MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

31/10/2010

O FIM DA LINHA PARA A AVENTURA?

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Num ensaio sobre os caminhos e os descaminhos do romance ao longo de sua história (A herança depreciada de Cervantes, em A arte do romance), Milan Kundera se pergunta sobre o que aconteceu com “a aventura, este primeiro grande tema do romance?”.

    Na alta ficção, a aventura tornou-se a obra de Joseph Conrad, na qual  se equaciona com dilemas morais, como é o caso do inesquecível capitão Whalley, protagonista de O fim das forças, que faz parte da iniciativa da editora Revan de divulgar as histórias conradianas em versões de Julieta Cupertino, e que poderia ser traduzido como O fim da linha (um título mais preciso para The end of the tether), tanto para Whally quanto para a aventura. Mas quem teve a idéia da concepção visual dos livros de Conrad na Revan, que parece destinada a atrair atavicamente o leitor juvenil que ainda existe em nós?

Em O fim das forças, Whalley (que comanda navios no Oriente) perdeu quase todo seu capital na falência de um bairro, embora achasse que, ainda assim, teria uma aposentadoria tranqüila, com uma modesta embarcação de sua propriedade.

Ivy, sua filha, fez péssimo casamento e necessita de dinheiro, e o pai é obrigado a vender seu barco e e se tornar comandante, investindo seu dinheiro como sócio, do precário vapor Sofala. Aliás, a narrativa se inicia já nos apresentando oWhalley três anos depois, em meio à rota comercial do Sofala, e ele está perto do final do contrato, o que lhe permitirá recuperar o capital investido.

Isso o indispõe com o proprietário do navio, Massy, homem histérico, ressentido e viciado numa loteria do Oriente, que acredita que Whalley quer largar o comando e resgatar seu capital só por mesquinharia (ele nem suspeita que o digno capitão tenha apenas esse dinheiro que empatou por três anos, e que lhe é sagrado, não é “dele” e sim da filha), e começa a maquinar um meio de afundar criminosamente o vapor, por causa do seguro.

Já seria demais um livro com dois personagens extraordinários, como Whalley e Massy. O fim das forças oferece ainda mais dois: o Sr  Van Wyk—proprietário ao longo da rota do Sofala que se afeiçoa a Whalley, numa daquelas comoventes amizades cavalheirescas e “pisando em ovos”, tão características dos livros de Conrad—e o imediato Sterne, um ambicioso de mira curta (quer comandar o Sofala), descobridor do segredo do comandante, que Massy sequer percebeu, em seu rancor: Whalley está praticamente cego e só consegue levar o vapor em frente graças ao seu fiel ajudante malaio.

Além do clima conspiratório e desmoralizador em que se movem os três tripulantes do Sofala (envolvendo Van Wyk), é na cegueira progressiva que Whalley tem de esconder que se destila toda a tragédia da aventura, na feição que adquiriu com o insuperável escritor polonês cuja obra pertence à literatura inglesa: Whalley é o protótipo do herói, nobre e cavalheiresco: “honrosamente conhecido por toda uma geração de donos de navios e comerciantes, em todos os portos, desde Bombaim até onde o Leste se une ao Oeste sobre as costas das duas Américas. Sua fama foi registrada, sem muito destaque, mas com bastante clareza, nos mapas do Almirantado”.

Tendo de manter a farsa para resgatar o capital que deseja legar à filha, ele se projeta do heróico para o trágico, pois acaba se destruindo internamente no que tinha de mais autêntico, no que o fazia ser ele mesmo, embora se mantenha por fora todo o aparato de dignidade inabalável, para exasperação de Massy e admiração de Van Wyk. Por isso, a saída é o suicídio, isto é, perecer com o vapor quando afunda: “…por causa de Ivy, ele havia resistido, a caminhar dentro da sua escuridão até ficar à beira de um crime. Deus não ouvira suas preces. A luz havia desaparecido, o refluir do mundo; sequer um bruxuleio, era uma vastidão escura. Mas era indecoroso que um Whalley, que havia resistido tanto, continuasse a viver. Ele devia pagar o preço”.

E assim ele cumpre o mau augúrio que marca a noite em que está para decidir seu engajamento no Sofala: ’…e o tempo todo uma sombra caminhava junto com ele, enviesada à sua esquerda—o que, no Oriente, é presságio do Mal”.

(resenha publicada originalmente em 13 de novembro de 2001, em “A Tribuna” de Santos)

29/10/2010

O “romance das ilusões’ de joseph conrad: MARLOW, MAR E MEMÓRIA

Para quem gosta de ler, um dos maiores prazeres da vida é a ficção de Joseph Conrad, a respeito da qual esta minha coluna, sem que eu saiba muito bem o porquê, tem se mostrado bastante avara, com apenas um artigo (sobre O agente secreto) e a inclusão de Nostromo entre os dez maiores romances do século XX.

Julieta Cupertino, por sua vez, pretende traduzir a obra completa de Conrad para a editora Revan, que chegou ao exagero de apresentar como inéditos textos que não o são, como A loucura de Almayer, já traduzido por Virgínia Lefévre com o título Perdição (editora Boa Leitura). Desse projeto, o mais recente lançamento é JUVENTUDE (Youth), novela escrita em 1898, e que o leitor brasileiro já conhecia como Mocidade, na bela versão de Maria Ercília Galvão Bueno, publicada pela Imago na coleção Lazuli (junto com uma das maiores obras-primas do grande escritor anglo-polonês, O parceiro secreto).

JUVENTUDE pertence a uma vertente conradiana que poderíamos chamar mar e memória, na qual se destaca Charlie Marlow, o narrador que relata experiências marítimas ocorridas há muitos anos, “nos bons velhos tempos”, antes de a Terra parecer diminuir e uma sombra moral encobrir a empreitada colonialista na África, na Ásia e na Oceania.

Em Karain, uma recordação, um dos maravilhosos Contos de inquietude (Tales of unrest), o narrador (Marlow?), ao ler nos jornais notícias hipócritas sobre alguma região remota, afirma: “Brilha o sol entre as linhas desses parágrafos curtos, sol e as cintilações do mar, um nome estranho desperta recordações. As palavras impressas rescendem a atmosfera fumarenta de hoje com o sutil e penetrante perfume das brisas de terra, soprando pelas noites estreladas de antanho”.  E o grande caminho para esse mundo remoto é o mar, que se associa, no simbolismo narrativo, à memória.

Ao narrar, em JUVENTUDE, sua primeira viagem para o Oriente, aos 22 anos, como segundo imediato do navio Judea, que deve transportar carvão da Inglaterra para Bangkok, o quarentão Marlow na verdade revela para os seus ouvintes (os mesmos de O coração das trevas) uma dessas /’viagens que parecem encomendadas para a ilustração da vida, que deviam ficar como um símbolo da existência/’ e que, portanto, só adquirem pleno sentido na memória.

O Judea é azarado: logo depois de zarpar, apanha uma tempestade e tem de passar meses num píer para reparos, com dificuldade de conseguir tripulação. Quando chega ao Atlântico, enfrenta um tufão. Volta para a Inglaterra. Novos reparos e novos problemas com a tripulação, até partir de novo. No meio da viagem, o carregamento se incendeia, parte do navio explode e ele acaba afundando.

