uma vez me ocupo de suas imagens quase lapidares, de suas construções paradigmáticas do que Borges tem de mágico e ao mesmo tempo de exasperante.

Acho que o poema de Hermann Hesse, do qual eu transcrevi a maior parte, fornece uma boa idéia da atmosfera desses 31 poemas onde o que se leu é tão importante quanto o que se viveu, e no final tudo é irrisório porque transitório, mas também é recorrente a idéia de continuidade : continuidade dos antepassados no sangue, do Israel bíblico e da tradição apátrida no país que se desenvolveu no século XX, do labirinto clássico na cidade contemporânea, da memória no esquecimento, da natal Buenos Aires nas outras cidades que o poeta percorre (“New England” termina assim: “Buenos Aires eu continuo caminhando/ por tuas esquinas, sem por que nem quando”):

“Que outros se vangloriem das páginas que escreveram;

eu me orgulho das que li…

ao longo de meus anos professei

a paixão da linguagem.

Minhas noites estão repletas de Virgílio;

ter conhecido e esquecido o latim

é uma posse, porque o esquecimento

é uma das formas da memória, seu porão difuso,

a outra face secreta da moeda.

Quando em meus olhos se apagaram

as vãs aparências estimadas,

os rostos e a página,

dediquei-me ao estudo da linguagem de ferro

empregada por meus antepassados para cantar

espadas e solidões…”

Ou ainda num dos poemas a Israel:

“Quem me dirá se estás nos perdidos

Labirintos de rios seculares

Do meu sangue, Israel? Quem, os lugares

Por meu sangue o teu sangue percorridos?

Não importa. Sei que estás no sagrado

Livro que abarca o tempo e que a história

do rubro Adão resgata na memória

E agonia do Crucificado.

Nesse livro estás, que é o reflexo

De cada rosto que sobre ele se inclina

E do rosto de Deus, que, em seu complexo

E árduo cristal, terrível se adivinha…”

No seu prólogo (Borges era afeito a eles, e era uma das suas estratégias favoritas para ir retocando sua imagem) desse livro que publicou aos 70 anos, o grande escritor argentino afirma que se trata do seu quinto livro de poemas. Nas obras completas pela Emecé ,(e se não contarmos também o inclassificável e fabuloso O fazedor) encontramos Fervor de Buenos Aires; Lua defronte; Caderno San Martín; O outro, o mesmo; Para seis cordas (será que estes dois últimos foram publicados juntos?). O “quinto” (ou o sexto) livro e, como já se disse (Jorge Schwartz), sua “summa” poética:

“Somos nossa memória,

somos esse quimérico museu de formas inconstantes,

essa pilha de espelhos quebrados” (“Cambridge”)

Nessa edição que estou lendo e comentando, foram retirados três poemas (que constavam nas edições da Globo):  “Elsa” (que ficava entre os poemas “Cambridge” e “New England 1967”); “Milonga de Manuel Flores” & “Milonga de Calandria” (que ficavam entre “Acevedo” e “Invocação a Joyce”).

“Elsa”:

“Noites de longa insônia e de castigo

Que ansiavam a alba e a temiam,

Dias daquele ontem que repetiam

Outro inútil ontem. Hoje os bendigo.

Como pressentiria nesses anos

De solidão de amor, que as atrozes

Fábulas da febre e as ferozes

Auroras não eram mais que degraus

Intrincados e errantes galerias

Que me conduziriam à pura

Culminância de azul que no azul perdura

Desta tarde de um dia e de meus dias?

Elsa, em minhamão eu prendo a tua. Vemos

No ar a neve e a queremos”. (Cambridge, 67).

Acho que o motivo da exclusão é óbvio. Nada que melindre madame Kodama.

Já as duas milongas fazem parte agora (nas Obras Completas) de Para seis cordas.

O primeiro dos 31  poemas restantes, “João I, 14” (que evoca o famoso “o verbo se fez carne”) mostra um Cristo nostálgico da sua encarnação:

“Vi por Meus olhos o que nunca havia visto:

as noites e suas estrelas.

Conheci o polido, o arenoso, o díspar, o áspero,

o sabor do mel e da maçã,

a água na garganta da sede,

o peso de um metal na palma,

a voz humana, o rumor de uns passos sobre a relva,

o odor da chuva da Galiléia”

E a idéia de CONTINUIDADE nos avatares transitórios já dá o tom, dentro do jogo de imagens típico da obra borgeana:

“Amanhã serei um tigre entre os tigres

e predicarei Minha lei a sua selva,

ou uma grande árvore na Ásia.

Às vezes penso com nostalgia

no odor dessa carpintaria”.

      A impossibilidade ou o provável também são também faces da eternidade com sua promessa:

“Um pintor prometeu-nos um quadro.

Agora, em New England, sei que morreu. Senti, como outras vezes, a tristeza de compreender que somos  como um sonho. Pensei no homem e no quadro perdidos.

(Só os deuses podem prometer, porque são imortais).

Pensei depois se estivesse aí, seria com o tempo uma coisa mais, uma coisa, uma das vaidades ou hábitos da casa; agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer forma e qualquer cor e a ninguém vinculada.

Existe de algum modo. Viverá e crescerá como uma música e estará comigo até o fim. Obrigado, Jorge Larco.

(Também os homens podem prometer, porque na promessa há algo imortal).

(02.07.09):                                    O OURO DOS TIGRES

Publicado em 1972, no seu belo título já trai a recorrente fascinação de Borges com esse que é o animal mais bonito. A imagem do ouro ligado ao animal selvagem, uma espécie de fulgor da ferocidade, também trai um dos temas centrais dessa coletânea de 48 poemas. Em ocasiões diversas (por exemplo, ao comentar Ulisses, de Joyce, ou A pedra do reino, de Ariano Suassuna), eu  levantei a questão da nostalgia do épico, e é isso que vemos em O ouro dos tigres. Borges como o fazedor de versos, descendente longínquo e pálido dos aedos e cantores de sagas, ou ainda, em termos mais pessoais e irrisórios, último representante de uma família de militares “machos”, um eco já apagado, uma sombra, do que foi grandioso, e se não foi, ficou assim  “naquele plástico ontem irrevogável”, “Essas coisas podiam não ter sido./ Quase não foram. Nós as concebemos/ em um ontem fatal e inevitável”,“O ontem ilusório é um recinto/ de imutáveis figuras de cera/ ou de reminiscências literárias/ que o tempo irá perdendo em seus espelhos” (“O passado”). Não por acaso, os dois primeiros poemas, que estabelecem o “clima”, por assim dizer, tratam de um conquistador, um homem de ação (“Tamerlão”), que protagonizou uma tragédia de Christopher Marlowe, o grande rival do jovem Shakespeare, e de espadas famosas (“Espadas”).

A ação heróica, destinada a ser literatura (e um dos elementos daquela continuidade de que eu falava nos comentários sobre Elogio da sombra), o épico que encontra o lírico e o cósmico em Whitman, presença tutelar do livro desde o prólogo (apesar de este fornecer uma imagem ambivalente, mais negativa que positiva; “Para um verdadeiro poeta, cada momento da vida, cada fato, deveria ser poético, já que profundamente o é. Que eu saiba, ninguém alcançou até hoje essa alta vigília. Browning e Blake se aproximaram mais do que qualquer outro; Whitman a propôs, mas suas deliberadas enumerações nem sempre passam de catálogos insensíveis”):

“Roma, que impõe o numeroso hexâmetro

Ao obstinado mármore dessa língua

Que manejamos hoje, espedaçada;

Os piratas de Hengist que atravessam

A remo o temerário mar do Norte

E com fortes mãos e a coragem

Fundam um reino que será o Império;

O rei saxão que oferta ao da Noruega

Sete palmos de terra e que cumpre,

Antes que o sol decline, a promessa

Na batalha de homens; os cavaleiros

Do deserto, que cobrem o Oriente

E ameaçam as cúpulas da Rússia;

Um persa que relata a primeira

Das Mil e uma noites e não sabe

Que deu início a um livro que os séculos

Das outras gerações, ulteriores,

Não entregarão ao quieto esquecimento;

Snorri, que salva em sua perdida Tule,

Sob a luz de crepúsculos morosos

Ou na noite propícia à memória,

As letras e os deuses da Germânia;

O jovem Schopenhauer, que descobre

Um projeto geral do universo;

Whitman, que numa redação do Brooklyn,

Entre o cheiro de tinta e de tabaco,

Toma e a ninguém conta a infinita

Resolução de ser todos os homens

E de um livro escrever que seja todos…”

WaltWhitman

E o poeta Borges, ou o avatar de poeta que ele tomou para si neste livro? Vejamos o último dos  “Tankas”  (estrofe japonesa que tem um primeiro verso de cinco sílabas, o segundo de sete sílabas, o terceiro de cinco sílabas e os dos últimos de sete sílabas):

“Não ter tombado

Como outros de meu sangue,

Na batalha.

Ser na inútil noite.

O que conta sílabas.”

 

“…com o verso / devo lavrar meu insípido universo”, lemos em “O cego”; “…o resignado / exercício do verso não te salva” (“Ao triste”), enquanto se espalham as alusões ao projeto whitmaniano:. Em “On his blindness”: “Walt Whitman, esse Adão nomeador / das crianças que existem sob a lua”; em 1971 (um poema em homenagem à descida do homem na lua e seus antecedentes míticos e literários): “Esses filhos de Whitman haviam pisado/ o páramo lunar, o inviolado…”, numa paródia a sério da expressão “filhos de Adão”.

E por falar em Adão, uma das “Treze moedas” recapitula concisamente uma situação já explorada  no poema “Lenda” de Elogio da sombra:

 

“Foi no primeiro deserto.

Dois braços atiraram uma grande pedra.

Não houve um grito. Houve sangue.

Houve pela primeira vez a morte.

Já não me lembro se foi Abel ou Caim”.

No poema anterior:

“Abel e Caim se encontraram depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e se reconheciam  de longe, porque os dois eram muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, fizeram um fogo e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando o dia declina. No céu despontava alguma estrela, que ainda não recebera seu nome. À luz das chamas, Caim notou na testa de Abel a marca da pedra e deixou cair o pão que estava para levar à boca e pediu que seu crime lhe fosse perdoado.

    Abel respondeu:

–Tu me mataste ou eu te matei? Já não me lembro; aqui estamos juntos como antes.

–Agora sei que você me perdoou de verdade, disse Caim, porque esquecer é perdoar. Eu também tentarei esquecer.

      Abel disse devagar:

–Assim é. Enquanto dura o remorso, dura a culpa”.

 

    Voltando à “nostalgia do épico”, um dos elementos constituintes na mítica pessoal borgiana é a figura do “gaúcho” e seu cenário natural, o pampa:

“O beco final com seu poente.

Inauguração do pampa.

Inauguração da morte.” (“Oeste”)

“No fim de sua terceira geração

Regresso às planícies dos Acevedo,

Os meus antepassados. Vagamente

Procurei-os por esta velha casa…

Na chuva que ensombrece a varanda,

Entre o crepúsculo de seus espelhos,

Num reflexo, um eco, que foi seu

E que agora é meu, sem que eu o saiba…

Aqui foram a espada e o perigo,

As duras prescrições e os levantes;

Firmes sobre o cavalo, aqui regeram

A sem princípio e a sem fim planura…” (“A busca”)

                              “… Professaram

A antiga fé do ferro e da coragem…

Por essa fé morreram e mataram.

 

Entre os acasos de uma montonera

Pereceu  pela cor de uma divisa;

Foi quem nada pediu, nem a efêmera

Glória, feita de alarde e de brisa.”

 

Há até uma poética do épico em “Os quatro ciclos”, que afirma que “Quatro são as histórias. Durante o tempo que nos resta, continuaremos a narrá-las, transformadas”. São elas a história da Ilíada, da Odisséia, de Jasão e o velocino, e do sacrifício de um deus (Átis, Odin, Cristo).

Nessa obsessão pelo épico, que só estou pincelando, há uma homenagem a Camões (no poema “O mar”; aliás, mar e épico estão inextricavelmente ligados), embora seu nome não seja citado:

“O mar. O mar de Ulisses…

É o do tal cavaleiro que escrevia

A um só tempo a epopéia e a elegia

De sua pátria, no pântano de Goa…”

 

    E o próprio Borges, numa auto-ironia, mostra sua fidelidade aos ideais militares que, vinculada a coisas imemoriais e nada comezinhas, tiveram o efeito desastroso de propiciar desastradas declarações políticas num país sob ditadura militar. No poema “A sentinela”, e Borges- O outro determina coisas para Borges-o mesmo::

“Converteu-me ao culto idolátrico de militares mortos, com

         os quais talvez não pudesse trocar uma única palavra”.

caricatura (borges)

Acho que esse trecho esclarece bem a questão “Borges & regime militar”.

Esse mesmo poema termina de uma forma terrível:

“A porta do suicida está aberta, mas os teólogos afirmam

         que na sombra ulterior do outro reino estarei eu, me

         esperando.”

