MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/09/2012

Autran Dourado capitula diante do “Senhor das Horas”

 

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/aproximacoes-entre-faulkner-autran-dourado-e-a-falta-tragica/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/autran-dourado-sempre-o-mesmo-sempre-mutavel/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/fedra-bovary-tragedia-e-vida-besta-em-os-sinos-da-agonia/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/a-nau-dos-insensatos-de-autran-dourado/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/30/antigona-perdida-na-%E2%80%9Ccidadezinha-qualquer%E2%80%9D/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/13/o-lugar-vazio-na-roda-o-risco-do-bordado-de-autran-dourado/

https://armonte.wordpress.com/2013/04/14/troia-miuda-duas-resenhas-sobre-novelario-de-donga-novais/

Autran Dourado (1926-2012) começou a publicar, ainda em Minas, em Belo Horizonte, muito cedo, lá pelo final dos anos 1940 e começo dos anos 1950. Seus dois primeiros livros, Teia (muito devedor a uma tradição narrativa que vinha de Godofredo Rangel) e Sombra e Exílio (este, mais afim do universo de Lúcio Cardoso) são ainda bem fraquinhos. Ele os reuniu depois num volume chamado Novelas de aprendizado, mas seu primeiro livro “real”, por assim dizer, é Tempo de amar (1952), cujos personagens foram retomados depois num belo livro de maturidade, Ópera dos fantoches (1995), talvez o melhor dos seus textos derradeiros. Mas se eu tivesse de datar o nascimento do verdadeiro Autran Dourado, o que nos interessa mesmo, a data seria 1957 (quando ele já estava enredado com Juscelino, sendo seu assessor de imprensa), quando lançou Nove histórias em grupos de três,  título inspirado que infelizmente foi modificado em 1972, para Solidão Solitude, devido à inclusão de mais um grupo. No “inventário do Primeiro Dia”, nascia o alter ego de Dourado, João da Fonseca Nogueira e o ambiente que se tornaria depois a mítica Duas Pontes, palco da maioria das suas narrativas. Autran Dourado é um autor em espiral, cujo universo dá voltas e mais voltas sobre o mesmo eixo, o mesmo grupo de eventos e histórias, e cujos personagens retornam.

Fundada Duas Pontes (em Tempo de amar, houve o protótipo: Cercado Velho),  e com o interregno de A barca dos homens (1961), romance poderoso, exercitando o “realismo simbólico” que ele aprendeu com James e Mann, a madeleine começaria a trazer, ao ser mergulhada na taça de chá, a prima Biela e seu destino de solidão em Uma vida em segredo (1964), a família Honório Cota, o “gens” trágico de Duas Pontes, como se viu em Ópera dos Mortos  (1967) e se veria, décadas depois, no excelente Lucas Procópio (1985) e em Um cavalheiro de antigamente (1992; gosto muito desse livro,  reconhecendo, é claro,  não ser tão bom quanto os outros dois);  em Ópera dos Mortos (ainda o livro-referência do autor) também nasceu o maior personagem  criado por Autran Dourado, seu Donga Novais, ainda sem sua estatura oracular ,de “tecelão da insônia” , “ancião janeleiro” e “máquina de provérbios”. depois João da Fonseca Nogueira teve sua formação sentimental narrada no extraordinário O risco do bordado (1970)– e se eu tivesse de listar 10 romances essenciais da nossa ficção no século XX ele lá estaria.

Começavam os anos 1970 e Autran Dourado gozava de um prestígio imenso. Ele, então, publicou um livro  sobre a feitura de O risco do bordado e suas reflexões sobre o exercício narrativo,  Uma poética de romance (1973). Após outro interregno muito especial, o grande romance Os sinos da agonia (1974), ambientado na Vila Rica do século XVIII , em 1976 ele chegava ao ápice: ampliou o ensaio anterior num livro que eu adoro, Poética de romance matéria de carpintaria e lançou um livro que até hoje, infelizmente, é pouquíssimo conhecido, mas que não só dava vida às suas reflexões sobre a narrativa, como também é o meu favorito entre as suas obras (junto com O risco do bordado), tanto que foi o núcleo da minha tese, defendida na USP em 2002: Novelário de Donga Novais. Pode-se dizer que a partir desse livro, Dourado se apossou totalmente da sua Yoknapatawpha, e ao mesmo tempo, de maneira lamentável, se tornou um escritor para aficionados.

Nunca mais teve a repercussão anterior, a não ser por alguns prêmios importantes (o Goethe, o Camões). Anda, aliás, escandalosamente subestimado e esquecido. Quase não se fala mais dele e de sua obra, que ganhou uma pátina de recôndita e  antiga antes do tempo.  Não deu certo nem o timing da sua morte: como competir com Hebe ou mesmo com Ted Boy Marino?

Nessa fase mais obscura, alguns livros de mestre, mas muito voltados para a construção desse universo em espiral (caso de Armas e Corações, As imaginações Pecaminosas, Violetas & Caracóis, três coletâneas de contos que são simplesmente fantásticas, especialmente a primeira,; e Imaginações Pecaminosas,  num certo sentido  foi o último suspiro de maior notoriedade do grande escritor mineiro em termos de publicação de seus livros, pois nem a republicação de sua obra inteira pela Rocco conseguiu maior repercussão); já falei de Lucas Procópio e Ópera dos fantoches), e outros livros não tão felizes. Talvez o mais ousado entre os que não deram certo (na minha opinião, pelo menos) seja A serviço del-rei (1984), onde ele enfrenta a figura de Juscelino num relato meio mítico, tentando escapar do factual.  Não gosto muito, mas pelo menos é um vôo ambicioso. Em compensação, Um artista aprendiz (1989), uma espécie de Retrato do artista quando jovem “do doce”, Monte da Alegria, uma espécie de Os sertões “do doce” e Confissões de Narciso (1997), uma espécie de passeio stendhaliano sobre o amor, que é quase intragável de ruim, não deram certo.

O último Autran Dourado , salvo engano, me encheu de melancolia: O senhor das horas. O rescaldo de uma obra maravilhosa, de um demiurgo que não soube deixar seu universo em paz, na plenitude. Cronos realmente é um deus cruel.

(30 de setembro de 2012)

Anúncios

25/09/2012

Fascínio de Kafka não se esgota

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de dezembro de 2005)

Esporadicamente aparecem tentativas para acostumar o leitor brasileiro ao formato do livro de bolso. Uma das boas iniciativas recentes é a Companhia de Bolso. O relançamento da celebrada tradução de O processo, feita por Modesto Carone, permite saudá-la e esperar que vingue.

O fascínio de O processo não se esgota. Kafka o escreveu entre 1914 e 1915, aos 31-32 anos, contudo foi preciso esperar que Max Brod o publicasse postumamente há 80 anos, em 1925. Persiste a polêmica a respeito da ordem dos 10 capítulos completos, estabelecida por Brod. Na 3a. edição, ele reconheceu que não parece impossível que o episódio que ocupa o capítulo V tenha sido concebido por Kafka como parte do capítulo II”. Com mais radicalidade, o crítico flamengo H. Uyttersprost sugeriu que se lesse na seguinte seqüência: I, IV, II, III, V, VI, IX, VII, VIII, X.

Fiz a experiência e o livro se beneficia até certo ponto dessa rearrumação. O nó do problema é que o capítulo IX, o qual contém um diálogo decisivo entre um capelão e o protagonista Josef K. (e que é aquele no qual está a famosa parábola “Diante da Lei”), é realmente o clímax. A sensação que se tem é que, depois, só pode vir mesmo o fim. É o momento em que K. é esmagado pela Lei, por essa mentira que se converteu em ordem universal, e que ele é obrigado a reconhecer após 30 anos de alienação (a narrativa se inicia quando ele faz aniversário e é detido por um crime que desconhece, embora aceite o processo e a culpa).

Procurador de um grande banco, K. a princípio tenta se impor como adulto, quando ainda se acha na ilusão de estar “dentro da Lei” (ele tenta mesmo pontificar como a figura patriarcal na pensão em que vive), mas em breve é reconduzido (e reduzido) à condição de “rapazinho” pelo tio, que toma a peito os trâmites da sua defesa.

Até ser executado, numa situação de patético desamparo, ele vagará pelos escalões mais subalternos e inferiores da organização burocrática que representa a Lei. Isso dá margem à veia cômica de Kafka, pois vemos cartórios e salas de audiência localizados em cortiços, funcionários sórdidos e promíscuos (um juiz de instrução ordena a um estudante de direito que traga a esposa do oficial de justiça para servi-lo sexualmente, o próprio estudante mantém relações com ela durante um inquérito). Os acusados têm de viver nos quartos de despejo dos advogados para que eles se dignem a dar informações sobre o andamento dos processos. Qualquer um pode fazer parte dos tribunais e qualquer quartinho revela entradas e saídas que se comunicam com as repartições e tribunais.

A Lei é onipresente, portanto, na casa dos pobres. Os ricos podem se movimentar num espaço privilegiado, inacessível, e só entram em contato com esse ambiente pegajoso por meio da promiscuidade da troca de favores. K. descobre que, na verdade, ele não se tornou um “fora da Lei”. É aí que ele mergulha nela, sem ilusões. E sem escapatória.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2009/12/14/o-processo-e-a-peste-a-culpa-e-a-inocencia-da-humanidade/

https://armonte.wordpress.com/2012/11/25/o-terror-nas-dobras-do-pastelao-o-desaparecido-de-kafka/

https://armonte.wordpress.com/2012/11/26/como-chegar-ao-castelo/

https://armonte.wordpress.com/2010/04/07/a-morte-do-caixeiro-viajante/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/25/o-amor-complicado-dos-marxistas-por-um-cinefilo/

https://armonte.wordpress.com/2010/06/27/toy-story-as-exigencias-da-infancia/

https://armonte.wordpress.com/2010/06/29/um-verdadeiro-exercicio-de-parodia/

 

O amor complicado dos marxistas por um cinéfilo

Há algumas semanas (nesta minha coluna de A TRIBUNA), a propósito de O Processo, eu comentava o fascínio exercido por Kafka. O lançamento nos últimos meses de, pelo menos, três livros importantes sobre sua obra não deixa de ser uma confirmação desnecessária, mas cabal: Kafka vai ao cinema, de Hanns Zischler; Lukács, Proust e Kafka, de Carlos Nelson Coutinho; Franz Kafka, Sonhador Insubmisso, de Michael Löwy.

Comecemos pelo último. Michael Löwy é um  ensaísta marxista brasileiro, embora O Sonhador Insubmisso tenha sido publicado primeiro na França, em 2004. É preciso dizer que a crítica marxista foi muito lenta, com notáveis exceções, em reconhecer o valor de Kafka. Isso se deve principalmente à equivocada interpretação efetuada pelo seu mestre, Georg Lukács (em meados dos anos 50), o qual colocou Kafka como representante principal de uma tendência “irrealista” da arte contemporânea: [A] impressão de impotência elevada ao nível de concepção do mundo, que em Kafka se transformou na angústia imanente do próprio devir do mundo, o total abandono do homem em face dum temor inexplicável, impenetrável, inelutável, faz da sua obra como que o símbolo de toda a arte moderna. Todas as tendências que, noutros artistas, assumiam uma forma literária ou filosófica, reúnem-se aqui no temor pânico, elementar, platônico, perante a realidade efetiva, eternamente estranha e hostil ao homem, e isto num grau de espanto, de confusão, de estupor, que não tem paralelo em toda a história da literatura. A experiência fundamental da angústia, tal como a viveu Kafka, resume bem a decadência moderna da arte.

Trata-se de um trecho de Realismo Crítico Hoje, que até hoje causa discussão (é preciso dizer que a argumentação do grande Lukács é ambígua e traduz um fascínio inegável por aquilo que rejeita). O resultado: admirado ou execrado, Kafka sempre foi considerado um poeta da impotência do homem diante do mundo, da inutilidade do esforço humano em face do absurdo da vida ou do silêncio da divindade.

É contra essa visão que Löwy constrói seu livro. Para ele, o traço marcante da visão de mundo kafkiana é o antiautoritarismo, a insubmissão diante da tirania explícita e implícita.

Por isso, além de analisar as duas principais obras de Kafka, O Processo e O Castelo, sob essa perspectiva, ainda investiga as ligações entre ele e vários círculos libertários,  anarquistas ou socialistas, da sua época.

É impressionante a massa de textos que Löwy convoca para confirmar suas idéias ou polemizar com intérpretes anteriores da obra kafkiana. Isso não atrapalha a fluência do seu texto, embora  as referências em notas de rodapé cheguem às raias do atordoante, contudo acaba fazendo o leitor comum sentir uma angústia verdadeiramente digna de Kafka ao imaginar tanto papel escrito para chegar a verdades que a ele parecem tão óbvias, como na contestação à visão lukácsiana: Trata-se da criação de um universo imaginário, regrado unicamente pela lógica do maravilhoso que, de modo algum visa reproduzir ou representar a realidade, mas que não deixa de conter  uma crítica radical dela, feroz ou irônica segundo o caso. Realista ou não, a obra de Kafka, graças à sua atitude de distanciamento permanente com relação às instituições sociais, é um dos exemplos mais cativantes do podee de iluminação profana da literarura. É por isso que André Breton o considerava, pura e simplesmente, o maior vidente do século”.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 14 de janeiro de 2006)

Na semana passada, comentei  Franz Kafka, Sonhador Insubmisso, no qual Michael Löwy procurava reavaliar o legado kafkiano sob o prisma do antiautoritarismo, “graças a um fio vermelho que permite ligar a revolta contra o pai, a religião de liberdade (de inspiração judaica heterodoxa) e de protesto (de inspiração libertária) contra o poder mortal dos aparelhos burocráticos”. Löwy inspirava-se em supostas palavras do genial escritor de Praga “recolhidas” num famoso livro de Gustav Janouch: “As cadeias da humanidade torturada são feitas de papel de escritório.”

Löwy alinha-se contra a opinião condenatória de Georg Lukács. Este grande pensador marxista teve um talentoso seguidor brasileiro, Carlos Nelson Coutinho. Embora seguindo os conceitos do seu mestre, Coutinho sempre apresentou um posicionamento muito próprio. Já no prefácio, há quase 40 anos, à edição brasileira de Realismo Crítico Hoje, de Lukács, ele refutava a visão negativa da obra de Kafka. Nos anos 70,escreveu um ensaio sobre o autor de O Processo e recentemente o reformulou para que constasse do livro Lukács, Proust e Kafka, no qual tenta reajustar a (no caso, míope) ótica lukácsiana sobre dois dos maiores escritores que já existiram.

Para Coutinho, Kafka é o crítico cabal do mundo reificado, onde a nossa consciência é mediada pelo mercado, onde tudo se transforma em valor-de-troca e toda relação humana se transforma numa relação entre coisas, entre possuído e possuidor. Um mundo perfeito para alguém acordar um dia transformadoem inseto.  Utilizando o conceito de reposição estética desse pressuposto social, Coutinho elege algumas obras, particularmente O Processo, A Metamorfose e A Construção como sucessos, porque a medida do talento de Kafka para fazer tal reposição estaria no âmbito da novela (nas palavras de Lukács, a novela faz um compêndio da vida da sociedade “através de um evento singular extraordinário, tomado como ponto focal. A novela não é obrigada a representar todo o conjunto de dados da vida social, como o faz o romance”). Por isso, nessa visão, ao mesmo tempo inteligente e discutível, “tentativas” de romance como O Castelo e  O Desaparecido (América)não funcionam, por seu estado fragmentário e irresolvido.