Nesse percurso (ou percalço), Marlow passa a amar o navio, que se funde (na memória) à idéia de juventude: “Ah, juventude! A força, a fé, a imaginação disto! Para mim aquele navio não era apenas uma velha arapuca barulhenta levando uma carga de carvão para um frente, para mim ele era a façanha, a prova, o teste da vida. Penso nele com prazer, com afeição, com pesar, assim como pensamos em algum mortos que tenhamos amado. Nunca o esquecerei”.

É incrível a maneira plástica como Conrad delineia as experiências a bordo do Judea, que levarão Marlow a chegar no Oriente de forma inusitada (e comandando uma embarcação!), e também as figuras a bordo: capitão Beard, sua bondosa esposa, o imediato Mahon, o piloto Jermyn, que desconfia da juventude do narrador (“eu diria que ele tinha razão. Parece-me que eu sabia muito pouco naquela época, e que não sei muito mais, agora”), o servente Abraham, o qual fica lunático, etc.

Alguns deslizes de revisão atrapalham um pouco a beleza do texto. Logo na primeira página, informa-se que um dos ouvintes de Marlow estudou no navio-escola Conway, e o que se lê na edição (bilíngüe) da Revan é grotesco: “O diretor tinha sido passado pelo Conway”!!!???

No prefácio de O negro do Narciso (obra da mesma fase), amiúde citado, Conrad escreveu: “A tarefa que venho procurando cumprir é a de fazer com que, pela força da palavra escrita, você seja capaz de escutar, seja capaz de sentir,  e acima de tudo de enxergar”.

JUVENTUDE é um texto leve, apesar do tom elegíaco de adeus à mocidade, e um dos menos complicados do ponto de vista narrativo (Conrad revitalizou e enriqueceu o relato feito numa roda de conversa, muito comum na época). É dos textos em que o leitor tem menos trabalho para “escutar, sentir e acima de tudo enxergar”. Nada mais simples e eficaz do ponto de vista poético do que as afirmações de Marlow sobre sua chegada ao Oriente, embora não exatamente no amado e malfadado Judea: “para mim todo o Oriente está contido naquela visão de minha juventude. Tudo está naquele momento em que abri meus olhos jovens para ele. Eu o encontrei numa peleja com o mar—e eu era jovem—e o vi olhando para mim. E isto é tudo o que resta dele. Apenas um momento; um momento de força, de romance, de encanto—ah! Juventude!—…Um risco de sol sobre uma praia desconhecida, o tempo de lembrar; o espaço de um suspiro e adeus!”

     Marlow ganharia um tom mais enviesado e a sombra moral que o contamina se acentuaria em textos como O coração das trevas e Lord Jim, que também são da mesma fase.

As derradeiras linhas de JUVENTUDE são as seguintes: “…procurando sempre, procurando ansiosamente por alguma coisa fora da vida, que enquanto é esperada já se foi… junto com a juventude, com a força, com o romance das ilusões”. Nas últimas semanas, o romantismo da desilusão que desabrochou no romance do século XIX, segundo Lukács (A teoria do romance), foi assunto desta coluna. Jovem, Marlow chega ao Oriente acreditando na aventura, no mundo aberto à sua volta. Sabemos, pelo desenvolvimento da obra de Conrad, o que aconteceu a esse “romance das ilusões”…

(resenha publicada originalmente em 21 de agosto de 2001, em “A Tribuna” de Santos)

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As Margens Derradeiras: “Aprisionados pelo inacreditável”

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  20 de novembro de 2001)

“… o contato com a pura selvageria não mitigada, com a natureza primitiva e o homem primitivo, trazem uma perturbação súbita e profunda ao coração. Ao sentimento de estar isolado, à clara percepção de solidão em seus pensamentos e sensações –a negação do habitual que é seguro—, junta-se a afirmação do inusitado, que é perigoso,  uma sugestão de coisas vagas, incontroláveis e repulsivas,  cuja intrusão desconcertante excita a imaginação e gasta os nervos civilizados, tanto dos tolos como dos inteligentes”.

O trecho acima é de Um posto avançado do progresso, notável conto de Joseph Conrad (1857-1924), que narra o processo de loucura, “uma sensação inarticulada de que havia se desvanecido qualquer coisa dentro deles”, de dois encarregados de um entreposto comercial na África Central.

Para Conrad, esse texto era a “parte mais leve” (!) de uma preocupação que gerou também o similar e ainda mais sombrio O coração das trevas.  Publicado em livro em 1902, é atualmente o mais estudado e famoso de seus textos, sem falar da transposição de seu enredo para o Vietnã dos anos 60 do século XX no incrível Apocalipse Now (1979), de Coppola. E é preciso não esquecer que a primeira incursão cinematográfica de Orson Welles seria a sua adaptação (o capítulo inicial de  Cidadão Kane- o making of, de Robert L. Carringer, detalha muito bem o projeto, inclusive com os desenhos dos cenários).

Também é um dos mais traduzidos: em 1984, houve três versões (de Marcos Santarrita, de Hamilton Trevisan e de Regina Regis Junqueira, para as editoras Brasiliense, Global e Itatiaia, respectivamente). Agora em 2001 novo boom das trevas conradianas: além da versão de Albino Poli Jr. para a L&PM, foi lançada a versão de Julieta L. Freitas, pela Nova Alexandria (e está prometida a de outra Julieta, a Cupertino, para a Revan, editora que está lançando sistematicamente a obra de Conrad). Dos já lançados, a da Nova Alexandria é decerto a mais fraca, a mais aguada, a que tem as soluções mais chochas, além de alguns trechos que ficaram quase incompreensíveis e que denotam erros de interpretação de um texto intrincado. Eu prefiro, entre todas, a de Regina Regis Junqueira, e me dei ao trabalho de ler essa nova versão até o fim  só para constatar como a força simbólica de O coração das trevas resiste até aos tradutores  mais destrutivos, e como também essa força simbólica continua sendo um desafio e um problema para o leitor.

Pois ainda que seja uma obra-prima, um texto-ícone, é difícil de ler O coração das trevas. São cem páginas que parecem quinhentas. Não porque a narrativa seja chata e arrastada, mas por estar saturada de simbolismo. Não apenas na intenção, como também no próprio movimento discursivo, praticamente em cada parágrafo. Uma simples visita de Marlow (o narrador principal, uma espécie de procurador da visão conradiana da vida) aos escritórios da Companhia onde acertará sua contratação como comandante de um vapor que faz a ligação entre entrepostos comerciais no rio Congo (descobrindo que um deles foi, digamos, “afetado” pela loucura do responsável, o senhor Kurtz) é carregada de presságios, signos da morte e do destino (a velha tricotando, que lembra de imediato uma das Parcas da Antiguidade). Mesmo no início do livro, narrado por um amigo de Marlow, o Tâmisa e Londres ao crepúsculo são descritos em termos que evocam a batalha da luz contra as trevas, do esforço civilizatório contra a barbárie. São dois exemplos óbvios de um discurso sobrecarregado.

Também, trata-se de um livro sobre o Mal, sobre o que acontece quando “se desvanece qualquer coisa” dentro de nós e a casca civilizatória hipócrita (pois movida pela ganância e pelo desejo de espoliar) cai por terra. Kurtz, colonizador que se torna um deus cruel e perverso para os nativos da região onde se faz a exploração de marfim, enlouquece porque a selva “lhe sussurrara coisas a seu respeito que ele próprio ignorava, coisas sobre as quais não suspeitara até o momento em que pediu conselho à grande solidão –e o sussurro revelou-se de uma fascinação irresistível. Ecoou profundamente, porque o senhor Kurtz estava oco”.