Que ecoa a fórmula de “O ameaçado”: “o horror de viver no sucessivo”, o que expressa a impotência dos seres majestosos e enjaulados (a pantera, o tigre, cuja visão o fascinou antes da cegueira):

“Em vão é vário o orbe. A jornada

Que cumpre cada qual já foi fixada” (“A pantera”)

Do ouro dos tigres só sobrou na cegueira a cor amarela:

“Agora só perduram contornos amarelos,

E só consigo ver para ver pesadelos.”

 

     Em 1970, Borges esteve em São Paulo e lá escreveu “Poema da quantidade”:

“Aqui são excessivas as estrelas.

O homem é excessivo. As gerações

Inúmeras de aves e de insetos,

Do jaguar constelado e da serpente,

De galhos que se tecem e entretecem,

Do café, da areia e das folhas

Oprimem as manhãs e nos prodigam

Seu minucioso labirinto inútil.

Talvez cada formiga que pisamos

Seja única ante Deus, que a define

Para a execução das regulares

Leis que regem  Seu curioso mundo.

Não fosse assim, o universo inteiro

Seria um erro e um oneroso caos.

Os espelhos do ébano e da água,

O espelho inventivo de um sonho,

Os liquens e os peixes, as madréporas,

Tartarugas alinhadas no tempo,

Os vaga-lumes de uma única tarde,

As araucárias e suas dinastias,

As perfiladas letras de um volume

Que a noite não apaga são sem dúvida

Não menos pessoais e enigmática

Que eu, que as confundo. Não me atrevo

A julgar nem a lepra nem Calígula.”

Não posso me furtar a transcrever parte de  “A um gato”:

“Não são mais silenciosos os espelhos

Nem mais furtiva a aurora aventureira;

Tu és, sob a lua, essa pantera,

Que divisam ao longe nossos olhos…

Mais remoto que o Ganges e o poente,

Tua é a solidão, teu o segredo.

Teu dorso condescende à morosa

Carícia de minha mão. Sem um ruído,

Da eternidade que ora é olvido,

Aceitaste o amor dessa mão receosa.

Em outro tempo estás. Tu és o dono

De um espaço cerrado como um sonho.”

borges cugato

E para finalizar essa minha passagem pelos poemas de O ouro dos tigres, duas passagens que eu acho emocionante. Uma é o último verso de “O ameaçado”, um poema sobre o amor “com suas mitologias, com suas pequenas magias inúteis”):

“Dói-me uma mulher por todo o corpo” (que bom ver o corpo referido em Borges).

A outra, que considero um fecho perfeito para qualquer texto, é de “O palácio”. Apesar do horror de viver no sucessivo:

“… já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memória. Eu sei que não estou morto.”

el oro de los tigres

, 

              

jorge_luis_borges[2]

(05.07.09)

Nos últimos três dias me ocupei dos livros de poemas que Borges publicou em meados dos anos 70 (em 75, 76 e 77): A rosa profunda; A moeda de ferro; História da noite. Fiquei encantado, contrariando a expectativa (sempre tive um pé atrás com essa fase tardia da poesia borgiana). E na verdade, acredito que História da noite é um dos seus grandes livros e os dois outros livros estão a ele (e à Macro-Narrativa borgiana) tão intimamente ligados, que mesmo o que ficou de repetitivo, de exasperante, faz parte de um conjunto “de ferro” (para utilizar uma locução adjetiva cara ao autor). Em A rosa profunda & A moeda de ferro não há nada particularmente genial ou excepcional nos poemas, mas quase todos têm uma distinção, uma dignidade que nada tem a ver com o acadêmico… E História da noite é um livro de mestre. Neles, perpassa o sopro das quatro metáforas que ele localiza nas Mil e uma noites:  a do rio (no sentido de Heráclito); a da trama do tapete;  a do sonho; a do mapa do Tempo:

                        “…um orbe fluido

De formas que variam como nuvens,

Sujeitas ao arbítrio do destino

Ou do acaso, que são a mesma coisa (…)

                        … a trama

De um tapete, que oferece ao olhar

Um caos de várias cores e de linhas

Irresponsáveis, acaso e vertigem.

Mas uma ordem secreta o governa.

Como aquele outro sonho, o Universo,

Esse Livro das Noites está feito

De cifras tutelares e de hábitos:

Os sete irmãos e as sete viagens.

O trio de cádis e os três desejos (…)

Como no paradoxo do eleata,

O sonho se desfaz em outro sonho

E este, em outro e em outros, que entretecem

Ociosos um ocioso labirinto.

No livro está o Livro (…)

                        … um mapa

Daquela região indefinida, o Tempo,

De quanto medem as graduais sombras

E o perpétuo desgaste de alguns mármores

E os passos de diversas gerações.

Tudo. A voz e o eco, o que miram

As duas opostas faces do Bifronte (…)

Dizem os árabes que ninguém consegue

Ler até o fim esse Livro das Noites.

As Noites são o Tempo, o que não dorme…” (“Metáforas das Mil e Uma Noites”, de História da  Noite)

A ROSA PROFUNDA

                                  “No dialeto de hoje

                                  Direi, por minha vez, coisas eternas…”

 

                                  “Ao esquecimento, às coisas do esquecimento, acabo de

                                  Erigir este monumento…”

 

                                  “Que arco terá lançado esta seta

                                  que sou ? Que cume pode ser a meta?”

Em A rosa profunda, talvez o poema central (ele fica mais ou menos no meio dos  26 poemas) é “1972”:

“Temi que o porvir (que já declina)

Seria um profundo corredor de espelhos

Indistintos, ociosos e minguantes,

Um repetir sem fim de fatuidades,

E na penumbra que precede o sonho

Pedi a meus deuses, cujo nome ignoro,

Que algo ou alguém enviassem a meus dias. 

Fizeram-no. É a Pátria. Meus ancestrais

Serviram-na com longas proscrições,

Com penúrias, com fome, com batalhas,

Aqui de novo está o formoso risco.

Não sou aquelas sombras tutelares

Que honrei com versos que não esquece o tempo (…)

Mas hoje a Pátria profanada quer

Que com minha obscura pena de gramático,

Douta em  nimiedades acadêmicas

E distante dos trabalhos da espada,

Congregue o grande rumor da epopéia

E exija o meu lugar. Eu o estou fazendo.”

 

Outro poema que me parece central (e que está bem próximo ao anterior) é “All our yesterdays”:

“Quero saber de quem é meu passado.

De qual dos que já fui? Do genebrino

Que traçou algum hexâmetro latino

Pelos anos lustrais já apagado?

Édo menino que buscou na inteira

Biblioteca do pai as pontuais

Curvaturas do mapa  e as ferais

Formas que são o tigre e a pantera?

Ou daquele outro que empurrou uma porta

Atrás da qual um homem morria

Para sempre, e beijou no branco dia

A face que se vai e a face morta?

Sou os que já não são. Inutilmente

Sou em meio à tarde essa perdida gente.”

Na coletânea,  há um poema chamado “Eu” (“os caminhos de sangue que não vejo”) e um poema chamado “Sou” (“Sou, tácitos amigos, o que sabe/ Que não há outra vingança que o olvido/ Nem há outro perdão (…) Sou eco, olvido, nada”).

E os temas do rio, da trama do tecido, do sonho (“Bem no fundo do sonho estão os sonhos”, lemos em “Efialtes”; “Eu também sou um sonho fugitivo que dura/ Alguns dias mais…”, lemos em “A cerva branca”) e do mapa do Tempo continuam entretecidos nesse Boitempo (“… a morte, esse outro nome/Do incessante tempo que nos rói…”, lemos em “Elegia”) borgeano:

“O grande rio de Heráclito, o Obscuro,

Seu curso misterioso não empreendido,

Que do passado flui para o futuro,

Que do olvido flui para o olvido.” (“Cosmogonia”)

“Serei todos ou ninguém. Serei o outro

Que sem saber eu sou, o que fitou

Esse outro sonho, minha vigília. E a julga,

Resignado e sorridente…” (“O sonho”)

                        “…o humano tempo,

Cujo espelho espectral é a memória” (“O bisão”)

                        …”Cada coisa

É infinita coisas. Tu és música,

Firmamentos, palácios, rios e anjos,

Rosa profunda, ilimitada, íntima…” (“The unending rose”)

Machadianamente (pelo menos, no que se refere ao narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas), neste nosso “intolerável universo”, o suicida pode afirmar: “Lego o nada a ninguém” (“O suicida”). Mas, para compensar, há  o rouxinol, “voz repleta de mitologias”, que merece este belíssimo verso: “Keats te ouviu por todos, para sempre” (“Ao rouxinol”).

As 13 moedas de O ouro dos tigres, retomadas, foram acrescidas de mais duas. Em uma delas temos essa homenagem a Poe:

“Os sonhos que sonhei. O poço e o pêndulo.

O homem das multidões. Ligéia…

Mas também este outro.” (“Quinze moedas”)

   O tigreiro Simón Carbajal:

“Sempre estava matando o mesmo tigre

Imortal. Não te assombre demasiado

Seu destino. É o teu e é o meu,

Salvo que nosso tigre possui formas

Que mudam sem parar. Chama-se o ódio,

O amor, o acaso, cada momento.” (“Simón Carbajal”)

A cegueira:

“Não sei qual é o rosto que me mira

Quando miro o rosto do espelho;

Não sei que velho espreita em seu reflexo

Com silenciosa e já cansada ira.

Lento em minha sombra, com a mão exploro

Meus invisíveis traços. Um lampejo

Me toca. Teu cabelo entrevejo,

Se ora de cinza ou ainda de ouro, ignoro.

Repito que o perdido foi somente

A inútil superfície das coisas.” (“Um cego”)

A nostalgia do épico persiste, claro. Alguém percorre os caminhos de Ítaca e não se lembra daquele rei que partiu para Tróia, que desceu ao Hades para consultar Tirésias (“O desterrado”).

Os destinos que não são nossos; os destinos não que não nos couberam, nesse jardim de veredas que se bifurcam da existência:

“Eu, com ela, morro de infinitos

Destinos que o acaso não me depara.” (“Em memória de Angélica”) 

    Enquanto (creio que não dá para ser totalmente solipsista), “Sobre nós vai crescendo, atroz, a história” (“Em memória de Angélica”):

                       “…as vozes dos mortos

vão me dizer para sempre.”  (“Meus Livros”)

Esclarecendo que os “meus livros” são os livros que ele possui (mas não pode ler) e não aqueles que ele mesmo escreveu.

E, por fim, a visão da “cerva branca”:

“Leve criatura feita de uma certa memória

E de um pouco de olvido…” (“A cerva branca”).

             A MOEDA DE FERRO: “As perpétuas águas de Heráclito”

“…o intrincado jogo

                                  Que urdem a terra, a água, o ar, o fogo”

 

                                 “Hoje somos noite e nada”

 

                                  “Eu cometi o pior dos pecados

                                  Possíveis a um homem. Não ter sido

                                  Feliz…”

 

                                  ‘A firme trama é de incessante ferro”

     São 36 os poemas dessa coletânea de 1976, muito marcada pelo tema do “sonho” (e também pela nostalgia do épico, claro, e também pelo “remordimiento”, o remorso de não viver plenamente e o apego a “naderías”, e também pelas perpétuas águas de Heráclito, que seguem nos arrastando, através dos “hábitos do Tempo”) e pela forma soneto. Ele começa, no entanto, com uma bela elegia:

“Que não daria eu pela memória

De uma rua de terra com muros baixos,

De um alto cavaleiro invadindo a alvorada

(Longo e surrado o poncho)

Em um dia qualquer sobre a planura,

Em um dia sem data.

Que não daria eu pela memória

De minha mãe contemplando a manhã

Na estância de Santa Irene,

Sem saber que seu nome ia ser Borges.

Que não daria eu pela memória

De haver combatido em Cepeda

E de ter visto Estanilao del Campo

Cumprimentando a primeira bala

Com a alegria da coragem (…)

Que não daria eu pela memória

(Que já tive e perdi)

De uma tela de ouro de Turner,

Extensa como a música.

Que não daria eu pela memória

De ter sido um ouvinte de Sócrates

Que, na tarde da cicuta,

Examinou serenamente o problema

Da imortalidade,

Alternando os mitos e as razões (…)

Que não daria eu pela memória

De que tivesses dito que me amavas

E de não adormecer até a aurora,

Perdido e feliz.”  (“Elegia da lembrança impossível”).

Que não daria ele para ser, talvez, como o coronel Suárez, com seu “sombrio semblante de metal e melancolia” (veja-se que junção maravilhosa, essa do metal e da melancolia) ou o “antigo rei”(“Sei que me sonha e que me julga…”): “Já não há rostos assim. A firme espada/ Vem acatá-lo, como seu cão, leal”. Ou ter, talvez, o destino de Hilário Ascasubi:  “Houve um dia a felicidade. O homem/ Aceitava o amor e a batalha/ Com o mesmo regozijo…” Que não daria ele para falar como Einar Tambarskever: “Não há outra obrigação que ser valente”. E que pena que ele seja apenas aquele que diz, desse episódio da saga islandesa: “Agora eu a traslado/ Tão longe desses mares e desse ânimo”.