Iríamos longe na discussão de que  ater-se aos gêneros e às formas petrificadas tornou-se uma postura problemática,  de que  existe uma poética do fragmento, e principalmente de que não há nada mais poderoso literariamente do que as tentativas fragmentárias que conhecemos como O Castelo e  O Desaparecido (América). Ainda assim, “Franz Kafka, crítico do mundo reificado” é um ensaio modelar.

Em compensação, Kafka vai ao cinema, de Hanns Zischler, é um daqueles ensaios-caprichos da pós-modernidade. Faz uma montagem (auxiliado por uma bela edição) por meio de comentários biográficos, de trechos de cartas, postais e diários, de material publicitário dos filmes da época, de fotos, no intuito de perseguir uma percepção cinematográfica de Kafka, seja como espectador efetivo de cinema quanto da sua maneira de ver o mundo, dos saltos da sua mente, obsessivamente literária, da realidade comezinha para a Realidade do seu mundo escrito. É o caso da  passagem em que descreve como, ele, tão problemático com as mulheres, dividiu um táxi com uma garota (e sua imaginação relembra—errônea, mas sugestivamente—uma cena do filme A Escrava Branca). Zischler: “…a cena desliza para o puro cinema. Tal como Kafka a imaginou, ela é a pura realização de desejo que, naturalmente, não poderia ser coroado de êxito no táxi” (no filme, a escrava branca é forçada a entrar num táxi). É o “artifício de transformar a vergonha real no despudor do cinema.”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 27 de janeiro de 2006)

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/11/26/como-chegar-ao-castelo/

https://armonte.wordpress.com/2012/09/25/fascinio-de-kafka-nao-se-esgota/

https://armonte.wordpress.com/2009/12/14/o-processo-e-a-peste-a-culpa-e-a-inocencia-da-humanidade/

https://armonte.wordpress.com/2012/11/25/o-terror-nas-dobras-do-pastelao-o-desaparecido-de-kafka/

https://armonte.wordpress.com/2010/04/07/a-morte-do-caixeiro-viajante/

https://armonte.wordpress.com/2010/06/27/toy-story-as-exigencias-da-infancia/

https://armonte.wordpress.com/2010/06/29/um-verdadeiro-exercicio-de-parodia/

________________

Leitura em espelho: NÃO CONTEM COM O FIM DO LIVRO e A QUESTÃO DOS LIVROS

“Também aprendemos um monte de coisas lendo simples resenhas…” (Umberto Eco)

BIBLIOTECÁRIOS DE BABEL- primeira parte

A frase acima das fotos até poderia ser o mote do meu blog, já que nela aparecem os vocábulos monte e resenhas. É pena que ela se encontra no seguinte trecho, que eu achei incrivelmente frívolo e besta: “Quantos de nós já não se alimentaram do simples perfume de livros que víamos em prateleiras mas que não eram os nossos? Contemplar esses livros para deles extrair saber. Ora, uma razão para ser otimista é que cada vez mais pessoas têm acesso hoje à visão de uma grande quantidade de livros. Quando eu ainda era criança, uma livraria era um lugar muito escuro, pouco acolhedor. Você entrava, um homem vestido de preto perguntava-lhe o que você desejava. Era tão assustador que você não cogitava demorar-se. Ora, nunca houve na história das civilizações tantas livrarias quanto hoje, belas, iluminadas, onde você pode passear, folhear, fazer descobertas em três ou quatro andares, as Fnac na França, as livrarias Feltrinelli na Itália, por exemplo. E, quando vou a um desses lugares, descubro que estão cheios de jovens. Repito que não é necessário que eles compreme nem sequer que leiam. Basta folhear, dar uma olhsfs ns quarta capa. Também aprendemos um monte de coisas lendo simples resenhas. É possível objetar que em seis bilhões de seres humanos a porcentagem dos leitores continua muito baixa. Mas, quando eu era garoto, éramos apenas dois bilhões no planeta e as livrarias viviam desertas. A porcentagem parece mais favorável em nossos dias.”

Nos últimos meses, dois lançamentos vieram se somar à intensa discussão atual sobre o futuro do livro impresso, oferecendo a oportunidade de conhecer as posições de intelectuais e escritores da eminência de Robert Darnton,  Jean-Claude Carrière e do Umberto Eco da citação acima: pela Companhia das Letras, A questão dos livros; pela Record, Não contem com o fim do livro (cujo título original é bem mais saboroso: N´esperez pas vous débarrasser des livres). Tratarei primeiramente do segundo.

Jean-Philippe de Tonnac manteve longos colóquis (que viraram, evidentemente, um livro, como não podia deixar de ser!) com o semiólogo e romancista italiano, autor de O nome da rosa, e o roteirista francês que talvez seja o maior nome europeu na sua área[1]. E tanto Eco quanto Carrière não se mostram muito preocupados de que o e-book, as mídias eletrônicas vão substituir o livro tal como conhecemos hoje: “O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados,não podem ser aprimorados. Você não pode fazer uma colher melhor que uma colher… O livro venceu seus desafios e não vemos como, para o mesmo uso, poderíamos fazer algo melhor que o próprio livro. Talvez ele evolua em seus componentes, talvez as páginas não sejam mais de papel. Mas ele permanecerá o que é”.

Tendo liquidado a questão com otimismo e chalaça, logo de início, como são recheadas as duzentas e tantas páginas de Não contem com o fim do livro?

Não se encontrará nenhuma reflexão aprofundada, sagaz ou surpreendente sobre a mudança no paradigma de leitura, da percepção do leitor quanto ao ato de ler, e Eco & Carrière manifestam uma singular convicção de que haverá mais leitores no futuro (mas como vimos logo na abertura, para Eco, o fato de as pessoas freqüentarem livrarias como se freqüenta quaisquer lojas de departamento ou shoppings, o leitor tomado basicamente como consumidor, e esquecendo de que o pessoal das classes D e E, e tenho minhas dúvidas sobre a classe C, a não ser os seus egressos “alternativos”, não ousa ir a lugares assim, que geralmente têm uma aura mais esnobe e intimidadora; e  aproveito para lembrar algumas palavras de Jean-Paul Sartre em Questões de Método“…numa sociedade onde tudo se compra, as possibilidades de cultura são praticamente eliminadas para os trabalhadores, quando a alimentação absorve 50% ou mais de seu orçamento. A liberdade dos burgueses, ao contrário,  reside na possibilidade de consagrar uma parte sempre crescente de sua renda aos mais variados campos de despesas”, , palavras publicadas há 50 anos e que ainda valem hoje), embora vejamos inquietantes indícios de que uma onda de analfabetismo real ou funcional varrerá todos os nossos alicerces culturais numa escala de tempo muito próxima.

Mas não, o que ocupa os dois entrevistados é sua condição de bibliófilos (aliás, José Mindlin é citado diversas vezes), de colecionadores (ambos possuem bibliotecas imensas e muitos livros raros e caros). Chega um ponto em que a vida entre livros fica equiparada à dos colecionadores de vinhos e selos. E então a trivialidade e auto-complacência destiladas em Não contem com o fim do livro começa a incomodar.

Conforme fui prosseguindo a leitura, fui me esquecendo progressivamente dos filmes admiráveis que Carrière ajudou a criar (A bela da tarde, O discreto charme da burguesia, A Via Láctea, Danton, Mahabharata) e do meu especial apreço por Eco tanto como teórico quanto como romancista (e da minha convição de que ele deveria ganhar o Nobel): sentia que estava acompanhando a conversa de dois velhos tarados ou dois empedernidos pedófilos, gabando-se de suas perversões e sacanagens, ou de dois nobres do ancien regime francês, pré-Revolução, ostentando sua gula, luxúria e vaidade, enquanto o povo passava fome e privações.

Claro, ambos têm todo o direito de viver bem e desfrutar dos seus prazeres. Só que tudo fica tão blasé, e parece que eles estão tão acostumados ao espetáculo do mundo (Eco diz que, pois estão próximos de se tornarem octogenários, “vivemos cada vez mais e temos a possibilidade de terminar nossos dias numa boa forma insolente”), no qual impera a burrice a estupidez (um tema comum à obra dos dois), que o melhor é dois veteranos trocarem anedotas eruditas, as quais no são ditas com um ar cansado e bolorento, como se eles as tivessem contado e recontado muitas e muitas vezes.

As inteligências afiadas, infelizmente, às vezes também ficam gagás. Esperemos que temporariamente.

(resenha publicada, de forma mais condensada, em “A Tribuna” de 10 de agosto de 2010)


[1] Colaborador tanto do genial Buñuel quanto do, a meu ver, superestimado Milos Forman. Uma colaboração recente entre os dois foi Sombras de Goya,  que não passa de um bom filme, muito convencional. Não conheço  a produção de Forman  na sua terra natal, a Tchecoslováquia, mas após sua ida a Hollywood, tirando o admirável (se minha lembrança  não falseia as coisas) Taking off, tudo o que veio depois e que eu assisti, não me causou maior impressão (e se causou foi mais negativa que positiva), a não ser  as coreografias de Hair e as notáveis  interpretações que ele extraiu em Valmont. Particularmente Um estranho no ninho & Amadeus tiveram uma recepção exagerada, hiperbólica mesmo.

Comentar essa colaboração com o tcheco Forman me faz lembrar que Carrière foi co-roteirista da adaptação de A insustentável leveza do ser (realizada por Philip Kaufman) do compatriota do diretor de O povo contra Larry Flint (outro filme bom e convencional), Milan Kundera. Há uma aura kunderiana nas seguintes palavras de Carrière: “O que mais me impressiona é a completa extinção do presente. Estamos obcecados como nunca pelas modas retrô. O passado nos alcança a toda velocidade, daqui a pouco teremos de nos curvar às modas do trimestre precedente. O futuro é como sempre incerto e o presente estreita-se progressivamente e se dilui.”

Bibliotecários de Babel (segunda e última parte)

“A leitura permanece um mistério. Como os leitores entendem os sinais na página impressa? Quais são os efeitos sociais dessa experiência? Como ela variou? Estudiosos da literatura côo Wayne Booth, Stanley Fish, Wolfgang Iser, Walter Ong e Jonathan Culler tornara a leitura uma preocupação central da crítica textual porque compreenderam a literatura como uma atividade, a construção de sentido dentro de um sistema de comunicação,e não como um cânone de textos”.

É irônico que eu tenha me interessado por A Questão dos Livros [The case for books]mais com o objetivo de enriquecer e complementar, em razão da  proximidade temática com  Não contem com o fim do livro e, no final das contas, como se pode verificar na primeira parte, as entrevistas de Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, a respeito dos quais eu tinha tanta expectativa, se revelaram banais, uma decepção. E a coletânea de ensaios de Robert Darnton (um dos mais respeitados historiadores contemporâneos, especialista no século XVIII, com destaque para o Iluminismo francês, e cuja obra não conhecia ainda, já que não se tem tempo de ler tudo, apesar de já ter me interessado por O grande massacre de gatos, O Iluminismo como negócio e sobretudo Os Best-sellers proibidos na França pré-revolucionária) pode ser considerada um dos melhores lançamentos do ano. É um livro maravilhoso, que eu recomendo entusiasticamente..

Darnton também se mostra otimista com relação ao artefato de leitura em que se baseia nosso tipo de civilização. Mas esteve pessoalmente envolvido num ambicioso empreendimento de digitalização, o que dá um sabor todo especial à sua discussão (afora sua sedutora prosa): em 1997, ele foi o responsável pelo Gutenberg-e, premiação de monografias, e sua preparação e publicação no formato eletrônico (muitos autores de teses não estavam encontrando mercado para lançamento em formato impresso). Eu nunca pensei que ia mergulhar fundo e me interessar tanto pelas tramitações acadêmico-burocráticas de um projeto, mesmo que ele tivesse a função pioneira de “abrir caminho para um novo tipo de difusão do conhecimento, a monografia eletrônica de primeira categoria. Parece certo que determinados tipos de livro eletrônico irão prosperar no futuro próximo, mas isso só será feito corretamente se uma organização como a AHA [American Historical Association] tomar a frente de seu desenvolvimento determinando padrões e legitimando essa iniciativa aos olhos de uma classe profissional composta por céticos”.

Deixo para o leitor desse imperdível A Questão dos Livros saber se o empreendimento vingou. Ou, se vingou, foi nos moldes sonhados por Darnton (cito, entretanto, uma passagem reveladora: “No ano passado, o conselho da AHA votou por tirar das minhas mãos a supervisão cotidiana do Gutenberg-e e consigná-la ao Departamento de Pesquisa…Não creio que ninguém estivesse insatisfeito com meu gerenciamento, mas havia uma sensação de que o Gutenberg-e deveria fazer parte das operações normais da Associação, em vez de ser o projeto de estimação de Robert Darnton”.

Os ensaios (divididos em três seções, “Futuro”, “Presente” “Passado”) são quase todos irretocáveis e envolventes, e discutem a mais ampla gama de assuntos que se pode imaginar, desde o que o Google pode fazer com o futuro da publicação eletrônica, passando pelo massacre físico de milhões de volumes das bibliotecas públicas norte-americanas para que a digitalização dos mesmos se efetivasse, até apanhados históricos sensacionais sobre a importância da bibliografia, sobre o paradigma de leitura totalmente diferenciado do nosso, no início da Era Moderna, sem falar no meu favorito, uma panorâmica da publicação e divulgação das obras de Voltaire.

No primeiro caso, o da bibliografia (A importância de ser bibliográfico), ainda mais numa época como a nossa em que “graças à internet, os textos se tornaram ao mesmo tempo mais disponíveis e menos confiáveis”, ele mostra como a comparação de exemplares das primeiras edições (todos apresentando discrepâncias) ajudou a montar um cânone shakespeariano ainda não-definitivo, porém o mais confiável a que se pôde chegar, e discute o futuro dessa área (cuja zona fronteiriça conflita com a dos historiadores do livro: “Ao contrário dos bibliógrafos,  os historiadores do livro estudavam todos os aspectos da produção e difusão da palavra impressa,  incluindo suas conexões  com mudanças sociais e políticas. Para eles, o ano de 1710 se destacou como momento decisivo  na história do copyright…”), para a  qual confluem várias disciplinas.

No caso do paradigma de leitura (Os mistérios da leitura), um assunto premente nesta nossa época em que se criam novos suportes físico-cognitivos para essa atividade, ficamos sabendo que os homens do passado liam sem a preocupação de continuidade, interessados em anotar passagens para suas próprias antologias pessoais, seus livros exemplares de como se conduzir na vida: “Os ingleses do início da era moderna liam de forma intermitente, pulando de um livro para outro. Dividiam os textos em fragmentos, que agrupavam em novos padrões ao transcrevê-los em seções diferentes de seus cadernos… ler e escrever eram atividades inseparáveis. Pertenciam a um esforço contínuo de compreender as coisas, pois o mundo era repleto de sinais: era possível navegar por ele utilizando a leitura, e, ao manter u  registro do que lia, você criava seu próprio livro, um livro com a marca da sua personalidade”. Acho que esse aperitivo já dá uma indicação do interesse do texto.

E no ensaio sobre a obra de Voltaire (O que é a história do livro?), parece que estamos fazendo uma viagem no tempo, conhecendo intimamente os livreiros-distribuidores que atendiam à imensa demanda da obra do genial e irreverente autor francês: “…eu gostaria de me concentrar no elo menos conhecido no processo de difusão, o papel do livreiro, tomando como exemplo Isaac-Pierre Rigaud, de Montpellier… Pessoalmente, não simpatizava nem um pouco com Voltaire”. Você pensa, leitor, que ele não simpatizava por motivos religiosos, ideológicos, chocado pela verve e iconoclastia voltaireanas? Nada disso: “…deplorava a tendência do filósofo de remendar seus livros, adicionando e corrigindo trechos enquanto colaborava em edições piratas pelas costas dos editores originais. Esses hábitos geravam reclamações dos compradores, que não concordavam em receber textos inferiores (ou insuficientemente audaciosos)…” Uma delícia.