Não basta a Conrad descrever a loucura do oco senhor Kurtz (estragada no filme de Coppola –e certamente é o seu ponto fraco— pela canastrônica e quase ridícula aparição de Marlon Brando, que impressiona muito menos que o esquálido fantasma do livro, mais uma voz do que um homem). Interessa a ele mostrar seu efeito sobre o narrador, pois assim o horror se intensifica: “a alma dele endoidara. Sozinha na selva, olhara para dentro de si mesma, digo a vocês, ficara doida, meu Deus! Para pagar meus pecados, eu suponho, tive de passar pela prova de olhar para dentro dela também”.

O Mal que habita o coração das trevas (será que é mesmo na África Central que ele se localiza?) nos é transmitido de uma forma que rompe os limites do raciocínio lógico e do realismo convencional: “Vêem a história? Vêem alguma coisa? Parece até que estou tentando transmitir o conteúdo de um sonho para vocês –tentativa inútil, porque ao contar o conteúdo do sonho não transmito o conteúdo do sonho, aquele emaranhado de absurdo, surpresa e angústia envoltos num tremor de distorcida revolta, a sensação de estarmos aprisionados pelo inacreditável, que é a verdadeira essência dos sonhos…” E, aprisionados pelo inacreditável, no processo de “ver”, lendo, o pesadelo de Marlow, alguma coisa se desvanece dentro de nós também.

24/10/2010

Da “velha frança” à guerra mundial numa obra-prima do romance

I

Uma das tendências editoriais destes últimos tempos é o relançamento de clássicos em caixas. Assim, o leitor pode se deparar com a nova edição feita pela Globo de Os Thibault, obra-prima de Roger Martin du Gard, escrita entre 1922 e 1940 (e que lhe valeu um merecido Nobel), e ter o mesmo frissom de um apreciador de perfumes: apequena e delicada caixa contendo os cinco volumes quase em formato de bolso até engana quem o vir na rua com ela. Passa por uma embalagem comprada em uma perfumaria. É perfeito para quem não quer ser tomado por um rato de biblioteca, como se dizia antigamente, e que vai ler 2.400 páginas da mais alta ficção.

Todo o encanto consumista que envolve a caixinha se volatiliza quando se descobre dentro dela volumes impressos em reles papel-jornal. Nada diferencia (a não ser o preço, oitenta e cinco pilas!) a edição nova de Os Thibault de qualquer coisa que se pode comprar em bancas. Dificilmente, qualquer um dos volumes sobreviverá a uma leitura. Pior ainda: onde está a cuidadosa revisão que a Globo prometera na sua sedutora caixa de pandora? Vários anacronismos e acentos regionalistas indevidos da tradução de Casemiro Fernandes,que sempre  tornaram penosa a sua leitura (em edições anteriores) foram mantidos, até mesmo o título da primeira parte, O caderno gris, que deveria ter sido mudado para O caderno cinza. Com isso, a tradução (um relançamento importante e bem-vindo: desde 1969, Os Thibault não aparecia integralmente no Brasil; só os dois primeiros volumes tiveram edição mais recente, em 1986) envelhece o texto de Martin du Gard mais do  que o necessário para o nosso leitor. Este já tem de enfrentar a reconstituição de uma mentalidade reacionária, como a do Pai Thibault e a atmosfera em que procura criar seus dois filhos, Antoine e Jacques: é uma França clerical da alta burguesia, em que o catolicismo formalizado em todas as instituições e relações acaba criando um mundo sufocante e repressivo (e sobretudo mesquinho). Tanto que,nos dois primeiros volumes, antes de a trama desembocar na Primeira Guerra Mundial, parece ser necessário matar o pai para que se possa continuar a viver. É isso mesmo: é longa a narração da morte do Pai Thibault e de sua personalidade opressiva. O protestantismo, representado em contraste através da família Fontanin, é visto com muito mais simpatia, principalmente por causa da figura de mme. De Fontanin, mãe de Daniel, primeiro investimento amoroso de Jacques Thibault.

O grande escritor francês desenha as diferentes reações dos irmãos à tirania do pai: a princípio parece que quer nos deixar de má vontade com relação a Antoine, talvez para que possamos conhecer aos poucos esse personagem maravilhoso, cuja vida vai nos envolvendo cada vez mais nas suas microscópicas transformações. É mais fácil simpatizar com o rebelde e inadaptado Jacques, que opta pela fuga, primeiro como adolescente, fugindo com Daniel de Paris para Marselha (após ser recapturado, o pai o aprisiona num instituto correcional, uma espécie de reformatório, criado por ele, onde o filho que pretende “corrigir” manterá relações sexuais com seus “carcereiros”); depois, já um jovem escritor, ele desaparece e vai para a Suíça, onde Antoine termina por “resgatá-lo” com o fito de acompanhar a agonia do pai.

A literatura promove aproximações insólitas: as sanções do pai ao filho nesse livro tão realista e prosaico (no bom sentido da palavra) adquire uma força dramática quase tão poderosa e simbólica quanto a que observamos no universo de Kafka. Aliás, há sempre um fantasma paterno por trás do desenvolvimento dos personagens de Os Tnibault: muitas vezes a volúpia de autoridade e a força vital de Antoine são um decalque da vaidade de seu pai, e Nicole, prima de Daniel, percebe nele (no momento em que ele a assedia, muito tempo depois de sua ligação apaixonada com Jacques e da subseqüente fuga rimbaudiana de casa) a sombra do pai dele, o escuso Jêrome de Fontanin.

O título do livro é ao mesmo tempo literal e simbólico. Nas palavras de Antoine: “É preciso que essa força, encerrada numa raça, finalmente desabroche! É em nós que a árvore Thibault deve desabrochar: o desabrochamento de uma estirpe!” A estirpe Thibault representa o caráter gaulês. No fundo, eles são a França burguesa, que emergiu para o século XX e para as grandes guerras mundiais.

resenha publicada originalmente  em “A Tribuna” de Santos em 08 de outubro de 2002

II

   Em texto anterior, a respeito do relançamento de Os Thibault numa caixa contendo cinco volumes, focalizei basicamente os dois primeiros, que contêm as seis primeiras partes, publicadas entre 1922 e 1929 (O caderno gris; A penitenciária; Primavera; A clínica; Sorellina; A morte do pai—na verdade, alguns desses títulos brasileiros são bem ruins). Elas abordam as reações dos dois protagonistas, os irmãos Antoine e Jacques Thibault, à tirania do pai, encarnação da alta burguesia clerical na França do início do século XX.

Em 1936,Roger Martin du Gard deu maior fôlego e amplitude à sua obra-prima, com Verão de 1914, que ocupa os outros três volumes (há ainda um longo Epílogo, publicado em 1940). É preciso destacar o terceiro volume do conjunto, no qual se processa a transição entre o mundo do pai Thibault, que parecia tão sólido e duradouro, e a convulsão efetivada pela Primeira Guerra Mundial.

Jacques vive em Genebra, após abrir mão da herança paterna. Atua como jornalista e principalmente como agitador socialista, no meio de um grupo de expatriados, cujas discussões e prognósticos conspiratórios a respeito do que as grandes potências farão a partir do atentado em Sarajevo (enquanto estão na expectativa do congresso da Internacional Socialista, marcado para agosto de 1914, em Bruxelas) preenchem um vasto espectro ideológico,  que vai dos anarquistas aos socialistas e militantes comunistas mais radicais.

Uma coisa fica clara: o imperialismo capitalista precisa da guerra e fomenta a sua aparente necessidade e inevitabilidade.