Que não daria ele para ser, talvez, o aedo épico da Pátria:

“Pompas do mármore, árduos monumentos,

E pompas da palavra, parlamentos,

Centenários e sesquicentenários,

São apenas a cinza, a menor flama

Dos vestígios de uma antiga chama.” (“Elegia da Pátria”)

“Tua versão da Pátria, com seus faustos brilhantes,

Entra na minha vaga sombra como se entrasse o dia

E a ode zomba da Ode. (É apenas nostalgia

–Minha própria versão –de facas ignorantes

E de velha coragem.) Já estremece o Canto,

Já, a custo contidas pela prisão do verso,

Surgem as multidões do futuro e diverso

Reino que será teu, seu júbilo e seu pranto.

Manuel Mujica Lainez, algum dia tivemos

Uma pátria—recordas?—e os dois a perdemos.”  (“A Manuel Mujica Lainez”)

Que não daria ele para escrever em outra língua que não “esse latim decaído, o castelhano”. Que não daria ele para ser aquele que fixou uma batalha memorável em 991 a.D.:  “As pessoas o seguiam com atenção. Iam recordandoos fatos que Aidan [aedo] enumerava e que pareciam compreender só agora, quando uma voz cunhava as palavras”. Que não daria ele para ser o filho de Aidan que o pai pede para renunciar à contenda e escreva versos “para que perdure o dia de hoje na memória dos homens”.

Que não daria ele para não morrer “sem ter visto minha infindável casa”, ainda que vivo, “sou uma sombra que a Sombra ameaça”.

Que não daria ele para ser um dos homens do Arquétipo do Conquistador: “Eu sou o Arquétipo. Eles, os homens…”, para dizer, ao final: “O resto não importa. Eu fui valente”.

Que daria ele para que o futuro não fosse “…tão irrevogável/ Quanto o rígido ontem…”.

Que daria ele para não ser uma “procissão de sombras”, um “homem cinza”.

Que não daria ele para ser verdadeiramente o poeta que fizesse justiça a Brahms: 

 “Quem te honre há de ser nobre e valente.

Sou um covarde. Sou um triste. Nada

Poderá justificar esta ousadia

De cantar a magnífica alegria

–Fogo e cristal—de tua alma enamorada.” (“A Johannes Brahms”)

Se ainda fosse Shakespeare:

“… alguns séculos

E o rei volta a morrer na Dinamarca

E ao mesmo tempo, curiosa magia,

Em um tablado em meio aos arrabaldes

De Londres…” (“Os ecos”)

Ou Espinosa:

                     “…O assíduo manuscrito

Aguarda, já repleto de infinito (…)

O feiticeiro insiste e lavra

Deus com geometria delicada…”  (“Baruch Espinosa”)

Mesmo que sentisse o horror de Heráclito, ao descobrir sua fórmula:

“… E então sente

Com o assombro de um horror sagrado

Que também ele é um rio e uma fuga.

Deseja recobrar essa manhã

E sua noite e a véspera. Não pode”. (“Heráclito”)

Mas resta o consolo dos espantos singelos:

                     “não há no orbe

Uma coisa que não seja outra, ou contrária, ou nenhuma.

A mim só inquietam os espantos singelos.

Assombra-me que a chave tenha uma porta aberta;

Assombra-me que minha mão seja um fato certo;

Assombra-me que do grego a eleática seta

Instantânea não alcance a inalcançável meta;

Assombra-me que a espada cruel seja formosa,

E que a rosa tenha o perfume da rosa.”  (“O ingênuo”)

Um dos poemas mais bonitos é sobre a onipresente memória do pai:

“Nós te vimos morrer risonho e cego.

Nada esperavas ver do outro lado,

Mas tua sombra talvez tenha avistado

Os arquétipos que Platão, o Grego,

Sonhou e que me explicavas. Ninguém sabe

De que manhã o mármore é a chave.” (“A meu pai”)

Assim como o poema a Melville:

“Sempre o cercou o mar dos ancestrais,

Os saxões, que ao mar deram o nome

De rota da baleia, em que se juntam

As duas enormes coisas (…)

Sempre foi seu o mar. Quando seus olhos

Viram em alto-mar as grandes águas,

Já o havia desejado e possuído

Naquele outro mar, que é da Escritura (…)

…o prazer, por fim, de avistar Ítaca (…)

Melville cruza nas tardes New England.

Mas o habita o mar…” (“Herman Melville”)

Ou o sonho com Kafka:

“Ela era a companheira de Kafka.

Kafka a sonhara…

Ele era o amigo de Kafka.

Kafka o sonhara…

A mulher disse ao amigo:

Quero que esta noite me queiras…

O homem lhe respondeu: Se pecarmos,

Kafka deixará de sonhar-nos…

Kafka disse a si mesmo:

Agora que os dois partiram, fiquei sozinho.

Deixarei de sonhar-me”.  (“Ein Traum”)

Duas citações bonitas poderiam ser a “summa” de angústia (“que não daria ele…”) do livro: uma, tirada de “Signos”, com aquela formulação lapidar típica: “Posso ser tudo. Deixa-me na sombra”; a outra de “Não és os outros”: “Não és os outros e te vês agora/ Centro do labirinto que tramaram/ Os teus passos”.

Mas outras duas citações bonitas são mais esperançosas, menos atadas a essa trama de incessante ferro.

De “Para uma versão do I-Ching”:

“A firme trama é de incessante ferro.

Porém em algum canto de teu encerro

Pode haver um descuido, a rachadura.

O caminho é fatal como a seta,

Mas Deus está à espreita entre a greta”.

E do poema-título:

“Aqui está a moeda de ferro. Interroguemos

As duas contrárias faces que serão a resposta

Da pertinaz pergunta que ninguém já se fez:

Por que um  homem precisa que uma mulher o queira?”

Isso me lembra “O palácio” (de O ouro dos tigres): “já estamos mortos quando nada nos toca, nem uma palavra, nem um desejo, nem uma memória. Eu sei que não estou morto”.

HISTÓRIA DA NOITE: O QUE A MEMÓRIA CONCEDE

          “…A memória

                             Me concede esta estampa de um livro

                             Cuja cor e cujo idioma ignoro…

                             Às vezes sinto medo da memória.”

 

                             “…no tempo repetem  uma trama

                             Eterna e frágil, misteriosa e clara”

 

                             “As coisas são seu porvir de pó.

                             É óxido o ferro. A voz, o eco”

Contrariando seu apego por prólogos, essa obra-prima que expressa o “recato da melancolia” e reúne 31 poemas começa com uma “Inscrição” dedicada a María Kodama (a quem ele fizera um poema “A lua”). Em compensação, há um “Epílogo”:

“Um volume de versos não passa de uma sucessão de exercícios mágicos. O modesto feiticeiro faz o que pode com seus modestos meios… Trabalhamos às cegas. O universo é fluido e cambiante; a linguagem é rígida.

     De todos os livros que publiquei, o mais íntimo é este. É pródigo em referências livrescas; também prodigalizou-as Montaigne, inventor da intimidade… Como certas cidades, como certas pessoas, uma parte muito grata de meu destino foram os livros. Poderei repetir que a biblioteca de meu pai foi o fato capital de minha vida? A verdade é que nunca sai dela, com nunca saiu da sua Alonso Quijano”.

 

“O algibe. Lá no fundo a tartaruga.

E sobre o pátio a vaga astronomia

Do menino. Essa herdada prataria

Que se espelha no ébano. A fuga

Do tempo, que no início nunca passa.

Um dos sabres que serviu no deserto.

Um grave rosto militar e morto.

O tímido saguão. A velha casa.

Naquele pátio que foi dos escravos

A sombra da parreira, encurvada.

Um tresnoitado assovia na calçada.

No mealheiro dormem os centavos.

Nada. É somente pobre mediania

Que procuram o olvido e a elegia.”  (“Buenos Aires, 1899)

    A palavra “noite” já aparece no primeiro verso do primeiro poema, “Alexandria 641 a.D.”: “Desde o primeiro Ada que viu a noite…” Também temos o tema da vida virtual, que segue existindo na não-existência:”Ordeno a meus soldados que destruam/ Pelo fogo essa vasta Biblioteca,/Que não perecerá…”. Nesse poema inaugural há um verso belíssimo: “o verso em que perdura a carícia”. E quem diz que o nosso poeta não era um lírico?

“Alguém” homenageia os narradores anônimos que transmitiram o nosso repertório de histórias: “Não sabe (nunca o saberá) que é nosso benfeitor”.

Em “Leões”:

“Nem o esplendor do cadencioso tigre

Nem do jaguar os signos prefixados

Nem do gato o sigilo. Dessa tribo

É o menos felino, e no entanto

Sempre os sonhos dos homens acendeu…”

Em “Endímion em Latmos”: “Inútil repetir-me que a lembrança/ de ontem e um sonho são iguais”, que nos prepara, talvez, para o lindo poema sobre Cervantos/Quijano/Quixote  (“Eu nem mesmo sou pó”):

“Não quero ser quem sou. A avara sorte

Deparou-me o século XVII,

O pó e a rotina de Castela,

As coisas repetidas, a manhã

Que, prometendo o hoje, nos dá a véspera…

Sou um homem entrado em anos. Uma página

Casual me revelou não usadas vozes

Que me buscavam, Amadis e Urganda…

Cavaleiros cristãos iam e vinham

Pelos reinos da terra, vindicando

A honra ultrajada ou impondo

Justiça com os gumes da espada.

Queira Deus que um enviado restitua

A nosso tempo esse exercício nobre.

Meus sonhos o divisam. Já o senti

Em minha triste carne celibatária.

Não sei ainda seu nome. Eu, Quijano,

Serei esse paladino. E meu sonho.

Dentro da velha casa há uma adarga

Antiga e uma espada de Toledo

E uma lança e os livros verdadeiros

Que a meu braço prometem a vitória.

A meu braço?Meu rosto (que não vi)

Não projeta nenhum rosto no espelho.

Eu nem mesmo sou pó. Sou aquele sonho

Que entretece no sono e na vigília

O meu irmão e pai, capitão Cervantes,

Que militou nos mares de Lepanto

E soube algum latim e algo de árabe…

A fim de que eu possa sonhar o outro

Cuja verde memória será parte

Da existência dos homens, eu te suplico:

Meu Deus, meu sonhador, segue a sonhar-me.”

Nessa nostalgia do épico, do “rumor de hexãmetros”, que nos traz poemas sobre a Islândia ou Gunnar Thorgilson, temos também a memória do trágico, como no poema sobre “Macbeth” (“…a grande voz de Shakespeare (na qual estão as outras)…”.

“Apenas uma coisa entre as coisas

Mas também uma arma. Foi forjada

Na Inglaterra, em 1604,

E carregada com um sonho. Encerra

Som e fúria e noites e escarlate.

Minha palma a sopesa. Quem diria

Que contém o inferno: as barbadas

Bruxas que são as parcas, os punhais

Que executam as leis da sombra…

Esse tumulto silencioso dorme

No espaço de um daqueles livros

Da sossegada estante. Dorme e espera.”  (“Um livro”)

E voltamos também aos compadritos, aos duelos de punhais dos arrabaldes, ao passional que movimenta o tango, o compadrito Ezequiel Tabares que quer se vingar, em 1890, do homem que lhe roubou a mulher: “Faz tempo que não se lembra da mulher; só pensa no outro… Sem que ele saia, Buenos Aires cresceu a seu redor como uma planta que faz barulho… As pessoas o atravessam e ele não sabe… Hoje,13 de junho de 1977, os dedos da mão direita do compadrito morto Ezequiel Tabares, condenado a certos minutos em 1890, roçam em um eterno entardecer um punhal impossível”.

No  poema “O suicida” o eu lírico afirmava terrificamente: “Lego o nada a ninguém”. Veja-se a contrapartida, ainda que com o recato da melancolia, em “Things that might have been”:

“Penso nas coisas que poderiam ter sido e não foram…

A história sem a tarde da Cruz e sem a tarde da cicuta.

A história sem o rosto de Helena…

O orbe sem a roda ou sem a rosa.

O juízo de John Donne sobre Shakespeare…

O filho que não tive.”