Uma leitura como essa nos faz contar com um longo futuro para os livros…Mas é o futuro, e como saber? O próprio Darnton está há uma década preparando um e-book para revolucionar a sua prática de publicação de material pesquisado: “Não que uma publicação eletrônica ofereça atalhos, nem que eu tenha a intenção de despejar na internet todo o conteúdo das minhas caixas… Meu plano é trabalhar com esse material de diversas formas, abordando os temas essenciais na narrativa em primeiro plano e incluindo nos planos inferiores mini-monografias e documentos selecionados nos arquivos mais ricos. Meus leitores poderão se servir do que quiserem, nas porções que preferirem, e até mesmo interligar meu trabalho com as pesquisas de outros na florescente área da história do livro. Um livro eletrônico sobre a história do livro na era do Iluminismo! Não consigo resistir. Vou mergulhar…”

(resenha  publicada  em “A Tribuna” no dia 17 de agosto, de forma mais condensada)

23/09/2012

O desastre de “DOIS RIOS”: maldição do segundo romance, zombaria das ondas ou pose demais e ficção de menos?

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em primeiro de maio de 2012)

Como tantas outras pessoas, apreciei o primeiro romance de Tatiana Salem Levy, A chave de casa (2007). Ali estava uma escritora promissora, apesar da atmosfera sufocante e áspera do texto. Como o li mais ou menos na mesma época de Homem no escuro (2008), de um dos meus autores favoritos, Paul Auster (a condição de impotência, entre física e espiritual, dos protagonistas, dá um ar de parentesco aos dois livros que já pensei em explorar em alguma resenha ou estudo), e junto do qual ela não fez nada feio, a comparação lhe rendeu mais pontos favoráveis ainda, caso precisasse.

Eis que de repente assisto a uma entrevista da jovem autora (nasceu em 1979) com Maurício Melo, no programa “Leituras” da TV Senado, e o que me parecia rispidez talentosa durante a leitura do romance começou a soar mais como uma postura afetada, enjoadinha, um ar de o mundo não merece esse ser inefável que sou: Tatiana Salem Levy se me afigurou como aquelas pessoas que minhas tias, numa infância povoada delas, anatematizavam como “entojada”. Mais do que antipática,  porém,sua atitude (ou melhor, sua pose) na entrevista me deixou entrever algo que só posso diagonosticar como uma anorexia espiritual que me tirou qualquer vontade de voltar a lê-la.

Por motivos que não vêm ao caso, seu segundo romance, Dois rios, acabou nas minhas mãos. Não obstante a autora enjoadinha, não mereceria uma lida, em vista da promessa de A chave de casa?

O pequeno introito acima é para o leitor que detectar má vontade a priori no meu comentário a seguir, embora eu mesmo, fazendo um exame de consciência, não ache que li Dois rios com má disposição (por exemplo, sempre tive a maior antipatia pela figura de Rachel de Queiroz, o que não me impediu de me encantar com seus romances tardios, Dôra Doralina & Memorial de Maria Moura: a leitura de um bom texto sempre me conquista), saiba dos possíveis motivos, caso chegue a tal conclusão.

Dois rios (que, a princípio, ao que parece, tinha o título Em silêncio) apresenta como protagonistas os gêmeos Joana e Antônio: nascidos e criados em Copacabana, passavam as férias no lugarejo da Ilha Grande que dá título ao romance. Muito unidos, em Dois Rios houve um episódio incestuoso que coincidiu com a morte repentina do pai. A partir daí, os irmãos começaram a se afastar até de uma forma hostil (como se uma presumível “culpa” pelo ocorrido com o pai impedisse o relacionamento de fluir): Joana ficou em casa, cuidando da mãe, portadora de transtorno obsessivo-compulsivo, e Antônio caiu no mundo como fotógrafo free-lance. Do pacto infantil que os unira, só restaram  ressentimento e incomunicabilidade.

O livro é estruturado em duas partes, cada uma focada num dos irmãos. Na primeira, narrada por Joana, que está presa ao apartamento onde nasceu, com a mãe disfuncional, com a vida estagnada, aparece uma francesa, Marie-Ange, por quem ela se apaixona, iniciando um processo de libertação. Há alguns bons momentos[1], Salem Levy sabe utilizar habilidosamente as técnicas de ficção (desdobramento do tempo e do espaço). O que não impede que essa parte seja muito ruim. Somos obrigados a ler passagens do tipo “Nossos olhos se cruzaram, e num único segundo, senti aflorar a minha intimidade mais secreta”. Pior ainda, quando Joana e Marie-Ange encetam uma viagem reparadora a Dois Rios, e seu amor se funde à descrição da natureza, temos trechos que—tirando o tom mais moderninho—poderiam ter sido escritas por Cassandra Rios (penso em Macária, por exemplo), sem o seu charme kitsch. A própria Marie-Ange, a qual parece egressa do universo de Roberto Freire (o chatíssimo escritor reichiano de Cléo e Daniel e Coiote, não o político), como um anjo liberador das repressões, diz coisas hilárias do tipo: “Só o real importa, Joana. O mar, a areia, o sussurro da mata. Esquece o resto. Seus medos tolos, sua ansiedade, essa fantasia que, em vez de te soltar, te prende. Escuta o vento, as ondas que rebentam zombeteiras…”!!!??? Por que, cargas d água, as ondas rebentariam zombeteiras? Talvez porque a natureza, em Tatiana Salem Levy, pareça tanto um “cenário”, não evocando nada de vital ou verdadeiro.

Na segunda parte, ela faz um truque narrativo à David Lynch (o de A estrada perdida & Cidade dos sonhos), e é Antônio quem, na França, conhece Marie-Ange, a qual, ao invés de vir ao Brasil, o leva para a Córsega, sua terra natal, onde os dois têm tórridas experiências amorosas, depois das quais ela desaparece. O errante, o desenraizado, então, sofre um processo contrário ao da irmã, permanecendo ali, numa postura de espera impotente, no povoado corso, no meio de gente rústica e simples, ligada ao mar.

Duas coisas ficam claras, então: o leitor comum, que costuma se atrapalhar com experiências  “ousadas”, não precisa ficar inquieto, porque apesar do truque adotado, a autora explica tudo tintim por tintim (além de todo o desenrolar da narrativa ser mais ou menos previsível, inclusive o final), e essa parte, em que Antônio, ao narrar, está se dirigindo à ausente Marie-Ange, é extremamente fake: soa falso em todos os seus aspectos, de tal forma que acabamos até preferindo a primeira, que era fraca, mas parecia mais crível. Apesar de ausente, Marie-Ange não é menos chata: “Foi você quem me disse que todos os dias ele [o pai dela] faz a mesma coisa, como os animais que dormem, comem, vão ao riacho procurar água e nunca se colocam em desacordo com o mundo. Meu pai faz parte da paisagem como os calhaus da praia, você dizia. E continuava. Quando ele morrer, não haverá mais pescadores no vilarejo, pois os homens passaram a achar, num determinado momento, que ser humano é entrar em desacordo com o mundo…”

E como essa literatura “sofisticadinha” acabou roçando a auto-ajuda? “Nenhum dos dois conseguiu cumprir nem descumprir seus destinos, eles apenas esqueceram de ser felizes. Era uma coisa ou outra: seguir à risca a trajetória planejada, ou dar espaço para a felicidade. O erro deles foi achar que o amor os salvaria das desavenças. Mas o amor não salva.”

Dizem que há a maldição do segundo romance, que muitas vezes ele pode ser um passo em falso mesmo numa carreira posteriormente  bem-sucedida. Portanto, fica em aberto se Tatiana Salem Levy vai seguir o caminho fecundo, ainda que difícil, da sua estréia, ou vai capitular de vez rumo às falsidades oportunistas (pois convenientes à sua “pose” entojadinha ou portadora de anorexia espiritual) delineadas por esse seu segundo (e mero) “exercício” romanesco. Talvez dependa das ondas zombeteiras. Mas que não dependa das Marie-Anges da vida, por favor !


[1] Gosto do personagem da mãe, da narração das verdadeiras viagens que são as visitas da avó e do pai dos protagonistas ao presídio da Ilha Grande, onde está preso o tio por motivos políticos; gosto também da descrição da intimidade física entre os irmãos.

QUESTÃO DE GÊNERO: O “Inferno Provisório” de Luiz Ruffato

“O  todo          igual para todos          destino uno

para o justo e para o iníquo

para o bom          e para o puro e para o impuro

e para quem oferenda

e para aquele           que não faz oferendas

Tanto o bom           quanto o que peca

quem jurou

igual           a quem refugou o juramento

 

Eis o mal          em tudo o que é feito           sob o sol

pois é um o destino           para todos

E também no coração dos filhos do homem

infla-se o mal          e a loucura no seu coração

enquanto vivos

e o após de cada um          junto aos mortos

 

Pois aquele          que se vincula

ao todo dos viventes          segura-se à esperança

Pois cachorro vivo          é melhor

que leão            morto”

(Qohélet-O-que-sabe, o Eclesiastes, na versão de Haroldo de Campos)

“Por volta das nove horas, encorajando-se, rumou para a MG-285. O farol do Gol varria o matagal que abraçava a estreita faixa de asfalto. Milhares de estrelas ardem o breu da noite. Em breve, numa curva, o rio Pomba se entremostraria, indolente, e Cataguases, precários favos cinza mal iluminados, emergiria, açulando recordações. Trepado na garupeira da bicicleta do Toninho, o vento cálido acaricia seu rosto… A mão macia da Júlia conduz o espanto das letras no caderno-de-caligrafia… A volta na Kombi do Armazém do Lino, que o Lalado entregava compras, a molecada hidrófoba… A mãe, cheiro de querosene do fogareiro vermelho na tarde excluída do tempo… A viagem com o pai para São Paulo, uma semana cravada em seu coração simples, a certeza de que, a partir de então, Cataguases afundaria, lenta e inexoravelmente, numa terrível agonia, até morrer  um dia, agora talvez, quando, sorrateiro, corta a cidade deserta…”  (Luiz Ruffato, Domingos sem Deus)

(a resenha abaixo é uma versão ampliada da publicada em A TRIBUNA de Santos, em 22 de novembro de 2011):

Domingos sem Deus encerra a série Inferno Provisório, iniciada em 2005.  Seu criador, Luiz Ruffato, afirma que é um painel romanesco. É direito dele classificar como quiser seu projeto. Eu me permito—como leitor—discordar: a categorização como romances, o excesso de títulos, subtítulos, epígrafes e dedicatórias prejudicaram cinco típicos livros de contos e novelas (mesmo se levando em conta a recorrência de personagens), que seriam melhor avaliados sem essa pirotecnia editorial toda. Imagine se Dalton Trevisan decretasse que cada uma das suas coletâneas é parte de um romance em progresso. De qualquer forma, os textos emperiquitados das orelhas  e certos comentários sobre a série me fazem crer que Ruffato embrulhou bonitinho seu peixe para fazer as delícias e delírios do povo do mundo acadêmico, onde estudarão os “jogos semióticos” e os palimpsestos contidos nos cinco volumes. Mesmo sabendo que o romance é um gênero-terreno baldio que aceita tudo, é muita forçação de barra.

O mesmo se pode dizer da intenção que moveu a escritura de Inferno Provisório. O autor mineiro tem enfatizado se tratar de um resgate da história do proletariado brasileiro no último meio século, sem o maniqueísmo ideológico de praxe, e com uma linguagem inovadora, não-naturalista. Ora, ora. O que eu vi sempre, oculto sob as dobras de veleidades tipográficas maçantes[1], foi um ótimo escritor tradicional, de veia realista (e não há problema nenhum nisso), que continua a tradição dos escritores católicos (Otto Lara Rezende, Gustavo Corção) ou dos injustamente esquecidos mestres da sondagem psicológica, como João Alphonsus ou Antonio Olavo Pereira. Não é inovação, é a posse de uma memória afetiva, de uma ambientação, de um miasma próprio e autêntico, e muitos recursos expressivos para trazê-los à tona.

No saldo final, dos cinco volumes apenas o segundo, O mundo inimigo (2005), me parece totalmente bem realizado, Mamma, son tanto Felice (2005) e Vista parcial da noite (2006) apresentam altos e baixos gritantes, e O livro das impossibilidades (2008) vale basicamente por uma das suas três histórias, a última (“Zezé e Dinim”), muito superior às outras duas, não obstante as irritantes e desnecessárias firulas tipográficas que me lembram o pior lado de Cortázar (por exemplo, no Jogo da Amarelinha aquele tipo de capítulo frívolo onde se lia uma linha sim, outra não…).

Domingos sem Deus é o mais fraco do conjunto, o mais decepcionante, sem comparação. Ele apresenta seis histórias. É sempre a mesma coisa na maioria delas; pega-se um personagem num momento “presente” (a série não ultrapassa 2002, permanecendo na soleira do governo Lula) e a partir daí se reconstitui o passado (às vezes num estilo “relatório” monocórdio muito chato), sempre com a perda da referência (a região rural de Rodeiro, a cidade de Cataguases, em Minas, como ponto de passagem do rural para o operário e o lúmpen, e as fugas para os grandes centros: Rio, São Paulo, o ABC), imposta ou almejada, os vínculos familiares desfeitos, os sonhos frustrados, a criminalização cada vez maior de parte da sociedade, o aburguesamento caracterizado pelo consumo e pelos eletrônicos de ponta…

Vemos isso em “Trens”, “Sorte teve a Sandra”, “Outra fábula” (de onde tirei a epígrafe acima, e que seria uma espécie de ponto-de-fuga da série, atando as pontas com a primeira história de Mamma, son tanto felice. “Uma fábula”, que nos apresenta o mundo rústico de Rodeiro de forma brutal[2], e em “Mirim”, a fotografia de formatura da quarta série é o que dá a um velho num asilo o sentimento de ter existido, por isso é o melhor momento da sua vida”.

O ponto alto da coletânea, no entanto, é “Milagres”, uma das melhores coisas que Ruffato já escreveu: uma família relativamente próspera, em viagem (os pais tiveram que chantagear os filhos adolescentes com presentes caros), tem de fazer uma parada para consertar um pneu rasgado, e o borracheiro conta ao pai a sua trajetória de vida, como foi parar ali naquele fim de mundo. Aquela famosa dicotomia dos “dois brasis” dialoga em poucas e notáveis páginas, prova de que Ruffato é um escritor de grande talento que está desperdiçando seu vigor em grifes estilosas. O desfile pode ser chique, mas não muda a qualidade do tecido ou do material usado.


[1]  O leitor do meu blog talvez estranhe tal afirmação, uma vez que há alguma semanas elogiei a exuberância tipográfica de Minha irmã, meu amor, de Joyce Carol Oates. Só que, ali, fazia todo o sentido, e era expressão da personalidade-performance do narrador, Skyler Rampike (assim como tais recursos fazem sentido em Sterne ou Machado). Na maior parte das vezes, a meu ver, os recursos tipográficos aplicados em INFERNO PROVISÓRIO são gratuitos e inúteis, e me fazem lembrar maldosamente de um comentário de Ernesto Sábato (em O escritor e seus fantasmas). Sem ter o texto à mão, o argentino afirmava mais ou menos o seguinte, sobre Joyce e seus “seguidores”: o sujeito inventa o boeing e os demais se preocupam em mudar o tamanho das janelinhas, a melhoria dos assentos, a posição dos cinzeiros etc.