Para alguns leitores, os imensos diálogos podem parecer áridos e as idéias velhas. Com seu poder narrativo, porém, du Gard consegue fazer com que mergulhemos de cabeça na “mentalidade” que precede a guerra, de um modo mais palpável e palpitante do que qualquer livro de história, mesmo um do nível de A era dos extremos, de Hobsbawn. Num momento em aqui no Brasil estamos na expectativa de uma mudança de rumo, e que na base dessa expectativa encontramos velhos argumentos e diatribes ideológicas [1], é fantástico recuar até as raízes de muitas das posturas atuais, de esquerda ou de direita, e verificar que muitos dos clichês repetidos até hoje eram clichês já na época de Jacques Thibault.

Numa das suas “missões”, Jacques volta a Paris, onde reencontra o irmão. E também a família Fontanin—na qual fez seus mais importantes investimentos erótico-afetivos— que está à procura de Antoine, em razão da tentativa de suicido de Jêrome de Fontanin.

Antoine, ao contrário do irmão mais novo, tomou posse de sua parte na herança, utilizando-a numa guinada ambiciosa de sua carreira. Na verdade, transformou-se num grande burguês, em muitos aspectos parecido com o pai (há um momento em que dá uma risada e se assusta ao constatar que ela é igualzinha á do pai, a quem tanto ridicularizara). Jacques fica chocado com sua alienação com relação à ameaça de guerra. Essa opção por uma existência “monadista”, indiferente aos destinos gerais, como se estivesse isento do que acontece no resto do mundo, já distanciava Antoine da libertária Rachel, seu primeiro grande envolvimento amoroso (agora tem uma ligação com a mulher de um amigo, Anne). Antoine já percebia as “cadeias” que o ligavam ao mundo burguês, da “honesta França”: “mas não desejava nem por um momento rompê-las; e experimentava, contra tudo o que Rachel amava e lhe era tão estranho, a aversão de um animal doméstico contra tudo o que ronda e ameaça a segurança da casa”.

resenha publicada originalmente  em “A Tribuna” de Santos em 15 de outubro de 2002

III

Como se sabe o, romance (dividido em oito partes) Os Thibault,  de Roger Martin du Gard, um dos mais influentes do século passado, foi relançado numa caixa contendo-as em cinco volumes. Faltava ainda um comentário sobre os dois volumes finais[2].

O quarto e o início do quinto dão seguimento à sétima parte, O verão de 1914. Jacques, um dos irmãos Thibault, é quem domina a cena. Ele vê pouco a pouco a opinião pública sendo compelida a resignar-se (e até a rejubilar-se) com a perspectiva da guerra iminente e percebe que nem os círculos socialistas são capazes de resistir á sedução dos apelos patrioteiros e chauvinistas. Mesmo o seu irmão, Antoine, e o seu amigo de infância, Daniel de Fontanin, engajam-se na mobilização geral. Nenhum romance mostrou tão bem o que é um país preparar-se para entrar em guerra.

Jacques está decidido a tentar de tudo para evitá-la e a não lutar nela. Nessa roda-viva, ainda encontra tempo de efetivar sua ligação com Jenny, irmã de Daniel (dessa ligação nascerá um menino que mais tarde simbolizará para Antoine, o tio, a “humanidade futura”). Quando finalmente o conflito começa, Jacques resolve abandonar Jenny e realiza um ato de sacrifício, tentando sobrevoar as trincheiras num aeroplano para espalhar panfletos pacifistas. O avião cai e ele fica gravemente ferido. É tido como espião pelos soldados franceses, que o arrastam numa padiola durante uma retirada, até que ele se torna um tal estorvo, que se é obrigado a abatê-lo. Esse terrível final de Verão de 1914 é um momento antológico da ficção.

Por algum tempo, pensou-se que era também o desfecho de Os Thibault. Tanto que Martin du Gard ganhou o Nobel no ano seguinte (1937) à sua publicação, um dos raros casos em que um autor o ganhou na plenitude de sua vida criativa. Sob essa perspectiva, Jacques aparecia como o grande personagem da obra, uma vez que a figura do  outro irmão não sofrera maior evolução . Para o grande crítico húngaro Georg Lukács, por exemplo, o centro de irradiação do ciclo é “o encontro decisivo de Jacques Thibault com o socialismo”. Será mesmo?

Lançado em 1940, já em plena Segunda Grande Guerra, Epílogo muda tudo. Em 1918, Antoine está condenado à morte devido aos gases utilizados na guerra que está por terminar. Ele enfrenta a realidade de sua extinção pessoal próxima num sanatório (após uma rápida visita a Paris, quando ficamos sabendo mais ou menos do destino das outras personagens importantes de Os Thibault).

Muita gente considera esse epílogo um mero prolongamento de uma obra que já dissera o que tinha a dizer. Não concordo: tanto a figura de Antoine quanto essa seção final são marcantes demais para serem consideradas “mero prolongamento”. Pelo contrário, levam o livro a dimensões insuspeitadas. Um traço da alta ficção do século XX é o enciclopedismo, o passeio por discussões e áreas que ampliam sobremaneira o enredo e a linguagem. No diário que Antoine escreve antes de sua morte, o leitor vai sendo alçado a esse clima enciclopédico (que domina também romances como A montanha mágica, de Thomas Mann, ou Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust). É o destino de um personagem, mas também é o destino da civilização que está em pauta, além de toda uma gama de conhecimentos (filosofia, política, história, medicina, biologia, etc).

Além disso, para quem acha, como eu, que Albert Camus foi o grande escritor francês do século XX (junto com Proust)—e ele, aliás, escreveu um belo ensaio sobre Roger Martin du Gard—, é impressionante constatar como Antoine é um herói camusiano avant La lettre: “Recuso-me por instinto às ilusões metafísicas. Jamais o nada teve para mim tanta evidência. Dele me aproximo com horror, com uma revolta do instinto, mas nenhuma tentação de negá-lo, de procurar refúgio em absurdas esperanças.”

Resenha publicada em “A Tribuna” de Santos em 29 de outubro de 2002


[1] No mês em que escrevi este artigo, LLula ganhou a eleição para o seu primeiro mandato, e foi aquela coisa da esperança vencer o medo, devido ao clima de terror que o PSDB procurou disseminar.

[2] Eu interrompera  a série de resenhas na semana anterior, para comentar Uma vida em segredo, de Autran Dourado, em função da exibição em Santos da versão cinematográfica de Susana Amaral.

21/10/2010

HUIS CLOS: a condição humana em cena

 

I

( resenha publicada em 07 de maio de 2005)

Com relação a Jean-Paul Sartre, num certo sentido o maior escritor do século XX, pode-se em 2005 escolher entre duas datas-marcos: o centenário do seu nascimento ou o primeiro quarto de século da sua morte. Em meio aos muitos textos que ele nos deixou, em diversas áreas e gêneros (filosofia, ficção, teatro, cinema, crítica, teoria literária, política, memórias) três são particularmente famosos, formando a famosa trinca “existencialista”: na ficção, A náusea (1938); na filosofia, O ser e o nada (1943); no teatro, Huis clos-Entre quatro paredes (encenada pela primeira vez em 1944), que acabou de receber nova edição pela Civilização Brasileira (em tradução de Alcíone Araújo & Pedro Hussak).Entre quatro paredes é ambientada no inferno. O cenário é um falso e cafona salão estilo Segundo Império. Nele, terão de conviver os três protagonistas, cada um deles desconhecido para os outros (a palavra outro é essencial aqui): o jornalista Garcín, a funcionária pública Inês e a burguesa Estelle (seus crimes, respectivamente: deserção, crime passional, infanticídio).