Temos um poema “À França”: “Desviaram-me outros amores/ e a erudição vagabunda, / mas não deixei nunca de estar na França/ e estarei na França quando a grata morte me chamar/ em algum lugar de Bueno Aires./Não direi a tarde e a lua; direi Verlaine. / Não direi o mar e a cosmogonia; direi o nome de Hugo./ Não a amizade, e sim Montaigne…”

Temos “Um sábado” do poeta: “Um homem cego em uma casa oca/ Fatiga certos limitados rumos/ E toca as paredes que se alongam/ E o cristal das portas interiores/ E as lombadas ásperas dos livros/ Proibidos a seu amor …/ E sente que os atos que executa/ Interminavelmente em seu crepúsculo/ Obedecem a um jogo que não entende/ E que dirige um deus indecifrável…”

Para terminar, o poema-título  (“Ao longo de diversas gerações/ os homens erigiram a noite./ Em seu começo era cegueira e sonho…/ Nunca saberemos quem forjou a palavra/ para o intervalo de sombra/ que cinde os dois crepúsculos) e dois dos melhores poemas, os quais, creio eu, fornecem as senhas e cifras para o recato da melancolia:

“Quando menino, eu temia que o espelho

Me mostrasse outro rosto ou uma cega

Máscara impessoal que ocultaria

Algo na certa atroz. Temi também

Que o silencioso tempo do espelho

Se desviasse do curso cotidiano

Dos horários do homem e hospedasse

Em seu vago extremo imaginário

Seres e formas e matizes novos.

(Não disse isso a ninguém, menino tímido.)

Agora temo que o espelho encerre

O verdadeiro rosto de minha alma,

Lastimada de sombras e de culpas,

O que Deus vê e talvez vejam os homens.” (“O espelho”)

“…Sou apenas a sombra que projetam

Essas íntimas sombras intrincadas.

Sou sua memória, e sou também o outro

Que, como Dante e os homens todos,

Já esteve no raro Paraíso

E nos muitos Infernos necessários.

Sou a carne e o rosto que não vejo.

Sou no final do dia o resignado

Que dispõe de modo algo diverso

As palavras da língua castelhana

Para narrar as fábulas que esgotam

O que se chama de literatura.

Sou o que folheava enciclopédias,

O tardio escolar de fontes brancas

Ou cinza, prisioneiro de uma casa

Cheia de livros que não possuem letras,

Que na penumbra escande um temeroso

Hexâmetro aprendido junto ao Ródano…

O passado me acossa com imagens…

Sou o que não conhece outro consolo

Que recordar o tempo da ventura.

Às vezes sou a ventura imerecida.

SOU O QUE SABE NÃO PASSAR DE UM ECO,

O que anseia morrer inteiramente.

Sou talvez o que tu és no sonho.

Sou a coisa que sou. Já disse Shakespeare… “ (“The thing I am”)

(o6.07.09)

“…se a memória me devolve um verso,

repito o ritual inumeráveis

vezes em meu assinalado rumo.

Não posso executar um ato novo,

teço e torno a tecer a mesma fábula,

repito um repetido decassílabo,

torno a dizer o que outros me disseram,

as mesmas coisas sinto, sempre à mesma

hora do dia ou da abstrata noite…

Sou o cansaço de um espelho imóvel…”

 ****

“… certo homem

feito de solidão, de amor, de tempo,

acaba de chorar em Buenos Aires

todas as coisas.”

NA “DELICADA PENUMBRA DA CEGUEIRA”

 

“Oh, dias consagrados ao inútil

empenho de esquecer a biografia

de um poeta menor do hemisfério

austral, a quem o fado ou os astros

deram um corpo que não deixa um filho

e a cegueira, que é penumbra e cárcere,

e a velhice, alvorecer da morte,

e o renome, que ninguém merece,

e o hábito de tecer decassílabos

e o velho amor pelas enciclopédias

e pelos finos mapas caligráficos

e pelo marfim tênue e a nostlagia

eterna do latim…

e esse mau costume, Buenos Aires…

e que na tarde, igual a tantas outras,

resigna-se a estes versos.”

 

Passaram-se alguns anos após aquela sucessão de livros e em 1981 o agora octogenário Borges reaparece com um livro surpreendentemente ágil e intenso, A cifra, com 45 poemas. Novamente há uma “Inscrição” para María Kodama e um prólogo importante:

“Minha sina é o que se costuma chamar de poesia intelectual… Admirável exemplo de uma poesia puramente verbal é a seguinte estrofe de  Jaimes Freyre: Peregrina paloma imaginária/que avivas os últimos amores / alma de luz, de música e de flores/ peregrina paloma imaginária. Não quer dizer nada e, à maneira da música, diz tudo; exemplo de poesia intelectual é aquela silva de Luis de Leon, que Poe sabia de cor: Viver comigo quero / gozar do bem que devo ao Céu anseio / sem testemunha, austero / de amor e ciúme, alheio / de ódio, de esperança, de receio. Não há uma única imagem. Não há uma única palavra bonita, com a duvidosa exceção de testemunha, que não seja uma abstração.

     Estas páginas procuram, não sem alguma incerteza, uma via intermediária”. 

    O primeiro poema, “Ronda”, não poderia ser mais típico:

 

“O Islã, que foi espadas

que desolaram o poente e a aurora

e um fragor de exércitos na terra

e uma revelação e uma disciplina

e a aniquilação dos ídolos

e a conversão de todas as coisas

em um terrível Deus, que está só…”

 

Na minha leitura das outras cinco coletâneas, não tive dificuldade de extrair pequenas citações de cada poema. A cifra, no entanto, me deu trabalho: é difícil não transcrever cada poema inteiro.

“O ato do livro” entrelaça Cervantes e sua criação ao Islã: “Será esta fantasia mais estranha que a predestinação do Islã que postula um Deus, ou que o livre-arbítrio, que nos dá a terrível potestade de escolher o inferno?”

    “Descartes” inaugura um tipo de poema comum no volume: aquele que repete em uma seqüência de versos a palavra inicial, dando uma cadência diferente ao livro com relação aos anteriores.

“Talvez um deus tenha me condenado ao tempo, essa

         longa ilusão.

Sonho a lua e sonho meus olhos, que percebem a lua.

Sonhei a tarde e a manhã do primeiro dia.

Sonhei Cartago e as legiões que desolaram Cartago…

Sonhei a geometria.

Sonhei o ponto, a linha, o plano e o volume.

Sonhei o amarelo, o azul e o vermelho.

Sonhei minha enfermiça infância.

Sonhei os mapas e os reinos e aquele duelo ao alvorecer.

Sonhei a inconcebível cor…

Quem sabe eu sonho ter sonhado.

Sinto um pouco de frio, um pouco de medo…

Continuarei sonhando Descartes e a fé de seus pais.”

Dois poemas seguidos, “As duas catedrais” e “Beppo” aludem aos Arquétipos platônicos.

Transcrevo algo de “Beppo”:

“O gato branco e casto se contempla

no luzidio vidro do espelho

e não pode saber que essa brancura

e esses olhos de ouro nunca vistos

antes na casa são sua própria imagem.

Quem lhe dirá que o outro que o observa

é somente um sonho do espelho?

Digo-me que esses gatos harmoniosos,

o de cristal e o de sangue quente,

são simulacros que concede ao tempo

um arquétipo eterno…”

“Ao adquirir uma enciclopédia”, após falar da “dilatada miscelânea que sabe mais que qualquer homem”, ele alude a um  

 

                             “…novo hábito

deste antigo hábito, a casa,

uma gravitação e uma presença,

o amor misterioso pelas coisas

que nos ignoram e se ignoram”.

Em “Duas formas da insônia”, ficamos sabendo que a insônia é “ensaiar com inútil magia uma respiração regular, é o peso de um corpo que bruscamente muda de lado, é apertar as pálpebras, é um estado parecido com a febre e que certamente não é a vigília…é querer mergulhar no sono e não conseguir mergulhar no sono, é o horror de ser e de continuar sendo…”; mas há a insônia pior, a da longevidade, “o horror de existir em um corpo humano cujas faculdades declinam, é uma insônia que se me mede por décadas e não com ponteiros de aço… é não ignorar que estou condenado à minha carne, a minha detestada voz, a meu nome, a uma rotina de lembranças, ao castelhano, que não sei manejar, à nostalgia do latim, que não sei, a querer mergulhar na morte e não poder mergulhar na morte, a ser e continuar sendo”.

“Buenos Aires”, onipresente desde o seu primeiro livro de versos, Fervor de Buenos Aires, publicado nos anos 20:

“Nasci em outra cidade que também se chamava Buenos Aires.

Recordo o ruído dos ferros do portão gradeado.

Recordo os jasmins e o algibe, coisas da nostalgia…

Recordo o que vi e o que me contaram meus pais…

Naquela Buenos Aires, que me deixou, eu seria um estranho.

Sei que os únicos paraísos não proibidos ao homem são os

         paraísos perdidos.

Alguém quase idêntico a mim, alguém que não terá lido esta

         página,

lamentará as torres de cimento e o talado obelisco.”

Em “Hino”:

“Esta manhã

há no ar o incrível aroma

das rosas do Paraíso.

Às margens do Eufrates

Adão descobre o frescor da água,

Uma chuva de ouro cai do céu;

é o amor de Zeus….

Pitágoras revela a seus gregos

que a forma do tempo é a do círculo…

Whitman canta em Manhattan.

Homero nasce em sete cidades.

Uma donzela captura agora

o unicórnio branco.

Todo o passado volta feito onda

e essas antigas coisas reaparecem

porque uma mulher te deu um beijo.”

 

(o8.07.09)

ESPELHO E ECO

“Não passo de imagens que o acaso

Vai embaralhando e que nomeia o tédio.

Com elas, mesmo cego e alquebrado,

Hei de lavrar o verso incorruptível

E (é meu dever) salvar-me”.

Como já disse, A cifra é um livro muito “citável”. Por isso, quem ler e achar coisas lindas não fique achando que as desprezei, é que dá vontade de colocar poemas inteiros aqui (como, por exemplo, “Blake” ou “A trama”).

              “… Minha verdadeira estirpe

é a voz, que ainda ouço, de meu pai,

comemorando música de Swinburne,

e os grandes volumes que folheei,

folheei e não li, e que me bastam…”  (“Yesterdays”)

“Tem o hábito da mate, que de algum modo

povoa a solidão…

…costuma contar, sempre com as mesmas palavras, aquela longa marcha de tantas léguas de Junín a San Carlos. Talvez ele a conte com as mesmas palavras porque as saiba de cor e já tenha esquecido os fatos.” (“Andrés Armoa”.

“Realizei um ato irreparável,

estabeleci um vínculo.

Neste mundo cotidiano,

que se parece tanto

ao livro das Mil e Uma Noites,

não há um único ato que não corra o risco

de ser uma operação de magia,

não há um único fato que não possa ser o primeiro

de uma série infinita.

Pergunto-me que sombras não irão lançar

estas ociosas linhas.”  (“O terceiro homem”)

“Naquele exato momento, disse o homem a si mesmo:

Que  não daria eu pela ventura

de estar a seu lado na Islândia

sob o grande dia imóvel

e de compartilhar o agora

como se compartilha uma música

ou o gosto de uma fruta.

Naquele exato momento,

o homem estava junto dela na Islândia.” (“NOSTALGIA DO PRESENTE”)

Ele se permite inclusive repetir versos de poemas anteriores (veja-se “O ápice”); em contrapartida oferece-nos alguns dos seus melhores momentos, como o “Reverso”  do “Poema”:

“Acordar aquele que dorme

é impor a outro o interminável

cárcere do universo….

É revelar-lhe que é alguém ou algo

Que está sujeito a um nome que o divulga

E a um cúmulo de ontens…

É saturá-lo de séculos e estrelas.

É restituir ao tempo outro Lázaro

saturado de memória.

É infamar a água do Letes.” (belíssimo, não?)

“A noite nos impõe sua tarefa

mágica. Destecer o universo,

as infinitas ramificações

de efeitos e de causas, que se perdem

na vertigem sem fundo que é o tempo.

A noite quer que esta noite esqueças

teu nome, teus ancestrais e teu sangue;

cada palavra humana e cada lágrima,

o que a vigília pôde te ensinar,

o ponto ilusório dos geômetras,

a linha, o plano, o cubo, a pirâmide,

o cilindro, a esfera, o mar, as ondas,

tua face sobre a fronha, o frescor

do lençol estreado, os jardins,

os impérios, os Césares e Shakespeare

e o que é mais difícil, o que amas.

Curiosamente, uma pílula pode

riscar o cosmos e erigir o caos. (“O SONHO”)

Já “Um sonho” me trouxe à memória as histórias da Trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster, todo construído nessa atmosfera:

“Em um deserto lugar do Irã há uma não muito alta torre de pedra, sem porta nem janela. No único quarto… há uma mesa de madeira e um banco. Nessa cela circular, um homem que se parece comigo escreve em caracteres que não compreendo um longo poema sobre um homem que em outra cela circular escreve um poema sobre um homem que em outra cela circular…” 

“Do outro lado da morte talvez saiba

se fui uma palavra ou fui alguém”. (“Correr ou ser”, um título que tem o seu quê de cômico.)