Embora Ruffato tenha realmente experimentado com êxito uma narrativa heterodoxa e multifacetada em Eles eram muitos cavalos, uma das mais importantes obras da ficção nacional recente e que está completando dez anos.

[2] “Na tarde em que avistou, do alto do estreito caminho que, abandonando a estrada de chão que liga Rodeiro à Serra da Onça, levava àquele fundo de grotão, a casa seis-cômodos náufraga no fundo da perambeira, a ampulheta da vida de Chiara Bicio, a Micheletta velha, inverteu-se: ela começou a morrer. E esgotou-se hora a hora, a saúde murchando na sangria estúpida de partos, e o juízo escapando por entre as fímbrias das úmidas árvores que uivavam nas noites intermináveis. De começo, pensava, pelo menos a visitaria a família, mas, desatinou, o Pai rompeu com os Bicio, assenhorando-se de que parente nenhum viria rondar coisas suas, algemando-a nos cordões umbilicais de gravidezes sem-fim, largando-a desamparada, minguando num quarto de portas e janelas trameladas por fora, de onde saiu, trinta e cinco anos, rija, enrolada numa toalha-de-mesa, tão pássara que até o vento insistia em carinhá-la em sua derradeira viagem de carro-de-boi cantador até a Igreja de São Sebastião, quando, para comparecer decente à missa de corpo-presente, vestiram-na em madeira…”

   

            ***********************************************

 REMORSOS E RANCORES- antologia de trechos de “Inferno Provisório“:
“Seu Zé Pinto, com a desculpa de aprumar uma parede que ameaçava desabar, empurrou Dusanjos para um dois-cômodos, nos fundos do beco, na verdade temeroso até de que não desse conta de pagar o aluguel. Mas ela havia tomado uma resolução: não era justo para o José Batista que continuasse assim, amofinada, morta-viva. Voltou à lavagem de roupas, passou a dar pensão-de-comida para duas mulheres da Ilha, pegou um capado para criar à-meia. Mas, quando o beco submergia na noite, não conseguia pregar os olhos. Ouvia o cricri dos grilos, o coaxar dos sapos, o barulho das corredeiras, e de novo era menina-moça deitada no colchão-de-pena a sonhar outra vida, longe da lavoura que detestava, que engrossava suas mãos pretas de enrolar fumo, nunca arranjaria um namorado assim, a planta dos pés esgravatada, meu deus, a mesma tristeza, a mesma sensação de abandono, se ao menos soubesse,  tivesse certeza do que aconteceu, mas não, ninguém sabia de nada, acordava, passos lá fora, É ele! O coração disparava, alguma porta abria, o silêncio, a solidão, horas em que achava que estava ficando louca, podia ´sentir´ a presença do Donato, ele chegando à tardinha, encostando a bicicleta na sala, sentado no banco da cozinha e falando Dusanjos, ó Dusanjos, ela vinha, enchia a bacia de alumínio com água temperada, ele perguntava, enquanto tirava o conga, E o menino, Dusanjos?, ela se abaixava para lavar seus pés, Passou bem o dia, só quer saber de mamar. Esse menino!, ele comentava, ensaboando as mãos e o rosto. Ah, queria morrer e não queria.  Onde estaria ele agora? Deus, acaba logo com essa agonia!” (Mamma, son tanto felice)

Segundo Ruffato, em Mamma, son tanto Felice ele incorporou textos de dois livros anteriores (que eu não li), Histórias de remorsos e rancores e (os sobreviventes). Dos seis contos que compõem o primeiro volume de Inferno Provisório, escolhi um trecho de “O alemão e a puria”.

“Vanin sentiu um calafrio. E agora? Tramelou a porta, tirou os sapatos, deitou na cama. Ia sentir falta daquela gente, ah, ia. E das telhas pretas de fumaça, da cumeeira cheia de picumã, do barulho das corredeiras do rio Pomba, dos passarinhos (Preciso trocar a água e o alpiste deles, não posso esquecer), da bicicleta, da… da Zazá. Em cima da penteadeira, o retrato deles dois, dia do casamento, ela sorrindo, parecia tão feliz, ele sério, preocupado. Meu deus, é certo o que estou fazendo? Ah, mas logo logo, se tudo corresse direito, voltaria. Chamaria o Ditão e o Ditinho, o Natanael e a Mariinha, o Zico e o Zeca, fariam uma serenata para a Zazá, traria um monte de presentes, um vestido novo, um par de sapato, perfume, uma noite inesquecível! Olha o Vanin aí, Zazá, como está diferente o danado… Peste ruim! Desgraçado! Ih, lá vem a Zazá com aquele nervosismo. Sai, sai. Não, ela ia adorar, um monte de gente tocando violão, cantando só pra ela, quem não gosta?, quem? A Zazá ia ficar fula da vida, pegar um caldeirão de água fervendo e jogar em todo mundo. Que gênio, essa mulher, que gênio! Adormeceu.

 

    Ansioso, comprou passagem, cedo ainda, tentou se distrair olhando a televisão da rodoviária, tomou um café, dois. Na bolsa, duas mudas de roupa, o violão a tiracolo. Três vezes perguntou se demorava muito ainda. Queria entrar, dormir, acabar logo com aquela agonia. E se a Zazá aparecer aqui? Nossa senhora, vai ser um deus-nos-acuda! Deus me livre! Suor nas mãos, as pernas vara verde. Mastigou um pacote de biscoito-maria, andou de um lado para o outro, pensou em tirar uns acordes, os dedos duros.

   O ônibus encostou, a porta abriu, Vanin percorreu afoito o corredor, observando a fisionomia de cada um, ninguém conhecido, Graças a Deus, sentou, o motor roncou. Ê meu povo, vou embora, adeus!, as luzes se apagaram, atravessou a Ponte Nova, cortou a Vila Minalda, Meu deus, o quê que estou fazendo?, pegou a estrada rumo à Leopoldina, Cataguases sumiu atrás dos morros, o breu da noite, vontade de levantar, falar para o motorista que tinha esquecido os documentos em casa,  Vê se pode, não sei onde estou com a cabeça, pode parar aí mesmo, seguir viagem, tem problema não, e descer, voltar no beco, conversar com o seu Zé Pinto, Vamos esquecer aquele negócio, seu Zé, pensei melhor, bobagem minha, ele ia entender, seu corpo não se mexeu, Meu deus, a Zazá vai querer me matar…

   No meio da escuridão o ônibus engolindo o asfalto.”

              (O mundo inimigo)

Assim como o anterior, segundo o autor, há o reaproveitamento de textos de Histórias de remorsos e rancores e (os sobreviventes). Dos doze contos de O mundo inimigo, escolhi um trecho de “A decisão”.

“O delegado, doutor Aníbal Resende, apertou a mão do meu pai (camarada) Obrigado, seu Sebastião, por ter aceitado o nosso convite. Isso só me dar mais convicção de que se trata de um grande equívoco… e é o que, aliás, nós vamos esclarecer agora… (acende um cigarro) Pode se sentar, seu Sebastião, fique à vontade. Bom, pra não me estender muito, seu Sebastião, vamos direto ao ponto:  (irônico, a voz alterada) Que raio de história é essa que o senhor anda espalhando por aí, seu Sebastião, de que Cataguases vai ser invadida pelos alemães? Quem foi que inventou uma besteira tão grande, seu Sebastião? (compreensivo, a voz mais baixa) Seu Sebastião, deixe-me explicar uma coisa para o senhor: o senhor, a sua família, são pessoas de bem, conhecidos, ordeiros, cumpridores do dever, todo mundo sabe… Agora, o senhor já ouviu falar dos comunistas? (didático) Existe em nosso país gente que quer implantar o terror, irmão matando irmão, (a voz amplifica-se, o suor escorre da testa) (As mãos gesticulam, teatrais) quer ver o Brasil nas mãos dos comunistas, da Rússia!, seu Sebastião, da Rússia!, onde os valores cristãos  de nada valem, onde os homens dividem as mulheres com os amigos, as filhas dormem com os pais, os padres são enforcados por pura diversão, onde não há lei, onde reinam a anarquia, a bagunça, a perdição… (gritando) São esses comunistas, seu Sebastião, que divulgam notícias como a que o senhor anda espalhando, com o objetivo de provocar o pânico, a desordem, a desconfiança… (esmurra a mesa) (Levanta-se, acende outro cigarro, acalma-se) Seu Sebastião… seu Sebastião…deixe-me fazer uma pergunta pro senhor e queria que  o senhor me respondesse com toda sinceridade: (fixa seus olhos nos olhos do meu pai) Seu Sebastião, o senhor conhece algum comunista? Já viu um? Não? O senhor sabe quem é comunista? Não? (Senta-se, limpa o rosto com um lenço, enfia-o de novo no bolso de trás da calça) (sarcástico) Nem nós, seu Sebastião… Nem nós, da polícia… Sabe por quê? Porque comunista não traz isso escrito na testa… Como posso ter certeza de que o senhor, seu Sebastião, não é comunista, se o senhor está agindo como um? Bom, então vamos da um voto de confiança pro senhor, seu Sebastião. (autoritário). Agora, a partir de hoje o senhor está proibido, proibido, entendeu?, de abrir a boca pra falar sobre isso. Proibido! Outra coisa: vamos confiscar, temporariamente apenas, todos os aparelhos de rádio e televisão que o senhor possua em casa… (gritando) Eu não tenho nada com isso! Se o senhor ainda está pagando a televisão, problema seu! Estou sendo seu amigo, seu Sebastião, não sei se o senhor percebeu? (Acende mais um cigarro pega um papelzinho na gaveta) (a voz mais mansa, confidente) O senhor tem um filho… Reginaldo?, Reginaldo… tinha um tio meu que chamava Reginaldo… Bom, o Reginaldo trabalha na Manufatora, não é mesmo? E tem uma filha… Mirtes… a Mirtes trabalha na sala-de-pano da Industrial?, belo emprego, heim, seu Sebastião?, belo emprego! Os filhos bem-encaminhados, graças a Deus… (camarada) Pois é, e tem gente que jura que o senhor é comunista, só pra ver os seus filhos serem mandados embora, só pra ver a família do senhor passando dificuldades… Que mundo, esse, seu Sebastião, que mundo! (amigo) Ah, não esquece  de levar o menino no psiquiatra, como recomendou o professor Guaraciaba…” (Vista parcial da noite)

Dos onze contos de Vista parcial da noite, escolhi um trecho de “O ataque”.

“__ Era? Caralho, Zezé, você lembra de cada coisa!

(pausa)

Dinim: Como você lembra dessas coisas?

Zezé: Eu lembro de tudo…

__ De tudo?

__De tudo…

__ Eu não lembro de porra nenhuma…

__ Bom pra você…

__ Bom?

__ É

__ Por quê, bom?

__ Pelo menos assim você não sofre…

__ Não sofro?

__ Eu lembro de tudo… E isso machuca a gente… Eu lembro da primeira chinelada que a minha mãe, coitada, deu na minha bunda… Eu lembro quando eu vi uma mulher pelada lá na Ilha, lembra da Ilha? Lembro de todas as vezes que neguim olhou pra mim com desprezo, aqui, no Rio… E da régua que a dona Ângela, nossa professora no quarto ano, quebrou na minha cabeça, Ô criolim burro!, ela falou, a sala inteira rindo… E da tabuada que ganhei uma vez, toda despedaçada… arrumei com durex, encapei ela… E tudo… um monte de coisas… (pausa) Por isso que eu digo, feliz é você, que não lembra de nada…

(pausa)

Dinim: É… você lembra… eu penso… Toda noite eu não consigo dormir… Na minha cabeça fica martelando que eu tomei o caminho errado, que eu desviei em algum lugar… E que não tem mais jeito… E que eu estou fodido… E que todo mundo que fica perto de mim se fode…

(pausa)

Dinim: Pra nós não tem saída, cara, não tem…

Zezé? Do que você está falando, cara?

__ Porra, Zezé, só durmo na base de Valium, tenho úlcera no estômago, colesterol alto, pressão alta, estou gordo, fumo pra caralho, bebo pra caralho, cheiro pra caralho… (pausa)… Velho, cara… me sinto um velho… E estou com trinta e cinco anos, você também, não é?, trinta e cinco anos…

(pausa)

Dinim: Cara, todo dia penso numa solução… todo dia…

Zezé: Que solução?

__ Não sei… ainda… Mas tem que ter alguma…”

(O livro das impossibilidades)

   Segundo Ruffato, foi reaproveitada nesse quarto volume de Inferno Provisório uma das histórias de (os sobreviventes). Dos três contos longos (dois podem ser considerados novelas), escolhi um trecho de “Zezé e Dinim”.

“Eu estou aqui há mais de trinta anos… Uma vida…E foi por acaso que vim pra cá, acredita? Puro acaso… Eu tinha dezoito, dezenove anos, a roça não dava mais sustento pra todo mundo, a gente estava passando um aperto danado, aí meu irmão Valério mudou pra Ubá, conseguiu emprego numa fábrica de móveis e acabou me carregando com ele. A gente morava nos fundos da casa da dona Maria Bicio, de uma família conhecida nossa lá de Rodeiro. Eu arrumei trabalho numa oficina de lanternagem, aprendiz de pintor, e as coisas iam encaminhando bem. Aí comecei a sair com a filha caçula da dona Maria. A Arlete andava com todo mundo, tinha uns quinze anos, mas era muito avançada, ela, assim, facilitava bastante, não sei se entende… E vai que um dia ela apareceu grávida e começou a me pressionar pra assumir o filho. Sinceramente não sei se era verdade ou não, mas meu irmão me convenceu de não casar com ela de jeito nenhum, ele falava que ela era uma vagabunda e que ia me botar chifre com a cidade inteira, e que todo mundo ia rir da minha cara, porque eu era um ingênuo, um capiau… Eu fiquei intimidado, outra época, outros costumes, isso dava cadeia, dava morte… Aí a Arlete amarrou uns panos na cintura e escondeu o inchaço até não poder mais. E no dia que ela desmaiou na rua, e descobriram tudo, fugi pro Rio de Janeiro. Fiquei lá um ano, morrendo de medo, sem contato com ninguém… Achava que logo-logo o episódio ia ser esquecido, e as coisas voltavam aos eixos. Mas…

    Nilo, as mãos suadas, esticava as pernas, agitado.

__ Eu trabalhava num restaurante, de garçom, e uma noite, voltando pra pensão, em Guadalupe, cismei que tinha um sujeito me seguindo, e a partir daí perdi a razão, minha vida virou um inferno, passei a achar que todas as pessoas sabiam da minha falta, me olhavam e me condenavam, não conseguia mais comer, nem dormir, e a situação ficou tão insuportável que um dia, desesperado, desci na rodoviária só com os documentos e a roupa do corpo, e comprei passagem pro primeiro ônibus de saída. Arranchei em Feira de Santana uns meses, sobrevivendo de biscate, até que conheci um rapaz, gerente desse posto, já até morreu, coitado, que Deus o tenha!, que perguntou se não queria tocar uma borracharia aqui… No começo ainda imaginei, escondo uns tempos, espero a poeira baixar, volto, mas me sentia um covarde, decepcionei minha família, envergonhei a família de Arlete, falta de cabeça, quando a gente é jovem faz umas besteiras, depois não tem como ajeitar. Aí vai ficando, ficando… me acomodei…

    Cabeludo levantou. Nilo caminhou apressado rumo ao Siena preto.

__ O resto é o que está vendo… Ninguém me incomoda, não incomodo ninguém…” (Domingos sem Deus)

Dos seis contos de Domingos sem Deus, escolhi um trecho de “Milagres”.