Sartre foi genial ao imaginar dessa forma o inferno porque a danação é a convivência perpétua. Se estamos no inferno ninguém pode alegar que é inocente, portanto as máscaras que usamos na vida social são inúteis. Poderemos até tentar mantê-las, só que ninguém nos levará a sério. Estamos no inferno, a situação já é o próprio currículo de cada um.

Assim, conviver cada hora, eternamente, com pessoas em cujo olhar lemos um julgamento, torna-se a condenação extrema. Porque o ser humano sempre julga o próximo, qualquer que seja sua escala de valores, e o inferno é ser julgado pelo olhar e pela existência do outro, ad infinitum.

E é isso que o ato único de Entre quatro paredes proporciona: através da guerra de nervos que se estabelece a partir do momento em que Inês se interessa por Estelle, tentando conseguir uma companheira em sua danação, e no entanto Estelle insiste em seduzir Garcín, o qual está comprometido em resgatar sua imagem diante dessas duas mulheres (ah, a necessidade de heroísmo do homem) indiferentes ao seu dilema.

Entre quatro paredes é um daqueles textos despojados, incisivos, em que parece que tudo foi dito de uma vez por todas.

 

II

(resenha publicada em 14 de maio de 2005)

Entre quatro paredes é a peça mais famosa de Jean-Paul Sartre (1905-1980). Ele escrevera antes, para o teatro, além de uma experiência amadora num campo de prisioneiros, apenas As moscas, baseando-se na tragédia de Orestes e Electra, para driblar a censura da Ocupação nazista na França, e incitar o público à resistência (“Eis o que me parece a primeira coisa a ser feita, tentar aos poucos convencer a maioria das pessoas a participar, e assim organizar um movimento capaz de enxotar os alemães/’),

Portanto, desde o início o teatro sartriano inscreve-se sob o signo da política, propondo no palco situações nas quais a liberdade individual é colocada em xeque em relação ao engajamento.

Seus protagonistas sempre tentam inutilmente manter-se “donos” dos seus atos, os quais escapam a eles. É o caso do grupo de resistentes torturados em Mortos sem sepultura (talvez a mais poderosa de todas as obras teatrais que ele escreveu), de 1946, ou de Hugo, assassino relutante de As mãos sujas, de 1948. Esta última é marcada por uma tal complexidade de situações, personagens e dilemas éticos (como também acontece em O diabo e o bom deus e Os seqüestrados de Altona,para citar outras duas peças célebres de Sartre), que parece estarmos lendo um grande romance, mal dá para imaginar como fica no palco.

Dá para ver, então, que o dilema de Garcín, um dos protagonistas da límpida Huis clos é essencial para o grande escritor francês, já que ele o amplificou de tal forma. Garcín está comprometido com a idéia de se redimir diante dos olhos de suas companheiras de inferno da condição de covarde, de desertor. Quer resgatar sua vida de um ato que a rouba dele (assim como ter matado Hoederer por ciúme—ao surpreendê-lo beijando sua esposa—rouba o significado político do crime de Hugo, em As mãos sujas).

Inês espicaça Garcín, despeitada por ser rejeitada por Estelle, que tenta seduzi-lo a todo custo. Mas é Estelle quem diz a frase fatal: “Ainda que você fosse um covarde, eu ia gostar de você, Não é o bastante?” (é preciso lembrar que a primeira montagem ocorreu numa Paris ainda ocupada).

A angústia da inautenticidade , de ter de pagar o preço de ser julgado pela eternidade, nas palavras do próprio Garcín: “Eu não estava nem aí pro dinheiro, pro amor. Eu queria ser um homem. Um durão. Apostei tudo num só cavalo. Será que é possível ser um covarde se a gente escolheu os caminhos mais perigosos? Será que se pode julgar uma vida inteira por um único ato?”

Lembrado por Inês—pior que um carrasco—do princípio da realidade (“Prova que aquilo não era um sonho. Somente os atos decidem a respeito do que a gente quis”), ele tem a fala mais patética da peça: “Eu morri cedo demais. Não me deram tempo para executar os meus atos”. E Inês dá a chave da condição humana: “A gente sempre morre cedo demais—ou tarde demais; E, no entanto, a vida está lá, terminada, a linha está traçada, agora é fazer a soma. Você não tem nada além da sua vida”.

As peças de Sartre eram muito apreciadas na época da ditadura militar. Parecia que tinham ficado “datadas”. Agora que a Esquerda atingiu o poder e que o velho dilema das “mãos sujas” volta à tona, elas se revelam mais atuais e vivas do que nunca. È sempre assim com as obras maiores.

 

A luz e a sombra de Sartre

(resenha publicada em 18 de junho de 2005)

    Para comentar o centenário do nascimento de Jean-Paul Sartre (que ocorrerá no dia 21 deste mês) fica-se na dúvida: que obra escolher ? São tantas, e  tantas são apaixonantes, até as obras de filosofia como O ser e o nada… E Sartre ainda continua a ser publicado, diga-se o que se quiser sobre o declínio de sua influência,  os livros mais inesperados ganham contínuas reedições, como Que é a literatura ?  Para homenageá-lo, seria preciso falar de ambos, do teatro, de  A náusea, dos contos de O muro,  da magnífica trilogia, Os caminhos da liberdade, da qual tantos não gostam, de As palavras, de  Questão de método, de textos das  diversas Situações, do belíssimo roteiro-que-não-foi-filmado, Freud, além da alma, do livro sobre Jean Genet, de A esperança agora

    Caminho mais fácil: comentar um livro a respeito dele e que justamente tem a ambição de fazer frente a todas as vertentes sartreanas: O século de Sartre (Nova Fronteira), publicado por Bernard-Henri Lévy na virada do milênio. Lévy vai tão fundo  que acaba por nos dar a impressão de fazer a Sartre o que este fez a Genet e tantos outros, ao estudar suas biografias e obras, precipitando seu eleito “no buraco negro do seu próprio pensamento. É a desventura de Genet, esmagado pela homenagem que ele lhe presta, canibalizado, reduzido a nada e quase parando de escrever, ou seja, de existir, após a publicação de São Genet, esse livro-mausoléu onde le meio que o enterrou vivo… longe de ser um acidente… esse beijo da morte é um dos modos normais de sua relação com os artistas que admira”.

      O nó da questão:  Sartre escreveu São Genet, canibalizou seu objeto de estudo, mas era Sartre, e um escritor muito mais importante do que seu colega. O que era exatamente Bernard-Henri Lévy antes de O século de Sartre ? O mais famoso e vendido dos chamados “novos filósofos” que apareceram na década de 70. Qual foi sua contribuição como pensador? Segundo Michel Winock, no fabuloso O século dos intelectuais,  mereceria um estudo especial a desproporção evidente entre a importância da sua obra e a freqüência com que aparece na tevê  (deve-se lembrar que o próprio Lévy tem um livrinho, Elogio dos intelectuais). No entanto, até que ele revelou certo talento como romancista em O diabo na cabeça e Os últimos dias de Charles Baudelaire.