Algumas razões que embasam “A fama”, ou seja, a figura construída publicamente:

“Professar o amor ao alemão e a nostalgia do latim…

Agradecer o xadrez e o jasmim, os tigres e o hexâmetro…

Ter honrado espadas e sensatamente desejar a paz…

Ser Alonso Quijano sem me atrever a ser Dom Quixote…

Ter urdido um ou outro decassílabo.

Ter voltado a contar velhas histórias.

Ter disposto no dialeto de nosso tempo cinco ou seis metáforas…

SER DEVOTO DE CONRAD.

Ser essa coisa que ninguém pode definir: argentino.

Ser cego.

Nenhuma dessas coisas é estranha e seu conjunto me depara

uma fama que não consigo compreender.”

 

Um dos “Justos” é “o que agradece que na terra exista Stevenson”

Em “O cúmplice”: “devo justificar aquilo que me fere”.

“Antes de adentrarem o deserto

os soldados beberam longamente da água do poço.

Hérocles entornou sobre a terra

a água do seu cântaro e disse:

Se havemos de entrar no deserto,

 já estou no deserto.

Se a sede vai me abrasar,

que me abrase já…

Um homem foi deixado pela mulher.

Resolveram fingir um último encontro.

O homem disse:

Se devo entrar na solidão,

já estou só.

Se a sede vai me abrasar,

que me abrase já…

Ninguém na terra

 tem a coragem de ser aquele homem. (“O DESERTO”)

“O bastão de laca” repete o mote de “O terceiro homem” (e de “A trama”), do vínculo secreto entre todas as coisas:

“Não é impossível que Alguém tenha premeditado

este vínculo.

Não é impossível que o universo precise deste

vínculo.”

 

“A certa ilha” é uma homenagem-idealização da Inglaterra: “Não falarei de teus mares, que são o Mar/ nem do império que te impôs, ilha íntima/ o desafio dos outros”.

Há uma série de poemas “orientais”, como “Shinto”: “…por instantes nos salvam/ as aventuras ínfimas/ da atenção ou da memória…” Entre eles, dezessete haikus, dos quais transcrevo quatro:

“É ou não é

o sonho que esqueci

antes da aurora?

 

Calam as cordas.

A música sabia

tudo o que sinto.

 

A ociosa espada

 sonha com suas batalhas.

Outro é meu sonho.

 

A lua nova.

Ela também a olha

de uma outra porta.”

Esse haiku prepara o poema-título, uma homenagem à lua, esse “hábito da noite”, que vivemos  “descobrindo e esquecendo”.

Como me surpreendeu esse velho Borges. Muito mais vivo e vivaz do que eu esperava, apesar dos seus cacoetes.

O NÚMERO DA AREIA

“… triste

hábito de ser alguém…”

 

“Somos a água, não o diamante duro…”

 

“esse fato tão notório de que ninguém pode morrer… A morte é mais inverossímil que a vida…”

Não posso dizer que Os conjurados (1985) seja um livro tão bom quanto História da Noite  ou A Cifra. Mesmo assim, não é uma despedida da vida (ele morreu um ano depois) que se possa desprezar. O próprio autor, mencionando os quatro elementos, no seu prólogo, diz: “costumo sentir que sou terra, cansada terra. Continuo, entretanto, escrevendo…Seria muito improvável que esse livro, que compreende quarenta composições, não entesourasse uma única linha secreta, digna de acompanhar-se até o fim”.

Muitos poemas são repetecos (há novamente uma “Trama”, por exemplo), cansados e corretos: “Já somos o passado que seremos”. Ele chega ao cúmulo, em “A soma”, de copiar (piorar) um de seus mais famosos textos, o epílogo de O fazedor. Mas prefiro descobrir as linhas dignas de se acompanhar até o fim.

“O hemisfério austral. Sob sua álgebra

de estrelas ignoradas por Ulisses,

um homem busca e seguirá buscando

as relíquias daquela epifania

a ele concedida, há tantos anos,

de outro lado de uma numerada

porta de hotel, junto ao eterno Tamisa,

que flui como flui esse outro rio,

o tênue tempo elementar. A carne

esquece seus pesares e venturas.

O homem espera e sonha. Vagamente

resgata circunstâncias triviais.

Um nome de mulher, uma brancura,

um corpo já sem rosto, a penumbra

de uma tarde sem data, o chuvisco,

umas flores de cera sobre um mármore

e as paredes, cor-de-rosa pálido.”  (“Relíquias”)

“As lustrais águas dessa noite já me absolvem

das cores variadas, das variadas formas.

As aves e os astros no jardim já exaltam

o regresso almejado das antigas normas

do sonho e da sombra. A sombra já selou

os espelhos que imitam a ficção das coisas.

Melhor o disse Goethe: O próximo se afasta.

Essas quatro palavras cifram todo o crepúsculo…” (“A jovem noite”)

“Alguém sonha”:

“… esses dois curiosos

irmãos, o eco e o espelho…

… o livro, esse espelho

que sempre nos revela outra face…

… a enumeração que os

tratadistas chamam de caótica e que,

de fato, é cósmica, porque todas as

coisas estão unidas por vínculos secretos…”

“Alguém sonhará”:

“O que sonhará o indecifrável futuro?… Sonhará que poderemos fazer milagres e que não o faremos, porque será mais real imaginá-los.”.

E o genial verso de “Sherlock Holmes”: “Vive de modo cômodo: em terceira pessoa”. Só esse já valeria o livro, além do belo título da coletânea (pena que o poema, no qual os membros de uma confraria atemporal ,, no que ele lembra mais uma vez Hesse e seu  Viagem ao Oriente, segue a “estranha decisão de ser razoáveis”, “no centro da Europa, nas terras altas da Europa, cresce uma torre de razão e de firme fé”, nao seja grande coisa).

“Furtivo e cinza na penumbra última,

vai deixando suas pegadas na margem…

Mil anos adiante um homem velho

vai sonhar-te na América. De nada

pode servir-te esse futuro sonho.

Estás cercado de homens que seguiram

pela floresta os rastros que deixaste,

furtivo e cinza na penumbra última..” (“Um lobo”)

“Aos outros todos resta o universo;

a minha penumbra, o hábito do verso…” (“On his blindness”)

Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las e que essas perdas, agora, são o que é meu… só e nosso o que perdemos… Todo poema, com o tempo, é uma elegia”. (“Posse do ontem”)

“A cinza é tudo que me resta. Nada.

Das máscaras que fui já absolvido,

serei na morte meu total olvido.” (“Pedras e Chile”)

“Deus permite que os homens

sonhem com coisas reais…

 

Entregaram-lhes a um só tempo

o rifle e o crucifixo….

 

Ele só queria saber

se era ou não era valente…

 

Ninguém fique admirado

de que eu sinta inveja e dó

desse homem e de seu fado.” (“Milonga do morto”)

Talvez o grande poema do livro seja “Juan López & John Ward”, alusivo à guerra das Malvinas.

“Coube-lhes por sorte uma época estranha.

    O planeta tinha sido dividido em diversos países, cada um provido de lealdades, de queridas memórias, de  um passado sem dúvida heróico, de direitos, de agravos,de uma mitologia peculiar…

     López nascera na cidade junto do rio imóvel; Ward, nos arredores da cidade pela qual caminhou Father Brown. Estudara castelhano para ler o Quixote.

      O outro professava o amor a Conrad…

    Talvez tivessem sido amigos, mas viram-se uma única  vez frente a frente, em umas ilhas muitíssimos famosas, e cada um dos dois foi Caim, e cada um, Abel.

    Foram enterrados juntos. A neve e a decomposição conhecem-nos.

     O fato que narro se passou em um tempo que não podemos entender;”

E para terminar essa minha travessia dos poemas maduros de Borges:

“Nosso belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. Nunca daremos com o fio; talvez o encontremos para perdê-lo em um ato de fé, em uma cadência, no sonho, nas palavras que se chamam filosofia ou na pura e simples felicidade.” (“O fio da fábula”)

borges carão

14/10/2012

O PONTO DE VISTA LÍQUIDO DE HARUKI MURAKAMI

Haruki-Murakami1

após o anoitecer

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/10/14/apos-o-anoitecer-de-murakami-arquetipos-liquidos/

ANOTAÇÕES DE LEITURA

(3 de setembro de 2009)

I

Atraído pela capa do livro, que achei muito interessante (embora não aprecie muito do aspecto “chapado” das capas da Alfaguara, todas no mesmo formato), e também para conhecer um autor novo, resolvi me ocupar desta vez de APÓS O ANOITECER (2004), de Haruki Murakami. Quase havia “estreado” esse autor japonês quando lançaram Kafka à beira-mar, porém acabei nem comprando o romance. Portanto, tudo o que escrever nos próximos dias está baseado num total desconhecimento da obra anterior de Murakami, 60 anos ( nasceu em 1949), tido como o mais famoso escritor do Japão na atualidade. Além de Kawabata (o Nobel de 1968) e Mishima, cujas obras conheço razoavelmente bem (pois eles publicaram muito), os últimos autores que me lembro terem uma repercussão maior foram Kobo Abe & Kenzaburo Oe (este último, prêmio Nobel de 1994).

APÓS O ANOITECER nos situa no mundo da “modernidade líquida” carcterizado com tanta precisão por Zygmunt Bauman, o mundo pós-globalizado e pós-internet.  Estamos em Tóquio mas podia ser qualquer cidade do mundo. O autor optou por tematizar a própria questão do foco narrativo, mimetizando a mobilidade de uma câmera cinematográfica, através de um olhar abrangente e voyeurístico, mas não onisciente, que pudesse, na massa geral da paisagem noturna urbana localizar seus personagens e acompanhá-los por certo tempo (cada capítulo começa com a imagem-padrão de um relógio, com os ponteiros parados num determinado horário; no primeiro, 23h55m).

Transcrevo então os primeiros parágrafos do livro para sentirmos o “clima” desta leitura da semana. Confesso que me incomodou um pouco o esforço retórico do início, mas eu logo comecei a apreciar o texto:

“Estamos vendo a imagem da cidade.

       Ela é captada pelo olhar de um pássaro notívago a sobrevoar bem alto no céu. A cidade, em perspectiva, é um ser vivo gigante; um aglomerado de vidas que se entrelaçam. Inúmeros vasos sanguíneos estendem-se às mais recônditas extremidades do corpo, circulando o sangue e substituindo células, ininterruptamente… Esse corpo, ritmado pela pulsação, emite por toda parte pequenos lampejos de luz, produz calor e se move discretamente. À meia-noite se aproxima e, apesar de o horário de pico já ter passado, o metabolismo basal –para a manutenção da vida– continua, sem sinais de desaceleração. O gemido da cidade soa como uma melodia em baixo contínuo. Um gemido monótono e constante que incuba a percepção do porvir.

      O nosso olhar escolhe um local com alta concentração de luzes e ajusta o foco. Lenta e silenciosamente descemos nessa direção. Mergulhamos num mar de luzes neon multicoloridas. Um local movimentado, conhecido, como uma área de diversão… Nesse horário, a cidade tem seus próprios princípios…

       (…) Estamos no Denny´s (…) Aqui dentro, todas as coisas são de anônimos e podem ser substituídas… Após observarmos todo o interior do estabelecimento nossos olhos fixam-se numa garota sentada ao lado da janela. Por que ela? Por que não outra pessoa? Não saberíamos responder. Mas o fato é que essa garota  –não se sabe por quê– atraiu o nosso olhar, de um modo extremamente espontâneo…”

No segundo capítulo o processo de focalização da narrativa é acentuado e ganha outro prisma: enquanto no primeiro procedimento, que será mantido nos capítulos subsequentes, o narrador-câmera se lança pela cidade, recortando seus personagens da paisagem noturna, aqui ele está acompanhando uma cena estática: no seu quarto, a bela Eri Asai, modelo, dorme, e o aparelho de tevê ligado a nada transmite umas imagens difusas, nas quais se entrevê uma figura masculina. Vejamos, primeiro, o foco narrativo:

“O quarto está escuro. Nossos olhos vão gradativamente se adaptando à escuridão. Uma mulher está dorminado na cama. É uma jovem muito bonito… Eri Asai. Ninguém nos deu tais informações, mas digamos que de algum modo sabemos disso.. Assumimos um ponto de vista para observá-la em perspectiva. O melhor seria dizer que nossa real  intenção é a de espioná-la dissimuladamente. Nosso pono de vista, agora, assume a forma de uma câmera a pairar noa r, capaz de movimentar-se livremente pelo quarto… Enquanto observamos Eri Asai, torna-se cada vez mais forte o pressentimento de que seu sono é anormal

II

Bem apropriadamente ao seu lado “moderninho”, APÓS O ANOITECER deveria vir acompanhado de um CD, pois boa parte da ação narrativa é pontuada por determinada melodia. O título mesmo original, After Dark é parte de um título de canção (“Five Spot After Dark”). Primeiro, no início, temos a algaravia dos sons urbanos, da batida da música eletrônica, das pessoas cantando em karaokês,  das “batidas extremamente graves do hip-hop”.  Quando a cena se individualiza, e conhecemos a jovem escolhida pelo foco narrativo no Denny´s, Mari (irmã da adormecida Eri Asai, e que ao invés do arquétipo da “bela adormecida” corresponderia mais ao do “patinho feio”), temos uma descrição pormenorizada da moça com “Go away little girl” (de Perry Faith e Orquestra) ao fundo.