 

Cinquenta tons de fúksia

 “Se não é capaz de escrever um romance, que não o escreva…”

  Se o título Procura do romance fosse de Nora Roberts, ou nos vários tons a percorrer o espectro do rosa ao cinza, de suas similares, a heroína procuraria o romance amoroso, o final feliz.

Há uma outra forma de imaturidade  fetichista da qual Procura do romance parece ser o epítome: enquanto há mocinhas e mulheres maduras que anelam pelo amor verdadeiro, há homens, mais jovens ou mais maduros, cujo gozo é a metalinguagem, a ficção autorreferente (que encontra  bastante eco nos prêmios literários, assim como a literatura à Nora Roberts encontra sua realização na lista dos mais vendidos; o mercado divide bem a esfera dos desejos, e só  nós, que queremos ser “leitores de verdade, autênticos” somos bobos, no final das contas).

A procura de romance, nesse caso, é a procura do gênero literário: dado o diagnóstico-ladainha constante de que o romance morreu, é preciso resignar-se aos jogos intertextuais, na esfera do que se denominou recentemente de “literatura exigente”, aquela que pressupõe um Sujeito moribundo, um foco narrativo (des)enraizado na desconfiança, fazendo tabula rasa do psicológico, do biográfico, da “realidade”.

Assim, o livro de Julián Fuks pode ser tomado como o 50 tons de cinza (se não for, seguindo a sugestão genial de Diogo Ávares, 50 tons de fúcsia) da metanarrativa. Como brincou uma amiga minha, quando lhe enviei trechos, dos quais rimos muito, ele é um típico exemplar dos “escritores-promissores-contemporâneos-urbanos-globalizados-deslocalizados-umbiguistas-autoficcionistas-grantistas”, ufa!

Mas seria injusto dizer que Fuks em seu livro procede como aqueles escritores que vão passar um mês em qualquer lugar do mundo, ou uma temporada na, digamos, Mongólia, e fazem questão de mostrar em seus livros  (pois há sempre livros, mesmo com o  gênero moribundo, porque afinal há prêmios e bolsas) que não vão falar do lugar, que vão ignorá-lo, e que ele é um palco como qualquer outro seria para o exercício da linguagem.

No caso de Procura do romance o Espaço é bem circunscrito: seu protagonista, embora brasileiro, é filho de argentinos, e até chegou a morar por alguns anos (à época da infância) num apartamento em Buenos Aires, para o qual volta, com o intuito de escrever um romance, embora seja um “homem neutro” e não haja assunto para tal empreendimento: q ue poderia ser proustiano, pois há a lembrança das carências quando menino, beijos maternos,  terrores infantis; que poderia ser cortazariano, pois há jogos sutis entretecidos entre o protagonista e uma moça desconhecida numa visita a uma exposição de Picasso; que poderia enveredar pelo fantástico do tipo kafkiano e borgiano, com alguns elementos insólitos a quebrar a rotina; que poderia ser joyceano ou woolfiano ao dar relevância a elementos outrora considerado irrrelevantes do cotidiano; só que todas essas possíveis veredas já magnificamente exploradas pela ficção romanesca no seu auge modernista são contrariadas, canceladas, truncadas. Procura-se o romance, não se chega a ele. Retomando a citação que abre este meu fúcsio comentário:

“Se não é capaz de escrever um romance, que não o escreva, mas que ao menos guarde consigo a evidência do seu empenho [permitam-me: !!!!????}, o montante de sua contribuição ao mundo das letras, sua espera fixada no tempo, sua promessa em perpétuo adiamento, seu livro por vir, se ainda lhe vale a soberba.

E com sua mirrada resma alinhada às pressas e apertada junto às costelas, parte o homem sem mais delongas até a porta da frente…”  E mais adiante: “…engole a própria náusea, assume a angústia e compreende que as paredes que o circundam serão para sempre o cenário autêntico não de uma perda, mas de uma derrota, ingente e desprezível a um só tempo, eloquente e indizível a um só tempo, uma derrota que, se não o justifica ante os outros, ao menos o devolve aos limites de si mesmo…”  Creio que, no fundo, lá no fundinho, tais  “limites” são ilimitados e ilimitáveis.

São 142 páginas nessa toada. É chocante constatar que Fuks caiu no ridículo de escrever tal besteira beirando os 30 anos. Se ele tivesse 18, apesar de chatinho, seria mais justificado. Aos 30 anos, parece uma empulhação tamanha que me dá preguiça até de percorrer seus 16 capítulos, como  faço habitualmente para o meu leitor ter uma ideia clara da obra que estou comentando.

Fuks escreve com um traquejo que se assemelha àtradução ruim de um original argentino. Nem isso ele conseguiu: poderia ser uma experiência legítima de linguagem, a  junção de duas línguas, tal como fez Junot Díaz no ótimo A breve e maravilhosa vida de Oscar Wao. Infelizmente, parece que basta procurar o romance, não se precisa encontrá-lo.

Vou me limitar a transcrever alguns trechos “preciosos ridículos”, que fizeram a festa para mim e alguns amigos, que os saboreamos muito,  variando do presunçoso ao mais-que-batido ou à reinvenção da roda made in “literatura exigente”:

Vejam, seu protagonista não lê um livro apenas: “AS RETINAS VÃO SE MACULANDO DE TODOS AQUELES INCONTÁVEIS SINAIS GRÁFICOS    (deve ser aquela coisa toda de “literatura e cegueira”).                   ;

Chove? não, é claro, caem ‘AS GOTÍCULAS DO LÍQUIDO NATURAL DESPEJADO .

“NÃO ME PREOCUPO EM ABRIR AS JANELAS E ATINAR COM O MUNDO, PORQUE NÃO PARECE HAVER NO MUNDO NADA QUE POSSA ME INTERESSAR

E ainda o acusaram de ser:   “UM SUJEITO AUTO-CENTRADO, UM EGÓLATRA“!!!???

E numa livraria (onde mais?) ele sonha: “SITUAR SEU INOMINADO PROTAGONISTA E ENTREGÁ-LO A SEU HABITUAL SOLILÓQUI DE DEVANEIOS MEDITADOS À EXAUSTÃO, QUIÇÁ ESSE SUJEITO–SE ESCRITOR– COGITANDO A POSSIBILIDADE DE SITUAR SEU RESPECTIVO PROTAGONISTA NAS MESMAS CONDIÇÕES E ENTREGÁ-LO A OUTROS–OU OS MESMOS–DEVANEIOS MEDITADOS À EXAUSTÃO”

Num ônibus, trocando frases com outros passageiros: “… embora tenha julgado que naquele torvelinho de amenidades e frases feitas devia se esconder um sem-número de verdades mundanas de indubitável valor para aqueles que se propõem a abarcar o mundo em suas histórias, e tenha lamentado sua própria incapacidade de prestar atenção nelas por mais de alguns mesquinhos segundos…”

 “Mas, novo mal que se anuncia, terá também passado a era de matizar abatimentos, terá sido a melancolia sucedida por uma prostração irredimível? E, se assim for, caberá a escritor e artista dar conta exclusiva do vazio, fazer da tinta que macula a tela gotículas ínfimas de vácuo?”

“Não pode, não poderia [ mas deveria, se tivesse simancol] , não seria de seu feitio arremeter o corpo contra a janela obstrutiva, estilhaçando vidro e pele e ossos na malograda tentativa de atravessar o espaço intransponível—de vidas e narrativas trágicas já parecemos exauridos…” …”

“…e agora Sebastián caminha pela antiga calle Serrano, agora Jorge Luis Borges, já bastante distanciado do lugar que estipulou consigo mesmo chamar de seu apartamento ou sua casa, não sem consciência mas ao menos esquecido, abstraído ou desatento ao fato de que é Sebastián e de que caminha pela calle Borges já bastante distanciado do lugar que estipulou chamar de casa…”

“Sente-se bem, e esse sentir-se bem, pensa, parece não se concentrar na região do encéfalo, parece não se constituir de meras sinapses entre os neurônios superiores desligados das demais células, pelo contrário, pensa sem tentar fraguar um discurso claro ou encontrar as palavras certas, sentir-se bem é algo que se irradia espinha abaixo entre as vértebras e pelos tramos do sistema nervoso, algo que se expande da medula aos demais órgãos e acaba por lhes conferir uma inesperada unidade, a unidade de seu ser, um ser que por complexos trâmites internos caminha em ritmo constante sem dar a ver as mil engrenagens necessárias ao processo, revelando-se tão somente em sua superfície de ser e com sua superfície elidindo sua natureza infinitamente fragmentária…”

 

O meu trecho favorito: “Não, prossegue em seu caminho e se indaga em questionamentos erráticos, por que esse impulso de roubar para o texto o que é da vida, de converter em ficção o que a ficção não comporta, por que quer brindar seu personagem ou o personagem de seu personagem com essa manifestação patente de voluptuoso acaso quando poderia guardar para si e só para si essa volúpia…”

O narrador fuksiano não precisa se preocupar. Da vida, no seu texto, ele não tirou nada. Só o nosso tempo. A não ser que pensemos nas 200  mil pilas que ele pode amealhar com essa abobrinha no dia 24 de setembro, caso venha a ganhar o Prêmio São Paulo de literatura 2012. Será a abobrinha mais cara da história. Quem disse que a “literatura exigente” não pode ser um bom investimento?

(escrito para o blog em setembro de 2012)

O conforto do acanhamento e as promessas do breu: “O estranho no corredor”, de Chico Lopes

VER TAMBÉM NO BLOG:

 

https://armonte.wordpress.com/2012/03/17/onde-os-fracos-nao-tem-vez/

 

https://armonte.wordpress.com/2012/03/17/destaque-do-blog-hospedes-do-vento-de-chico-lopes/

https://armonte.wordpress.com/2012/05/13/15-destaques-de-2010/

 

 

Preâmbulo

“Achara um  de seus triunfos na vida da cidade, nos primeiros dias de adaptação, o ter conseguido orientar-se sozinho, com os nomes de bairros e números de linhas dos circulares e, alegre, com algum dinheiro para gastar, percorrer muitos trajetos, retornando sempre ao terminal no centro, feito fosse sempre necessário isso—os círculos bem descritos, as referências precisas—para que, aos poucos fosse se apossando do novo território. Daí, tempos depois, já tinha um ar blasé à janelinha, olhando a movimentação urbana como se fosse parte trivial de sua vida, como personagem de filme rodado em metrópole, superior, senhor de si, intimamente alegre como um moleque no domínio de uma engrenagem que, na verdade, inspira medo e pode, a qualquer momento, apresentar imprevistos foram de controle. Assim, precisava não demonstrar ansiedade, não queria que o considerassem caipira e, portanto, não tomava informações,  perdendo-se numa rua e outra, enganando-se de rota, corrigindo-se, sem nunca rebaixar-se, com tremores que não queria que ficassem visíveis; empenharia todos os seus esforços no sentido que a cidade lhe ficasse natural, insensível até, como se morasse ali há muito tempo, mesmo como se tivesse nascido nela…”

Assim como o seu protagonista (não nomeado) arriscou-se a sair do interior para viver na capital, o autor de O estranho no corredor(edição da 34), Chico Lopes,  após três fortes, densos e sobretudo coesos volumes de contos (Nó de sombras; Dobras da noite; Hóspedes do vento) arriscou-se num território mais amplo: a narrativa longa, mais espraiada, embora ainda dentro de certos limites, pois ele exercitou suas forças naquela forma que chamamos de novela e que sempre é caracterizada algo confusamente. Para nossos objetivos imediatos neste texto, basta considerá-la—confortavelmente, sem maiores ilações quanto à imprecisão da fórmula—como a forma intermediária entre o conto e o romance.

O curioso é que Lopes se valeu nesta sua novela de um mote que é característico do  romanção realista à la século XIX, em sua matriz balzaquiana (ou mesmo dickenseniana): o provinciano que enfrenta a metrópole, e que ali tem triturada suas “ilusões” (se pensarmos bem, até em Crime e castigo o mote se faz presente). Por essa perspectiva, considerando a trajetória do “herói” (se utilizarmos tal epíteto no sentido de Northrop Frye quando caracteriza o  modo irônico, no qual o leitor tem a “sensação de olhar de cima uma cena de servidão, malogro ou absurdo”) de O estranho no corredor ela não difere muito do modelo: aliás, segue o mesmo arco do maravilhoso romance de Eça de Queiroz, A Capital!,  em que após ter as “ilusões perdidas”, o protagonista volta ao interior para lamber as feridas e encontrar um pouco de sentido na sua vida.

No entanto, Lopes não optou por escrever um “romanção”. A forma adotada por ele segue outra genealogia muito interessante no que tange à situação dramática que fornece o título e a tensão narrativa principal: um estranho que se posta desdenhosa e desafiadoramente frente ao protagonista, como se eles tivessem contas a ajustar, e que, malgrado essa atitude hostil, não se aproxima, não  fala com ele, e que ao fim e ao cabo determina suas ações (e seu recuo da capital para o interior).

Paralelamente ao “romanção” balzaquiano, o século XIX forneceu inúmeros exemplos de textos curtos que rompiam os limites do realismo, roçando o sobrenatural, sobrepujando o lógico, o racional, o psicologicamente compreensível à primeira vista. De Poe a Stevenson, de Hoffmann a Henry James, essa obsessão pelo “estranho” nos rendeu novelas que até hoje são alvo de interpretações diversas. Só para citar as mais óbvias, tivemos O homem da areia (Hoffmann), Sylvie (Nerval), Bartleby (Melville), William Wilson (Poe), O estranho caso do dr. Jekyll e do Sr. Hyde (Stevenson), A volta do parafuso (James), O Horla (Maupassant), sem falar em certas obras curtas de Dostoiévski, como O duplo ou Memórias do subsolo[1]; em todas elas, tocamos limites da condição humana que ainda servem como matrizes do imaginário ocidental capitalista (principalmente pós-Freud), acima mesmo das experiências formais dentro da ficção e das suas formas tradicionalmente estabelecidas.

Portanto, em O estranho no corredor dialogam o mote do romanção balzaquiano e a atmosfera das “narrativas derradeiras”. O que se pode perguntar é o que pode haver de derradeiro numa narrativa desse tipo, já um tanto tardia para o século XXI? Pois Chjco Lopes não é um autor experimental, inovador formalmente, ele se alinha às narrativas derradeiras via o intimismo, o viés psicológico de certa linha de ficção  introspectiva (muitas vezes, de raiz católica) que tivemos por aqui: João Alphonsus, Cornélio Penna, Lúcio Cardoso, Octavio de Faria, Antônio Olavo Pereira, Otto Lara Rezende, Rosário Fusco, Cyro dos Anjos, Gustavo  Corção (sem falar no Graciliano de Angústia)[2], e que hoje parece estar bastante esquecida, e  nos aparece como algo quase recôndito, ultrapassado. Será mesmo?