    Com nó ou sem nó: O século de Sartre é a mais incrível surpresa dos últimos anos. Todos os pontos importantes são esmiuçados, os textos são percorridos com arrepiante minúcia (ainda que a análise peque, às vezes, por uma certa grandiloqüência). Qualquer leitura é sempre redutora, qualquer tipo de  citação poda, mutila, cria um contorno fácil demais ? Nada disso, a sensação é de que o leque Sartre abre-se cada vez, e nunca se esgota. Ele nos resgata a eminência do mais famoso intelectual do século XX, e como ela é constituída por suas próprias qualidades, pelo clima da época e por equívocos, mostra as influências omitidas, tanto literárias (Gide, por exemplo, enquanto ele proclamava Joyce, Kafka e John dos Passos), quanto filosóficas (Bergson, enquanto ele proclamava Husserl e o nazista Heidegger), como ele  pirateava pensamentos e pastichava estilos (moderno, portanto). Acaba com a velha baboseira da filosofia enfraquecer a força do romance sartreano (e finalmente alguém faz justiça a Caminhos da liberdade enquanto obra-prima da ficção), o que não o impede de ser injusto com o teatro praticado por ele (apesar de fazer uma magnífica leitura de Bariona, a primeira peça, ainda amadora). 

    Esmiuça o anti-totalitarismo radical do primeiro Sartre (cujas balizas principais são A náusea e  O ser e o nada, mas também aproveita de forma magistral vários textos  circunstanciais) para contrapô-lo ao segundo Sartre que se colocou a serviço do stalinismo (numa fase em que os intelectuais  já saltavam fora do barco) e, posteriormente, do maoísmo, e que passará a renegar sua obra até chegar ao ponto de condenar radicalmente o ato de escrever como uma doença adquirida na infância, uma quimera que destruiu sua vida, por influência do avô, em As palavras. Tudo pela causa do povo, de uma humanidade futura, ele, que afirmara que  “a existência precede a essência”  e que, por isso, jamais poderia acreditar numa abstração desse tipo.

    Nesses descaminhos da liberdade, a última surpresa do velho pensador, já cego, meio que desacreditado até por sua  “família”, ou seja, o grupo de amigos-discípulos liderados por Simone de Beauvoir (e Lévy nos faz repensar o até agora insuspeito relato do “declínio” de Sartre em Cerimônia do Adeus): sob a influência de um homônimo do autor de O século de Sartre, o ex-maoísta radical, o judeu-egípcio Benny Lévy (conhecido como Pierre Victor), a inclinação para o pensamento judaico. Mas a morte chegou antes de se verificar a extensão da nova mudança de rota, aquela anunciada de modo tão simples e comovente quando Benny Lévy pergunta: “Recomeça-se tudo? Recomeça-se aos 75 anos?” “É claro”.

19/10/2010

A atualidade do anacrônico Anatole France

“Não restam muitos republicanos na França. A república não os formou. É o governo absolutista que cria republicanos. Os ferros da realeza ou do cesarismo aguçam o amor à liberdade, mas este se embota num país livre,  ou que se julga livre.  É raro amar-se o que se tem. Ademais, a realidade não costuma inspirar muito amor.  É preciso ter sabedoria para lhe dar valor…”

        Monsieur Bergeret em Paris (que está sendo reeditado este ano pela Bestbolso, utilizando a tradução de João Guilherme Linke) é o último volume da série História Contemporânea (1897-1901), na qual Anatole France (1844-1924( faz um painel da Terceira República e do impacto do Caso Dreyfus (o oficial do exército judeu acusado de traição, através de provas forjadas, degradado e degredado para a Ilha do Diabo): por causa das posições pró e contra a revisão do processo, a sociedade francesa fin-de-siècle literalmente rachou, gerando reações fascistas, antissemitas, dando fôlego ao clero (que havia perdido espaço na nova e secular configuração política), aos monarquistas, aos ressentidos de todos os matizes, e também criando duas categorias a partir de termos recém-cunhados: os intelectuais, progressistas, universalistas, e, portanto, “desenraízados”, não-verdadeiros franceses, e os nacionalistas, que, à falta de uma raça, propugnavam um fanatismo em torno da pátria, contra todos os seus elementos alienígenas: os protestantes, os judeus, os maçons: “Depois do Affaire, uma nova ordem se estabelecera na alta sociedade francesa”

       O fio da meada da tetralogia é a figura de Lucien Bergeret: nos três primeiros volumes (À sombra do olmo, O manequim de vime, O anel de ametista), ele é um obscuro professor de literatura latina, filólogo de província, já na meia-idade, desprezado e traído pela mulher, e visto com desconfiança e má vontade pelos seus concidadãos, por expressar juízos e opiniões que contrariavam o senso comum (“exercitava-se discretamente em desagradar”). Mesmo quando apanha em flagrante a esposa com um de seus alunos, ela é quem conquista a simpatia da cidade. Bergeret não faz drama, não parte para o confronto, simplesmente passa a ignorar a existência da cônjuge, não lhe dirigindo a palavra. Nesse meio tempo, a trama principal dos primeiros volumes é a rivalidade entre dois abades, ambos candidatos a um bispado que vaga na região: um deles, fanático e extremado, é tão isolado quanto o protagonista (aos dois agrada manter colóquios polêmicos à sombra dos olmos de uma alameda, como os únicos do lugar “que se interessavam por idéias gerais”); o outro, untuoso e político, reprime seus verdadeiros objetivos para conseguir o “anel de ametista” (comumente utilizado por bispos). Em torno das candidaturas, as intrigas locais, envolvendo diversos estratos sociais e até um assassinato, na casa ao lado da livraria freqüentada por Bergeret, onde sempre lê a mesma página do mesmo livro, como a simbolizar o irrisório da sua existência, a mediocridade geral.

     E, de repente, sua esposa desiste e vai embora, e ele é nomeado para a Sorbonne. Em Paris, então, está no auge a convulsão causada pelo caso Dreyfus, e nosso herói se destaca como um dos mais ardentes dreyfusards. Os personagens dos livros anteriores se reagrupam e tentam, uns, subverter a Terceira República, na tentativa de restaurar o trono para o Duque de Orleans,enquanto outros (às vezes os mesmos), professam a realpolitik: é necessário acomodar-se ao status quo e aproveitar-se dele.

     Anatole France era o escritor da moda dessa época (a virada do século). Durante muito tempo foi considerado obsoleto, ultrapassado, ridicularizado na sua mistura de “ironia e piedade” , que fundamenta uma das observações de M. Bergeret: “Há que se resignar à mediocridade da vida”(sou grato à leitura de Rumo à estação Finlândia, de Edmund Wilson, que me fez descobrir História Contemporânea, o que me levou a ler depois Os deuses têm sede, A rebelião dos anjos  & A ilha dos pingüins, e aí então realmente saber que nada havia de anacrônico e obsoleto em France, a não ser  que fosse o seu amor francês pela “clareza da forma” e a sua falta de vigor narrativo, a qual, de fato, atualmente, parece up to date,  na pós-modernidade). Há quem diga que há traços dele em Machado de Assis (principalmente negativos). De fato, há certas afinidades, mas eu acho que ele, com seu poderoso veio caricatural e sarcástico, está mais próximo de Lima Barreto (e é óbvio que M.J. Gonzaga de Sá deve muito à figura de Bergeret). Os dois compartilham até do mesmo defeito (à exceção de Triste fim de Policarpo Quaresma, todos os romances de Barreto são assim também, principalmente Numa e a ninfa): os quadros, isolados, são muito vivos e perspicazes, porém falta um  dinamismo de conjunto, falta fechar os diversos episódios num todo mais harmonioso. Além disso, o discursivo extrapola, e temos muitas vezes mais preleções e exposição de idéias do que diálogos e enredo.