Depois, conhecemos um músico que toca trombone e que entabula um longo diálogo com Mari no qual eles conseguem o feito de permanecerem estranhos e impermeáveis um ao outro, e ele conta que seu gosto pelo instrumento nem um pouco carregado de sex appeal veio de escutar um LP (isso mesmo, um LP) de jazz e a faixa 1 do lado A era “Five spot after dark”, na qual quem tocava trombone era Curtis Fuller. Então, ele se surpreende porque ela conhece essa música (aliás, Mari é uma jovem de 19 anos que estuda chinês e conhece Alphaville, de Godard, como saberemos num outro diálogo. É um momento de sintonia. De qualquer maneira, ele se preocupa com ela porque é evidente a intenção da moça em permanecer pela noite até o amanhecer, sem que ela dê os motivos pelos quais não volta para casa. Só que o rapaz do trombone tem um ensaio pela madrugada afora e sai de cena, enquanto a música ambiente é “The april fools”, de Burt Bacharach.

Depois que o segundo capítulo, ao nos apresentar a adormecida irmã de Mari bifurca a narrativa, no terceiro voltamos ao Denny´s ao som de “More”, de Martin Denny. E então outra pessoa aborda Mari, uma mulher alta  corpulenta (é ex-lutadora). Quem a enviou foi Takahashi (o nome do rapaz do trombone, que não queria fornecê-lo à moça). A mulher é Kaoru, gerent do motel Alphaville, a qual precisa de uma pessoa fluente em chinês: uma prostituta chinesa fora espancada pelo seu acompanhante no motel e Mari acompanha Kaoru e toma informações da moça: o homem a agredira e roubara sua carteira, seu dinheiro e suas roupas, fugindo do local.

Depois, o silencioso (a não ser pela estática da televisão que não poderia estar ligada mas onde aparecem as imagens do homem mascarado) quarto de Eri (quarto capítulo). E então Mari e Kaoru, após a prostituta chinesa ter sido levada embora por um membro da máfia chinesa, conversam num pequeno bar ao som de Ben Webster, “My ideal”: “Na prateleira, em vez de CDs, há uns cinquenta LPs, daqueles antigos (…) O disco termina, a agulha da vitrola se levanta automaticamente e o braço volta ao suporto. O barman se aproxima do toca-discos para substituir o LP. Retira-o  cuidadosamente, e, sem nenhuma pressa, guarda-o dentro da capa. Em seguida, pega outro disco e, para conferir qual lado irá tocar, aproxima-o da luz. Após verificar o lado certo, encaixa-o no prato. Ao acionar o botão, a agulha se posiciona  sobre o disco. Ouve-se um ruído bem sutil: é o contato da agulha na superfície. E, em questão de segunfos, o ambiente é preenchido pela melodia de ´Sophisticated Lady´de Duke Ellington. O solo de clarinete baixo, interpretado por Harry Carney, é pura sensualidade. A serenidade e a ausência de pressa do barman conferem ao ambiente um tempo que lhe é todo peculiar.

      Mari pergunta ao barman:

__ O senhor só toca LPs?

__ Não gosto de CDs.

__Mas não dá trabalho ficar trocando os LPs?

__ Bom, estamos em plena madrugada. O trem só vai começar a circular de manhã. Para que a pressa?”

Depois, em outro local (Skylark), o som de fundo para Mari é o Pet Shop Boys, “Jealousy” ´(e já são cinco para as duas no relógio narrativo), embora o capítulo termne ao som de Hall and Oates, “I can´t go for that” (é um momento em que a Mari real e a sua imagem no espelho se dissociam).

No capítulo 7, o homem que agrediu a prostituta (e cuja imagem fora fixada a partir da câmera de segurança do motel; Kaoru fornece cópias para a máfia chinesa) está trabalhando madrugada afora na sua empresa, digitando no computador, mal se interrompendo para falar com a esposa ao telefone, e o que toca é Bach: “Um aparelho portátil de CD sobre a mesa toca uma música de Bach ao piano, em volume moderado. É uma Suíte Inglesa interpretada por Ivo Pogorelich”. Nesse entretempo, o trombonista Takahashi saiu para um lanche do ensaio e assovia “Five spot after dark”… E é nesse ponto do romance em que estou…

__________________

ANOTAÇÕES DE LEITURA

(7 de setembro de 2009)

Para ajudar a entender o clima bem “pós moderno” de APÓS O AMANHECER, lembrei de um dos livros mais importantes da atualidade, Modernidade Líquida, de Zygmunt Bauman. A insistência de Takahashi, o tocador de trombone, de humanizar a noite, mesmo sendo inconveniente e invasivo (no que se refere ao casulo autoprotetor de Mari), e os espaços que aparecem na narrativa, todos impessoais (a lanchonete Denny´s, a praça onde dá comida aos gatos, a estação de metrô), as relações estabelecidas no mais anônimo e casual dos espaços (o motel Alphaville), o fato de que um celular seja abandonado (pelo agressor da prostituta) e depois fique tocando na loja de conveniência com mensagens de ameaças e violência, e enquanto isso o lugar mais ameaçador e mais terrível ser aquele para onde Eri é levada no seu sono “enfeitiçado”, muito parecido a um escritório, tudo isso me levou a pensar em certas reflexões de Bauman, que tento sintetizar a seguir (e sem querer sobrecarregar o livro de Murakami com o vezo de “ilustrar” reflexões teóricas, antes o contrário):

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Richard Sennet definiu a cidade como “um assentamento humano em que estranhos têm a chance de se encontrar”. Comentando-a, Bauman diz que “isso significa que estranhos têm chance de encontrar em sua condição de estranhos… um encontro de estranhos é diferente de encontros de parentes, amigos ou conhecidos –parece, por comparação, um desencontro…o único apoio com que estranhos que se encontram podem contar deverá ser um tecido do fio fino e solto de sua aparência, palavras e gestos…” Isso gera a etiqueta da civilidade. Voltando a Sennet, ele nos diz que ela “tem como objetivo proteger os outros de serem sobrecarregados com nosso peso”.

E os espaços públicos, que permitiriam encontros e o exercício da “civilidade”,os espaços civis? Há muitos, é claro, nas cidades contemporâneas. Bauman diz que, embora de muitos tipos e tamanhos, eles pertencem a duas categorias, opostas e complementares, que os afastam do modelo ideal do espaço civil. Ele exemplifica uma dessas categorias com a praça La Défense (em Paris): “O que chama a atenção do visitante de La Défense é antes e acima de tudo é a falta de hospitalidade da praça; tudo o que se vê inspira respeito e ao mesmo tempo desencoraja a permanência”. Tudo o que compõe e cerca a praça é imponente e inacessível, imponente porque inacessível: “Nada alivia ou interrompe o uniforme e monótono vazio da praça. Não há bancos para descansar, nem árvores sob cuja sombra esconder-se do sol escaldante”. Há uma plataforma de metrô, mas o que vemos aí é uma paisagem de formigas apressadas, emergindo de debaixo da terra, ganhando várias direções, desaparecendo rapidamente da vista, e a praça novamente vazia, até a chegada do próximo jorro de multidão vomitado do trem;  a segunda categoria de espaço público, mas não civil, são os lugares de consumo.As multidões que porventura os lotem são ajuntamentos, não congregações, conjuntos, totalidades: “Por mais cheios que possam estar, os lugares de consumo coletivo nada têm de coletivo”. Esses lugares protegem os consumidores daqueles que costumam quebrar a regra dos encontros inevitáveis num espaço lotado (ser breve e superficial), “todo tipo de intrometidos, chatos e outros que podem interferir com o maravilhoso isolamento do consumidor ou comprador… pelo menos é o que se espera e supõe”,

Bauman prossegue: “Idas aos lugares de consumo diferem dos carnavais de Bakthín , que também envolvem a experiência de ser transportado: idas às compras são principalmente viagens no espaço, e apenas secundariamente viagens no tempo. O carnaval é a mesma cidade, transformada, mais exatamente um intervalo de tempo durante o qual a cidade se transforma antes de cair de novo em sua rotina. Por um lapso de tempo estritamente definido, mas um tempo que retorna ciclicamente, o carnaval desvenda o outro lado da realidade física, um lado constantemente ao alcance, mas normalmente oculto à vista e impossível de tocar.. Uma ida ao tempo do consumo é uma questão inteiramente diferente. Entrar nessa viagem, mais do que testemunhar a transubstanciação do mundo familiar, é como ser transportado a um outro mundo… O que o faz outro não é a reversão, negação ou suspensão das regras que governam o cotidiano, como no caso do carnaval, mas a exibição do modo de ser que o cotidiano impede ou tenta em vão alcançar… O carnaval mostra que a realidade não é tão dura quanto parece e que a cidade pode ser transformada, os templos de consumo não revelam nada da natureza cotidiana”.  É um lugar sem lugar, um espaço purificado: “Todo o mundo entre as paredes dos shopping centers pode supor com segurança que aqueles com quem trombará ou pelos quais passará nos corredores vieram com o mesmo propósito, foram seduzidos pelas mesmas atrações e são guiados e movidos pelos mesmos motivos. Estar dentro produz uma verdadeira comunidade de crentes… podemos encostar nos ombros de outros como nós, fiéis do mesmo templo; outros cuja alteridade pode ser, pelo menos nesse lugar, aqui e agora, deixada longe da vista, da mente e da consideração(…) Os residentes temporários dos não-lugares são possivelmente diferentes, cada variedade com seus próprios hábitos e expectativas, e o truque é fazer com que isso seja irrelevante durante sua estadia”. Em suma, “os não-lugares não requerem domínio da sofisticada e difícil arte da civilidade, uma vez que reduzem o comportamento em público a preceitos simples e fáceis de aprender…” Não é preciso “negociar diferenças”: “A principal característica da civilidade é a capacidade de interagir com estranhos sem utilizar essa estranheza contra eles… A principal característica dos lugares públicos, mas não civis é a dispensabilidade dessa interação… Se não se pode evitar o encontro com estranhos, pode-se pelo menos tentar evitar maior contato.

zygmunt_baumanmodernidade líquida

 

24/07/2012

A FICÇÃO MACULADA (pela necessidade de “fazer estilo”)

ivone-twitter

immaculada ampliada

AUTORA ESTREANTE ERRA AO TENTAR

                              “FAZER BONITO” NA PROSA

Immaculada, da tradutora e dicionarista Ivone C. Benedetti aparece nas livrarias com uma capa (não bastasse o título inócuo) que certamente não ajuda esse romance de estréia. E quando contei a trama, alguns amigos acharam-na batida e cheia de chavões: após ser traído pela esposa (que comete adultério com o cunhado) e ficar viúvo de forma suspeita, Francisco, instado pelo pai, Evaristo, pede a mão da encantadora Immaculada (que tem apenas 10 anos) aos pais, para dali a cinco anos. Tudo em nome dos negócios, pois há interesse em terras, que aproximam as duas famílias. Apesar de uma paixão adolescente por um imigrante, Paolo (usado num enredo de vingança pela irmã, Annunziata, preceptora de Immaculada), o casamento de conveniência é realizado e atravessa a ditadura getulista, terminando em desastre.

Porém, eu defendo o livro enquanto folhetim: mesmo não trazendo nenhuma novidade, acho que ela soube não apenas criar um grupo de personagens como também conduzi-lo através da década em que transcorre a história. A narração em geral é competente e os diálogos são bons. Então por que a resolveu seguir por uma rota-titanic, que só poderia dar em naufrágio?

A questão é que Ivone C. Benedetti não quer apenas contar uma história de forma interessante e bem narrada. Ela quer fazer estilo, quer tirar poesia da prosa, esquecendo-se que há uma poesia da prosa em todos os bons romancistas (afinal, traduziu Balzac). Por causa dessa ambição, temos, então, trechos horrendos e risíveis, em que parece que temos um parnasiano ou um Afrânio Peixoto psicografados, como o seguinte: “Francisco entrou. Deitou-se na cama. As bochechas ainda queimavam incendiadas de vinho. Puxou Immaculada pela cintura, que se deixou carregar com docilidade nunca vista. Francisco puxava para si uma vestal cobiçada por outros homens. Tirou-lhe a combinação, e ela se deixou acariciar, beijar, mas não só. Também amou em arroubos tempestuosos, atirando-se ao coito como se atira à terra a chuvarada de verão, em bátegas incontroláveis. A vestal despiu-se de messalina”; ou jogos de palavras tolos, por exemplo: “Suástica, foice e martelo. Foi-se o martelo” e “As de Dantas não eram chegadas, eram cheganças, sempre prolongadas e agitadas, como danças”!!!??? O que é isso, leitor?