1.               Um  herói típico do nosso autor

“…não queria que o considerassem um caipira e, portanto, não tomava informações, perdendo-se numa rua e outra, enganando-se de rota, corrigindo-se, sem nunca rebaixar-se, com tremores que não queria que ficassem visíveis; empenharia todos os seus esforços no sentido de que a cidade lhe ficasse natural, insensível até, como se morasse ali há muito tempo, mesmo como se tivesse nascido nela e, para isso, era necessário, de algum modo, imitar personagens de alguns livrinhos de ação e policiais que lera quando menino, aqueles sujeitos que, sem perderem o cigarro no lábio, sem enrugarem um terno, sem entortarem uma gravata, andavam pelas ruas de Los Angeles, San Francisco ou New York com suas pastas e óculos escuros em direção a finalidades muito precisas. Imaginava que os portentos não tinham tampouco nenhuma indecisão, nenhum terror, ao chamarem um elevador, ao enfiarem-se numa galeria de inúmeras lojas, ao urinarem naquelas longas filas masculinas rapidamente organizadas e desfeitas em mictórios…”

    A continuação da citação do preâmbulo permite entrar no território Chico Lopes propriamente dito: como se pode ver, o provinciano de O estranho no corredor, apesar do seu quinhão de ingenuidade, está longe do herói da linhagem balzaquiana evocado por mim, devido à interposição de um ingrediente especificamente moderno: a ironia. Para ser bem entendido, a ironia, aqui neste passo,  reside no fato de que o personagem—assim como tantos outros da literatura a partir do modernismo—se movimenta por projeções: ele leu muito, e viu muito cinema (o que também é citado explicitamente ao longo do texto) e sempre há uma referência que torna certos atos, movimentos e decisões paródias do lido e do visto (é bem verdade, que no romanção do século XIX houve a projeção napoleônica, e sua reversibilidade também é irônica, mas tratava-se de um destino excepcional, fortemente calcado numa concepção épica do herói a que nenhuma projeção moderna pode recorrer a sério), no caso os protagonistas de romances de ação e de policiais.

O que eu quero apontar e é o que afasta o protagonista de O estranho no corredor do provinciano do romanção e o aproxima dos protagonistas das “narrativas derradeiras” é que, embora a metrópole em larga medida o desiluda, seu problema essencial já vem de antes, já veio com a bagagem do interior: sua—e para ele inexplicável—falta de requisitos para exercitar a virilidade, a presença máscula no mundo, o à-vontade dos heróis daqueles livros e filmes lidos e vistos e que ele vê nos homens da metrópole como via nos homens da sua cidadezinha, que permite que eles se postem nos mictórios sem complexo de inferioridade, sem a sensação de serem esmagados, aviltados e ridicularizados. Para ele, “papel de homem” quase vem a significar “papel no mundo”.

Para um sujeito assim, até mesmo a amizade com outro homem terá de ser ambígua e ameaçadora. E, de fato, seu único “amigo” na capital, Russo, um loser um tanto barrigudo, mas ainda boa-pinta para as mulheres, já é caracterizado  de saída com uma aura que contém esses dois adjetivos utilizados por mim (ambígua e ameaçadora):

“Fora na banheiro, quando o sujeito chegara para urinar perto e ele se virara, escondendo o óbvio, já inibido e incapaz de verter gotinha, furioso por estar tolhido e o intrometido achar isso engraçado. O filho da puta era risonho e se aproximara mais ainda, dando uns passos avante, encostando, fazendo-o recuar, mas havia o limite bem preciso de uma parede suja, esverdeada por infiltrações, e, parede, parede, parede, olhar acuado, garganta seca, urgia achar uma saída, fazer de conta que essa abordagem não era com ele—como se houvesse mais gente naquele canto mínimo onde, no máximo, mijavam dois—sem coragem para enfrentar esse desgraçado que tinha obviamente mais músculos que ele. Não tinha mais para onde fugir, apavorado,  como reagir, como repelir um vicioso determinado daquele jeito?  Quando acreditava que, literalmente, teria que erguer os braços, render-se e deixar que fizesse o que quisesse daquilo que ele escondera o quanto pudera esconder, o tipo começou a rir, descontroladamente, batendo em seu ombro, e garantindo que, rapaz, não precisava ter medo, era só uma brincadeira…”

Tema obsessivamente trabalhado nas coletâneas de contos que precederam a novela, essa questão da espectralização da virilidade, tornada esquálida e bruxuleante no protagonista, e uma espécie de entidade de pesadelo expressionista nos demais (“Todos sempre me pareciam maiores, mais desenvoltos, mais capazes de fazer coisas, fazê-las sem remorso, fazê-las com uma eficiência mortal, o que era, afinal, o seu dever de virilidade. Se eu me atrevesse, descobririam que eu não tinha jeito que eu era um impostor, que minhas imitações do tom, do porte, das atitudes do clube, não eram bem feitas, que eu não podia participar de seu código. Eu não tinha convicção necessária, eu não conseguia”) ganha um sombreamento mais rico e inquietante ao ser sobreposta ao confronto com os desafios da capital, mas acho que ganha sua dimensão maior na volta ao interior, quando então—como os personagens dostoievskianos—nosso herói passar a viver quase num “estado de vexame”. Mas não antecipemos.

Frustrado candidato a escritor, eternamente fiando e desfiando memórias da sua vida interiorana—e  mesmo nelas se ocultam perigos ( “…com frequência escrevia mais do que pretendia, enveredava pelo que não queria—alguém dentro dele, em desacordo com as idéias que queria claras, pegava-lhe a mão e o levava para outro caminho, para a proximidade, para a iminência  de revelações que sentia, pressentia funestas…”; ou, ainda: “Eram dias felizes, mas, quando me ponho a lembrá-los com mais cuidado, tenho medo da quantidade de coisas escuras que se movem por trás deles”), ele acaba reproduzindo no grande espaço da capital o círculo de giz da sua existência provinciana, como se caísse numa armadilha (até por causa da condição econômica): criado por uma tia severa e autoritária (que despojou a mãe e o pai dos seus direitos; este, por ser um beberrão imprestável e inoportuno, aquela por uma suposta perturbação mental), sempre muito protegido e com aquele tipo de comportamento dos muitos resguardados que eram chamados, na minha época de garoto, de “mariquinhas”, quando vai embora da cidade natal parece que é para não mais voltar (ele reluta em escrever para a tia, seu único elo afetivo, por assim dizer), e é inteligente como estratégia narrativa que esse momento—o da decisão de partida e a partida em si—nunca seja narrado, o que dá ao texto uma feição enrodilhada instigante.

Na cidade, após tentar alguns contatos da tia (muito tênues e desinteressados) e literários (escritores publicados com os quais mantinha uma “vaga correspondência” e que fogem do escritor provinciano como o diabo da cruz), consegue  um  empreguinho como professor (num bar perto da escola é que cultivará sua “amizade” com Russo). O pior de tudo é que reproduzirá com a senhora que lhe aluga um quarto, embora de forma mais melíflua, mais enviesada, não tão autoritária quanto a da tia, uma relação de guardiã, de censora das “tentações” do mundo.

E óbvio, com uma psicologia recalcada dessas, que o sexo é um assunto onipresente. Nem vou falar da repressão homoerótica, que acredito evidente nas citações anteriores, mas em nenhum outro aspecto a falta de horizontes é mais terrível, e todo aquele aspecto de perambulação pela cidade, mostrado na citação que abre este meu estudo, se mostra mais irrisório e deprimente. O mais que o nosso herói consegue é a masturbação em cinemas pornôs que já há vinte anos atrás chamávamos de “pulgueiros”, o que realça o teor furtivo da sua existência[3]. As duas únicas situações eróticas são tributárias da presença de Russo, e sombreadas por ela (uma “pre-sença” não no sentido heideggeriano, mas no  literal e físico, como veremos).

Há, primeiro, a ida a um puteiro, uma pensão, descrita com todos os signos da breguice brasileira imemorial, a estética “pinguim de geladeira”[4], e cuja dona, Neide, é meio que embeiçada com Russo, e onde o “teacher”—bêbado—experimenta uma desanimadora chupada:

“O esforço da mulher dera resultados, mas teve que suportar vê-la, tranquila, habituada, it para uma pia cuspir o que engolira, o som daquela cuspida lhe doía horrivelmente (…) um corpo de mulher assim à vontade, com o desprezo utilitário e frio que ela demonstrava ter pelo seu, lhe dava uma sensação estranha, como se fossem ambos peças de açougue, carne num necrotério (…) Era madrugada quando, perturbado, ganhou a rua, sem ter  visto mais que um relance de Russo e Neide nus, na cama, o quarto com a porta escancarada, pensou em chamar o amigo, que não o via nem o ouviria, e envergonhou-se um pouco de, dali, poder ver, muito claras, as suas nádegas que se erguiam e abaixavam, no ritmo da penetração…”

Note-se que, enquanto nosso herói representou um aspecto passivo do sexo, sendo chupado, Russo por contraste é visto em plena potência de penetração, e são suas “nádegas” em movimento que dominam a cena entrevista.

Depois, há uma visita ao edifício onde mora Russo, que lhe apresentara—no bar—Carla, mãe solteira e moradora no mesmo prédio, que também tem uma queda por ele, mas mantida na condição de “irmãzinha” (a quem pede préstimos e empréstimos, no entanto). Russo por várias vezes meio que empurrara o “teacher” e Carla na direção um do outro. Um dia, nosso herói resolve ir até o apartamento dela. O episódio, um dos melhores momentos de O estranho no corredor, começa com um dos raros momentos de tentativa de autoafirmação do personagem:

“Erguer-se, rebelar-se. Não era justo que fosse sempre assim, quase indiferenciado, quase um nada, no cômodo dos fundos, ou lá na frente, ao lado de dona Graça, assustado com o mundo, compartilhando os chás, as sessões da tarde, os discos. Procurou uma de suas melhores camisas, vestiu uma calça, engraxou cuidadosamente os sapatos. Possível ficar bonito, com essa cara, esses óculos? Carla devia ter achado algum encanto nele, se Russo insistia (…) Algumas modificações, e seria aceitável ao menos.”

Essa intenção “positiva” começa a se esboroar quando percebe que Russo não participará do jantar no apartamento de Carla e que não consegue ficar “à-vontade” com a moça (que oferece outro dos raros vislumbres de uma vida pessoal que não seja a do protagonista, nessa narrativa quase claustrofóbica de tanto emparedamento individual): “Melhor seria nunca ter saído de casa, arriscado essa visita que não tinha uma razão muito clara…”.  O encontro a sós entre os dois tem uma pungência notável, sem que o autor o realce com qualquer melodramaticidade ou excesso [5]. Carla oferece a oportunidade para que ele entenda o residual e arruinado sex appeal de Russo, quando ela diz: “Nenhum rumo na vida. E tão bonito…”:

“Ele tentou imaginar como uma mulher poderia achar Russo bonito, mas o amigo, sem nada que parecesse beleza no sentido mais imediato, tinha sem dúvida uma dessas masculinidades inteiras e compressoras, afirmativas e displicentes, que atraem e perpetuam desejos…”

A visita toma um rumo sexual, mas da forma mais inusitada. Carla se despe para o “teacher”:

“__Não quero.

__ Faça por ele. Como ele faria.

__ Não sou ele.

__ Não serei eu…”

No final, a visita acaba como uma homenagem à masculinidade do amigo ausente.

2.              O sóbrio “umheimlich” de Chico Lopes

Amalgamando todas essas experiências derrisórias da capital, e como se materializasse toda a rejeição (ou o desafio que ele não pode peitar) que ela proporciona ao herói, há a figura do “estranho no corredor”. Apesar da atmosfera fora do comum (em especial, na mensagem marcando um encontro “domingo, às onze horas”), com algo do Poe de William Wilson, Lopes com grande inteligência arquitetou esse aparecimento do estranho, do sinistro, na  acepção freudiana (o “umheimlich”, em sua interpretação de O homem da areia, de Hoffmann) de uma forma não-fantástica nem sobrenatural, e ainda sim inquietante e acuadora. Qualquer que seja a interpretação que se dê a esse estranho no corredor, ele representa momentos de auto-percepção, de desnudamento do próprio personagem principal, e com isso o autor de Nó de sombras ganha a parada da verossimilhança e do uso de um símbolo, pois ele não precisa justificar com nenhum mirabolante recurso narrativo ou com nenhum truque de efeito na intriga urdida por ele a presença desse estranho, e não precisa dar a ele uma forma definida ou definitiva, mantendo o mistério (tanto que me ocorreram várias possibilidades durante a leitura, todas plausíveis—como, por exemplo, a tia ter um daqueles relacionamentos sexuais tortuosos e furtivos com o pai dele, cuja entrada na casa é ostensivamente proibida–mas  nenhuma que se justifique impor ao leitor).

Antes de vê-lo, é possível que nosso herói o tenha ouvido na infância, na casa da tia (não por acaso, a evocação vem em seguida à lembrança de atividades masturbatórias—sempre cercadas de muita culpa, ainda mais com uma tia tão castradora, e que uma vez o pegara em flagrante contemplação incestuosa):

“Incomodava-o agora a lembrança da noite em que—quantos anos tinha?—tivera a certeza de que alguém andava de cá para lá, inquieto, no corredor que ligava quarto e sala. O homem, alguém que de modo algum poderia ou deveria estar ali, acabaria por bater à porta, pedir para entrar—ele não querendo, haveria arrombamento. Encolhia-se por completo na cama, à espera do que de pior fosse decidido, suando. Nada. Os passos, no entanto, continuavam. Tiravam-lhe o sono. Eram pesados, bem definidos—inequivocamente masculinos—e impacientes.

   Quando decidiu, no meio da madrugada, levantar e abrir a porta, acender a luz do corredor com quanta coragem desesperada fosse possível, já nada mais ouvia. Estava vazio. Não conseguia crer que tivesse apenas sonhado. Precisava entender. Esperou a noite seguinte, outra e mais outra. Aprendeu a conhecer os passos, distingui-los com precisão infalível dos da tia (…) Os do estranho tinham uma qualidade singular, uma como que musicalidade escura. Havia uma identidade precisa ali, no seu visitante, mas como poderia sair dos cobertores que o embrulhavam e eram insuficientes para aplacar a sua tremedeira? Para decifrar o enigma, precisaria arremeter-se nos momentos mais duros, quando os sons do corredor eram totalmente nítidos e produzidos por alguém ou algo presente de modo inegável. Mas era nesses momentos que queria, que precisava morrer. Toda essa indecisão acabou, a presença desapareceu, a tia tinha trazido o padre e benzido a casa inteira (…) e ele nunca dissera a ninguém de suas cismas e terrores…”

Aí se podem ver a ambiguidade da casa da tia (refúgio e lar, mas também lugar de “coisas escuras que se movem por detrás”) e a pusilanimidade que destitui o personagem do seu estatuto viril, e que vai afetá-lo pela vida afora.

Anos depois, já na capital, o ouvido se torna uma visão:

“Andava pelo centro quando algo soprou em seus ouvidos, com um pequeno arrepio que lhe chegou pelo lado esquerdo da cabeça, que precisava olhar para trás, que era um caso instintivo de fazer isso ou não sobreviver. Ficou todo trêmulo, virou-se com muito medo e não demorou a avisar uma sombra bem definida. Ele estava lá, olhando-o, medindo-o, alto, sólido, quase blindado, encostado, com uma naturalidade arrogante, a uma porta de uma velha barbearia, espremida entre duas agressivas e atulhadas lojas de importados. Fumava, tranquilo, e o olhava com uma fixidez provocadora, com o despudor de quem examina clinicamente todos os ângulos de um objeto. A pose e o olhar diziam claramente que ele estava marcado. Para quê?”[6]

   Ao mesmo tempo, temos a sensação de pessoa acossada e também uma maneira de se distinguir do rebanho, da insignificância geral. Pode-se dizer que o estranho praticamente expulsa o “teacher” da capital, ao fazê-lo fugir, mas essa expulsão-fuga quase ganha foros de uma marca distintiva, transforma-o em “alguém”. Ele até mesmo, tenta, no capítulo 8,  num prurido de heroísmo meio à Charles Bronson, perseguir o estranho, contudo aborda o sujeito errado e o esforço o esmaga:

“Que força! Gozava de sua superioridade, nesse momento. Poderia, se quisesse, apanhar um pedaço de pau, ou uma barra de ferro—procurava o porrete olhando para os lados—e golpeá-lo com todos os golpes que quisesse, o suficiente para transformá-lo numa massa de carne e sangue informe, sem tanta capacidade de desdenhar, ali na rua, nos paralelepípedos. Mais passos, mais passos. Alcançou as costas, deu um tapinha cuidadoso nas espáduas (…) Não era ele (…) O estranho não disse nada, afrouxou aos poucos a carranca, dando-o por inofensivo o bastante para que retomasse seu caminho no mesmo ritmo, sem importar-se. Ele desabou numa escada para um trecho de casas idênticas, de onde ninguém o olhava, tapou o rosto e ficou ali, imóvel, por horas”.