    Ainda assim, como acontece com o autor de Clara dos Anjos, o saldo é bastante positivo: ainda hoje são muito modernas (aliás, estão na pauta do dia) e úteis as discussões sobre o futuro da democracia, sobre o papel dos partidos no governo, sobre a corrupção, e sobre a interferência da religião em assuntos do estado e em eleições.

(resenha publicada de forma mais condensada em “A Tribuna” de Santos, em 19 de outubro de 2010)

Monsieur Bergeret na província

PARA CONHECER MELHOR MONSIEUR BERGERET

Trechos de À sombra do olmo (“L´orme du mail”, 1897)

Tradução de João Guilherme Linke

    “… monsieur Bergeret não era avesso a estudar a alma de um padre inteligente. Sabiam ambos que suas conversas um banco do passeio desagradavam igualmente ao deão da faculdade e ao arcebispo. Mas o abade Lantaigne ignorava a prudência. Humana, e monsieur Bergeret, muito cansado, desalentado, desgostoso, dispensava-se de guardar  inúteis deferências.

      Irreligioso com decência e bom gosto, as devoções freqüentes de sua esposa e os intermináveis catecismos das filhas levaram-no a ser acusado de clericalismo nos gabinetes do Ministério, enquanto certos conceitos que lhe eram atribuídos eram usados  contra ele pelos católicos de sentimento e pelos patriotas de profissão. Frustrado em suas ambições,  procurava ao menos viver a seu modo, e, não tendo sabido agradar, exercitava-se discretamente em desagradar.”

 

“…só eles na cidade se interessavam  por idéias gerais. Era esse traço comum que os unia. Filosofando sob os quincôncios quando fazia bom tempo, eles se consolavam, um, das tristezas do celibato; o outro, dos percalços da família; e ambos, de suas contrariedades profissionais e da sua igual impopularidade.”

 

“Sentado à sombra na ponta de um banco banhado de sol, monsieur Bergeret esquecia, sob as árvores clássicas, na solitude acolhedora, a esposa, as duas filhas, sua vida estreita na sua casa estreita; gozava, como Esopo, a liberdade  do espírito, e deixava errar sua imaginação crítica a esmo, entre os vivos e os mortos.”

 

“Monsieur Bergeret ficou só, no meio do banco  agora quase todo coberto pela sombra… Não era feliz. Tinha um espírito requintado, cujas arestas não eram totalmente aparadas pelo exterior,e não poucas vezes feria-se a si mesmo nos aguilhões da própria crítica. Anêmico e bilioso,tinha um estômago extremamente delicado e sentidos debilitados, que lhe proporcionavam mais sofrimentos e desgostos que prazeres e contentamento. Era imprudente com as palavras e de uma falta de tato que, pela precisão e segurança, igualava a mais cultivada habilidade. Tinha o talento sutil de não perder nenhuma ocasião de se prejudicar. Inspirava uma aversão natural ao comum dos homens, e sofria com isso, sociável que era e propenso a comunicar-se com seus semelhantes. Jamais conseguira formar discípulos, e dava seu curso de literatura latina em um porão sombrio, úmido e abandonado, para onde o banira a acirrada hostilidade do deão.”

 

“Monsieur Bergeret era um dos três acadêmicos da casa Paillot, e o mais assíduo conversador do canto dos alfarrábios.Folheava com mão amiga as obras antigas e novas, e ainda que jamais comprasse um livro, por medo de apanhar da esposa, recebia a melhor acolhida de Paillot, que o tinha em alta estima como repositório e alambique da ciência e das belas letras de que vivem e lucram os livreiros.

   O canto dos alfarrábios era o único lugar da cidade onde monsieur Bergeret podia deixar-se ficar com pleno contentamento, pois em casa madame Bergeret o acossava por toda parte e por diversas razões de economia doméstica; na faculdade, o deão, por birra, obrigava-o a dar suas aulas num porão escuro e insalubre, para onde poucos alunos desciam; e nas três sociedades da cidade torciam-lhe o nariz por ter chamado Joana d´Arc de mascote militar.

    Então monsieur Bergeret se refugiava no canto dos alfarrábios.

 

“… pegando de sobre a mesa o tomo 38 da História Geral das Viagens… o docente mergulhou o nariz no livro, entre as páginas 212 e 213 que, havia seis anos, cada vez que ele abria o inevitável alfarrábio, lhe apareciam fatalmente à exclusão de qualquer outra página, como um exemplo da monotonia em que se escoa a vida, como um símbolo da uniformidade dos trabalhos e dos dias universitários e provincianos que precedem o dia da morte e a fermentação do corpo no esquife.  E mais uma vez, como já fizera tantas outras, monsieur Bergeret leu no tomo 38 da História Geral das Viagens as primeiras linhas da página 212:

…uma passagem ao norte. ´A este revés´, diz ele, ´devemos o fato de ter podido visitar de novo as ilhas Sandwich e enriquecer nossa viagem com uma descoberta que, embora a última, parece ser, sob muitos aspectos, a mais importante jamais realizada pelos europeus em toda a extensão do oceano Pacífico´. Os preciosos dados que estas palavras pareciam anunciar infelizmente não se consubstanciaram.”

   E, dessa vez, como das outras, a leitura dessas linhas encheu monsieur Bergeret de tristeza.”

 

“Monsieur de Terramondre, que, presidente de várias academias locais, alimentava preconceitos acadêmicos [acusou] Zola de ter ignominiosamente caluniado os camponeses em La Terre. A essa acusação, monsieur Bergeret saiu de sua tristeza absorta e disse:

__ Atente que os camponeses são dados ao incesto, à embriaguez e ao parricídio, como mostrou Zola. A resistência deles em prestar-se a exames clínicos de modo algum é prova de sua candura. Revela simplesmente a força do preconceito entre seres limitados. Os preconceitos são tanto mais fortes quanto mais simples. O preconceito de que é indecoroso mostrar-se nu permanece poderoso neles. Atenua-se nas pessoas inteligentes e educadas pelo hábito do banho, das duchas e das massagens; também pelo senso estético e pelo gosto das sensações voluptuosas, e cede facilmente a considerações de higiene e de saúde.”

 

“Senhor abade,o senhor vem de resumir com eloqüência que só sairia dos seus lábios as características do regime democrático[1]…E no entanto é ainda o regime que eu prefiro. Nele, todos os laços se afrouxam, o que enfraquece o Estado, mas ele desoprime o indivíduo, proporciona certa facilidade de viver e uma liberdade lamentavelmente destruída pelas tiranias locais. A corrupção, sem dúvida, parece ser maior do que nas monarquias. Isso se deve ao número e à diversidade das pessoas que são levadas ao poder. Mas essa corrupção seria menos patente se o segredo fosse mais bem guardado. A ausência de sigilo e a falta de continuidade tornam qualquer empreendimento impossível à república democrática. Mas, já que os empreendimentos das monarquias, o mais das vezes, têm arruinado os povos, não me aborrece muito viver sob um governo incapaz de desígnios grandiosos (…)  Mas, para dizer a verdade,não dou muita importância à forma do Estado. As mudanças de regime em quase nada alteram a condição dos indivíduos. Nós não dependemos de constituições nem de cartas, mas de instintos e de costumes. De nada serve mudar o nome das necessidades públicas. Só os imbecis e os ambiciosos fazem as revoluções.”