Benedetti parece seguir, infelizmente, a receita de Nélida Piñon, a nossa Sherazade do Paraguai, autora de romances pretensiosos e ruins, embora habilíssima em marketing pessoal. Há trechos inteiros com toques piñonescos (e, portanto, subliterários): “preferia as horas em que podia fechar os olhos, mas sem dormir. Esses eram os momentos de alinhavar histórias, bordar desfechos”;Vasculhava gestos e olhares como quem remexe gavetas à meia-noite, sem saber se quer mesmo achar o que procura e, se achando, tira o que achou de baixo dos trastes”.

Immaculada resulta então um tanto frouxo e amorfo, não convencendo nem como romance histórico ou de confrontos ideológicos, nem como romanção, nem como romance intimista ou experiência de linguagem. Há material para um bom romance tradicional, na minha opinião, e creio que uma soda cáustica no preciosismo ridículo, na afetação, já daria outra cor à sua tela. Pois ela precisa se decidir, se quer fazer bonito no estilo (no pior sentido do termo) ou fazer ficção (que, a meu ver, seria sua salvação). Pois ainda não está fazendo nenhum dos dois. Há um trecho onde se afirma que Immaculada não quer que lhe roubem a “coerência das fabulações”. Ivone C. Benedetti deveria estar vigilante quanto a isso também. Seu casamento de conveniência com a arte de contar histórias pode ser tão desastroso quanto o da sua heroína.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de agosto de 2009)

ANOTAÇÕES DE 18 DE AGOSTO

A experimentada tradutora e dicionarista Ivone C. Benedetti estréia agora na ficção com IMMACULADA, que mereceu uma caprichada edição da WMF Martins Fontes, quanto ao tratamento do texto, paginação, etc,  que infelizmente não se refletiu na escolha da capa. Sendo romance de autor desconhecido, o título já não ajuda muito, é sem graça e inócuo, e uma capa expressiva seria essencial. Porém, a montagem de imagens feita por Rodrigo Rodrigues dificilmente chamará a atenção do leitor incauto. Esperemos que numa próxima edição, escolham outra.

Li as cem primeiras páginas e posso garantir: Benedetti é uma narradora hábil, certamente entende do riscado: estou no ponto em que Francisco, o personagem principal, viúvo convicto, instado pelo pai, Evaristo, e pelo sócio Carlinhos, pede a mão de Immaculada (que tem apenas 10 anos e um encanto infantil) aos pais, para dali a cinco anos, quando ela fizer 15 anos. Tudo em nome dos negócios, pois há interesse em terras, que aproximam as duas famílias. No entanto Helena, mãe da menina (belíssima mulher, pela qual Francisco tem forte atração) é contra o compromisso, e quer que a própria Immaculada decida no seu aniversário de 16 anos, que seria em maio de 1933, o que situa o momento em que estou na trama em 1928.

Isso se passa em São Paulo, onde Francisco é advogado e quer investir em construção civil. O pai é meio contra, insistindo na eternidade da prosperidade do café (que, sabemos, entrará em derrocada no ano seguinte).

Dois anos antes,  Francisco também se dedicava à vida de fazendeiro. Filho mais novo de Evaristo, puxara a mãe em aparência e comportamento. O filho mais velho, que herdou o nome do pai, é um traste, sempre envolto em problemas de sedução de mulheres.

Francisco teve de viajar a negócios e quando voltou, surpreendeu o irmão com a esposa (os fatos são mais complicados e cheios de meandros, só estou pincelando os pontos principais da trama). O irmão foi mandado para uns cafundós, a esposa devolvida à família, com a recomendação de que fosse enfiada num convento. Como na sua tentativa de fuga (pois estamos numa época em que o marido poderia matar a adúltera “para lavar a honra”), Lucinha machucou o pé, chamaram uma curandeira local para tratar dela. A curandeira vaticinou que ela deveria se manter longe dos rios. Dito e feito: pouco tempo depois, Francisco recebe a notícia de que está viúvo, a mulher afogou-se. Mas por ser motivo de risota e escárnio, prefere abandonar a fazenda e dedicar-se ao exercício do direito, contrariando o pai. Aliás, contrariando a função meramente familiar do curso que seguira:

“Vinte e sete anos de vida, advogado que não advogava, advogado moldado para as necessidades da casa.

__A família está precisando de alguém entendido em leis. Conhecimento que jauda nos negócios e na política…”

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Afirmei que Benedetti era habilidosa e entendia do riscado. Basta ver a cena em que Francisco surpreende “um homem” dentro de casa (aquele que depois saberemos ser seu irmão). A seqüência de eventos já proporciona ao leitor a descrição da moradia, afora a mentalidade de um homem como Francisco:

“… viu um vulto cortar a luz da lua que penetrava pelo vitral dos fundos. Era um homem! Francisco, com o coração em sobressalto, pôs a mão na cintura. Estava sem o revólver! A arma estava no escritório, que ele tinha fechado antes de viajar. A chave estava na mesa de cabeceira. Não podia perder tempo… resolveu segui na direção do vulto, mas passando pela porta do quarto do casal, pôs a mão na maçaneta: a porta estava trancada. Quando voltou a olhar para o corredor, o vulto tinha sumido. As portas, simétricas e enfileiradas, corredor afora, estavam todas fechadas. Qual delas abrir? E como abrir sem estar armado? Pensou em descer as escadas correndo e chamar Geraldo ou Bento. Mas enquanto isso o homem fugiria. Por onde? Por alguma janela. Qual? As da frente eram altas demais. e quem pulasse por alguma de trás se esborracharia na telha-vã do puxado da cozinha ou em leno pátio, na frente da casa de Geraldo. Mas por aquela janela da ponta da casa era fácil, a janela do quarto de hóspedes, janela que dava para uma sacada, sacada que dava para um gramado. Desceu as escadas correndo. Quantas vezes tinha imaginado que por lá qualquer um poderia entrar na casa…”

Há uma visível ambição machadiana no projeto da autora; temos uma epígrafe tirada de Quincas Borba (aliás, bárbara), muitas reflexões sobre a natureza humana e jogos de palavras. Os capítulos são curtos e com titulos irônicos e engraçadinhos. Deixem-me já adiantar que não gostei desses pequenos títulos, soam forçados e não ajudam em nada o texto. E Benedetti precisaria ter ajustado a sintonia fina do seu estilo porque às vezes, em vez de invocar Machado, ela acaba caindo na afetação forçada de uma Nélida Piñon, uma autora que eu particularmente não suporto.

Momento feliz, sintonia fina ajustada: quando Evaristo se culpa por não ter tomado providências logo, conhecendo o filho mais velho e sabendo da possibilidade do adultério: “agora Francico  falava em sair da fazenda, em ir para São Paulo, advogar. O que seria dele sem o filho? Além d mais, com a dissolução do casamento, perdia-se o dote de Lucinha, ótimas terras na região de São Simão… E não era só isso. Havia títulos. Aquela hesitação fatal tinha sido responsável por um enorme prejuízo. Como um erro de um minuto pode custar a um homem um prejuízo de milhares de contos de réis e a anulação de anos de acertos!”

       Influência clara de Machado: “Temos quinze dia s para pensar, não adianta querer pensar tudo numa noite, vá dividindo o pensamento um pouco por dia”.

Sintonia fina desajustada, afetação, piñonismo: “homem capaz de atravessar eras e eras políticas com o mesmo prestígio incólume e impoulo, ainda que de suas mãos emanassem cargos e cargos, como universos inteiros emanam do espírito de um demiurgo”, passagens  ‘literárias”, no mau sentido: “Ao lado do bule, o cheiro do resto do café acariciava narinas”; veja-se que trecho insuportável (contrastando com a bela discussão sobre Voltaire e a propriedade de terras): “as pontas dos galhos da árvore em frente. Com a brisa fria batendo, eles ora se estremunhavam ora se retorcia, parecendo braços de afogados a lhe mandarem mensagens cifradas… No mistério das entranhas, os sentimentos já não brotavam como fonte cristalina da argila da razão. Era um borbotão de cloaca”. !!??

Vamos ver o que prevalece. Parei na pág. 111 e o romance tem 379.

ANOTAÇÕES DE 21 DE AGOSTO

Nunca vou entender por que as pessoas sabotam seu próprio talento. Terminei IMMACULADA. Quando contei a trama  para alguns amigos, todos acharam que é batida, muito convencional e cheia de chavões. Porém, eu defendo o livro enquanto fabulação: mesmo não trazendo nenhuma novidade, acho que Ivone C. Benedetti criou um grupo de personagens e soube conduzi-los até o fim, através da década em que transcorre a história (o grosso da trama se dá entre 1927 e 1937). A narrativa em geral é competente e os diálogos são bons. Então por que a autora resolveu enveredar por um caminho-titanic, uma rota que só poderia dar em naufrágio?

Para exemplificar minha perplexidade, vou transcrever um trecho horrendo da página 342 (Immaculada embriagou-se um pouco, viu um homem parecido com o seu amor de adolescente, e de repente ficou mais disposta a transar com o frio e indiferente marido, Francisco, com o qual mantinha um protocolo burocrático de relações sexuais; ele, por sua vez, sustenta uma amante, Natália):

“Francisco entrou. Deitou-se na cama. As bochechas ainda queimavam incendiadas de vinho. Puxou Immaculada pela cintura, que se deixou carregar com docilidade nunca vista. Francisco puxava para si uma vestal cobiçada por outros homens. Tirou-lhe a combinação, e ela se deixou acariciar, beijar, mas não só. Também amou em arroubos tempestuosos, atirando-se ao coito como se atira à terra a chuvarada de verão, em bátegas incontroláveis. A vestal despiu-se de messalina”

O que é isso? Que vocabulário é esse? Já disse que às vezes Benedetti lembrava o lado mais horroroso (haverá um que não o seja?)  da “preciosa ridícula” da nossa literatura, Nélida Piñon (que resultou em livros ruins e pretensiosos como A república dos sonhos ou A casa da paixão; o que li de melhor dela foi o paródico A força do destino). Só que o trecho acima ultrapassa qualquer fronteira, lembra até os momentos mais bizarros de uma Cassandra Rios (as descrições sexuais do delicioso Macária, por exemplo), e, pior, lembra aqueles escritores que já despertavam risotas e casquinadas em sua época, como Afrânio Peixoto ou Coelho Neto.

Autran Dourado afirmou que teve de se despir da mania de querer “escrever bem”, ser um artífice do estilo para poder ser um ficcionista de verdade. E em outras ocasiões, eu já tratei de alguns escritores nossos que falseiam seus romances  com um estilo laborioso e artificioso: além de Nélida, tivemos já José Geraldo Vieira, Lúcio Cardoso e a ficção sempre forçada de Mário de Andrade. Isso não é uma receita, claro, uma fórmula, que sirva para todo mundo: dois grandes escritores, nada afeitos a “compor romances”, assim o fizeram, através de uma linguagem única. São romances atípicos, peculiares, estranhos, porém são geniais. Refiro-me aos romances de Cornélio Penna e aos de Clarice. Quem pode resistir ao mistério de A menina morta ou A maçã no escuro?

Voltemos ao caso Benedetti. O tempo todo ela quer caprichar na sua prosa, quer que ela não seja mera narrativa. E vemos trechos como o já citado ou então trocadilhos que, faça-me o favor… Exemplo (na página anterior à do trecho citado acima): “Suástica, foice e martelo. Foi-se o martelo”!!!??? Ou anteriormente (na pág.203): “As de Dantas não eram chegadas, eram cheganças, sempre prolongadas e agitadas, como danças”!!!??? É uma pena.

Veja-se em contraste, um trecho de um diálogo entre pai e filho (Evaristo e Francisco), antes do aparecimento de Immaculada na história, que mostra as potencialidades da autora:

Evaristo:  “…que bobagem é essa de se preocupar se os empregados riem ou não? Você tem autoridade aqui? Tem ou não? Tua palavra é lei, sim ou não?”

Francisco: “Meu pai, já não estamos no tempo da escravidão.”

Evaristo: “Não é questão de escravidão nem de meia escravidão. De um homem na sua posição ninguém há de rir. Isso não existe! Isso não  pode existir!”