2.a. A cidade do seu destino final[7]: o teacher se transforma no “filho do Terremoto”

“..que consolo poder voltar a um lugar tão pouco atraente, tão bom como esconderijo, anulação, fim de sonhos, de riscos!”

A partir do capítulo 12 (a novela tem um total de 19), nosso herói volta a V., sua cidade natal. Apesar de se acomodar novamente na casa da tia, com o mesmo regime sob o qual vivia antes de partir, já não é possível “lavar as mãos” do mundo, mesmo porque a partir daí o estado dele será meio que febril, e ele viverá num “estado de vexame” que os personagens de Dostoiévski (penso aqui em O duplo ou Memórias do subsolo, antepassados legítimos de O estranho no corredor) conheceram bem: ao diversas perambulações pela cidade, para descontentamento da tia cujo baluarte é a respeitabilidade,  confrontarão o “teacher” à figura do seu pai, e sempre de forma desfavorável, a começar pelo membro viril.

O primeiro confronto com a “fama” do pai acontece no bar do Azulão, cujo dono “sempre lhe parecera  um tanto grande demais, o tórax de cantor de ópera, um  bigode muito largo emendando-se às costeletas espessas, peludo, vermelho, hiperbólico (…) Queria não olhá-lo, queria não ter consciência de sua densidade, de seu tamanho, de uma existência que parecia reduzir a sua a uma irrisão aparvalhada.” Esse homem lhe dirá, provocando nele uma série de bravatas alcoólicas vexatórias que o afastarão cada vez mais do mundo da tia e o aproximarão do mundo do pai, ainda que sem os requisitos necessários, como já vimos:

“__ Porra, nem parece filho dele.

__ Por quê?

__Se fosse, saberia.

__ O quê?

__ Que este era o tango favorito do teu pai, homem. Você se lembra do Terremoto, né, Garcia?—disse ao freguês e ambos começaram a rir muito, e riam ainda mais de sua expressão de ignorância—Sabe, rapaz? Teu pai foi uma grande figura…

__Um grande gozador—dizia o freguês.

__ Ali, tudo era bem grande…—riu o cantor—Vinha gente aqui pr comprovar. Carregava uma régua, média pra que todos conferissem. Ele se divertia. Nunca houve nada parecido na região…

__Quero beber alguma coisa…

__O quê? Um guaraná, um copinho de leite com groselha?

__Conhaque. Aquele…

__ Caralho, parece que é herdeiro legítimo…—o homem o olhava, procurava os olhos do freguês, ambos pareciam  cúmplices de algum intento de zombaria de que só podia suspeitar e isso o irritava horrivelmente.”

Essa e outras cenas penosas parecem acentuar a desmoralização do personagem e, por extensão, a lição de alguns périplos ficcionais: de que o herói encontrará seu lugar longe das ilusões da capital, no seu rincão natal. Muito pelo contrário, parece que o fracasso da cidade se duplica e se complica em V., onde parece que o filho do Paiva, o filho do “Terremoto” não tem mais lugar, mesmo porque cada vez mais parece insustentável a sua permanência na casa da tia, saindo às escondidas, ou então saindo e não voltando, senão no dia seguinte, bêbado, amarfanhado, enxovalhado.

Entretanto, há um inesperado elemento de positividade nessa dolorosa etapa final da narrativa. Como já mencionei, o estranho que o afrontava na capital deixara ao “teacher” (justamente após a ida ao puteiro e à bebedeira que acarretaram recriminações de dona Graça, a locadora, ao ver seu hóspede de ressaca) um envelope com a indicação de um encontro no domingo, às onze horas.

A princípio, o filho do “Terremoto”  pensara ter se livrado do estranho na sua fuga a V. Aos poucos, ele se dá conta de que deseja o encontro, de que é um compromisso marcado ao qual não se pode furtar. É interessante que a expectativa desse encontro (não vou citar nada, para deixar ao leitor a descoberta de um belo momento da nossa ficção atual) se reveste de todos os elementos disseminados ao longo do relato: a casa da tia, sensaçãoes auditivas (as batidas na porta, gente querendo entrar na casa) até a presença efetiva do estranho se configurar.

Tendo a tia à janela (que muito provavelmente será fechada de vez), tendo se despojado da sua frágil dignidade não-viril, esse encontro parece abrir ao nosso protagonista a perspectiva de uma virada real em sua vida, para baixo (ser um bêbado contumaz e vexatório) ou para não se sabe onde,  as “promessas do breu” em direção a um rumo onde não há modelos distorcidos ou acachapantes, e no qual até sua sexualidade possa ser vivida de maneira menos crucificante e furtiva.

Os problemas certamente não são solucionados, mas a fuga ou o recolhimento, a sensação de segurança, o “conforto do acanhamento”.

Conclusão

“Passa-se uns anos longe, e eis novas lojas surgindo, lanchonetes sendo substituídas por outras lanchonetes, o banal pelo banal, o estúpido pelo estúpido, e sempre novas gradações de banalidade e estupidez e utilitarismo sem beleza se sucedendo, e em seguida, despojo, nojo, ruína, o aumento dos figurões donos de bustos e de nomes nos bancos dos jardins, um velho comércio de bugigangas sendo substituído por outras de 1,99 (…) Reconhecia um rosto, um corpo, uma certa voz que o cumprimentava. Não fazia tanto tempo assim que deixara a cidade e, ultimamente, o que ali consideravam progresso andava dando as caras, ´vamos todos passar um pelo outro sem nos cumprimentar pra fingir          que a cidade ficou grande´, dizia o dono de um boteco…”

Agora, feito o percurso, posso voltar à pergunta do preâmbulo: ainda é pertinente, ainda faz sentido, uma narrativa na feição “umheimlich” à moda daquelas, tão fascinantes, do século XIX, em plena segunda década do século XXI? Em plena era digital, com a garotada já de saída na vida manejando celulares, tablets e artefatos eletrônicos os mais diversos, decidindo a moda que deseja seguir, com as conquistas sociais efetivadas pelos presidentes do Real, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma Rousseff, com o mundo rural já tendo sido tragado pelo urbano, após um processo de industrialização que começou há meio século, ainda é pertinente uma abordagem desses miasmas interioranos, desses recalques recônditos, desses machos problemáticos de um Brasil que ficou para trás?

  Claro que sim, respondo, se já não ficou claro no decurso do meu próprio texto: qualquer um que conheça a realidade cotidiana brasileira, que ande pelas ruas, e veja esses peões com visual moderninho, mas comportamento retrógrado, jovens que aderem a velhos cafajestismos e comportamentos atávicos, mesmo “conectados com o mundo”, e não precisa nem ser nos grotões e igarapés deste nosso país (para utilizar algumas expressões favoritas de uma escritora que nada entende da realidade nacional ou de qualquer outra realidade que não seja a  da retórica, Nélida Piñon), aqui mesmo na Baixada Santista onde moro, encontramos esses miasmas camuflados pelos signos e adereços ostensivos do moderninho.

Houve mudanças, é claro. Mas, além de ir a Tóquio, Berlim, ao Cairo ou a Moscou para fazer apologia da globalização e escrever livros “antenados”, os escritores brasileiros precisam ainda dar conta do que permaneceu inculcado, atávico e deformante em nossa formação nacional. E isso O estranho no corredor realiza esplendidamente.

(18 de março de 2012, escrito especialmente para o blog)

nota especial- Os quadros reproduzidos neste post (com as exceções óbvias) são todos de autoria do próprio Chico Lopes, que assim mostra outra faceta do seu talento criador.

[1]              E  Se me for permitida uma nota pessoal, eu já trabalhei muito com essas narrativas em outros escritos meus, e até mesmo num curso (As margens derradeiras: textos do limite) e sempre pensei nelas como “narrativas derradeiras”.

[2]              Não é meu objetivo aqui fazer distinções qualitativas entre esses diversos autores, porém devo dizer que Chico Lopes se aproximaria mais, dentre eles, de um João Alphonsus, grandíssimo contista, e—pela linguagem concisa, afeita à precisão—de um Cyro dos Anjos, longe daquela coisa fuliginosa, prolixa , sobrecarregada e muitas vezes estilisticamente pobre que vemos em um Octavio de Faria ou  até mesmo num Lúcio Cardoso. Dito isto, Cornélio Penna é um gênio da nossa literatura, e seu apego peculiar à forma do romance é um caso excepcional.

[3]         Num diálogo paradigmático entre Russo e seu amigo, o “teacher”:

         __Quando a gente olha aquelas cidadezinhas na noite, em estradas da serra, acha que aquilo parece o lar prometido, um refúgio, um presépio, sei lá. Imagino que seria feliz com uma mulher, um filho, um empreguinho simples, uma casa pra morar no mato.

         __ Melhor ficar com isso na cabeça e não ir lá ver o que de fato existe.

         __ Que é que você fazia lá? Escritor, punheteiro, só ficando nisso?

         __ Não tinha outra saída.

         __ Continua não tendo.

         __Aqui ao menos não se é tão vigiado.

         __ Mas você se  comporta como se fosse, teacher. Não me engana, ora…”.  Diga-se de passagem, é um dos raros momentos em que O estranho no corredor nos permite acesso ao Outro, à sua existência concreta e irredutível, não apenas simbólica para o protagonista.

[4]              [4] Eu não sei se é proposital (acredito que sim), mas esse e outros momentos da narrativa de Chico Lopes dão a ela um ar atemporal, como se o que ali é narrado pudesse estar em qualquer ponto entre os anos 1960 e o nosso próprio tempo. Voltarei a isso na conclusão

[5]              A não ser num pequeno detalhe, um dos poucos deslizes e falseamentos de tom que eu já percebi em Chico Lopes, quando Carla—referindo-se à sua relação com Russo—diz: “Não é aqui o seu único porto. Quem sou eu, né? Nada de quebrar o tabu do incesto…”

A propósito, também acho pouco convincente uma fala da prostituta da pensão de Neide:

         “__ Me diz aí o que você quer…

         __ Paz de espírito, acho.

         __ Artigo que não tem por aqui.”

Não combinam com o universo de Lopes essas frases de efeito, essa intelectualização súbita de  personagens populares. Por outro lado, Carla me lembra um pouco algumas mulheres saramaguianas, como a Joana Carda de A jangada de pedra, a Blimunda de Memorial do Convento e outras mais, mulheres crispadas, sem ilusões, resignadas e com o seu quinhão comovente, mas prático acima de tudo, de ternura.

Aprovando  o “quesito defeitos”, também preciso salientar que certo traço caricatural excessivo me incomodou um pouco (por exemplo, na figura do intelectual glutão e arrivista, que visita a tia) e certos exageros generalizantes, que não ajudam muito a entender a complexidade das relações, como na caracterização um tanto sumária dos alunos da escola: “vindos do comércio, de famílias abastadas, quase todos adolescentes entediados e agressivos que acompanhavam as aulas raramente com atenção, felizes quando algum incidente ridículo quebrava o silêncio e a concentração nada duradouros. Ele tinha sempre uma pressa contida, exasperada, de acabar com as aulas, não ver os rostos desdenhosos (…) incomodado pelos olhares das garotas—que diziam claramene que le nada apresentava de sedutor” (sempre acho que esse tipo de caracterização vem dos estereótipos cinematográficos, pois quem dá aulas sabe que não é só isso).

[6]           “Fora   no fim da aula noturna, quando olhava para o cinzento nunca purificado pela chuva insistente de um prédio próximo, que sentira a presença às suas costas, os passos pesados, uma força que vinha em sua direção, alguém que emergia do escuro de um corredor—o homem.”

[7]         Faço aqui uma brincadeira com o título do romance de Peter Cameron,The city of your final destination (2002)

A CULPADA É A LITERATURA; “K.”, de B. Kucinski

“… ao tentar reuni-los numa narrativa coerente, algo não funcionou. Não conseguia expressar os sentimentos que dele se apossaram em muitas das situações pelas quais passara, por exemplo no encontro com o arcebispo.

  Era como se faltasse o essencial; era como se as palavras embora escolhidas com esmero, em vez de mostrar a plenitude do que ele sentia, ao contrário, escondessem ou amputassem seu significado principal. Não conseguia expressar sua desgraça na semântica limitada da palavra, no recorte por demais preciso do conceito, na vulgaridade da expressão idiomática. Ele, poeta premiado da língua iídiche,  não alcançava pela palavra a transcendência almejada (…)

  Aos poucos K. foi se dando conta de que havia um impedimento maior. Claro, as palavras sempre limitavam o que se queria dizer, mas não era este o problema principal; seu bloqueio era moral, não era lingüístico: estava errado fazer da tragédia da sua filha objeto de criação literária, nada podia estar mais errado. Envaidecer-se por escrever bonito sobre uma coisa tão feia. Ainda mais que foi por causa desse maldito iídiche que ele não viu o que estava se passando bem debaixo de seus olhos, os estratagemas da filha para evitar  que ele a visitasse, suas viagens repentinas sem dizer para onde.

   Lembrou o dia em que ela, apressada—talvez assustada—, irrompeu em sua reunião de sábado com os escritores e ele a admoestou, sem olhar para seus olhos, sem tentar saber o que ela queria. Imagine, fazer literatura com um episódio desses. Impossível.”

(

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos de 18 de setembro de 2012)

Um dos livros que   mais causaram “sensação” no último ano  foi o romance de estreia do jornalista B. Kucinski, K., por abordar o tema dos “desaparecidos” na época do regime militar.

Aproveitando a inicial de seu sobrenome, ele evoca uma atmosfera kafkiana (a própria edição da Expressão Popular, inacreditavelmente barata—15 reais—tem,  em sua capa e ilustrações—de Enio Squeff—, um timbre expressionista, que lembra ilustrações para livros de Dostoiévski ou Graciliano Ramos, autores igualmente angustiantes) para contar a história do périplo do pai, a partir de 1974, tentando saber do paradeiro da irmã, sequestrada por agentes do famigerado delegado Sérgio Paranhos Fleury (que morreu “afogado” em 1979), junto com o marido.

Judeu (é um importante escritor na moribunda língua iídiche) oriundo da Polônia, o sr. K. sequer sabia ser a filha casada, de tal forma ela se distanciara dele por conta de um segundo matrimônio e da sua dedicação obsessiva à literatura (voltarei a isso).

Assim como em Missing, de Costa Gavras, onde acompanhávamos a descida aos infernos de um extraordinário Jack Lemmon como o norte-americano típico que não queria acreditar que seu país conspirara com a ditadura de Pinochet e ajudara a executar seu filho ativista, acompanhamos agora essa travessia agônica por etapas terríveis—porque, em primeiro lugar, o Governo negava que mantinha presa (e provavelmente assassinara) a caçula (tanto que, numa reunião abjeta, uma comissão da USP—na qual ela trabalhava como professora de química—a demite por “abandono de cargo”); a partir daí, ainda na esperança de que esteja viva, ele admoesta autoridades nacionais e estrangeiras, aciona a Anistia Internacional, até que, aos poucos, convence-se de que está morta, e então se preocupa em localizar seu corpo, o que nunca será possível, e suporta o assédio de gente que quer extorquir dinheiro para dar informações, todas falsas, sobre o paradeiro dela, viva (há telefonemas, correspondência de outros países, etc) ou do seu cadáver.