 

“… todas as ações humanas são movidas pela fome ou pelo amor. A fome induziu os bárbaros à matança, impeliu-os às guerras e às invasões. Os povos civilizados são como os cães de caça. Um instinto corrupto os incita a destruir sem proveito nem razão.  O despropósito das guerras modernas chama-se interesse dinástico,  nacionalidade, equilíbrio europeu, honra. Esse último motivo é, talvez, de todos, o mais extravagante, pois não há um povo no mundo que não seja contaminado por todos os crimes e coberto de todas as vergonhas. Não há um só que não haja sofrido todas as humilhações que a fortuna possa infligir a uma miserável manada de criaturas.  Se apesar de tudo subiste alguma honra entre os povos, um estranho meio de defendê-la é fazer a guerra, ou seja, cometer todos os crimes pelos quais um indivíduo se degrada: incêndio, rapina, estupro, morte. E quando às ações movidas pelo amor, essas são, na maior parte, tão violentas, tão furiosas, tão cruéis quanto as ações inspiradas pela fome,o que leva a concluir que o homem é uma besta malfazeja. Resta, no entanto, indagar por que eu me dou conta disso, por que motivo isso me causa horror e indignação. Se não existisse outra coisa além do mal, ele não seria percebido, como a noite não teria nome se o sol jamais se levantasse.”

 

“Monsieur Cassignol calou-se, fitou longamente o castão da bengala com suas pupilas baças e desbotadas, depois pronunciou estas palavras:

__Durante minha longa carreira de magistrado, jamais tive conhecimento de um erro judiciário.

__ Eis aí uma declaração tranqüilizadora—disse monsieur de Terramondre.

__ E que a mim me gela de pavor—murmurou monsieur Bergeret.”


[1] Monsenhor Lantaigne perorara o seguinte : “Mesmo que ela respeitasse a religião e os seus ministros, ainda assim eu detestaria a república… Porque ela é a diversidade. Nisto, sim, ela é essencialmente má… Estamos em Babel…. A diversidade é abominável, o caráter do mal é ser diverso. Esse caráter é manifesto no governo da República que, mais do que qualquer outro, se afasta da unidade. Faltam-lhe, na ausência da unidade, a independência, a estabilidade e a autoridade…. Ainda que, por mal de nossos pecados, ele dure, não possui a permanência. Pois a idéia de permanência implica a de identidade, e a República não é um só dia o que foi na véspera. Sua própria torpeza e seus vícios não são propriedade sua. E o senhor viu que ela não foi desonrada por eles. Vergonhas e escândalos que teriam arruinado o mais poderoso império a recobriram sem deixar-lhe arranhões. Ela não é a descontinuidade, ela é a diversidade, ela é o mal (…)  o povo descambou na República; o que quer dizer que repudiou sua herança, que renunciou aos seus direitos e aos seus deveres, para governar-se á sua revelia e viver a seu  bel-prazer nessa liberdade que Deus reprime e que subverte Suas imagens temporais: a ordem e a lei. Desde então, o mal reinou e publicou seus editos. A igreja,exposta a incessantes vexames, foi colocada com perfídia entre uma abdicação impossível e uma revolta culpável.”

13/10/2010

A LAMA DA ESTRADA E O ESPELHO DO VIAJANTE

(resenha publicada em 27 de janeiro de 2004)

       Quem já leu O VERMELHO E O NEGRO [“Le rouge et le noir”], Lucien Lewen & A cartuxa de Parma sabe que Stendhal (1783-1842) é o máximo. Em qualquer lista dos maiores romances do século XIX,  um dos três poderia entrar nos primeiros lugares, ao lado de Guerra e Paz (Tolstoi), Madame Bovary (Flaubert), Os irmãos Karamazov (Dostoievski), Middlemarch (George Eliot) e Moby Dick (Melville).

      A Cartuxa de Parma tem um enredo extraordinário (e as intrigas do principado de Parma absorvem até bem mais do que as reviravoltas do destino do herói, Fabrício del Dongo; quem poderá esquecer Sanseverina e Mosca?). Sobre os outros dois, bastaria lembrar as palavras de Doris Lessing: “ler O Vermelho e o Negro e Lucien Lewen é compreender que parecia que a França estava todinha neles retratada”.

     Ambos têm o mesmo movimento narrativo, primeiro na província e depois em Paris. Ambos mostram o período pós-napoleônico, dominado pela mediocridade, no qual o Deus-Orçamento (e as vantagens que se pode tirar dele) corrompe toda a sociedade. O que os diferencia é a origem social dos protagonistas: Lucien é o rico herdeiro de um banqueiro; Julien Sorel é o filho de um camponês dono de serraria (portanto, da ralé plebéia).

      Outra diferença: Lucien Lewen ficou inacabado (inclusive devido à sua ousadia política), embora isso não faça diferença na leitura; O VERMELHO E O NEGRO é mais perfeito, ainda que não necessariamente melhor. O leitor brasileiro atual pode conferir essa perfeição porque há uma nova tradução (realizada por Raquel Prado) lançado pela CosacNaify.

       Julien é um provinciano que idolatra Napoleão e que se torna um hipócrita recitador de latim para ingressar na carreira religiosa, única maneira de ascender na sociedade quando o exército já não é opção. Contratado como preceptor pelo burgomestre da sua cidadezinha, torna-se amante da dona da casa, Mme. De Renal.

     Antes de Proust, Stendhal já era um psicólogo insuperável ao decompor quase que quimicamente as diversas fases do sentimento amoroso e suas contradições (a vaidade, a necessidade de seguir convenções etc). E antes de Machado de Assis, ele já conversava com o leitor e quebrava a ilusão romanesca: “Confesso que a fraqueza demonstrada por Julien nesse monólogo inspira-me uma lastimável opinião a seu respeito”.

      Enviado para um seminário, ele consegue se distinguir e o diretor o recomenda como secretário do marquês de La Mole, em Paris. E lá ele inevitavelmente envolve-se com a filha do marquês, Mathilde, uma espécie de histérica que o ama quando ele a despreza e o rejeita quando ele se mostra apaixonado.

     Tudo daria certo para Julien: ele casaria com Mathilde (que engravidou) e ganharia um título de nobreza apócrifo (por influência do marquês, que gosta muito dele, embora relute em permitir o casamento). Só que chega uma carta de mme. De Renal e a hipocrisia de Julien perde terreno para seu temperamento fundamentalmente passional: ele volta à sua cidade natal e comete um crime (falhado, diga-se de passagem). O que nos levará a uma das frases mais memoráveis e descabeladas da ficção francesa: “Nunca esta cabeça fora tão poética quanto no momento em que ia rolar”.

      E em meio a tudo isso, a sociedade francesa da época encontra-se admiravelmente retratada, fazendo o leitor do século XXI interessar-se pelas questiúnculas políticas e quotidianas de 1830, que, longe de empoeiradas, parecem mais vivas que nunca sob a ótica stendhaliana, contrariando até o dito do próprio autor de que a política em literatura é como um tiro num concerto (imagem que ele repete tanto em O VERMELHO E O NEGRO quanto em A cartuxa de Parma), isto é, uma intromissão desagradável: “Pois bem, senhor, um romance é um espelho que se carrega ao longo da estrada. Tanto pode refletir para os seus olhos o azul do céu como a imundície do lamaçal da estrada. Por acaso o homem que carrega o espelho em sua sacola pode ser acusado de imoral? Seu espelho mostra a sujeira e o senhor acusa o espelho? O senhor deveria acusar o longo caminho onde se forma o lamaçal e, sobretudo, o inspetor das estradas que deixa a água apodrecer e o lodo se acumular”.

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