Francisco: “Pois existe, meu pai. Pois existe! Essa gente toda que nos rodeia só esconde as garras enquanto é mais fraca. No dia em que puderem, nos matam… E enquanto não podem matar, riem…Nós estamos rodeados de estrangeiros e de filhos de escravos…” (p.38)

Ou então um momento de ação narrativa simples e competente (em 1931, quando Francisco incautamente vai a um comício comunista): “…a multidão não estava compacta, mas não era muito fácil abrir caminho. Enquanto rumava para a entrada da XV de Novembro, ouvia gritos esparsos de ´Apoiado`. Chegando lá, tentou enveredar pela rua, mas não conseguiu. Algum pega-pega na esquina, um aglomerado denso impedia a passagem. Não enxergou direito o que acontecia. Percebendo aquela assuada masculina entremeada de gritos femininos, teve a idéia de desviar pela rua Direita. Também ali a multidão se aglomerava. Tinha andado uns trinta metros quando alguém gritou: ´A força pública!´ Começou o corre-corre: uns corriam da praça, outros para a praça. Francisco tentava não correr. Dez passos adiante levou uma trombada brutal e cambaleou para trás. Mas não caiu porque antes levou um tranco nas costas, que o empurrou para o lado e, aí sim, lhe deu um tombo. Ele logo se levantou e, assustado, foi amparar-se na parede da direita. Encostado nela caminhou até a reentrância da primeira porta que apareceu e lá se refugiou…”(p.157). Isso sim é exercício de prosa narrativa, e além disso, é o gancho para que Francisco conheça o fascista Alfonso Molinaro, cuja trajetória (e de outros ex-colonos da fazenda) vai às vezes se entremear ao enredo principal (o casamento de Francisco e Immaculada) nos anos 30, no cadinho político da era getulista.

E na mesma pág. 203 onde há aquele jogo de palavras infame, que já citei, há um momento folhetinesco interessantíssimo, pois uma das encarregadas de vigiar a virginal Immaculada, a italiana  Annunziata (que está lendo,não por acaso, O Conde de Monte Cristo), ouve, sem querer, um diálogo em que os pais da menina ridicularizam seu próprio pai que havia presenteado a patroa da filha com uns sapatos chinfrins. E aí Annunziata concebe o plano de fazer com que o irmão, Paolo (por quem Immaculada se apaixonou), desonre a pupila, destruindo assim o casamento com Francisco, que salvaria financeiramente a família (uma das cláusulas para a efetuação do casório seria um exame médico que atestasse a virgindade). Nesse passo do romance, Benedetti me lembrou os melhores momentos de uma romancista tradicional muito talentosa, Colleen McCullough (não tenho nada contra, muito pelo contrário, Pássaros Feridos ou Uma obsessão indecente):”Annunziata, ali, impercebida, sentiu uma dor que só conhecem as crianças e os que se lembram da infância: a dor de ouvir falar mal do pai… Para tais dores só há dois remédios: choro ou vingança” (p.204). É a minha parte favorita de IMMACULADA, principalmente porque revela  a índole de proprietária, bem próxima a de Evaristo e de Francisco, de Helena, a mãe. Ao saber da tentativa de sedução, manda um capanga executar o irmão de Annunziata friamente (não contarei aqui o que acontece de fato).

BREVE ANTOLOGIA DE MOMENTOS PIÑONESCOS, o querer fazer “literatura”, que roubam da autora “a coerência das fabulações”, e em que se misturam o preciosismo, o mau gosto, o ridículo e o chavão:

“preferia as horas em que podia fechar os olhos, mas sem dormir. Esses eram os momentos de alinhavar histórias, bordar desfechos”;

“Francisco tinha medo de Paris porque nunca tinha sonhado”  (p.127)

“do seu ânus [a escolha do termo já é deplorável, se ela queria um trecho escatológico, inclusive para definir certos aspectos da personalidade “anal” de Francisco, deveria perder esses preciosismos, porque “cu” é bem preferível a “ânus”] jorrou um jato pútrido que foi rebentar contra a borda do vaso sanitário, poluindo suas paredes e espalhando um charco abominável por grande parte da casa… enquanto o intestino amotinado saraivava merda sanguinolenta para dentro do vaso, o estômago enfuriado tratava de expelir onde quer que fosse tudo o que ainda restasse dentro de si…” (p.170)

“Immaculada hesitava. Na verdade, não queria buscar os quadros. Mostrar suas obras àquele homem era como mostrar-lhe a alma.” (p.190)

“Marília… Alma viril de frade em forma feminina” (p.294)

“Vasculhava gestos e olhares como quem remexe gavetas à meia-noite, sem saber se quer mesmo achar o que procura e, se achando, tira o que achou de baixo dos trastes” (p.306)

Devo dizer também que a parte em que Immaculada fica meio ao deus-dará na sua casa, após a dissolução do casamento, isolada de todos, sem empregadas, convivendo apenas com a amiga da infância e o filho desta (que é filho de Paolo, o irmão de Annunziata, e que Immaculada toma como protegido, deixando-lhe até a fazenda de herança) me lembrou, para pior (só faltou a criança ser uma menina), aqueles momentos “huis clos” entre mulheres meio enlouquecidas pelo sofrimento que a sociedade patriarcal lhes impingiu do superestimados romances de Toni Morrison (Amada, Paraíso).

Enfim, comparações à parte, IMMACULADA acaba não convencendo nem como romance histórico (pois fica tudo muito frouxo), nem como romanção (ao qual ela não tem coragem de dar fôlego, apesar de “estar tudo ali” para tanto), nem como romance intimista (já que a linguagem nunca tem a profundidade necessária para isso, congelando-se na afetação e no arremedo de imagens), nem como experiência de linguagem. Há material para um bom romance, na minha opinião, e creio que uma soda cáustica no preciosismo ridículo já daria outra cor à sua tela. Pois ela precisa se decidir, se quer  fazer estilo (no pior sentido do termo) ou fazer ficção (que, a meu ver, seria sua salvação). Pois ainda não está fazendo nenhum dos dois.

anos 20ParaKiki

27/05/2012

A FICÇÃO DO POETA BENEDETTI

 

“Não é boa uma vida sem fantasmas, uma vida cujas presenças sejam todas de carne e osso ”

“Existem matizes, não? (Mario Benedetti)

(uma versão da resenha abaixo foi  publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  06 de junho de 2009)

      UM ESPELHO POLIFÔNICO EM 45 FRAGMENTOS

    Quem escreve periodicamente sobre qualquer assunto, percebe, ao longo do tempo, que a tarefa não fica mais fácil, que o maior desafio é encontrar ganchos diferentes, formas diferentes de abordagem, e que na verdade estas últimas se reduzem a umas poucas variações. Por isso, acaba sendo providencial e confortável um gancho fornecido pelas efemérides da vida. Exemplo: a morte de Mario Benedetti, em 17 de maio, que coincidiu com o lançamento da tradução de Primavera num espelho partido (Primavera con  una esquina rota, em tradução de Eliana Aguiar para a Alfaguara).

O Uruguai tem um gênio: Juan Carlos Onetti, autor de romances que eu considero obrigatórios como A vida breve; Junta-Cadáveres; O estaleiro; Deixemos falar o vento e de contos igualmente notáveis (Tão triste como ela). Não conheço quase nada da prolífica obra poética de Benedetti (o que conheço não é de molde a me fazer um admirador), porém um romance como A trégua (1960) é suficiente para que ele não fique ofuscado pelo responsável por colocar nosso país vizinho no mapa da literatura.

mario benedetti

A trégua (ver resenha abaixo) era um exercício modelar da narrativa em primeira pessoa, imitando a forma de diário e ocultando, numa superfície de simplicidade, requintes psicológicos e de estilo.

Primavera num espelho partido é mais diversificado e ambicioso, um espelho polifônico (são muitos os narradores) estilhaçado em 45 fragmentos. Polifonia era a técnica que permitia o que o grande pensador russo Mikhail Bakthtín denominava “texto dialógico”: várias vozes na montagem das quais não havia hierarquia ou predominância (a nossa outra leitura da semana, As meninas, também pratica isso, embora ambos sejam aplicações mais simples do dialogismo bakthiniano que tem os romances de Dostoievski como a grande referência e cuja textura discursiva é bem mais complicada).

O núcleo do romance é uma família cujo pai “caiu” em decorrência do golpe de estado de 1973 (e a transformação do país naquela nossa velha conhecida latino-americana, a Ditadura) e a qual tem de se exilar na Argentina. Em torno desse núcleo, o autor constrói e diversifica  seis segmentos narrativos:

–Intramuros (mais tarde, Extramuros), com a narrativa em 1ª. pessoa de Santiago, o pai,  preso por “cinco anos,  dois meses e quatro dias”, e depois anistiado (“intra”, articulada, linear; “extra”, desarticulada, primavera num espelho partido). São oito capítulos;

–Feridos e contundidos, em 3ª.pessoa, e muito caracterizado pela abundância de diálogos, onde Graciela, a esposa de Santiago, é focalizada em sete capítulos;

–Don Rafael, com a narrativa em 1ª. pessoa feita pelo pai de Santiago (num dos capítulos há uma longa carta do próprio Santiago narrando ao pai o único assassinato que cometeu em sua militância política), em sete capítulos;

— Exílios, no qual às vezes Mario Benedetti é o personagem, às vezes ele se refere a compatriotas exilados (há até uma linda história de solidariedade, no capítulo chamado “Adeus e Boas-vindas”), em nove capítulos;

–Beatriz, na qual a narrativa em 1ª. pessoa é feita pela filha de nove anos de Santiago e Graciela, em sete capítulos;

–O outro, no qual o foco narrativo é um discurso indireto livre focalizando Rolando Asuero, useiro e vezeiro em citar versos de tangos, também exilado em Buenos Aires, como a família de Santiago (seu velho amigo) e que se torna o novo amor de Graciela,  em sete capítulos.

Portanto, o problema é que Graciela já não consegue mais amar o Santiago, e se culpa porque a condição de preso político do marido se arrasta durante anos, o que faz com que sua vida fique emperrada até que resolve declarar sua paixão por Rolando. Um dos aspectos mais pungentes na alternância de vozes do livro é que ao mesmo tempo temos acesso às cartas de Santiago, com sua paixão por Graciela, e conhecemos o embate que se passa dentro dela (o marido ficando a cada ano mais e mais fantasmático). Não haverá mais Penélopes à espera dos desterrados Ulisses? “Ah, se pudesse jogar no imperialismo a culpa por essas olheiras”, diz outro personagem. Também conhecemos o papel secundário que os maridos militantes (Rolando é um caso à parte, um solteirão inveterado, don juan) reservam às mulheres, o machismo-leninismo dos ilustres varões”.

Até voltar em 1983 ao Uruguai Benedetti viveu na Argentina, no Peru (de onde foi expulso). Durante alguns anos sua obra girou em torno da descompressão do golpe (com todos os sentidos que a palavra pode ter), o “desexílio”, como chamava.

Primavera num espelho partido, que é de 1982, se situa nessa fase, entre os poemas de Vento do exílio (1981) e os ensaios de O desexílio e outras conjeturas (1984). “O exílio (interior, exterior) será uma palavra-chave desta década”. O título tem sua justificação interna (fora sua justificação poética) no relacionamento entre Santiago e a mãe. Dom Rafael lembra: “Quando tínhamos apenas dois anos de casados, em um dos seus infreqüentes impulsos de confidência, que eram como uma concessão que nos fazia às vezes (a ela e a mim), disse que bom seria morrer ouvindo alguma das Quatro Estações, de Vivaldi. E muitos anos depois, exatamente em dezessete de junho de mil novecentos e cinqüenta e oito, quando estava lendo e de repente ficou imóvel para sempre, no rádio (não era sequer um toca-discos) estava tocando a Primavera.  Santiago ficou sabendo e talvez por isso essa palavra, primavera, tenha se ligado para sempre à sua vida.  É como o seu termômetro,  seu padrão, sua norma”…

Todos os personagens e situações do romance são interessantes, porém Benedetti é particularmente feliz na criação da pequena Beatriz. Além do tour-de-force da linguagem (mimetizando a lógica infantil, por isso é sensacional o capítulo em que ela confunde “poluição” com “polução”), há a perplexidade (que eu nunca vi ser tão bem colocada) da criança que tem um pai preso e de quem se diz que é um herói e não um criminoso. Como ajustar isso a uma percepção incipiente da realidade? “Liberdade quer dizer muitas coisas. Por exemplo, se você não está presa se diz que está em liberdade. Mas meu pai está preso e no entanto está em Liberdade, pois é assim que se chama a prisão onde está há muitos anos… Meu pai é um preso, mas não porque tenha matado ou roubado ou chegado tarde à escola. Graciela diz que meu pai está em Liberdade, ou seja, preso, por suas idéias. Parece que meu pai era famoso por suas idéias. Eu também tenho idéias, às vezes, mas ainda não sou famosa. Por isso não estou em Liberdade, ou seja, não estou presa… De forma que liberdade é uma palavra enorme. Graciela diz que ser um  preso político como meu pai não é nenhuma vergonha. Que é quase um orgulho. Por que quase? É orgulho ou é vergonha? Gostaria que eu dissesse que é quase vergonha? Estou orgulhosa, não quase orgulhosa, de meu pai, porque teve muitíssimas idéias, tantas e tantas que foi preso por causa delas. Acho que agora  meu pai vai continuar tendo idéias, idéias espetaculares, mas é quase certo que não fale sobre elas com ninguém, porque se falar, quando sair da Liberdade para viver em liberdade, podem fechá-lo outra vez na Liberdade.  Estão vendo como é enorme?”. Com uma realidade como a latino-americana (espelho partido) essa é uma lógica de rigor impecável.


   

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