E por acompanhar esse percurso ao mesmo tempo tão trágico e tão sórdido, o leitor que já considerava (como eu) que ficou muito mal resolvido o acerto de contas do Brasil com sua ditadura militar, por conta da anistia para todos, inclusive para os torturadores, não pode deixar de considerar K. um livro da maior importância.

O aspecto mais bem resolvido do texto, a meu ver, é a demonstração das camadas perceptivas que o tempo interpõe entre os fatos e as reações a eles. Um exemplo: quando o sr. K. procura um rabino para que se coloque uma lápide para a filha no cemitério israelita, mesmo não havendo corpo: “…o rabino não só rejeita o pedido, como demonstra frieza frente ao seu drama. Alguns meses mais e isso mudará, depois que outro rabino… oficiar na missa ecumênica do jornalista judeu assassinado pelos militares. K. está um pouco adiante do seu tempo”.[1]

Como disse, K. tem impacto e importância legítimos. Nem por isso o deixa de apresentar graves defeitos. Kucinski optou por uma estrutura flexível muito interessante, seguindo a linha do romance “desmontável” a la Sherwood Anderson (Winesburg, Ohio) e Vidas Secas, permanecendo numa linha tênue entre narrativas curtas soltas e uma narrativa geral mais sistemática: assim, ele imagina o delegado Fleury em ação; a fala da amante do torturador-mor, execrada por todos, porém apaixonada por ele; uma faxineira que testemunhou o destino que se dava aos corpos dos torturados, numa sessão de terapia, enfim toda uma engrenagem ficcional que—supostamente—enriqueceria o drama do sr. K. Não é o que acontece. Os personagens são caricatos, esses capítulos são óbvios e medíocres do ponto-de-vista narrativo e não acrescentam nada à nossa percepção do período ditatorial. E o texto muitas vezes recorre aos lugares-comuns mais deploráveis: “Seu traço dominante era o maxilar projetado para fora, compondo uma imagem de determinação e intransigência…” (caracterização do genro); “Jesuína põe-se a soluçar, de início um gemido surdo; logo o choro se acelera e ela é tomada por convulsões, escorregando lentamente da cadeira; a terapeuta a agarra antes que desabe a põe de pé, abraçando-a. Ambas choram”. Há momentos bons, como o capítulo que dá a fala ao pai do genro, mas a maioria deixa a desejar.

Também quando quer ser especulativo, mais reflexivo, Kucinski revela uma tendência à banalidade que chega a ser aflitiva, caso do capítulo no qual discorre sobre a culpa dos sobreviventes. Não bastasse, há ainda erros de informação grosseiros: quando se refere à Escolha de Sofia e nos diz que ela se suicida já anciã (!!!??—de onde ele tirou isso?), ou quando se refere ao final de O processo, e diz que Joseph K. vai se enforcar (!!!??—idem). Aliás, é singularmente deplorável que, dentre os textos kafkianos, Kucinsci escolha O veredicto  e O processo para comentar, e não as premonições sobre o totalitarismo como Na colônia penal.

E, pasme, leitor, isso não é o pior: digladiando com o regime militar, o sr. K. acaba colocando a culpa toda da trajetória trágica da filha (como se ela não tivesse vontade própria, não fosse um indivíduo) na sua ausência como pai e na sua absorção ao projeto literário. Poderia ser o caso de uma percepção equivocada do protagonista, mas a narrativa deixa tudo tão mal definido e equívoco (pois parece que o destino do Sr. K. vai ganhando uma tonalidade subjetiva demais, muito judaica, por sinal, em que toma para si, como coisa individual, um pathos que é coletivo; creio, inclusive, que por isso ele se concentrou em O veredicto e O processo, e se esqueceu de Na colônia penal),  que, no final, não se sabe propriamente quem tirou a filha da vida do pai, a literatura ou a ditadura. E esta última ganha mais um tento no eterno jogo de negaceios e esquivas em se lidar com ela.


[1] No entanto, há algo de mal resolvido no episódio. Eu não entendo porque pessoas não-religiosas vão procurar autoridades religiosas para pedir algo que vai contra os dogmas da religião e se chocam com isso. Pelo que se depreende, o Sr. K. se distanciou da religião judaica. Por que o rabino teria de atender a um pedido dele? Todas as ilações subseqüentes a respeito da atitude do rabino são esdrúxulas e só seriam compreensíveis se K. nos falasse de dentro da religião, como alguém sufocado por dogmas injustos. De fora, não faz sentido: “Embora rejeitando a religião, conhece seus preceitos”“Revoltado, retoma o veredito de seus tempos de juventude, do saber rabínico como um jogo de palavras de raízes medievais e sem relação com a realidade.” Então por que procurar um representante desse saber rabínico e esperar dele algo que viole os preceitos?

21/09/2012

Leituras em espelho: Vidas passadas, Textos mal passados (segunda parte): A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/07/14/leituras-em-espelho-vidas-passadas-textos-mal-passados-primeira-parte-o-robe-do-dragao/

No texto que consta como Introdução à edição pocket (pela L&PM) de Max e os felinos (uma novela absolutamente comum, sem nada de mais), Moacyr Scliar (1937-2011) comenta o suposto plágio (desmentido por ele mesmo) do seu texto cometido pelo canadense Yann Martel em A vida de Pi (este sim, um romance absolutamente fora do comum): “… o fato de Martel ter usado a ideia não chegava a me incomodar [em outro trecho lemos: “Depois de muito debate sobre o assunto o livro de Martel finalmente chegou-me às mãos. Li-o sem rancor; ao contrário, achei o texto bem escrito e original. Ali estava a minha ideia, mas era com curiosidade que eu seguia a história—boa narrativa, aliás, dotada de  humor e imaginação. Ficou claro que nossas visões da ideia eram completamente diferentes. As associações que fiz são diferentes das que Martel faz”].. Incomodava-me… a maneira pela qual tomei conhecimento do livro. De fato, não fosse o prêmio, eu talvez nem ficasse sabendo da existência da obra. No lugar de Martel eu procuraria avisar o autor. Aliás, foi o que fiz, em outra circunstância. Meu livro  A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA teve como ponto de partida uma hipótese levantada pelo famoso scholar norte-americano Harold Bloom segundo a qual uma  parte do Antigo Testamento poderia ter sido escrita por uma mulher, à época do rei Salomão. Tratava-se, contudo, de um trabalho teórico. Mesmo assim, coloquei o trecho de Bloom como epígrafe do livro—que enviei a ele (nunca respondeu—nem sei se recebeu—, mas cumpri minha obrigação)…”

   Se Harold Bloom viesse a saber que, além de aproveitar sua extravagante hipótese, o romance de Scliar ainda receberia o Jabuti, o nosso mais badalado prêmio literário, talvez ficasse impressionado e louco para ler A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA. E ficaria certamente incrédulo com a ruindade do livro, que espanta até quem nunca foi muito fã do escritor gaúcho. Diga-se de passagem, graças principalmente a essa premiação, nunca consegui levar a sério o Jabuti, tanto que se um livro sai vencedor e eu ainda não o  li, fico ressabiado, e dificilmente tenho pressa de lê-lo. É o efeito Scliar.

Agora: por que um cara desses pega uma ideia tão sensacional para assassiná-la logo de saída? Sim, porque já dou o romance por liquidado a partir do seu prólogo: nele, um “terapeuta de vidas passadas” conta como conheceu a narradora do relato principal, filha de um fazendeiro, feia, mas que causa nele um efeito de sedução inesperado nas sessões de regressão. O propósito é sarcástico, claro, a “terapia de vidas passadas” não é levada a sério, porém serve de mote para se apresente o relato principal e se aceite o “rebaixamento” do tom bíblico. Como a narrativa é contemporânea e anacrônica em relação aos tempos de Salomão, e pode ser uma fantasia pessoal da narradora, uma sublimação da sua feiúra e de seus conflitos com o pai e com os homens em geral, o “tom” já seria aceitável de cara, sem nenhum choque histórico-linguístico. Certo?

Errado. Para sobreviver (pelo menos no sentido ficcional) à tosquice da primeira parte (que, além de ser uma introdução canhestra, é MUITO RUIM enquanto texto), Scliar teria que criar uma voz para a narradora (mesmo que ela seja “não-confiável”, uma mulher contemporânea devaneando ser uma mulher da época salomônica) que nos convertesse à sua proposta, que tornasse secundária a “inverossimilhança” e “desajuste” do tom, debochado e chanchadesco, com relação aos clichês com que as épocas bíblicas normalmente são tratadas e retratadas (em geral, de forma solene e elevada). Munido com as armas do pós-feminismo, o tom narrativo ressalta a sexualidade da mulher que se contrapõe ao universo chauvinista do patriarcalismo dominante no imaginário bíblico e no discurso que sempre se adotou com relação aos episódios do “livro sagrado”:

“Mas eu não podia parar de pensar, de maquinar coisas. E o que maquinava agora era um plano para mobilizar as mulheres. Para que trabalhassem para mim?  Para que me ajudassem a chegar ao leito de Salomão? Sim, mas não apenas isso. De repente, eu queria mais. Queria solidariedade, a verdadeira solidariedade das oprimidas. E contava chegar a isso partilhando com elas, da forma mais sincera e aberta possível, minha angústia. Queria mostrar-lhes que minha virgindade era um pouco a virgindade delas (mostrando que mesmo as descabaçadas continuavam, psicologicamente, socialmente, virgens), que minha marginalização tornava-as também marginais, que minha feiura era também a feiura delas—se não uma feiura externa, pelo menos interna, feiura de tristeza, do desamparo, por aí. Não tínhamos por que competir; ao contrário, só a união nos faria fortes, daria sentido à nossa vida ali no harém…” (ela realmente precisava assistir a Lanternas Vermelhas).

A narradora é a moça feia, com uma fome sexual intensa e frustrada (só tinha uma pedra polida para se satisfazer), mesmo casando-se com o rei Salomão, que tem tantas esposas e concubinas que não quer perder tempo com uma feiosa que arrematou para consignar uma aliança política mais para insignificante. O desvirginamento da nova esposa nem é consumado porque o rei broxa no momento azado (apesar de ela ser, como se diz, uma “raimunda”, feia de cara, boa de bunda).

Que oportunidade perdida por Scliar. O que um Joseph Heller não faria (e aliás fez, em obras como o adorável Só Deus sabe) com essa sem-cerimônia com os incidentes da Bíblia, com esse rebaixamento do solene e do elevado para mostrar quão comezinho e humano tudo aquilo é, no fundo, como todas as épocas e fatos “históricos” o são, quando se lhes retira a capa mistificatória. O problema é que Scliar passa longe de ser um Heller, seu reles relato faz parecer que, para ele, o máximo de profanação do tom solene-patriarcal, da supremacia do macho da espécie, é usar termos chulos (foder, broxa, cabaço, caralho etc) e o repertório da sacanagem popular, que sempre foi e sempre será pândego e rebaixante, tanto no sentido saudável, picaresco, quanto no sentido preconceituoso e truculento. O encanto que poderia ter o uso desse recurso logo se torna cansativo e gratuito.

Como já disse, o desastre de A MULHER QUE ESCREVEU A BÍBLIA não reside no apelo ao chulo, ao chanchadesco ou a qualquer elemento paródico: é o fato de que a “voz” da narradora não consegue nos conquistar, não consegue nos convencer, comover ou instigar, nem no plano sexual (no sentido político e/ou erótico), nem no plano histórico, nem no plano da linguagem. A certa altura, ela diz que “Eu tinha uma história para contar—eu tinha uma grande história para contar—e iria contá-la…” Se ela iria contá-la como estava nos contando a sua própria história, a Bíblia jamais teria se tornado o Livro da Humanidade. Me desculpe, Dona Feia, mas beleza, aqui, é fundamental.

Porque o grande crime de Scliar com relação ao mote que recolheu de Bloom é o de tornar escandalosa a ideia de que essa mulher, em particular, possa ter escrito a Bíblia. Ele não nos dá uma migalha de fome intelectual, de curiosidade filosófica ou de qualquer coisa próxima de uma estatura cognitiva ou criativa que a autorizem a ser essa pessoa evocada por Bloom. A narradora de Scliar aprende (transgressoramente, para os padrões da época) a escrever. E tão somente.  Ao interceptar uma carta dela, em que se queixa ao pai do tratamento a que está sendo submetida na Corte do rei, Salomão—o qual está insatisfeito com o resultado do trabalho dos anciãos encarregados de escrever o que será posteriormente a História Sagrada—a perdoa pela “traição”,  encantando-se com o estilo, e a encarrega de fazer a versão final. Mas isso são fatos “externos” à personagem e à sua voz narrativa, em nenhum momento o leitor é brindado com um vislumbre dessa capacidade estilística e intelectual. Ou seja, no fundo Scliar rebaixa a sua heroína:

“Segundo os anciãos, Deus criara o primeiro homem a partir do barro. Eu não tinha nenhuma objeção a essa humilde matéria-prima. Mas por que o homem primeiro, e não a mulher? E por que tinha a mulher sido criada de maneira diferente? (…)

   Decidi corrigir tais equívocos mobilizando para isso as minhas próprias fantasias. Criados, o primeiro homem e a primeira mulher enamoram-se loucamente um do outro, e aí transformam o Éden num cenário de arrebatadora paixão. Fodem por toda parte, na grama, na areia, à sombra das árvores, junto aos rios. Fodem sem parar, como se a eternidade precedendo a criação nada mais contivesse que a paixão deles sob forma de energia tremendamente concentrada. O encontro dos dois era, portanto, uma espécie de Big-Bang do sexo, muito Big e muito Bang. Todas as posições eram usadas, todas as variantes experimentadas, isso sob o olhar curioso das cabras e dos ornitorrincos e, mais, sob o olhar benévolo de Deus.

   Que, na minha versão, não os expulsava do Paraíso; ao contrário, encorajava-os: agora que descobristes o amor, podeis enfrentar a vida como ela é, a vida cheia de som e de fúria.”[1]

Pior ainda: ele torna a hipótese da sua existência um besteirol. Deve ser por isso que o romance agradou uma parcela de leitores que o acharam “delicioso” e “divertidíssimo”.  É a triste ideia de humor que algumas vozes “(de)formadoras de opinião” fazem.


[1] Há inclusive passagens de mau-gosto extremo, como aquela em que ela descreve o corpo da concubina que se torna sua melhor amiga, tomado pelo câncer:

“Aqueles seios—o que fora feito deles? Um deles, o esquerdo, ou o direito, já não lembro, ainda se mantinha um tanto ereto, como resistindo teimosamente, mas o outro, o direito ou o esquerdo, apresentava-se murcho, deprimido, exaurido: aquele seio já desistira de lutar, aquele seio começava a percorrer o Vale das Sombras da Morte, abanando à direita e à esquerda, alô, Sombras da Morte, estou chegando, o que é que se vai fazer, hein, Sombras da Morte, bem que eu queria ter evitado esta jornada, ou pelo menos ter ficado para trás como o meu companheiro seio, mas que posso fazer, Sombras da Morte, sempre fui apressado, sempre quis resolver logo as coisas, quando Salomão nos chupava eu era sempre o primeiro a crescer e a ficar com o bico durinho e agora estou aí, uma passa seca…”

Próxima Página »

Blog no WordPress.com.